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Maria Clara Ribeiro Costa
(GINZBURG, Carlos. O Queijo e os Vermes. Realizado pela Companhia de Bolsa, edição de 2006.) 
Domenico Scandella, conhecido por Menocchio, nasceu em 1532 em Montereale, uma aldeia nas colinas do Friuli, famosa por seus vinhos brancos. Casado e pai de sete filhos, Menocchio exerceu várias profissões, mas era principalmente moleiro, distinguido por suas vestes brancas tradicionais. Em 1581, ele serviu como podestá (magistrado) da aldeia e administrador da paróquia, funções que indicam sua alfabetização e algum grau de influência local.
Em 1583, Menocchio foi denunciado ao Santo Ofício, sob a acusação de ter pronunciado palavras “heréticas e ímpias” sobre Cristo. Não se trata apenas de blasfêmia, pois não se envergonha de pregar e dogmatizar:“Os padres nos querem debaixo de seus pés e fazem de tudo para nos manter quietos, mas eles ficam sempre bem”. As pessoas da região não estavam dispostas a dizer ter escutado discursos de um suspeito de heresia, mas certas testemunhas afirmaram que por anos ninguém havia o denunciado por isso pode concluir que a cidade o via com reprovação, já que pregava para todos que estavam ou não dispostos a ouvir o que ele tinha a dizer sobre a fé. Apesar disso, Dom Odorico Vorai indiciou uma denúncia contra ele que iniciou o inquérito. Por exemplo, certas teses dele: 
· “Deus não é nada além de um pequeno sopro e tudo mais que o homem imagina";
· "O que é que vocês pensam, que Jesus Cristo nasceu da Virgem Maria? Não é possível que ela tenha dado à luz e tenha continuado virgem. Pode muito bem ser que ele tenha sido um homem qualquer de bem, ou filho de algum homem de bem". 
Quando os testemunhos se amontoaram, Menocchio foi a Maniago, atendendo à convocação do tribunal eclesiástico. Mas no dia seguinte do início do inquérito, o inquisidor- o frade Felice da Montefalco - ordenou que o prendessem e "levassem algemado" para os cárceres do Santo Ofício de Concórdia. No interrogatório expôs sua posição sob uma luz favorável do que aquela que se entende nos testemunhos, mesmo admitindo ter alimentado dúvidas quanto à virgindade de Maria dois ou três anos antes, e ter falado sobre isso com várias pessoas, disse: "É verdade que eu falei disso com várias pessoas, mas não forçava ninguém a acreditar; pelo contrário, convenci muitos dizendo: Vocês querem que eu ensine a estrada verdadeira? Tente fazer o bem, trilhar o caminho dos meus antecessores e seguir o que a Santa Madre Igreja ordena'. Mas aquelas palavras que eu disse antes eu dizia por tentação, porque acreditava nelas e queria ensiná-las aos outros; era o espírito maligno que me fazia acreditar naquelas coisas e ao mesmo tempo me instiga a dizê-las aos outros". 
Com tais palavras Menocchio confirmava a suspeita do papel de professor de doutrina — principalmente no momento em que Menocchio expôs sua cosmogonia, da qual o Santo Ofício já ouvira comentários contusos:
· "Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e topo juntos, e de todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento, e foi feito senhor com quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael. O tal Lúcifer quis se fazer de senhor, se comparado ao rei, que era a majestade de Deus, e por causa dessa soberba Deus ordenou que fosse mandado embora do céu com todos os seus seguidores e companhia. Esse Deus, depois, fez Adão e Eva e o povo em enorme quantidade para encher os lugares dos anjos expulsos. O povo não cumpria os mandamentos de Deus e ele mandou seu filho, que foi preso e crucificado pelos judeus".
 Portanto, para Menocchio, tudo o que existia era o caos, os quatro elementos juntos em um só, formando uma massa, tal como o queijo é formado do leite, com os vermes que aparecem nesta massa, sendo os anjos. A majestade divina, que não seria Deus, decretou que um dentre os anjos (Deus) seria o lorde com capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael. Sua tese é que Lúcifer, por querer se equiparar ao poder supremo, foi então expulso pela sua arrogância. Deus, então, criou Adão, Eva e a humanidade para preencherem o lugar deixado pelos anjos caídos que eram apoiadores de Lúcifer. E, quando os humanos não seguiram os comandos de Deus, ele enviou seu filho, Jesus, o qual Menocchio discordava da divindade, dizendo que nasceu do homem e que sua morte não foi um sacrifício salvador da humanidade, e sim um ato de penitência como qualquer outro.
· "Eu disse bem claro que se deixou crucificar e esse que foi crucificado era um dos filhos de Deus, porque todos somos filhos de Deus, da mesma natureza daquele que foi crucificado. Era homem como nós, mas com uma dignidade maior, como o papa hoje, que é homem como nós, mas com maior dignidade do que nós porque pode fazer. Aquele que foi crucificado nasceu de São José e da Virgem Maria.”
Menocchio exigia uma Igreja que abandonasse seus privilégios, que se fizesse pobre com os pobres, queria uma religião livre de exigências dogmáticas, resumível a um núcleo de preceitos práticos. Até que os inquisidores o incentivaram a falar sobre as suas crenças, assim, menocchio se desprendeu de suas resistências e denunciou: 
· "A majestade de Deus distribuiu o Espírito Santo para todos: cristãos, heréticos, turcos, judeus, têm a mesma consideração por todos, e de algum modo todos se salvarão".
· “ O batismo é uma invenção dos padres, que começam a nos comer a alma antes do nascimento e vão continuar comendo-a até depois da morte". 
· "A crisma é uma mercadoria, invenção dos homens; todos os homens têm o Espírito Santo e buscam saber tudo e não sabem nada". 
· "O casamento não foi feito por Deus, mas sim pelos homens; antes, homens e mulheres faziam troca de promessas e isso era suficiente".
	Vale salientar que Menocchio teve acesso a livros proibidos pela Igreja, como por exemplo a Bíblia em linguagem vulgar e até mesmo o alcorão traduzido para seu idioma, o que fez com que ele formulasse suas próprias críticas já relatadas e sua cosmogonia individual. Basicamente Menocchio criticou a utilização do latim nas missas, o que afastou o cidadão comum o acesso à religião; ironizou a riqueza do papado (afirmando que tal como o próprio Diabo, o clero buscava saber mais que Deus e se equiparar a ele) os lotes de terra controlados por ela e os tesouros infindáveis em metais preciosos, todos contraditórios à política humilde de Cristo; contra a irreverência aos santos, jogou por terra a validade das indulgências, do batismo, da confissão; debateu por horas a existência do inferno, a pureza de Maria e a divinização de Jesus. A inegável comparação de Deus e dos anjos a vermes causaram espanto, ódio e fascínio no interrogatório. Em virtude de seu histórico como pároco e administrador ainda permeiavam entre os homens da vila fazendo com que escapasse, inicialmente, da condenação à morte por heresia desde que abandonasse suas teorias, negasse as falas ímpias e voltasse a ser um homem crente na Igreja, no final, outro homem o denunciou novamente a Inquisição.
	Após passar vinte anos na prisão, aceitou para os inquisidores os dogmas católicos, mas foi condenado à prisão domiciliar carregando pelo vilarejo o símbolo de uma cruz com o aviso da heresia em suas roupas. Após obter esta "liberdade condicional", ele voltou a administrar a igreja local com a permissão da igreja. No entanto, quando o filho que o sustentava morreu, ele procurou o novo inquisidor para que fosse dispensado de suas funções e pudesse voltar a sustentar a família. Ele foi aceito pelo novo inquisidor, que permitiu que a roupa não fosse mais usada. Entretanto, a natureza questionadora de Menocchio (aliada a seu desejo de recontar seus pensamentos a príncipes, nobres e reis) o levaram a se isolar da comunidade em seu retorno e a retomar suas falas divergentes da Igreja,já que após ele ter saído da escuridão da ignorância não conseguiu permanecer no dogma. 
	Assim, a incapacidade de se adequar à sentença, por sua vez, o levou a admitir com maior firmeza no segundo julgamento ele ter sido o próprio autor de sua cosmogonia e críticas heréticas, sem nenhuma interferência diabólica. Contudo, Menocchio pediu piedade e clemência ao papado. De nada adiantou, e Domen culminou na carbonização do italiano em 1599 por ordem do Papa Clemente VIII. 
"Em 2 de agosto a congregação do Santo Ofício se reuniu: Menocchio foi declarado, por unanimidade, um 'relapso', um reincidente. O processo terminara. Decidiu-se, porém, submeter o réu a tortura, para arranca-lhe o nome dos cúmplices. Isto ocorreu em 5 de agosto; no dia anterior, a casa de Menocchio fora revistada e, na presença de testemunhas, haviam sido abertas todas as caixas e confiscados 'todos os livros e escritos " ' . (GINZBURG, 1987).
Carlos Ginzburg, autor da obra, demonstra com a figura de Menocchio um período em que poder da igreja estava acima de tudo e de todos, tudo estava ligado a instituição religiosa, desde a forma que se interpretava o que se lia; sendo, a própria figura do inquisidor quem exercia as funções de julgar e defender. Ele mostra que o Menocchio não era o único tendo outros acusados pelo Tribunal de Heresia, como por exemplo Bartholomew Legate, William Tyndale e Edward Wightman também foram mortos por terem contrariado a Igreja.

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