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MARTINHO LUTERO
Obras Selecionadas
Volume 12
Interpretação do Antigo Testamento
Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis
Martinho Lutero
Obras Selecionadas
Volume 12
Interpretação do Antigo Testamento
Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis
Comissão Interluterana de Literatura
São Leopoldo
2014
© Comissão Interluterana de Literatura, formada pela Igreja Evangélica de Confissão
Luterana no Brasil e pela Igreja Evangélica Luterana do Brasil:
Caixa Postal 11
93001-970 São Leopoldo/RS – Tel. (51) 3037-2366
www.lutero.com.br – cil@lutero.com.br
Publicado no Brasil por:
EDITORA SINODAL
Caixa Postal 11
93001-970 São Leopoldo/RS
www.editorasinodal.com.br
editora@editorasinodal.com.br
EDITORA CONCÓRDIA
Avenida São Pedro, 633
90230-120 Porto Alegre/RS
www.editoraconcordia.com.br
editora@editoraconcordia.com.br
EDITORA DA ULBRA
Rua Miguel Tostes, 101 – Bairro São Luís
92420-280 Canoas/RS
www.editoradaulbra.com.br
editora@ulbra.br
Comissão Interluterana de Literatura: Arnildo A. Figur, Carmen M. Siegle, Eric P. Nelson,
João A. M. da Silva, Nilo Wachholz, Rony R. Marquardt
Comissão Editorial “Obras de Lutero”: Albérico E. G. F. Baeske, Claus Schwambach,
Clóvis J. Prunzel, Mário F. Tessmann, Nestor L. J. Beck, Osmar L. Witt, Paulo W. Buss,
Ricardo W. Rieth, Wilhelm Wachholz
Tradutor: Geraldo Korndörfer
Revisores: Darci Drehmer, Irene Arend, Yedo Brandenburg
Editor: Yedo Brandenburg
L973o Lutero, Martinho
http://www.lutero.com.br/
mailto:cil@lutero.com.br
http://www.editorasinodal.com.br/
mailto:editora@editorasinodal.com.br
http://www.editoraconcordia.com.br/
http://editora@editoraconcordia.com.br/
http://www.editoradaulbra.com.br/
mailto:editora@ulbra.br
Obras Selecionadas / Martinho Lutero. Volume 12 – Interpretação do Antigo
Testamento – Textos Selecionados da Preleção sobre Gênesis – Tradução de
Geraldo Korndörfer. – São Leopoldo : Sinodal ; Porto Alegre : Concórdia ;
Canoas : Ulbra, 2014.
544p. ePUB.
Série Martinho Lutero – Obras Selecionadas
ISBN Volume 978-85-8194-122-6
1. Luteranismo. 2. Bíblia. 3. Antigo Testamento. 4. Gênesis. I. Korndörfer,
Geraldo. II. Título.
CDU 284.1
Catalogação na publicação: Leandro Augusto dos Santos Lima – CRB 10/1273
Sumário
Apresentação
Introdução Geral
Siglas e abreviaturas
Introdução à Preleção sobre Gênesis
Introdução aos textos selecionados
Do doutor Martinho Lutero ao piedoso leitor
Gênesis 1.1-2.25
Gênesis 3
Gênesis 6-9.16
Gênesis 12
Gênesis 18
Gênesis 22
Referências bíblicas
Índice de referência
Apresentação
A Comissão Editorial Obras de Lutero (CEOL), sob a coordenação do
Dr. Ricardo W. Rieth, preparou uma criteriosa seleção de trechos da
Preleção sobre Gênesis, que, agora, está à disposição para leitura, reflexão e
consulta neste volume 12 de “Martinho Lutero – Obras Selecionadas”.
No seu Prefácio ao Antigo Testamento, datado de 1545, Lutero já dizia:
Alguns têm o Antigo Testamento por algo insignificante, que teria sido dado
apenas ao povo judeu e que, agora, estaria ultrapassado, relatando apenas
histórias do passado. Eles pensam ter já o suficiente com o Novo
Testamento e admitem buscar somente um sentido espiritual no Antigo
Testamento… (OSel 8,21,4-8).
Também hoje, muitas pessoas cristãs não sabem bem o que fazer com os
livros bíblicos do Antigo Testamento, achando que eles somente contêm
leis. Devido a isso, dizem que o Antigo Testamento não tem muito valor
para nossa vivência e nosso testemunho hoje. No entanto, quando nos
aproximamos dos livros bíblicos do Antigo Testamento, vamos percebendo
o quanto eles estão recheados da Boa Nova, do Evangelho, da Palavra de
Deus para seu povo espalhado por diferentes contextos no mundo.
Mais adiante, no mesmo prefácio de 1545, Lutero faz um convite aos
leitores do seu tempo e a nós hoje, que recorremos aos seus ensinamentos
sobre textos bíblicos, para que adotemos uma outra atitude perante o Antigo
Testamento. Ele afirma: Por isso deixa de lado tuas fantasias e sentimentos
e considera esta Escritura como o mais elevado e precioso de todos os
santuários, como o mais rico de todos os mananciais de riquezas que
jamais poderá vir a ser suficientemente sondado. Então poderás encontrar
a sabedoria divina, que Deus aqui coloca diante de ti de modo tão simples
e puro para moderar toda altivez. Aqui encontrarás as fraldas e as
manjedouras em que Cristo jaz deitado, lugar que também o anjo indica
aos pastores. As fraldas são simples e ínfimas, mas é precioso o tesouro que
nelas se encontra: Cristo (OSel 8,21,37-22,7).
Assim sendo, proponho aos leitores e às leitoras de “Martinho Lutero –
Obras Selecionadas” que se aproximem deste volume 12 e busquem
aprender com ele e com sua reflexão sobre as diferentes perícopes do livro
de Gênesis. Dr. Clóvis Jair Prunzel, integrante da CEOL, que assina a
introdução geral aos trechos selecionados da Preleção sobre Gênesis, acerta
com muita propriedade o significado desta obra aos estudiosos e às
estudiosas de Lutero: A Preleção sobre Gênesis é uma janela aberta para a
teologia de Lutero produzida na última década de sua vida. A sociedade da
época requeria pastores versados em uma teologia evangélica. Lutero faz
uso da cátedra universitária para desenvolver essa teologia em meio aos
ambientes que assumiam a teologia luterana como base (Cf. p. 17,4-7).
Sim, o volume 12 de “Martinho Lutero – Obras Selecionadas”
apresenta-se a nós como uma janela aberta para a teologia de Lutero, pois
outras janelas para a compreensão da teologia do reformador já foram
abertas com a publicação dos onze volumes anteriores. E assim, de janela
aberta em janela aberta, vamos sendo introduzidos no pensamento, no
testemunho e no legado de Lutero.
A Comissão Interluterana de Literatura (CIL) manifesta seu
reconhecimento e sua gratidão aos irmãos integrantes da Comissão Editorial
Obras de Lutero (CEOL) que prepararam com tanta dedicação e esmero
acadêmico mais este volume de “Martinho Lutero – Obras Selecionadas”.
Com a publicação deste volume 12, a CIL também agradece e
reconhece o trabalho do pastor Darci Drehmer, que, por 16 anos,
desempenhou a função de editor da CIL e foi responsável pela preparação
final e em conjunto com a CEOL deste volume e outros anteriormente
publicados.
A CIL acolhe e dá as boas-vindas ao novo editor, pastor Yedo
Brandenburg, que continua o trabalho do editor anterior no que tange à
publicação deste volume e dos próximos.
Ao publicar este volume 12, oferecemos mais uma janela aberta para
que as pessoas interessadas em aproximar-se de Lutero possam enriquecer-
se com suas reflexões e seus estudos sobre diversas perícopes de Gênesis, e
nelas encontrar a mensagem do Evangelho, da Boa Nova de Deus para nós,
seu povo, sua grande família.
Abençoada leitura!
João Artur Müller da Silva
Pela Comissão Interluterana de Literatura
Introdução Geral
A Preleção sobre Gênesis (1535-1545), trabalho de relevo no período de
maturidade existencial, teológica e docente do reformador, ocupa
integralmente as páginas do presente volume de “Martinho Lutero – Obras
Selecionadas”. Monumental, tanto do ponto de vista do conteúdo, como
também em extensão, seu texto latino abarca quatro tomos na primeira
edição (1544-1554) e preenche três amplos volumes na edição crítica de
Weimar. Aos responsáveis por sua publicação em português não restou
alternativa senão promover uma seleção baseada em diferentes critérios.
Para tal, passagens que trazem aspectos internos e ênfases peculiares do
pensamento do reformador foram privilegiadas, a fim de permitir a
comparação entre o seu teor e o de interpretações presentes em obras de
estágios iniciais ou intermediários de sua carreira teológica, essas
disponíveis em outros volumes desta coleção. Ao lado disso, trechos
considerados referenciais por leitores do livro de Gênesis através dos
tempos, como, por exemplo, as narrativas da criação do mundo e do ser
humano, a queda, a aliança divina com Abraão e momentos marcantes na
trajetória de outros patriarcas, pautaram a seleção final. Docentes e
pesquisadoresespecializados, voltados à disciplina de exegese
veterotestamentária, foram consultores destacados nesse processo de
compilação, aos quais manifestamos gratidão e reconhecimento.
Ao iniciar a exposição sobre Gênesis perante os alunos, Lutero padecia
sob uma condição de saúde bastante precária, que o levava a considerar
remota a possibilidade de vir a completar a ambiciosa tarefa à qual se
propunha. Tal temor não se confirmou, o que permitiu que legasse à
posteridade, para além de um documento no qual se refletem situações
marcantes, problemas e confrontos da fase final de sua trajetória, um
testemunho renovado de dedicação e amor à Escritura Sagrada. A exemplo
do ocorrido em outras ocasiões, Georg Rörer e Caspar Cruciger tomaram
notas da preleção, as quais posteriormente foram extraviadas. Restou tão
somente o produto final de um desenvolvimento redacional dessas notas, já
na forma de comentário em quatro volumes, iniciado por Veit Dietrich e
concluído, após a sua morte em 1549, por Michael Roting e Hieronymus
Besold, esse último inquilino na própria casa de Lutero. Consequência
desse trabalho a várias mãos foram as duplicações, repetições e mesmo
alguns trechos alheios à autoria de Lutero, nos quais esses redatores
deixaram registrados seus próprios pensamentos. Em razão disso, diversos
especialistas na pesquisa sobre a Reforma advertiram quanto ao cuidado
necessário na avaliação do conteúdo da preleção, no sentido de relativizar
passagens destoantes ou incompatíveis com o pensamento de Lutero,
conforme expresso em outros contextos de sua obra literária. Quanto ao
espírito que perpassa o todo, porém, o comentário com sua impressionante
riqueza em detalhamento e profundidade deve, sem dúvida alguma, ter sua
autoria remetida a Lutero. Apesar das alterações posteriores, trata-se
indiscutivelmente de um monumento no conjunto de sua obra, devendo,
portanto, ser reconhecido como fonte preciosa e genuína para o estudo de
seu pensamento.
Na Preleção sobre Gênesis, o centro da teologia reformatória surge com
força, bem como a rejeição à especulação no âmbito da reflexão teológica e
da pregação. Várias passagens trazem a confissão de Lutero a respeito do
Deus criador, com destaque para as ordens estabelecidas mediante o ato
divino criador: matrimônio, família, vocação, governo secular e igreja. Base
importante para a discussão proposta a partir da interpretação bíblica é a
contraposição entre a vida humana no estado original e a vida sob o signo
do pecado original, esse compreendido como condição existencial do ser
humano. As pessoas crentes do Antigo Testamento são integradas à história
da fé cristã e à igreja, a qual tem seus primórdios com Abel. Lutero vê nos
patriarcas antecessores seus e de sua geração. Tal como em quadros de
pintores renascentistas, que retratavam os patriarcas e seu contexto com
trajes e formas do século XVI, Lutero em diversas passagens atualiza a
narrativa bíblica de modo impressionante.
A Preleção sobre Gênesis pode ser lida a partir de múltiplas
perspectivas. Grande proveito, sem dúvida, terá o leitor que acessar seu
texto conferindo atenção à postura teológica fundamental do exegeta bíblico
de Wittenberg. Por todo lado, no livro de Gênesis, Lutero percebe a
sabedoria e o poder do Criador operando sua obra e cobra dos cristãos que,
a cada dia, dirijam seu olhar para o milagre da criação em meio às
circunstâncias corriqueiras e banais da vida, não através de eventos
sobrenaturais, mas com séria consideração perante as leis da natureza
criada, preservada, redimida e santificada pelo Deus Triúno.
O projeto “Martinho Lutero – Obras Selecionadas” acontece sob a
coordenação da Comissão Interluterana de Literatura (CIL), integrada por
representantes da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
(IECLB) e da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), que também
alavancam recursos para o custeio do projeto. Integram a CIL, na condição
de membros titulares: Arnildo A. Figur, Carmen M. Siegle, Eric P. Nelson,
João A. M. da Silva, Nilo Wachholz, Rony R. Marquardt.
O presente volume, assim como os demais desta coleção, foi preparado
pela Comissão Editorial Obras de Lutero (CEOL), com a seguinte
composição: Albérico E. G. F. Baeske, Claus Schwambach, Clóvis J.
Prunzel, Mário F. Tessmann, Nestor L. J. Beck, Osmar L. Witt, Paulo W.
Buss, Ricardo W. Rieth e Wilhelm Wachholz.
As traduções dos textos publicados neste volume foram feitas por
Geraldo Korndörfer a partir do original latino da Edição de Weimar (WA).
Boa parcela dos trabalhos de edição deste volume ainda foi conduzida
pelo então editor da CIL, Darci Drehmer, a quem a CEOL expressa a sua
gratidão pelos muitos anos em que coordenou com dedicação a produção
dos volumes de “Martinho Lutero – Obras Selecionadas”.
Em alguns momentos, no decorrer dos textos publicados nesta edição,
observa-se que houve correções de referências bíblicas. Isso se deve ao fato
de que Lutero, em geral, cita de memória textos bíblicos e, em alguns casos,
é traído pela memória, confundindo as passagens. Devido a isso, a
referência é corrigida por meio de uma observação entre colchetes [sic.]. No
caso das passagens bíblicas citadas por Lutero no decorrer do texto, a
referência encontra-se entre colchetes. A menção dos versículos foi feita
pelo editor, pois na época em que o autor escreveu as suas obras não se
conhecia a divisão em versículos. Quando Lutero apenas faz alusão ao
texto, sem, no entanto, citar explicitamente a passagem correspondente,
essa é mencionada em nota de rodapé.
Entre colchetes encontram-se os números relativos à página do texto
original na WA. Com relação às abreviaturas mais usadas neste volume,
veja a relação de siglas e abreviaturas nas páginas 13-14. Os antropônimos
das figuras históricas são, em geral, grafados de acordo com o Grande
Dicionário da Língua Portuguesa, vol. IV (Histórico), organizado por H.
Maia d’Oliveira. São Paulo, Lisa – Livros Irradiantes, 1970. No caso de
antropônimos não traduzidos por esta obra, conserva-se o nome original.
A publicação deste volume é patrocinada pelas instituições parceiras da
Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), ou seja, a
Evangelisch-Lutherische Kirche in Bayern (ELKB), a Vereinigte
Evangelisch-Lutherische Kirche Deutschlands (VELKD) e o Martin Luther
Verein in Bayern.
O projeto “Martinho Lutero – Obras Selecionadas” conta com a parceria
das Editoras Sinodal, Concórdia e da Ulbra.
Ricardo W. Rieth
Presidente da Comissão Editorial Obras de Lutero
Yedo Brandenburg
Editor da CIL
Siglas e abreviaturas
Almeida – Versão da Bíblia de João Ferreira de Almeida.
Cf. – Confira.
CR – Corpus Reformatorum, C. G. Bretschneider et alii, 28 volumes. CR
6,550 significa Corpus Reformatorum, volume 6, coluna 550.
Eclo – Eclesiástico (livro bíblico apócrifo).
Götze – Alfred GÖTZE, Frühneuhochdeutsches Glossar, Berlin: Walter de
Gruyter e Co., 7. ed. 1967.
Grimm – Deutsches Wörterbuch von Jacob und Wilhelm Grimm, München:
Deutscher Taschenbuch Verlag, 32 volumes, 1854-1971.
LC – Livro de Concórdia, As Confissões da Igreja Evangélica Luterana,
São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 6. ed. 2006.
LW – Luther’s Works (Obras de Lutero), 55 volumes, Saint Louis:
Concordia Publishing House, 1958-1986. LW 25,30 significa: Luther’s
Works, volume 25, página 30.
MSL – Migne, Patrologia, series Latina.
n. – Nota(s).
OSel – Obras Selecionadas de Martinho Lutero, 11 volumes, 1987-2010.
Os números a seguir referem-se ao volume, à página e às linhas,
respectivamente. OSel 5,160,20 significa: Obras Selecionadas volume 5,
página 160, linha 20.
P. ou p. – Página(s).
PEvC – Pelo Evangelho de Cristo, Obras Selecionadas de Momentos
Decisivos da Reforma, Porto Alegre: Concórdia; São Leopoldo: Sinodal,
1984.
Sab – Sabedoria de Salomão (livro bíblico apócrifo).
s. – Seguinte(s)
Sir – Jesus Siraque (livro bíblico apócrifo).
V. ou v. – Veja ou versículo(s).
Vol. – Volume(s)
WA – Weimarer Ausgabe (Edição de Weimar) das obras de Lutero, indicada
nas seguintes modalidades: WA 11,371,5significa: Edição de Weimar,
volume 11, página 371, linha 5; WA 10/III,175,24 significa: Edição de
Weimar, volume 10, terceira parte, página 175, linha 24; WA 55/I/1,25,12-
15 significa volume 55, primeira parte, primeira divisão… WA Br –
(Briefwechsel) cartas. WA Br 8,99,7, nº 3162 significa: WA cartas, volume
8, página 99, linha 7, número 3162; WA DB – (Deutsche Bibel) Bíblia
alemã; WA TR – (Tischreden) conversas à mesa: WA TR 4,230, nº 4334
significa: WA conversas à mesa, volume 4, página 230, número 4334.
Walch – Dr. Martin Luthers sämtliche Schriften (Obras completas do Dr.
Martinho Lutero), editado por Dr. Joh. Georg Walch, 23 volumes, nova
edição revisada, St. Louis: Concordia Publishing House, 1880-1910.
Para a abreviatura dos livros bíblicos, segue-se a nomenclatura de João
Ferreira de Almeida.
Textos Selecionados
da
Preleção sobre Gênesis
Introdução à Preleção sobre Gênesis
Clóvis Jair Prunzel
A Preleção sobre Gênesis é uma janela aberta para a teologia de Lutero
produzida na última década de sua vida. A sociedade da época requeria
pastores versados em uma teologia evangélica. Lutero faz uso da cátedra
universitária para desenvolver essa teologia em meio aos ambientes que
assumiam a teologia luterana como base. Além de ser ativo no âmbito
político e eclesiástico, Lutero assume seu papel formador de professor
universitário ao longo dessa Prelação sobre Gênesis. Portanto, ao lermos o
presente comentário, vamos observar um Lutero promovendo o
engajamento de seus alunos na teologia evangélica por meio de um
processo teológico e intelectual.
O comentário foi publicado em 1544 e abarca três volumes na edição
crítica de Weimar, volumes 42 até 44. O primeiro volume das leituras em
Gênesis foi publicado em 1544 com o título In Primum Librum Mose
Enarrationes e contém um prefácio e pós-escrito do próprio Lutero1.
Nessas Enarrationes, o aspecto oral é altamente preservado na edição
do texto. Lutero interage com o texto bíblico com a clara intenção de
formar a espiritualidade de seus alunos à medida que os ensina a perceber e
a ouvir a Bíblia como Palavra de Deus. Depois, conecta essa Palavra à
ênfase evangélica da santidade e da vida cristã, definida através da ação de
Deus em justificar pecadores e torná-los santos, como se percebe na atuação
de Deus em meio aos patriarcas, a compreensão evangélica de Igreja que
Lutero retira da história de Adão, Abraão, Isaque e Jacó. Por fim, prepara
seus alunos para enfrentar um futuro no qual os ataques de Satanás ao
Evangelho serão constantes, visto que o Evangelho está novamente
tomando forma e se espalhando.
A teologia evangélica destacada por Lutero influenciou de forma rápida
e intensa a sociedade da época. A emergente identidade confessional requer
de Lutero um esforço extraordinário para estabelecer e manter a identidade
evangélica. E isso ele faz através da Preleção sobre Gênesis. A década de
1530 iniciou com a apresentação da teologia praticada em Wittenberg
diante do Império e da Igreja em Augsburgo. A Confissão e sua Apologia,
documentos públicos e oficiais para a teologia de Lutero e de seus colegas,
apresentaram a teologia evangélica que precisava ser solidificada. Diferente
da teologia católico-romana e da teologia entusiasta, a teologia prática em
Wittenberg e arredores está centrada no Evangelho, entendido na sua
revelação em Palavra e Sacramentos.
A teologia luterana estava se afastando cada vez mais da teologia
[tradição] católico-romana. Essa experiência novamente aparece nesse
comentário. A narrativa de Gênesis estabelece para Lutero um
entendimento do Evangelho contrário, especialmente, ao magistério
estruturado na autoridade papal. A forma de fazê-lo transparece ao longo da
preleção quando Lutero ensina seus estudantes a perceber o que o texto
bíblico está descrevendo, de como esse texto envolve a natureza da fé e
vida cristã no mundo. Dessa forma, Lutero conecta a atuação de Deus no
mundo tanto no passado como no presente e no futuro de sua igreja.
Outro questionamento da teologia evangélico-luterana transparece na
crítica ao antinomismo, defendido por colegas de Lutero como João
Agrícola.
A linguagem do texto é a janela para entender teologia. Por isso o texto
de Gênesis, através de suas repetições e longos excursos, é um exercício de
reflexão evangélica sobre a Palavra de Deus, transformando-se num
comentário organizado e preparado para publicação.
O método estenográfico de então não se propunha a uma transcrição
literal do discurso oral, mas privilegiava a elaboração de uma redação
detalhada em correspondência com o sentido das ideias e conceitos
expostos pelo orador. As abreviações de palavras, em geral, eram usadas
para discursos em Latim. Preleções e prédicas em Alemão, em geral, eram
de imediato traduzidas mentalmente pelo estenógrafo para o Latim e
anotadas nesse mesmo idioma.
Para muitos estudiosos de Lutero, essa obra tem um valor secundário,
visto ser fruto de anotações de seus alunos. Muitos sugerem ler essa obra
com outros textos luteranos ao lado, servindo de introdução ao pensamento
de Lutero. Outros já consideram o texto uma fonte indispensável para o
nosso conhecimento da teologia de Lutero.
As dificuldades aparecem na transcrição feita pelo estenografista de
Lutero, Veit Dietrich, e que é usada na edição do comentário.
O questionamento deu-se pelo fato de muitos alunos de Wittenberg,
durante as décadas de 1530 e 1540, sofrerem influências das ideias de
Melanchthon. A disputa contra os antinomistas colocou no centro do debate
Melanchthon e João Agrícola. Lutero e Melanchthon eram contrários à
proposta antinomista de Agrícola. Para eles, a lei precisa ser aplicada tanto
a cristãos como a não cristãos. A dificuldade na Preleção sobre Gênesis
aparece quando os estudiosos comparam as posições nesse comentário com
outros escritos de Lutero da época, que são o comentário a Gálatas2 de
1535 e as teses da Disputa Antinomista3 de 1537-1540. As ideias sobre o
impacto da lei evidenciariam um teor mais próximo das ideias de
Melanchthon do que das de Lutero. A posição de Melanchthon, a qual
Lutero rejeitou segundo os escritores da Fórmula de Concórdia, é que a lei
assume um caráter substancialmente ontológico, levando o ser humano a
uma perspectiva social e moral produtiva. Lutero, com seu entendimento da
natureza da lei, do arbítrio escravo da vontade do ser humano, das naturezas
de Cristo presentes no Sacramento, do arrependimento e da fé, chegou a um
resultado escatológico do impacto da lei sobre a pessoa, diferente do
proposto por Melanchthon. Aí entendemos porque alguns críticos sugerem
ler o presente comentário tendo em mãos o escrito Da Vontade Cativa4, o
comentário a Gálatas e as teses antinomistas de Lutero.
Ao examinarmos o conteúdo da Preleção sobre Gênesis, percebemos
um Lutero engajado. A exemplo desse texto, toda sua outra produção
literária da década em que ocorreram as preleções revela um Lutero cada
vez mais centrado nas Escrituras em busca de respostas às questões e às
crises verificadas na última fase de sua vida.
Lutero, em sua época, foi o que melhor aproveitou a imprensa no
sentido de produzir obras para serem públicas. Mas a década de 1530 exige
de Lutero algo novo: uma produção consciente para deixar seu legado à
posteridade. Editores queriam preparar uma edição de seus escritos latinos e
alemães. Sermões, obras escritas com propósitos definidos, obras de
edificação espiritual e escritos polêmicos deveriam ser preservados para a
posteridade.
Lutero está reticente em relação à sua produção. O que ele quer é que se
beba da fonte original, da própria Escritura. Em 1539, em seu Prefácio à
Edição de Wittenberg dos Escritos Germânicos, Lutero escreve que “nem
Concílios, nem Pais, muito menos nós seremos tão grandiosos e obteremos
sucesso assim como as Escrituras o têm, isto é, como Deus mesmo o faz
[nós, com certeza, também precisamos ter o Espírito Santo, fé, bom
discurso e obras, se queremos ser salvos]. Por isso, ouvimos o que os
profetas e apóstolos têm a nos ensinar, enquanto nós,sentados a seus pés, só
podemos ouvir o que eles têm a nos dizer. Não são eles que têm que ouvir o
que nós temos para dizer”5.
Se compararmos o texto de Lutero com a complexidade e o refinamento
das obras exegéticas de nossos dias, seu trabalho pode parecer simplório e
pouco acadêmico. Mas se compararmos com as exegeses feitas no final da
Idade Média, toda a obra exegética de Lutero é gigante porque ele consegue
traduzir o cerne das Escrituras em seus comentários bíblicos. A Preleção
sobre Gênesis não foge à regra especialmente pelo exercício hermenêutico e
exegético proposto pela leitura luterana.
A oportunidade que Lutero tem em investir dez anos na leitura dos 50
capítulos de Gênesis leva-o a revisar a sua tradução do livro publicada na
Bíblia em 1534. Em 1545, ele publicará a sua segunda edição completa da
Bíblia com suas anotações e observações colhidas ao longo da exposição e
leitura do texto.
Contrário à proposta medieval, seguida especialmente por exegetas da
Boêmia, que analisavam o texto bíblico de uma forma cronológica e com
base em temas escolhidos, Lutero interpreta o texto de forma literal,
discutindo versículo por versículo. Para Lutero, “nosso estudo, se queremos
manter a realidade das Escrituras, precisamos fazê-lo de forma simples, de
modo germânico, e preservando o sentido literal”6. Das quatro formas
medievais de estudo do texto bíblico, o histórico, o tropológico, o
anagógico e o alegório, Lutero destaca a forma histórica. Desde sua
primeira leitura dos Salmos em 1513, Lutero assume uma exegese histórica
do texto bíblico de Gênesis, conectando a história de Abrãao, Isaque e Jacó
com a história de Jesus. Procedendo desse modo, Lutero integra seu
trabalho a uma longa cadeia de tradição exegética no cristianismo antigo e
medieval, que somente será interrompida pelo trabalho de intérpretes
bíblicos influenciados por pressupostos historiográficos iluministas a partir
do século XVIII.
Um exemplo clássico dessa exegese é o assim chamado protoevangelho,
presente no comentário de Lutero a Gênesis 3.15. Para Lutero, a promessa
do evangelho, de Cristo, é dada a Adão e Eva, confortando-os em meio a
seu pecado. Por isso lemos no comentário de Lutero que mortos
espiritualmente, na promessa do protoevangelho, ganharam vida
novamente. Também a Trindade de Deus está presente, porque a Segunda
Pessoa da Trindade é manifestada ao mundo na obra da criação. Mesmo que
o sofrimento, a morte e a ressurreição de Cristo não sejam narrados na
história de Gênesis, a sua Pessoa está presente, marca da Trindade de Deus.
Assumindo essa hermenêutica, Lutero não tem medo de fazer um
paralelo entre a igreja do Antigo e do Novo Testamentos. Segundo ele,
ambas aguardam Cristo. A igreja do Antigo Testamento aguardava o
Messias, que veio em Jesus Cristo, enquanto a igreja do Novo Testamento
aguarda a volta do Messias. Essas promissões precisam ser analisadas sob a
perspectiva do pecado e da promessa, da lei e do evangelho. Enquanto que
na lei Deus faz a igreja aguardar ardentemente a promessa, no Evangelho a
igreja é confortada por Deus devido às exigências da lei, tornando a pessoa
livre para viver essa vida e aguardar a promessa da vida que virá.
Essas conclusões exegéticas por parte de Lutero somente são possíveis
graças à sua abordagem histórica do texto bíblico. Não apenas a narrativa
do passado é histórica, mas a presença de Deus na história da humanidade é
determinante para Lutero. Dessa forma, Lutero não apenas está por trás do
texto, mas está diante do texto, que o muda hermeneuticamente porque nele
Deus Espírito Santo está agindo7.
Resumidamente, Lutero aplica no comentário seus princípios
hermenêuticos fundamentais para interpretar o texto bíblico: primeiro, a
Palavra de Deus é manifestada na Segunda Pessoa da Trindade, Jesus
Cristo; segundo, Jesus Cristo é o centro e o conteúdo principal das
Escrituras, tanto do Antigo como do Novo Testamentos; terceiro, a própria
Escritura é sua própria intérprete, visto que quem lê a narrativa de Gênesis
percebe seu conteúdo revelado também no Novo Testamento; quarto, a
revelação precisa ser vista historicamente, contrária assim à possibilidade
alegórica de interpretar o texto; e, quinto, a função querigmática do texto,
visto que Deus se pronuncia e revela em Jesus Cristo, isto é, vivo e ativo no
mundo, portanto o Evangelho é para ser proclamado, assume a função
querigmática.
Mesmo defendendo uma análise histórica do texto bíblico, Lutero não
deixa de alegorizar em alguns momentos. As histórias de Ismael e Isaque e
Esaú e Jacó ganham um tom alegórico no comentário de Lutero. Ele vê
duas linhas paralelas na história – entre crentes e descrentes – e comenta
afirmando que os dois grupos criam uma linhagem de um nascimento
apenas de sangue, no caso de Ismael e Esaú, e um nascimento espiritual, na
situação de Isaque e Jacó. O primeiro grupo possui apenas uma bênção
material e limitada; o segundo possui uma bênção teológica e eterna,
baseada na promessa da regeneração e restauração em Jesus Cristo8.
Não há dúvida de que estamos diante de um extraordinário comentário
bíblico, que será útil para pregadores e pastores demonstrarem, a partir da
narrativa bíblica e do comentário de Lutero, no púlpito e ao longo da vida
da comunidade, a presença de Deus, que se revela assim como se
manifestou no passado, conforme o registro de Gênesis.
Introdução aos textos selecionados
A. Baeske
Duas colocações quanto ao procedimento a seguir. A primeira: oferece-
se uma apresentação – não interpretativa ou avaliativa nem contextualizada,
mas sistematizada – que visa enfoques do testemunho de Martinho Lutero9.
A sistematização se faz necessária devido à prolixidade e repetição nas
quais o preletor incorre10. Acompanhando de modo acurado e prolongado
suas escavações profundas, o leitor está sendo posto no olho de uma
erupção vulcânica: Lutero em acirrada controvérsia com oponentes e
asseverando que seu ambiente eclesiástico e político se encontra no
original; sim, usando as próprias experiências e as de companheiros na fé e
na luta por ela como meios de acolher e interpretar a mensagem bíblica11. A
erupção consiste ora num conjunto ora num emaranhado de compreensões
teológicas e entendimentos eclesiais, de parêneses comunitárias e conselhos
práticos da sabedoria popular. A segunda colocação: destacam-se pontos do
testemunho de Lutero que prestam auxílio na reflexão doutrinária e no
delineamento do discipulado cotidiano, esperados de nós nos dias que
correm12.
Tanto a seleção de textos do witenberguense quanto a eminência de suas
asserções são subjetivas, contudo frutíferas na medida em que as pessoas
comecem a se debruçar sobre o legado de Martinho Lutero, buscando a
assessoria dele em sua articulação da fé bíblica, que pensa e age na
vicissitude que nos envolve e constrange. Neste afã, descobrirão, com
certeza, ainda outros detalhes além dos aqui arrolados.
Referente a “Do doutor Martinho Lutero ao piedoso leitor”
Como frequentemente em saudações a leitores de suas publicações,
Lutero minimiza a própria competência, afirma que “tudo foi dito… ao
modo do povo”13, roga que Deus deixe vir após ele gente que faz “melhor
tudo [o que eu fiz]”14, destaca iniciativa e esforço de cooperadores para que
saia impressa a preleção. Causa comoção, além de emoção, que ele
caracterize seu trabalho interpretativo em Gênesis [Gn] de “pequenos pelos
de minhas cabras” oferendados a Deus15 e, até mais, sua confissão de que,
em absoluto, seja ele o melhor exegeta que compreende o texto bíblico por
completo16, mas quem que o ama17, enquanto suplica, “em verdadeira fé e
de boa consciência”, pela vinda derradeira de Jesus Cristo18.
Referente a Gênesis 1.1-2.25
A criação, obra da Trindade
Para Lutero, a criação é obra do Deus Triúno: “O Pai cria o céu e a terra
a partir do nada por meio do Filho,… [a] Palavra ou [o] Verbo” e o Espírito
Santo [movendo-se sobre as águas] dá vida “àquelas substâncias [primárias]
que deviam ser animadas e ornadas”19. “Uma explicação mais detalhada
desse mistério[da Trindade] compete ao Novo Testamento e ao Filho, que
está no seio do Pai [cf. 1 Jo 1. 18].”20
Desse jeito criacional, Lutero deduz que Deus quer que as pessoas
perguntem por ele e a ele se atenham tão-só na medida em que ele se
manifesta a elas em obras e na Palavra, captáveis e compreensíveis pelos
cinco sentidos humanos21. “Deus se cobre com obras e [se reveste] de
certas formas, como se apresenta hoje no Batismo, na Absolvição etc. Se te
afastares dessas formas,… cairás no vazio”22. Logo, “é insano discutir
sobre Deus… sem a palavra [Jesus Cristo] ou sem as formas [das quais ele
se reveste]”23, animadas e iluminadas pelo Espírito Santo.
Na criação do habitat do ser humano, o preletor ressalta:
O poder da Palavra de Deus, confirmado pela competente apreciação:
E Deus viu [seu feito] que era bom. “Quando ecoa a Palavra, tudo é
possível”24. O que cria, governa, conserva25, ama, aprova, segura,
movimenta, aciona26 é indiscutível e nada espantoso27, porque revelado
pelas Sagradas Escrituras, enquanto observações e experiências procedidas
por homens enganam e “muitíssimas vezes falham”28. O poder da Palavra
“faz um lindo começo com os fundamentos [firmes contra a ameaça do
mar] e o teto [o céu estendido sobre nós] desta [nossa] casa” – a terra, que a
força da Palavra, sem embargo, “enfeita”29 com a capacidade de produzir
“cereais, árvores e ervas de todo tipo” e com a preservação perpétua de suas
respectivas espécies30. A Palavra criacional constitui a terra qua mãe
gerando os animais e o mar, os peixes31. “As ervas [e as frutas das árvores]
foram criadas para servirem de alimento para as pessoas”; aliás, “uma dieta
de ervas seria, hoje, muito mais saudável do que a de carne”, cujo consumo
veio “depois do dilúvio” em franco detrimento de nossa longevidade32.
A premência de nossa “ação de graças”33 em vista “da criação digna
de [nossa] admiração”34 e do fato de nós podermos desfrutar de “toda essa
riqueza gratuitamente de acordo com” nossa “necessidade”. Urge que “o ser
humano reconheça, a partir dessa liberalidade, a bondade de Deus e viva no
temor de Deus. … Todo o resto é inócuo e incerto”35. Isso tanto mais que
Martinho Lutero, biblista cristão, melhor: cristocêntrico36, vê a benignidade
de Deus se espraiando: “o primeiro mundo foi criado como figura do
mundo futuro”. Quer dizer, “antes de nos convertemos à fé, Cristo, nosso
Redentor, está na casa do Pai e prepara mansões [Jo 14.237] para que,… ,
encontremos o céu preparado com todo tipo de alegria”38.
O estudo com afinco e sempre de novo da criação realizada pela Palavra
de Deus. Destarte, evita-se que a mesma se torne comum a nós e
banalizemos suas expressões maravilhosas39; sim, sucede a edificação de
nossa fé. “Afinal, aqui [nas obras admiráveis do poder da majestade divina]
confirmam-se plenamente todas as promessas [de Deus], ou seja, que nada é
tão difícil que ele não possa fazer através de sua Palavra, ou [lhe seja]
impossível [Jr 32.17, Jó 42.2, Gn 18.14 / Lc 1.37, Mc 10.27 par., Hb 6.18
etc.], como o comprovam o céu, a terra e tudo que neles existe”40.
Inclusive, fenômenos da criação, como Lutero os enxerga, lhe explicam
partes da fé41. No mais, nota-se na criação que a eficácia da Palavra de
Deus é dupla: bênção e maldição. “A bênção… anuncia a multiplicação
[das criaturas]… a maldição… [evoca] limitação [das criaturas]”42.
Na criação do ser humano, o preletor ressalta:
A unicidade do ser humano. A mesma fica sinalizada pelo fato que
Deus “recorre, portanto, a um planejamento… se aconselha e emite uma
espécie de parecer”43 – ocorre, por dizer assim, uma consulta
intratrinitária44. Ela é efetivada no ato de Deus, criando o ser humano à sua
imagem e semelhança. Significa: o ser humano “terá uma vida diferente,
melhor do que a de um animal. … Adão tinha uma vida dúplice: animal e
imortal, embora ainda não claramente revelada”45. Recém-criado, Adão
possuía a imagem de Deus “em sua essência”; a saber, “não só conheceu a
Deus e acreditou que ele era bom, mas também viveu uma vida… divina,
ou seja, não tinha pavor da morte nem dos perigos, contentando-se com a
graça de Deus”46.
Quando nós, posteriores à queda, “falamos sobre a imagem [de Deus],
falamos sobre uma coisa desconhecida que nós não apenas não
experimentamos, mas experimentamos continuamente o contrário”47. Na
linha de sua interpretação cris-
tológica48, sim, trinitária49, Lutero adita incontinenti que a apropriação
“do mérito de Cristo” em fé e vida origina “nossa outra justiça,… aquela
novidade de vida,50 mediante a qual nos esforçamos por obedecer a Deus,
instruídos e ajudados pelo Espírito Santo”. “Desse modo, a imagem [de
Deus na] da nova criatura começa a ser reparada pelo Evangelho nesta vida,
mas não é completada nela”, será “completada no Reino do Pai”51. Deus se
alegrou com sua decisão em criar o homem e a mulher; igualmente, hoje
“se alegra em restaurar essa obra através do seu Filho e nosso libertador”52.
O fato que Deus concluiu sua obra e descansou exprime que ele não
criou “outro céu e outra terra”, mas sim, que conserva e governa o céu e a
terra que acaba de criar53. Ao ler Deus abençoou o sétimo dia e o
santificou, precisamos entender que este dia “deve ser usado… para o culto
a Deus. … Caso a natureza tivesse permanecido inocente, ela teria
celebrado a glória e os benefícios de Deus” e “os seres humanos teriam
conversado [entre si] sobre a inestimável bondade do Criador”54. A rigor,
“o ser humano… foi criado… para o conhecimento de Deus e o culto a ele”.
E, já que Deus “só fala com o ser humano, e só” esse “o conhece e o
apreende, segue-se… que há outra vida depois desta, a qual devemos
alcançar mediante a Palavra e o conhecimento de Deus”55. Daí Lutero
conclui: quando Gn se refere a sábado, expressa que “Deus fala conosco
através de sua Palavra e nós, por nossa vez, falamos com ele por meio de
invocação e fé”56.
O surgimento do “cultor da terra”: “Deus o formou de um pedaço de
terra, assim como o oleiro molda a panela de argila com a mão”57. Embora
nós, hoje, sejamos gerados “do sangue” do pai e da mãe “mediante a bênção
divina”, continua valendo quanto nossa origem: “permanecemos a argila
deste Oleiro [cf. Is 64.8] durante toda a vida, até a morte e, ainda, na
sepultura”58. Interpretando o homem passou a ser alma vivente com 1 Co
15.45, Lutero assere: “o ser humano… não [vive],… como vivem os
animais [comendo, bebendo, gerando, crescendo], mas… Deus [o] haverá
de trazer à vida, posteriormente, porém, sem vida animal”. De igual modo,
esperamos nós – devido ao pecado, “sujeitos… à morte e a todas as
calamidades” – pela “imortalidade através de Cristo”59. Deus colocou Adão
no jardim, que “tinha plantado com peculiar cuidado”, “acima do cultivo de
toda a terra”, comparando-o “com a miséria de hoje”. “Tudo isso… é
história [e pertence ao passado]”60. O mesmo se dá com a árvore da vida
como “remédio” que Deus providenciou “para que o ser humano vivesse…
uma vida longa e saudável em perpétua juventude”61.
Lutero inculca: “O ser humano não foi criado para o ócio, mas para o
trabalho, também no estado de inocência”62, onde o trabalho, caso não
houvesse a queda, “teria sido um enorme prazer, mais agradável do que o
ócio”63. “Por isso condena-se, merecidamente, o tipo de vida ociosa, como
a dos monges e das monjas”64.
A árvore do conhecimento do bem e do mal. Ela foi necessária para que
Adão – “ébrio de alegria em relação a Deus”65 e introduzido pelo Criador
“como rei das criaturas” – prestasse obediência a Deus. Com a tal árvore,
Deus “constrói o templo, o altar e o púlpito” para Adão servi-lo66. “Essa é a
instituição da Igreja, antes que houvesse organização econômica e política,
pois Eva ainda não fora criada. A Igreja é instituída sem muros e sem
qualquer pompa,… Dessa maneira, o templo é anterior à casa [ao regime
doméstico]… Tampouco houve organização política antes do pecado [da
queda], porque não era necessária. Pois a organização política é o remédio
necessário para a natureza corrompida.”67 Eis a sequência estabelecida pela
Palavra criacionalde Deus: primeiro a Igreja, depois a organização
econômica e política. Desse modo fica “certo que o [ser humano] foi
criado… para a vida espiritual68, para a qual teria sido transferido, sem
morte, depois que tivesse vivido por longo tempo e sem moléstia no
Éden”69.
“Quem consegue expressar com palavras a glória da inocência que
perdemos?”70, pergunta Lutero e confessa com At 3.21 e Rm 8.20s.:
“Portanto, esperamos a restauração de todas as coisas71, não só da alma,
mas também do corpo… Para essa esperança nos conduziu Cristo, que nos
restituiu a inocência pela remissão dos pecados, tornando a nossa situação
melhor do que foi a de Adão no paraíso”72.
A árvore do conhecimento do bem e do mal ensina a distinguir “entre a
lei dada antes do pecado e a lei dada depois do pecado”73, à qual o apóstolo
Paulo se refere (p. ex., Gl 2.16, Rm 3.20; 7.7-13); de modo idêntico,
“´justo` não significa a mesma coisa depois do pecado e antes do pecado”.
Quem aqui deixa de diferenciar meticulosamente, nega “o pecado original”,
o que, “nada mais é do que negar a paixão e a ressurreição de Cristo [pro
nobis: Rm 4.24s., 1 Co 15.17-19]”74. Ele também não tem como
insofismável que Adão fosse de uma “inocência pueril”, da qual poderia
“cair na maldição, no pecado e na morte, como aconteceu”75. Pecado
original é tudo aquilo que Adão recém-criado desconhecia: “o furor da
concupiscência” e “os vícios do coração”, que são maiores do que aquele:
“incredulidade, ignorância de Deus, desespero, ódio, blasfêmia”76.
“Não é bom que o homem esteja só”. “‘Bom’ significa, aqui, a
multiplicação do gênero humano.” Partindo de 1 Co 7.277, o preletor atribui
à auxiliadora do homem não apenas “importância… na administração
doméstica, mas também como remédio”78. Logo, liga o ato sexual após a
queda com o pecado original79. Referindo-se à versão original de que lhe
seja idônea, Lutero deduz a inseparabilidade de seres humanos uma vez
casados; sim, “não houve… obra mais extraordinária e admirável [em toda
a criação] do que a procriação. Depois da proclamação do nome de Deus,
ela é a obra mais importante que Adão e Eva podiam realizar… Mas quão
horrivelmente ela foi deformada!”80 e como ficou “dificultada”81. Mesmo
assim, ela continua sendo “ordenação e instituição divina”. Obedecendo à
Palavra de Deus, reconhece-se nas “esposas um edifício do Senhor” para a
procriação e, ao mesmo tempo, um “ninho e habitação” para os maridos [e
famílias surgidas do casal] “a fim de… viver com alegria”82. Razão pela
qual é a mais “bárbara crueldade e desumanidade” deixar de se casar ou
evitar que se case “para não ter descendentes”. Tal atitude “também… é
sinal do pecado original”83.
A criação de Adão e Eva sublinha que “a Palavra de Deus é a própria
sabedoria de Deus”84, sem ela ficamos presos nos labirintos que nosso
próprio juízo nos prepara. “Pois… que o filósofo sabe sobre o céu e o
mundo se [ele] nem sequer sabe de onde vem e para onde vai?” O que
“sabemos sobre nós mesmos?”85. Prescindindo da fé, “eu não posso
encontrar o início e o fim da minha pessoa”. Ora, “a verdadeira sabedoria
está na Sagrada Escritura”; ela ensina “sobre a causa geradora e a causa
final, sobre o princípio e o fim de todas as coisas, [isto é,] quem criou e para
que criou”86. “Pois de que adianta saber que o ser humano é uma bela
criatura se ignoras… que ele foi criado para o culto a Deus e para a vida
eterna com Deus?”87
O fato que Deus criou Adão e Eva confirma “o casamento contra os
insultos” dos que o denigrem. “O casamento é um modo de vida divino, isto
é, foi ordenado por Deus mesmo” – e esta “ordenação é muito mais
necessária ainda” após a queda88. Daí todos os que tornam “o casamento
novamente respeitado mediante a Palavra de Deus” prestam “um serviço
necessário e útil para a Igreja”89. No casamento, os cônjuges têm tudo em
comum; o “marido difere da esposa em nenhum outro aspecto senão no
sexo”90. O abandono de um cônjuge pelo outro é contra a determinação de
Deus: o homem deixará o pai e a mãe e se unirá a sua esposa e “é sinal de
uma horrorosa degeneração”, causada pelo pecado original e “incrementada
por Satanás, o pai de todas as discórdias”91.
Referente a Gênesis 3.1-24
A queda do ser humano, fato e consequências
A compreensão daquilo que ocorreu. Para Lutero, ninguém entende a
queda a não ser que ela seja “amplificada”— afã teológico, contrário à
razão humana. Pois vale: “Quanto mais se ameniza o pecado, tanto mais se
desvaloriza a graça”92. É inadequado perguntar pelo motivo da queda, basta
se conscientizar de que “aprouve ao Senhor que Adão fosse tentado e
exercitasse suas forças”. O mesmo sucede conosco: “Depois de termos sido
batizados e transferidos para o Reino de Cristo93, Deus não quer que
fiquemos ociosos, mas que sua Palavra e seus dons sejam exercitados”94.
Analisando “o tipo dessa tentação”. A serpente, instrumento de
Satanás95, procura provar “que a vontade de Deus para com o ser humano
não é boa”96 – a tentação “mais grave, perigosa e própria da Igreja”. A
desconfiança, “a incredulidade [em relação à Palavra de Deus] é a fonte de
todos os pecados”97, propagada por “todos os hereges”98. Perecemos como
Eva “quando nós, oprimidos pela morte e pelo pecado, duvidamos que Deus
quer que sejamos salvos por Cristo”99. Provoca esta dúvida desastrosa “o
mais atroz inimigo de Deus e dos seres humanos”100. “Com discussões”
sobre a probidade salvífica da Palavra de Deus, “a sorte está lançada”101 –
experiência desiludida de cada nova geração de cristãos102.
Quando e onde “se perde a Palavra, instalam-se o desprezo de Deus e a
obediência ao diabo”103. Deus “não pune o pecado logo depois de
cometido”. Daí, “Satanás parece que os [pecadores] cega, para que não
possam ver a ira de Deus e seu juízo” e como Eva são integralmente
tomados pela mortal “doença nascida do pecado”104 e suas consequências.
“Por isso, para vencer esse pecado, faz-se necessário aquele que traz
consigo a inexaurível justiça, isto é, o Filho de Deus”105.
As consequências da queda. Quando se fica afastado da Palavra, ou
seja, da primeira tábua [do Decálogo], seguem-se “os pecados contra a
segunda”106. Como “a lepra corrompe a carne, assim a vontade e a razão
foram de tal forma depravadas pelo pecado que o ser humano não só não
ama mais a Deus, mas foge dele, odeia-o e deseja estar [sempre] e viver
[em tudo] sem ele”107. “Certamente, a natureza [humana] permanece, mas
corrompida…, pois perdeu-se a confiança em Deus, e o coração está cheio
de desconfiança, medo e vergonha.”108
“Só depois que vem a lei fica claro o que fizemos”109 e, gravando-se ela
na consciência110, constatamos que o pecado original é irrefreável para nós.
“Quanto mais a pessoa se afasta de Deus tanto mais ela ainda deseja afastar-
se [dele]” – e não o consegue111. Adão “se acusa com suas desculpas e se
trai com sua defesa diante de Deus”112; incrimina a este de ter provocado o
pecado ao chamá-lo a sua presença113. Acuado, não confessa nem pede
perdão, “mas transfere a culpa para a mulher”114. Adão é “exemplo de todos
os que pecam e desesperam no pecado”115. Eis “o efeito da lei: quando está
só, sem o Evangelho… , ela leva, afinal, ao desespero e à impenitência”. O
pecado vira “diabólico” e a descrença “blasfêmia” ao Criador”116; alcança
seu “último estágio”, “o insulto a Deus, atribuindo-lhe a autoria do mal”117.
Por isso Lutero exorta “com a maior diligência possível” ouvintes e
leitores a darem “a máxima importância” ao “Evangelho”118. Este começa
em meio à situação dada pela queda. Pois “a indignação de Deus com
Satanás é muito maior do que com Adão e Eva”, para que estes “respirem
aliviados”. Enquanto Deus amaldiçoa Satanás, consola os dois “do
desespero com a esperança do esmagamento futuro [do mesmo] através de
Cristo” e os coloca “em combate com esse inimigo”. “Na esperança dessa
promessa”, Adão e Eva “ressurgirão” como os crentes em Cristo119, “no
último dia para a vida eterna”120. Eles e nós121 somos, por assim dizer,
contemporâneos na mesma esperança de “que a morte será removida, o
pecado abolido, e ajustiça, a vida e a paz serão restauradas”122. Eva e Adão
percebem que a ira de Deus “é uma ira paternal”; o mesmo confessamos
nós, a partir de 2 Co 4.17s.: “… seremos ressuscitados para uma outra vida,
nova e eterna, mediante o nosso Redentor”123. Razão pela qual “Satanás se
enraivece antes do último dia com tanto furor contra a Igreja e o Filho de
Deus”124.
Embora a ira de Deus seja “paternal”, seus castigos para Eva e Adão e,
por extensão, para nós, seus descendentes, são pesadíssimos. “O sexo
feminino… carrega um castigo muito mais pesado e mais duro do que o
homem.”125 Maridos piedosos são cientes disso e lidam com as esposas
segundo 1 Pe 3.7; ambos sabem que as desgraças que os atingem
constituem cruz necessária para domar nossa natureza126. Adão arrastou “a
terra, que é inocente”, à “maldição”, desistindo ela de produzir “as coisas
boas que teria produzido se” ele “não tivesse caído”127. Aliás, “os castigos
também crescem à medida que crescem os pecados”. Lutero exemplifica
sua convicção na diminuição vertiginosa da “longevidade” e no surgimento
de doenças que não conhecia quando menino128. E vê no estado calamitoso
de “toda a criação” constante lembrança “do pecado e da ira de Deus,
suscitada por nossa transgressão”129. Não “só o trabalho braçal” é custoso;
“o suor do rosto é variado”130. O suor na casa e no campo “é grande, maior
o é em relação ao governo, e maior ainda é o suor relativo à Igreja”131.
Cada qual, mormente a gente eleita, sua na “posição em que foi colocado
por Deus”, movido pela “esperança da ressurreição e da vida eterna”132.
A inimizade entre a descendência da serpente e o descendente de Eva.
Conforme Lutero, este enunciado constitui uma das “mais obscuras”
passagens “da Escritura”. O preletor emprega “o Evangelho [surgido com
Jesus Cristo e personificado nele] como uma luz clara para iluminar” [a
aludida passagem encoberta e] as [demais] trevas do Antigo Testamento133.
Com a insistência em Protevangelium, Lutero, em absoluto, ameniza a
“censura amarga”, o “duro lembrete” de Deus de que o ser humano tornou-
se como um de nós. Significa: Deus quer que Adão ensine aos descendentes
que, “quando ele quis ser semelhante a Deus, tornou-se semelhante ao
diabo”, “ofendeu a pessoa de Cristo, que é a verdadeira imagem de Deus,
por meio do seu pecado”134. O que vale para Adão, também diz “respeito a
nós, que, depois de batizados e renovados pela graça, devemos nos
acautelar ao máximo para não reincidirmos na antiga impiedade”135. Já que
Adão, bem como nós, seus descendentes, uma vez caídos, continuamos
expostos a tentações e às incursões de Satanás, Deus providenciou – na,
com e pela “semente abençoada” – a certeza para nós “de que jamais
haveríamos de morrer a morte eterna”, e, concomitantemente, que a “vida
temporal” e fora do paraíso “seja atormentada de várias formas” a fim de
que não esquecêssemos as “coisas passadas” e nos precavêssemos de
“pecados futuros”136.
É bem compreensível que Lutero, no contexto do Protevangelium, volte
a seu “dom” de explicitar a Sagrada Escritura, “em seu sentido histórico,
que é o [sentido] genuíno e verdadeiro” – e tal, tanto mais, haja vista a
“grande variedade de intérpretes [alegoristas]”137. O critério de nosso
preletor-biblista é este: empregar alegorias tão-só “quando o próprio texto”
as apresenta – exemplificando sua posição através de Ef 5.32, 2 Co 11.2,
Rm 5.14, Gl 4.24138 – “ou as interpretações” podem “ser derivadas do Novo
Testamento [a saber: da obra salvífica de Jesus Cristo]”139, o que elucida
assim: “A árvore da morte é a Lei, e a árvore da vida é o Evangelho ou
Cristo. Quem não crê em Cristo não pode se aproximar… Mas o paraíso
permanece aberto para quem reconhece seu pecado e crê em Cristo”.
Partindo de a glória do Senhor que brilhou ao redor dos pastores, o aspecto
do Ressuscitado como um relâmpago (Mt 28.3; cf. 17.2), “o semblante
alegre e jovial de Estêvão” (At 6.15) e da ação escatológica de Deus (Ap
21.4), Lutero afirma: “Nossos semblantes brilharão como o sol do meio-dia;
não haverá rugas, nem fronte contraída, nem olhos purulentos”140.
Referente a Gênesis 6-9.16
O dilúvio, sua compreensão e suas consequências
Modus procedendi de Deus. Para Lutero, “Deus é uma espécie de
dialético que acusa por associação e destrói simultaneamente o possuidor
do dom com o dom que ele possui”: quanto mais o ser humano recebe dele,
tanto mais ele o castiga quando, soberbo, abusa do recebido141. Por isso
“ninguém se vanglorie de seus dons, por maiores que sejam” – e, repare
bem: “o maior dom é ser membro da verdadeira Igreja”142.
Primordialmente, Deus julga os que dele se afastam e, portanto, caem em
todos os males possíveis143. Os humanos são incapazes de avaliá-lo, mas
não “a [verdadeira] Igreja e os [legítimos] filhos de Deus”144, atormentados
pela iniquidade generalizada (cf. 2 Pe 2.8). Nos dias atuais, sabem que o
Juízo Final “se apressará” “porque a própria Igreja se encheu de erros… e
porque, inclusive, aqueles que são líderes na Igreja entregam-se ao prazer, à
luxúria e à tirania”145.
Numa conjuntura dessas, Lutero tem Gn 6.3 como expressão do aflito
[p.ex., Noé e outra gente fiel a Deus] que percebe: não há jeito para o
pessoal com que convive, pois este se precipita “para a perdição, com olhos
cegos e ouvidos surdos”146; “Deus retira a Palavra, sua ira fica um horror”,
“associada à condenação eterna”147. Logo, a pessoa sem a Palavra de Deus
não consegue mais orar e a sociedade, em vez de se deixar questionar,
prefere, ela própria, “acusar o Espírito Santo e julgá-lo em seus ministros”
de “aparência humilde”148. O ser humano é carnal, significa, é hostil a
Deus149 – mesmo na dita cristandade. Eis a experiência pessoal do preletor
e de seus companheiros150: “a igreja de Satanás está constantemente em
guerra com a Igreja de Deus”151. “‘Gigantes’” usurpam “tanto o poder
político quanto o eclesiástico e sentem-se totalmente livres para pecar”152.
Nós temos que respeitar as autoridades, enquanto Deus ceva os tiranos nas
duas áreas153. “Os ministros da Palavra” sofrem fome, são odiados; sua
“única riqueza é a Palavra”154. São os Noés da atualidade155.
Desígnio do coração humano é mau. Conforme Lutero, “sem o Espírito
Santo e sem a graça, [a pessoa] nada pode fazer [cf. Jo 15.5156] senão pecar
e, dessa maneira, avança infinitamente, de pecado em pecado”157. Ora, “o
livre-arbítrio não é nada”158 nem consegue nada – no tocante à “Teologia”
ou “vida futura”, a “razão, porém, entende as coisas que são boas para o
Estado” ou “esta vida”159. Abolindo tal diferenciação, surge “falsa
doutrina” com consequente “vida ímpia”, que “faz o que lhe apraz” e
enfeita ainda “toda sua brutalidade com o nome de Deus”. Nesta
conjuntura, “as pessoas [fora e dentro da Igreja] se tornam tão obstinadas e
seguras de si e não contam com a punição”160. “A demora do julgamento
[de Deus] atormenta os piedosos” e seus soluços e gemidos despertam a
Deus161. O prelecionador faz coro: “Eu realmente desejaria [para já]” a
vinda do Último Dia, “pois vimos males suficientes nesses nossos poucos e
maus dias”162, que “Deus não presta atenção para a profanação da missa,…
uma horrível abominação que se espalhou por toda a terra”163. Deus puniu o
mundo de então com água, o presente punirá com fogo (cf. 2 Pe 3.5-10).
Lutero deduz isso da “cor do fogo [no arco-íris], ou seja, daquele elemento”
que consumirá nosso mundo, a que seguirá àquele “que durará para sempre
e estará a serviço dos piedosos”164.
O pacto que Deus confirma a Noé serve “para que ele creia firmemente
que Cristo nascerá de sua descendência e que” permanecerá “um canteiro
no qual possa germinar a Igreja”165. Apenas a compreensão cristológica
desta aliança evita “especulações sobre sua majestade [de Deus] despida de
qualquer invólucro” e de sua eterna escolha166. Ao mesmo tempo,
aprendemos com Paulo (cf. Fp 3.13, 1 Co 10.12 e 2 Co 4.7) a temer a Deus,
“de modo que não creiamos que, uma vez aceita a graça, não possamos
perdê-la novamente”167, e, com Noé, “simplesmente permanece[r] fiel à
ordem que [se]ouve [de Deus]”168. A verdadeira obediência a Deus
consiste em considerar “quem o está dizendo” e não “o que está sendo
dito”, pois Deus manda fazer coisas triviais embora importantes169, como
usar piche (cf. Gn 6.14). Ele não falou “do céu a Noé”, mas “por intermédio
de um ser humano [seu avô Matusalém]”. A Palavra de Deus “proclamada
por seres humanos” é “verdadeiramente Palavra de Deus”170. Logo, “onde
há um ministério legítimo que ele [Deus] instituiu”, “não devemos esperar
uma revelação, seja interna ou externa”171. Urge “orar intensivamente pelos
nossos descendentes e empenhar-se ao máximo para que a doutrina lhes
seja transmitida de forma mais pura”. Pois, sem a pregação, “a fé, a oração
e o uso correto dos sacramentos” não subsistirão172. Deus mantém a Igreja
assim: deixa os que rejeitam “a Palavra” e introduzem “cultos idólatras”
com sua ideia arbitrária de constituir a Igreja, enquanto ele próprio já os
excomungou, e salva os justos da estirpe de Noé, que não possuem sequer
“o vestígio de um pé sobre a terra”173. Ora, “a Igreja é a filha que nasceu da
Palavra; ela não é a mãe da Palavra”174. Como tal aprende, com Noé e os
seus, a crer na “promessa divina” e compreende que é preciso ser
perseverante nisso175.
O enunciado de Deus de não voltar mais a amaldiçoar a terra visa
“encorajar o pequeno rebanho (Is 41.14, Lc 12.32)”, assegurando-lhe sua
misericórdia. Deus não mudou, mas “deseja que mudem as pessoas”176 cujo
desígnio é mau desde a sua juventude. O ser humano não é apenas
inclinado para o mal177. Ele é “com a vontade e o intelecto, mesmo
quando… pensa sobre Deus” e “se ocupa com obras honradíssimas…178
sempre contrário à lei divina, encontra-se sempre em pecado e sob a ira de
Deus”, sendo libertado exclusivamente por Jesus Cristo (Jo 8.36)179. Sem
conhecer a natureza da pessoa, corrupta até seu cerne, da qual gente sóbria
guarda vaga ideia180, desconhece-se totalmente “a misericórdia e a graça de
Deus”181. As mesmas providenciarão, “mediante a fé em Cristo” e sob a
“direção do Espírito Santo”, que nossa “vida consistirá em conhecer a Deus,
alegrar-nos na sua sabedoria e desfrutar sua presença”182.
Para o período entre o término do dilúvio e a consumação escatológica
de seus fiéis, Deus, por um lado, reforça a “dignidade do casamento, que é a
fonte da família e do estado e o berço da Igreja”, fazendo com que filhos
sejam “uma dádiva de Deus e somente nasçam mediante a bênção divina” e
mostrando que pessoas analfabetas na Palavra “não agradecem a Deus por
essa dádiva nem recebem seus filhos como presentes de Deus”183. Ele
mostra que “está mais inclinado a vivificar e a fazer o bem do que a
promover a ira e a morte”184. Por outro lado, Deus estabelece um novum: “o
ser humano pode matar… animais comestíveis” – “uma grande
generosidade” sua para conosco185. Segundo Lutero, seguindo seu texto-
guia, tal autorização se estende mutatis mutandis à punição do homicida,
executada pelo magistrado, delegado por Deus para tal fim e para julgar
questões menores. O preletor enxerga aí a instituição do “governo civil no
mundo, que não existia antes do dilúvio” para fazer frente ao despotismo
sangrento186. Sem “esse remédio externo”, que merece nossa reverência, “a
indisciplina” crescerá “desmedidamente”187. Prosseguindo em seu costume,
Deus junta à Palavra sinais, pelos quais só podemos dar graças a ele188: o
arco-íris nos lembra da ira de Deus no passado e nos consola que
futuramente não nos aplicará novo dilúvio189.
O testemunho a respeito do dilúvio e a aplicação da interpretação
alegórica190. Lutero afirma que, após ter abraçado a “sombra vazia” da
compreensão alegórica, chegou “a odiar as alegorias”, pois tal método o
seduziu a negligenciar “a seiva e o âmago da Escritura”191. Contudo, sua
viva aversão não o levou a rejeitar, por completo, a interpretação alegórica.
Ele a admite se acaso usada “com o máximo discernimento” e aplicada
“segundo a regra adotada pelos apóstolos”, ou seja, “em conformidade com
a fé… : Rm 12.7”, no sentido de “ilustrar a doutrina” e “consolar as
consciências”192. Alegorias são válidas na medida em que possuem base no
próprio texto bíblico ou ganham estímulos a partir dele, desde que visto
historicamente193, e quando servem ao desdobramento hic et nunc da
mensagem histórica sob o viés da Lei de Deus e de seu Evangelho.
Para aí se nortear, o exegeta-preletor lista passagens
neotestamentárias194. Por exemplo, expõe com apoio na ligação entre arca e
Batismo em 1 Pe 3.20-22: “Assim como o dilúvio e o Mar Vermelho são…
auxiliares para que Noé e Israel sejam libertados da morte e tenham sua
vida preservada” acontece conosco “que, quando a morte ou outro perigo
nos acometer, nós nos… digamos: eis aqui… teu dilúvio, teu Batismo” –
“um dilúvio de graça”195. Inspirado por alusões bíblicas, Lutero procura
“uma alegoria teológica” para o corvo (Gn 8.7) e a acha nos doutores da lei
“que voam para lá e para cá… e não [nos] trazem nenhum parecer seguro
de um Deus aplacado”196. Para a pomba (v. 8-12), vendo que “o Espírito
Santo apareceu [no Novo Testamento] em forma de uma pomba”, encontra
a “alegoria teológica” para nós no “ministério [externo] da graça” e, no
“ramo de oliveira [que a pomba traz] na boca”, “a misericórdia [de Deus]” e
“a remissão dos pecados” proclamadas197.
Referente a Gênesis 12
Abraão, homem de fé e ajudante na fé, pela graça de Deus
O chamado de Abraão foi preciso porque “a Igreja sofreu um grande
golpe”: “os descendentes dos santos foram arrebatados ao erro”198, entre
eles Abraão. Ao ser chamado199, este “é uma pessoa meramente passiva”,
“a matéria na qual age a misericórdia divina”200. Em sua lida com ele, Deus
estabeleceu a “regra universal: por si mesmo, o ser humano nada é, nada
pode, nada tem exceto pecado, morte e condenação”, mas “através de
Cristo, a semente abençoada”, o ser humano é feito alguém e “libertado do
pecado, da morte e da condenação”201. Isso sucede “para que os
desanimados” aprendam “a ter esperança num Deus tão misericordioso” e
para que seja obstruída a soberba quando se é chamado202. Abraão segue,
sem detença, a ordem de Deus – quem o imita nas andanças por obediência
da fé, tão-só com a promessa?203. Destarte, o patriarca e sua família
constituem a “verdadeira e santa Igreja”204.
No chamado de Abraão se manifestam: a “lei”, que reprova os pecados,
e o “Evangelho” ou “promessa”205, isto é, Deus não só habita no meio do
povo prometido a Abraão, “mas também quis nascer dele como ser
humano”206. Com efeito, o patriarca é pai na fé: crê como se já tivesse
diante dos olhos o que lhe foi prometido, embora não haja “nada que esteja
em consonância com a promessa”207 da bênção para todas as famílias da
terra. E, lembrando Jo 8.56, Lutero adiciona que quem a distribui é “o Filho
de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo”208. A bênção anunciada e espraiada
universalmente se contrapõe “à maldição sob a qual todos os seres humanos
se encontram por causa do pecado”209. Os “infelizes judeus” – repudiando
Jesus Cristo, que “trouxe consigo uma bênção espiritual e eterna para o
mundo” – “esperam um Messias” que restaure a eles “um reino terreno”.
Para Lutero ocorre, então, que os judeus “não mais são a semente de
Abraão a quem essas promessas foram feitas”210.
“Promessa e fé pertencem juntas de forma inseparável” – o núcleo
central da história de Abraão. Agora, “a fé tem de lutar [muito e durante
longo tempo] com a dúvida e contra a razão”, “porque… a carne e o sangue
simplesmente consideram a promessa de Deus impossível”211. Note-se: “as
promessas de Satanás, embora sejam mentirosas, são agradáveis à carne”.
“As promessas divinas, porém, que são verdadeiras, apontam de imediato
para a cruz, depois da cruz, porém, prometem a bênção”212. A fé enraizada
na promessa de Deus é “obediência interna” da qual emana “obediência
externa” como em Abraão213. “A verdadeira obediência”, aquela que
monges e monjas desprezam, consiste em não “fazer o que tu escolhes ou te
impões, mas o que o Senhor te ordenou através da sua Palavra” – aliás,
importa que elefale a ti, através de pessoas; por exemplo: quando “és
chamado para o ministério de ensinar, deves considerar a voz da
comunidade como se fosse a voz de Deus, e obedecer”, inclusive em
situações periclitantes214. “Quem observar em todas as suas ações esta
pequena frase – ´O Senhor disse` - sempre viverá alegre e cheio de
esperança”215. O que vigora tanto “na Igreja” quanto “na economia e na
política”216. A bênção que vem da obediência à Palavra de Deus se
transmite às pessoas que convivem com os obedientes persistentes217.
Concernente à fala capciosa de Abraão a Sara quando entraram no
Egito, Lutero acha admissível a explicação tradicional de que a fé de
Abraão “sofreu um pouco, pois temos exemplos diante de nós que mostram
que, inclusive, homens extraordinários sofreram quedas”, ou seja, cometeu
“um pecado próprio da fraqueza humana”, não “um pecado voluntário”218.
Contudo, o witenberguense prefere compreender a passagem não sob ponto
de vista da moral, porém da história da salvação219. Dito com suas palavras:
a promessa da bênção gerava em Abraão uma preocupação tal “em salvar a
[sua] vida”, que “ele arrisca tudo mais do que a vida” e “não negligencia os
meios pelos quais esperava poder protegê-la”220. Pois pensa que sua vida,
como progenitor, precisa ser salvaguardada a todo custo – em função da
bênção prometida. “Abraão teme o perigo dos egípcios, mas isso não o leva
a odiá-los”, todavia o induz a tomar suas precauções. Pois “confiança
irrestrita, ele deposita unicamente na bondade de Deus”. Ato contínuo, as
“Sagradas Escrituras… revogam a confiança [nas pessoas], mas ordenam”
amá-las. O que serve de base para que cristãos e cristãs convivam
sobriamente com outra gente. Ética de convivência se aprende muito
melhor com a Bíblia do que com filósofos221. “A obra suprema do amor” –
isso se vê em Abraão – é “divulgar o conhecimento de Deus”222.
Deus “adia o auxílio, mas nem por isso o retira”. O Espírito Santo
sublinha a providência de Deus, enquanto a filosofia a nega. O fato comum
de desesperar tão rápido em conjunturas tenebrosas nasce do pecado
original. A tal realidade, Lutero opõe sua certeza e experiência: “a
esperança que se fia em Deus e em sua Palavra jamais é desapontada”. Eu
“o experimentei em muitos e graves perigos”223. A derradeira intervenção
de Deus é libertadora para os seus e punitiva para os opressores destes.
Vale: a punição acontece “com os mesmos castigos mediante os quais se
peca (Sab 11. 17)”, e, mais ainda: sob o viés cristológico, a ignorância sobre
Deus e seus enunciados, trazidos à luz pela Reforma, se articula o pecado
original no presente, e a ignorância daqueles que se mantêm
“intencionalmente afastados dos nossos livros”, merecem “uma punição
dobrada”224.
Lutero aproveita a punição que o faraó sofre sem culpa aparente para
comentar sobre castigos que pessoas sofrem, sejam elas investidas de
autoridade civil ou mesmo crentes. Referente às primeiras, explicita: sob
“os castigos infligidos por Deus, o rei [egípcio] alcançou o conhecimento
de Deus”, que o obriga “a não viver doravante segundo suas paixões, mas a
cumprir seu dever, qual seja, o de aterrorizar os maus e proteger os bons
[Rm 13.3-5; 1 Pe 2.13s.]”; já que inexiste “governo sem pecado”, importa
“interceder intensamente [pelos governantes e magistrados]… para que
Deus não permita que errem”225. Referente às segundas, Lutero explicita:
“Deus envia castigos não porque encontre um pecado digno de tal punição
no ser humano [cristão], mas porque quer testar sua fé e sua paciência (cf.
Jó 2.3)”; quando surgem “calamidades públicas”, elas sempre envolvem
“também pessoas piedosas” – “estas estão sendo testadas, mas as outras,
julgadas”; para crentes é salutar que fiquem “humildes e não se exaltem por
causa dos seus dons (cf. 2 Co 12.7)”226. Eis “a razão por que a Igreja, que
Deus presenteou… com a remissão dos pecados, com o Espírito Santo e
com a vida eterna, está sujeita a…adversidades. Pois se desfrutasse desses
dons sem aflição, ela… se exaltaria”227. Quando Deus purifica seus fiéis,
ele “nos castiga com discernimento e não com ira, para que perseveremos
no [seu] temor… e sejamos salvos [afinal]”. “Ele testa” nossa “fé e permite
que ela seja provada”, mas ele não nos “abandona”. Tudo com o fim de que
aprendamos “a suportar o desígnio que ele tem para nós” numa “fé segura
e” na “esperança de uma gloriosa libertação, que, com certeza,
experimentaremos” “para grande benefício de outrem”228 , como Abraão.
Referente a Gênesis 18
Abraão, regra “de fé e boas obras”229, intercessor “junto a Deus por
inimigos sanguinários”230
“A mensagem principal do capítulo: Isaque nasceu mais da força da
promessa do que da carne”; segundo Hb 11.11, entende-se que Sara “ficou
grávida de Abraão”, não houve “um nascimento singular e miraculoso”,
como no caso de Jesus (cf. Mt 1.18-21 e Lc 1.35)231. Todavia, vale a
assertio bíblica cardeal: “Que é extraordinário ou impossível para
Deus?”232 – um argumento fulminante em todos os sentidos233.
Paulo (cf. Gl 2.16; 4.21-31234 e Rm 3.21-31235) explica magistralmente
o significado teológico e cristológico do nascimento do filho de Abraão e
de Sara, testemunhando a “justiça da fé [na promessa] contra a presunção e
a justiça das obras [dos filhos naturais de Abraão e dos realizadores das
façanhas autoescolhidas de todas as épocas e lugares”236.
Abraão e Sara, mestres em hospitalidade. Lutero destaca esta atitude de
forma ímpar e a incute enfaticamente. Lembra: “a Igreja tem sido como um
refúgio dos forasteiros e dos pobres”237. Ciente de 1 Pe 5.9 e Fm 7,
diferencia entre os “verdadeiros estrangeiros os que vivem no exílio por
causa da Palavra” e os “monges e andarilhos vagabundos”238. Para Lutero,
Abraão considerou seus três visitantes “irmãos perseguidos por causa da
proclamação da Palavra”. Oxalá tomem exemplo nele papistas e outros, que
cometem barbáries “contra ministros da Palavra, contra chefes de famílias,
inclusive contra mulheres e crianças”, e que desistam de montar
“magníficos albergues, mais para sua própria glória do que para o uso dos
pobres”239. Independentemente de gratidão ou não, “devemos abrir mão do
nosso zelo por fazer o bem a outrem (cf. Lc 17.11-19)”: assistimos os
“afligidos por perseguição espiritual… com a Palavra” e os “afligidos por
perseguição física… com caridade e hospitalidade”. Abraão e nós – tendo
uma palavra mais clara do que ele: Jo 13.20 e Mt 25.35s., 40,45 –
aprendemos que aquele “que recebe o irmão exilado por causa da Palavra
recebe o próprio Deus na pessoa deste irmão”240. “O fato de sermos
lentos… ou resmungarmos quando chegam irmãos [precisando de nosso
apoio] é sinal de uma fé… morta”241.
A fim de que mudemos e não corramos “para lá e para cá como porcos,
esquecidos do preceito de Paulo (Rm 12.1 e Fp 2.3)”, nos é apresentado o
casal Abraão e Sara com sua vida coordenada pelas duas tábuas do
Decálogo. Ele “como uma regra… de fé e boas obras” e ela como
“modelo… de uma santa e louvada mãe de família”, fortalecida na fé
titubeante por Deus, que permanentemente revigora “corações fracos [de fé
na promessa] através do seu Espírito”242. Na vivência despretensiosa da fé,
Sara leva vantagem sobre todos nós, principalmente a gente dita santa. Ao
preparar comida no forno “parece impedir obras boas. Para quem leva em
consideração a Palavra, no entanto, Sara praticou uma obra mais santa do
que todos os eremitas praticaram”243.
“Os empedernidos… e seguros” precisam de “exemplos de ira [divina]
para que aprendam… a temer a Deus (cf. 1 Co 10.6 e Rm 15.4)”. Lutero
localiza esta gente entre os “adversários” de nossa doutrina, a qual denuncia
“o papa” como “anticristo”244e refuta “a doutrina e as más ações” de seus
seguidores245. Há, inclusive no meio do movimento da Reforma, pessoas
que querem abolir punctum saliens Lei e Evangelho. Até “se ofendem com
a pregação da Lei”, dizendo: “suas consciências são sobrecarregadas
quando ouvem” prédica assim. Ao que o preletor pergunta: “Devemos
permitir que cada qual faça o que lhe aprouver e declará-lo bem-
aventurado?”246.Em absoluto, pois rejeitar o ensino da Lei na Igreja é igual
a desconhecer Jesus Cristo e sua obra redentora (cf. Gl 3.19-24247), é ser
cegado “por sua própria soberba”. O que ocorre, não por último, na Igreja
que aceita a Reforma: ela “nunca é completamente pura; a maior parte [de
seus membros] sempre é má” (cf. Mt 13.3-9 e a insistência de Paulo em 1
Co 11.31)248.
Nos sodomitas, se evidenciou que se desperceber da Palavra de Deus
[proclamada por Ló] fez sucumbir “a disciplina e os bons costumes”. E
continua assim até o presente: “A ruína do governo [guardião de disciplina
e de bons costumes na sociedade] se seguiu à ruína da Igreja [faltosa ou não
ouvida como arauto da Palavra]”. E aos “pecados comuns” sucedem os
“principais”: “o desprezo [proposital] da [dupla] Palavra,… as afrontas aos
santos [povo fiel e ministros conscienciosos]” e a jactância das “piores
ações”249.
Abraão percebe toda a perversidade de Sodoma e Gomorra. Ele se
perturba “profundamente em seu coração, pois é mais fácil morrer do que
presenciar a… indômita maldade do mundo”250, sabendo que Deus não se
conforma com esse estado de coisas. Fato que incita o patriarca a entrar em
campo mediante intercessão teimosa (cf. Lc 11.8). Ele pediu seis vezes, “e o
fez com tanto ardor e com tanta insistência que, por causa de sua excessiva
ansiedade, ele parece chegar às raias da loucura, tal é o seu desejo de ter
uma solução favorável para as miseráveis cidades”. O desafio lançado a
Deus – Destruirás o justo com o ímpio? Não fará justiça o Juiz de toda a
terra? – “parece uma oração dura [no sentido de sobremodo inconveniente],
mas é muito preciosa se a julgares de acordo com o coração de Abraão”.
Sua intercessão é “impetuosa, como se… quisesse coagir Deus” a poupar e
beneficiar uma casa ou país “por causa de um homem justo (cf. Gn 30.27,
39.5; 2 Rs 5.1)”251. Lutero arremata: “Uma oração tem que ser arrojada. Por
isso, Abraão continua a orar”252 .
Qual é, então, a importância da transmissão da história de Sodoma e
Gomorra juntamente com a intervenção do fiel Abraão? Para o preletor, às
voltas com papistas e antinomistas, é pacífico: “Deus quer ser temido, mas
detesta… os presunçosos”, que “são como se estivessem sem pecados”.
Não menos pacífico é, todavia, que Deus, destarte, persegue seu intento
final, ou seja, “que cada um de nós aprenda a temer a Deus e a se apoiar em
sua misericórdia, que revelou no Filho enviado por ele”253. Lutero
exemplifica sua dupla assertio254 através da figura das duas mós (cf. Dt
24.6): “A mó superior é o temor e o julgamento de Deus, que é sustentada
pela mó inferior, que significa a esperança e a percepção [perspectiva] de
misericórdia”. Dito diferente: ministerium verbi divini “deve conjugar a Lei
e o Evangelho, a penitência e o perdão dos pecados”. No papismo se prega
a lei, enquanto “nossos pseudoprofetas [os antinomistas]” ensinam apenas o
Evangelho; o que, segundo Lutero, “é um erro ainda mais prejudicial”. O
perdão dos pecados destina-se para aqueles “que reconhecem ter pecados e
desejam, de coração, ser libertados deles”. Mas aqueles persistentes nos
pecados “devem ser aterrorizados com a destruição de Sodoma e
conduzidos… ao temor de Deus”255.
Referente a Gênesis 22
Abraão, o mais tentado na fé, representa a justificação por graça e
fé
“A tentação de Abraão” contradiz a promessa de Deus, ainda assim o
patriarca não a abandona. Fato que Lutero aplica assim: “Quando Deus se
mostra diferente do que afirma a promessa, isso não passa de mera
tentação” e nós, como Abraão, “não devemos deixar que o bastão da
promessa seja arrancado das nossas mãos”. Por exemplo, ao nos batizar,
Deus nos promete seu Reino, e se morremos sem ver como e onde “retornar
à vida”, retenhamos “este consolo: aquilo que Deus disse uma vez [em
nosso caso, no Batismo], não muda”256.
A formulação, pôs Deus Abraão à prova, é repleta “de consolo”257. A
prova é personalizada e especial, não se dirige a ninguém outro, pois
contradiz o Quinto Mandamento258. O patriarca “está tão atento e absorto
na reverência e no temor de Deus que quase não se dá conta do que está
fazendo”259. O preletor admite não compreender nem saber explicar a cena
tomando Abraão o cutelo para imolar o filho; tampouco entende a
conformidade de Isaque à vontade de Deus e à “atitude [horripilante] do
caríssimo pai”, o que lembra Is 53.7. Lutero conclui: “Não temos exemplo
semelhante de obediência” a não ser o de Jesus Cristo260.
Neste determinado momento, pai e filho “não veem nem sentem outra
coisa senão a morte”. É fácil “crer que, para Deus, a morte é uma
brincadeira”. No entanto, como adequar isso à nossa existência? Sucede
tão-só pela fé na Palavra revelada por Deus; Abraão e Isaque fazem a
experiência antecipada daquilo que Paulo – testemunha da ressurreição de
Jesus Cristo – atesta (cf. 1 Co 15.55; 2 Co 1.9; 6.9; Cl 2.15; At 26.8)261.
Eles são “exemplos desse artigo sobre a ressurreição dos mortos [revelado
já no Antigo Testamento: Sl 31.6; 118.17262”263. No acontecimento em tela,
Deus se parece a um pai, “brincando com seu filho, tira-lhe uma maçã, mas,
entrementes, pensa em deixar-lhe toda a herança”264. A fé “tem o poder de
matar a morte”, de fazer com “que a morte não seja morte, embora a
percepção de todos ateste que a morte está presente”. Ante tal prodígio
inescrutável, a saber, “a morte é vida”, Lutero pasma: “Meu asno fica
parado embaixo e não consegue subir a [tamanha] montanha”265. Urge que
nós, com Abraão e Isaque, “aprendamos a crer que a vida e a morte são
idênticas para as pessoas piedosas [enraizadas na Palavra revelada por Deus
e dela sempre dependentes]”266.
Os brados do Anjo do Senhor levam Lutero a declarar: “Satanás… me
tentou muitas vezes a fim de que eu pedisse um sinal de Deus… Mas longe
de mim ceder a essa tentação [à qual não resistem espiritualistas]”. Desde o
enunciado de Deus “OUÇAM ESTE (cf. Mc 9.7 par)” está claro: “O
Batismo…, a Eucaristia, as chaves, o ministério da Palavra” superam “todas
as aparições de todos os anjos”. Sim, o preletor ora “diariamente a Deus
para que não” lhe “mande qualquer anjo”267. E acrescenta: a Bíblia
descreve “Deus como se ele fosse um ser humano” que fala conosco de um
jeito que leva em conta a “limitação da nossa capacidade de compreensão”.
A “encarnação de Deus foi predita [na terra de Moriá] para que tivéssemos
uma forma definida de conhecer e apreender a Deus”268. E o nome de
Moriá “é repleto de consolo, pois implica uma relação entre o que teme,…
invoca a Deus e dá graças, e Deus, que aceita ou ouve votos e preces”269.
“Abraão foi justo pela fé antes de ser reconhecido por Deus como tal.”
Lutero focaliza as falas do Anjo do Senhor, desdobrando a doutrina da
justificação por fé. Ele a mantém contra os discordantes que se apoiam no
“equivocado e delirante Tiago (2. 21)”. Pois “não se pode concluir… que os
frutos justificam” e “uma árvore se torna boa a partir de seus frutos”. O
inverso vale: quem “foi justificado pela fé [antes]”, como Abraão (Gn 15),
[este] “é percebido [depois] como justo pelos frutos”270. Sponte sua, Deus
falou com o patriarca oito vezes; “ainda que alguém faça todos os milagres,
sim, inclusive ressuscite os mortos271, deve-se repudiá-lo se não vier
acompanhado da Palavra”, como ocorre com “o vigário de Cristo”, aliás, “o
anticristo”272. Certamente, se “opomos a Palavra às obras” ficamos em
desvantagem perante os que fazem o contrário, uma vez que as pessoas se
impressionam “mais pela aparência… das obras do que pela Palavra”.
Contudo, “os piedosos conseguem enxergar” e valorizar as “obras
verdadeiramente… admiráveis”, realizadas na Igreja da Reforma: pregação
e ministração dos sacramentos, fôlego na execução das mais diversas
profissões, subordinação a pais e autoridades – coisas desprezadas pelos
papistas por lhes parecerem comuns273.
Com seu juramento por mim [si] mesmo, Deus atesta: “… prefiro não
ser Deus a vos enganar”. Ora, “isso é condescendência”,274 visceralmente
oposta a qualquer filosofar sobre Deus. Na teologia formada pela Bíblia,
Deus é “conhecido eapreendido não como ele é em si, mas como aquele
que sai de si”, vindo extra nos, ou seja, “que ele é nosso Deus”275. Logo,
blasfema quem diz: “Não sei se Deus se preocupa tanto comigo”. Essa
dúvida, implantada “em nós pelo pecado original”, “faz com que nosso
coração clame constantemente contra as promessas de Deus”, embora este
tenha dado seu Filho como penhor de que é plenamente digno de nossa
irrestrita confiança. A magnitude de atribuir “a Deus o crime da mentira”
[da falha de seu comprometimento conosco] “pode ser estimada pela
magnitude da promessa,… do penhor e pelo fato de Deus amaldiçoar-se a si
mesmo [em nosso favor]”. Ele quer que nós sejamos despertados – por
Abraão e, principalmente, por seu próprio Filho – para a confiança que o
glorifica e nos proporciona “uma força muito maior do que nosso temor do
mundo, [da morte,] do diabo ou… do inferno”276.
Lutero se entranha sobremodo no original linguístico da passagem nela
[na descendência ou semente de Abraão] serão benditas todas as nações, e
conclui pela tradução mais apropriada: “´Em tua semente todas as nações
abençoarão a si mesmas’”. E, em viés teológico, explana: a bênção de Deus
é – igual a sua Palavra277 – real, “tanto física quanto espiritualmente”278, é
universalizada em Jesus Cristo, a bênção em pessoa e ação (cf. Gl 3.14-
16279), que “permeia o corpo e a alma”. Pois “a semente é verdadeiro Deus
e homem numa só pessoa. É homem, porque é da semente de Abraão; é
Deus, porque confere a bênção”. Agora cada aflito por seus pecados e
angustiado pelo juízo de Deus pode gloriar-se: Cristo é “minha unção, vida,
salvação, porque estou unido a ele mediante a fé, e por esse que abençoa
sou denominado de abençoado, e eu mesmo me considero abençoado”280.
A bênção, personalizada e universalizada em Jesus Cristo, tem dupla
função. Uma vez, torna patente que todas as nações e todos os seres
humanos estão, devido ao pecado original, sob a maldição e, outra, que são
libertados dela, aceitando em fé a aplicação da bênção, aliás, a justiça ante
Deus. E fé é confiança cega e irrestrita em Deus como Abraão a evidencia.
Neste sentido, confiança corresponde à certeza de salvação. Consta: Abraão
creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça; “ali não está escrito:
‘Porque fizeste, porque obedeceste’”. Razão pela qual o patriarca é “pai da
fé”281. O ensino papista de “que se devem fazer obras, mas que não se deve
depositar confiança nelas é uma falácia”. Pois constitui “prova conclusiva”
de que, já que não existe confiança, inexiste justiça perante Deus –
conjuntura que surte desespero abismal nas pessoas282.
“É verdade que fé e obras combinam…283 Mas é somente através da fé
que se obtém a bênção”. “As obras não têm o mérito de abençoar, mas são
os frutos da pessoa abençoada”284. Lutero exemplifica isso em sua pessoa:
“Assim, eu oro todos os dias… , mas não sou justificado por causa dessa
oração. Por outro lado, se eu não fosse justo, eu não oraria”. E na história de
Abraão averigua “que Deus ama seus santos e não só os chama e os
justifica, mas também os engrandece e glorifica”285.
Por fim, o preletor resume a quintessência dessa perícope em três
pontos. Primeiro: ser “audaz, corajoso e confiante” nos afazeres diários.
Segundo: em “questões religiosas, toda a audácia e temeridade, todos os
esforços e preferências próprios estão totalmente proibidos”. Terceiro: na
prática da fé, “deve-se perguntar antes de mais nada: ‘Quem ordenou
[determinada atitude ou ação]?’”. Tomara “que nos contentemos, de uma
vez por todas, com a doutrina que nos foi transmitida”, a saber, a
justificação por graça e fé, mediada e aplicada pelos meios que o próprio
Deus institui. Urge que a vivamos no dia a dia no mundo com seus desafios
e longe de quaisquer “atos autoescolhidos de devoção religiosa”286.
Do doutor Martinho Lutero ao piedoso
leitor287
Não empreendi minhas preleções sobre Gênesis com a finalidade de
publicá-las e oferecê-las ao público. Minha intenção era que servissem à
nossa escola e exercitassem não só meus ouvintes, mas também a mim
mesmo na Palavra de Deus e este [meu] corpo não alcançasse a morte em
meio a uma velhice ociosa e totalmente inútil. Para isso fui incentivado pelo
Salmo [146.2)]: “Cantarei louvores ao meu Deus enquanto eu viver”. Ao
mesmo tempo, para que eu, quando morrer, seja encontrado naquela exígua
grei dos pequeninos, de cuja boca Deus suscitou louvor com que destruir o
inimigo e o vingador288. Ademais, mesmo sem isso, o mundo já tem
monstruosidades e diabos suficientes que blasfemam, depravam e
pervertem a Palavra de Deus em superabundância para que Satanás seja
adorado e Deus não seja ornado em sua glória.
Essas preleções contaram com dois colegas, certamente homens bons e
piedosos, o doutor Caspar Cruciger289, cujas obras testemunham
suficientemente o quanto ele é carregado pelo Espírito e pelo amor de Deus,
e Jorge Rorário290, presbítero de nossa Igreja, a cujo trabalho M. Vito
Teodoro291, pregador da Igreja em Nürnberg, também acrescentou, em
seguida, o seu. Os três, todos, sem dúvida, fiéis e diligentes ministros da
Palavra de Deus, foram de plena opinião que essas preleções deviam ser
publicadas. De minha parte, para usar uma palavra de Paulo, eu permito que
eles tenham sua opinião292 e percebo que eles são movidos por um zelo
piedoso para que as igrejas de Deus sejam ajudadas. Aprovo, pois,
plenamente a vontade deles e peço que Deus os abençoe ricamente.
Preferiria, contudo, que tanto trabalho dedicado e [tantas] horas
preciosas fossem aplicados num autor melhor, pois não sou aquele do qual
se possa dizer: ele o fez; nem sequer se possa dizer: ele tentou fazê-lo.
Estou parado no último lugar da fila e dificilmente ouso dizer: eu quis fazê-
lo. Eu gostaria de ser digno de ser o último da última fila. Pois tudo foi dito
sem preparação e ao modo do povo, conforme as palavras vieram à boca;
muitas vezes também misturei palavras em alemão, sendo, certamente, mais
prolixo do que gostaria de ser.
Não que eu tenha consciência de ter dito coisas erradas; atentei o quanto
pude para não deixar dúvidas e transmitir claramente tudo, segundo as
forças de minha capacidade, aquilo que eu queria [2] que fosse
compreendido. Mas sinto demasiadamente que coisas tão grandiosas foram
tratadas por mim de maneira mais superficial do que convinha e era
necessário. Mas me consolo com o provérbio popular: “Infeliz daquele que
faz coisas melhores do que pode”293. E com aquele outro: “Deus não quer
que se exija de alguém alguma coisa além das suas capacidades”294.
Mas há necessidade de muitas palavras? É da Escritura, sim, da
Escritura do Espírito Santo que estamos tratando. E quem (como diz Paulo)
é competente para [tratar d]ela? Ela é um rio, como disse Gregório295, em
que um cordeiro fica de pé e um elefante nada. Ela é a sabedoria de Deus,
que torna tolos os sábios do mundo e o próprio príncipe do mundo, que
torna as criancinhas bem articuladas e eloquentes.
Por fim, o melhor não é aquele que compreende tudo ou não esquece
nada (pois alguém assim jamais existiu, existe ou existirá), mas quem ama
sobretudo a Palavra de Deus, como diz o Sl 1[.2]: “Bem-aventurado aquele
que ama a Lei do Senhor e medita sobre ela”. Por isso, é mais que suficiente
que essa sabedoria nos agrade sobremaneira, que a amemos e meditemos
sobre ela dia e noite296.
Também vemos os comentários dos Pais. Certamente não lhes faltou
boa vontade, mesmo assim não alcançaram a perfeição. Quão ridículos são
aqueles que, atualmente, tentaram desvendar o conteúdo da Escritura
através do seu aprimorado e imaculado latim, ou os seus comentários,
enquanto eles próprios são vazios de espírito e de inteligência e são, como
se diz [popularmente], como asnos diante de uma lira.
S. Jerônimo diz corretamente, que cada um traz ao tabernáculo do
Senhor aquilo que pode: um traz ouro, prata e pedras preciosas; o outro,
peles e pelos de cabras. Pois o Senhor tem necessidade de tudo isso e se
agrada igualmente da boa vontade de todos, embora lhe tragam oferendas
desiguais.
Por isso,também permito que esses pequenos pelos de minhas cabras
sejam publicados como oferenda e sacrifício a Deus, a quem peço, em
Cristo, nosso Senhor, que dê a outros, por meu intermédio, a oportunidade
de fazer coisas melhores ou, ao menos, fazer melhor tudo [o que eu fiz].
Pois aos adversários e ao diabo, o deus deles, eu espero, soberbo e
vangloriando-me no Senhor, ter dado muitíssimas ocasiões (como sempre
fiz de bom grado desde o início) de caluniar e praguejar, como merecem e
são dignos de fazer, pois não são capazes nem querem fazer algo de bom,
como diz Paulo, Tt 1[.15,16]: “De mente corrompidos e reprovados para
qualquer obra boa”.
Nosso Senhor Jesus Cristo aperfeiçoe sua obra, que ele iniciou em nós,
e acelere o dia de nossa redenção, pelo qual (pela graça de Deus), de
cabeças erguidas, pedimos, suspiramos e esperamos em verdadeira fé e de
boa consciência, mediante a qual servimos ao mundo ingrato e ao inimigo
incorrigível de sua própria salvação e, com mais razão, de nossa. Vem,
Senhor Jesus. E aquele que te ama diga: Vem, Senhor Jesus, Amém.
Dia do Natal de Cristo, no ano de 1544297.
Gênesis 1.1-2.25
[5,33] A obra do primeiro dia
No princípio Deus criou o céu e a terra. [1.1]
[6,12] Ele [Moisés] chama de céu e de terra não o que são agora, mas as
massas toscas e informes, como eram até então. A água era escura e, por ser
mais leve por natureza, circundava como um lodo ou como uma densa
névoa a própria terra, igualmente informe. Deus criou essa matéria, de certa
forma a primeira, por assim dizer, de sua obra futura, de acordo com as
palavras claras do Decálogo, não fora dos seis dias, mas no princípio do
primeiro dia.
Mas, pelo que vejo, Moisés até agora não menciona o primeiro dia,
porque, mais tarde, essas massas confusas dos toscos céu e terra receberam
forma e, por assim dizer, receberam o último retoque e foram separadas. O
que ele chama depois de abismo e água, ou seja, a água informe e bruta,
ainda não separada, ainda não adornada com uma forma específica – isto
ele chama aqui de céu. Se Moisés tivesse falado diferentemente e tivesse
dito: “No início, Deus disse: ‘Faça-se o céu’” etc., não teria havido, depois,
lugar para repetir a palavra “ele disse”, quando essas águas informes foram
iluminadas e se criou a luz.
Portanto, a opinião muito simples de Moisés é esta: tudo que existe foi
criado por Deus. Além disso, no início do primeiro dia, foi criada uma
massa tosca de lodo ou de terra e de névoa ou água. Mais tarde, no tempo
restante do primeiro dia, Deus infundiu neles a luz e fez aparecer o dia, para
mostrar essa massa tosca do céu e da terra, semelhante a uma semente
tosca, mas capaz de produzir algo.
Mas a terra estava deserta e vazia. [1.2a]
O significado das palavras hebraicas tohu e bohu é mais abrangente do
que se possa traduzir. Elas são usadas frequentemente nas Sagradas
Escrituras; tohu é empregado no sentido de “nada”, de modo que a terra é
tohu, sendo simplesmente deserta em si, onde não há nenhum caminho,
nenhuma distinção de lugares, nem colina, vale, grama, ervas, animais ou
seres humanos. Essa foi a primeira aparência da terra inculta, pois como o
lodo estava misturado com a água, não se podiam perceber as diferenças
que se notam agora, depois de ela ter sido cultivada.
Assim diz Isaías no cap.[ítulo] 34[.11], onde ele ameaça a terra com a
desolação: “Será estendido sobre ela o cordel tohu e o prumo bohu”, ou
seja, será devastada de forma que não sobrem seres humanos nem animais
de carga, as casas estejam desertas e [7,6] tudo esteja em confusão e
desordem. Desse modo, Jerusalém foi destruída pelos romanos mais tarde, e
Roma, pelos godos, de tal maneira que nem sequer se podem apontar os
vestígios dessa cidade antiga que era tão célebre.
Portanto, Moisés chama de tohu e bohu o que sobrar depois que todas
estas coisas que vês agora – a terra elevando-se acima das águas, o céu
adornado de estrelas, os campos com árvores, as cidades com casas etc. –
tiverem sido removidas e misturadas como numa massa tosca.
Assim como a terra estava envolta em trevas ou em águas em que havia
trevas, também o céu era informe e tohu, não só porque carecia do
ornamento das estrelas, e bohu, porque ainda não havia sido separado da
terra, mas porque, até então, estava sem luz; era um abismo escuro e
profundo, que se espalhou em volta da terra como uma névoa muito densa
ou como o lodo já mencionado. Da separação das águas também se falará
mais tarde.
Temos, pois, como primeiro ensinamento de Moisés que, no primeiro
dia, foram criados o céu e a terra. Mas era um céu sem forma, isto é, que
ainda não estava separado das águas; sem luminares; e ainda não havia sido
levantado. A terra era igualmente informe, sem animais, sem rios e sem
montes.
De forma alguma posso concordar com a afirmação de Lira298 de que a
matéria é pura potência e pode adquirir substância por si; tampouco, com o
que diz Agostinho em suas Confissões299 – que a matéria não é quase nada
e que não se pode pensar em algo intermediário. Como podes chamar de
mero nada aquilo que já é coisa e substância de tal forma que Moisés o
chama de céu e terra? A não ser que queiras chamar artificialmente de
matéria algo como a madeira, que ainda não é uma caixa ou um banco. Mas
esta, os filósofos chamam de materiam secundam.
Deve-se considerar antes o que diz São Pedro, 2 Pedro 3[.5,6], quando
fala sobre os ímpios: “Eles ignoram deliberadamente que, no passado, já
houve céu e terra, [e que esta] surgiu da água e através da água, [criada]
pela Palavra de Deus, pela qual o mundo, que então existia, foi inundado
pela água e pereceu”. Com isso, Pedro parece aludir ao fato de que a terra
foi estabelecida a partir da água e mediante a água, e depois foi tirada da
água e, por assim dizer, colocada na luz, como parece flutuar no mar até
hoje. Isso, diz ele, os ímpios sabiam e, por essa razão, por causa de sua
confiança neste estado de coisas, não temiam nenhum perigo [proveniente]
da água, pois estavam conscientes de que ela era o fundamento da terra. E,
no entanto, a água destruiu a terra que a conservava e carregava, do mesmo
modo como a terra perecerá, no fim, pelo fogo. Assim, S. Pedro parece
referir-se ao fato de que a terra estava na água e [8,6] foi tirada dela. Isso
seja o suficiente sobre a matéria, pois não vejo que uma discussão mais
detalhada possa ser de algum proveito.
E havia trevas sobre a face do abismo. [1.2b]
Água e abismo e céu são empregados aqui para designar a mesma coisa,
ou seja, aquela massa escura e informe que depois foi iluminada e separada
pela Palavra ou pelo Verbo. Estas são as funções da segunda Pessoa, isto é,
de Cristo, o Filho de Deus: adornar e separar a massa informe que foi
produzida a partir do nada. Além disso, essa pode ser a causa por que
Moisés não empregou a palavra “Ele disse” no primeiro caso. De fato,
alguns alegam isso como razão.
E o Espírito do Senhor movia-se sobre as águas. [1.2c]
Alguns interpretam o Espírito do Senhor simplesmente como vento.
Mas, se Espírito, aqui, deve ser compreendido como algo material, eu
prefiro referi-lo ao fenômeno daquela massa informe do céu e da terra, que
ele também chama de abismo, que começou a se mover, e que se move até
hoje, pois a água nunca permanece parada, mas sempre se movimenta na
superfície.
Prefiro, porém, entendê-lo como sendo o Espírito Santo, pois o vento é
uma criatura, que ainda não existia, porque, até então, aquelas massas de
céu e terra ainda estavam misturadas. Também há consenso na Igreja de que
aqui se manifesta o mistério da Trindade. O Pai cria o céu e a terra a partir
do nada por meio do Filho, que Moisés chama de Palavra ou Verbo. Sobre
estes se coloca o Espírito Santo. Assim como a galinha se senta sobre os
ovos, mantendo-os quentes para chocar os filhotes como se lhes desse vida
mediante o calor, assim a Escritura diz que o Espírito Santo [movia-se sobre
as águas] como se ele se sentasse sobre as águas, para dar vida àquelas
substâncias que deviam ser animadas e ornadas, pois a função do Espírito
Santoé dar vida.
Pelo que vejo, isso é suficiente a respeito dessa questão. Deixemos,
pois, de lado outras opiniões e estabeleçamos o seguinte: Deus criou o céu e
a terra a partir do nada como uma massa informe, de modo que a terra
informe fosse cercada pelo céu informe ou pela névoa.
Resta-nos dizer também algo sobre as palavras. E aqui logo se
encontram os que discutiram de várias formas e com sutileza sobre a
expressão “no princípio”. Eles explicaram “no princípio” como “no Filho”,
por causa da passagem em João, quando Cristo responde aos judeus que
perguntam quem ele era, cap[.ítulo] 8[.25]: “O princípio do qual eu falo”.
Também por causa do Sl 110[.3]: “Contigo está o princípio no dia de tua
virtude”. Essa passagem quase todos explicam da seguinte maneira: contigo
está o Filho [9,6] com poder divino. Mas os que sabem grego estão cientes
de que, em João, ten arxen300 deve ser interpretado como um advérbio, uma
figura de linguagem muito comum entre os gregos. Portanto, brinque aqui
quem quiser, eu prefiro as coisas mais simples, de modo que possam ser
entendidas pelas pessoas incultas.
Por isso, sou de opinião que Moisés quis indicar o princípio do tempo,
de maneira que “no princípio” é como se ele quisesse dizer: naquele tempo,
quando não havia tempo, ou, quando o mundo começou, ele começou de tal
maneira que o céu e a terra foram criados primeiro por Deus a partir do
nada de uma forma tosca, não embelezados como estão agora. No entanto,
não permaneceram durante muito tempo assim, começando logo, no
primeiro dia, a ser adornados com luz.
Os arianos301 imaginaram que os anjos e o Filho de Deus tivessem sido
criados antes do princípio. Mas deixemos essas ideias blasfemas de lado.
Tampouco nos ocuparemos com outra questão: que Deus fazia antes do
princípio do mundo? Ele descansava ou não? Agostinho relata, em suas
Confissões, que alguém teria respondido da seguinte forma a essa pergunta:
“Deus preparava o inferno para quem procura desvendar coisas
indiscretas”. [Respondeu desse modo], naturalmente, para evitar (como diz
Agostinho) que se fizessem perguntas inconvenientes.
Agrada-me a modéstia de Agostinho. Ele diz, com toda franqueza, que,
em questões dessa natureza, ele recolhe as velas da sua criatividade302.
Mesmo que especulemos e discutamos infinitamente, essas questões
permanecem incompreensíveis. Se nem sequer compreendemos plenamente
as coisas que vemos e fazemos, quanto menos deixaremos de entender essas
questões. Pois que tu achas que existiu fora ou antes do tempo? Ou que
pensas que Deus fez antes que existisse o tempo? Por isso, abandonemos
essas questões e permaneçamos com a opinião de que Deus, antes da
criação do mundo, era incompreensível em seu descanso essencial, mas que
agora, depois da criação, ele está dentro, fora e acima de todas as criaturas,
ou seja, continua incompreensível. Nada mais pode ser dito, porque nosso
intelecto não compreende o que está fora do tempo.
Por isso, Deus também não se manifesta senão através de obras e da
Palavra, pois estas, de algum modo, são compreensíveis; as demais coisas,
tais como, p. ex., estar fora do tempo, antes do mundo etc., que são próprias
da divindade, não podem ser captadas ou compreendidas. Talvez, [num
primeiro momento,] Deus tenha aparecido tal qual ele é303 a Adão, mas,
depois do pecado, apareceu-lhe através de um zumbido, como se estivesse
envolvido num invólucro. De forma semelhante, mais tarde, no deserto,
envolveu-se no tabernáculo propiciatório, em nuvem e fogo. Por isso,
Moisés chama também essas coisas de “faces” de Deus304, através das quais
ele se manifestou. Caim chama de face de Deus o local onde, antes, havia
trazido o seu sacrifício305, pois nossa natureza foi tão deformada pelo
pecado, sim, tão corrompida [10] e pervertida, que ela não consegue
reconhecer Deus ou compreender sua natureza a não ser que ele possa ser
percebido [pelos sentidos].
É insano discutir muito sobre Deus fora e antes do tempo, pois isso
significa querer compreender a divindade ou a essência divina tal qual ela é.
Como isso é impossível, Deus se cobre com obras e [se reveste] de certas
formas, como se apresenta hoje no Batismo, na Absolvição etc. Se te
afastares dessas formas [nas quais Deus se apresenta], entrarás no que está
fora de qualquer medida, [fora] do espaço e do tempo e cairás no vazio,
sobre o qual não pode haver, segundo o filósofo, nenhum conhecimento.
Por isso é justo que deixemos de lado essa questão e nos contentemos com
a simples explicação da expressão “no princípio”.
Mais digno de observação, porém, é que Moisés não diz: no princípio,
Adonai criou o céu e a terra, mas usa o vocábulo no plural Elohim, um
nome que é empregado em Moisés e em outras passagens para designar os
anjos e juízes ou magistrados, como, por exemplo, no Salmo 82[.6]: “Eu
disse: ‘Vós sois deuses’”. Certo é que, aqui, designa-se o único Deus
verdadeiro, pelo qual foram criadas todas as coisas. Por que, então, ele usa
o plural?
Os judeus interpretam Moisés de várias maneiras, mas para nós está
claro que ele quis indicar veladamente a Trindade ou a pluralidade de
Pessoas em uma só natureza divina. Ao falar da obra da criação, segue-se
claramente que ele exclui os anjos. Permanece, pois, este paradoxo: Deus é
um só, mas essa unidade perfeita é, também, a mais perfeita pluralidade.
Por que outra razão Moisés empregaria o plural?
Por isso, deve-se rejeitar o sofisma inconsistente dos judeus de que
[Moisés] usou o plural para realçar a majestade [divina]. Que espaço há,
aqui, para a majestade? Principalmente, porque não é comum, em qualquer
idioma, que se use, como é habitual para nós, alemães, o plural majestático
quando falamos de uma só pessoa.
Em segundo lugar, embora gritem muito que este vocábulo é atribuído a
anjos e a seres humanos, nessa passagem, ele é plural e não pode ser
compreendido senão como se referindo ao único Deus verdadeiro, haja vista
que aqui se fala da criação. Moisés poderia ter optado por muitos outros
termos se não quisesse indicar, deliberada e espiritualmente que, na
natureza divina, fora da criação, há uma pluralidade de pessoas. É claro, ele
não diz expressamente que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um único e
verdadeiro Deus, pois isso teve de ser reservado ao ensinamento do
Evangelho. Para ele, foi suficiente indicar essa pluralidade de pessoas com
um vocábulo no plural que, mais tarde, também é atribuído a seres
humanos.
Tampouco deve causar espanto que a mesma palavra seja aplicada, mais
tarde, a criaturas. Por que Deus não nos comunicaria seu nome, quando
comunica seu poder e seu ofício? Afinal, perdoar pecados, reter pecados,
vivificar etc., são obras da única majestade divina; no entanto, essas
mesmas obras também são atribuídas a seres humanos e acontecem
mediante a palavra que eles ensinam. Paulo, por exemplo, diz : “Para que
eu salve muitos de minha carne” [Rm 11.14]. Igualmente: “Tornei-me tudo
para todos, para que salvasse a todos” [1 Co 9.22]. Portanto, assim como
essas obras são verdadeiramente divinas, mas também podem [11] ser
atribuídas a seres humanos e realizadas por eles, o nome de Deus significa
verdadeiramente Deus, embora também possa ser atribuído a seres
humanos.
Ário não pôde negar que Cristo existia antes da criação do mundo, pois
o próprio Cristo diz : “Antes que Abraão existisse, eu sou” [Jo 8.58]. E em
Provérbios [8.22] está escrito: “Antes que existissem os céus, eu sou”. Por
isso, ele passou a dizer que antes de tudo mais foi criado Cristo, ou o Verbo,
que, depois, criou todas as demais coisas, sendo ele próprio a criatura mais
perfeita, embora não existisse sempre. A essa opinião absurda e ímpia deve-
se opor o que Moisés diz de forma concisa: “no princípio”, sem afirmar que
houvesse algo antes do princípio senão Deus, ao qual dá um nome no
plural.
Em tais opiniões absurdas incorrem os pensamentos humanos, quando
desejam refletir sobre coisas tão grandes sem o Verbo ou sem a Palavra.
Sequer sabemos o que nós mesmos somos, como diz Lucrécio306: “Não se
conhece, até agora, anatureza da alma”. Sentimo-nos capazes de julgar,
contar, discernir quantidades e criaturas espirituais, o verdadeiro e o falso,
mas ainda não somos capazes de definir o que seja a alma. Quanto menos
somos capazes de entender a natureza divina. Nem sabemos como é gerada
a nossa vontade. Ela não é produzida pela qualidade nem pela quantidade,
[sabemos] apenas que ela é gerada de alguma forma. Que, pois, saberíamos
das coisas divinas?
Por isso, é insano discutir sobre Deus e a natureza divina sem a Palavra
ou sem as formas [das quais ele se reveste], como costumam fazer os
hereges. Eles pensam sobre Deus com a mesma segurança com que
discutem sobre um porco ou uma vaca. Por isso, também recebem uma
recompensa digna da temeridade com que chegam tão perigosamente a esse
equívoco. Pois quem deseja estar seguro e a salvo em questões de tamanha
importância, deve ater-se simplesmente às formas, aos sinais e às aparências
com as quais a divindade se apresenta, como sua Palavra e suas obras. Pois
é em sua Palavra e em suas obras que a divindade se mostra. Portanto,
quem entra em contato com essas coisas é curado da mesma forma como foi
curada a mulher que sofria de fluxo sanguíneo quando tocou as vestes [de
Cristo]307.
Aqueles, porém, que querem alcançar a Deus fora desses sinais
aparentes (sem a Palavra), esforçam-se para subir ao céu sem [o auxílio de]
uma escada; defrontam-se com a majestade [divina], tentam compreendê-la
sem os sinais aparentes e, por isso, caem e perecem. Foi o que aconteceu
com Ário. Ele inventou um mediador entre o Criador e a criatura e alegou
que todas as coisas haviam sido criadas por esse mediador. Ele
necessariamente tinha que se confundir desse jeito depois de ter negado,
contrariando a Escritura, a pluralidade das pessoas na divindade. Como
discutiu essas questões sem a Palavra de Deus e fora dela, baseando-se
unicamente em seu próprio raciocínio, ele não pôde deixar de incorrer em
erro.
Assim também acontece com um monge que, por não seguir a Palavra,
teoriza sobre um Deus sentado no céu, que salvará quem use um capuz e
observe certas regras de vida. Ele quer subir ao céu à parte de Deus ou sem
que ele vá à frente [para abrir-lhe caminho]. De modo semelhante, os judeus
tinham seus ídolos e seus bosques308. A queda e a destruição de todos eles
são as mesmas, pois incidem em erro e, abandonando a Palavra, seguem
cada qual seus próprios pensamentos.
[12] Portanto, se queremos andar em segurança, acolhamos o que a
Palavra aconselha e aquilo que Deus mesmo quer que saibamos. Deixemos
de lado as outras coisas que não são mostradas na Palavra. Afinal, que me
interessa ou como posso compreender o que Deus fez antes da criação do
mundo? Estes são pensamentos da divindade sem nenhuma feição; assim
também são [os pensamentos] pelos quais os judeus se deixam desviar deste
texto, de modo que não creem em várias pessoas, embora seja evidente que
Moisés tenha se referido a Deus no plural.
Um decreto condena os antropomorfistas por falarem de Deus como se
se referissem a um ser humano, por lhe atribuírem olhos, ouvidos, braços
etc. Essa condenação, no entanto, é injusta, pois de que outra maneira
pessoas podem falar com [outras] pessoas sobre Deus? Ora, se é heresia
pensar sobre Deus dessa forma, sem dúvida, torna-se melindroso falar sobre
a salvação das crianças, que se referem a Deus e pensam a respeito dele de
forma infantil. Deixem-se de lado as crianças, e passem-me o mais instruído
doutor – de que modo ele ensinará ou falará de modo diferente sobre Deus?
Portanto, cometeu-se uma injustiça contra pessoas boas, pois embora
cressem em Deus onipotente e salvador, elas foram condenadas por dizerem
que Deus tem olhos para ver os pobres, que tem ouvidos para ouvir os que
oram etc. Afinal, de que outra maneira a nossa natureza pode compreender
a substância espiritual? A própria Escritura utiliza, a cada passo, esse tipo
de linguagem. Portanto, essas pessoas foram condenadas injustamente;
deve-se, antes, louvar o empenho que se faz para simplificar as coisas, o
que é algo absolutamente necessário na doutrina. É necessário que Deus,
quando se nos revela, o faça através de um meio compreensível ou um sinal
aparente e diga: eis que, certamente, me apreenderás sob este sinal. Quando
acolhemos esse sinal e através dele adoramos, invocamos e sacrificamos,
diz-se que invocamos a Deus e sacrificamos a ele corretamente.
Assim, não resta dúvida de que nossos primeiros pais adoravam a Deus
de manhã cedo, ao nascer do sol, admirando o Criador na criação, ou, para
expressá-lo mais claramente, porque eram lembrados [do Criador] através
da criação. Seus descendentes mantiveram esse costume, todavia, sem
compreendê-lo. Dessa forma, ele transformou-se em idolatria, não por
causa do próprio sol, que é uma criatura boa de Deus, mas porque se
extinguiu lentamente a doutrina que o diabo não consegue suportar. Assim,
quando Satanás desviou Eva da Palavra, ela imediatamente caiu no pecado.
Voltando aos antropomorfistas, creio que, de forma nenhuma devem ser
condenados, porque também os profetas descrevem Deus sentado num
trono. Quando as pessoas simples ouvem isso, logo pensam num trono de
ouro maravilhosamente decorado, embora saibam que este material não
existe no céu. Isaías [6.1], por exemplo, escreve que viu o Senhor [trajando]
uma veste muito ampla, pois Deus não pode ser descrito ou visto tal qual
ele é. Por isso, essas figuras agradam ao Espírito Santo, e as obras de Deus
são apresentadas de modo que as compreendamos. São elas: [Deus] criou o
céu e a terra, enviou seu Filho, fala por meio do Filho, que batiza, que
[13,6] perdoa os pecados pela Palavra. Quem não compreende isso, jamais
compreenderá a Deus. Eu paro aqui, pois essas coisas já foram discutidas
exaustivamente por mim muitas vezes. Foi necessário, contudo, abordá-las
dessa vez por causa de Moisés, que os judeus maltratam tão miseravelmente
nesta passagem, a partir da qual provamos que há várias pessoas na
divindade. Mas continuemos com o texto.
E Deus disse: haja luz, e houve luz. [1.3]
Eu disse que no início foi criada, através da Palavra, aquela massa
informe de terra e de céu (que Moisés chama de águas e de abismo) e que
isso deve ser incluído na obra do primeiro dia, embora esta seja a primeira
vez que Moisés fala assim: “Deus disse: haja luz” etc. Esta é uma forma
realmente admirável de falar e é desconhecida aos escritores de todas as
outras línguas: Deus, através do seu falar, faz com que algo que não existia
passe a existir. Aqui, Moisés menciona, pela primeira vez, o meio e o
instrumento que Deus Pai usou em sua obra criadora, ou seja, a Palavra.
Os hebreus fazem uma diferença entre as palavras amar e dabar, que
precisamos observar diligentemente. Nós traduzimos ambas com “dizer” ou
“falar”, mas para os hebreus não é assim. Amar significa apenas e
estritamente a palavra proferida, e dabar também denota uma coisa. Assim,
quando os profetas dizem: “Esta é a Palavra de Deus”, eles empregam o
termo dabar e não amar. Hoje, os neoarianos309 enganam as pessoas que
não conhecem a língua hebraica, dizendo que a palavra denota uma coisa
criada e que, desse modo, se diz que também Cristo é uma Palavra. Contra
esta ímpia e tola distorção, o leitor é lembrado, aqui, corretamente que
Moisés emprega o verbo amar, que significa simples e estritamente a
palavra proferida, de modo que a palavra é algo distinto de quem fala, assim
como é distinto quem fala e o que é falado.
Portanto, da mesma forma como provamos acima a pluralidade de
pessoas a partir do texto, assim fica evidente, aqui, a distinção de pessoas.
[Moisés] diz que Deus é, por assim dizer, o falante que cria, sem utilizar
matéria, fazendo o céu e a terra a partir do nada, unicamente mediante a
Palavra que ele profere.
Compara isso com o Evangelho de João: “No princípio era o Verbo” [Jo
1.1] (isto está de acordo com Moisés). Ele diz: antes da criação do mundo
não havia qualquer criatura, e Deus tinha a Palavra. Que é a Palavra ou que
ela faz? Ouve Moisés. A luz, diz ele, aindanão existia, mas as trevas
transformaram-se do nada naquela criatura tão eminente, a luz. Através do
quê? Através da Palavra. [14,6] Portanto, no princípio e antes de qualquer
criatura, existe a Palavra, e a Palavra é tão poderosa que cria todas as coisas
a partir do nada. Segue-se, incontestavelmente, o que João acrescenta de
forma clara: a Palavra é Deus, mas uma pessoa distinta de Deus Pai, assim
como são distintos a palavra e quem a profere. Esta distinção, no entanto, é
tal que, por assim dizer, sua essência permanece uma unidade uníssima.
Essas questões são sublimes, e não convém ir além do limite ao qual
nos conduz o Espírito Santo. Por isso, permaneçamos nisto: quando o céu e
a terra informes surgiram a partir do nada, mediante a Palavra, ambos
deformados por névoas e trevas, surgiu também a luz do nada, isto é, das
próprias trevas, mediante a Palavra. Paulo aponta para essa primeira obra do
Criador como uma obra singular: “[Deus] ordenou que a luz brilhasse do
meio das trevas” [2 Co 4.6] etc. Ele diz que [o Criador] fez a luz mediante
uma ordem. Logo, para confirmar a nossa fé basta [assimilar] que Cristo é
verdadeiro Deus, que estava com o Pai desde a eternidade, desde antes que
o mundo fosse criado e que, através dele, que é a sabedoria e a Palavra do
Pai, o Pai fez todas as coisas. Deve-se observar também nesta passagem que
Paulo considera a conversão dos ímpios uma nova obra da criação, que
acontece igualmente através da Palavra.
Aqui, a razão começa a delirar, levantando perguntas tolas. Se, diz ela, a
Palavra sempre existiu, por que Deus não criou o céu e a terra antes
mediante essa Palavra? Ou: como o céu e a terra só passaram a existir
quando Deus começou a falar, parece que a Palavra só iniciou quando
surgiu a criatura etc. É preciso banir esses pensamentos ímpios, pois não
podemos estabelecer ou pensar qualquer coisa a respeito dessas questões,
porque fora daquele início da criação nada havia senão a essência divina
nua e crua e o Deus tal qual ele é. Como, porém, ele é incompreensível,
também é incompreensível o que existia antes do mundo, porque não havia
nada senão Deus.
Segundo os nossos conceitos, parece que ele começou a falar porque
não podemos ir além do início do tempo. Porém, como João e Moisés
dizem que a Palavra estava no princípio e antes de todas as criaturas, é
necessário que ela sempre tenha estado no Criador e na essência pura de
Deus. Por isso, ele é verdadeiro Deus, mas de tal maneira que o Pai gera, e
o Filho é gerado. Moisés expressa essa diferença quando chama de Deus
aquele que falou e de Palavra o que foi dito. Isso foi suficiente para Moisés.
Uma explicação mais detalhada desse mistério compete ao Novo
Testamento e ao Filho, que está no seio do Pai. Lá também ouviremos os
nomes certos das pessoas, ou seja, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, como
são indicados antecipadamente e de forma extremamente sutil em alguns
Salmos e nos profetas.
[15] Agostinho explica a forma verbal “[Deus] disse” um pouco
diferente. Interpreta-a da seguinte maneira: “Disse”, isto é, assim está
definido desde a eternidade na Palavra do Pai; assim foi estabelecido por
Deus, pois o Filho é a razão, a imagem e a sabedoria do Pai. Importa,
sobretudo, reter o sentido simples e verdadeiro: Deus disse, isto é, ele criou
e fez todas as coisas mediante o Verbo, como confirma o apóstolo, quando
diz: “Por quem foram feitos os séculos” [Hb 1.2]. Igualmente: “Todas as
coisas foram criadas por ele e nele” [Cl 1.16]. O raciocínio a respeito da
criação deve manter-se dentro desses limites; não devemos sair deles sob
pena de nos perdermos em trevas horríveis. Portanto, quando se pergunta
sobre o mundo e sua criação, baste-nos isto: o mundo, no que tange à
matéria, foi feito do nada; a luz foi feita de uma matéria que antes não era
luz310, assim como o céu e a terra foram feitos do nada. É como declara
Paulo: “Chama à existência as coisas que não existem” [Rm 4.17]. O
instrumento ou o meio que Deus usou [para criar] foi a Palavra todo-
poderosa, que esteve com Deus desde o início e, como diz Paulo, antes da
constituição do mundo311. O que Paulo diz: “Através dele foram criadas
todas as coisas” [Cl 1.16] (ele emprega, segundo o costume dos hebreus, a
preposição “in” em vez de “por”; pois esse é o uso comum dos hebreus da
letra beth) e em passagens semelhantes foi tomado desta parte de Moisés,
que fala sobre a palavra proferida, através da qual se ordena e se preceitua
alguma coisa.
Esta Palavra é Deus; e é Palavra todo-poderosa, proferida na essência
divina. Ninguém a ouviu ser proferida, exceto Deus mesmo, isto é, Deus
Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. No momento que ela foi proferida,
fez-se a luz, não da matéria da Palavra nem da natureza de quem falou, mas
das próprias trevas. Assim, o Pai falou interiormente, e, fora, imediatamente
fez-se a luz, e ela passou a existir. Desse modo, também foram criadas,
posteriormente, as outras criaturas. Isso, digo, nos basta sobre o modo da
criação.
Aqui surge uma pergunta célebre: de que natureza era a luz com a qual
foi iluminada aquela massa informe de céu e terra? Embora nem o sol nem
as estrelas tivessem sido criados, o texto mostra que essa luz era verdadeira
e física. Isso fez com que alguns procurassem uma alegoria e explicassem
“haja luz” como sendo uma criatura angelical; igualmente, “separou a luz
das trevas” como significando que separou os anjos bons dos maus. Mas
isso é brincar com alegorias inoportunas (pois Moisés relata história), e não
interpretar a Escritura. Além disso, Moisés escreveu para pessoas pouco
instruídas, para que tivessem testemunhos claros sobre a criação. Portanto,
ideias tão absurdas não devem ser comentadas aqui.
Em segundo lugar, também se pergunta: essa luz apresentava um
movimento circular? Na verdade, confesso que não sei. Mas, se alguém
quiser saber o que me parece mais provável, creio que essa luz era móvel,
de sorte que dela resultou um dia natural, do início ao fim. Embora seja
difícil dizer de que natureza era essa luz, não me agrada que nos afastemos,
sem motivo, da gramática ou que forcemos as palavras, torcendo-as, pois
Moisés diz claramente que houve luz e conta esse dia como o primeiro da
criação.
[16] Portanto, sou de opinião de que se tratava de uma luz verdadeira,
que se movia em movimentos circulares, assim como a luz do sol se move
em círculo. No entanto, não era uma luz tão clara e tão brilhante como
passou a ser depois, quando foi aumentada, decorada e aperfeiçoada pela
luz do sol. De forma semelhante, as Sagradas Escrituras também afirmam
que, no último dia, Deus tornará mais brilhante e mais clara a atual luz do
sol, como se esta fosse uma luz fraca se comparada com a claridade futura.
Portanto, da mesma forma como a luz de hoje é uma massa de luz rude e
crassa em comparação com a luz futura, assim, aquela primeira luz,
comparada com [a luz] de hoje, era tosca. Essa é a minha opinião sobre
essas duas questões. Agora Moisés continua.
E da tarde e da manhã fez-se um dia. [1.5]
Observe-se aqui que os judeus começam o dia de uma maneira diferente
do que nós. Para eles, o dia começa com o fim da tarde e com o pôr do sol e
termina com a tardinha [do dia] seguinte. Nós começamos o dia com o
nascer do sol. Agrada-me que eles derivem o substantivo “tardinha”, que é
chamado de aref pelos hebreus, do [verbo] araf, que significa misturar,
confundir. Dessa designação, eles obtêm o termo arof, que chamamos de
cynomya, como se fosse um bicharedo desordenado, pois, naturalmente, no
lusco-fusco, as aparências das coisas são confusas e não podem ser
discernidas claramente depois que a luz se foi.
Isso Moisés nos ensinou sobre o primeiro dia, mas veremos que ele
também usou a mesma expressão na criação de outras coisas: “Deus disse:
haja um firmamento” etc. Esta repetição é muito útil, porque, como eu disse
acima, ela oferece um grande testemunho para a nossa fé, ou seja, que, nas
coisas divinas, o Filho é verdadeiro Deus e que, na unidade da divindade,
existe uma pluralidade de pessoas, porqueuma pessoa é a que fala e outra é
a Palavra [falada] ou o logos.
Do mesmo modo o expressa o Salmo [33.6]: “Os céus foram firmados
pela Palavra do Senhor”. Salomão aponta para essa expressão admirável de
Moisés quando escreve que a sabedoria divina foi, por assim dizer, ajudante
da criação: “Antes que ele fizesse qualquer coisa no princípio, fui
estabelecida desde a eternidade” [Pv 8.22] etc.; “Quando preparava os céus,
eu estava lá; quando delimitava os abismos com uma lei segura e com um
círculo” [Pv 8.27] etc. Aqui, Salomão mostra que entendeu esta doutrina de
nossa religião revelada por Moisés, mas de tal maneira que o povo não
instruído ouvisse e lesse essas coisas, mas não as entendesse. Afinal, se
Salomão não tivesse entendido esse mistério, não poderia falar assim. Mas
tudo isso, ele aprendeu de Moisés, como também aquele versículo de Pv
30[.4): “Qual é o seu nome ou o nome do seu Filho, se é que o sabes?”.
Penso que também havia escritos semelhantes de outras pessoas santas,
como Enoque, Elias, em que apareceram muitos testemunhos desse tipo,
mas que permaneceram ocultos até hoje, ainda que tenham sido revelados
claramente no Novo Testamento, e não são aceitos pela maioria, mas
contestados. O mesmo aconteceu em escala muito maior entre o povo
judeu, pois os santos patriarcas propuseram essas coisas, mas não as
transmitiram ostensivamente, mas sutilmente, e apenas aos eruditos.
[17] Para nós é um grande consolo saber que, desde o início do mundo,
houve essas indicações de que no ser divino há uma pluralidade de pessoas
e, no entanto, uma unidade da natureza e da essência divina. Que nos
interessa, pois, se há pessoas que não creem nisso ou o contestam? Abraão
viu três [homens] e adorou um312. Da mesma forma, o Espírito Santo diz
em Gn [19.24]: “E o Senhor fez chover fogo do céu da parte do Senhor”.
Ainda que os fanáticos313 não entendam nem observem essas palavras,
sabemos que não são palavras de uma pessoa embriagada314, mas de Deus.
Muitíssimos testemunhos desse tipo estão à mão a cada passo, e o
excelente Hilário315 reuniu-os diligentemente. Se [tais testemunhos]
parecem pouco sólidos, eles o parecem aos ímpios e aos incrédulos. Aos
piedosos, porém, eles foram transmitidos e apresentados pelos escritos
divinos, e são suficientemente sólidos e claros, pois eles sabem que uma
pessoa é a pessoa do Deus que fala, e outra – não em natureza, mas em
pessoa – é a Palavra através da qual foram criadas todas as coisas e são
preservadas até hoje, como diz o autor da [Carta] aos Hebreus [1.3]:
“Sustentando todas as coisas com a Palavra de seu poder”.
Aqui, deve-se atentar também para o seguinte: as palavras “haja luz”
são palavras de Deus, não de Moisés; isto é, elas são realidade, pois Deus
chama as coisas que não são para que sejam316; ele não fala palavras
gramaticais317, mas [refere-se a] fatos que verdadeiramente existem, de
modo que aquilo que, aos nossos ouvidos, soa como uma mera palavra, para
Deus é uma realidade. Assim, sol, lua, céu, terra, Pedro, Paulo, eu, tu etc.,
são palavras de Deus, ou melhor, uma só sílaba ou letra, se comparada com
toda a criação. Nós também falamos, mas só gramaticalmente, isto é,
atribuímos nomes a coisas já criadas. Mas a gramática divina é diferente, ou
seja, quando Deus diz: “Sol, brilha!”, logo o sol está aí e brilha. Portanto, as
palavras de Deus são reais e não meros vocábulos.
Aqui, eles diferenciaram entre palavra não-criada e palavra criada. A
palavra criada foi feita pela palavra não-criada. Pois que é toda a criação
senão a Palavra de Deus, dita e expressa por ele? Mas a Palavra não-criada
é um pensamento divino, uma ordem interna que permanece em Deus, é
uma unidade com ele e, no entanto, pessoa distinta. Assim, Deus se nos
revela como sendo aquele que fala, que tem junto a si a Palavra não-criada,
através da qual criou o mundo e todas as coisas numa ação muito simples,
ou seja, falando. Portanto, a criação não exigiu mais esforço de Deus do que
exige de nós mencioná-la. Os bons Pais Agostinho e Hilário também se
deleitaram com pensamentos desse tipo.
A obra do segundo dia
E Deus disse: haja firmamento no meio das águas e divida águas de
águas. [1.6]
[18,36] Ouvimos que a obra do primeiro dia foi esta: ele fez o céu e a
terra informes, que iluminou com uma luz grosseira e imperfeita. Agora, no
segundo dia, ele mostra como produziu o céu formoso e elegante a partir
desta névoa informe, assim como ele é agora, excetuadas as estrelas e as
luzes maiores, que Moisés chamou de céu. Os hebreus derivam, muito
apropriadamente, o nome shamaim [céu] de maim, que significa águas. A
letra shin muitas vezes é empregada em palavras compostas [19,9] para
designar a relação [de uma coisa com a outra], de modo que shamaim é algo
aquoso ou que provém da água. Isso também se evidencia pela sua cor; e a
experiência ensina que o ar é úmido por natureza. Os filósofos dizem que,
se não fosse o sol, o ar seria uma massa constantemente úmida318; que ele
seria simultaneamente úmido e quente por causa da sua natureza.
[Explicam] a umidade [do ar] a partir da sua origem, pois o céu foi feito da
água. Por esse motivo chove, e [a terra recebe] a umidade benéfica [do céu].
Para abrandar a sua natureza úmida, acrescentou-se a luz do sol, por isso o
ar também é quente.
Essa massa informe de névoa, que foi criada no primeiro dia a partir do
nada, Deus toma e lhe ordena, mediante a Palavra, que se expanda em
forma de esfera. Para os hebreus o vocábulo rakia significa algo que se
estende, do verbo raka, expandir, desdobrar. O céu [isto é, a esfera celeste]
foi feito dessa massa informe que se expande, assim como – se me
permitem empregar uma comparação grosseira que torne a questão mais
clara – a bexiga do porco se estende em forma circular quando é inflada.
Quando Jó afirma que os céus foram firmados com ferro319, isso não diz
respeito à matéria, mas à Palavra que pode transformar uma coisa muito
mole por natureza em algo muito sólido. Que é mais mole do que a água, e
mais tênue e sutil do que o ar? Essas coisas tão sutis e moles conservam sua
firmeza e seu movimento perfeitíssimos porque foram criadas pela Palavra.
Mesmo que o céu tivesse sido feito de diamante ou de outro material
infinitamente mais duro, ele se romperia e se fundiria por causa do seu
movimento rápido, longo e contínuo. Assim, também o sol se fundiria num
só dia por causa do seu movimento veloz, por mais duro que fosse o
material, pois o deslocamento produz muito calor. Aristóteles320 diz que o
movimento rápido é capaz de derreter o chumbo de uma flecha.
Esses são milagres de Deus pelos quais se percebe claramente a
onipotência da Palavra: embora o céu seja mais mole e mais tênue do que a
água, seja movimentado tão velozmente e contenha tanta variedade de
corpos, nenhuma parte dele se deteriorou ou se debilitou em milhares de
anos. É isto que Jó diz: embora os céus sejam muito moles por natureza,
eles são fundidos em bronze. Sabemos quão tênue é o ar em que vivemos; é
impossível tocá-lo e nem sequer se pode vê-lo. O céu, todavia, é mais sutil e
mais tênue por natureza do que o ar. O fato dele ter uma aparência azul não
prova sua densidade, mas, antes, revela sua distância [de nós] e sua
tenuidade. Comparando com isso as massas de nuvens, estas parecem
fumaça produzida por madeira úmida queimada. É para essa sutileza e, ao
mesmo tempo, [20] dureza e constância que Jó aponta. Também os filósofos
conhecem a célebre sentença: a água não pode limitar-se a si mesma321.
Por isso o céu, que não pode firmar-se mediante seu próprio limite (pois
é aquoso), é firmado mediante a Palavra de Deus. Ouvimos aqui: “Haja
firmamento”. Disso, os filósofos mais diligentes chegaram a uma conclusão
que, certamente, não é insignificante: todas as coisas são feitas e
administradas pela providência divina; nada acontece às cegas. Se os
movimentos do céu e dos corpos, que estão acima de nós, são tão certos e
estáveis, quem diria que eles são fortuitos ou puramente naturais, já que os
objetos feitos por artesãos – como colunasredondas, de três ângulos, de seis
ângulos etc. – não são acidentais, mas resultam de um propósito preciso e
da habilidade?
Por isso, que o sol siga rigorosa e seguramente seu curso, sem desviar
sequer a largura de uma unha da linha mais reta possível em qualquer parte
do céu é, verdadeiramente, obra da Majestade [divina]. Além disso, ele
mantém esse curso no ar extremamente tênue, sem ser sustentado por
corpos sólidos, mas, como uma folha, é carregado no ar. Esta comparação
não é muito apropriada, pois o movimento da folha é irregular e incerto,
enquanto que o do sol é certíssimo, e ainda acontece num ar muito mais
tênue do que aquele em que nós nos movemos e vivemos.
A expansão admirável da névoa espessa é chamada por Moisés de
firmamento, em que o sol, com os demais planetas, realiza seu movimento
em torno da terra naquela matéria tenuíssima. Mas quem é o mestre que dá
solidez àquela substância fluida e instável? Com certeza, não é a natureza
que o faz, pois esta nem sequer consegue fazê-lo em coisas mais fáceis. Isso
é obra [exclusiva] daquele que diz ao céu e a esta substância escorregadia:
que sejas firmamento! e que dá solidez a todas essas coisas pela Palavra e
as conserva de acordo com a sua onipotência. O que faz com que o ar
tenuíssimo seja mais duro do que qualquer diamante, tenha seu próprio
limite e que, por seu turno, o diamante seja mais mole do que água é a
Palavra. Com base nessas obras deveríamos compreender a natureza do
nosso Deus, ou seja, que ele é onipotente, que criou este céu maravilhoso a
partir do céu informe e realizou tudo de acordo com a sua vontade.
Além disso, eu disse que, entre os hebreus, o firmamento recebeu seu
nome por causa da sua extensão. Isso pode ser comparado com tendas e
acampamentos militares, conforme alude brilhantemente o Salmo 104[.2]:
“Estendendo o céu como uma tenda”. Assim como se estende e se arma, no
campo, uma tenda dobrada [desdobrando-a], diz o Salmo, tu estendes e
desdobras mediante a tua Palavra o céu informe, onde estás assentado
invisivelmente em toda a criação, como numa esfera, dentro e fora de todas
as coisas etc.
O que é de admirar é o fato de Moisés fazer três divisões claras e
colocar o firmamento entre as águas. Na verdade, eu gostaria de imaginar
que o firmamento fosse a massa mais alta de todas, e que as águas que
pendem e voam não sobre o céu, mas abaixo dele, fossem as nuvens que
vemos, de modo que as águas separadas das águas fossem entendidas como
as nuvens separadas de nossas águas na terra. Mas Moisés diz claramente
que as águas estão acima e abaixo do firmamento. Por isso eu preciso deter,
aqui, meu pensamento e aderir à Palavra, embora não a compreenda.
[22,30] Moisés procede, partindo do simples e fácil, como dizem, e
menciona três partes: as águas acima e abaixo e, no meio, o firmamento.
Com o termo “céu”, ele abrange todo o corpo que os filósofos dividem em
oito esferas, fogo e ar, pois no terceiro dia ele menciona, pela primeira vez,
as águas que fluem. Assim também fica claro que na Sagrada Escritura, a
atmosfera em que vivemos é chamada de céu. [De modo semelhante], a
Escritura [também] fala das aves do céu322. De modo semelhante, ela diz
que o céu está fechado quando não chove323 ou que o céu chove324. Tudo
isso acontece na atmosfera, não nas esferas da lua e dos outros planetas.
Essa divisão em esferas não é de Moisés nem da Sagrada Escritura, mas foi
inventada por pessoas eruditas com o propósito de ensinar algo que
devemos reconhecer como sendo de grande benefício.
Embora se diga corretamente que os elementos se decompõem, eu
duvido disso, pois vejo que eles subsistem. É verdade, uma parte muda, mas
não se pode concluir disso que a totalidade muda. As mudanças dos
elementos são somente parciais. Assim, [23] permanece o ar em que as aves
vivem e voam, permanece a terra em que árvores e outras plantas crescem,
mesmo que algumas partes se transformem.
Embora Aristóteles faça do primeiro motor325 a causa de todas essas
coisas e Averróis326 afirme que as causas dos movimentos são formas
assistentes a partir de fora, nós, seguindo Moisés, dizemos que todas essas
coisas são feitas e simplesmente governadas pela Palavra de Deus. Ele
falou, e se fez. Ele não ordenou aos anjos que governassem esses corpos,
assim como nós não somos governados por anjos, ainda que sejamos
guardados por eles.
O movimento de ir e vir dos planetas também é obra de Deus, criado
pela Palavra. Esta obra foi feita pelo próprio Deus, e é grande demais para
que possa ser atribuída aos anjos. Foi Deus que separou essas coisas dessa
maneira e as governa e conserva. O mesmo que ordenou que o sol corresse,
mas que o firmamento ficasse parado, também disse à estrela Mercúrio: tu,
estrela, movimenta-te dessa maneira. O que faz com que o movimento mais
incerto seja o mais certo, embora esses corpos sejam conduzidos por um
céu inconstante, não em alguma parte ou numa linha material, é a Palavra.
Como um peixe no meio do mar ou uma ave no céu aberto, assim as
estrelas se movimentam em suas órbitas, num movimento extremamente
preciso e verdadeiramente admirável. Esta também é a razão pela qual o
Elba327 flui em seu curso perene nesta região sem se cansar. Todas essas
obras são obras da Palavra, que Moisés celebra aqui: “Ele disse” etc.
Portanto, nós, cristãos, devemos pensar diferentemente dos filósofos
sobre as causas dessas coisas. Se algumas estão acima de nossa capacidade
de compreensão (como aquelas [mencionadas] aqui que dizem respeito às
águas acima dos céus), é preferível confessar a nossa ignorância e crer nelas
a negá-las impiamente ou interpretá-las arrogantemente segundo a nossa
compreensão. Convém, pois, conservar o modo de falar da Sagrada
Escritura e permanecer nas palavras do Espírito Santo, a quem aprouve
distribuir as criaturas desta maneira: no meio, estava o firmamento,
produzido a partir do céu e da terra informes e estendido pela Palavra; sobre
o firmamento e abaixo dele, havia águas, igualmente tomadas dessa massa
informe. Tudo isso, o Espírito Santo chama de céu, junto com as sete
esferas e toda a atmosfera, onde se produzem os fenômenos e os pássaros
pairam errantes.
Por isso não contestamos os princípios comuns que afirmam que tudo
que é pesado desce, e tudo que é leve sobe (embora também vejamos que
vapores densos sejam carregados para cima, mas pelo impulso do calor).
Somente asseguramos isto: essas coisas foram criadas desta maneira e são
conservadas pela Palavra, mas também podem ser mudadas ainda hoje por
força da Palavra, assim como toda a natureza será mudada no fim. De modo
semelhante, também é contrário à regra citada que ainda agora haja águas
sobre os céus ou sobre o firmamento; mas é isso que o texto afirma.
Voltando à questão proposta, quando se pergunta sobre a natureza
dessas águas, não se pode negar que, como diz Moisés, há águas sobre os
céus. Mas confesso francamente que eu não sei como são essas águas, pois
a Escritura não as menciona em lugar algum, exceto nesta passagem e no
cântico dos três jovens328. Também a repeito de coisas semelhantes, como
sobre o céu, onde os anjos e Deus habitam com os bem-aventurados, [24]
nem sobre outras coisas que serão reveladas no último dia, quando seremos
revestidos de outra carne, podemos dizer algo certo agora.
Mas, por causa dos menos instruídos, preciso acrescentar o seguinte:
aquilo que nós chamamos de horizonte, na Escritura, muitas vezes é
designado de “céu”. Por isso, o firmamento todo é chamado de céu de todos
os céus, em que estão reunidos os céus de todos os seres humanos, ou seja,
os horizontes. Dessa forma, nós, aqui, temos um céu diferente do que as
pessoas na França ou na Itália. Mas essa designação não contribui em nada
para a interpretação desta passagem. Por isso, a maioria dos teólogos
interpretou essas águas, como também indicamos acima, como sendo um
céu glacial, colocado naquela parte para molhar e, por assim dizer,
refrigerar as esferas inferiores, para que não sejam consumidas pelo calor
excessivo causado pela rapidez do movimento.Quanto a essa conclusão, se
ela está certa ou não, eu não quero me manifestar. Confesso de bom grado
que eu não sei que águas são essas. Também os antigos mestres da Igreja
não se preocuparam muito com essas coisas. Como sabemos, Agostinho
desprezava toda a astronomia. Todavia, embora contenha muitos elementos
supersticiosos, ela não deve ser completamente desprezada, pois, como um
todo, ela se ocupa da observação e da consideração das obras divinas, que é
uma preocupação muito digna do ser humano. Por isso, pessoas de muito
talento exercitaram-se e deleitaram-se com ela.
Que [esses comentários] sejam suficientes sobre esta passagem, ou seja,
que, no segundo dia, o céu foi dividido para estar no meio, entre as águas.
Mas, aqui, surge uma outra pergunta. Às obras de todos os outros dias
sempre se acrescenta: “E viu Deus que era muito bom”. Por que isso
também não é acrescentado nesta passagem, quando se criou a parte maior e
mais bela de toda a criação? A essa pergunta pode-se responder o seguinte:
essa frase foi acrescentada no fim da criação de todas as coisas, no sexto
dia, onde a Escritura diz: “E viu Deus todas as coisas que tinha feito, e eram
muito boas”. Isso também inclui o céu.
Lira329 agrada-se da opinião do rabino Salomão, que afirma que esta
sentença foi colocada duas vezes no terceiro dia: “E viu Deus que eram
muito boas”. Por isso, uma das afirmações refere-se à obra do segundo dia,
que foi completada no terceiro dia, quando as águas sob o céu foram
separadas de forma mais adequada.
Outros filosofam, aqui, não sei por que motivos, que o número “dois” é
um mau presságio, pois é o primeiro número que se afasta da unidade, mas
que Deus odeia esse afastamento e aprova a concórdia e, por isso, não
acrescentou esse elogio sobre o segundo dia. Mas Lira chama esse
comentário corretamente de ardiloso, porque todos os números afastam-se
da unidade do mesmo modo.
O melhor que se pode fazer aqui é não ser curioso demais, pois essas
questões estão acima da nossa capacidade de compreensão. Afinal, de que
maneira nós podemos compreender a ordem que Deus estabeleceu? Sim, é
evidente que a razão se confunda, pois o que é ordem para Deus, nós
consideramos uma confusão da ordem. Assim, parece que as estrelas estão
misturadas ao acaso, as claras com as menos brilhantes, as menores com as
maiores. Quem diria que aqui existe uma ordem? No entanto, há uma
ordem suprema, estabelecida por uma mente sapientíssima. Assim
[também] julgamos em outras questões: parece haver [25] confusão porque
o Elba, como, aliás, todos os rios, alcança a foz seguindo um curso tão
sinuoso. Do mesmo modo, as árvores parecem estar misturadas, masculino
e feminino parecem estar misturados. Nessas coisas, parece não haver
qualquer ordem. Mas tudo isso prova que Deus tem uma outra ordem e
julga diferentemente sobre ela do que nós.
Por isso, não nos preocupemos em perguntar, curiosamente, por que ele,
no terceiro dia, acrescenta duas vezes: “E viu Deus” etc., mas omite isso no
segundo. Também não sejamos atrevidos a ponto de perguntar se a obra do
segundo dia foi concluída no terceiro ou não. Se os filósofos dividiram o
céu em suas esferas, eles o fizeram para transmitir os rudimentos das artes.
Mas nós temos um método mais simples, e constituímos Deus,
imediatamente, como criador de todas as coisas por meio da palavra
“Disse”.
A obra do terceiro dia
E Deus disse: reúnam-se as águas que estão sob o céu em um só lugar e
que apareça a terra seca. [1.9]
Acima eu disse que nós não compreendemos a ordem das obras de
Deus. Se ele tivesse pedido o nosso conselho, teríamos aconselhado que
acrescentasse essa pequena parte ao segundo dia. Mas ele mesmo quer ser o
mestre da ordem e o árbitro do mundo. Por isso, aqui, não devemos ser
bisbilhoteiros demais. O texto diz claramente que Deus ordenou que as
águas se reunissem sob o céu. Ele não diz “sob o firmamento”, como
acima330: “Faça-se uma separação das águas sobre e sob o firmamento”.
Céu, na acepção da Sagrada Escritura, denota toda a estrutura superior,
juntamente com todo o ar e todas as esferas. Ele deriva seu nome hebraico
da sua matéria, isto é, desta água misturada da qual foi feito por extensão ou
multiplicação, pois esta primeira água informe não era tão abundante, mas
foi expandida pela Palavra. De forma semelhante, no Evangelho, Cristo
multiplica poucos pães através da sua bênção de tal modo que sejam
suficientes para [alimentar] um grande número de pessoas331.
Portanto, aquilo que, em termos filosóficos, chamamos de ar,
juntamente com todas as esferas, recebe, aqui, o nome de céu. Com o termo
“águas”, [Moisés] designa as nossas águas, ou seja, os mares e os rios, que
se originaram desta água primitiva e informe e são como a borra que restou,
depois que o céu foi produzido a partir dela mediante a Palavra. Creio,
porém, que a qualidade desta água é muito inferior àquela das águas
superiores, diante das quais as nossas águas são como borra, de modo que
se diz que estão reunidas não só em um lugar, mas também em uma massa,
pois são mais espessas do que as águas do ar. Afinal, no ar respiramos, na
água não podemos respirar.
O que [o texto] diz coletivamente, “em um só lugar”, deve ser entendido
em sentido plural e distributivo, como se dissesses: em um só lugar ou em
vários lugares, de modo que a quantidade toda [de água] não seja reunida
em [apenas] um único oceano, em um só lugar, mas [distribuído] em muitos
mares e rios, alguns mais baixos, outros mais altos, alguns maiores, outros
menores etc.
E apareça a [parte] seca.
Estas palavras merecem atenção [especial], pois, conforme se disse
acima, a terra era tohu e bohu, ou seja, agreste, rude e informe, cercada de
água por todos os lados e misturada [26] às águas. Portanto, [Moisés] indica
também aqui que a massa de terra está submersa e coberta pelas águas.
Caso não fosse assim, por que ele diria “apareça”, se ela não estivesse
cercada pelo abismo e completamente coberta por essas águas primitivas e
nebulosas? Confirma-se aqui, de novo, o que mostramos várias vezes
acima: que o mundo criado no início não passava de água e terra informes,
e somente no terceiro dia a terra foi trazida para fora e apareceu. Portanto,
assim como anteriormente a luz foi levada para as águas, aqui, levou-se
também o adorno da luz para a terra. Para ser habitada, eram necessárias as
duas coisas, que estivesse seca e estivesse sob a luz ou iluminada.
A terra, ele chama de seca, porque as águas foram removidas. Assim
vemos o mar espumando de forma espantosa como se estivesse a ponto de
devorar toda a terra. O mar está situado mais alto do que a terra, mas não
pode ir além de seus limites. Este texto, que trata da primeira criação,
delimita a terra e coloca uma barreira muito firme ao mar. Do mesmo modo,
também Jó e o Salmo332 atestam que o mar, embora seja mais alto e não
seja confinado pelo próprio limite, não pode ir além do que lhe é permitido.
Afinal, a terra, por ser o centro, deveria estar envolvida e coberta pelo mar,
mas Deus afasta o mar mediante a sua Palavra e faz com que a planície
sobressaia na medida necessária para que possa haver habitação e vida.
É por essa razão que, pelo poder divino, as águas não avançam sobre
nós e, até hoje e até o fim do mundo, Deus repete conosco o milagre que
realizou no Mar Vermelho com o povo de Israel333. Ele revelou o seu poder
de forma singular através de um milagre, para que o pequeno povo o
cultuasse com mais diligência. Aliás, que é toda a nossa vida sobre a terra
senão a passagem pelo Mar Vermelho, onde o mar estava parado como altas
muralhas nos dois lados? Certo é que o mar está mais alto que a terra. Por
isso, Deus continua ordenando, até hoje, que as águas fiquem suspensas, e
as retém para que não se precipitem sobre nós, como se romperam no
dilúvio. Todavia, às vezes, Deus emite sinais, e ilhas inteiras são devoradas
pelas águas, para mostrar que o mar está em suas mãos, que ele pode retê-lo
como também pode lançá-lo contra os ingratos ou maus.
Os filósofos também discutem sobre ocentro do mundo e sobre a água
que corre em volta. Realmente, é notável terem avançado a ponto de
constituir a terra como o centro de toda a criação, pois daí se deduz que a
terra não pode cair, pois ela é contida a partir de dentro, de todos os lados,
pelas esferas restantes. Assim, o céu e o resto das esferas se apoiam no
centro, de modo que também elas são permanentes. Essas coisas são dignas
de conhecimento. Mas o que os filósofos não sabem é que toda essa
estabilidade resulta do poder da Palavra de Deus. Por isso, embora a água
seja mais alta [que a terra], ela não pode sair de seus limites e cobrir a terra.
Mas vivemos e respiramos no meio do Mar Vermelho, como os filhos de
Israel.
E Deus viu que era bom.
Aqui, ele acrescenta esse juízo de valor, embora nada tenha sido feito
exceto a separação de águas e a produção daquela partezinha exígua de
terra. Acima, ele não acrescentou esta pequena frase a uma parte belíssima
das obras de Deus. Talvez [não o tenha feito] porque Deus queria mostrar
que estava mais preocupado com a nossa [27,5] habitação do que com a
sua, e para nos motivar ainda mais à ação de graças, pois não haveríamos de
viver no ar ou no céu, mas na terra, onde teríamos comida e bebida e
pudéssemos manter a nossa vida.
Depois de ter adornado o teto desta habitação, ou seja, o céu, e ter
acrescentado a luz, ele, agora, prepara um espaço e produz uma terra
própria para ser habitada e para a atividade das pessoas. Duas vezes, ele diz
que esta obra lhe agrada por nossa causa. Preocupa-se também conosco
quanto ao futuro, assegurando-nos que, doravante, estará presente nesta
obra que realizou com tanto cuidado e que afastará o inimigo, a água, que
nos ameaça de morte. Portanto, ele faz um lindo começo com os
fundamentos e o teto desta casa. Vejamos, agora, também como ele a
enfeita.
E Deus disse: a terra produza erva verde e faça germinar semente e
árvore frutífera etc. [1.11]
Ele construiu as primeiras partes da casa, com um teto elegantíssimo, o
céu, embora ele ainda não esteja totalmente decorado. O fundamento [desta
obra] é a terra, os mares são as paredes de todos os lados. Agora, ele
também nos provê do alimento, de modo que a terra produz ervas e árvores
de todo tipo. Aqui vês, de novo, por que, acima, ele chamou a terra de tohu
e bohu: não só porque estava coberta de trevas e misturada com as águas,
mas também porque não tinha qualquer fruto e era improdutiva.
Podes ver aqui que tipo de comida ele nos fornece, ou seja, ervas e
frutos das árvores. Por isso creio que os nossos corpos seriam muito mais
longevos se não tivesse sido introduzida esta polifagia, principalmente o
consumo de carne, depois do dilúvio. Embora a terra fosse amaldiçoada
após o pecado de Adão e, depois disso, tenha sido corrompida pelo dilúvio,
uma dieta de ervas seria, hoje, muito mais saudável do que a de carne. Sem
dúvida, é evidente que as ervas foram criadas para servirem de alimento
para as pessoas, e assim foram usadas no início do mundo.
Portanto, a produção de cereais, árvores e ervas de todo tipo é a obra
deste dia. Embora seja verdade que agora todas as coisas nasçam da
semente de sua espécie; a primeira criação, quando não havia semente,
aconteceu tão-somente por força da Palavra. O fato de, agora, nascerem
sementes também é uma obra da criação digna de admiração, pois é uma
propriedade singular que um grão, caindo na terra, brote a seu tempo e
produza fruto de acordo com a sua espécie. O fato de plantas semelhantes
nascerem de plantas similares, numa sucessão ininterrupta, é indício certo
de que a criação não é fortuita, mas obra precípua da providência divina.
Assim, do trigo não nasce senão trigo, da cevada, nada, senão cevada, do
centeio, nada, senão centeio. A mesma natureza, disposição e condição de
cada uma das espécies são preservadas perpetuamente.
[28,7] A filosofia ignora a causa desses fenômenos e os atribui à
natureza. Mas nós sabemos que a natureza foi criada de tal modo pela
Palavra que as sementes e as espécies das coisas sejam preservadas. Dessa
maneira, não só as águas no céu foram multiplicadas, mas também as
primeiras sementes foram multiplicadas e preservam rigorosamente sua
espécie.
Aqui, pergunta-se pela época do ano em que o mundo foi criado: na
primavera ou no outono? Quanto a isso, as opiniões divergem. Cada um tem
suas razões. Os que preferem o outono fundamentam sua opinião no fato de
as árvores terem produzido frutos, pois Adão e Eva comeram frutos. Para
comprová-lo também argumentam que as obras de Deus estão
concluídas334. Outros preferem a primavera, porque é a época mais bela do
ano; é como a primeira idade ou a infância do mundo. Por isso o poeta
estabelece a primavera como [a estação] em que o mundo nasceu.
Todavia, nenhuma das partes tem argumentos suficientes. O texto
confirma ambas, dizendo que a terra germinou (isso certamente não
aconteceu no outono, mas na primavera) e que a partir de então passaram a
existir frutos. Por isso dizemos que o milagre do primeiro mundo [criado]
foi este: subitamente todas essas plantas passaram a existir, a terra
germinou, as árvores floresceram e, em seguida, também surgiram os frutos.
Com isso, esse milagre chegou ao fim, pois as espécies, da maneira como
foram criadas na ocasião, propagam-se agora mediante suas sementes.
Portanto, eles argumentam mal, partindo do efeito natural para chegar ao
sobrenatural, pois deve-se atribuir ao Criador que, no tocante às ervas e aos
frutos das árvores, preparou a primavera e o outono na primeira obra da
criação [para que se sucedessem].
Essa também é a razão que levou Hilário e outros a estabelecer que o
mundo passou a existir subitamente num estado perfeito, sem que Deus
usasse o intervalo de seis dias naturais para criar a sua obra. O texto
compele-nos a reconhecer que, junto com os frutos, as árvores já estavam lá
no dia em que Adão foi criado. Embora isso tenha acontecido de forma
mais rápida do que costuma acontecer atualmente (pois agora, no nosso
tempo, esse processo leva quase meio ano), o texto não usa apenas o verbo
“frutificar”, mas também [o verbo] “germinar”.
Portanto, no que diz respeito à questão acima, é muito provável que era
primavera quando o mundo começou. É [nessa estação] que os judeus
começam seu ano, fazendo do tempo da primavera, quando a terra se abre e
todas as coisas germinam, seu primeiro mês.
[29] Pergunta-se também: quando foram criadas as árvores infrutíferas
ou estéreis, bem como as ervas estéreis? Embora eu não tenha uma resposta
definitiva, darei a minha opinião. Creio que, no início, todas as árvores
eram boas e fecundas, e que os animais do campo, junto com Adão,
partilhavam, por assim dizer, uma mesa comum e alimentavam-se de
centeio, de trigo e de outros frutos mais nobres. Havia também abundância
de todos os tipos de criaturas.
Só depois do pecado de Adão foi dito à terra que ela produziria espinhos
e cardos. Portanto, não resta dúvida de que o fato de termos tantas árvores e
ervas que não servem de alimento também é castigo pelo pecado. Baseado
nisso, por causa da bênção e da opulência da criação, alguns afirmaram que
o paraíso era toda a terra, e que a expulsão do paraíso consistia no fato de
Adão ter sido excluído do mundo feliz, sendo colocado entre os espinhos
onde, muitas vezes, mesmo depois de muito trabalho, nada se produziria
que valesse a pena.
Mas sobre isso se discutirá abaixo. No que tange à questão em apreço,
inclino-me de bom grado para a opinião de que, inicialmente, todas as
árvores eram frutíferas.
A curiosidade de nossa gente é asquerosa. Discutem também por que
Deus adornou a terra com frutos no terceiro dia, antes de enfeitar o céu com
estrelas. Segundo eles, isso diria mais respeito à obra do sexto dia. Como o
céu começou a ser estendido antes que fosse formada a terra, seria mais
conveniente que também o céu fosse ornamentado antes da terra, de modo
que a decoração da terra deveria acontecer no sexto dia. Aqui, Lira faz uma
distinção sutil, dizendo que não se trata de um ornamento, mas que isso faz
parteda sua forma. Não tenho certeza se este argumento é satisfatório.
Parece-me mais certo, como eu disse antes, que a ordem dessas coisas não
deve ser vista com base em nosso juízo. Ademais, o céu não foi decorado
com luz no primeiro dia, quando ela foi criada? Certamente, este é o mais
belo ornamento de toda a criação.
Por isso, prefiro que reflitamos, nesta passagem, sobre a preocupação
divina e a bondade [de Deus] para conosco. Antes de criar as pessoas, ele
prepara uma casa elegante para o futuro ser humano, para que, depois de
criado, encontrasse a casa preparada e construída. Depois, é levado para
dentro dela por Deus, que lhe ordena que usufrua todas as riquezas de tão
ampla casa. No terceiro dia, é provida cozinha [e são providenciados] os
alimentos. No quarto, são dados o sol e a lua a seu serviço e para seu
proveito. No quinto, lhe é entregue o domínio sobre peixes e pássaros. No
sexto, recebe o domínio sobre todos os animais, para que desfrute toda essa
riqueza gratuitamente de acordo com a sua necessidade. Tudo isso, tão-
somente para que o ser humano reconheça, a partir dessa liberalidade, a
bondade de Deus e viva no temor de Deus. Esse cuidado e esta solicitude de
Deus para conosco, mesmo antes de sermos criados, são contemplados aqui
corretamente e com proveito. Todo o resto é inócuo e incerto.
Bondade semelhante para conosco, Deus nos revela nos dons
espirituais, pois antes de nos convertermos à fé, Cristo, nosso Redentor,
[30] está na casa do Pai e prepara mansões para que, quando chegarmos,
encontremos o céu preparado com todo tipo de alegria. Adão, portanto,
quando ainda não havia sido criado, tinha muito menos condições de pensar
em seu futuro bem-estar do que nós, pois ele ainda não existia. Nós, porém,
podemos escutar essas promessas que nos são feitas pela Palavra de Deus.
Por isso, devemos ver o primeiro mundo que foi criado como um protótipo
e uma figura do mundo futuro, para que aprendamos a reconhecer a
bondade de Deus, que nos enriquece e nos provê de todo o necessário, antes
que possamos nos preocupar conosco mesmos. É muito melhor considerar e
admirar a solicitude, o cuidado, a generosidade e a beneficência de Deus
tanto nesta vida como na vindoura do que perguntar por que Deus começou
a enfeitar a terra no terceiro dia.
Isso seja suficiente sobre a obra do terceiro dia, em que se preparou a
casa para o ser humano. Agora, seguem-se os outros dias, em que somos
também constituídos senhores de toda a criação.
A obra do quarto dia
E Deus disse: haja luzeiros no firmamento que separem o dia e a noite
etc. [1.14]
Esta é a obra do quarto dia, em que foram criadas, pela Palavra, as mais
belas criaturas, ou seja, o sol e a lua, juntamente com todas as outras
estrelas. Elas foram criadas não só quanto à sua substância e seus corpos,
mas também quanto à bênção [que elas representam], isto é, quanto a seus
efeitos, seu poder e sua potencialidade.
Vocês ouviram acima que a luz foi criada no primeiro dia. Até o quarto
dia, esta luz esteve no lugar do sol e da lua e das outras estrelas, até que, no
quarto dia, foram criados os próprios autores e governantes do dia e da
noite.
Por isso, pergunta-se aqui a respeito desta primeira luz: criados o sol e a
luz, ela desapareceu de novo ou permaneceu com o sol? Aqui, há uma
grande variedade de pareceres e opiniões. Eu simplesmente entendo que
todas as obras de Deus foram criadas da mesma forma. Por isso, no
primeiro dia, foram criados o céu tosco e a terra informe e, depois,
aperfeiçoados e polidos, para que o céu se estendesse e fosse ornamentado
com a luz; a terra, porém, foi criada a partir das águas, para que fosse
vestida com árvores e ervas. Assim, creio que a luz incipiente e, por assim
dizer, tosca do primeiro dia foi aperfeiçoada no quarto dia pelo acréscimo
de novas criaturas: o sol, a lua, as estrelas etc.
Outros defendem que esta primeira luz dura até hoje, mas que é
obscurecida pela claridade do sol, assim como a lua e as estrelas são
obscurecidas durante o dia pelo sol. As duas coisas podem ser verdadeiras,
ou seja, que aquela primeira luz permaneceu e foi, por assim dizer, a
semente do sol e da lua.
Moisés, todavia, faz uma distinção, chamando o sol e a lua de luzeiros
maiores. O fato de os astrônomos discutirem sobre o tamanho desses corpos
nada tem a ver realmente com essa passagem. Importa, porém, que
observemos nesta passagem que a Escritura não designa esses corpos de
acordo com o seu tamanho, mas de acordo com o esplendor da luz, porque,
se comparares o sol com as estrelas e juntares todas as estrelas num único
corpo, este, certamente, será muito maior do que o sol, mas de forma
alguma se igualará à [intensidade da] luz do sol. Em contraposição, se o sol
fosse cortado em partes muito pequenas, [31] essas pequenas parcelas
superariam em muito a claridade das estrelas. Afinal, esses corpos foram
criados com uma diferença, como afirma Paulo, de maneira que “um é o
brilho do sol, outro, da lua, e outro, das estrelas entre si” etc. [1 Co 15.41].
Essa diferença não existe por causa dos corpos, mas devido à criação, para
que a obra da criação seja mais admirável ainda. Realmente, é digno de
admiração que os raios do sol se espalhem e se estendam tanto, em tamanha
velocidade e com tanta força, a ponto de aquecer e esquentar os corpos
submetidos a ele.
Os astrônomos também dizem que as estrelas são acesas, por assim
dizer, pelo sol, para que brilhem. Também dizem que a lua recebe a luz do
sol. Isso certamente é provado no eclipse da lua, quando a terra, colocada
entre o sol e a lua, impede que a luz do sol alcance a lua. Eu não nego nem
condeno essas coisas, mas afirmo que o sol como a lua e as estrelas com sua
luz receberam essa capacidade de acender do poder divino; igualmente, que
a lua e as estrelas foram criadas de tal modo que são capazes de receber a
luz projetada pelo sol.
No início da sua interpretação do Salmo 12, Agostinho cita duas
opiniões sobre a lua e deduz dessas discussões uma alegoria sobre a Igreja,
embora ele próprio nada conclua. Mas eu deixo essas questões de lado. A
forma mais conveniente de se debater sobre este assunto compete aos
astrônomos, que são especialistas [na matéria]. Para mim é suficiente que
nestes corpos, que são tão elegantes e úteis para a nossa vida, reconheçamos
a benignidade de Deus e o seu poder; que ele criou coisas tão importantes
mediante a Palavra, conserva-as até hoje e coloca-as a nosso serviço. Essas
coisas são inerentes à profissão [de fé], ou seja, são questões teológicas e
visam a fortalecer os corações.
Quanto ao que se discute sobre a natureza dessas criaturas, embora
muitas coisas sejam ditas com verossimilhança e aprendidas com proveito,
eu percebo que a razão é muito limitada para conseguir compreender
perfeitamente essas coisas. Por isso, as maiores inteligências, vencidas pela
grandeza dessas criaturas, não foram capazes de dizer outra coisa senão que
elas são eternas e, por assim dizer, uma espécie de divindades. Portanto,
enquanto os filósofos afirmam que uma estrela é a parte mais densa de sua
órbita, nós afirmamos, com muito mais certeza, que ela é uma luz criada
por Deus mediante a Palavra. Certamente é mais verossímil que os corpos
das estrelas, como o sol, são redondos e estão presos ao firmamento como
globos, para brilhar de noite, cada um segundo seu dom e sua criação.
E sejam sinais, tempos, dias e anos.
O fato de Moisés acrescentar “para que separem o dia e a noite”
significa a distinção, também comum entre os astrônomos, do dia natural e
artificial. Acima ele disse: “E da tarde e da manhã fez-se um dia”. Ali, ele
fala do dia natural, que consiste de vinte e quatro horas, durante as quais a
primeira luz circula desde o oriente até o ocidente [isto é, desde o nascer até
o pôr]. Aqui, quando diz: “Para que dividam dia e noite”, ele está se
referindo ao dia artificial, enquanto o sol permanece visível acima do
horizonte.
[32] Portanto, esta é a primeira função do sol e da lua: serem como reis
e administradores da noite e do dia. Paraesta obra, as estrelas em nada
contribuem. No entanto, quando o sol nasce, ele traz o dia, mesmo sem [a
cooperação d]as outras estrelas que nascem ao mesmo tempo. Do mesmo
modo, também a lua é a soberana da noite e traz a noite, sem as estrelas,
porque assim ela foi criada pelo Criador. O dia e a noite se alternam para
que os corpos se refaçam mediante o descanso, pois o sol brilha para que se
faça o trabalho, a lua tem a luz mais fraca, sendo, por isso, mais apropriada
para o sono do que para o trabalho.
Mas que significa [a expressão] “E sejam sinais”? Lira explica que são
sinais de chuva e tempestade. Não me oponho a isso, embora duvide que
[tais sinais] possam prenunciar [chuvas e tempestade] com [tanta] certeza,
como escrevem Virgílio335 e outros. O Evangelho diz que a aurora
vermelha é sinal de chuva336, e, em contraposição, o anoitecer sereno é
sinal de tempo bom. Portanto, quando dizem que o aparecimento das
Plêiades337 significa chuva e coisas semelhantes, eu não o contesto com
veemência nem, simplesmente, o confirmo, porque vejo que nem sempre
estas afirmações são confiáveis.
Entendo que essa passagem não se refere a sinais de tão pouca
importância, mas a sinais mais poderosos como os de eclipses e de [outros]
fenômenos importantes. Trata-se, portanto, de um sinal, que é um prodígio,
algo portentoso ou miraculoso, através do qual Deus mostra ao mundo sua
ira ou desgraça. Isso pode parecer uma interpretação um tanto grosseira,
mas lembremos que Moisés escreveu para um povo inculto.
Pertencem a isso fenômenos como os meteoros e outros que acontecem
no ar, quando se veem estrelas caindo, quando halos [se formam em torno
da lua ou do sol], quando se vê um arco-íris, e coisas semelhantes que
acontecem no ar etc. Moisés chama de céu toda aquela massa aquosa em
que se movimentam os astros e os planetas, igualmente, aquela região
superior do ar. Aquela ideia das esferas foi inventada mais tarde para tornar
as coisas mais claras, pois a Escritura nada sabe sobre elas e simplesmente
diz que a lua junto com o sol e as estrelas foram colocadas não em esferas
individuais, mas no firmamento do céu (abaixo e acima do qual estão as
águas) para serem sinais de eventos futuros, como a experiência ensina
sobre eclipses, grandes fenômenos e alguns outros meteoros.
Mas também deve-se atentar para a expressão “para tempos”, lemoedim,
[de] moed [que] denota um tempo definido, fixo e certo. O substantivo
comumente é usado na Bíblia para designar o tabernáculo da aliança,
porque nele celebram-se determinadas festividades num determinado lugar,
num tempo certo e com ritos definidos. Dessa maneira, Moisés diz que o sol
e a lua são “para tempos”, não só porque os tempos são governados e
visivelmente alterados pelo sol (como vemos que os corpos inferiores são
alterados pela proximidade ou pela distância do sol; pois no inverno, no
verão, no outono e na primavera a qualidade do ar difere e, de acordo com
ela, mudam também os nossos corpos), mas também porque, em nossa vida
civil, usamos outras variações e sinais dos tempos derivados do movimento
desses corpos. Assim, num determinado tempo do ano são alugadas casas,
contratados [33,4] diaristas, cobrados rendimentos etc.; são serviços que o
sol e a lua prestam, para que dividamos os tempos segundo os trabalhos e
outras conveniências. Assim, contamos semanas, meses, angárias, como
dizem etc.
O que segue, “e para dias”, denota o dia natural, quando o sol dá uma
volta ao redor da terra. Portanto, o fato de contarmos dias e anos são
benefícios da criação e da ordem divina. Disso também vem o tempo que os
filósofos denominam de contagem do movimento. Pois sem essa referência,
isto é, se os corpos superiores não se movessem de acordo com uma lei
precisa, mas permanecessem parados num mesmo lugar, seria impossível
[contar o tempo]. Ora, se não existe número, também não há tempo. Do
mesmo modo, enquanto uma pessoa dorme, ela não sabe quanto tempo está
dormindo, porque falta-lhe a contagem [isto é, a referência].
De algum modo, lembramos da nossa infância, mas não nos lembramos
de termos mamado no seio da mãe, embora [na época] estivéssemos vivos.
O motivo disso está no fato de não termos tido [consciência] da contagem
[do tempo]. Por isso também os animais desconhecem o tempo, como
tampouco as crianças pequenas sabem algo a respeito dele. Portanto, [a
consciência d]o número [de referência] mostra que o ser humano é uma
criatura singular de Deus. Por isso, Agostinho gosta de louvar esse dom da
nossa natureza e provar, com base nele, a imortalidade das almas, haja vista
que somente o ser humano sabe contar o tempo e o compreende.
Aqui pergunta-se a respeito da vida futura: esses serviços dos corpos
celestes cessarão? A vida futura será sem tempo; os piedosos terão um dia
eterno, os ímpios uma noite eterna e trevas etc. Portanto, o sol cria o dia não
somente mediante sua claridade e sua luz, mas também mediante o
movimento, pelo qual se desloca do oriente para o ocidente, até que nasce
de novo, depois de vinte e quatro horas, produzindo, assim, um outro dia. A
partir disso, os astrônomos também enumeram três utilidades do sol: a
influência, o movimento e a luz. Quanto à sua influência, eu não entro em
maiores detalhes, pois basta-me saber que esses corpos foram criados para o
nosso uso, para que nos sirvam de sinais, ou da ira ou da graça, e para
tempos, para que façamos distinções precisas dos tempos etc. Essas coisas
são indiscutíveis porque são reveladas pelas Sagradas Escrituras. As demais
baseiam-se na experiência e não são tão certas, pois a experiência, às vezes,
engana.
Aqui, costuma-se perguntar a respeito das previsões astrológicas, que
[alguns] confirmam e provam com base nesta passagem. Se alguém não as
defende ferrenhamente, eu não lhes faço grandes objeções, pois mentes
engenhosas precisam ter seu passatempo. Excluindo a superstição, eu não
me ofendo se alguém, por causa da sua criatividade, brinca com essas
profecias.
Quanto à questão em si, porém, jamais serei convencido de que a
astrologia deva ser contada entre as ciências. Defendo esse ponto de vista,
porque ela é totalmente desprovida de provas, e o fato de alegarem a
experiência não me [34,5] convence. Todas as experiências astrológicas são
meramente pessoais. As que os especialistas observaram e registraram [por
escrito] são só aquelas que não falharam, mas eles não anotaram as demais
experiências nas quais se enganaram e cujos resultados não se seguiram
conforme predisseram como certos. Assim como Aristóteles diz que uma
andorinha não faz verão, não creio que uma ciência possa ser estabelecida
com base nessas observações particulares. Os caçadores têm um ditado
parecido: pode-se caçar todos os dias, mas nem todos os dias as caçadas são
bem-sucedidas. O mesmo pode-se dizer perfeitamente em relação aos
astrólogos e suas predições, pois muitíssimas vezes elas falham.
Mesmo que as previsões contivessem algum acerto, não seria tolice
ficar ansioso em relação às coisas futuras? Suponhamos que o futuro possa
ser conhecido mediante as predições astrológicas – se forem más, o
desconhecimento delas, em muitos sentidos, certamente será melhor do que
seu conhecimento. Cícero338 também argumenta neste sentido. É preferível
temer constantemente a Deus e orar a atormentar-se com medo dos
acontecimentos futuros. Mas disso trataremos em outra ocasião.
Por isso, creio que as predições astrológicas não têm fundamento
suficientemente sólido nesta passagem, pois são sinais racionais, por assim
dizer, isto é, reunidos pela razão. É mais apropriado entendermos que
Moisés está se referindo a sinais mostrados por Deus para admoestar as
pessoas em geral ou intimidá-las.
Isso seja suficiente sobre o quarto dia. Aqui, começa a mostrar-se e a
desvendar-se a imortalidade das almas, visto que nenhuma criatura, além do
ser humano, pode entender o movimento do céu ou medir os corpos
celestes. Um porco, uma vaca e um cão não conseguem medir a água que
bebem, mas as pessoas são capazes de medir o céu e todos os corposcelestes. Por isso, aqui brilha uma faísca da vida eterna, na medida em que
o ser humano se exercita naturalmente no conhecimento da natureza. Esse
exercício indica que as pessoas não foram criadas para viver sempre nesta
parte inferior do mundo, mas para ganhar o céu, visto que, durante esta
vida, elas admiram as coisas celestiais e preocupam-se em estudá-las.
Se não fosse assim, qual teria sido o proveito ou por que teria sido
necessário dar tanto conhecimento ao ser humano, cuja postura e forma
física indicam que ele pertence a esferas celestiais, apesar da sua origem
miserável e humilde? O primeiro ser humano foi feito por Deus a partir de
um torrão de terra. A partir daí, o gênero humano começou a propagar-se
pela semente do homem e da mulher. Depois, o embrião forma-se
paulatinamente no útero, membro por membro, e cresce, até que, por fim,
ele é dado a esta luz do céu pelo parto. Ato contínuo, começa a ter
sentimentos; a seguir, a agir e a se movimentar.
Por fim, quando o corpo já está forte e saudável e ele é dotado de mente
e de razão, só então manifesta-se nele, pela primeira vez, a vida racional,
que não existe em nenhuma outra criatura terrena. Tal disposição faz com
que o ser humano, com o apoio das disciplinas matemáticas, que são uma
[35] revelação divina que ninguém pode negar, levante voo da terra, por sua
mente e, deixando para trás o que é terreno, passe a ocupar-se com as coisas
celestiais e a investigá-las. Vacas, porcos e outros animais não fazem isso;
isso é uma prerrogativa do ser humano. Ele é, pois, uma criatura que foi
criada para habitar a região celestial e ter uma vida eterna, depois de,
finalmente, abandonar a terra. É por isso que ele não tem condições de
apenas falar e julgar (coisas que dizem respeito à dialética e à retórica), mas
também de apreender perfeitamente todo o conhecimento.
Portanto, a partir do quarto dia começa a manifestar-se a nossa glória:
Deus pensa em criar uma criatura que entenda os movimentos dos corpos,
criados no quarto dia, e que se alegre com esse conhecimento, como se ele
fosse próprio de sua natureza. Tudo isso, deve incentivar-nos a dar graças
[ao Criador]. Como cidadãos pertencemos a esta pátria que agora vemos,
admiramos e compreendemos, mas [nela] somos [apenas] peregrinos e
exilados; depois desta vida, veremos essas coisas mais de perto e as
compreenderemos perfeitamente.
Até aqui ouvimos falar a respeito de criaturas que não vivem nem
sentem, embora alguns filósofos tenham discorrido sobre estrelas e corpos
superiores como se fossem vivos e racionais. Creio, todavia, que isso tenha
acontecido devido ao seu movimento ordenado e estável, ao qual não existe
nada semelhante em toda a natureza. Diziam, por isso, que [os corpos
superiores] eram constituídos de massa e inteligência, mas que sua massa
não era elementar. Platão argumenta dessa maneira no “Timeu”339.
Esta opinião deve ser completamente rejeitada, e nossa mente deve
ajustar-se à Palavra de Deus e à Sagrada Escritura, que ensina claramente
que Deus criou tudo isso para preparar uma casa e uma hospedagem para o
ser humano que viria a ser criado depois, e que essas coisas são governadas
e conservadas pelo poder da Palavra, pela qual foram criadas. Finalmente,
depois de ter sido preparado tudo que pertence à casa, o ser humano é, por
assim dizer, introduzido nela como se fosse sua propriedade, para que
aprendamos que a providência divina em nosso favor é maior do que toda a
nossa ansiedade e preocupação. Todas as ideias, que são apresentadas sem o
aval da Escritura, devem ser repudiadas.
Considerei necessário repetir aqui o preceito que expus várias vezes
acima, ou seja, que é preciso se acostumar à maneira do Espírito Santo se
expressar. Do mesmo modo, ninguém pode ser bem-sucedido ao ocupar-se
com outras artes, a não ser que, antes, aprenda a falar e a compreender sua
linguagem específica. Por exemplo, os advogados têm uma terminologia
que é desconhecida aos médicos e filósofos, que, por seu turno, também
têm um tipo de linguagem desconhecida às outras profissões. Todavia,
nenhuma arte deve ser um empecilho para outra arte. Cada uma deve
conservar seu próprio curso e utilizar seus próprios termos.
Dessa maneira vemos, pois, que o Espírito Santo tem sua própria
linguagem e forma de se expressar, ou seja, que Deus, falando, criou todas
as coisas e operou através da Palavra, e que todas as suas obras são palavras
de Deus, criadas pela Palavra não-criada. Portanto, assim como o filósofo
utiliza seus termos, o Espírito Santo usa os seus. Um astrônomo, por sua
vez, age corretamente quando fala de esferas, apsides, epiciclos, pois isso
facilita ensinar os outros [36,4] da mesma profissão. Em contraposição, o
Espírito Santo e a Sagrada Escritura desconhecem esses termos e chamam
tudo o que está acima de nós de céu. Isso tampouco deve ser criticado pelo
astrônomo, pois cada qual deve usar os termos [próprios da sua área].
Assim também se deve entender a palavra “tempo” nesta passagem. Ela
não tem o mesmo significado para o hebreu e para o filósofo; para o hebreu,
a palavra “tempo” denota festas teologicamente fixadas; igualmente, a
sucessão de dias que perfazem um ano. Por isso, ela é quase sempre
traduzida por “festa” ou “festividade”, exceto quando se fala do
tabernáculo. Creio que cabe aqui esta advertência antes de prosseguirmos:
cada arte empregue seus próprios termos e não condene ou ridicularize
outra por causa disso; antes, uma ajude a outra e ambas se prestem serviços
mútuos. Assim procedem os artífices para preservar a cidade toda, que não
pode (como diz Aristóteles) ser constituída apenas por médicos, mas por
médicos e agricultores.
A obra do quinto dia
Deus também disse: as águas produzam ser rastejante de alma viva e
ser alado que voe etc. [1.20]
Vemos que Moisés se expressa constantemente usando o verbo “dizer”.
Até aqui, ele se referiu às criaturas superiores, ao céu, com todos os
planetas e as demais estrelas, que Deus criou a partir da água mediante a
Palavra. Depois, ele acrescentou a luz, de modo que podemos ver, através
desta luz natural, como o ar é transparente.
Agora, [Moisés] acrescenta uma informação sobre uma nova criatura
produzida a partir das águas, ou seja, sobre aves e peixes. Ele combina
essas duas espécies por causa da semelhança de sua origem: assim como o
peixe nada na água, a ave voa no céu. Embora tenham diferentes tipos de
carne, elas têm a mesma origem. O texto, aqui, está claro, isto é, as aves,
depois de criadas a partir da água, procuraram o ar em que vivem. Fiel à sua
forma de se expressar, Moisés chama de céu tudo o que está em cima.
Inicialmente, é admirável que, embora as aves e os peixes tenham sido
criados a partir da mesma matéria, a ave não pode viver na água e, de modo
semelhante, os peixes, se tivessem que viver no ar, não sobreviveriam. Os
médicos argumentam corretamente que a carne de aves é mais saudável do
que a de peixes (embora as aves também provenham da água), porque
vivem no ar, que é menos denso, ao passo que as águas em que são gerados
e vivem os peixes são, por assim dizer, a borra lodosa [do ar]. Os filósofos
não aceitam isso. Nós, no entanto, preferimos crer na Sagrada Escritura, que
afirma que os dois seres têm a mesma origem.
[37] Isto também faz parte da dignidade deste livro [do Gênesis]: ele
nos mostra de várias formas o poder de Deus, que está acima da razão e do
entendimento, mediante o qual ele criou todas as coisas. Quem poderia
imaginar que, a partir da água, pudesse ser produzida uma criatura que, de
forma alguma, pode suportar a água? Deus diz uma só palavra e,
imediatamente, aves são produzidas a partir da água. Quando ecoa a
Palavra, tudo é possível, de modo que a partir da água são criados tanto os
peixes como as aves. Logo, qualquer ave e qualquer peixe nada mais são do
que nomes do dicionário divino. Por meio desse dicionário, as coisas que
parecem impossíveis tornam-se fáceis, e as coisas que são completamente
opostas tornam-se muito semelhantes, e vice-versa.
Essas coisas foramescritas e devem ser estudadas com afinco para que
aprendamos a admirar o poder da majestade divina e edifiquemos a nossa fé
com base nesses fatos admiráveis. Mesmo que alguém pudesse ressuscitar
mortos, isso nada seria comparado com essa obra admirável de produzir
uma ave a partir da água. Mas nós não nos admiramos [mais] com essas
coisas. Elas perderam a nossa admiração [porque tornaram-se comuns] com
o uso diário. Porém, se alguém crê nelas e as contempla com atenção, é
obrigado a admirá-las, e [à medida que as] admira a fé se confirma
paulatinamente. Assim como, a partir da água, Deus é capaz de produzir o
céu e as estrelas, entre as quais cada uma se iguala à terra ou a supera em
grandeza, e, de forma semelhante, criar o sol e a lua com uma gota d’água,
por que não poderia proteger meu corpo contra os inimigos e contra Satanás
ou, depois de ter sido colocado na sepultura, ressuscitá-lo para uma nova
vida?
Por isso, dever-se-ia perceber, aqui, o poder divino, para que, de forma
alguma, duvidássemos das coisas que Deus promete em sua Palavra. Afinal,
aqui confirmam-se plenamente todas as promessas, ou seja, que nada é tão
difícil que ele não possa fazer através de sua Palavra, ou impossível, como
o comprovam o céu, a terra e tudo que neles existe.
Deve-se abordar aqui também o que os santos Pais340, principalmente
Agostinho, observaram: Moisés emprega estes três verbos – “Deus disse,
fez, viu” – como se quisesse apontar com isso para as três pessoas da
majestade divina. O verbo “diz” aponta para o Pai que gera a Palavra na
eternidade e cria este mundo no tempo por meio desta Palavra. Foi essa a
razão pela qual [os Pais] atribuíram o verbo “fez” à pessoa do Filho, pois
este tem em si não apenas a imagem da majestade divina, mas também a de
todas as criaturas. Por isso ele faz com que as coisas passem a existir. Do
mesmo modo como as coisas são nomeadas pelo Pai, todas elas subsistem
através do Filho e da Palavra do Pai. A estes [dois] junta-se a terceira
pessoa, o Espírito Santo, que “vê” as coisas criadas e as aprova.
Essas afirmações que atribuem esses verbos bela e adequadamente [às
três pessoas] ajudam a que se entenda melhor o artigo da Trindade. Os
santos Pais conceberam este expediente com devoção unicamente como
auxílio para que se pudesse compreender de alguma maneira uma questão
que, em si, é incompreensível. Por isso, eu não desaprovo esses
pensamentos, pois eles estão de acordo com a fé e são adequados e úteis
para fortalecê-la e ensiná-la.
De modo [semelhante], Hilário faz uma distinção por meio de outros
atributos. [Segundo ele,] a eternidade está no Pai; a forma, na imagem; o
uso, na dádiva. Diz que o Espírito Santo é [38] o dom que recebemos para
fazer uso das coisas, porque ele proporciona que elas sejam usadas a fim de
que não pereçam, governa-as e as preserva. Dizem também que o Pai é a
mente; o Filho, o intelecto; o Espírito Santo, a vontade. Eles não querem
dizer que o Pai não tem inteligência, ou o Filho não tem vontade própria,
mas isso são atributos, isto é, afirmações que, separadamente, não são
atribuídas a pessoas individuais, mas a diversas. Eles não querem dizer que
o Pai seja despido de sabedoria, mas [apenas] o ilustram para que possamos
imaginar essas coisas dessa maneira, a fim de [podermos] guardá-las [na
memória] e [para] explicar o artigo da Trindade.
Portanto, quando o texto diz: “E Deus viu que era muito bom”, ele
refere-se à conservação da obra criada, pois esta não poderia persistir se o
Espírito Santo não a amasse e a complacência de Deus com a sua obra não a
preservasse. Afinal, Deus não criou as coisas para abandoná-las depois de
criadas, mas ele as ama e as aprova. Por isso, está junto delas, movimenta-
as, aciona-as e conserva cada uma delas a seu modo. Julguei que isso
deveria ser abordado brevemente, pois considero dignos de conhecimento
os pensamentos conscienciosos daqueles que nos precederam no mesmo
estádio em que nós estamos correndo.
O que Jerônimo341 traduz como “coisa rastejante de alma viva” é nefesh
para os hebreus e significa alma ou [simplesmente] algo que tem vida. Com
essa designação, [Moisés] refere-se aos peixes. Sabe-se que as aves são
como anfíbios342, à medida em que vivem na terra e no ar.
E Deus criou os grandes animais marinhos. [1.21]
Aqui se pode perguntar por que ele só cita nominalmente os animais
marinhos. De forma semelhante, a Escritura quase só lembra os peixes
maiores. São conhecidos o leviatã e os dragões em Jó e em outras passagens
da Escritura343. Certo é que se chamam assim as baleias, as orcas e outros
peixes maiores, dos quais alguns são dotados de membros parecidos com
asas, como o golfinho, que é como se fosse o rei do oceano, não porque
supere os outros em tamanho, aliás, nem a águia, rei das aves, nem o leão,
rei dos quadrúpedes, superam todos outros [de sua categoria] em tamanho.
Entendo que a razão [de se mencionar especialmente] os maiores
animais [na Escritura] seja para que saibamos que eles são obras de Deus e
não crermos, assustados com o seu tamanho, que sejam espectros. Como
corpos tão grandes foram criados por Deus, é fácil concluir que também
peixes menores (como o arenque, a truta, a carpa e outros) foram criados
por ele. Quem quiser, leia o capítulo 41 de Jó. Ali se percebe claramente
que o Espírito Santo, através desse poeta, louvou o admirável monstro
Leviatã, cuja força e coragem são tais que ele despreza as flechas.
Descrições desse tipo abrem os nossos olhos e edificam a fé, para que
creiamos mais facilmente que Deus também pode nos preservar, embora
sejamos seres bem menores.
Nesse contexto também se pergunta sobre camundongos e ratos, de
onde e de que modo se originam. De fato, sabemos por experiência que nem
sequer navios que estão continuamente navegando no mar estão livres de
camundongos. De modo semelhante, não se consegue limpar nenhuma casa
de tal maneira que nela não sejam gerados ratos. Pode-se perguntar também
sobre a geração de moscas e, de modo semelhante, para onde vão as aves no
outono.
[39] Quanto aos camundongos, Aristóteles afirma que alguns animais
são gerados por homoiogene344, outros, por heterogene345. Assim, os
camundongos pertencem ao gênero gerado por heterogeneon346, pois eles
não nascem somente de camundongos, mas também de matéria deteriorada,
que é consumida e se transforma, aos poucos, em camundongo.
Se perguntares por meio de que força acontece essa geração, Aristóteles
responde que a umidade putrefata é aquecida pelo calor do sol e, dessa
maneira, é produzido um ser vivo, da mesma forma como vemos
escaravelhos serem gerados a partir do esterco equino. Essa explicação não
me convence, pois, [embora] o sol esquente, ele não geraria coisa alguma,
se Deus não dissesse por sua força divina: surja um camundongo da
podridão. Por isso, também o camundongo é uma criatura divina, segundo o
meu entendimento, que tem sua origem na água e [ao mesmo tempo] uma
ave terrestre; de outro modo, teria a forma de um monstro e a espécie não se
conservaria. Contudo, ele tem uma forma muito bonita de acordo com a sua
espécie: patinhas lindas e pelos tão lisos que parece ter sido criado pela
Palavra de Deus por um motivo especial. Portanto, também nesse caso
admiramos a criação e a obra de Deus. O mesmo pode-se dizer das moscas.
Sobre as aves [para onde vão no outono], eu nada sei. Não é provável
que elas voem para regiões situadas mais ao sul, visto que, por experiência,
conhece-se este milagre das andorinhas: elas jazem mortas nas águas
durante o inverno e revivem na primavera. Isso, certamente, é um forte
argumento a favor da nossa ressurreição. Por isso, creio que elas são
conservadas em árvores ou em águas. Essas obras da majestade divina, que
vemos, mas não compreendemos, são, fora de dúvida, admiráveis. Creio
que se algum dia uma espécie desapareça (o que eu duvido que venha a
acontecer), ela será restituída por Deus.
[Em suma:] todos os seres que se arrastam, serpeiam e voam e os que se
movem de qualquer outro modo no ar ou na água pertencem à criaçãodo
quinto dia.
E Deus viu que era bom e os abençoou. [1.22]
Por que Deus não usou o verbo “abençoar” também para os seres
inanimados? Ali, ele apenas declarou que estes lhe agradavam, mas não os
abençoou. Quando, porém, passou à geração de corpos vivos, ele instituiu
um novo modo de crescer e de se multiplicar. O sol e as estrelas, como
vemos, não geram corpos semelhantes a partir de si, mas as ervas e as
árvores têm a bênção [divina] para que cresçam e produzam frutos.
Entretanto, nada se assemelha à bênção dos corpos vivos.
Com o verbo “abençoar”, Moisés separa as criaturas criadas antes dos
corpos vivos criados no quinto dia, pois aqui temos um novo modo de
geração: do corpo vivo surgem descendentes separados, que passam a ter
vida. Isso não acontece no caso das árvores ou das ervas; a não ser que
sejam semeadas de novo, não produzem fruto, e a semente não nasce
simplesmente da semente, mas da erva. Nesse caso, porém, acontece a
geração de um corpo vivo em um corpo vivo. Que um corpo vivo cresça e
se multiplique a partir de seu [próprio] corpo, isso é uma obra nova. O que a
pereira produz [40] não é uma pereira, mas uma pera. Todavia, a ave gera
uma ave e o peixe gera um peixe. A fantástica multiplicação das duas
espécies e sua infinita fertilidade, especialmente a dos animais marinhos e
aquáticos, são admiráveis.
A que se deve esse admirável potencial de procriar? A galinha põe o
ovo e o aquece até que se gere um corpo vivo no ovo, que a mãe, depois,
choca. Os filósofos o explicam do seguinte modo: isso acontece através da
ação do sol e do ventre. Eu concordo com isso, mas [prefiro o que] afirmam
os teólogos, com muito mais propriedade, que isso acontece pela ação da
Palavra que é proferida aqui: “Abençoou-os e disse: ‘Crescei e multiplicai-
vos’”. Esta palavra está presente no corpo da galinha e em todos os corpos
vivos; o calor com que a galinha aquece os ovos provém da Palavra divina;
se estivesse sem a Palavra, esse calor seria inútil e ineficaz.
A essa admirável criação, Deus acrescenta a bênção, para que estes
corpos também sejam férteis. Aqui se vê o que é, propriamente, esta
bênção, ou seja, multiplicação. Quando nós abençoamos, nada fazemos
senão desejar o bem, mas não podemos oferecer o que desejamos. A bênção
de Deus, contudo, anuncia a multiplicação e também é eficaz. De modo
semelhante, a maldição [divina], por seu turno, [evoca] limitação, e é
igualmente eficaz.
Deve-se atentar novamente para a expressão de Moisés. O que ele
chama de bênção, os filósofos chamam de fertilidade, ou seja, quando
corpos inteiros e vivos são produzidos por corpos inteiros e vivos, o que
não acontece com as árvores, pois estas não produzem qualquer coisa
semelhante a si mesmas; produzem apenas uma semente etc. Isso é um
grande milagre. Mas, como o resto, também este perdeu sua importância
porque nos acostumamos a ele.
Pergunta-se ainda a respeito dos vermes ou dos animaizinhos nocivos,
como sapos, moscas, borboletas, cuja fertilidade é espantosa. Quase sempre
acontece que quanto mais prejudicial uma espécie tanto mais fértil ela é.
Deixemos essa questão para o terceiro capítulo. Creio que, naquele tempo,
essas criaturas molestas e nocivas ainda não existiam, mas foram geradas
mais tarde pela terra amaldiçoada como castigo pelo pecado, para nos
afligir e nos obrigar a invocar a Deus. Isso, porém, deve ser tratado em
outra ocasião.
No quinto dia já haviam sido criados corpos vivos. A palavra deste dia é
eficaz até hoje, porque os peixes [continuam sendo] gerados simplesmente a
partir da própria água. Viveiros e lagos geram peixes; carpas nascem em
viveiros nos quais antes não havia nenhuma [carpa]. Não me parece
provável a história fantasiosa de que os peixes, apanhados por aves, deixam
cair lá de cima sua semente nos viveiros e lagos, enquanto são carregados
pelo ar, e que esta, então, se desenvolve nas águas. A verdadeira e única
razão é que aqui se ordena à água que produza peixes. Essa palavra é eficaz
até hoje e opera tudo isso.
[41] Sexto dia
E Deus disse: a terra produza alma viva de acordo com o seu gênero
etc. [1.24]
Já temos o céu com seus exércitos, o sol, a lua, as estrelas; o mar com os
peixes e as aves. Assim como os peixes nadam na água, as aves, por assim
dizer, nadam no ar. Também à terra foram acrescentados os ornamentos dos
frutos, árvores, ervas etc. Agora, antes do ser humano ser introduzido nesta
casa, por assim dizer, acrescentam-se os animais terrestres, os animais de
carga e os répteis, depois dos quais também é criado o ser humano. Afinal,
ele não nasceu para voar com as aves ou nadar com os peixes, mas
compartilha com os outros animais a característica comum – no que diz
respeito a esta parte – de viver sobre a terra. O uso de navios, mediante os
quais o ser humano se empenha para imitar os peixes e as aves, é artificial,
pois o navio faz ambas as coisas: voa no ar e nada na água. Mas aqui
estamos falando de coisas naturais, não de artificiais.
Os hebreus fazem uma distinção entre as denominações [dos animais]:
chamam de behemah o que nós chamamos de animais de carga e, também,
animais silvestres menores, como cervos, cabras, lebres, e todos os que
usam a mesma comida que nós e se alimentam de ervas e frutas das árvores.
Haieso erez, porém (que se traduz corretamente por “animais da terra”),
dizem eles, são os animais carnívoros, como lobos, leões, ursos. Não sei se
esta é uma distinção constante, mas não me parece realmente que seja
observada em toda parte. Certo está, no entanto, que Moisés quis abranger,
aqui, todos os animais terrestres, tanto os que se alimentam de carne quanto
os que se alimentam de ervas. Ele diz que a mãe de todos eles é a terra, que
os produziu a partir de si, mediante a Palavra, assim como o mar produziu
os peixes.
Ouvimos acima que Deus disse para a água: “Que se mova a água” etc.,
para que, com o movimento, o mar se enchesse de peixes e o ar de aves, e
que a capacidade de gerar só foi acrescentada depois. Em relação aos
animais terrestres, ele emprega aqui um outro verbo e diz: “Que a terra
produza”, e não: “Que se mova”, pois a terra é um corpo em descanso. Por
isso, ele também disse no quarto dia: “Que a terra produza ervas”, porque
quer que ela produza animais e ervas sem movimentar-se.
A Escritura não define se esses animais foram formados de uma porção
de terra, à semelhança do ser humano, ou se surgiram de repente. No
entanto, como Moisés celebra a formação do ser humano com um propósito
singular, sou de opinião que os animais da terra passaram a existir como os
peixes, que nasceram de repente no mar. A razão por que ele não acrescenta
aqui a bênção é óbvia, pois abaixo ele inclui [os animais na bênção do] ser
humano. Por ora bastou dizer: “Deus viu, e era muito bom”. Mas passemos
agora para a última e mais bela obra de Deus, a criação do ser humano.
Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança. [1.26]
Aqui, Moisés introduz uma nova maneira de se expressar. Ele não diz:
“Que o mar se agite, que a terra produza ervas”, mas “façamos”. Recorre,
portanto, a um [42] planejamento e a um conselho, o que ele não fizera
anteriormente ao criar os animais. Ali, sem deliberar e sem planejar,
[limitou-se] a dizer: “Que se agite o mar, que a terra produza” etc. Mas,
agora, quando decide criar o ser humano, Deus se aconselha e emite uma
espécie de parecer.
Primeiramente, denota-se aqui uma notável diferença do ser humano em
relação a todas as outras criaturas. Os animais são muito semelhantes aos
seres humanos: convivem conosco, são alimentados por nós, alimentam-se
das mesmas comidas que nós, dormem e descansam entre nós. Portanto, se
levas em consideração habitação, sustento e comida, há muita semelhança
[entre nós e os animais].
No entanto, Moisés mostra aqui uma grande diferença entre os animais
e o ser humano ao dizer que este foi criado através de um plano especial da
providência divina. Indica com isso que ele é uma criatura que supera em
muito todos os demais animais que têm uma vida natural – principalmente
enquantoa natureza ainda não estava corrompida. Epicuro347 é de opinião
que o ser humano só foi criado para comer e beber. Com isso não se faz
distinção entre o ser humano e os demais animais, que também têm seus
desejos e os seguem. O texto [bíblico], no entanto, distingue claramente o
ser humano quando diz que Deus pensou em criá-lo segundo um
determinado plano; e mais: em fazê-lo à imagem de Deus. Essa imagem é
algo muito diferente da preocupação com o ventre, ou seja, com comida e
bebida, o que os animais também percebem e desejam.
Moisés mostra, portanto, aos que têm inclinações para a espiritualidade
que fomos criados para uma vida melhor do que teria sido esta vida física,
mesmo se nossa natureza tivesse permanecido íntegra. Os doutores dizem
muito bem: se Adão não tivesse caído em pecado, Deus, depois de
alcançado certo número de santos, teria transferido [as pessoas] desta vida
física para a vida espiritual. Pois Adão não deveria viver sem alimento, sem
bebida e sem procriar. Mas, num tempo pré-determinado, depois de
completado o número dos santos, teriam cessado essas atividades físicas, e
Adão e sua descendência teriam sido transferidos para a vida eterna e
espiritual. E as obras [próprias] da vida física – comer, beber, procriar etc. –
teriam sido um serviço agradável a Deus, que teríamos prestado a ele sem o
vício da concupiscência, que existe agora, depois do pecado, sem qualquer
pecado e sem medo da morte. Esta vida, sem nenhuma dúvida, teria sido
agradável e deliciosa, sobre a qual certamente se pode pensar, mas que não
pode ser alcançada enquanto vivemos neste mundo. Mas o que temos é o
que cremos, a saber, a certeza da esperança de uma vida espiritual no
paraíso, concebida por Deus, que nos foi destinada por ele pelo mérito de
Cristo, para quando findar esta vida [que temos agora].
Deve-se, pois, atentar para este texto, em que o Espírito Santo adorna
magnificamente a natureza humana, distinguindo-a de todas as outras
criaturas. [Caso Deus não tivesse feito isso], sua vida física ou animal
certamente seria semelhante à dos animais. Pois assim como os animais
necessitam de comida, bebida e descanso para refazer seus corpos, assim
também Adão, em sua inocência, faria uso dessas coisas. Mas o fato de se
acrescentar que o ser humano [43,5] foi criado para ter uma vida como a de
qualquer animal, mas que foi feito à imagem e semelhança de Deus, indica
que ele terá uma vida diferente, melhor do que a de um animal.
Logo, Adão tinha uma vida dúplice: animal e imortal, embora ainda não
claramente revelada; [tinha-a] na esperança. Enquanto esperava, teria
comido, bebido, trabalhado, procriado etc. Eu quis chamar a atenção em
poucas palavras para essa diferença que Deus faz através do seu plano,
mediante o qual nos separou dos demais animais com os quais nos permite
viver. Abaixo, trataremos disso com mais detalhes.
Em segundo lugar, o verbo “façamos” pertence ao mistério – a ser
confirmado – da nossa fé, pela qual cremos que, desde a eternidade, existe
um só Deus e três pessoas distintas numa só divindade, o Pai, o Filho e o
Espírito Santo. Certamente, os judeus se empenham de várias maneiras para
evitar esta passagem, mas não apresentam nenhum argumento convincente
contra ela. Ela os incomoda até a morte, para usar uma expressão de
Ockham348, que a aplica a questões confusas e incômodas que ele não
consegue resolver.
Os judeus dizem que Deus está falando aqui com anjos, com a terra e
com outras criaturas. Mas eu pergunto [em primeiro lugar]: por que ele não
fez isso antes? Em segundo: que a criação dos seres humanos tem a ver com
os anjos? Em terceiro: ele não cita os anjos, mas simplesmente diz “nós”.
Portanto, ele está falando de [pessoas] que fazem e criam. Isso, certamente,
não se pode dizer dos anjos.
Em quarto lugar, também isto é certo: de modo algum pode-se dizer que
nós fomos criados à imagem dos anjos. Em quinto: usam-se aqui “façamos”
e “fez”, no singular e no plural. Com isso, Moisés mostra de forma clara e
convincente que, na única essência divina, que criou tudo, existe uma
pluralidade criadora indivisível. Isso nem sequer as portas do inferno nos
arrebatarão.
Depois, o que os judeus dizem sobre a terra, [isto é,] que Deus fala com
a terra, também é inconsistente. Pois a terra não é nossa criadora. Além
disso, por que não falaria, de preferência, com o sol, visto que Aristóteles
diz: “O ser humano e o sol geram o ser humano”? Mas isso tampouco cabe
aqui, porque não fomos feitos à imagem da terra, mas à imagem daqueles
fazedores que dizem “façamos”. Estes são três pessoas distintas em uma só
essência divina. Somos imagem destas três pessoas, como ouviremos
depois.
É especialmente ridículo quando os judeus afirmam que Deus segue o
costume dos príncipes, que falam de si no plural por causa da nobreza. Mas
o Espírito Santo não está imitando esse costume cancelário (por assim
dizer), nem [tampouco] a Sagrada Escritura conhece essa maneira de falar.
Por isso, com certeza, aponta-se, aqui, para a Trindade, isto é, que numa
essência divina existem três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, de
modo que Deus não se divide nem mesmo quando está agindo, porque,
aqui, as três pessoas atuam concomitantemente e dizem “façamos”. O Pai
não [44,5] cria uma pessoa diferente do Filho, nem o Filho [cria] um [ser]
diferente do Espírito Santo, mas o Pai, o Filho e o Espírito Santo, um só e
mesmo Deus é o autor e criador da mesma obra.
Desse modo, Deus não pode ser separado objetivamente, pois o Pai não
é conhecido senão no Filho e através do Espírito Santo. Por isso, tanto ativa
quanto objetivamente há um só Deus que, no entanto, em si mesmo, em
termos de substância ou essência, é Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas
distintas em uma só divindade.
Esses testemunhos devem ser acatados e bem-vindos. Mesmo que os
judeus e os turcos riam de nós porque somos de opinião que existe um só
Deus e três pessoas, eles são obrigados, por esta passagem e também por
aquelas citadas acima, a aceitar a nossa opinião, a não ser que queiram
negar descaradamente a autoridade da Escritura. Eles podem escarnecer
dessas ideias, o que os judeus costumam fazer com maestria, mas em seu
coração permanece este aguilhão: “Por que ele diz ‘façamos’?” De forma
semelhante [ficam se martirizando com a pergunta]: “Por que Moisés usa o
plural elohim?” Essas indagações, eles não conseguem excluir de sua
mente, embora possam tentar e perguntar das mais variadas maneiras. Se
zombar desses testemunhos fosse [sinal] de sabedoria, tu acreditas que nos
faltaria inteligência para fazer a mesma coisa? Para nós, no entanto, a
autoridade da Escritura está acima [da inteligência]. Além do mais, o Novo
Testamento o comprova claramente. O Filho, que está no seio do Pai,
ensina-nos essas coisas com muita clareza; não crer nele é suma blasfêmia e
morte eterna. Por isso, que passem bem estes depravadores cegos das
doutrinas divinas até seu julgamento!
Talvez argumentes que esses testemunhos não são suficientemente
claros para comprovar um artigo de fé de tanta envergadura. Respondo:
convinha que, naquele tempo, essas coisas fossem ditas tão obscuramente
por conselho divino ou, pelo menos, porque todas as coisas tinham sido
reservadas para o Senhor que viria depois, para cujo advento estava
reservada a restauração de todas as coisas, de todo conhecimento e de todas
as revelações. Portanto, tudo o que antes fora apresentado, por assim dizer,
mediante enigmas, Cristo desenvolveu e ordenou que fosse pregado
claramente. No entanto, os santos Pais tinham esse conhecimento através do
Espírito Santo, embora não tão claramente como [o temos] agora, quando
ouvimos serem mencionados [nominalmente] o Pai, o Filho e o Espírito
Santo. Com a vinda de Cristo, convinha que esses selos fossem removidos e
que se pregasse claramente, somente por causa da reverência do futuro
mestre, o que antes fora transmitido mediante palavras obscuras. Se o
Espírito Santo não tivesse adiado este conhecimento claro para o tempo do
Novo Testamento, os arianos349teriam existido muito antes de Cristo. Por
isso, o Espírito Santo quis confrontar o diabo com esse sol de conhecimento
nos últimos tempos, para que seus olhos fossem cegados e ele passasse a
invejar esse conhecimento tão claro, dado aos seres humanos, e fosse
torturado com mais veemência.
[45] Em terceiro lugar, agita-se aqui, por assim dizer, um [verdadeiro]
mar de perguntas: que é essa imagem de Deus segundo a qual Moisés diz
que foi feito o ser humano? Agostinho explica esta passagem amplamente,
principalmente no livro sobre a Trindade. Quase todos os demais doutores
seguem Agostinho, que conservam a divisão de Aristóteles: que a imagem
de Deus são os poderes da alma – memória, mente ou intelecto e vontade;
dizem que a imagem de Deus, que existe em todos os seres humanos,
consiste nestas três [coisas]. Pois exatamente como na divindade, dizem, a
palavra nasce da substância do Pai, e o Espírito Santo é da complacência do
Pai. Assim, no ser humano, a palavra do coração, que é a mente, procede da
memória. Quando essa foi produzida, apresentou-se a vontade, que vê a
mente e se deleita nela.
A semelhança, no entanto, dizem, está nos dons da graça. Assim como a
semelhança é um certo aperfeiçoamento da imagem, a natureza é
aperfeiçoada pela graça. Por isso, a semelhança de Deus consiste em que a
memória é ornada com a esperança, a mente com a fé, e a vontade com o
amor. Desse modo, segundo eles, o ser humano foi criado à imagem de
Deus, ou seja, tem mente, memória e vontade. Igualmente, o ser humano foi
criado à semelhança de Deus, ou seja, a mente é iluminada pela fé, a
memória é firmada pela esperança e constância, e a vontade é ornamentada
pelo amor.
Em terceiro [sic] lugar, ainda fazem outras divisões, ou seja, que a
memória é a imagem do poder de Deus, a mente, da sabedoria, e a vontade,
da justiça. Desse modo, principalmente Agostinho e outros depois dele,
aplicaram-se no sentido de imaginar diversas trindades no ser humano, pois
acreditaram que, desse modo, a imagem de Deus poderia ser compreendida
mais facilmente. Embora essas especulações nem tão desagradáveis
manifestem claramente mentes agudas e ociosas, elas contribuem muito
pouco para explicar corretamente a imagem de Deus.
Por isso, embora eu não condene nem reprove essa preocupação e esses
pensamentos, mediante os quais todas as coisas são reduzidas à Trindade,
não sei se eles são muito úteis, principalmente quando, depois, são levados
adiante. Pois aqui também se impõe a discussão sobre o livre-arbítrio, que
nasce desta imagem. Eles dizem o seguinte: Deus é livre, portanto, como o
ser humano foi criado à imagem de Deus, também tem memória, mente e
vontade livres. Desse modo, escapam muitas coisas, que são ditas de forma
imprópria ou são interpretadas depois de maneira ímpia. Daqui originou-se
a perigosa opinião de que, segundo afirmam, Deus governa os seres
humanos de tal forma que lhes permite agir de acordo com seu próprio
impulso. Dessa afirmativa surgiram muitas opiniões incômodas,
semelhantes a esta: Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.
Concluiu-se daí que o livre-arbítrio concorre como causa precedente e
eficiente da salvação. Não é diferente a afirmação de Dionísio350, mais
perigosa do que as anteriores, quando diz: embora os demônios e o ser
humano tenham caído, contudo seus dons naturais, como a mente, a
memória e a vontade etc., permaneceram íntegros. Ora, se isso é verdade,
conclui-se que o ser humano, pelos poderes de sua natureza, pode produzir
sua própria salvação.
Essas opiniões perigosas dos Pais foram debatidas em todas as igrejas e
escolas, mas, realmente, não vejo o que eles queriam alcançar com elas. Por
isso, aconselho que sejam lidas com discernimento. Muitas vezes, eles
falam movidos pela emoção e como bem [46] entendem, com o que nós não
podemos concordar, porque não temos as mesmas motivações. Os
inexperientes aceitam tudo irrefletidamente conforme eles entendem e não
como o entenderam os Pais. Deixando isso de lado, volto ao assunto.
Eu temo que, depois de termos perdido essa imagem por causa do
pecado, não possamos compreendê-la suficientemente. Sem dúvida, temos
memória, vontade e mente, mas totalmente corrompidas e altamente
debilitadas, sim, para dizê-lo mais claramente, inteiramente leprosas e
impuras. Se esses dons são a imagem de Deus, pode-se concluir que
também Satanás foi criado à imagem de Deus, pois ele, certamente, tem
esses dons naturais numa dimensão muito maior do que nós os temos; uma
memória e uma mente muito superiores e uma vontade obstinadíssima.
A imagem de Deus é bem diferente, pois é obra singular de Deus. Se
alguns afirmam que esses poderes são esta imagem, também têm que
admitir que eles são, por assim dizer, leprosos e imundos, assim como
chamamos a pessoa leprosa de ser humano, embora na carne do leproso
quase tudo esteja morto e entorpecido, exceto que ele é movido com mais
ardor ao desejo sexual.
Por isso, a imagem de Deus, segundo a qual foi criado Adão, foi algo
muito mais primoroso e nobre, haja vista que a razão ou a vontade não
estavam contaminadas pela lepra do pecado. Tanto seus sentidos interiores
quantos os exteriores estavam todos limpíssimos. A mente era puríssima, a
memória, ótima, e a vontade, sincera e verdadeira, sem medo da morte e
sem nenhuma preocupação. A essas qualidades interiores juntou-se a mais
bela e excelente virtude do corpo e de todos os membros, mediante a qual
[Adão] superou todas as demais criaturas vivas. Estou convicto de que,
antes do pecado, os olhos de Adão eram tão agudos e claros que ele
superava o lince e a águia. Ele era mais forte do que os leões e os ursos,
cuja força é enorme, e não os tratava diferentemente do que nós tratamos
filhotes [de qualquer espécie]. Também as frutas que lhe serviram de
alimento tinham mais qualidade, eram mais doces e muito superiores às de
agora.
Todavia, depois da queda, a morte insinuou-se sorrateiramente em todos
os sentidos, como a lepra, de modo que nem sequer podemos imaginar
como era a primeira imagem. Adão não teria conhecido sua Eva se não
tivesse tido uma disposição muito segura e não tivesse sido obediente a
Deus, sem qualquer pensamento perverso. Todos sabem quanto ímpeto
existe na carne, agora, depois do pecado, que não só é impetuosa na [hora
de] cobiçar, mas [47] também depois, quando o obteve, ao rejeitar o que
desejou. Em ambos os casos não se vê razão ou vontade íntegras, mas
apenas furor maior do que nos animais. Não é isso uma lepra grave e
perniciosa, que Adão não tinha antes do pecado? Além disso, ele tinha mais
força e sentidos mais apurados do que os demais seres vivos. Até que ponto,
hoje, os javalis superam o ser humano em audição, as águias, em visão? Até
que ponto o leão supera o ser humano em forças? Ninguém pode imaginar o
quanto a natureza era melhor [antes da queda] do que é agora.
Por essas razões, eu entendo a imagem de Deus da seguinte maneira:
Adão a teve em sua essência, ele não só conheceu a Deus e acreditou que
ele era bom, mas também viveu uma vida inteiramente divina, ou seja, não
tinha pavor da morte nem dos perigos, contentando-se com a graça de Deus.
Isso se percebe no caso de Eva, que fala com a serpente como nós falamos
com um cordeiro ou um cachorrinho, sem qualquer medo. Por isso, Deus
propõe o seguinte castigo caso transgridam o preceito: “No dia em que
comeres desta árvore, com certeza morrerás” [Gn 2.17], como se dissesse:
“Adão e Eva, agora vocês vivem seguros, não sentem nem veem a morte.
Esta é minha imagem, mediante a qual vivem como Deus vive. Porém, se
pecarem, perderão esta imagem e morrerão”.
Vemos, portanto, agora, quão grandes perigos, quantas mortes e
ocasiões de morte esta natureza miserável é obrigada a experimentar e a
suportar por causa da horrorosa concupiscência e outros furores do pecado e
das emoções desordenadas que acontecem nos corações de todos. Nunca
estamos seguros em Deus, mas o terror e o pavor nos acossam até no sono.
Estes e outros males são a imagem do diabo, que os imprimiu em nós.
[Antes da queda,]Adão viveu em máxima satisfação e segurança: não
temeu fogo nem água, nem outros incômodos que infestam esta vida e que
nós tanto tememos.
Que minimize o pecado original quem quiser. Ele, seguramente, aparece
tanto nos pecados como nos castigos e é, de longe, o maior [pecado de
todos]. Considera apenas o desejo sexual. Porventura, não é ele
impetuosíssimo tanto na hora da concupiscência quanto [depois] no fastio?
Que dizer sobre o ódio a Deus e as blasfêmias? Esses são os pecados
perceptíveis que verdadeiramente sinalizam que se perdeu a imagem de
Deus.
Portanto, quando falamos sobre a imagem [de Deus], falamos sobre
uma coisa desconhecida que nós não apenas não experimentamos, mas
experimentamos continuamente o contrário, e não ouvimos nada senão
meras palavras. Adão tinha uma razão iluminada, um conhecimento
verdadeiro de Deus e uma vontade autêntica de amar a Deus e o próximo,
assim como Adão abraçou Eva e, imediatamente, a reconheceu como sua
carne. A esses se juntaram outros dons mais leves, mas muito importantes,
se comparados com a nossa fraqueza, ou seja, um perfeito conhecimento da
natureza dos animais, das ervas, dos frutos, das árvores e das outras
criaturas.
Todas essas qualidades reunidas não constituem e não produzem o tipo
de ser humano em que possas sentir o reflexo da imagem de Deus,
principalmente quando acrescentas também o domínio sobre as criaturas?
Assim como Adão e Eva reconheceram Deus como Senhor, eles próprios,
mais tarde, exerceram o domínio sobre as demais criaturas no ar, na água e
sobre terra. Quem poderá descrever essa majestade [48] com palavras?
Creio que Adão poderia ter mandado num leão com uma só palavra, assim
como nós mandamos num cão adestrado. Ele tinha a liberdade de cultivar a
terra para produzir o que quisesse. O que segue provará que naquela época
não existiam espinhos e cardos. Creio também que não existiam animais
ferozes como hoje.
[Tudo] isso é culpa do pecado original, através do qual todas as outras
criaturas contraíram o vício. Creio que, antes do pecado, o sol era mais
claro, a água mais pura, as árvores mais férteis, os campos mais fecundos.
Através do pecado e daquela terrível queda, porém, não só a carne foi
deformada pela lepra do pecado, mas tudo que se utiliza nesta vida foi
corrompido, como explicaremos mais claramente abaixo.
Agora, porém, o Evangelho faz com que essa imagem seja restaurada. É
verdade, a mente e a vontade permaneceram, mas ambas muito viciadas. O
Evangelho, todavia, faz com que essa imagem seja restaurada em nós; sem
dúvida, uma imagem melhor, pois nela renascemos para a vida eterna ou,
melhor, para a esperança da vida eterna, pela fé, para que vivamos em e
com Deus e sejamos um com ele, como diz Cristo351.
Mas não renascemos somente para a vida, mas também para a justiça,
pois a fé apropria-se do mérito de Cristo e estabelece que fomos libertados
pela morte de Cristo. De lá, origina-se nossa outra justiça, ou seja, aquela
novidade de vida, mediante a qual nos esforçamos por obedecer a Deus,
instruídos e ajudados pelo Espírito Santo. Essa justiça só inicia nesta vida,
mas não pode ser completada na carne. Mesmo assim, ela agrada a Deus,
não como se fosse uma justiça perfeita ou um pagamento pelos pecados,
mas porque provém do coração, que se apoia na confiança da misericórdia
de Deus através de Cristo. Isso também acontece por meio do Evangelho,
para que nos seja dado o Espírito Santo, que oferece resistência à
incredulidade, à inveja e a outros vícios, para que desejemos honrar
seriamente o nome do Senhor e sua Palavra etc.
Desse modo, a imagem da nova criatura começa a ser reparada pelo
Evangelho nesta vida, mas não é completada nela. No entanto, quando for
completada no Reino do Pai, a vontade será verdadeiramente livre e boa, a
razão, verdadeiramente iluminada, e a mente, persistente. Então, todas as
outras criaturas estarão mais sujeitas a nós do que o foram a Adão no
paraíso.
No entanto, antes que isso seja consumado, é impossível sabermos
satisfatoriamente o que foi essa imagem de Deus perdida no paraíso através
do pecado. Contudo, o que estamos dizendo, ensinam-nos a fé e a Palavra,
que mostram, como de longe, a glória da imagem divina. Assim como no
início, antes que a luz fosse acrescentada, o céu e a terra eram corpos
toscos, por assim dizer. Os piedosos têm dentro de si uma imagem tosca,
que Deus terminará no último dia naqueles que creram na Palavra.
A imagem de Deus foi algo extraordinário, em que estavam incluídas a
vida eterna, a bem-aventurança eterna e todas as coisas boas. Porém, pelo
pecado, essa imagem foi tão obscurecida e corrompida que nem sequer
podemos [49] compreendê-la com o intelecto. Podemos proferir palavras,
mas quem pode entender o que significa viver em bem-aventurança, sem
pavores e perigos, e ser sábio, reto e bom, e livre de todas as calamidades,
sejam elas espirituais ou corporais? Maior do que essas coisas, porém, foi o
fato de ele [Adão] ter sido capaz da vida eterna. Pois foi criado de tal
maneira que, enquanto vivesse nesta vida corporal, cultivaria a terra não
como se estivesse fazendo um trabalho enfadonho ou cansando o corpo com
a labuta, mas com o maior prazer, não por passatempo, mas em obediência
a Deus e em submissão à sua vontade.
Depois desta vida corporal viria a vida espiritual, na qual não precisaria
ingerir alimentos terrenos nem fazer uso de outras coisas pertinentes a esta
vida, mas viveria de modo angelical e espiritual. Conforme se nos retrata a
vida futura na Sagrada Escritura, [nela] não beberemos, nem comeremos,
nem exerceremos quaisquer outras atividades físicas. Por isso Paulo diz: “O
primeiro ser humano foi feito alma vivente” [1 Co 15.45], ou seja, vive uma
vida física, que necessita de alimento, bebida, sono etc. Mas “o segundo
será renovado em espírito que dá a vida”, ou seja, será um ser humano
espiritual, voltando a [ser] imagem de Deus. Pois será semelhante a Deus
em vida, justiça, santidade, sabedoria etc. Agora segue:
Que domine sobre os peixes do mar etc.
Aqui, atribui-se um reino a mais bela criatura, que conhece Deus e é
imagem de Deus, na qual brilha a semelhança da natureza divina através da
razão iluminada, da justiça e da sabedoria, e Adão e Eva tornam-se os
governantes da terra, do mar e do ar. Esse domínio não lhes foi confiado
apenas como conselho, mas também como mandamento expresso. Em
primeiro lugar, consideremos diligentemente que a nenhum animal é
ordenado que exerça o domínio, mas todos os animais, inclusive a terra com
tudo que nasce dela, são submetidos a Adão, que Deus constituiu, por um
mandamento oral expresso, como rei sobre toda a criatura viva. Adão e Eva
ouviram estas palavras com os [próprios] ouvidos, quando Deus falou:
“Dominai”. Portanto, o ser humano nu, sem armas nem muros, sim, sem
qualquer vestimenta, com sua pele exposta, dominou sobre todas as aves,
feras e peixes.
Também essa pequena parte da imagem divina nós perdemos, de modo
que nem sequer percebemos quão grande foi a alegria e a satisfação de
Adão ao contemplar as criaturas vivas. Mas hoje tudo está pervertido, até
mesmo entorpecido e inteiramente morto. Quem é capaz de imaginar o que
significa aquele atributo da natureza divina que confere a Adão e Eva o
dom de entender toda a constituição de todos os animais, seus sentidos e
todos os seus poderes? Que reino teria sido esse se eles não o soubessem?
Entre os santos vê-se que, nesta vida, eles têm algum conhecimento de
Deus a partir da Palavra e do Espírito Santo. Mas o conhecimento da
natureza – que reconheçamos plenamente todas as qualidades das árvores e
ervas, todas as índoles dos animais – isso é totalmente irrecuperável nesta
vida.
Portanto, se quisermos celebrar algum filósofo ilustre que celebremos
os nossos primeiros pais, quando eles ainda não estavam contaminados pelo
pecado, pois eles conheciam Deus perfeitissimamente. De que forma não o
conheceriam, se eles tinham em si a sua semelhança [50,4] e tinham
conhecimento disso? Além do mais, também conheciam perfeitamente as
estrelase toda a astronomia.
[Esses conhecimentos os] tinham tanto Eva como Adão, conforme
revela a fala de Eva, quando respondeu à serpente sobre a árvore no meio
do paraíso. Ali, aparece claramente que ela conhecia a finalidade para a
qual fora criada, e aponta para o autor através do qual o sabia, quando
falou: “O Senhor disse”. Portanto, ela não o ouviu só de Adão, mas sua
própria natureza era pura e plena do conhecimento do Senhor, de modo que
ela mesma entendia e compreendia a Palavra de Deus.
Desse conhecimento existem apenas resíduos embotados em nós, como
se estivessem mortos. Os outros animais não têm absolutamente nada desse
conhecimento, não conhecem o Criador, [não conhecem] sua origem e seu
fim, de que e por que foram criados. Logo, carecem completamente da
semelhança de Deus. Por isso, o Salmo exorta: “Não se tornem como
cavalo e mula” [Sl 32.9].
Mesmo que essa imagem tenha sido quase totalmente perdida, a
diferença entre o ser humano e os outros animais continua muito grande.
Antes do pecado, todavia, a diferença era muito maior e mais clara, quando
Adão e Eva conheciam a Deus e todas as criaturas, e estavam como que
totalmente envolvidos na bondade e na justiça de Deus. Como resultado,
houve também entre eles uma notável união de corações e vontades.
Nenhuma outra imagem em todo o mundo parecia mais delicada e bela a
Adão do que sua Eva. Agora, a esposa é, como as pessoas dizem, um mal
necessário. Por que a chamam de mal vê-se com clareza, mas eles
desconhecem a causa do mal, ou seja, Satanás, que de tal maneira depravou
e corrompeu esta criatura.
O que nós alcançamos na vida [hoje] não se deve ao domínio como
Adão tinha, mas à nossa sagacidade e habilidade. Do mesmo modo como
vemos aves e peixes serem capturados por meio de astúcia e esperteza,
assim domesticam-se animais com habilidade. Pois os animais
[considerados] domésticos, como os patos e as galinhas, são, em verdade,
em si e por sua natureza, selvagens. Portanto, esse corpo corrompido tem,
até hoje, pelo favor de Deus, uma espécie de domínio sobre as outras
criaturas. Este, porém, é muito pequeno e muito inferior quando comparado
ao primeiro domínio, no qual não havia necessidade de habilidade ou
artimanhas, pois a criatura, por si só, obedecia à voz divina, porque Adão e
Eva haviam recebido o mandamento de dominar sobre ela.
Conservamos o nome e o vocábulo “domínio” como mero título, pois na
prática ele perdeu quase completamente o sentido. Saber essas coisas e
refletir sobre elas é útil para que suspiremos pelo dia – que virá – em que se
restaurará aquilo que perdemos no paraíso por causa do pecado, pois
esperamos pela [mesma] vida pela qual também Adão teria esperado,
admiramo-nos sobremodo e rendemos graças a Deus. Embora estejamos
deformados pelo pecado, embotados, entorpecidos e mortos, esperamos, por
mérito de Cristo, a mesma glória da vida espiritual que Adão esperaria se
tivesse permanecido na vida física [original], que detinha a imagem de
Deus.
[51,13] E Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o
criou. [1.27]
Aqui, [Moisés] não usa o vocábulo “semelhança”, mas “imagem”.
Talvez ele quisesse evitar a amfibolian352 e, por isso, repetiu a palavra
“imagem”. Não consigo ver outro motivo para essa repetição do que
enfatizar a alegria e a exultação do Criador pela belíssima obra que
realizou; Moisés quis mostrar que Deus não se alegrou tanto com as outras
criaturas como exultou com o ser humano, que criou à sua semelhança. Os
outros animais são considerados vestígios de Deus; somente o ser humano é
imagem de Deus, conforme consta nas Sentenças353. Pois nas outras
criaturas, Deus é conhecido como um vestígio, mas no ser humano,
principalmente em Adão, ele é realmente conhecido, porque nele há
sabedoria, justiça e conhecimento de todas as coisas, de modo que é
chamado corretamente de microcosmos354. Pois ele compreende o céu, a
terra e toda a criação. Deus se alegra, pois, por ter feito uma criatura tão
bela.
Sem dúvida, assim como Deus se alegrou com essa decisão e ter criado
o ser humano, ele, hoje, também se alegra em restaurar essa obra através do
seu Filho e nosso libertador Cristo. É consolador poder refletir sobre essas
coisas e saber que Deus pensa o melhor a nosso respeito e se alegra com a
sua intenção e decisão de restaurar a vida espiritual mediante a ressurreição
dos mortos daqueles que creram em Cristo.
Homem e mulher ele os criou.
Para que não pareça que a mulher é excluída de toda glória da vida
futura, Moisés menciona ambos os sexos, pois a mulher parece ser algo
diferenciado do homem por ter membros diferentes e uma natureza muito
mais frágil. Embora Eva fosse uma criatura extraordinária, semelhante a
Adão no que diz respeito à imagem de Deus, isto é, em termos de justiça,
sabedoria e bem-estar, ela era mulher. Pois assim como o sol é mais notável
do que a lua (embora a lua também seja um corpo [52,10] notabilíssimo),
assim a mulher, embora fosse a obra mais bela de Deus, não alcançava a
glória e a dignidade do homem.
Aqui, Moisés junta os dois sexos e diz que Deus criou homem e mulher
para indicar que Eva também foi criada por Deus, participante da imagem e
semelhança divina e do domínio sobre todas as coisas. Assim, ainda hoje, a
mulher é participante da vida futura, como diz Pedro, que [elas] são
coerdeiras da mesma graça355. E, na administração da casa, a esposa é
coparticipante do domínio e tem posse comum dos filhos e dos bens,
embora haja uma grande diferença entre os sexos. O homem é como o sol
no céu, a mulher, como a lua, os animais são como as estrelas, sobre os
quais o sol e a lua exercem o domínio. Portanto, observemos em primeiro
lugar, nesta passagem, que está escrito que o sexo [feminino] não seja
excluído de qualquer glória da natureza humana, embora seja inferior ao
sexo masculino. Do casamento falaremos abaixo.
[53,29] E abençoou. [1.28]
Isso ele não disse [acima] sobre os animais, por isso ele os incluiu aqui.
Sede fecundos.
Este é o mandamento que Deus deu à criatura. Oh, bom Deus, que
perdemos com o pecado! Quão bem-aventurado era aquele estado do ser
humano em que a procriação estava vinculada à máxima reverência e
sabedoria, em que [as pessoas] tinham conhecimento de Deus! Agora, a
carne está dominada de tal modo pela lepra do desejo sexual que o corpo
fica totalmente selvagem na [hora do] ato da procriação e não gera
[descendentes] com conhecimento de Deus.
[54,6] Portanto, a capacidade de procriar permaneceu na natureza
humana, mas tão enfraquecida, até mesmo inteiramente dominada pela
lepra do desejo sexual, que é [apenas] um pouco mais comedida do que a
procriação dos brutos. A isso se acrescentam os perigos da gestação e do
parto, a dificuldade de alimentar os filhos e outros infinitos males; todos
eles mostram a enormidade do pecado original. Por isso, a bênção que
permanece até hoje na natureza é, por assim dizer, uma bênção maldita e
degradada se a comparas com aquela primeira [bênção]; no entanto,
[mesmo assim] ela foi criada por Deus e é conservada por ele. Por isso,
[mesmo] deformada, aceitemo-la com ação de graças e entendamos que a
inevitável lepra da carne, que é mera desobediência e repugnância anexada
a corpos e mentes, é o castigo pelo pecado. Mas vivamos na esperança de
que essa carne [contaminada pelo pecado] morrerá e que sejamos libertados
dessas imundícies e restaurados até para além daquela primeira criação de
Adão.
E dominai sobre os peixes do mar.
Somos tão dominados pelo desconhecimento que temos de Deus e de
sua criação que nem sequer conseguimos estabelecer com clareza qual foi a
utilidade dos animais de carga, dos peixes e dos outros animais na primeira
criação, que era perfeita. O que vemos é que nos alimentamos de carnes,
legumes etc. Se essas criaturas não fossem usadas para esse fim, não
saberíamos por que foram criadas, pois não vemos ou não temos qualquer
outra serventia para elas. Adão não teria usado essas criaturas como nós as
usamos hoje; teria feito uso delas apenas como alimento, que ele também
teria conseguidode outras frutas bem mais nobres. Outras necessidades,
como vestimenta, dinheiro, ele, a quem todas as coisas haviam sido
submetidas, não tinha. Nem haveria avareza na sua futura descendência, e
as criaturas só seriam usadas para alimentação e, além disso, só serviriam
para exaltar a Deus e para o gozo santo, o que nós desconhecemos nesta
natureza corrompida. Em contraposição, hoje e em quase todos os tempos,
as criaturas mal são suficientes para alimentar e sustentar o ser humano. Por
isso, certamente não conseguimos nem sequer imaginar o que significou
esse domínio [conferido a Adão].
E Deus disse: eis que vos dei toda erva que produz semente etc. [1.29]
Aqui podes ver quanta preocupação Deus tem com o ser humano que
ele criou. Primeiro, criou a terra como casa onde pudesse viver; depois,
ordenou as outras coisas que julgava necessárias para a vida. Por fim, deu à
criatura humana o dom de procriar. Agora, também provê o alimento para
que nada lhe falte e ele possa viver da melhor maneira possível. Creio que,
se Adão tivesse permanecido nessa inocência, os filhos, imediatamente
depois do parto, [55,6] teriam corrido para usufruir as delícias que a
primeira criação proporcionou. Mas essas coisas não podem ser
compreendidas com a razão e são irrecuperáveis nesta vida, e nós as
mencionamos em vão.
E todas as árvores.
Parece que Moisés faz uma diferença entre as sementes e a erva verde,
talvez, porque esta serviria para o uso dos animais, aquelas, do ser humano.
Não tenho dúvida de que as sementes que utilizamos hoje como alimento
eram muito melhores do que são atualmente. Caso contrário, Adão não teria
comido carne, que nós consideramos a coisa mais nobre, como alimento
menos saboroso se comparado com o sabor dos outros frutos da terra. Do
uso desses frutos não teria surgido essa gordura danosa, mas a beleza e a
saúde do corpo e a harmonia saudável dos humores.
Agora, a carne não é suficiente, os legumes não são suficientes, nem os
cereais, e muitas vezes incorremos em perigos para a saúde por causa de
uma alimentação inadequada. Não falo sobre aqueles pecados mais do que
animalescos no uso imoderado de comida e bebida, que pioram
diariamente. Em tudo, a maldição que se seguiu por causa do pecado fica
evidente. Também é provável que os animaizinhos malditos e nocivos
somente tenham surgido depois que a terra foi amaldiçoada por causa do
pecado.
[55,28] E Deus viu todas as coisas que tinha feito, e eram muito boas. E
da tarde e da manhã fez-se o sexto dia. (1.31]
Depois que Deus concluiu suas obras, ele fala como costuma falar uma
pessoa exausta, como se dissesse: “Eis que preparei tudo da melhor forma
possível. O céu, fiz como um teto, a terra é o pavimento; as posses e os
recursos são os animais com todo o aparato da terra, do mar e do ar. As
sementes, as raízes e as ervas são os alimentos. Além disso, o próprio
senhor dessas coisas, o ser humano, foi criado para que tenha conhecimento
de Deus e use as criaturas como quiser, de acordo com a sua vontade, com
toda segurança, justiça e sabedoria. Nada falta: todas as coisas foram
criadas em grande abundância para a vida terrena. Por isso, agora, quero
guardar o sábado etc. [isto é, quero descansar].
[56,5] Todas essas coisas, em sua maior parte, se perderam por causa do
pecado. Hoje, somos apenas como se fôssemos um cadáver do primeiro ser
humano, e conservamos apenas uma sombra daquele reino. Quem, por
acaso, não diria que perdeu tudo porque passou de imortal para mortal, de
justo para pecador, de ser humano aceito e digno para ser humano
condenado? Porque, agora, o ser humano é mortal e pecador. Mas, se essas
coisas não nos movem para a esperança e a expectativa do dia que há de vir
e da vida futura, não há nada que nos possa mover. Isso seja suficiente
como explicação do primeiro capítulo. No que segue, Moisés prosseguirá
ensinando sobre a obra do sexto dia, como foi criado o ser humano.
Segundo capítulo
E foram concluídos os céus e a terra e todo seu exército. [2.1]
No texto latino consta “e todo seu adorno”356, mas no hebraico está
escrito “seu exército” ou “milícia”, zebaam. Os profetas conservaram esta
forma de se expressar, por isso chamavam as estrelas e os planetas de
exército do céu. Assim está escrito em Jr 19[.13], o que os judeus adoraram:
“Todo o exército celeste”, isto é, o sol, a lua e outras estrelas, e em Sf 1[.5]:
“Destruirei os que adoram sobre os telhados o exército do céu”. E Estêvão
diz em At 7[.42]: “Serviram o exército do céu”.
Expressões desse tipo, os profetas emprestaram de Moisés, que designa,
nesta passagem, com um termo militar, as estrelas e as luzes do céu de
exército ou milícia do céu. Do mesmo modo, ele designa os seres humanos,
os animais e as árvores de milícia da terra; talvez, tendo em vista os
acontecimentos futuros, quando Deus se autodenomina de Senhor dos
exércitos ou das milícias, isto é, não só dos anjos ou dos espíritos, mas de
toda a criação que milita a favor dele ou o serve. Pois Satanás, depois de ter
sido lançado fora por Deus devido ao pecado, encheu-se de tanto ódio de
Deus e dos seres humanos que, se pudesse, privaria, num só momento, o
mar de peixes, o ar de aves, a terra dos frutos de todo gênero e destruiria
todas as coisas. Mas Deus criou todas essas criaturas para que se
mantenham no exército e lutem sem fim por nós contra o diabo e contra os
seres humanos, enquanto nos servirem e nos serem úteis.
E Deus concluiu no sétimo dia sua obra que fizera e descansou no
sétimo dia de toda sua obra que fizera. [2.2]
Aqui surge uma pergunta. Moisés diz que no sétimo dia o Senhor
descansou da obra que fizera, isto é, que ele parou de trabalhar no sétimo
dia. Cristo, por seu turno, diz [57] em Jo 5[.17]: “Meu pai trabalha até
agora, e eu [também] trabalho”. Faz parte dessa passagem o que a Epístola
aos Hebreus afirma nos cap.[ítulos] 3[.18] e 4[.3] sobre o descanso: “Se
entrarem”, certamente não na terra da promissão, mas “em meu descanso”
etc.
A essa pergunta nós simplesmente respondemos desta maneira: a
solução é dada pelo próprio texto, quando diz: “Foram concluídos os céus e
a terra”. Pois o sábado ou o descanso do sábado significa que Deus parou
por completo, não criando outro céu e outra terra. Isso não significa que
Deus deixou de conservar e governar o céu e a terra que ele havia criado.
[57,15] Portanto, a solução é fácil. Deus descansou do seu trabalho, isto
é, estava contente com o céu e a terra criados através da Palavra; não criou
novos céus, nem uma nova terra, nem novas estrelas, nem árvores novas.
Contudo, Deus continua trabalhando até hoje. Ele, efetivamente, não
abandonou a natureza que criou, mas a governa e a conserva mediante a
força da sua Palavra. Ele terminou de criar, mas não cessou de governar o
que havia criado. Com Adão, teve início o gênero humano; na terra, [iniciou
todo o tipo de] animais, por assim dizer; no mar, iniciaram os peixes e as
aves. [Tudo começou] em Adão e nos pequenos e grandes animais, mas
estes não cessaram [de se multiplicar]. Até hoje permanece a Palavra que
foi dita sobre o gênero humano: “Crescei e multiplicai-vos”; também
permanece a Palavra: “O mar produza peixes e aves do céu”. Sua Palavra
continua onipotente, pois é por seu poder e sua força que [ele] conserva e
governa toda a criação.
Moisés estabeleceu, pois, com clareza, que no início estava a Palavra.
Como todas as coisas crescem, se multiplicam, são conservadas e
governadas da mesma forma como foi desde o início do mundo, segue-se,
evidentemente, que a Palavra dura até agora e que ela não morreu. Portanto,
o fato de dizer que “Deus descansou da obra” não se refere à evolução das
coisas, ao modo como são conservadas e governadas, mas, simplesmente,
ao início, ou seja, [significa] que Deus cessou de [dar] ordens, como se diz
em linguagem comum, e de [criar] novas espécies ou novas criaturas.
Se olhares para a minha pessoa, eu sou algo novo, porque sessenta anos
atrás eu nada era. Assim julga o mundo. O julgamento de Deus, no entanto,
é outro, porque diante dele eu fui geradoe multiplicado logo no início do
mundo, pois a Palavra “E Deus disse: ‘Criemos o ser humano’” também
criou a mim. Pois tudo que Deus quis criar, criou-o no momento em que
falou. Nem tudo, porém, ficou visível aos nossos olhos. De forma
semelhante como uma flecha ou um projétil, lançados de um canhão (que
tem uma velocidade maior) atingem o alvo, por assim dizer, ao mesmo
tempo e, no entanto, são lançados com um determinado intervalo, assim
Deus percorre o mundo, através de sua Palavra, do início até seu fim. Pois
para ele não [58] existe antes e depois, mais rápido e mais lento, mas todas
as coisas estão presentes diante dos seus olhos, porque ele está fora das
dimensões do tempo.
[59] Quando Moisés diz que o Senhor descansou, ele está se referindo à
conjuntura original do mundo. Como não havia pecado, nada de novo foi
criado nele. Não existiam cardos, nem espinhos, nem serpentes e nem
sapos; caso tenham existido, eles não continham veneno e não tinham a
intenção de prejudicar. [Moisés] refere-se, portanto, à criação de um mundo
perfeito. No início, o mundo era, pois, puro e inocente, porque o ser
humano era puro e inocente. Agora, quando o ser humano mudou devido ao
pecado, também o mundo começou a ficar diferente, isto é, à queda do ser
humano seguiu-se a corrupção e a maldição da criatura. “Maldita é a terra”,
disse Deus a Adão, “por causa de ti; ela te produzirá espinhos e cardos” [Gn
3.17]. E, em vista de [uma pessoa] amaldiçoada, Caim, a terra é
maldiçoada, de modo que, mesmo cultivada, ela não produz seus melhores
frutos. Depois disso, em razão do pecado do mundo todo, veio o dilúvio, e o
gênero humano inteiro é destruído, com exceção de alguns poucos justos,
para que se cumprisse a promessa relativa a Cristo. Do mesmo modo como
vemos que a terra foi deformada pelo pecado, assim eu também creio que a
luz do sol era mais clara e mais bela porque foi criada antes do pecado do
ser humano.
Nas escolas de Teologia é corrente dizer-se: “Discerne os tempos e
colocarás em concordância as Escrituras”. Por isso é preciso falar muito
diferente do mundo depois da catastrófica corrupção por causa do pecado
do que falaríamos sobre o mundo original, puro e íntegro. Consideremos
um exemplo que está diante dos olhos: aqueles que viram a terra da
promissão em nossos dias dizem que ela em nada se assemelha ao louvor
que se encontra nas Sagradas Escrituras. Por isso, depois que o conde
Stolberg a tinha explorado com singular diligência, disse que preferia a terra
que tinha na Alemanha357. Pois, por causa do pecado, da impiedade e da
maldade dos seres humanos, a terra se tornou uma salina, como diz o Sl
107[.34], assim como Sodoma era uma espécie de paraíso antes de perecer
pelo fogo do céu, Gn 13[.10].
Em geral, a maldição se segue ao pecado, e a maldição [, por seu turno,]
muda as coisas, de modo que de ótimas passam a ser péssimas. Por isso,
Moisés está falando sobre a perfeição das criaturas, como elas eram antes
do pecado. Se o ser humano não tivesse pecado, todos os animais teriam
permanecido obedientes até que Deus tivesse transferido o ser humano do
paraíso ou da terra; depois do pecado, porém, todas as coisas mudaram para
pior.
Desse modo, permanece a solução proposta acima: em seis dias, Deus
terminou sua obra, isto é, deixou de criar novas criaturas, e fez tudo o que
quis fazer. Ele não disse novamente: “Haja uma nova terra, um novo mar”
etc. O benefício do qual fomos alvo pelo fato da virgem Maria ter dado à
luz o Filho de Deus deixa claro que o recebemos por causa da desgraça em
que caímos pelo pecado. Contudo, antes de realizar essa admirável e
poderosa obra, anunciou, através da sua Palavra, que haveria de fazê-la,
assim como também assinalou por meio da sua Palavra outros milagres que
haveriam de acontecer.
Esta é a primeira questão que diz respeito à afirmação de que Deus
concluiu o céu e a terra e, depois, nada fez de novo. Agora, para que
também o aprendamos, é preciso explicar o que é o sábado, ou o descanso
de Deus; de que modo Deus santificou o sábado, como diz o texto.
[60] E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele tinha
descansado de toda a obra que Deus criou, assim o fez. [2.3]
Em Mateus 12[sic. Mc 2.27], Cristo diz: “O sábado foi feito por causa
do ser humano, não o ser humano por causa do sábado”. Contudo, aqui,
Moisés silencia sobre o ser humano e não diz explicitamente que o sábado
foi confiado às pessoas. [Limita-se, porém, a] dizer que Deus abençoou o
sábado e o santificou para si. Isso, ele não fez com nenhuma outra criatura.
Não santificou para si o céu, nem a terra, nem qualquer outra criatura, mas
santificou para si o sétimo dia. Isso significa, de modo especial, que
devemos entender que o sétimo dia deve ser usado principalmente para o
culto a Deus. Pois santo é o que foi dedicado a Deus e separado de todos os
usos profanos. Por isso, santificar significa escolher para usos sagrados ou
para o culto a Deus. Desse modo, Moisés usa essa expressão mais vezes,
também quando fala de vasos sagrados.
Logo, conclui-se dessa passagem: se Adão tivesse permanecido na
inocência, ele teria mantido sagrado o sétimo dia, isto é, teria ensinado,
neste dia, seus descendentes sobre a vontade de Deus e o culto a ele; teria
louvado a Deus, dado graças, sacrificado etc. Nos outros dias, teria
cultivado o campo, cuidado dos animais. Aliás, ele também manteve
sagrado o sétimo dia, depois da queda, pois nele ensinou seus filhos,
conforme atesta o sacrifício oferecido pelos seus filhos, Caim e Abel.
Portanto, o sábado foi destinado ao culto a Deus desde o início do mundo.
Caso a natureza tivesse permanecido inocente, ela teria celebrado a
glória e os benefícios de Deus. No sábado, os seres humanos teriam
conversado [entre si] sobre a inestimável bondade do Criador; teriam
sacrificado, orado etc. Pois é isso que significa o verbo “santificar”.
Além disso, inclui-se aqui também [o conceito d]a imortalidade do
gênero humano, conforme atesta sabiamente a Carta aos Hebreus [3.18] ao
se referir ao descanso de Deus com base no Salmo 95[.11]: “Não entrarão
em meu descanso”. Ora, o descanso de Deus é eterno. Adão teria vivido um
certo tempo no paraíso conforme a vontade de Deus; depois disso, teria sido
arrebatado para aquele descanso divino que Deus não só quis indicar aos
seres humanos, mas também entregá-lo a eles por meio da santificação do
sábado. Nesse caso, a [própria] vida animal teria sido feliz e santa,
espiritual e eterna. Agora, nós, miseráveis, perdemos essa felicidade da vida
física por causa do pecado e, enquanto vivemos, estamos em meio à morte.
No entanto, como o mandamento do sábado é dado à Igreja, indica-se que
também aquela vida espiritual será restituída a nós por meio de Cristo.
Assim, os profetas examinaram cuidadosamente aquelas passagens em que
Moisés aponta secretamente para a ressurreição da carne e para a vida
imortal.
Ademais, mostra-se aqui que o ser humano também foi criado
principalmente para o conhecimento de Deus e o culto a ele. Pois o sábado
não foi instituído por causa das ovelhas e dos bois, mas devido aos seres
humanos, para que eles praticassem o conhecimento de Deus e crescessem
nele. Portanto, mesmo que o ser humano tenha perdido o conhecimento de
Deus por causa do pecado, Deus quis que o mandamento sobre a
santificação do sábado permanecesse; que, no sétimo dia, fosse exercida a
Palavra, fossem praticados outros cultos instituídos por ele, para que
pensássemos, primeiramente, sobre [61] a nossa condição, ou seja, que esta
natureza foi criada principalmente para o conhecimento e a glorificação de
Deus.
Além disso, [o sábado foi instituído] para que também retivéssemos no
coração certa esperança da vida futura e eterna. Porque todas as coisas que
Deus quis que fossem feitas no sábado são sinais claros de uma outra vida
depois desta. [Caso contrário,] por que seria necessário que Deus falasse
conosco por meio de sua Palavra se não fosse para viver numa vida futura e
eterna? Se não se deve esperar uma vida futura, por que não vivemoscomo
pessoas com quem Deus não fala e que não o conhecem? Mas como a
majestade divina só fala com o ser humano, e só o ser humano o conhece e
o apreende, segue-se, necessariamente, que há uma outra vida depois desta,
a qual devemos alcançar mediante a Palavra e o conhecimento de Deus.
Pois esta vida temporal e presente é uma vida animal, que todos os animais,
que não conhecem a Palavra nem Deus, vivem.
É isso que significa o sábado ou o descanso divino, no qual Deus fala
conosco através da sua Palavra e nós, por nossa vez, falamos com ele por
meio de invocação e fé. Os animais, como cães, cavalos, ovelhas, bois,
certamente também aprendem a ouvir e a entender a voz do ser humano e
também são conservados e alimentados por ele. Mas nossa condição é
melhor, pois ouvimos a Deus, conhecemos sua vontade e somos chamados
para uma certa esperança de imortalidade. Estes são testemunhos claros das
promessas sobre a vida eterna que Deus nos revelou por meio da sua
Palavra, depois dessas indicações obscuras, como aquela relativa ao
descanso de Deus e à santificação do sábado. Mas essas [revelações] sobre
o sábado são bastante claras. Imagina se não houvesse [outra] vida depois
desta. Não se concluiria que não temos necessidade de Deus nem da sua
Palavra? Pois aquilo que necessitamos ou fazemos nesta vida também
podemos ter [e fazer] sem a Palavra. Os animais pastam, vivem, se
alimentam, embora não tenham a Palavra de Deus nem a ouçam. Por que se
necessitaria da Palavra para o alimento e para a bebida, que já foram
criados antes?
Portanto, o fato de Deus dar a Palavra, ordenar a que se a pratique, que
se santifique o sábado e seu culto, tudo isso demonstra haver [outra] vida
depois desta e que o ser humano foi criado não só para a vida corporal,
como os outros animais, mas para a vida eterna, assim como Deus, que
ordena e institui estas coisas, é eterno.
Mas aqui surge outra pergunta, que já tocamos acima, isto é, sobre a
queda de Adão, ou seja: quando ele caiu, no sétimo ou num outro [dia]?
Embora não se possa precisá-lo, tenho boas razões para imaginar que ele
tenha caído no sétimo dia. Ele foi criado no sexto dia; Eva também foi
criada na tarde ou no fim do sexto dia, enquanto Adão dormia. No sétimo
dia, que fora santificado pelo Senhor, Deus fala, de manhã, com Adão,
instrui-o quanto ao seu culto e proíbe-lhe de comer o fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal. Pois esta é, em si, a função do sétimo dia,
pregar e ouvir a Palavra de Deus. Desde então, permaneceu, na Escritura e
no costume, a prática de se destinar o tempo da manhã para a oração e os
cultos, como diz o Salmo 5[.3]: “De manhã estarei parado diante de ti e
verei”.
[62] Assim, na manhã do sétimo dia, Adão parece ter ouvido o Senhor
que lhe confiou o cuidado da economia e da política, juntamente com a
proibição do fruto. Satanás estava impaciente com essa belíssima criação e
ordem e invejava tamanha felicidade do ser humano, que na terra todas as
coisas estivessem abundantemente a seu dispor e que, depois de uma vida
corporal tão feliz, tivesse a esperança certa da vida eterna, que ele próprio,
Satanás, havia perdido. Por isso, talvez por volta do meio-dia, depois da
conversa de Deus, ele próprio também conversa com Eva. Assim costuma
ser até hoje: onde está a Palavra de Deus, ali também Satanás se empenha
em semear a mentira e a heresia, pois lhe dói que nós, por meio da Palavra,
como Adão no paraíso, nos tornemos cidadãos dos céus. Por isso, ele seduz
Eva para o pecado, e vence. O texto diz claramente que, quando o calor do
dia já tinha cessado, o Senhor veio e condenou Adão à morte, juntamente
com toda sua descendência. Eu me convenço facilmente de que tudo isso
aconteceu no sábado, no único dia – e este não completo – em que Adão
viveu no paraíso e se alegrou com seus frutos.
Foi por essa razão que o ser humano perdeu essa felicidade devido ao
pecado. Mas Adão não teria vivido ocioso no paraíso se tivesse
permanecido na inocência: no sábado, ele teria instruído seus filhos; com a
pregação pública, teria honrado a Deus com os merecidos louvores e, com a
reflexão sobre as obras de Deus, teria estimulado a si e aos outros para a
ação de graças. Nos outros dias, ele teria trabalhado, cultivando o campo ou
caçando, mas de uma maneira bem diferente do que acontece hoje. Pois,
para nós, o trabalho é um incômodo, mas para Adão teria sido um enorme
prazer, mais agradável do que o ócio. Por isso, assim como as outras
calamidades desta vida nos lembram do pecado e da ira de Deus, também o
trabalho e a dificuldade de obter o sustento nos devem lembrar do pecado e
convidar para a penitência.
[63,12] Portanto, o Senhor Deus formou o ser humano do pó da terra e
inspirou em seu rosto o hálito da vida, e o ser humano tornou-se uma alma
viva. [2.7]
Aqui, Moisés volta para a obra do sexto dia e mostra de onde veio o
cultor da terra. Ou seja, que Deus o formou de um pedaço de terra, assim
como o oleiro molda a panela de argila com a mão. Por isso ele não disse
acima, como no caso das outras criaturas: “A terra produza o ser humano”,
mas: “Façamos o ser humano”, para mostrar a excelência do gênero
humano e revelar o conselho singular de Deus, do qual se utilizou ao criar
as pessoas, embora, depois disso, o ser humano tenha crescido e se
multiplicado do mesmo modo como os outros animais. Pois o sêmen se
combina e se forma na matriz da mesma maneira. Aqui não há nenhuma
diferença entre uma vaca prenhe e uma mulher grávida. Mas Moisés mostra
que, na primeira criação, houve uma enorme diferença, pois a natureza
humana foi criada por um conselho e por uma sabedoria singular e foi
formada pelo dedo de Deus.
Essa diferença entre a origem do ser humano e a dos animais também
aponta para a imortalidade da alma, sobre a qual falamos acima. Embora
todas as outras obras de Deus sejam plenas de admiração e magníficas, esta
demonstra que o ser humano é a criatura mais eminente, pois, ao criá-lo,
Deus recorre a um conselho e se utiliza de um procedimento novo. Ele não
deixa que a terra o forme, como no caso dos animais e das árvores, mas ele
mesmo o forma à sua imagem, como se fosse seu parceiro e alguém que
desfrutaria do seu descanso. Por isso, antes de ser formado por Deus, Adão
é um pedaço de terra que está morta. Deus a toma e forma com ela a mais
bela criatura, que partilha da imortalidade.
Se Aristóteles ouvisse isso, ele cairia na gargalhada e concluiria que se
trata de uma fábula muito absurda – embora não desagradável –, ou seja,
que o ser humano tinha sido, quanto à sua primeira origem, um pedaço de
terra, mas foi formado pela divina sabedoria e criado de maneira capaz de
imortalidade. Embora alguns dos filósofos, como Sócrates e outros, tenham
defendido a imortalidade da alma, eles foram ridicularizados pelos demais
filósofos e quase rejeitados. Não é uma grande tolice [64,12] que a razão se
ofenda dessa maneira quando, ainda hoje, vê que a procriação do ser
humano é algo tão admirável? Pois não julgarás absurdo que o ser humano,
que há de viver eternamente, nasça, por assim dizer, de uma única gotícula
de sêmen dos quadris do pai? Isso é um absurdo quase maior do que quando
Moisés diz que o ser humano foi formado pelos dedos de Deus a partir de
um punhado de terra. [Com esses argumentos,] a razão dá mostras de que
não sabe absolutamente nada a respeito de Deus; que, mediante um só
pensamento, faz do punhado de terra não o sêmen do ser humano, mas o
próprio ser humano e, como Moisés diz depois, faz a mulher da costela do
homem. Esta é a primeira origem da pessoa humana.
Porém, depois que o homem e a mulher foram criados dessa maneira, o
ser humano passou a ser gerado do sangue deles mediante a bênção divina.
Embora essa geração seja algo que as pessoas têm em comum com os
irracionais, isso não tira a glória de nossa primeira origem, ou seja, que
somos vasinhos de Deus feitos por Deus mesmo, que ele próprio é nosso
oleiro e nós, contudo, sua argila, como diz Isaías 64[.8]. E isso não só diz
respeito à nossa origem, mas permanecemos a argiladeste Oleiro durante
toda a vida, até a morte e, ainda, na sepultura.
Isso também serve para que aprendamos algo sobre o poder do livre-
arbítrio, de que os adversários tanto se jactam. De certo modo, temos, de
fato, um livre-arbítrio naquelas coisas que estão abaixo de nós, pois fomos
constituídos, pelo mandamento divino, como senhores dos peixes do mar,
das aves do céu e dos animais do campo. Nós os matamos quando
queremos; desfrutamos os alimentos e outras comodidades que nos
oferecem. Todavia, nas coisas que dizem respeito a Deus e que estão acima
de nós, o ser humano não tem livre-arbítrio; ele é verdadeiramente como a
argila na mão do oleiro, colocado numa potência meramente passiva, não
ativa. Pois ali não escolhemos, não fazemos coisa alguma, mas somos
escolhidos, preparados, regenerados, recebemos, como diz Isaías [64.8]:
“Tu és o oleiro; nós, tua argila”.
Aqui surge uma nova pergunta. Se Moisés diz aqui, usando uma
expressão nova, sobre o ser humano: “Deus formou o ser humano do lodo
da terra”, mas acima não falou dessa forma dos outros seres vivos, então ele
também expressa, nesta passagem, algo peculiar [65] sobre o ser humano,
ou seja, que Deus inspirou o hálito no rosto dele. Isso Moisés não disse
sobre os outros animais, embora haja em todos eles, como no ser humano,
hálito em suas narinas. Portanto, pergunta-se por que Moisés se expressou
dessa maneira. Pergunta-se ainda (embora se refira ao mesmo assunto):
embora todos os animais sejam chamados, ao longo de toda a Escritura, de
almas vivas, por que se diz aqui somente do ser humano que ele foi feito
uma alma viva? Certamente ele disse acima: “A terra produza alma viva,
cada uma de acordo com seu gênero”. Mas aqui ele faz uma grande
mudança e diz: “O ser humano foi feito alma viva”.
Sem dúvida, isso levou os patriarcas, os santos Pais e os profetas a
examinar passagens desse tipo com mais cuidado, pois essa maneira
singular de falar indica que Moisés quis mostrar algo notável. Se consideras
a vida animal sobre a qual Moisés fala aqui, não há qualquer diferença entre
o ser humano e o asno. Os animais têm necessidade de comida e bebida,
necessitam de sono e descanso; seus corpos são alimentados [, como os das
pessoas,] por comida e bebida e crescem, quando lhes falta alimento
definham e perecem. O estômago recebe a comida e, depois de digerida,
passa-a para o fígado, que produz sangue, mediante o qual são restaurados
todos os membros. Quando consideramos essas coisas, não há nenhuma
diferença entre o ser humano e o animal. Todavia, Moisés distingue a vida
das pessoas, dizendo que somente ela foi feita alma viva, não simplesmente
como os outros animais, mas alma eminentemente viva, porque foi criada à
imagem de Deus. No estado de inocência, essa imagem, sem dúvida, se
refletiu, de forma singular, no rosto de Adão e Eva. Assim, mesmo depois
do pecado, os gentios deduziram da posição do corpo, porque só o ser
humano caminha ereto e levanta os olhos para o céu, que ele é criatura
superior a todas as outras.
Paulo pensa nisso quando cita esta passagem em 1 Co 15[.45]: “Está
escrito: ‘O primeiro ser humano, Adão, foi feito alma viva, mas o último
Adão, um espírito vivificante’”. Ele chama de alma viva a vida animal, que
consiste em comer, beber, gerar, crescer, tudo coisas presentes também nos
seres irracionais. Por antítese, porém, ele afirma que o último Adão foi feito
espírito vivificante, ou seja, uma vida que não necessita das condições da
vida animal. Paulo também ensina que Adão, mesmo se não tivesse pecado,
teria vivido uma vida corporal, com necessidade de comida, bebida,
descanso; teria crescido, procriado etc., até que Deus o tivesse trasladado
para a vida espiritual. Nela, teria vivido sem animalidade, por assim dizer,
ou seja, a partir de dentro, somente de Deus, e não a partir de fora, como
antes, de ervas e frutas. Assim seria para que o ser humano tivesse carne e
ossos e não fosse meramente espírito, como os anjos.
Portanto, respondo à pergunta: por meio da boca de Moisés, Deus quis
apontar, nessa passagem, que haveria esperança de uma vida futura e eterna
que Adão teria depois desta vida física se tivesse permanecido na inocência.
É como se dissesse: o ser humano foi feito alma viva que não [vive], sem
mais nem menos, como vivem [66,6] os animais, mas que Deus [o] haverá
de trazer à vida, posteriormente, porém, sem vida animal. Também nós
temos esta esperança de imortalidade através de Cristo, embora estejamos
sujeitos, por causa do pecado, à morte e a todas as calamidades. Adão teria
tido uma situação melhor. Ele teria vivido na terra de modo agradável e
com o máximo prazer; depois, teria sido trasladado sem qualquer incômodo
da vida natural para a espiritual. Nós, porém, não somos transferidos da
vida natural para a espiritual senão através da morte, depois de passarmos
por infinitos perigos e [carregarmos muitas] cruzes.
Devemos, pois, junto com os santos profetas, olhar atentamente para
Moisés e observar com que propósito ele se refere de modo tão singular ao
ser humano, diferentemente dos demais seres vivos. Com isso, ele visa a
fortalecer em nós a fé e a esperança da imortalidade. O ser humano, apesar
de assemelhar-se aos seres irracionais segundo a sua vida natural, tem a
esperança da vida eterna, que os outros animais não têm. Ele possui a
imagem e semelhança de Deus, que os demais animais não possuem.
Mediante uma belíssima alegoria ou, melhor, mediante uma anagogia,
Moisés quis indicar veladamente que Deus se encarnaria. Pois que o ser
humano criado à semelhança de Deus não difere, segundo a vida física, do
gado, isto é uma proposição claramente contraditória ou, como dizem nas
escolas, um “oppositum in adiecto”. No entanto, por ter sido criado à
imagem do Deus invisível, como ouviremos, Deus se revelaria ao mundo no
homem Cristo. Essas sementes de coisas importantíssimas lançadas por
Moisés, os profetas compilaram e consideraram diligentemente.
E o Senhor Deus plantou um jardim no Éden na direção do Oriente, no
qual colocou o homem que ele criara. [2.8]
Aqui surge um mar de perguntas relativas ao paraíso. Em primeiro
lugar, a própria palavra, [de origem] hebraica, caldeia ou persa (não
acredito que seja grega, embora Suídas procure em vão por uma origem
grega), significa jardim, em latim. Moisés diz que este [jardim] foi plantado
be eden, no Éden. Trata-se, pois, do nome específico de um lugar e não de
uma denominação genérica, como consta na nossa tradução, que traduz “O
paraíso do prazer”. Éden, efetivamente, significa prazer ou delícias. Sem
dúvida, deriva-se daí a palavra edone358. Como foi adicionada a preposição
[be], fica claro que Éden, aqui, é o nome próprio do lugar, o que se
confirma pela descrição de sua localização: voltado para o Oriente. Na
nossa tradução consta “desde o princípio”, que, aliás, é uma má tradução.
Pois mikedem não significa propriamente “desde o princípio, [67,5] mas “de
antes”, ou seja, como dissemos, voltado para o Oriente.
Discute-se onde está localizado o paraíso. [Quanto a isso,] os
comentaristas se torturam de forma admirável. Alguns preferem [localizá-
lo] entre os dois trópicos, abaixo do Equador. Outros são de opinião [que
deve estar localizado] num lugar com ar mais temperado para [justificar]
tanta fertilidade. Para que muitas palavras? As opiniões são inúmeras.
Responderei brevemente esta questão: trata-se de um questionamento
improdutivo a respeito de uma coisa que não existe mais. Pois Moisés
descreve coisas que aconteceram antes do pecado e do dilúvio. Nós,
todavia, somos obrigados a falar sobre as circunstâncias como elas são
depois do pecado e do dilúvio. Por isso, creio que este lugar foi chamado de
Éden, ou por Adão ou no tempo de Adão, por causa da fertilidade e do
grande encanto que ele exerceu sobre Adão, e que o nome dessa coisa
perdida permaneceu entre seus descendentes, assim como existem os nomes
Roma, Atenas e Cartago, embora quase não se vejam vestígios de tão
grandes repúblicas. Quando o mundo foi destruído pelo dilúvio, junto comos seres humanos e os animais, este nobre jardim também foi destruído e
pereceu. Logo, Orígenes359 e outros discutem em vão sobre temas tão
absurdos. Além disso, o texto também diz que ele foi guardado por um anjo
para que ninguém pudesse entrar. Portanto, mesmo que esse jardim não
tivesse perecido como consequência da maldição que se seguiu, o caminho
até ele estava fechado para o ser humano, de modo que o lugar não pode ser
encontrado. Esta também é uma resposta possível, embora a primeira
opinião, sobre o dilúvio [que o destruiu], pareça-me mais convincente.
Mas que responder às passagens do Novo Testamento: “Hoje estarás
comigo no paraíso”? [Lc 23.43] e 2 Co 12[.4]: “Fui arrebatado para o
paraíso”? De fato, não hesito em afirmar que Cristo e o ladrão não
chegaram a um lugar físico. No caso de Paulo, a questão é clara, pois diz
que não sabia se estava no corpo ou fora do corpo. Por isso sou de opinião
que, nos dois casos, chama-se de paraíso a condição em que Adão se
encontrava naquele lugar, cheio de paz, de segurança e de todos os dons que
existem onde não há pecado. É como se Cristo dissesse: hoje estarás
comigo no paraíso, livre de pecado, seguro em relação à morte (exceto que
se deve esperar o último dia, quando estas coisas serão reveladas), assim
como Adão, no paraíso, estava livre do pecado, da morte e de toda maldição
e, no entanto, vivia na esperança da vida espiritual futura e eterna. Como se
fosse, por assim dizer, um paraíso alegórico, exatamente como a Escritura
também chama de seio de Abraão não o manto de Abraão, mas,
alegoricamente, a vida que está nas almas dos que morreram na fé. Pois elas
têm a paz, descansam e esperam, nesse repouso, a vida e a glória futuras.
[68] Portanto, respondo que Moisés está engajado, agora, na descrição
de uma história e diz que houve um lugar voltado para o Oriente em que
existia um jardim agradabilíssimo. Como eu disse acima, a palavrinha
mikedem designa propriamente um lugar e não um tempo, como consta no
nosso texto. Daí o costume de chamar-se de kadim um vento seco e frio do
leste, que queima os campos. Naquela região do mundo estava o paraíso ou
o jardim, no qual não havia tílias, nem carvalhos, nem azinheiras, nem
quaisquer outras árvores sem fruto, mas [apenas] árvores frutíferas
nobilíssimas de todo tipo, que contamos, hoje, entre as mais nobres, que
produzem canela, cravo etc. Portanto, embora todo o resto da terra fosse
cultivado (porque ainda não existiam cardos nem espinhos), este lugar tinha
um cultivo privilegiado, porque o Éden foi um jardim especialmente
escolhido, acima do cultivo de toda a terra; era, pois, de fato, um paraíso, se
o comparares com a miséria de hoje.
Nesse jardim, que o próprio Senhor tinha plantado com peculiar
cuidado, ele colocou o ser humano. Tudo isso, digo, é história [e pertence
ao passado]. Por isso, perguntamos, hoje, em vão, onde ou o que foi esse
jardim. Os rios dos quais Moisés falará depois indicam a Síria, a
Mesopotâmia, Damasco, o Egito, no meio dos quais se localizava
Jerusalém. Como ele estava destinado para o ser humano e toda sua
descendência, é impossível imaginá-lo como um jardim estreito ocupando
um espaço de algumas milhas. Tratava-se da parte mais nobre e melhor da
terra. Eu acredito que esse jardim permaneceu até o dilúvio; antes do
dilúvio, porém, era guardado por Deus, como diz Moisés, mediante a
vigilância de anjos, de modo que o lugar era conhecido dos descendentes de
Adão, mas inacessível, até ser demolido e destruído, mais tarde, pelo
dilúvio. Essa é a minha opinião, e assim respondo todas as questões que
pessoas curiosas fazem sobre algo que não existe mais depois do pecado e
do dilúvio.
Orígenes incomoda-se com a distância entre os rios [citados por
Moisés], pois imagina um jardim que tenha aproximadamente as dimensões
dos nossos jardins. Por isso, ele adota uma interpretação alegórica. Para ele,
o paraíso é o céu, as árvores são os anjos, os rios, a sabedoria. Todavia,
essas bobagens são indignas de um teólogo; talvez não fossem impróprias
para um poeta brincalhão. Orígenes não percebe que Moisés escreve uma
história, e uma história sobre coisas há muito tempo passadas.
Desse modo, nossos adversários sustentam hoje estultamente que a
imagem e a semelhança de Deus permanecem também no ser humano
ímpio. A mim pareceria muito mais acertado se dissessem que a imagem de
Deus desapareceu no ser humano depois do pecado como desapareceram o
mundo original e o paraíso. Pois o ser humano era justo desde o início; o
mundo era belíssimo desde o início, o Éden era um jardim de delícias e de
prazer. Tudo isso foi deformado depois do pecado, de modo que todas as
criaturas, inclusive o sol e a lua, parece que vestiram algo parecido com um
saco, e as coisas que antes eram boas, depois, tornaram-se nocivas por
causa do pecado. Depois disso, acrescentou-se [ainda] uma maldição maior
com o dilúvio, que arruinou completamente o paraíso e todo o gênero
humano. Pois, se hoje os rios transbordam trazendo tanta desgraça para
seres humanos, animais e campos, que não faria um dilúvio universal?
Portanto, se discutimos sobre o paraíso, depois do dilúvio, [69,4]
precisamos nos referir a ele como a um paraíso histórico que existiu e não
existe mais. Da mesma forma, somos obrigados a discutir a respeito da
inocência do ser humano: podemos lembrá-la com um suspiro, porque ela
foi perdida, mas é impossível recuperá-la nesta vida.
Além disso, do mesmo modo como Moisés faz várias distinções entre
os irracionais e o ser humano (que, todavia, compartilha com aqueles a
mesma origem, da terra), assim ele distingue, nesta passagem, o ser humano
mediante o lugar e a morada singulares que Deus plantou para o ser humano
e edificou, por assim dizer, com esplendor maior e com mais cuidado do
que o restante da terra. Muito importante para Moisés é que se entenda
claramente que o ser humano é, de longe, uma criatura mais nobre e melhor
do que as demais [criaturas]. Os animais irracionais tinham a terra da qual
se alimentar; para o ser humano, o próprio Senhor preparou uma morada
mais nobre na qual trabalharia com prazer, cultivando-a e adornando-a, da
qual teria seu sustento, separado dos animais, que ele, todavia, sujeitaria e
dominaria em toda a terra.
[69,33] Pois o Senhor Deus havia produzido da terra toda árvore bela
de ver e deliciosa de comer. [2.9]
Essa parte [também] pertence propriamente à descrição do paraíso.
Embora toda a terra tivesse sido criada de modo que produzisse árvores
com frutos, ervas e sementes, este lugar, chamado Éden, tinha um cultivo
especial. Para exemplificá-lo, podemos emprestar uma certa analogia da
nossa realidade: [todas as] florestas e [todos os] campos produzem árvores,
porém, quando escolhemos um lugar para ser cultivado de forma especial,
os frutos hortenses sempre são melhores do que os silvestres. Assim, o
paraíso foi criado com uma cultura [70,5] singular e, mais do que o resto da
terra, foi ornado com árvores agradáveis aos olhos e saborosas ao paladar.
Portanto, quando ele disse no primeiro capítulo: “Eu vos dei toda a erva e
[toda a] árvore” [Gn 1.29], isso significa tudo o que é necessário para a
alimentação. Mas o paraíso também fornecia alimentos para o deleite. Estes
eram mais delicados, melhores e mais agradáveis do que aqueles que eram
produzidos no restante da terra, que também serviam de alimentos aos seres
irracionais.
Também a árvore da vida estava no meio do paraíso, e a árvore do
conhecimento do bem e do mal.
Moisés descreve o paraíso de tal forma que faz de Deus um jardineiro
que, depois de ter plantado zelosamente um jardim segundo a sua vontade,
escolhe uma ou outra árvore que cultiva e ama mais do que as demais. Uma
[das escolhidas] foi a árvore da vida, criada para que o ser humano,
alimentando-se dela, tivesse preservado seu corpo íntegro, sem doenças e
sem fadiga.
Aqui, novamente, distingue-se o ser humano dos irracionais não só pelo
lugar, mas também pelo privilégio de uma vida mais longa em que
permanece sempre na mesma condição. Os corposdos demais seres vivos
aumentam e são mais fortes na juventude, mas enfraquecem e morrem na
velhice. A situação do ser humano teria sido diferente: teria comido,
bebido, teria ocorrido uma transformação dos alimentos no corpo, mas não
da forma repugnante como agora. A árvore da vida teria conservado a
eterna juventude, e o ser humano jamais teria sentido os incômodos da
velhice; sua fronte não teria contraído rugas, nem seus pés, mãos e qualquer
outra parte do corpo teriam ficado mais fracos ou inativos. Graças a esse
fruto, as forças do ser humano para a procriação e para todos os trabalhos
teriam permanecido íntegras, até que ele, finalmente, tivesse sido trasladado
da vida física para a espiritual. As outras árvores teriam fornecido alimento
delicioso e ótimo, mas esta teria sido como um remédio por meio do qual a
vida e as forças seriam conservadas para sempre no máximo vigor.
Eis que surge uma nova pergunta: como um alimento físico ou um fruto
poderia conservar o corpo de tal modo que, com o tempo, não se tornasse
flácido ou enfraquecesse? A resposta é fácil: “Ele disse, e foi feito” [Sl
33.9]. Pois se Deus pode fazer pão de uma pedra, por que também não
poderia conservar as forças por meio de um fruto? Mesmo depois do
pecado vemos quão grandes forças existem, inclusive, nas menores ervas e
sementes.
Mas olhemos para os nossos corpos. De onde vem a força para que o
pão que comemos seja digerido e transformado pelo calor natural em
sangue, com o qual, depois, o corpo todo é fortalecido e cresce? Traze todos
os fornos acesos e não conseguirás fazer [71,7] sangue de pão, o que o
pouco calor que existe em nossos corpos pode realizar. Portanto, não nos
admiremos que essa árvore tenha sido a árvore da vida, se o Senhor assim o
quis, a plantou e a fez. Adão tinha um corpo natural e ágil, que procriava,
comia e trabalhava, atividades que, supõe-se, trazem desgastes ou, pelo
menos, alguma mudança, mediante a qual o ser humano acaba,
naturalmente, se deteriorando. Mas Deus providenciou um remédio para
essa ordem natural mediante a árvore da vida, para que o ser humano
vivesse, sem qualquer diminuição das forças, uma vida longa e saudável em
perpétua juventude.
Contudo, todas essas questões são históricas. Chamo a atenção especial
para isso, para que o leitor incauto não se deixe iludir pela autoridade dos
Pais, que abandonam a história e procuram [explicações] alegóricas. Eu
gosto muito de Lira360 e o situo entre os melhores [exegetas], pois sempre
se atém diligentemente à história e a persegue, embora se deixe vencer pela
autoridade dos Pais e, às vezes, se afaste, pelo exemplo deles, do sentido
próprio da sentença para tolas alegorias.
Mais admirável é o que se diz sobre a árvore do conhecimento do bem e
do mal. Pergunta-se: que tipo de árvore era essa? Por que é chamada assim
e o que teria acontecido se essa árvore não tivesse estado no paraíso?
Agostinho e seus seguidores afirmam, com razão, que ela foi chamada
assim a partir de um evento futuro. Adão fora criado de tal maneira que, se
tivesse acontecido algo incômodo na natureza, ele teria sido protegido pela
árvore da vida, que preservaria suas forças e sua saúde perfeita durante todo
tempo. Por isso, totalmente absorvido pela bondade do Criador, se ele
tivesse permanecido dessa maneira na inocência, teria reconhecido Deus
como seu criador e governado os animais segundo sua vontade, sem
qualquer incômodo, até com o maior prazer. Pois todas as coisas eram tais
que não podiam prejudicar o ser humano, mas deleitá-lo ao extremo.
Quando Adão foi criado, ele estava, por assim dizer, ébrio de alegria em
relação a Deus. Alegrava-se também com todas as outras criaturas. Agora,
cria-se uma nova árvore para distinguir o bem do mal, para que Adão
tivesse um sinal claro de culto e reverência a Deus. Quando tudo lhe tinha
sido confiado, para que dele usufruísse segundo sua vontade, seja para sua
necessidade ou seu prazer, Deus, finalmente, requer de Adão que, nesta
árvore da ciência do bem e do mal, o reverencie, lhe obedeça e lhe preste
culto não comendo nada dela.
Tudo o que Moisés disse até agora trata de questões naturais,
econômicas, jurídicas ou terapêuticas. No entanto, o que ele propõe aqui a
Adão sobre essa árvore, para que tenha um sinal externo, [isto é,] sob o
aspecto [72] físico, para cultuar a Deus e prestar-lhe obediência através de
uma obra externa, é uma questão teológica. Da mesma forma, o sábado, do
qual falamos acima, diz respeito principalmente aos cultos interiores e
espirituais que devem ser prestados à fé, ao amor e à invocação etc.
Mas essa maneira corretamente instituída dessa obediência externa – oh,
que dor! –, acabou muito mal. Da mesma forma, vemos ainda hoje que a
Palavra, em relação à qual não há nada mais santo e melhor, é um escândalo
para os ímpios. Cristo instituiu o Batismo para que fosse um banho
regenerador361. Não foi suscitado um grande escândalo por causa dele,
pelas seitas?362 Não foi corrompida miseravelmente toda a doutrina sobre o
Batismo? No entanto, o que nos foi mais necessário do que esta instituição?
Da mesma maneira, foi necessário que o ser humano também tivesse seu
culto visível ou externo mediante o qual exercitasse o corpo para obedecer a
Deus.
Vemos, pois, que este texto efetivamente diz respeito à Igreja ou à
Teologia. Pois, depois que Deus deu ao ser humano a organização política e
econômica e o colocou como rei das criaturas, após ter sido acrescentada a
árvore da vida como proteção para preservar a vida física, ele, agora, lhe
constrói, por assim dizer, um templo, para que preste culto a Deus e renda
graças a ele, que, tão bondosamente, lhe concedeu todas estas coisas. Hoje,
temos, nos templos, o altar, onde celebramos a comunhão da Eucaristia;
temos púlpitos ou cátedras para ensinar as pessoas. Essas coisas não foram
feitas só por causa da necessidade, mas também por causa da solenidade. O
templo, o altar e o púlpito de Adão foi a árvore do conhecimento do bem e
do mal, na qual prestaria a devida obediência a Deus, reconheceria a
Palavra e a vontade de Deus e daria graças a ele e também o invocaria
contra a tentação.
A razão certamente se irrita com a criação dessa árvore, porque nela
pecamos e caímos na ira de Deus e na morte. Mas por que [a razão] não se
irrita da mesma maneira pelo fato da lei ter sido mostrada por Deus e, mais
tarde, o Evangelho ter sido revelado pelo Filho de Deus? Não se seguiram
daí infinitos e escandalosos erros e heresias? Aprendamos, pois, que era
necessário que o ser humano, criado para ter todas as outras criaturas
viventes na mão, reconhecesse seu criador, lhe rendesse graças, tivesse
algum culto exterior e uma determinada obra de obediência. Ora, se Adão
não tivesse caído, essa árvore teria sido como um templo comum e uma
basílica qualquer para a qual os seres humanos teriam afluído. De forma
semelhante, mais tarde, quando a natureza já estava corrompida, foi
destinado ao culto divino um local definido: o tabernáculo e [o templo de]
Jerusalém. Agora, depois que essa árvore se tornou ocasião para tão
horrível queda, ela é corretamente chamada por Moisés de árvore do
conhecimento do bem e do mal por causa da infeliz e miserável
consequência.
Pode-se perguntar aqui se havia só uma árvore ou se havia mais e, se, à
moda da Escritura, se usa o singular em lugar do plural, assim como
falamos coletivamente de pera e maçã, quando queremos denotar a espécie
e não as frutas individualmente. Certamente, não me parece absurdo que
entendamos a árvore da vida como um determinado espaço no meio do
paraíso ou como uma espécie de bosque, onde tenham sido plantadas mais
árvores da mesma espécie, denominada de árvore da vida. Da mesma
maneira, também é possível que a árvore do conhecimento do bem e do mal
[73] seja chamada, coletivamente, de bosque ou floresta, como uma espécie
de pequeno santuário, no qual havia muitas árvores da mesma espécie, ou
seja, árvores do conhecimento do bem e do mal, das quais o Senhor proibiu
que Adão comesse qualquer fruto, para que nãomorresse. Não que a árvore
fosse mortífera por natureza, mas porque esta era a determinação da Palavra
de Deus, que atribui a todas as criaturas sua eficácia e conserva todas elas
para que não degenerem, mas para que as espécies sejam preservadas
constantes em infinita propagação.
Também foi através da Palavra que jorrou água em grande quantidade
no deserto, e a serpente de bronze curou [todos] os que olhavam para ela
etc.363 Desse modo, essa árvore - ou várias árvores de determinada espécie
no meio do paraíso - matou Adão por não obedecer à Palavra de Deus,
certamente não por causa da sua natureza, mas porque assim tinha sido
estabelecido pela Palavra de Deus. O mesmo também devemos pensar da
árvore da vida, da qual Deus ordenou que Adão se alimentasse sempre que
quisesse restaurar as forças; era pelo poder da Palavra que a árvore
realizava isso.
Para a razão parece ridículo que um só fruto podia ser tão nocivo a
ponto de arruinar todo o gênero humano, numa sequência interminável,
com a morte eterna. Todavia, esse poder não estava no fruto; certamente,
Adão cravou os dentes no fruto, mas, em verdade, cravou-os num ferrão,
que era a proibição de Deus e a desobediência a ele. Esta é a verdadeira
causa do mal, ou seja, que Adão peca contra Deus, negligencia seu
mandamento e obedece a Satanás. A árvore do conhecimento do bem e do
mal era uma árvore boa que produzia frutos muito saborosos. Mas, porque
se acrescenta a proibição e o ser humano não lhe obedece, [a árvore] se
torna mais nociva do que qualquer veneno.
De forma semelhante, por ser prescrito pela Palavra de Deus “Não
furtarás”, toda a pessoa que se apropria de coisa alheia peca. No entanto,
quando se ordenou no Egito que os judeus pedissem prata dos vizinhos e a
levassem consigo, isso não foi pecado, porque estavam desculpados pelo
mandamento de Deus, ao qual se deve obediência em todas as situações.
Quando um pretendente ama uma moça e a deseja como esposa e casa com
ela, ele não comete adultério, embora a lei proíba a concupiscência. Pois o
matrimônio foi instituído por Deus e foi ordenado aos que não podem viver
de forma casta, sem o matrimônio. O mesmo acontece com essas árvores: a
árvore da vida vivifica com a força da Palavra que, dessa forma, promete e
ordena. A árvore do conhecimento do bem e do mal mata pela força da
Palavra, que proíbe.
Ela tem o nome de [árvore] do conhecimento do bem e do mal, como
diz Agostinho, porque, depois que Adão pecou por causa dela, não só viu e
sentiu o que havia perdido de bom, mas também em quanta miséria foi
lançado por causa de sua desobediência. Portanto, a árvore, em si, era boa,
assim como também foi bom o mandamento que se acrescentou para que
servisse como uma árvore de culto divino para Adão, através do qual
também provasse a Deus sua obediência mediante uma obra externa.
Porém, devido ao pecado que segue, ela torna-se a árvore da maldição.
[74,3] Um rio, que se dividiu em quatro partes [principais], fluía do
Éden para regar o jardim. [2.10]
[74,13] O nome do primeiro é Pison, e flui em torno de toda a terra de
Hévila, onde há ouro; e o ouro dessa terra é de excelente qualidade.
Encontram-se lá também bdélio e pedra de ônix. [2.11,12]
[74,39] Posteriormente, [o paraíso] foi totalmente [75,4] devastado e
destruído pelo dilúvio, de modo que já não aparece qualquer vestígio dele.
Como eu disse acima, estou plenamente convicto de que o paraíso
continuou a existir depois da queda de Adão e era conhecido dos
descendentes dele, porém, inacessível por causa da guarda do anjo, que o
vigiava com uma espada chamejante, conforme diz o texto. Mas o dilúvio
devastou tudo, conforme está escrito: todas as fontes e abismos se
romperam364. Quem pode duvidar, pois, que também essas fontes365 foram
devastadas e destruídas? Do mesmo modo como, depois do dilúvio, há
montes onde antes havia campos numa aprazível planície, assim também
não há dúvida de que agora existem fontes onde antes não havia nenhuma, e
vice-versa. Pois toda a face da terra foi alterada. Não duvido de que ainda
existam restos do dilúvio, pois, em [muitas] minas, não raro, encontra-se
madeira petrificada. Em pedras, veem-se várias formas de peixes e de
outros animais. Assim, creio que, antes do dilúvio, o Mar Mediterrâneo não
estava cercado de terra, mas que a sua conformação atual foi produzida pelo
dilúvio. De forma semelhante, a área do Mar Vermelho, sem dúvida, era,
anteriormente, um campo fértil e, provavelmente, fazia parte daquele
jardim. Assim, os demais golfos, o Pérsico, o Arábico etc., são restos do
dilúvio.
Por isso não se deve pensar que a fonte dos rios de então é a mesma de
hoje, embora a sua situação seja como a da terra que, até agora, existe e
produz árvores, ervas etc. Se comparares essas coisas com a natureza não-
corrompida, elas são como se fossem restos insignificantes daquelas
riquezas que a terra, então criada, apresentava. Dessa forma, estes rios
permanecem como restos, mas, certamente, não [se encontram] no mesmo
lugar, muito menos provêm das mesmas fontes. Quantas coisas de nossos
corpos pereceram por causa do pecado? Por isso, depois da queda, é preciso
falar da natureza como de uma nova conformação das coisas, que a natureza
colocou, primeiramente, por causa do pecado e, posteriormente, devido ao
dilúvio universal.
Até hoje, Deus costuma proceder desta maneira: quando ele pune os
pecados, também amaldiçoa a terra. Por isso, em Sofonias366, ele ameaça
reunir os peixes do mar e as aves do céu. De forma semelhante, hoje,
muitos rios têm menos peixes do que tinham segundo a memória dos
ancestrais. As avezinhas são menos frequentes etc. No capítulo 13 de
Isaías367, escreve-se também assim sobre a Babilônia. Pois quando os seres
humanos são levados embora, também partem os animais do campo e nada
permanece senão monstros e feras nocivos. De forma semelhante, diz-se
que Canaã, outrora terra fertilíssima, agora está cheia de salinas, como
ameaça o Salmo 107[.34]. Se isso acontece em se castigando [uma terra
em] particular, que podemos imaginar daquele castigo universal?
Portanto, ninguém se ofenda ou se escandalize com o fato de ouvir
Moisés dizer que da mesma fonte se originam quatro rios, que hoje estão
muito distantes entre si e têm fontes diferentes. Pois não se deve pensar que
a forma que [76] o mundo tem hoje é a mesma de antes do pecado. Como
Orígenes era dessa opinião, ele se voltou para as mais tolas alegorias.
É verdade, o [rio] Nilo existe até hoje, igualmente o Ganges, mas, se
alguém tivesse visto o Nilo e os outros rios em sua primeira criação e
glória, teria constatado que eles eram bem diferentes, e diria como Virgílio
sobre a Troia destruída: “O campo onde esteve Troia” [ainda existe]. Não só
a origem não é a mesma, mas também sua qualidade e seu curso não são os
mesmos. Da mesma maneira, também todas as outras criaturas foram
deformadas e corrompidas. Por isso, Pedro diz em At 3[.21]: “O céu deve
receber Cristo até o tempo da restituição de todas as coisas”. Ele indica,
como também diz Paulo, que toda a criação está sujeita à vaidade e que se
espera a restauração de todas as coisas, não só do ser humano, mas do céu,
da terra, do sol, da lua etc.368
[76,21] Portanto, esperamos a restauração de todas as coisas, não só da
alma, mas também do corpo; que será melhor e mais nobre naquele dia do
que foi no paraíso. Pois não teremos uma vida natural que, por sua natureza,
está sujeita à mudança, mas a espiritual, para a qual também Adão teria sido
transferido se tivesse vivido sem pecado. Para essa esperança nos conduziu
Cristo, que nos restituiu a inocência pela remissão dos pecados, tornando a
nossa situação melhor do que foi a de Adão no paraíso.
O verbo sabab, que Moisés utiliza aqui, tem um significado amplo, pois
significa “caminhar em volta de”, como os guardas dão voltas na cidade
[quando fazem suas rondas]. Por isso, o Fison ou o Ganges existe até hoje,
no que concerne ao nome. Se, porém, considerares sua exuberância, sua
fecundidade, suas forças e seu curso, quase nada restou dessegeneroso rio.
A terra de Hévila é a Índia, situada na região oriental. A Escritura a
exalta nesta passagem, como em outras, por causa da sua riqueza. Ainda
hoje, as gemas e o ouro da Índia são considerados os melhores. Mas creio,
pelo que Moisés fala aqui, que se incluem na designação Hévila aquilo que
hoje chamamos de bem-aventurada Arábia e adjacências.
Quanto ao que ele diz do bdélio e da pedra ônix, eu entendo que ele se
refere ao gênero [isto é, às pedras preciosas em geral]. Pois, ainda hoje, a
Índia tem abundância não só dessas gemas, mas também de outras [pedras
preciosas]: esmeraldas, rubis, safiras, turquesa, diamantes (mantenho os
nomes populares). Aqui, de novo, remeto-vos ao que eu disse
anteriormente. [77,4] Pois, se, até agora, foi dada tanta riqueza a esta terra
por Deus, quanto mais rica e feliz ela deve ter sido antes do pecado? Ora, o
que temos hoje nem sequer merece ser chamado de resto.
[77,21] E o Senhor Deus tomou o ser humano e o colocou no jardim do
Éden, para que o cultivasse e o guardasse. [2.15]
Depois que Deus ornou o mundo todo de várias formas, também
preparou o jardim do Éden, que ele quis que fosse a habitação e a sede real
do ser humano, a quem ele concedera o domínio sobre todos os animais.
Agora, ele o coloca naquele jardim como se fosse uma fortaleza e um
templo, do qual podia sair livremente e passear pelo restante da terra – que
era muito fértil e agradável – e divertir-se com os animais o quanto
quisesse.
No entanto, Deus dá a Adão duas tarefas, ou seja, que trabalhe ou
cultive esse jardim e, também, que o proteja e o vigie. Alguns vestígios
dessa ordem subsistem nos miseráveis restos que ainda temos. Pois, até
hoje, essas coisas devem estar conjugadas: que a terra não apenas seja
cultivada, mas também que a [terra] cultivada seja conservada. As duas
tarefas foram deturpadas de infinitas maneiras. Pois não só o cultivo, mas
também a sua conservação está repleta de todo tipo de incômodos e
misérias. A causa disso será mostrada exaustivamente no 3º cap.[ítulo]. Lá
veremos que o trabalho da terra foi perturbado e tornou-se detestável por
espinhos, cardos, pelo suor do rosto e por infinitas adversidades. Sem falar
[no esforço necessário] [78] para [obter] alimentos, quanta dificuldade,
trabalho e incômodo enfrentas para educar uma criança?
Portanto, se Adão tivesse permanecido na inocência, teria cultivado a
terra, plantado canteiros de ervas aromáticas, não só sem incômodo, mas [o
teria feito] como se fosse uma diversão e com o maior prazer. As crianças
[recém-]nascidas não usariam o leite materno durante tanto tempo. Talvez
tivessem ficado de pé logo, como acontece com os pintinhos, e procurado
seu alimento sem qualquer trabalho dos pais. Agora vedes quanta miséria
há em nossa origem.
Quanto à alimentação, os animais não só a têm em comum conosco,
mas os seres humanos [,assim como os animais, também] a subtraem dos
outros seres humanos, e se apropriam dela mediante trapaça. Por isso, são
necessários muros, cercas e outros [tipos de] defesa e, mesmo assim, só se
conseguem conservar as coisas cultivadas com dificuldade e com grande
esforço. O que nos resta, portanto, é o trabalho, todavia, muito diferente de
antes, não só porque ele é mais árduo, mas também porque a terra concede
de mau grado e parcamente o que teria dado a Adão com o máximo prazer e
com fartura o que semeasse dentro do jardim ou fora dele, no resto da terra.
Não teria havido o perigo de ladrões e homicidas, tudo teria sido
[totalmente] seguro.
Portanto, quando olhamos para os espinhos, os cardos, o suor do rosto
etc., vemos também aqui o grande mal que o pecado original causou. Pois
assim como o ser humano caiu no espírito, mediante o pecado, ele também
atraiu o castigo sobre o seu corpo. Pois o trabalho, que no estado de
inocência teria sido diversão e prazer, [agora] é um castigo. Ainda hoje
experimentamos que, para quem tem um jardim aprazível em meio a esta
natureza infeliz, semear, plantar e cavar [a terra] não é labuta, mas é feito
com dedicação e prazer. Quanto mais perfeito teria sido [o trabalho] neste
jardim no estado de inocência?
Convém lembrar aqui que o ser humano não foi criado para o ócio, mas
para o trabalho, também no estado de inocência. Por isso condena-se,
merecidamente, o tipo de vida ociosa, como a dos monges e das monjas.
Assim como dissemos que o trabalho ou o cultivo [da terra] teriam sido
sem incômodos, também a sua defesa ou a sua conservação teriam sido
agradabilíssimas. Agora, porém, está [tudo] repleto de perigo. Com uma
única palavra, sim, com um único aceno de cabeça, Adão teria afugentado
ursos e leões. Hoje, certamente, temos uma defesa, mas ela é horrível. Pois
são necessários espadas, lanças, canhões, muros, cercas e fossos e, no
entanto, [mesmo assim,] dificilmente conseguimos estar seguros com as
nossas famílias. O que temos são meros vestígios obscuros e quase extintos
de trabalho e segurança.
Outros explicam essa passagem, afirmando que é Deus que deve
trabalhar e proteger. Mas o texto fala [especificamente] do trabalho e da
guarda humanos. De forma semelhante, afirma-se abaixo que Caim foi
agricultor369 e, em Jó e Eclesiastes370, os reis são chamados de cultores da
terra, não só por causa da atividade, mas também devido à guarda. Contudo,
como eu disse, [para nós,] trabalhar e guardar são palavras desagradáveis e
pesadas. Naquele tempo, porém, [trabalhar e guardar] era diversão e o
maior prazer do ser humano.
[79] E lhe ordenou dizendo: come de toda árvore do paraíso, mas da
árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás. [2.16,17]
Essa é a instituição da Igreja, antes que houvesse organização
econômica e política, pois Eva ainda não fora criada. A Igreja é instituída
sem muros e sem qualquer pompa, num lugar muito amplo e agradável.
Depois da instituição da Igreja, organiza-se também o regime doméstico,
quando se dá Eva a Adão como parceira. Dessa maneira, o templo é anterior
à casa, o que [, aliás,] também é melhor. Tampouco houve organização
política antes do pecado, porque não era necessária. Pois a organização
política é o remédio necessário para a natureza corrompida. A paixão
precisa ser reprimida pelos grilhões da lei e pelos castigos, para que ela não
vagueie livremente. Por isso, chama-se corretamente a organização política
de reino do pecado, assim como Paulo chama Moisés de ministro da morte
e do pecado371. Pois é exclusiva e principalmente isto que a organização
política faz: conter o pecado, conforme diz Paulo: “A autoridade carrega a
espada para a punição dos maus” [Rm 13.4]. Portanto, se os seres humanos
não tivessem se tornado maus através do pecado, a organização política não
teria sido necessária, mas Adão teria vivido com seus descendentes na
máxima tranquilidade e teria realizado mais mexendo um só dedo do que
podem realizar agora todas as espadas, instrumentos de tortura e machados.
Não teria existido assaltante, homicida, ladrão, difamador, mentiroso. Ora,
que necessidade teria havido de leis, de organização política, que são como
um cautério e um remédio terrível por meio do qual se amputam membros
nocivos para salvar os demais?
Portanto, depois que se estabeleceu a Igreja, também se confiou a
organização econômica a Adão no paraíso. Mas a Igreja foi instituída
primeiro, para que Deus mostrasse com esse sinal que o ser humano foi
criado com um propósito diferente dos demais seres vivos. Pelo fato [da
Igreja] ter sido instituída pela Palavra de Deus, é certo que [o ser humano]
foi criado para a imortalidade e para a vida espiritual, para a qual teria sido
arrebatado ou transferido, mas sem morte, depois que tivesse vivido por
longo tempo e sem moléstia no Éden e no resto da terra. Não teria havido a
abominável libido que há nele agora, mas simples e puro amor do sexo ao
sexo. A procriação teria acontecido sem pecado, como se fosse um ato de
obediência. As mães teriam dado à luz sem dor. A educação das crianças
não teria sido tão difícil e tão trabalhosa.
Quem consegue expressar com palavras a glóriada inocência que
perdemos? Certamente permanece na natureza o desejo do homem pela
mulher. De forma semelhante, [permanece] o fruto da procriação, mas com
terrível e repugnante libido e com forte dor no parto. Pudor, ignomínia e
confusão estão presentes também entre cônjuges sempre que querem fruir a
lícita relação. O gravíssimo mal do pecado original está sempre presente. É
verdade, a criação é boa. Boa [também é] a bênção [divina]. Porém, essas
coisas foram corrompidas de tal modo pelo pecado que os cônjuges não
conseguem usá-las sem vergonha. Todas essas coisas não teriam existido na
inocência de Adão, mas, assim como cônjuges podem comer e beber juntos,
sem vergonha, teria havido uma decência singular; não teria havido pudor
nem mácula no ato da procriação e no parto. Mas volto a Moisés.
80] Como eu disse, nesta passagem institui-se a Igreja, antes de existir
uma economia doméstica. Pois, aqui, o Senhor prega a Adão e lhe apresenta
uma palavra que, embora seja breve, é digna que nos demoremos um pouco
nela. Se Adão tivesse permanecido na inocência, essa pregação teria sido
como uma Bíblia para ele e para todos nós, e não teríamos necessidade de
papel, tinta, penas e essa quantidade infinita de livros de que precisamos
hoje, embora não alcancemos uma milésima parte da sabedoria que Adão
tinha no paraíso. Essa breve pregação teria compreendido e resumido o
estudo inteiro da sabedoria e nos teria mostrado, como se estivesse escrita
numa tabuinha, a bondade de Deus, que havia criado esta natureza sem os
inconvenientes que se seguiram depois por causa do pecado.
Esse sermão foi proferido no sexto dia e, se, como o texto indica,
somente Adão o ouviu, ele o repassou, mais tarde, a Eva. Se eles não
tivessem pecado, Adão teria apresentado, a partir de então, esse único
preceito a toda sua descendência e, de lá, teriam surgido os melhores
teólogos, doutíssimos advogados e os mais experientes médicos. Hoje, o
número de livros em que são instruídos teólogos, advogados e médicos é
infinito. Mas as coisas foram corrompidas de tal forma pelo pecado original
que tudo que aprendemos com a ajuda dos livros não merece nem sequer
ser chamado de refugo, comparado com a sabedoria que Adão hauriu
daquela uma única palavra.
Portanto, esta árvore do conhecimento do bem e do mal, ou o lugar onde
árvores deste tipo haviam sido plantadas em grande número, teria sido a
Igreja, na qual Adão e seus descendentes teriam se reunido no sábado.
Depois de se ter refeito com a árvore da vida, ele teria enaltecido a Deus e o
louvado por lhe ter entregue o domínio de todas as criaturas sobre a terra,
de acordo com o modelo de ação de graças proposto pelos Salmos 148 e
149, nos quais o sol, a lua, as estrelas, os peixes, os dragões recebem a
ordem de louvar a Deus. Nenhum Salmo é tão extraordinário que qualquer
um de nós não pudesse fazer outro melhor e mais perfeito se tivéssemos
sido gerados por Adão enquanto ele era inocente. Adão teria enaltecido o
benefício supremo, qual seja, o de ter sido criado, juntamente com sua
posteridade, à semelhança de Deus; teria advertido os descendentes para
que vivessem de modo santo e sem pecado, trabalhassem fielmente no
jardim, o guardassem com diligência e se precavessem com a máxima
cautela da árvore do conhecimento do bem e do mal. O ser humano teria se
retirado para esse lugar externo de rito, da Palavra e de culto e retornado
posteriormente para a sua atividade e sua função de guarda até se completar
o tempo preestabelecido para, então, ser transferido ao céu com o maior
prazer.
Estamos falando sobre essas coisas boas como de um tesouro perdido e,
merecidamente, suspiramos pelo dia em que todas as coisas serão
restauradas. No entanto, é bom lembrar as coisas boas que perdemos e as
coisas más que suportamos e em que vivemos tão miseravelmente, para que
sejamos motivados a ter esperança na redenção de nossos corpos, sobre a
qual o apóstolo fala em Rm 8[.23]. No que concerne à alma, somos
libertados por Cristo, e mantemos esta liberdade na fé, até que ela seja
revelada.
É, igualmente, útil que consideremos isto: Deus deu a Adão a Palavra, o
culto e a religião em sua forma mais nua, pura e simples, na [81] qual não
havia nada de penoso e dispendioso. Pois ele não prescreve o sacrifício de
touros nem a fumaça de incenso, votos, jejuns e outras aflições do corpo.
Deus quer apenas que Adão o louve, lhe renda graças, se alegre nele e lhe
obedeça, não comendo da árvore proibida.
Ainda restam alguns vestígios deste culto em nós, que Cristo, de certa
forma, restaurou na fraqueza da carne, [que se manifestam quando]
louvamos a Deus e lhe rendemos graças por toda a bênção espiritual e
corporal. Mas, de fato, não passam de vestígios. Porém, quando viermos
aos coros dos anjos depois desta vida miserável, prestaremos estes cultos de
forma mais santa e mais pura. Vestígios do [estado primitivo de] felicidade
[vemos] no casamento, quando nos precavemos através dele contra o
adultério, quando esta vida corporal não tem apenas o sustento, embora este
seja conquistado com trabalho árduo, mas tem também proteção e defesa
contra as mais diversas adversidades que, caso contrário, seríamos
destruídos. Esses são vestígios que restaram; certamente, vestígios
miseráveis se comparados com a condição original.
Além disso, deveis ser advertidos aqui contra os pseudoprofetas, através
dos quais Satanás tenta de várias formas depravar a sã doutrina. Contarei
um exemplo da minha história, de como fui atormentado por um espírito
fanático em relação aos princípios desta doutrina. De fato, no texto consta o
verbo de ordem “Vaiezaf Iehova” “e o Senhor ordenou”. Todavia, ele [i. é, o
espírito fanático] deve ter refletido da seguinte forma: “Para o justo não há
lei”372. Ora, Adão foi justo; logo, não foi dada nenhuma lei ao justo Adão.
Concluiu daí que não se trata de uma lei, mas de uma [mera] exortação.
Além disso, não pode haver transgressão [da lei] onde não há lei373. Com
isso, ele foi, pouco a pouco, levado a negar o pecado original. E nessa
associação de ideias, ele celebrou grandes triunfos, como se tivesse
descoberto um tesouro até então desconhecido no mundo inteiro. É preciso
ver os grandes esforços de Satanás para que aprendamos a nos opor
prudentemente a eles.
Estas duas afirmações são de Paulo: que a lei não foi dada ao justo, e
que, onde não há lei, tampouco há transgressão. Mas convém a um bom
dialético observar os ardis e o esforço do diabo, dos quais se utilizam,
depois, também os seus escravos, os miseráveis sofistas374. É verdade que
eles se apoiam na Escritura, pois seria ridículo se quisessem impor aos seres
humanos nada além dos seus [próprios] sonhos. Mas eles não citam [a
Escritura] inteira; sempre apropriam-se daquilo que aparentemente é a favor
deles, mas escondem espertamente ou deturpam com glosas obscuras aquilo
que é contra eles.
Assim, quando Satanás soube que Cristo, com muita fome375, confiava
plenamente na misericórdia de Deus, tentou induzi-lo a uma confiança
proibida, isto é, a tentar a Deus. Valeu-se da afirmação do Salmo que lhe era
conveniente: “Ordenou aos anjos em relação a ti que te carreguem nas mãos
e não tropece teu pé numa pedra” [Sl 91.11,12]. Mas aquilo que era
contrário ao propósito de Satanás, ou seja, que os anjos nos guardariam em
nossos caminhos ou em nossa missão, isso ele ocultou astutamente. Pois
este é exatamente o sentido do argumento: que os anjos são nossos guardas,
mas [desde que permaneçamos] em nossos caminhos. É para essa
interpretação que Cristo aponta sabiamente quando contrapõe o preceito:
“Não tentarás o Senhor, teu Deus” [Mt 4.7]. Ele indica que voar no ar não é
o caminho do ser humano (porque esse é o caminho [82] das aves), mas
[que o seu caminho são] os degraus feitos do teto do templo, para facilitar a
descida sem nenhum perigo. Por isso, quando estamos no exercício da
nossa vocação e do nosso ofício, seja por determinação divina ou de
pessoas que, por profissão, têm direito a isso, então devemos crer que não
nos faltará a proteção dos anjos.Essa é uma regra útil para discutir com fanáticos. Pois os incautos são
enganados quando seres humanos astutos, de acordo com o seu hábito,
transferem o discurso do particular para o universal, usam a falácia de
juntar o que deve estar separado e não citam as passagens bíblicas na
íntegra.
O mesmo aplica-se a este argumento, quando se reflete da seguinte
maneira: para o justo não há lei. Ora, Adão foi justo; logo, não lhe foi dada
nenhuma lei, mas somente uma espécie de exortação. Quem não é prudente
e cauteloso é apanhado, contra sua expectativa, na horrível conclusão de
que se, efetivamente, não havia lei, também não foi pecado comer daquele
fruto. Pois é verdade que, onde não há lei, não há transgressão.
Eu sei com certeza que também no nosso tempo alguns foram
enganados por esse argumento. Pois falam sobre o pecado original como se
ele não fosse culpa, mas apenas punição. Assim, também declara Erasmo376
em alguma parte, com palavras claras, que o pecado original é um castigo
infligido aos primeiros pais, um castigo que nós, descendentes, também
somos obrigados a suportar por causa de culpa alheia, sem que o
mereçamos. Da mesma forma como um menino nascido de uma prostituta é
obrigado a suportar a infâmia, não por culpa sua, mas da mãe. Pois que
pecado cometeu quem ainda não existia? Tais ideias lisonjeiam a razão, mas
estão repletas de impiedade e blasfêmia.
Qual é, pois, o erro desse silogismo, isto é, argumento? Obviamente, o
erro comum é que o texto não é citado na íntegra, mas mutilado de forma
extremamente desleal. Pois o texto todo é este: a lei não foi dada para o
justo, mas para homicidas, adúlteros etc. Isso significa tão-somente que
Paulo está falando sobre a lei que foi dada depois do pecado e não da lei
que o Senhor deu quando Adão ainda era íntegro e justo. A lei, diz ele, não
foi dada para o justo. Portanto, segue-se, inegavelmente, que a lei foi dada
para a natureza culpada e pecadora.
Não é uma grande infâmia confundir dessa maneira as afirmações em
questões tão sérias? Depois do pecado, Adão não é a mesma pessoa que foi
antes do pecado, no estado de inocência, mas essa gente não faz qualquer
distinção entre a lei dada antes do pecado e a lei dada depois do pecado. O
que Paulo diz sobre a lei que entrou depois do pecado, eles transferem,
mentirosa e blasfemamente, para a lei dada no paraíso. Ora, se o pecado não
tivesse existido, aquela lei proibindo o pecado também não teria existido.
Conforme eu disse acima, na natureza perfeita não havia necessidade de
organização política e de leis, que são como um ferro de queimar e, como
Paulo o chama, de um pedagogo. Uma criança necessita de um pedagogo e
de uma vara porque ela é má. Da mesma forma, um príncipe tem
necessidade de litores e carrascos devido aos cidadãos desobedientes. Paulo
fala propriamente da lei que foi necessária depois da natureza ter sido
corrompida pelo pecado.
Eu também expliquei acima por que Adão tinha necessidade desse
mandamento relativo à árvore do conhecimento do bem e do mal, ou seja,
para que houvesse um culto externo e uma obra [83,6] externa de
obediência a Deus. O anjo Gabriel é sem pecado, uma criatura puríssima e
inocente e, mesmo assim, recebe de Deus o mandamento de instruir Daniel
a respeito de questões muito importantes, e de anunciar à virgem Maria que
ela seria a mãe do Cristo prometido aos pais. Estes são, sem dúvida,
preceitos que foram dados à natureza inocente. De forma semelhante, Adão
recebe do Senhor, antes do pecado, a ordem de não comer da árvore do
conhecimento do bem e do mal, algo que teria feito de bom grado e com a
maior alegria se não tivesse sido enganado por Satanás. A lei da qual fala
Paulo é outra. Ele diz claramente que se refere à lei que foi dada não aos
justos, mas aos injustos. Quem, então, é tão estúpido e tão insano que queira
deduzir daí que não foi dada uma lei a Adão, quando ouve que Adão era
justo? Disso não se conclui outra coisa senão, que a lei que foi dada aos
injustos não é a [mesma] lei que foi dada ao justo Adão. Segue-se, pois, que
a lei dada ao justo Adão era diferente daquela que foi dada posteriormente
aos injustos.
Nesta argumentação, há o vício da composição e divisão, porque o texto
foi mutilado. Além disso, existem, aí, dois equívocos: o primeiro consiste
no fato de que a lei, antes do pecado, é uma e, depois do pecado, ela é outra;
o segundo reside no fato de que “justo” não significa a mesma coisa depois
do pecado e antes do pecado. É importante atentar para essas coisas, e as
artes devem ser empregadas para discussões importantes. Pois elas foram
criadas para que se possam explicar corretamente, por meio delas, questões
seríssimas e não para aquelas discussões estéreis nas escolas. Do mesmo
modo, mediante esse argumento, Satanás empenha-se muito em negar o
pecado original. Isso, em verdade, nada mais é do que negar a paixão e a
ressurreição de Cristo. Por isso, a afirmação de Paulo não deve nos impedir
de declarar com Moisés que uma lei foi dada ao Adão justo para que não
comesse da árvore do conhecimento do bem e do mal, da mesma forma
como se deram ordens aos anjos. Por ter transgredido essa ordem, ele pecou
e, posteriormente, propagou pecadores a partir de si.
Pois, no dia em que comeres dela, morrerás.
Esta ameaça, acrescentada de forma tão clara, demonstra, igualmente,
que se deu uma lei a Adão. Além disso, prova também que Adão foi criado
em estado de inocência ou que era justo. Ainda não existia pecado, porque
não foi Deus que o criou. Portanto, se Adão tivesse obedecido a esta ordem
[divina], ele jamais teria morrido. Pois a morte veio por meio do pecado.
Logo, as demais árvores do paraíso foram criadas para ajudarem a
conservar íntegra e sem qualquer incômodo a vida física do ser humano.
[84,7] Nós, hoje, nos admiramos de como poderia haver vida física sem
morte e sem todo tipo de acidentes de morte, tais como doenças, pústulas,
fétidas acumulações de fluidos nos corpos etc. No estado de inocência,
nenhuma parte do corpo era sórdida; os excrementos não eram fedorentos,
nem [havia] outras coisas repugnantes, mas tudo era belíssimo, sem
qualquer agressão aos órgãos dos sentidos; e, mesmo assim, tratava-se de
vida física. Adão comia, digeria, mastigava377 e, se tivesse permanecido
assim, teria feito outras coisas que a vida natural exige, até que, por fim,
fosse transladado para a vida espiritual e eterna.
Também isso nós perdemos por causa do pecado. Agora, existe entre a
vida presente e a futura este terrível intermediário, a morte. No estado de
inocência, este intermediário teria sido agradabilíssimo; mediante ele, Adão
teria sido transferido para a vida espiritual ou, como Cristo o denomina no
Evangelho, para a vida angelical, na qual cessam as ações naturais. Pois, na
ressurreição dos mortos, não comeremos, nem beberemos, nem casaremos
etc. Essas necessidades físicas teriam cessado, e a vida espiritual teria se
seguido, assim como também cremos que ela se seguirá, graças a Cristo.
Adão teria sido despido da glória infantil e vestido com a celestial; teria
sido despido das ações inferiores que, no entanto, teriam sido puras e não
incômodas, como são agora, depois da queda, e teria sido transladado da
inocência pueril, por assim dizer, para a inocência adulta, própria dos anjos,
que também nós teremos na vida futura.
Eu chamo a inocência [de Adão] de pueril, porque era, por assim dizer,
um Adão intermediário que, no entanto, podia ser enganado por Satanás e
cair na calamidade em que caiu. Tal perigo de queda não existirá na
inocência perfeita, que haverá na vida futura e espiritual. É isso que
significa esta ameaça da punição: “No dia em que comeres desta árvore,
morrerás”. É como se Deus dissesse: “Certamente podes permanecer na
vida para a qual te criei, mas não és imortal como os anjos. A vida é como
se ela estivesse numa posição intermediária: tu podes permanecer nela e,
depois, ser arrebatado para a imortalidade que nunca mais podes perder. No
entanto, se não obedeceres, incorrerás na morte e perderás a imortalidade”.Logo, há uma grande diferença entre a condição espiritual dos anjos e a
inocência de Adão. Os anjos, como são agora, não podem cair; Adão,
porém, podia cair, pois ele estava num estado em que podia tornar-se
imortal (porque era sem nenhum pecado) e ser transladado da glória pueril
para a vida imortal, [85] na qual não poderia pecar posteriormente. Dessa
inocência pueril, ele também podia cair na maldição, no pecado e na morte,
como aconteceu. Adão era imortal, porque tinha as árvores que foram
criadas e cujos frutos tinham o poder de conservar sua vida. Mas essa
imortalidade não lhe estava assegurada de tal modo que não lhe fosse
possível tornar-se mortal.
Não nos cabe determinar ou esquadrinhar ansiosamente por que Deus
decidiu criar o ser humano neste estado intermediário ou por que ele foi
criado de tal maneira que todos descendam de um só através do processo da
reprodução. Os anjos não foram criados assim; eles não geram nem
procriam, pois vivem uma vida espiritual. O plano de Deus é digno de
admiração: ao criar o ser humano, embora o tivesse criado para a vida física
e as atividades corporais, atribuiu-lhe poder intelectual, que também existe
nos anjos, de modo que o ser humano é um ser vivo que tem em si a
[natureza] animal dos seres irracionais e a natureza dos anjos.
Além disso, por termos mencionado, de passagem, a natureza dos anjos,
não se deve ocultar que os Pais escrevem ter havido certa semelhança entre
a condição do ser humano e a dos anjos. Mas essa semelhança, de forma
alguma, deve ser aplicada ao processo de procriação, que não existe na
natureza espiritual, mas diz respeito à imperfeição. Assim como eu disse
que o ser humano foi colocado, por assim dizer, numa posição
intermediária, também os anjos, logo que foram criados, não eram tão
constantes em sua natureza que não pudessem pecar. Por isso Cristo diz, no
oitavo [capítulo] de João378, que ele [o diabo] não permaneceu na verdade.
Daí os Pais imaginaram ter surgido uma luta ou rebelião entre os anjos, em
que alguns favoreceram um belíssimo anjo, que se destacava dos demais
por causa de certos dons. Essas ideias são verossímeis, pois não se afastam
daquilo que Cristo diz, de que o diabo não permaneceu na verdade, e do que
Judas diz em sua carta, que [os anjos] abandonaram sua morada e se
tornaram apóstatas379.
Para confirmar essa afirmação, eles também recorreram à passagem de
Is 14[.16]380. Quanto ao texto de Isaías, é certo que ele se refere ao rei da
Babilônia, que quis sentar no trono de Deus, ou seja, dominar o povo santo
e o templo. Portanto, se houve alguma dissensão ou, o que me parece mais
provável, se alguns anjos soberbos, ofendidos por causa da humildade do
Filho de Deus, quiseram ser superiores a ele, o certo é que também os anjos
estavam em tal estado de inocência que eles podiam sofrer uma mudança.
Mas, depois que os maus haviam sido julgados e condenados, os bons
foram confirmados de maneira que não mais podem pecar. Pois todos se
tornaram eleitos, enquanto os réprobos foram rejeitados.
Caso o dragão ou os anjos maus tivessem permanecido na inocência,
também eles teriam sido confirmados mais tarde de tal modo que não
pudessem cair. Isso, os Pais expressam desta maneira: os anjos foram
criados na justiça e, mais tarde, também foram confirmados nela. Mas
aqueles que caíram, segundo as palavras de Cristo, não permaneceram na
verdade. E não pensemos que tenham sido poucos, pois Cristo diz no
Evangelho381 que Satanás tem um reino e que, da mesma forma como entre
salteadores, existe um que governa tudo com autoridade e conselhos, assim
também os anjos maus têm como príncipe Belzebu, que foi o chefe daquela
rebelião.
[86] Mas aqui surge uma questão sobre a qual tagarelam os livros de
todos os sofistas e, no entanto, nada explicam, ou seja: qual é a justiça
original? Alguns fazem dela uma qualidade, outros, algo diferente. Porém,
se seguirmos Moisés, definiremos que a justiça original significa que o ser
humano era justo, verdadeiro, reto, não só de corpo, mas especialmente de
alma, que reconheceu a Deus, obedeceu-lhe com a maior alegria,
compreendeu as suas obras, sem ter sido instruído. Um exemplo claro disso
é o seguinte: quando Adão estava num sono profundo e Deus criou Eva de
uma de suas costelas, ele reconheceu, tão logo que acordou, a obra de Deus,
dizendo: “Este é um osso de meus ossos”. Não é excelente um intelecto que
compreende e reconhece imediatamente, à primeira vista, a obra de Deus?
Faz parte dessa justiça original que Adão amava a Deus e suas obras de
todo o coração e com o mais puro afeto, que ele vivia em paz com as
criaturas de Deus, sem temer a morte, sem qualquer medo de doenças, que
também tinha o corpo perfeitíssimo, sem inclinações más e sem a
concupiscência repugnante que experimentamos agora. Pode-se depreender
um quadro exato e belíssimo da justiça original a partir da corrupção que
sentimos agora em nossa própria natureza.
Quando os sofistas se referem ao pecado original, eles falam somente da
abominável e repugnante libido ou concupiscência. Mas o pecado original
é, em verdade, a queda completa da natureza humana, de tal modo que o
intelecto foi obscurecido para que não reconheçamos mais a Deus e sua
vontade e não percebamos as sua obras; além disso, que também a vontade
esteja tão depravada que não confiemos na misericórdia de Deus, para que
não o temamos, mas, seguros, esquecida a Palavra e a vontade de Deus,
sigamos a concupiscência e os impulsos da carne; da mesma forma, que a
consciência não esteja mais tranquila, mas, ao pensar sobre o juízo de Deus,
siga e procure, desesperadamente, apoio e remédios ilícitos. Esses pecados
fixaram-se tão profundamente em nossa natureza que não podem ser
completamente arrancados nesta vida; no entanto, os miseráveis sofistas
não os abordam sequer com uma única palavra. Desse modo (conforme a
natureza dos correlativos), o pecado original mostra o que é a justiça
original, e vice-versa: que o pecado original é a perda ou a privação da
justiça original, assim como a cegueira é a privação da visão.
Isso envolve muito mais do que pensam os monges, que quase sempre
restringem o pecado original à castidade. Primeiramente, dever-se-ia olhar
para a alma, depois, também para o corpo que se tornou detestável,
dominado pela concupiscência. Mas o principal que se perdeu na alma é o
conhecimento de Deus, que não lhe rendemos graças em toda parte e
sempre, que não nos alegramos com as suas obras e os seus feitos, que não
confiamos nele, que começamos a odiar a Deus e a blasfemar quando ele
inflige castigos merecidos, que cedemos aos nossos desejos quando
devemos tratar com o próximo, que somos assaltantes, ladrões, adúlteros,
homicidas, cruéis, desumanos, impiedosos etc. Certamente, o furor da
concupiscência faz parte do pecado original. Maiores do que ele, porém,
são os vícios do coração: incredulidade, ignorância de Deus, desespero,
ódio, blasfêmia. Adão desconhecia essas calamidades espirituais no estado
de inocência.
[87] Além disso, devem ser acrescentados os castigos do pecado
original. Chamam-se corretamente de pecado original todas as condições
que se perderam e que Adão tinha quando sua natureza ainda era íntegra:
uma inteligência muito sagaz, de modo que entendeu imediatamente que
Eva era da sua carne; um conhecimento exato de todas as criaturas; era
justo, reto, de extraordinária capacidade intelectual, de vontade reta, embora
imperfeita. Pois a perfeição foi adiada para a vida espiritual, depois da vida
física. Isso seja o suficiente sobre o texto em que se estabeleceu a Igreja.
Agora, Moisés continua.
O Senhor Deus também disse: não é bom que o homem esteja só; eu lhe
farei uma ajuda que esteja diante dele. [2.18]
Ouvimos que a Igreja foi instituída e o culto definido pela Palavra. Não
havia necessidade de organização política, porque a natureza era íntegra e
sem pecado. Agora, institui-se também a organização familiar. Do Adão
solitário, Deus faz um marido, juntando a ele uma esposa, que era
necessária para a multiplicação do gênerohumano. Conforme lembramos
acima, em conexão com a criação do ser humano, Adão foi criado segundo
um plano deliberado. O mesmo acontece também aqui: Eva foi criada de
acordo com um determinado planejamento. Assim, Moisés mostra uma vez
mais que o ser humano é uma criatura singular e digna de participar da
divindade e da imortalidade. Pois ele é uma criatura melhor do que o céu, a
terra e tudo o mais que neles existe.
Moisés quis lembrar especialmente que a outra parte da natureza
humana, isto é, a mulher, foi criada de acordo com um plano singular de
Deus, para mostrar que também este sexo, que devia servir para a
procriação, pertencia à vida pela qual esperava Adão. Em consequência, se
a mulher não tivesse sido enganada pela serpente e não tivesse pecado, ela
teria sido igual a Adão em todos os aspectos. Pois o castigo, isto é, o fato de
estar, agora, sujeita ao homem, lhe foi infligido depois do pecado e por
causa do pecado, assim como o foram outros infortúnios e perigos: o
trabalho de parto, a dor e outras infinitas provações. Por isso, Eva não era
como a mulher de hoje; seu estado era muito melhor e superior e em nada
inferior ao de Adão, independentemente se se considerarem os dotes do
corpo ou da mente.
Aqui surge uma pergunta: a que Deus está se referindo quando diz:
“Não é bom que o homem esteja só”, já que Adão era justo e não tinha
necessidade de uma mulher, como nós, que temos a carne contaminada por
causa do pecado?
Respondo: Deus refere-se ao bem comum ou ao da espécie, não ao bem
pessoal. O bem pessoal é a inocência de Adão. Mas ele ainda não tem o
bem comum, que tinham os demais seres vivos, que propagavam a espécie
mediante a procriação. Pois Adão ainda estava só e ainda não tinha uma
parceira para a magnífica obra de procriação e conservação de sua espécie.
Portanto, “bom” significa, aqui, a multiplicação do gênero humano. Desse
modo, por mais inocente e justo que Adão tenha sido, ainda não tinha o
bem para o qual tinha sido criado, ou seja, a imortalidade, para a qual teria
sido transladado por Deus no devido tempo se tivesse permanecido na
inocência. [88] Portanto, [“não é bom”] significa que Adão é uma criatura
belíssima no que concerne à sua pessoa e tem o suficiente, mas ainda lhe
falta algo, ou seja, o dom da multiplicação e da bênção, porque ele está só.
Hoje, depois que a natureza foi corrompida pelo pecado, a mulher é
necessária não só para a procriação, mas também como companheira e
[para] a preservação [da vida]. Pois a economia [familiar] necessita do
serviço das mulheres. Além disso, e isso é lamentável, ela também é
necessária como remédio para o pecado. Por isso, não só se deve considerar
a importância da mulher na administração doméstica, mas também como
remédio, como diz Paulo: “Por causa da fornicação cada um tenha sua
própria esposa” [1 Co 7.2]. E o mestre das Sentenças382 declara sabiamente
que o casamento foi instituído no paraíso como dever, mas, depois do
pecado, também como remédio. Por isso, somos obrigados a nos relacionar
com o sexo [feminino] para evitar o pecado. Certamente, é quase
vergonhoso dizer isso, mas é a verdade. Pois pouquíssimos são os que
casam somente por causa do dever.
Os outros animais não têm essa necessidade. Por isso, a maioria une-se
só uma vez por ano, e está satisfeita com isso, como se expressassem com
esse fato que se unem por causa do dever. A conduta humana, todavia, é
diferente. Os homens são obrigados a se unir no casamento com as esposas
para evitar o pecado. Por isso, somos gerados no pecado e também
nascemos nele, pois nossos pais não se unem só por causa do dever, mas
também por causa do remédio ou para evitar o pecado.
No entanto, sob esse remédio e nesse estado profundamente lamentável,
o Senhor cumpre a bênção, e os seres humanos são gerados em pecado e
com pecado. Isso não teria acontecido no paraíso, pois a geração teria sido
totalmente santa, sem a paixão da concupiscência, como existe agora, e os
filhos teriam nascido em justiça e retidão originais. E, imediatamente, sem
qualquer instrução, eles teriam reconhecido a Deus, o teriam exaltado e lhe
rendido graças etc. Tudo isso, porém, foi perdido. Por isso convém pensar
sobre essas coisas para que possamos distinguir o estado em que nos
encontramos agora, isto é, o do pecado original, e aquele em que se
encontrava Adão, ou seja, a justiça original, a qual esperamos para quando
todas as coisas forem restauradas, At 3[.21].
Em relação ao verbo “façamos”, lembrei que Eva foi criada segundo um
desígnio singular para que ficasse evidente que ela participa da imortalidade
e de uma vida melhor do que a dos demais animais, que vivem só a vida
temporal, sem esperança da vida eterna.
No texto latino consta “semelhante a si”383 e, no hebraico, “que esteja
diante dele”. Com essa expressão, o texto distingue entre a fêmea humana e
as fêmeas de todos os outros animais, que não estão sempre diante de seus
machos. A mulher, porém, foi criada de tal maneira que sempre e em toda
parte esteja diante do seu marido. Assim também o imperador declara a
vida dos cônjuges uma relação inseparável. A fêmea dos animais só procura
o macho uma vez por ano. Porém, depois de ter concebido, ela volta para o
que é seu e cuida de si. Ela não tem qualquer preocupação com os filhotes
nascidos em outra época e não convive sempre com o macho.
A natureza do casamento entre seres humanos é diferente. Ali, a mulher
se entrega de tal maneira ao homem que ela está diante dele e convive com
ele como se fossem uma só carne. Se Adão tivesse permanecido no estado
[89] de inocência, esta relação entre marido e mulher teria sido
extremamente agradável. A própria obra da procriação teria sido totalmente
santa e nobre. Não teria existido essa vergonha nascida do pecado que
existe agora, quando os pais são obrigados a se esconder no escuro. Deitar-
se com a mulher não teria sido menos honroso do que dormir, comer e
beber com ela.
Portanto, não é horrível essa queda? De fato, não houve, em toda a
natureza, obra mais extraordinária e admirável do que a procriação. Depois
da proclamação do nome de Deus, ela é a obra mais importante que Adão e
Eva podiam realizar no estado de inocência, sem pecado – tão sem pecado
quanto eram ao louvar a Deus. Essa obra permanece na natureza até hoje,
como outros tantos restos miseráveis da primeira condição. Mas quão
horrivelmente ela foi deformada! Marido e mulher são publicamente unidos
com honra pela Igreja, mas quando estão a sós unem-se com um enorme
sentimento de vergonha, sem falar da repugnância que adere à carne, ou
seja, do desejo bestial e da concupiscência. Tudo isso são sinais claros do
pecado original.
Portanto, a mulher foi dada a Adão como uma ajuda, pois sozinho ele
não podia procriar. Além disso, estes são os maiores elogios que se podem
fazer ao sexo, que o homem é o pai da procriação, mas a mulher é a mãe
dela e colaboradora do marido. No entanto, quando olhamos para trás, para
o estado de inocência, [constatamos que] também a procriação era
infinitamente melhor, mais agradável e mais santa.
Hoje, encontras muitas pessoas que não querem ter filhos. E esta mais
do que bárbara crueldade e desumanidade encontra-se principalmente entre
os nobres e príncipes que, muitas vezes, se abstêm do casamento
unicamente para não ter descendentes. Bem mais horrível é o fato de se
encontrarem príncipes que permitem ser forçados a não casar, para que,
evidentemente, sua família não aumente além da medida. Estes, sem
dúvida, são dignos de que sua memória seja varrida da terra dos vivos.
Quem não execraria essas monstruosidades porcinas? Mas também isso é
sinal do pecado original. Caso contrário, admiraríamos a procriação e a
celebraríamos com os merecidos louvores como a mais extraordinária obra
de Deus e o maior de todos os dons.
O aumento do ímpio celibato também é uma fonte de insultos contra o
sexo feminino. Em contrapartida, o fato de Deus ter preservado, para nós, a
mulher para procriação e remédio contra o pecado da fornicação – contra
nosso desejo evontade, por assim dizer – é um grande benefício. No
paraíso, a mulher teria sido colaboradora apenas pelo fato de servi-lo.
Agora, ela também é, especialmente, antídoto e remédio, e dificilmente
podemos falar dela e nos relacionarmos com ela sem nos envergonharmos.
A razão disso é o pecado. No paraíso, essa união teria ocorrido sem
qualquer vergonha, como uma atividade criada e abençoada por Deus. Teria
sido acompanhada por uma alegria honrosa, tal como aquela que
acompanhava a comida e a bebida. Agora, lamentavelmente, ela passou a
ser um prazer tão repugnante e horrível que os médicos a comparam com a
epilepsia ou com um surto epilético. Dessa maneira, associou-se à atividade
da procriação a uma verdadeira doença. Afinal, estamos no estado de
pecado e morte; por isso, [90] também sofremos esse castigo, de modo que
não podemos nos relacionar com a mulher sem o horrível sentimento da
paixão da concupiscência e, por assim dizer, sem a epilepsia.
Por causa do pecado, o mesmo também acontece com os dons
espirituais. Pois, embora tenhamos fé e vivamos na fé, não conseguimos
passar sem a dúvida e o sentimento da morte. Os santos Pais viram e
sentiram bem essas punições do pecado original. Por isso, a Escritura
também usa o termo Ervah para designar as partes pudendas ou as
vergonhas.
O que se segue é como se fosse uma repetição, para que Moisés chegue
mais facilmente à descrição de como a mulher foi criada. Por isso, deve ser
lido como se estivesse no pretérito mais-que-perfeito.
Depois do Senhor Deus ter formado do barro todos os animais da terra,
levou-os a Adão para que ele visse como os chamaria. [2.19]
É como se [Moisés] dissesse: Deus quis criar a mulher de acordo com
um determinado desígnio, previamente deliberado, pois viu que todos os
outros animais tinham uma ajuda para a procriação, menos Adão. Por isso,
ele levou todos os seres vivos a Adão. Depois que ele havia dado nomes a
cada um deles, não encontrou nenhum semelhante a ele. Aqui somos
lembrados novamente do conhecimento e da sabedoria notáveis de Adão,
que foi criado em inocência e justiça. Sem qualquer nova iluminação,
somente mediante a bondade de sua natureza, ele vê todos os animais e tem
tal conhecimento da natureza deles que dá a cada um o nome apropriado e
conveniente à sua natureza. A essa luz seguiu-se também, merecidamente, o
domínio sobre todos os seres vivos, o que também se mostra aqui por serem
chamados segundo o arbítrio de Adão. Por isso, com uma só palavra, ele
pôde obrigar leões, ursos, javalis, tigres e todos os animais superiores a
fazer tudo que convinha à sua natureza. Também isso nós perdemos por
causa do pecado.
Por isso, não é de admirar que não tenhamos qualquer conhecimento de
Deus, uma vez que nem mesmo conhecemos a natureza dos animais, suas
virtudes e seus poderes. Existem vários livros que descrevem a natureza de
plantas e animais. Mas quanto tempo e quanta observação foram
necessários até que se coletassem [esses conhecimentos] mediante a
experiência! Em Adão havia uma luz diferente, que, tão logo viu o animal,
conheceu toda a sua natureza e todos os seus poderes, e, de longe, melhor
do que nós, mesmo que dediquemos a vida inteira a investigar essas coisas.
Esse conhecimento de Adão foi um excelente dom de Deus e também
agradou-lhe extraordinariamente. Por isso, Deus lhe ordenou que usasse
esse conhecimento e desse nomes a todos os animais.
Como Adão denominou cada ser vivo, assim passou a ser seu nome.
Adão chamou todos os seres vivos pelos seus nomes, todas as aves do céu e
todos os animais da terra. Mas não se encontrou para Adão uma
colaboradora que estivesse ao seu lado. [2.20]
Que mar de conhecimento e sabedoria havia neste único homem!
Embora Adão também tenha perdido muito desse conhecimento devido ao
pecado, [91] creio que tudo o que, até hoje, se encontra nos livros de todos
os sábios que escreveram durante tantos séculos desde o tempo em que
iniciou a arte de escrever, ainda não pode ser equiparado a esta sabedoria
que permaneceu, depois, em Adão, mas que, aos poucos, se obscureceu nos
seus descendentes [a ponto de] quase se extinguir.
Além disso, devemos ser lembrados aqui novamente que Moisés ainda
está ocupado com a descrição da obra do sexto dia. O que ele disse com
poucas palavras no primeiro capítulo: “Façamos o ser humano”, ele quer
explicar mais detalhadamente neste capítulo para distinguir o ser humano
dos demais seres vivos com uma única prova. Por isso, ele emprega todo o
segundo capítulo para explicar a criação do ser humano. Sobre o homem,
ele disse que foi feito do pó, que o hálito da vida foi inspirado em sua face e
que toda a multidão de seres vivos foi conduzida para diante dele. Quando
Adão constatou que não havia nenhum colaborador entre eles, foi feita a
mulher, parceira para a procriação e a conservação da espécie. Deus não
quis que os descendentes nascessem do mesmo modo que Adão, feito da
terra, mas quis que o ser humano tivesse o poder de procriar, do mesmo
modo como os outros animais o têm. No que diz respeito à vida física,
bebemos, comemos, procriamos e somos gerados como os outros animais.
Mas Moisés age aqui com grande sabedoria para distinguir o ser humano
dos demais seres vivos, porque, depois da vida física, ele haveria de
participar da vida espiritual e eterna. Tudo isso pertence à obra do sexto dia.
Ora, Deus havia dito: “Crescei e multiplicai-vos”. Por isso foi necessário
explicar, agora, de que forma a mulher foi dada a Adão, como foi feita e
unida a ele.
[Tudo] isso [é dito] para que nos mantenhamos firmes na afirmação de
que Deus realmente criou todas as coisas em seis dias, em oposição à
opinião de Agostinho e Hilário384, que creem que tudo foi criado num único
momento. Por isso, eles se afastam da história, seguem alegorias e inventam
não sei que especulações. Não digo isso para injuriar os santos Pais, cujos
trabalhos devem ser reverenciados, mas para confirmar a verdade e nos
consolar. Pois eles eram grandes homens, mas seres humanos, que erraram
e estavam sujeitos ao erro. Que não os exaltemos como [o fazem] os
monges, que adoram todas as suas opiniões, como se não fossem passíveis
de pecar. Para mim, o grande consolo parece estar, antes, no fato de serem
flagrados em erro e, às vezes, em pecado. Pois penso assim: se Deus lhes
perdoou os erros e os pecados, por que eu desesperaria do seu perdão? O
oposto leva ao desespero – se creres que eles não sofreram o mesmo que tu
sofres. Certamente, há uma grande diferença entre a vocação dos apóstolos
e a dos Pais. Por que, então, consideraríamos os escritos dos Pais iguais aos
dos apóstolos?
[92,6] Então, o Senhor Deus fez cair um sono sobre Adão e, enquanto
ele dormia, [Deus] tirou uma de suas costelas e fechou o lugar com carne.
[2.21]
Aqui, não só a fé, mas também a razão e a circunstância demonstram
que um é o tempo da vigília, outro o do sono, pois essas atividades têm seus
intervalos. Que Adão foi criado no sexto dia, que os animais foram levados
a ele, que ele ouviu o Senhor dando um preceito a respeito da árvore do
bem e do mal, que o Senhor lhe enviou um sono, tudo isso se refere
claramente ao tempo e à vida física. Por isso, é necessário entender esses
dias como dias reais, contrariamente à opinião dos santos Pais. Sempre que
constatamos que as opiniões dos Pais não concordam com a Escritura, nós
os toleramos com reverência e os reconhecemos como nossos ancestrais,
mas não nos afastamos da autoridade da Escritura por causa deles.
Aristóteles tem razão quando sentencia de modo excelente no primeiro livro
de sua Ética que é melhor defender a verdade do que apegar-se
demasiadamente aos nossos familiares e amigos. Isso convém, sobretudo,
ao filósofo. Embora ambos nos sejam caros, a verdade e os amigos, a
verdade deve ter prioridade385. Se um pagão julga que isso deve ser feito
em discussões seculares, quanto mais deve ser feito naquelas [questões] que
têm o testemunho inequívoco da Escritura, de modo a não antepormos a
autoridade dos seres humanos à Escritura! Os seres humanos podemse
enganar, mas a Palavra de Deus é a própria sabedoria de Deus e a verdade
absoluta.
Mas em relação a esta história, que, eu te pergunto, poderia soar mais
fabuloso se seguisses a razão? Alguém creria neste relato sobre a criação de
Adão e Eva se não lhe fosse dito claramente desse modo? Pois aqui todas as
criaturas são exemplos ao contrário. Todo o ser vivo que nasce, nasce do
macho e da fêmea e é dado à luz pela fêmea. No entanto, a mulher é criada
a partir do homem por um ato criador não menos admirável do que foi a
[criação] de Adão, feito a partir de um torrão de terra e transformado num
ser vivo. Se colocares a Escritura de lado e seguires a razão, essas coisas
parecem monstruosas e as maiores tolices. Por isso, Aristóteles diz que não
se pode gerar o primeiro nem o último ser humano. Mesmo que a razão não
tivesse esse texto, ela seria obrigada a dizer a mesma coisa. Pois se
estabeleceres como verdadeiro o que atesta unanimemente toda a criação,
ou seja, que nada nasce vivo senão de um macho e de uma fêmea, então
[segundo a razão] não se pode gerar um primeiro ser humano.
O mesmo deveria ser dito sobre o mundo, a respeito do qual os filósofos
declararam, por essa razão, que era eterno. Embora se procurem argumentos
pelos quais se possa provar que o [93] mundo não é eterno, a razão inclina-
se com toda sua força para essa opinião. Ora, que início ela encontra no
nada? Além disso, se disseres que o mundo teve um início e que houve um
tempo em que o mundo não existia, imediatamente conclui-se que não
existia nada antes do mundo. Segue-se um número sem fim de outros
[argumentos] absurdos que levaram os filósofos a julgar que o mundo é
eterno. Mas, se disseres que o mundo é infinito, imediatamente aparecerá
um outro novo infinito na sucessão dos seres humanos. A filosofia não
admite vários infinitos, mas é forçada a admiti-los, pois não conhece
qualquer início do mundo e dos seres humanos. Essas contradições e essa
falta de clareza fizeram com que os epicuristas386 declarassem que o mundo
e o ser humano existem sem razão e que também perecerão sem razão,
assim como perece o gado, que morre como se jamais tivesse existido. Daí
se seguem outras coisas: ou Deus simplesmente não existe ou não se
preocupa com as coisas humanas. A razão é desviada para esses labirintos
quando está destituída da Palavra e segue seu próprio juízo.
É muito importante constatar como a nossa razão ou a nossa sabedoria
são limitadas quando tentam interpretar a criação. Pois, pergunto, que o
filósofo sabe sobre o céu e o mundo se nem sequer sabe de onde vem e para
onde vai? De fato, que sabemos sobre nós mesmos? Percebemos que somos
seres humanos. Mas que temos este pai e esta mãe, isso deve ser crido; de
modo algum pode-se sabê-lo [pela razão]. Portanto, todo nosso
conhecimento ou sabedoria baseiam-se apenas no conhecimento da causa
material e formal, embora também nisso, às vezes, deliremos
vergonhosamente. Está claro que não conseguimos mostrar a causa
geradora e a causa final, principalmente – que miséria! – quando se deve
argumentar ou pensar sobre o mundo em que estamos e vivemos, ou sobre
nós mesmos. Isso não é uma sabedoria miserável e pobre?
Aristóteles declara: “O ser humano e o sol geram o ser humano”. Isso
está bem dito, mas segue esta sabedoria e chegarás ao ponto de estabelecer
que o ser humano e o sol são eternos e infinitos. Pois jamais encontrarás um
ser humano que seja o princípio ou o fim, do mesmo modo como eu não
posso encontrar o início e o fim da minha pessoa, se eu quiser ter certeza
disso prescindindo da fé. Mas que sabedoria e conhecimento são esses que
ignoram a causa final e a causa geradora? Quanto ao fato de conhecermos a
forma, uma vaca também conhece seu estábulo e (como diz o provérbio
alemão) vê e reconhece a porta [dele]. Vê-se aqui mais uma vez quão
horrível foi o pecado original, por meio do qual perdemos esse
conhecimento, de sorte que não podemos ver nem o início nem o fim de nós
mesmos.
Platão387, Cícero388 e outros filósofos, que são os melhores,
argumentam que o ser humano caminha de cabeça erguida, ao passo que os
demais seres olham para a terra com a sua cabeça inclinada para baixo.
[Com isso,] eles celebram a razão ou o poder de compreensão e de
discernimento do ser humano e, em seguida, concluem que ele é um animal
singular, criado para a imortalidade. Mas, por favor, isso é pobre e quase
inútil! Pois tudo isso conclui-se a partir do conhecimento da forma. Se,
porém, pensares também sobre a matéria, [94] a razão não te obrigará a
declarar que essa natureza deverá ser dissolvida novamente, logo, não pode
ser imortal?
Aprendamos, pois, que a verdadeira sabedoria está na Sagrada Escritura
e na Palavra de Deus, pois ela não só ensina sobre a matéria e sobre a forma
de toda a criação, mas também sobre a causa geradora e a causa final, sobre
o princípio e o fim de todas as coisas, [isto é,] quem criou e para que criou.
Sem o conhecimento dessas duas causas, nosso conhecimento não difere
muito do dos animais, que também utilizam os olhos e os ouvidos, mas
ignoram totalmente o princípio e o fim.
Por isso este texto é extraordinário. Quanto mais ele parece contradizer
toda a experiência e a razão, com tanto mais cuidado ele deve ser
examinado e com tanto mais convicção deve ser crido. Pois aqui somos
instruídos sobre o princípio do ser humano: que o primeiro ser humano não
passou a existir por meio da procriação, como Aristóteles e os demais
filósofos, enganados pela razão, sonharam. A reprodução dos descendentes
acontece mediante a procriação, mas o primeiro homem foi formado e
criado de um torrão de terra; a primeira mulher, porém, da costela do
homem enquanto dormia. Esta é a origem [do ser humano] que é impossível
ser encontrada através da filosofia de Aristóteles.
Estabelecida essa origem, segue a não menos admirável propagação
pela união de um ser masculino e um ser feminino, pela qual todo o gênero
humano é procriado a partir de uma gotícula do corpo humano. Do mesmo
modo, Paulo, baseado nesta passagem, filosofa espirituosamente entre os
filósofos em Atenas: “Deus mesmo dá a todos zoen kai pnoen, espírito e
vida em geral, e do sangue de um só faz todo o gênero dos seres humanos
para que habite sobre toda a terra, para que procurem Deus, se, por acaso, o
tocarem ou encontrarem, embora ele não esteja longe de cada um de nós”
[At 17.25-27]. Paulo fala, aqui, da propagação produzida pelo primeiro ser
humano, quando diz “do sangue de um só”. Portanto, se o ser humano é
gerado de uma gotícula de sangue, como atesta a experiência de todos os
seres humanos no mundo inteiro, isso, certamente, não é menos admirável
do que o fato do primeiro homem ter sido criado de um torrão de terra e a
mulher, da costela do homem.
Mas por que a criação de Adão e Eva parece tão incrível e tão
admirável, enquanto não nos admiramos tanto com o processo da
procriação, que todos os seres humanos conhecem e veem? Certamente,
porque, como diz Agostinho, os milagres se banalizam por sua frequência.
Assim, não admiramos a maravilhosa luz do sol, porque ela é diária; não
admiramos os outros infinitos dons da criação, porque nos tornamos surdos
para esta admirável e suavíssima sinfonia que vem daquela harmonia de
movimentos que existe nas esferas celestiais, como diz muito bem
Pitágoras389. Como as pessoas ouvem continuamente essa sinfonia, elas
ficam surdas para ela, do mesmo modo que as pessoas que vivem junto às
cataratas do Nilo não são afetadas pelo barulho e pelo estrondo das águas
porque os ouvem ininterruptamente, o que é intolerável para outras pessoas
que não estão acostumadas a isso. Sem dúvida, [Pitágoras] adotou essa
figura da tradição dos pais, que não queriam admitir [95] que o movimento
dos corpos celestes emitisse qualquer som. O que eles queriam dizer é que
se trata de uma ordem extremamente agradável e admirável, mas que nós,
pessoas ingratas e insensatas, não o percebemos e não damos a Deus as
devidas graças por essa admirável condição e preservação da criação.
É um grande milagreque se semeie uma semente pequenina e, depois,
nasça um altíssimo carvalho. No entanto, como essas coisas são cotidianas,
tornaram-se comuns, assim como também o é o meio de nossa reprodução.
Certamente é digno de admiração que uma mulher receba o sêmen, que este
se condense e, como Jó o disse muito bem, coalhe390, e depois se forme e
seja alimentado até que o feto esteja pronto para suportar o ar. Depois que o
feto foi dado à luz pelo parto, não surge um novo alimento, mas uma nova
maneira e um novo modo [de alimentar]: dos dois seios [da mãe] mana leite
como de uma fonte, com a qual o bebê se alimenta. Todas essas coisas são
altamente admiráveis e totalmente incompreensíveis, mas tornaram-se
corriqueiras por causa da rotina, e nós, verdadeiramente, nos tornamos
surdos para essa encantadora sinfonia da natureza.
Se olhássemos para essas coisas com verdadeira fé e as avaliássemos
como, de fato, são, certamente não seriam inferiores ao que Moisés diz
aqui: que uma costela foi tirada do flanco de Adão, enquanto ele dormia e
que Eva foi criada dela. Se tivesse aprazido ao Senhor formar-nos da
mesma maneira como foi formado Adão, de um torrão de terra, isso
também já teria deixado de ser um milagre para nós e admiraríamos mais [a
atual] maneira de procriação, mediante o sêmen do homem. É, pois,
verdadeiro o que se diz por meio de um verso tosco, mas que, certamente,
não foi composto sem ponderação: “Tudo que é raro é caro, o cotidiano se
torna comum”. Se as estrelas não surgissem a cada noite ou em todas as
partes, quão grande seria o afluxo de pessoas para [ver] este espetáculo?
Agora, ninguém de nós sequer abre uma janela por causa disso.
Por isso, nossa ingratidão é merecidamente condenada. Se cremos que
Deus é a causa geradora e a causa final [de tudo], não deveríamos admirar
suas obras, alegrar-nos com elas e celebrá-las sempre e em toda parte?
Quantos fazem isso verdadeiramente e de coração? Ouvimos que Deus
tomou um torrão de terra e fez o ser humano, e nós o admiramos e, por
causa da nossa admiração, o consideramos uma fábula. Mas não nos
admiramos com o fato de ele, hoje, tomar só uma gota de sangue do pai e
criar o ser humano, porque isso acontece todos os dias, enquanto aquilo
aconteceu só uma vez. Todavia, ambas as coisas acontecem pela mesma
arte, pelo mesmo poder e pelo mesmo autor. Aquele que formou o ser
humano de um torrão de terra é o mesmo que continua criando os seres
humanos do sangue dos pais.
[96,5] O fato de nascer um ser humano de uma gotícula de sangue, e
não uma vaca nem um asno, acontece pelo poder da palavra proferida por
Deus. Por isso, como Cristo também nos ensina na oração do Senhor391,
chamamos, com razão, Deus de nosso Pai e nosso Criador, como
confessamos no Credo392. Se olharmos para esta causa, poderemos falar de
forma casta e pura e com alegria sobre essas coisas. Se, pelo contrário,
prescindirmos dela não as poderemos mencionar sem [sentimento de]
repugnância e [de] obscenidade.
Essa discussão também mostra quão terrível foi a queda do pecado
original, visto que o gênero humano, em sua totalidade, desconhece sua
origem. Certamente vemos que o homem e a mulher se unem, que a mulher
engravida com uma gota de sangue, e que, depois, num tempo bem
determinado, um bebê é dado à luz. Essas coisas estão diante dos olhos de
todos e são muito conhecidas, mas, se a Palavra não te lembrar e não te
instruir, não tens conhecimento da atividade que exerces conscientemente e
com os olhos abertos. As discussões dos filósofos, dos quais já falamos,
mostram isso suficientemente. Isso não é de uma cegueira horrível e de uma
ignorância infame?
[96,35] O Senhor Deus, diz Moisés, fez cair sobre Adão um thardemah,
um “sono profundo”. O verbo radam significa ser surpreendido pelo sono,
como aqueles que adormecem sem sentir e cabeceiam de sono. Há tipos
diferentes de sono: alguns são profundos ou pesados e não são perturbados
por quaisquer sonhos. Estes são saudáveis, pois irrigam bem os corpos, são
úteis para a digestão e não causam dor à cabeça. Outros são mais leves e
alternam, por assim dizer, com vigílias. Nestes, os sonhos são mais
frequentes e prejudiciais à cabeça e são evidência de um corpo menos
saudável.
[97] Moisés diz que Adão foi vencido por um sono profundo de modo
que, deitado numa área verde, respirava profundamente, como costuma
acontecer com aqueles que dormem bem e tranquilamente. Este sono,
explica, foi o Senhor que o fez cair sobre ele. O sono é, pois, uma
verdadeira e belíssima dádiva divina, que cai como o orvalho e irriga todo o
corpo. Enquanto Adão dormia dessa forma, o Senhor tomou uma de suas
costelas. A palavra hebraica zela significa costela, flanco. Entendo que o
Senhor não tomou uma costela desprovida [de carne], mas uma coberta de
carne, pois Adão diz abaixo: “Isto é osso dos meus ossos e carne de minha
carne” [Gn 2.23]. Também isso o Senhor fez mediante a sua Palavra.
Portanto, não devemos pensar que ele agiu como age um cirurgião,
valendo-se de um corte. Ele disse: “Deste osso coberto de carne seja feita a
mulher”, e assim se fez. Depois, ele fechou essa abertura no flanco com
carne.
Aqui surge uma discussão entre os comentaristas extraordinariamente
loquazes. Dizem que o homem tem uma costela mais num flanco do que no
outro. Mas os médicos sabem isso melhor, pois conhecem anatomia. Lira393
discute se essa costela, no corpo de Adão, era supérflua. Nesse caso, diz ele,
isso era anormal. Se não era, Adão tinha, depois, uma costela a menos. Mas
isso também é anormal, diz ele. Por fim, responde: aquela costela era
supérflua em relação ao indivíduo. Por isso, mesmo depois de removida, o
corpo de Adão estava completo. Mas o corpo de Adão tinha necessidade
dessa costela para que, a partir dela, fosse feita a mulher.
Nós respondemos a tudo isso com a afirmação: “Deus disse”. Esta
afirmação resolve todas essas questões. Por que é necessário discutir de
onde Deus tomou o material da futura [mulher], se ele pode criar, como [,
de fato,] criou, todas as coisas com uma só palavra? Essas perguntas surgem
da Filosofia e da Medicina, que discutem as obras de Deus
independentemente da Palavra. Desse modo, perdem-se a glória da Sagrada
Escritura e a majestade do Criador. Por isso, deixando de lado essas
discussões, simplesmente permaneceremos na história, assim como Moisés
a expõe, [a saber,] que Eva foi criada de uma costela de Adão e que essa
parte do corpo foi fechada novamente com carne, assim como Adão foi
criado de um torrão de terra, e eu fui feito de uma gotícula de sangue do
meu pai. Como minha mãe me concebeu, como fui formado no útero e
como cresci, isso eu deixo para a glória do Criador. Pois é verdadeiramente
incrível que o ser humano nasça de uma gota de sangue, mas é verdade.
Portanto, se existe o poder de gerar a partir de uma gota de sangue, por que
não de um torrão de terra? Por que não de uma costela?
O sono de Adão, [isto é,] o fato de ele dormir de tal maneira que não
sinta o que é feito com ele, é como se fosse uma ilustração da mudança que
teria acontecido no estado de inocência. Pois a natureza, [se tivesse
continuado] justa não teria experimentado a morte, teria vivido em extrema
alegria, em obediência a Deus e na admiração das obras de Deus até que
tivesse vindo o tempo da mudança. Então, Adão teria sentido algo
semelhante a esse sono, que lhe sobreveio como uma sensação muito suave
enquanto estava deitado entre rosas e sob árvores agradabilíssimas. Durante
esse sono, teria sido mudado e transladado para a vida espiritual sem sentir
nenhuma dor, exatamente como [Adão] não sente que seu corpo é aberto e
uma costela [98] com carne é retirada [dele]. Agora, esta natureza corrupta
sofre a morte. No caso das pessoas que têm fé, um sono suavíssimo segue a
essa dissolução do corpo, até despertarmos na nova e eterna vida, assim
como Adão exclama, aqui, admirado: “Isto é osso dos meus ossos”. Ele foi
tomado de um sono tão agradável que não sentiu que [a costela] foi tirada
dele. Assim diremos naquele dia: “Eis que este corpo corroídopelos vermes
surge, de repente, em grande glória!” etc.
Até aqui discorremos o suficiente sobre a criação de Eva. Embora, para
a razão, [essa história] pareça uma fábula, ela é absolutamente verdadeira,
porque está revelada na Palavra de Deus, que é a única, como eu disse, que
ensina corretamente sobre as duas causas principais, a geradora e a final. O
conhecimento delas, se puder ser obtido em alguma parte, também é de
grande utilidade nas questões relativas à natureza. Pois de que adianta saber
que o ser humano é uma bela criatura se ignoras o seu propósito, a saber,
que ele foi criado para o culto a Deus e para a vida eterna com Deus?
Aristóteles diz algo [relevante] quando declara que o objetivo do ser
humano é a felicidade, que consiste na realização da virtude. Mas quem
alcança esse objetivo com esta nossa natureza fraca? Também as melhores
[pessoas] são confrontadas com os mais diversos incômodos, que podem ser
produzidos tanto por acidente quanto pela maldade e pela perversidade dos
seres humanos. Ora, a felicidade requer a tranquilidade da mente, mas quem
consegue manter [a mente tranquila] em meio à tamanha fanfarronice da
adversidade? Prescreve-se, pois, em vão este objetivo que ninguém alcança.
O objetivo principal, para o qual aponta a Escritura, é que o ser humano
foi criado à semelhança de Deus para que viva com Deus na eternidade e o
louve aqui na terra, lhe renda graças e obedeça pacientemente à sua Palavra.
Esse objetivo nós alcançamos de alguma forma nesta vida, embora
precariamente. Na vida futura, porém, o alcançaremos em sua plenitude.
Isso os filósofos não sabem. Por isso o mundo, querendo ser muito sábio, é
extremamente tolo por não levar em conta a Sagrada Escritura ou a
Teologia. Pois, carecendo da Palavra, os seres humanos não conhecem nem
seu princípio nem seu fim; não falo das demais criaturas.
E da costela que tirara de Adão, o Senhor Deus edificou uma mulher e
a levou para Adão. [2.22]
[99,4] Uma mulher, principalmente casada, é chamada de edifício, não
em sentido alegórico, mas em sentido histórico. A Escritura usa essa
expressão em toda parte. Assim, Raquel diz para Jacó: “Toma a serva para
que eu seja edificada nela” [Gn 30.3]. A mesma coisa, a Escritura diz sobre
Sara394. Em Êxodo [1.21], diz-se sobre as parteiras: “O Senhor lhes
constituiu395 família”, isto é, recompensou os benefícios que elas prestaram
ao povo de Israel, contrariando a ordem do rei, com a bênção de uma
família. O mesmo podemos verificar na história de Davi; quando quis
edificar uma casa ao Senhor, ele recebe esta resposta: “Deves saber que o
Senhor edificará uma casa para ti” [2 Sm 7.11].
Essa expressão é tão comum na Escritura que a esposa é chamada de
edifício doméstico, por causa da geração e da educação dos descendentes.
Devido ao pecado, perdemos de tal maneira a forma que este edifício teria
tido no paraíso que nem sequer podemos imaginá-lo. Mas, como eu disse
acima, a nossa vida presente tem algumas pequenas e miseráveis relíquias
dessa cultura e proteção [originais], [assim como também restou alguma
coisa] do domínio sobre os animais: ainda governamos ovelhas, bois,
gansos e galinhas, mas javalis, ursos e leões não ligam para este nosso
reinado. Assim também resta uma vaga imagem desse edifício, pois quem
toma uma esposa a tem como ninho ou casa junto à qual mora num
determinado lugar, assim como fazem as aves com seus filhotes em seu
pequeno ninho. Os que vivem como celibatários, como os indecorosos
papistas, não têm esta habitação.
Portanto, esta coabitação de marido e mulher – o fato de morarem
juntos, cuidarem dos assuntos familiares, gerarem e educarem juntos os
filhos – é uma imagem nebulosa, como um resto daquela coabitação feliz da
qual Moisés diz que a mulher é um edifício. Se Adão tivesse permanecido
na inocência, os seus descendentes, depois de terem casado, teriam se
afastado do pai e ido para o seu próprio pequeno jardim. Ali teriam vivido
com as esposas, cultivando juntos a terra e educando os filhos. Não teria
havido necessidade de magníficos edifícios, construídos com pedra cortada
ou de cozinhas ou de adegas, como têm agora. Mas, como as aves em seus
pequenos ninhos, teriam morado aqui e ali trabalhando naquilo para o que
Deus os havia vocacionado. A mulher teria sido a principal causa para que
os maridos vivessem em habitações fixas. Agora, na calamidade do pecado,
quando há necessidade de casas por causa da severidade do clima, nem
sequer conseguimos imaginar esta felicidade, de modo que esses pobres
restos são excelentes dádivas de Deus, e é verdadeiramente uma impiedade
usá-las sem render graças.
Todos sentimos o quanto perdemos daquele domínio que o ser humano
recebeu no paraíso, depois que fomos tão profundamente desfigurados pelo
pecado. No entanto, quão grande continua sendo esse benefício pelo fato
desse domínio ter sido entregue ao ser humano e não ao diabo! Como
poderíamos resistir a esse inimigo invisível se a faculdade de fazer mal
tivesse sido aliada à vontade de fazê-lo? Em uma hora, em um momento,
todos estaríamos extintos, se Satanás apenas incitasse as feras contra nós.
[100] Portanto, mesmo que o domínio tenha sido quase totalmente perdido,
é um enorme benefício que alguns restos persistam até hoje.
De forma semelhante, também existem restos da [forma original de]
procriação. No estado de inocência, as mulheres não só teriam dado à luz
sem dor, mas também sua fecundidade teria sido muito maior. Agora, a
procriação é dificultada por mil doenças, ou os fetos não sobrevivem ou os
casamentos, às vezes, são totalmente estéreis. Estes são defeitos e castigos
terríveis por causa da queda de Adão e do pecado original. Desse modo, a
mulher, até hoje, é a casa do marido, para a qual o marido se dirige, com a
qual mora, com a qual une esforço e trabalho para sustentar a família. Como
se dirá abaixo: “O homem se unirá à sua mulher e abandonará seu pai e sua
mãe” [Gn 2.24].
Mas esta coabitação, além dos outros inúmeros incômodos que o
casamento tem por causa do pecado, também é extraordinariamente
deformada por naturezas perversas. Não só existem aqueles que creem que
é sábio insultar o [outro] sexo e rejeitar o casamento, mas também os que
abandonam as esposas e lançam de si toda a preocupação com os filhos.
Eles destroem com sua improbidade e perversidade o edifício de Deus e,
realmente, são monstros abomináveis da natureza. Por isso, obedeçamos à
Palavra de Deus e reconheçamos em nossas esposas um edifício do Senhor.
Por intermédio delas, não só é edificada a casa através da procriação e de
outros serviços necessários na organização doméstica, mas também porque
os próprios maridos são edificados por elas, para os quais elas são como
ninho e habitação para onde eles se dirigem, a fim de passar o tempo e viver
com alegria.
O que Moisés acrescenta: “E a levou para Adão” é uma espécie de
descrição de esponsais que é, sobretudo, digna de observação. Pois Adão
não arrebata Eva para si por vontade própria, depois de ter sido criada, mas
espera que Deus a leve até ele. É o que Cristo também diz: “O que Deus
uniu, o ser humano não deve separar” [Mt 19.6]. Pois a legítima união de
homem e mulher é ordenação e instituição divina.
Por isso Moisés conserva, aqui, sua própria expressão: “Levou”, diz ele.
Quem? Certamente Iehova Elohim, ou seja, a divindade toda – Pai, Filho e
Espírito Santo. Eles dizem para Adão: “Eis tua esposa, com a qual deves
morar e com a qual deves gerar filhos”. Sem dúvida, Adão a recebeu com
grande alegria, assim como ainda hoje, nesta natureza corrupta, é
extraordinário o amor mútuo de noivo e noiva. Ao contrário do prazer
epilético e apoplético que existe hoje no casamento, tratava-se de um amor
casto e muito prazeroso. [A continuar este estado,] a própria união teria sido
honradíssima e totalmente santa. Mas, agora, o pecado se insinua nos olhos
e nos ouvidos e está presente em toda parte e, finalmente, também em todos
os sentidos.
Por isso, deve-se atentar particularmente para esta passagem não só
contra todos os abusos horríveisda concupiscência, mas também para
confirmar o casamento contra os insultos ímpios com que o papado o
deformou. Não é grandioso que Deus tenha ordenado e instituído o
casamento, inclusive no estado de inocência? Agora, esta instituição e
ordenação é muito mais necessária, na medida em que a carne foi
enfraquecida e corrompida pelo pecado. Por isso, esse consolo continua em
vigor contra todas as doutrinas dos demônios, ou [101] seja, que o
casamento é um modo de vida divino, isto é, foi ordenado por Deus mesmo.
Que veio, pois, à mente dos instrumentos de Satanás e inimigos de
Cristo, que negaram que havia castidade no casamento e afirmaram que os
mais aptos para os ministérios eclesiásticos são os celibatários, porque a
Escritura diz: “Sede puros”? [Lv 11.44] Os casados são imundos? Neste
caso, Deus é o autor e o criador da impureza, pois foi ele que levou Eva
para Adão. Porventura, Adão age mal quando se deixa persuadir para esta
“impureza”, quando podia ficar sem o casamento, em sua natureza
inocente? O ímpio papado pagou penas merecidas por essas blasfêmias.
Não só se macularam com uma grande quantidade de prostitutas, mas
também se entregaram até a abominação a outros crimes nefandos; já há
algum tempo estão maduros para os castigos de Sodoma e Gomorra.
Quando eu era menino, o casamento era considerado tão infame por
causa do ímpio e impuro celibato que eu acreditava que nem mesmo podia
pensar sobre a vida de pessoas casadas sem incorrer em pecado. Todos
estavam totalmente convencidos de que, se alguém quisesse viver uma vida
santa e aceitável a Deus, não deveria se casar, mas viver como celibatário e
fazer o voto do celibato. Por isso, muitos que eram casados tornavam-se
monges ou sacerdotes depois da morte da esposa. Por isso, todos aqueles
que se aplicaram em tornar o casamento novamente respeitado mediante a
Palavra de Deus e em celebrá-lo com os merecidos louvores, prestaram um
serviço necessário e útil para a Igreja. Disso resultou, graças a Deus, que,
agora, todos declaram que é bom e santo viver em harmonia e tranquilidade
com o cônjuge, mesmo que alguém tenha uma esposa que seja estéril ou
sofra de outros achaques.
Não nego, porém, que existem alguns que conseguem viver castamente
sem o casamento. Estes, no entanto, por terem um dom maior do que o
povo em geral, navegam com seu próprio vento. Mas a castidade que o
pontífice elogia em seus monges, suas monjas e seus sacerdotes está
contaminada e manchada por terríveis pecados. Além disso, o celibato foi
instituído sem a Palavra de Deus, ou melhor, como atesta este relato, contra
a Palavra de Deus. Que triunfos celebrariam se pudessem provar seu
celibato com a Palavra de Deus como nós provamos que o casamento foi
instituído divinamente? Quanto mais se esforçariam para obrigar todos a
entrar no celibato! Agora, porém, eles têm esta única recomendação, que
consideram verdadeira, para o celibato, ou seja, que é uma tradição humana
ou, para falar com Paulo, uma doutrina dos demônios396.
E Adão disse: isto, enfim, é osso dos meus ossos e carne da minha
carne. Ela será chamada de varoa, porque foi tirada do varão. [2.23]
[102,16] É muito digno de admiração que Adão, quando olha para Eva,
como edifício feito dele, imediatamente a reconhece e diz: “Isto, enfim, é
osso dos meus ossos e carne da minha carne”. Essas palavras não são de um
ser humano tolo ou pecador, que não compreende as obras e a criação de
Deus, mas de um ser humano justo e sábio e pleno do Espírito Santo. Ele
revela uma sabedoria até então desconhecida do mundo: que a causa
geradora da esposa e do casamento é Deus, mas a causa final é que a esposa
seja para o marido uma habitação neste mundo. Esse conhecimento não
procede meramente dos sentidos e da razão, mas é revelação do Espírito
Santo.
A palavra hapaam, “agora” ou “desta vez” ou “enfim”, não é em vão,
como parece, mas expressa de forma muito bela o afeto marital que procura
esta relação ou coabitação agradável e plena não só de amor, mas também
de santidade. É como se dissesse: “Eu vi todos os animais, considerei todas
as fêmeas que foram dadas para a procriação e conservação da espécie, mas
elas não significam nada para mim. Mas esta, enfim, é carne da minha carne
e osso dos meus ossos. Com ela desejo viver e me sujeitar à vontade de
Deus na reprodução da espécie”. Esta partícula [hapaam] mostra um afeto
transbordante de amor. Hoje, essa pureza e inocência se perderam;
certamente, permanece a alegria do esposo e seu afeto pela esposa, mas ele
é impuro e depravado por causa do pecado. O amor de Adão era totalmente
puro e santo e agradável a Deus. Impulsionado por esse amor, ele diz: isto,
enfim, é osso dos meus ossos, não de madeira, nem de pedra, nem de um
torrão de terra. Ela me diz respeito mais de perto, pois foi feita dos meus
ossos e da minha carne. Por isso ele diz:
[103] Ela será chamada de varoa, porque foi tirada do varão.
Assim como Adão reconheceu coisas do passado, que ele não vira antes,
mediante o Espírito Santo e glorificou e louvou a Deus por causa da criação
de sua parceira a partir do seu corpo, ele profetiza, agora, sobre o futuro,
quando diz que deve ser chamada de varoa. De modo algum conseguimos
imitar a sutileza da língua hebraica. Isch significa homem. Mas ele diz que
Eva deve ser chamada de Ischa, como se disséssemos “varoa”, uma esposa,
mulher heroica, que realiza atos viris.
Essa designação contém uma admirável e agradável descrição do
casamento, em que, como também diz o advogado, a mulher irradia os raios
do marido. Tudo que o marido tem, a esposa também tem; e o tem em sua
totalidade. Eles têm em comum não só os bens, mas também os filhos, o
alimento, a cama, a casa; seus propósitos também são os mesmos. O marido
difere da esposa em nenhum outro aspecto senão no sexo; nos outros, a
mulher é inteiramente um homem. Pois tudo que o homem tem na casa e
[tudo que ele] é, isso a mulher também tem e é; ela se diferencia apenas no
sexo. Além disso, ela também é, o que Paulo menciona em 1 Tm 2[.13],
varoa de origem, porque a mulher descende do homem, não o homem da
mulher.
Também desta comunhão [original] no casamento vemos ainda alguns
restos, embora escassos, se olharmos para a primeira origem. Pois se a
mulher for sincera, pudica e piedosa, ela participa de todas as preocupações,
de todos os esforços, de todos os deveres e de todas as atividades do
marido, pois para isso ela foi criada no início e por esse motivo ela é
chamada de mulher ou, dizendo-o em latim, de vira [varoa]. Assim, ela
difere do chefe de família apenas no sexo, na medida em que foi tirada da
carne do homem. Embora isso só se possa dizer de Eva, que foi criada desse
modo, Cristo o aplica, em Mt 19[.5], a todas as esposas, quando diz que
marido e mulher são uma só carne. Dessa maneira, embora tua esposa não
tenha sido feita dos teus ossos, ela é, por ser a esposa, a senhora da casa,
assim como tu és o senhor, exceto que a mulher tornou-se sujeita ao homem
mediante a lei que foi dada depois da queda. Esse castigo é semelhante a
outros que diminuem as glórias paradisíacas e dos quais este texto nos
lembra aqui. Moisés não fala sobre a vida infeliz que os cônjuges vivem
agora, mas sobre a vida na inocência do paraíso; lá, a administração [da
casa] teria sido [distribuída] equitativamente, assim como Adão profetiza
aqui, que Eva deve ser chamada de “varoa” ou “virago” por causa da
administração compartilhada das coisas na casa. Agora, cabe ao homem o
suor do rosto, à mulher se ordena que seja sujeita ao homem. Todavia, do
domínio [original] permanecem restos, como borra, [104] de modo que, até
hoje, a mulher pode ser chamada de varoa, por ser parceira na propriedade
[doméstica].
Por isso, o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua esposa. [2.24]
Cristo e Paulo397 aplicam isso também como regra geral a nossos
casamentos depois que se perdeu a inocência. Por isso, se Adão tivesse
permanecido na inocência, os filhos também teriam se casado e então,
depois de abandonarem a mesa e a coabitação dos pais, teriam tidosuas
próprias árvores, sob as quais teriam vivido separados dos pais. Às vezes,
teriam vindo até seu pai Adão, cantado um hino, louvado a Deus e, depois,
voltado para suas casas. Agora, depois do pecado, embora tenha havido
mudanças em outros sentidos, permanece esse vínculo estreito entre os
cônjuges, de modo que o homem abandona o pai e a mãe antes da esposa.
Mas quando acontece de forma diferente, quando, por exemplo, cônjuges se
abandonam mutuamente, isso não só contraria este mandamento, mas
também é sinal de uma horrorosa degeneração, que sobreveio aos seres
humanos por causa do pecado e é incrementada por Satanás, o pai de todas
as discórdias.
Também os pagãos viram que nada era mais conveniente e útil do que
este costume dos cônjuges. Por isso, dizem que se concluiu, segundo a lei
natural, que a esposa é necessária e deve manter a relação inseparável até a
morte. Cristo também diz que Moisés concedeu o divórcio por causa da
dureza do coração dos judeus, mas que não foi assim desde o começo398.
Essas dificuldades surgiram posteriormente através do pecado, como
adultérios, envenenamentos etc., que acontecem, algumas vezes, entre
cônjuges. Por isso, não se conservou nem a milésima parte daquela primeira
instituição. No entanto, por causa da prole, marido e mulher continuam
tendo seu próprio ninho até hoje, de acordo com esta afirmação [bíblica]
pela qual este modo de vida é ordenado gloriosa e esplendidamente pelo
primeiro Pai, sim, por Deus mesmo, como declara Cristo.
Além disso, “deixar” não deve ser entendido como se os filhos casados
não tivessem absolutamente visitado seus pais. O fato de os filhos casados
terem seu próprio ninho só se refere à coabitação. Entre os incômodos do
pecado também está, hoje, que os filhos são obrigados a sustentar os pais
debilitados pela velhice e em necessidade. No paraíso, porém, nossa
condição teria sido diferente e melhor, mas, mesmo assim, teria sido
preservado o [que preceitua a ordem original]: que, por amor à esposa, o
marido teria escolhido seu próprio pequeno ninho e abandonado a
coabitação dos pais, como costumam fazer as avezinhas.
Esta é uma afirmação profética. Pois [, na época,] ainda não existiam
nem pais, nem mães, nem filhos; no entanto, Adão profetiza, através do
Espírito Santo, dessa maneira sobre a vida dos cônjuges, sobre sua própria
casa, sobre a divisão do domínio no mundo todo, de modo que cada família
haveria de ter [um espaço] como se fosse seu próprio pequeno ninho.
[105] Mas ambos estavam nus, o homem e sua mulher, e não se
envergonhavam. [2.25]
Parece que essa breve observação, que lembra algo irrelevante, poderia
ter sido omitida. Pois que importa terem andado nus ou vestidos no paraíso?
Mas, a rigor, trata-se de uma afirmação extraordinária e necessária: ela
mostra num fato que parece insignificante, quanto mal esta natureza sofreu
mediante o pecado original. Todos os povos, mas principalmente os que
moram mais ao Norte, detestam a nudez dos corpos. Por isso, pessoas mais
reservadas e sérias não só repreendem os sumários trajes militares usados
pelos adolescentes, mas também evitam os banhos públicos, embora as
partes pudendas sejam diligentemente cobertas tanto por mulheres quanto
por homens. Isso, hoje, é [entendido como sinal de] sabedoria e prática
dignas de louvor, pois que pai poderia despir-se diante do filho sem incorrer
em crime? Mas Adão e Eva, diz Moisés, andavam nus e não se
envergonhavam. Não só não era vergonhoso andar nu, mas também
louvável, honroso e agradável.
Isso nós perdemos devido ao pecado. Realmente, nascemos nus e com a
pele despida de pelos, enquanto todos os outros animais trazem consigo
suas peles, seus pelos, suas penas e suas escamas. Por isso, é indispensável
ter a sombra das casas contra o calor do sol e uma variedade de vestimentas
contra a chuva, o granizo e a neve. Adão não teria sentido nada disso.
Assim como os olhos humanos ainda hoje têm a propriedade de não serem
afetados nem pelo frio nem pelo calor, todo o nosso corpo teria estado
protegido do frio. E, de muitos modos, Eva, nossa mãe, certamente estaria
sentada nua entre nós, e a nudez dos seios e de outras partes [do corpo] não
teria ofendido ninguém. [Hoje, essas partes] são pudendas e acendem a
concupiscência por causa do pecado.
Esta passagem mostra bem quanto mal se seguiu ao pecado de Adão.
Pois agora seria considerada insanidade extrema se alguém andasse nu.
Aquilo que então teria sido nossa maior glória é, agora, nossa extrema
vergonha. Teria sido uma glória para o ser humano que, enquanto todos os
animais tivessem necessidade de pelos, penas e escamas para cobrirem sua
feiura, somente o ser humano tivesse sido criado com tal dignidade e beleza
de corpo que pudesse andar com a pele sem pelo e nua. Essa glória se
perdeu. Agora somos obrigados a cobrir nossos corpos com mais esforço e
cuidado – não só por causa da necessidade, mas mais para evitar a vergonha
– do que os demais animais, que foram cobertos pela natureza.
Desse modo, este capítulo esclarece um pouco mais o trabalho do sexto
dia: como, por um desígnio especial, o ser humano foi criado, como foi
feito o jardim no Éden, onde o ser humano poderia viver com alegria,
como, finalmente, enquanto a árvore da ciência do bem e do mal é proibida,
é estabelecido, pela autoridade divina, o culto externo da futura Igreja, no
qual atestariam sua obediência a Deus se tivessem permanecido sem os
ardis de Satanás. Naquela mesma noite, segundo a opinião de alguns, Adão
esteve no paraíso com sua Eva até o sábado seguinte. E o capítulo seguinte
ensinará o que aconteceu no sábado.
Gênesis 3
[106] Terceiro capítulo
Mas a serpente era mais sagaz do que todos os demais animais da
terra, que o Senhor havia feito. [3.1]
[107,5] A múltipla corrupção da nossa natureza não deveria ser
amenizada, mas ampliada: que o ser humano [decaiu] da imagem de Deus,
do conhecimento de Deus, do conhecimento de todas as outras criaturas, da
mais honrada nudez e que incorreu em blasfêmias, ódio, desprezo de Deus,
sim, mais ainda, em inimizade contra Deus; sem falar na tirania de Satanás,
a quem esta pobre natureza foi sujeita por causa do pecado. Digo que essas
coisas deveriam ser ampliadas porque, se não se reconhece corretamente a
magnitude da doença, tampouco se conhece ou se deseja o remédio. Pois
quanto mais se ameniza o pecado, tanto mais se desvaloriza a graça.
Essa ampliação inclui o que Moisés diz acima: que Adão e Eva, embora
nus, não se envergonhavam. Não despertava neles a repugnante
concupiscência, mas, enquanto um olhava para o outro, reconheciam a
bondade de Deus, alegravam-se em Deus, estavam seguros na bondade
divina. Agora, não só não conseguimos nos abster do pecado, mas também
desesperamos e odiamos a Deus. Essa queda horrível mostra claramente
que as coisas naturais não permaneceram íntegras.
Mais cínico do que isso é os sofistas afirmarem a mesma coisa a
respeito do diabo, que alimenta uma inimizade maior, mais ódio e mais
furor contra Deus do que o ser humano. [Dizem] que [o diabo] não foi
criado mau e que sua vontade estava em conformidade com a de Deus; mas
que ele perdeu essa vontade e, também, o mais claro e mais brilhante juízo
e transformou-se num espírito abominável, que se enfurece contra o seu
criador. Não é esta a maior depravação, passar de amigo de Deus para o seu
mais ferrenho e obstinado inimigo?
A isso, eles opõem esta asserção de Aristóteles: “A razão exige o
melhor”. Ousam fundamentar essa afirmação com alguns conceitos
sagrados e, também, com a opinião dos filósofos de que a razão reta é a
causa de todas as virtudes399. Não nego que isso seja verdadeiro quando
aplicado às coisas sujeitas à razão, como cuidar do gado, construir uma
casa, semear o campo. Mas em [se tratando de coisas] superiores, [isso] não
é verdade. Pois como se pode considerar reta uma razão que odeia a Deus?
Como se pode considerar boa uma vontade que resiste à vontade de Deus e
se recusa a obedecer a Deus? Portanto, quando afirmam: “A razão exige o
melhor”, tu deves argumentar:“O melhor em termos de organização
política, ou seja, em relação às coisas que a razão pode julgar”. Ali, ela
prescreve e conduz para o que é honroso e útil para o corpo ou a carne.
Quanto ao restante, por ignorar totalmente a Deus e ser avesso à sua
vontade, como se pode considerá-la boa neste sentido? Além disso, sabe-se
que, quando se prega o conhecimento de Deus e se trata de restaurar a
razão, os melhores e os que são dotados, por assim dizer, da melhor razão e
vontade são os que odeiam mais acerbamente o Evangelho.
[108,8] Portanto, devemos dizer que, na Teologia, a razão nos seres
humanos é grande inimiga de Deus. Além disso, que a vontade, se for
sincera, opõe-se ao máximo à vontade divina. Surge daí o ódio à Palavra e a
perseguição de ministros piedosos. Por isso, como eu disse, não devemos
amenizar, mas, antes, ampliar esse mal que a natureza humana contraiu
devido ao pecado dos primeiros pais; [em consequência,] deploraremos esta
nossa condição e ansiaremos por Cristo, nosso médico, que foi enviado pelo
Pai para que sejam curados por ele os males que Satanás nos infligiu através
do pecado e para que sejamos restaurados na glória eterna que se perdeu.
Em relação a essa história, que Moisés descreve neste capítulo, eu já
expressei minha opinião: que esta tentação me parece ter acontecido no
sábado, de modo que Adão e Eva foram criados no sexto dia; Adão, mais
cedo, Eva, antes do anoitecer. No dia seguinte, no sábado, de manhã cedo,
Adão pregou sobre a vontade de Deus a Eva: que o boníssimo Senhor criou
todo o paraíso para usufruto e alegria dos seres humanos; que também
criou, por singular bondade, a árvore da vida, mediante cujo uso seriam
restauradas as forças do corpo e preservada a juventude perpétua. Mas uma
árvore, a do conhecimento do bem e do mal, da qual não se podia comer,
era proibida. Essa obediência se devia ao tão bondoso Criador. Talvez,
enquanto falava sobre isso, Adão tenha conduzido sua Eva pelo paraíso e
lhe tenha mostrado a árvore proibida.
Dessa maneira, Adão e Eva, florescentes em inocência e justiça original,
repletos de felicidade por causa da confiança no benigno Deus, passeavam
nus, enquanto falavam da Palavra e do mandamento de Deus e bendiziam a
Deus, como convém fazer no sábado. Então, lamentavelmente, Satanás
interveio e, em poucas horas, subverteu tudo isso, como ouviremos.
Aqui surge, agora, uma grande quantidade de perguntas. Pois as pessoas
curiosas perguntam: por que Deus permitiu que Satanás tentasse Eva? Por
que Satanás preparou uma cilada a Eva através da serpente e não [por
intermédio] de um outro animal? etc. Quem é capaz de desvendar o motivo
das coisas que a majestade divina permitiu que acontecessem? Por que não
optamos por aprender com Jó, que Deus não pode ser chamado à
responsabilidade e que não pode ser obrigado a nos prestar contas de tudo
que faz ou permite acontecer?400 Por que não pedimos, pela mesma razão, a
Deus por que motivo a terra não germina e as árvores não estão verdes
durante todo o ano? Estou inteiramente convencido de que, no [109,8]
paraíso, teria havido uma eterna primavera, sem qualquer inverno, sem neve
nem frio, como existem hoje, depois do pecado. Todas essas coisas estão
submetidas ao poder e à vontade de Deus. Basta saber isso. Tentar
investigá-las mais detalhadamente é curiosidade ímpia. Por isso, nós, que
somos argila em suas mãos401, devemos parar de discutir sobre tais
questões. Não julguemos a Deus, mas permitamos, antes, ser julgados por
ele.
Portanto, a resposta a todos esses argumentos deve ser unicamente esta:
aprouve ao Senhor que Adão fosse tentado e exercitasse suas forças. Assim
é até hoje. Depois de termos sido batizados e transferidos para o Reino de
Cristo, Deus não quer que fiquemos ociosos, mas que sua Palavra e seus
dons sejam exercitados. Por isso, ele permite que nós, seres fracos, sejamos
peneirados por Satanás. Desse modo, vemos a Igreja, que foi purificada
pela Palavra, ser testada constantemente: levantam-se os sacramentários402,
os anabatistas403 e outros doutores fanáticos, que acossam a Igreja com
várias tentações. Entre outras, citem-se também as dificuldades internas.
Deus permite que essas coisas aconteçam, não porque decidiu abandonar a
Igreja ou porque deseja que ela pereça, mas porque, como diz o livro da
Sabedoria404, essas lutas confrontam a Igreja e os piedosos para que eles
vençam e aprendam pela própria experiência que a sabedoria é mais
poderosa do que tudo.
Aqui surge outra pergunta sobre a qual talvez se possa discutir com
menos perigo, mas com maior proveito, ou seja: por que a Escritura encobre
isso de tal maneira e não diz claramente que o Anjo, que havia caído,
apossou-se da serpente, falou através dela e enganou Eva? Eu respondo:
isso está encoberto dessa maneira para que tudo fosse reservado a Cristo e a
seu espírito, que devia brilhar em todo o mundo como o sol do meio-dia e
desvendar todos os mistérios da Escritura. Como esse espírito de Cristo
estava nos profetas, os santos profetas compreenderam esses mistérios da
Escritura.
Dissemos acima que a serpente (visto que também os animais têm dons
diferentes entre si) se destacava pelo dom da sagacidade. Por isso, ela era
mais dotada para esse jogo de Satanás. Este texto de Moisés é testemunho
suficientemente claro disso, declarando que a serpente era mais sagaz do
que todos os outros animais da terra. Hoje, admiramos a esperteza das
raposas em armar emboscadas e sua admirável destreza em fugir do perigo.
Algumas vezes, quando está cansada por causa da corrida, a raposa lança a
cauda aos cães que a perseguem. Quando os cães, furiosamente, se lançam
em cima dela [i. é, da cauda] e param de correr, ela ganha, numa disparada
admirável, uma certa distância, escapando dessa maneira. Existem, ainda,
outros animais cuja extraordinária [110] esperteza e destreza causam
admiração. Mas na serpente essa qualidade era especialmente notável. Por
isso, ela foi um instrumento apropriado para Satanás armar uma cilada a
Eva.
Ela disse à mulher: Deus, de fato, ordenou que não comêsseis de toda
árvore do paraíso?
Os sofistas também discutem a respeito do tipo dessa tentação, ou seja,
de que natureza ela era. Eles pecaram por idolatria, por soberba ou
descuido, ou, simplesmente, por comerem o fruto? Se analisarmos essa
questão mais detalhadamente, como deve ser, veremos que esta foi a maior
e mais severa de todas as tentações, porque a serpente dirige seu ataque à
própria boa vontade de Deus e se esforça por provar, baseada na proibição
da árvore, que a vontade de Deus para com o ser humano não é boa. Por
isso, ela ataca a própria imagem de Deus e os extraordinários poderes que
se encontram na natureza incorrupta. Procura destruir a forma mais elevada
de culto, instituída pelo próprio Deus. Por isso, é inútil discutirmos sobre
esse ou aquele tipo de pecado, pois Eva simplesmente é instigada a cometer
todos os pecados ao ser incitada contra a Palavra e a vontade de Deus.
Por isso, Moisés fala de maneira muito cautelosa e diz: “A serpente
disse”, ou seja, ela ataca a Palavra com a Palavra. A Palavra que o Senhor
tinha dito a Adão era esta: “Não comas da árvore do conhecimento do bem
e do mal”. Para Adão, essa Palavra era Evangelho e lei, era seu culto, era
serviço e obediência que podia prestar a Deus no estado de inocência.
Satanás ataca isso, procura destruí-lo. Ele não trata somente, como pensam
os ignorantes, de mostrar a árvore e de convidar a apanhar o fruto:
certamente aponta para ela, mas acrescenta uma outra e nova palavra, como
ainda costuma fazer na Igreja.
Ora, quando o Evangelho é pregado de forma pura, os seres humanos
têm uma regra segura para sua fé e podem evitar a idolatria. Mas, então,
Satanás se esforça e tenta de várias maneiras afastar as pessoas da Palavra
ou corrompê-la. Dessa forma, surgiram várias heresias na Igreja grega,
inclusive no tempo dos apóstolos: um negou que Cristo seja o Filho de
Deus, outro negou que seja o filho de Maria, assim como os anabatistas
hoje, impiamente, negam que Cristo tenhaassumido algo da carne de
Maria. Na época de Basílio405, alguns se empenharam especialmente em
negar que o Espírito Santo seja Deus.
Nossa época também vê os mesmos exemplos, quando, depois que a
doutrina mais pura do Evangelho brilhou, surgiram vários tipos de
assaltantes das obras e da Palavra de Deus. Certamente, as outras tentações
não param; Satanás incita para a fornicação, o adultério e infâmias
semelhantes. Mas esta tentação – quando Satanás ataca a Palavra e as obras
de Deus – é, de longe, a mais grave, perigosa e própria da Igreja e dos
santos.
Portanto, Satanás ataca, aqui, Adão e Eva desse modo para extirpar-lhes
a Palavra, para que, depois de terem perdido a Palavra e a confiança em
Deus, creiam na mentira. Quando isso acontece, é de se admirar que ele,
depois, se torne soberbo, despreze a Deus e os seres humanos, se torne
adúltero, homicida etc.? Portanto, essa tentação é [111], verdadeiramente, a
principal de todas as tentações; ela traz consigo a ruína ou a violação de
todo o Decálogo, pois a incredulidade é a fonte de todos os pecados.
Quando Satanás despertou essa incredulidade, depois de ter arrancado ou
depravado a Palavra, nada mais lhe é difícil.
Assim, depois que Eva permitiu que a Palavra lhe fosse extirpada por
intermédio da mentira, foi muito fácil ir até a árvore e apanhar um fruto
dela. Por isso é tolo pensar, como pensam os sofistas e os monges sobre esta
tentação, que Eva, ao olhar para a árvore, teria começado, aos poucos, a se
inflamar com o desejo de apanhar o fruto, até que, por fim, vencida pelo
desejo, teria levado o fruto à boca. Pois a maior tentação foi ouvir uma
outra palavra e afastar-se daquela que Deus havia proferido: que morreriam
se comessem dela. Mas consideramos as palavras de Moisés pela ordem.
Primeiramente, Satanás imita Deus. Do mesmo modo como Deus havia
pregado a Adão, ele também prega à Eva. É verdade o que diz o provérbio:
“Todo o mal começa em nome de Deus”. Portanto, assim como a salvação
vem da verdadeira Palavra de Deus, também a perdição provém da Palavra
corrompida de Deus. Chamo de “palavra corrompida” não só o ministério
da Palavra falada, mas também a convicção interna ou as opiniões que estão
em desacordo com a Palavra.
Além disso, Moisés mostra isso mediante a palavra “disse”. Pois
Satanás agiu assim para afastar Eva, mediante seu jeito de falar, daquilo que
Deus havia dito e, removida a Palavra, corrompeu a ótima vontade que o ser
humano tinha antes, para que se rebelasse. Também corrompeu o juízo, para
que duvidasse da vontade de Deus. A consequência é uma mão rebelde,
estendida contra o mandamento divino, para tomar o fruto. Então, a boca e
os dentes tornam-se rebeldes. Em resumo, todos os males resultam da
incredulidade ou da dúvida em relação à Palavra e a Deus. Que pode ser
pior do que desobedecer a Deus e obedecer a Satanás?
Todos os hereges imitam essa astúcia e malícia de Satanás, para arrancar
dos seres humanos, como se o arrancassem dos seus olhos, sob a aparência
de algo bom, Deus e a Palavra e inventam um outro e novo deus, que não
existe em lugar nenhum. Se olhares para suas palavras, nada parece mais
santo e mais piedoso do que elas. Eles invocam a Deus como testemunha de
que procuram, de todo o coração, o bem da Igreja, amaldiçoam como
ninguém os que ensinam coisas ímpias, professam que desejam propagar
com grande empenho o nome e a glória de Deus. Por que falar mais sobre
isso? Eles não querem ter aparência de doutores do diabo ou hereges, mas
ocupam-se unicamente em oprimir a verdadeira doutrina e obscurecer o
conhecimento de Deus.
A queda, depois, é fácil, pois pessoas incautas deixam se desviar da
Palavra para discussões perigosas. Não contentes com a Palavra,
perguntam: como e por que as coisas acontecem dessa maneira? Assim
como Eva pereceu quando ouviu o diabo colocar em dúvida o mandamento
de Deus, também acontece quando nós, oprimidos pela morte e pelo
pecado, duvidamos que Deus quer que sejamos salvos por Cristo. Quão
facilmente acontece [112] que nos deixemos enganar e permitamos que nos
coloquem capuzes406 para que alcancemos a coroa por meio de obras
perfeitas!
Assim, sem que as pessoas o percebam, um novo deus é inventado por
Satanás. Pois ele também apresenta uma palavra, mas não do tipo que foi
proposto por Deus, ou seja, que se preguem penitência e remissão de
pecados em nome de Cristo. Quando a Palavra de Deus é modificada e
corrompida dessa maneira, então, como diz Moisés em seu cântico, “vêm
deuses novos e recentes, que os nossos pais não adoraram” [Dt 32.17].
Essas armadilhas devem-se conhecer. Pois, se Satanás ensinasse que se
deve matar, fornicar, desobedecer aos pais, quem não veria que ele estava
sugerindo coisas proibidas por Deus? Nesse caso, seria fácil precaver-se
contra ele. Mas, aqui, quando ele propõe outra palavra, quando discursa
sobre a vontade de Deus, quando opõe o nome de Deus, da Igreja e do povo
de Deus, então é difícil precaver-se. Para distinguir entre o Deus verdadeiro
e o novo deus, assim como Cristo os distinguiu quando Satanás tentou
convencê-lo a falar uma palavra e transformar pedras em pães e a lançar-se
do pináculo do templo, é preciso um espírito de juízo muito agudo. Satanás
queria convencer Cristo a tentar algo sem a Palavra. Mas ele não conseguiu
enganar Cristo, como enganou Eva, pois este se ateve à Palavra e não
permitiu ser desviado do Deus verdadeiro para o deus falso e novo.
Verdadeiramente, a incredulidade e a dúvida são a fonte de todo pecado,
quando nos afastamos da Palavra. Como o mundo está cheio disso, ele
permanece em idolatria, nega a verdade de Deus e inventa um novo deus.
Um monge é um idólatra. Ele imagina que, se viver de acordo com a
regra de Francisco407 ou de Domingos408, este é o caminho para o Reino de
Deus. Mas isso significa inventar um deus novo e tornar-se um idólatra,
porque o Deus verdadeiro declara que o caminho para o Reino dos céus é
crer em Cristo. Portanto, perdida a fé, seguem-se incredulidade e idolatria,
que transferem a glória de Deus para as obras. Assim, anabatistas,
sacramentários, papistas… todos são idólatras. Não porque adorem pedras
ou pedaços de madeira, mas porque, abandonada a Palavra, adoram seus
próprios pensamentos.
Por isso, esta passagem visa a que aprendamos que essa tentação do
diabo foi o início do pecado original, quando ele desviou Eva da Palavra de
Deus para a idolatria, contra o primeiro, o segundo e o terceiro
mandamentos.
Aqui pertencem propriamente estas palavras: “Deus de fato vos
ordenou?” É uma horrível audácia do diabo, que inventa um deus novo e
nega o Deus anterior, verdadeiro e eterno, com tamanha segurança e
confiança. É como se dissesse: realmente sois tolos se crerdes que Deus
ordenou isso, pois, de modo algum, é da natureza de Deus preocupar-se tão
solicitamente se comeis ou não. Em se tratando da árvore do conhecimento
do bem e do mal, como é possível que lhe sobrevenha tal inveja que não
queira que sejais sábios?
Além disso, essa malícia inominável mostra suficientemente que o
idealizador desse empreendimento é Satanás, embora Moisés somente faça
menção da serpente e não, também, de Satanás. Por mais veladas que essas
coisas estejam, [113] os Pais e os profetas, iluminados pelo Espírito Santo,
viram facilmente que isso não era uma iniciativa da serpente, mas que, na
serpente, estava [incorporado] o espírito inimigo da natureza inocente, do
qual Cristo diz claramente no Evangelho que ele não permaneceu na
verdade e que era homicida e mentiroso409. Foi tarefa do Evangelho
explicar isso claramente e desvendar esse inimigo de Deus e dos seres
humanos.
Além disso, os Pais viram isso a partir do seguinte raciocínio: é certo
que todas as criaturas ainda estavam em perfeita obediência segundo a
sentença: “E Deus viu todas as coisas que fizera e eram muito boas”. Mas,
aqui, no caso da serpente, apresenta-se um espírito que é inimigo de Deus,
que corrompe a Palavra de Deus para, dessa maneira, conduzir o inocente
ser humano ao pecado e à morte.
Está claro, portanto, que, naserpente, havia algo mais nocivo do que, o
que, apropriadamente, pode ser chamado de adversário de Deus. [Havia
nela] um espírito mentiroso e homicida, no qual existe um enorme e atroz
atrevimento, que não hesita em corromper o mandamento de Deus e em
incitar o ser humano para a idolatria, por causa da qual, ele sabia, que todo
o gênero humano haveria de perecer. Se o avaliarmos bem, isto é realmente
horrível. Exemplos de atrevimento semelhante vemos também nos papistas
e em outras seitas. Por meio dele corrompem a Palavra de Deus e seduzem
os seres humanos.
No início, Eva resiste admiravelmente ao tentador, pois ela ainda era
conduzida por aquele espírito que brilhava à sua frente. Como mostramos
acima, o ser humano foi criado íntegro e à semelhança de Deus. Mas, por
fim, ela se deixa convencer por ele.
Não se sabe ao certo em que dia aconteceu a queda dos anjos, se no
segundo ou no terceiro. A partir do Evangelho, pode-se atestar apenas que
ele [sic!] caiu do céu, haja vista que Cristo viu como ele caiu410. Não
sabemos se os céus já estavam concluídos ou se ainda eram toscos e
inconclusos.
Isso é uma discussão que não cabe neste contexto. O que é pertinente é
ver a extrema malícia associada à horrível ousadia, a ponto desse espírito
não temer colocar em dúvida o mandamento da majestade divina,
principalmente quando sabe quão grande calamidade isso acarretaria para
todo o gênero humano.
Em segundo lugar, também se deve considerar a extraordinária astúcia
que se depreende, em primeiro lugar, do fato de que Satanás ataca as
maiores forças do ser humano e contesta a própria semelhança de Deus, ou
seja, o sentimento correto a respeito de Deus. A astúcia da serpente, diz o
texto, foi maior do que a de todos os animais da terra.
Mas essa astúcia está acima da astúcia natural da serpente, visto que ela
discute com o ser humano a respeito da Palavra e da vontade de Deus. De
acordo com a natureza da sua espécie, a serpente não podia fazer isso, pois
ela estava sujeita ao domínio do ser humano. Mas o espírito que fala por
intermédio da serpente é tão sagaz que supera o ser humano e o convence a
comer do fruto da árvore proibida. Portanto, quem fala assim não é a
criatura de Deus, que é boa, mas o mais atroz inimigo de Deus e dos seres
humanos que, certamente, também é criatura de Deus, mas não foi criado
mau por Deus. “Pois não permaneceu na verdade”, como diz Cristo, Jo
8[.44]. Esta é uma conclusão clara do Evangelho e deste texto.
[114] Depois, percebe-se a astúcia também pelo fato de Satanás atacar a
parte mais fraca da natureza humana, a mulher, Eva, e não o homem, Adão,
pois, embora ambos tenham sido criados igualmente justos, Adão era
superior a Eva. Como em todo o resto da natureza, a força masculina supera
a do outro sexo, também na natureza incorrupta o homem é superior à
mulher. Como Satanás percebe que Adão é superior, ele não ousa atacá-lo,
porque teme que sua tentativa seja frustrada. Creio que, se ele tivesse
tentado primeiro a Adão, a vitória teria sido de Adão. Antes [de consumar a
tentação], ele teria esmagado a serpente com o pé e teria dito: “Cala-te! O
Senhor nos ordenou outra coisa”. Por isso, Satanás ataca Eva como a parte
mais fraca e coloca a força dela à prova, pois percebe que ela confia de tal
forma no homem que pensa que ela não pode pecar.
Além disso, aqui também somos lembrados da concessão divina, ou
seja, que foi permitido ao diabo atacar animais, assim como atacou, aqui, a
serpente. Não há dúvida de que a serpente na qual estava Satanás, que falou
com Eva, era uma [serpente] de verdade.
É ridículo discutir se a serpente tinha uma face humana. Tratava-se de
um animalzinho muito bonito, caso contrário Eva não teria conversado tão
calmamente com ela. Porém, depois do pecado, não só a beleza da serpente
foi mudada – pois Deus anuncia que ela se arrastará pelo chão, enquanto
antes ela andava ereta como o galo, e que comerá terra, enquanto antes
alimentava-se dos melhores frutos –, mas perdeu-se também a
tranquilidade, pois [hoje] fugimos das serpentes, assim como as serpentes,
por sua vez, fogem de nós. Essas feridas da natureza foram infligidas por
causa do pecado, assim como perdemos a [naturalidade perante a] nudez, a
vontade reta e o juízo sadio. Acredito também que a serpente perdeu grande
parte da sua astúcia, que Moisés celebra aqui como dom singular do
Criador. Portanto, assim como a serpente, hoje, é má entre os animais, julgo
que, antes, ela era uma criatura bela, boa, abençoada e amável, com a qual
não só o ser humano, mas também os outros animais conviviam de bom
grado e com alegria. Por isso, ela também foi muito apropriada para o plano
de Satanás, qual seja, o de falar através dela e incitar Eva ao pecado.
Esse é meu pensamento a respeito da serpente natural, da qual Satanás
abusou, que era, então, um animalzinho muito bonito, sem aquela cauda
venenosa e sem aquelas escamas horríveis. Tudo isso sobreveio depois, por
causa do pecado. Assim vemos que se ordenou em Moisés que animais, que
tivessem causado uma morte, deveriam ser mortos por nenhum outro
motivo senão, porque Satanás pecou através deles, fazendo perecer um ser
humano. Assim, a serpente foi castigada como testemunho dessa queda e
dessa malícia diabólica.
No que diz respeito à gramática, o latim traduz a partícula af ki com cur.
Embora não se afaste muito do sentido, é menos apropriada. De fato, a
primeira e maior tentação é quando se discute sobre o desígnio de Deus: por
que Deus fez isso ou aquilo? Mas, em minha opinião, a ênfase não está
colocada na partícula cur ou num, mas, antes, no nome elohim “Deus”, pois
isso torna a tentação mais forte.
[115] É como se [a serpente] dissesse: “Realmente, sois muito tolos se
pensais que Deus não quis que comêsseis desta árvore, vós, que ele colocou
como senhores sobre todas as árvores do paraíso. Sim, ele as criou por
vossa causa. De que maneira, ele, que vos favoreceu com todas as coisas,
pode recusar-vos os frutos tão agradáveis e doces unicamente desta
árvore?” Satanás procura tirar-lhes a Palavra e o conhecimento de Deus,
para que pensem: “Esta não é a vontade de Deus; ele não ordena isso”. As
palavras seguintes também comprovam essa opinião quando ele diz: “Não
morrereis”. Pois Satanás apostou tudo neste esforço de afastá-los da Palavra
e da fé, ou seja, [desviá-los] do Deus verdadeiro para um deus falso.
Todos os espíritos fanáticos seguem esse procedimento de Satanás.
Assim, Ário411 pergunta: “Crês que Cristo é Deus, na medida em que ele
diz claramente: ‘O Pai é maior do que eu’?” De forma semelhante, os
sacramentários412: “Crês que o pão é o corpo de Cristo e o vinho, o sangue
de Cristo? Certamente, Cristo nem sequer pensou em tais absurdos”.
Quando os seres humanos se entregam a esses pensamentos, eles, aos
poucos, afastam-se da Palavra e incidem em erro.
Portanto, como o essencial da tentação é levantar dúvida se Deus disse
isso, coloca-se mais apropriadamente a ênfase no nome “Deus”. A partícula
“por que” tem um sentido bastante fraco. Por isso prefiro a tradução: “Deus
disse: ‘Não comerás de toda árvore do jardim’?” Não interessa
a Satanás perguntar propriamente por que Deus disse isso. Interessa-lhe,
antes, que Eva pense que Deus simplesmente não o disse, para tirar-lhe,
assim, a Palavra. Ele percebe que, dessa maneira, a razão pode ser enganada
facilmente, quando se perdem, sob o nome e a Palavra de Deus, Deus e a
Palavra.
Além disso, também isso é dito de forma muito insidiosa, porque ele
fala de forma geral e engloba todas as árvores. É como se dissesse: “Tendes
o domínio universal sobre todos os animais, e Deus, que vos concedeu esse
domínio universal sobre todos os animais, não vos entregou, ao mesmo
tempo, todas as árvores? Pensareis, antes, o seguinte: ‘Assim como Deus
vos submeteu a terra e todos os animais, também concedeu o uso de tudo
que nasce da terra’”.
Isso, sem dúvida, é uma grande tentação. Com ela, Satanás procura
induzir a mente de Eva a concluir que Deus não é diferente dela. Por isso,
se ele entregou todosos animais, entregou também todas as árvores.
Conclui-se, pois, que o mandamento de não provar da árvore não é
mandamento de Deus, ou, pelo menos, não deve ser entendido como se ele
não quisesse que se comesse desta árvore.
Assim, apresentam-se duas tentações, com as quais Satanás tem o
mesmo objetivo. A primeira [é confirmar] que “Deus não disse isso; logo, é
permitido comer desta árvore”. A segunda: “Deus vos deu todas as coisas;
portanto, possuís tudo. Logo, esta uma e única árvore não vos é proibida”
etc. Cada uma das tentações busca uma coisa só: afastar Eva da Palavra e da
fé. Pois esse mandamento que lhes foi dado por Deus para que não
comessem desta árvore demonstra que Adão, com seus descendentes, teria
vivido em fé na natureza perfeita até que fosse transferido desta vida física
para a espiritual. Pois onde está a Palavra, ali também está,
necessariamente, a fé. Ora, aqui está [116] a palavra de que não deveria
comer dessa árvore; caso contrário, ele morreria. Convinha, pois, que Adão
e Eva cressem que esta árvore era nociva à sua salvação. Desse modo, este
mandamento também engloba a fé.
Nós, que somos transferidos do pecado para a justiça e de nosso corpo
mortal para o corpo imortal, também vivemos na fé. Nós, porém, temos
uma palavra diferente, que Adão não tinha na natureza perfeita, pois ele
simplesmente deveria ser transferido da vida física para a espiritual. Por
isso eu disse acima que essa árvore no meio do paraíso era como se fosse
um templo onde seria pregada esta Palavra: que todas as outras árvores
eram saudáveis e que esta era a única nociva. Não a provando, porque Deus
o havia proibido, teriam aprendido com ela a obedecer a Deus e a render-lhe
culto.
Dessa maneira, a natureza incorrupta, que continha o verdadeiro
conhecimento de Deus, tinha uma Palavra ou um mandamento que estava
acima da compreensão de Adão e precisava ser acreditado. Este
mandamento foi dado à natureza inocente para que Adão tivesse um
símbolo ou uma forma de cultuar a Deus, de render graças a ele e de instruir
seus filhos. Como o diabo viu e sabia que este mandamento estava acima da
compreensão do ser humano, ele tenta Eva para despertar nela a dúvida se
este mandamento é [realmente] a vontade de Deus ou não. Esta, aliás, é a
origem e a parte essencial de toda a tentação: que a razão procura decidir
por conta própria, sem a Palavra, sobre a Palavra e sobre Deus.
Era a intenção de Deus que este mandamento fosse uma oportunidade
de obediência e de culto exterior para o ser humano. Igualmente, que esta
árvore fosse uma espécie de sinal pelo qual o ser humano atestasse que era
obediente a Deus. Mas, como Satanás suscita a discussão se Deus o havia
ordenado [ou não], ele afasta o ser humano dessa obediência, levando-o a
pecar. A única salvação teria sido aqui se Eva tivesse enfatizado o
mandamento de Deus e não tivesse deixado se levar para outras discussões:
Deus teria ordenado isso? Se Deus criou todas as coisas por causa do ser
humano, por acaso teria criado unicamente esta árvore para a sua perdição?
Sem dúvida, parece sábio examinar essas questões com mais cuidado, mas,
no momento em que a mente se ocupa com discussões desse tipo, a sorte
está lançada. Mas ouçamos o que Eva respondeu.
Respondeu-lhe a mulher: comemos do fruto das árvores que estão no
paraíso; porém, do fruto da árvore que está no meio do paraíso, Deus nos
ordenou que não comêssemos e nem a tocássemos, para que, talvez, não
morramos. [3.2,3]
O início é bastante favorável: ela distingue entre as demais árvores e
esta uma, e cita o mandamento de Deus. Ela começa a vacilar no momento
em que lembra o castigo, pois não o cita da forma como fora mencionado
por Deus. Deus dissera categoricamente: “No dia em que comerdes dela,
morrereis”. Essa afirmação categórica, ela transforma numa menos
categórica, acrescentando: “Para que, talvez, não morramos”.
Esse é um erro apreciável que não deve ser desprezado, porque mostra
que ela se desviou da fé para a incredulidade, pois do mesmo modo como
uma promessa exige fé, assim também [117] uma ameaça a exige. Eva
deveria pensar: se eu comer, eu morrerei, com certeza. Mas Satanás ataca
essa fé de tal modo com o seu discurso insidioso que leva Eva a acrescentar
a partícula “talvez”. Ela fora convencida pelo diabo a pensar que Deus, de
forma alguma, seria tão cruel a ponto de matá-la por causa da ingestão de
uma fruta. Assim, o coração de Eva já estava infestado do veneno de
Satanás.
Por isso, o nosso texto também aqui foi mal traduzido, pois parece que
Eva cita suas próprias palavras, quando [,em verdade,] cita a Palavra de
Deus e, por conta própria, acrescenta à Palavra de Deus a partícula “talvez”.
Por isso, o dolo do espírito mentiroso é bem-sucedido, pois aquilo que
procurou alcançar em primeiro lugar – afastar Eva da Palavra e da fé –, ele
logrou, de modo que Eva corrompeu a Palavra de Deus, ou seja, para usar
as palavras de Paulo, ele a afasta da vontade divina para que siga a Satanás,
1 Tm 5[.15]. A perdição inicia com o afastamento de Deus e a conversão à
Satanás, ou seja, [com o fato de] não perseverar na Palavra e na fé. Quando
Satanás vê esse bom início, ele se lança com toda a força, como se se
lançasse contra uma parede inclinada, para derrubá-la por completo.
E a serpente disse para a mulher: de forma alguma morrereis. Mas
Deus sabe que, no dia em que comerdes desta árvore, abrir-se-ão os vossos
olhos e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal. [3.5]
Essa é a retórica de Satanás com a qual aniquila completamente a pobre
mulher quando vê que ela se afastou de Deus e está inclinada a ouvir um
outro mestre. Quando ele disse acima: “Porventura Deus vos ordenou isto”,
ele não negou claramente a Palavra, mas tentou, pela maneira de formular a
pergunta, colocar Eva em dúvida. Agora, depois de constatar que conseguiu
[o que queria], ele começa, extremamente audacioso, a negar a Palavra de
Deus e a acusar Deus de mentiroso e cruel. Não lhe basta que Eva tenha
acrescentado a palavrinha “talvez”; desta palavrinha, ele, agora, faz uma
negação e diz: “Não morrereis”.
Vemos, pois, aqui, como é terrível quando o diabo começa a tentar o ser
humano. Então, uma ruína atrai a outra, e uma ofensa, aparentemente leve,
causa uma perdição enorme. Afastar-se de Deus e de sua Palavra e dar
ouvidos a Satanás foi sério. Todavia, muito mais sério é o que acontece
depois: que Eva concorde com Satanás, que acusa Deus de mentiroso e
[age] como se esbofeteasse o rosto de Deus. Portanto, Eva não mostra mais
qualquer aversão, como na primeira tentação, mas começa, junto com
Satanás, a desprezar a Deus, a negar a Palavra de Deus e a crer no pai das
mentiras em vez de crer na Palavra de Deus.
Que isso nos sirva de lição para que aprendamos o que é o ser humano.
Pois se isso aconteceu quando a natureza ainda era perfeita, que cremos que
será de nós? Os exemplos estão diante dos nossos olhos. Constatamos que
muitos daqueles que, no início, renderam graças a Deus conosco pela
Palavra revelada não só nos abandonaram, mas também voltaram-se, agora,
contra nós.
Assim, depois que os arianos começaram a abandonar a fé na divindade
do Filho, em breve caíram na insanidade de se tornar inimigos da
verdadeira Igreja e a perseguiram com extrema crueldade.
[118] Também vimos exemplos da mesma loucura entre os
anabatistas413. Depois que todos foram desviados, inicialmente, por
Satanás, para a palavrinha “talvez”, eles fazem, depois do “talvez”, uma
negação: de desertores de Deus passam a ser também perseguidores de
Deus, pois imitam seu pai Satanás. Este, depois de cair do céu por causa do
pecado, tornou-se acérrimo inimigo de Cristo e da Igreja.
Tampouco faltam, hoje, exemplos semelhantes, pois não temos inimigos
piores do que aqueles que abandonaram a nossa doutrina. Esse pecado deu
origem àquela máxima infeliz: “O néscio disse em seu coração: ‘Não há
Deus’” [Sl 14.1]. Pois não basta aos que abandonaram Deus terem se
afastado dele, mas eles também precisam atacar a Deus e sua Palavra.
Por isso, há necessidade principalmente

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