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O MÉTODO
NATURAL
BIBLIOTECA DE CIÊNCIAS PEDAGÓGICAS
DIRIGIDA POR SÉRGIO NIZA
Técnico do Centro de Observação
e Orientação Médico-Pedagógica
CELESTIN FREINET
O MÉTODO
NATURAL
II —A APRENDIZAGEM DO DESENHO
Editorial Estampa
Título do original
La Méthode Naturelle
II. L’apprentissage du Dessin
Tradução de Franco de Sousa
e Teresa Balté
Capa de Suares Rocha
© Delachaux & Nicstlé S. A., Neuchâlel, Suíça, 1969
Editorial Estampa, Lda., Lisboa, 1977
para a língua portuguesa
ÍNDICE
Prefácio .................................. ......................................................... 9
Preâmbulo...................................................................................... 13
Primeira parte —O método natural de desenho .......................... 17
Introdução ao método natural .............................................. 19
O que é o desenho? ................................................................ 33
Segunda parte — As gêneses do desenho ................................... 115
Introdução às gêneses ......................................................... 117
A gênese do homem ............................................................. 119
A gênese das casas ................................................................. 185
A gênese dos automóveis ...................................................... 243
A gênese das aves .................................................................. 297
A gênese dos cavalos ............................................................. 345
Conclusão ............................................................................... 385
7
PREFÁCIO
As partes que compõem este livro apareceram já, no seu
essencial, em várias publicações, sobretudo no Educateur, re
vista dirigida por C Freinet (edição da Ecole Moderne, Can-
nes), podendo ser consideradas como as etapas de uma inves
tigação sob os auspícios de uma direcção única e baseada no
impulso vital, orientado pela tentativa experimental, funda
mento teórico de toda a obra psicopedagógica de Freinet,
A estes textos - que constituem como que pedras funda
mentais de uma construção a edificar - vêm juntar-se escritos
mais recentes, ainda inéditos, resultantes de uma estreita cola
boração de pensamento entre Freinet e eu: projectávamos
Uma vasta síntese pedagógica, psicológica e cultural do dese
nho infantil, onde a expressão artística entrava em linha de
conta, afirmando já as suas prerrogativas.
Tal projecto não chegou a aparecer na sua totalidade. Os
elementos que aqui proponho já representam, todavia, claros
indicativos tanto da dinâmica e densidade dos trabalhos de
base como da conclusão final prevista.
Como todas as obras pedagógicas de Freinet, também esta
se apoia em numerosas experiências e trabalhos de colegas,
empenhados na mesma tarefa e na solução dos mesmos pro
blemas. O livro que apresentamos é expoente do espirito e de
um método que presidem a esta colaboração construtiva.
A primeira parte, o Método natural dc desenho, constitui
um resumo dinâmico das directrizes gerais que marcam de
certp modo o começo, o impulso inicial da vasta investigação
coletiva. A Escada de desenho, que o termina, desempenha o
9
papel de um teste complexo, gradual, que rompe com a
compartimentação dos factos constatados para se elevar acima
das observações elementares isoladas, rumo a um conhecimen
to conjunto e contínuo do comportamento intelectual, afecti-
vo e já cultural da criança. E semelhante ao tronco de uma
árvore que lança os primeiros ramos onde virão apoiar-se as
múltiplas Gêneses (do Homem, das Casas, dos Automóveis,
das Aves, dos Cavalos, etc.) saída, em tropel dos inúmeros
cadernos escolares.
Este trabalho enorme de recolha de documentos, que du
rou anos e anos, visava apoiar solidamente a veracidade e a
generalidade dos processos da tentativa experimental; desco
brir constantemente o cerne vital que, segundo a expressão de
Teilhard, “se pluralizará para fazer face às várias possibilida
des”; sondar-lhe o leque, o curso das ramagens até aos galhos
mais frágeis, rumo à harmonia requerida pelo equilíbrio da
lei. A lei cuja sujeição Freinet temia; a que se arrisca impor a
quem se habitua a usá-la como medida válida para, as peque
nas coisas, sem descortinar a sua necessária integração no
vasto ritmo da vida, sem compreender que a prática e a teoria
são duas faces de um mesmo comportamento imposto pela
autoridade eterna.
Estas considerações explicavam e justificavam o exame
ampliado das múltiplas gêneses e a respectiva inserção nos
ramos do tronco inicial. O destino não permitiu que Freinet
conduzisse tais edifícios orgânicos até à sua síntese última e
magistral. Foi assim que algumas gêneses ficaram por cons
truir (dos Animais, das Flores, dos Sóis, das Árvores...) e que
as já concluídas não puderam inserir-se na Escada base para
dar origem a uma escada de segundo grau; a uma ramificação
mais fina e mais subtil onde a seiva da energia instintiva se
transformasse em energia intelectual e espiritual, partindo o
todo de uma energia única, a Vida, ora decidida ora hesitante
mas sempre orientada para uma finalidade.
Este trabalho interrompido e que deixa em suspenso
investigações a completar pode, à primeira vista, parecer fruto
de um pensamento insuficientemente amadurecido: apresenta
vazios que não é possível preencher. Todavia, a solidez e a
deliberação do plano subjacente, bem como os dados positi
vos que propõe, desvendam-nos a pouco e pouco a lição de
10
toda a obra de Freinet, uma obra que respeita acima de tudo
o ritmo da acção necessária: procurar o essencial, esclarecer o
problema mais premente, segui-lo nos desenvolvimentos a que
faz apelo, caminhar para uma conquista jamais definitiva. Eis
o programa do pioneiro que rasga estradas nas terras estéreis
da realidade escolar.
“O homem vê, não o trabalho em si, mas a finalidade e
avança em linha recta para esse alvo; nivela, limpa, desaterra.
Algumas hastes teimosas escaparão ao fio da sua foice, o
mato cortado obstruir-lhe-á por vezes o caminho, mas outros
virão e encontrarão a brecha entreaberta, a via encetada;
passarão! E a tarefa aproximar-se-á do objectivo vislumbra
do.”(1)
ELISE FREINET
As directrizes das conclusões psicológicas que Freinet
contava tirar das suas observações vêm anotadas no final dé
cada gênese. Para distingui-las do texto original são rubricadas
por E. F.
(1) C. Freinet. L'Educateur prolétarien (15 de Julho de 1937).
11
PREÂMBULO
O maior mérito do homem será talvez o de sentir-se
responsável pelos seus actos e pô-los ao serviço dos propósitos
mais nobres da sua consciência.
Não quer isto dizer que tal lhe suscite automaticamente a
simpatia e a concordância dos seus congêneres, mas antes que
faz arriscar a ver-se incompreendido na sua boa fé e denuncia
do como um não-conformista, propagador da perturbação e
do erro,
Porém, aconteça o que acontecer, o facto é que todo o
pensamento generoso fertilizado pela acção acaba por dar
fruto. Com efeito, há um momento cm que a verdade pessoal,
traduzida no trabalho paciente, é comunicativa.
Claro que a mensagem não é acatada por todos, mas
basta que alguns discípulos a assimilem, insuflando-lhe nova
vida, para que a ideia prossiga, pronta a fazer milagres. Só
quando a iniciativa isolada se tiver transformado em pensa
mento colectivo e cada um a houver aclimatado às várias
condições do meio — tornando-a familiar e como que inofen
siva na aparência - estará ganha a causa.
Ao longo das décadas em que pusemos à prova uma
pedagogia natural baseada na livre expressão da criança, passá
mos pelas incertezas e eventualidades inevitavelmente ineren
tes às ideias novas que procuram enraizar-se num campo tão
eminentemente conformista como é o do ensino.
Mas, apesar de todas as adversidades, as descobertas feitas
correspondiam a autênticas necessidades e seguiram o seu
curso. Podemos afirmar que a causa de uma pedagogia renova13
da está ganha. E está-o não só por mobilizar técnicas educati
vas modernas, como por implicar uma reconsideração da psi
cologia tradicional ultrajantemente analítica e apoiada no
imobilismo das faculdades da alma.
A criança, que a cada instante dá provas das suas aptidões
criadoras, que incessantemente imagina, inventa e cria, só
pode ser compreendida e apreciada através de uma psicologia
de movimento, inteiramente inédita. Embora tenhamos fixado
balizas sólidas para o desenvolvimento de uma psicologia da
acção, não poderemos de forma alguma considerar os nossos
longos anos de investigação e de trabalho como uma aquisição
definitiva. Encaramo-los simplesmente como um grande passo
dado no sentido de um conhecimento dialéctico e mais huma
no da alma infantil e das suas potencialidades.
Desnecessário será dizer que, para alargar o campo da
pedagogia, é imprescindível não nos sentirmos amarrados ou
limitados por uma mera pedagogia de aquisição. O ambiente
de compreensão e de amizade das Escolas Modernas desperta
valores não previstos nos programas escolares. É o caso das
criações artísticas e poéticas que conferem às nossas humildes
escolas oficiais a sua feição mais comovente. Tais flores da
sensibilidade infantil e da solicitude dos mestres apenas desa
brocham em climas de confiança e liberdade, onde a simpatia
e a disponibilidade venham ao encontro das iniciativas mais
secretas.
À escola tradicional, voltada para o rendimento escolar e
para a preparação dos exames, não faltam boas intenções, mas
o rigor dos controles intempestivos e a salvaguarda da discipli
na exterior atropelam a cada passo a espontaneidade dá crian
ça. Ignoram os jardins secretos onde a alegre infância canta as
suas inumeráveis venturas. A felicidade é flor que necessita de
presenças e ternura. Entregue a si própria, a criança perde
muito tempo a discernir as hierarquias necessárias à formação
da sua personalidade. Uma testemunha, um apoio, poupar-
-lhe-ão desapontamentos e esforços inúteis. Se o professor
souber desempenhar esse papel de catalisador e de confidente,
se conseguir ajudá-la a vencer os obstáculos e a conservar o
entusiasmo e a iniciativa, terá realizado aquele ideal de cama
radagem que oferece à educação as suas maiores oportunida
des de triunfo, emprestando-lhe amplitude e subtileza. E já
14
ninguém se surpreenderá ao descobrir a criança-artista ou a
criança-poeta - espécimes excepcionais nas aulas tradicionais,
mas que entre nós evoluem com naturalidade e segurança.
As limitações criadas por uma pedagogia de simples rendi
mento escolar não permitiram avaliar com justiça as possibili
dades da criança. Aos pais e aos professores apenas interessa a
ciência adquirida em função dos exames. A sua desconfiança
em relação aos desenhos e aos poemas infantis - pelos quais
os professores de nível superior manifestam um profundo
respeito — é total. Só a calorosa e veemente simpatia dos
artistas e dos poetas conseguiu legitimar as criações infantis e
reconhecer-lhes um certo quociente cultural.
O impulso está dado; bastará agora aclimatar a expressão
livre da criança em aulas resolutamente abertas para a vida. A
tarefa parece fácil. Contudo, ao examiná-la de perto, a sua
amplitude arrisca-se a assustar os partidários do imobilismo e
da escolástica pedagógicos.
Alimentar este impulso prodigioso da criança significa
rever toda a nossa concepção do processo civilizacional. Há
que eliminar radicalmente todas e quaisquer entidades intelec-
tualistas impotentes para explicar e regular o comportamento
infantil e que restituir às considerações materiais, fisiológicas,
humanas e ambientais a respectiva dignidade e valor funcio
nal; há que recolocar todo o processo vital da infância sob o
signo da experiência permanente e complexa que é a única
soberana; há que concentrar, em torno de algumas ideias
simples e sensatas, reconhecidas pelos cientistas mais sinceros
e dinâmicos e luminosamente reveladas pelos sábios, a com
plexidade crescente das nossas reacções educativas; há que
detectar, para corrigi-las, as razões da impotência e do fracas
so e que descobrir as vias libertadoras de uma pedagogia à
medida do homem.
Não será pelo absoluto das nossas conquistas mas pela
relatividade das nossas pretensões que se medirá a profundida
de das nossas investigações e a eficácia dos nossos conselhos.
A vida é uma conquista. Se se tornou numa luta, aos
nossos erros comuns o deve. Só o esforço solidário das boas
vontades poderá franquear à criança um futuro à medida das
suas esperanças.
E. F.
15
PRIMEIRA PARTE.
O MÉTODO NATURAL DE DESENHO
INTRODUÇÃO AO MÉTODO NATURAL
A educação artística, quer na escola quer fora dela, acaba
de vencer um obstáculo. Até muito recentemente, visava ape
nas cultivar alguns talentos excepcionais cujo aparecimento
meteórico — que é aliás de todos os tempos testemunhava
simultaneamente a perenidade do génio e a incapacidade bási
ca das massas para se aproximarem dele ou para comprecndé-
-lo.
A nossa época, preocupada com a educação popular,
superou essa fase.
Encontramo-nos todos em busca dos métodos pedagógi
cos que melhor poderão desenvolver e promover as aptidões
artísticas da massa infantil, no quadro normal de um meio
social e de uma escola cuja evolução devemos prever, orientar
e preparar.
Neste complexo vital onde nenhuma disciplina poderá
isolar-se do problema educativo global, há que estudar em que
medida a cultura artística desejável adjuvará a eclosão e o
amadurecimento das restantes faculdades, concorrendo ao má
ximo para a formação da criança — o homem que amanhã
terá de enfrentar e dominar as dificuldades inerentes à civili
zação contemporânea.
Esta investigação e este estudo são tanto mais necessários
quanto o desenho e a pintura têm sempre sido, e continuam
frequentemente a ser. tidos como actividades de luxo, de
méritos inegáveis, mas que não devem usurpar as técnicas
escolares consideradas essenciais.
Aceita-se, de facto, que as crianças das primeiras classes
“garatujem”; admiram-se lealmente os seus triunfos tal como
19
se admiram os castelos de areia construídos na praia e que a
maré alta irá derrubar - eterno recomeço - , sem outro fito
além da exaltação momentânea; da mesma forma que nos
toca o balbuciar das crianças no berço antes que as exigências
da vida venham embaciar essa exaltação e essa esperança.
Tal eclosão, de que as exposições de desenho infantil
constituem comovente testemunho, não irá também desvane-
cer-se perante as necessidades escolares? Não passará de um
momentâneo vislumbre? Ou será que conseguiremos transfor
má-la num sólido ponto de partida para uma educação alta
mente prometedora? Por outras palavras: será que os produ
tos da expressão livre e da intuição poderão florir nas classes
primárias e integrar-se no nosso quadro metodológico nor
mal? Permitirão a progressão indispensável que deverá levar
os alunos à criação de obras de arte conscientes e amadureci
das?
Oferecerá a fantasia das primeiras realizações uma base
possível para a aquisição das técnicas? Ou deveremos, a certa
altura, abandonar esses jogos supostamente gratuitos para en
frentar os deveres áridos e decepcionantes da vida?
Existirá realmente um método de formação artística ali-
cerçado na livre expressão da criança? É para responder a tão
grave questão que iremos relatar a nossa experiência e dar o
nosso testemunho.
Não ignoramos que a opinião dos educadores e dos pais
se mantem rígida e inamovível. Seja qual for o valor intrínse
co das obras nascidas da necessidade que a criança tem de se
exprimir numa linguagem própria, dotada de uma subtileza
reconhecidamente fecunda, não bastará para dissuadi-los da
convicção de que num dado momento, entre os 7 e os 12
anos de idade, se torna indispensável abandonar a estrada real
para sacrificar à escolástica. E a experiência parece dar razão
aos cépticos.
Nas aulas que designaremos por tradicionais constata-se,com efeito, que as crianças não possuem faculdades artísticas,
que não sabem, salvo raras excepções. desenhar nem pintar.
Não têm ideias, forçando os educadores a impor-lhes noções
técnicas pelo processo clássico dos exercícios e lições.
Mas constata-se também que as crianças formadas nas
classes maternais ou infantis, nos cursos preparatórios ou
20
elementares da Escola Moderna, degeneram à medida que vão
transpondo os graus escolares, como se nessa fase se produzis
se uma espécie de revolução orgânica que modificasse os
processos de pensamento e de vida; como se o sangue já não
circulasse com a mesma força nem no mesmo sentido e se
verificasse, no domínio da cultura artística. uma metamorfo
se radical apenas comparável às profundas transformações da
puberdade.
forno explicar tais constatações? Que método recomen
dar para superai o famoso hiato que parece contradizer os
dados habituais da formação e da vida?
É neste ponto que vamos concentrar as nossas atenções.
Os sistemas psicológicos e pedagógicos contemporâneos
assentam numa concepção, que julgamos errada, dos processos
de formação do indivíduo e de aquisição dos conhecimentos e
dos mecanismos indispensáveis à vida.
Não obstante os ensinamentos dos pensadores e as de
monstrações teóricas dos investigadores do passado e do pre
sente, a escola, seja a que nível for, continua persuadida de
que não há cultura possível sem um estudo metódico de
regras e de leis que seriam os seus elementos constitutivos, o
esqueleto a que cm seguida bastará insuflar vida. Os meios
práticos desta cultura são a memorização, os exercícios, as
lições e os factores de sanção inerentes.
Aí reside o grande erro, tão difícil de combater que
justifica todas as falsas manobras da escolástica.
O bom senso c a experiência demonstram, pelo contrário,
que não é pela explicação intelectual, pelo recurso às regras e
às leis, que se faz uma aquisição, mas sim pelo mesmo
processo geral universal de tentativa experimental que tem,
desde sempre, regido a aprendizagem da língua e da marcha.
Quando um indivíduo ainda não deformado por técnicas
acessórias se vê perante uma dificuldade, não procura resolvê-
-la através dos conhecimentos teóricos que foi possível ensi
nar-lhe. Actua primeiro ao acaso, tira partido das circunstân
cias que. se lhe oferecem ou segue uma inflexão particular que
lhe permite esperar o triunfo, porque o indivíduo sente neces;
sidade de triunfar. O fracasso é sempre destruidor c perturba
21
dor. É a doença, o sofrimento e a morte. E o indivíduo quer
viver.
Se a tentativa falha, é como um ccaminho que se fecha
com um obstáculo mais ou menos traumatizante. Perde-se a
vontade de recomeçar a experiência. E será muito difícil
desbloquear a via, mesmo que um dia se torne necessário.
Mas se a tentativa triunfa, é como um sulco que se abre e
que tenderemos a seguir nas tentativas futuras, em virtude de
uma lei de economia do esforço muitas vezes valorizada pelos
psicólogos. O processo diversifica-se, mas em todos os graus
da nossa formação, em todos os factores da nossa lenta
cultura, paira esse mecanismo soberano que é como que o fio
de Ariana da nossa nova psicologia e da nossa prática pedagó
gica.
Isso não significa, evidentemente, que uma aquisição seja
sempre fruto exclusivo de uma tentativa experimental pessoal.
Em determinada fase, o indivíduo apropria-se por imitação,
por observação ou por leitura da experiência alheia, da expe
riência presente e passada das gerações. Porém, essa apropria
ção opera-se agora à base e em função da experiência pessoal
que continua a orientar a tentativa. A tentativa experimental
diversificou-se e acelerou-se sem perder por isso as suas virtu
des por assim dizer orgânicas.
É através desta tentativa experimental e não recorrendo a
lições escolásticas que as crianças de todos os tempos e países
tem aprendido e aprendem a andar correctamente e a falar
com perfeição a respectiva língua materna.
A criança pronuncia um dia certos sons que originalmente
só são o acidente de um grito mais ou menos expressivo com
a experiência, alguns desses sons adquirem, a posteriori. como
que uma justificação e um valor de relação. Representam um
triunfo experimental. A criança repete-os então até havê-los
integrado no seu automatismo vital. Outras experiências e
outros triunfos enriquecerão esta primeira linguagem que a
criança confrontará, ainda experimentalmente, com a expe
riência alheia. Novas palavras nascerão e definir-se-ão até elas
próprias passarem ao automatismo.
Nesta aprendizagem não intervém qualquer lição, qual
quer regra. Os erros acidentais de alguns adultos são sempre
superados e corrigidos pelas conquistas experimentais da vida.
22
Os resultados revelam-se tão perfeitos, que nenhum outro
método tem conseguido melhores. Salvo deficiências fisiológi-
cas graves, as crianças aprendem a falar a língua dos pais
como os pássaros aprendem a chilrear o canto das aves.
Mas mais importante ainda: não faltam exemplos compro-
vativos de que o talento dos conversadores mais subtis e dos
oradores mais eloquentes se deve não às lições escolásticas,
mas a este mesmo processo soberano de tentativa experimen
tal. Serão então as regras e as leis totalmente inúteis?
Constituem uma conclusão e não um ponto de partida.
Só revelam, aliás, certa utilidade quando o indivíduo já inte
grou a prática da língua no automatismo verbal. Antes desse
momento, antes da formação de uma base experimental ade
quada. o acentuar das regras surge como algo de antinatural,
que ameaça perturbar o processo de tentativa e falsear de
uma maneira irremediável todo o mecanismo de aquisição.
Objectam-nos muitas vezes que aquilo que é verdade para
a linguagem o não será forçosamente para as outras discipli
nas. Mas por que razão um processo cem por cento infalível
na aquisição de uma das aptidões humanas mais delicadas não
será extensível às outras conquistas?
O processo é global, regula a aprendizagem da marcha,
onde não intervém lição de espécie alguma, e está igualmente
na base de todos os actos correntes da vida, da música, do
canto, da pintura e das artes cm geral.
Em que consiste este método?
Deixamos a criança desenhar livremente desde a mais
tenra idade, a partir dos dois ou três anos. Vemos o lápis
começar por mover-se ao acaso sobre a folha. Depois surge
uma semelhança, nasce o primeiro êxito, que a criança repeti
rá até ao automatismo. Seguir-sc-ão outras tentativas, obter-
-se-ão outros êxitos, as tentativas falhadas serão automatica
mente abandonadas.
Sublinhamos que não se trata aqui do processo de tentati
va e erro mencionado por alguns psicólogos. Os gestos da
criança não são gratuitos. Seguem planos experimentais. Tem
uma finalidade, fruto por vezes de um princípio de apreciação
intuitiva individual, mas quase sempre suscitada por relações
com o meio ambiente onde a criança procura integrar-se. É
23
com vista a essa integração que se inspira nestes ou naqueles
camaradas, senhores já de uma invejável mestria. Coloca-se
naturalmente em uníssono com os actos conseguidos pelos
outros, tal como tenta vibrar em uníssono com uma paisagem
bela, com um objecto impressionante ou com obras-primas
dos adultos.
Mas - e isto é essencial - a criança não copia. Não
aproveita a experiência alheia para justapô-la à sua própria
experiência. Apodera-se dela assimilando-a, inserindo-a e inte
grando-a no seu processo de trabalho e de vida até por vezes
lhe conferir um cunho original.
É assim que o ensino segundo o método Freinet fomenta
um determinado estilo de escola, do mesmo modo que, na
sociedade em geral, a linguagem e as tendências espirituais e
vitais individuais assumem formas de cunho definido.
Verifica-se algo de semelhante ao que se passa com a
língua, permanetemente sujeita a uma entoação por vezes
indelével, característica do dialecto. O aluno constrói a sua
originalidade e procura o seu triunfo, enquadradonuma
atmosfera familiar que não constitui uma limitação, mas apenas
um elemento meteorológico e climático.
Não existe lição, mas impregnação decisiva.
Por este processo, sem regra preestabelecida, sem cópia
de modelos, sem qualquer explicação exterior, a criança atin
ge experimcntalmente o domínio do desenho. A partir desse
momento, sabe caminhar, e não são as explicações que pode
rão vir a dar-lhe que irão modificar a sua maneira de andar;
sabe falar e não terá mais do que aperfeiçoar a sua arte; sabe
desenhar e pintar e poderá enfrentar experimcntalmente
quaisquer dificuldades que dominará segundo os mesmos pro
cessos de impregnação viva.
Mas, dir-nos-ão. isso não condenará o indivíduo a perma
necer num estádio infantil, a fechar-se para sempre aos indis
pensáveis progressos proporcionados por uma iniciação metó
dica bem compreendida? Expusemos a primeira fase do mé
todo. Resta-nos agora examinar um outro aspecto das duas
formas pedagógicas: a nossa e a dos métodos que considera
mos tradicionais.
Se, no momento em que a criança se encontra em plena
elaboração experimental para chegar ao domínio da linguagem.
24
detivermos sistemática e autoritariamente o seu esforço com
plexo para ensinar-lhe a pronúncia e a leitura de palavras
exteriores à sua personalidade e ao seu pensamento, produzir-
-se-á um desfazamento e um desequilíbrio que irá retardar
certa e talvez irremissivelmente a sua evolução.
E o que sucederá à criança, que começou já a desenhar e
a pintar obras expressivas e originais, se lhe dissermos: “O teu
método dc principiante já não serve. Não podes continuar a
andar ao acaso, ao sabor dos caprichos. Tens de seguir um
outro método. Vamos isolar para ti a fim dc lhes graduares a
abordagem, as dificuldades que dantes encaravas temeraria-
mente na sua totalidade complexa; vamos ensinar-te a combi
nar os elementos constitutivos para que consigas reconstruir a
máquina, como o mecânico experiente monta as peças de
uma bicicleta. Desenharás linhas rectas, depois linhas quebra
das ou curvas; copiarás flores ou árvores. Revelar-te-emos os
segredos da perspectiva e da sombra quando desenhares à
vista o moinho de café ou o chapéu do director.”
Durante esse período, o processo pedagógico será coloca
do num pé pseudocicntífico: “Cantas muito bem, mas não
conheces as notas... tens de recuperar o atraso. Resolves os
problemas pelos processos ditados pelo bom senso da tua
experiência, mas há que aprender a solucioná-los pelo raciocí
nio. É preciso saber as regras da gramática e da linguística.”
Depara-se-nos, portanto, logo à entrada da escola, uma
transformação radical das normas de aprendizagem infantil. É
aí que temos de situar o hiato hoje tão discutido pelos
psicólogos. Tudo o que até então fora essencial para a cons
trução da vida torna-se bruscamente secundário e clandestino.
Uma verdadeira confusão vem perturbar e desequilibrar o
comportamento da criança, incapacitada para coadunar os
dados da inteligência escolar com as exigências da própria
vida.
Todo o comportamento escolar ulterior vai ser afectado:
a criança deixa de reconhecer-se nesse mundo novo que não
foi feito à sua medida e para o qual não divisa sentido nem
finalidade. O único recurso que lhe resta para não se afundar
consiste em macaquear as idéias c os gestos alheios.
25
Tal perturbação do comportamento, à prova de toda a
escolástica, é, infelizmente, um facto vulgar cujas consequên
cias e riscos se torna quase supérfluo sublinhar.
Pegue-se numa criança de seis anos, capaz de manejar o
lápis e as tintas com surpreendente facilidade, para quem cada
linha possua um sentido determinado e definitivo, para quem
cada pincelada se inscreva já magistralmente numa obra cons
trutiva. O desenho e a pintura são para esta criança activida-
des naturais e excitantes como a marcha, a linguagem, o
canto e a dança. Avança segura de si.
Leve-se a criança para uma dessas escolas maternais ou
infantis, como ainda há onde se pratica de braços cruzados a
cópia do modelo e a obediência cega às ordens do mestre,
com um Ersatz de melhoria técnica: o uso dos carimbos de
borracha, essa calamidade moderna. A professora circula entre
as filas e com gestos secos, imprime sobre cada caderno urna
flor ou uma banana que a criança colorirá durante parte da
manhã. Será depois a vez do quarto crescente, do quadrado,
do triângulo, etc...
Em poucos dias todo o encanto criador se terá esvaído
uma vez quebrado o traço de união entre a técnica e a vida.
Uma barreira de arame farpado terá vindo obstruir a estrada
real onde a criança avançava sem receio, saltando dos êxitos
para as conquistas. E, o que c mais grave, tal violação do seu
destino natural ter-lhe-á suscitado uma dúvida mortal. Con-
vencer-se-á pouco a pouco que se enganara no caminho e
começará a procurar em vão no nevoeiro, numa encruzilhada
para ela decisiva, as vias que de futuro deverá seguir. Sejam
quais forem os fracassos que a esperem, arrisca-se, contudo, a
nunca mais retroceder para reencontrar os degraus originais de
uma ascensão harmoniosa. Poderemos, quanto muito, sugerir-
-lhe atalhos.
É neste erro de agulhagem que devemos procurar a verda
deira causa das deficiências crescentes que as crianças revelam
perante as dificuldades escolares. Desorientados, os alunos
sentem-se perdidos e desanimados. Perdem a vontade de pro
curar e de criar. A curiosidade embota-se e vai-se extinguindo
progressivamente; são como essas crianças a quem uma ali
mentação errada tirou o gosto pela comida e a quem se teve
26
de “enfiar” a papa pela boca, colher por colher. Tal falta de
apetite pode chegar à anorexia.
Os nossos alunos estão mais do que nunca a ser vítimas
de uma espécie de anorexia mental c torna-se forçoso que os
educadores comprometidos no impasse encontrem vias e pro
cessos susceptíveis de impedir o paciente de morrer à fome,
recorrendo, se necessário, à alimentação artificial. Na presente
conjuntura de uma escola desligada da vida, é evidente que os
processos naturais escasseiam, As soluções escolásticas surgirão
talvez como as únicas possíveis no meio escolástico. Iremos
demonstrar a sua vaidade e nocividade ao modificar um mun
do impregnado pela actividade livre e criadora, pelo desejo de
trabalho, pela sede de enriquecimento e conhecimento e pela
vida.
Neste mundo, tal como nos vários planos da evolução
infantil, o indivíduo nunca se de tem a meio caminho, a não
ser que graves defeitos fisiológicos venham dramaticamente
travar-lhe o progresso. Na via de crescimento em que se
empenhou, não há paragem que a criança não tente superar.
Jamais se viu uma criança deixar subitamente de falar - isso
seria a morte ou o seu prelúdio. Jamais se viu uma criança
deixar de andar para voltar a gatinhar.
No processo da tentativa experimental, depositamos uma
confiança total nesta característica universal da vida que ten
de a ultrapassar-se e a ampliar-se.
A criança realizou as suas primeiras experiências laborio-
samente mas numa exaltação constante. Desenvolveu-as, apro
fundou-as e ajustou-as às necessidades vitais inspirando-se nas
riquezas do meio e continuará a expandir a sua cultura
segundo a mesma técnica. Mas neste estádio já não se conten
tará em imitar os camaradas mais hábeis, quererá investigar e
informar-se nos livros, nos museus, nas exposições para deles
extrair o suco donde fará o seu mel.
O método de expressão livre, cujas virtudes tão apressada
mente enunciámos, não é, como se vê. uma simples fórmula
de arte espontânea onde o educador se limite a observar c a
deixar seguir.
A mãe não se contenta em escutar o balbuciar do filho,
fala-lhe constantemente. A velocidade e qualidade da aquisi
27
ção infantil serão função da riqueza não só formal mas
também afectiva do exemplo permanente que ela oferece às
suas experiências.
O processo é realmente infalível, mas pressupõe uma
reviravolta total da técnica educativa; em vez de situarmos no
início da aprendizagemo estudo sistemático das leis e das
regras, inserimos a tentativa experimental da criança num
meio rico, acolhedor e propício, que lhe oferece flores perfu
madas com que fabricar o seu mel. O estudo das regras e das
leis só virá mais tarde, quando o indivíduo tiver transformado
as suas experiências em indeléveis técnicas de vida.
Não vamos esperar que o método natural de desenho e de
pintura desabroche numa atmosfera escolar tradicional, onde
vigora um sistema dc deveres e lições acompanhado das san
ções inerentes. Pelo método escolástico, a criança adquire,
tanto na música, no francês, nas ciências e no cálculo como
na arte, o hábito de esperar a ordem e o pensamento exter
nos. Já não exerce a iniciativa e o pensamento próprios.
Suporta e segue. A função criadora vital encontra-se paralisa
da c destruída. Poderá produzir obras verdadeiramente impe
cáveis sob o ponto de vista técnico, mas essas obras não terão
alma. E, sem uma alma vivificadora da técnica, já não há arte
nem cultura.
A escola que denunciamos e desejamos reformar, incutin
do-lhe eficiência e fervor, costuma, como último recurso,
louvar os êxitos espantosos dos desclassificados e dos anor
mais que escapam à sua influência, da mesma forma que a
sociedade dá como exemplos, depois de mortos, os poetas e os
artistas malditos que nunca conseguiu dominar.
Não queremos que a arte constitua privilégio de crianças
malditas, na perseguição clandestina dos seus sonhos. É toda a
infância e toda a adolescência do nosso século que pretende
mos, através da nossa intuição e ciência, gizar da tentativa
experimental até à cultura e à arte, os supremos atributos do
homem que procura realizar o seu destino numa sociedade
onde terá garantido as virtudes ideais da liberdade, da igualda
de. da fraternidade e da paz.
Tentou-se até agora aclimatar o desenho da criança desde
o seu aparecimento às normas escolares, mas só se conseguiu
28
abastardá-lo e destruí-lo. Ser-lhe-ia preciso escapar clandestina
mente à iniciativa adulta para dar, nas paredes, nas portas e
nos cadernos, urna ideia daquilo em que um dia se tornaria,
quando os educadores compreendessem finalmente as condi
ções indispensáveis ao seu florescimento.
Permitimos e conseguimos tal florescimento através das
Técnicas Treinei de expressão livre e em virtude da poderosa
motivação de uma pedagogia ousadamente centrada no traba
lho integrado na comunidade social viva. E, neste clima novo,
o desenho retomou naturalmente o seu lugar, o primeiro,
talvez, pelas satisfações profundas que nos traz, pelas alegrias
que nos proporciona e pela possibilidade permanente que nos
oferece de exprimir de uma forma subtil e espantosa toda a
humanidade fervilhante e misteriosa de que a infância conti
nua a ser repositório.
O que se segue é um estudo deste desenho vivo, expres
são de uma personalidade a braços com a vida. Diferenciar-
-se-á necessariamente, nos seus processos e conclusões, dos
trabalhos similares, alguns deles clássicos, mas que considera
mos hoje ultrapassados pelas realizações mais espontâneas e
estatisticamente mais significativas das crianças que, no seio
da Escola Moderna, continuam incessantemente a alimentar o
nosso movimento de Arte Infantil.
E óbvio que os psicólogos e os pedagogos só podiam
ocupar-se do existente: do desenho escolar ou, na melhor
das hipóteses, do desenho como evasão acidental de uma
atmosfera que lhe era mortal. O estudo do desenho livre das
crianças pressupunha a eclosão e o desabrochar de expressão
infantil. O nosso trabalho representa, portanto, ao mesmo
tempo um fim e um começo, o despertar de uma nova
compreensão da vida e da cultura dos nossos filhos.
De facto. será muito pouco limitarmo-nos a afirmar a
dificuldade que o desenho tem de se desenvolver no clima
escolar. Lembremo-nos, todavia, que o desenho livre foi sem
pre e continua frequentemente a ser o maior inimigo do
pedagogo, que o considera nocivo e perigoso na medida em
que não se gera nem desenvolve segundo as regras tradicio
nais.
No nosso método natural de leitura, demonstrámos que é
escrevendo que a criança aprende a ler e a escrever. Chegou a
29
vez do método natural de desenho comprovar que é dese
nhando que a criança aprende a desenhar.
Mas, dir-nos-ão, é preciso que ela queira e saiba desenhar
e que a chama que a anima não se extinga prematuramente —
o que será fatal se, em vez de a ajudarmos a triunfar, a
desencorajarmos antecipadamente com a preocupação anormal
e desumana de fazer prevalecer, na prática do desenho, a
forma aprendida e morta sobre o fundo vivo e dinâmico.
Não se fala na escola como se fala em casa ou na rua.
Uma redacção tradicional conserva sempre o ar falso e con
vencional de prova para diploma de estudos. Quanto ao de
senho, a hesitação desajeitada da criança diante da página em
branco e a secura dos seus grafismos destituídos de vida
bastam para nos denunciar a presença da escola e convencer
mos de que tudo está por refazer se quisermos devolver-lhe a
profundidade e o dinamismo naturais.
Entre nós a criança escreve como fala, com a mesma
decisão e a mesma segurança. As nossas técnicas levam-na a
desenhar com uma audácia, uma originalidade e uma decisão
surpreendentes. As suas obras constituem a expressão da sua
vida e personalidade, sendo legítimo considerá-las como mar
cos de uma ciência toda ela ainda por construir.
Daqui se concluirá que antes da revolução pedagógica
que operámos no processo escolar e excluindo um ou outro
triunfo excepcional, a criança, presa ao pesado sistema tradi
cional, não se exprimia através da escrita nem do desenho e
que nem os psicólogos nem os pedagogos dispunham de
documentos autênticos que pudessem estudar e interpretar.
Para voltarmos à nossa comparação: podiam discutir o com
portamento da ave na gaiola, mas ignoravam-lhe o compor
tamento na liberdade do seu ambiente natural. E facilmente
se reconhecerá que a diferença que os separa não e mera
questão de forma, mas atinge a essência. As observações
baseadas nos desenhos de crianças engaioladas não são válidas
para as obras das crianças das nossas escolas modernas. Foi
esta diferença de natureza que tornou imprescindível este
trabalho.
Desejamos:
... que persuada os educadores da urgente necessidade de
30
sacudirem a poeira deformantc da escolástica e de se coloca
rem ousadamente ao serviço da Vida;
... que dé um impulso irresistível a uma técnica de traba
lho cujos êxitos deixam bem longe os pálidos resultados dos
métodos superados;
... que apazigue os receios dos pais, mostrando-lhes os
progressos seguros realizados no sentido de uma nova concep
ção de arte e de cultura, que embelezará e exaltará a vida do
povo;
... que a prática do desenho livre, a nível da escola
popular, ajude os educadores a compreendei e a apreciar uma
pedagogia que se pretende prioritariamente ao serviço da vida,
no meio que a criança será amanhã chamada a dominar e a
transformar.
31
O QUE É O DESENHO?
O que é o desenho?
Porque desenha a criança?
A escola responderia que a criança desenha porque lhe
dão lições e a obrigam a fazer exercícios de desenho. Diria
que a criança desenha para aprender a desenhar, isto é, para
copiar exactamente um modelo ou para realizar um esboço
cotado, e que o desenho aprofunda a observação e cultiva o
sentido do gosto e da harmonia. Não nos surpreendamos se,
com tais motivações e finalidades tão estreitamente utilitárias,
a escola não avança muito neste domínio.
Não pretendemos ser os primeiros a formular tais críticas.
Houve psicólogos e pedagogos que, ultrapassando a concepção
estreita da escolástica, vislumbraram a necessidade de estudar
os desenhos que as crianças ou, pelo menos, certas crianças
produziam espontaneamente na escola. As suas observações
São-nos úteis. O facto de pensarmos ir mais longe do que eles
na compreensão nova do desenho de forma alguma nos levaria
a subestimar o auxílio directo ou indirecto de que beneficiamos.
No entanto, o que criticamos nos seus trabalhos é a
orientação: o desenho não surge integrado numa fórmula de
vida, tal como não surge integrado numa fórmula de acção
pedagógica. Num sistema escolar onde a educação continua
divorciada do meio que deveria constituir o seu indispensável
elemento vital, o acto de desenhar permanece misterioso na
sua concepção, evolução e conclusão. À falta de melhor, os
pedagogos tentaram explicar e justificar o desenho pelo jogpo,
33
Ronaldo Novaes
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Ronaldo Novaes
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pelo acaso, pela ontogénese e pela magia, considerações todas
elas dependentes do pensamento adulto, dos seus cânones e
das suas leis. O psicólogo encontra-se assim na obrigação de
detectar nos grafismos infantis todas as falhas do pensamento
adulto e de catalogá-las como defeitos inerentes à mentalidade
da criança. Partindo do falso princípio de que a ideia que a
criança tem de um objecto se traduz na representação gráfica
que faz desse objecto, estabeleceram-se testes graduados em
categorias arbitrárias, cuja utilização não é destituída de peri
go. Tal prática valeu-nos sábias construções livrescas que, no
entanto, não satisfizeram a pergunta elementar que os pais e
os educadores faziam a si próprios: por que razão desenha a
criança?
É a ela que nós queremos responder. A resposta, aliás,
integra-se no âmbito da psicologia que definimos no nosso
livro: Ensaio de psicologia sensivel (1), fruto de uma experiên
cia prática conduzida sem qualquer apriorismo em vários
milhares de escolas populares que constituem um dos mais
importantes e eficientes laboratórios vivos de psicologia e de
pedagogia dc hoje e de sempre.
Ao considerarmos a expressão escrita infantil, mostrámos
e provámos, pela prática, que ela surge e evolui exactamente
segundo o mesmo processo que preside ao aparecimento e ao
desenvolvimento da linguagem(2). Vamos agora demonstrar
que a expressão gráfica nasce e cresce segundo o mesmo
processo da expressão oral e da expressão escrita. Se conse
guirmos tornar sensível, não só em teoria mas também na
prática, a unidade de concepção e de acção que liga a psicolo
gia à pedagogia e à vida, forneceremos aos educadores um
elemento harmonizador de primeira importância para a nova
compreensão e eficiente exercício da sua profissão.
Não há um problema de desenho, tal como não há um
problema de redacção. Existe, sim, um processo de vida, de
enriquecimento e de crescimento no qual devemos integrar as
formas diversas e complexas da expressão infantil. São as
fases naturais e normais do processo de desenho livre que
vamos procurar definir.
(1) Edições Delachaux ei Niesllé.
(2) Método natural de aprendizagem da língua (Editorial Estampa).
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Se o processo é, na sua natureza, nas formas e nos
objectivos, o mesmo que preside ao domínio infantil da
técnica da expressão oral, num tempo incrivelmente curto,
bastar-nos-á comparar ponto por ponto ambos os processos de
aquisição para descobrir a chave que irá orientar-nos ao longo
deste estudo. Melhor nos aperceberemos então de que, como
todas as conquistas humanas, o domínio da expressão pelo
desenho, como o domínio da expressão pela palavra, se reali
za segundo o processo da tentativa experimental já por nós
definido em várias obras.
Nenhuma aquisição, seja ela manual, intelectual, social ou
moral, surge espontaneamente cm virtude de um dom ou de
uma faculdade surpreendentemente monopolizados pela espé
cie humana. Todas as conquistas do homem — todas as
conquistas do ser vivo resultam da experiência vital e
ambiental posta ao serviço da superior e geral necessidade que
ele tem de crescer, de vencer os obstáculos que perturbam
essa evolução, de afirmar a personalidade, de subir o mais alto
possível e de perpetuar-se na carne e nas obras.
Determinámos as regras essenciais da tentativa experimen
tal. Vamos agora ocupar-nos sumariamente das etapas essen
ciais do processo.
- Na série quase infinita dos actos que o indivíduo
pratica para viver e dominar o meio, só alguns resultam, isto
é, só alguns lhe conferem pelo menos uma parte do poder de
que tem necessidade para subsistir.
- Todo o acto conseguido se reproduz. Tal reprodução
do acto repete-se até automatizar-se, até incorporar-se no
comportamento individual como uma regra ou técnica de vida
que, por esse facto, passa a dispensar qualquer reflexão ou
tentativa, até enraizar-se como um acto instintivo seguro.
— Estas experiências conseguidas e automatizadas consti
tuem como que os degraus sólidos de uma escada de acesso
aos andares superiores. Enquanto não dominar a marcha, a
criança só pensará em dominar o equilíbrio. Uma vez senhora
desse equilíbrio, poderá então partir para outras experiências.
- O exemplo alheio poderá, caso corresponda às necessi
dades do sujeito, inscrever-se no seu comportamento a título
de experiência conseguida, É este grande princípio que ilumi
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na o papel do exemplo na educação. A experiência por
tentativas de forma alguma poderia negligenciar tal exemplo.
— A rapidez com que o indivíduo se apodera de uma
experiência conseguida e a automatiza antes de prosseguir a
tentativa experimental noutros sectores surge-nos justamente
como o verdadeiro sinal de inteligência.
Há seres que precisam de repetir dez ou cem vezes o
mesmo gesto antes de dominá-lo, o que nem sempre conse
guem com perfeição. São os indivíduos pouco inteligentes,
atrasados ou anormais. Outros há, pelo contrário, a quem
uma única experiência basta para imprimir um traço indelével
ou a quem o simples facto de presenciarem a experiência
alheia ou de lhe examinarem a imagem permite a aquisição
definitiva do processo. São os indivíduos inteligentes, os que
atingem os andares cimeiros, aqueles que, sem hesitações,
sobem a escada degrau a degrau ou mesmo de quatro em
quatro, enquanto que os menos inteligentes se exercitam dez
ou cem vezes para subir a mesma escada.
Tal constatação autoriza-nos a estabelecer na nossa peda
gogia o princípio da escada, onde cada degrau dispõe de dois
tempos: o da repetição e o do êxito. É a rapidez destes passos
que nos informa sobre aquilo a que chamamos a permeabili-
dade à experiência, ou seja, a inteligência.
A concluir este estudo apresentaremos a nossa escada de
desenho dos zero aos seis anos, cujos vários patamares seguem
passo a passo a evolução do desenho em função do comporta
mento infantil.
— A experiência por tentativas é, pois, função do exercí
cio motivado pela vida num meio normal e humano, dotado-
tanto quanto possível, de exemplos susceptíveis de se inscre-
verem na experiência infantil.
— Esta tentativa experimental não constitui, como tantas
pretensas leis psicológicas e pedagógicas, uma construção arti
ficial a que apenas alguns especialistas podem recorrer. É a
grande lei, a grande técnica da vida, da experiência e da acção
não só infantis como adultas; é um dos fundamentos da
investigação científica, uma vitória da vida sobre o dogmatis-
mo cujos malefícios tentamos reduzir.
Antes de entrar no âmago da questão, desejaríamos preci
sar ainda as intenções dos nossos passos que, partindo da
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Ronaldo Novaes
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prática, visam pôr à prova uma teoria que não é senão a
conclusão da experiência.
É, pois, com a preocupação de pôr ao alcance da grande
massa dos educadores e dos pais a prática do desenho espon
tâneo que damos aqui as directrizes essenciais capazes de os
orientar e de lhes lazer compreender o sentido global dos
trabalhos dos filhos. Portanto, este livro deve ser considerado
como o primeiro patamar de um estudo mais completo visan
do o conhecimento do desenho infantil sob todas as suas
formas. Assim, torna-se forçoso esquematizar em extremo a
nossa teoria fundamental da tentativa experimental, procu
rando ligá-la indissoluvelmente à prática pedagógicado dese
nho infantil.
É na fraternidade do trabalho de base que iremos prepa
rar esta pedagogia experimental que nos dará as primeiras
garantias de uma educação científica e humana digna do
futuro da criança.
I. Primeiros grafismos
Para termos a certeza de não nos desviarmos do nosso
caminho, iremos estabelecer, através deste estudo, um paralelo
constante entre a evolução do desenho e a evolução da
linguagem, por um lado, e acidentalmente o nosso método
natural de leitura que segue o mesmo processo, por outro.
Os nossos leitores habituar-se-ão, assim, a seguir esponta
neamente as linhas mestras desta evolução e a reencontrar as
directrizes que a escolástica radical definitivamente nos
dissimulara.
Ao nascer, a criança grita porque o seu aparelho respira
tório e a conformação da sua laringe são tais, que produzem
sons à passagem do ar.
Existe, na origem da longa experiência por tentativas que
irá encaminharmos para a expressão falada, uma realidade
fisiológica: as possibilidades oferecidas por um órgão utilizado
como instrumento de expressão e a cujo aproveitamento in-
cessantemente diferenciado assistiremos.
37
O mesmo sucede com o primeiro grafismo.
Existe, na base, uma realidade material: a possibilidade de
dispor de um instrumento - lápis, giz ou esferográfica — que
produz o primeiro traço.
A criança começa por servir-se deste instrumento como de
um pau ou de uma chucha e depois, talvez por acaso ou por
ter visto o adulto usá-lo para traçar sinais no papel, lembra-se
de apoiar numa superfície plana o lápis ou o giz que deixam
um risco.
Ao primeiro grito corresponde o primeiro grafismo. Ma-
riette (1 ano e 5 meses).
38
II. Primeira repetição dos grafismos conseguidos
Embora seja prematuro ver nos gestos e nas primeiras
reacções de uma criança de tenra idade um embrião de
comportamento raciocinado, não deveremos por isso deixar
de considerar-lhes um sentido e uma razão de ser.
Os princípios da experiência por tentativas (1), bem como
a lei que preconiza o menor esforço para um máximo de
rendimento e que surge como uma das grandes normas do
comportamento dos seres vivos, fazem com que o indivíduo
tenda a repetir o acto conseguido.
A criança deu um grito e, intuitivamente, a sua repercus
são no ambiente revelou-lhe que foram um triunfo. Tende a
repeti-lo, desconhecendo ainda como aproveitá-lo, por simples
necessidade de alcançar um domínio fisiológico desse êxito.
Com o lápis ou o giz que segurara nas mãos e que
utilizara quer acidental quer imitativamente, a criança obteve
um primeiro grafismo que lhe parece, por mais imperfeito que
seja, uma afirmação do seu poder.
(1) Ver Ensaio de psicologia, Delachaux et Niestlé.
39
Fig. 2
O acto conseguido, tal como o grito, tende a repetir-se. O
giz ou o lápis, que por acaso ou imitação proporcionaram à
criança um primeiro êxito, vão agora ser voluntariamente
procurados e utilizados por ela para repetir o acto consegui
do, até à conquista de um domínio satisfatório que lhe
permita novas experiências.
Por experiência e por tentativas, a criança agarra sem hesi
tar o lápis pela extremidade certa e orienta, pouco a pouco e
conforme os seus desejos, o traçado dos primeiros grafismos.
Os traços, inicialmente direitos, sobrepostos ou mesmo
circulares, complicam-se gradualmente com a introdução de
linhas quebradas que surgem como um desejo ainda tosco de
dominar o instrumento e orientar o seu uso no sentido de
formas que representam já um começo de diferenciação. Bru
no (2 anos e 3 meses).
Aperceber-nos-emos disso ao examinar os documentos
2 e 3 que, com 2 anos e 3 meses e 2 anos e 4 meses, denotam
Uma maior segurança de gesto. Dominique (2 anos e 4 meses).
40
Fig. 3
III. Primeiro êxito especializado
Através da experiência por tentativas, a criança toma
consciência dc que os seus gritos podem aumentar-lhe o
poder, ampliar-lhe e reforçar-lhe a personalidade e proporcio
nar-lhe meios novos para triunfar na vida.
Quer agarrar a colher que reluz em cima da mesa e, para
consegui-lo, repete os gestos mais ou menos coordenados
resultantes das suas experiências anteriores. Impotente ou
irritada, solta um grito e uma mão compadecida aproxima a
colher cobiçada. A criança venceu.
Para a próxima vez que se trate de agarrar uma colher,
repetirá o grito que constituiu para ela um primeiro êxito
especializado.
O processo que vai definir a nova etapa da evolução do
grafismo infantil é o mesmo.
A criança, irritada por ter feito riscos circulares, esboça
com gestos mais bruscos traços angulosos, riscos carregados c.
por fim, fatigada, acaba por dar grandes pancadas com o bico
do lápis. E eis que nascem pontos e manchas que, em relação
ao grafismo previamente adquirido, surgem como um novo
41
Fig. 4
triunfo, já mais especializado, que a criança tenderá a repro
duzir mecanicamente até dominar.
Daí em diante, aos seus riscos redondos irá acrescentar
pontos c manchas, da mesma forma que acrescentara o grito
aos seus gestos.
Este grafismo será mais particularmente um triunfo, se o
adulto ou as outras crianças parecerem dar-lhe importância. A
repetição deste grafismo conseguido e mais especializado auto
matiza-se e eis-nos perante a conquista dc um novo patamar.
Mariettc e Bruno (2 anos e 4 meses).
IV. O desenho, meio de acção sobre o ambiente
O grito, jú especializado e dotado de uma finalidade, vai
ser usado pela criança sempre segundo o mesmo processo,
para alargar a sua acção sobre o ambiente e para aumentar o
seu poder.
A criança apercebeu-se de que, ao gritar de uma certa
maneira, a colher lhe ficava ao alcance da mão. Soltou em
42
Fig. 5
seguida o mesmo grito quando desejava o biberão. E, na
medida em que obtinha satisfação, foi repetindo o seu êxito
até dominar-lhe a técnica e antes de se lançar em noras
tentativas.
É a esta mesma etapa do processo que vamos agora
assistir no âmbito da evolução do desenho infantil.
Sc, em redor da criança, ninguém notar essa mancha
negra no meio dos rabiscos, ela ficará sem eco nem efeito,
como um grito que a criança houvesse soltado e não tivesse
sido ouvido. A criança não lhe dará qualquer importância ou,
pelo menos, qualquer valor vital. Passará a outras tentativas
experimentais.
Sc vir, porém, que lhe admiram esse primeiro triunfo,
fará — ou tentará fazer - um desenho semelhante para
agradar, para ter um novo desenho capaz de suscitar o louvor
ou. pelo menos, a apreciação daqueles que a rodeiam.
A criança esforça-se então por reproduzir a sua vitória,
como fez Mariette (2 anos e 5 meses) no desenho n.° 6.
vitória que aqui se traduz nos pequenos grafismos isolados,
preciosos sem dúvida pela sua pequenez c estranhos ao auto-
matismo.
Mas a criança não distingue qualquer identidade nesse
grafismo. Trata-se de um mero triunfo de linhas sem qualquer
43
Fig. 6
valor intrínseco. Neste estádio não tenta ainda explicar o seu
desenho, que nada significa, a monos que represente uma
forma global, imitada do adulto.
Todavia, talvez por lhe haverem perguntado: "O que
desenhaste?" Ou por ter visto um companheiro desenhar
círculos, automóveis ou flores, tenderá agora a interpretar os
seus grafismos.
44
Fig. 7
É o que faz Nicolc (2 anos e 5 meses) que, num grafismo
ainda muito próximo dos documentos anteriores, distingue,
com extrema boa vontade e com a cumplicidade do seu
primo Alain, uma maçã e uma flor.
É a mesma boa vontade, inspirada sem dúvida pelas
mesmas razões, que leva Mariette (2 anos e 5 meses) a distin
guir sobre o papel "um sol, biscoitos, a lua, o medalhão da
mamã" c até “o coração da flor”.
45
Fig. 8
As considerações do ambiente têm, no processo da tenta
tiva experimental, muito maior relevância do que se pensa,
São elas que constituem definitivamente as verdadeiras condi
ções determinantes da educação.
Se é raro ouvir conversas em seu redor, se o ambiente
— pais, professores ou camaradas não dá importância aos seus
primeiros gritos, a criança não sentirátão depressa a alegria
de exprimir-se com êxito, levará mais tempo a aprender a
falar.
O mesmo sucede com o desenho: se a criança se encontra
num ambiente onde o instrumento não desempenha qualquer
papel, se não vê desenhar, se não vê adultos ou outras
crianças servirem-se de um lápis, se não tem alguém à sua
volta que dê atenção às suas primeiras produções, experimen
tará menos intensamente e menos depressa o sentimento do
êxito através do desenho. Terá menos tendência para utilizar
o desenho como meio de acção sobre o ambiente e, mais
tarde, como forma de expressão,
Foi o que aconteceu à nossa geração, que viveu a infância
no começo do século: falta de papel, poucos lápis, giz muito
caro; daí a tendência dos adultos, tanto pais como educado
res, considerarem o desenho como algo de perigoso e rigorosa
mente proibido. Resultado: o desenho jamais constituiu para
nós um meio de acção ou de expressão.
Hoje, as condições tornaram-se ou tendem a tomar-se
totalmente diferentes. O suporte papel ou cartão - e de
uso muito mais corrente, o mesmo sucedendo com os instru
mentos - lápis, esferográficas, giz, tintas, etc. A criança
encontra desenhos por toda a parte: nos jornais, nos livros,
nos anúncios e nos papéis de embalagem. O próprio público
começa a interessar-se de facto pelos desenhos infantis, que
retomam gradualmente o seu lugar normal no processo de
crescimento e de vida do mundo contemporâneo.
Cabe aos professores e às professoras modernizar o méto
do do seu ensino neste domínio, como tentam modernizá-lo
em relação à expressão escrita e oral, de modo a criar nas suas
classes um clima favorável à eclosão e ao desenvolvimento
normal do desenho infantil.
46
V. A criança descobre os primeiros triunfos e,
por repetição, aperfeiçoa-os e aprende a dominá-los
A tentativa experimental faz-se por patamares: em cada
patamar, a criança consolida a sua experiência até automati
zá-la.
Por imitação, por acaso ou por decisão com um obecti-
vo, aprendeu uma palavra nova que lhe dá novos poderes e
um maior sentimento de domínio. Durante um certo lapso de
tempo, repete incessantemente essa palavra mágica até sur
preender o seu meio ambiente. Necessita de alicerçar o seu
patamar: as suas reacções processam-se mecanicamente como
reflexo da intensidade do apelo e das variações das circunstân
cias ambientes. Uma vez o patamar bem assente, poderá
apoiar-se nele para subir aos andaimes da próxima construção
a empreender.
47
Fig. 9
É este mesmo processo que iremos encontrar ao longo de
toda a aprendizagem do desenho: grafismo conseguido, repeti
ção mecânica desse grafismo para automatizá-lo, início de
uma nova etapa a partir do primeiro patamar, novo triunfo,
nova repetição, etc. Nicole (2 anos e 8 meses).
VI. Bifurcação
Se, no momento de ajustar os seus triunfos para os
transformar em palavras já ricas de conteúdo e possibilidades
- sobre as quais irá construir a sua linguagem —, o meio
familiar ou social usar duas línguas diferentes, a criança ver-
-se-á assediada por ambas, o que complicará perigosamente a
experiência tentada.
A que língua ajustará os seus triunfos vitais? Há quase
sempre uma que, por razões diversas, mais ou menos lógicas e
das quais não iremos ocupar-nos, adquire supremacia sobre a
outra e acaba por afirmar-se na prática. E ela que mais
frequentemente solicita o fenômeno da imitação. Os gestos ou
os actos imitados são, a principio, exclusivamente automáti
cos.
O mesmo acontece com o desenho.
A tendência da criança para a imitação não passa da
inserção natural da acção exterior no processo da sua própria
tentativa. A criança não imita seja o que for; imita com uma
finalidade, da mesma forma que faz tentativas para uma
finalidade.
Bal (3 anos e 10 meses) descobriu que os seus desenhos
são um meio essencialmente prático de acção sobre o meio,
que não exigem uma imitação laboriosa nem estão sujeitos a
erros graves. Por isso, desenha grafismos bem definidos na
carta que o pai escreve à avó: um pato, o automóvel, a flor,
etc. Mas toma consciência da escrita adulta, da sua rapidez e
dos seus sinais dispostos em linha. Assim, na carta à avó,
sente necessidade de reforçar a sua aquisição gráfica com a
imitação da escrita, um meio de expressão até então desco
nhecido.
48
O processo empregado para o desenho transfere-se agora
para a escrita, impelindo a criança para experiências por tenta
tivas que a conduzirão igualmente ao seu domínio. Não insis
timos no processo, que se encontra, aliás, pormenorizadamen-
te exposto na nossa brochura Método natural de leitura (1).
(1) Método natural de aprendizagem da língua (Edilorial Estampa).
49
Fig. 10
Eis, por exemplo, um desenho de Alain (3 anos e 2 me
ses) que mostra a criança dividida entre ambos os grafismos:
desenha, segundo a sua técnica primitiva mas expressiva, um
automóvel e escreve ao lado, ou pelo menos pretende escre
ver, a palavra automóvel. Como se pronunciasse a mesma
palavra de duas formas diferentes num meio familiar bilingue.
Em virtude das práticas escolares, a criança acha-se, por
volta dos quatro anos de idade, numa bifurcação que frequen
temente pode perturbá-lo, Se, com a continuação, sente que
se exprime melhor através da escrita do que através do dese
nho e, por conformismo, o meio a encoraja nesse sentido,
pode acontecer que deixe completamente de desenhar por
não experimentar qualquer necessidade de faze-lo.
Mas, salvo uma pressão decisiva por parte do adulto ou
da escola, trata-se de um caso raríssimo. O êxito alcançado
pelo desenho é nessa idade tão completo, tão profundo e tão
subjectivo, que a criança o conserva durante largo tempo
como o seu principal meio de acção e de expressão, reconhe
cendo à expressão escrita um carácter meramente acessório ou
complementar.
Nesta bifurcação, a acção da escola ou do adulto podem
conduzir a uma escolha donde depende toda a evolução
gráfica ulterior. O facto de tantas gerações haverem desapren
dido o desenho, de tantas crianças perderem aos 7 ou 8 anos
toda a aptidão e originalidade gráficas, deriva de um erro que,
aquando desta bifurcação inevitável, obstruiu a estrada real,
lançando as crianças - bem contra sua vontade no caminho
debilitante da técnica escolástica.
50
Fig. 11
Os nossos alunos podem aprender duas línguas e é eviden
te que ficarão particularmente apegados àquela que lhes pro
porcionou os primeiros êxitos. Podem desenhar e aprender a
escrever sem prejuízo desta aprendizagem; o desenho perma
necerá como que uma forma dc expressão mais subtil e
pessoal que, adquirindo feição artística, se tornará progressiva
mente num aspecto sempre comovente da cultura ao serviço
da vida.
Se, portanto, evitando uma falsa agulhagem da bifurca
ção, se soube preservar todo o entusiasmo da criança por este
meio ideal de expressão, ela contar-nos-á e contar-se-nos-á
através do desenho. Não se limitará a exprimir-se através da
forma anedótica da escrita, mas lançará mão dc um veículo
sensível que ultrapassa a língua e a escrita e faz pressentir as
regiões superiores do pensamento abstracto e da Arte.
VII. Justaposição de grafismos
Uma vez dominada a pronúncia de uma palavra, a criança
repete-a dez, cinquenta vezes, somente com o objectivo de
consolidar a técnica.
Ao repetir a palavra acabada de adquirir, repete igualmen
te as restantes já automatizadas, como se medisse e fizesse
valer as suas riquezas.
Quando se lhe pede que divirta uma assembleia, também
repete automaticamente tudo o que sabe: gestos, caretas ou
palavras, sem outro nexo a não ser a sequência automática
das suas aquisições.
É o mesmo processo que se verifica no desenho. Se a
criança tiver à sua disposição vários cartões pequenos, repro
duzirá em série os grafismos isolados cujo domínio está ten
tando adquirir: um automóvel, uni homem, um pássaro...
Assistiremos à sua evolução até tipos que pouco a pouco
acabarão por se integrar em grafismos complexos.
Mas se dispuser de uma folhamaior, tratará de enchê-la e
fá-lo-á com reproduções das séries de tipos que já domina.
51
Num grafismo precedente, Michel (4 anos) conseguiu tra
çar algo semelhante a um caracol. Dispõe de uma página em
branco: no meio coloca naturalmente o seu tipo de caracol e,
para preencher o resto do espaço vazio, desenha caracóis e
mais caracóis, seja porque ainda não automatizou outro grafis
mo. seja porque pretende repetir o grafismo do caracol para o
integrar no seu automatismo.
52
Fig. 12
Neste desenho, a mesma criança (4 anos c 6 meses) fez
como a vedeta que diverte a assembleia e repete tudo o que
sabe. Justapôs sobre a folha de papel todos os grafismos que
domina: o menino, as pedras, o sol. o pássaro, a mesa, a
árvore e até o nome do autor, sem qualquer sentido ou
finalidade.
Jacques (4 anos e 6 meses) também justapôs sobre o pa
pel todos os grafismos que dominava: a casa, a casa dos
coelhos que é uma sua redução - a criança, a árvore, o
chinês e a senhora que parece um grafismo falhado, suscep
tível de dar origem a novas descobertas gráficas.
53
Fig. 13
Fig. 14
Fig. 15
Dominique (4 anos e 7 meses) possui grafismos muito
mais evoluídos, mas que não se apresentam menos justapostos
e desconexos.
Fig. 16
54
Claudc (4 anos c 9 meses) aperfeiçoou seriamente e com
plicou mesmo os seus grafismos. limitando-se. todavia, a tra
tá-los como palavras que adquiriram com a continuação um
certo sentido e valor vitais, mas que permanecem justapostas
e desligadas.
Enquanto os elementos gráficos continuarem a apresen
tar-se meramente justapostos sobre a folha, qualquer que seja
a perfeição dos tipos, a etapa ainda não foi ultrapassada.
VIII. Como se aperfeiçoa o elemento gráfico
Os sons ou as palavras mais ou menos isolados, por vezes
arbitrariamente, da construção complexa que lhes deu origem
vão, durante um lapso de tempo variável, levar unia vida de
certo modo individual.
A criança repete a palavra pelo prazer de repetida e,
simultaneamente, ajusta-a por vezes experimentalmente aos
restantes elementos da sua linguagem e da sua vida para lhe
conferir o seu verdadeiro sentido dinâmico, o seu sentido
prático usual
Veremos como este mesmo processo se reproduz, no de
senho; iremos analisá-lo mais atentamente devido à sua extre
ma importância para a compreensão e para a evolução do
desenho infantil.
A repetição aperfeiçoada do tipo gráfico
O elemento gráfico vai. como a palavra, levar uma vida
mais ou menos arbitrariamente isolada da construção com
plexa que lhe deu origem. A criança repete-a até chegar ao
automatismo. Mas, à medida que consegue dominá-la, vai-a
também adaptando e aperfeiçoando segundo os princípios da
experiência por tentativas.
No seu grafismo primitivo, a criança chegou, quase sem
pre por acaso, a um agregado de figuras onde conseguiu
reconhecer com os olhos da fé, diríamos nós - um auto
55
móvel, inclinar-se-á, naturalmcnte, a reproduzir esse êxito
quando voltar a ter um lápis.
Porém, reprodu-lo mais ou menos fielmcntc. O automóvel
distinguir-se-á talvez por um único sinal: a roda, cuja consecu
ção já passou ao automatismo e que reencontraremos cm
todos os desenhos, durante muito tempo, como marca distin
tiva do tipo automóvel.
Ora a criança começa a viver c fazer viver esse simulacro
dc automóvel: "Pó/ Pó! RRR!..."
E faz menção de segurar no volante. Então, com um
traço mais ou menos hábil, desenha o volante.
Se o resultado não se assemelha a um volante e se a
criança tem consciência disso, abandonará o desenho do vo
lante e continuará a procurar um outro aperfeiçoamento.
Mas se triunfa, se fica satisfeita e se lhe dizem: "Que
lindo volante fizeste no teu automóvel!” considerará esta
nova forma de automóvel corno outro passo em frente, como
outro sucesso que voltará a reproduzir para automatizar. Daí
em diante, o seu automóvel possuirá duas características fun
damentais que poderá reproduzir automaticamente com um
máximo dc sucesso: as rodas e o volante.
Noutra ocasião, após haver traçado automaticamente o
seu tipo de automóvel com rodas e volante, imaginar-se-á a
guiar o carro. Pousará o lápis, instalar-se-á com as pernas
estendidas, os braços para a frente e o corpo tenso:
“RRR!... V... V... V...”, dirá dando voltas a um volante
imaginário.
Depois de ter realizado como que mecanicamente o novo
gesto, pega no lápis e acrescenta um condutor ao seu tipo de
automóvel com rodas e volante. Se falha, desiste e talvez
comece a desenhar homens por cima do carro. Mas se fica
satisfeita e se alguém lhe confirma o seu êxito, passará a
repetir este terceiro tipo de automóvel com rodas, volante e
condutor até automatizá-lo.
A nossa explicação de forma alguma pretende fixar ou
prever a ordem de aparição dos elementos no grafismo do
automóvel. Tal ordem depende, como todos os êxitos:
1) das dificuldades encontradas:
2) da habilidade do executante;
56
3) da influência do meio: exemplos, modelos, críticas, auxilio
ou sugestão.
Por agora, limitamo-nos a analisar o processo do desenho
infantil, processo que é válido para a evolução de todos os
desenhos. Poderão confirmá-lo nas séries que daremos a seguir
e que completarão, aliás, pelo subsequente exame das vossas
próprias colecções.
Ser-nos-á impossível separar esta evolução dos tipos gráfi
cos isolados da sua integração normal nos grafismos justapos
tos cujo processo iremos estudar. Como a palavra, que se
mistura profundamente com as outras palavras e se insere na
vida de que participa, também o tipo gráfico vive nos dese
nhos complexos cujas normas observaremos em seguida,
Assiste-se nalguns casos a uma evolução muito acentuada
dos tipos ou pelo menos de certos tipos. Há crianças que
desenham camiões, cavalos ou casas de um modo já muito
sugestivo, mas que continuam a justapor esses tipos desenvol
vidos sem chegar a uma relação susceptível de orientá-los
57
Fig. 17
para a expressão do pensamento. Tal comportamento revela
indubitavelmente um atraso grave na construção da personali
dade.
Iremos debruçar-nos em particular sobre o processo de
aquisição dos seguintes tipos gráficos:
os bonecos:
a casa;
os pássafos;
os pequenos quadrúpedes;
os animais grandes;
os camiões, comboios, aviões, etc.
A partir destas bases, ser-vos-á fácil completar as séries e
compilar colecções sobre outros temas susceptíveis de confir
mar a regularidade do processo que acabamos de indicar.
Eis um primeiro comboio conseguido. Gérard (2 anos e
3 meses).
Um primeiro triunfo de automóvel do primeiro modelo,
tendo apenas as rodas como sinal distintivo. Alain (2 anos e
5 meses).
58
Fig. 19
Fig. 18
Jean-Paul (2 anos e 6 meses) dá-nos o êxito do seu ter
ceiro modelo com rodas, volante e condutor. Acrcscentou-lhe
mesmo os faróis.
Fig. 20
Eis o nascimento acidental do "Senhor jardinando", pri
meiro esboço do tipo homem. Michel (3 anos e 2 meses).
Fig. 21
59
Um segundo nascimento do homem. Eram três, mas o
terceiro abortou. O autor abandonou-o à sua sorte: tinha uma
cabeça demasiado pequena. Mireille (3 anos e 2 meses).
Fig. 22
Jean (3 anos e 5 meses) desenhou, como expressão do
mesmo tipo, a mãe e o filho. Porque estão deitados? Não
vejamos no facto uma preocupação previa e motivada de
desenhar uma mãe e um filho deitados. Simplesmente, dados
os instrumentos de que dispunha, a criança achou mais cômo
do traçar linhas horizontais e o resultado foi naturalmente
influenciado.
60
Fig. 23
Eis um terceiro nascimento, utn pouco diferente. Nicole
(3 anos e 6 meses).
Eis a vaca. Qual o elemento conseguido que será reprodu
zido como sinal distintivo da vaca? Não as patas com certeza.
61
Talvez a cauda ou a cabeça onde já se adivinham os chifres.
Jcan (3 anos e 6 meses).
Fig. 25
Este desenho da casa não é com certeza um primeiro
esboço. Constitui já o resultado de tentativas múltiplas, embo
ra o princípio a que obedece seja frequentemente o mesmo.
Um traço mais ou menos regular delimita a casa como nos
jogos depolícias e ladrões. Um grafismo dentado assinala as
pedras. Os compartimentos acham-se demarcados por um tra
ço. Os traços paralelos representam as escadas. As fechaduras
são visíveis exteriormente. Eliane (3 anos e 7 meses).
62
Segundo as suas necessidades, talvez por acaso, a criança
representou a casa de frente, com janelas e telhado, cm vez
de representá-la em plano, Michel (3 anos e 7 meses).
Eis um outro aspecto de gênese das casas, menos original
e diversificado do que a gênese dos homens, mas de que vale
a pena apresentarmos alguns exemplos.
Fig. 27
63
Fig. 26
Eis um desenho típico de casa no 2.° ou 3.° estádio da
tentativa. A criança, após os exercícios anteriores, desenhou
sem hesitar a casa vagamenlc delimitada por um traço e a
porta com a chave; ao lado, a escada que sobe e termina num
patamar onde se abrem outras portas com a respectiva fecha
dura. A criança, que já fizera viver a sua casa, acrescenta-lhe
desta vez um cão debaixo da mesa, que irá ulterionnente
repetir até automatizar. Jean-Paul (3 anos e 7 meses).
E eis ainda outras tentativas triunfantes, que permitem à
criança aperfeiçoar, segundo o processo indicado, os elemen
tos gráficos de base:
Fig. 28
Um porco e um frango, primitivos na sua concepção e
fisiologia. Jean-Paul (3 anos e 7 meses).
Homens acidentalmente evoluídos. Uma variedade da gê
nese. Jean-Paul (3 anos e 8 meses).
64
Fig. 30
Uma maçã e uma pera, tipos de grafismo sem vida nem
originalidade, cuja forma a criança se limita a aperfeiçoar,
Jean-Paul (3 anos e 8 meses).
Fig. 31
Gatos inspirados, segundo parece, na génese dos homens.
Nicole (3 anos e 8 meses).
65
Fig. 32
Um pato embrionário. Bertrand (3 anos e 8 meses).
Notemos, de passagem, que a primeira condição para ter
êxito — a importância e a complexidade das dificuldades a
resolver — desempenha aqui um papel fundamental. A maioria
dos animais é mais difícil de desenhar do que um camião, um
automóvel ou mesmo um homem. As crianças só o conse
guem mais tarde, o que explica que os primeiros grafismos
contenham geralmente uma baixa percentagem de desenhos
de animais, excepto nalguns meios rurais.
66
Fig. 33
Eis agora um pato mais perfeito. Jean-Paul (4 anos e
2 meses).
Fig. 34
Um coelho divertido. Jean-Paul (4 anos e 7 meses).
67
Fig. 35
Um macaco com o filho. Jean-Pauí (4 anos e 9 meses).
Uma mamã porca com o seu porquinho ainda por nascer.
Jean-Paul (4 anos e 8 meses).
IX. Evolução morfológica e psicológica dos tipos gráficos
A rapidez com que a criança se assenhoreia da língua
depende do seu estado fisiológico e mental e ainda do meio
onde vive.
68
A evolução da linguagem processa-se segundo as normas
desejáveis se o meio ajuda, isto é, se favorece ao máximo a
tentativa experimental da criança, se reduz os obstáculos mais
marcados, se facilita e acelera a mecanização dos actos indis
pensáveis à realização das necessidades primordiais. Nestas
condições, a linguagem torna-se instrumento de uma expres
são diferenciada, rica de conteúdo técnico e sensível.
O mesmo processo se constata no desenho. É pela repeti
ção dos tipos isolados, conjuntamente com a evolução desen
rolada ao longo das justaposições de que iremos ocupar-nos,
que se desenvolve, sempre de acordo com os princípios da
experiência por tentativas, a progressão normal rumo a formas
mais perfeitas, e mais vivas, correspondentes a um comporta
mento mais evoluído.
Não faremos aqui o estudo completo desta evolução e
duvidamos até que ele seja viável e desejável. Podería induzir
em erro os educadores, levando-os a crer na existência de uma
norma única para o nascimento e desenvolvimento dos tipos,
que as patas do animal, os braços, as pernas ou as orelhas dos
bonecos correspondem a uma certa idade ou a um certo nível
intelectual, que os processos que lhes presidem são função de
três factores directos:
- As dificuldades a superar;
- As possibilidades técnicas do autor;
- A atitude do meio.
O erro é particularmente flagrante no tocante ao grafismo
do homem, de cuja génese já observámos alguns aspectos.
Os psicólogos julgaram poder fixar uma idade para o
aparecimento dos olhos, do tronco, da articulação dos braços
à cabeça ou aos ombros, das pernas e dos dedos no grafismo.
Para estudar racionalmente o problema, porém, teremos
de considerar simultaneamente os três factores acabados de
mencionar.
1. As dificuldades a superar: São, no desenho do boneco,
maiores do que se pensa e poderiam classificar-se segundo
uma escala crescente. Isso não significa, no entanto, que
certos indivíduos não saltem determinados degraus, para mais
tarde voltarem atrás e adquirirem um domínio completo da
ascensão da escada.
69
Em linhas gerais, ela passaria pelas seguintes fases:
— Desenho de um grande círculo para a cabeça, com
olhos, boca ou círculos para assinalá-los indistintamente.
— Cabeça mais ou menos diferenciada e dois traços para
as pernas, acabando frequentemente com uma linha transver
sal para indicar o pé; desenhos deitados, direitos ou flutuan
tes, conforme as condições em que foram feitos. Alguns
destes desenhos primitivos revelam uma enorme vivacidade,
com figuras expressivas, de pernas orientadas e pés eloquen
tes.
— Aparecimento do tronco, mais ou menos tardio segun
do os tipos.
— Braços presos à cabeça, no caso de aparecerem antes do
tronco. Evidentemente que há que fixá-los. Por automatismo.
poderão continuar a surgir presos à cabeça, mesmo após o
aparecimento do tronco.
- Braços presos ao tronco.
- Aparecimento das mãos.
- Vestuário.
- Os cabelos e as orelhas revelam-se bastante caprichosos;
ora surgem muito cedo ora muito tarde.
Veremos alguns exemplos destes grafismos nos desenhos
que se seguem.
2. A habilidade do autor: Desempenha um papel mais
importante do que se julga. Certas crianças tem, por heredita
riedade, defeito fisiológico ou falta de exercício, mãos e
dedos desajeitados. Umas tremem, outras estão frequentemen
te sujeitas a cãibras. Não nos admiremos, pois, se as cabeças
que desenham se mostram irregulares, se os pontos de articu
lação dos membros se revelam inexactos ou se os olhos e a
boca não estão rigorosamente colocados. Claro que o êxito é
mais fácil para as crianças seguras de si, calmas c hábeis.
Daí a enorme relevância do exercício. Ele permite modifi
car consideravelmente o ritmo do processo sem influenciar-lhe
as normas. A nossa escada não se limitará apenas a considerar
a inteligência da criança, mas todo o seu comportamento,
incluindo a sua complexidade fisiológica e social.
3. O meio: O meio infantil, mais do que o adulto, tem
uma importância extrema. É preciso que, como já referimos,
70
o adulto não só tolere e aceite, mas também apoie a expres
são pelo desenho e ponha à disposição da criança os instru
mentos de que ela precisa. Mas o próprio exemplo adulto
revela-se menos determinante do que o exemplo infantil na
medida em que este se encontra mais próximo e mais adequa
do ao pequeno desenhador e ainda mais pronto a integrar-se
imediatamente no processo da tentativa experimental.
Basta que numa turma uma criança desenhe homens vivos
e bem conseguidos, mesmo que se limitem a uma cabeça
evoluída e a longas pernas orientadas, para que todos os
outros alunos que se achem numa fase próxima da sua adop-
tem o mesmo grafismo durante algum tempo. Se uma das
crianças descobre as orelhas e os dedos, as outras tenderão a
imitá-la e a acrescentar orelhas e dedos aos seus bonecos. O
exemplo, como vemos, falseia um pouco a evolução que se
verificaria na criança sem a sua presença.
Todos os educadores sabem como é fácil criar-se numa
turma uma atmosfera de escola - no sentido artístico
baseada nuns quantos êxitos, e de que mancira os desenhos
tendem a assemelhar-se entre si, o que leva por vezes a supor
uma influencia autoritária e exagerada do mestre.
Permanência e evolução artística de certos tipos pessoais
Da mesma forma que se criam nesta idade determinados
hábitosindeléveis de falar e de argumentar, há certos tipos
originais que, em vez de se integrarem noutros conjuntos ou
desaparecerem por completo, evoluem até atingir uma espécie
de permanência e de superioridade artística.
Teremos assim o desenhador de casas, o especialista em
determinado estilo de árvores, o jovem entusiasta de cavalos,
os apaixonados por carros e aviões...
A escola, que durante largo tempo alimentou a uniformi
dade à custa dos êxitos pessoais originais, tende, no respeitam
te ao desenho, a impedir esta evolução vertiginosa da criança
que conseguiu descobrir um tipo c o cultiva com um entusias
mo c um senso artístico misteriosos. Assim se tém destruído
inúmeras inclinações e mesmo vocações.
71
Nós fomentamos esses êxitos, cientes do seu futuro de
senvolvimento e do seu reflexo benéfico não só em todo o
desenho como nos outros ramos do saber,
Na segunda parte do livro veremos como os tipos produ
zidos nesta idade chegam, à medida que evoluem e ganham
novas proporções através da cor, a traduzir interpretações
pessoais de todos os valores. É já nesta fase que pode depa-
rar-se-nos uma segunda bifurcação: o desenho, em vez de
evoluir no sentido da expressão, digamos, narrativa, evolui
para a cor e para a arte, deixando ao texto manuscrito o seu
modo específico de contar a aventura. Achamo-nos dentro da
técnica adulta, que também cultiva a feitura pessoal de cada
desenhador ou pintor e explora o êxito de certos tipos cuja
versão final nos é dada pelos grandes artistas.
Fig, 37
Eis, de Marie-France (4 anos e 8 meses), uma série de
bonecos verdadeiramente reduzidos à expressão mais simples,
mas que nem por isso perdem a vivacidade.
72
Fig. 38
Uma série de ovelhas e de cordeiros que surgem como um
êxito pessoal a cultivar. Jean-Paul (4 anos e 9 meses).
Fig. 39
Uma vaca num prado. Charles (5 anos e 2 meses).
73
Fig. 40
Dois camiões em grandes progressos (note-se a repetição
automática das árvores como pano de fundo). Jean-Paul
(5 anos e 6 meses).
Fig. 41
Jean-Paul (5 anos e 4 meses) havia chegado a uma forma
original de carneiros. Não a desenvolveu, certamente por o
meio não o ter encorajado a cultivá-la.
74
Dominique (5 anos e 6 meses) estabeleceu o seu tipo de
homens que reproduz automaticamente.
Fig. 43
Patrick (5 anos e 6 meses) cultivou o tipo de comboio e
depressa o levou, como se vê, à sua quase perfeição.
Com estes desenhos viemos antecipar um pouco o capítu
lo seguinte. Mas não queríamos deixar de sublinhar a impor
tância dos tipos, cujo aperfeiçoamento também se opera den
tro do conjunto vivo. Também pretendemos mostrar como
nesta fase, bastante anterior ao período do desenho expressi
vo, se abre uma nova via dc que poderemos ver a ascensão até
à arte.
X. Explicação "a posteriori”
Por vezes, a criança apodera-se bruscamente de uma pa
lavra. mesmo complicada, cuja sonoridade a impressionou ou
que, durante uma conversa, adquiriu para ela um sentido
exaltante.
Começa a repeti-la, embora só depois, com a continuação
e com a sua justaposição a outras palavras, lhe devolva um
sentido que nem sempre corresponde ao seu sentido verdadei
ro. Portanto, a criança conhece a palavra antes de explicá-la e
75
Fig. 42
só a explicará se o meio lho solicitar. A resposta dada não
corresponderá, aliás, forçosamente à pergunta feita.
Vimos de que maneira a criança justapõe os seus grafis-
mos. Ao observá-los. temos tendência para perguntar:
- Que está o homem a fazer?
— De quem é a casa?
Assim, a criança acha-se obrigada a dar explicações sobre
o conjunto executado e que, muitas vezes, não passaria de um
exercício conducente ao automatismo. É fácil notar, de resto,
que a pergunta desencadeia um segundo processo inteiramente
diferente: o da explicação verbal. Esta explicação não possui,
por vezes, qualquer relação com o desenho e veremos no
capítulo seguinte como a criança é compelida a proceder a
ajustamentos para associar e conjugar os dois processos.
Esta explicação a posteriori, característica deste estádio,
constitui, portanto, uma espécie de projecção do pensamento
infantil sobre o desenho e não, como poderiamos ser levados
a crer, uma explanação e uma justificação lógicas do grafismo.
Os exemplos seguintes mostram-no claramente:
Fig. 44
Este desenho constitui o modelo mais rudimentar dc
grafismo da fase da explicação a posteriori. Os desenhos são
informes, mas, como a criança, sem dúvida por causa do meio,
foi solicitada a dar uma explicação, deu a mais corrente nesse
meio; “Lobos! pretos!” Jean-Pierre (4 anos e 7 meses),
76
Fig. 45
Nos desenhos explicados a posteriori, é frequente encon
trarmos a técnica ou mesmo a originalidade do desenho 45.
Com certeza que a criança não pretendeu desenhar a cadeira
nem as calças. Reproduziu um exemplar duplo do seu grafis
mo familiar e já automatizado: bonecos, expressivos, aliás, na
sua simplicidade. Os outros desenhos não passam de grafismos
falhados; depois de feitos é que a criança julgou reconhece r-
-lhes uma semelhança com uma cadeira e umas calças, o que
lhe permitiu articular a sua história: “Dois senhores que se
deitam. Puseram as calças na cadeira.” Jean-Pierre (4 anos e
7 meses).
77
O mesmo caso. Três elementos gráficos, mais evoluídos e
quase perfeitamcnte assimilados, justapostos sem qualquer in
tenção prévia de relação. Mas o êxito é tal, que o boneco
parece tentar evitar o carro, o que leva a criança a dizer
perante a obra: “O carro talvez vá atropelá-lo! voltará a
levantar-se...!” Jean-Claude (4 anos e 8 meses).
O leitor não terá dificuldade em completar esta série de
desenhos e verificar a veracidade do princípio da explicação a
posteriori, que se acha generalizado nesta fase.
78
Fig. 46
XI. Explicação “a posteriori" com relação artificial dos grafis
mos justapostos
Pela repetição automática, a criança adquiriu o domínio
de duas palavras. Pela tentativa, chega a dar-lhes um sentido,
por vezes muito lato. Mas as palavras permanecem como que
isoladas e justapostas até ao dia cm que a criança estabeleça
entre elas relações frequentemente arbitrárias e surpreenden
tes, que aperfeiçoará mediante o emprego de elementos de
ligação.
São estes elementos de ligação que iremos ver surgir
como complemento dos desenhos justapostos.
Fig. 47
Eis o desenho que continha originalmente elementos niti
damente justapostos: o tipo menina, em formato grande e
reduzido, as árvores, a casa, o avião e o automóvel. Michel
(4 anos e 10 meses).
79
Há agora que encontrar uma explicação. Naturalmente, se
a criança não pretendeu exprimir nada de definido, lembrar-
-se-á de dizer: a menina grande e a pequena — ou a mãe e a
filha — vão passear. Ao inclinar e prolongar o braço da
menina até fazê-lo encontrar a mão da mãe, salvou-se a
relação elementar.
Fig. 48
O desenho 48 é igualmente um desenho puramente justa
posto. Mas, no momento da explicação a posteriori, a criança
notou que a mãe parecia inclinar-se sobre a criança deitada.
Originalmente, ambos os braços tinham a mesma orientação
em relação ao corpo e, se a mãe estava inclinada, era decerto
por acaso. Na explicação a posteriori a criança disse: “A mãe
traz um embrulho ao füho doente. ” Então, desenhou o em
brulho, Michel (4 anos e 10 meses).
80
XII. Explicação “a posteriori” por complemento dos grafismos
justapostos
Com base nas palavras já dominadas e gradualmente inte
gradas na sua vida de relação, a criança consegue estabelecer,
nor adjunções sucessivas, um conjunto complexo onde a cria
ção se mistura pouco a pouco com a explicação a posteriori
até mascará-la e ultrapassá-la.
Transpomos uma nova etapa rumo à expressão pelo de
senho.
Lentamente, a partir do espectáculo mais ou menos elo
quente dos seus grafismos justapostos, a criança foi-se habi
tuando a contar unia história desencadeada pelo desenho
justaposto, mas que ele já não alimenta.
Veremos este processo em acção no desenho de Elie que
aos 7 anos apresenta uma idade mentalde 5.
Dispôs — e eu quase diria: depôs - primeiro sobre o
papel os elementos gráficos já dominados após longa prática:
a casa, o moinho de vento (sem dúvida reminiscência de um
Fig. 49
81
desenho visto num livro), o sol erguendo-se entre as monta
nhas.
A probreza da justaposição não alimentava grandes expli
cações a posteriori. Então, como ainda havia espaço nu cimo
da folha, desenhou um cão e, atrás, um tipo idêntico parecido
com um gato e declarou: "O gato vai morder o rabo do cão. "
E eis o "Senhor da Casa": começa por ser um boneco
equivalente ao tipo automatizado, mas, em consequência de
um progresso recente, a criança assinala-lhe os cabelos, pintan
do-os minuciosamente de preto com o lápis. Reproduzirá o
seu êxito nas mãos, somente com a finalidade de o repetir,
em zonas do fumo, no eixo do moinho e, misteriosamente,
no pescoço do gato.
Um traço em redor do homem: ‘"É o caminho da mon
tanha.” E eis que: "O jogador de boxe sai de casa e dirige-se
para a montanha. ”
Ultrapassou-se a fase da simples explicação a posteriori. A
criança ilustra atrave's do desenho o conteúdo do seu pensa
mento dinâmico. Elie (5 anos).
Observemos um elemento ainda mais típico desta fase do
grafismo.
Na sua base acham-se alguns elementos automáticos: "A
casa e o menino na casa; árvores." Jean-Claude (5 anos).
Sobre esta base, a criança inicia a posteriori uma história
que imediatamente se traduz cm imagens gráficas: "O menino
está dentro de casa... o gato está no telhado. O menino está
fechado, a mãe não quis levá-lo às compras. ”
E, para frisar o facto da criança estar fechada, o autor
desenha, em apêndice, a prisão com a criança sozinha no
meio dela, segundo o mesmo processo automático anterior.
Para exprimir dinamicamente a situação, teria sido neces
sária uma segunda imagem, como nos desenhos animados. A
casa grande dcsapareceria para dar lugar à pequena prisão.
Ver-se-ia então o miúdo preso e já não em casa. A solução do
autor é, não só lógica, mas também a única possível antes do
cinema. Foi um erro havê-la considerado uma prova de anor
malidade; revela antes uma personalidade decididamente intré
pida que não se deixa atemorizar pelas dificuldades técnicas.
82
Fig. 50
... E a história continua... "O menino foge e vai para a
estrada... ”
A criança desenha a estrada que parte da casa e o rapa
zinho a ir-se embora.
Mais uma vez recorre à única solução técnica possível,
que, no cinema, se traduziría por imagens sucessivas.
"... O menino enganou-se no caminho e perdeu-se... ” De
facto, lá o vemos perdido e sozinho no canto superior esquer
do!
Nota-se claramente o desenrolar do processo, partindo de
uma história nascida a posteriori de grafismos justapostos e
que se vai enriquecendo já não a posteriori mas a priori.
83
XIII. O desenho, verdadeira expressão infantil
Enquanto não domina inteiramente um número suficiente
de palavras, a criança não possui completa liberdade de ma
nobra.
Faz como o nadador que ainda não está suficientemente
à vontade para enfrentar as grandes profundidades e que só
consegue nadar com aparente segurança quando tem pé e se
pode apoiar no fundo à partida e em caso de dificuldade.
Na sua expressão gráfica, a criança procede, como nós
procedemos quando vamos ao estrangeiro. Conhecemos a lín
gua ainda imperfeitamente e são sempre as mesmas palavras
que a princípio nos vêm à boca, porque só elas se acham
automatizadas. ínstintivamente reencontramos os processos de
aprendizagem da nossa infância.
Portanto, a expressão fica limitada e imperfeita. Só pode
rá ser livre e total depois de termos automatizado um número
de palavras suficiente que nos permita manobrar.
É o que acontece com o desenho.
Enquanto a criança não domina inteiramente um número
considerável de grafismos, não traduz como quer a explicação
ou a história que deseja exteriorizar. Só pode enfrentar a
verdadeira expressão quando dispõe de uma quantidade já
respeitável.
E a prova de que essa expressão se liga infalivelmente ao
domínio dos elementos gráficos é que uma criança de
12-13 anos, que nunca tenha desenhado, passa, talvez rápida
mas inconfundivelmente, por todas as fases do processo. Os
seus desenhos continuarão pobres e inexpressivos enquanto
não dominar os grafismos.
Deveremos ter presentes estas considerações quando, mais
adiante nos debruçarmos sobre as indicações psicológicas que
os desenhos infantis nos fornecem.
A evolução do processo e o acesso tardio da criança à
expressão verdadeira explicam a sua relutância em desenhar a
pedido ou em ilustrar um texto antes de atingir esta fase. Até
então, ela não ilustra verdadeiramente nem parte efectivamen-
tc da realidade existente, quer se trate de um acontecimento
84
exterior ou de um texto impresso. Parte dos seus grafismos e
nem sempre consegue ajustá-los à história que gostaria de
contar. Ainda não pode ir para o largo. Os seus grafismos
ainda não constituem um instrumento suficientemente flexí
vel para se adaptar a todas as circuntâncias.
Fig. 51
Eis num grafismo ainda primitivo, baseado numa justapo
sição e com o elemento avião automatizado, a figuração clara
c como que premeditada - já não a posteriori - de um
campo de aviação. René (5 anos c 7 meses).
85
Fig. 52
Aline (5 anos e 1 1 meses) ultrapassou muito cedo a expli
cação a posteriori, talvez por se haver ocupado longa e apai-
xonadamente de ciganos. Nos seus numerosos desenhos sobre
o tema, adquiriu um domínio total dos elementos componen
tes dos grafismos.
Não se trata aqui de um êxito casual sobre o qual se
alicerçou a idéia ou a explicação, mas de uma cena que a
criança deliberadamente fez viver através da expressão gráfica.
Aline (5 anos e 11 meses).
Fig. 53
Jean-Paul (5 anos) desenhou uma carroça em redor da
qual se agitam personagens originais, dotadas de um lirismo
que já denota o estádio de expressão.
XIV. Evolução dos grafismos segundo as necessidades vitais
das crianças
A criança que se apropria da língua falada não pretende
pronunciar as palavras impecavelmente nem inseri-las em fra
ses perfeitas, mas exprimir-se com um máximo de eficiência
para servir da melhor maneira as exigências da sua vida no seu
meio.
86
Quando a criança dispõe de um número de vocábulos
suficiente para utilizar a linguagem como instrumento básico
de expressão, atinge um patamar onde evolui com um dina
mismo que lhe dá um permanente sentimento de poder: da
palavra-instrumento, acompanhada pela mímica do gesto, pas
sa à narrativa, que não só possui uma finalidade para a
própria criança mas que também a incorpora cada vez mais
no meio onde ela se afirma.
Como vimos nos capítulos precedentes, a criança nunca
tenta, nos seus grafismos livres, copiar servilmente quaisquer
modelos; tal perfeição e tal cópia jamais constituem para ela
um objectivo. O seu objectivo é adquirir a técnica da palavra
para entrar em relação com o meio, agir sobre ele e se
possível dominá-lo, para se exprimir e para se realizar.
Tem-se falado por vezes do "finalismo” dos desenhos
infantis e transformado o qualificativo numa característica
específica do desenho das crianças. Claro que o desenho
infantil possui um finalismo, um alvo, uma motivação como o
desenho adulto c toda a acção adulta. Só que a escola
apresentou esse finalismo e essa motivação como uma espécie
de anomalia, prescrevendo, para corrigi-la, o desenho objecti
vo, sem alvo nem significado, feito como uma obrigação e
segundo regras impostas, apenas conducente à execução de
obras exageradamente formalistas e cuja técnica se encontra,
aliás, em constante evolução.
Da mesma forma que prescreveu e impôs a redacção, que
não passa de uma obrigação injustificada, sem motivação nem
alvo e puramente gratuita, enquanto que os textos ou narrati
vas desejados pela criança exprimem tendências e pensamen
tos que lhe são particulares.
Por analogia, poderiamos dizer que à criança não basta,
como a escola gostaria que bastasse, cultivar uma roseiracom
a simples preocupação de obter um arbusto do tipo roseira.
Ela quer uma roseira que estenda os seus ramos floridos até ao
caramanchão por cima da janela e, para tal, procede como o
bom jardineiro que, sem perder de vista a finalidade a atingir,
protege, orienta e prende a trepadeira, poda o pessegueiro
87
para que dê fruto abundante e limpa os favais para fazer
refluir a seiva às vagens prestes a engrossar.
Como o jardineiro, a criança desenvolve esforçadamente
determinadas partes do seu grafismo, poda outras e alonga
desmesuradamente a mão ou os braços se a operação lhe
parece útil à compreensão e à expressão do desenho.
Certas anomalias, que parecem à primeira vista erros gráfi
cos, são deliberadas por parte do autor. A criança corrigirá
por si própria, através da experiência por tentativas, algumas
delas. Com a sua preocupação exclusiva da cópia e da regra, a
Escola encarregar-se-á disso. Por nossa parte, evitamos a todo
o custo fazê-lo, respeitando certas originalidades gráficas mes
mo que vão contra as leis do desenho. E continuaremos a
evitá-lo enquanto verificarmos que os desenhadores que esca
pam às regras escolásticas continuam a trabalhar segundo as
mesmas normas finalistas, ampliando os olhos, abrindo desme-
suradamente a boca, alongando o nariz e não temendo insu
cessos como o de acrescentar uns pés enormes a umas pernas
esqueléticas.
Não nos precipitemos, pois, a submeter a criança à nossa
norma; deixemo-la treinar-se a dominar os seus grafismos e a
pôr os seus êxitos ao serviço da sua expressão viva e dinâmi
ca. Encorajemos mesmo a eclosão de gêneros expressivos que
serão como flores silvestres susceptíveis de fazer esquecer por
vezes a monotonia e a rigidez dos jardins cultivados demasia
do metodicamente.
88
Fig. 54
Se o condutor desenhado pela criança, segundo a técnica
que indicámos, deve segurar no volante, tem de chegar-lhe
com as mãos... Há que alongar-lhe os braços tanto quanto
necessário (3 anos e 2 meses).
Se o pai traz um presente (uma máscara), há que alon
gar-lhe convenientemente o braço (3 anos e 6 meses).
89
Fig. 56
Típico deste finalismo são os membros que se inscrevem
conforme a necessidade de equilíbrio e de acção do ciclista
(4 anos e 10 meses).
Basta que as crianças sentadas cheguem ao bordo da
cadeira - e não há dúvida que o fazem -- para estarem bem
instaladas. Como basta que a cadeira esteja junto da mesa,
mesmo que esta seja demasiado alta. Jean-Claude (4 anos e
2 meses).
90
Fig. 58
Os dois homens que lutam acham-se bem firmes nas
pernas e o interesse concentra-se nas mãos. Michou (4 anos e
4 meses).
Fig. 59
Esta personagem de mãos c dedos enormes apresenta
como particularidade o facto de usar luvas. Josette (4 anos e
7 meses).
91
Este rapaz joga ao berlinde, Só o braço que lança o
berlinde foi julgado digno de figurar no grafismo; o outro
ficou esquecido por ser inútil, Numa consecução típica, todo
o corpo se apoia sobre o lado que lança o berlinde. Jean-Paul
(5 anos e 1 mês).
A égua alonga-se desmesuradamente para dar de mamar
ao potro. Jean-François (5 anos e 7 meses).
Poderiamos aduzir inúmeros exemplos análogos, mas dei
xamos-lhes o cuidado de completar a série.
92
XV. Exame psicológico dos desenhos infantis
A escala dos desenhos infantis
Vamos, por uma última vez, comparar o desenho das
crianças à evolução da sua expressão oral. Teremos assim
estabelecido até ao fim o paralelo seguro que deve guiar-nos
sempre e que é tão simples e natural como a vida.
Resumamos o essencial: a experiência por tentativas pro
cessa-se, tanto para a linguagem como para o desenho, por
intuição empírica e por comparação das relações entre as
palavras, entre os objectos e finalmente entre os elementos da
acção. A acção tende a desenvolver-se no sentido dos actos
conseguidos cuja repetição sc automatiza e fixa em regra de
vida.
Estas observações esclarecem-nos sobre a importância pri
mordial que devemos reconhecer aos primeiros anos da infân
cia, ao período da construção das regras de vida deste primei
ro andar do qual dependerão a rapidez, a solidez, a estabilida
de e a resistência da construção ulterior.
Os pedagogos americanos tentaram estabelecer listas de
palavras que as crianças das diversas idades deveríam conhecer
e usar. Outros pedagogos tentaram estabelecer uma progressão
de formas de que as crianças deveriam servir-se nos vários
estádios da sua evolução gráfica.
Tais normas, quer se refiram a palavras quer a elementos
gráficos, poderão certamente ser válidas para alunos a quem a
escola haja proposto uma aquisição formal a expensas da vida.
Mas não podem ser válidas para a nossa pedagogia, uma vez
que nela introduzimos um factor novo e decisivo: a própria
vida.
Ultrapassando a medida escolástica, devemos, pois, ir mais
longe e mais fundo e abordar a medida da vida.
A criança mais evoluída, a que se exprime com mais
oportunidade, profundidade e vivacidade, não é a que conhe
ce um maior número de palavras, mas a que sabe fazer viver e
vibrar - associando-lhes se necessário a entoação e a mímica -
as palavras que integrou realmente na sua personalidade.
93
A criança que melhor redige - do ponto de vista da
pedagogia moderna - não é aquela que alinha metodicamente
um grande número de palavras escritas com notável correcção
e as incorpora em frases construídas segundo as leis da gramá
tica escolástica, mas aquela que empresta vida às suas palavras
em frases pessoais que exprimem com desenvoltura os princi
pais aspectos da existência e do pensamento do autor.
A criança mais evoluída, no que toca ao desenho, não é
de forma alguma a que desenha segundo as leis da escolástica,
colocando os olhos e as orelhas nos lugares devidos, articulan
do os braços nos ombros dos bonecos e respeitando as regras
da perspectiva, mas a que dá vida às suas personagens. E é
esta vida que devemos, tal como nos textos livres, reaprender
a detectar, a encorajar, a apoiar e a valorizar para que a
criança possa palmilhar com segurança e êxito a estrada real
ao longo da qual tentamos fazer desabrochar-lhe a personali
dade.
Os psicólogos têm-se esforçado por tentar determinar os
factores intelectuais susceptíveis de se revelarem nos desenhos
infantis. A fixação de uma ou duas escalas de notação, para a
avaliação da inteligência e das suas características, deu origem
a inúmeros testes cuja aplicação representa um condiciona
mento da criança e cuja execução morosa quebra o seu
dinamismo. As estatísticas provenientes destas práticas, quase
exclusivamcnte baseadas no erro gráfico, dependem, aliás,
fundamentalmente da interpretação do adulto e da criança:
trata-se, efectivamente, de exercícios escolares cujo valor equi
vale ao do comportamento da criança engaiolada.
Se não reconhecemos as normas resultantes, se recusamos
os gráficos, as escalas e os valores até hoje estabelecidos pelos
investigadores, em que novos elementos iremos basear-nos?
Como iremos conceber definitivamente a nova pedagogia do
desenho? São estas questões que tentaremos esclarecer no
prosseguimento do nosso estudo.
Ao debruçarmo-nos sobre a problemática da medição do
desenho infantil, encontramos três elementos susceptíveis de
estimativa:
94
1. A escada do desenho: Afirmámos a impossibilidade de
deduzir normas a partir do exame de certos elementos gráfi
cos sobre os quais os psicólogos procuraram alicerçar os seus
estudos. Mesmo após uma vasta estandardização, não é possí
vel dizer que a roda do carro aparece na idade tal e que na
idade tal a criança liga os braços à cabeça, aos ombros,
assinala as orelhas, os fatos ou abandona a transparência das
casas.
Afirmámos a existência de elementos complexos, tão de
terminantes como a idade do indivíduo, que influenciam o
pormenor e a perfeição dos grafismos e tornam impraticável
qualquer classificação etária.
Em contrapartida, sublinhámos a ordem pela qual, con
forme as justificações então dadas e que reputamos de certas,os grafismos evoluem desde os primeiros riscos do bebê de
9 meses até ao desenho adulto. Esta ordem não tem de modo
algum caracter psicológico; não resulta das qualidades pessoais
do indivíduo, mas é sobretudo função das dificuldades que o
desenhador se vê obrigado a superar, por tentativa experimen
tal, ao longo da sua lenta aprendizagem,
Consequentemente, a escada que estabelecemos comporta,
para cada degrau, os dois tempos da tentativa experimental: o
êxito e a repetição do êxito até o indivíduo dominar-lhe o
mecanismo e haver automatizado a técnica. Nesse momento
avança-se outro passo, seguido de novo exercício conducente
ao automatismo. Seguir-se-lhe-á outro êxito com novo pata
mar de repetições automáticas.
Diante de cada degrau da escada, indicamos a idade
média fixada segundo as nossas colccções. Como veremos
depois com a prática, um primeiro elemento do nosso exame
psicológico consistirá em constatar, conforme os grafismos, a
verdadeira posição do sujeito examinado:
95
96
1. Se a criança se encontra na fase da pura e simples
justaposição dos grafismos, concluímos que possui uma idade
“gráfica" de 4 anos. Se o indivíduo tem cinco anos, podere
mos dizer que apresenta um atraso gráfico de um ano.
Mas não convém ir mais longe neste domínio e equiparar
arbitrariamente o atraso gráfico a atraso mental, embora o
atraso gráfico possa e deva entrar em linha de conta no perfil
individual que estabeleceremos.
2. O progresso gráfico, medida de inteligência: Porém, a
nossa escada de desenho proporciona-nos uma outra possibili
dade muito mais segura de exame psicológico.
Especificando experimentalmente as normas evolutivas do
grafismo, poderemos medir o ritmo com que o sujeito sobe a
nossa escada.
Um indivíduo, a quem baste repetir uma ou duas vezes
um gesto para automatizá-lo, em quem a experiência deixe
um traço vivo, é muito inteligente. Menos inteligente será
outro que precise de 50 ou 100 repetições para aprendê-lo.
Claro que este progredirá mais lentamente na aquisição das
experiências necessárias para dominar o meio. O facto é
particularmente sensível no desenho.
O atrasado, o não inteligente ou o anormal chegam, após
grande labor, à justaposição dos grafismos. Trata-se de um
esforço dc que podem orgulhar-se. Mas, antes de ultrapassa
rem a fase, antes de dominarem a justaposição para atingirem
a explicação a posteriori, precisarão talvez de um ou dois
meses de exercícios e de experiências. A criança inteligente
justaporá os seus grafismos e, sem qualquer repetição, passará
à etapa seguinte de explicação a posteriori.
Para transformarmos a nossa escada de desenho numa
Verdadeira escala de inteligência, teremos de ordenar séries de
desenhos correspondentes ao seu todo ou parte.
Possuímos uma série de desenhos de X... correspondente
à secção da escada: “Primeiro êxito especializado (2 anos e
4 meses). Explicação a posteriori (4 anos e 8 meses).”
Tempo normal para transpor a secção 204 (4 anos e 4 meses)
Tempo levado pelo sujeito 108 (1 ano e 8 meses)
97
Quando o desenho livre se praticar regularmente, quando
tivermos um maior número dc dados experimentais onde
fundamentar a nossa escada de desenho, disporemos de uma
medida de inteligência incontestavelmente eficaz e dc uma
simplicidade que a tomará verdadeiramente acessível a todos
os pais e educadores.
3. Medida da vida: Há ainda um terceiro elemento a
examinar e esclarecer: a vida expressa pelo grafismo. Trata-se
de algo mais subtil do que as aquisições gráficas cujo processo
temos vindo a estudar, mas que não podemos negligenciar.
A vida não é de forma alguma apanágio dos desenhos
evoluídos. É possível senti-la desde os primeiros grafismos.
Tentaremos detectar-lhe a realidade nalguns daqueles êxitos
vivos que iluminam por vezes os grafismos de indivíduos
atrasados, proporcionando-nos, assim, maneiras dc descobrir-
-Ihes novas vias de progresso.
Sem perder de vista a nossa escada, passemos a examinar
alguns desenhos exemplificativos das explicações que procura
mos dar.
Fig. 62
1. Desenho de Aline (3 anos e 8 meses).
98
Grau de inteligência: inversamente proporcional ao tempo
levado a subir a escada:
Embora os tipos pareçam pouco evoluídos, o autor ultra
passou manifestamente a fase da justaposição e da justificação
a posteriori. Situaríamos este desenho no final do comple
mento da explicação dos grafismos justapostos ou no início
do desenho de expressão infantil, ou seja, por volta dos
5 anos e 5 meses, o que constituída um avanço de 18 meses
por parte do desenho. O coeficiente de inteligência seria de
Fig. 63
2. Desenho de Jean-Paul (5 anos e 1 mês). Este desenho
pertence nitidamente à fase do complemento dos grafismos
justapostos. O autor começou por desenhar o seu menino de
trotineta, tema que lhe era familiar e que pretendia repetir
para o fazer passar ao automatismo. O tipo conseguido enco-
rajou-o e resolveu desenhar o seu boneco a praticar diversas
99
actividades. Há mais do que justaposição: são evidentes a
referência ou dependência em relação ao primeiro tipo.
Idade, portanto: 5 anos.
A criança tinha 5 anos e 1 mês.
Inteligência normal. Mas os desenhos revelam um tal
lirismo e vivacidade, que nos permitem depositar esperanças
no autor.
Fig. 64
3. Jean-Marc (5 anos e 4 meses).
Posição na escada: simples explicação a posteriori: 4 anos
e 8 meses. Atraso de oito meses, portanto: trata-se realmente
do desenho de um anormal. Mas existe na atitude do boneco
uma indizível expressão de fadiga e de espera passiva que
permite entrever uma grande vitalidade por parte da criança
que, convenientemente orientada, se tornará normal.
100
Fig. 65
4. Aos 14 anos, Pierre Fournier desenha este belo quadro
que não só revela um valor gráfico inegável como ilustra um
talento desenvolvido exclusivamente pelas nossas técnicas, sem
qualquer estudo formal dos princípios do desenho.
101
Não redigimos este estudo como clínicos apaixonados por
colecções nem por estatísticas, mas como educadores empe
nhados numa compreensão cada vez maior e mais profunda
do sentido do comportamento infantil, com vista a uma
orientação mais eficaz dos esforços educativos. Trazemos uma
visão nova intimamente ligada à nossa prática do desenho e à
nossa prática pedagógica em geral. O propósito que nos anima
— de aprofundar incessantemente o nosso conhecimento da
criança - dá-nos a certeza de nos encontrarmos no bom
caminho. Avançamos ao ritmo de uma investigação colectiva
inserida nos nossos trabalhos quotidianos - que se vêem,
aliás, constantemente submetidos à prova e à crítica: as me
lhores garantias de uma pedagogia verdadeiramente experi
mental.
Os educadores, que nunca participaram activamente nas
nossas técnicas renovadoras, interpretam mal a obstinação
com que levantamos e discutimos certos problemas vitais.
Acusam-nos de ignorância flagrante sempre que nos mostra
mos cépticos em relação à psicologia mais ou menos clássica
ou mais ou menos moderna, desenvolvida por uma longa
geração de investigadores desinteressados. A ousadia com
que avançamos fá-los supor que pretendemos atropelar um
passado que nos incomoda, quando afinal, como práticos que
somos, nos encontramos profunda e forçosamente agarrados a
todo o substrato antigo e moderno, sobre o qual alicerçamos
o nosso edifício. Nada temos contra a tradição: apoiamo-nos
nela se ela nos serve e acolhemo-la com reservas ou rejeita-
mo-la impiedosamente se ela ameaça desviar-nos da nossa
linha libertadora.
Não procuramos a originalidade nem a novidade, mas a
vida, a acção e o trabalho. E para servir essa vida, lançamos
mão de todos os recursos disponíveis como trabalhadores
esclarecidos e conscientes, conhecedores do valor dos elemen
tos e do esforço exigido. Nesta medida, não ignoramos a
reviravolta psicológica e pedagógica cm que nos empenhamos.
Ao denunciar a psicologia do comportamento do aluno de
laboratório, descobrimos a psicologia da criança natural nomeio natural. Não acusamos forçosamente de inexactas as
medidas da psicologia laboratorial; os sistemas pedagógicos, a
102
que elas servem de base, podem ser lógicos e racionais. Podem
prestar serviços inegáveis aos educadores encarregados de "alu
nos” de salão ou de laboratório. Mas não são necessariamente
válidas para crianças que não se encontrem condicionadas por
classes fechadas nem por regras laboratoriais estritas. Aqui
surgem novos problemas que exigem do psicólogo e do peda
gogo uma reconsideração do elemento vida num meio vital. É
nestas condições naturais que temos procurado as pistas da
liberdade e da segurança onde, sentindo-se à vontade, a crian
ça possa afirmar-se, expandir-se e construir à sua medida
regras dc vida pessoais capazes de assegurarem o processo
funcional do seu ser. Foi assim que o desenho espontâneo se
nos revelou, desde o início das nossas experiéncias(1). como
uma destas pistas favoráveis onde a criança chega, por meios
próprios, à revelação de si mesma e onde o professor assume
a medida da criança. A técnica do desenho livre — seria mais
exacto chamar-lhe libertado — e o seu aproveitamento inse-
rem-se assim no âmbito das nossas actividades educativas onde
desempenham um papel dc simples mas importante auxiliar.
Não partimos de uma atitude de especialistas em desenho
infantil, mas dc educadores conscientes do papel da expressão
gráfica no contexto educativo.
Cremos, aliás, que o desenho infantil já tem atraído
idemasiados especialistas e dos mais aguerridos, sobretudo após
a psicanálise haver descoberto o misterioso antro do subcons
ciente.
Pedagogos, psicólogos, psiquiatras, sociólogos, antropólo
gos e mesmo estetas têm alimentado o seu saber e renome à
custa do desenho. Cada um destes servos da especialidade
procurou descobrir nos grafismos infantis uma demonstração
da “sua” ciência especial e um pretexto de investigação muito
frequentemente limitado às suas concepções pessoais. Efecti-
vamente, à medida que os especialistas foram passando ao
campo da prática, começaram a surgir perigos: o de sistemati
zar exageradamente as diligências da criança num dado senti
do; o de projectar situações adultas e mais ou menos facciosas
nas situações simples e ingênuas da infância; o de fazer crer
(1) Ver Elise Freinet. Nascimento de uma pedagogia popular
(ed. Maspéro).
103
que uma teoria pré-fabricada poderia esclarecer definitivamen
te o conteúdo dos desenhos infantis.
Em nossa opinião, emprestaram-se ao desenho infantil
significados que ele não possuía; os cientistas, com o seu
saber, conseguiram apagar-lhe toda a força de documento
natural, simples e directo.
É o que se verifica quase sempre que o desenho surge
sistematicamente interpretado como testemunho da personali
dade psíquica da criança e dos seus problemas. Ao considerar
o conteúdo do desenho infantil como um prolongamento do
sonho, os psicólogos conferem-lhe uma dimensão exclusiva e
preliminar de complexo. Ora, ao contrário do que sucede ao
psicopata, a criança não possui um tema onírico único e
fundamental; os seus sonhos múltiplos e diversos são variantes
do seu processo de adaptação ao meio. A influência do meio
familiar e escolar determina, por sugestão e imitação imedia
tas ou mais ou menos remotas, estados de sensibilidade inten
sa, fortemente centralizadores porque ligados à tentativa expe
rimental do momento. Enquanto a criança controlar as suas
tentativas de adaptação, não poderemos olhá-la como total
mente desadaptada. Os seus jogos improvisados, os seus dese
nhos e a fabulação que os acompanha constituem documentos
de uma vida-que-se-defende, antes de poderem ser considera
dos testemunhos de um drama permanente escondido. Se há
drama, acha-se já inscrito num sistema de defesa automático,
a fortalecer e a assegurar.
De resto, será perigoso tomar como base o comentário
que a criança possa fazer a um desenho que reconheça como
transcrição gráfica de um sonho tido durante o sono. Em
consequência das influências directas do meio, o comentário
ultrapassa o conteúdo inicial do sonho e confunde-lhe as
pistas com associações de ideias ou ocorrências actuais e
estranhas ao assunto. A interpretação cxclusivamente funda
mentada no exame do documento gráfico deve ser muito
prudente. Todas as formas da expressão espontânea terão
necessariamente de vir apoiar o estudo adulto do desenho
infantil. Os nossos Métodos naturais situam-nos precisamente
no centro dos múltiplos esforços da criança para afirmar a sua
personalidade, através das vicissitudes dos primeiros anos de
104
existência. Juntamente com inúmeros outros documentos de
expressão livre, o desenho pode surgir então como um teste
particular, altamente flexível e subtil, válido para a interpreta
ção da personalidade psíquica do sujeito. É atendendo a tais
vantagens da investigação pedagógica desenvolvida nas nossas
classes que somos levados a criticar o valor documental do
desenho executado sob o condicionamento do tema imposto,
num clima impessoal de classe-laboratório.
A atitude do adulto revela aqui grande importância. Para
captar a. mensagem dos desenhos, há que viver constantemente e
durante muito tempo em contacto com a criança que os
executou. Um desenho não basta para dar uma ideia do cariz
psíquico do indivíduo a examinar. É na sucessão dos grafis-
mos, ao longo de um certo período, que poderemos detectar
disposições psicológicas susceptíveis de completarem constata
ções análogas verificadas noutros sectores do comportamento
espontâneo da criança. Os pais e os educadores, que podem
seguir a criança dia a dia e durante anos, acham-se, na
verdade, numa posição privilegiada para fazer observações
relevantes. A presença do adulto deve ser um misto de discri
ção e dc expectativa, de confiança e de real compreensão.
Ao ler certos estudos que tentam chegar a um conheci
mento da criança através dos seus documentos gráficos, tem-
-se por vezes a impressão de que os autores não pretendem
descobrir os passos de uma procura vital, mas apenas encon
trar um pretexto cômodo para desenvolver, de uma forma
atraente, um curso clássico de psicanálise. O complexo e o
transfert servem para abrir todas as portas, incluindo aquelas
onde a chave não entra na fechadura. Neste domínio acha-
mo-nos frequentemente perto da interpretação cabalística,
que descobre mensagens esotéricas em cada acontecimento.
Não negamos de maneira alguma a realidade do pensa
mento simbólico infantil. Ele transparece no desenho, nas
subtilezas da poesia e nos dramas que, pelo grafismo e pelos
comentários que os justificam, nos dão a quase certeza 4a
relação entre o desenho espontâneo e os dados subconscientes,
da personalidade. Mas o simbolismo não constitui indício
exclusivo de recalcamento. Encontra-se por assim dizer em
todas as formas culturais do povo, vivo e espontâneo, incon
105
fundível na linguagem figurada, nos ditos, nos provérbios e
nos contos folclóricos. No homem do povo, como na criança
e no poeta, a imagem é como que pré-verbal: é a forma
natural de pensar.
A mensagem elementar da imagem pode, evidentemente,
trair impulsos ou emoções profundos e até então ignorados
no conteúdo dos desenhos repetidos sobre o mesmo tema e
suscitar particularidades gráficas reveladoras de um estado
psíquico. Mas não existe um código susceptível de identificar
com segurança a afecção psíquica, mesmo que seja bem real.
O mérito da nossa primeira escada de desenho reside no
seu dinamismo, na sua inserção no processo do comportamen
to infantil. Evita assim os perigos de um controle automático
pela sistematização dos símbolos ou de quocientes cifrados,
reconhecidos como válidos para uma dada idade. A nossa
escada não conduz, como dissemos, a uma classificação etária,
visto que a idade não constitui necessariamente um factor
determinante da riqueza de conteúdo do grafismo nem da
sua perfeição. Ela rompe com a escala métrica de inteligência
estabelecida por Binet-Simonno início do século, com o
único fim de distinguir as crianças verdadeirarnente atrasadas
das acidentalmente atrasadas. Com a continuação, os psicólo
gos aperfeiçoaram mais ou menos tais testes, estendendo-os à
massa infantil e agravando-lhes os perigos.
A nossa nova concepção de inteligência como permeabili
dade à experiência orientou-nos para a ideia de patamares
sucessivos; com efeito. os degraus da nossa escada de desenho
informam-no-, sobre a rapidez da tentativa experimental nas
suas diversas etapas: acto conseguido, repetição do desenho
conseguido e automatismo gráfico, após o que se procura um
novo sucesso pessoal e passa ao patamar seguinte. Encontra
mo-nos perante a materialização de um processo ascensional
da personalidade infantil, processo esse susceptível de nos
esclarecer quase infalivelmente sobre o dinamismo intelectual
do sujeito examinado. Quanto mais depressa a criança sobe os
degraus da aprendizagem, isto é, quantos mais são os actos
conseguidos que se automatizam, mais rapidamente liberta
uma nova energia que lhe permitirá continuar velozmente a
sua ascensão para a eficiência.
106
Foi esta noção de rapidez de aquisição que nos parece
essencial e que quisemos integrar na nossa escada de desenho
dos 2 aos 6 anos. A rapidez e a segurança com que a criança
sobe os diversos degraus da escada levar-nos-ão a reconsiderar
certas noções muito importantes sobre a idade mental infan
til. Podemos dizer desde já que a experiência conseguida e
repetida a vários níveis, cm cadência acelerada, apressa o
processo de aquisição de regras de vida decisivas, o que
testemunha a importância primordial a reconhecer à primeira
infância.
É sempre em função dos obstáculos que a criança encon-
tra no caminho, que se determina a velocidade da sua ascen
são a uma maior aptidão para dominar os problemas. Quanto
mais importante for o obstáculo, mais imperiosa se toma a
necessidade de procurar uma via de ascensão rumo à vida. Se
pudermos catalogar tais obstáculos por ordem de frequência e
de importância, conseguiremos estabelecer de antemão a linha
provável do comportamento da criança. Foi o que tentámos
fazer no nosso perfil vital (1) que desde logo se nos apresen
tou muito mais seguro, completo e vivo do que os perfis
psicológicos clássicos.
É neste perfil vital, a que poderiamos chamar energético,
que deveremos inserir a nossa escada de desenho com todas as
suas características reveladoras de um comportamento fisioló
gico, psíquico, intelectual e social.
Teremos ocasião de retomar estas considerações essenciais
para nós na medida em que sobre elas se alicerça a teoria da
tentativa experimental, cm todos os seus aspectos c fases
evolutivas.
No plano especificamente pedagógico, têm-nos surgido
objecções por parte de pedagogos e professores conformistas,
preocupados antes de mais com um ensino realista e metódi
co. Vamos responder resumidamente às mais importantes que
justificariam, só por si. um estudo especial e isolado.
1. Dizem-nos que preconizam o desenho livre infantil,
que se maravilham perante o que julgam êxitos; mas a vida
não consiste na cultura da originalidade e da fantasia. Para o
(1) Le profil vital, (O perfil vital), ed. da Écolc Moderne. Cannes.
107
desenhe) que as crianças terão de enfrentar mais tarde, como
aliás para todas as disciplinas, existem leis que se devem
conhecer e aplicar. Ora, o que fazem da perspectiva?
Por que razão não cultivam antes a exactidão do desenho
infantil?
Porque não corrigem os erros manifestos nos grafismos?
A nossa resposta seria relativamente fácil e compreensível
se os nossos interlocutores soubessem despojar a palavra edu
cação do seu conteúdo de formação didáctica e de aquisição
sistemática de conhecimentos, alimentado por um longo mal-
-entendido escolástico. Restabeleçamos a realidade dos factos:
trata-se, originalmente, de uma educação de reflexos e de
tendências, dc uma harmonização das regras dc vida pela
acção medida, inteligente e eficaz daquilo a que chamámos os
recursos-barreiras (1). O papel do educador consiste cm colocar
judiciosamente os recursos-barreiras; a criança terá de apren
der sozinha a viver. Quando a ave consegue voar por si, a
natureza considera a educação terminada. A nossa tendência
seria pensar que ela se iniciaria só então e considerar o
método como seu apanágio. Claro que é o adulto que dispõe
do método: a criança que se lhe adapte.
(1) Ver Ensaio de psicologia sensível (ed. Delachaux et Niestlé).
O que nós aqui tentamos é descrever e explicar — e justifi
car também — um método natural de desenho exactamente
comparável, nos seus processos, ao nosso método natural de
leitura, por sua vez inspirado nos princípios universais do
método natural de aprendizagem da língua materna. Nesta
aprendizagem, como em todas as outras, a simples explicação
teórica e o estudo formal das regras e das leis não bastam
para fundamentar algo de sólido, dc lógico ou de definitivo.
O grande segredo da educação inicial, de que estamos a
ocupar-nos, consiste precisamente em permitir a experiência
por tentativas da criança em todos os domínios.
Esta educação inicial começa por ser pessoal, condiciona
da pelo dinamismo que cada ser encerra para assegurar o seu
crescimento, a sua defesa e a sua elevação. O nosso ser físico
108
e mental é um todo maravilhoso que tende naturalmente a
restabelecer constantemente a harmonia que lhe é essencial;
existe nele um sistema, ainda misterioso, não só de defesa
mas também de compensação e mesmo de criação. Como
ainda não penetrou o mistério, a ciência gostaria de ignorá-lo,
preferindo utilizar descobertas aparentemente seguras porque
baseadas em realidades experimentais e arbitrariamente codifi
cadas.
É assim que os professores propõem incansavelmente o
desenho objectivo copiado ou à vista, as leis da perspectiva, as
cores complementares e outras inutilidades que a Arte Moder
na, com todas as suas audácias e esplendores, não conseguiu
desenraizar de um ensino mais do que nunca tradicional; não
é pelo facto de terem ensinado metodicamente todas as parti
cularidades morfológicas do homem à criança, antes dos dez
anos, nem de terem explicado as regras da perspectiva ao
adolescente, que lhes aperfeiçoam a técnica do desenho. Pelo
contrário, ter-lhes-ão incutido o sentimento perigoso e falso
de que só é possível realizar uma obra após ter assimilado as
regras que a explicam. Terão sufocado neles a flor da sensibi
lidade, o impulso e a ousadia que marcam a criação de obras
exclusivamentc pessoais. Terão destruído para sempre uma
possibilidade, e das mais exaltantes, da actividade e da educa
ção infantis.
Não corrigimos escolarmcnte nem de qualquer outro mo
do os erros manifestos dos desenhos infantis. Cada desenho,
com os seus erros e potencialidades, representa um patamar
da aprendizagem. A mãe não corrige as formas forçosamente
imperfeitas e viciosas da primeira expressão infantil. Não é
com proibições que se forma a personalidade: só falando se
aprende a falar, só andando se aprende a andar e só o desejo
superior que o indivíduo sente de subir e de se realizar, para
satisfazer as exigências vitais, o leva a transpor obstáculos e
procurar incessantemente um máximo de perfeição. Basta
salvaguardar esta necessidade de ascensão e de vida, criar o
meio propício que, longe de imobilizar a torrente, a liberte. É
assim que cada criança adquire um estilo pessoal de expres
são, marca de uma originalidade e sensibilidade exclusivas. É
assim que se abre caminho às subtilezas da arte e da poesia
109
que, desde as obras infantis, prenunciam o destino espiritual
do homem. Os grandes artistas são aqueles que sabem reatar
os esforços da infância para neles fundar um talento, apanágio
da idade madura.
2. Porque não fazem caso da observação minuciosa que
gostaríamos de ver na base do desenho escolar na medida em
que representa o ponto de partida da análise experimental e
do pensamento racionalista?Somos, evidentemente, a favor da observação minuciosa.
Apenas pensamos que é necessário pormo-nos de acordo
quanto ao seu verdadeiro sentido e método e ainda quanto
aos domínios em que e particularmente desejável.
Observar não significa forçosamente deixar de agir, sus
pendendo todo o movimento e toda a vida do objecto com a
única preocupação de captar as características da matéria
inerte, como um médico que, para observar o doente, exigisse
previamente a paragem dc todas as funções sem as quais a
própria vida se tornaria impossível.
Esta observação estática não deve ser inteiramente despre
zada: embora desnecessária ao grande ritmo da vida, encon-
tra-se na base da experiência científica. Porém, perdeu a
importância de outrora; hoje, o que temos de reconhecer é o
automóvel que passa a 100 à hora ou a paisagem que desfila
perante a janela do comboio ou sob as asas do avião. O
próprio cinema arrasta-nos para um ritmo de observação que
parece característico da nossa época. Precisamos, portanto, de
ultrapassar a concepção escolástica de dissecação metódica
dos elementos estruturais do objecto. Existe uma outra forma
de observação que acompanha o ritmo da vida através de um
processo de iluminação, revelando-nos, como num lampejo,
tudo o que há para ver e permitindo-nos uma percepção mais
profunda e eficaz do que a proporcionada pela paragem
arbitrária de um mecanismo cujo movimento constitui um dos
elementos essenciais. É para este tipo de observação activa,
intimamente ligado ao dinamismo vital, que nos orientamos; é
110
esta observação que cultivamos muito particularmente através
do nosso método natural da desenho, juntamente com a
sensibilidade que requer, aliás, processos específicos,
3, Também não têm tendência a cultivar e exaltar a
anormalidade que. por muitos êxitos que tenha obtido na
sociedade actual, nem por isso deixa de constituir uma fonte
de desequilíbrio?
Não seríamos pedagogos se não procurássemos, antes de
mais, desenvolver uma educação harmoniosa e equilibrada. De
forma alguma cultivamos ou exaltamos a anormalidade, favo
recendo tendências para a fealdade ou para o vício. Porém, é
preciso distinguir entre anormalidade e originalidade e fazê-lo
desde o início, sem o que acabaremos por nos tornarmos
vítimas de uma objectividade rigorosa, sistematicamente deter
minante da importância da parte no todo. 0 exagero antimor-
fológico dc certos pormenores, patente no desenho infantil,
não nos surpreende. As incoerências gráficas da criança, tal
como as suas incoerências linguísticas, não passam de etapas
da tentativa c irão desaparecendo gradualmente, deixando
atrás dc si apenas o traço da originalidade pessoal. A própria
criança atrasada vai melhorando a sua técnica no sentido de
uma maior semelhança, embora quase sempre e por múlti
plas razões - se revele particularmentc rcfractária à escolásti-
ca. contra a qual se defende muitas vezes com êxito. A
história da pedagogia reduz-se frequentemente à luta tragicó-
mica da escola para sujeitar todas as personalidades à sua
disciplina. O normal adapta-sc. O anormal não o consegue e
defende-se desesperadamente. Transforma-se no cancro a não
mencionar.
Quando lidamos com crianças, deparam-se-nos efectiva-
mente indivíduos dos dois gêneros: aqueles que já se submete
ram às normas da escola e do meio, que sabem subir pruden
temente a escada mas que perderam o impulso que por vezes
lhes permitiría voar até às zonas superiores. São as crianças
sensatas e os bons alunos. Todavia, é nos outros, naqueles que
conservaram todo o seu dinamismo e originalidade, que des
cobrimos a pouco e pouco a mensagem da expressão artística.
111
Tal êxito da criança atrasada é compreensível: vimos que
surge uma bifurcação num determinado momento da evolução
infantil. Se a criança triunfa imediatamente na expressão
escrita ou falada, sente menos necessidade de exprimir-se pelo
desenho do que os seus camaradas. Possui já um meio de
expressão, de relação e de êxito. Mas o anormal, que só
dificilmente consegue dominar a fala ou a escrita, que ainda
não encontrou um modo de expressão, descobre no desenho e
na pintura um êxito à sua medida, uma brecha na qual se
empenha de corpo e alma.
4. Muitos psicólogos serviram-se e servem-se do desenho
para aprofundar o conhecimento da criança, para observar as
anomalias, as tendências e as nevroses. Porque não desenvolve
ram o estudo nesse sentido?
A psicologia e a pedagogia cedem por vezes a uma espécie
de moda que atribui a uma forma particular de investigação
todas as virtudes, negligenciando a complexidade da vida e a
diversidade dos meios que permitem detectá-la.
O desenho livre, expressão íntima do indivíduo, permite
sempre um conhecimento progressivo da criança, seja ela
normal ou não. Contribui para ele na mesma medida em que
os demais meios de expressão, quer se trate da mímica, do
gesto, da palavra ou da escrita. Mas é ilusório pensar que para
esse conhecimento seguro da criança existam fórmulas ou
receitas.
No entanto, o desenho, tal como a escrita, encerra sinais
correspondentes a determinadas tendências do comportamen
to. Tentaremos especificar-lhes experimentalmente o significa
do, à semelhança do que se tem feito para certos sinais
grafo lógicos.
Frisemos que os comentários espontâneos que a criança
faz aos seus desenhos no momento de concluí-los, juntamente
com os textos e poemas livres da sua autoria, abrem ao
educador todo o leque de uma sensibilidade por explorar,
onde se constatarão as mesmas disposições. Evitar-se-ão, assim,
interpretações apressadas e excessivas, baseadas num único
documento gráfico frequentemente isolado de um complexo
de expressão e realizado na ausência do adulto que o analisa.
112
Só o comportamento global da criança, reflectido pela
expressão livre generalizada, poderá revelar-nos os benefícios
de uma psicoterapia natural que, sem perigo de choques
emocionais, desencadeia na criança os estados de tensão (cul
pabilidade, agressividade) resultantes dc um sentimento dc
insegurança. Será necessária uma vasta pesquisa para definir as
normas explicativas dos desenhos e comentários realizados no
clima de confiança das nossas classes, Não queremos fazer
antecipações por enquanto, mas podemos afirmar desde já
que, após esse trabalho, disporemos dos seguintes elementos
que nos permitirão conhecer a criança através dos seus dese
nhos:
1.° do exame, por assim dizer clínico, de certos sinais do
desenho;
2.º da interpretação, sob o ponto de vista do comporta
mento, das revelações individuais e sociais que os desenhos e
textos livres nos fazem; um teste americano, o T.A.T., siste
matizou o emprego do texto semilivre para tentar estabelecer
os perfis das personalidades. Os nossos trabalhos livres, que
frequentemente constituem testemunhos comovedores da vida
íntima, individual, familiar e social das nossas crianças, permi
tem-nos ir mais longe.
As vastas investigações a que procederemos neste campo
conduzir-nos-ão à definição de normas explicativas dos dese
nhos e dos textos, que nos serão preciosas.
3.° Precisaremos de ver e estudar em que medida o
simples facto da criança exprimir a sua intimidade e alcançar
um triunfo exaltante através do desenho e da pintura contri
bui de modo insuspeito para a harmonização do indivíduo,
para o seu equilíbrio, para a sua cultura e mesmo para as suas
aquisições escolares; cm que medida podem operar-se transfor
mações radicais face a problemas escolares, familiares e so
ciais. Teremos de definir as virtudes dc um desenho assim
compreendido, transformado, como se vê, em elemento edu
cativo de importância primordial.
4.° Finalmente, para um exame mais metódico da criança
segundo as normas e as escalas estabelecidas neste estudo,
recomendamos a todos os nossos aderentes a compilação de
113
uma colecção de desenhos c textos livres da autoria de cada
um dos alunos a seu cargo.
Após uma recolha dc seis meses, por exemplo, ser-nos-áfácil:
a) ver imediatamente em que fase se encontra a criança
dentro do processo dc aperfeiçoamento do desenho c inferir o
seu grau dc inteligência;
b) medir a velocidade a que se processa tal evolução,
velocidade essa que, como já referimos, constitui um factor
fundamental da inteligência verdadeira;
c) proceder então a inquéritos para os quais daremos
directrizes nas nossas várias publicações.
Encontramo-nos, portanto, num ponto de partida e não
de chegada.
O nosso livro também não constitui um ponto de chega
da. De que nos serviria saber dc que maneira uma criança
desta ou daquela idade realiza determinada forma gráfica sc
não pudéssemos na prática, no nosso comportamento educati
vo para com ela, tirar dessa observação coordenadas precisas
para uma melhor orientação dos nossos esforços?
Este livro é um instrumento. Juntos, verificar-lhe-cmos os
dados e as conclusões. Julgamos assim ter realizado uma obra
útil, permitindo aos pedagogos abordar o problema do dese
nho infantil não como diletantes, mas como educadores capa
zes de o integrar no processo global da vida e cooperar na
promoção do trabalho essencial que tentámos levar a cabo.
114
SEGUNDA PARTE
AS GÊNESES DO DESENHO
INTRODUÇÃO ÀS GÊNESES
Na nossa Escada de desenha (de 1 a 7 anos), que encerra
o nosso primeiro estudo sobre o desenho infantil, procurámos
mostrar como o jovem desenhador consegue, por tentativas
reajustadas, vencer as dificuldades encontradas na aprendiza
gem do desenho. Essas dificuldades — sensivelmente iguais
para todas as crianças — são representadas pelos degraus da
escada. Cada degrau corresponde a uma etapa vencida que a
criança repete até mecanizar e automatizar. Segue-se-lhe uma
nova etapa, um novo patamar onde voltará a verificar-se o
mesmo processo: êxito, repetição, automatização e outro salto
rumo a uma segurança dc mão mais ou menos rapidamente
adquirida e a um grafismo mais ou menos completo tanto no
conteúdo como na feitura expressiva.
Para facilitar uma investigação dos vários objectos habi-
tualmentc incluídos na maioria dos desenhos infantis, procu
rámos compilar uma espécie de repertório gráfico. Assim,
iremos debruçar-nos sobre as diferentes Gêneses que materiali
zarão as dificuldades encontradas pela criança e a maneira
como ela as domina. Estudaremos:
A Génese do Homem
A Génese das Casas
A Génese dos Automóveis
A Génese dos Animais (aves, cavalo, etc.)
Ao fazê-lo, empenhar-nos-emos em simplificar ao máximo
uma investigação experimental susceptível de pôr ao alcance
117
de todos os educadores a compreensão dos desenhos infantis
nos seus diversos estádios e nas progressões e processos que
lhes asseguram a expressão definitiva. Não ignoramos os tra
balhos mais notáveis que os psicólogos e os pedagogos realiza
ram sobre o assunto. Mas, na impossibilidade de aproveitar
mos os seus ensinamentos laboratoriais, orientámo-nos resolu-
tamente para pesquisas livres, efectuadas num meio não esco-
lástico, utilizando métodos naturais conformes com as con
cepções, com os sentimentos e com as necessidades de seres
que obedecem espontaneamente às grandes leis universais do
crescimento e da educação.
Graças às ricas colecções de desenhos livres realizados nas
classes Freinet, pudemos estabelecer normas a precisar e siste
matizar por estudos ulteriores.
Exprimimos o nosso agradecimento aos numerosos educa
dores e educadoras que nos permitiram este trabalho com o
envio importante de material. Estamos quase certos de que as
nossas realizações colectivas, ainda insuficientemente divulga
das, terão muito cm breve de se impor à grande massa dos
professores, como bases de uma reconsideração psicológica c
pedagógica do desenho infantil. Entretanto, basta-nos ter po
pularizado a ideia de que o desenho infantil não é um
exercício menor, mas que tem significado e originalidade em
cada uma das suas fases, porquanto nos ensina a conhecer e
amar melhor as crianças que, através das vias benéficas da
Arte, preparam um futuro cultural digno do homem.
118
A GÉNESE DO HOMEM
Como nasce o Homem? Como o imagina a criança?
Como o desenha? Existe uma norma dc evolução e de pro
gressão entre o “boneco cabeçudo” e a imagem quase perfeita
do homem, passando pelo boneco de braços ligados à cabeça,
depois ao pescoço e finalmcnte ao tronco? Será que estes
pontos de articulação marcam etapas do desenvolvimento in
telectual da criança? Eis algumas das perguntas que os psicó
logos dc diversos países vêm formulando desde há muito e às
quais tentaram responder através de inquéritos que visavam
estabelecer normas psicologicamente utilizáveis. Se certos tes
tes se fundamentaram no desenho do boneco, foi sem dúvida
por se reconhecer a esses trabalhos um adiantamento conside
rável e um suficiente valor significativo e comprovativo.
Já muitas vezes dissemos que a psicologia, apesar de ser
uma disciplina metódica e científica, é frequentemente a
psicologia das crianças que, na escola, desaprendem a ser elas
próprias, a pensar, a criar e a realizar-se, transformando-se em
alunos dóceis que cristalizam a pouco e pouco num modelo
erradamente julgado definitivo. Mas perante um outro modo
de vida e de educação infantil que preserve as qualidades
inatas da criança, limitando-se a ajudá-las a expandir-sc, surgi
rá uma nova psicologia: a da ave que nasce, fortalece as asas,
ousa voar e conquista o firmamento sem olhar às normas nem
às restrições que a domesticação lhe teria imposto.
Se, convencidos de ser essa a única via educativa, começa
rem desde logo a submeter sistemática e metodicamente a
criança a exercícios, tarefas e cópias que lhe destruam o
119
sentido de criação audaciosa c de vida, se lhe impuserem
desde o início um caminho que ela não ousa abandonar,
falsificarão todos os dados da experiência que pretendiam
medir. E isso que nos obriga a considerar como nulos todos
os estudos realizados sobre colecções de desenhos de crianças
submetidas aos métodos escolares tradicionais. Mesmo que
tenham dito à criança: desenha o que quiseres! A criança
estará engaiolada e mesmo que lhe abram a porta não se
aventurará a sair.
Para encontrar o verdadeiro desenho livre, há que come
çar por implantar na escola e na família uma atmosfera nova,
assente cm normas de criação, de expressão e de comporta
mento que permitam ao indivíduo desabrochar e expandir-se.
O desenho livre é um fruto delicado que só poderá amadure
cer e adquirir todo o seu significado no clima de afectividade
e dc criação que conseguimos instaurar, pelo menos parcial
mente, nas nossas classes.
Convem-nos verificar agora se o processo evolutivo do
desenho do homem, tal como aqui o estabelecemos, corres
ponde de facto à realidade. Já afirmámos que este primeiro
trabalho não passa de um simples ponto de partida para
investigações mais fecundas. Todavia, são necessárias algumas
achegas para esclarecer tal tentativa preliminar, integrada já
no complexo do problema geral que nos empenhamos em
elucidar.
Os nossos projectos de Gêneses diversas visam fazer ressal
tar, em casos e situações extremamente diversos, a nossa teoria
da tentativa experimental. Iremos reencontrá-la na solução
das dificuldades que a criança tem de vencei tanto no plano
gráfico como no afectivo.
Para simplificar o problema apenas utilizámos para a
nossa Génese do Homem personagens isoladas, separadas do
contexto ambiental ou feitas em serie, inseridas numa situa
ção idêntica na qual desempenham um mesmo papel (Figs. 45,
46, 53. 54, etc.).
O isolamento da personagem permite-nos acentuar a cria
ção progressiva do actor essencial o Homem. Sabemos mui
to bem que a criança relaciona constantemente a sua persona
gem com o meio, quer no grafismo quer no comentário. Mas,
120
à medida que vai dominando as dificuldades, começa a reali
zar o homem em si. procurando levar o desenho a um
máximo de perfeição. Trata-se dc um acto de escolha, inteira
mente livre e alheio a qualquer condicionamentotemático
compulsivo. As relações afectivas da personagem com o meio
dão origem a situações psicológica, humana c intelectualmcnte
tão complexas, que seria impossível abordar-lhes todos os
aspectos imediatos, no âmbito da simples explicação global.
O nosso objectivo, nesta fase de desenho entre os 2 e os
6 anos, e sublinhar a sistematização dos primeiros triunfos. a
sua repetição nos patamares do automatismo e a sua consecu
ção final do tipo Homem: desde os primeiros esboços aos
aperfeiçoamentos essenciais e aos embelezamentos rebuscados,
que assistimos a toda a aventura humana, materializada pela
criança através de uma criação por assim dizer natural.
Para dar uma idéia mais precisa e aparentemente mais
metódica da evolução da personagem, ler-nos-ia sido mais
fácil e demonstrativo reportarmo-nos às realizações sucessivas
de uma única criança. Teríamos podido constatar comoda
mente. num conjunto de documentos escalonados ao longo de
meses e anos, as diversas etapas do desenho personalizado e
verificado quase simultaneamente a oportunidade da nossa
Escada de desenho.
Porém, quisemos abordar o boneco nos seus aspectos
mais generalizados, levantados por uma grande massa infantil
a braços com as mesmas dificuldades de realização. Este
trabalho não tem pretensões pedagógicas nem científicas. Tal
como se apresenta, teve pelo menos a vantagem de nos
permitir certas constatações que passamos a enunciar.
A evolução do homem depende evideutemente do apare
cimento sucessivo de órgãos precisos, traçados cm função das
dificuldades encontradas para assinalá-los. A importância que
a criança atribui a estes órgãos escolhidos por ela não é de
maneira alguma indiferente. Note-se que a cabeça constitui
sempre o ponto de partida: não se vê um boneco sem cabeça.
Um círculo acompanhado de uns quantos tentáculos vindos à
ponta do lápis são para a criança pormenores suficientemente
evocativos da personagem. Seguem-se quase sempre as pernas.
Os pés não parecem imediatamente úteis, ou serão demasiado
121
difíceis dc desenhar? Surge depois o ventre, redondo ou mais
ou menos geométrico, de um ou dois andares. Indiferente
mente, no princípio ou no fim da experiência, chegam o
nariz, os olhos, as orelhas, a boca, os cabelos, os braços, as
mãos, os pés, o umbigo e o vestuário. Será muito arriscado
afirmar que a ordem de aparecimento destes vários atributos
reflecte as aptidões intelectuais do jovem autor. Será insensa
to inventar uma notação que. mediante a pontuação dc todos
os órgãos hierarquizados pelo adulto, pretenda levar à elabora
ção de testes dc inteligência capazes de avaliar verdadeiramen
te o nível mental da criança. Desde muito cedo, desde os dois
anos mais ou menos, a criança possui uma noção global mas
segura da morfologia do homem. Nota as irregularidades fisio
lógicas dos doentes e sente-se afectado. Exprimirá adequada
mente a sua emoção através da palavra. Mas desenhar é outra
coisa: terá de servir-se do contorno; depressa, porém, saberá
aproveitá-lo, recorrendo sempre que possível a processos de
extrema economia.
É o que explica a rápida personalização do boneco. A
linguagem gráfica caracteriza-se por formas, esquemas, que a
criança descobre por tentativa e aos quais se prende se os
considera conseguidos e sobretudo se o meio os aprova: círcu
los (Fig. 9), triângulos (Figs. 62-63), quadrados (Fig. 78), os
foguetões (Fig. 18), sóis (Fig. 49) e flores (Fig. 50)- muito
cedo representativos de um estilo pessoal, reconhecido pelos
próprios pequenitos da classe maternal: "É o desenho do
Popol”, É o boneco da Suzyf". Estamos perante um verdadei
ro teste de autêntica propriedade, facilmente controlável e
cuja constância e justeza de resultados não deixa de surpreen
der. E, todavia, a criança de 4 a 5 anos não analisa nem
observa deliberadamente os pormenores do desenho. No en
tanto, é sensível ao automatismo da repetição gráfica, ao
conteúdo dos patamares e à sua sucessão, por sc tratarem dc
processos por ela vividos e por ver as outras envolvidas nas
respectivas obras tal como ela se vê envolvida nas suas.
Na execução do boneco, há um elemento que desde
muito cedo marca o jogo do pequeno desenhador: a velocida
de de execução, que apontámos na nossa Escada de desenho.
A ousadia do traço, as noções da relação entre as partes e o
122
todo e a facilidade dc disposição na página surgem quase
instantaneamente na criança permeável à experiência, ou seja,
na criança inteligente. Mas esta aceleração só pode produzir-
-se, quando ela se acha segura dos seus automatismos, quando
o lápis desliza tão depressa como a corrente do pensamento.
Senhor de uma execução rápida, o jovem desenhador fica
então disponível para outras invenções gráficas e para comen
tários a posteriori mais ou menos fabulosos.
É desta forma que o desenho infantil consegue testemu
nhar um quociente de vida e dc expressão aparentemente
ignorado na totalidade pelos especialistas da matéria, resultan
te agora de uma resoluta abertura à iniciativa e à criação.
Cada boneco que entra no jogo pode considerar-se como um
boneco-instrumento que irá abrir outras portas: tem uma
origem e um destino funcionais e experimentais, traduzidos
por vezes no gesto ou na palavra da criança actuantc. Foi esse
factor de vida que tentámos preservar neste primeiro filme
sobre a personagem humana. Sempre que dispusemos do co
mentário autêntico — senão adequado — conservámo-lo. Na
sua falta, procurámos traduzir de forma lapidar a mensagem
de vida encerrada na obra espontânea da criança, Trata-se,
evidentemente, de uma intrusão adulta no domínio da sensibi
lidade infantil e a um nível de interpretação que não é o da
criança. Mas foi sobretudo pensando nos pais e nos educado
res que recorremos a tais comentários elípticos, destinados
exclusivamente a tornar os adultos sensíveis à mensagem de
vida encerrada nas criações instintivas das suas crianças e a
evitar uma perda de bens. Como justificação, podemos acres
centar que. ao fazê-lo, em nada perturbamos a actividade
espontânea da criança c talvez consigamos suscitar no adulto
uma atitude de expectativa e de respeito perante improvisa
ções gráficas originais, mas quase sempre consideradas em
bloco como rabiscos inúteis.
Para permanecer no nível desta vida de alegre espontanei
dade, há, porém, que respeitar a continuidade da experiência:
continuidade das criações infantis sucessivas, continuidade das
manifestações do comportamento e continuidade das condi
ções favoráveis dc um meio propício. A expressão global e
concominante dos dados vitais favorece ao máximo a desco-
123
berta do acto conseguido que se vai repetindo e fixando nessa
reprodução mecânica de comportamentos favoráveis. Só num
clima de continuidade é possível afirmar e garantir a liberdade
de expressão da criança.
124
COMO NASCE E EVOLUI O HOMEM
SOB OS DEDOS DA CRIANÇA
Os desenhos que serviram para estabelecer esta génese são
desenhos livres de crianças a quem a escola não ensinara
previamente qualquer princípio básico de desenho.
O feto
Fig.1
O ovo mal diferenciado. Jacques (2 anos e 6 meses).
Fig. 2
Primeira evolução do embrião. Mariette (2 anos).
125
Fig. 3
O corpo toma forma com dois olhos e, em baixo, um
princípio de pé. Louis (4 anos e I mês).
O ser animado, munido dos seus primeiros tentáculos,
levanta voo para a vida. Pierre (3 anos e 2 meses).
126
Fig. 4
O nascimento
O homem acaba de nascer. Vamos vê-lo evoluir segundo a
perspectiva e o sentimento da criança, mas necessariamente
também e em grande parte de acordo com as possibilidades
técnicas da sua lenta tentativa.
l;ig. 5
O homem acaba de nascer, ainda impreciso e tosco.
Dominiqtie (2 anos c 4 meses).
Agita-se, alonga-se, experimenta os membros em todas as
direcções. (Mariette (3 anos e 3 meses).
127
Fig. 6
Balouça-se pendurado pelos braços... Jean-Paul (3 anos e
10 meses).
Como um insecto, o Homem firma-se finalmente sobre as
pernas, tentandoequilibrar-se. Micbel (3 anos e 11 meses).
Eis o Homem, com cabeça, pernas, pés e, curiosamente
articuladas, duas mãos incipientes. Dominique (3 anos e 2 me
ses).
128
Fig. 7
Fig. 8
Fig. 9
As vias complexas do aperfeiçoamento dos tipos
Cada criança irá diferenciar e aperfeiçoar este homenzinho
recém-nascido, segundo as suas tendências, possibilidades e
êxitos.
Trata-se de um homem ou de uma planta?
Fig. 10
Eis o protótipo do homem, que o nascimento acaba de
arrancar ao meio que o gerou, como uma planta acabada de
arrancar ao solo a que se prendia com fortes raízes. Annette
(5 anos e 2 meses).
Fig. 11
Olhos, boca, cabelos, pés: arrancado a um mundo, prosse
gue em busca de um outro universo. Annette (5 anos e
3 meses).
129
Eis o homem-árvore. com o seu tronco, os seus ramos
cobertos dc folhas e a sua cabeça florida. Daniel (5 anos c
7 meses).
“O bebê-flor”. Dir-se-ia um malmequer de pétalas frisa
das, acabado de colher num prado. Charles (5 anos e 3 me
ses).
Fig. 14
E eis o grafismo simultaneamente árvore pelo tronco,
flor, sol e, naturalmente, homem. Michou (5 anos e 5 meses).
130
Fig. 12
Fig. 1 3
Uma cabeça e penas
Eis. à direita, um boneco com cabeça c pernas e, à
esquerda, o mesmo boneco com um princípio dc ventre e pés.
Rosettc (4 anos c 2 meses).
Bonecos com cabeça e pernas, reproduzidos em série e
dotados já de alguns aperfeiçoamentos: olhos, pés, um esboço
de braços e de cabelos, Marie-Francc (4 anos e 4 meses).
Será possível exprimir mais com uma técnica tão rudi
mentar? "A mãe ralha com o filho, ” Jacques (4 anos c
2 meses).
131
Fig. 15
Fig, 16 .
Fig. 17
O homem-foguete
Fig. 18
A Mariette equipou o seu homem-foguete com duas per
nas reduzidas e um coraçãozinho. Mariette (3 anos e 7 meses),
Fig. 19
Eis um foguete mais aperfeiçoado, com duas mãos-mani-
velas e uma cabeça viva. Francine (5 anos e 5 meses).
132
Fig. 20
O tipo foguete, sistematicamente repetido, originou este
belo conjunto, espectacular como fogo de artifício. Henri
(3 anos e 8 meses).
Um ventre que se anima
O homem-foguete diferencia-se e o ventre enriquece-se
com quatro minúsculos elementos de vida. Maríette (3 anos e
10 meses).
133
Fig. 21
‘'O menino chora no bosque porque perdeu a mãezi-
nhu... " E as suas entranhas mostram-se visivelmente convulsas.
Marc (5 anos c 1 mês).
O ventre constitui realmente um elemento de vida, com
os seus órgãos múltiplos e os seus apendices diversos, encima
dos por uma cabeça espantada. Marc (5 anos e 1 mês).
"A menina na sua casa" parece muito nervosa... Josette
(4 anos e 1 mês).
134
Fig. 22
Fig. 23
Fig. 24
O ventre readquire os seus direitos, com o umbigo, os
seios, os braços e as pernas engelhadas. Jean-Pierre (6 anos).
Uma cabeça que anda
Umas crianças alongaram as pernas, outras dilataram o
ventre, centro da vida vegetativa. Eis algumas cabeças que
andam...
Nada mais simples do que a vida: uma cabeça, dois olhos,
uma boca, dois braços com as respectivas mãos a servir de
lemes, e toca a andar! Françoise (5 anos).
Será um marciano? Pierrc (4 anos e 8 meses).
135
Fig. 25
Fig. 27
Uma cabeça enorme, como as caraças de papelão dos
cabeçudos carnavalescos. Alain (5 anos e 5 meses).
"O senhor leva o cavalo a ferrar." Jean-Claude (5 anos).
Da elegância e da beleza
Eis os que se preocupam em "criar beleza".
136
Fig. 28
Ou um ser planetário que vai aterrar? Jacques (4 anos e
5 meses).
Fig. 29
Fig. 30
Amédée (5 anos e 1 mês) acrescentou ao seu homem
esquelético apêndices amplos como grandes barbatanas.
Com 5 anos e 3 meses, Amédée aperfeiçoou o seu estilo
decorativo,
137
Fig. 31
Fig. 32
E René (4 anos e 9 meses) também estilizou os longos
cabelos da sua mulher-insecto.
Como um cometa de cauda imensa, a cabeça de Erançoise
(4 anos e 8 meses) parece vogar através dos elementos.
138
Fig. 33
Fig. 34
O homem insecto perfeito
Parece haver terminado as suas metamorfoses e surge-nos
agora com uma cabeça, um tronco, pernas, pés, braços se
necessário, orelhas por vezes c mais tarde fatos conforme as
conveniências.
Ei-lo vestido com uma simples fieira dc botoes. Denis
(*6 anos).
A sua
3 meses).
companheira, nova c galante. Roger (5 anos e
“O Anjo que voa para o céu.” Pierre (5 anos e 11 meses).
139
Fig. 35
Fig. 36
Fig. 37
E eis o Homem. Hené (4 anos e 10 meses).
Pormenor das técnicas de desenho
Assistiremos agora à diferenciação e ao aperfeiçoamento
de cada um dos elementos do homem, segundo as necessida
des da vida e os caprichos das técnicas.
O problema dos braços
Onde fixar os braços? À cabeça? Ao pescoço? Ao
tronco? Tudo depende da técnica do desenho e do significa
do da imagem realizada.
Fig. 39
“Geneviève na cama." Os braços são como apêndices
implantados no corpo, como as raízes de uma trepadeira.
Mariette (3 anos).
140
Fig. 38
Embora sem perder o seu carácter de raiz ou dc ancinho,
os braços já encontraram, neste caso, um ponto dc articula
ção. Geneviève (5 anos c 1 mês).
Fig. 4 1
Os braços parecem cotos munidos de articulações ortopé
dicas. Marie (4 anos e 4 meses).
141
Fig. 40
Braço nascendo de um par de pernas-tronco. Marcel
(4 anos).
Fig. 4 3
Braços-orelhas sobre uma cabeça original. Alain (4 anos e
8 meses).
Braços dcliberadamente ligados às orelhas. Mireille (4 anos
e 11 meses).
142
Fig. 42
Fig. 44
Este desenho apresenta-nos três etapas:
Braços ligados às orelhas;
Braços ligados um ao pescoço, outro ao tronco:
Braços ligados ao tronco. Dominique. (3 anos e 4 meses).
Braços ainda rudimentares, com mãos em embrião muito
agarradas e originais no seu compasso sincronizado. Jean (5 anos)
A figura dispõe aqui de elementos especializados, capazes
de segurar algo semelhante a uma bengala. Nicole (3 anos e
4 meses).
143
Fig. 4 5
Fig. 47
A posição dos dedos fica indecisa por muito tempo, A
mão evolui frequentemente para uma espécie de sol cujos
dedos são os raios. André (4 anos e 8 meses).
Há um progresso. Uma das mãos já apresenta os cinco
dedos regulamentares, enquanto que a outra ainda se abre
numa multiplicidade de raios solares. Jean-Louis (5 anos e
10 meses).
Ou então as mãos surgem como lindas flores no extremo
dos braços. Josette (4 anos e 8 meses).
144
Fig. 48
Fig. 49
Fig. 50
E eis dois desenhos de duas crianças dc 5 anos de idade:
Aline das Landes e Jean-Yvcs das Côtes-du-Nord. autores de
belas mãos com vastas palmas que se diriam provenientes do
mesmo lápis.
Se não se lhes vê qualquer utilidade, os braços são pura e
simplesmente suprimidos. Jacques (4 anos e 8 meses).
Para que servem as mãos num autocarro? Jean-Paul
(5 anos e 11 meses).
145
Fig. 51 Fig. 52
Fig. 5 3
Fig. 54
Fig. 55
"O menino na trotineta" conduz com um único braço.
René (6 anos).
Fig. 56
E Marc-Antoine (6 anos) dispara a pistola apenas com um
braço, naturalmente.
Fig. 57
O pescador segura na linha com a mão direita, a esquerda
de nada lhe serviría. Jacqucs (6 anos).
146
O palhaço também evoluciona com um só braço. Maxou
(4 anos e 6 meses).
Fig. 59
O homem sentado projecta a distância a sua mão fantásti
ca. Aline (5 anos).
147
Fig. 58
Um meio cômodo: o acrescentamento
Fig. 60
Eis o protótipo do desenho com acrescentamentos, como
uma escada de pintor montada em três partes. Dominique
(3 anos e 2 meses).
Um outro boneco acrescentado, dir-se-ia agora com um
pequeno rolo de matéria plástica entreposto. Charles {4 anos e
1 mês).
148
Fig. 61
Se o boneco não tem o tamanho necessário, basta acres
centar-lhe as pernas. Geneviève (6 anos e 1 més).
Se o problema reside no pescoço, basta acrescentá-lo.
Geneviève (6 anos e 1 mês).
O homem e a mulher
Como vê a criança o homem e a mulher?
Como distingue o homem da mulher?
149
fig. 62
Fig. 63
Fig. 64
Dois embriões dc pai c dc mãe. Maricite (3 anos e 5 mes-
ses).
A senhora em camisa de noite e o pai receoso e prudente.
Patrick (4 anos e 3 meses).
O papá visto por Geneviévc (3 anos e 3 meses).
150
Fig. 65
Fig. 66
Amãe, sólida e bem assente, leva o pai no braço como
um brinquedo. Noêl (4 anos e 8 meses).
E eis o casal simbólico: a mulher-megera gesticulando e
um homem inquieto e suplicante, Dominique (4 anos e
1 mês).
151
Fig. 67
Fig. 68
Fig. 69
A mulher triangular
É sem dúvida uma solução tecnicamente fácil que surge
em muitos desenhos.
Eis uma mulher. triangular cujos pés ainda não se despren
deram do solo original. Fátima (7 anos e 6 meses).
Primeiro aperfeiçoamento. Jacquelinc (4 anos).
Dir-se-ia a composição perfeitamentc estudada de um de
senhador dadaísta. Paul (4 anos e 8 meses).
152
Fig. 70
Fig. 71
Fig. 72
Duas mulheres quase idênticas, desenhadas por duas crian
ças diferentes, segundo a mesma técnica do triângulo. Henri
(5 anos e 2 meses) e Jeanne (5 anos e 8 meses).
Sinfonia em quadrado
Ignora-se a razão por que algumas crianças escolhem uma
posição intermediária entre os círculos e os triângulos e de
senham tudo em quadrados.
Primeiros êxitos de figuras desenhadas à base de quadra
dos. Jacques (4 anos e 11 meses).
153
Fig. 74Fig. 73
Fig. 75
Aqui só o tronco é quadrado. Henri (5 anos e l mês).
Fig. 77
Jean-Paul possui um estilo inteiramentc original e exclusi-
vamente cm quadrada. Jean-Paul (4 anos e 8 meses).
E eis o próprio Pai Natal quadrado. Claudine (5 anos e
1 meses).
Os olhos
Os olhos contam-se entre os primeiros elementos que
animam os desenhos dos bonecos.
154
Fig. 76
Fig. 78
Os olhos gigantes do boneco primitivo. François (3 anos e
11 meses).
Olhos com raios como se fossem o sol. Mireille (4 anos e
1 mês).
155.
Fig. 79
Fig. 80
Fig. 81
Cabeça pensativa com olhos atentos onde despontam as
sobrancelhas. Henri (5 anos e 2 meses).
Um belo olhar. Jacques (6 anos e 3 meses).
Um olhar expressivo. Alain (5 anos e 3 meses).
156
Fig. 82
Fig. 83
As orelhas
Misteriosamente. as orelhas ocupam um lugar muito se
cundário no desenho infantil.
Desenho com orelhas, François (4 anos e 8 meses).
Fig. 85
Orelhas semelhantes a dois olhos suplementares. Joel
(4 anos e 1 mês).
157
Fig. 84
Orelhas inseridas num conjunto decorativo. Jean-Paul
(4 anos e 3 meses).
Fig. 86
Fig. 87
E o senhor que vai passear achou melhor pendurar a
bengala na orelha. Joel (4 anos e 1 mês).
Os cabelos
Os cabelos, em contrapartida, só muito raramente são
Cabelos em vareta que, nos primeiros desenhos, se não
diferenciam ainda dos braços nem das mãos. Pierre (3 anos e
8 meses).
Fig. 89
Cabelos como ervas flutuando ao vento. Michaella
(4 anos).
158
Fig. 88
Fig. 91
Cabelos, elemento espectacular de Beleza. Michel
(4 anos).
Fig. 92
Cabelos armados em permanente. Jacques (6 anos e 3 meses).
159
Fig. 90
Picrre (4 anos).
Fig. 93
Longas tranças de efeito decorativo. Jacqueline (5 anos e
1 mês).
Fig. 94
E, do cimo do seu prolongamento, com os maravilhosos
cabelos desfeitos e tombando-lhe em cascata: Mélisande. Mi-
chaella (4 anos e 1 mês).
Os chapéus
A cabeça quase nunca está descoberta. Sc não-há cabelos
há um chapéu.
Eis, de entre uma infinidade de tipos, os chapéus de:
160
Michou (4 anos e 4 meses).
Annie (5 anos e 10 meses)
Fig. 96
Fig. 97
Eugène (6 anos).
161
Fig. 95
E as mulheres exóticas de Jean-Paul (4 anos c 5 meses),
Pés simples e filiformes de uma figura solidamente firma
da como um despertador sobre um armário. Charles (3 anos e
10 meses).
Fig. 100
Pés em ventosa de uma extraordinária máquina humrana.
Jacques (3 anos e 11 meses).
162
Fig. 98
Pés avantajados de bonecos que só nos falam pelas cabe
ças e pelos pés. Pierre (4 anos e 1 mês).
E, para terminar, o boneco estilo Charlot. Jean-Paul
(4 anos e 1 mês).
O vestuário
O vestuário só surge bastante tarde nos desenhos dos
bonecos ou então acha-se reduzido aos elementos essenciais:
os botões.
163
Fig. 102
0 boneco com algibeiras. Denis (6 anos c 10 meses).
A menina-arlequirn. Agnès (6 anos e 10 meses).
164
Fig. 103
Fig. 104
Fig. 105
A camisola do professor. Jacqucs (7 anos e 6 meses).
A sedutora. Helène (5 anos e 11 meses).
A menina com fato de domingo. Jacqueline (5 anos e
11 meses).
165
Fig. 106
Fig. 107
Fig. 108
Os oficiantes. Jacques (5 anos e 10 meses).
Os perfis
Os perfis são tecnicamente difíceis de realizar. Eis o
motivo por que poucas crianças tentam desenhá-los e rara
mente no início.
Perfil de Pierre (6 anos e 1 mês).
“Senhor olhando os pássaros." Jacques (5 anos e 10 me
ses).
166
Fig. 109
Fig. 110
A senhora vai apressada. Yves (8 anos).
Eis o caçador. Jean-Marie (6 anos e 10 meses).
167
Fig. 111
Fig. 112
O cow-boy. Bébert (8 anos).
Fig. 114
E, para terminar, este comovedor quadro do noivo levan
do flores à sua bela. André (6 anos e 10 meses).
A vida através do movimento
Neste estádio, a criança ainda está longe de ter alcançado
a perfeição técnica. Todavia, queremos frisar que apesar da
168
Fig. 113
sua imperfeição técnica, consegue atingir uma expressão de
vida incontestávelmente profunda. E a capacidade que a crian
ça desenvolve para captar a vida em tudo o que ela possui de
fugaz, e de comovente constitui, tal como para o artista e para
o pintor, o objectivo da arte em que a iniciamos.
O palhaço. Jean-Paul (5 anos).
169
Fig.115
A candura de umas núpcias. Marie-Clairc (6 anos e
1 mês).
Fig.116
“Menina divertindo-se. ” Nicole (5 anos e 8 meses).
Eis um grupo de soldados "condecorados com a cruz de
guerra", reveladores de uma ironia digna de um grande artista.
Alain (5 anos e 5 meses).
170
Fig. 117
Surpresa e hesitação. Jean-Marc (4 anos e 9 meses).
Fig. 118
Fig. 119
/! Hg. 120
Com 5 anos e 3 meses, Yves desenhou um operário
espantoso "que desentope uma sarjeta”.
Com a mesma idade, Etienne desenhou um “senhor levan
tando-se”. Está despenteado e segura numa mão o pente e
noutra a escova.
“O pequeno marinheiro vai à festa.” Odette (6 anos e
l mês).
171
Fig. 120
Fig. 121
Fig. 122
Por incrível que pareça, estes dois bonecos “regressam do
cemitério no dia de Todos-os-Santos e está a chover...” Clau
de (4 anos e 3 meses).
“Santa Catarina subindo ao céu." Gilbert (5 anos e
10 meses).
Jacques desenhou este grupo de beldades que parte numa
carroça. Jacques (5 anos c 2 meses).
172
Fig. 123
Fig.124
Fig. 125
E temos ainda os apaixonados da beleza que parecem ter
unicamente captado nos modelos que os rodeavam o exultan
te elemento artístico.
Fig. 126
O chapéu florido. Françoise (4 anos e 11 meses).
173
Eis a rapariguinha. Michou (4 anos).
A menina grande com o cão. Michaella (4 anos e 10 me
ses).
174
Fig. 127
Fig. 128
Fig. 129
E não são da opinião de que só uma criança, manejando
a goiva como os seus antepassados das cavernas manejavam o
buril de sílex, conseguiría restituir a esta estátua a eternidade
impassível do homem?
175
As normas que estabelecemos sobre a evolução do Ho
mem nos desenhos das crianças dos 2 aos 6 anos serão válidas
para as crianças de todos os meios? Variarão de país para
país? Quais seriam as variantes ou as diferenças? No prosse
guimento da nossa investigação deveremos achar respostas
para estas perguntas.
Já encontrámos resposta para uma questão que entretanto
se levantou: Porque serão tão poucas as crianças que dese
nham as suas personagens de perfil? O perfil, de facto. só
surge bastante tarde. Temos poucos nas nossas colecções de
desenhos de crianças dos 2 aos 6 anos. Pensámos que a razão
desta ausência generalizada residisse nas dificuldades técnicas
aparentemente existentes no desenho do perfil: a testa, o
nariz, os lábios, o queixo e o pescoço geram uma sucessão de
bossas e de reentrâncias de proporções difíceis de reproduzir.
O perfil pressupõe já uma certa análise dos pormenores c
exclui a espontaneidade global característica dos esforços das
crianças muito jovens.
Mas nos desenhos oriundos da África Negra dá-se precisa
mente o inverso: os desenhos infantis comportam personagens
vistas de perfil independentemente da idade do autor. A
representação frontal dafigura só surge exccpcionalmente c
numa idade bastante avançada: depois dos 9 anos. Os desenhos
que nos enviaram os nossos colegas Gast (Hoggar) e Lagrave
(Camarões) permitiram-nos constatá-lo. Informámo-nos mais
circunstanciadamente junto deles e eis o que nos diz Lagrave
(Pitoa):
Com efeito, todas as crianças negras desenham o homem
de perfil. Ora o desenho de frente é mais fácil do que o de
perfil. Há aí uma espécie de mistério que creio ter desvenda
do parcialmente.
Ao observarmos as esculturas que desde sempre serviram
para o culto dos antepassados, constatamos que a sua posição
é frontal e que representam o rosto do antepassado de quem
se julga haverem recebido a força vital. A máscara constitui a
parte essencial da escultura. Consta de uma superfície plana
onde se inscrevem os traços do rosto e acha-se colocada sobre
um pé com meras funções de suporte. Temos de admitir que
a cara representa 0 símbolo do morto. O escultor que talha
176
estes rostos é um especialista de imagens místicas: deuses,
antepassados, chefes.
Segundo parece, a cara representa a honra e a dignidade
do homem. Certas expressões correntes entre nós, tais como
"não ter cara para", “ser descarado", etc., mostram vestígios
desta acepção. Note-se que na arte românica o Cristo glorioso
surge sempre de frente, enquanto que os discípulos que o
rodeiam estão de perfil. Sem tirar conclusões sobre o facto.
limitemo-nos. contudo, a sublinhá-lo.
Voltando à criança negra e ao seu meio: para compreen
der verdadeiramente o comportamento da criança africana
temos de esquecer por completo a nossa mentalidade de
ocidentais. Temos de penetrar resolutamente no âmago das
suas práticas dc vida, dos seus actos aparentemente irracionais
e ingênuos, para sentir-lhes a espiritualidade latente. Só assim
podemos constatar que todos os acontecimentos importantes
da existência: o nascimento, a iniciação, as núpcias, a morte,
as sementeiras, as colheitas, a pesca, os poços, as fontes e a
fecundidade da mulher e da terra se encontram consagrados a
Espíritos, Estes Espíritos acham-se presentes a cada hora do
dia, estreitamente associados a todas as actividades, desejos e
emoções. Assim, não devemos admirar-nos ao redescobrir es
tas forças cósmicas encarnadas nos Espíritos, em desenhos
livres ou em textos livres infantis. Eis dois documentos com
plementares, ilustrativos do que acabamos dc dizer: um dese
nho e um texto livre.
177
Fig. 130
“Vejo à noite (sonho), vou à minha aldeia. (A criança es
tá internada e tem saudades da sua aldeia c da sua família.) No
caminho encontro agricultores. Um agricultor diz-me:
- Onde vais?
- Vou à minha aldeia.
- Não passes por aqui!
Mas eu passo, continuo.
Então vejo um “guinadji" (um Espírito) com o filho.
Fujo." Bouba, 13 anos
Até agora Bouba, tal como os camaradas, só havia dese
nhado personagens de perfil (no seu desenho, tanto os agricul-
tores como ele próprio aparecem de perfil). Só o “guinadji”e
o filho surgem representados de frente,
Para me informar sem arriscar lamentáveis faltas de tacto
num domínio onde a discrição é essencial, mostrei às crianças
duas cabeças de negro desenhadas e pintadas por mim: uma
de frente e outra de perfil. A primeira foi reconhecida como
a de um Espírito, a outra como a de um homem vulgar.
Destas considerações podemos concluir que na arte ne
gra, o perfil se encontra reservado aos vivos, sendo destituído
de qualquer poder sobrenatural. A perspectiva frontal consti
178
tui a marca dos seres míticos, dotados de um poder benéfico
ou maléfico.
Podemos perguntar como é que tais noções ancestrais
aparecem desde tão cedo radicadas nas crianças. A criança
não é influenciada pelo exemplo do meio ao desenhar, na
medida em que à sua volta se ignora todo o desenho que vai
além do dos motivos decorativos embelezadores da casa ou
dos objectos correntes. De facto, há a considerar a influência
das festas e das danças onde os Espíritos surgem personifica
dos, mas daí à representação gráfica sobre uma superfície
plana de projecções mentais conformadoras do gesto manual
vai um longo caminho. Parece estarmos cm presença de uma
espécie de clarividência atávica e, simultaneamente, de uma
impregnação psíquica do meio. Se admitimos que a pequena
enguia, nascida no mar dos Sargaços, reencontra o regato
onde a mãe viveu antes da postura, não será difícil admitir
que algumas raças, onde o instinto natural ainda se revela
muito forte e que se acham isoladas.de qualquer influência
estrangeira, possam reencontrar em si energias hereditárias
misteriosas que despertam no ambiente natural do meio.
Bouba (13 anos).
Í79
Fig. 131
isoladas.de
Bouba está à direita e de perfil. Desenhou dois “guinadji”
que são na realidade a mesma pessoa. Apenas quer mostrar
que o “guinadji” se desloca,
Eis algumas considerações que conferem ao desenho in
fantil uma dupla importância como mensagem humana e
informação etnográfica. Elas mostram-nos igualmente a discri
ção e a prudência com que é preciso abordar um meio de
expressão que encerra em si tantas vírtualidades e tantos
significados ainda insuspeitos.
Independeulemente das particularidades verificadas nos
desenhos das crianças que habitam regiões afastadas da civili
zação moderna, constatámos que, na sua generalidade, os
grafismos põem em relevo as mesmas normas já por nós
estabelecidas para a edificação da Escada de desenho. Nota-se
apenas a intervenção de outros aspectos e de outras atitudes:
cabelos, chapéus, vestuário. Poder-se-ia supor que a criança
negra só começa a desenhar tardiamente. Não é verdade. Se
quase não se encontram desenhos dc crianças entre os ó e os
8 anos de idade, não é porque o jovem negro esteja atrasado
em relação ao jovem branco de 4 ou 5 anos que já então
desenha com decisão e autoridade. A causa reside na escolari-
zação tardia dos jovens africanos da selva, fom a continua
ção, a criança da selva que se orientou para o desenho livre
marcará as suas obras com uma personalidade plástica inigua
lável.
Acerca do movimento
A deslocação das personagens
No desenho de Bouba, notámos o processo original dc
assinalar a deslocação do “guinadji” pela repetição e justaposi
ção da personagem. Tratar-se-á de uma invenção estritamente
pessoal de Bouba ou de um código hereditário e atavicamente
empregado?
Para traduzir a marcha, as nossas crianças de 4 a 6 anos,
perplexas com a dificuldade, resolvem-na recorrendo ao gesto
e ao comentário: desenham o transeunte deitado a todo o
comprimento da estrada e explicam verbalmente que ele anda
e se vai embora.
180
Em contrapartida, tanto na criança negra como na bran
ca, o movimento indicado pela deslocação dos membros é
idêntico, A sensação dos poderes da linha desperta em ambos
muito cedo: logo que automatizam e dominam os processos
de redução, alongamento, inclinação ou acrescentamento
(Figs. 33, 34, 60, 62. 63), passam a dispor de meios dc expres
são dinâmica seguros.
O movimento, como ê evidente, exprime-se mais facil
mente quando as personagens se acham integradas num am
biente onde desempenham um papel. A vida intensa impõe-
-lhes uma permanência activa. O grafismo atinge então um
dinamismo funcional que se traduz pela impaciência do traço,
pela rapidez da execução, pela profusão dos pormenores, pelo
comentário, pela mímica, pelo gesto: tudo se anima simulta
neamente num impulso dc criatividade de todo o ser.
Fig. 132
Voltaremos a debruçar-nos sobre o dinamismo fundamen
ta] dos desenhos infantis quando estudarmos as personagens
integradas no seu meio, num segundo trabalho que se seguirá
à Gênese do homem.
181
A expressão artística
Já utilizámos esta expressão que deve parecer pretensiosa
e talvez um pouco ridícula quando aplicada ao desenho infan
til. Adivinhamos a reprovação dos doutos professores alimen
tados de realismo e de pedagogia metódica. Não possuem eles
a felicidade de ter junto de si crianças que lhes dispensam um
pouco dessa ciência do Encantamentoque torna a terra bela e
o coração feliz? É preciso saber remontar às origens da
própria infância para reencontrar o deslumbramento de outro-
ra diante de um mundo que a todos inundou de maravilhoso
e de feérico.
Então deixamo-nos arrebatar por um lirismo nascido das
improvisações infantis, das suas incertezas necessárias, das suas
incoerências originais. Se não conseguirmos descobrir em nós
este dom de permeabilidade, jamais poderemos compreender a
criança e, todavia, a linguagem gráfica que ela tão generosa
mente nos propõe é por vezes tão completa e comovente
como a própria palavra.
Procuremos entender: voltemos às páginas 144-145
(Figs, 49, 50, 51. 52) e tentemos entrar no mundo fantástico
destes seres de mãos irregulares que se agitam numa pantomi
ma desconcertante. Mãos curiosas, sem dúvida! Ora sóis, ora
flores, ora folhas integrariam a personagem que as ostenta na
fauna fantástica dc um capitel românico ou de um mistério
medieval. Inscrever-se-iam assim, por mérito próprio, naquilo
a que se chama cultura e que frequentemente não passa de
uma forma ousada de continuar o que há dc elementar no
desenrolar da vida, Dir-se-ia que nos achamos perante o está
dio nascente da inspiração lírica. Reencontramo-la mais deco
rativa na exactidão de uma imagem sem defeito (Fig. 92) e já
amadurecida e subtil no retrato psicológico (Figs. 126 e 127),
Poderemos inscrever estes valores instantâneos e fugidios
na nossa Escada de desenho ou deveremos abandoná-los aos
cuidados do psicoterapeuta?
Sem qualquer pretensão de conhecimento científico da
criança, poderiamos'aceitar sempre como factores válidos o
gosto pelo belo e a capacidade de embelezamento deliberado.
182
calculado e procurado pelos benefícios que a pureza definitiva
traz à alma (Fig. 126).
Seria um patamar da nossa segunda Escada de desenho.
Poder-se-ia também pôr em relevo um certo quociente de
fantasia e dc invenção que caracteriza a factura decorativa e
nela sc reflecte (Fig. 85).
Seria um outro degrau da nossa Escada.
A comparação dos diversos aspectos da invenção decorati
va permitir-nos-ia apreender singularidades surpreendentes,
susceptíveis de traduzir o equilíbrio ou a tendência para o
desequilíbrio dc uma sensibilidade.
E ficaríamos com outro degrau da Escada.
Levando mais longe o exame do traço gráfico em toda a
sua espontaneidade, descobrir-se-ia a possibilidade de expres
são da linha através do arabesco do estilo pessoal
(Figs. 122-124).
E seria um outro degrau da Escada de desenho.
Só a análise de um número considerável de documentos
provenientes de todas as nossas escolas espalhadas pelo mun
do poderia permitir-nos estabelecer uma escala específica da
expressão artística, dependente destas forças imaginativas e
sensíveis ainda tão misteriosas mas que preservam a unidade
do ser moral nas circunstâncias acolhedoras ou hostis do
meio.
Em todo o caso, só faremos o desenho dizer o que
realmente puder revelar sobre o comportamento infantil, que
se nos mostra tão plenamente através dos aspectos diversos e
subtis da expressão livre. Cuidaremos, pois, que os diferentes
graus da nossa segunda escala, aqui entrevista, correspondam
exclusivamente a aptidões já manifestadas em expressões para
lelas e com probabilidade, portanto, de serem reais.
A psicologia deve scr, antes de mais, uma longa paciência.
E. F.
183
A GÉNESE DAS CASAS
A casa aparece desde muito cedo nos grafismos da crian
ça. Ocupa um iugar primordial no seu universo: é a própria
imagem da segurança pelo bem-estar que proporciona, da
intimidade familiar que condiciona, a garantia de uma vida
intensa que. na criança, orienta todas as aprendizagens para
uma adaptação permanente ao meio.
As casas alinhadas e intermináveis formam a rua, a aldeia,
a cidade e, para além dela, disseminam-se pelas paisagens. São
infinitas e diversas, mas cada um tem só uma casa: a sua.
Deixa-se a casa, com a porta cuidadosamente fechada, quando
se vai sair ou viajar: regressa-se com alegria a essa porta aberta
e acolhedora, guardiã dos hábitos queridos que transformam a
casa num centro de vida.
Compreende-se que. sem qualquer exagero, a casa consti
tua para a criança um símbolo de refúgio e de estabilidade,
que participe na sua vida subconsciente e afectiva de uma
maneira particularmente marcante. No primeiro dia de aulas,
11a escola maternal, o pequenino caloiro, arrancado ao seu
asilo, só sabe repetir: "A minha casa! Quero ir para a minha
casa, ”
Tais considerações explicam que a casa constitua para a
criança um tema frequentemente preferencial e que as ima
gens que dela dá possam ser consideradas documentos de um
estado emocional ligado à sua vida interior. Tentaremos, pois,
determinar o papel que a representação da casa é susceptível
de desempenhar no conhecimento da criança sob a dupla
185
perspectiva dc actividade gráfica e de conteúdo afcctivo subja
cente.
Ao longo da nossa Génese das Casas, iremos reencontrar
o processo da tentativa progressivamente perfectível, tal como
o referimos na nossa teoria fundamental da tentativa experi
mental, e ser-nos-á fácil redescobrir os degraus sucessivos da
nossa Escada de desenho. Distanciar-nos-emos mais uma vez
dos pedagogos essencialmcntc preocupados em desenvolver o
sentido de observação da criança, ajudando-a sistematicamente
a recolher progressivamente novos dados cognitivos. Claro que
chamando a atenção da criança para pormenores e motivos
arquitectônicos é possível ensinar-lhe a desenhar casas. Mas a
pedagogia nada tem a ver com a arte. A arte, neste caso, é a
casa personalizada, com pormenores originais, inventados ao
sabor de uma fantasia estranha à documentação. O desenho é
como a linguagem autêntica onde a criança usa as palavras
que lhe vêm naturalmente aos lábios. Só através dessas pala
vras se exprime de acordo com os seus impulsos profundos,
com o seu dinamismo construtivo. E compreende-se que o
desenho seja para a criança espontaneamente narrativo e
acompanhado de comentário. No desenho, como em toda a
expressão livre, é a própria criança que decide do conteúdo
inspirador das suas explorações e da forma como elas se
processam, mais ou menos premeditada ou acidental segundo
as dificuldades encontradas.
Foi assim que descobrimos uma arte da infância (1) revela-
dora de um estado de vida e apta a promover uma actividade
criadora plástica que, cm relação à criação adulta, só difere
quanto ao grau.
A casa situa-se no centro da vida sentimental da criança.
Quanto mais rica e subtil é esta vida sensível, mais o desenho
que a representa se mostra original na feitura gráfica e pleno
de conteúdo emocional. São estes dois elementos fundamen
tais que devem achar-se ligados ao comentário feito pela
criança. Mas o desenho deve sobretudo integrar-se em todas as
manifestações da expressão livre no comportamento pessoal e
social. Só deverá ser utilizado como elemento de um conjunto
(l) Elise Freinet, A criança artista, ed. da École Moderne. Cannes.
186
mais vasto e mais ampla e profundamente expressivo, tal
como o preconizado nos nossos Métodos naturais de aprendi
zagem da vida.
Há que considerar prudentemente o significado simbólico
dos pormenores a que se atribui uma importância excessiva na
medida em que não passam muitas vezes dc notações familia
res correntes. O especialista tende sempre a conferir às coisas
uma amplitude significativa unicamente dependente da sua
aquisição de adulto: serve-se do seu saber como meio de
medição e de avaliação, pela simples razão dc lho haverem
ministrado, O mundo imaginário da criança não possui uma
natureza exclusivamente simbólica. Também se encontra do
minado pela actualidade imediata que exalta incessantemente
as capacidades criadoras numa dada direcção, a qual, por sua
vez. empenha resolutamente uma necessidade de poder nem
sempre condicionada por antecedentes psíquicos reveladores
de mais ou de menos complexos. Só perante uma série de
desenhos executados em épocassucessivas poderemos detectai
temas persistentes, de significado simbólico e relevantes sob o
ponto de vista psíquico.
Precisaremos, pois, de discrição e de discernimento para
arriscar uma interpretação psicanalítica do grafismo infantil
da casa, tão profundamente ligado aos complexos familiares
mas igualmente inseparável da dinâmica pessoal de aprendiza
gem.
Se soubermos organizar a tentativa experimental da crian
ça em todos os domínios, de forma a que ela disponha
sempre dos recursos necessários, faremos da primeira infância
um período harmonioso e equilibrado no qual as regras de
vida favoráveis assegurarão uma quantidade considerável de
actos conseguidos que aumentarão incessante mente o poten
cial da capacidade infantil.
O complexo só nasce perante o obstáculo insuperável,
perante a consciência brutal do fracasso; e só se esse fracasso
persistir e progredir dentro de condições imutáveis, acabará
por fortalecer-se e dominar a personalidade da criança.
A psicanálise simplificar-se-ía consideravelmente se não
esquecesse estas singelas observações cheias de sabedoria e de
bom senso, que deveriam fazer-se a todos os educadores:
187
encarar basicamente todos os problemas à luz da lógica sensa
ta e familiar da vida corrente parece-nos constituir uma atitu
de favorável à compreensão de factos que são explicáveis na
óptica da existência comum quotidiana. Reduziremos assim,
sensivelmente, os problemas mais obscuros ou ainda impene
tráveis que exigirão uma investigação e actuação mais intensas
por parte dos pais e dos professores.
O nascimento
Marie-Pterre (2 anos e 5 meses) começa a desenhar. “É
uma casa ”, diz.
188
Fig. 1
No desenho de Eliane (2 anos e 5 meses), adivinha-se já
um princípio de casa ou de casas.
Com 2 anos e 1 mês, Noëllc justapôs: uma menina com
olhos e orelhas e, à direita, uma casa com porta e degraus...
(explicação a posteriori).
189
Fig. 2
Fig. 4
A mesma justaposição em Philippe (2 anos c 11 meses)
(explicação a posteriori).
Alain (3 anos e 7 meses).
190
191
Fig. 6
A casa toma forma. Ginette (3 anos c 7 meses).
Fig. 7
Acha-se agora bem construída, possuindo mesmo um te
lhado. Sergé (3 anos e 7 meses).
Fig. 9
Define-se em Sergc (3 anos e 7 meses) e sobretudo em
Roselyne (3 anos e 7 meses).
192
Fig. 8
Chantal (3 anos e 7 meses).
“A casa, a porta, as janelas, ” Gerard (3 anos e 8 meses).
As portas e as janelas encontram-se melhor colocadas no
desenho de Rozenn (3 anos e 8 meses).
193
Fig. 10
Yannick (3 anos e 10 meses) pôs-lhe uma fechadura.
“Eis a casa pronta”, diz Arlette (4 anos).
194
Fig. 13
Fig. 15
Somos levados a crer que o grafismo da casa não apresen
ta dificuldades, pois aos 4 anos já muitas crianças desenham
uma verdadeira casa com portas, janelas e até fechadura.
Anna (4 anos).
A casa ainda é rudimentar mas já vive
As crianças essencialmente criadoras fazem como todos
os construtores. Logo que se levantam as paredes da casa, e,
por vezes, mesmo antes de se haver coberto o conjunto com
um telhado e fixado as divisões, quer-se instalar e viver nela,
sentir-lhe o conforto ou o desconforto.
A casa desenhada pelas crianças não passa de um contor
no mais ou menos fechado. A maior parte das vezes não
195
existem ainda portas nem janelas e já alberga vida. Pois para
que serviría uma casa, mesmo imaginária, se nela não se
instalassem a mãe, o gato, a mesa, o fogão e até o rádio?
A instalação ocorre por volta dos 4 anos.
Aos 3 anos e 6 meses, Elianc já encheu a sua casa dc
objectos e personagens fervilhantes e fantasistas. "Na casa
estão a mamã e os meninos. ”
Fig. 17
Com a mesma idade, Laurence desenhou “uma casa com
pratos e uma cadeira”.
196
Christine (3 anos c 5 meses) colocou uma senhora no
centro da casa. “É a mamã. ”
197
Fig. 18
Serge (3 anos e 6 meses) pôs-lhe ‘'galinhas e pintainhos”
Fig. 119
Michel (3 anos e 10 meses) desenhou uma casa rudimen
tar com duas vigias a servirem de janelas. “O senhor ocupa o
espaço todo.”
198
Fig. 20
Fig. 21
Yannick (4 anos) instala as suas personagens, “o papá e a
mamã". e até abre a janela. "O miúdo anda de bicicleta, mas
é proibido!"
199
i
Yvonnc (4 anos). “A mamá; o menino está fora."
Patrick: "O rapazinho em casa." Escreveu “coisas" ao
lado da casa.
Note-se que não há ainda qualquer diferenciação no inte
rior da casa: nem divisões distintas, nem andares. Os telhados,
as chaminés e as fechaduras vão aparecer em seguida.
200
As fachadas
Por esta mesma altura, algumas crianças, cm lugar de se
preocuparem com o que se passa dentro das suas casas em
brionárias, deixam-se fascinar sobretudo pelas fachadas.
E uma fachada é essenciahnente um conjunto de janelas.
Vejam como a desenham:
Fig. 24
Marie-Christinc (4 anos).
201
Marie-Thérese (4 anos).
202
Ghislaine (4 anos).
Fig. 25
Fig. 26
Henri (4 unos e 4 meses).
Primeira diferenciação
A casa vista em secção
Claro que, com a continuação, a criança apercebe-se que
as personagens que desenha não se acham indiferenciadamcnte
num compartimento único nem ao mesmo nível. Começa
203
Fig. 27
então a desenhar os compartimentos e os andares, seja cm
planos, seja em sccções, recorrendo a técnicas extremamente
simples. Adquire a noção das dimensões da casa: superfície.
altura e organização interior.
Fig. 28
Yannick (4 anos): “A mamã e o rapazinho estão em
casa. ”
Charles (4 anos).
204
Fig. 29
Fig.30
Michel (4 anos e 7 meses).
205
Janine (4 anos e 2 meses).
Fig. 31
Louis (4 anos e 5 meses): “A casa, os quartos.”
Fig. 32
Denis (4 anos e 9 meses): "O papá está fora. Vai entrar
em casa. O cão subiu para o telhado. Há fumo." A casa vive!
Fig. 34
Yolande (5 anos): “A casa e o quarto."
206
Paulette (5 anos c 1 mes): "Lá em cima é o sótão com o
baloiço."
Fig. 36
Um verdadeiro plano de Gilles (5 anos e 1 mês): “A casa,
a escada e tudo. ”
Aparecimento deliberado do telhado
Mas a casa tem um telhado que constitui até a sua
característica essencial. A criança apercebe-se do seu papel
protector.
207
Fig. 35
Jean-Pierre (4 anos e 8 meses). Fig. 38
208
Começa pura e simplesmente por colocar um chapéu
sobre as casas desenhadas segundo as técnicas precedentes.
Depara-se-nos uma construção híbrida.
Com o telhado surge a chaminé.
Jean-Yves (4 anos e 3 meses).
Fig. 37
Catherinc (4 anos e 8 meses).
209
I i-, 39
Lucctie (4 c 8 meses): "Eu mamã.’'
Fig. 40
Lucette (4 anos e 8 meses): “O telhado tem telhas de
ardósia ” "O cão procura o menino.”
210
Fig. 41
Fig. 42
Michel (5 anos): A casa com portão, jardim e caminho de
acesso. A vida familiar instala-se: "O papá e a mamã. O
menino vai para a escola.”
211
Fig. 44
Martine (5 anos): A porta está fechada, nada se adivinha
do que há por detrás. Mas “a chaminé deita fumo: a mãe
acendeu o lume.”
212
Michel (5 anos): “As telhas no telhado." "O papá, a
mamã e as meninas. ” f
Posição das portas, das janelas, do portão e da chaminé. O
cenário
São precisas evidentemente uma porta c janelas.
Fig. 45
Jean-Patrick (4 anos e 10 meses) coloca-as seja onde for.
como meros buracos na parede.
Fig. 46
Annie (4 anos e 6 meses): Ambiência arejada em torno
do edifício alto com janelas aplicadas nas paredes.
213
Fig. 47
Louis (4 anos e 7 meses).
A partir desta idade, as janelas são sempre aplicadas
muito em cima (quase não aparecem excepções na nossa série
de desenhos) e as chaminés deitam fumo. A porta situa-se
sempre no rés-do-chão.
Fig. 48
Annic (4 anos e 8 meses).
214
Carmen (4 anos e 10 meses).
A posição das janelas dá uma sensação de altura verti
ginosa.
Dominique (4 anos c 10 meses).
215
Fig. 49
Fig. 50
Roger (4 anos c 1 1 meses).
Finalmente tudo toma os seus lugares, a vida circula em
redor da casa. "O pai leva o cavalo para o estábulo."
216
Fig, 51
Gisèle (4 anos e 11 meses).
Fig. 52
Roger (4 anos e 11 meses).
Estes desenhos, embora rudimentares, apresentam desde
muito cedo um pormenor técnico bem marcado: a chaveda
fechadura que parece adquirir uma importância primordial.
Fig. 54
Christine (5 anos): A casa na sua paisagem.
217
Fig. 53
Finahnentc surgem as janelas do rés-do-chão
Fig. 55
Joelle (5 anos e 2 meses): "A mãe espreita pela Janela se
a menina volta da escola.”
Bernard (5 anos e 5 meses).
A vida dentro de casa assume um lugar primordial
A casa tornou-se agora verdadeiramente habitável, com a
porta, as janelas, o telhado, o portão, o jardim que a rodeia e
os caminhos que serpenteiam à sua volta.
218
Fig. 56
A história deter-se-ia aí se a criança não tivesse a possibi
lidade de entrar em casa e de animar os seus habitantes.
É o problema da transparência que parece haver preocu
pado apenas os psicólogos estudiosos do desenho infantil.
Interpretam frequentemente esta transparência como uma
anomalia, sintoma de uma maturidade deficiente, uma vez
que a criança desenha algo que não pode ver. Trata-se, diz
Luquet, de um "realismo falhado".
Esta técnica da transparência, comum a todas as crianças,
mostra-nos apenas que elas ousam ir mais longe do que nós
na expressão da totalidade da vida. Sentem a necessidade de
fixar no papel a vida interior da casa, que continua natural
mente a ser a casa vista do exterior. E pão tem opção ao
fazê-lo: ou respeitam a opacidade das paredes e das divisórias
e não haverá desenho nem qualquer espécie de expressão; ou
teimam em exprimir, por qualquer preço, o que se passa
dentro da casa, sendo obrigados a suprimir as paredes e a
conservar apenas o enquadramento essencial que define o
palco dos seus actores.
Poder-se-ía considerar a sua empresa como simplista e
antinatural. Mas hoje as casas já dispõem de paredes e de
divisórias de vidro, o que lhes confere a mesma transparência
que as crianças lhes conferiram desde sempre. Ou é o repórter
que penetra nelas fotografando os “interiores” com o seu
flash ou o cinema que as invade com os seus sunlights e
magnetofones: a vida não se detém nas paredes. As sequências
dc vida ligadas à casa exprimem-se na continuidade c no tempo.
A técnica contemporânea reencontra pura e simplesmente
a técnica infantil.
Em desenhos precedentes, já vimos a casa habitada pelas
personagens essenciais; a mãe c os filhos (o pai acha-se ainda
ausente). Vê-la-emos agora desempenhar o seu papel dc refú
gio e de centro da vida familiar. Assistiremos, graças à técnica
da transparência, à situação das personagens no seu cenário
habitual: o pano sobe, o espectáculo começa...
219
Fig. 57
Josette (4 anos e 2 meses) anima já todas as divisões da
casa.
Fig. 58
Claude (4 anos e 3 meses) instala nela "toda a família".
A vida afectiva familiar fixa-se simbolicamente no coração
da casa.
220
Noëllc (4 anos e 9 meses): “A mamã está no meio com a
menina e o menino. Depois o papá. Já não cabia na casa.”
Fig. 60
Yolande (4 anos c 9 meses): A mamã está em casa. Os
filhos estão fora.”
221
Fig. 59
Fig. 61
Marcelle (5 anos): “O papá e a mamã jantam, as filhas
vão passear o irmãozito no carrinho.”
Fig. 62
René (5 anos e 1 mês): “A mamã e o menino. Há
também o gato e o cão. ”
E o papá? “Foi trabalhar. ”
222
Fig. 63
Colette (5 anos e 2 meses): "A mãe prepara o jantar para
a menina. ”
Michel (6 anos): escola!.
223
Fig. 64
Fig. 65
Claude (6 anos) mostra-nos a vida de uma casa em todos
os andares e na ainbiência de um cenário vivo.
Fig. 66
Gandara (7 anos): Vida nos andares agora num desenho
dc uma criança dos Camarões com personagens angustiantes.
224
★
As figuras 59, 60, 61, 62 e 63, representativas do comple
xo casa-família, são documentos tentadores para o psicanalis
ta: os objectos, as personagens, a sua situação e os próprios
comentários, se tomados à letra, mostram-se inequívocos: a
rejeição do pai revela-se claramente.
Na figura 59, em especial, o pai é exterior à família,
encontra-se resolutamente expulso de casa e, ainda por cima,
preso. A conclusão não deixa dúvidas.
Todavia, a rapariguinha explica: “O papá já não cabia na
casa.” E é verdade. Mas, por outro lado, poder-se-ia alegar
que o pai foi a última personagem a ser desenhada, facto
susceptível de ser considerado como uma vingança subcons
ciente da criança.
Uma investigação discreta talvez nos ensinasse, entretanto,
que o facto do pai trabalhar fora, encontrando-se ausente
de casa durante o dia inteiro, levara a vida familiar a organi-
zar-se sem ele. Claro que a situação pode ter consequências
nocivas e reflectir-se negativamente sobre a sensibilidade in
fantil. Uma colecção de desenhos complementares sobre o
mesmo tema, acrescida de todas as demais actividades de
expressão livre da criança, poderia esclarecer-nos concretamen
te sobre a sua gravidade.
Não dizemos a priori que a interpretação psicanalítica de
tais documentos não tenha fundamento. Porém, a sua acen
tuação exclusiva do recalcamento e do simbolismo sem uma
contrapartida objectiva baseada na vida quotidiana põe-nos dc
sobreaviso em relação ao método, particularmente quando
praticado por amadores. É um erro grave tomar unicamente
em conta as forças opressivas que inibem as necessidades
instintivas e desequilibram o comportamento da criança. À
excepção dos pais desnaturados, felizmente raros, a família
difunde, melhor ou pior, um clima de segurança normal que
tempera os perigos dos incidentes constrangedores.
Na maioria dos casos, os obstáculos que se opõem à
experiência adaptativa apenas produzem uma descontinuidade
momentânea entre a afectividade da criança e o meio. Mas o
225
equilíbrio pode ser restabelecido em domínios paralelos onde
se afirmem a real afeição dos pais c uma base alimentar,
educativa e recreativa segura — componente fundamental e
comum da vida familiar. A ruptura passageira vê-se assim em
grande parte compensada.
Só no caso de uma oposição brutal e persistente é que os
instintos infantis, contrariados, podem provocar um choque e
dar origem a um recalcamento. Todavia, na criança muito
nova, o subconsciente ainda sc encontra muito perto da
consciência e, portanto, da possível libertação.
Para esclarecer os pais sobre a importância do seu papel,
torna-se necessário simplificar estes problemas. A adaptação
da criança ao meio depende sempre do êxito com que vence
os obstáculos que se opõem à sua tentativa. Se soubermos
detectar tais obstáculos, poderemos deduzir quase infalivel
mente o comportamento infantil: daí a noção de uma escada
de dificuldades para cada uma das aquisições a encarar. No
nosso Perfil vital (1), tentámos determinar as dificuldades
cronológicas essenciais encontradas pela criança e susceptíveis
de esclarecer os pais, de apontar-lhes as suas responsabilidades
e de determinar o seu papel num comportamento conforme
com uma função educativa humana e lúcida da qual depende
o futuro dos seus filhos.
E. F.
Diversas complicações da arquitectura
O desenho construtivo infantil assemelha-se ao trabalho do
pedreiro. Erguer as paredes é relativamente fácil, fazer as
divisões é uma mera brincadeira. O próprio telhado não apre
senta problemas. Mas não há nada mais difícil para um
pedreiro do que construir as escadas. A ponto dos empreitei
ros as esquecerem por vezes e de em Brasília elas se encontra
rem simplesmente substituídas por rampas tão do agrado de
Le Corbusier.
(1 ) O Perfil Vital, ed. da Ecole Moderne, Cannes.
226
Não nos admiremos pelo facto das crianças escamotearem
frequentemente as escadas. Quando as mencionam não sabem
nem onde fixadas, nem que inclinação dar-lhes, nem como
traçar-lhes os degraus,
As escadas
Os desenhos que apresentam escadas são, pois, relativamen
te raros e a técnica deixa sempre muito a desejar.
Eliane (4 anos e 8 meses): Escadas interiores, práticas, de
degraus seguros, numa casa confortável e integrada na vida
ambiente.
227
Fig. 67
Fig. 68
Jean-Rémi (4 anos e 8 meses) colocou as escadas fora da
casa sem fazê-las chegar a parte alguma.
Pierre Francis (4 anos e 9 meses) desenha-as no interior,
desde a portado rés-do-chão até às águas-furtadas.
228
Fig. 69
Guy (5 anos): Finalmente uma escada cômoda e que toda
a família utiliza...
Claudine (5 anos e 2 meses) vê as suas escadas exteriores
de frente e com degraus bem marcados.
224
Fig. 70
Fig. 72
A majestosa escadaria de Haman (5 anos e 5 meses) situa-
-se entre o plano inclinado e a escada.
230
Fig. 73
A bela e audaciosa escada de caracol de Laurence (5 anos e
5 meses) parece pertencer a uma varanda.
As chaminés
Há também o problema por vezes insolúvel das chaminés.
É sempre fácil fazer fumegar uma chaminé do exterior, mas
ligá-la ao fogão já é mais complicado:
Fig. 74
Claude (5 anos e 7 meses).
231
Serge (5 anos e 9 meses).
As varandas
Fig. 76
As varandas constituem também um problema difícil que
poucas crianças tentam resolver. “A varanda com as grades.”
André (5 anos e 4 meses).
232
Fig, 75
As diferentes partes da casa deram origem, em psicotera-
pia, a um simbolismo ostensivo que atinge frequentemente as
raias da fantasia e do ridículo: a chaminé e o seu rasto de
fumo são emblemas fálicos; a janela é o olhar da consciência
nas suas acções punitivas; a porta é a interdição irrevogável; a
árvore próxima da casa é o pai com toda a sua autoridade; o
caminho que se desenrola em curvas e meandros é o sinal da
evasão, etc.
Evidentemente que toda a imagem, seja ela qual for, se liga
sempre à afectividade da criança, como aliás também à do
adulto, mas numa medida raramente determinante para o seu
comportamento. Os pormenores do cenário habitual da crian
ça correspondem a condensações afectivas de agrado ou de
desagrado. Se observarmos com suficiente atenção a experiên
cia infantil, veremos que estes sentimentos de agrado e de
desagrado são apenas o resultado dc êxitos ou de fracassos
suscitados pelas dificuldades encontradas para vencer obstácu
los. Se soubermos tirar partido da tentativa básica da criança,
aumentando, portanto, o seu sentimento de poder, diminuire
mos simultaneamente o sentimento de fracasso resultante do
confronto com os objectos e as irnagens perderão a sua força
simbólica premonitória.
Os caminhos
Outro problema difícil é o das ruas e caminhos que dão
acesso às casas e que frequentemente parecerão, às crianças
verdadeiros labirintos. Basta repararmos na tosca confusão dos
caminhos nos dois desenhos que se seguem para nos aperce
bermos disso. A própria feitura gráfica (caminhos, fumos) cria
uma sensação de opressão.
233
Os H.L.M. (1)
Trata-se de um capítulo, fruto da nossa civilização aluci
nante, que não teríamos abordado se não tivéssemos desco
berto a sua génese vinte anos atrás: o da opressão que as
(1) Blocos habitacionais. (N. do T.)
234
Fig. 77
Dominique (4 anos e 9 meses).
Fig. 78
Georges (4 anos e 9 meses).
construções modernas, com os seus blocos sistemáticos, as
suas janelas alinhadas a perder de vista, tanto em altura como
em comprimento, e a sua roupa a secar, parecem provocar nas
crianças.
Eis algumas imagens — cuja abundância na nossa colecção
de desenhos é verdadeiramente angustiante — suficientemente
reveladoras dos perigos desta obsessão precoce: é o bloco em
todo o seu rigor.
Fig. 79
Marie-Aude (4 anos e 5 meses).
235
Fig. 80
Annie (5 anos).
Fig. 81
Yvonne (5 anos e I mês) dá-nos espontaneamente a escala
do homem face ao bloco impessoal.
Fig. 82
Alain (5 anos e 1 mês) tenta introduzir um pouco dc vida
neste universo concentracionista.
236
Dominiquc (5 anos e 8 meses) desenha a torre que permite
um espaço livre circundante onde a vida readquire os seus
direitos.
Maríe-Françoise: um imóvel; “em cima a roupa a secar".
A imagem da aldeia, embora limitada ao bairro operário,
sempre se mostra mais repousante.
237
Fig. 83
Fig. 84
André (5 anos e 4 meses).
238
Fig. 85
A casa fechada
Aos 6 anos a criança desenhará uma casa verdadeira, cor
respondente à ideia que faz dela: possuirá um estilo de "casa"
tal como possui um estilo de homem, de pássaro ou de
cavalo.
A casa apresenta-se fechada. Já não se verá o que se passa
por detrás das suas paredes sonoras ou não, por detrás das
suas janelas e varandas envidraçadas ou não. Só à sua volta
poderão ainda descobrir-se algumas cenas originais — quando
passa o vendedor de balões, quando o fumo ascende no
céu e o sol contempla com todos os seus raios a casa silencio
sa.
Joelle (5 anos e 10 meses).
É evidente que a vida nos H.L.M. submete a criança a
impressões e a emoções traumatizantes. tanto pela sensação
de esmagamento e de opressão produzida pela vastidão do
239
Fig. 86
imóvel como pela existência intrincada a que obriga o acanha-
mento da habitação familiar. As proibições permanentes para
lisam constantemente os impulsos espontâneos da criança,
opõem-se às suas iniciativas e relegam-na para o fracasso: não
correr, não gritar, não cantar, numa palavra, não fazer baru
lho, mas suportar, em contrapartida, os ruídos insólitos que a
ausência de insonorização amplia grotescamente e transforma
em obsessões.
Na sua célula, encaixada ao nível de tantas outras, sem
outra saída além do patamar que lhe diz respeito, a família
inteira vê-se condenada a uma permanente insuficiência de
recursos, à excepção dos da televisão e do rádio que não
suporta em casa dos vizinhos.
A criança não pode, portanto, contar com uma família
suficientemente compreensiva. A incompreensão que esta tan
tas vezes revela resulta das próprias condições de existência a
que se acha sujeita. O recurso à natureza é demasiado longín
quo, excepto a relva escassa onde os baloiços e os escorregas
completam o desenraizamento. O recurso à sociedade é nulo:
a criança devorada pela rua e pelo autocarro desemboca numa
escola onde se acentuam as regras constrangedoras da imobili
dade imposta e da disciplina autoritária. 0 recurso às indivi
dualidades é limitado, circunscrevendo-se à pessoa do mestre
atormentado pelos alunos ou dos pais cansados do trabalho e
enervados pelas condições anormais da sua própria existência.
Mesmo quando saudável, a criança pode talvez ser considerada
sem exagero como a eterna perseguida. Não se trata de um
gracejo. “Perseguir - escreve o Dr. Lucotte - é impedir de
viver, fazer sofrer ou fazer morrer. É contrariar por todos os
meios de que se dispõe — desde os mais subtis aos mais
grosseiros - as aspirações e o desenvolvimento normal dos
seres e as manifestações do seu crescimento e da sua vitalida
de.”
Impossível não ler nas entrelinhas destas palavras tão justas
as causas reais condicionadoras do diagnóstico: a vida concen-
tracionista, sob todas as suas formas, imposta por uma civili
zação mecanicista cujas culpas já se tornaram incontáveis.
Mais do que qualquer outro ser, a criança sente-se presa
destes meios de opressão que lhe contrariam a espontaneidade
240
e de que não consegue libertar-se. Daí a necessidade que tem
de procurar outras vias para continuar a viver melhor ou pior,
mas sempre, infelizmente, numa linha afastada da linha funda
mental dos seus instintos recalcados. A instabilidade e o
desequilíbrio, que se vão acentuando ao longo de uma infân
cia cada vez mais desadaptada no plano familiar, escolar e
social, justificam a inquietação dos pais e dos educadores
ainda lúcidos.
As associações de educadores e de pais têm um papel
particular a desempenhar na luta contra esta marcha rápida
rumo ao condicionamento polimorfo imposto pela sociedade.
Quanto a nós, toda a vida trabalhámos para tornar efectiva
uma renovação do Ensino que, através de uma pedagogia viva e
natural, tende a libertar a criança dos seus complexos, restituin-
do-lhe o impulso criador, o gosto pelo trabalho, a paixão da
invenção e o sentimento de uma liberdade que só pode tornar-
se real num meio consentâneo. Foi cm função destes pontos de
vista que estabelecemos, para cada criança, o nosso Perfil
Vital (1) chamado a detectar desde o início os valores potenciais de
cada personalidade. Os elementos fundamentais da capacidadesurgem aí confrontados com as insuficiências, ambos dependen
tes das condições fisiológicas, familiares, sociais e escolares que
marcaram a primeira infância. É evidente que, durante este pe
ríodo. a vida familiar possui uma grande influência sobre o
comportamento infantil. Todos os documentos, que se lhe refi
ram e que a criança nos forneça nas suas expressões directas
através da palavra, do desenho ou do texto livre, devem ser
integrados em fichas pessoais cujo conteúdo e significado essen
cial o nosso Perfil vital se encarregará de descobrir. É neste
contexto que os desenhos sobre a casa terão de inserir-se. de
sempenhando um papel em relação à afectividade da criança,
considerada não só nas suas tentativas psicológicas, mas sobre
tudo nos seus impulsos criativos poéticos c artísticos que já a
orientam rumo à cultura.
E. F.
(1) O Perfil Vital
241
A GÉNESE DOS AUTOMÓVEIS
O automóvel constitui um modelo ideal para o ensino do
desenho pelo método tradicional: permite mesmo recorrer à
régua e ao compasso para melhor corresponder à preocupação
de objectividade exigida pelo desenho à vista ou pela cópia.
As nossas crianças, habituadas ao desenho livre, só dese
nham automóveis da sua invenção, A carcaça nem sempre é
aerodinâmica e nem sempre se encontra bem assente sobre as
rodas que, aliás, por vezes nada tem a ver com a circunferên
cia. Todavia, nos espíritos dos seus autores, trata-se de auto
móveis que rodam: segura-se-lhes o volante imaginário com
ambas as mãos e faz-se-lhes roncar o motor ao som de
onomatopéias expressivas... O importante é dar vida ao carro.
Pouco a pouco, porém, o automóvel vai recuperando as
suas partes essenciais, deixando de exigir grandes esforços
imaginativos a quem o olha. Há urna evolução do automóvel
análoga à do homem e da casa. Eoi essa evolução que procu
rámos determinar na nossa Génese dos automóveis, tomando
automóvel como um vocábulo geral extensível a todos os
modelos e marcas de veículos.
Mais uma vez se constata que, através da prática, aparente
mente temerária, do desenho livre, a criança chega não só à
representação do automóvel mas também à sua personalização
pela escolha dos pormenores essenciais e pela feitura gráfica.
Em dada altura, independentemente da imagem exterior do
automóvel, a criança passa a interessar-se pela vida interior do
veículo, pelos mistérios do motor, pela complexidade funcio
nal das peças de transmissão, numa palavra: pelo dinamismo
243
da máquina. Tal como a evolução do homem ou da casa,
também a do automóvel se processa numa série de patamares
ascendentes, rumo a uma expressão gráfica e a um conheci
mento cada vez mais complexo: a tentativa orienta-se por si
própria para caminhos inteligentes e lógicos.
Os desenhos aqui apresentados - escolhidos entre cerca de
trezentos documentos — ilustram uma evolução e um amadu
recimento que lhes conferem um carácter de testes c de
testemunhos altamente representativos do comportamento in
telectual infantil. Utilizá-los-emos ulteriormente para classifi
car os seus autores segundo os degraus de uma escala que
ainda não nos confiou todos os seus segredos.
Mas enquanto aguardamos uma investigação mais profunda
e sempre associada ao comportamento geral da criança, pode
mos facilmente reencontrar na evolução dos automóveis as
etapas da nossa Escada de desenho tal como a estabelecemos
em função das dificuldades encontradas: repetição dos grafis-
mos conseguidos, sistematização dos primeiros êxitos, justapo
sição dos grafismos, ligação dos grafismos justapostos, etc.,
até ao desenho como expressão de arte e de conhecimento.
Compreende-se que a expressão artística tenha um papel redu
zido na Gênese dos automóveis, que denota mais aptidões de
carácter lógico e compreensivo do que disposições sensíveis.
Procuraremos tirar as consequências pedagógicas que essa rea
lidade comporta.
244
As primeiras tentativas
Anne-Marie (2 anos e 2 meses) viu o irmão manobrar um
lápis capaz de produzir formas que a encantam e surpreen
dem. Pega então num lápis e num papel e, com a sua mão
desajeitada, traça nele riscos ao acaso.
Se lhe perguntam o que faz, responde orgulhosamente:
‘'Faço um desenho. ”
E exactamente como o irmão diante da obra, admira agora
a sua própria produção e conclui: “É um automóvel.”
245
Fig. 1
Fig. 2
Alain (2 anos e 4 meses) já aligeirou e domesticou um
pouco a mão. Desenha espirais e circunferências, afirmando
também, mas mais justificadamente: "É um 403'."
Fig. 3
Após múltiplas tentativas e um aperfeiçoamento dos êxitos
que tendiam a reproduzir-se, Brigitte (2 anos e 7 meses)
conseguiu desenhar uma oval parecida com um capot, à qual
acrescentou circunferências a servir de rodas.
E o automóvel nasceu.
246
Fig. 4
Tratar-se-á de um caso de observação e de execução técni
ca precoces ou de uma obra do acaso? Régine (2 anos e 8
meses) desenhou um verdadeiro automóvel aerodinâmico e
com quatro rodas. É apenas um êxito sem continuidade.
Fig. 5
Marie (3 anos) já domina o lápis. Diz ter desenhado um
automóvel, mas só dificilmente se lhe distinguem os elemen
tos essenciais.
247
Fig. 6
Alain (3 anos c 3 meses) desenhou o seu automóvel como
uma casa. A carroçaria encontra-se laboriosamente delimitada
por vários traços concêntricos.
Ainda não existem rodas, nem volante, nem passageiros.
Com 3 anos e 3 meses. Alain juntou duas rodas a uma
carroçaria que já toma forma.
248
Os primeiros êxitos
As rodas
Fig. 7
Uma passageira
Christine (3 anos e 4 meses) instala uma passageira num
automóvel aerodinâmico que dispõe mesmo de duas rodas
semelhantes a dois pés.
Fig. 9
Alguns dias mais tarde, Christine aperfeiçoa o seu grafismo,
adicionando ao carro quatro ou mesmo cinco rodas.
249
Fig. 8
Fig. 10
Eis como surgem em Paul (3 anos e 5 meses) as rodas do
camião. E sem economias.
O volante
Em Marie (3 anos e 5 meses), além das rodas que aparecem
em abundância, notam-se elementos novos: duas rodas de
cada lado, o volante e o banco.
Fig. 12
Monique (3 anos e 10 meses) desenha rodas e um volante
embrionário.
250
Fig. 11
As janelas
Fig. 14
Serge (3 anos e 6 meses) aperfeiçoou o seu carro com
janelas e volante. A partir de então, os automóveis apresen
tam a sua forma definitiva com duas ou quatro rodas, volante
e janelas (veremos mais adiante o que sucede aos camiões e
aos autocarros).
251
Fig. 13
Jean-Claude (3 anos e 7 meses) limita-se a uma carcaça
com rodas.
Eis as duas rodas. Hélciic (3 anos e 9 meses): “o automó
vel à beira da estrada".
Fig. 17 Fig. 18
Pierrot (3 anos e 10 meses): "muitos automóveis na estra
da”.
252
Fig. 15
Joel (3 anos e 7 meses).
Eis alguns veículos de três c de quatro rodas:
Nesta idade (3 anos e 8 meses a 4 anos) as crianças
parecem possuir uma fórmula de automóvel que as satisfaz e
que repetem com mais ou menos êxito ao tentar automatizar
o grafismo.
253
Fig. 19
Lucette (3 anos e 10 meses).
Fig. 20
Marc (3 anos e 10 meses).
Fig. 21
A realização bizarra e artística de Didi (4 anos e 10 meses):
“O automóvel na estrada”. Note-se a existência de cenário.
Fig. 22
Uma espécie de automóvel-avião ou de personagem.
254
Fig. 23
A criança atinge nesta altura uma certa maturidade. A
página de Georges (3 anos e 11 meses) constitui como que
uma síntese da evolução havida até esta fase. Vê-se o automó
vel de duas rodas, o automóvel de quatro rodas mais aperfei
çoadas (fases anteriores) e ainda outros dois automóveis
adiantados em relação ao estádio que prenunciam as conquis
tas futuras.
255
E Chantal (3 anos e 11 meses) oferece-nos um automóvel
engrinaldado. precedido por uma farândola diabólica.
A vida do automóvel
Notar-se-á que até esta idade (4 anos) o automóvel é
exclusivamente assinalado por pormenores exteriores: volante,
janelas. Não se acha ainda habitado nem pressupõe qualquer
meio de tracção.
A técnica parece-nos aparentada com a da construção das
casas: um recinto mais ou menos imprecisoe, dentro dele, a
vida.
256
Fig. 24
Fig. 25
Yannick (3 anos e 11 meses).
Fig. 26
A vida nascente, como um germe, no automóvel de Serge
(4 anos).
257
Fig. 27
De Gilda (4 anos), o automóvel de grandes rodas com um
volante, um tejadilho, um porta-bagagens e um condutor no
centro.
Fig. 28
Realização quase idêntica de Marie (4 anos).
258
É a partir dos 4 anos que começamos a ver as formas mais
evoluídas de automóvel animarem-se com a presença de um
condutor e de passageiros e com o aparecimento de novos
atributos tais como o volante, as rodas, o motor e o reboque.
Marylise (4 anos e 2 meses).
259
Fig. 29
Florence (4 anos e 1 mês).
Fig. 30
Paule (4 anos e 5 meses).
260
Fig. 31
Jean-Luc (4 anos e 4 meses).
Fig. 32
Geneviève (4 anos e 5 meses).
Fig. 33
Durante largo tempo, a criança hesita sobre a maneira de
representar as rodas. O aspecto geral normaliza-se, a porta e a
cabina do "Senhor que conduz” surgem desenhadas de uma
forma muito aproximada, mas como assinalar as rodas? Só
duas ou também as que ficam do lado oposto?
Fig. 34
Christine (4 anos e 5 meses) desenha as rodas de uma
maneira especial. Os círculos duplos representam sem dúvida
rodas acopladas, uma das quais deveria ser invisível.
261
Fig. 35
Marie (4 anos e 5 meses) mantém-se ainda indecisa quanto
ao número de rodas e ao lugar do condutor no camião-auto-
móvel. O que lhe interessa fundamentalmente é “o papá que
sai de carro".
Fig. 36
Marylise (4 anos e 6 meses) assinalou tudo: automóvel,
porta, condutor e a estrada em redor do carro.
262
Os documentos que se seguem:
Fig. 37
Gilles (4 anos e 6 meses).
Fig. 38
Gilbert (4 anos e 6-meses).
Fig. 39
Marie-Aude (4 anos e 6 meses).
Fig. 40
Dominique (4 anos e 6 meses): “O condutor vai meter
gasolina. "
são características deste período: o automóvel possui tudo
o que precisa para arrancar. O condutor encontra-se no seu
posto.
263
É por volta dos 4 anos e 8 meses que vemos surgir o
automóvel sob a sua forma definitiva: carroçaria, capot, rodas,
motor, portas e condutor.
Yvon (4 anos e 8 meses).
Fig. 42
Joël (4 anos e 8 meses).
264
Fig. 41
Fig. 43
Depois o automóvel adquire velocidade e estilo e, se nem
todos os pormenores são visíveis, subentendem-se: a criança
encontra-se informada sobre a totalidade do automóvel. Chris-
tian (4 anos e 8 meses).
265
Alain (4 anos e 6 meses).
Fig. 44
Fig. 45
Didi (4 anos e 7 meses).
Fig. 46
Eis o desfile de automóveis e de camiões de Roland (5
anos e 2 meses). Os desenhos estão em vias de atingir a forma
definitiva.
As crianças parecem ter descoberto um modelo estereotipa
do dc automóvel que irá permitir uma fabricação em série.
Até então, cada desenho implicava uma tentativa e uma
procura, porque existiam ainda muitos elementos desconheci
dos: diversas formas de automóvel, número e posição das
rodas, portas e condutor.
Agora todos esses elementos se acham automatizados. Nes
ta idade (5 anos e 6 meses a 6 anos) vamos encontrar páginas
inteiras de automóveis desenhados mecanicamente.
A criança conseguiu chegar a um protótipo da mesma
forma que conseguiu saltar um rego. Venceu a dificuldade. Irá
repetir constantemente o acto conseguido até automatizá-lo.
266
Fig. 47
Odile (5 anos e 3 meses).
Guy (5 anos e 5 meses).
267
Fig. 48 Fig. 48
Daniel (6 anos).
Fig. 51
Alain (5 anos e 6 meses).
Desenvolvemos a nossa génese até aos 6 anos, altura em
que o automóvel se encontra definitivamente fixado e a partir
da qual deixamos de observar quaisquer aperfeiçoamentos
técnicos. Debrucemo-nos agora sobre alguns aspectos particu
lares da evolução.
Camiões e autocarros
Vimos, desde os primeiros grafismos. que o número de
rodas é sempre indefinido. Ás rodas constituem para a criança
um símbolo de poder e de velocidade.
268
Fig 50
Adélie (6 anos).
E como a criança desenha normalmentc muitas rodas, são
quase sempre camiões e autocarros que lhe nascem automati
camente da ponta do lápis. Só a posleriori sc apercebe de que
as muitas rodas do seu desenho o aproximam mais de um
camião ou de um autocarro do que de um automóvel.
Veremos assim que as formulas autocarro e camião evo
luem de maneira mais sistemática do que a fórmula automó
vel.
Nestes desenhos de camiões e de autocarros, o automatis-
mo manifesta-se bem mais fundadamente. Automatismo na
repetição das rodas.
Fig. 53
Janot (4 anos e 6 meses) desenhou um sistema dc circunfe
rências ininterruptas: são as rodas do camião. Só resta espaço
para um condutor e para um vitelo.
269
Fig. 52
Fig. 55
Alain (4 anos c 6 meses) conseguiu desenhar um camião
'‘muito, muito comprido”, utilizando o mesmo processo.
No caso de Dédé (4 anos e 6 meses), o automatismo não
funcionou para as rodas, mas para a carga. Trata-se, portanto,
de um camião.
270
Fig. 54
Paul (4 anos e 6 meses): “O autocarro dos meninos.”
Fig. 56
Fig. 57
Michel (4 anos e 11 meses) encheu o seu ‘'autocarro” com
uma bela carga de personagens automatizadas.
i ig. 58
Ou então o automatismo reflecte-se exclusivamente na re
petição das janelas, como neste desenho de Monique (5 anos).
Embora a autora se tenha esquecido das rodas, trata-se real
mente de camiões.
Fig. 59
Realização idêntica de Yvan (5 anos e 5 meses) que, no
entanto, assinalou as portas e duas rodas.
271
Fig. 60
Marc (5 anos) já apresenta no seu desenho todos os atribu
tos essenciais do camião: as duas rodas, as janelas, um passa
geiro e até o condutor.
Vejamos agora como as janelas se enchem de gente. O
automatismo funciona por vezes simultaneamente para a pro
dução das rodas e das janelas.
Maryse (5 anos).
Fig. 62
Annik (5 anos e 2 meses).
Fig. 63
Suzy(5 anos e 3 meses).
272
Fig. 61
Fig. 64
Jean (5 anos e 3 meses).
I ij!. 65
Jean (5 anos e 4 meses).
Fig. 66
Christian (5 anos e 4 meses).
273
Guy (6 anos).
E eis, finalmente, um camião a abarrotar, fruto do mesmo
automatismo voltado agora para a carga. Jean-Luc (5 anos).
Posição das personagens nos autocarros e nos automóveis
Nos automóveis, mas mais particularmentc nos autocarros,
verifica-se uma tendência quase geral para colocar as persona
gens muito ou mesmo demasiadamente acima.
Julgamos que isto se deve a uma espécie de ilusão mecâni
ca. A criança, quando em presença dc adultos, vê-se obrigada
a levantar bem a cabeça para poder distinguir-lhes o rosto.
Possui, portanto, uma tendência para exagerar-lhes o tamanho.
O fenômeno é característico no caso dos automóveis, mas
ainda mais no dos autocarros, cujas portas se situam sempre
muito acima do nível da criança.
O fenômeno parece quase geral.
Jean-Luc (5 anos).
274
Fig. 67
Fig. 68
Fig. 69
Maryse (5 anos).
Fig. 70
Marie (5 anos e 5 meses).
275
Agnes (5 anos e 8 meses).
Jeanne (5 anos e 8 meses).
276
Fig. 71
Fig. 72
Fig. 73
Norbert (6 anos) desenhou faróis e rodas encaixadas na
carroçaria, mas não assinalou as portas nem o volante. A
viatura é fechada.
A condução dos automóveis
Vimos, na nossa Génese, que as rodas e o volante surgem
muito cedo, concomitantemente com a própria forma do
automóvel. Para as crianças, eles representam os elementos
essenciais da viatura.
Depois aparecem as janelas, as portas e logo a seguir as
personagens ou os materiais transportados e que constituem a
razão de ser da máquina.
Antes dos seis anos não há menção de faróis, de pára-cho
ques, de escape nem de roda sobressalente.
Em contrapartida, vemos desde muito cedo “o homem que
conduz o carro” e o volante que lhe permite conduzir. Por
vezes, ao lado do volante surgem diversos botões de comando,
bem como a buzina, o travão e a embraiagem.
Mas o que é característico no processo é a evolução, por
tentativa experimental, do condutor no seu posto.
1° estádio. “O homem que conduz” está sozinho na
viatura. Não nos indica ainda a maneira exacta de pôr a
máquina em funcionamento e é mesmo possível que a criança
apenas tenha dela uma ideia muito relativa.
277
Suzy (4 anos e 10 meses).
Antoinc(5 anos e 4 meses).
Jean (5 anos e 6 meses).
278
Fig. 74
Fig. 75
Fig. 76
2.º estádio. 0 desenho compreende o condutor, por um
lado, e o volante, por outro, sempre e desde logo representa
do por uma circunferência com raios e um eixo de transmis
são às vezes muito longo. Com o condutor acaba por surgir o
respectivo assento.
Eis alguns documentos:
Alain (5 anos e 8 meses).
Gilbert (6 anos e 8 meses).
279
Rubert (5 anos e 2 meses).
Fig. 77
Fig. 78
Fig. 79
3.° estádio. O condutor tem as mãos no volante. A posi
ção dos pés é indiferente, o que significa que a criança ainda
não tem consciência da função dos pedais nem dos pés.
Dominiquc (4 anos e 4 meses).
280
Fig. 80
Fig. 81
Alain (5 anos).
Gerard (5 anos e 10 meses).
281
Fig. 82
Rubert (5 anos e 2 meses).
Fig. 84
Moula (6 anos).
Fig. 83
Fig. 85
Patrick (5 anos e 11 meses).
Os pedais aparecem assinalados.
4.º estádio, Descobre-sc então a função dos pés: o condu
tor ora chega aos pedais a partir de uma posição normal:
Fig. 86
Alioum (7 anos).
282
Gérard (5 anos e 9 meses).
Fig. 87
Loie (5 anos e 6 meses).
283
ora se apresenta ditorcido - o que é mais frequente -
para chegar aos pedais, o que leva a posições quase deitado:
Fig. 88
Fig. 89
Raymond (5 anos e 6 meses).
Fig. 90
Hervé (5 anos e 6 meses).
Fig 91
Patrick (5 anos e 6 meses).
284
Fig. 92
Ouarna (6 anos).
Há, finalmente, os humoristas que evitaram as dificuldades
contemtando-se em desenhar o condutor à janela.
Moniquc (5 anos).
285
Fig. 93
Fig. 94
Michel (6 anos).
E esta cena divertida: "O condutor perante o polícia.”
Michel (6 anos).
286
Fig. 95
Os faróis
Os faróis só aparecem geralmente a partir dos seis anos.
Projectam sempre raios luminosos, o que constitui a sua
característica fundamental:
Fig. 96
René (6 anos).
Fig. 97
Chantal (6 anos e 10 meses).
287
Conclusão normal do desenho.
O processo de tentativa experimental terminou. A partir
dos dez anos, as crianças desenham automóveis que são a
imagem exacta do modelo, com todos os acessórios no devido
lugar.
Vejamos um exemplo apenas:
Fig. 99
Yvon (10 anos e 8 meses).
Os bulldozzers
Os bulldozzers. impressionam muito as crianças, que os
desenham tanto quanto o automatismo inerente aos processos
naturais do mecanismo o permite.
Em vez dc rodas, surgem correntes que são muito mais
fáceis de representar.
288
Fig. 98
Chantal (6 anos) “E o motor?"
Fig. 100
Yanníck (3 anos e 11 meses) desenha um tractor-lagarta.
Fig. 101
Laurent (4 anos) desenha um bulldozzer.
289
Fig. 103
Fig. 104
Aos 10 anos, vemo-nos perante o verdadeiro bulldozzer.
Mecânica e criação
O nosso método natural de desenho anima constantemente
a criança a uma espécie de delírio criador. Reconhecendo-lhe
uma situação análoga à do bébé, impossível de encarar como
290
Fig. 102
Bernard (4 anos) desenha igualmente um bulldozzer.
Christian (5 anos) desenha outro bulldozzer.
um aprendiz da língua ou do movimento, recusa-se a olhá-la
como um principiante ou como um aluno. Cada realização
constitui uma etapa natural do crescimento, com as suas
vantagens e inconvenientes, com os seus entusiasmos e dissa
bores.
Todos os documentos da nossa Génese são criações absolu
tas e originais, correspondendo cada um ao que a criança
pôde oferecer nas diferentes idades.
É de recear que a partir dos dez anos a escola venha a
recuperar a vantagem perdida, impondo as suas normas e os
seus modelos. A criança experimenta então um sentimento de
inferioridade e de inaptidão. Deixa de ser o criador para se
transformar no copista. O camião de Serge (10 anos) represen
ta como que o protótipo do desenho correcto e exacto, mas
destituído de alma na medida em que de maneira alguma
traduz um acto criador.
Será possível, nesta fase, continuar a combinar uma vida e
uma alma com as necessidades da mecânica e da técnica? A
criança que, através do método natural, assimilou a vida,
íntima da máquina está alerta a todos os pormenores mecâni
cos e pronta a dar-lhes vida.
Paul (10 anos).
291
Fig. 105
Fig. 106
Fig. 107
O bulldozzer de Mario (7 anos).
Fig. 108
Eis a imagem detalhada de um “Hanomac”. Infelizmente
não podemos reproduzir aqui a folha transparente, constelada
de números correspondentes a 39 legendas que especificam o
mecanismo de uma forma assombrosa (9 anos).
292
A preocupação criativa que cultivámos desenvolve-se nor-
malmente em qualidades inventivas. O autor não se contenta
em copiar os pormenores das suas máquinas com uma minú
cia extrema. É mesmo levado a inventá-las na medida em que
vive os seus desenhos — e cremos ser esta a maior homenagem
prestada a um método natural de desenho e a um processo de
tentativa experimental que permitem e autorizam as mais
severas aquisições, do desenhador, mas que lhe mantém intacta
a necessidade de criar e de inventar.
Fig. 109
E com o desenho desta “Máquina de escalar montanhas”
(que não existe) de Serge (9 anos), damos por concluída a
Génese, fazendo votos para que ela ajude os educadores a
compreender melhor as crianças e a auxiliá-las melhor a alcan
çar os cumes onde as leva a imaginação criadora.
Nesta Gênese dos automóveis, anotámos a idade das crian
ças à medida que iam tomando consciência dos diversos
pormenores essenciais ao andamento do carro:
- Dos 3 aos 4 anos, o automóvel (uma carcaça) deve rodar,
daí a necessidade das rodas;
293
Dos 4 aos 5 anos, a criança descobre que se conduz o
automóvel: daí o volante;
Dos 6 aos 7 ou 8 anos, o automóvel deixa de ser um
veículo que apenas roda e é conduzido e passa também a
transportar: a criança enche o automóvel ou o camião de
coisas ou de pessoas. A vida no interior do carro traduz-se
pelas atitudes das personagens. O automóvel entra na civili
zação.
Note-se que o travão e o motor, embora essenciais, não
surgem representados no plano gráfico. Efectivamente, desde
os primeiros anos em que a criança desenha o automóvel que
se encontram presentes como elementos vitais, expressos pela
mímica ou pela voz. O meio parece à criança suficientemente
eloquente para traduzir-lhe o pensamento.
Nesta ascensão rumo a uma compreensão cada vez mais
segura da vida do automóvel, ultrapassamos a simples objecti-
vidade realista; o “realismo visual” limitar-se-ia a uma imagem
estreita e morta do objecto. Os actos da vida infantil tem
sempre um sentido mais complexo que ultrapassa os quadros
da lógica para dar livre curso à imaginação sensível. A criança
de dez anos, que se tenha apercebido da vida do automóvel
através da mecânica, assimila intuitivamente o papel desem
penhado pelos seus aspectos específicos (Fig. 106). Tudo se
mostra ainda obscuro e nebuloso, mas a força criadora que já
arde dentro dela inebria-a: possuída por uma autêntica neces
sidade dc criar e dc inventar, incontrolável e superior a
quaisquer obstáculos, imagina as entranhas do motor, combi
na os elementos, activa as bombas e anima as transmissões.
São indubitavelmente estes instintos demiúrgicos que expli
cam a imaginação infantil manifesta em muitos inventores.
Tais desenhos de mecanismos construídos por pura intui
ção e sem preocupações lógicas reais são como testes revela
dores dc um espírito orientado para a pesquisa científica.
Proporcionamos, portanto, aos seus autores os meios mais
práticos de investigação e de aquisição de conhecimentos:
oficinas de trabalhos manuais, fichas, testes explicativos, li
vros, dicionários científicos, etc.
Sem qualquer método, perguntar-se-á?
294
Sim, se o entendermos como um caminho estreito, como
uma via única, como uma espécie de estrada sombria ao longo
da qual se recolhe uma série de conhecimentos medidos dc
antemão. O essencial é avançar, alimentar uma necessidade de
acção criadora sempre sedenta de conhecer melhor, de procu
rar, dè construir sem esgotamento, sem fadiga anormal e
contraproducente. É o ser total que participa na experiência,
através de uma tentativa que passará forçosamente porêxitos
e fracassos até consolidar-se numa compreensão sintética
donde brotará o verdadeiro conhecimento científico dos factos.
Claro que o desenho só por si não poderá fornecer-nos
todos os elementos susceptíveis de determinar a orientação da
criança para um estudo científico. É o conjunto das nossas
técnicas educativas que tem de complementar e vir confirmar
as aptidões reveladas pela expressão gráfica livre.
Devemos cultivar a capacidade inventiva desde a infância: a
própria criança abrirá os caminhos da sua pesquisa. Só então
poderemos descobrir as atitudes mentais que a caracterizam:
- Uma realidade de intenção primeira que faz apelo à inven
ção;
Uma imaginação que secunda, em permanência, essa inten
ção através dc tentativas incessantemente orientadas e rea
justadas que testemunham uma verdadeira permeabilidade à
experiência;
Uma observação rápida, imediata e condicionada pela tenta
tiva inteligente;
Um talento experimental que testemunha a coesão do ser e
da experiência através do cérebro, da mão e desse poder de
tensão e de esperança que ilumina tudo o que vive;
Uma crescente aptidão para a dedução lógica.
Transportadas da generalidade para o comportamento vivo
da criança, estas considerações poderiam tornar-se patamares
essenciais de uma escala da invenção científica.
O desenho, que começa por ser um esboço intuitivo para
transformar-se depois num esquema de relação dos órgãos da
máquina e mais tarde num plano de construção, deveria
295
ocupar um lugar primordial entre os factores básicos da orien
tação dos adolescentes.
A escola nunca respeitou esta necessidade de invenção
criadora cuja força desconhece. Nós ajudamos a criança a
descobrir as actividades e a empenhar-se nos trabalhos para os
quais se sente irresistivelmente atraída. Só então acordará nela
o sentimento de poder que confere persistência, confiança e
audácia à experimentação, que é a porta de acesso às vias da
ciência real, a que é inventada ou reinventada e integrada no
ser.
E. F.
296
A GÉNESE DAS AVES
Como é que a criança, habituada à expressão livre nas
escolas que trabalham segundo as nossas técnicas, representa
as aves nas diversas fases do seu desenvolvimento?
A nossa Génese das aves procura dar uma resposta experi
mental baseada no exame de vários milhares de desenhos.
Note-se que, embora as aves ocupem um lugar privilegiado
nos desenhos infantis, não se encontram intimamente ligadas
à vida das crianças: a gaiola de canários pendurada à janela
torna-se cada vez mais rara e os pássaros das praças tal como
os pássaros dos campos não se deixam abordar com facilida
de.
Mas o que impressiona a criança não são as suas caracterís
ticas ornitológicas, mas as suas qualidades voadoras que lhes
permitem passar da terra para o céu e deslocar-se no ar até
desaparecer. São estas imagens sensíveis e fulgurantes do voo
pleno que a criança traduz pela linha mais evocativa, com
uma espontaneidade e uma segurança expressivas que consti
tuem, por vezes, um desafio a toda a observação metódica,
sempre mais lenta e menos ardente..
Seja como for. temos de esquecer a nossa formação escolar
onde a objectividade pretendia explicar tudo e onde as nossas
obrigações estreitamente pedagógicas se identificavam com a
mania de ensinar; à nossa frente, sem nos pedir licença, a
criança envereda por outros caminhos, os que lhe são pró
prios. e por processos de tentativas, essencialmente instintivos,
deslocando-se para onde quer, certa do concurso dos seus
poderes como o caracol segregando a concha.
Há que entrar resolutamente no reino da infância.
297
Um bicho!
Para imitar o adulto, a criança pegou num lápis ou numa
esferográfica e traçou sobre a folha de papel umas quantas
linhas sem intenção ou significado prévios,
Mas o pequeno desenhador foi coordenando os gestos a
pouco a pouco e eis que se adivinha no seu grafismo um
êxito deliberado ou não:
Um bicho!...
Nesta fase, a ave ainda não sc libertou da sua qualificação
de “bicho” nem dos inúmeros traços que, nos primeiros
grafismos, assinalam as patas e os pêlos.
298
Hervé (3 anos c 6 meses) Fig. 1
Fig. 2
Michel (3 anos e 2 meses),
Jean-Paul (4 anos).
Fig. 3
Marc (4 anos e 4 meses).
À medida que se exercita a segurar e a manobrar o lápis,
de maneira a permitir-lhe reproduzir imagens cada vez mais
próximas da realidade, a criança caminha para uma diferencia
ção crescente dos seus grafismos.
Este processo de diferenciação igualmente válido para o
desenvolvimento dos organismos vivos instalação duradoura
299
Fig. 4
Marie-Claude (4 anos e 3 meses).
Fig. 5
das formas conseguidas e desaparecimento das imperfei
tas — leva-nos a constatar o perfeito paralelismo existente en
tre a evolução do desenho e a evolução da vida.
Como células cm vias de diferenciação, eis algumas massas
ainda inconsistentes, que evoluem para uma forma já específi
ca, da autoria de Victor (4 anos e 10 meses).
A comparação entre a gênese do desenho e a do objecto
modelado mostra-se também altamente elucidativa, o que se
justifica, aliás, pelo processo de realização se orientar, em
ambos os casos, exclusivamente pela tentativa experimental.
A criança pega na massa informe com dedos ainda desajei
tados e inexperientes. A princípio trata-se apenas de uma
espécie de plasma potencial que ainda não encetou um desti
no. Depois, as primeiras operações geram formas que se vão
diferenciando por tentativas em organismos mais complexos e
difíceis de executar, acabando por fixar-se no êxito mais
elaborado e deixando para trás as formas intermédias já auto
matizadas. Tal técnica de modelagem apresenta-nos, de modo
incontestável, algumas das leis que enunciámos e que demons
trámos nas nossas Géneses.
O indivíduo receptivo à experiência pega na argila e mode
la como que mecanicamente as formas anteriormente conse
guidas. Depressa, portanto, terá tempo, iniciativa e energia
para levar mais longe as suas tentativas.
O êxito, aliás, só excepcionalmente constitui um êxito em si.
Representa normalmente um êxito em relação ao meio, o que
explica que certas formas imperfeitas que vamos encontrar ao
longo da nossa génese sejam tão originais na sua execução, que
o autor as conserve durante largo tempo. Ficamos por vezes
desiludidos ao vê-lo encaminhar-se para novas experiências em
vez de continuar a traçar esboços já expressivos, como um artis-
300
Fig. 7Fig. 6
ta que se agarre às formas conseguidas dos seus desenhos e das
suas pinturas.
E outra das vantagens das nossas técnicas consiste precisa
mente em constatar que os progressos verificados na execução
não se acham assinalados por uma série rebarbativa de obriga
ções. de deveres, de desgostos e de choros, mas por uma sequên
cia ininterrupta de êxitos felizes, livremente conduzidos c con
sumados. As nossas crianças empunham o lápis, orgulhosas da
sua obra, como o camponês vai assobiando e lavrando a terra
com o seu arado.
Esta alegria de criar constitui o traço mais marcante de uma
pedagogia de vida e de humanidade.
Um corpo e uma cabeça
Eis que da massa informe começam a definir-se um corpo
e uma cabeça: a ave vem a caminho!
Fig. 10
Victor (4 anos e 11 meses).
301
René (3 anos e 10 meses). Mariette (3 anos).
Jean (4 anos e 2 meses).
A ave liberta-se do seu destino terrestre
A ave ainda não levantou voo. Custa-lhe libertar-se do seu
destino terrestre.
Eis duas aves que ainda só se distinguem dos “bichos” pela
forma alongada de um corpo ligeiramente recurva do que irá
adquirir progressivamente o aspecto habitual dos pássaros,
como veremos em desenhos posteriores.
A esta ave larvar apenas faltam... o bico, as patas e as asas.
Vamos assistir-lhe ao nascimento.
302
Fig. 11
Fig. 12
Michel (4 anos e 11 meses).
Fig. 13
Fig. 1 5
Uma galinha de Michelle (4 anos e 8 meses).
A criação nem sempre segue vias exclusivamente lógicas. A
vida é múltipla e há formas que conduzem a horizontes
inesperados.
Observaremos uma diferenciação que apetrecharásucessiva
mente com bicos, patas e asas os organismos que se aventura
rão voar.
Mas existem desenhadores ousados que atribuem ao ele
mento “ave” uma origem mais etérea, como os sonhadores
que o desencantam das estrelas ou das flores.
303
Georges (4 anos e 4 meses).
Fig. 14
Eis dois documentos característicos que testemunham as
interpenctraçõcs da realidade e do pensamento imaginativo.
Geórgette (6 anos c 8 meses) desenhou:
Fig. 16
por um lado, bichos de duas patas simultaneamente com
algo de terrestre e de aéreo e.
Fig. 17
por outro, "flores que se transformam em aves”.
Fig. 18
Finalmente, ainda de Georgette, vemos um elemento co
mum à génese do homem levantar voo.
304
Note-se que se trata de uma criança bastante mais velha,
que parece apresentar um atraso de dois anos em relação à
idade normal e que, para tentar “recuperar”, corta por ata
lhos. São precisa mente estes atalhos, apenas apontados aqui,
que conferem aos trabalhos dos anormais uma originalidade
frequentemente surpreendente.
Após esta divagaçâo. retomemos a evolução que poderemos
classificar de mais normal c que leva a destacar provisoriamen
te c por tentativa experimental os principais atributos do tipo
ave.
Fig. 19
De Louis (4 anos e 3 meses), um “pássaro” que já possui
uma cabeça, dois olhos e asas embrionárias.
A ave ergue-se sobre as patas
Francis (5 anos e 7 meses).
305
Fig. 20
A ave ainda não voa. Começa por erguer-se sobre as patas
incipientes. Francis (5 anos e 7 meses).
O pintainho põe-se de pé:
Fig. 22
Dominique (4 anos e 7 meses).
Fig. 24
Charles (4 anos e 5 meses).
306
Fig. 23
Michèle (4 anos e 11 meses).
Fig. 25
Pierrot (4 anos e 10 meses).
Fig. 26
Louis (4 anos e 5 meses).
Duas ou quatro patas
E a ave começa a debicar:
Charles (4 anos e 9 meses).
307
Fig. 27
Mas o acto de debicar implica um problema de equilíbrio e
depende da medida em que, no espírito da criança, a ave se
libertou da sua natureza de simples animal.
Duas ou quatro patas? Para as crianças que desenham não
se trata de uma simples questão de aritmética. Um pato pode,
mesmo com quatro patas, apresentar mais características es
senciais da ave do que um vulgar desenho de duas patas.
Joël (6 anos e 8 meses).
308
Fig. 28
Riri (5 anos e 1 mês).
Pierrot (6 anos e 7 meses).
Fig. 29
Fig. 30
O belo aspecto destas duas aves de Marie-José (5 anos e 6
meses) não será de molde a fazer-nos esquecer as suas quatro
patas?
E até um frango com rodas! Jacques (4 anos e 5 meses).
Nova etapa rumo à diferenciação: a cabeça tem uma ex
pressão humana. Contrariamente ao que seria de esperar, o
bico só acideiitalmente surge como atributo específico da ave.
A expressão humana da cabeça constitui indubitável resí
duo dc uma fase corrente no desenho de animais - vê-lo-
-emos na génese seguinte. Observam-se imensos animais com
rostos humanos, altamente expressivos, aliás.
309
Fig. 31
Fig. 32
Fig. 33
Píerrot (5 anos).
Na nossa Génese do homem já falámos de uma técnica
fundada no quadrado muito característica e divulgada.
Fig. 34
Solange (5 anos e 5 meses), que desenhou pássaros mecâ
nicos, descobriu de facto um modo de expressão simples c ao
alcance dos menos habilidosos.
Podemos constatar que, nesta fase em que a ave se libertou
penosamente da sua natureza de animal comum, a criança
consegue criar vida através de meios técnicos extremamente
precários.
Fig. 35
Eis Jannettc (5 anos e 6 meses), dando milho a galinhas
morfologicamente elementares mas extraordinariamente dinâ
micas.
310
Fig. 36
Marie-France (4 anos e 6 meses) desenhou uma bela página
com patos que passeiam gravemente sobre três patas.
Fig. 37
No desenho de Paule (5 anos e 4 meses), a família reuniu -
-se para admirar o Pai Pato.
Nascimento das penas e das asas
Uma ave tem penas... Originalmcntc, essas penas não se
distinguem ainda do pêlo ou da lã dos outros animais.
311
Fig. 38
As primeiras aves. Louise (5 anos e 4 meses).
Fig. 39
As aves-mamíferos de Mariette (4 anos e 4 meses).
Suzanne (4 anos e 6 meses) com a sua galinha dos ovos de
ouro...
312
Danielle (5 anos e 10 meses).
Fig. 41
Fig. 42
Mariette (4 anos e 7 meses).
A ave levanta voo
O aparecimento relativamente tardio, das asas deve-se me
nos a uma falta de espírito de observação, por parte da
criança, do que às dificuldades técnicas inerentes à representa
ção do voo. Perante as imperfeições do desenho infantil,
esquecemos muitas vezes o papel a atribuir à dificuldade
técnica.
Debrucemo-nos, portanto, sobre as fases desta tentativa de
representação das asas e sobre a variedade das soluções encon
tradas.
Fig. 43
Duas patas, uma cauda, uma antena orientadora — e eis a
galinha. Daniel (4 anos e 2 meses).
313
Uma mecânica fantástica com leme. Louis (4 anos e 4 me
ses).
Fig. 44
Fig. 45
E os corvos de Francis (5 anos c 7 meses) já se encontram
totalmente equipados com corpo, patas, bicos e duas asas
filiformes.
Fig. 46
Um fenômeno intermediário: o mamífero alado, com um
bico enorme e duas asas bizarramente colocadas. Joseph (5
anòs e 10 meses).
314
As asas tomam forma:
Pierre (4 anos e 10 meses).
Liliane (4 anos e 3 meses).
Pierre (5 anos e 10 meses).
315
Fig. 47
Fig. 48
Fig. 49
Victor (4 anos e 11 meses).
Fig. 50
Fig. 52
As asas não revelam grande progresso, mas o conjunto
possui já um carácter aerodinâmico, típico dos documentos
ulteriores. René (5 anos e 1 mês).
Fig. 53
Georges (5 anos e 8 meses) parece operar uma síntese
entre o mamífero terrestre, de corpo semi-animal semi-huma-
no, e a ave envolta na sua capa e munida de duas belas
plumas.
316
Fig. 5 1
Victor (5 anos e 8 meses).
Na pista!
Fig. 54
O corvo de Georges (5 anos e 4 meses) pousou como um
enorme avião, de asas abertas, ao lado das ovelhas.
Fig. 55
A ave de Mariette (4 anos e 5 meses) ajusta os seus
mecanismos avantajados.
Fig. 56
“A ovelha-galinha" de Georges (5 anos e 10 meses),
317
A linha elegante dos patos de asas fechadas:
Fig. 59
O galo de Bernard (6 anos e 4 meses) “arrufa as penas da
cauda
318
Fig. 57
Jacques (4 anos e 11 meses).
Fig. 58
Paule (5 anos e 10 meses).
Fig. 60 Fig. 61
Os patos de Marictte (5 anos e 5 meses) sacodcm-sc abrin
do e fechando as asas.
O voo das aves
Charlotte (4 anos e 8 meses). Bcrnard (5 anos e 3 meses).
René (5 anos e 1 mês).
319
Fig. 62 Fig. 63
Fig. 64
E em baixo, no solo, a família dos patos. Marie-Jeanne
(4 anos e 5 meses).
A partir de então, a criança está apta a desenhar aves
dotadas de características distintivas.
Como no grafismo do homem, vamos travar conhecimento
com uma série de indivíduos fantásticos,
Para a criança, como para o adulto aliás, o problema não
consiste em desenhar uma ave parecida, o que faria com que
todas as galinhas, todos os patos e todos os cisnes da autoria
de crianças se assemelhassem como fotografias,
Mas a arte, seja a que nível for, constitui sempre uma
escolha e uma valorização de elementos dominantes que cha
mam particularmente a atenção e que conferem à obra a sua
qualidade definitiva.
Como se faz esta escolha? É aí que reside o segredo da
arte. Dissemos que, como todas as conquistas humanas, ela
320
Fig. 65
resulta dc uma longa tentativa, fruto da observação e da
comparação com a obra dos adultos c das outras crianças. Daí
a importância inegável da atmosfera artística de uma classe
que faz do desenho e da pintura não um mero exercício de
cópia de modelo, mesmo que esse modelo seja a natureza,
mas um profundo trabalho dc criação ligado às realidades do
meio,
Inscrevemo-nos. assim, a par dos artesãos e dos artistas,
cuja veia as nossas crianças tão frequentemente parecem reen
contrar. Mas estes êxitos constituem ígualmcnte. como já
sublinhámos, uma questão de técnica. Existem grafismos difí
ceis dc realizar, tecnicamente falando, e em compensação há
traçados definitivos.
O processo da génese. tal como o assinalamos, limita-se
afinal a uma longa experiência por tentativa que compeleo
lápis à realização de uma obra original onde ainda transpare
cem os laboriosos esforços do carpinteiro, mas que nem por
isso se encontra menos impregnada da marca do artista.
Quais são as diversas soluções artísticas e te'cnicas postas
em relevo pelas nossas crianças ao desenhar as várias espécies
de aves?
1. As asas e a cauda, pela sua simples presença e animadas
por traços dentados ou filiformes, conferem já uma sensação
de movimento.
Fig. 66
Serge (4 anos e 6 meses).
Simone (5 anos)
321
Fig. 68
Georges (5 anos e 2 meses).
Fig. 69
Gérard (5 anos e 6 meses).
322
Marianne (5 anos e 8 meses).
2. Ou então reflectem a leveza e a ligeireza de aves cuja
verdadeira função é voar:
Christian (5 anos e 2 meses).
323
Fig. 70
Fig. 72
Fig. 71
Dominique (6 anos e 3 meses).
3. Muitas vezes a criança não consegue solucionar tecnica
mente a representação das asas, que envolvem o corpo da ave
como um imenso pára-quedas:
4. Ou então a ave agita um corpo de acordeão que parece
cortar o ar como uma hélice:
5, Jean-Claude (6 anos e 7 meses) desenhou mesmo uma
verdadeira máquina-voadora:
Pierre (5 anos e 3 meses).
324
Fig. 73
Steven (5 anos e 3 meses).
Fig. 75
Fig. 76
Fig. 74
Fig. 77
Françoise (6 anos e 8 meses).
6. Certas crianças criam verdadeiros mecanismos visivel
mente inspirados em aviões:
Fig. 78
Louis (5 anos e 9 meses).
Fig. 79
Roger (6 anos e 4 meses).
325
Fig. 80
Alain-Gerard (5 anos e 10 meses).
Fig. 81
KJébert (6 anos e 11 meses).
7. Aves filiformcs. desenhadas com um só traço, sem
levantar o lápis do papel, como um jogo.
Seria curioso filmar uma criança desenhando uma ave se
gundo esta técnica: o corpo, a cabeça um pouco mais peque
na, o bico mais ou menos longo conforme o afastamento da
presa a alcançar, duas patas, o que não oferece dificuldades, e
uma vírgula a servir de cauda.
Pilar (5 anos) já aperfeiçoou a sua técnica e bastam-lhe
quatro traços para desenhar uma ave:
- Uni 8 para o corpo, a cabeça e a cauda afilada;
- As duas patas;
- O ponto do olho;
- O bico.
326
Fig. 82
Esta técnica aproximativa dá origem a consecuções muito
variadas, algumas das quais verdadeiras obras-primas.
8. É no âmbito desta técnica filiforme que podemos inte
grar a nossa gênese especial da avestruz.
Porque, como é bastante típico, a nossa considerável colec-
ção de desenhos não apresenta grande variedade de aves.
Primeiro o bicho, depois o pássaro, depois o pato, a galinha e
os pintainhos, algumas andorinhas, alguns cisnes e cxcepcio-
327
Fig. 83
Fig. 84
A ave é perfeita e dinâmica.
nahnente pavões. E cm seguida a avestruz, sem dúvida graças
ao seu ar espectacular e à facilidade de reproduzir-lhe as
características. Como distinguir tecnicamente uma andorinha
dc um pardal ou de um melro? Distinguimos a galinha, o
pato e a ave voadora. Trata-se de uma classificação elementar
mas suficiente.
Ignora-se ao certo se a avestruz tem duas patas ou quatro,
mas sabe-se que possui um pescoço comprido. Basta desenhar
as palas, um corpo qualquer e um pescoço alongado para
obter unia avestruz. E acessível ao mais desajeitado, que a
representa, alias, sem grande expressão artística!
Fig. 85
Philippe (4 anos e 11 meses).
Fig. 86
Georges (5 anos e 3 meses).
328
Robert (5 anos e 1 mês).
Fig. 89
René (5 anos e 6 meses).
9. O galo em crescente,
Situa-se na mesma ordem de ideias que a ave filiforme.
Vimo-lo tomar forma desde os primeiros grafismos ainda
indiferenciados dos principiantes.
Depara-se-nos, neste domínio, toda uma gama de realiza
ções, desde o simples crescente unicamente revestido de duas
patas até aos mais belos êxitos artísticos.
329
Fig. 87
Marie (5 anos e 4 meses).
Fig. 88
Como é esta técnica que dá os elementos mais decorativos,
iremos alongar-nos um pouco na lista dos protótipos: e o
despertar da expressão artística em tudo o que ela tem de
decorativo c de singular.
Fig. 90
Marie-Paule (4 anos e 7 meses).
Fig. 91
Louis (4 anos e 7 meses).
Gilda (5 anos e 1 mês).
330
Fig. 92
Marie-Paule (5 anos).
Fig. 95
Denis (5 anos).
331
Fig. 93
Marie-Paule (4 anos e 11 meses).
I IL-. C.M
Fig. 96
Roger (5 anos e 1 mês).
Fig. 97
Marie Jeanne (6 anos e 3 meses).
Fig. 98
Michel (6 anos e 6 meses).
332
333
Fig. 99
Michel (6 anos e 6 meses).
Irène (6 anos e 1 mês).
Fig. 100
Fig. 101
Josette (7 anos e 7 meses).
Josette (7 anos e 9 meses).
Irène (7 anos e 9 meses).
334
Fig. 102
Irène (7 anos e 8 meses).
Fig. 103
Fig. 104
A linda galinha de Denis (5 anos e 7 meses).
Fig. 106
Irène (7 anos e 1 1 meses).
10. A ave complexa, obra de arte:
E acabamos por chegar, em idades pouco diferentes aliás,
ao desenho artístico de uma ave menos csquemática, mais
complexa e também mais próxima da realidade viva, à ave a
335
Fig. 105
que podemos dar um nome de família ou de variedade, que
não constitui cópia da natureza, de um desenho ou de uma
fotografia, mas que é o pássaro visto por um olho agudo,
observador e criador que desde logo lhe imprime o seu génio,
associando à natureza sempre inimitável o sopro desejável da
obra de arte. Está concluído o ciclo que vai do grafismo
informe onde mal se distingue o “bicho” até ao desenho
artístico da galinha ou do pavão.
O ciclo está terminado. Mas não houve uma progressão
metódica, marcada por passos sucessivos rumo à perfeição, ao
longo da qual cada criança procurou descobrir um tipo cada
vez mais acabado e expressivo segundo o seu próprio ponto
de vista. É em todas as fases que nós nos maravilhamos e que
a criança se maravilha.
Fig. 108Fig. 107
Jean-Alain (7 anos e 5 meses).
336
Annie (7 anos e 5 meses).
337
Fig. 109
Basta examinar esta página onde Kiki (6 anos e 5 meses)
parece ter reunido as mais variadas técnicas, como um artista
já consumado que se não contenta cm copiar a natureza, mas
que sabe interpretá-la audaciosamente,
A verdade, o humor e a arte
Terminaremos esta génese mostrando através de exemplos
típicos como e que nas diversas fases a criança não executa
só esboços, mas obras frequentemente auto-suficientes que
não nos atrevemos a tocar com receio de destruir. O mesmo
acontece com a criança que se ensaia na linguagem, seguindo
um método evidentemente natural de tentativa experimental,
e que. apesar da sua inépcia, tem achados, sínteses, compara
ções e subentendidos que nos surpreendem e deslumbram.
338
Fig. 110
Fig. 114
André (6 anos e 10 meses).
339
Fig. 111
Fig. 113 Fig. 112
Alain (6 anos c 6 meses).
Os gansos de Geneviève (7 anos e 2 meses).
E vamos concluir com a ave de Gilbert (8 anos e 10 me
ses), que nos lembra um senhor idoso e atrasado a resmungar
ante o espectáculo da vida que passa.
340
Fig. 115
Fig. 116
No fim deste espantoso desfile dc aves, vistas por crianças
de 4 a 8 anos, sentimo-nos dominados por uma impressão dc
vida e de energia. Ficamos verdadeiramcnte boquiabertos pe
rante a capacidade da criança para reorganizar a seu modo o
mundo dos pássaros. Quer sejam captadas em pleno céu quer
apanhadas em atitudes mais terrestres, estas aves constante
mente recriadas comunicam-nos, em poucos traços essenciais,
a sua vivacidade, a sua ligeireza, a sua fantasia c, por vezes, a
sua graça soberana (Figs. 74, 75, 103, 104, 108). Será possível
fazer melhor com meios tão sóbrios?
Retomando o caminho que havíamos seguido na Génese
do homem, fomos notando o aparecimento sucessivo dos
pormenores exteriores do corpo da ave. o que não cra de
forma alguma indiferente à nossa pesquisa preocupada com a
realidade tal como se mostra aos olhos da criança. Mas, com a
continuação e à medida que a ave adquiria bico, patas e
penas, começou a impor-se-nos algo de mais importante do
que a objectividade realista: a mensagem do pássaro vivo,
liberto para sempre, dominando com todo o seu ímpeto a
imperícia e o esquematismo dos grafismos, para afirmar a sua
“vocação voadora”.
Como é que sem qualquer iniciaçãoprévia a criança conse
gue assimilar estas noções subtis que transformam a linha no
factor essencial e excepcional da expressão gráfica? Não são
só os olhos que guiam a mão, uma vez que a criança começa
por não ter qualquer ponto de referência; o lápis parte para
onde quer e termina, por si mesmo, onde é necessário. A
figura, a princípio aberta, fecha-se, o arabesco faz sentir a sua
força (Figs. 67, 74). Quão longe nos encontramos do desenho
figurativo! E quantas lições temos a receber sobre a noção de
espaço, da parte de uma criancinha a quem a psicologia
contesta a capacidade de orientar-se e de situar-se no meio
que a rodeia! Que pedagogo alimentado por uma profusa
ciência intelectual conseguiría — num espaço de tempo equiva
lente à rapidez da escrita gráfica - realizar com tanta facilida
de e até desenvoltura uma página tão minuciosamente ordena
da e tão definitiva como a que Kiki (7 anos e 4 meses) nos
341
oferece? Não há uma ave igual a outra. É o triunfo da
espécie pelas virtudes do gênio decorativo da criança.
Dizer que o aperfeiçoamento da mão depende de um
crescente controle da moiricidade reconhecida aos dados vi
suais nada significa. O essencial não é o jogo da mão mas sim
as forças que o animam. É evidente que os olhos ajudam e
não recorrem a qualquer lei. Mas os elementos que entram
aqui em linha de conta são mais profundos e nem todos
constituem reflexo da maturidade biológica ou da repetição
dos exercícios. Precisamos de ir mais longe e procurar a sua
justificação nos domínios secretos da sensibilidade e do imagi
nário.
O que nos prendeu à Génese das aves foi a fertilidade da
invenção gráfica testemunhada por tantas imagens originais,
especiahnente pelas incluídas nas últimas pa'ginas. Na ausência
sistemática de observação e ainda muito mais de erudição,
não foi certamente o saber que orientou a mão das crianças
capazes de exprimir dc um só jacto o comportamento das
criaturas voadoras (Figs. 102, 103, 106, 111). O saber apenas
poderia conduzir, por degraus metódicos, à figura clássica de
uma dada espécie de ave.
O acaso também não poderá explicai' a segurança e a
generalidade dos passos criadores pessoais. Intervirá, sem dúvi
da, mas como factor acidental e é preciso que tal factor se
inscreva numa personalidade apta a recebc-lo. Por exemplo,
seria difícil atribuir ao acaso a ave de René (5 anos e 1 mês)
(Fig. 64), que, em plena acção, parece cortar os espaços imen
sos respondendo ao apelo migratório.
É o simples facto da criança se encontrar mergulhada num
inconformismo inconsciente que a leva a dar livre curso às
suas audaciosas tentativas experimentais; ignorante de tudo,
tem tudo a aprender e atira-se de cabeça à conquista de
caminhos, A cada passo e com a cumplicidade compreensiva
do meio nas áreas relacionadas com o seu desenvolvimento
fisiológico e social, transforma-se num criador. Mas há secto-
res onde por vezes se vé compelida a comportar-se como um
franco-atirador, livre nas suas experiências, na sua táctica e
nos seus objectivos. É o caso do desenho ao qual - na maio
ria das suas diligências - se entrega sem qualquer defesa, sus
342
citando, assim, unia actividade criadora constantemente reno
vada e enriquecida, que confere um rosto inédito ao seu
mundo interior.
Mas persistirá sempre uma questão: que razões e que cau
sas poderiam explicar as particularidades da feitura pessoal
dos grafismos dc cada criança? Tocamos evidentemente um
domínio misterioso que os psicólogos evitaram abordar e
sobre o qual só nos são permitidas reflexões vagas. A única
coisa que podemos constatar com toda a simplicidade é que a
criança, seja qual for o teor das suas improvisações livres, se
encontra sempre ligada à sua própria vida; ela é o motor que
dá pleno rendimento: oferece autenticidade criativa dentro de
uma espontaneidade sem limites.
As psicologias ocidentais teriam muito a aprender sobre
estes assuntos mais ou menos votados ao hermetismo com a
tradição pedagógica das civilizações asiáticas, fundamental
mente preocupadas com uma simplicidade básica e que, sem
exigir qualquer tensão ou esforço impostos pelo exterior, se
consideram permanentemente submetidas à acção resultante
de uma espontaneidade inteiramente livre. Só assim o indiví
duo pode vivcr dc acordo com a sua verdadeira natureza. É o
caminho seguido pela criança: ela sabe aonde vai e escolhe-a-
encosta mais favorável, como a água que corre da montanha.
Para ser verdadeira, sólida e eficiente, a educação deve ter em
conta essa encosta favorável que a criança nos revela através
da expressão livre e que constitui a justificação dos nossos
Métodos naturais.
Estes métodos têm a grande vantagem de nos proporciona
rem uma consciência dos processos de tentativa de cada
criança, bem como dc nos fazerem descobrir os patamares
onde o acto conseguido se mecaniza e pelos quais se vai
estruturando uma técnica primeiro inconsciente e depois pro
gressivamente elaborada que assegura uma ascensão permanen
te rumo à conquista e à afirmação da vida.
Estamos convencidos de que só essas vias nos permitirão
lançar luz sobre os passos que asseguram a feitura pessoal dos
grafismos infantis. Sc não chegarmos à intuição da incomensu-
rável amplitude das forças vitais que actuam à escala da
criação, jamais poderemos entrar no mundo da infância para
343
tentar compreender o seu perpétuo renascimento. Porque é
que os pássaros livres, desenhados pelas nossas crianças da
infantil, não nos encherão de um deslumbramento quase reli
gioso como o que nos suscita a regularidade impecável de um
favo de mel ou de um casulo sedoso fechado sobre a sua
crisálida? Perguntar-se-á se a arte, que todos amam instintiva
mente, não será apenas uma lei da natureza necessária à vida
e à sua perpetuação para além do simples destino dos indivíduos.
De qualquer forma, foram precisamente todas as particula
ridades artísticas patentes nos grafismos infantis que tentámos
pôr em relevo na nossa Génese das aves, como já tínhamos
feito na Génese do homem. O gosto da coisa bela e perfeita,
o poder de invenção da linha, o equilíbrio do arabesco e o
sentido da impetuosidade dos músculos em acção representam
valores que se auto-organizam rumo a um equilíbrio de activi-
dades criadoras em plena génese e que constituem autênticos
valores artísticos.
Cuidaremos de não deixar degradar estas riquezas ignoradas
pela psicologia nem deixar desacreditá-las por um intelectua-
lismo ressequido que logo à partida priva a criança dos
seus poderes criativos, arrancando-a à lenta maturação em que
se prepara a sua própria formação intelectual e moral.
E. F.
344
A GÉNESE DOS CAVALOS
Propunha-me terminar a série das minhas gêneses com uma
génese geral dos animais, à excepção das aves já anteriormente
estudadas.
Mas ao classificar a impressionante colecção de desenhos
infantis sobre o tema, realizados em centenas de escolas do
nosso movimento, fiquei surpreendido com um facto que me
fez imprimir uma nova orientação ao trabalho: numa época
em que os cavalos desapareceram totalmente das nossas cida
des e vão sendo. progressivamente substituídos no campo
pelos tractores, continuam — e dc longe — a revelar-se a vedeta
dos desenhos infantis. Seguem-se-lhes os bois e as vacas que
também ocupam um lugar considerável.
Contrariamente ao que pensara, os outros animais, embora
conhecidos, só raramente aparecem nos desenhos das nossas
crianças: vêem-se muito poucos cães, por exemplo, apesar dos
seus dotes de amizade e de fidelidade os transformarem em
verdadeiros companheiros das famílias que ainda podem pos
suí-los. Porque se desenha o cão tão poucas vezes? Será por
não apresentar qualquer característica espectacular - orelhas
compridas como o burro, chifres como o boi, sela ou carroça
como o cavalo? 0 cão é sensível e afectuoso, duas qualidades
de difícil expressão gráfica. A escassez de gatos justifica-se.
sem dúvida, pelas mesmas razões.
Os restantes animais,conhecidos ou não, ocupam um lugar
ínfimo nas nossas colecções: alguns porcos; leões certamente
em virtude da tradição fabulosa e folclórica; cabras e carnei
ros, em menor número do que supunha perante a facilidade
345
com que a criança representa a lã, os chifres e o pastor;
coelhos, só para decorar as coelheiras; e maior abundância dc
esquilos em determinadas escolas, certamente devido à in
fluencia do meio. Quase não se encontram lebres, cervos,
camelos e elefantes; há poucos peixes, mas alguns macacos;
não há serpentes, sapos ou rãs, mas caracóis.
A que se deverá esta emergência notória dos cavalos e, em
segundo lugar, dos bois e das vacas? Corresponderá a uma
ordem especial relacionada com a presença de tais animais
próximo da criança? Não ignoro o renovado interesse que as
corridas, complacentemente comentadas na televisão e em que
tantas famílias jogam, tem canalizado para os cavalos. Contu
do. uma parte das nossas colecções é anterior a essa moda e
tanto os cavalos como as carruagens acabaram mesmo por
desaparecer do meio natural da maioria das crianças. Mas
claro que os filmes de “cow-boys” apresentados na televisão têm
muita influencia.
Creio que esta predilecção sc deve, todavia, ao facto da
criança conseguir obter desenhos facilmente expressivos e ar
tísticos a partir do cavalo. A silhueta do carneiro fixa-se
rapidamente; quatro patas, um pouco de lã aos caracóis e o
rebanho fica pronto para seguir para o campo. Que mais é
preciso?
O cavalo é elegante, possui uma cabeça expressiva c inteli
gente, as patas altas e esguias permitem-lhe trotar e galopar.
Pode ser selado e transportar um cavaleiro sempre diferente:
um homem de armas, um simples camponês ou uma criança.
E o burro, cuja história sc assemelha tão completamente à do
cavalo, tem o nobre destino de acompanhar o Pai Natal na
sua distribuição dc brinquedos, E depois há a carruagem, que
a criança encara ainda com uma nostalgia ancestral.
Perante a riqueza do tema, vamos limitar-nos, portanto, à
génese do cavalo (e acessoriamente à do burro). Estabelecere
mos mais tarde a gchiese do boi e da vaca, bem como a dc
alguns outros animais (1).
(1) Não concretizadas.
346
Os pedagogos ainda subjugados pela prática das lições e
dos deveres interrogar-se-ão se o nosso método levará a crian
ça a aprender a desenhar satisfatoriamente, não só o que
imagina e o que cria, mas tambem o que vê.
Os progressos constatados nesta génese constituem a mais
eloquente das respostas. Animam a técnica, descobrindo-lhe
tudo o que pode comportar de espiritualidade e de beleza.
Conduzem a uma cultura.
O nascimento do cavalo
Com 3 anos e 2 meses, Patrick vê o cavalo como uma
nebulosa ainda indiferenciada vogando num espaço morto.
E esta primeira expressão corresponde, em nossa opinião, à
realidade da vida da criança desta idade. Preocupada com a
construção complexa do seu mundo interior, considera os
homens e os bichos que a rodeiam como gravitando na sua
347
Fig. 1
órbita em vias de fixação. Vamos ver aparecerem a pouco e
pouco os elementos que mais se impõem à atenção activa da
criança.
Fig. 2
O feto define-se com um embrião de cabeça e toda uma
armadura ainda indecisa de pêlos ou de membros. Patrick (3
anos e 10 meses).
Fig. 3
No desenho seguinte, o feto parece sair da sua passividade
e erguer a cabeça, Patrick. (3 anos e 10 meses).
348
Fig. 4
E eis o bicho semelhante já a um potro arremessando-se
para a frente. Patrick (3 anos e 11 meses).
Fig. 6
André (3 anos e 10 meses).
349
Fig. 5
Algumas crianças dc escolas diferentes (mas todas com
3 anos e 10 meses) apresentam-nos uma surpreendente estiliza-
ção do cavalo.
Outras crianças juntaram a essa estilização umas patas em
brionárias:
Rosine
e umas patas e uma cauda: Riri.
Dotado de cabeça expressiva e de pés, eis o cavalo que
acaba de nascer. Lulu (3 anos e 8 meses).
350
Fig. 7
Fig. 8
Fig. 9
O cavalo toma forma com cabeça, patas e cauda
O aparecimento destes órgãos nos desenhos das nossas
crianças não é simultâneo.
Fig. 10
A cabeça ainda é anônima; um traço representa o corpo e
a cauda, o número de patas é caprichoso e já existe um
cavaleiro. Line (3 anos e 10 meses).
Quatro cavalos que a pouco e pouco tomam forma:
Fig. 11
Louis (3 anos e 10 meses).
Fig. 12
Jacques (3 anos e 11 meses).
351
Fig. 13
Robert (3 anos e 10 meses).
Fig. 14
Lili (3 anos e 11 meses).
Fig. 15
Dolores (4 anos) já muniu o seu cavalo de quatro pernas
com cascos semelhantes a barbatanas.
Fig. 16
Fifi (4 anos) confere uma expressão viva à cabeça do seu
cavalo.
352
Fig. 17
O cavalo dc Serge (4 anos) possui já todos os atributos
essenciais, à excepção das orelhas.
A cabeça torna-se mais expressiva e decorativa, mas o
número de patas é muito fantasista.
Fig. 18
Lina (4 anos e 1 mês).
353
Fig. 19
René (4 anos e 2 meses).
Louis (4 anos e 2 meses).
blianc (4 anos e 4 meses).
354
Fig. 20
Lise (4 anos e 3 meses).
Fig. 21
Fig. 22
O número de patas equilibra-se
Não me parece que nesta fase a criança pense: "O meu
cavalo tem patas a mais. Vou pôr-lhe só quatro, como deve
ser.” Como as restantes partes do corpo, o número de patas
ir-se-á também equilibrando e aproximando do normal.
Jean-René (4 anos e 2 meses): “O patrão e o cavalo.”
355
Fig. 24
Jean-Jacques (4 anos e 2 meses): “O homem a cavalo. ”
Fig. 25
Fig. 23
Paul (4 anos e 1 mês).
Fig. 26
Pierre (4 anos e 2 meses).
Como é que, com a sua técnica ainda embrionária, a criança
entre os 4 e os 5 anos descobre e exprime a vida misteriosa
do cavalo?
Entre os 4 e os 5 anos, a criança que veio dominando
progressiva e experimentulmente a técnica da língua consegue
exprimir-se dc uma forma intuitiva, original e espantosa mente
completa, atendendo ao número ainda reduzido de palavras
de que dispõe.
F. a idade cm que a aquisição interior e profunda ainda
domina o verniz com que a escolástica cm breve a revestirá.
As palavras da criança, as inflexões da sua voz. as suas
hesitações e os próprios subentendidos conservam uma resso
nância vital que não voltaremos a encontrar com a mesma
intensidade. É no subconsciente e através da psicanálise que
devemos procurar a explicação profunda das obras infantis e
particularmentc do desenho.
Com os meios gráficos dc que dispõe, a criança vai agora
moldar o cavalo a seu jeito, numa recriação que põe em
relevo os elementos referentes à estatura, ao movimento e à
vida do animal cujo valor sensível ela apreende intuitiva
mente.
Como se traduzem os êxitos nesta fase? Ninguém sabe.
Encontramo-nos no domínio misterioso do pensamento pro
fundo e da sua expressão por intermédio daquilo a que se
chama arte, à falta de outra justificação.
Jules (4 anos): "O cavalo que ri. ”
356
Fig. 27
Lulu (4 anos e 10 meses): “O cavalo tem fome. ”
Denis (5 anos e 6 meses) desenha um “burro de moleiro”
inquieto e trocista.
Pierre (5 anos e 8 meses) oferece-nos um cavalo pachorren-
to: ‘'Está à espera que lhe dêem de comer. ”
357
Fig. 28
Fig. 29
Fig. 30
Louisette (5 anos e 7 meses) apresenta-nos uma burra
preocupada com a maternidade próxima.
Alain (5 anos e 8 meses).
Pierrc (5 anos e 10 meses): "O cavalo foge.
358
Fig. 31
Fig. 32
Fig. 33
Michel (4 anos e 4 meses) soube dotar o seu cavalo de
uma grande elegância: o pescoço, as ancas e o corpo são
particularmente esbeltos.
Patrice (4 anos e 2 meses): ‘‘Cavalinhos da montanha de
Andorra passeando. ”
359
Fig. 34
Fig. 35
O cavalo e os cavaleiros
Estaremos perante uma tendência ancestral ou será que a
criança experimenta pura e simplesmente um prazer inigualá
vel ao sentir-se senhora do seu cavalo ou do seu burro?
A criança gosta de automóveis e as possíveis razões justifi
cativas dessa inclinação são múltiplas. Mas coloquemos lado a
lado um belo automóvel do último modelo e um cavalo
selado ou um burro simpático, prontos a montar para um
passeio pelo campo ou por caminhos ainda não alcatroados, e
não haverá hesitação: todasas crianças com menos de dez
anos optarão pelo cavalo ou pelo burro. A vida mostra-se
sempre mais atraente.
É isto, sem dúvida, que explica a enorme proporção de
desenhos representativos de cavalos e cavaleiros executados
entre os 4 e os 5 anos.
Irma (3 anos e 10 meses) desenhou uma menina a cavalo.
Vê-se efectivamente que subir para um cavalo e representar
graficamente a ocorrência exigem um grande esforço nesta
idade.
Numa primeira fase, o cavaleiro está de pé sobre o cavalo
sem qualquer problema de equilíbrio nem necessidade de sela
ou de rédeas.
Robert (4 anos e 6 meses).
360
Fig. 36
Fig. 37
Fig. 38
Viviane (5 anos e 8 meses) desenhou simplesmente uma
flor a cavalo.
Michel (5 anos e 8 meses).
Louis (5 anos e 8 meses): “Vai montar o cavalo.”
361
Fig. 39
Fig. 40
Fig. 41
Alain (5 anos e 8 meses): “É o papá que passeia o cavalo
com a menina e o irmãozinho. ”
Fig. 42
Paul (4 anos e 3 meses).
362
Fig. 43
Jean-Marie (4 anos e 5 meses), apesar de pouco hábil, já
conseguiu desenhar um belo cavalo: "O menino vai subir para
o cavalo; como é muito pequeno, serve-se de uma escada. ”
363
Fig. 44
Jeannc (5 anos e 1 mês): “O cavalo puxa o carro, a
menina segura no chicote.”
Fig. 45
André (5 anos e 9 meses).
Em seguida a criança liga o cavaleiro às rédeas:
Mauricc (5 anos e 10 meses).
364
Fig. 46
Serge (5 anos e 9 meses).
Fig. 47
Fig. 48
Lucette (5 anos e 10 meses).
Serge (5 anos e 10 meses).
365
Fig. 49
Fig. 50
Dois desenhos de Dominique (6 anos): O concurso hípico.
Fig. 51
Achamo-nos em plena acção e os jóqueis têm o número
marcado nas costas. Apesar da economia de meios, é uma
cena de um dinamismo surpreendente.
366
As selas
Até aos 6 anos não encontramos arreios. O cavaleiro mon
ta directamente sobre o dorso do cavalo, seja porque a crian
ça que nunca montou ignore a utilidade ou a necessidade da
sela c dos estribos, seja porque a sua preocupação com algo
de mais urgente a tenha mantido afastada do problema. É
agora que ele nos surge.
Fig. 53
Eis uma corrida onde apenas se acha assinalada a colocação
da sela, sem qualquer preocupação quanto às pernas e aos
pés. Jean-Pierre (6 anos).
Fig. 52
E agora, de Claude (6 anos e 2 meses), vemos um verdadei
ro cavaleiro com uma sela ricamente decorada, estribos e a
alegria triunfante de um vencedor.
367
Fig. 54
Por fim. corridas de cavalos vivas e humorísticas, nas quais
a sela e o estribo desempenham um papel relevante. Michel
(6 anos).
Os atrelados
No período inicial não existe um verdadeiro atrelado. O
cavalo acha-se simplesmente colocado à frente do carro, ao
qual sc encontra por vezes ligado por um traço de lápis.
A princípio nem sequer há condutor.
368
Fig. 55
Fig. 56
Fig. 58
Michel (4 anos e 10 meses).
369
Fig. 57
Roland (4 anos e 11 meses).
Colettc (4 anos e 11 meses).
Fig. 59
Pascal (5 anos): "O cavalo que puxa as batatas.'’
Fig. 60
Riton (5 anos): “O papá leva as crianças a passear. É
domingo.”
Fig. 61
Paul (5 anos e 5 meses): "O cigano e o carro florido."
370
Desde cedo que o atrelado surge associado ao trabalho. Os
desenhos que se seguem foram executados por crianças do
campo.
Jean-Claude (5 anos e 5 meses): O cavalo é conduzido. "A
palha vai no carro. ”
E eis alguns condutores:
Fig, 63
Dominique (5 anos e 6 meses).
Fig. 64
Philippe (5 anos e 6 meses): “Há batatas na carroça.”
371
Fig. 66
Alexandre (5 anos e 6 meses): "É o correio. ”
372
Fig. 65
Vincent (5 anos e 6 meses).
Os arreios aparecem aos 6 anos:
Michel (6 anos).
Fig. 67
E, para finalizar, eis um atrelado correcto e definitivo:
René (8 anos).
O ciclo da tentativa experimental terminou
Entre os 7 e os 8 anos, a criança desenha os cavalos com o
máximo de exactidão compatível com a preocupação artística
que ainda a impregna.
373
Fig. 68
Jean-Pierrc (6 anos c 1 mês).
Fig 69
A criança não partiu do nada para se elevar, através de
series de provas destituídas de qualquer valor artístico e
humano, aos cânones ordenados pela escolástica. Em cada um
dos estádios por que passou realizou obras intrin secam ente
válidas, específicas do seu grau de experimentação e de evolu
ção individual, como frutos diferentes, dotados de períodos
diversos de maturação e cuja plenitude nos satisfaz sempre.
Mas a criança nunca se contenta com os seus êxitos do
momento e sente uma constante necessidade de avançar rumo
a um máximo de inteligência, de equilíbrio e de harmonia.
Para compreender e apreciar o valor do método natural
que permitiu a ascensão regular da nebulosidade dos 3 anos
até à perfeição técnica dos 6, seria preciso comparar o presen
te álbum a um outro que traçasse, como ele, mês a mês, a
evolução da criança sujeita aos métodos tradicionais. Ver-se-ia
então que a diferença entre os resultados finais reside no
elemento novo e essencialmente fecundo que nós introduzi
mos no processo: o dinamismo e o sentido de perfeição, de
beleza e de vida.
Fig. 70
É essa vida que encontramos no cavalo acabado de ferrar
de Serge (6 anos) e em tantas outras cenas campestres:
374
Fig. 71
Alain (6 anos e 7 meses).
Fig. 72
Bernard (8 anos e 4 meses): "O cavalo nas vindimas. ”
375
Fig. 73
Alain (6 anos): “Vão partir para os campos.”
Fig. 74
Alain (6 anos e 7 meses): "Anunciando a festa.”
376
377
Fig. 75
Alain (7 anos e 2 meses).
Fig. 76
Pierre (11 anos).
Fig. 77
Charles (9 anos e 8 meses).
Pierre (12 anos).
Sc “o cavalo é a mais bela conquista do homem”, parece
ser também a mais bela conquista da criança sob o ponto dc
vista gráfico. Nada mais difícil do que captar um cavalo em
movimento, fazendo faiscar as suas quatro ferraduras; a géne
se dos cavalos, porém, oferece-nos um resumo apaixonante e
378
Fig. 78
de feitura por vezes excepcional de toda a aventura do cavalo.
Regista, efectivamente, as fases da sua domesticação, a sua
transição de um estado selvagem para um estado civilizado
onde se encontra definitivamente submetido ao homem.
Podemos sintetizar essa aventura num esquema delimitador
das etapas sucessivas da civilização do cavalo, tal como surge
nos desenhos infantis que examinámos e cuja realidade se
acha materializada nos documentos apresentados:
1. O cavalo toma forma.
2. O cavalo e o cavaleiro.
3. O cavalo de corrida.
4. O cavalo e os seus atrelados.
5. O cavalo na história.
6. O cavalo na cultura.
7. O cavalo eternamente livre.
Retomemos estas diversas fases impostas pela criança e que
nos fazém sentir até que ponto ela está consciente da integra
ção do cavalo na sua vida.
1. A génese do cavalo é, em todos os pontos, semelhante à
génese do homem: a cabeça, as patas e o ventre são os
primeiros a aparecer como elementos indispensáveis à caracte
rização do animal.
Os outros pormenores surgem conforme o desenhador,
numa ordem indeterminada mas numa caligrafia tipicamente
pessoal, cuja originalidade é de sublinhar (Figs. 28, 31, 36,
38).
2. O cavalo e o cavaleiro escapam muito depressa à sim
ples justaposição de grafismos para passar a uma integração
muito estreita numa intenção dc cavalgada deliberada, como
necessidade evidente (Figs. 42, 44, 46, 49, etc.).
3. Logo que a criança domina o mecanismo da cavalgada,
ou seja, logo que o cavalo sabe galopar e que o cavaleiro
consegue manter o equilíbrio, organizam-se competições que
refleetem uma actualização do desenho (Figs. 51, 52, 53, 55,
56). Mesmo sem arreios, a vitória está assegurada: a vida
existe sempre para além daquilo que a traduz, Estamos longe
379
do mero desenho narrativo. É como actor que a criança entra
em cena, porque o cavaleiro, não tenhamos dúvidas, mais não
é do que uma projccção imaginária do jovem desenhador. Só
assistindo ao acto de nascimento destas criações podemos
ficar com uma ideia da imensa alegria interior e da febre
íntima que acompanham o aparecimento de cenas inventadas
como as das Figs. 54, 55 e 56, cuja intensa expressão vital
desde logo as inscreve sob o signo do humor.
Tais documentos obrigam-nosa ultrapassar as considera
ções escolares do realismo, as explicações parciais e tão po
bres pela "habilidade motora da mão, coordenada à acuidade
visual". A criança situa-se para ale'm das preocupações pedagó
gicas do pedagogo; acha-se imersa num estado de vida total
que ultrapassa os seus meios de expressão: arrisca-se integral
mente numa tentativa experimental que inflama todas as
lenhas: é por si próprias que as energias instintivas se invo
cam, se disciplinam e se educam para criar uma imagem do
cavalo o mais fiel possível.
4. Elas entram claramcnte em jogo nestes atrelados revela
dores de um conteúdo espanto sarnento rico. É obvio que as
crianças que os desenham se encontram familiarizadas com
os trabalhos do campo. Todavia, também aqui sc ultrapassa
o simples realismo para se atingir um quociente de vida
inerente a todas as actividades do camponês. Ficamos sur
preendidos com as particularidades de cada carro, adequado
à natureza das colheitas em causa, mas mais ainda com a
ligação correcta do tema a um centro de gravidade, que nos
mostra o homem no seu posto! (Figs. 63. 65. 66. 72.) O
próprio carro vazio, pronto a partir, assinala a responsabili
dade dos criados que se afadigam para que tudo prossiga na
devida ordem.
Ultrapassamos aqui os resultados da observação bem dirigi
da. Aliás, estará a criança que participa livremente na expedi
ção do carro da colheita preocupada em observar? Sc a visão
dos pormenores necessários sc lhe impõe é numa rapidez de
relâmpago, uma vez que o pormenor vai mais fundo e se
transfoima cm critério fundamentai da vida: trata-se de um
simples motivo que se junta a tantos outros para traduzir a
380
extensão e a autenticidade de uma compreensão global que
constitui também uma permeabilidade constante à experiên
cia. A criança, quando inteiramente ela mesma, e inteligente.
Há que operar uma completa reviravolta psicológica que o
desenho, incessantemente ligado à expressão espontânea sob
todas as suas formas, nos permitirá encetar e desenvolver sob
o signo da tentativa experimental, operando, por assim dizer,
em sectoics simultâneos e que ultrapassam em amplitude e
intensidade o simples globalismo segundo o qual a criança
apenas poderá ver o conjunto mim esquema aproximado, 0
processo da tentativa experimental revela-nos constantemente
um poder construtivo sistematicamente condicionado por ac-
tos conseguidos, sucessivamcntc encadeados e subordinados a
uma visão central que domina ao mesmo tempo o todo c a
parte. Os atrelados desenhados e de que possuímos vários
exemplos permitem-nos constatar a oportunidade desta visão
unitária e concluir que a criança nota com muita nitidez as
relações entre as partes e o todo. Trata-se aqui dc partes
necessárias, integradas no funcionamento da tracção por atre-
lagem, tal como é concebido pelas especialistas.
Precisamos de abandonar resolutamente as fórmulas psico
lógicas preconcebidas para nos consciencializarmos finalmente
desta coesão interna dos processos vitais expressos em acções
livres e automaticamente encadeados rumo a um êxito pres
sentido pela tensão que brota do mais profundo de cada ser.
Tal independência e firmeza dc decisão justificam plenamente
os métodos naturais.
5. Somos obrigados a considerar como um êxito os dese
nhos 76 e 77, evocadores de uma preocupação meticulosa
com a beleza da imagem. A procura do pormenor decorativo,
minuciosamente levada até à sua subtileza extrema, compen
sa-nos do prosaísmo do desenho objectivo. Para além da
invenção c da segurança gráfica, opera-se uma transposição: o
cavaleiro e o cavalo constituem uma unidade envolta no
mesmo estrépito da cavalgada. Trata-se de inegáveis aquisições
culturais, cuja inclusão numa escala de desenho representativa
dos valores artísticos inventados pela criança se torna indis
pensável.
381
6. Os desenhos do jovem Pierre (Fig. 78), praticante do
desenho livre desde a mais tema idade, põem-nos perante os
mesmos elementos culturais. Evocando episódios sensacionais
e históricos relativos ao cavalo, imprime-lhes o cunho de um
humor temperado de subtileza.
7. Todavia, o cavalo livre e de crina ao vento há-de evocar
sempre na memória infantil o drama de Crina Branca. Nos
desenhos examinados, o cavalo, liberto de qualquer entrave e
de qualquer sinal de submissão, aparece frequentemente no
cenário dos grandes espaços que o desafiam.
Se insistimos na importância e no significado de tais cria
ções, aparentemente excepcionais, não é com vista a estabele
cer uma nova crítica dc Arte mas apenas a reencontrar, em
toda a sua simplicidade, as primeiras bases da personalidade
gráfica e sensível da criança: ela nasce com pequenas vitórias
do traço, com percepções intimamente ligadas aos valores
vitais, globalmente, silenciosamente, até um dia eclodir num
autêntico talento artístico.
Entre as nossas descobertas, contamos a evidência conferi
da a esta força criadora que é simultaneamente um alargamen
to do ser. um apelo à adesão dos outros, um sentido superior
de vida c um grande amor à Arte.
A totalidade destes documentos, reunida segundo uma or
dem que se impôs como que por si própria, concretiza a
crescente capacidade da criança para se apoderar e utilizar do
símbolo do cavalo. Claro que a habilidade gráfica adquirida a
pouco e pouco testemunha a óptirna qualidade da aprendiza
gem do desenho proporcionada pelo processo da tentativa
dirigida. Mas mais importantes e mais benéficas ainda são as
vantagens psicológicas que presidem à experiência gráfica do
cavalo. Adivinha-se, cm cada desenho, um elo afectivo entre a
criança e o “seu” cavalo. Ela vive, cm sonhos, a aventura que
lhe dá um sentimento de poder. Assistimos, segundo parece, a
uma transposição simbólica das vias instintivas de uma educa
ção natural Uma educação que .devemos despojar do conteú
do de formação didáctica e de aquisição sistemática que um
longo mal-entendido escolástico lhe conferiu. Sc pudéssemos
fazer reviver a realidade evocada pela criança em tantos dese
382
nhos relativos ao cavalo, se nos fosse dado fazer viver a
criança em companhia da sua montada, teríamos talvez possi
bilidade de recriar as gerações de audaciosa e viril juventude
de que Rabelais e Montaigne nos fazem sentir a nostalgia. É
educando o cavalo que o cavaleiro se educa a si mesmo: é no
jogo dos reflexos subtis, na sensibilidade dos movimentos de
aproximação, na permuta de arrebatamentos dc simpatia ins
tintiva e na harmonização das regras do domínio que se
concretizam os fundamentos mais delicados de uma educação
solidamente baseada nas leis da natureza. São todas estas
realidades impossíveis de analisar que os pequenos desenhado-
res do cavalo vivem num plano simbólico.
E. F.
CONCLUSÃO
No nosso ensino primário, centrado sobre o conhecimento
rudimentar da leitura, da escrita e da aritmética, há certamen
te muitos professores e muitos pais que ainda consideram
supérfluas as técnicas culturais do desenho, da dança, do
teatro e do canto. O tempo de escolaridade é curto, as turmas
acham-se sobrecarregadas, os alunos vivem enervados e os
exames exercem uma inegável pressão: não resta tempo para
perder com fantasias que não são indispensáveis aos filhos do
povo.
A maior miséria de um educador consiste talvez em resig
nar-se à pobreza e à infelicidade; cm não ver que, mesmo nos
meios proletários mais desfavorecidos, persiste uma necessida
de de alegria excepcional e necessária portadora de esperança
e de redenção. Quando a criança pinta uma bela imagem do
mundo, põe-lhe algo mais do que simples cores e linhas;
quando improvisa uma dança, o coração está por detrás dos
pés que deslizam rapidamente sobre o soalho; quando modula
uma melodia ou inventa um poema, o seu sonho acha-se para
além das palavras, em uníssono com o canto universal.
Tais estados privilegiados de nada servem, aparentemente,
no âmbito de uma existência sem horizontes, mas pelo menos
ajudarão a conservar a quoia-partede ilusão que sempre
impede o indivíduo isolado de naufragar no oceano da vida
Se, desde a infância, tiver sido habituado a procurar atingir
uma certa exaltação do coração e do espírito, o homem, na
sua maturidade, poderá sentir as maravilhas da vida e talvez
isso baste para modificar o mundo.
385
O facto de termos acompanhado a criança como amigos e
camaradas de trabalho durante tantos anos, ensinou-nos, tal
vez melhor do que aos próprios pais, o que há a salvaguardar
para o seu futuro. E antes de mais há que preservar-lhe essa
alegria de existir, a principio inexplicável mas que progressiva
mente vai encontrando no sonho e no trabalho pontos de
apoio, autênticos alicerces da experiência mais bela, precisa
mente na medida em que se torna transmissível aos outros.
Eis-nos, com efeito, no limiar de uma nova civilização. Se
ela merecer o entusiasmo do pequeno grupo de grandes cére
bros do nosso planeta, em breve mergulhará a humanidade
numa grande inquietação: o que será o futuro quando, sob os
nossos olhos, uma ciência, sem alma já tenta desenraizar-nos
de um passado que, no fim de contas, nos era querido por
constituir p somatório da grande experiência humana?
Subitamente parecem-nos necessários e mesmo obrigatórios
todos esses sonhos que ao longo da nossa missão pedagógica
amenizaram uma tarefa ingrata, fazendo-nos entrever um mundo
prodigioso onde, independentemente das magras necessidades
escolares, se desenvolvia uma realidade de dimensões insuspei-
tadas, sob a influência das sensibilidades e das imaginações
infantis. Abria-se diante dc nós um universo fugidio e frágil,
dotado dessa virtude inaudita que escapa aos cálculos dos
sábios, mas que é acessível a todas as criaturas: a felicidade.
Não precisando de circunstâncias excepcionais para nascer e
desabrochar, é simplesmente a marca dos corações generosos,
e quem melhor do que a infância è do que juventude podería
possuí-la?
Um dos nossos triunfos é, segundo cremos, o de termos
tomado a felicidade durável em cada uma das nossas Escolas
modernas. O de a vermos brilhar nos olhares, oferecer-se nos
gestos comoventes das mãos habilidosas e adquirir forma
definitiva na obra criada com amor.
Tudo faremos para que cada sensibilidade infantil se torne
criadora, para que sob a influência de uma espontaneidade
educada e promovida exalte o dom da simpatia — a frágil
barreira que protege o futuro. E é por isso que hoje, mais do
que nunca, exaltamos esse poder criador da criança, que
constitui a marca daquilo que de melhor e de mais generoso
386
existe no ser. E somos nós, educadores, que tranquilizaremos
o sábio encerrado no seu inferno íntimo, oferecendo-lhe a
possibilidade de reaprender o sentido da alegria e do esplen
dor da vida.
E. F.
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BIBLIOTECA DE CIÊNCIAS PEDAGÓGICAS
PUBLICADOS
1 — Educar e Instruir — I, Robert Dottrens
2 — Educar e Instruir — II, Robert Dottrens
3 — Educar e Instruir—III, Robert Dottrens
4 — Guia do Estudante de Ciências Pedagógicas, Paul
Juif e Fernand Dovero
5 — O Ensino da Leitura — I
6 — O Ensino da Leitura — II
7— O Ensino da Física Escolar — I, John L. Lewis
8 — O Ensino da Física Escolar — II, John L. Lewis
9 — O Ensino da Física Escolar — III, John L. Lewis
10 — Novo Manual da Unesco para o Ensino das Ciên
cias — I
11 — Novo Manual da Unesco para o Ensino das Ciên
cias — II
12 — O Método Natural-—!, «A Aprendizagem da Línguas
Celestin Freinet
13 — O Método Natural — II. «A Aprendizagem do Desenho»
Celestin Freinet
14 — O Método Natural — III, «A Aprendizagem da Escrita»
Celestin Freinet
Se deseja receber, gratuita e
periodicamente informações biblio
gráficas sobre a actividade da Edi
torial Estampa queira enviar-nos,
num simples postal, o seu nome
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rial Estampa serão prontamente
enviados contra reembolso, pelo
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tos de expedição e cobrança.
EDITORIAL ESTAMPA
R. da Escola do Exército, 9 r/c.-D.
Tel. 55 5663 Lisboa-1—Portugal
Título: 0 Método Natural — ll
Autor: Celestin Freinet
Editor: Editorial Estampa, Lda.
Tiragem: 5200 ex.
Acabou de imprimir em: 21 dc Setembro de 1977
Oficinas: Guide - Artes Gráficas, Lda.
LISBOA — PORTUGAL