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Esse ácido graxo insaturado, que apresenta conformação trans nas moléculas, é conhecido como gordura trans. Essa nomenclatura é a nomenclatura comum, mas as chamadas gorduras trans não são de fato triglice- rídios (também chamados triglicérides), como o são as moléculas de gordura. No entanto, neste texto, faremos referência aos ácidos graxos trans como gorduras trans, já que esta vem sendo a forma mais comum de se referir a essas substâncias. É comum também que os lipídios, de forma geral, sejam chamados de gorduras. Como apresentam temperaturas de fusão maiores, as gorduras que apresentam moléculas na conformação trans são em geral sólidas, e aquelas que possuem a conformação cis são em geral líquidas. Isso influencia seu uso na indústria alimentícia, como veremos a seguir. As gorduras trans e a indústria alimentícia As gorduras são fundamentais na alimentação humana. São as responsáveis pelo fornecimento de calorias e têm atuação no transporte de vitaminas lipossolúveis, como A, D, E e K. As gorduras trans estão naturalmente presentes, em pequenas quantidades, em algumas plantas, como romã, repolho e ervilhas, e constituem entre 3% e 5% dos ácidos graxos da carne e do leite dos ruminantes – vacas, ovelhas e cabras. A maior parte dos sabores que percebemos está relacionada à parte gordurosa do alimento. É por isso que a indústria alimentícia tem muito interesse em desenvolver informações sobre compostos gordurosos. Esse interesse nas gorduras trans advém do fato de que elas melhoram a consistência dos alimentos, propor- cionam aumento de sua crocância e da vida de prateleira de alguns pro- dutos, além de serem sólidas, o que torna mais fácil sua manipulação. A partir de óleos vegetais poli-in- saturados, que são líquidos, é pos- sível obter as gorduras sólidas. Esse processo se dá por meios artificiais, que hidrogenam ligações duplas. A hidrogenação é realizada, então, para modificar a composição, a estrutura e a consistência de um óleo. Na prática, o óleo vegetal é misturado com um catalisador específico, geralmente o níquel (Ni), finamente moído e aquecido à temperatura de 140 ºC a 225 ºC em tanques fechados. O óleo é então exposto ao gás hi- drogênio (H2) sob pressão de 60 libras por polegada (60 psi). O progresso da reação é acompanhado por meio da determinação do índice de refração, que varia com o grau de hidrogenação do óleo, permitindo saber se o óleo está suficientemente hidrogenado. Quando o processo atinge a condição desejada, o óleo é resfriado e o catalisador, removido por filtração. No decorrer do processo de hidrogenação, algumas das ligações duplas são eliminadas, outras mudam de posi- ção na cadeia e uma proporção significativa de ligações que apresentam configuração cis são convertidas em trans. Quando todas as duplas ligações são saturadas no processo de hidrogenação, obtêm-se as chamadas gor- duras hidrogenadas ou gorduras saturadas. Caso não ocorra a hidrogenação total, obtêm-se gorduras parcialmente hidrogenadas. Assim, as gorduras trans estão presentes em todos os alimentos nos quais os rótulos indicam, como um dos consti- tuintes, “óleo vegetal parcialmente hidrogenado”. Enquanto as gorduras saturadas são trigliceróis formados a partir de ácidos graxos saturados, as gorduras trans apresentam em sua composição ácidos graxos insaturados, com uma ou mais duplas-ligações do tipo trans. Ácidos graxos e gorduras na manutenção da saúde As preocupações com os efeitos para a saúde das chamadas gorduras trans têm aumentado. Isso se deve ao fato de que estudos revelam que essas gorduras modificam as funções metabólicas das gorduras poli-insatura- das, competindo com os ácidos graxos essenciais em vias metabólicas complexas. Apesar de serem alvo de preocupações, é importante destacar que as gorduras em geral desempenham fun- ções vitais em nosso organismo. A recomendação da OMS é que a ingestão diária de gorduras corresponda a cerca de 30% do valor calórico total. V a le n ty n V o lk o v /S h u tt e rs to ck D io n is v e ra /S h u tt e rs to ck J ia n g H o n g y a n /S h u tt e rs to ck romãs ervilhas repolho # Figura 3.9 – Alguns alimentos têm baixo percentual de gorduras trans. Os elementos não estão representados em proporção. 75Alimentos e subst‰ncias para manter a saœde e o bem-estar 068a095_V5_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U2_Cap3_LA.indd 75068a095_V5_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U2_Cap3_LA.indd 75 15/09/2020 13:5015/09/2020 13:50 Mas aí vem a seguinte questão: Que tipo de gordura seria interessante consumirmos? As gorduras vegetais são ricas em gorduras insatu- radas – monoinsaturadas e poli-insaturadas – e são isentas de colesterol e de gordura trans. Essas gordu- ras podem ajudar a controlar os níveis de colesterol, contribuindo com a prevenção de doenças cardiovas- culares. As gorduras poli-insaturadas dominam a composi- ção dos óleos vegetais, como os de girassol, milho ou soja, presentes em margarinas e cremes vegetais, mas alguns óleos vegetais são considerados alimentos inflamatórios. As gorduras poli-insaturadas também são encontradas em peixes, como sardinhas, salmão e atum. As gorduras de origem animal são constituídas essencialmente por gorduras saturadas, colesterol e gorduras trans. Essas gorduras podem ser encontradas em alimentos como manteiga, nata, leite integral, queijo gordo e carne de boi. 1. Uma gordura não saturada tende a ser um líquido escorregadio e gotejante, e não uma substância firme e compacta. Considerando as estruturas das moléculas das gorduras não saturadas, explique essas carac- terísticas. 2. Que tipo de arranjo espacial as gorduras monoinsaturadas podem ter? 3. Qual é a diferença entre gorduras trans e gorduras saturadas? 4. Uma molécula de ácido graxo tem um grupo metila e um grupo carboxila. Justifique a diferença de pola- ridade existente entre esses grupos. 5. Um grupo é considerado lipofílico quando é solúvel em gorduras. Por que o grupo metila é lipofílico? 6. Um grupo é considerado hidrofílico quando é solúvel em água. Por que o grupo carboxila é hidrofílico? 7. Por que as gorduras são indispensáveis na alimentação? 8. Faça uma pesquisa em rótulos de alimentos que você tem o hábito de consumir e descubra que tipo de gordura faz parte de sua dieta. 9. Leia o trecho do texto a seguir: Um óleo é simplesmente uma gordura no estado derretido, líquido. Há uma grande diferença, no entanto, entre óleos encontrados em alimentos e os usados para lubrificar motores de carros. As moléculas dos óleos alimentares têm três pernas unidas a uma espinha dorsal comum. Os óleos lubrificantes só têm uma. O formato das pernas afeta o comportamento térmico do óleo ou da gor- dura. Cada “perna” consiste de uma cadeia unida de átomos de carbono. A temperaturas suficiente- mente baixas, as pernas podem se arrumar lado a lado para formar um cristal sólido. As moléculas de gordura com “pernas” retas (gorduras “saturadas”) se arrumam bem próximas, vibram pouco e exigem uma energia relativamente alta para separá-las. Aquelas que têm pernas dobradas (gordu- ras “insaturadas”) juntam-se menos, são mais fáceis de separar e se fundem a uma temperatura mais baixa. FISHER, Len. A ciência no cotidiano: como aproveitar a ciência nas atividades do dia a dia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004. p. 166. No texto, o autor utiliza uma linguagem repleta de referências à linguagem cotidiana para explicar as pro- priedades dos lipídios. Reescreva o trecho utilizando a linguagem científica e os termos que foram usados nesse texto. EXERCêCIOS A le x a n d e r P ro k o p e n k o /S h u tt e rs to ck # Figura 3.10 – As gorduras insaturadas são encontradas no azeite, no óleo de amendoim, nas amêndoas e nas azeitonas. 76 Cap’tulo 3 068a095_V5_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U2_Cap3_LA.indd 76068a095_V5_CIE_NAT_Mortimer_g21Sc_U2_Cap3_LA.indd 76 15/09/2020 13:5015/09/2020 13:50