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84 Valores e moral fazem parte do universo humano. São construções humanas e, por isso, dizemos que são culturais. Diferentemente daquilo que é natural, eles não existem sem a constituição da so- ciedade. Entretanto, há uma tendência social em naturalizá-los, em tratá-los como se o mundo tivesse sido assim desde sempre. Uma simples análise histórica nos mostrará que o que é considerado certo ou errado, justo e injusto, se alterou ao longo do tempo e variou em diferentes sociedades. Na Grécia antiga, por exemplo, ter pessoas escravizadas era considerado justo e um direito do cidadão grego. Du- rante o processo de colonização da Amé- rica, foi considerado correto escravizar negros africanos e povos originários da América. Outro exemplo é o voto feminino. No Brasil, ele foi garantido por lei ape- nas em 1932 e, mesmo assim, somente para mulheres com renda. Na Suíça, as mulheres foram autorizadas a votar apenas em 1971. Ainda hoje, muitos países diferenciam legalmente os direitos dos cidadãos de acordo com o gênero, como ocorre de forma mais aguda na Arábia Saudita e no Irã. Um estudo do Banco Mundial avaliou a desigualdade financeira e legal em 187 países, entre 2008 e 2018, e concluiu que em apenas seis deles – Bélgica, Dinamarca, França, Letônia, Luxemburgo e Suécia – há igualdade nesses aspectos entre os sexos. Esses casos são exemplos que evidenciam desigualdade de tratamento de grupos sociais, segundo valores vigentes atualmente no mundo ocidental, que já foram ou ainda são tradições em alguns luga- res e que passaram por mecanismos de naturalização para serem amplamente aceitos. TEMA 2 Tradi•‹o, constru•‹o cultural Em 2018, os cargos dos ministros da Etiópia foram distribuídos igualitariamente entre homens e mulheres, seguindo o exemplo dado por Ruanda, outro país africano, colocando-os na vanguarda mundial na promoção da igualdade de gênero na política. A maioria das clássicas histórias infantis veicula uma moral – o que é certo e errado, quem é herói ou vilão, quais modelos de comportamentos são adequados ou inadequados – e, além de entreter as crianças, as educa culturalmente e contribui para naturalizar tradições e, no caso, valores. A la m y /F o to a re n a S tr in g e r/ A F P P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 84P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 84 2/10/20 11:58 AM2/10/20 11:58 AM 85 1 1 Reunidos em grupos de quatro ou cinco estudantes, levantem tradições praticadas na comunidade à qual vocês pertencem (escola, bairro, município ou ainda a sociedade brasileira) que avaliam que sejam prejudiciais a algum grupo social, aos animais ou ao meio ambiente. 2 2 Escolham uma dessas situações e procurem planejar uma ação para sensibilizar a comunidade e contribuir para questionar essa tradição e, quem sabe, construir uma nova realidade. 3 3 Apresentem o caso escolhido para a classe e expliquem por que o avaliaram como a melhor opção. Considerem a relevância e a possibilidade de vocês pensarem em um bom projeto, possível de realizar e com potencial de chamar a atenção para o problema ou reduzi-lo, dependendo de sua complexidade. 4 4 Escutem os comentários dos colegas sobre o problema que escolheram e colham opiniões sobre o que eles acham que poderia ser feito. 5 5 Reunidos novamente em seus grupos, façam um plano de ação para encaminhar a proposta de vocês. Lembrem-se de: a) definir o objetivo da ação (o que é pretendido?); b) justificar a importância do problema (por que abordar o problema?); c) organizar o cronograma de ações (o que será feito, como, quando, onde e por quem?); d) levantar recursos necessários (informações, recursos materiais, autorizações, parceiros, etc.); e) revisar e executar o plano; f) avaliar o processo e o resultado. Trocando ideias A atividade exige diferentes habilidades dos estudantes: trabalho em grupo, leitura do entorno e diagnóstico de problema, avaliação do problema, encaminhamento de soluçõe s, estimativa de recursos, custos e tempo necessários para a intervenção, planejamento, avaliação e muitas outras, que variam de acordo com o problema selecionado. Ajude-os a selecionar algo que esteja ao alcance da ação deles. Cotas No Brasil, e em outros países, foram criadas algumas legislações específicas para a promoção do acesso e para a integração das chamadas minorias no setor público e privado. Esse mecanismo tem sido chamado de cotas (sociais, raciais, de gênero, etc.). Nas universidades públicas, há cotas ou sistema de pontuação diferenciado nos exames de admissão para estudantes de escola pública, para famílias com renda mensal inferior a um salário mínimo e para pretos e pardos (denominação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís- tica – IBGE – para se referir aos afrodescendentes). Partidos políticos devem ter no mínimo 30% de mulheres entre seus candidatos nas eleições para vereadores, deputados estaduais e federais. As empresas privadas devem ter entre 2% e 5% no total de seus funcionários, dependendo do seu tamanho, de portadores de deficiência. Na esfera pública, a legislação prescreve cotas raciais para negros, pardos, indígenas e pessoas com deficiência física e/ou intelectual nos concursos públicos. Educa•‹o e trabalho LGG3 LGG6 CHS5EM13LGG301 EM13LGG601 EM13CHS501 CG01 CG06 LGG1 LGG2EM13LGG104 EM13LGG201 N‹o escreva em seu livro P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 85P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 85 2/10/20 11:58 AM2/10/20 11:58 AM 86 Perman•ncias e mudan•as De modo geral, na modernidade, é entendido que os adultos, os mais velhos, são responsáveis por cuidar e educar os mais novos, as crianças e os jovens. Isso compreende cuidar da criança e do jovem diante dos perigos do mundo. Explicar como as coisas funcionam, observar, orientar e evitar que eles se submetam a condições que possam provocar prejuízos que atrapalhem ou impeçam seu desenvol- vimento. Espera-se também que os adultos apresentem o mundo à criança e ao jovem e sejam responsáveis por inseri-los na cultura e na civilização. E isso deve ser feito de modo crítico, ou seja, de forma que as novas gerações sejam capazes de avaliar o que da cultura merece ser preservado, mantido, e o que merece atualização, transformação. Portanto, uma vez protegidos e educados, espera-se que os jovens sejam capazes de reconhecer e valorizar o legado cultural que herdaram e também de se engajar na realização de projetos de vida que, além de seus desejos e necessidades pessoais, considerem a coletividade, os desafios não solucionados pelas gerações anteriores ou mesmo criados por elas, lembrando que os problemas variam em natureza, complexidade e escala. Em linhas gerais, e em escala global, pode-se destacar como temas aos quais todo jovem deve estar sensível o combate à pobreza e à miséria, a universalização dos direitos humanos, a manutenção da paz entre os povos, o desenvolvimento sustentável (criação e distribuição da riqueza, garantindo ou até melhorando a qualidade ambiental para as atuais e futuras gerações), entre outros. Certamente, em cada realidade nacional e local outros desafios estão postos para o presente, mi- rando a construção de um futuro melhor. Ou seja, espera-se também que o jovem transforme o mundo por meio de sua ação na escola, faculdade, instituição religiosa, comunidade, trabalho e nas distintas esferas sociais das quais participa. Uma das manifestações da juventude brasileira que mais marcaram a história do país foram os chamados caras pintadas, jovens de várias cidades que se uniram em prol do processo de impeachment do então presidente da República Fernando Collor de Melo. Na imagem, estudantes caras pintadas durante manifestação em São Paulo, SP, em 1992. E d e r C h io d e tt o /F o lh a p re s s N‹o escreva em seu livro P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 86P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd86 2/18/20 9:11 AM2/18/20 9:11 AM 87 Como o mundo é bastante dinâmico, cada nova geração encontra um contexto político, econômico, ambiental, científico e social diferente da anterior, sendo apresentada a um mundo novo, diferente daquele herdado pela geração responsável por educá-la. As mudanças ocorrem diante de um conjunto variado de forças simultâneas, algumas em movimentos contrários a outras e algumas em movimentos convergentes. Claro que essas dinâmicas estão submetidas a distintas escalas geográficas. Há aquelas que atuam em escala global, como o problema das mudanças climáticas decorrentes do aumento do efeito estufa ou a interconexão mundial por meio do avanço nos sistemas de transporte e comunicação, com grande destaque para a popularização do acesso à internet. Há as de dimensão regional, como o movimento por maior liberdade e transformações sociais e políticas nos países árabes, iniciado em 2010 e que se disseminou sobretudo pelo norte da África e pelo Oriente Médio. Existem ainda as restritas à esfera nacional, como a permanência de governos ditatoriais, os códigos de leis, referendos e plebiscitos, en- tre muitas outras questões que impactam a vida das pessoas que vivem em um único país. Por fim, há as dinâmicas que se desenvolvem nos contextos locais, em cada cidade ou até mesmo em cada bairro, dependendo do fenômeno e do aspecto considerados. Assim, cada localidade, país ou região reage de forma diferente ao contexto histórico mundial e às suas forças conservadoras ou transformadoras. Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado para a socie- dade e os diferentes grupos e comunidades que a formam. Imagine se você tivesse nascido e vivido em outro estado ou município do Brasil ou mesmo em outro país. Suas experiências de mundo e suas possibilidades presentes e futuras não seriam exatamente as mesmas que você tem hoje diante de si. TEMA 3 Gerações no tempo e no espaço O alistamento militar pode variar de um país para outro. No Brasil (imagem 2), ele é obrigatório para todas as pessoas do sexo masculino com 18 anos completos, ainda que nem todos prestem o serviço militar. Em Israel (imagem 1), ele é obrigatório para ambos os sexos. No Panamá (imagem 3), as forças militares foram extintas em 1994 e não há obrigatoriedade de alistamento nem de prestação de serviço militar. Il ia Y e fi m o v ic h /G e tt y I m a g e s R e p ro d u ç ã o /R E P U L Z A P T Y Divulgação/Exército Brasileiro 1 2 3 P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 87P4_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 87 2/10/20 11:58 AM2/10/20 11:58 AM 88 As marcas geracionais Pesquisadores de variados campos, como demógrafos, sociólogos, psicólo- gos, historiadores, entre outros, passa- ram a diferenciar as pessoas por meio do contexto histórico nos quais nasceram e foram criadas. Eles diferenciam as gera- ções pelos anos de nascimento e por te- rem crescido sob um mesmo “espírito de época”, isto é, os mesmos acontecimen- tos sociais significativos em momentos importantes de suas constituições emo- cionais e cognitivas, tendo adquirido valores e comportamentos semelhantes. Nessa classificação, desconsidera- -se sexo, religião, cor e renda, entre outros elementos de distinção social. Justamente por isso é uma classifica- ção muito ampla e suscetível a muitas críticas. Outra ressalva relevante é que grande parte das descrições de cada geração considera um universo restrito de análise: em geral, a população dos países desenvolvidos ocidentais. Com a globalização e a forte influência cultural que esses países exercem no resto do mundo, parte de seu comportamento social é replicado em outros contextos, sobretudo nas últimas duas ou três gerações. Fica a dica Atypical. Robia Rashid. Estados Unidos, 2017 até o presente. A série Atypical tem como enredo central os desafios de um jovem, Sam, diagnosticado dentro do espectro do autismo nos anos finais do que corresponde ao Ensino Médio no Brasil e sua entrada na universidade. Destaque para o episódio 7 da terceira temporada, no qual Sam vivencia alguns dilemas morais, tema de um de seus cursos na faculdade. Black mirror. Estados Unidos, 2011-2019. Composta de episódios independentes que, em comum, apresentam um cenário futuro marcado por uma distopia decorrente do avanço da tecnologia, a série mostra realidades que submetem os seres humanos a novas questões morais e éticas. O episódio Bandersnatch foi concebido para interação com o telespectador. Ao longo dele, o telespectador vai escolhendo as próximas ações dos personagens, o que leva a dez finais diferentes, envolvendo-o em uma situação semelhante àquela apresentada no episódio. Show de funk em Francisco Morato, SP, em 2013. Alex Silva/Agência Estado N‹o escreva em seu livro P1_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 88P1_PV_Eduardo_g21Sa_Mod2_Perc5_075a091_LA.indd 88 23/10/20 19:1523/10/20 19:15