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Monitorização hemodinâmica no paciente grave atenção a medicina é uma ciência que está em constante transformação. conforme vão surgindo novos conhecimentos, baseados em resultados de pesquisas e inves- tigações clínicas, tornam-se necessárias mudanças com relação ao tratamento e à utilização de determinados medicamentos. os autores dos capítulos e editores desta obra extraíram informações de fontes confiáveis e não mediram esforços para prover informações completas, de acordo com o regime vigente no momento desta publicação. no entanto, em vista da possibilidade de erro humano e de mudanças no conhecimento médico, os autores, editores e todos aqueles que participaram da preparação e publicação desta obra não podem assegurar que as informações aqui contidas, em todos os aspectos, completas e precisas, e não são responsáveis por quaisquer erros, omissões ou pelos resultados obtidos pelo uso destas informações. Solicitamos aos leitores que confrontem estas informações com outras fontes con- fiáveis, especialmente em se tratando do uso de medicamentos, onde deve-se con- firmar as doses, verificar as recomendações do laboratório fabricante e ter a certeza de que não ocorreram modificações com relação a doses recomendadas e contrain- dicadas para sua administração. essa recomendação é de particular importância no caso de drogas novas ou de uso muito restrito. Elias Knobel Monitorização hemodinâmica no paciente grave COEDITORES MUriLLo SantUcci ceSar De aSSUnção HaggÉaS Da SiLveira FernanDeS Knobel, Elias Monitorização hemodinâmica no paciente grave / Elias Knobel, Murillo Santucci Cesar de Assunção, Haggéas da Silveira Fernandes. -- 1. ed. -- São Paulo : Editora Atheneu, 2013. Vários colaboradores. Bibliografia ISBN 978-85-388-0380-5 1. Doentes em estado crítico 2. Monitorização de pacientes 3. Monitorização hemodinâmica 4. Unidades de Terapia Intensiva I. Assunção, Murillo Santucci Cesar de. II. Fernandes, Haggéas da Silveira. III. Título. CDD-616.028 13-05116 NLM WB100 EDITORA ATHENEU Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Índices para catálogo sistemático: 1. Monitoização hemodinâmica : Pacientes graves : Terapia intensiva : Medicina 616.028 2. Pacientes graves : Monitorização hemodinâmica : Terapia intensiva : Medicina 616.028 KNOBEL, E. Monitorização Hemodinâmica no Paciente Grave © EDITORA ATHENEU São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, 2013 Planejamento Gráfico: Triall Composição Editorial Ltda. e Elias Knobel Revisão de Textos: Ana Maria Barbosa Produção Editorial: Mariana Mello M.R. Sgambato e Triall Composição Editorial Ltda. Capa: Bruna Brüner e Elias Knobel Ilustrações: Rodrigo Tonan Endereço do autor: Prof. Dr. Elias Knobel Hospital Israelita Albert Einstein Av. Albert Einsten, 627/701 – Bloco A1 – Morumbi – São Paulo – SP – 05652-900 Centro de Medicina Ambulatorial – 2o andar – conjunto 206 Fone (FAX): 3842-1915 – (11) 3842-8243 – (11) 2151-5206 E-mail: knobel@einstein.br / elias@knobel.com.br Site: www.knobel.com.br/www.cardiologiaknobel.com.br/www.saudedocoracao.com.br Blog: www.blogdoknobel.com.br Twitter: www.twitter.com/eknobel São Paulo — Rua Jesuíno Pascoal, 30 Tel.: (11) 2858-8750 Fax: (11) 2858-8766 E-mail: atheneu@atheneu.com.br Rio de Janeiro — Rua Bambina, 74 Tel.: (21)3094-1295 Fax: (21)3094-1284 E-mail: atheneu@atheneu.com.br Belo Horizonte — Rua Domingos Vieira, 319 — conj. 1.104 sobrE colaboradorEs adriano José pereira Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. ana Maria cavalheiro Enfermeira do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. ana paula Metran nascente Médica do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Médica Coordenadora da Unidade de Terapia Intensiva da Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. anderson Benício Professor Colaborador Médico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. antonio cláudio do amaral Baruzzi Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. antonio eduardo pesaro Médico da Unidade Coronária do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Pesquisador do Programa de Cardiologia do Hospital Israelita Albert Einstein. Bruno Franco Mazza Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Médico Coordenador da Unidade de Terapia Intensiva da Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. claudio Henrique Fischer Coordenador da Área de Ecocardiografia Transesofágica do Setor de Ecocardiografia da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. Chefe do Setor de Ecocardiografia do Hospital Israelita Albert Einstein. Monitorização HeModinâMica no paciente grave vi constantino José Fernandes Júnior Gerente Médico do Hospital Israelita Albert Einstein. Professor do Ambulatório Geral e Familiar da Universidade Federal de São Paulo. cristiano Freitas de Souza Médico Intervencionista da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. Daniel De Backer Médico da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Erasme da Université Libre de Bruxelles. Presidente eleito da European Society of Intensive Care Medicine. Danilo teixeira noritomi Médico Intensivista. Gerente Médico da Amil, SP responsável pela área de Medicina Intensiva. Denis Faria Moura Jr. Coordenador de Enfermagem do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Diamantino ribeiro Salgado Médico do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – Universidade Federal do Rio de Janeiro. Médico do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Central Aristarcho Pessoa – Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro. Médico do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Barra D´or. edvaldo vieira de campos Médico da Unidade de Terapia Intensiva de Queimados do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. elias Knobel Diretor Emérito e Médico Fundador do Centro de Terapia Intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein. Vice-Presidente da Mesa Diretora do Hospital Israelita Albert Einstein. Professor Adjunto do Departamento de Medicina da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (1971-1998). Master do American College of Physicians. Fellow da American Heart Association. Fellow do American College of Critical Care Medicine. Honorary Member da European Society of Intensive Care Medicine. eliezer Silva Gerente Médico do Departamento de Pacientes Graves do Hospital Israelita Albert Einstein. Fernando colombari Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. sobre colaboradores vii Flávio de Freitas Médico da Disciplina de Anestesiologia de Dor e Terapia Intensiva da Universidade Federal de São Paulo. Frederico polito Lomar Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Médico Assistente da Disciplina de Emergências Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. gustavo Luiz Büchele Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Haggéas da Silveira Fernandes Supervisor do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. José Marconi almeida de Sousa Médico do Setor de Hemodinâmica da Disciplina de Cardiologia da Universidade Federal de São Paulo. Médico Cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein. Luis Dalfior Junior Médico do Centro de Terapia Intensiva Adultodo Hospital Israelita Albert Einstein. Luiz Francisco poli de Figueiredo In Memoriam: Professor Titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Manes roberto erlichman Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Marcos Knobel Médico Cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein. Coordenador da Unidade Coronária do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Murillo Santucci cesar de assunção Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. Coordenador do Grupo de Suporte em Hemodinâmica do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. neide Marcela Lucinio Enfermeira Sênior do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. nelson akamine Coordenador Médico da Unidade de Primeiro Atendimento do Hospital Israelita Albert Einstein. Monitorização HeModinâMica no paciente grave viii patrícia villodre alliegro Médica Colaboradora da Disciplina de Cardiologia da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. Médica da Unidade Coronária do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. paulo cesar gobert Damasceno campos Médico Supervisor da Unidade Coronária e Sala de Cardiologia (Pronto Socorro) do Hospital São Paulo, Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. ricardo Luiz cordioli Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. rodrigo palácio de azevedo Médico da Unidade de Terapia Intensiva de Queimados do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Médico da Unidade de Terapia Intensiva da Disciplina de Anestesiologia da Escola Paulista de Medicina – Universidade Federal de São Paulo. Sandrigo Mangini Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto e do Programa de Transplantes do Hospital Israelita Albert Einstein. Silvana Maria de almeida Farmacêutica Sênior do Hospital Israelita Albert Einstein. tatiana Mohovic Médica do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. thiago Domingos corrêa Médico do Centro de Terapia Intensiva Adulto do Hospital Israelita Albert Einstein. lista dE abrEviaturas σ coeficiente de reflexão ad átrio direito adh hormônio antidiurético adP adenosina difosfato amPc monofosfato cíclico de adenosina aP artéria pulmonar aPeV água pulmonar extravascular aSc área de superfície corpórea aTP adenosina trifosfato aV bloqueio atrioventricular aVc acidente vascular cerebral BaV bloqueio atrioventricular BnP peptídeo natriurético cerebral BRe bloqueio do ramo esquerdo c (a–v) o 2 diferença do conteúdo arteriovenoso de oxigênio ca 2 conteúdo arterial de oxigênio caP cateter de artéria pulmonar caSP colon ascendens stent peritonitis caV diferença arteriovenosa de oxigênio cci controlled cortical impact cco 2 conteúdo sanguíneo total de gás carbônico cFT conteúdo de fluido torácico cLP ligação cecal e punção (cecal ligation and puncture) co 2 gás carbônico concea conselho nacional de controle da experimentação animal cvci colapsabilidade pressórica da veia cava cvo 2 conteúdo venoso de oxigênio daV dispositivos de assistência ventricular dc débito cardíaco do 2 oferta de oxigênio dPoc doença pulmonar obstrutiva crônica dTe doppler transesofágico e a elastância arterial eca enzima de conversão em angiotensina ecG eletrocardiograma ecm músculo esternocleidomastóideo ecmo oxigenadores de membrana extracorpórea eco ecocardiograma Fc frequência cardíaca Fdm fator depressor do miocárdio FeVd fração de ejeção do ventrículo direito FeVe fração de ejeção do ventrículo esquerdo Fio 2 fração inspirada de oxigênio FmG fluxo de mucosa gástrica GmPc monofosfato de guanosina- -cíclica hb hemoglobina heS soluções de amidohidroxietil hh hipóxia hipóxica hi hipóxia isquêmica hSa hemorragia subaracnoidea hTS solução hipertônica salina Monitorização HeModinâMica no paciente grave x iadFVe índice da área diastólica final de ventrículo esquerdo iam infarto agudo do miocárdio ic índice cardíaco icc insuficiência cardíaca congestiva icd insuficiência cardíaca direita idV infusão de indocianina verde iFn-γ interferon gama iL-1β interleucona 1β imc índice de massa corpórea iRVP índice de resistência vascular pulmonar iRVS índice de resistência vascular sistêmica iS índice sistólico iTSV índice do trabalho sistólico ventricular iTSVd índice de trabalho sistólico do ventrículo direito iTSVe índice de trabalho sistólico do ventrículo esquerdo iVdFVd índice do volume diastólico final do ventrículo direito iVS índice de volume sistólico iVSFVd índice do volume sistólico final do ventrículo direito iVSFVd volume sistólico final do ventrículo direito iVSVd índice de volume sistólico do ventrículo direito Jv fluxo sanguíneo (hídrico) Kf coeficiente de filtração capilar LPa lesão pulmonar aguda LPS endotoxinas na noradrenalina naSa National Aeronautical and Space Administration niRS near-infrared spectroscopy no óxido nítrico noSc óxido nítrico sintetase constitutiva o 2 oxigênio oPS orthogonal polarization spectral p 50 afinidade da hemoglobina pelo o 2 Pa pressão arterial Paco 2 pressão parcial arterial de co 2 Pad pressão arterial diastólica Pad pressão de átrio direito Pam pressão arterial média PaP pressão da artéria pulmonar PaS pressão arterial sistólica Pd 2 Ve pressão diastólica final do ventrículo esquerdo PdaP pressão diastólica da artéria pulmonar PdFVd pressão diastólica final do ventrículo direito PdFVe pressão diastólica final do ventrículo esquerdo PeeP pressão expiratória final positiva Pgco 2 pressão parcial de co 2 da mucosa gástrica phi pH intramucoso gástrico P hidr int pressão hidrostática intersticial P hidr vas pressão hidrostática vascular Picc cateter central de inserção periférica PmaP pressão média da artéria pulmonar Po 2 pressão parcial do oxigênio PoaP pressão de oclusão da artéria pulmonar P onc int pressão oncótica intersticial P onc vas pressão oncótica vascular PP pressão de pulso PPc pressão de perfusão cerebral PS pressão sistólica lista de abreviaturas xi PSaP pressão sistólica da artéria pulmonar PS mÁX pressão sistólica máxima PS mín pressão sistólica mínima PS ReF pressão tomada como referência PSVd pressão sistólica do ventrículo direito PVc pressão venosa central PVc exp pressão venosa central ao final da expiração PVc ins pressão venosa central ao final da inspiração Pvco 2 pressão parcial venosa de gás carbônico PVd pressão do ventrículo direito PVmS pressão venosa média sistêmica Pvo 2 pressão parcial venosa mista de oxigênio Q fluxo sanguíneo Raa renina-angiotensina-aldosterona curva Roc receiver-operator characteristic curve RPT resistência periférica total RVP resistência vascular pulmonar RVS resistência vascular sistêmica Sao 2 saturação arterial de oxigênio SdF sidestream dark field Sdm substâncias depressoras do miocárdio Sdmo síndrome da disfunção de múltiplos órgãos SdRa síndrome do desconforto respiratório agudo SiRS síndrome da resposta inflamatória sistêmica Snc sistema nervoso central So 2 saturação de oxigênio SoFa sequential organ failure assessment SSc campanha sobrevivendo à sepse (surviving sepsis campaign) Svco 2 saturação venosa central de oxigênio Svo 2 saturação venosa mista de oxigênio Tce trauma cranioencefálico Tde exp tempo de decaimento exponencial Tde tempo de desaceleração Teo 2 taxa de extração de oxigênio TeV tempo de ejeção ventricular TnF-α fator de necrose tumoral – α Tni troponinaTo 2 transporte de oxigênio TRiV tempo de relaxamento isovolumétrico TSVd trabalho sistólico do ventrículo direito TSVe trabalho sistólico do ventrículo esquerdo TTm tempo de trânsito médio UTi unidade de terapia intensiva Valvas aV valvas atrioventriculares Vci veia cava inferior Vco 2 produção de gás carbônico VcS veia cava superior Vd ventrículo direito Vd 2 Ve volume diastólico final do ventrículo esquerdo VdF volume diastólico final VdFVd volume diastólico final do ventrículo direito VdGF volume diastólico global final Ve ventrículo esquerdo ViSVe via de saída do ventrículo esquerdo VJi veia jugular interna Monitorização HeModinâMica no paciente grave xii Vo 2 consumo de oxigênio VPP variação da pressão de pulso VPS variação da pressão sistólica VS volume sistólico VSF volume sistólico final VSFVd volume sistólico final do ventrículo direito VST volume sanguíneo torácico final VSVe volume sistólico do ventrículo esquerdo VTi integral velocidade-tempo VVS variação de volume sistólico A monitoração hemodinâmica tem se tornado, ao longo do tempo, um recurso essencial no tratamento dos pacientes graves. Tivemos a oportunidade de ser um dos introdutores, em nosso meio, do cateter de Swan- -Ganz, utilizado inicialmente em pacientes cardiológicos. Com o decorrer do tempo, outros pacientes com distúrbios hemodinâmicos graves passaram também a ser avaliados com essa tecnologia. Essa abordagem, à beira do leito, que inicialmente limitava-se à avaliação exclusivamente hemodinâmica, passou a analisar parâmetros de perfusão tecidual como níveis de lactato, SvO2, gradientes de O2 e CO2, e outros mais. Com o decorrer do tempo, procuraram-se outros métodos de avaliação do débito cardíaco que fossem menos invasivos. Nos dias de hoje, nas diversas unidades de tratamento de pacientes graves, observa-se uma série de recursos tecnológicos que propicia essa avaliação. Sistemas que analisam as curvas de pressão arterial periférica, associados às medidas bioquímicas do metabolismo tecidual, têm propiciado a melhora dos resultados do tratamento dos pacientes graves. Pudemos acompanhar e participar com muito entusiasmo todo esse desenvolvimento. Porém, o que mais aprendemos nesses mais de quarenta anos de atuação no cuidado de pacientes graves não foram apenas os recursos tecnológicos que constantemente foram se aprimorando. Tão ou mais importante que a tecnologia foi a atuação coordenada e organizada de um time de recursos humanos com a participação de todos, de forma uníssona, com dedicação e atualização constantes produzindo trabalhos científicos, gerando conhecimentos e atuando de corpo e alma para melhorar a qualidade de vida daquele que é o objetivo fundamental do profissional de saúde: o paciente. Novos recursos e novas tecnologias, sem dúvida, serão desenvolvidos nos próximos anos, mas nada substituirá a dedicação e o envolvimento desses profissionais, que merecem maior reconhecimento. Neste livro, os conceitos e as aplicações da monitoração hemodinâmica à beira do leito são abordados de maneira atualizada, didática, objetiva e repleta de ilustrações. Acreditamos piamente que os conhecimentos aqui emitidos serão úteis para todos os profissionais que atuam no tratamento dos pacientes graves. Elias Knobel Outono de 2013 prEfácio capítulo 1 conceitos essenciais: anatomia e Fisiologia cardiovascular ............................................................................................. 1 Nelson Akamine Elias Knobel capítulo 2 aspectos atuais da Monitoração Hemodinâmica com cateter de artéria pulmonar ..................................................... 19 Haggéas da Silveira Fernandes Eliezer Silva capítulo 3 tipos de cateteres de acesso venoso central ........................... 29 Tatiana Mohovic Frederico Polito Lomar capítulo 4 Descrição do cateter de artéria pulmonar (Swan-ganz) ............................................................................................ 35 Luiz Dalfior Junior Thiago Domingos Corrêa capítulo 5 Métodos para acesso venoso central ...........................................49 Fernando Colombari Adriano José Pereira capítulo 6 técnicas de introdução do cateter de artéria pulmonar .................................................................................... 67 Ana Paula Metran Nascente Nelson Akamine capítulo 7 complicações da Monitorização Hemodinâmica com cateter de artéria pulmonar ............................................................... 81 Patrícia Villodre Alliegro Ricardo Luiz Cordioli capítulo 8 assistência de enfermagem à Monitorização Hemodinâmica .........................................................................................95 Ana Maria Cavalheiro Neide Marcela Lucinio sumário Monitorização HeModinâMica no paciente grave xvi capítulo 9 pressão arterial: abordagem invasiva e não invasiva ............... 109 José Marconi Almeida de Sousa Ana Paula Metran Nascente capítulo 10 conceitos e aplicações da pressão venosa central ..................... 121 Edvaldo Vieira de Campos Murillo Santucci Cesar de Assunção capítulo 11 Monitorização da pressão arterial e pressão de oclusão da artéria pulmonar .................................................................................. 131 Haggéas da Silveira Fernandes Cristiano Freitas de Souza Rodrigo Palácio de Azevedo capítulo 12 curvas de pressão ..................................................................................... 139 Frederico Polito Lomar Patrícia Villodre Alliegro capítulo 13 Débito cardíaco conceitos essenciais .............................................. 155 Murillo Santucci Cesar de Assunção Constantino José Fernandes Júnior capítulo 14 variáveis Hemodinâmicas calculadas: resistência e trabalho ........................................................................................................165 Tatiana Mohovic Elias Knobel capítulo 15 transporte de oxigênio .......................................................................... 177 Sandrigo Mangini Murillo Santucci Cesar de Assunção Nelson Akamine capítulo 16 interpretação dos níveis de Lactato e impacto no prognóstico .................................................................................................. 195 Tatiana Mohovic Murillo Santucci Cesar de Assunção Elias Knobel capítulo 17 gradientes Sanguíneos e teciduais de co 2 ....................................207 Eliezer Silva Ana Paula Metran Nascente Adriano José Pereira sumário xvii capítulo 18 Disfunção Miocárdica no paciente grave ......................................... 217 Constantino José Fernandes Júnior Marcos Knobel Elias Knobel capítulo 19 abordagem da interação cardiopulmonar .................................... 235 Manes Roberto Erlichman Elias Knobel Flávio de Freitas capítulo 20 classificação dos estados de choque .............................................245 Murillo Santucci Cesar de Assunção Eliezer Silva capítulo 21 Metas do tratamento do choque ...................................................... 267 Eliezer Silva Nelson Akamine Elias Knobel capítulo 22 reposição volêmica – tipos de Fluidos .......................................... 279 Haggéas da Silveira Fernandes Elias Knobel capítulo 23 Drogas vasoativas – Mecanismos de ação ....................................293 Bruno Franco Mazza Ana Paula Metran Nascente Pereira capítulo 24 Monitorização da resposta à infusão de Fluidos ....................... 309 Murillo Santucci Cesar de Assunção Haggéas da Silveira Fernandes capítulo 25 termodiluição transpulmonar e análise de contorno de pulso ......................................................................................................... 321 Haggéas da Silveira Fernandes Ricardo Luiz Cordioli AnaMaria Cavalheiro capítulo 26 Doppler transesofágico .........................................................................333 Ricardo Luiz Cordioli Danilo Teixeira Noritomi capítulo 27 Bioimpedância torácica .........................................................................343 Paulo Cesar Gobert Damasceno Campos Sandrigo Mangini Antonio Cláudio do Amaral Baruzzi Monitorização HeModinâMica no paciente grave xviii capítulo 28 abordagem Hemodinâmica pela ecocardiografia ......................355 Antonio Eduardo Pesaro Claudio Henrique Fischer Danilo Teixeira Noritomi capítulo 29 abordagem da Microcirculação no paciente grave ....................365 Diamantino Ribeiro Salgado Gustavo Luiz Büchele Daniel De Backer capítulo 30 otimização perioperatória no paciente de alto risco cirúrgico ...................................................................................................... 375 Murillo Santucci Cesar de Assunção Danilo Teixeira Noritomi Haggéas da Silveira Fernandes capítulo 31 Suporte circulatório Mecânico ............................................................383 Manes Roberto Erlichman Anderson Benício capítulo 32 choque: Modelos experimentais ........................................................395 Adriano José Pereira Fernando Colombari Luiz Francisco Poli de Figueiredo (In memoriam) apendice a Drogas vasoativas ....................................................................................423 Denis Faria Moura Jr. Silvana Maria de Almeida apendice b variáveis Hemodinâmicas e de oxigenação tecidual ................437 Haggéas da Silveira Fernandes Elias Knobel Índice remissivo ........................................................................................................443 coNcEitos EssENciais: aNatomia E fisioloGia cardiovascular1 Nelson Akamine Elias Knobel coNcEitos EssENciais: aNatomia E fisioloGia cardiovascular Apesar de toda a riqueza de aspectos técni- cos e a sofisticação dos equipamentos desen- volvidos para monitoração hemodinâmica, o conhecimento básico da anatomia e da fi- siologia cardiovascular é fundamental para o entendimento e a aplicação clínica dos dados hemodinâmicos. Não se pode deixar de citar que a unidade cardiopulmonar é extremamente importante nesse conceito. Conforme William Harvey des- creveu em 1628, existe um fluxo contínuo de sangue dentro de um circuito fechado que é o sistema cardiovascular. Esse sistema bombeia o sangue venoso para os pulmões pelo coração direito, sendo passado para o coração esquerdo, onde o fluxo é direcionado para todo o organis- mo. Essa colocação foi de grande contribuição para a Fisiologia e a Medicina. Com a descoberta dos gases dióxido de carbono, em 1754, por Joseph Black, e o oxi- gênio, em 1774, por Joseph Priestley, somen- te em 1920 começou-se a mensurar os gases sanguíneos, sendo que em 1940, Counards et al. associaram os pulmões ao coração como uma única unidade fisiológica.1 Dessa forma, é possível entender a unidade cardiopulmonar responsável por manter a oxigenação tecidual e celular de acordo com as necessidades meta- bólicas para manter o metabolismo oxidativo e adequar à homeostasia do organismo. Serão expostas, a seguir, somente noções fundamentais de anatomia e aspectos ligados à Fisiologia que tenham significância e inte- resse prático. O domínio desses conceitos será fundamental à compreensão dos demais itens que serão expostos em outros capítulos. 1 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 4 AnAtomiA e FisiologiA AplicAdA coração direito e esquerdo Do ponto de vista funcional, o coração pode ser descrito como duas bombas funcionando separadamente (Figura 1.1), cada uma traba- lhando de forma particular e gerando pressões diferentes.2 O lado direito do coração tem a função bási- ca de receber o sangue “venoso” no átrio direito e conduzi-lo até os vasos pulmonares, através de valvas de baixa resistência e com oposi- ção mínima da resistência vascular pulmonar. Quando em condição normal, pode-se enten- der o lado direito do coração como um con- junto de estruturas mais adelgaçadas e frágeis, funcionando dentro de um sistema de baixas pressões (circulação pulmonar). Em outros tempos, o coração direito era considerado como uma grande veia e pouco valorizado. Atualmen- te, esse conceito está mudado, sendo valorizado e respeitado, principalmente nas situações em que há insuficiência do ventrículo direito. Já o co- ração esquerdo recebe o sangue oxigenado nos pulmões e deve vencer a grande resistência re- presentada pela circulação sistêmica e pelos apa- relhos valvares, constituindo-se em um sistema com maior massa muscular, trabalhando com altas pressões (circulação sistêmica). Assim, pode-se identificar a circulação pul- monar e a sistêmica entre as duas bombas, co- ração direito e coração esquerdo. Considera-se que os ventrículos trabalhem em “série”, e não em “paralelo”, ou seja, quan- do um ventrículo apresenta uma performance ruim, o outro também a apresentará. A circulação pulmonar é representada por um circuito de baixa resistência e baixas pres- sões, ao passo que a sistêmica é caracterizada por resistência e pressões elevadas. A circulação pulmonar e o lado venoso da cir- culação sistêmica têm elevadas complacências, podendo coletar grandes volumes de sangue. O volume sanguíneo total ou volemia com- preende aproximadamente 8% do peso corpó- reo e encontra-se distribuído de maneira não uniforme ao longo do território arterial, venoso e capilar. A maior parte do volume sanguíneo se en- contra no território venoso. Uma fração bem menos significativa está no leito arterial e uma porção ainda menor se encontra nos capilares da microcirculação. FiGURa 1.1 Anatomia do sistema cardiovascular simplificada. Circulação sistêmica Brônquio Circulação pulmonar Veia cava inferior Leito capilar pulmonar Ventrículo direito Ventrículo esquerdo Alvéolo Veia pulmonar Aorta Átrio esquerdo Artéria pulmonar Valva mitral Valva pulmonar Veia cava superior Valva tricúspide Valva aórtica Capítulo 1 CoNCEItoS ESSENCIaIS: aNatoMIa E FISIoloGIa CaRDIoVaSCulaR 5 FiGURa 1.2 Ciclo cardíaco elétrico e mecânico. fm: fechamento da válvula mitral; aa: abertura da válvula aórtica; fa: fechamento da válvula aórtica; m: abertura da válvula mitral; ft: fechamento da válvula tricúspide; at: abertura da válvula tricúspide; ap: abertura da válvula pulmonar; fp: fechamento da válvula pulmonar; b: bulha; vE: ventrículo esquerdo; EcG: eletrocardiograma. Apex- cardiograma – a: onda do enchimento ventricular produzido pela sístole atrial; c: onda da sístole ventricular; E: ponto sistólico ventricular; o: onda do enchimento ventricular rápido; f: onda de início do enchimento ventricular lento; X: relaxamento atrial; Y: esvaziamento atrial. As variações de pressão, resultantes de mu- danças no volume sanguíneo, podem ser detec- tadas em vários pontos da circulação. Os eventos cardíacos são habitualmente clas- sificados como sistólico e diastólico. Esses ter- mos dizem respeito à atividade dos ventrículos. Os períodos sistólico e diastólico não ocor- rem de forma simultânea em átrios e ventrícu- los, de tal forma que, quando os ventrículos se encontram na sístole, os átrios se encontram na diástole e vice-versa. Mesmo os fenômenos atriais e ventriculares não são completamen- te sincrônicos; sístole e diástole ventricular esquerda são fenômenos de mais curta dura- ção, começando e terminando antes do que no lado direito. Esses dessincronismos têm pouco significado na maioria das condições clínicas observadas, podendo-se assumir que os dois lados do coração funcionam ao mesmo tempo (Figura 1.2). QrS Aorta Ventrículo direito Ventrículo esquerdo Artéria pulmonar Átrio esquerdo Átrio direito Volume VE Pressão jugular Apexcardiograma ecg a c Y y v p t o a a x z z FaFM aa aM apFt atFp c c B 1 B2 e F Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 6 sístole A sístole ventricular se processa ao longo de três períodos (Figura 1.3). O período inicial é conhecido como contração isovolumétrica e se segue logo após o QRS do eletrocardiograma (ECG) produzido pela despolarização ventricu- lar. A onda inicial de despolarização produz uma contração da musculatura dos ventrículos, geran- do aumento da pressão intraventricular. A contra- ção dos músculos papilares e de suas cordoalhas previnem a abertura das valvas atrioventriculares (AV), bem como do prolapso das mesmas para dentro dos átrios e da incompetência valvar. A pressão ventricular aumenta rapidamente sem provocar alteração do volume ventricular. A con- tração ventricular é chamada de isovolumétrica durante essa fase. Entretanto, a contração indivi- dual dos miócitos não é necessariamente isomé- trica. Algumas fibras se contraem isotonicamente, isto é, contração concêntrica com encurtamento da fibra; outras podem se contrair isometrica- mente, sem mudar o comprimento, ou excentrica- mente, ao contrair pelo alongamento. Nessa fase, o ventrículo assume uma forma mais esferoide, embora não ocorram mudanças no volume. En- quanto a pressão não for suficiente para abrir as valvas pulmonar e aórtica, prolonga-se o período de contração isovolumétrica. Pode-se observar e entender o aparecimento da onda “c” na curva de pulso venoso jugular, decorrente do abaulamen- to da valva tricúspide por conta do aumento da pressão ventricular. É durante esse período inicial da sístole que a maioria do oxigênio miocárdico (aproximadamente 80%) é consumida.2,3 FiGURa 1.3 Sístole ventricular. contração isovolumétrica Segue o QrS todas as valvas fechadas Maioria do oxigênio consumido Ejeção ventricular rápida ocorre durante o St 80%-85% do volume ejetado Ejeção ventricular lenta ocorre durante a onda t Átrios em diástole produz a onda v no traçado atrial Capítulo 1 CoNCEItoS ESSENCIaIS: aNatoMIa E FISIoloGIa CaRDIoVaSCulaR 7 A segunda fase da sístole ventricular é o pe- ríodo de ejeção rápida. Tão logo a pressão ven- tricular seja suficiente para abrir as valvas, o encurtamento das fibras musculares se processa de forma muito mais acentuada, propiciando o rápido esvaziamento do sangue contido nos ventrículos. As pressões ventriculares se tor- nam maiores que as da via de saída em poucos mmHg. A velocidade máxima na via de saída é alcançada precocemente na fase de ejeção, e ocorre a pressão sistólica máxima na artéria aor- ta e na artéria pulmonar. Aproximadamente 80% a 85% do volume ventricular é ejetado durante essa fase que se processa ao longo do segmento ST no eletrocardiograma. O volume ventricular diminui enquanto o sangue está sendo ejetado. Concomitantemente o átrio passa a ser preen- chido de forma contínua com o retorno venoso. Embora o volume atrial aumente, as pressões inicialmente diminuem em decorrência da di- minuição da pressão ventricular, e como a base do átrio é puxada para baixo, ocorre a expansão da câmara atrial, o que leva ao aparecimento do “descenso x” na curva de pressão atrial. Na terceira fase, conhecida como período de ejeção lenta, as pressões ventriculares e das res- pectivas circulações sistêmica e pulmonar, ten- dem a se equalizar progressivamente. A ejeção torna-se, portanto, mais lenta e reduzida até que as pressões pulmonares e sistêmicas superem as pressões de ejeção ventricular, fechando as respectivas valvas e encerrando a sístole. O fe- chamento das valvas pulmonar e aórtica dão ori- gem à segunda bulha na ausculta cardíaca. Esse fechamento das valvas leva ao aparecimento da incisura, caracterizando o nó dicrótico, visuali- zada nas curvas de pressão arterial pulmonar e aórtica. Diferente dos ventrículos, onde a pres- são cai rapidamente, a diminuição da pressão na aorta e na artéria pulmonar não ocorre abrup- tamente, devido ao potencial armazenamento de energia nas paredes elásticas e às resistências sistêmica e pulmonar retardarem a distribuição de fluxo sanguíneo entre as artérias sistêmicas e pulmonares. Durante essa última fase sistólica ventricular, os átrios se encontram na diástole, recebendo o influxo sanguíneo proveniente das veias pulmonares e sistêmicas. Esse aumento do volume atrial gera um pico pressórico conhecido como onda “v” no traçado pressórico atrial. Essa última fase se correlaciona com a inscrição da onda T no traçado do eletrocardiograma.3 diástole Durante a transição entre sístole e diástole existe uma progressiva e contínua mudança de volumes e pressões nas diversas cavidades car- díacas e grandes vasos. Da mesma forma que a sístole, a diástole é precedida de um fenômeno elétrico conhecido como repolarização. Logo após a repolarização, as fibras musculares cardía- cas começam a relaxar, dando origem à diástole. A primeira fase da diástole ventricular é o período de relaxamento isovolumétrico. Nessa fase, todas as valvas se encontram fechadas e o gradiente pressórico entre átrios e ventrículos ainda não é grande o suficiente para abrir os aparelhos valvares. No ECG, esse período é o que se segue à onda T, identificando-se even- tualmente uma pequena onda conhecida como onda U.3 Na medida em que existe maior relaxamento ventricular e maior enchimento atrial, as valvas se abrem assim que a pressão ventricular se tor- na menor que a atrial, iniciando a segunda fase da diástole, chamada de período de enchimento rápido. Durante essa fase, aproximadamente dois terços do volume ventricular são enchidos de forma passiva, porém rápida, pois o relaxamento ativo e precoce do ventrículo esquerdo leva à re- dução mais rápida da pressão ventricular esquer- Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 8 da do que a atrial esquerda, o que proporciona a sucção diastólica e facilita o enchimento inicial. A abertura das valvas AV leva à diminuição rápida das pressões atriais e das pressões venosas proxi- mais. No coração direito, o pico do pulso venoso jugular ocorre imediatamente antes da abertura da valva e dá origem a onda “v”. Esse pico é segui- do por um “descenso y” do pulso venoso jugular, que corresponde ao esvaziamento atrial.2,3 Após um enchimento rápido, as pressões atriais e ventriculares tendem a se equalizar de forma progressiva ao longo de uma terceira fase conhecida como período de enchimento lento. Conforme o ventrículo é preenchido, a complacência ventricular diminui progressiva- mente bem como gradiente átrio ventricular, o que proporciona redução do enchimento ven- tricular. As pressões na aorta e na artéria pul- monar continuam a diminuir conforme o fluxo sanguíneo flui para as respectivas circulações. Ao final do período de enchimento lento, o flu- xo atrioventricular se encontra bem reduzido, ocorrendo então a sístole atrial, que é o último fenômeno da diástole e determina o volume diastólico final dos ventrículos. Esse fenômeno ocorre logo após o traçado da onda P no ECG e gera a onda “a” na curva de pressão atrial. No encerramento da diástole, fecham-se as valvas atrioventriculares, detec- tando-se na ausculta cardíaca a primeira bulha (Figura 1.4). débito cArdíAco É a quantidade de sangue bombeada pelo coração durante um determinado intervalo de tempo. Essa medida de fluxo constitui-se em um dos melhores parâmetros para aferir a performance cardíaca global. O débito cardíaco (DC) corresponde ao produto entre a frequên- cia cardíaca e o volume sistólico. Alterações na frequência cardíaca podem produzir grandes variações no débito, constituindo-se em meca- nismo hemodinâmico compensatório comum. Dentro de determinados limites, o aumento da relaxamento isovolumétrico Segue a onda t todas as valvas fechadas antecede a queda da pressão ventricular termina no dip diastólico Enchimento ventricular rápido valvas atrioventriculares abertas cerca de 2/3 do enchimento ventricular sístole atrial Segue a onda p durante a sístole eletétrica atrial produza onda “a” no traçado atrial ejeta o volume remanescente FiGURa 1.4 Diástole ventricular. Capítulo 1 CoNCEItoS ESSENCIaIS: aNatoMIa E FISIoloGIa CaRDIoVaSCulaR 9 frequência determina um aumento proporcio- nal no DC; certas situações, a adequação da fre- quência cardíaca por si só resolve a correção do estado de baixo fluxo. Quando ocorrem taquicardias extremas, o consumo de oxigênio fica muito elevado, a redução no período diastólico produz menor perfusão coronariana e menor tempo de en- chimento, gerando menor força contrátil e menor volume sistólico. Logo o débito cardía- co diminui.3 O volume sistólico (VS) corresponde à quan- tidade de sangue que é ejetada em cada sístole ventricular. Esse volume corresponde à dife- rença entre o volume diastólico final (VDF) e o volume ventricular ao final da sístole, conheci- do como volume sistólico final (VSF). A fração de ejeção pode ser calculada pela fração entre o volume sistólico e o volume diastólico final. O volume sistólico é produto de três fatores distintos: pré-carga, pós-carga e contratilidade (Figura 1.5). Pode-se dizer que a pré-carga corresponde ao grau de estiramento miocárdico no final da diástole, representado pelo volume diastólico final do ventrículo esquerdo (Vd2VE).3 Entre- tanto, didaticamente, pode-se dizer que há pré- -carga de câmara direita e pré-carga de câmara esquerda, nos respectivos ventrículos. A medida do volume diastólico final dos ventrículos é a melhor maneira de estimar a pré- -carga. Como a medida direta à beira do leito des- sa variável é muito difícil de mensurar, utiliza-se frequentemente a medida da pressão diastólica final dos ventrículos como uma estimativa acei- tável da pré-carga. Como alternativa para avaliar a pré-carga de câmaras direitas pode-se utilizar o cateter de artéria pulmonar volumétrico para calcular o volume diastólico final de ventrículo direito. Entretanto, esta variável não é mensurá- vel, mas sim derivada da fração de ejeção medida por algoritmo de termodiluição pulmonar. A relação entre o estiramento miocárdico e o desempenho cardíaco foi enunciado no iní- FiGURa 1.5 Determinantes do débito cardíaco. débito cardíaco frequência cardíaca volume sistólico contratilidadepós-cargapré-carga Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 10 cio do século XX, quando Frank e Starling de- monstraram que quanto maior o estiramento diastólico, maior seria o volume sistólico e a força de contração ventricular.2 Essa lei postula também que existe um limi- te para o estiramento, a partir do qual maiores tensões produziriam um declínio no desempe- nho cardíaco. A utilização da medida da pressão e não do volume, como estimativa da pré-carga, traz con- sigo um importante fator de erro, pois a parede miocárdica ventricular tem outra propriedade dinâmica conhecida como complacência, cor- respondente à razão entre variação de volume e variação de pressão resultante. Dessa forma, os valores elevados obtidos da pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP) podem não tradu- zir hipervolemia, sendo importante a avaliação do contexto clínico. A elasticidade ventricular pode estar modificada em múltiplas condições clínicas, traduzindo-se como cenários de bai- xa ou alta complacência. Diante de uma curva de baixa complacência, pequenas variações do volume ventricular podem gerar grandes va- riações na leitura da pressão. De forma contrá- ria, diante de uma complacência alta, mesmo grandes variações de volume induziriam ape- nas a pequenos aumentos da pressão. O fato de pressão e volume não se mostrarem como va- riáveis de comportamento paralelo tem gran- de impacto na interpretação clínica dos dados hemodinâmicos (Figuras 1.6 e 1.7).2 Dá-se o nome de pós-carga à impedância ou resistência oferecida ao esvaziamento ventricular. A pós-carga é dependente de múltiplos fatores: volume e massa de sangue ejetado; massa e espessura da parede ventricular; características anatômicas e funcionais da circulação. A forma mais conveniente de aferir a pós- -carga é através do cálculo das resistências ar- teriais sistêmica ou pulmonar, respectivamente para os ventrículos esquerdo e direito (como será referido no capítulo “Variáveis Hemodi- nâmicas Calculadas: Resistência e Trabalho”), sendo que a resistência vascular é apenas um dos componentes da pós-carga. Existe uma relação inversa entre a pós-carga e o volume sistólico: quanto maior a pós-carga, menor o volume sistólico. Em corações normais, essa relação tem pouco significado, porém, na pre- sença de disfunção miocárdica, a redução no débito cardíaco pode ser de extrema importân- cia (Figuras 1.8 e 1.9).2 FiGURa 1.6 Curva de Frank-Starling. Quanto maior o estiramento, maior a con- tração, até um limite fisiológico, a partir do qual exerce piora da função ventricular Estiramento/volume f u n ç ã o v e n tr ic u la r Capítulo 1 CoNCEItoS ESSENCIaIS: aNatoMIa E FISIoloGIa CaRDIoVaSCulaR 11 FiGURa 1.7 Curvas de complacência ventricular. volume p re ss ã o AB C Complacência normal Complacência baixa Complacência alta a B c FiGURa 1.8 Pós-carga e função ventricular. pós-carga / resistência d é b it o c a rd ía c o FiGURa 1.9 Pós-carga e volume sistólico. pós-carga v o lu m e A B Normal Disfunção miocárdica a B Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 12 A contratilidade ou inotropismo refere-se à capacidade intrínseca de encurtamento das fi- bras miocárdicas independente das variações na pré-carga (Tabela 1.1). Tabela 1.1 principais determinantes da contratilidade. catecolaminas circulantes Sistema nervoso autônomo simpático oxigenação miocárdica alterações metabólicas, particularmente os estados de acidemia Assim, diante da contratilidade alterada, o im- pacto de pré e pós-carga sobre o volume sistólico e débito cardíaco podem ser muito importantes. Em resumo, na Figura 1.10 estão caracterizadas as influências da pré-carga, pós-carga e contratili- dade no volume ejetado e no débito cardíaco. oxigenAção miocárdicA Chama-se de consumo miocárdico de oxi- gênio a quantidade de oxigênio utilizada para o seu funcionamento. O consumo de oxigênio é proporcionalmente alto, mesmo em repouso ab- soluto. Normalmente, o miocárdio consome de 65% a 80% do oxigênio oferecido pela circulação coronária.3 Os fatores determinantes majors do consumo de oxigênio miocárdico são: tensão da parede ventricular, contratilidade e a frequência cardíaca. Sendo fatores minors, a despolarização elétrica com apenas 0,5% de todo o consumo de oxigênio pelo miocárdio e, a manutenção da ati- vidade celular pela bomba de sódio e potássio que corresponde a cerca de 10% a 15% do consumo de oxigênio. A tensão da parede ventricular está atrelada a dois componentes: trabalho imposto ao coração (incrementos na pós-carga levam ao aumento do consumo de oxigênio) e ao tamanho ventricular, de acordo com o diâmetro do cora- ção (quanto maior o diâmetro, maior será a ten- são que a musculatura ventricular necessita para ejetar o sangue contra a pós-carga). A contratili- dade, ou o estado inotrópico do miocárdio, pode sofrer ação positiva de catecolaminas em resposta às situações de stress, bem como pela administra- ção das mesmas como noradrenalina, dobuta- mina, dopamina ou adrenalina, além de outros agentes inotrópicos positivos, como os inibidores de fosfodiesterase ou sensibilizadores de canais de cálcio. Estes fármacos acarretam aumento da atividade metabólica do miocárdico, resultando no aumento da demanda de oxigênio pelo mio- cárdio. Além disso podem promover aumento da frequência cardíaca, que está estreitamente rela- cionada com o consumo de oxigênio pelo mio- cárdio. O aumento na frequência cardíaca leva ao aumento direto da demanda e do consumo de oxigênio. O aumento na frequência cardíaca leva ao aumento direto da demanda e do consumo de oxigênio. Em contrapartida, a diminuição da fre- quência cardíaca leva à diminuiçãoda demanda e do consumo de oxigênio pelo miocárdio. Até o momento, não se dispõe de técnicas não invasivas eficazes para aferir a oxigenação miocárdica. A análise funcional da circulação coronariana mostra que a irrigação sanguínea miocárdica é menor na sístole e maior durante a diástole (Figura 1.11). Esse efeito acontece em de- corrência direta da massa miocárdica dos ventrí- culos e sua compressão durante a sístole. Como o ventrículo direito tem menor espessura muscular, a redução sistólica do fluxo coronariano é menos evidente. Uma pressão diastólica aórtica adequa- da é fundamental para a circulação coronariana e a oxigenação dos dois ventrículos. Na vigência de taquicardias elevadas, a redução do intervalo diastólico pode ser um mecanismo importante de disfunção miocárdica por comprometer sua ca- pacidade de oxigenação.3 Capítulo 1 CoNCEItoS ESSENCIaIS: aNatoMIa E FISIoloGIa CaRDIoVaSCulaR 13 FiGURa 1.10 Componentes do débito cardíaco. diástole p re ss ã o a ó rt ic a f lu xo s a n g u ín e o sístole Artéria coronária E Artéria coronária D FiGURa 1.11 Fluxo coronariano e ciclo cardíaco. pré-carga contratilidade pós-carga Frequência cardíacavolume sistólico Débito cardíaco Enchimento diastólico Estiramento da fibra miocárdica Força contrátil Pressão ventricular Tamanho ventricular Espessura da parede Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 14 bAses FisiológicAs dA termodiluição Os princípios fisiológicos aplicados à determi- nação do débito cardíaco, através da termodilui- ção, são os mesmos aplicados à determinação do débito cardíaco através da diluição de corantes e equação de Stewart-Hamilton. Pode-se simpli- ficar o método da termodiluição para melhor compreensão prática. Uma quantidade conhecida e fixa de um líquido resfriado é injetada na circu- lação sanguínea proximal (átrio direito) e a tem- peratura é registrada de forma contínua no leito distal (artéria pulmonar). O líquido frio determi- na uma queda da temperatura, produzindo uma curva cujo traçado depende do fluxo sanguíneo (débito cardíaco). Quanto menor o fluxo sanguí- neo, maior será curva da queda na temperatura, e vice-versa, quanto maior o fluxo sanguíneo, me- nor será a curva da queda observada na tempera- tura. Dessa maneira, a área sob a curva de registro sequencial da temperatura será inversamente pro- porcional ao fluxo sanguíneo, o que permite uma aferição precisa de sua magnitude (Figura 1.12). Além do rigor técnico necessário para a de- terminação do débito cardíaco através da ter- modiluição, outros aspectos conceituais são relevantes. A utilização de soro gelado ao in- vés de soro em temperatura ambiente torna o método mais preciso pelo maior gradiente de temperatura entre o sangue e a solução injeta- da. Quanto maior o volume de soro frio inje- FiGURa 1.12 Determinantes da oxigenação miocárdica. oferta Anatomia coronariana Pressão distólica Tempo distólico Extração de O 2 Hemoglobina SaO 2 demanda Frequência cardíaca Pré-carga Pós-carga Contratilidade Capítulo 1 CoNCEItoS ESSENCIaIS: aNatoMIa E FISIoloGIa CaRDIoVaSCulaR 15 tado, menor será a variabilidade na leitura do débito cardíaco, que estará sendo estimado em um intervalo de tempo de 3 a 5 segundos. As- sim como, a presença de arritmias ou interfe- rência respiratória poderá ter grande influência nas medidas. A mensuração do débito cardíaco é completamente inválida quando diante da presença de grave refluxo tricúspide (em geral, pode superestimar sua leitura). bAses FisiológicAs dA oximetriA A captação de oxigênio acontece primaria- mente nos pulmões, constituindo-se no pri- meiro passo para o processo de transporte de oxigênio aos tecidos. O oxigênio captado nos pulmões é transpor- tado no sangue em duas formas: dissolvido no plasma (2%); combinado à hemoglobina (98%). A pressão parcial do oxigênio (PO2) é me- dida em mmHg e traduz a pressão exercida pelo oxigênio dissolvido no plasma. O coeficiente de diluição do oxigênio no plasma é muito baixo, de maneira que, para uma PO2 normal de 100 mmHg existem apenas 0,31 mL de oxigênio dis- solvido em 100 mL de sangue. Caso fosse essa a única forma de transportar oxigênio, seria ne- cessário um débito cardíaco de 120 L/min para atender às nossas necessidades básicas. Assim, a saturação de oxigênio (SO2) é o componente mais importante do conteúdo arterial de oxigênio e refere-se à quantidade de oxigênio que é trans- portado no sangue ligado à hemoglobina. Cada molécula de hemoglobina é capaz de carregar quatro moléculas de oxigênio, cons- tituindo-se no principal veículo para o trans- porte de oxigênio aos tecidos.4 A saturação de oxigênio arterial é, normalmente, de 95% a 100%, enquanto a venosa é de 60% a 80%. A saturação venosa de uma amostra de sangue colhida da extremidade distal de um cateter pulmonar é também chamada de saturação ve- nosa mista de oxigênio (SvO2), por representar a média da saturação do sangue proveniente de diversos órgãos. Didaticamente, pode ser dito que é a saturação venosa mista de “misturada”, pois é composta do sangue venoso que retor- na pelas veias cava superior e cava inferior, que desembocam no átrio direito. Esse volume de sangue ainda irá receber o sangue do seio coro- nário, rede de Thebesius e da rede venosa que drenam as vias aéreas superiores e desembo- cam no átrio direito. Começa a sofrer homoge- neização ao passar pelo átrio direito seguindo para o ventrículo direito. Ao chegar na artéria pulmonar, o sangue venoso se encontra todo homogeneizado, “misturado”, sendo denomi- nado sangue venoso misto. Geralmente, os te- cidos captam apenas 25% do total de oxigênio ofertado, reservando os restantes 75% para os períodos de maior atividade metabólica. O estudo da relação entre PO2 e SO2, através da chamada curva de dissociação da oxi-hemo- globina, mostra um comportamento não linear entre essas duas variáveis1 (Figura 1.13). A conformação sigmoide da curva mostra que variações da PO2 nos limites superiores produzem pouca modificação na SO2, ao passo que nos limites inferiores esperam-se grandes modificações na SO2. A curva de dissociação da hemoglobina sofre a influência de diversos fatores, deslocando-se para a direita (redução da afinidade pelo oxigênio) na presença de acidose, hipercapnia, febre ou aumento da 2,3 difosfoglicerato (– 2,3 DPG). Nessa condição, é necessário maior PO2 para saturar uma mesma quantidade de hemoglobina, porém a liberação de oxigênio se encontra facilitada.1,5 Todavia, quando existir redução na capa- cidade transportadora total, a quantidade de oxigênio que pode ser liberada aos tecidos se encontrará reduzida. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 16 Na presença de alcalemia, hipocapnia, hi- potermia ou redução da 2,3DPG, a curva de dissociação da hemoglobina desloca-se para a esquerda (aumento da afinidade pelo oxigênio) e para um mesmo valor de PO2, a SO2 será mais elevada, melhorando a captação pulmonar de oxigênio. No entanto, a liberação de oxigênio aos tecidos estará reduzida, prejudicando sua captação final.1,5 Na utilização da SvO2 como guia terapêu- tico, é importante que sua coleta seja feita exclusivamente na circulação pulmonar. Pela amostra de sangue da veia cava superior é pos- sível mensurar a saturação venosa central de oxigênio (SvcO2), a qual nos últimos anos tem sido utilizada como guia terapêutico após a pu- blicação de Rivers et al.6 Vários estudos apon- tam para a não concordância entre a SvO2 e a SvcO2, podendo encontrar variações de valores de até 8 pontos entre os respectivos sítios de coleta de sangue; entretanto, há uma relação de tendências entre elas.7-10 No tratamento da ressuscitação precoce guiada por metas, Rivers et al utilizaram a SvcO2 como meta terapêutica a ser atingida ao final das primeiras 6 horas de tratamento dos pacientes com choque séptico ou sepse grave, com disfunção metabólica ca- racterizada pelo aumentoem duas vezes o valor do lactato sérico.6,11 Nos pacientes de alta complexidade e que necessitam da adequação de fluxo à demanda metabólica, os valores de SvO2 podem ser mais interessantes e confiávies do que a SvcO2. Pois, apesar de apresentarem tendências nas oscila- ções, a necessidade imediata de tomada de de- cisão nos quadros agudos impõe ao aguardo do estabelecimento da curva de tendência. Alguns cateteres pulmonares dispõem de sistemas de espectrofotometria de reflexão em sua extremidade, possibilitando a monitoração contínua dessa variável. Essa técnica se baseia em transmissão e recepção de luz através de fi- bras ópticas na corrente sanguínea pulmonar. O equipamento emite luzes em dois comprimen- tos de onda diferentes, dirigidos para a máxima absorção da oxi-hemoglobina e da hemoglobina desoxigenada. A reflexão das luzes é captada, determinando a fração entre absorção nos dois comprimentos de onda. Através dessa fração, e do valor do hematócrito do paciente, torna- 100 80 60 40 20 PaO2 PvO2 P50 10080604020 100 80 60 40 20 10080604020 desvio para direita (redução de afinidade: febre/ acidose/ 2,3DPG) desvio para esquerda (aumento de afinidade: hipotermia/ alcalose/ 2,3DPG) FiGURa 1.13 Deslocamentos da curva de dissociação da hemoglobina. s o 2 ( % ) po 2 (mmHg) po 2 (mmHg) s o 2 ( % ) Capítulo 1 CoNCEItoS ESSENCIaIS: aNatoMIa E FISIoloGIa CaRDIoVaSCulaR 17 -se possível estimar o valor da SvO2. Essa tec- nologia, recentemente, também foi empregada no cateter de duplo lúmen para a obtenção da SvcO2. Com o advento da SvO2/SvcO2 contínua, pode se estimar o cálculo da taxa de extração on- -line, ao considerar a saturação arterial de oxigê- nio pela oximetria de pulso.12,13 Os principais fatores de erro na leitura da SvO2/SvcO2 por espectrofotometria são o po- sicionamento inadequado do cateter e a cali- bração incorreta do valor da hemoglobina/ hematócrito. A entrada periódica do valor do hematócrito e a calibração in vivo são muito importantes para garantir a confiabilidade dos dados. reFerênciAs 1. Yassin J, Singer M. Fundamentals of oxygen de- livery. Contrib Nephrol. 2007;156:119-32. 2. Arthur C, Guyton JE. Textbook of medical physi- ology. 12th ed. Philadelphia: Elsevier Saunders; 2011. 3. Lionel H, Opie GH. Mechanisms of cardiac con- traction and relation. In: Braunwald EB, Robert O. (editors). Braunwald’s heart disease: a text- book of cardiovascular medicine. 9th ed. Phila- delphia: Elsevier Saunders; 2011. p. 459-86. 4. Boveris DL, Boveris A. Oxygen delivery to the tissues and mitochondrial respiration. Front Biosci. 2007;12:1014-23. 5. Fernandes Jr CJ, Machado FS, Silva E, Knobel E. Monitorização hemodinâmica, transporte de oxigênio e tonometria. In: Knobel E. (editor). Condutas no paciente grave. 3ª ed. São Paulo: Atheneu; 2006. p. 79-109. 6. Rivers E, Nguyen B, Havstad S, Ressler J, Muzzin A, Knoblich B, et al. 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Durante lon- go período, a falta de critérios claros para utili- zação gerou polêmicas quanto ao real valor da 2 introdução ferramenta na prática clínica. Vários estudos observacionais e cinco estudos controlados randomizados não mostraram benefício em termos de desfecho e sugeriram maior taxa de complicação com o dispositivo. O CAP é cada vez mais questionado. Alguns autores sugeri- ram abolir a prática do seu uso (Figura 2.1).1 FiGURa 2.1 Monitoração hemodinâmica invasiva. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 22 cAteter de ArtériA pulmonAr: A controvérsiA Estudos recentes mostram que a utilização do CAP vem diminuindo com o passar dos anos.2,3 A razão para isso é a falta de evidência quanto a eficácia, associação ao aumento de morbidade e, eventualmente com maior mor- talidade.4 A complexidade do procedimento de passagem que causa desconforto, o apareci- mento de outras formas de monitoração menos invasivas, como o ecocardiograma portátil à beira do leito são outras explicações. Entretanto, relacionar redução de uso do CAP com novas tecnologias é incorreto, uma vez que várias informações obtidas via cate- ter não são factíveis com outras ferramentas de monitoração. Além disso, o argumento da falta de evidência em redução de mortalidade com o CAP leva a pensar que qualquer outro dispositivo deva ser questionado ou mesmo abandonado. O raciocínio final conclui que o CAP apenas informa dados e por conta disso, utilizá-lo sem qualquer meta clínica previs- ta não afeta o resultado final do tratamento. Claramente, a inserção do CAP sem protocolo clínico atrelado gerou dados de literatura rela- cionados a piores desfechos, o que causa preo- cupação na interpretação do cenário atual de críticas ao uso do cateter. A obtenção de dados associada a protocolo clínico de tratamento, treinamento da equipe multiprofissional que lida com monitoração hemodinâmica, o momento ideal para seu uso, escolha da ferramenta adequada ao paciente e estado clínico têm impacto no resultado final.5 Durante a década passada, vários estudos aces- saram a questão do risco no uso do CAP. Rhodes et al6 randomizaram 201 pacientes em centro único, monitorados com CAP (sem protocolo específico de interpretação de dados), ou sem qualquer outra forma de monitoração. Eram pacientes em choque, em uso de drogas vasoativas, com insuficiência renal aguda e/ ou insuficiência respiratória aguda. Não houve diferença de mortalidade entre os dois grupos. Pacientes do grupo CAP receberam um mon- tante maior de fluidos nas primeiras 24 horas, tiveram maior incidência de insuficiência renal e trombocitopenia. Richard et al7 conduziram estudo randomi- zado multicêntrico em pacientes com choque séptico e síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA). Foram 676 pacientes randomi- zados; em um grupo do estudo foi inserido CAP; o outro grupo, ficou sem dispositivo de monito- ração. Não houve diferença em morbi-mortali- dade. Vale destacar que, novamente, não havia protocolo clínico associadoa dados provenientes do cateter para a decisão do suporte clínico. Pacientes cirúrgicos classificados como alto risco foram randomizados em dois grupos: grupo monitorado por CAP e terapia orientada por metas e grupo controle baseado no modo padrão de tratamento, sem uso de CAP.8 Não houve diferença de mortalidade, porém obser- vou-se maior incidência de embolia pulmonar no grupo que utilizou o cateter. Em 2005, o estudo PAC-MAN9 randomizou 212 pacientes para uso de CAP, sem outra for- ma de monitoração de variáveis de fluxo, e 802 pacientes com qualquer outra forma de monito- ração de variáveis de fluxo. Assim como os ou- tros estudos, esse não foi capaz de demonstrar benefícios com o uso do cateter em relação à mortalidade. Dos pacientes que utilizaram CAP, 10% apresentaram complicação relacionada ao cateter. Após análise dos dados, ficou clara a re- lação dessas complicações com o procedimento de inserção, e não com o uso do CAP em si. A discussão de protocolos de uso liberal ou restritivo de fluidos em síndrome do descon- forto respiratório agudo (SDRA) foi avaliada no estudo FACTT (Fluids and Catheters Treatment Trial), do NIH (National Institute of Health – USA).10 Com específicos objetivos terapêuticos e intervenções delineadas, foi comparado o uso de Capítulo 2 aSpECtoS atuaIS Da MoNItoRaÇÃo HEMoDINÂMICa CoM CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 23 variáveis derivadas do CAP versus pressão veno- sa central (PVC) em pacientes com injúria pul- monar aguda. Foram envolvidos 1.000 pacientes em ventilação mecânica. É interessante notar que, as variáveis de pressão de enchimento obti- das pelo CAP foram usadas com intuito de limi- tar a ressuscitação, evitando aumento de edema pulmonar. O estudo foi incapaz de evidenciar qualquer benefício relacionado à mortalidade, diferença no aparecimento de disfunção orgâ- nica e liberação precoce da ventilação mecânica Diante desses resultados, algumas ques- tões devem ser colocadas. Primeiro, o geren- ciamento hemodinâmico é feito a partir de duas realidades. Adequação não é sinônimo de normalidade. Por exemplo, débito cardíaco (DC) elevado e baixa resistência vascular sis- têmica (RVS) representam resposta adaptativa do organismo à sepse grave ou outro estado inflamatório grave. E a integração de variáveis corretamente aplicadas ao contexto da doença é mais complexa do que se imaginava no iní- cio da história do cateter de artéria pulmonar. Segundo, o questionamento do quanto as in- tervenções terapêuticas baseadas em dados de monitoração realmente influenciam positiva- mente sobre o tratamento e seu resultado final. É improvável que na fase atual da terapia inten- siva, com a Medicina baseada em evidências, mudanças radicais na prática clínica sejam vis- lumbradas. A estratégia do uso de dispositivos e protocolos deve ser aperfeiçoada, colocada no contexto de treinamento de equipe, readequa- ção de práticas, entendendo a heterogeneidade dos pacientes que são cuidados em unidades de terapia intensiva e suas necessidades. indicAção de uso do caP bAseAdo no conhecimento AtuAl Intervenções terapêuticas baseadas em da- dos obtidos do CAP apresentam melhores re- sultados em populações de pacientes altamente selecionadas. doença coronária aguda Conceitos hemodinâmicos clássicos, para classificação e tratamento de pacientes com in- farto agudo do miocárdio (IAM), foram obti- dos através do uso do CAP, antes do advento do ecocardiograma com doppler. A abordagem terapêutica do IAM mudou dramaticamente com o advento da reperfusão. Com isso, o uso de fluxogramas de tratamento baseado na informação obtida através do CAP caiu em desuso. Alguns estudos relacionaram CAP com aumento de morbidade e mortalida- de. Gore et al11 reportou associação do uso de CAP com aumento de mortalidade hospitalar em pacientes com insuficiência cardíaca con- gestiva, hipotensão arterial ou combinação dos dois como complicação de IAM. Embora estudos randomizados multicên- tricos adequados não existam em síndromes coronarianas agudas, o uso rotineiro do CAP nessa situação não é indicado. Deve ser ressalta- do que no subgrupo de pacientes que evoluem com choque cardiogênico, quer por disfunção de ventrículo esquerdo (VE) ou ventrículo di- reito (VD), o uso de CAP para determinar a resposta hemodinâmica à terapia é necessário e fortemente recomendado. insuficiência cardíaca direita (icd) A insuficiência cardíaca direita (ICD) conti- nua sendo um desafio em Medicina Intensiva, associada à significativa comorbidade e instabi- lidade hemodinâmica. Suas causas mais comuns são isquemia de VD, embolia pulmonar aguda, hipertensão pulmonar, sepse grave e SDRA. Im- portantes informações são obtidas com a combi- nação dos dados do CAP e do ecocardiograma. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 24 Osman et al12 analisaram 145 pacientes com SDRA, submetidos à monitoração com CAP, com objetivo de obter diagnóstico de cor pulmonale agudo. A incidência foi de 10%. A utilização de estratégia de ventilação mecâ- nica com limitação da pressão de platô, com consequente redução da distensão do parên- quima pulmonar e redução da compressão da microcirculação alveolar, pode ter relação com a baixa incidência de disfunção do VD. É im- portante ressaltar que os autores consideraram que o uso do CAP permite a detecção precoce de ICD, o que levou a ajustes na estratégia do tratamento. A publicação do FACTT trial10 limitou o uso do CAP em SDRA, não sendo indicada sua aplicação de rotina nesses pacientes, exceto em casos de falência de VD, necessidade de PEEP elevado (13 cmH2O, ou mais) e dificuldade no manuseio da estratégia de uso de fluidos.13 Embora não seja factível a passagem do cateter de artéria pulmonar em pacientes sub- metidos a desmame ventilatório de rotina, seu uso permitiu avaliação da resposta em 14 pa- cientes conduzidos a trials de respiração espon- tânea com tubo T ou pressão de suporte, com ou sem PEEP (positive end-expiratory pressure – pressão positiva expiratória final).14 A percen- tagem de pacientes com pressão de oclusão de artéria pulmonar (POAP) acima de 18 mmHg foi menor naqueles com pressão de suporte e PEEP, sugerindo o papel protetivo dos mesmos na função do VD. Mais uma vez, o uso do CAP permitiu monitoração de variáveis durante in- tervenção terapêutica, indicando a melhor for- ma de desmame desses pacientes. insuficiência cardíaca congestiva (icc) Resultados de estudos observacionais, de- monstrando benefício quando o tratamento da insuficiência cardíaca congestiva (ICC) derivava de dados do CAP, levaram à reali- zação de estudo randomizado pelo NIH, o ESCAPE trial.15 Em 433 pacientes randomizados para tera- pia guiada por CAP ou avaliação clínica, ne- nhuma diferença de mortalidade foi observada, incluindo follow-up de 6 meses. Limitações do estudo ESCAPE incluem qualidade do trata- mento relacionado ao CAP, aderência baixa ao protocolo do CAP, o que pode ter levado à in- terpretação errônea dos dados, sem contar com a exclusão de pacientes mais críticos. O resultado do estudo ESCAPE foi asso- ciado a outras evidências de literatura que limitam no uso rotineiro do CAP em ICC.16,17 terapia orientada por metas e o paciente crítico Durante os últimos 30 anos, vários autores relataram que o uso da monitoração hemodi- nâmica no período perioperatório, associada à terapia guiada por metas, tem relação com redução de morbi-mortalidade. Muitos desses estudos foram realizados com amostras peque- nas, o que inviabiliza a avaliação de segurança e confirmação da influência dessa intervenção no prognóstico.13 Recentemente, duas metanálises publicadas reforçaram a ideia de que o uso precoce e asso- ciado à terapia guiada por metas tem impacto positivo no desfecho de doentes cirúrgicos de alto risco.18,19 Hamilton et al identificaram 29 estudos clí- nicos randomizados envolvendo 4.805 pacien- tes cirúrgicos de alto risco, com mortalidade de 7,6%. A intervençãohemodinâmica preemp- tiva reduziu significativamente mortalidade e complicações cirúrgicas. Desses estudos, 15 envolveram o uso do CAP e variáveis captadas Capítulo 2 aSpECtoS atuaIS Da MoNItoRaÇÃo HEMoDINÂMICa CoM CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 25 por seu uso como oferta de oxigênio, índice cardíaco, resistência vascular sistêmica e satu- ração venosa mista de oxigênio (SvO2). Análise de subgrupo mostrou redução significativa de mortalidade em estudos com uso de CAP, com metas baseadas em oferta de oxigênio.18 Gurgel e Nascimento Jr avaliaram 32 estudos clínicos com 5.056 pacientes cirúrgicos de alto risco. A metanálise global mostrou redução de mortalidade e incidência de disfunção orgânica pós-operatória.19 A monitoração com CAP e a utilização de variáveis de oferta de oxigênio ti- veram relação direta com resultado positivo.19 O único estudo que utilizou a redução do lac- tato como objetivo terapêutico final falhou em demonstrar resultado estatístico significativo com impacto em mortalidade. Chittock et al20 publicaram estudo observa- cional avaliando a relação entre mortalidade hospitalar e gravidade da doença. A utilização de CAP em pacientes de baixo risco tem rela- ção com aumento de mortalidade. Ao contrá- rio, quando usado em pacientes de alto risco, o CAP pode ser útil, tendo relação com desfecho favorável. Esses dados corroboram a hipótese de limitação do desenho de estudos clínicos para avaliação do cateter de artéria pulmonar. De fato, a necessidade de pareamento para aná- lise prospectiva resulta em exclusão de pacien- tes críticos de trials, que poderiam se beneficiar da monitoração com CAP.21,22 Em pacientes com hipertensão pulmonar, o CAP é necessário para diagnóstico diferen- cial.23 Outras situações em que o diagnósti- co hemodinâmico é usualmente necessário, embora sem indicação obrigatória, envolvem pacientes com falência cardíaca associada à doença pulmonar obstrutiva, diagnóstico di- ferencial de estados hiperdinâmicos que simu- lam estados sépticos, cardiomiopatia periparto, em pós-operatório de transplantes cardíaco, pulmonar e hepático.16 momento ideal para indicação da monitoração O retardo na realização de qualquer inter- venção terapêutica em pacientes graves tem relação com pior prognóstico. É factível pensar que a demora na indicação e passagem do CAP é inversamente proporcional à utilidade dos da- dos obtidos para monitoração. Em estudo randomizado, 762 pacientes gra- ves foram divididos em três grupos de interven- ção para metas específicas de índice cardíaco (IC) (2,5 mL/min/m2 a 3,5 mL/min/m2 ou > 4,5 mL/min/m2) ou SvO2 > 70%.24 O tempo médio para início da terapia foi em torno de 72 ho- ras. Não houve diferença de mortalidade entre os grupos. Hayes et al estudaram 100 pacientes com diagnóstico de choque,25 mostrando rela- ção entre aumento de mortalidade e metas ditas “supranormais” de oferta de oxigênio. De novo, o início do tratamento baseado em monitora- ção foi tardio, acima de 24 horas. Em estudos que envolveram doentes graves, onde a otimização hemodinâmica ocorreu de for- ma precoce, antes do desenvolvimento de disfun- ção orgânica, a evolução favorável foi marcante.26 Esses estudos enfatizam, portanto, a necessidade da rapidez no início da ressuscitação hemodinâ- mica do paciente grave. Em resumo, essa otimiza- ção deve ser precoce, adequada e individualizada. considerAções FinAis O cateter de artéria pulmonar continua sendo importante ferramenta para monitoração hemo- dinâmica do doente grave. Seu uso precoce, asso- ciado a protocolo clínico com metas terapêuticas claras, tem relação com a boa prática clínica. É importante frisar que o CAP é um disposi- tivo de monitoração. Estudos clínicos que ten- taram relacionar seu uso à análise de desfecho Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 26 (mortalidade) sofrem limitações relacionadas ao seu desenho e pareamento de pacientes. Outro fator importante é a necessidade de treinamento específico da equipe multiprofis- sional no procedimento de passagem do cateter e interpretação de dados. Os dados oriundos do CAP só terão valor se a abordagem for realiza- da no tempo certo, no paciente com indicação clara e associado a protocolo clínico adequado. Novas ferramentas de monitoração podem suplementar dados obtidos do CAP e, em de- terminados pacientes, passaram a ser método de escolha para sua avaliação individualizada. reFerênciAs 1. Finfer S, Delaney A. Pulmonary artery ca- theters. BMJ. 2006;333(7575):930-1. 2. Wiener R, Welch H. Trends in use of the pul- monary artery catheter in the United States, 1993-1994. JAMA. 2007;298(4):423-9. 3. Koo KK, Sun JC, Zhou Q, Guyatt G, Cook DJ, Walter SD, et al. Pulmonary artery cathe- ters: evolving rates and reasons for use. Crit Care Med. 2011;39(7):1613-8. 4. Connors AF Jr, Speroff T, Dawson NV, Tho- mas C, Harrell FE Jr, Wagner D, et al. The effec- tiveness of right heart catheterization in the initial care of critically ill patients. SUPPORT investigators. JAMA. 1996;276(11):889-97. 5. Rivers E, Nguyen B, Havstad S, Ressler J, Muzzin A, Knoblich B, et al. Early goal- -directed therapy in the treatment of seve- re sepsis and septic shock. N Engl J Med. 2001;345(19):1368-77. 6. 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Nas si- tuações em que o cateter venoso central está indicado para administração de nutrição pa- renteral total, deve-se realizar a infusão por uma via exclusiva.2 tipos de cAteteres Os cateteres venosos centrais podem ser divididos em cateteres não tunelizados, tu- nelizados na pele, cateteres centrais, cateteres centrais de inserção periférica (PICC) e ports implantáveis2 (Figura 3.1). Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 32 Eles podem ter um único lúmen ou múltiplos lumens. Os cateteres com múltiplos lumens são vantajosos em pacientes graves, naqueles subme- tidos a transplante de células da medula óssea ou ainda em quimioterapia, pois, geralmente, esses pacientes necessitam de infusão simultânea de de- rivados de sangue, fluidos e fármacos vasoativos2. cAteteres não TunelizAdos Os cateteres não tunelizados são de curta du- ração e de inserção percutânea. Não são flexíveis e podem quebrar, porém são facilmente inseri- dos. Possuem de 1 lúmen a 4 lumens, com 6 po- legadas a 8 polegadas de comprimento e podem ser inseridos na veia subclávia, jugular interna, jugular externa ou femural. A taxa de infecção é maior naqueles com mais de 3 lumens, sendo que as trocas de curativo exigem técnicas assépti- cas. Os lumens, não utilizados devem, rotineira- mente, ser preenchidos com solução de heparina e clampeados. Existem no mercado soluções com volumes e doses de heparina de acordo com as características do cateter determinadas para a manutenção das vias.1-3 cAteteres TunelizAdos Os cateteres tunelizados são utilizados para terapias de tempo prolongado. São inseridos ci- rurgicamente de forma que um cuff pequeno de Dacron fique em um túnel subcutâneo. O im- plante destes dispositivos é realizado em centro cirúrgico.4 Nesse tipo de cateter não há necessidade de curativo após a inserção do cuff, a não ser que o paciente esteja imunocomprometido. Inicial- mente é suturado, porém o fio de sutura pode ser removido em 7 a 10 dias. A porção externa do cateter pode ser reparada, se for o caso. Existem diferentes tipos de cateteres venosos centrais tunelizados. Entre eles estão o cateter de Hickman (Figuras 3.2 e 3.3), o cateter de Broviac e o cateter de Groshong. O cateter de Brovi- ac é equivalente ao cateter de Hickman, ambos apresentam um lúmen menor, variando de 2,7 FR a 6,6 FR, tipicamente são monolúmen e em ge- ral são utilizados em Pediatria.5 FiGURa 3.1 Cateter central inserido perifericamente. FiGURa 3.2 Cateter de Hickman inserido. Capítulo 3 tIpoS DE CatEtERES DE aCESSo VENoSo CENtRal 33 FiGURa 3.3 Cateter de Hickman. cateteres centrais inseridos perifericamente (picc) Esse tipo de cateter (Figura 3.1) é utilizado para terapias prolongadas, pode ser de 1 ou 2 lumens e é inserido no tecido subcutâneo através da veia basílica ou veia cefálica, chegando até à cava supe- rior. Deve ser inserido por especialistas treinados. A infusão de derivados de sangue por catete- res menos calibrosos como esses pode ser mais difícil.2,6 Ports implantáveis São cateteres constituídos de metal ou plástico utilizados para terapias prolongadas, minimizam infecções e são implantados ci- rurgicamente. Um cateter de silicone pode ser implantado na veia cava superior. Podem ser acessados por uma agulha (Figura 3.4). reFerênciAs 1. McGee DC, Gould MK. Preventing complica- tions of central venous catheterization. N Engl J Med. 2003;348(12):1123-33. 2. Bishop L, Dougherty L, Bodenham A, Mansi J, Crowe P, Kibbler C, et al. Guidelines on the insertion and management of central venous access devices in adults. International journal of laboratory hematology. 2007;29(4):261-78. Epub 2007/07/10. 3. Schiffer CA, Mangu PB, Wade JC, Camp-Sorrell D, Cope DG, El-Rayes BF, et al. Central venous catheter care for the patient with cancer: ameri- can society of clinical oncology clinical practice guideline. 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Após inserção do cateter, é mantida no subcutâneo para realizar a punção. dEscriÇÃo do catEtEr dE artÉria pulmoNar (sWaN-GaNZ)4 Luiz Dalfior Junior Thiago Domingos Corrêa dEscriÇÃo do catEtEr dE artÉria pulmoNar (sWaN-GaNZ) introdução 4 O cateter de artéria pulmonar (CAP) foi in- troduzido na década de 1970 pelos seus ideali- zadores H.J.C. “Jeremy” Swan e William Ganz para monitoração hemodinâmica nos pacien- tes com síndrome coronariana aguda. Logo depois, seu uso foi ampliado para as diversas modalidades de choque, tanto para moni- toração do paciente grave quanto para diag- nóstico e guia terapêutico. A partir de então, o emprego do CAP se estendeu a uma grande variedade de doenças graves de etiologia não cardíacas, como cirurgias cardiovasculares, transplantes e anestesia. O CAP fornece diversas variáveis hemo-dinâmicas que devem ser interpretadas à luz do quadro clínico do paciente. Todavia, ain- da encontra-se incerto na literatura o quanto realmente o CAP muda a evolução e o prog- nóstico desses pacientes.1,2 Apesar de ter sido uma técnica muito utilizada de monitoração hemodinâmica, seu uso vem decaindo nos últi- mos anos devido à dificuldade em demonstrar benefícios no desfecho clínico dos pacientes, além do avanço e disponibilidade de outros ti- pos de monitoração menos invasiva. Na década de 90 se iniciou uma ampla discussão sobre o uso do CAP, e sua aplica- ção passou a ser controversa.3,4 Entretanto, é importante ressaltar que o CAP é apenas uma ferramenta e que, semelhante a outros méto- dos de monitoração, mensura e estima variá- veis que devem ser obtidas e interpretadas de forma adequada, para que a conduta baseada nestas variáveis possa ser benéfica ao paciente. Existem vários pontos que podem corroborar com o real benefício do CAP: Mensurações corretas: zeragem, calibra- ção, eliminação de artefatos e leitura adequada Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 38 dos valores obtidos. Infelizmente, muitos erros são realizados na obtenção dos dados,2 tradu- zindo-se em tomadas de decisões equivocadas.5 Interpretação correta: se faz baseada no conhecimento apropriado da Fisiologia e na in- tegração de três elementos do CAP [pressões, débito cardíaco, e oximetria venosa mista con- tínua de oxigênio (SvO2)]. Lamentavelmente, muitos médicos ainda monitoram apenas da- dos e não os correlacionam com a clínica ou fazem má interpretação do real significado das variáveis. Deve-se integrar as variáveis para me- lhor compreensão do estado clínico do pacien- te.6 Desta forma, pergunta-se qual seria o real valor do débito cardíaco (DC) sem a mensura- ção simultânea e integrada a SvO2 e vice-versa. Aplicação correta: mesmo quando os dados são obtidos e interpretados de maneira adequa- da, se tal informação não é aplicada correta- mente em princípios e condutas terapêuticas, não poderá beneficiar o paciente.5 Como outros métodos de monitoração he- modinâmica, o CAP sofreu modificações nos últimos anos, sendo associado a outras variá- veis às inicialmente aplicadas para aprimorar essa técnica.7 tipos de cAteteres de ArtériA pulmonAr cateter de artéria pulmonar intermitente Esse cateter foi originalmente idealizado por Swan & Ganz. Possui 110 cm de comprimento, com graduação a cada 10 cm, indicada no cor- po do cateter. Sua circunferência varia de 7,0 F a 9,0 F. É fabricado na cor amarela, sendo à base de poliuretano ou látex. Na Tabela 4.1 estão citadas outras especifica- ções técnicas.8 Tabela 4.1 Especificações técnicas do cateter de artéria pulmonar (swan & Ganz). Material poliuretano e/ou látex revestimento podem ser acrescidas substâncias antitrombóticas e com poder bactericida cor do corpo amarelo comprimento 110 cm corpo de cateter 7,5 French (F) Diâmetro do balão insuflado 13 mm Diâmetro do balão desinflado 8 F tamanho necessário do introdutor 8,5 a 9,0 F capacidade de enchimento do balão 1,5 mL Distância da extremidade distal ao: termistor Filamento térmico via proximal (injetado) 4 cm 15 cm a 25 cm 26 cm Distâncias entre as marcas 10 cm Seringas de enchimento do balão 3 mL (limitadas a 1,5 mL) observação: Essas especificações equivalem a um cateter de 7,5 F para medida de débito e saturação mista venosa (SvO 2 ) contínuos. Entretanto, as observações para os 4 lumens básicos são iguais para qualquer CAP 7,5 F. Capítulo 4 DESCRIÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR (SWaN-GaNZ) 39 Além dos dados descritos, esse cateter possui as seguintes características: Lúmen distal: termina na ponta do cateter e é utilizado para mensurar a pressão da artéria pulmonar (PAP) quando o balonete encontra- -se desinflado, ou a pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP) quando o mesmo en- contra-se insuflado e encunhado (Figura 4.1).8 Lúmen proximal: termina em uma abertu- ra situada a 26 cm da ponta do cateter. Através desse lúmen é medida a pressão de átrio direito (PAD).8 Lúmen do termistor: contém os cabos que medem a temperatura sanguínea na artéria pulmonar e geram a curva de variação térmica associada ao tempo e volume de sangue, a qual é utilizada para calcular o débito cardíaco. Sua abertura localiza-se na superfície do cateter a 4 cm da ponta.8 Lúmen de enchimento do balão: termina em um balão de látex na ponta do cateter. Ao insuflar o balão com 1,5 mL de ar (capacidade total de enchimento do balão), ocorre migração do cateter da artéria pulmonar em direção aos capilares, com oclusão do mesmo, e medida da POAP (Figura 4.2).8 Podem existir variações desse cateter com outros lumens. Lúmen acessório: sua abertura localiza-se próxima àquela que mede a PAD e é usada para administração de drogas e fluidos. Entretanto, essa infusão pode influenciar as medidas pres- sóricas.8 Lúmen para instalação de marca-passo: para inserção conjunta de marca-passo provi- sório. Nesse caso, as distâncias entre os orifícios dos lumens sofrem uma discreta mudança. A Figura 4.3 (A e B) demonstra um exemplo de CAP com algumas dessas variações.8 FiGURa 4.1 (a) Indica CAP localizado no tronco da artéria pulmonar. (B) Indica CAP localizado nos ramos dis- tais da artéria pulmonar com balonete insuflado (detalhe da seringa insuflada no canto inferior direito). Orifício da via distal a BCateter de artéria pulmonar Átrio esquerdo Átrio direito Ventrículo direito Ventrículo esquerdo Válvula pulmonar Válvula tricúspede Veia cava inferior Veia cava superior Aorta Artéria pulmonar Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 40 FiGURa 4.2 Esquema do CAP com as características descritas no texto, dito como Padrão ou Standard (origi- nalmente idealizados pelos doutores Swan & Ganz). FiGURa 4.3 Esquema representativo do CAP com variações nos lumens originais com vias acessórias para (a) infusão de fluidos e (B) associação de marca-passo provisório. BaloneteVia acessória para infusão de medicamento Via proximal Via distal Via do balonete Seringa com 1,5 mL Conexão do termistor Corpo do cateter Via para inserção do fio de marca-passo provisório Via para infusão de medicamentos Conexão do termistor Via proximal Via distal a B Capítulo 4 DESCRIÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR (SWaN-GaNZ) 41 cateter de artéria pulmonar com débito cardíaco contínuo por termodiluição e oximetria venosa mista de oxigênio (svo 2 ) Esse cateter traz como evolução a medida contínua do DC pelo método de termodiluição por aquecimento do sangue. Tal medida é pos- sível através da associação de um filamento tér- mico com 10 cm de comprimento, que envolve o CAP e permanece no interior do ventrículo direito (VD), estando de 15 cm a 25 cm da pon- ta do cateter (Figura 4.4).8,9 Ao contrário do CAP com débito cardíaco intermitente, onde um volume conhecido de solução salina com temperatura menor do que a sanguínea era injetada, nesse novo modelo o filamento térmico, através de pequenos pulsos de energia (≈ 7,5 W) emitidos de forma rando- mizada e aleatória, aquece o sangue em torno do cateter, e essa variação é captada pelo mesmo termistor, determinando o fluxo sanguíneo.8,10 A Figura 4.5 demonstra de forma esquemática a variação da temperatura pelo filamento e a me- dida do débito cardíaco contínuo. Essas infor- mações são atualizadas a cada 55 segundos com atualização de tendências a cada 3 a 6 minutos. Sendo assim, a medida do débito cardíaco é contínua, porém em tempo quase real.11 Estudos mostraram que a medida do débito cardíaco contínuo apresenta excelente correlação com o débito cardíaco intermitente, mesmo com uso do cateter por tempo prolongado, não apre- sentando deterioração.12,13 A Tabela 4.2 aponta os estudos que suportam essa informação.11 Vale ressaltar que a temperatura do sangue, após aquecimento, permanece sempre menor que 44 ºC, sendo seguratanto para o miocárdio quanto para os elementos figurados do sangue (Figura 4.6).9,14 FiGURa 4.4 Cateter de artéria pulmonar com débito cardíaco contínuo por termodiluição e oximetria venosa mista de oxigênio (SvO 2 ). Fio do balonete Conexão do termistor Conexão fibra ópticaConexão do filamento de cobre Filamento de cobre Via distal Via proximal Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 42 FiGURa 4.5 Demonstração esquemática da emissão randômica de pequenos pulsos de energia (≈ 7,5 W) com geração de calor e variação de temperatura sanguínea e medida do débito cardíaco contínuo. Tabela 4.2 Estudos comparativos entre medidas do débito cardíaco através do cap pelos métodos de termodiluição contínua e intermitente (bolus). variáveis estudadas concordância autores ano população idade N n r Erro dp Yeldermann14 1990 Uti ni 54 222 0,94 0,3% 11,5% Boldt et al15 1994 Uti ni 35 404 ni 0,03 L/min 0,52 L/min Haller et al16 1995 Uti 24 a 79 14 163 0,91 0,35 L/min 1,01 L/min Böttiger et al17 1995 tH 48±11 20 192 0,89 0,240 L/min 1,79 L/min Burchell et al18 1997 Uti ni 21 202 0,49 L/min 1,01 L/min Mihm et al9 1998 Uti ni 47 372 0,92 0,12 L/min 0,84 L/min Medin et al19 1998 Uti 17 a 77 20 306 0,87 ni ni zöllner et al20 1999 cc 29 a 86 20 240 0,89 0,52 L/min 1,29 L/min Schmid et al21 1999 Uti 51 a 81 56 167 0,85 0,052 L/min 0,90 L/min Singh et al22 2002 cc 57,1±11,6 20 400 0,78 - 0,095 L/min 0,729 L/min n: número de pacientes. n: número de medidas realizadas. dP: desvio-padrão. ni: não indicado. r: coeficiente de correlação. UTi: unidade de terapia intensiva. Th: transplante hepático e cc: cirurgia cardíaca. Temperatura do termistor Ligado Delisgado Capítulo 4 DESCRIÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR (SWaN-GaNZ) 43 Outro pareamento que pode ser avaliado nesse modelo é a medida contínua da satura- ção venosa mista de oxigênio (SvO2) na artéria pulmonar. É realizada através de duas fibras óp- ticas incorporadas em um dos lumens do cate- ter (Figura 4.7). Através da espectrofotoscopia de reflexão, dois padrões de luz são emitidos e refletidos, sendo então captados pela segunda fibra óptica, encaminhada a um microproces- sador que interpreta e calcula a diferença entre a hemoglobina total e a oxi-hemoglobina, afe- rindo assim a SvO2 (Figura 4.8).8,11,12,23 A Figura 4.9 demonstra esquematicamente o CAP com medida da SvO2 e seus demais componentes. cAteter de ArtériA pulmonAr volumétrico A partir da década de 80, através do CAP vo- lumétrico, a avaliação da volemia e da pré-carga tornou-se uma realidade através da mensuração da fração de ejeção do ventrículo direito (FEVD), volume sistólico final do ventrículo direito (VSFVD), volume diastólico final do ventrículo direito (VDFVD) e o índice do volume diastólico final do ventrículo direito (IVDFVD). Inicialmente, tal tecnologia foi associada ao CAP de débito cardíaco intermitente (atual- mente em desuso). Porém, com a possibilidade de mensuração contínua do DC em tempo qua- se real, essa tecnologia foi agregada, possibili- tando medidas associadas.24 Para isso, o CAP possui, além dos lumens e tecnologias já citadas anteriormente, um ter- mistor de resposta (com eletrodos próximal e distal inseridos a 6,0 cm e 16 cm, respectiva- mente, conforme demonstrado na Figura 4.10), que de forma mais sensível e precisa (em até 20 ms) captam a variação da temperatura. Quando ocorre variação de 80% da temperatura para a FiGURa 4.6 CAP com medida de débito cardíaco contínuo. Notar a presença do filamento térmico no interior do ventrículo direito, que, de forma aleatória e randomizada, aquece o sangue em torno do cateter, gerando variação de temperatura e medida do débito cardíaco. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 44 linha de base, inicia-se a captura dos batimen- tos cardíacos e a inclusão desses em uma curva com ao menos três desses sendo consecutivos (para isso um cabo capta o sinal do ECG do monitor multiparamétrico e o transmite ao software). Analisando-se a distância do ponto na curva até a linha de base, afere-se a FEVD (Figuras 4.11 e 4.12).24,25 FiGURa 4.7 Representação da porção distal do CAP demonstrando balonete insuflado com a emissão do padrão de luz para leitura da SvO 2 . FiGURa 4.8 Demonstração da medida da SvO 2 através da emissão e reflexão de dois padrões de onda e sua interpretação por monitores especializados7. Capítulo 4 DESCRIÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR (SWaN-GaNZ) 45 FiGURa 4.9 Modelo esquemático de CAP com vias de medida de SvO 2 . SvO 2 80% 40% FiGURa 4.10 CAP volumétrico intermitente mostrando eletrodo proximal (seta contínua) e eletrodo distal (seta pontilhada) para captura do traçado eletrocardiográfico utilizado para a medida da FEVD. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 46 FiGURa 4.11 Curva de termodiluição e plotagem dos pontos de três batimentos cardíacos consecutivos na curva, após a variação de cerca de 80% da temperatura em direção à linha de base. 85% 80% 30% 15% C1 C3C2 Intervalo de avaliação FE Ondas RLinhas de base Início da curva FiGURa 4.12 Demonstração das fórmulas usadas para cálculo da FEVD e seus pontos (C 1 , C 2 e C 3 ) no gráfico do DC. FR 1 = ( C 2 - TB ) / ( C 1 - TB ) FR 1 = ( C 3 - TB ) / ( C 2 - TB ) FR = ( RF 1 + RF 2 ) / 2 RF = Fração residual TB = Linha de base da temperatura EF = 1 - RF TB 0.5 oC C 1 C 2 C 3 FE = Fração de ejeção Através da FEVD pode-se obter outros da- dos com índice de volume sistólico (IVS), ín- dice do volume diastólico final do ventrículo direito (IVDFVD), índice do volume sistólico final do ventrículo direito (IVSFVD), da forma demonstrada ao lado. IVS = IC/ FC IVDFVD = IVS/ FEVD IVSFVD = IVDFVD – IVS Capítulo 4 DESCRIÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR (SWaN-GaNZ) 47 Para a realização correta de tais dados, o soft- ware necessita de uma correta aferição do inter- valo R-R do ECG, sendo essa técnica limitada para pacientes com arritmia cardíaca (princi- palmente com intervalo R-R irregular) e extre- mos de frequência cardíaca (tanto taquicardia quanto bradicardia). Outro fator limitante às medidas seriam os extremos de temperatura.24,25 Dados de literatura demonstram que a me- dida da FEVD é um método seguro e simples quando comparada ao ecodopplercardiograma bidimensional (r2 = 0,74, p < 0,001).25, 26-28 Além de dados de volemia, a FEVD pode auxiliar na introdução e retirada de inotrópicos em pacien- tes com disfunção de VD ou nos pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) sob ventilação mecânica com pressão expiratória final positiva (PEEP).26 A comparação entre a FEVD medida pelo CAP e outros métodos apresenta grande di- ficuldade, visto a inexistência de um gold-stan- dard praticável à beira do leito padronizado.29, 30 Segundo alguns autores, o IVDFVD aparenta ser o dado que melhor se correlaciona para medida da pré-carga e avaliação da volemia do paciente, sendo a variável que melhor se cor- relaciona à variação do IC, sendo superior à POAP e à PVC.28 reFerênciAs 1. Intensive Care Med. 1991;17(3):I-VIII. 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Em 1733, Stephen Ha- les aferiu a pressão arterial através da inser- ção de um tubo de vidro na carótida de um cavalo.1,2 Em 1844 foi registrada a primeira complicação ao se cateterizar a artéria caró- tida e a veia jugular de um animal e acessar os ventrículos esquerdo e direito, ocorrendo tamponamento pericárdico decorrente de perfuração do ventrículo.2 Somente em 1905, uma sonda uretral foi inserida na veia axilar de cadáver humano, tendo sido constatada a facilidade em intro- duzir esse cateter até o coração.3 Em 1949, foi publicada a primeira série de pacientes que foram submetidos à cateterização venosa cen- tral,4 e logo em seguida, além da infusão de medicamentos, passou-se a usar essa via para nutrição parenteral, quimioterapia e também para monitoração hemodinâmica. As indicações clássicas para uso de acesso venoso central estão listadas na Tabela 5.1. Tabela 5.1 indicações para uso do acesso venoso central. necessidade de acesso venoso prolongado (> 10 dias) impossibilidade de acesso venoso periférico Hemodiálise e plasmaférese inserção de marca-passo transvenoso temporário inserção de cateter de artéria pulmonar Uso de soluções que podem causar esclerose do vaso Drogas vasoativas Soluções hipertônicas cloreto de potássio Quimioterápicos nutrição parenteral Monitoração hemodinâmica (pressão venosa central e saturação venosa central) introdução 5 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 52 Nos últimos anos, o acesso venoso central também tem sido utilizado para a monitora- ção da saturação venosa central de oxigênio (SvcO2), devido principalmente à diminuição do uso do cateter de artéria pulmonar (CAP) e o desenvolvimento de novas técnicas de mo- nitoração hemodinâmica minimamente invasi- vas. Para facilitar e monitorar continuamente a SvcO2, foi incorporada uma fibra óptica ao cate- ter, capaz de mensurar continuamente a SvcO2. Para propiciar segurança e qualidade na assis- tência ao paciente grave, foram introduzidas ino- vações nos cuidados com a manutenção, além dos tipos e os métodos para inserção de cateteres, que levaram à redução de complicações,5,6 tais como a infecção de corrente sanguínea relacio- nada ao cateter,7,8 que tem sido responsável pelo aumento de custos e de mortalidade em UTI.9,10 tipos de cAteteres centrAis Os cateteres podem ser classificados quan- to ao número de lumens, ou seja, cateter com um, dois, três e até cinco lumens. O paciente grave, muitas vezes, recebe uma grande varie- dade de medicamentos de infusão contínua, alguns deles com incompatibilidade ou risco de eventos adversos, o que exige vias exclusi- vas para infusão (nutrição parenteral, agentes vasoativos etc.). Além disso, uma das vias po- derá ser destinada exclusivamente à monitora- ção da pressão venosa central (PVC). Existem opções de cateteres revestidos ou impregnados com antibióticos, mas o seu uso parece apenas ser custo-efetivo em contextos específicos, tais como em unidades com altas taxas de infecção da corrente sanguínea relacionada a cateteres, apesar da aderência com os cuidados que se- rão citados a seguir neste capítulo. Acredita-se que quanto maior o número de lumens, maior a taxa de infecção relacionada a cateter, sendo que as últimas diretrizes recomendam o uso de cateteres com menor número de lumens.11 Os cateteres podem ainda ser divididos quanto ao tempo de uso, ou seja, de longa ou curta permanência. Os cateteres de longa per- manência são implantados cirurgicamente e com tunelização pelo tecido subcutâneo. Os de curta permanênciaserão discutidos de forma pormenorizada nos tópicos seguintes. Em algumas situações, como nos períodos pós-operatórios de alto risco e sepse, cateteres específicos podem ser utilizados para monito- ração contínua da saturação venosa central de oxigênio (SvcO2). Cateteres centrais de inserção periférica (PICC _ Periphererally Inserted Central Cathe- ter) são longos, centralmente locados a partir de uma punção de veia periférica. Mais recen- temente difundidos, esses cateteres específicos podem ser mantidos por longo tempo devido ao seu menor risco de infecção. Cateteres para hemodiálise são mais cali- brosos, geralmente com duplo lúmen (às vezes, triplo lúmen), sendo a via acessória de menor calibre utilizada para administrar medicamen- tos. Ao final do procedimento, as vias deverão ser preenchidas com heparina ou citrato. A punção venosa central também é utilizada para inserção de introdutores, através dos quais podem ser introduzidos eletrodos de marca- -passo. Alguns introdutores possuem vias aces- sórias que são utilizadas para administração de medicamentos, evitando-se a inserção de outro cateter central para esse fim. prepArAção pArA inserção de cAteter venoso centrAl Para qualquer procedimento invasivo é fun- damental observar alguns detalhes importantes antes da execução da técnica:5,12 Capítulo 5 MÉtoDoS paRa aCESSo VENoSo CENtRal 53 FiGURa 5.1 Principais referências anatômicas a serem identificadas antes da punção. avisar o paciente ou responsável, expli- cando a necessidade e possíveis com- plicações. Recomenda-se a obtenção de termo de consentimento, por escrito; conhecer a anatomia, os possíveis locais de punção e realizar exame físico prévio, visando a prevenção de complicações; posicionamento adequado do paciente e, se possível, escolher o local de maior experiência do profissional que executa o procedimento; evitar puncionar em locais com infec- ção, queimaduras ou outros processos dermatológicos; utilizar técnica asséptica adequada. AssepsiA e AntissepsiA Executar todos os procedimentos com má- xima proteção de barreiras contra infecção. Com gorro e máscara, proceder à higienização, lavando-se as mãos e punhos com sabão con- vencional ou com álcool gel. A higienização das mãos deve ser sempre realizada antes e depois da palpação do sítio da punção, da inserção, da remoção do cateter e da realização do curativo. No local a ser puncionado, a antissepsia ampla com clorhexidine alcóolica > 0,5% deve sempre ser utilizada. Caso exista contraindicação para o uso de clorhexidine alcóolica > 0,5%, soluções iodadas alcóolicas ou álcool a 70% podem ser utilizadas. Campos estéreis amplos são indis- pensáveis para maior liberdade e segurança do procedimento, evitando-se assim a contamina- ção do material utilizado.5 posicionAmento O posicionamento adequado do paciente no leito é importante para a correta identificação das principais estruturas anatômicas, além de facilitar o sucesso do procedimento (Figura 5.1). A posição supina, com a cabeça baixa a 15º (po- sição em Trendelemburg), tem o objetivo de pro- piciar a distensão das veias do pescoço e prevenir a possibilidade da ocorrência de embolia gasosa durante o procedimento. A cabeça do paciente deve ser rodada para o lado contralateral à pun- ção, para o acesso às veias jugular e subclávia. Deve-se evitar excesso de rotação do pescoço, pois a veia jugular poderá colabar e se afastar da artéria, alterando a anatomia habitual. Essa ma- nobra está contraindicada no politrauma devido à possibilidade de lesão da coluna cervical. A posição do paciente deve, também, ser confortá- vel para o profissional que realiza a punção, pois pode interferir no resultado do procedimento. Músculo esternocleidomastoídeo (ECM) Fossa supraclavicular Clavícula ECM – inserção clavicular ECM – inserção esternal Fúrcula Cartilagem cricoide Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 54 AnestesiA locAl A anestesia local deve ser realizada com lido- caína a 1% ou 2%, sem vasoconstritor. Indica- da para todos os pacientes conscientes, mesmo naqueles com infusão contínua de analgésicos opioides em doses baixas. Infundir o anestésico no tecido subcutâneo e no trajeto a ser puncio- nado, com agulha 22 gauges, conectada à serin- ga, sempre tomando a precaução de proceder a aspiração prévia para certificar-se de que ne- nhum vaso foi puncionado, eliminando-se o risco de infusão intravenosa do anestésico. técnicAs O acesso venoso profundo pode ser obtido pelas seguintes vias: veias jugular interna e ex- terna, subclávia, femoral, axilar e antecubital. As dissecções venosas têm sido utilizadas com muito pouca frequência e não serão discutidas nesta seção. veia jugular interna – via anterior e via posterior Para realizar a punção da veia jugular in- terna, o profissional deve se posicionar, pre- ferencialmente, atrás da cabeceira da cama do paciente e localizar a artéria carótida pela pal- pação do espaço entre a traqueia e o músculo esternocleidomastoídeo (ECM). As referências principais para essa punção estão relacionadas ao músculo ECM, mas a identificação da artéria carótida é importante por questões de seguran- ça. A veia jugular interna está localizada late- ral e anteriormente à artéria carótida. Alguns autores dividem o acesso via jugular em ante- rior, média e posterior. A anterior localiza-se na borda medial da “cabeça” esternal do ECM, a média fica entre as duas “cabeças” do ECM, e a posterior através da borda lateral do ECM. Como a via anterior é raramente utilizada, a via média ficou consagrada com a denominação de “anterior” na maioria das descrições da literatu- ra, e assim será abordado neste capítulo. via anterior Deve-se inicialmente localizar o músculo ECM na região lateral do pescoço, bilateralmen- te. Em cada lado se identifica o processo mas- tóideo em sua extremidade cranial e, na outra extremidade, divide-se em duas cabeças: uma mais achatada – que se insere no manúbrio es- ternal, e outra mais cilíndrica e mais rígida – que se insere na clavícula. Desta forma, identifica- -se o triângulo de Sedillot13 formado pela face lateral do ramo esternal do ECM, face interna do ramo clavicular do ECM e pela face supe- rior da clavícula. Palpa-se o vértice superior do triângulo (identificando a presença do pulso ca- rotídeo medialmente), introduz-se a agulha com uma angulação de 30o a 45o em relação à pele, no seu vértice, em direção ao mamilo ipsilateral, aspirando delicadamente a seringa até ocorrer o fluxo livre de sangue no interior (Figura 5.2). Geralmente, são necessários menos de 3 cm de introdução da agulha para realizar a punção ve- nosa, sendo que a introdução adicional da agu- lha não é recomendada e só aumenta o risco de complicações mecânicas. Desconecta-se então a seringa, mantendo-se firme a agulha na posição ao mesmo tempo em que se oclui a mesma com o dedo para prevenir a ocorrência de embolia gasosa. Observa-se a coloração e a pulsatilida- de do sangue para diferenciar sangue arterial de venoso. Em certos “kits” para punção venosa profunda, o êmbolo da seringa possui um lúmen interno para a introdução de fio-guia, o que faz com a que desconexão da agulha seja dispensa- Capítulo 5 MÉtoDoS paRa aCESSo VENoSo CENtRal 55 da. Neste caso, porém, não é possível observar as características do sangue efluente, que eventual- mente poderia auxiliar na detecção mais precoce de punções arteriais acidentais. A seringa com lúmen interno pode ser utilizada para realizar a punção venosa profunda de qualquer uma das vias de acesso (jugular, subclávia ou femoral). Para inserir o cateter deve ser utilizada a técnica de Seldinger, que será descrita.13 via posterior Deve-se encontrar um ponto a uma distância de 1/3 entre a distância da inserção do ECM na clavícula e o processo mastóideo, na face lateral do ECM. Nesse ponto, a veia jugular externa cruza sobre o ECM. Introduz-se a agulhaa um ângulo 30o a 45º em relação à pele, por baixo do ECM, com cuidado, medialmente, em direção à fúrcula esternal, aspirando-se delicadamente até ocorrer o fluxo livre de sangue no interior da se- ringa (Figura 5.3). Da mesma forma, introduz-se a agulha a cerca de 3 cm para puncionar a veia. Em seguida desconecta-se a seringa, mantendo- -se firme na posição e oclui-se a agulha com o dedo para prevenir a ocorrência de embolia ga- sosa. Observa-se a coloração e pulsatilidade do sangue para verificar se o sangue é arterial ou FiGURa 5.3 Punção veia jugular interna – via posterior. FiGURa 5.2 Punção veia jugular interna – via anterior. venoso. Utiliza-se a técnica de Seldinger para in- serir o cateter.13 veia subclávia – via infraclavicular O posicionamento do paciente e os cuida- dos com a punção deverão ser realizados da mesma maneira que se realiza a punção da veia jugular interna. Para realizar a punção da veia subclávia, o profissional deve estar posicionado no mesmo lado do local da punção. A veia está localizada superiormente em relação a artéria e bem próxima à clavícula. A artéria situa-se em plano mais profundo e abaixo da veia.14 Inicialmente, dividi-se a clavícula em três partes iguais: lateral, intermédio e medial. Na junção do 1/3 intermédio com o lateral, deve-se então introduzir a agulha, tangenciando a cla- vícula e por baixo desta, em direção à fúrcula esternal. Recomenda-se demarcar a fúrcula com o dedo da mão não dominante do operador para orientar a direção ao introduzir a agulha. Intro- duz-se a agulha vagarosamente, até a punção ve- nosa, que é identificada pelo livre fluxo de san- gue pela seringa (Figura 5.4). Observa-se a co- loração e pulsatilidade do sangue para diferen- Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 56 ciar uma eventual punção arterial inadvertida. Desconecta-se a seringa da agulha, mantendo-a firme na posição; oclui-se a agulha com o dedo para prevenir a ocorrência de embolia gasosa. Utiliza-se a técnica de Seldinger para inserir o cateter.13 A Tabela 5.2 compara as complicações relacionadas aos acessos venosos centrais entre a veia jugular interna e a veia subclávia. veia subclávia – via supraclavicular Lateralmente à cabeça clavicular do ECM e imediatamente acima da borda superior da cla- Tabela 5.2 complicações relacionadas a acessos venosos centrais. complicações risco de complicação em relação ao sítio de punção veia jugular interna veia subclávia pneumotórax (%) < 0,1 a 0,2 1,5 a 3,1 Hemotórax (%) – 0,4 a 0,6 infecção (por 1.000 cateteres-dia) 8,6 4 trombose (por 1.000 cateteres-dia) 1,2 a 3 0 a 13 punção arterial (%) 3 0,5 Mal posicionamento Baixo risco (migrar para veia cava inferior pelo átrio) alto risco (migrar para a veia subclávia contralateral, migrar para veia jugular interna) FiGURa 5.5 Punção veia subclávia – via supraclavicular. vícula, introduz-se a agulha devagar, em dire- ção ao mamilo contralateral, aspirando-se deli- cadamente até obter-se a punção venosa, cerca de 1 cm a 2 cm de profundidade, identificando- -se o fluxo de sangue livre na seringa (Figura 5.5). Pela proximidade com o pulmão, qualquer introdução adicional da agulha pode aumentar o risco de pneumotórax. Observa-se a colora- ção e a pulsatilidade do sangue para diferenciar se é arterial ou venoso. Desconecta-se a serin- ga da agulha, mantendo-se firme na posição e oclui-se com o dedo para prevenir a ocorrência de embolia gasosa.15 Utiliza-se a técnica de Sel- dinger para inserir o cateter.13 FiGURa 5.4 Veia subclávia – via infraclavicular. Capítulo 5 MÉtoDoS paRa aCESSo VENoSo CENtRal 57 via femoral Inicialmente, traça-se uma linha imaginária entre a crista ilíaca anterossuperior e a sínfise púbica dividindo-a em 3 partes. Na junção do terço proximal com o intermédio, geralmente consegue-se palpar a artéria femoral. A agu- lha deverá ser introduzida cerca de 1 cm a 1,5 cm medialmente à artéria, cerca de 2 cm abai- xo (distal) do ligamento inguinal, em direção cefálica e formando um ângulo de 45º com a pele. A agulha não deve transfixar o ligamen- to inguinal para reduzir o risco de hematoma retroperitoneal ou perfuração de alças. Ao puncionar o vaso, identifica-se o fluxo de san- gue livre na seringa; observa-se a coloração e pulsatilidade do sangue para diferenciar se é arterial ou venoso. A agulha deverá ser incli- nada em direção à pele, confirmando-se no- vamente a presença de fluxo livre de sangue quando realizada a aspiração. Em seguida se desconecta a seringa da agulha, mantendo-se firme na posição, e oclui-se a mesma com o dedo para prevenção da ocorrência de embolia gasosa. Utiliza-se a técnica de Seldinger para inserir o cateter.13 Essa via é mais utilizada nas seguintes condições: parada cardiorrespirató- ria, a fim de não se interromper as manobras de ressuscitação cardiopulmonar; coagulopatia (devido à fácil compressão manual em caso de sangramento); e impossibilidade de estabelecer acesso venoso profundo pela punção das veias jugular e subclávia. Assim que possível, esse acesso deve ser retirado e trocado por outro, pois ele oferece maior risco de complicações, especialmente infecciosa. via axilar É uma via muito pouco utilizada. O acesso central via axilar (infraclavicular) é uma alter- nativa a ser considerada, com aparente baixo risco. Com técnica adequada, a punção arte- rial parece ser a complicação mais comumente encontrada. O procedimento é realizado com o paciente em decúbito dorsal, em posição de Trendelemburg, devendo ser adotadas todas as precauções de barreira máxima e com o braço abduzido em 45º e devidamente apoiado, para evitar contração da musculatura peitoral. Nessa posição, o trajeto da veia axilar segue um cur- so retilíneo diretamente no braço, continuando como veia subclávia ao passar pela borda exter- na da primeira costela. As referências anatômi- cas utilizadas são: lateralmente (A), 3 dedos (ou 5 cm) abaixo da margem inferior do processo coracoide e, medialmente (B), o limite entre o quarto medial e os 3/4 laterais da clavícula (Fi- gura 5.6). Após a anestesia local, a agulha deve ser inserida no ponto A (5 cm abaixo do proces- so coracoide) em direção ao ponto B (referência clavicular). É nesse trajeto que habitualmente se encontra a veia axilar. Nessa técnica, atravessa- -se o músculo peitoral menor. Se a tentativa não obtiver sucesso, por segurança, deve-se tentar de novo, direcionando-se a agulha caudalmen- te e, apenas em última instância, cefalicamente. Em alguns indivíduos mais magros, a pulsatili- dade da artéria axilar (na região infraclavicular) pode contribuir como guia para a região onde se encontra o feixe vascular. Em última análise, o método representa uma variação no acesso subclávio infraclavicular mais lateral e inferior que o convencional, com a necessidade de po- sicionamento do braço ipsilateral para garantir o sucesso. O acesso mais lateral, pelo braço, também é descrito, mas ainda menos comumente citado. As poucas séries de casos também mostram, aparentemente, baixas taxas de complicações, o que faz desse acesso uma alternativa quando outras opções não estiverem disponíveis. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 58 via jugular externa Constitui uma via alternativa com baixas taxas de complicações. Não é utilizada com frequência devido a pouca experiência com essa via e baixa taxa de sucesso. Por outro lado, apresenta míni- mas taxas de complicações, de qualquer nature- za. A condição necessária para utilizar essa via é a visibilidade da veia jugular externa (Figura 5.7). Todas as precauções de barreira descritas acima são também necessárias para essa via. Os dedos indicador e polegar do profissional poderão auxi- FiGURa 5.6 Referências anatômicas para identificação da veia axilar. As referências anatômicas utilizadas são: (a) Lateralmente, 3 dedos (ou 5 cm) abaixo da margem inferior do processo coracoide e, (B) Medialmente, limite entre o quartomedial e os 3/4 laterais da clavícula. liar, promovendo a distensão e ancoragem da veia para facilitar a punção. Uma alternativa pode ser a compressão da veia pela agulha, antes da pun- ção, visando sua melhor ancoragem, já que essa veia é bastante móvel nesse trajeto. Punciona-se e insere-se a agulha a 20º em relação à pele no sentido caudal, até atingir a veia. Algumas des- crições trazem como opção o uso prévio de um Jelco© calibroso introduzido inicialmente, através do qual se pode passar o guia. Entretanto, isto é desnecessário, e o uso dos kits convencionais com técnica de Seldinger são suficientes. A b FiGURa 5.7 Referências anatômicas para identificação da veia jugular externa. Veia jugular externa Veia jugular interna Capítulo 5 MÉtoDoS paRa aCESSo VENoSo CENtRal 59 As principais dificuldades nessa via de aces- so ocorrem a partir dessa fase, com a progressão do guia. Algumas descrições da técnica relatam manobras como abdução do braço homolate- ral, pressão anteroposterior sobre a clavícula, rotação da cabeça e elevação/abaixamento do ombro como estratégias de favorecimento da passagem do fio-guia pelo ângulo formado en- tre a junção da veia jugular externa com a veia subclávia. Durante muito tempo acreditou-se que a angulação desfavorável ou um ângulo muito estreito inviabilizava o uso dessa técnica em grande parte dos casos. A descrição de uma manobra de recuo do guia em cerca de 1 cm, quando houvesse resistência à progressão, com subsequente introdução do cateter, mostrou grande incremento na taxa de sucesso (quase 100%) em uma pequena série de casos.16 Justifi- cava-se a realização da manobra devido à baixa taxa de progressão do guia decorrente da am- plitude do formato terminal em “J” dos guias de punção, algo que poderia ser contornado pelo recuo do mesmo e introdução do cateter, visto que desta forma consegue-se retificar a ponta do mesmo e favorecer a progressão do cateter. Essa via possui baixas taxas de complicações mecânicas e constitui-se um local facilmente compressível, em casos de sangramento. A des- vantagem dessa técnica é a eventual menor taxa de sucesso. Um estudo comparativo, randomiza- do, comparando taxas de sucesso e complicações entre a veia jugular externa e a interna, envolven- do o uso das manobras aqui descritas (ombro, rotação do pescoço e recuo do guia), foi reali- zado por Pereira AJ et al, que encontrou 72,7% de sucesso no uso da veia jugular externa contra 88,9% para a veia jugular interna, sem diferen- ças quanto a taxas de complicações.17 Acredita- -se que essas taxas podem ser superiores a 80% quando realizadas por profissionais experientes. via antecubital – cateter central de inserção periférica (picc) Mais recentemente, cateteres longos, com in- serção periférica (geralmente, pela veia basílica) foram disponibilizados e se tornaram mais popu- lares pela sua facilidade de uso e baixas taxas de in- fecção, mesmo em usos prolongados (Figura 5.8). FiGURa 5.8 Cateter venoso central de inserção periférica. A b Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 60 Sua inserção depende da localização da veia basílica (as veias cefálica, antecubital e, inclusi- ve, jugular externa, podem ser utilizadas). Como exemplo, a veia basílica se encontra medial e ce- falicamente à fossa antecubital. Com o auxílio de um torniquete (“garrote”) proximal, que pro- move a distensão da veia, é possível puncioná-la com agulha, na direção cranial, com angulação de 45º, até o sangue ser aspirado na seringa. Fei- to isso, desconecta-se a agulha e prossegue-se a introdução do cateter de PICC, diretamente pelo lúmen da agulha, sem a necessidade de guia. Estima-se quanto será introduzido medin- do-se desde a inserção na pele até o manúbrio do esterno. O uso do ultrassom pode auxiliar esse procedimento a identificar o vaso e guiar a punção sob visualização direta. Habitualmente, esse acesso pode ser realizado por enfermeiros treinados e certificados. Também são exigidas todas as precauções de barreira descritas ante- riormente para esse procedimento. trocA de cAteter por Fio-guiA Apesar de controvérsias em metanálises re- centes, ainda existe a recomendação de que os cateteres periféricos devam ser trocados a cada 72 horas, pois esse procedimento reduz o risco de colonização e flebite. Entretanto, para os cateteres centrais (inclusive PICC), a troca rotineira não é benéfica. A troca por fio-guia é aceitável para a substituição de cateter que não esteja funcionan- do adequadamente ou nos casos de suspeita de infecção da corrente sanguínea associada ao cate- ter (ICSRC), desde que o local de inserção esteja limpo (sem sinais de infecção de local), não haja suspeita de infecção fúngica e o paciente esteja estável (sem sinais de sepse). A técnica de troca por guia é simples e é feita a partir da retirada do cateter em uso através de um novo fio-guia. To- das as regras e técnicas de antissepsia devem ser observadas rigorosamente, da mesma forma que nos demais acessos centrais. Existem descrições de passagem do guia pela entrada da via distal do cateter, mas acredita-se que, com o devido cuida- do para não haver risco de embolização da pon- ta do cateter, a técnica de cortar o cateter antigo, junto à pele, após tração, é mais segura em termos de risco de infecção. Após a tração, o cateter pode ser pinçado; uma margem de segurança de 2 cm a 3 cm deve ser utilizada para permitir o início da introdução do guia, e a preensão do segmento do cateter com os dedos da mão deve ocorrer antes da soltura da pinça. Feito isso, libera-se a pinça, o guia é introduzido parcialmente com o cuida- do de não embolizar o mesmo e o segmento do cateter é retirado, o qual pode ser encaminhado para cultura ou não, conforme a indicação clíni- ca. Com isso, o novo cateter pode ser introduzido através do fio-guia já posicionado. Chama-se a atenção para realizar a troca das luvas por outras limpas e estéreis antes de inserir o novo cateter, a fim de concluir o procedimento.11 Caso se confir- me ICSRC, o cateter trocado por fio guia deverá ser retirado, e dever-se-á realizar nova função em novo sítio para inserção de novo cateter. técnicA de seldinger Essa técnica, descrita em 1953 pelo Dr. Sven- -Ivar Seldinger (1921-1998), radiologista sueco, ficou famosa por permitir, com facilidade, o acesso a cavidades, coleções ou vasos sanguíneos de qualquer parte do corpo, com o auxílio de um kit com agulha, dilatador e fio-guia flexível.13 De maneira geral, para os acessos venosos, após puncionar a veia, segura-se com firmeza a agulha e desconecta-se a seringa para a introdu- ção do guia. Algumas seringas de certos kits pos- suem êmbolo com lúmen interno para a introdu- ção do guia, o que dispensa a desconexão da agu- lha. Isto para alguns médicos experientes elimina a chance de observar as características do sangue efluente, que pode auxiliar na detecção mais pre- Capítulo 5 MÉtoDoS paRa aCESSo VENoSo CENtRal 61 coce de punções arteriais. Após a introdução do guia pela agulha, por cerca de 20 cm, deve-se atentar para o aparecimento de arritmias. Caso haja introdução excessiva do guia, recua-se 1 cm a 2 cm e depois retira-se a agulha, mantendo-se o fio-guia posicionado. Depois, insere-se o dila- tador através do mesmo por 1 ou 2 cm sob a pele (dependendo se o acesso é superficial ou profun- do), sempre com movimentos rotatórios e segu- rando na sua extremidade mais próxima da pele, com o intuito de favorecer a passagem do cateter, o qual é mais calibroso que o guia, mantendo o fio-guia bem seguro. Se necessário, pode ser uti- lizada uma lâmina de bisturi para uma pequena incisão na pele junto ao guia. Feito isso, é retirado o dilatador, mantendo o fio-guia posicionado e, então, comprime-se junto ao local dilatado, que pode sangrar temporariamente após a dilatação. Inicia-se a inserção do cateter pelo fio-guia até o aparecimento do mesmo pela abertura proximal da via distal (hub)do cateter. Deve-se então se- gurar a porção exteriorizada do fio e manter em posição fixa enquanto o cateter é deslizado pelo guia, através do orifício dilatado, até a sua posição final (Figura 5.9). O cateter também pode ser me- dido antes da punção para evitar posicionamento inadequado. De qualquer forma, a radiografia do tórax após o procedimento é recomendada para descartar a existência de complicações e para a confirmação da posição do cateter, o que possi- bilita eventuais reposicionamentos (exterioriza- ções) quando necessário. Após a introdução do cateter, retira-se o fio-guia, fixa-se o cateter na pele e realiza-se o curativo estéril. cuidAdos gerAis durAnte e Após o procedimento O sucesso na realização do procedimento está diretamente relacionado ao treinamento dos profissionais de acordo com as normas atuais e a experiência adquirida com o procedimento ao longo do tempo.18 Alguns cuidados, além dos já descritos, devem ser lembrados: realizar procedimento com ajuda de ultrassom, preferencialmente realizar a punção guiada. Essa prática demonstrou maior taxa de sucesso do procedimento na primeira punção, menor incidência de complicações e pode ser realizado por profissionais menos experientes; FiGURa 5.9 Técnica de Seldinger. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 62 um profissional deverá acompanhar o procedimento seguindo um check-list predeterminado. Observar a correta pre- paração do material, checar o cumpri- mento de todas as barreiras de proteção e o curativo estéril no final. O auditor deverá ter autonomia para interromper o procedimento caso algum erro seja cometido. Essa estratégia, dentro de um conjunto de intervenções, mostrou ter impacto na redução das taxas de infec- ção da corrente sanguínea relacionada a cateteres venosos; curativo estéril deve ser realizado, pre- ferencialmente pelo profissional que realizou o procedimento, minimizando assim o risco de infecções; utilizar exame de imagem para detecção de complicações e checagem da posição do cateter (radiografia do tórax ou ul- trassom);19 em casos de emergência, o acesso venoso poderá ser utilizado para infusão de me- dicamentos antes da confirmação da po- sição pelo exame de imagem, desde que estejam adequados o influxo e efluxo por todas as suas vias; se houver punção arterial, deve-se com- primir o local por pelo menos 3 a 5 mi- nutos, solicitar exame de imagem e reco- mendar vigilância quanto ao sangramen- to e ocorrência de hematoma local. A posição da ponta do cateter deverá estar em região proximal da veia cava superior, próxima à entrada do átrio, longe da parede do vaso e pa- ralela ao seu eixo. Pode-se estimar essa posição medindo desde a inserção do cateter na pele até o terceiro espaço intercostal na borda esternal direita, antes de executar a punção, conforme mencionado anteriormente. Deve-se ter cautela para que não haja contaminação do cateter nes- se processo e fazer a medida por cima do cam- po estéril. Após encerrar o procedimento, fixa- -se o cateter com fio anterossuperior e realiza-se o curativo. Solicita-se em seguida um exame de imagem para checar o posicionamento do cate- ter e o rastreamento de possíveis complicações, como o pneumotórax. É interessante e mais seguro anotar em pron- tuário a liberação do cateter, o que comprova o cuidado que o profissional teve ao checar a posição do mesmo e a inexistência de compli- cações identificáveis. O método mais utilizado para esse fim ainda é a radiografia do tórax. En- tretanto, há evidências favoráveis ao uso do ul- trassom tanto para checar a posição quanto para identificação de complicações.20 Alguns auto- res20 recomendam que a radiografia do tórax só seja solicitada em caso de dúvidas. A Tabela 5.3 mostra as principais vantagens e desvantagens dos acessos venosos profundos mais utilizados. FAtores de risco pArA complicAções mecânicAs A inexperiência do operador é um fator de risco, pois há consistente relação entre expe- riência e menor taxa de complicação.21 Quanto maior o número de tentativas, geral- mente mais de três, maior o risco de complica- ções.22 Desta maneira, recomenda-se interrom- per o procedimento se houver insucesso após três tentativas. Frequentemente o descanso do profissional pode ser suficiente para uma nova punção com êxito. Outras situações que apresentam risco au- mentado para complicações mecânicas são pa- cientes obesos com índice de massa corpórea (IMC) > 30 kg/m2 ou muito magros com IMC < 20 kg/m2, cateterização prévia, desidratação ou hipovolemia grave e cirurgia ou radiotera- pia prévia no local da punção. As coagulopatias Capítulo 5 MÉtoDoS paRa aCESSo VENoSo CENtRal 63 Tabela 5.3 vantagens e desvantagens das vias de acesso venoso profundo mais utilizadas. via de acesso vantagens desvantagens via jugular interna pneumotórax menos frequente acesso mais fácil para anestesia Fácil compressão em caso de sangramento Mal posicionamento menos frequente Utilização do ultrassom punção arterial mais frequente Desconforto para paciente referências anatômicas difíceis em obesos e edemaciados acesso difícil em traqueostomizados via subclávia altas taxas de sucesso Melhores referências anatômicas em obesos Facilidade em manter curativos Maior conforto para o paciente Menores taxas de infecção Maior risco de pneumotórax Difícil compressão em caso de sangramento Longa distância da pele até a veia Ultrassom ineficaz via jugular externa Baixas taxas de complicações mecânicas Útil em coagulopatias devido à fácil compressão manual Baixa taxa de sucesso via femoral Fácil compressão manual Útil durante parada cardiorrespiratória Maior taxa de infecção Maior taxa de trombose picc procedimento de baixa complexidade e rapidez para implante permanência mais prolongada (semanas a meses) Baixas taxas de infecção Uso ambulatorial Baixo custo Boa tolerância do paciente inadequado para infusão em bolus inadequado para ressuscitação volêmica rápida não parecem aumentar o risco quando tomadas as devidas precauções, como transfusão de pla- quetas para manter contagem total de 50.000 ou mais (alguns textos recomendam 50.000 para ci- rurgias e 30.000 para pequenos procedimentos, como acessos venosos centrais), infusão de fa- tores de coagulação, concentrados de complexo pró-trombínico ou plasma fresco congelado, em pacientes com tempos de protrombina e trom- boplastina parcial muito alargados. Embora coagulopatias não sejam contraindicações, vá- rios autores sugerem escolher locais passíveis de compressão manual, como a veia jugular exter- na ou interna e veia femoral. Os cateteres mais calibrosos, como os de hemodiálise, também es- tão associados a maiores riscos de complicações. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 64 ultrAssom pArA Acesso venoso centrAl A utilização do ultrassom para punção ve- nosa está sendo cada vez mais recomendada. Seu uso é descrito desde a década de 1970 e expandiu-se a ponto de ser considerada, atual- mente, ferramenta importante na redução de complicações e aumento nas taxas de sucesso das punções.23,24 Inicialmente, os vasos eram apenas locali- zados com o Doppler, depois com o ultrassom bidimensional, a anatomia verificada e, em se- guida, a punção venosa realizada às cegas. Essa modalidade já foi um avanço, e atualmente a punção pode ser guiada pelo ultrassom em tempo real.25 Para tanto, é necessário material estéril, como gel e plástico para proteção do transdutor e do cabo do ultrassom. Antes da assepsia e antissepsia, a área da punção deve ser examinada com o ultrassom para identificar e diferenciar artéria e veia, seus posicionamentos, distância da pele até o vaso a ser puncionado e, se o equipamento disponibilizar Doppler em cores, o fluxo dos vasos pode ser verificado e ser descartada a presença de trombose.Após a visualização da área onde será reali- zado o procedimento, os passos de posiciona- mento do paciente são: assepsia e antissepsia da região de punção e do equipamento, e anestesia local, como já descrito anteriormente. Sob vi- sualização direta pelo ultrassom, a veia deve ser puncionada, acompanhando-se a introdução da agulha até a profundidade medida no iní- cio do procedimento; observa-se a perfuração da veia e o sangue aspirado pela seringa ao se tracionar o êmbolo da mesma (Figuras 5.10 e 5.11). Em seguida, o procedimento continua como já descrito pela técnica de Seldinger. Ape- sar de existirem algumas descrições na literatu- ra, a veia subclávia não parece ser apropriada para esse procedimento, pois não é visualizada adequadamente devido à interface de ar e a pre- sença de estruturas ósseas que a circundam.26 Por outro lado, veias jugulares e femorais po- dem e devem ser utilizadas para acesso venoso profundo guiado por ultrassom.18 FiGURa 5.10 Artéria carótida (AC) e veia jugular interna direita (VJI) durante punção guiada por ultrassonografia – eixo curto ou transversal. FiGURa 5.11 Ultrassonografia da introdução de fio-guia em veia artificial (Agar phantom). t artéria carótida veia jugular interna Capítulo 5 MÉtoDoS paRa aCESSo VENoSo CENtRal 65 Existem discussões sobre técnicas de in- sonação do vaso (eixo longo ou longitudinal, eixo curto ou transversal) que fogem do escopo deste capítulo. Entretanto, quando da disponi- bilidade de kits e equipamentos com introdu- tores para a agulha, esses devem ser preferidos, porque permitem o uso de um guia apropriado (que fica encaixado no transdutor e possui ca- naleta para posicionamento da agulha de pun- ção), facilitando ainda mais a punção. A angu- lação ótima da agulha é dada pelo adequado guia escolhido a partir da medida da profun- didade do vaso que determinará um guia mais ou menos angulado. Com o vaso identificado ao ultrassom, basta a introdução progressiva da agulha através da canaleta do guia (encaixado no transdutor) para executar a punção, facili- tando imensamente o processo. reFerênciAs 1. 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Isso permite maior entendimento da fisiopatologia do estado de choque, bem como manejo terapêutico mais bem embasado.6 considerAções gerAis Alguns aspectos gerais devem ser conside- rados para uma adequada performance desse método de monitoração;caso contrário, con- sistirão em limitações para seu uso. Para realizar a introdução do cateter, exige- -se a participação de um médico auxiliado por outro profissional, por um tempo mínimo de 30 minutos. Deve-se tomar o devido cuidado de ter todo o material necessário conferido e disponível para o uso. A montagem dos siste- mas de transdutor de pressão deve preceder o início do procedimento e está descrita em ou- tra seção deste livro (Capítulo 8 – Assistência de Enfermagem à Monitorização Hemodinâ- Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 70 mica). Após a montagem dos sistemas deve-se proceder à zeragem atmosférica e hidrostática do mesmo para que a leitura e a obtenção dos valores e das curvas sejam realizadas de forma adequada. Antes de iniciar o procedimento, de- ve-se sempre checar o eletrocardiograma, pois pode-se encontrar alterações como bloqueio de ramo, que aumenta as chances de complicações, como por exemplo, bloqueio atrioventricular total. Deve-se também realizar radiografia de tórax e testes de coagulação. O paciente deve estar adequadamente monitorado com eletro- cardiograma, oximetria de pulso e pressão ar- terial não invasiva, caso ainda não exista uma monitoração invasiva da pressão arterial. Após a escolha do local de punção, o paciente deve estar posicionado de forma a permitir a rea- lização da técnica adequada de introdução. Deve- -se colocar o paciente em leve Trendelenburg, que facilita a punção pelo aumento do retorno venoso, promovendo um ingurgitamento das veias, bem como diminuindo os riscos de embolia gaso- sa durante o procedimento. O uso do ultrassom como guia para punção venosa profunda diminui os riscos associados ao procedimento e também auxilia na verificação da presença de trombo ao se realizar manobras de compressão do mesmo para checar se o vaso encontra-se pérvio e se o cateter esta na devida posição dentro do vaso.7 Caso o paciente se encontre consciente, de- verá ser informado quanto à realização do pro- cedimento. Caso não possa colaborar de forma consciente com a realização do mesmo, uma sedação eficaz deverá ser empregada sempre acompanhada de analgesia local adequada. É importante atentar para as condições cardio- pulmonares mínimas que devem ser garantidas para viabilizar o procedimento, mesmo que sejam necessárias medidas de suporte mais in- vasivas, como ventilação mecânica, reposição volêmica vigorosa, uso de vasopressores e/ou inotrópicos. Isto proporcionará maior seguran- ça ao paciente durante a introdução do CAP. O cateter de artéria pulmonar somente deve ser aberto após a inserção do introdutor. técnicA de inserção A técnica de punção venosa central do intro- dutor do CAP (Tabela 6.1) deve seguir os prin- Tabela 6.1 técnica de inserção de cateter de artéria pulmonar. Etapas preparo do paciente instruir o paciente sobre os aspectos técnicos do procedimento, garantindo a sua colaboração proceder à sedação se houver dúvidas quanto à cooperação do paciente estabilizar as condições cardiopulmonares do paciente antes de iniciar o procedimento o jejum ou a pausa na dieta são benéficos no sentido de minimizar broncoaspiração, pois a cabeceira deverá estar, no máximo, a zero grau para a realização da punção venosa central cervical colocar o paciente em decúbito dorsal horizontal, com a cabeceira em leve trendelenburg (15o), com a cabeça virada para o lado oposto à inserção do cateter (Figura 6.1) eletrocardiograma, oximetria de pulso, monitoração da pressão arterial (invasiva e não invasiva), testes de coagulação sanguínea e radiografia de tórax devem ser sempre verificados antes do procedimento Lidocaína endovenosa profilática não está indicada mesmo em pacientes com arritmias ventriculares Continua >> Capítulo 6 tÉCNICaS DE INtRoDuÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 71 Tabela 6.1 técnica de inserção de cateter de artéria pulmonar. Etapas Escolha do local/ antissepsia e assepsia Sempre que possível, utilizar a via jugular (Figura 6.2), pois o pneumotórax é a complicação mais frequente e mais grave a curto prazo na maioria dos pacientes, a veia jugular interna direita é mais calibrosa, mais retificada e menos sujeita a obstáculos Sempre higienizar as mãos antes dos procedimentos Usar sempre paramentação completa, incluindo gorro, máscara e avental estéril Usar campos estéreis grandes, o que permitirá manipulação mais confortável de todos os materiais punção venosa e introdução de fio guia ter certeza de que a punção foi correta antes de colocar o fio-guia Utilizar os guias com ponta curva e flexível, procurando não introduzir até o ventrículo direito devido ao risco de arritmias dilatação e colocação do introdu- tor É durante a dilatação que ocorrem os acidentes hemorrágicos introduzir o dilatador através do fio-guia somente o suficiente para atingir o lúmen da veia, evitando sua transfixação retirar o dilatador e colocá-lo internamente ao introdutor a seguir, colocar o conjunto introdutor-dilatador e testar sua permeabilidade instalando um soro de manutenção na via lateral Lembrar-se sempre de que o introdutor valvulado não bloqueia a entrada de ar no sistema colocar a tampa do introdutor quando houver demora na introdução do cateter para evitar ocorrência de embolia gasosa Fixar o introdutor na pele para permitir maior segurança na manipulação colocação do protetor do cateter, teste do balonete e inserção a proteção de plástico (Figura 6.3), colocada em torno do cateter, mantendo-o estéril, é indispensável para futuros reposicionamentos a inserção não deve ser demorada, pois com o aquecimento do cateter a rigidez ideal para sua introdução vai sendo perdida conectar todas as vias de pressão e proceder à “zeragem” e calibração do sistema de oximetria (Figura 6.4) antes de introduzir o cateter, verificar a integridade do balonete em sua extremidade (Figura 6.5) preencher com solução fisiológica as vias distal e proximal para verificar se as mesmas se encontram pérvias e verificar a integridade do sistema ao mobilizar a ponta do cateter e localizar o aparecimento de curvas no monitor progressão do cateter Quanto mais baixo o débito cardíaco, mais lenta deve ser a progressão do cateter, que deve ser acompanhada pelas curvas de pressão de acordo com o esquema que se segue: Durante a permanência do balonete insuflado dentro do ventrículo direito é comum ocorrerem arritmias, por isso evitar mantê-lo nessa posição por períodos prolongados após introduzir 15 cm do cateter, a extremidade do balonete deverá ter ultrapassado todo o introdutor. nesse momento deve-se insuflar o balonete com cuidado, com o máximo de volume, e proceder a sua introdução após introdução entre 20 cm e 30 cm observa-se o traçado característico de um atriograma após introdução do cateter no intervalo de 30 cm a 45 cm, nota-se a mudança súbita no traçado das curvas de pressão e observa-se o aumento da amplitude sistólica indicando posicionamento no ventrículo direito (Figura 6.6) Continua >> >> Continuação Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 72 Tabela 6.1 técnica de inserção de cateter de artéria pulmonar. Etapas progressão do cateter com a progressão da introdução do cateter, observa-se o aumento da pressão diastólica que sugere a passagem da extremidade do cateter pela artéria pulmonar (Figura 6.6) Finalmente, próximo de 50 cm a 60 cm de introdução do cateter, a curva de pressão volta a ser semelhante à de um atriograma, que indica a oclusão da luz da artéria pulmonar pelo balonete insuflado (Figura 6.6) caso não exista correspondência entre o comprimento introduzido do cap e o traçado de curva esperado, desinflar o balonete e recuar todo o cateter. em seguida, reiniciar a introdução do cap com o cuidado de observar grandes dificuldades no posicionamento do cap podem indicar: punção inadequada, débito cardíacomuito baixo ou alterações anatômicas graves, como disfunções valvares ou cardiomegalia pronunciada nos casos extremos, pode-se recorrer à radioscopia para auxiliar no correto posicionamento teste de oclusão ou “capilari- zação” reposicionar e colocar a ponta do cateter sem introduzi-la em demasia, evitando rupturas vasculares e trombose em posição proximal, a leitura da pressão é mais confiável Deve-se sempre insuflar o balonete de forma cuidadosa e acompanhar o traçado da curva pressórica Deve-se injetar somente a quantidade mínima de ar para obter a leitura da pressão ocluída. entretanto, a melhor posição é quando se consegue insuflar o balonete com 1,5 mL de ar correspondente ao volume do mesmo curativo, vigilância e troca do sistema Deve-se utilizar, junto ao introdutor, um curativo seco e permeável para protegê-lo Deve-se vigiar diariamente o aspecto da pele caso a pele aparente sinais flogísticos ou secreção purulenta, todo o sistema deve ser trocado e a punção deve ser realizada em local diferente o tempo máximo de monitoração com um mesmo sistema é de 4 dias Kit swan- Ganz cateter Swan-ganz 7 Fr (débito contínuo) introdutor percutâneo 8,5 Fr Dilatador Lâmina de bisturi protetor plástico (“camisa”) Dois transdutores de pressão com pressurizadores Xylocaína 2% s/v fap 20 mL Solução fisiológica 0,9% 500 mL Fr pvc t com sensor de temperatura (para os cateteres de artéria pulmonar intermitente) compressa de gaze estéril com 10 unidades Luva estéril 7,5 equipo macro longo polifix 2 vias agulha descartável 30 X 07 torneirinha 3 vias Mononylon 3,0 3-171 envelope pesquisa de compli- cações Fazer um exame físico procurando complicações no local da punção (região cervical e torácica) Solicitar radiografia de tórax após a passagem do cateter e repetir a cada 24 horas, para verificar eventuais complicações >> Continuação Capítulo 6 tÉCNICaS DE INtRoDuÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 73 FiGURa 6.1 Posição em Trendelenburg (10o-15o). FiGURa 6.2 Anatomia da veia jugular interna direita (o triângulo destaca o local). FiGURa 6.3 “Capa” de plástico para proteger o cateter (camisa). Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 74 FiGURa 6.5 Integridade do balonete. FiGURa 6.4 Dânula em posição neutra. cípios gerais do cateterismo de veias centrais pela técnica de Seldinger. Após fixar o introdutor, procede-se à inser- ção do CAP através dele, seguindo os passos abaixo relacionados: O profissional que auxilia o médico, de- vidamente paramentado com máscara, expõe de forma asséptica o CAP para o médico. O médico separa as vias (proximal e distal) do CAP a serem manipuladas pelo profis- sional que o auxilia e a via de conexão da seringa que insufla o balonete do cateter (via vermelha), que deve ser mantida es- Capítulo 6 tÉCNICaS DE INtRoDuÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 75 téril. Ele deve realizar esse passo tomando cuidado para que o cateter não perca seu molde, mantendo-o com o formato seme- lhante ao que está na embalagem. O profissional que auxilia o médico pro- cede à conexão de cada via do cateter ao equipo de soro conectado ao transdutor de pressão para preencher cada via com solução fisiológica. Ao realizar o preen- chimento das vias, o médico verifica se as mesmas estão pérvias. A bolsa de soro deve estar pressurizada a 300 mmHg. Em caso de se utilizar CAP com fibra óptica de saturação venosa mista contí- nua, pode-se proceder nesse momento à calibração in vitro com o cateter ainda protegido em sua ponta por um disposi- tivo de cor cinza. Isso possibilita medida fidedigna da saturação venosa mista de oxigênio tão logo o cateter seja locado. FiGURa 6.6 Acompanhamento da inserção do cateter pelas curvas de pressão. Átrio direito Ventrículo direito Artéria pulmonar Oclusão de ramo da artéria pulmonar Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 76 O profissional que auxilia o médico ofe- rece a ele um cabo para cada transdutor, a fim de conectá-lo ao respectivo módulo de pressão invasiva do monitor multipa- ramétrico. Ele deve estar atento para co- nectar o cabo referente a cada sistema de pressão no respectivo canal no monitor. Exemplificando, o cabo referente ao sis- tema da pressão arterial pulmonar (PAP _ via amarela é o distal) deverá estar co- nectado ao canal 1 do monitor, e o cabo referente ao sistema da pressão de átrio direito (PAD _ via azul é a proximal), ao canal 2 do monitor. Após conectar os cabos, o médico deve realizar movimen- tos com a ponta do cateter e observar no monitor se ocorre aparecimento de osci- lações de curvas. Isso serve para verificar a integridade dos cabos, dos transdutores e dos módulos de pressão invasiva. Caso não ocorra aparecimento de curvas após a oscilação da ponta do cateter, procura- -se identificar onde está o problema. Pode-se encontrar cabos com defeitos, módulos mal adaptados ao monitor, e até mesmo os transdutores podem estar de- feituosos. Com a oscilação da ponta do cateter também é possível confirmar em qual canal está conectado a via distal do cateter. O médico procede à introdução do pro- tetor de plástico (“camisa”) em volta do cateter, atentando para a forma de fixação desse protetor no introdutor após a inser- ção do CAP. Esse invólucro de plástico irá proteger o cateter para eventual necessi- dade de reposicioná-lo após o procedi- mento, com o objetivo de mantê-lo estéril. Deve-se ter o cuidado de fixar a parte dis- tal da camisa para que se evite o desloca- mento da mesma e desproteja o cateter. O próximo passo é avaliar o formato e a integridade do balonete. Isto se faz ao inflar o balonete com 1,5 mL de ar, que é o volume da seringa que acompanha o cateter. Ao preencher todo o balone- te, o formato deve ser semelhante a uma “maçã”. Caso existam irregularidades, o cateter deve ser trocado e enviado para o fabricante responsável para analisar o que causou a deformidade do balone- te. Além de avaliar o formato do balo- nete, o preenchimento permite verificar se o mesmo não está furado; caso esteja, deve ser realizado o mesmo procedi- mento descrito anteriormente. O médico procede à introdução do CAP que será locado na artéria pulmonar guiado pelo aparecimento das curvas de pressão e análise de suas morfologias observadas continuamente no monitor. Seguindo esse exemplo de conexão, será observada em primeira instância a curva do canal 1 do monitor, já que a via distal do cateter está sendo monitorada por esse canal (sistema da PAP). As curvas seguem a sequência mostrada na Figura 6.7.1 O médico deve ter cuidado quando in- troduzir o cateter, e a partir do momento em que se encontre no átrio, o balonete deve ser inflado com 1,5 mL de ar. Com o balonete inflado, o cateter será guiado pelo fluxo de sangue, o que facilita a pas- sagem pela válvula tricúspide, ventrícu- lo direito até atingir a artéria pulmonar. Caso seja necessário tracioná-lo para reposicionar, o balonete deverá ser de- sinflado. Assim evita-se o risco de lesões nas válvulas cardíacas. O acompanhamento das curvas de pressão pelo monitor multiparamétrico é imprescindí- vel para adequar o posicionamento do CAP. O reconhecimento das curvas de pressão de cada topografia percorrida pelo cateter permite asse- gurar que o trajeto está correto. Capítulo 6 tÉCNICaS DE INtRoDuÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 77 FiGURa 6.7 Correspondência entre a topografia da extremidade do cateter de artéria pulmonar, representação gráfica da curva de pressão naquela extremidade e o traçado obtido no monitor multiparamétrico. (a) Extremidade do cateter em átrio direito, onde o balonete é inflado. (B) Extremidade do cateter com o balonete inflado chegando ao ventrículo direito. (c) Em seguida, atinge a artéria pulmonar. (d) E agora o balonete oclui um ramo da artéria pul- monar = balonete “encunhado”. (e) O balonetedesinflado é representado na curva de pressão da artéria pulmonar. m m H G Ventrículo direito ECG Átrio direito Pressão 0 5 10 15 20 25 Artéria pulmonar “ Encunhado ” Insuflação do balão A curva de pressão de átrio direito com o balonete desinflado é caracterizada por duas ondas ou até três ondas positivas – onda “a” (maior, corresponde à contração atrial e segue a onda P do ECG registrado simultaneamente), onda “v” (corresponde ao enchimento venoso do átrio direito quando a valva tricúspide se fe- cha e está próxima do fim da onda T do ECG), e onda “c” (deve-se ao movimento abrupto do anel da valva tricúspide em direção ao átrio di- reito no início da sístole ventricular, por isso se localiza no intervalo P-R do ECG) (Figura 6.8). a B c d e Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 78 Em repouso, a PAD normal é de até 6 mmHg. Após a onda “c” e antes da onda “v” está o colap- so “x” (correspondente ao relaxamento atrial), e após a onda “v” está o colapso “y” (correspon- dente ao esvaziamento rápido do átrio direito após a abertura da valva tricúspide).8 A curva de pressão de ventrículo direito (PVD) apresenta amplitude bem maior. Em repouso, a pressão sistólica do ventrículo di- reito (PSVD) varia de 17 mmHg a 30 mmHg, enquanto a PDVD varia de 0 mmHg a 6 mmHg quando a extremidade do CAP atravessa a val- va tricúspide. A pressão sistólica nesse ponto é igual à pressão sistólica de artéria pulmonar (PSAP), desde que não haja fator obstrutivo na via de saída do ventrículo direito. A curva de pressão da artéria pulmonar (PAP) apresenta-se entalhada (nó dicrótico) en- tre o pico sistólico e o descenso diastólico, devi- do ao fechamento da valva pulmonar. O pico da PSAP ocorre antes da onda T do ECG registrado de forma simultânea (Figura 6.9).8 Em geral, a pressão diastólica de artéria pulmonar (PDAP) coincide com a pressão de oclusão de artéria pulmonar média (POAP média), podendo estar de 2 mmHg a 4 mmHg acima da POAP média. Nos casos em que há hipertensão pulmonar gra- ve, a PdAP se encontra com valores superiores a 5 mmHg em relação à POAP média.9 A curva da POAP (correspondente à oclusão de um ramo menor da artéria pulmonar) tem morfologia semelhante à da PAD. No entanto, sua onda “v” é levemente maior que a onda “a”, e a representação simultânea do ECG demonstra algum atraso se comparada à curva da PAD, de- vido aos eventos mecânicos do átrio direito acon- tecerem pouco antes, refletindo-se sobre a artéria pulmonar pouco depois. Ao relacionar o traçado da curva de POAP com o ECG, a onda “a” ocorre logo após o complexo QRS (Figura 6.10).8 Para realização destas medidas, o cateter deverá estar bem posicionado e todo o sistema hidráulico e elétrico deverá estar calibrado e ze- rado (Figura 6.11). O eixo flebostático se loca- liza no ponto de intersecção entre a linha axilar média e o quarto espaço intercostal. Este ponto será o zero hidrostático. O sistema de conexões/dânula (“torneiri- nhas”) localizado junto ao transdutor deve es- tar posicionado no nível do eixo flebostático. FiGURa 6.8 Correspondência entre a curva de pressão de átrio direito (PAD) e o eletrocardiograma (ECG) reg- istrado simultaneamente. Figura 6.2 - Correspondência entre a curva de PAD e o ECG registrado simultaneamente ECG PAD a c v Capítulo 6 tÉCNICaS DE INtRoDuÇÃo Do CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 79 FiGURa 6.10 Correspondência entre a curva de POAP e o ECG registrado simultaneamente. Nota-se algum atraso frente à curva de pressão de átrio direito (PAD) (Figura 6.2). Figura 6.4 - Correspondência entre a curva de POAP e o ECG registrado simultaneamente. Nota-se algum atraso frente à curva de PAD (Figura 6.2). Complexo QRS Onda P Onda T Onda “a” Onda “v” PAD Ventrículo direito FiGURa 6.9 Correspondência entre a curva da pressão de artéria pulmonar (PAP) e o ECG registrado simulta- neamente. Figura 6.3 - Correspondência entre a curva da PAP e o ECG registrado simultaneamente Artéria pulmonar Note a diferença na diástole Onda T Pico sistólico Curva PAP Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 80 Ao se abrir o sistema hidráulico para o meio ambiente e fechar em relação ao paciente, zera-se o canal do monitor correspondente ao respectivo sistema. Em seguida, deixa-se a dâ- nula na posição neutra, conforme apresentado na Figura 6.4. reFerênciAs 1. Ganz W, Donoso R, Marcus HS, Forrester JS, Swan HJ. 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Eixo flebostático complicaÇÕEs da moNitoriZaÇÃo HEmodiNÂmica com catEtEr dE artÉria pulmoNar 7 Patrícia Villodre Alliegro Ricardo Luiz Cordioli complicaÇÕEs da moNitoriZaÇÃo HEmodiNÂmica com catEtEr dE artÉria pulmoNar introdução 7 O cateter da artéria pulmonar (CAP) é uti- lizado como um método de monitoração in- vasiva para estimar o débito cardíaco por ter- modiluição e avaliação direta das pressões das câmaras direitas e da artéria pulmonar. Com os dados obtidos é possível calcular parâmetros hemodinâmicos como: a resis- tência vascular sistêmica e pulmonar, índice de trabalho sistólico de ventrículo esquerdo e direito, entre outros dados importantes.1 As indicações e controvérsias relacionadas ao seu uso, bem como os métodos de medida, não serão discutidos neste capítulo, mas terão es- pecial atenção as possíveis complicações rela- cionadas ao seu uso, assim como os procedi- mentos para minimizá-las. A incidência de complicações associadas ao CAP tende a variar de acordo com a ex- periência do profissional que realiza sua in- serção, com a técnica utilizada e com o local de punção escolhido, bem como com a ma- nipulação adequada do dispositivo durante e após sua passagem e locação.2 Há relatos de estudos com taxa de complicações que variam entre 1,5% e 10%,3-6 e também sem diferença significativa quando comparado com grupo controle. Em pacientes cirúrgicos, estima-se que ocorra entre 0,1% e 0,5% dos casos.7 As complicações com maior risco de ocor- rência estão associadas à punção venosa pro- funda. A ultrassonografia tem contribuído para diminuir os riscos de complicações relaciona- das ao procedimento.8 Com o maior conheci- mento do real benefício de qualquer uma das ferramentas de monitoração hemodinâmica, a intervenção mais precoce, assim como as con- Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 84 dutas individualizadas guiadas por protocolos de ressuscitação hemodinâmica, acarretam o menor tempo do uso das mesmas para atingiros alvos terapêuticos.9-11 Com isso, prioriza-se a otimiza- ção precoce e por curto período de tempo, fazen- do com que essas monitorações sejam retiradas precocemente dos pacientes. Durante muitos anos, aceitava-se que o cateter de artéria pulmo- nar permanecesse por até quatro dias, porém hoje sabe-se que o real benefício da utilização de qual- quer ferramenta ocorre nas primeiras horas, na fase aguda, e que após 48 horas não se justifica a permanência de nenhuma monitoração do dé- bito cardíaco. Por outro lado, sabe-se que qual- quer ferramenta utilizada tardiamente como guia terapêutico pode aumentar o risco de iatrogenia. Como exemplo, uma simples coleta de gasome- tria venosa central sem a real necessidade pode levar ao uso indevido de inotrópicos, caso o re- sultado não seja avaliado com a crítica necessária. complicAções As complicações da cateterização da artéria pulmonar podem ser classificadas de acordo com as diferentes fases do procedimento e estão descritas na Tabela 7.1. complicações durante a inserção do introdutor/punção venosa central As complicações decorrentes da inserção do introdutor são aquelas relacionadas a qualquer procedimento de punção e canulação venosa central e podem ser evitadas seguindo-se re- comendações técnicas adequadas e optando-se pelo local de punção mais seguro.12 Nos dias de hoje, o uso da ultrassonografia como guia para realizar a punção corrobora para a redução dos acidentes relacionados ao procedimento.8,13,14 Tabela 7.1 complicações da cateterização da artéria pulmonar. inserção do introdutor/punção posicionamento do cap permanência do cap retirada do cap/ introdutor pneumotórax arritmia arritmia arritmia Hemotórax Lesões estruturais infecção Lesões estruturais Hematoma local trauma vascular trombose/embolia nó do cateter punção arterial trauma cardíaco endocardite embolia gasosa embolia gasosa Mal posicionado infarto pulmonar rotura do cateter Mal posicionado Lesão valvar rotura do balão infecção do sítio de punção nó do cateter pseudoaneurisma da artéria pulmonar rotura de artéria pulmonar Hemorragia embolia gasosa Medidas ou interpretações incorretas rotura do vD Capítulo 7 CoMplICaÇÕES Da MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa CoM CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 85 Geralmente há maior incidência de pneu- motórax e hemotórax quando se opta pelo aces- so da veia subclávia, 1,5% a 3,1% e 0,4% a 0,6% (Figura 7.1).15 Quando se opta pela VJI, a punção aciden- tal da artéria carótida constitui a complicação mais comum, podendo ocorrer em até 11,3% dos casos.19 Na maior parte das vezes esse tipo de acidente se resolve sem outras complicações, apenas com a realização de compressão local por 20 minutos. Especial atenção deve ser dada à presença de distúrbios da coagulação, pois nessas situações as consequências de uma pun- ção arterial podem ser severas. Caso o introdutor tenha sido colocado inad- vertidamente na artéria carótida, recomenda-se que não seja retirado até a avaliação de um ci- rurgião vascular, pois o posicionamento inad- vertido do introdutor nesse vaso pode acarretar a formação de fístula arteriovenosa, pseudo- aneurisma e grandes hematomas cervicais.19 A embolia gasosa é outra complicação po- tencialmente grave e fatal da punção venosa central. Ocorre quando, por algum motivo, uma bolha de ar penetra na circulação. Os pa- cientes em respiração espontânea estão mais sujeitos à ocorrência de embolia gasosa, pois a inspiração gera pressão negativa intratorácica, facilitando a entrada do ar no vaso. Tal situação pode ser evitada realizando-se o procedimento com o paciente em posição de Trendelenburg e com oclusão imediata da agulha ao desconectá- -la da seringa. Existem alguns kits de cateteres que permitem que o fio seja introduzido pelo êmbolo da seringa, evitando a desconexão da agulha com a mesma, o que pode reduzir o ris- co sem eliminá-lo totalmente. Quando da re- tirada do introdutor ou do cateter, o paciente também deve ser colocado em Trendelenburg, devendo ser ocluído o local com compressão, para impedir o contato com o ar.20 Todos os cui- dados devem ser mantidos e realizados, tanto na inserção quanto na retirada dos cateteres. As complicações decorrentes da punção veno- sa central, em geral, é proporcionalmente inversa à experiência do operador, e dificilmente podem FiGURa 7.1 Pneumotórax no lado esquerdo produzido durante tentativa de punção da veia subclávia. O cateter introduzido pelo lado direito está mal posicionado, per- fazendo um trajeto de alça dentro do ventrículo direito. A cateterização da veia jugular interna (VJI) apresenta menor incidência de complicações e facilita o posicionamento do cateter, até mes- mo por uma maior facilidade anatômica na progressão do mesmo (especialmente quando se opta pela veia jugular interna direita). Essa via de acesso venoso é considerada preferencial para esse procedimento.15,16 A VJI, no geral, está situada lateralmente à carótida comum.17 Ao estudar a anatomia dos vasos cervicais pela ultrassonografia, observou- -se que em 92% dos casos (n = 200) a VJI en- contra-se na posição anterolateral em relação à artéria carótida comum, sendo que 1% está há mais de 1 cm da mesma. A VJI foi encontrada em 2% dos casos em po- sição anteromedial à artéria carótida comum. Em 5% dos casos, a posição encontrada foi aleatória e não prevista pela posição anatômica habitual.18 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 86 ser eliminadas por completo. Entretanto, podem ser minimizadas quando são seguidas as orienta- ções corretas e quando são tomados os devidos cuidados que o procedimento requer.19 Atual- mente, pode-se utilizar o ultrassom para guiar a punção venosa central, diminuindo considera- velmente as chances de complicações e facilitan- do a localização e o acesso preciso ao vaso.13 complicações durante o posicionamento do cateter de artéria pulmonar As complicações nessa fase do procedimento podem ser minimizadas ao assegurar que o ba- lão esteja totalmente inflado após entrar no átrio direito, observando-se as distâncias estimadas e marcadas no cateter (átrio direito, aproxi- madamente 20 cm; ventrículo direito, apro- ximadamente 30 cm; artéria pulmonar 40 cm e sistema capilar pulmonar, 50 cm), e ao relacio- nar as pressões das respectivas câmaras cardía- cas em cada parte do trajeto. Da mesma forma, deve-se garantir que o balão esteja desinflado toda vez que for tracionado. O desenvolvimento de arritmias durante a passagem e o posicionamento do CAP é a compli- cação mais frequente. Entretanto, a maioria delas é autolimitada e não necessita de nenhum tipo de tratamento. Nesses casos deve-se recuar o cateter com o balonete desinflado ou posicioná-lo corre- tamente. Pode ocorrer entre 60% e 70% de arrit- mias durante a cateterização da artéria pulmonar, principalmente no momento em que o cateter passa pelo ventrículo direito (Tabela 7.2).21-23 As extrassístoles ventriculares são as ma- nifestações mais comuns e normalmente não resultam em manifestações hemodinâmicas importantes. Em até 20% dos casos podem ser observados episódios de taquicardia ventricu- lar não sustentada (5 a 30 extrassístoles ventri- culares consecutivas). Em menos de 3% dos ca- sos as arritmias tornam-se sustentadas (taqui- cardia e fibrilação ventricular), representando fator de piora hemodinâmica com necessidade de tratamento. Em estudo prospectivo, Iberti et al. observaram em pacientes monitorados com CAP arritmias ventriculares em 7 (12,5%) pa- cientes dentre 56 avaliados. Em nenhum caso houve necessidade de intervenção terapêutica e a arritmia desapareceu apenas com o posicio- namento correto do CAP.22 Tabela 7.2 arritmias mais frequentemente observadas durante o posicionamento do cap. extrassístoles atriais e ventriculares taquicardia ventricular Fibrilação ventricular Bloqueio transitório do ramo direito Bloqueio áureo ventricular (av) completo (em pacientes combloqueio do ramo esquerdo preexistente) Bloqueio do ramo direito: complicação mais rara, podendo ocorrer em aproximadamente 5% das vezes durante a inserção do CAP. A locali- zação superficial do ramo direito, logo abaixo da valva tricúspide, o torna vulnerável a trau- ma pelo cateter durante o seu trajeto. Quando ocorre o bloqueio do ramo direito, ele tende a ser transitório, revertendo-se em até 24 horas. Sprung et al. observaram o aparecimento de novo bloqueio de ramo direito em cerca de 3% dos pacientes durante a inserção de CAP.23 Caso haja bloqueio do ramo esquerdo (BRE) prévio, o aparecimento do bloqueio do ramo direito pode acarretar bloqueio AV total. A incidência real de bloqueio AV completo é desconhecida, mas por se tratar de complicação potencialmente fatal, recomenda-se introduzir o CAP apenas em pacientes nos quais se possa Capítulo 7 CoMplICaÇÕES Da MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa CoM CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 87 dispor de um marca-passo transvenoso ou ex- terno transtorácico. Com o desenvolvimento de marca-passos externos transtorácicos, opta-se preferencialmente por esse dispositivo em vez do transvenoso, por se tratar de procedimento me- nos invasivo e seguro. Na presença de BRE deve- -se dar preferência à passagem do cateter sob vi- são direta por radioscopia, reduzindo-se o risco de trauma e, consequentemente, de bloqueio AV total. Desta forma, é consenso que na presença de infarto agudo do miocárdio com novo BRE, medidas profiláticas deverão ser tomadas para evitar a ocorrência de bloqueio AV total. Apesar de alguns fatores terem sido relatados como de risco para ocorrência de arritmias (is- quemia e infarto agudo do miocárdio, hipóxia, acidemia, hipocalemia, hipocalcemia e cateteri- zação prolongada por mais de 20 minutos), estu- dos mais detalhados são necessários para deter- minar qual grupo de pacientes apresenta maior risco de arritmias graves durante o posiciona- mento do CAP e que precauções devem ser ado- tadas. O posicionamento do CAP com o paciente em decúbito elevado (sentado) parece diminuir a incidência de arritmias mais graves, e o uso pro- filático de lidocaína não demonstrou reduzir de modo significativo a incidência das mesmas. As lesões estruturais decorrentes do mau posicionamento ou trauma causado pelo cate- ter geralmente são achados de necrópsia. En- contram-se lesões descritas na valva pulmonar (petéquias, perfurações), valva tricúspide, pare- de atrial, ventricular e da artéria pulmonar. As lesões em valva tricúspide podem ocorrer em 17% dos casos,24 e o trombo mural induzido por inflamação ou infecção de um vaso pode estar presente em mais de 30% das vezes.25,26 Embora não existam dados disponíveis para avaliar qual a importância clínica dessas lesões, elas certa- mente podem levar ao aumento da morbidade. O mau posicionamento do CAP deve ser sus- peitado quando as curvas de pressões não apre- sentarem o padrão adequado para aquele local do trajeto ou após a passagem, pela verificação da radiografia de tórax de controle (Figura 7.2). Um estudo relatou que 2,6% dos CAPs não pu- deram ser locados na artéria pulmonar.26 Entre- tanto, a real incidência do insucesso em posicio- nar adequadamente o CAP é desconhecida. FiGURa 7.2 CAP introduzido profundamente na perif- eria da artéria pulmonar, causando infarto distal. Em algumas situações, o posicionamento do CAP pode ser mais difícil, como nos quadros de baixo débito cardíaco (curvas menos expressivas e fluxo mais lento), insuficiência tricúspide ou dilatação importante de câmaras cardíacas direi- tas (nas duas últimas situações por dificuldade de progressão e possibilidade de formação de alças). A elevação da cabeceira ou o posiciona- mento em decúbito lateral esquerdo podem au- xiliar na realização adequada do procedimento. Perfuração cardíaca é complicação rara, mas extremamente grave por resultar em tampona- mento cardíaco. Geralmente, ocorre em pacien- tes submetidos à cirurgia de revascularização miocárdica e/ou com infarto do miocárdio re- cente e extenso. Além da presença de miocár- dio mais delgado e friável pelo infarto, o uso de solução de cardioplegia durante a cirurgia pode tornar o cateter mais rígido. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 88 complicações durante a permanência do cap A incidência de infecção relacionada ao CAP é menor que a encontrada com o uso de outros tipos de cateteres venosos centrais. Na década de 1970, a incidência de sepse relacionada ao CAP era de 2%, e os relatos mais recentes apontam um índice de 0% a 1%.27 A melhor estratégia para prevenir infecção relacionada a cateter consiste em técnicas de assepsia e antissepsia adequadas, assim como a retirada mais precoce possível. A incidência de bacteremia relacionada ao CAP varia de 1% a 6%. A contaminação do sítio de punção pode chegar a 17%, sendo que a in- fecção relacionada ao cateter oscila entre 0,7% e 11,4%.27-34 Acredita-se que o aparecimento de infecção relacionada ao cateter aumente signi- ficativamente após o 3o e o 4o dia de cateteri- zação, que pode continuar aumentando com o decorrer do tempo de permanência. Lesões endocárdicas não infecciosas são en- contradas em até 90% das necrópsias de pacien- tes que estavam utilizando CAP. A incidência de endocardite infecciosa é desconhecida, exis- tindo relatos de incidência menor que 3%.27 Apesar de a maioria das arritmias ocorrer du- rante o posicionamento do CAP, elas são decor- rentes da irritação mecânica causada pelo cateter e podem ser persistentes, demandando a remo- ção do mesmo. Muitas vezes, as arritmias são secundárias ao retorno parcial do cateter para dentro do ventrículo direito ou pela formação de alças dentro dele. Nessas situações deve-se pro- ceder ao reposicionamento do cateter ou mes- mo recuá-lo com o balonete desinflado até que a ponta do mesmo se posicione no átrio direito. Infarto pulmonar pode acontecer durante a permanência do CAP quando ocorre migração distal do cateter ou permanência do balão in- suflado por longos períodos. Há relato de inci- dência entre 0,1% e 5,6%.6,21,35-39 A incidência de rotura de artéria pulmonar varia de 0,034% a 1,5%. Nesses casos deve ser realizada toracotomia de urgência, sendo que a mortalidade nesses casos é elevada, em torno de 45% a 70%.3,6,40-44 Os prováveis mecanismos envolvidos nessa complicação são os seguintes: Insuflação do balão causando lesão endo- telial da íntima, com consequente rotura da parede vascular durante as medidas da pressão de oclusão da artéria pulmonar. Migração distal do cateter durante a des- insuflação do balonete, levando à perfura- ção da artéria através da sua extremidade. Insuflação excêntrica do balão fazendo com que a extremidade do cateter se projete para além dele. Nessa situação, durante a insuflação do balão, a extremi- dade do cateter pode ser pressionada contra a parede (Tabela 7.3). Tabela 7.3 fatores de risco para rotura da artéria pulmonar. idade maior que 60 anos: vasos com elasticidade reduzida Hipertensão pulmonar: localização mais periférica do cateter para se obter leituras da pressão de oclusão migração distal do cateter é maior na presença de pressões maiores de artéria pulmonar as paredes dos vasos podem apresentar alterações degenerativas circulação extracorpórea: migração distal do cateter por esvaziamento das câmaras cardíacas e manipulação do coração cardioplegia por hipotermia endurecendo o cateter Hipotermia anticoagulação Uso crônico de corticosteroides Lavagem do cateter (flushing) em posição de oclusão Doença valvar mitral Capítulo 7 CoMplICaÇÕES Da MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa CoM CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 89 Essa complicação geralmente manifesta-se com hemoptise, muitas vezes maciça, exigin- do medidas de emergência (intubação seletiva, broncocospia ou abordagem cirúrgica). Pseudoaneurisma da artéria pulmonar é uma complicação tardiada rotura dessa ar- téria. Ocorre quando há tamponamento da artéria pulmonar, pela formação de coágulo, e contida pelas estruturas vizinhas. O desen- volvimento do pseudoaneurisma ocorre após o procedimento, sendo diagnosticado geral- mente na segunda semana de evolução. Ocor- re ressangramento em 30% a 40% dos casos, com mortalidade de 60% a 70%. Deve-se sus- peitar de formação de pseudoaneurisma quan- do se observa na radiografia de tórax uma área densa, localizando-se próxima à ponta do ca- teter ou na posição em que ele estava situado. O diagnóstico definitivo é feito por tomografia computadorizada de tórax e pode ser confir- mado por angiografia. Existem relatos de trombos formados na ponta do cateter, em torno dele ou em outros pontos de contato do mesmo com o endocár- dio, em valvas e até nas veias de acesso.28,37 Os cateteres revestidos por heparina parecem di- minuir a incidência dessa complicação, embora possam induzir trombocitopenia. Em pacientes de alto risco (estados de hipercoagulabilidade, inserção traumática ou monitoração prolonga- da) sugere-se anticoagulação sistêmica. complicações decorrentes da retirada do cap e do introdutor A maioria das complicações mencionadas anteriormente resulta apenas de relatos de ca- sos e da experiência pessoal de equipes médicas e de enfermagem, existindo poucos dados dis- poníveis na literatura médica.45 O nó do CAP tem maior probabilidade de ocorrer quando se formam alças dentro das câmaras cardíacas. Geralmente ocorrem devi- do ao fato de se introduzir e tracionar o cate- ter repetidas vezes, na tentativa de melhorar o posicionamento ou para obter uma curva mais fidedigna (Figura 7.3). Na maioria das vezes o nó acontece no átrio ou ventrículo direito, es- pecialmente quando dilatados ou com insufici- ência tricúspede associada, mas podem ocorrer também na artéria pulmonar ou, mais rara- mente, na veia cava. Essa complicação parece ser mais frequente quando a artéria pulmonar esquerda é cateterizada, pois o ramo do lobo in- ferior esquerdo apresenta trajeto mais vertical, aumentando a possibilidade de o cateter dobrar sobre si mesmo. FiGURa 7.3 Nó formado junto ao tronco braquiocefáli- co durante a retirada de um CAP. Havia uma trombose venosa no local como fator predisponente. Pode-se prevenir a formação de nó evitando- -se avançar o cateter além das distâncias espe- radas para que se atinja a entrada do ventrículo direito e da artéria pulmonar. Previne-se a ocorrência de lesões estruturais na retirada do CAP, certificando-se de que o balão encontra-se desinflado antes de iniciar a remoção e a manipulação do cateter. A maior Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 90 experiência do operador é considerado fator de redução dessas complicações.45 A embolia gasosa pode ocorrer durante a inser- ção, utilização ou remoção do CAP e, dessa for- ma, assim como em qualquer cateterização venosa central, o cateter deve ser retirado com o paciente em decúbito dorsal e/ou posição Trendelenburg.20 A maioria das ocorrências de embolia gasosa é relacionada ao uso e à manutenção do cateter, e não devido à sua retirada. A abertura de cone- xões ou fratura do cateter/conexão é responsá- vel pela maioria dos episódios.20 Eventos menos comuns, mas de grande importância, são os ca- sos de embolia gasosa causados por: introdutor com válvula defeituosa, man- tido após a retirada do CAP; pertuito deixado pelo introdutor (geral- mente de grande calibre), quando ele é substituído por cateter venoso comum, utilizando-se fio-guia; pertuito deixado pelo introdutor, após sua retirada. A embolia gasosa representa fator de alta mor- bimortalidade e é mais frequente quando o pa- ciente respira espontaneamente, como já relatado. Pode ser evitada tomando-se as seguintes medidas: substituição ou retirada do introdutor tão logo possível; sempre posicionar o paciente em decúbito de Trendelenburg para troca ou retirada do introdutor; oclusão imediata do orifício de punção com um curativo impermeável. prevenção de complicações Algumas recomendações são importantes para o uso com segurança do cateter de artéria pulmonar (Tabela 7.4).1 Tabela 7.4 recomendações para o uso seguro do cateter de artéria pulmonar. prevenção de complicações associadas à inserção do cateter operadores inexperientes devem ser sempre supervisionados Manter o paciente imóvel. Se necessário, usar sedação ou restrição técnica rigorosamente estéril Utilizar o acesso venoso central com o qual possua maior experiência, respeitando as contraindicações que possam existir e seguindo as indicações técnicas Sempre que possível, optar acesso pela veia jugular interna direita, que costuma apresentar maior facilidade para o posicionamento adequado do cap e de punção mais segura (Figura 7.4) examinar cuidadosamente a radiografia de tórax após o procedimento, especial para identificar presença de pneumotórax e outras complicações, além de verificar a posição do cateter prevenção de rotura do balão Sempre inflar o balão gradualmente. parar de inflar ao encontrar resistência Manter o menor número possível de ciclos inflar/desinflar não reutilizar cateteres considerados descartáveis (uso único) Usar gás carbônico como meio de inflar o balão, se existir suspeita de comunicação entre câmaras direita e esquerda >> continuA Capítulo 7 CoMplICaÇÕES Da MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa CoM CatEtER DE aRtÉRIa pulMoNaR 91 continuA >> Tabela 7.4 recomendações para o uso seguro do cateter de artéria pulmonar. prevenção de arritmias Manter o paciente continuamente monitorado com ecg durante a inserção e a manutenção do cap equipamentos para a realização de reanimação cardiopulmonar; Desfibrilação e colocação de marca-passo temporário devem estar sempre disponíveis durante a passagem e a manipulação do cap cuidado ao cateterizar pacientes com miocárdio isquêmico ou com bloqueio de ramo esquerdo. Se necessário, utilize drogas antiarrítmicas ou marca-passo temporário não introduzir o cateter além do átrio direito com o balão desinflado evitar manipulação excessiva do cateter observar a existência de traçados intermitentes de pressão de ventrículo direito quando o cateter supostamente estiver em posição de artéria pulmonar, pois o mau posicionamento poderá ser causa de arritmias ventriculares prevenção de lesões da vasculatura e do parênquima pulmonar Manter o balonete inflado para medida da pressão de oclusão de artéria pulmonar o menor tempo possível, especialmente em pacientes com hipertensão pulmonar ou outros fatores de riscos para rotura de artéria pulmonar assegurar que o balonete esteja desinflado após cada medida a insuflação do balonete deve ser feita de maneira gradual e interrompida tão logo se observe mudança no traçado pressórico para pressão de oclusão de artéria pulmonar – curva “amortecida” ou “achatada” Se a pressão de oclusão da artéria pulmonar (poap) for obtida inflando-se o balonete com um volume significativamente menor que sua capacidade, tracionar o cap até uma posição em que seja necessário o preenchimento total ou quase total do balonete para se obter a poap, mantendo-o na posição adequada Fazer a revisão da ponta do cap. o amolecimento do cateter com o passar do tempo, as manipulações repetidas e o movimento cardíaco provocam quase que inevitavelmente a migração distal do cateter não utilizar líquidos para inflar o balonete. eles podem dificultar ou impedir o esvaziamento, e sua incompressibilidade pode aumentar a pressão aplicada sobre a parede vascular Hemoptise é um sinal grave e necessita de avaliação diagnóstica imediata evitar infundir soluções pelo cateter com altas pressões, especialmente se o novo “achatamento” da curva puder ser atribuído à presença de coágulos nunca infundir durante a medida da poap prevenção de formação de nós e ocorrência de lesões estruturais não progredir com a introdução do cateter se a entrada do átrio, ventrículo direito ou artéria pulmonar não forem alcançadas com distâncias habitualmente suficientes e marcadas para o cap. Se as distâncias forem excedidas e o cateter não puder ser removido facilmente, não forçar e avaliar sua posição por fluoroscopia evitar a cateterização prolongada nunca retirar ou tracionar o cateter com o balonete inflado o introdutor deve ser retirado com o paciente em decúbito dorsal e posição de trendelemburg, especialmente se a respiração for espontânea ocluir o orifício de punção imediatamente com curativo impermeável >> continuAção adaptado de: Voyce SJ, Urbach D, Rippe JM. Pulmonary artery catheters. In: Rippe JM, Irwin RS, Alpert JS, Fink MP, editors. Int Care Med Boston 1991:664.6 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 92 reFerênciAs 1. Fernandes Junior CJ, Machado FS, Silva E, Kno- bel E. Monitorização hemodinâmica, transporte de oxigênio e tonometria. In: Knobel E. (editor). Condutas no paciente grave. 3ª ed. São Paulo: Editora Atheneu; 2006. p. 79-109. 2. Taylor RW, Palagiri AV. Central venous cath- eterization. Crit Care Med. 2007;35(5):1390-6. 3. 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Jeremy Swan e William Ganz, para registrar os parâmetros hemodinâmicos na artéria pulmonar, com a utilização de trans- dutores e monitores multiparamétricos.3-9 Esse cateter tem a capacidade de medir as pressões do lado direito do coração, pressão venosa central (PVC) e, no lado esquerdo, pressão de oclusão da artéria pulmonar (“en- cunhamento”), recolher amostras de sangue venoso misto da artéria pulmonar, bem como estimar o débito cardíaco (DC) pela técnica introdução 8 de termodiluição, quando utilizado com um monitor multiparamétrico e transdutores de pressão eletrônicos.10-15 O conhecimento de parâmetros fisiológi- cos com o uso do CAP permitiu o tratamento mais racional dos estados de choque, infarto do miocárdio, insuficiência respiratória agu- da, quadros sépticos e outras condições que ocorrem nos pacientes graves.6-15 A assistência de enfermagem a pacientes com monitoração hemodinâmica invasiva pode ser dividida em três momentos: 1. preparo do material necessário para a realização da monitoração; 2. assistência durante a mesma; 3. manutenção e cuidados durante a mo- nitoração. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 98 A monitoração hemodinâmica invasiva com- preende passagem do cateter de Swan-Ganz e cateterização arterial, que também pode ser utili- zada para a monitoração do débito cardíaco pela técnica de análise de contorno de pulso. monitorizAção de pressão ArteriAl invAsivA A pressão arterial é um determinante im- portante de fluxo sanguíneo. A medida pode ser realizada por método não invasivo; porém pacientes em choque frequentemente possuem uma associação entre vasoconstrição e baixo DC, o que dificulta a medida da pressão arterial por técnica não invasiva. Por isso a cateteriza- ção arterial é o método de eleição para a medida da pressão arterial em pacientes instáveis.7-15 A pressão intra-arterial é monitorada dire- tamente através da introdução intra-arterial (aproximadamente 5 cm a 6 cm) de um cateter flexível de polivinil. Os acessos para a cateteri- zação arterial são as artérias radiais, pediosas, axilares e femorais. A artéria radial é mais fre- quentemente utilizada devido à sua estabilida- de, melhor visualização de sangramento perica- teter e pela boa circulação colateral existente na mão (arco palmar).5-15 Um ponto importante a ser observado, du- rante a mensuração da pressão arterial média invasiva, é a curva de pressão, que pode se apre- sentar alterada devido a: alterações morfológicas em decorrência da obstrução do cateter; queda da pressão na bolsa pressurizadora; ar no sistema de monitoração ou mesmo por queda da pressão arterial. O enfermeiro tem que estar atento a essas al- terações e saber identificá-las e corrigi-las. Além da morfologia das curvas, outros pon- tos deverão ser observados para adequada as- sistência de enfermagem ao paciente monitora- do, conforme demonstra a Tabela 8.1. Tabela 8.1 assistência de enfermagem ao paciente monitorado: aspectos que devem ser observados. Monitorar alarmes durante todo o tempo, a fim de detectar desconexão do sistema, queda ou elevação da pressão Monitoração frequente da perfusão, do pulso, da coloração, da temperatura e da movimentação do membro cateterizado Manter o membro restrito para diminuir a movimentação intravascular do cateter, a fim de evitar a irritação da parede do vaso nivelar os transdutores de pressão de artéria pulmonar e pressão venosa central com a linha axilar média (zero hidrostático – eixo flebostático) (ver capítulo 9 – pressão arterial: abordagem invasiva e não invasiva) zerar as pressões em relação à atmosfera o cateter deverá ser removido assim que terminar a indicação de seu uso, ou desenvolver complicações relacionadas ao mesmo Manter permeabilidade do cateter através de fluxo contínuo de solução salina, mantendo a bolsa pressurizadora com 300 mmHg as conexões devem estar ajustadas, prevenindo retorno sanguíneo pela extensão certificar-se do funcionamento adequado do sistema de fluxo para lavagem do cateter Monitorar frequentemente as extensões do cateter, transdutores e dânulas para verificar a presença de bolhas de ar e eliminá-las remover resíduos de sangue nas extensões do cateter e dânulas realizar curativos diários no local de inserção do cateter trocar extensões, dânulas e transdutores a cada 72 horas Capítulo 8 aSSIStÊNCIa Da ENFERMaGEM À MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa 99 FiGURa 8.1 Sistema fechado com seringa e válvula unidirecional para aspirar solução e injetá-la para estimar o débito cardíaco (DC). monitorizAção com cAteter de ArtériA pulmonAr Quanto à assistência de enfermagem ao pa- ciente com cateter de Swan-Ganz, deve-se res- saltar a existência de dois métodos de mensura- ção do DC, com princípios semelhantes, porém com diferentes tecnologias: manual (ou intermitente), no qual se realizam as estimativas de débito cardía- co pela infusão de solução glicosada em temperatura ambiente ou gelada, pela via proximal do cateter; semicontínuo, que apresenta filamento de cobre inserido no corpo do cateter, emitindo pequenas ondas de energia na extremidade distal do cateter, propician- do a variação de temperatura do sangue, de forma ininterrupta, permitindo assim estimar o débito cardíaco. método intermitente A estimativa do débito cardíaco por termodi- luição por bolus é feita mediante a injeção de 10 mL de solução glicosada, em temperatura conhe- cida (temperatura ambiente ou resfriado), injeta- do na via proximaldo cateter de Swan-Ganz (átrio direito) utilizando o termistor para detectar a mu- dança resultante na temperatura sanguínea, que se encontra próximo à ponta do cateter. Constrói- -se a curva de termodiluição em relação ao tempo pela diferença de temperatura constatada no san- gue após realizar a infusão da solução injetada. O ponto mais distante da curva é o de menor tempe- ratura sanguínea [Ver Capítulo 4 – Descrição do cateter de artéria pulmonar (Swan-Ganz)]. O débito cardíaco é inversamente proporcio- nal à área abaixo da curva temperatura versus tempo. A acurácia desse método depende da exatidão com que a quantidade e a temperatura do injetado são conhecidas. Antes de iniciar o procedimento, deve-se ve- rificar se a conexão entre o cabo do monitor e a via do termistor do cateter estão adequadas. Co- nectar o termômetro do monitor que mensura a temperatura da solução no local mais próximo do cateter (Figura 8.1). Confirmar se o cateter está locado adequadamente ao verificar a presença da curva da pressão de artéria pulmonar no respeti- vo canal conectado na via distal do cateter. Para que a estimativa do débito cardíaco seja confiável, deve-se verificar a constante no mo- nitor e o recomendado pelo fabricante do cate- Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 100 ter, de acordo com o volume a ser injetado e a temperatura da solução. O bolus deve ser injetado de maneira rápida e contínua, em até 4 segundos pela via proximal do cateter, ao final da expiração e precedendo a inspiração, tanto em ventilação mecânica ou respiração espontânea. A solução é injetada no átrio direito, passa pelo ventrículo direito, atin- gindo a artéria pulmonar. Para diminuir o risco de contaminação pela injeção do bolus, pode-se utilizar o sistema CO- -Set© (Figura 8.2). FiGURa 8.2 Sistema CO-Set©. A temperatura de base do paciente é esta- belecida e registrada no computador antes da injeção. Durante a medida, a temperatura do sangue misturado com a solução indicadora é identificada pelo sensor (termistor) inserido no cateter e identificada no computador. A curva de termodiluição será construí- da pelo diferencial da temperatura: o tempo do sangue resfriado estará na linha horizontal (abscissa) e a temperatura na vertical (ordena- da). O valor do débito cardíaco é inversamente proporcional à área formada pela curva, sendo o resultado apresentado de forma digital na tela do monitor (Figura 8.3). A solução injetável deve estar conectada a um equipo todo preenchido, e na extremidade deve ser colocada uma dânula com uma seringa de 10 mL, caso não se disponha do sistema CO-Set©. Para proceder à injeção do bolus da solução, deve-se abrir a dânula entre o injetável e a serin- ga, verificar se não há ar na seringa e certificar-se novamente do volume presente na seringa, que deve ser preciso. O DC só poderá ser estimado se a seringa para realizar o bolus estiver conectada no local correto, ou seja, na via proximal, com o volume predeterminado (5 mL ou 10 mL). FiGURa 8.3 Curvas de determinação do débito cardíaco. Capítulo 8 aSSIStÊNCIa Da ENFERMaGEM À MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa 101 Abrir a dânula da seringa para o cateter de forma a permitir a entrada da solução. Apoiar a seringa de forma segura e injetar rapidamente (até 4 segundos), de forma contínua, observan- do o monitor após cada injeção. Deve-se reali- zar no mínimo a injeção de três bolus, a fim de aumentar a acúracea e precisão para a estimati- va do débito cardíaco. Observar a mudança na temperatura durante a obtenção das curvas de termodiluição. As curvas do DC devem ser observadas com cuidado, pois elas demonstrarão a acurá- cia das medidas. Após realizar a infusão dos bolus, selecionar as curvas com maior seme- lhança e, em seguida, desprezar as curvas que são irregulares e que apresentam interferência. Com as curvas selecionadas será possível rea- lizar o cálculo do DC médio estimado.15 O cateter poderá permanecer por até 96 ho- ras para reduzir as chances de complicações. Deverá ser removido assim que os objetivos com a monitoração sejam alcançados. Para manter a permeabilidade do cateter pelo fluxo contínuo de solução salina, utiliza-se a bol- sa pressurizadora com 300 mmHg de pressão. As conexões devem estar ajustadas, para prevenção do retorno sanguíneo pela extensão.5-15 Deve-se verificar frequentemente o funcio- namento adequado do sistema de fluxo para lavagem do cateter, bem como as extensões do cateter, transdutores e dânulas. Sempre que se detectar a presença de bolhas de ar no sistema, as mesmas devem ser prontamente elimina- das, pois interferem na acurácia e precisão da mensuração das pressões. Os resíduos de sangue presentes nas exten- sões do cateter e dânulas devem ser removidos para diminuir o risco de complicações, como infecção, embolização e obstrução do sistema.15 Os curativos no local de inserção do cateter devem ser realizados diariamente e pode-se utilizar películas transparentes impermeáveis com gluconato de clorexidina. A solução salina deve ser trocada a cada 24 horas, e as extensões, dânulas e transdutores devem ser trocados a cada 72 horas.15 O cateter deve ser fixado para evitar deslo- camentos acidentais, os quais podem induzir o desenvolvimento de arritmias. método semicontínuo A assistência de enfermagem aos pacientes com monitoração semicontínua é, basicamente, a mesma prestada aos pacientes com monitora- ção intermitente. Deve-se, no entanto, atentar para a correta calibração da saturação venosa mista de oxigênio, visto que os cateteres de DC semicontínuo apresentam o acoplamento da fi- bra óptica. Esta permite a monitoração contínua da saturação venosa mista de oxigênio. FiGURa 8.4 Monitor Vigilance II© – monitoração semi- contínua do débito cardíaco utilizando cateter de arté- ria pulmonar. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 102 segurAnçA nA monitorizAção com cAp Recomenda-se alguns procedimentos de se- gurança durante a monitoração com o cateter de artéria pulmonar, descritos na Tabela 8.2. Tabela 8.2 segurança na monitoração com cap: recomendações gerais. não desligar o alarme do paciente quando houver risco de comprometimento da segurança do paciente não é recomendado utilizar as vias proximal e distal do cap para infusão de drogas, medicamentos. existem cateteres de artéria pulmonar que possuem vias exclusivas para a infusão de medicamentos não utilizar em concomitância com outro cateter pulmonar pelo risco da formação de nós ao se conectar outros equipamentos, deve-se ter certeza de que todos estejam devidamente aterrados, para não comprometer o isolamento elétrico. existe a possibilidade de choque elétrico para o paciente Módulo óptico deve ser manuseado com o máximo cuidado não obstruir as aberturas de ventilação do monitor inspecionar periodicamente os cabos do equipamento para certificar-se de que estejam em bom estado O enfermeiro deve ter uma visão holística para o paciente grave submetido ou não a mo- nitoração hemodinâmica. Não se deve tratar so- mente os valores numéricos e os equipamentos, mas deve-se ter o cuidado de verificar a maneira como estão sendo usados o equipamento e os sistemas de monitoração, e também correlacio- nar os aspectos clínicos do paciente com os da- dos obtidos com a monitoração. monitorizAção contínuA dA svo 2 _ cAlibrAção dA FibrA ópticA Para obtenção de hemoglobina e hemató- crito do paciente, deve ser coletada amostra de sangue venoso através da punção de veias periféricas ou por meio da via proximal ou do introdutor do cateter de Swan-Ganz. Caso seja utilizada a via proximal ou a via do introdutor, deve-se proceder à desinfecção da tampa da via de coleta. Utiliza-se uma seringa de 5 mL, aspi- ra-se e despreza-se os primeiros 3 mL aspirados e na sequência coleta-se a amostra de sangue em uma seringa ou diretamente nos tubos secos, sendo então encaminhado para o laboratório.Após realizar a coleta, deve-se lavar a tampa com 5 mL de solução fisiológica, usando uma seringa e injetando a mesma solução na via uti- lizada através do sistema de fluxo contínuo. Para interpretação da saturação venosa mis- ta de oxigênio é necessário realizar a coleta da amostra de sangue na via distal do catater de Swan-Ganz. Procede-se a desinfecção da tampa da via e com uma seringa de 5 mL aspira-se 3 mL de sangue num intervalo de 1,0 mL a 1,5 mL por min, e despreza-se a amostra inicialmente co- letada. Em seguida, conecta-se outra seringa de 5 mL ou 3 mL e coleta-se a amostra de sangue a ser encaminhada ao laboratório, com cuidado, a uma velocidade de 1,5 mL a 2 mL de sangue por minuto. Após realizar a coleta da amostra de san- gue, lava-se a tampa com solução fisiológica, e depois com uma seringa infunde-se lentamente a solução salina na via conectada ao cateter com o sistema de pressurização. Capítulo 8 aSSIStÊNCIa Da ENFERMaGEM À MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa 103 recomendAções pArA retirAdA do cAp Nunca retirar o cateter com o balão insufla- do. Checar o sistema de fechamento e a integri- dade do balonete do balão diariamente através da insuflação e desinsuflação espontânea do mesmo. O paciente deve ser posicionado em decúbito dorsal, em Trendelemburg, estar mo- nitorado pelo eletrocardiograma (ECG) e oxi- metria de pulso do monitor multiparamétrico. Recua-se o cateter e observa-se o aparecimento da curva de átrio direito no canal do monitor correspondente à via distal. Aguarda-se 5 minu- tos com o paciente nessa posição para proceder à retirada do cateter, sendo que depois o mesmo deve ser mantido nessa posição por 30 minutos. Realiza-se a oclusão do orifício de punção com curativo impermeável. É indicado que o CAP seja retirado juntamente com o introdutor. Se for necessária a manutenção de acesso venoso central, recomenda-se a troca do introdutor por um cateter central de curta permanência, que deve ser realizada com fio-guia. montAgem do sistemA de monitorizAção hemodinâmicA Reunir o material para punção: barreiras de proteção, kit com cateter de Swan- -Ganz 7 F, introdutor do cateter com di- latador venoso 8 F e kit de monitoração invasiva. Colocar a solução fisiológica no equipo que acompanha o kit de mo- nitoração invasiva e adaptar à bolsa pres- surizadora, posicionando todo o sistema em um suporte para soluções a serem infundidas (Figura 8.5). Providenciar gorro, máscaras, óculos de proteção, avental estéril, clorhexidine alcoólico 0,05% e degermente 2%, anes- tésico local (lidocaína 2% sem vasocons- tritor), seringas descartáveis de 10 mL e 20 mL, agulhas descartáveis (40×12; 25×7), fios de náilon 3.0, lâmina de bis- turi, equipo de soro, torneiras de 3 vias, 3 campos estéreis grandes (Figura 8.6). No suporte de soluções a serem infun- didas, fixar os transdutores e adaptar os FiGURa 8.5 Kit com introdutor do CAP e cateter de Swan-Ganz. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 104 que serão utilizados, identificando suas vias (pressão arterial, pressão de artéria pulmonar e pressão venosa central). In- sufla-se a bolsa de pressão a 300 mmHg. Através do sistema de fluxo contínuo, tracionar o dispositivo elástico do siste- ma para irrigar todo o prolongamento do(s) equipo(s). O kit de monitoração contém todos os dispositivos para a irrigação contínua pressurizada. Prepara-se a solução a ser utilizada no sistema sob pressão (solu- ção fisiológica). Esse sistema de irriga- ção sob pressão de aproximadamente 300 mmHg fornece um fluxo de 3 mL/h para o cateter (Figura 8.7). Conecta-se o cabo do transdutor de monitoração ao módulo do monitor. Em seguida obtém-se o nível “zero hidrostático” na altura da linha axilar média do paciente, nivelando as dâ- nulas do transdutor (Figura 8.8). Em seguida obtém-se o “zero atmosféri- co” do monitor, mantendo a “torneira” com a via aberta para o meio ambiente FiGURa 8.6 Kit com material para passagem de CAP. e com a via fechada para o paciente, registrando-se o zero no monitor. (Ver Capítulo 9 – Pressão arterial: aborda- gem invasiva e não invasiva). Estende-se o campo sobre uma mesa au- xiliadora: expõe-se o kit com introdutor, seringas, agulhas, equipo de soro, fio de algodão, lâmina de bisturi, torneirinhas, 2 campos estéreis, gazes estéreis e anes- tésico (frasco estéril). A embalagem do CAP só deve ser aberta após o médico ter realizado a inserção do introdutor, pois caso não se obtenha sucesso na punção, o cateter não será desperdiçado. Após a inserção do introdutor, procede- -se à abertura da embalagem do cateter de Swan-Ganz que é oferecido ao médi- co operador. O enfermeiro que auxilia o procedimento deve estar atento para as verificações da permeabilidade das vias do cateter, integridade do balonete, do funcionamento adequado do sistema de transdutores de pressão e pela colocação do invólucro de plástico (“camisa”) que protegerá o cateter (Figura 8.9). Capítulo 8 aSSIStÊNCIa Da ENFERMaGEM À MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa 105 FiGURa 8.7 Sistema de pressurização (bolsa de pressurização). FiGURa 8.8 Eixo flebostático: está localizado no cruzamento da linha axilar média e no 4o espaço intercostal. FiGURa 8.9 Teste de integridade do balonete e avaliação do invólucro plástico (“camisa”). Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 106 Realiza-se a conexão dos cabos do Swan- -Ganz com o sistema de fluxo contínuo, previamente conectado à bolsa pressuri- zadora e ao monitor multiparamétrico com os dados de pressões selecionados adequadamente (Figura 8.10). Através do intra-flow do sistema de fluxo con- tínuo, traciona-se o dispositivo elástico para irrigar todas as vias do cateter, utili- zando-se um kit para cada via. Deve-se fixar corretamente o cateter no ombro do paciente, sem utilizar fitas adesivas no invólucro (“camisa”) do ca- teter, logo depois retira-se todo o mate- rial utilizado, desprezando-se os perfu- rocortantes em local próprio e o restante em lixo infectante (Figura 8.11). Pinças e tesouras devem ser encaminha- das à central de materiais para limpeza e esterilização. Após o término do pro- cedimento, realiza-se a radiografia de tó- rax para confirmação do posicionamen- to do cateter de Swan-Ganz e verificação de eventual complicação. FiGURa 8.10 Monitor de débito cardíaco e saturação venosa contínuos; e interface com monitor multiparamétrico. FiGURa 8.11 Fixação do CAP. Capítulo 8 aSSIStÊNCIa Da ENFERMaGEM À MoNItoRIZaÇÃo HEMoDINÂMICa 107 reFerênciAs 1. Alspach JG. Core curriculum for critical care nursing. 6th ed. St. Louis: Saunders Elsevier; 2006. 2. Daily EK, Schroeder JS. Techniques in bedside hemodynamic monitoring. 5th ed. St. Louis: Mosby; 1994. 3. Darovic GO. Hemodynamic monitoring: inva- sive and noninvasive clinical application. 3rd ed. Philadelphia: Saunders; 2002. 4. Headley JM. Invasive hemodynamic monitor- ing: applying advanced technologies. Crit Care Nurs Q. 1998;21(3):73-84. 5. Headley JM. Puzzled by continuous cardiac output monitoring? Nursing. 2006;27(1):32aa- 32bb,32dd. 6. Headley JM, Giulinano K. Special pulmonary procedures; continuous mixed venous oxygen saturation monitoring. In: Carlson KK, Lynn- McHale DJ. (editors). AACN procedure manual for critical care. 5th ed. 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Woods SL, Froelicher ES, Motzer SU, Bridges EJ. Cardiac nursing. 5th ed. Philadelphia: Lip- pincott Williams & Wilkins; 2005. 15. Knobel E. Terapia Intensiva: enfermagem. São Paulo: Atheneu; 2006. prEssÃo artErial: abordaGEm iNvasiva E NÃo iNvasiva9 José Marconi Almeida de Sousa Ana Paula Metran Nascente O DC, por sua vez, corresponde ao produto do volume sistólico (VS) e da frequência car- díaca (FC). Portanto, a PA é diretamente proporcional a todas essas variáveis.5 A RVS é calculada pela seguinte fórmula: paM = pressão arterial média. paD = pres- são de átrio direito. prEssÃo artErial: abordaGEm iNvasiva E NÃo iNvasiva A queda da pressão arterial (PA) já foi con- siderada o primeiro sinal de choque, porém hoje está bem definido que muitos outros si- nais de choque a antecedem.1 Em geral, as medidas não invasivas da PA são confiáveis, porém sua leitura é mais baixa, cerca de 10 mmHg a 20 mmHg, que a respec- tiva medida direta invasiva. A cateterização arterial é um procedimento que deve ser rea- lizado em todo paciente que está utilizando drogas vasoativas. A medida fidedigna da PA obtida por esse método permite o ajuste ade- quado das drogas vasoativas, evitando-se a sub ou superdosagem.2-4 A PA consiste no produto do débito car- díaco (DC) e resistência vascular sistêmica (RVS). introdução 9 PA = DC x RVS DC = VS x FC RVS = PAM – PAD DC Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 112 O fluxo sanguíneo (Q) é definido pela lei de Poiseuille que correlaciona a pressão intravas- cular (P), o raio do vaso (r), o comprimento do vaso (L) e a viscosidade do sangue (n). indicAções Há duas indicações primárias para a medida invasiva da pressão arterial: • necessidade de mais de 4 coletas de san- gue arterial para exames em 24 horas; • necessidade de medida contínua da pressão arterial.6-8 escolhA A ArtériA A escolha da artéria a ser cateterizada de- pende de alguns critérios, como palpação de pulsos, circulação colateral, estado hemodi- nâmico geral, presença de infecções na pele, anatomia particular individual, conforto para o paciente, proximidade de equipamentos de monitoração. Quanto mais central a artéria, menor será o valor da pressão arterial sistólica aferida; já a pressão arterial diastólica apresenta queda dos valores aferidos quanto mais distal estiver do coração.9,10 Porém a pressão arterial média (PAM) é similar em qualquer local, sendo, por- tanto, avaliada de forma invasiva. As artérias mais comumente cateterizadas, em ordem decrescente, são: 1) radiais; 2) femo- rais; 3) axilares; 4) pediosas e 5) braquiais.2 equipAmentos e princípios Os equipamentos necessários para a medida da pressão arterial são: cateter intravascular apropriado; transdutor de pressão; sistema de flush contínuo (pressurizado a 300 mmHg); equipamento de monitoração eletrônico (cabo, monitor com amplificador, osci- loscópico-vídeo e gravador). Cateter de teflon ou poliuretano são recomen- dados com um tamanho máximo de 18 G (G = Gauge) para artéria femoral e axilar, e de 20 G para as demais artérias. Deve-se dar preferência a cate- ter com comprimento máximo de 3 cm a 5 cm. Deve-se usar um sistema de fluxo contínuo de 3 mL/h acoplado a uma valva para fluxo rápido com solução salina sob pressão. Com esse tipo de sistema pode-se dispensar a adição de heparina (2.500 UI/500 mL de solução salina), que propi- ciaria a manutenção da perviabilidade do cateter. As alterações da pressão intravascular são transmitidas através dos elementos hidráuli- cos ao transdutor, que converte sinais mecâni- cos em elétricos, que por sua vez são amplifi- cados e processados pelo monitor. A onda de pressão é apresentada pelo vídeo osciloscópico e acompanhada de registro digital. técnica de punção arterial Deve-se seguir os passos abaixo relacionados: realizar toda a preparação habitual para um procedimento cirúrgico; limpar o local a ser puncionado com clorhexidine ou iodopovidona degerman- te, seguida da respectiva solução alcoólica; realizar anestesia local com lidocaína sem vasoconstritor, em pacientes conscientes, ou sob sedação/analgesia contínua; proceder à punção arterial direta, evi- tando transfixá-la, usando como parâ- metro a palpação do pulso. No caso de punção de vasos profundos, o procedi- mento é facilitado com uso da técnica Q = p x r4 8 x n x L Capítulo 9 pRESSÃo aRtERIal: aBoRDaGEM INVaSIVa E NÃo INVaSIVa 113 de Seldinger, que também pode ser utilizada quando há dificuldades na punção. O emprego do ultrassom tem contribuído e facilitado decisivamente para o sucesso desse procedimento; após punção com sucesso, deve-se co- nectar o cateter com o sistema de fluxo contínuo, que por sua vez está acoplado ao transdutor. Um cabo fará a conexão do transdutor com o monitor; fixar o cateter a fim de evitar a perda do acesso; calibrar o sistema – “zeragem” atmos- férica (verificar se não há bolhas de ar no sistema, manter o sistema fechado para o paciente e abrir o mesmo para o meio ambiente, “zerando” o monitor si- multaneamente) e obter o “zero” hidro- stático (colocar o transdutor de pressão na altura da linha axilar média, quarto espaço intercostal – eixo flebostático); obedecidos todos esses passos, a pressão arterial média invasiva poderá ser aferida de forma fidedigna (Tabela 9.1). Tabela 9.1 aspectos básicos da cateterização. preparo do paciente instrua o paciente sobre os aspectos técnicos do procedimento, garantindo a sua colaboração proceda à sedação se houver dúvidas quanto à cooperação do paciente posicione o paciente de forma a facilitar o acesso ao local de punção Escolha do lo- cal/ antissep- sia e assepsia Sempre que possível, utilize a artéria radial, realizando o teste de allen (Figura 9.1) para avaliar a circulação colateral da mão Utilizar sempre paramentação completa, incluindo gorro, máscara e avental estéril Utilizar a solução antisséptica degermante e, logo depois, a solução alcoólica correspondente Utilizar campos estéreis punção arterial e introdução de fio-guia confirmar que a punção foi feita de forma correta antes de colocar o fio-guia Quando não houver disponibilidade de kit para punção arterial deve-se utilizar agulha de punção (tipo Jelco©) e progredir o cateter através da agulha, sem movimentá-la conexão ao sistema de fluxo contínuo conectar o cateter ao sistema de fluxo notando o aparecimento da curva de pressão no monitor realizar a “zeragem” atmosférica e hidrostática corrigir possíveis causas de anormalidades na curva de pressão visualizada no monitor curativo, vigilância e troca do sistema Deve-se aplicar curativo seco e permeável junto ao cateter o aspecto da pele deve ser vigiado diariamente Se aparecer sinais flogísticos ou secreção purulenta, todo o sistema deve ser substituído, realizando punção em local diferente preferencialmente, o tempo máximo de permanência do cateter não deve ser superior a 5 dias Fazer exame físico diário para avaliar existência de complicações Kit de cateterização arterial componentes: cateter monolúmen Fio-guia agulha percutânea Seringa de 5 mL Xylocaína 2% s/v fap 20 mL Solução fisiológica 0,9% 250 mL Fr pvc compressa de gaze estéril com 10 unidades Luva estéril 7,5 agulha descartável 30 × 07 Mononylon 3.0 3-171 envelope Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 114 FiGURa 9.1 Cateter monolúmem artérial. aspectos específicos da artéria radial A artéria radial éo primeiro local de escolha e a mão não dominante deve ser preferida. Deve-se realizar previamente o teste de Allen modificado para verificar a presença de circula- ção colateral eficiente na mão. Esse teste consis- te na compressão mútua das artérias radial e ul- nar do mesmo membro até que se note palidez na palma da mão, após manobras da abertura e fechamento da mesma. A artéria ulnar é en- tão liberada, observando-se em quanto tempo a palma da mão volta a apresentar coloração nor- mal: se ocorrer em 7 segundos, considera-se o teste positivo (normal, circulação colateral efi- ciente); se ocorrer em 8 a 14 segundos, deve-se realizar novamente o teste, pois pode haver erro na técnica realizada; se ocorrer em 15 segundos ou mais, considera-se o teste anormal.2 A mão do paciente deve ser colocada em dor- soflexão (30º a 60º), evitando-se hiperabduzir o polegar para não ocorrer redução do pulso. Quando kit de cateterização arterial estiver disponível, utiliza-se a técnica de Seldinger para realizar esse procedimento. Esta técni- ca consiste no uso de fio-guia, introduzindo a agulha a 30º, e assim que se observar refluxo de sangue deve-se desconectar a seringa. Em se- guida, deve-se introduzir um fio-guia por den- tro da agulha, que por sua vez deve ser retirada em seguida. O cateter é introduzido através do fio-guia, que posteriormente é retirado. Quando se dispuser somente de agulha de punção arterial (Jelco©), esta fará o papel de guia. Deve-se então progredir no cateter atra- vés da agulha, que será retirado quando houver progressão completa do cateter. FiGURa 9.2 Manobra de Allen: é realizada pela com- pressão das artérias radial e ulnar ao mesmo tempo em que se abre e se fecha a mão, até que se torne páli- da. Depois, libera-se a compressão da artéria ulnar e observa-se quanto tempo demora para a normalização da perfusão, com o retorno da coloração normal. Artéria radial Artéria ulnar Arco volar superficial Arco volar profundo Capítulo 9 pRESSÃo aRtERIal: aBoRDaGEM INVaSIVa E NÃo INVaSIVa 115 FiGURa 9.3 Anatomia da artéria femoral e estruturas adjacentes. aspectos específicos da artéria femoral Esta é a artéria escolhida se houver falha na cateterização da artéria radial e deve ser conside- rada a primeira escolha nos casos com instabili- dade hemodinâmica e necessidade de droga vaso- pressora. A artéria femoral sofre menor variação de complacência quando comparada com outros locais de punção arterial. A punção deve ser feita após realização de ausculta da artéria (Figura 9.3). As complicações presentes com a punção da artéria femural são hemorragia retroperitoneal e perfuração de víscera intra-abdominal, po- rém são raras e atribuídas a técnica inadequada ou presença de hérnia de grande dimensão. Para proceder à punção, utiliza-se a técnica de Seldinger posicionando-se o paciente em decúbito dorsal; faz-se a tricotomia da região; identifica-se o pulso femoral pela palpação e punciona-se cerca de 5 cm abaixo da dobra inguinal (ligamento inguinal). O uso do ul- trassom pode ser muito útil no auxílio desse procedimento. Punciona-se a artéria manten- do a agulha com uma inclinação de 45º a 60º em relação ao plano da pele, sempre aspirando a seringa até refluir o sangue, quando então desconecta-se a agulha da seringa. Em segui- da, insere-se o fio-guia pela agulha, que é re- tirada na sequência. Com o fio-guia inserido, passa-se o dilatador para facilitar a introdução posterior do cateter, retira-se o mesmo e, final- mente, o cateter é inserido através do fio-guia. Este, então, é retirado para conexão imediata do cateter ao sistema de fluxo conectado ao transdutor de pressão. aspectos específicos da artéria axilar Essa artéria é escolhida quando houver falha na punção da artéria radial ou femural. É um local que apresenta grande circulação colateral. Há um risco maior de embolia gasosa nesse local, e a outra complicação possível é a neuro- patia do plexo braquial. O paciente é colocado com o braço abduzido, em rotação externa, com a mão sobre a cabeça. Realiza-se a tricotomia da região e identifica-se a artéria pela palpação da mesma na borda in- ferior do músculo peitoral maior. Em seguida, punciona-se a artéria, mantendo a agulha de 30º a 45º em relação ao plano da pele e procede-se à técnica de Seldinger para a inserção do cateter. aspectos específicos da artéria pediosa Existe maior dificuldade de realizar a punção nessa artéria quando comparado com a artéria ra- dial, pois a anatomia desse local é pouco favorável. Artéria ilíaca externa Veia ilíaca externa Ligamento inguinalNervo genitofemoral Artéria femoral Veia femoral Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 116 Antes de realizar a punção da artéria pedio- sa (Figura 9.4), realiza-se um teste similar ao teste de Allen modificado para verificar a in- tegridade da circulação colateral. A manobra é realizada ao comprimir a artéria pediosa e a tibial posterior simultaneamente, com mo- vimentos repetidos de flexão e extensão do pé, até observar o aparecimento de palidez do dorso. Nesse momento, libera-se a artéria tibial posterior e nota-se a reversão da palidez em até 10 segundos. Quando a reversão ocorrer nesse intervalo de tempo, a circulação colateral, arco plantar, é efetiva. A aferição da PA sistólica nesse local é usual- mente de cerca de 5 mmHg a 20 mmHg maior que na artéria radial, mas o valor médio é em geral o mesmo. FiGURa 9.4 Circulação arterial do pé – artéria pediosa e tibial posterior. aspectos específicos da artéria braquial A escolha dessa artéria é uma exceção, em virtude de apresentar uma circulação colateral pobre. Uma complicação que pode ocorrer com esse tipo de punção é a lesão do nervo mediano, que está próximo a essa artéria. O membro superior do paciente deve ser colocado em hiperextensão e a artéria braquial deve ser cateterizada na fossa antecubital. morFologiA dA ondA de pressão ArteriAl A distorção da onda de pressão pode ser mi- nimizada com uso de sistemas de volume, com- placência e resistência baixos. O número de conexões deve ser o menor pos- sível e o sistema deve ser todo transparente para que seja possível evidenciar a presença de bolhas. Deve-se observar o gráfico da PA no moni- tor, bem como o aspecto da curva. Na Figura 9.5 observa-se a curva de PA invasiva normal, na qual se nota a fase de ascensão rápida, pico igual ou maior que pico pressurizador e descen- so abaixo da linha de base.11 Nas Figuras 9.6 a 9.9 são observadas algumas alterações na curva que podem ocorrer e devem ser identificadas e corrigidas.11 FiGURa 9.5 Curva de pressão arterial invasiva de as- pecto normal. Ascensão Pico Curva normal Descenso Capítulo 9 pRESSÃo aRtERIal: aBoRDaGEM INVaSIVa E NÃo INVaSIVa 117 FiGURa 9.6 Curva amortecida: linhas arredondadas; pico menor que o pico do pressurizador; pouca interfe- rência; descenso somente até a linha de base. As causas relacionadas ao amortecimento da curva são: extensões amolecidas, bolhas ou problemas com o filtro do monitor. FiGURa 9.7 Curva subamortecida: observa-se ascen- são rápida; linhas retas; traçado com muita interferên- cia; descenso abaixo da linha de base e com “reverbe- ração”. As causas relacionadas ao subamortecimento da curva são: extensões muito longas ou problemas com o filtro do monitor. FiGURa 9.8 Curva de vazamento: observa-se as- censão rápida; pico menor que o do pressurizador; descenso lento, inclinado até a linha de base. As cau- sas relacionadas à curva de vazamento são: vazamento das conexões, cânula aberta ou cateter exteriorizado. FiGURa 9.9 Curva de obstrução: observa-se ascen- são muito rápida; pico maior que o do pressurizador; descenso muito rápido e sem “reverberação”. As cau- sas relacionadas à curva de obstrução são: presença de coágulo, insuflação excessiva, cotovelo, nó ou cânula fechada. complicAções trombose É a complicação mais comum e sua incidên- cia variade acordo com: local de punção: mais frequente em ar- térias radial e pediosa; tamanho do cateter: quanto mais cali- broso, maior o risco; tempo de cateterização: quanto mais tempo permanecer naquele local, maior o risco.2 O uso do sistema de fluxo contínuo diminui a incidência de trombose, e pode ser utilizada solução salina sem a necessidade de adição de heparina. Deve ser evitada a permanência do cateter no mesmo local por mais que 5 dias para evitar a ocorrência de trombose. Porém, se houver ne- cessidade, o cateter poderá ser mantido. Deve-se retirar o cateter quando não hou- ver mais indicação para seu uso ou quando se observar sinais de infecção e isquemia distal ao mesmo. O fator tempo não é relevante para a retirada do mesmo. curva amortecida Pico menor Linhas arredondadas Descenso somente até a linhade base Pico > pressurizador curva subamortecida Descenso abaixo da linha de base “reverberação” Ascensão lenta Vazamento Descenso lento até a linha de base Pico > pressurização Descenso muito rápido Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 118 Embolização cerebral Estudo experimental com primatas demons- trou que a infusão de mais de 2 mL de ar pela artéria radial pode ocasionar a passagem de ar retrogradamente para a circulação vertebral. Nesse estudo, os fatores que aumentaram o ris- co foram: tamanho do paciente e sua posição (maior risco para aqueles sentados), locais de cateterização e a velocidade de infusão do siste- ma de fluxo contínuo. Pode-se extrapolar essa complicação para cateterização de outras artérias que não a ra- dial, principalmente as artérias axilar e bra- quial. Minimizam-se os riscos dessa complica- ção retirando todas as bolhas de ar do sistema, abrindo-se a valva de fluxo contínuo por não mais de 2 a 3 segundos e evitando infusão ma- nual agressiva de fluxo contínuo por meio de seringas pequenas. perda de sangue A perda de sangue em pacientes com monitoração invasiva da PA é muitas vezes subestimada. Há muitas formas de minimizar essa perda utilizando-se monitoração intra- -arterial dos gases sanguíneos (uma técnica promissora), análise microquímica do sangue e o uso de tubos pediátricos para coleta. É importante a avaliação sistemática quanto à real necessidade da realização do exame por parte do médico que o solicita. Utilizam-se também coletores especiais que aspiram e armazenam o sangue que seria desprezado, isolando-o daquele a ser coletado, para reinfundi-lo após à coleta.12,13 trombocitopenia associada à heparina A trombocitopenia é muito frequente em pacientes graves e, geralmente, não está relacio- nada ao uso de heparina. No entanto, é aconse- lhável suspender o uso da heparina no sistema de fluxo contínuo quando as plaquetas estive- rem abaixo de 80.000/mL a 100.000/mL. Com o uso dos sistemas pressurizados dispensa-se a solução salina com heparina para manutenção da via arterial pérvia. infecção O desenvolvimento de equipamentos e siste- mas mais adequados para a monitoração invasiva da PA trouxe redução significativa na incidência de infecções. Porém, quando a infecção relacio- nada ao cateter ocorre, a bactéria mais frequen- temente envolvida é Staphylococcus sp., principal- mente Staphylococcus epidermidis, que deve ser tratada de acordo com os protocolos, lembrando- -se de outros dispositivos invasivos, como os aces- sos venosos centrais, que apresentam a infecção como uma complicação bem mais frequente. Em geral, cateteres arteriais mantidos por menos de 3 dias não são locais de infecção, não sendo necessária a troca do local em caso de febre de etiologia a esclarecer, mas aqueles mantidos por 7 dias, ou mais, podem justificar a presença de febre, com necessidade de troca do local de punção. outras complicações Outras complicações mecânicas e técnicas são: pseudoaneurisma, hematoma, perda de tensão local, hemorragia, neuropatias, emboli- zação distal. reFerênciAs 1. Farinas PL. A new technique for arteriographic examination of the abdominal aorta and its branches. Am J Roentgenol. 1941;46:641-5. Capítulo 9 pRESSÃo aRtERIal: aBoRDaGEM INVaSIVa E NÃo INVaSIVa 119 2. Celinski SA, Seneff MG. Arterial line placement and care. In: Irwin RS, Rippe JM. (editors). Ir- win ans Rippe’s intensive care medicine. 6rd ed. Philadelphia: Lippincott William & Wilkins; 2008. p. 38-47. 3. Shoemaker WC, Parsa MH. Invasive and non- invasive physiologic monitoring. In: Shoemaker WC. 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Ann Intern Med. 1992;117:1042-8. coNcEitos E aplicaÇÕEs da prEssÃo vENosa cENtral10 Edvaldo Vieira de Campos Murillo Santucci Cesar de Assunção coNcEitos E aplicaÇÕEs da prEssÃo vENosa cENtral O objetivo primário da monitoração he- modinâmica é garantir ao paciente uma ade- quada e constante perfusão tecidual. Assim, é necessário observar, de forma contínua ou intermitente, os parâmetros fisiológicos nor- mais ou alterados do sistema circulatório, possibilitando uma intervenção precoce em situações de hipoperfusão tecidual. A pressão venosa central (PVC) represen- ta indiretamente a pressão de átrio direito (PAD). Assim, quantifica-se a pressão gerada pelo volume de sangue durante o retorno ve- noso com o objetivo de estimar a pré-carga cardíaca e o status volêmico do paciente gra- ve.1 Vale lembrar que, nesse contexto, a pré- -carga se refere à do ventrículo direito, pois nem sempre se correlaciona com a pré-carga do ventrículo esquerdo.2 Vários fatores po- dem interferir nessa mensuração. Entretan- introdução 10 to, devido à facilidade de uso como medi- da fisiológica e na prática clínica, a PVC se tornou um dos parâmetros mais utilizados na monitoração hemodinâmica, podendo inclusive ser utilizada na sala de emergência como parâmetro de ressuscitação dirigida por metas.3 A curva de pressão da PVC é composta por ondas que representam o ciclo mecânico cardíaco (Figura 10.1). Para compreensão do significado fisiológico da PVC é necessário conhecer os cinco componentes dessa curva:4 onda “a”: corresponde à sístole atrial; onda “c”: corresponde ao fechamento da valva tricúspide; onda “v”: corresponde ao abaula- mento das valvas atrioventriculares em direção ao átrio durante a sístole ventricular;Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 124 descendente “x”: corresponde ao relaxa- mento atrial e início da sístole ventricular; descendente “y”: corresponde ao esva- ziamento rápido atrial. Como a PVC pode sofrer influência da va- riação da pressão intratorácica durante o ciclo respiratório, preconiza-se sua aferição ao final da expiração e da diástole, tanto em ventilação espontânea quanto em respiração com pressão positiva (Figura 10.2). FiGURa 10.1 Curva de pressão de átrio direito e seus componentes: Onda a: contração atrial. Onda c: fechamento da valva atrioventricular. Onda v: enchimento atrial. Descendente x: relaxamento atrial. Descendente y: esvaziamento atrial. a c v x y Figura 10.1 - Curva de pressão de átrio direito Tabela 10.1 cuidados na mensuração da pvc. 1. Manter o paciente em posição supina (sem o travesseiro) 2. certificar-se do correto posicionamento do transdutor 3. identificar o nível zero hidrostático 4. verificar comprimento do circuito entre o cateter e o transdutor (até 110 cm) 5. verificar o preenchimento completo do cateter com solução salina (remover bolhas e coágulos) 6. “Flush Test” (teste de Fluxo): observa- -se o traçado da curva de pressão durante e logo após rápida infusão de soro fisiológico pelo sistema de pressurização. este teste está descrito no capítulo 12 – curvas de pressão 7. ajuste do nível zero com a pa: o transdutor de pressão deve ser alinhado com a pa, abrindo-se o sistema para o meio ambiente e mantendo o mesmo fechado em relação ao paciente 8. verificar o posicionamento da ponta do cateter venoso central (rX de tórax) 9. identificar as ondas de pvc/paD 10. Localizar o componente “a” da pvc/ paD que corresponde à pressão diastólica final do ventrículo direito (pDFvD). procurar relacionar a onda “a” do traçado pressórico com o final da onda p do ecg. caso o monitor não disponha da tecnologia para “congelar” as ondas de pressão e o traçado de ecg, considerar a média da pvc durante a fase expiratória 11. proceder à mensuração no final da expiração, tanto em pacientes sob ventilação mecânica como em respiração espontânea 12. verificar a morfologia da curva e sua relação com o ciclo respiratório mensurAção corretA dA pressão venosA centrAl O processo de aferição da PVC deve ser cui- dadoso, com o objetivo de evitar medidas errô- neas e propiciar decisões terapêuticas adequa- das. Idealmente, deve-se efetuar essa medida utilizando um cateter central, cuja extremidade distal deve estar na junção da veia cava superior com o átrio direito. O paciente deve permanecer em posição supina, a posição do transdutor de pressão deve estar posicionado de forma correta em relação ao zero hidrostático (Tabela 10.1).5 Capítulo 10 CoNCEItoS E aplICaÇÕES Da pRESSÃo VENoSa CENtRal 125 Para aferir a PVC/PAD, deve-se localizar a onda “a”, que corresponde ao final do enchi- mento ventricular, na fase expiratória inde- pendente do modo de ventilação. De maneira prática, se o paciente estiver em respiração espontânea, localiza-se a onda “a” antes que as pressões diminuam com a inspiração. Se o paciente estiver sob ventilação mecânica com pressão positiva, localiza-se a onda “a” antes que as pressões aumentem com a inspiração. Para localizar a onda “a” deve-se utilizar o tra- çado eletrocardiográfico como guia.4 A onda “a” é localizada logo após a onda “P”, que cor- responde à sístole atrial (Figura 10.3). FiGURa 10.2 Variação da curva de pressão conforme o ciclo respiratório. Inspiração Inspiração Ventilação espontânea Ventilação mecânica Figura 10.2 - Variação da curva de pressão conforme o ciclo respiratório. Observar as variáveis pressóricas de acordo com o modo de ventilação: ver o texto Expiração Expiração InspiraçãoExpiração InspiraçãoExpiração Inspiração InspiraçãoExpiração Expiração Inspiração InspiraçãoExpiração Expiração Ventilação espontânea Ventilação mecânica FiGURa 10.3 Localização da onda “a”. ADmmHg 15 10 5 0 a c x v y Figura 10.3 - Curva de pressão no átrio direito: Localização da onda “a” e “ v” em relação ao ECG. ECG Curva de pressão no AD Curva de pressão no AD ECG AD Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 126 Há situações em que a onda “a” está ausente em decorrência da falta da sístole atrial, como ocorre na fibrilação atrial, ritmo juncional, rit- mo de marca-passo e ritmo idioventricular.6 Nesses casos, afere-se a PAD antes do comple- xo QRS, onde normalmente apareceria a onda “a”. Existem outras situações em que ocorre alteração da morfologia da onda “a”, como é o caso da onda “a” gigante na estenose de valva tricúspide, complacência ventricular dimi- nuída, perda do sincronismo atrioventricular, como no bloqueio AV de terceiro grau.4 Se esses cuidados para mensuração da PVC não forem observados, as medidas aferidas po- derão não ser fidedignas, acarretando condutas inadequadas. Jain et al. observaram, em uma po- pulação de UTI geral, uma discordância de 76% entre a medida da PVC realizada automaticamen- te pelo monitor e a medida realizada por médicos treinados utilizando curvas de pressão impressas.7 utilidAde clínicA dA pressão venosA centrAl A PVC é comumente utilizada como ferra- menta de otimização da pré-carga cardíaca em pacientes que apresentam hipoperfusão teci- dual. Entretanto, um ponto essencial durante o processo de otimização hemodinâmica é o momento em que a curva da função cardíaca (Starling) atinge um platô. Quando este é al- cançado, incrementos na pressão venosa cen- tral não trazem nenhum aumento no débito cardíaco como consequência. A partir desse ponto, elevações na PVC podem contribuir para a formação de edema periférico, conges- tão venosa passiva no território esplâncnico e congestão pulmonar.8 Identificar qual o valor ideal de pressão de enchimento cardíaco em pacientes graves nem sempre é fácil, pois o valor da PVC pode ser muito variável. Assim, deve-se promover um desafio hídrico e determinar se a elevação da PVC acarreta algum aumento do débito cardía- co. A partir do momento em que não há mais incremento no débito cardíaco, provavelmente o valor adequado da PVC foi encontrado. Vincent e Weil defendem que a PVC pode ser utilizada como ferramenta de otimização volêmica, levando-se em consideração a res- posta à infusão de fluidos, de modo sequencial. Assim, a ausência da elevação na PVC de até 5 mmHg, após desafio hídrico padronizado, qua- se sempre traduz um bom desempenho cardía- co, permitindo a oferta de alíquotas de fluidos.9 Apesar das limitações como método de avalia- ção da volemia, a medida da PVC é o método mais simples e disponível à beira do leito. Na prática clí- nica existe uma boa relação entre valores muito baixos ou muito elevados da PVC e os estados de hipovolemia e hipervolemia respectivamente.2,10 Diretrizes internacionais recomendam a utili- zação da PVC como parâmetro da ressuscitação volêmica em pacientes sépticos e nos estados de hipoperfusão tecidual, com o objetivo de atingir valores entre 8 mmHg a 12 mmHg em pacientes em ventilação espontânea, e entre 12 mmHg e 15 mmHg naqueles submetidos à ventilação in- vasiva.11 Tal estratégia é baseada no sucesso al- cançado por Rivers et al., que utilizaram a PVC como uma das metas de otimização da volemia.3 Em outro estudo, foi avaliada a amplitude da curva de PVC induzida pela respiração em pacientes na fase pós-operatória de cirurgia cardíaca, ao utilizar o índice de colapsabilida- de pressórico da veia cava (Cvci) pela seguinte fórmula: cvci (%) = [(pvc pexp j pvc pins )/pvc pexp ]/100 em que PVCpexp: pressão venosa central ao final da expiração; PVCpins: pressão venosa central fi- nal do inspiratório. Capítulo 10 CoNCEItoS E aplICaÇÕES Da pRESSÃo VENoSa CENtRal 127 Nesse estudo, Westphal et al. encontraram uma boa capacidade de discriminar a resposta à infusão de fluidos, sendo considerado como respondedor à infusão de fluidos aqueles queapresentaram variação maior ou igual a 5%. Para esse teste encontrou-se especificidade de 91%, sensibilidade de 89% e curva ROC 0,90 – discriminando entre respondedores e não res- pondedores à infusão de fluidos.12 FAtores clínicos e pAtológicos que interFerem nA medidA dA pressão venosA centrAl É importante considerar que a análise da PVC relaciona o retorno venoso com a função ventricular, porém variações na complacência de um dos ventrículos ou na capacitância veno- sa podem provocar erros nessa relação, como ocorre na disfunção diastólica, na ventilação mecânica, no uso de drogas vasoativas e situa- ções de venodilatação e venoconstrição. Além do mais, a relação entre pressão e volume nas câmaras cardíacas sofre influência da pressão transmural e das propriedades intrínsecas do coração. Consequentemente, a interpretação dos va- lores obtidos com a monitoração da PVC deve ser sempre avaliada dentro de um contexto clínico. Decisões terapêuticas podem ser equi- vocadas quando não for considerado o quadro clínico do paciente e os possíveis fatores de in- terferência (Tabela 10.2). limitAções clínicAs dA utilidAde dA pressão venosA centrAl Muitos pacientes apresentam dentro do am- biente de terapia intensiva situações que podem dificultar a aferição da PVC, como fibrilação atrial ou uso da PEEP com níveis elevados, dificultando assim a conduta clínica. Porém, existe na literatura autores que questionam a utilização da PVC como recurso para otimiza- ção volêmica em pacientes graves devido à bai- xa acurácia em discriminar respondedores dos não respondedores à infusão de fluidos, sendo o valor isolado da PVC considerado um méto- do estático de avaliação da responsividade à in- fusão de fluidos.13-15 Entretanto, Madger et al.15 demonstraram que a variação de PVC em pa- cientes com respiração espontânea, sem pressão positiva, pode ser útil na avaliação da respon- sividade à infusão de fluidos. Variações supe- Tabela 10.2 considerações clínicas e fatores de interferências na pvc. volume sanguíneo venoso central retorno venoso/débito cardíaco volume sanguíneo total tônus vascular regional: venoconstrição venodilatação complacência do ventrículo direito tamponamento cardíaco Doença da valva tricúspide ritmo cardíaco ritmo juncional Fibrilação atrial Dissociação atrioventricular referência do nível do transdutor de pressão posicionamento do paciente pressão intratorácica ventilação mecânica com pressão positiva valor da peep auto-peep com broncoespasmo pneumotórax hipertensivo respiração espontânea aumento da pressão intra-abdominal Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 128 riores a 1 mmHg durante o ciclo respiratório estão associadas ao aumento do débito cardíaco à infusão de fluidos, ou seja, considera-se o pa- ciente como fluido responsivo.8,16 É importante considerar que uma única mensuração da PVC não indica o estado volêmico ou a condição da função cardíaca do paciente (Figura 10.4). Ao avaliar todos esses fatores em conjunto, com suas complexidades, talvez não seja sur- presa o fato de que a utilização da PVC como parâmetro de pré-carga e de avaliação de res- pondedores à infusão de fluidos não seja con- sensual na literatura. considerAções FinAis Assim, quando todos os passos necessários à aferição da PVC são observados e são conside- radas as variações e tendências da medida, den- tro de um protocolo de otimização volêmica, a PVC torna-se uma ferramenta útil no manejo do paciente grave. FiGURa 10.4 Interação do retorno venoso e função cardíaca para determinar a pressão venosa central e o débito cardíaco. esquema 1: mostra pressão venosa central (PVC) baixa que pode estar associada com débito cardíaco elevado, normovolemia e retorno venoso normal OU esquema 2: com função cardíaca normal, mas com hipovolemia e baixo retorno venoso. esquema 3: PVC alta pode estar associada a retorno venoso normal, mas com diminuição da função cardíaca OU esquema 4: a função cardíaca pode estar normal com aumento do retorno venoso devido ao excesso de fluido. Assim, pode-se observar que apenas uma mensuração da PVC não define o status volêmico ou a função cardíaca que o paciente apresenta. adaptado de: Madger et al.15 Q Q Retorno venoso Função cardíaca Q Q QQ Q PVC PVC PVCPVCPVC PVC PVCEsquema 1 Esquema 2 Esquema 3 Esquema 4 PVC baixa PVC alta Capítulo 10 CoNCEItoS E aplICaÇÕES Da pRESSÃo VENoSa CENtRal 129 reFerênciAs 1. Hall JE, Guyton AC. Textbook of medical physi- ology. 12th ed. 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Esse é constituído de dois lumens – um proximal, que tem sua abertu- ra para o átrio direito (AD), e um distal, com orifício na ponta do catéter que está situado na artéria pulmonar (AP); próximo à extremidade distal do cateter, fixa-se um balonete, que após introdução 11 ser insuflado é direcionado pelo fluxo sanguí- neo para a AP.2 O dispositivo permite medir à beira do leito pressões do coração direito (pres- são de átrio, ventrículo e da artéria pulmonar) e estimar medidas de pressão de átrio esquerdo através da mensuração da pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP), que expressa pressão venosa pulmonar.3 O crescente uso do CAP em UTIs foi questionado por estudos como o de Connors et al (1996), envolvendo o uso CAP em 5.735 pacientes, relacionando-o com provável aumento de mortalidade.4 Ou- tros estudos falharam ao tentar demonstrar be- nefício do CAP e seu uso declinou ao longo dos últimos anos.5-7 Apesar desses dados, o CAP deve ser utilizado apenas como instrumento de diagnóstico e monitoração, sem qualquer co- notação terapêutica.3 134 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 134 O erro na interpretação das variáveis deriva- das do CAP pode levar a sua utilização incorre- ta, com intervenções terapêuticas inadequadas ao paciente.8-10 O conhecimento atual permite o uso racional do CAP, sabendo-se que somente esse dispositivo possibilita a obtenção de uma série de medidas hemodinâmicas, entre elas a pressão de artéria pulmonar (PAP) e a POAP, importantes variáveis em determinadas condições clínicas, auxiliando à beira do leito a tomada de decisão com relação ao uso de drogas vasoativas e intervenções para oti- mização do débito cardíaco (DC). pressão dA ArtériA pulmonAr A inserção do CAP permite obter a onda de pressão sistólica e diastólica quando a ponta do cateter atinge a artéria pulmonar. Um nó dicró- tico relacionado ao fechamento dinâmico da valva pulmonar deve ser visualizado no traça- do. A onda sistólica da artéria pulmonar prece- de a onda T do eletrocardiograma (ver Capítulo 6 – Técnicas de introdução do cateter de artéria pulmonar, Figura 6.3). A PAP é determinada pelo volume de sangue ejetado na artéria pulmonar durante a sístole, a re- sistência no leito vascular pulmonar e a pressão ao átrio esquerdo. Os valores considerados normais são: 15 mmHg a 30 mmHg de pressão sistólica; 4 mmHg a 12 mmHg de diastólica; 9 mmHg a 18 mmHg de média.11 Em condições normais, a rede vascular pul- monar tem baixa resistência e alta reserva vas- cular. Portanto, um aumento de DC não deve causar elevações significativas na PAP. Essa re- serva é a responsável pela resistência ao fluxo proveniente do ventrículo direito, o que leva à diferença entre a pressão diastólica de artéria pulmonar (PAPd) e a pressão de oclusão da ar- téria pulmonar (POAP), em torno de 5 mmHg. O aumento da resistência vascular pulmonar (RVP) gera alargamento no gradiente entre a PAPd e a POAP, enquanto um aumento de pressão atrial esquerda acarreta elevação simul- tânea proporcional da PAPd e da POAP. Esse achado permite diferenciar a causa da hiper- tensão pulmonar: por aumento da resistência vascular pulmonar ou por aumento da pressão venosa pulmonar.12 Em situações patológicas de aumento da RVP, o aumento do DC pode influenciar na elevação da PAP. A hipertensão pulmonar pode resultar da combinação de discreto aumento da RVP e um aumento significativo do DC como na sepse, por exemplo. A interpretação da RVP no contexto do uso do CAP deve ser feita sempre em conjunto com a obtenção do DC. Em situações de hipovole- mia, onde há queda do DC, a RVP irá elevar-se, apesar de o leito vascular pulmonar não ter sido diretamente afetado. Outra situação clínica per- tinente refere-se à monitoração do uso de vaso- dilatadores, em que há influência tanto no leito vascular pulmonar como no próprio DC. Um aumento do DC representa redução na pressão sequencial (PAP-POAP), determinando nítida vasodilatação do sistema.13 pressão de oclusão dA ArtériA pulmonAr A POAP ou pressão de “encravamento” (wedge) é obtida quando se insufla o balonete situado na ponta do CAP, obstruindo o fluxo sanguíneo naquele ramo da artéria pulmonar, criando uma coluna de sangue estática entre a ponta do cateter e o leito venoso pulmonar, o que estima a pressão no átrio esquerdo. Para tal, é essencial que a ponta do cateter com balonete insuflado esteja livre no lúmen do vaso, inter- rompendo completamente o fluxo sanguíneo na artéria “obstruída”. Capítulo 11 MoNItoRIZaÇÃo Da pRESSÃo aRtERIal E pRESSÃo DE oCluSÃo Da aRtÉRIa pulMoNaR 135135 O fenômeno de “encravamento excessivo” (overwedging) ocorre quando o balonete é in- suflado contra a parede do vaso sanguíneo, obstruindo a passagem do sangue já na pon- ta do cateter. Seu reconhecimento ocorre pela progressiva elevação da pressão no início da in- suflação do balonete, que causa aprisionamento da ponta do cateter contra a parede do vaso. Um fechamento parcial do vaso acontece quando o balonete insuflado não oclui totalmen- te a passagem do sangue no segmento da artéria pulmonar cateterizado. A pressão resultante é intermediária entre a PAP média e a POAP real, o que pode induzir a erro terapêutico. Para avaliação adequada da medida da pres- são utilizando-se o CAP deve-se posicioná-lo na Zona 3 de West (ver Capítulo 6 _ Técnicas de introdução do cateter de artéria pulmonar), detectar ondas patológicas “a” e “v” (estenose mitral e insuficiência mitral, respectivamente), e comparar POAP com a PAPd, sendo a primei- ra sempre igual ou menor que a segunda. De forma similar à pressão venosa central (PVC), medidas da POAP são influenciadas por variações relacionadas à ventilação mecânica e pressão pleural. Portanto, a medida ideal da POAP deve ser realizada ao final da expiração. Assim, são minimizados os efeitos da pressão pleural, devido à hiperinsuflação, aumento do volume residual pulmonar, níveis de PEEP (uma vez que a pressão alveolar é transmitida parcial- mente para a pressão pleural), além da compla- cência pulmonar e da caixa torácica, que variam no mesmo paciente e entre diferentes pacientes. A POAP é dependente da complacência miocárdica e avalia a pressão diastólica final do ventrículo esquerdo (PDFVE), valor que teoricamente está associado ao volume diastó- lico final do ventrículo esquerdo (VDFVE), de acordo com o mecanismo de Starling.14 Entre- tanto, múltiplos estudos com pacientes graves demonstraram existir correlação pobre entre a POAP e VDFVE.15-17 Nem a PVC, a POAP ou suas variações relacionam-se com mudanças no VDFVE após desafios de volume.18 As pressões de enchimento são consideradas parâmetros estáticos de responsividade à admi- nistração de fluidos. O uso de variáveis estáticas de pré-carga, incluindo a POAP, é limitado na avaliação de resposta à infusão de volume em pacientes graves. Porém essa avaliação é mais bem obtida por meio de parâmetros dinâmi- cos baseados na variação de pressão de pulso arterial19 (ver Capítulo 24 _ Monitorização da resposta à infusão de fluidos). Apesar das limitações, o uso da POAP (e consequentemente do CAP) ainda tem espa- ço na monitoração do paciente grave. A medida da POAP acima de 18 mmHg pode indicar so- brecarga volêmica (quando o índice cardíaco for normal) ou falência cardíaca, se o índice car- dícaco (IC) estiver baixo (< 2,2 L/min/m2). Da mesma forma, um gradiente pressóricoentre PAP e POAP superior a 8 mmHg é sugestivo de aumento da resistência de leito arterial ou capilar pulmonar, relacionado à hipertensão pulmonar primária. Esse mesmo gradiente, quando abaixo de 7 mmHg, pode indicar aumento de resistên- cia venosa pulmonar, cuja etiologia inclui isque- mia miocárdica e patologia de valva mitral.20 Na falência do ventrículo direito (VD), in- formações importantes são obtidas com a com- binação do CAP e do ecocardiograma à beira do leito. Em pacientes portadores de Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA), que desenvolvem disfunção do VD, a monitora- ção da RVP e da POAP pode ser útil na aborda- gem terapêutica da função cardíaca.21 A detec- ção de queda do DC decorrente do uso de PEEP mais elevado e aumento da RVP e da diferença de pressão transpulmonar (PAP – POAP) tam- bém demonstram a utilidade do uso precoce do CAP e da monitoração das pressões derivadas.22 Recomendações práticas no tratamento pe- rioperatório de pacientes de cirurgia cardíaca 136 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 136 enfatizam o uso do CAP no subgrupo classifica- do como alto risco.23 Há sugestão que a associa- ção do ecocardiograma e do CAP no manuseio da falência de VD pode diferenciar hipertensão pulmonar de isquemia miocárdica.23 A otimização perioperatória com interven- ções baseadas em dados hemodinâmicos pode ter relação com desfecho favorável.24 Em meta- nálise publicada por Hamilton et al,24 estudos randomizados envolvendo 4.805 pacientes de- monstraram mortalidade em torno de 7,6%. Dos 29 estudos, 15 utilizaram CAP com objetivos hemodinâmicos baseados em saturação venosa mista de oxigênio (SvO2), IC, oferta de oxigênio (DO2), resistência vascular sistêmica. Análise de um subgrupo demonstrou significativa redução de mortalidade em estudos com CAP e valores de ressuscitação que avaliaram o DO2 e IC. considerAções FinAis Quando utilizado em serviços com experiên- cia e treinamento adequado, o CAP continua sen- do uma ferramentas muito útil na monitoração do pacientes graves. Isso ocorre principalmente em condições como falência do VD, hipertensão pulmonar, pós-operatório em pacientes cirúrgi- cos de alto risco com disfunção cardiocirculató- ria e condições complexas onde apenas o discer- nimento clínico não é suficiente para se atingir os objetivos terapêuticos desejados. reFerênciAs 1. Bloomfield RA, Lauson HD, Cournand A, Breed ES, Richards DW. 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Os diversos constituintes do sistema de monitoração de pressão e a sua montagem já foram comentados (ver Capítulo 8 – Assistên- cia de Enfermagem à Monitorização Hemodi- nâmica). Serão analisados aqui apenas os as- pectos técnicos para uma medida adequada e aqueles que podem induzir a erro na coleta e interpretação dos dados. veriFicAção do sistemA componentes Os sistemas de medida de pressão dispo- níveis para uso clínico utilizam, obrigatoria- mente, líquidos em seu interior. A proprieda- de geral de incompressibilidade dos líquidos garante a correta transmissão das variações de pressão do sistema circulatório aos trans- dutores. Dessa forma, deve-se retirar todos os vestígios de bolhas de ar do sistema para que os valores medidos não sejam subestimados. O líquido utilizado para preencher todo o cir- cuito deve ser obrigatoriamente soro fisiológico. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 142 FiGURa 12.1 Técnica de zeragem: observar pontos de referência, nivelamento horizontal do transdutor ao ponto estudado e necessidade de ajuste de acordo com a angulação do decúbito do paciente. O preenchimento inadvertido com soro glicosa- do, que tem maior viscosidade, produzirá grande amortecimento nos registros, além de mostrar va- riações de pressão sistólica e diastólica menores. Os tubos de extensão utilizados devem ter rigidez, diâmetro e comprimento padronizados. Em hipótese alguma devem ser usadas extensões não padronizadas para realizar as medidas de pressão, pois essas são feitas com diâmetro variá- vel e têm rigidez muito inferior à necessária para registrar pressões. O comprimento desses tubos deve ser levado em consideração, pois quanto mais longos, maior a chance de erros na leitura.1,2 Existem extensões padronizadas para esse tipo de aferição que cumprem os requisitos e medem até 120 cm (comprimento máximo re- comendado). Não se deve utilizar mais do que uma extensão entre o paciente e o transdutor, re- duzindo a interferência nos traçados de pressão. Zeragem Esta manobra visa garantir que não exista desnível entre as duas extremidades do circuito de monitoração: o ponto do sistema circulatório estudado (onde se encontra o cateter – seja de pressão arterial sistêmica, venosa central ou de artéria pulmonar) e o transdutor de pressão.1-3 Caso esses dois pontos não sejam alinhados em um mesmo plano horizontal, o peso da co- luna de soro fisiológico será acrescido à medida de pressão, determinando um valor equivoca- do. A Figura 12.1 demonstra a técnica de zera- gem adequada, com os pontos de referência e o alinhamento entre o transdutor e o paciente. teste de adequação do sistema Estando o sistema zerado, deve-se realizar um teste a fim de avaliar se todos os requisitos técnicos foram devidamente cumpridos. Co- nhecido como flush test (teste de fluxo) ou teste da raiz quadrada, consiste em observar ou re- gistrar o traçado da pressão durante e logo após rápida infusão de soro fisiológico pelo sistema de pressurização.1-3 Podem ser obtidos, então, três padrões di- ferentes de curva, cada uma com interpretação diferente: Espaço intercostal Linha axilar média Ajuste com decúbito Nivelamento horizontal: transdutor e local estudado Capítulo 12 CuRVaS DE pRESSÃo 143 curva normal; curva amortecida (overdamping) _ for- nece medida imprecisa; curva subamortecida (underdamping) _ fornece medida imprecisa. O teste deve ser realizado antes de todas as medidas de pressão ou interpretação das curvas. traçado normal A Figura 12.2 representa a execução do tes- te com traçado normal, caracterizado por uma rápida ascensão da curva, atingindo um platô com o mesmo valor colocado no pressurizador. Interrompido o fluxo, existe uma rápida queda da curva até o nível abaixo da linha de base, se- guida por oscilação durante um curto período de tempo e finalmente estabilização da linha de base e do traçado. A obtenção desse padrão de traçado garante que a leitura seja isenta de in- correções técnicas.1-3 traçado amortecido (overdamping) A Figura 12.3 mostra um traçado amortecido, obtido durante um teste de fluxo. Esse padrão caracteriza-se por ascensão e queda mais lentas da curva, que tem o platô com bordos arredon- dados. Após a infusão, não são constatadas as oscilações características de uma curva normal. Pode-se obter uma curva amortecida por várias razões: emprego de soro glicosado no preenchimento do sistema, utilização de exten- sões elásticas inadequadas, presença de bolhas de ar no sistema, vazamentos ou falhas na cali- bração do monitor e, consequentemente, o re- sultado da medida é comprometido.1-3 FiGURa 12.2 Representação do teste de fluxo ou teste da raiz quadrada. Encontram-se identificados os diversos componentes, com a mão apontando para o dispositivo que tracionado permite ao pressurizador lançar nos ca- teteres um pequeno volume de soro fisiológico sob alta pressão. Observe que a pressão atingida em uma curva normal corresponde ao valor colocado no pressurizador. Pressurizador teste de fluxo Tracionar durante alguns segundos Curva normal Transdutor 300 mmHg 300 mmHg Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 144 traçado subamortecido (underdamping) A Figura 12.4 demonstra um traçado suba- mortecido. Essa curva caracteriza-se por ascen- são e queda semelhantes ao da curva normal, porém interrompida a infusão, as oscilações ob- tidas se sustentam por um longo período de tem- po ou não desaparecem em nenhum momento. Pode-se obter uma curva subamortecida pelo emprego de extensões muito longas, pela presença de objetos móveis em contato com as extensões ou com o transdutor e por calibração inadequada, também determinando uma medi- da não confiável.1-3 curvAs pressóricAs normAis Os principais mecanismos determinantes e a identificação dos diversos componentes das curvas normais serão destacados com auxílio do eletrocardiograma (ECG). A aferição dos valores da pressão depende da identificação dos diversos componentes da curva e deve ser executada ao final da diástole para mi- nimizar a interferência do sistema respiratório. FiGURa 12.3 Traçado amortecido. Figura 12.3 - Traçado amortecido FiGURa 12.4 Traçado subamortecido. Figura 12.4 - Traçado sub-amortecido Capítulo 12 CuRVaS DE pRESSÃo 145 pressão de átrio direito Os traçados de curva obtidos dentro de átrios ou grandes veias são muito semelhantes. A Figura 12.5 A mostra um atriograma e a Fi- gura 12.5 B sua relação com o ciclo cardíaco. Pode-se identificar, nesse registro, as ondas “a”, “c” e “v” intercaladas pelas depressões “x” e “y”. A mensuração da pressão de átrio direito, na ausência de estenose da valva tricúspide, reflete a pressão diastólica final de ventrículo direito. A onda “a” reflete o aumento da pressão atrial que ocorre durante a contração atrial sistólica, ao final da diástole ventricular. Encontra-se ins- crita no final do intervalo PR do ECG. A onda “c” é produto do enchimento atrial durante o período sistólico ventricular em que a válvula tricúspide está se fechando; é causada pela proeminência da válvula tricúspide (seu fechamento) para dentro do átrio durante a fase inicial da contração ventricular direita. O enchimento final do átrio, imediatamen- te antes de sua sístole, com a válvula tricúspide ainda fechada, produz a onda “v”. Existem duas depressões no traçado de um atriograma. A que se segue à onda “c”, denomi- nada descendente “x” (reflete o decréscimo da pressão atrial quando o átrio relaxa), e a que se segue à onda “v”, chamada de descendente “y” (ocorre no final da sístole ventricular, quando PVC 20 0 Figura 12.5A – Traçado da curva de pressão dentro do átrio direito. Observe a oscilação na linha de base produzidapela respiração. FiGURa 12.5 (a) Traçado da curva de pressão no interior do átrio direito. Observe a oscilação na linha de base produzida pela respiração. (B) Relação das curvas de pressão atrial com o ciclo cardíaco; a: contração/ sístole atrial; c: fechamento da válvula tricúspide; x: relaxamento atrial; v: enchimento atrial; y: enchimento ventricular. R Figura 12.5B - Relação das curvas de pressão atrial com o ciclo cardíaco; a: contração/ sístole atrial; c: fechamento da válvula tricúspide; x: relaxamento atrial; v: enchimento atrial; y: enchimento ventricular. T YX a P ECG PVC a c Sístole Diástole v a B Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 146 a válvula tricúspide se abre e o sangue flui do átrio para o ventrículo). O ponto “z” representa o fechamento da válvula tricúspide, que ocorre imediatamente ao término do complexo QRS. Considera-se o valor da pressão venosa cen- tral como o valor médio entre o topo e a base da onda “a”, ao final da expiração, tanto sob ven- tilação mecânica com pressão positiva quanto com respiração espontânea. Para compreender o atraso na relação en- tre o registro dos eventos mecânicos e elétricos deve-se observar a Figura 12.5 B. Normalmente, a contração atrial ocorre logo após a despolari- zação atrial (onda P _ traçado do ECG); entre- tanto, ao aferir a pressão atrial por um sistema preenchido por líquido gera-se este atraso devido à transmissão da pressão pelo lúmen do cateter e pelo circuito até o transdutor de pressão. Logo, a onda “a” da curva de pressão atrial é usualmente observada com 0,08 a 0,10 segundos após a onda P, ou no final do intervalo PR. Seguido da contra- ção atrial, ocorre o relaxamento atrial e diminui- ção da tensão das paredes, como se evidencia na descendente “x”. A onda “c” reflete o fechamento da valva tricúspide e corresponde ao segmento R-ST do ECG. A onda “c” determina o início da sístole ventricular. A onda “v, que ocorre durante a sístole ventricular, após a despolarização ventri- cular e devido ao atraso na transmissão da pres- são, é normalmente observada próxima ao final da onda T. No pico da onda “v” a valva tricúspide abre e ocorre o esvaziamento atrial rápido com consequente diminuição da pressão, dando ori- gem ao aparecimento da descendente “y”.4 pressão da artéria pulmonar O traçado de curva da artéria pulmonar é ilus- trado na Figura 12.6 A (ver Capítulo 11 – Moni- torização da pressão arterial e pressão de oclusão da artéria pulmonar). Pode-se reconhecer uma grande curva resultante da sístole ventricular di- reita. O volume de sangue ejetado tende a retor- nar para a câmara ventricular ao final da sístole. A esse movimento opõe-se a válvula pulmonar, o que gera a segunda onda de pequena amplitude. A depressão entre as duas curvas é conhecida como incisura dicrótica (nó dicrótico) e corresponde ao fechamento da valva pulmonar. O ponto mais ele- vado da curva corresponde à pressão sistólica da artéria pulmonar. Contrariamente, o ponto mais baixo da curva não corresponde ao valor diastóli- co. Esse deve ser aferido corretamente no final da onda QRS do ECG, onde efetivamente está ocor- rendo a diástole mecânica (Figura 12.6 B).4 pressão de oclusão de artéria pulmonar A leitura da pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP) é mais difícil que a leitura da pressão venosa central. Existem muitos fatores de interferência, além de um retardo no regis- tro quando se analisa de modo concomitante o ECG. Isto se deve ao fato de o registro das cur- vas produzidas pela atividade mecânica do átrio esquerdo ocorrer em um ponto muito distante dele e com interposição da pequena circulação. A onda “a” na curva da POAP não fica inscri- ta ao longo do intervalo PR, e sim próxima ao final ou logo após o complexo QRS do traçado eletrocardiográfico.4 De modo prático, quando a identificação da onda “a” for muito difícil, sugere-se efetuar a leitura da POAP imediata- mente após a onda QRS. A Figura 12.7 mostra um traçado de oclusão da artéria pulmonar, identificando seus componentes. pressão arterial sistêmica A interpretação dos fenômenos ligados à pressão arterial sistêmica guarda estreita rela- Capítulo 12 CuRVaS DE pRESSÃo 147 ção com o que ocorre com a pressão da artéria pulmonar. A leitura da pressão arterial sistêmi- ca deve considerar em qual ponto do sistema circulatório será realizada a medição. Quanto maior a distância entre o coração e o local es- tudado, maior será o tempo de retardo entre o ECG e o registro das curvas pressóricas. Ao analisar a pressão arterial nos membros superiores, a pressão sistólica corresponde à lei- tura feita no ponto mais alto da curva que cor- responde habitualmente ao início da onda T no ECG. A pressão diastólica deve, nesse caso, ser medida ao final do QRS. É muito comum durante o registro da pres- são arterial sistêmica observar a existência de um artefato pré-sistólico, caracterizado por uma súbita e fugaz queda na pressão, resultante da dificuldade dos sistemas de coluna líquida em transmitir determinados padrões de varia- ções na pressão. Dessa forma, a pressão diastó- lica sistêmica não corresponde ao ponto mais baixo da curva, mas sim à linha de base que an- tecede a incursão sistólica. A Figura 12.8 mostra uma curva de pressão ar- terial sistêmica registrada na artéria radial e os prin- cipais pontos para aferição correta das pressões. FiGURa 12.6 (a) Traçado da curva de pressão no interior da artéria pulmonar. O registro concomitante do eletrocardiograma é importante para identificar o local para medida da pressão diastólica (imediatamente ao final do QRS). (B) Observar que a medida da pressão diastólica ocorre logo ao final do QRS; a curva da pressão de artéria pulmonar também varia com a ventilação, sendo necessário adequar a aferição ao ciclo respiratório. 100 mm/Hg Sístole Diástole Medir a PAP sistólica no topo da curva Medir a PAP diastólica ao final do QRS A PAP diastólica não é o ponto mais baixo da curva Incisura dicrótica 50 0 Pressão de artéria pulmonar (PAP) PAP Figura 12 6a - Traçado da curva de pressão dentro da artéria pulmonar. O registro concomitante do eletrocardiograma é importante para identi�car o local para medida da pressão diastólica (imediatamente ao �nal do QRS). pressão sistólica PAP é 25 / 13 mmHg pressão diastólica Figura 12.6B - Observar que a medida da Pressão diastólica ocorre logo ao �nal do QRS; a curva da pressão de artéria pulmonar também varia com a ventilação, sendo necessário adequar a aferição ao ciclo respiratório. 0 10 20 30 a B Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 148 curvAs pAtológicAs O reconhecimento dos padrões de curvas normais é fundamental para que, em um se- gundo momento, seja possível reconhecer alte- rações secundárias a interferências técnicas ou a mecanismos fisiopatológicos importantes. Pode haver suspeita de alguns diagnósticos, acompanhamento do impacto hemodinâmico de determinada terapêutica empregada e iden- tificação de efeitos indesejáveis da mesma, ape- nas analisando as curvas pressóricas de modo sequencial. disfunção valvar O reconhecimento da disfunção valvar é fei- to através da identificação das mudanças em pressões e traçados das curvas produzidas nas câmaras próximas. A insuficiência tricúspide pode ser reconhe- cida por alterações no traçado do atriograma FiGURa 12.8 Traçado da curva de pressão na artéria radial. Compare com a Figura 12.6 a atenuação do dicrotismo. 200 mm / Hg 100 Sístole A incisura dicrótica fica menos visível distanciando-se do coração Diástole 0 AP Figura 12.8 - Traçado da curva de pressão na artéria radial. Compare com a �gura 6 a atenuação do dicrotismo. FiGURa 12.7 Registro concomitante do eletrocardiograma e do traçado de oclusão da artéria pulmonar. Observe a oscilação determinada pela ventilação mecânica. A média entre os valores sistólico e diastólico da onda A, ao final da expiração, corresponde à pressão de oclusãoda artéria pulmonar. Balão insuflado Inspiração Expiração A V Figura 12.7 - Registro concomitante do eletrocardiograma e do traçado de oclusão da artéria pulmonar. Observe a oscilação determinada pela ventilação mecânica. A média entre os valores sistólico e diastólico da onda A, ao �nal da expiração, corresponde à pressão de oclusão da artéria pulmonar. Capítulo 12 CuRVaS DE pRESSÃo 149 direito como o desaparecimento da descen- dente “x” e o surgimento de ondas “v” gigantes. Ambas as alterações são resultantes do refluxo de sangue do ventrículo para o átrio direito (Fi- gura 12.9). Uma das causas mais comuns de in- suficiência tricúspide é a presença do cateter de artéria pulmonar dificultando o fechamento da valva. Esse fenômeno é particularmente mais frequente na presença de taquicardia. A insuficiência tricúspide ou mitral pode acontecer também em decorrência de altera- ções da complacência ventricular ou da sua dilatação, secundária à isquemia, inflamação ou emprego de inotrópicos, configurando mais comumente fenômenos funcionais tran- sitórios ao invés de alterações anatômicas de- finitivas.4 As estenoses valvares, ao contrário das insu- ficiências, traduzem mais frequentemente alte- rações anatômicas e não funcionais. A estenose mitral ou tricúspide pode ser identificada pela presença de um gradiente diastólico entre o ventrículo e átrio ou pela presença de grandes ondas “a” no atriograma (Figura 12.10). tamponamento cardíaco O tamponamento cardíaco acarreta hipo- tensão arterial por limitar a capacidade de en- chimento diastólico ventricular. Apesar desse diagnóstico ser habitualmente realizado pelo ECG, pode ser identificado e acompanhada a evolução de um tamponamento cardíaco no paciente monitorizado pela constatação do ni- velamento entre os valores de pressão de átrio direito, diastólica da artéria pulmonar e pressão de oclusão da artéria pulmonar. Quanto maior a limitação resultante do tamponamento, mais esses valores pressóricos tendem a se igualar. Nessas situações graves a equalização das pres- sões pode variar até 3 mmHg, e ocorre atenua- ção da descendente “y” (Figura 12.11).5,6 FiGURa 12.9 Insuficiência tricúspide. Onda V gigante no traçado da pressão venosa central. Figura 12.9 - Insu�ciência tricúspide. Onda V gigante no traçado da pressão venosa central. A V Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 150 tromboembolismo pulmonar O tromboembolismo pulmonar pode ser sus- peitado pelo seu impacto sobre a monitoração hemodinâmica, traduzido como hipertensão pul- monar, sobrecarga ventricular direita e disfunção tricúspide. Na Figura 12.12, observa-se o traçado da curva da artéria pulmonar antes e após trom- bólise em uma embolia pulmonar maciça. Hipovolemia A hipovolemia pode ser identificada antes de ocorrer queda evidente na pressão arterial sistê- mica. Habitualmente, podem ser identificados os valores baixos da pressão de oclusão na arté- ria pulmonar antecedendo a hipotensão arterial secundária à hipovolemia. FiGURa 12.10 estenose mitral: observada em um traçado de pressão de oclusão da artéria pulmonar (POAP). Figura 12.10 - Estenose mitral. Observada em um traçado de pressão de oclusão da artéria pulmonar. A FiGURa 12.11 Curva de átrio direito no tamponamento cardíaco. Observa-se a brevidade da descendente “y”. Figura 12.11 – Curva de átrio direito no tamponamento cardíaco. a c v y x ECG POAP Capítulo 12 CuRVaS DE pRESSÃo 151 FiGURa 12.12 Traçado da curva na artéria pulmonar pré e pós-trombólise em um portador de embolia pulmonar maciça. Observe a queda acentuada nas pressões e o desaparecimento dos artefatos e interferências, retornando a um padrão de curva normal. Pré Pós 0 10 20 30 0 40 80 120 Figura 12.12 – Traçado da curva na artéria pulmonar pré e pós-trombólise em um portador de embolia pulmonar maciça. Observe a grande queda nas pressões e o desaparecimento dos artefatos e interferências, retornando a um padrão de curva normal FiGURa 12.13 Traçado concomitante do ECG e pressão venosa central. Observe o desaparecimento da onda P no ECG e o surgimento de grandes ondas “a” no atriograma. O dessincronismo da sístole atrial com a diástole ventricular faz com que o átrio se contraia com a valva tricúspide fechada, originando a grande amplitude da onda “a”. Figuras 12.13 - Traçado concomitante do eletrocardiograma e pressão venosa central. Observe o desaparecimento da onda P no eletrocardiograma e o surgimento de grandes ondas “a” no atriograma. O dessincronismo da sístole atrial com a diástole ventricular faz com que o átrio se contraia com a valva tricúspide fechada, originando a grande amplitude da onda “a”. Onda “a” normal Onda “a” gigante P P arritmias As arritmias podem ser identificadas de di- versas maneiras, dependendo do tipo e do local do sistema circulatório observado, e podem re- presentar impacto nas medidas de pressão e na conformação das curvas. Conhecendo-se quais alterações hemodinâ- micas determinada arritmia pode gerar, é pos- sível caracterizar seus efeitos e monitorar sua repercussão, auxiliando na escolha terapêutica e avaliando sua ação. Na presença de dissociação A-V ou ritmo juncional, a contração atrial pode ocorrer junta- mente com a sístole ventricular, tornando a onda “a” extremamente proeminente (Figura 12.13). Na fibrilação atrial nota-se a perda da onda “a” no atriograma e pode-se perceber a onda “c” mais Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 152 proeminente; há alterações também na curva da pressão arterial, que se torna irregular devido à va- riação do enchimento ventricular (Figura 12.14). considerAções FinAis Para a interpretação correta das curvas pressóricas é necessário cumprir uma série de requisitos técnicos. O não cumprimento des- sas normas pode produzir erros importantes e levar a diagnósticos incorretos e imprecisos. FiGURa 12.14 Registro concomitante do ECG e pressão na artéria radial. Notamos que o enchimento ventricular é variável devido à fibrilação atrial, produzindo volume sistólico e pressões arteriais sistólicas variáveis. 25 0,25 mV 0,5 mV 50 0 0 100 mmHg AP Figura 12.14 - Registro concomitante do eletrocardiograma e pressão na artéria radial. Notamos que o enchimento ventricular é variável devido à �brilação atrial, produzindo volume sistólico e pressões arteriais sistólicas variáveis. Pressão arterial sistêmica ECG O teste de fluxo e a zeragem do sistema são etapas de extrema importância, pois garantem que as condições adequadas para interpretação dos dados sejam confirmadas. As medidas pressóricas devem ser aferidas sempre ao final da expiração, e o reconheci- mento dos padrões normais é importante para que se possa identificar mais prontamente as al- terações hemodinâmicas decorrentes de meca- nismos patológicos e posteriormente os efeitos da terapêutica empregada. Capítulo 12 CuRVaS DE pRESSÃo 153 4. Daily EK. Hemodynamic waveform analysis. 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Phyladelphia, PA: Lippincott Williams & Wilkins; 2008. p. 38-47. dÉbito cardÍaco – coNcEitos EssENciais13 Murillo Santucci Cesar de Assunção Constantino José Fernandes Júnior dÉbito cardÍaco– coNcEitos EssENciais O débito cardíaco (DC) representa o com- ponente circulatório mais importante, pois é o principal determinante do transporte de oxigê- nio aos tecidos. É determinado pelo produto entre o volume sistólico e a frequência cardíaca, sendo que o volume sistólico é a quantidade de sangue ejetado a cada contração e varia entre 60 mL e 130 mL. O débito cardíaco em indiví- duo normal é de 5 L/min a 6 L/min, e deve-se entendê-lo como sinônimo de fluxo.1 Algumas variáveis podem acarretar variações do DC entre os indivíduos, como a necessidade da de- manda metabólica de oxigênio, gênero, super- fície corpórea, idade e posição postural. Seu maior determinante é a necessidade metabólica do organismo, e sua principal fun- ção é o transporte de oxigênio, que será uti- lizado para a síntese de adenosina trifosfato introdução 13 (ATP). Quanto maior a necessidade metabó- lica, maior será o incremento do fluxo no sen- tido para atender as necessidades dos tecidos.2 De acordo com a posição em que o paciente se encontra, pode ocorrer alteração dos valo- res do débito cardíaco, sendo que as medidas obtidas devem levar em consideração a posi- ção adotada. As medidas do débito cardíaco são realizadas em posição supina, pois dimi- nuem cerca de 20% na posição ortostática. Na ausência de doenças como os shunts intracardíacos anatômicos, o DC de ambos os ventrículos é o mesmo. Se o DC aumentar ou diminuir em um dos ventrículos, ocorrerá uma adaptação para ajustes dessas alterações no outro ventrículo para atingir um equilíbrio. Na presença de shunt anatômico intracardíaco, ocorrem diferenças entre os volumes sanguí- Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 158 neos da circulação pulmonar e sistêmica. Quan- do há shunt anatômico da esquerda para a direita decorrente de defeito do septo atrial ou ventri- cular, o volume sistólico (VS) oriundo das câma- ras esquerdas sobrecarrega o ventrículo direito (VD). O fluxo na circulação pulmonar encontra- -se aumentado em relação ao sistêmico e, além disso, ocorre maior mistura de sangue oxigena- do com insaturado, no lado direito do coração. Observa-se um salto oximétrico na saturação venosa mista de oxigênio (SvO2), constatando- -se um valor extremamente aumentado em re- lação ao habitualmente esperado. A medida do DC através da circulação pulmonar por técnicas invasivas e sua interpretação é realizada baseada na premissa de que os fluxos pulmonares e sistê- micos são iguais. Desta forma, nas situações em que ocorrem alterações de fluxo decorrentes da presença de shunt intracardíaco anatômico, as estimativas do DC tornam-se imprevisíveis e de- siguais, o que diminui a acurácia e a precisão das medidas. Shunts intracardíacos anatômicos, da direita para a esquerda, também podem ocorrer, como, por exemplo, na tetralogia de Fallot. Em geral, indivíduos com reserva fisiológica adequada conseguem apresentar boa resposta à demanda metabólica. Entretanto, quando eleva- da, tal demanda pode ser um fator limitante. Nos pacientes graves as necessidades do fluxo se en- contram aumentadas, aproximadamente, em 50% da condição basal. Esse aumento da demanda me- tabólica está associado à doença de base. Em si- tuações que levam à diminuição das necessidades metabólicas, como anestesia e hipotermia, ocorre o inverso, caracterizado pela diminuição do DC. O segundo maior fator determinante do DC é a pós-carga. Se a resistência vascular sistêmica foi reduzida em 50%, na ausência de limitações contráteis ou com pré-carga adequada, o DC tende a dobrar e vice-versa.1 Nos estados de instabilidade hemodinâmi- ca, caracterizados por hipoperfusão tecidual, a adequação do fluxo sanguíneo às necessidades dos tecidos é o objetivo da ressuscitação preco- ce dos estados de choque.3,4 As variações de fluxo auxiliam na classifica- ção do padrão hemodinâmico dos estados de choque. O DC pode encontrar-se alto ou baixo. Entre os quatro tipos de estado de choque clas- sificados em relação ao padrão hemodinâmico, três apresentam valores do DC reduzidos, ou seja: cardiogênico, obstrutivo e hipovolêmico. Entretanto, nos casos de choque distributivo, antes da ressuscitação inicial, em certas situa- ções como a sepse, o fluxo pode encontrar-se com valores reduzidos e inadequados à deman- da metabólica. A otimização e a adequação do DC, ou fluxo, baseiam-se no tripé que interfere no VS: pré-car- ga, inotropismo e pós-carga. Contudo, nas situa- ções de baixo fluxo associadas a bradiarritmias, pode-se corrigir a perfusão simplesmente pela elevação da frequência cardíaca, adequando des- sa maneira o fluxo às necessidades dos tecidos. AvAliAção O DC não é mensurado pelas técnicas dispo- níveis à beira do leito, mas é apenas estimado. A medida objetiva do DC é obtida, em geral, experimentalmente, pelo implante de um fluxô- metro que envolve a aorta, de preferência próxi- mo à raiz da mesma. Para estimar o DC pode-se utilizar técnicas de monitoração invasiva, minimamente invasi- va ou não invasiva. A monitoração hemodinâ- mica invasiva permite estimar de maneira prá- tica, rápida e repetitiva essa importante variável pelo método da termodiluição.5 A monitoração minimamente invasiva con- tínua mensura o DC pela análise de contorno de pulso, sendo que alguns métodos exigem a calibração pela termodiluição transpulmonar Capítulo 13 DÉBIto CaRDíaCo – CoNCEItoS ESSENCIaIS 159 ou pela diluição de um indicador, enquanto ou- tros o estimam pelo emprego de derivadas da complacência arterial. Pode também ser aferido pelo doppler esofágico e pelo ecocardiograma transtorácico,6 pelas técnicas de ultrassonogra- fia. Essas técnicas serão discutidas em outros capítulos (ver Capítulo 25 – Termodiluição Transpulmonar e Análise de Contorno de Pulso e Capítulo 26 – Doppler Transesofágico). termodiluição pulmonar A equação de Stewart-Hamilton é a fórmula que relaciona o DC à temperatura na técnica de termodiluição: A técnica da termodiluição utiliza o resfria- mento para criar um gradiente térmico como temperatura na corrente sanguínea que ocor- re imediatamente após da infusão da solução gelada. O termistor (sensor) localizado na ex- tremidade distal do cateter (descrito com mais detalhe no Capítulo 4 – Descrição do Cateter de Artéria Pulmonar), registra a variação da temperatura que é observada no monitor de DC. Esse computador integra a informação de- finindo uma curva, e pela análise da área sob a curva é avaliado o DC. Essa área é inversamen- te proporcional ao débito (Figura 13.1). Para a estimativa do débito cardíaco pela termodiluição pulmonar são empregados 10 mL de soro glicosado a 5% como volume a ser injetado. Volumes menores (2,5 mL a 5 mL) podem ser utilizados em situações de restrição volêmica. Deve-se inserir no monitor de DC a constante do cateter de artéria pulmonar de acordo com o modelo do mesmo, em relação ao volume e temperatura da solução a ser in- jetada (Tabelas 13.1 e 13.2). Essa constante é importante, pois está diretamente relacionada com o algoritmo do cálculo do DC pela equa- ção de Stewart-Hamilton. O volume de bolus injetado não deve sofrer variações, o que acar- reta erros de medida. A temperatura da solu- ção a ser injetada pode variar de 0 ºC a 24 ºC. FiGURa 13.1 Observar a diminuição de temperatura através do tempo e a área sob a curva inversamente propor- cional ao DC. Q = v (tb - ti) K1 K2 tb (t) dt indicador, que é a variação da temperatura. Para gerar essa variação de temperatura, injeta- -se a solução gelada na corrente sanguínea. O gradiente térmico é formado pela oscilação da A B C 12 L/min 6 L/min 3 L/min Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 160 modelo de cateter swan-Ganz Tabela 13.1 temperatura do injetado. injetado a frio (0 oc a 5 oc) injetado a temperatura ambiente (19 oc a 22 oc) injetado a temperatura ambiente (23 oc a 25 oc) 10 ml 5 ml 3 ml 10 ml 5 ml 3 ml 10 ml 5 ml 3 ml 096F6 0,547 0,259 0,144 0,582 0,280 0,1610,608 0,305 0,180 131F7 0,542 0,247 0,132 0,578 0,274 0,154 0,595 0,287 0,165 132F5 ---- 0,270 0,154 ---- 0,292 0,170 ---- 0,307 0,181 141HF7 0,542 0,247 0,132 0,578 0,274 0,154 0,595 0,287 0,165 143HtF7 0,554 0,259 ---- 0,587 0,286 ---- 0,599 0,291 ---- c144F7 / S144F7 0,547 0,252 0,134 0,579 0,277 0,156 0,597 0,295 0,169 c145HF6 0,547 0,252 0,134 0,579 0,277 0,156 0,597 0,295 0,169 151F7 0,542 0,247 0,132 0,578 0,274 0,154 0,595 0,287 0,165 139F75 / 177F75 744F75 / 774F75 0,564 0,257 0,143 0,582 0,277 0,156 0,594 0,283 ---- 746F8 / 777F8 0,550 0,256 ---- 0,585 0,282 ---- 0,600 0,292 ---- 831HF75 0,564 0,262 0,139 0,588 0,283 0,158 0,612 0,301 0,177 834HF75 0,564 0,257 0,143 0,582 0,277 0,156 0,607 0,294 0,170 931HF75 0,564 0,262 0,139 0,588 0,283 0,158 0,612 0,301 0,177 991HF8 0,568 0,268 0,147 ---- ---- ---- 0,616 0,302 0,176 Ao utilizar soluções resfriadas, podem ocor- rer alguns inconvenientes, como aquecimento da solução pelas mãos do operador, aumento do custo e do tempo necessários para o prepa- ro e manutenção da temperatura da solução e potencial fator arritmogênico.7 Porém, podem ser utilizados sistemas fecha- dos de infusão, com manutenção da tempera- tura resfriada da solução a ser infundida. Dessa forma, o risco de contaminação é diminuído. O tempo gasto no processo de injeção é pouco relevante se for menor que 4 segundos para os 10 mL infundidos. Em função das variações térmicas do san- gue arterial pulmonar, de acordo com o ciclo respiratório, foi sugerido que as injeções para determinação do DC sejam feitas sempre na mesma fase (por exemplo, ao final da expira- ção). Na prática clínica, a dificuldade de sin- cronização com determinada fase do ciclo ven- tilatório justifica a realização de pelo menos 3 injeções sequenciais para posterior determi- nação do valor médio, minimizando erros po- tenciais. Recomenda-se também que os valores obtidos estejam dentro de uma faixa de varia- ção de 10%. Capítulo 13 DÉBIto CaRDíaCo – CoNCEItoS ESSENCIaIS 161 Em pacientes de compleição reduzida, por vezes são observadas falsas medidas do DC in- duzidas por refluxo da solução injetada pela via do introdutor. Essa ocorrência pouco frequente deve-se ao fato de a abertura do lúmen do átrio direito não ter sido exteriorizada e estar situada no lúmen do introdutor. Nessa circunstância, deve-se fechar a via de acesso ao introdutor du- rante a medida do DC. A frequente estimativa do DC em pacientes graves permite o acompanha- mento e a manipulação da função precípua da circulação, que é o transporte de oxigênio, além de permitir o cálculo de variáveis, como a resis- tência vascular sistêmica, a resistência vascular pulmonar e o trabalho dos ventrículos. Como parâmetro isolado, a medida do DC tem aplicação clínica limitada. A sua utilização como indicador da função miocárdica tem res- salvas, visto que um VS decrescente (por redu- ção de pré-carga ou deterioração contrátil) pode estar mascarado por um aumento da frequência cardíaca (FC). Integrado ao quadro clínico do pa- ciente e outras variáveis, a determinação do DC pode sugerir indiretamente alteração no desem- penho cardíaco. O índice de trabalho sistólico do ventrículo esquerdo é o parâmetro que pode ava- liar de forma mais adequada a função miocárdica. Novas tecnologias propiciaram uma forma de monitoração contínua e automatizada do DC, mediante um tipo de cateter de artéria pulmo- modelo de cateter swan-Ganz Tabela 13.2 temperatura do injetado. injetado a frio injetado a temperatura ambiente 10 ml (6 oc a 12 oc) 5 ml (8 oc a 16 oc) 10 ml (18 oc a 25 oc) 5 ml (18 oc a 25 oc) 096F6 0,558 0,277 0,607 0,301 131F7 0,561 0,259 0,608 0,301 132F5 ---- 0,285 ---- 0,307 141HF7 0,561 0,259 0,608 0,301 143HtF7 0,569 0,266 0,589 0,287 c114F7 0,570 0,271 0,585 0,287 c145HF6 / S145HF6 0,570 0,271 0,585 0,287 151F7 0,561 0,259 0,608 0,301 139F75 / 177F75 / 744F75/ 774F75 0,574 0,287 0,595 0,298 746F8 / 777F8 0,559 0,263 0,602 0,295 831HF75 0,578 0,272 0,592 0,290 834F75 0,574 0,287 0,595 0,298 931HF75 0,578 0,272 0,592 0,290 991HF8 0,553 0,277 (8 oc a 12 oc) 0,607 0,295 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 162 nar (CAP), que conserva as características ge- rais dos cateteres pulmonares em relação à sua constituição e técnica de introdução. Esse cateter dispõe de um filamento metálico de cobre espi- ralado que emite calor quando ativado por uma corrente elétrica. Dessa forma, o princípio de termodiluição continua sendo empregado, po- rém de forma inversa à descrita anteriormente, processando-se a diluição do aquecimento em vez do resfriamento do sangue. Com esse cateter é possível avaliar o DC em intervalos de tempo mais curtos, cerca de 1 minuto, por exemplo, sem a necessidade de infundir qualquer solução. O custo e a efetividade desses cateteres fo- ram analisados em alguns estudos que mostra- vam vantagens no emprego de cateteres de uso contínuo (Figura 13.2). interpretAção A interpretação do DC deve levar em conta o quadro clínico do paciente. O DC pode ser normal, elevado ou baixo, dependendo da de- FiGURa 13.2 Esquema ilustrativo do cateter de artéria pulmonar para monitoração do débito cardíaco contínuo. manda metabólica avaliada de acordo com os parâmetros de oxigenação tecidual.8 O DC é mais bem avaliado quando se considera a superfície corpórea (índice cardíaco). Por exem- plo, um indivíduo com peso de 100 kg e altura de 190 cm e outro com peso de 50 kg e altura de 160 cm apresentam superfícies corpóreas diferentes. Desta forma, um DC com valor igual a 8 L/min tem significado diferente nesses dois pacientes, pois eles formam superfícies corpóreas diferentes. O índice cardíaco (IC) se encontra três vezes au- mentado em neonatos quando comparado com adultos. Além de a superfície corpórea influenciar nesse aumento de fluxo, com o passar dos anos o índice cardíaco diminui progressivamente. A avaliação da SvO2 pode ser uma forma sim- ples de se aferir a adequação do DC. Partindo-se do princípio de que, em indivíduos sadios, a SvO2 fica em torno de 75%, medidas inferiores podem indicar inadequação do DC. Desta forma, é uti- lizado um gráfico que relaciona IC com taxa de extração de oxigênio (TEO2). 9 Esse gráfico per- mite a análise da tendência de variação, de con- Conector do termistor Válvula do enchimento do balão Conector do filamento térmico Conector do módulo óptico Extremidade do lúmen distal _ artéria pulmonar Extremidade do lúmen proximal _ injetado Balão Filamento térmico Abertura do lúmen proximal _ injetado a 26 cm Termistor a 4 cm Capítulo 13 DÉBIto CaRDíaCo – CoNCEItoS ESSENCIaIS 163 sumo de oxigênio (VO2) (Figura 13.3). A SvO2 é a variável que mais oscila após uma intervenção terapêutica que proporciona aumento do DO2, e, portanto, deve-se monitorá-la após cada inter- venção. Assim, ao se elevar o IC após infusão de fluidos ou mesmo pelo emprego de dobutamina, e se a TEO2 e a SvO2 não se alterarem, pode-se afirmar que houve aumento do VO2. 10 Assim, a monitoração contínua do DC e da SvO2 permitem inferir a demanda metabó- lica e monitorar as intervenções hemodinâ- micas.11 FiGURa 13.3 Esquema ilustrativo do cateter de artéria pulmonar para monitoração do débito cardíaco contínuo. Figura 13.3 - Relação entre índice cardíaco e taxa de extração de oxigênio. Taxa de extração de oxigênio (%) Ín d ic e c a rd ía c o ( m l/ m in / m 2 ) 0 1 2 3 4 5 300 250 200 150 100 VO 2 0 10 20 30 40 50 60 Um valor determinado de débito cardíaco é elevado, normal ou baixo de acordo com a satisfação metabólica que ele proporciona em relação à superfície que perfunde. Um DC de 15 L/min pode ser baixo se não atender às necessidades teciduais evidenciadas, por exemplo, por nível elevado de lactato origi- nado da hipóxia celular. Da mesma forma, a SvO2 baixa (menor de 65%) pode sugerir consumo de O2 elevado em relação à oferta. Isto significaque o DC deve ser incrementado ou que a demanda deva ser reduzida (Tabelas 13.3 e 13.4). Tabela 13.3 fatores que interferem no débito cardíaco. gênero Mulheres têm maior participação de gordura na composição de sua massa corpórea o tecido adiposo tende a ser metabolicamente menos ativo o Dc de uma mulher tende a ser 10% menor que o de um homem de mesmo peso e altura taxa metabólica Sepse, trauma, cirurgias ou fortes emoções aumentam o metabolismo e, portanto, a demanda de oxigênio tamanho Quanto maior e mais pesado o indivíduo, maiores Dc são necessários para perfundir sua massa corpórea, que é proporcional à sua taxa metabólica idade o índice cardíaco é mais elevado na criança, diminuindo progressivamente com a idade. assim, o neonato pode ter um índice cardíaco 3 vezes maior do que de um adulto Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 164 reFerênciAs 1. Guyton AC, Hall JE. Cardiac output, venous return, and their regulation. In: Guyton AC, Hall JE. (editors). Guyton and Hall textbook of medical physiology. 12th ed. Philadelphia, PA: Saunders Elselvier; 2011. p. 229-42. 2. Yassin J, Singer M. Fundamentals of oxygen de- livery. Contrib Nephrol. 2007;156:119-32. 3. Weil MH. Personal commentary on the diag- nosis and treatment of circulatory shock states. Curr Opin Crit Care. 2004;10(4):246-9. 4. Vincent JL, Rhodes A, Perel A, Martin GS, Della Rocca G, Vallet B, et al. Clinical review: update on hemodynamic monitoring--a consensus of 16. Crit Care. 2011;15(4):229. 5. Pinsky MR, Vincent JL. Let us use the pulmo- nary artery catheter correctly and only when we need it. Crit Care Med. 2005;33(5):1119-22. 6. Morgan P, Al-Subaie N, Rhodes A. Minimally invasive cardiac output monitoring. Curr Opin Crit Care. 2008;14(3):322-6. 7. Darovic G. Hemodynamic monitoring: inva- sive and noninvasive clinical application. 2nd ed. Philadelphia, PA: WB Saunders; 1995. 8. Silva E, Gallardo Garrido A, Assunção MS. Avaliação da perfusão tecidual no choque. Me- dicina, Ribeirão Preto. 2001;34:27-35. 9. Vincent JL. Determination of oxygen deliv- ery and consumption versus cardiac index and oxygen extraction ratio. Crit Care Clin. 1996;12(4):995-1006. 10. Friedman G, De Backer D, Shahla M, Vin- cent JL. Oxygen supply dependency can char- acterize septic shock. Intensive Care Med. 1998;24(2):118-23. 11. Marx G, Reinhart K. Venous oximetry. Curr Opin Crit Care. 2006;12(3):263-8. Tabela 13.4 fatores de erro. Shunts intracardíacos todos os métodos de mensuração do Dc pressupõem que os fluxos arteriais sistêmico e pulmonar sejam equivalentes a presença de comunicações anatômicas invalida quaisquer métodos de aferição do Dc Lesões cardíacas regurgitantes o nível do fluxo regurgitante é diretamente proporcional ao erro obtido na estimativa do Dc variávEis HEmodiNÂmicas calculadas: rEsistÊNcia E trabalHo14 Tatiana Mohovic Elias Knobel variávEis HEmodiNÂmicas calculadas: rEsistÊNcia E trabalHo introdução 14 A monitoração hemodinâmica é utilizada em terapia intensiva com o objetivo de iden- tificar instabilidades cardiovasculares e suas causas, além de monitorar a resposta a deter- minado tratamento1,2. Essa monitoração pode ser realizada utilizando-se ferramentas que permitem medir parâmetros diretos (variáveis mensuradas) como, por exemplo, pressões de enchimento cardíaco, pressão arterial, pressão da artéria pulmonar e variáveis que traduzam fluxo, como débito cardíaco (DC). Pode-se também obter, a partir das medidas diretas, outras que são calculadas e que podem auxiliar nas decisões clínicas, desde que anali- sadas em conjunto com outros parâmetros. As quatro categorias de choque (hipovolê- mico, cardiogênico, obstrutivo e distributivo) são geralmente caracterizadas por variáveis hemodinâmicas específicas. Essas variáveis po- dem ser medidas por meio de diversos métodos invasivos e não invasivos, sendo que alguns pa- râmetros hemodinâmicos calculados auxiliam na avaliação do estado cardiovascular global. medidAs FisiológicAs diretAs monitorização não invasiva ECG; oximetria de pulso; pressão arterial; pressão venosa central; frequência cardíaca. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 168 monitorização invasiva cateterização arterial; cateterização venosa central; cateter de artéria pulmonar; doppler esofágico. vAriáveis hemodinâmicAs primáriAs determinantes fisiológicos do sistema cardiovascular As variáveis calculadas podem sofrer diversas influências na sua determinação. Isto significa que na prática clínica deve haver o devido cuida- do ao interpretá-las, sendo mais prudente enten- der o significado das variáveis que as compõem. Diversos fatores influenciam na determina- ção e no cálculo dessas variáveis. Seu entendi- mento é fundamental para a avaliação hemodi- nâmica global do paciente (Tabela 14.1). vAriáveis hemodinâmicAs As variáveis hemodinâmicas obtidas pela mo- nitoração invasiva podem ser classificadas em: Mensuráveis (Tabela 14.2): aquelas ob- tidas por medida direta pelo uso de dis- positivos apropriados.3 Tabela 14.1 termos utilizados para a determinação das variáveis mensuradas e calculadas. pré-carga Definida como a tensão da parede ventricular gerada pelo volume no final da diástole. Depende da relação pressão/volume É um importante determinante do Dc pós-carga Definida como estresse da parede ventricular durante a sístole para vencer a resistência imposta para a ejeção ventricular, a pós-carga não é sinônimo de resistência vascular Depende do tamanho do ventrículo, da pressão desenvolvida durante a sístole e da espessura da parede ventricular não se pode medir fidedignamente a pós-carga devido às variáveis envolvidas na sua determinação. não se deve denominar de pós-carga do ventrículo direito, nem de pós-carga do ventrículo esquerdo, o cálculo da resistência vascular pulmonar e sistêmica, respectivamente, como já salientado É outro importante determinante do Dc contratilidade variável difícil de ser medida na prática clínica provavelmente, o melhor parâmetro de contratilidade à beira do leito, é a fração de ejeção ventricular. Quanto à monitoração invasiva com cateter de artéria pulmonar, a variável que se aproxima da fração de ejeção é o índice do trabalho sistólico ventricular (itSv) impedância arterial Difícil de ser medida vários autores consideram a impedância arterial como um dos componentes da pós-carga, que pode interferir diretamente no desempenho miocárdico a resistência vascular sistêmica é uma aproximação grosseira da impedância arterial complacência ventricular Determinada pela relação entre as mudanças de volume e da pressão transmural do ventrículo, no final da diástole Fatores como massa muscular, espessura da parede, geometria e volume ventriculares influenciam na complacência ventricular Capítulo 14 VaRIÁVEIS HEMoDINÂMICaS CalCulaDaS: RESIStÊNCIa E tRaBalHo 169 Calculadas ou derivadas (Tabela 14.3): aquelas obtidas por fórmulas que inte- gram as variáveis mensuráveis.3 Partindo do princípio de que a demanda me- tabólica pode sofrer alterações no decorrer da doença, os valores de DC e da oferta de oxigê- nio (DO2) podem sofrer variações e, portanto, fica difícil estabelecer um valor normal. Esses parâmetros variam de acordo com a demanda metabólica e podem ter valores do DO2 adequa- dos ou inadequados. vAriáveis hemodinâmicAs cAlculAdAs Para a determinação das variáveis calcula- das é necessário obter dados medidos através de cateteres arteriais, venosos e monitores es- pecíficos. Algumas variáveis necessitam ser indexadas utilizando-se a área de superfície corpórea (ASC). As variáveis calculadas, em geral, são pouco utilizadas, principalmente porque a interpreta- ção das mesmas pode ser difícil devido às in- terferências que podem sofrer. Entretanto, em conjunto com as variáveis mensuráveis, que são as mais importantes, podemauxiliar no racio- cínio diagnóstico e na evolução do tratamento. As variáveis calculadas podem ajudar a elucidar o tipo de choque predominante, bem como na identificação de componentes rele- vantes sobre o tipo do estado de choque. Para exemplificar, um choque distributivo devido ao choque séptico pode apresentar fluxo inade- quado após a ressuscitação adequada com flui- dos, o que pode caracterizar um componente cardiogênico. No choque distributivo, após ressuscitação volêmica, observa-se um aumento no DC e uma diminuição do tônus vasomotor. O DC, o trabalho sistólico, a DO2 e a SvO2 estão diminuídas no choque cardiogênico, hi- povolêmico e obstrutivo, mas podem estar com valores numéricos absolutos normais ou até aumentados no choque distributivo, o que não significa necessariamente que estejam adequa- dos às necessidades do organismo. Como a maioria dos estados de choque reflete uma DO2 inadequada aos tecidos, o principal objetivo da ressuscitação é adequar a DO2, que na maior parte das vezes se traduzirá em aumento dos valores numéricos prévios à intervenção. Tabela 14.2 variáveis hemodinâmicas mensuráveis. variável (abreviatura) unidade variação normal pressão arterial sistólica (paS) pressão arterial diastólica (pad) mmHg mmHg 100-140 60-90 pressão sistólica da artéria pulmonar (pSap) pressão diastólica da artéria pulmonar (pDap) pressão de oclusão da artéria pulmonar (poap) mmHg mmHg mmHg 15-30 4-12 2-12 pressão sistólica do ventrículo direito (pSvD) pressão diastólica final do ventrículo direito (pDFvD) mmHg mmHg 15-30 0-8 pressão venosa central (pvc) mmHg 0-8 Débito cardíaco (Dc) L/min varia com a superfície corporal Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 170 Tabela 14.3 variáveis hemodinâmicas calculadas ou derivadas. variável (abreviatura) cálculo variação normal pressão arterial média (paM) paM = paD + (paS – paD)/3 65-100 mmHg pressão média da artéria pulmonar (pMap) pMap = pDap + (pSap – poap)/3 9-16 mmHg Índice cardíaco (ic) ic = Dc/aSc 2.8-4.2 L/min/m2 volume sistólico (vS) vS = Dc/Fc 30-65 mL/batimento/m2 Índice sistólico (iS) iS = vS/aSc resistência periférica total (rpt) (paM/Dc)/80 resistência vascular sistêmica (rvS) (paM – pvc)/Dc x 80 Índice de resistência vascular sistêmica (irvS) irvS = paM – pvc x 80 ic 1.600-2.400 dyna.seg.cm-5/m2 resistência vascular pulmonar (rvp) (pMap – poap)/Dc x 80 Índice de resistência vascular pulmonar (irvp) irvp = papM – poap x 80 ic 250-430 dyna.seg.cm-5/m2 trabalho sistólico do ventrículo esquerdo (tSve) vS x (paM – poap) Índice de trabalho sistólico do ventrículo esquerdo (itSve) itSve = [iS x (paM – poap)]/aSc 44-64 g.min/m2 trabalho sistólico do ventrículo direito (tSvD) vS x (pMpa – pvc) Índice de trabalho sistólico do ventrículo direito (itSvD) itSvD=tSvD/aSc 7-12 g.min/m2 Área de superfície corpórea (aSc) – m2 peso (Kg) 0,425 x altura (cm) 0,725 x 0,007184 Do 2 global Dc x (Sao 2 – Svo 2 ) Hb x 1,36 x 1000 Índice Do 2 global ic x (Sao 2 – Svo 2 ) Hb x 1,36 vo 2 global Dc x Sao 2 x Hb x 1,36 x 1000 Índice vo 2 global ic x Sao 2 2 x Hb x 1,36 x 1000 Capítulo 14 VaRIÁVEIS HEMoDINÂMICaS CalCulaDaS: RESIStÊNCIa E tRaBalHo 171 clAssiFicAção dAs vAriáveis cAlculAdAs variáveis calculadas relacionadas ao ventrículo esquerdo Resistência vascular sistêmica e índice de re- sistência vascular sistêmica: a resistência vascu- lar sistêmica é a resistência ao fluxo sanguíneo imposta pelo leito vascular sistêmico. Ela ocor- re por um diferencial de pressão entre a PAM e a PVC dividida pelo fluxo, no caso, DC.4 Segundo a lei de Poiseuille, o principal com- ponente da resistência é o diâmetro vascular. Quanto menor o diâmetro vascular, maior a re- sistência e, consequentemente, menor a veloci- dade sanguínea. Essa resistência deve ser supe- rada pelo ventrículo esquerdo para impulsionar o sangue através da circulação sistêmica.1 Pode ser medida pela seguinte fórmula: mento cardíaco) ou diminuído (ex.: choque sép- tico, anafilático),3 dependendo respectivamente da presença de vasoconstrição ou vasodilatação. A sepse é a etiologia mais comum de baixa RVS na UTI no paciente grave. Mediadores in- flamatórios como TNF-α, IL-1, fator de ativa- ção plaquetária e prostaglandinas levam a uma baixa resistência vascular sistêmica na sepse. Essa baixa resistência é a causa da hipotensão, mesmo que concomitantemente o DC esteja normal ou até elevado. A RVS baixa e persisten- te por mais de 24 horas é um importante predi- tor de mortalidade. Outras causas de choque distributivo incluem anafilaxia, ingestão de drogas, pancreatite, cirro- se, lesão neurogênica, beribéri, intoxicação por salicilatos, síndrome vasoplégica após revascu- larização do miocárdio, e insuficiência adrenal. Essa variável proporcionará um entendi- mento mais fácil do estado de choque, poden- do facilitar a utilização das drogas vasoativas. Entretanto, há dois conceitos que tornam essa variável muito criticável e inviabilizam a sua utilização de forma isolada: 1) não considerar a pulsatilidade do fluxo sanguíneo e, por isso, não permitir avaliar adequadamente a impedância arterial; 2) a análise da RVS assume uma razão linear entre fluxo e pressão, o que não ocorre na maioria dos casos. observação: no choque séptico, pode-se encontrar DC elevado com PAM normal. Nessa situação a RVS estará baixa e não se deve atuar sobre ela, pois se trata de um mecanismo de adequação. Isto quer dizer que não se utiliza va- sopressor para elevar a RVS, e sim para garantir pressão de perfusão adequada. Trabalho sistólico do VE e índice do traba- lho sistólico de VE: é o trabalho realizado pelo ventrículo esquerdo para ejetar determinado volume de sangue através da aorta e pode ser calculado através do produto do VS e a pressão média da aorta durante a ejeção. *80: representa um fator de conversão das unidades para o padrão cgs. Resistência vascular pulmonar (RVP) RVP = PMAP – POAP x 80* DC Índice de resistência vascular pulmonar (IRVP) IRVP = PMAP – POAP x 80* IC O IRVS é determinado utilizando-se o índi- ce cardíaco em vez do débito cardíaco, pois esse leva em conta a superfície corpórea do paciente. O IRVS (ou RVS) é representante indireto do es- tado vasomotor da grande circulação, e por isso muito criticável. Isto significa que o IRVS estará aumentado (ex.: choque cardiogênico, tampona- Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 172 Trabalho sistólico de ventrículo esquerdo (TSVE) tSVE = VS × [(PaM – PoaP) x 0,0136] Índice de trabalho sistólico de ventrículo esquerdo (ITSVE) itSVE = iS × [(PaM – PoaP) × 0,0136] Para a determinação fidedigna do TSVE, é necessário um conhecimento, em tempo real, da pressão e do volume ventricular, que, na prá- tica, não é factível. O índice que mais reflete a função do ventrículo esquerdo é o ITSVE, me- lhor indicador da função inotrópica.3 O ITSVE pode sofrer influência da pré e da pós-carga. Isto significa que o entendimento do ITSVE depende da análise dessas duas variá- veis.3 Na prática, nunca se deve tomar conduta com base em um valor numérico de uma única variável. Pode-se traçar uma curva de função ventricular ao relacionar uma variável de pré- -carga, como a POAP, e o índice de trabalho sis- tólico de ventrículo esquerdo. Assim, pode-se perceber que na medida em que a pré-carga se eleva, aumenta proporcionalmente o trabalho sistólico até um limite acima do qual o ventrí- culo começa a falir. A grande limitação desse método é a utilização de uma variável pressó- rica de pré-carga para estimar uma variável vo- lumétrica. Índice cardíaco: o débito cardíaco é definido como o volume de sangue que um ventrículo eje- ta durante 1 minuto, representado pelo produto do VS pela frequência cardíaca. O DC depende das características do sistema de condução, prin- cipalmente da resistência dos vasos sistêmicos.O fluxo sanguíneo é inversamente proporcional à resistência e diretamente proporcional à pressão de perfusão (o gradiente de pressão entre o sis- tema arterial e venoso distal).1 O IC representa o fluxo sanguíneo global cor- rigido pela superfície corpórea.3 Isso é importan- te, pois o débito cardíaco varia com o tamanho do indivíduo. Deve-se lembrar que o IC, assim como o DC, sofre interferência da pré-carga, pós-carga e da função inotrópica do coração. Índice cardíaco (IC) IC = DC/ASC ASC: área de superfície corporal. A interpretação da RVP é complexa porque sua medida sofre as mesmas restrições já des- critas para a RVS e porque não há uma relação linear entre a pressão média de artéria pulmonar e o débito cardíaco. Outro importante aspecto é relacionado a sua alta sensibilidade às variações por erros de medida em decorrência dos bai- xos valores pressóricos na circulação pulmonar. Após a análise crítica da RVP, pode-se considerá- *80: representa um fator de conversão de unidades para o padrão cgs. Resistência vascular sistêmica (RVS) RVS = PAM – PVC x 80 DC Índice de resistência vascular sistêmica (IRVS) IRVS = PAM – PVC x 80* IC variáveis calculadas relacionadas ao ventrículo direito Resistência vascular pulmonar e índice de resistência vascular pulmonar: Capítulo 14 VaRIÁVEIS HEMoDINÂMICaS CalCulaDaS: RESIStÊNCIa E tRaBalHo 173 FiGURa 14.1 Relação entre a temperatura do injetado e o tempo T B representa a temperatura sanguínea na artéria pulmonar antes da injeção. Onda R do ECG T B T T1 T2 T3 0.5o -la com cuidado como um indicador da resistên- cia dos vasos pulmonares de pequeno calibre.3 Quando não há estenose da artéria pulmo- nar ou nenhuma outra obstrução, o RVP ou IRVP pode representar o estado vasomotor da circulação pulmonar. Isto significa que a RVP estará aumentada quando houver vasoconstri- ção e diminuída quando houver vasodilatação. observação: é importante observar se exis- te gradiente maior que 5 mmHg entre PDAP e POAP. Quando presente, denota hipertensão arterial pulmonar não secundária à disfunção ventricular esquerda (ex.: hipertensão pulmo- nar secundária à SDRA). Trabalho sistólico do ventrículo direito e índi- ce do trabalho sistólico do ventrículo direito: Trabalho sistólico do ventrículo direito (TSVD) tsvd = [vs × (pmap – pvc)] x 0,0136 Índice do trabalho sistólico do ventrículo direito (ITSVD) itsvd = [is × (pmap – pvc)] × 0,0136 A análise do trabalho sistólico do ventrículo direito tem as mesmas restrições da análise do trabalho sistólico do ventrículo esquerdo.3 Essa variável sofre interferência de pré-carga, pós- -carga e contratilidade do ventrículo direito. Isto significa que, em situações em que os valores de pré-carga e pós-carga estão dentro da normali- dade, o TSVD só estará normal se a função ino- trópica do ventrículo direito estiver preservada. Pelas definições prévias de pré-carga e pós- -carga, fica muito difícil analisar essa variável de forma isolada. cAteter de ArtériA pulmonAr com Análise de FrAção de ejeção do ventrículo direito No início da década de 1990, uma nova tecnologia foi introduzida nos cateteres de artéria pulmonar. Essa técnica permitiu a me- dida da fração de ejeção do ventrículo direito (FEVD), pelo uso da técnica da termodilui- ção (Figura 14.1).3 Esse método de medida da FEVD foi validado utilizando-se como referência a ventriculografia Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 174 contrastada (Figura 14.2).2 Pela medida da FEVD, outras variáveis foram geradas e novas avaliações da pré-carga e da função sistólica do ventrículo direito foram introduzidas (Tabela 14.4). Para mensurar a FEVD é necessário conec- tar o debitomêtro ao monitor multiparamétri- co para capturar o traçado eletrocardiográfico. Isso é necessário, pois o software registra os complexos QRS na curva de termodiluição. Essa técnica, apesar de promissora, apre- senta problemas técnicos quando utilizada em pacientes com fibrilação atrial, frequência cardíaca superior a 150 bpm e extrassístoles frequentes. Isso decorre pela dificuldade de identificação das ondas R do ECG, o que di- minui a acurácia da mensuração da FEVD. A FEVD apresenta valores diferentes dependendo da fase do ciclo respiratório em que é medida. Em pacientes com insuficiência tricúspide, esse método fica invalidado devido à existência de fluxo bidirecional para o átrio direito e para ar- téria pulmonar durante a sístole.3 A possibilidade de avaliar a função ventricu- lar direita, através da fração de ejeção do ventrí- culo direito, à beira do leito de forma contínua (Figura 14.1), trouxe uma nova perspectiva não só para determinar a função ventricular, mas por permitir o cálculo do IVDFVD. FiGURa 14.2 Comparação entre a fração de ejeção ventricular medida pela ventriculorafia contrastada (angio) e pelo método da termodiluição (térmico). Adaptado de Voelker et al. 5. Índice sistólico (IS) = IC/FC. Índice cardíaco (IC) = DC/ASC. Fc: frequência cardíaca. dc: débito cardíaco. aSc: área de superfície corpórea. 80 70 60 50 40 30 20 40 60 80 T é rm ic o r = 0,80 p < 0,001 Angio Tabela 14.4 variáveis de função do ventrículo direito. variáveis (abreviações) fórmulas valores normais Fração de ejeção do ventrículo direito (FevD) Medida direta por termodiluição 0,40-0,60 Índice de volume diastólico final do ventrículo direito (ivDFvD) ivDFvD = iS/FevD 60-100 mL/m2 Índice de volume sistólico do ventrículo direito (ivSvD) ivSvD = iS – ivDFvD 30-60 mL/m2 Capítulo 14 VaRIÁVEIS HEMoDINÂMICaS CalCulaDaS: RESIStÊNCIa E tRaBalHo 175 Há vários estudos mostrando uma boa cor- relação entre o IVDFVD e o IC (Figura 14.3). Alguns estudos mostram que o índice de volu- me diastólico final de ventrículo direito menor que 140 mL/m2 está associado ao recrutamen- to do IC, quando se infundem fluidos. Outros estudos mostraram também boa correlação do IVDFVD com IVSFVD e ITSVE. No entanto, estudos recentes demonstram que não há evidência consistente que suporte o uso de medidas diretas ou indiretas do volume diastólico final como preditor de responsivi- dade de pré-carga. considerAções FinAis Apesar da série de variáveis mensuradas e calculadas, não se deve tratar um paciente com FiGURa 14.3 Relação entre índice cardíaco (IC) e índice do volume diastólico final do ventrículo direito (IVDFVD). Adaptado de Volker et al. 5 8,00 7,00 6,00 5,00 4,00 3,00 2,00 1,00 200150100500 IVDFVD r = 0,69 p < 0,001 Ín d ic e c a rd ía c o base em um dado numérico isolado, seja este uma variável mensurada ou calculada.3 O doen- te grave é complexo, e as condutas devem ser tomadas baseando-se em um conjunto de ob- servações clínicas, laboratoriais e as oriundas da monitoração adequada. Nenhuma monito- ração hemodinâmica melhora o prognóstico se não estiver acoplado com um tratamento res- ponsável pelo desfecho clínico.1, 2 Nenhum valor absoluto de PVC, POAP, VD- FVD ou VDFVE é preditor de responsividade de pré-carga.2 Mudanças na PVC e na POAP não refletem mudanças no DC e no VS em pa- cientes hemodinamicamente instáveis. Apesar da elevação nos volumes diastólicos fi- nais de VE e VD aumentar o VS, valores conheci- dos num único momento não são úteis para pre- ver o aumento do IC.2 reFerênciAs 1. Calzia E IZ, Radermacher P: Determinants of blood flow and organ perfusion in functional hemodynamic monitoring, vol. 42. Germany: Springer; 2005. 2. Pinsky MR: Cardiovascular Monitoring in Critical Care Hong Kong, Singapure: Blackwell Publishing Ltd; 2010. 3. Machado FSBAJ, Knobel E: Variáveis calculadas: resistência e trabalho. São Paulo: Atheneu; 2005. 4. Melo J, Peters JI: Low systemic vascular resis- tance: differential diagnosis and outcome. Crit Care 1999, 3(3):71-77. traNsportE dE oXiGÊNio15 Sandrigo Mangini Murillo Santucci Cesar de Assunção Nelson Akamine traNsportE dE oXiGÊNio O oxigênio é substrato vital para a manu- tenção da homeostasiatecidual e celular. Tem como objetivo a produção de energia, adeno- sina trifosfato (ATP), pela maioria das células eucarióticas pelo mecanismo de aerobiose que ocorre na mitocôndria. Foi descoberto por Jo- seph Priesley, em 1774.1 O nome oxigênio foi dado por Lavoisier, sendo originário do gre- go, produtor de ácido. O conceito de choque é definido pelo desequilíbrio entre a oferta de oxigênio (DO2) e as necessidades de oxigênio pelo organismo. Como referido acima, pode se dizer que a inadequação da chegada e/ou utilização do oxigênio pelas células leva à di- minuição de síntese de energia para manter as funções celulares que podem ser desde a manu- tenção e estabilização do potencial de repouso de membrana, até funções mais complexas em introdução 15 diferentes órgãos, como contração do músculo cardíaco ou as funções dos túbulos renais. Dessa forma, os conhecimentos adquiridos demonstraram que o estado de choque reflete um desequilíbrio entre oferta (DO2) e consu- mo de oxigênio (VO2), considerando: DO2: função precípua da circulação. O2: componente sanguíneo mais de- pendente de fluxo, porquanto tem a maior taxa de extração, não podendo ser armazenado. Seu transporte aos tecidos onde será utilizado guarda boa correlação com a sobrevida. Para tanto é preciso salientar que trans- porte e oferta de oxigênio não apresentam o mesmo significado. A DO2 reflete a quantida- de de oxigênio que realmente chega à célula, Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 180 enquanto o transporte de oxigênio (TO2) reflete a forma com que o O2 é transportado até a célu- la, como será descrito a seguir. No tocante às variáveis capazes de avaliar, DO2 e/ou VO2 são as que mais se relacionam ao prognóstico e, portanto, são as que devem ser mais frequentemente mensuradas. Da observação prospectiva dos padrões cardiorrespiratórios de pacientes graves que sobreviveram,2 foram estabelecidos objetivos terapêuticos a ser atingidos. O passo seguin- te seria documentar que a aplicação prospec- tiva de protocolos que visam incrementar a DO2 e o VO2 teriam a capacidade de reduzir a morbimortalidade e a incidência de insu- ficiência orgânica, o que foi constatado por Shoemaker.3 Por vários anos, o incremento farmacológico do transporte de oxigênio para níveis supranor- mais foi considerado objetivo terapêutico. En- tretanto, esse conceito foi modificado a partir das observações de ausência de benefício dessa estratégia, especialmente nos pacientes sem dé- bito de oxigênio e com início terapêutico tardio em relação ao desenvolvimento de disfunção orgânica (Tabela 15.1). Tabela 15.1 resumo dos trabalhos clínicos prospectivos com nível de evidência i ou ii, abordando a terapêutica guiada pelo cateter swan-Ganz. autor Evidência tipo de estudo população intervenção prognóstico resultados F le m in g e t a l4 ( 19 9 2 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 67 pacientes com trauma iSS aproximada- mente 27 ic > 4,5 L/min/m2 iDo 2 > 670 mL/min/m2 ivo 2 > 166 mL/min/m2 fuídos e inotrópicos Mortalidade/ falências orgânicas Menor mortalidade Menor número de falências Menor tempo no cti Menor uso do respirador tu c h sm id t e t a l5 ( 19 9 2 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 51 pacientes graves, choque séptico, apacHe ii aproximada- mente 21 ic > 6 L/min/m2 fuídos e inotrópicos Mortalidade tempo no cti Sem diferenças B o y d e t a l6 (1 9 9 3 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 107 pacientes cirúrgicos de alto risco pré-operatório iDo 2 > 600 mL/min/m2 fuídos e inotrópicos Mortalidade no pós- -operatório/ tempo no cti/ tempo no hospital Menor mor- talidade Menor taxa de compli- cações Y u e t a l7 (1 9 9 3 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 89 pacientes cirúrgicos, sepse, choque séptico, SDra e choque hipervolêmico iDo 2 > 600 mL/min/m2 fuídos e inotrópicos Mortalidade tempo no cti tempo no hospital Sem diferença H a y e s e t a l8 (1 9 9 4 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 100 pacientes graves apacHe ii aproximada- mente 18 ic >4,5 L/min/m2 iDo 2 > 670 mL/min/m2 ivo 2 > 170 mL/min/m2 fuídos e inotrópicos Mortalidade tempo no cti tempo no hospital Maior mortalidade Sem diferença nos tempos continuA >> Capítulo 15 tRaNSpoRtE DE oXIGÊNIo 181 Tabela 15.1 resumo dos trabalhos clínicos prospectivos com nível de evidência i ou ii, abordando a terapêutica guiada pelo cateter swan-Ganz. autor Evidência tipo de estudo população intervenção prognóstico resultados B is h o p e t a l9 ( 19 9 5 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 115 pacientes com trauma iSS aproxima- damente 23 ic >4,5 L/min/m2 iDo 2 >670 mL/min/m2 ivo 2 >166 mL/min/m2 Mortalidade/ falência, tempo no cti/ tempo no hospital/uso de respirador Menor mortalidade Menor número de falências tempo e respirador iguais g a tt in o n i e t a l10 (1 9 9 5 ) i prospectivo, randomizado, controlado e multicêntrico 762 pacientes graves com apS >11 ic >4,5 L/min/m2 fluídos e inotrópicos Falências orgânicas tempo de cti não houve melhora no prognóstico a lia e t a l11 (1 9 9 9 ) ii randomizado e controlado 63 pacientes em choque séptico iDo 2 >600 mL/min/m2 Mortalidade Falências orgânicas Sem diferenças L o b o e t a l12 (2 0 0 0 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 19 pacientes cirúrgicos >60 anos iDo 2 >600 mL/min/m2 ivo 2 >170 mL/min/m2 ic >4,5 L/min/m2 Mortalidade complicações Menor mor- talidade Menores complica- ções v e lm a h o s e t a l13 ( 2 0 0 0 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 40 pacientes vítimas de trauma grave iDo 2 >600 mL/min/m2 ic >4,5 L/min/m2 ivo 2 >170 mL/min/m2 volume + medicamentos Mortalidade Falências orgânicas tempo no cti Sem diferenças S a n d h a m e t a l14 (2 0 0 3 ) ii prospectivo, randomizado e controlado 997 pac (com protocolo) × 997 sem pac (trat. padrão), pacientes de alto risco cirúrgico iDo 2 >550 mL/min/m2 ic >3,5 L/min/ m2 paM >70 mmHg poap = 18 mmHg Fc <120 bpm Ht >27% Mortalidade complicações Sem diferenças Maior incidência de tep (pac) >> continuAção A adequação da oxigenação tissular depende do volume de O2 ofertados aos tecidos (DO2) e daquele consumido (VO2). O objetivo em res- tabelecer a DO2 é a adequação da produção de energia em relação à demanda de oxigênio. A relação oferta/consumo pode ser determi- nada pela análise de 5 fatores facilmente men- suráveis e de um sexto fator que não é mensu- rável (Tabela 15.2). Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 182 FiGURa 15.1 Cascata de oxigênio do ar atmosférico até a mitocôndria. Adaptado de: Yassin J e Singer M.1 Tabela 15.2 fatores mensuráveis e não mensuráveis. fatores mensuráveis concentração de hemoglobina porcentagem da hemoglobina saturada com oxigênio no sangue arterial (Sao 2 ) Débito cardíaco (Dc) consumo de oxigênio (vo 2 ) afinidade da hemoglobina pelo oxigênio (p 50 ) fator não mensurável Distribuição da perfusão trAnsporte de oxigênio Pode-se dizer que o transporte de oxigênio (TO2) se inicia quando o oxigênio é captado da atmosfera, difundindo-se do espaço alveolar para o sangue capilar, onde é transportado, ligado à hemoglobina e, em pequena parte, dissolvido no plasma. Então, através do débito cardíaco (DC), o fluxo sanguíneo é distribuído na circulação sistêmica e, posteriormente, na microcirculação. Por fim, o oxigênio é liberado da hemoglobina e se difunde do espaço intravascular para o in- tracelular, onde é utilizado para manter as fun- ções vitais em nível celular, o que se traduz na obtenção de energia, através do ciclo de Krebs e da cadeia respiratória (Figura 15.1).3 Essas eta- pas podem ser interrompidas em qualquer nível, ou seja, pode ocorrer diminuição da oxigenação sanguínea, diminuiçãoda taxa de hemoglobina ou diminuição do DC. O perfeito entendimento dos processos fisiopatológicos, que podem aí inte- ragir, é fundamental para a correta interpretação clínica e laboratorial das manifestações apresen- tadas pelo paciente, com consequente adequada intervenção terapêutica. Isso seria uma maneira simplista de descrever o TO2 (Figura 15.2).15 Difusão Shunt A tm osf er a* A lv éo lo s* Cap ila r* pul m ona r A rt ér ia * Cél ul as * M ito cô nd ria * 157,5 97,5 52,5 37,5 7,5 PO 2 (mmHg) Sist êm ic os* Capítulo 15 tRaNSpoRtE DE oXIGÊNIo 183 to 2 = cao 2 x Dc cao 2 = (Hb 1,34 x Sao 2 ) + (pao 2 x 0,0031) Microcirculação Capilar HemáciaAlvéolo FiGURa 15.2 Transporte de oxigênio. O volume de O2 transportado pelo leito vas- cular sistêmico por minuto é um produto do conteúdo arterial de O2 (CaO2) pelo DC. O CaO2 é a soma do oxigênio ligado quimi- camente à hemoglobina com aquele fisicamente dissolvido no plasma, ou seja: em que 1,34 é uma estimativa do volume de O2 (mL) capaz de se ligar a 1 g de hemoglo- bina (Hb), quando está totalmente saturada, e 0,0031 é o coeficiente de solubilidade de O2 no plasma. A Figura 15.3 esquematiza a oferta de oxigênio aos tecidos. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 184 Hemoglobina A contribuição da hemoglobina (Hb) à DO2 varia com o grau e a duração da anemia, de- manda metabólica e diâmetro vascular. A anemia está associada a alterações na vis- cosidade sanguínea e no tônus vascular. A vis- cosidade dobra quando o hematócrito é elevado de 20% a 40%, e essa alteração é ainda maior nos indivíduos arteriopatas. Nas anemias leves, observa-se aumento pe- riférico na captação de O2, ou seja, há maior extração de O2 pelos tecidos. Em anemias mais graves, pode-se detectar um verdadeiro estado hiperdinâmico com ele- vação do DC e queda da resistência vascular sistêmica (RVS). Enquanto parece não haver dúvidas quanto à necessidade de transfusão sanguínea no pa- ciente grave com anemia intensa, a reposição para valores de Hb maiores ou iguais a 10 g/dL (ou hematócrito em torno de 33%) já não é tão clara, visto que a transfusão liberal de concen- trado não se mostrou benéfica, podendo até contribuir para aumento da morbidade.16,17 Além disso, Fernandes Jr. et al demonstraram FiGURa 15.3 Parâmetros de oxigenação tecidual. conceitos fundamentais a carga transporte de o 2 saturação venosa de o 2 Conteúdo de O 2 = (Hb x 1,34 x SO 2 ) + (0,0031 x p0 2 ) Estação de carga T0 2 (transporte) = DC x Ca0 2 x 10 (DC x Hb x Sa0 2 x 1,34 x 10) Locomotiva Demanda tecidual de 0 2Cv0 2 Ca0 2 Ca0 2 (Sa0 2 ) D0 2 E0 2 (Cv0 2 ) (Sv0 2 ) c B d Estação de carga conteúdo de o 2 demanda de o 2 Demanda tecidual de 0 2 Capítulo 15 tRaNSpoRtE DE oXIGÊNIo 185 que ao realizar a transfusão de concentrado de hemácias em pacientes graves com o objetivo de otimizar a oferta de oxigênio, não se conse- guiu elevar o consumo de oxigênio.18 O conceito de um hematócrito ótimo, no qual o transporte de O2 seria máximo, ficou definido em condições experimentais como menores que o valor fisiológico. Ressalta-se que essa conclusão é válida em condições de repouso, não podendo ser extrapolada para situações de alta demanda energética e de estados hiperdinâmicos, em que níveis maiores de Hb parecem corresponder à maior capacidade transportadora de O2. Deve-se, de início, melhorar as condições hemodinâmicas e, posteriormente, elevar a concentração de Hb, se existirem evidências de que a hipóxia tissular (baixa pressão venosa de O2) esteja causando disfunções orgânicas. saturação arterial de oxigênio A contribuição da saturação arterial de oxi- gênio (SaO2) ao transporte de oxigênio é linear. Normalmente, níveis de PaO2 de 60 mmHg ou mais, com curva normal de dissociação da he- moglobina, correspondem a SaO2 aceitável. curva de dissociação da oxi-hemoglobina Manipulações na curva de dissociação da hemoglobina podem ser importantes em pa- cientes graves com transporte de O2 limítrofe (Figura 15.4). Precauções no sentido de se evitar hipofosfa- temia, acidose prolongada e transfusão de sangue estocado podem impedir a queda do 2-3 DPG e, assim, evitar o desvio da curva para a esquerda, o que implicaria menor liberação tissular de O2. A alcalose respiratória também deve ser evi- tada, podendo-se corrigi-la pelo ajuste da ven- tilação mecânica. O desvio da curva de dissociação de hemo- globina para a direita é vantajoso na maioria dos pacientes, caracterizando o efeito Bohr, o que fa- cilita a liberação de oxigênio pela hemoglobina.19 débito cardíaco O maior determinante da capacidade trans- portadora de O2 pela circulação é o débito car- díaco (DC),20 e os seguintes fatores determinam sua magnitude: FiGURa 15.4 Curva de dissociação da hemoglobina. PO 2 (mmHg) 27 mmHg 100 80 60 40 20 SO 2 (%) 10080604020 desvio para esquerda (aumento de afinidade: hipotermia/ alcalose/ i 2,3 DPG) desvio para direita (redução de afinidade: febre/ acidose/ h 2,3 DPG) Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 186 frequência cardíaca; pré-carga; pós-carga; contratilidade. A otimização do fluxo pode ser realizada pela adequação da frequência cardíaca quando necessário, por exemplo, em pós-operatório de cirurgia cardíaca na presença de bradicardia. Muitas vezes se faz necessário aumentar a fre- quência cardíaca com o uso de marca-passo provisório. Pois vale lembrar que o débito car- díaco é o produto da frequência cardíaca e do volume sistólico (VS). Na maioria das vezes, o débito cardíaco é otimizado pelo incremento da pré-carga. A pré- -carga relaciona-se ao estiramento da fibra ven- tricular no período telediastólico, correspon- dendo a uma medida do volume diastólico final. A manipulação terapêutica da pré-carga do VE, por meio de infusão de fluidos, promove alterações no desempenho cardíaco de acordo com o mecanismo de Frank Starling. Isso reflete o conceito de fluido responsividade, que é reali- zado à beira do leito com o objetivo de estimar o ganho de fluxo pelo recrutamento da pré-car- ga. Parâmetros estáticos, como as pressões de enchimento, pressão de oclusão da artéria pul- monar (POAP), pressão venosa central (PVC) e índice de volume diastólico final de ventrículo direito (IVDFVD) podem ser utilizados à bei- ra do leito. O objetivo de otimização do débito cardíaco em relação ao transporte de oxigênio é a adequação da volemia no tocante à pré-carga recrutável. Isto significa que pacientes podem não estar “hipovolêmicos”, mas necessitam de aumento de fluxo para adequar as necessidades de oxigênio tecidual e celular. Nessa situação, predizer a resposta à infusão de fluidos parece ser importante para garantir a eficácia quanto à infusão de fluidos. A mensuração do volume diastólico final pelo ecocardiograma reflete com maior preci- são o enchimento ventricular. A dificuldade de avaliação contínua desse parâmetro dificulta a aplicabilidade do método durante as 24 horas de monitoração. Além disso, é operador de- pendente, e em pacientes internados em terapia intensiva, frequentemente a janela torácica é inadequada para a realização do exame, pois os pacientes podem estar sob ventilação mecâni- ca, edemaciados, o que dificulta a técnica para a realização do exame. Ao utilizar as pressões de enchimento para estimar a volemia do paciente, cai-se imediata- mente em um erro, pois utiliza-se uma variável com unidade em “mmHg” para estimar outra em variável em “mL”. Outra consideração é que a relação entre pressão diastólica final (aferi- da na prática clínica como a POAP) e volume diastólico final de um determinado ventrículo (complacência) não é linear, sendo representa- da por meio de curva com concavidade supe- rior (Figura 15.5). Em pacientes graves, a POAP pode ser inadequada em virtude do frequente comprometimento da função diastólica, o que pode levar à mensuraçãode pressões elevadas e não traduzir hipervolemia. A literatura é pródiga em relatos documen- tando a falta de sensibilidade de variáveis como pressão arterial média (PAM), frequência car- díaca (FC), PVC, POAP e hematócrito em pre- dizer a volemia. Entretanto, valores de PVC menores que 5 mmHg e de POAP menores que 8 mmHg podem ser utilizados com gran- de chance de os pacientes serem responsivos a fluido.21 O uso clínico da PVC, como indicador da POAP, pressupõe a existência de alguma relação entre as funções ventriculares direita e esquerda. Porém, em condições de alterações dessa relação, como ocorre com frequência em doentes sépticos, queimados ou cardiogênicos, o uso clínico das pressões de enchimento do VD estaria seriamente limitado como indica- dor da pré-carga do VE. Capítulo 15 tRaNSpoRtE DE oXIGÊNIo 187 Conforme se realiza a infusão de fluidos, o que, consequentemente, leva ao enchimento ventricu- lar, acarreta diminuição progressiva da compla- cência. Isto faz com que para os mesmos volumes infundidos inicialmente, com o enchimento ven- tricular e consequentemente diminuição da com- placência, maiores pressões sejam geradas. A presença de sepse e a frequente adminis- tração de medicamentos inotrópicos tendem a reduzir a complacência ventricular, limitando a avaliação da POAP como índice de pré-carga. Deve-se salientar que o guia mais fidedig- no da adequação volêmica não é uma medida isolada de pressão ou volume, mas sim o moni- toramento dinâmico das respostas fisiológicas secundárias à infusão de fluidos. Isto quer dizer que toda intervenção deve ter uma reavaliação. Como citado acima, os parâmetros estáti- cos apresentam fraca correlação com predição de responsividade a fluidos, sendo os métodos dinâmicos mais adequados para essa avaliação, entre eles a variação da pressão de pulso (del- ta PP) (Figura 15.6) e da variação do volume sistólico (VVS). Entretanto, podem ser utiliza- das apenas em pacientes em ritmo sinusal, sob FiGURa 15.5 Relação entre o volume diastólico final do ventrículo esquerdo (VDFVE) e a pressão diastólica final do ventrículo esquerdo (PD 2 VE). VDFVE ml mmHg PD 2 VE Complacência crescente Complacência = DV DP ventilação mecânica controlada com volume corrente de pelo menos 8 mL/Kg de peso sem esforço respiratório.22 A determinação da contratilidade ventricu- lar à beira do leito não é possível com a mo- nitoração hemodinâmica invasiva. Entretanto, pode-se inferir a função ventricular pela cons- trução de uma curva cujos pontos na abscissa representam a estimativa da pré-carga (POAP); na ordenada, os valores correspondem ao tra- balho ventricular, avaliado pelo índice de traba- lho sistólico do ventrículo esquerdo (ITSVE). Mais recentemente, a utilização do ecocardio- grama (ECO) para avaliação hemodinâmica à beira do leito (transtorácico ou transesofágico) pode fornecer informações sobre a contratili- dade biventricular qualitativa. Pode, além dis- so, avaliar, de maneira não invasiva e dinâmica a responsividade do débito cardíaco em relação às intervenções. A pós-carga refere-se a fatores que determi- nam a velocidade de encurtamento das fibras ventriculares durante a sístole. Em termos clíni- cos, esses fatores contribuem para a impedância oferecida ao fluxo sanguíneo do ventrículo. Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 188 Incluem-se: viscosidade sanguínea; complacência ventricular; distensibilidade dos grandes vasos; tônus arteriolar. Ainda que não seja fisiologicamente correto imputar à RVS o conceito de pós-carga, é clini- camente útil mensurar alterações na RVS, como alterações na pós-carga (ver Capítulo 12: “Cur- vas de pressão”). consumo de oxigênio Em condições normais de repouso em huma- nos, a taxa de consumo de oxigênio (VO2) repre- senta apenas um quarto (25%) da oferta (DO2) de O2. Em função dessa abundância no transpor- te de O2, VO2 é normalmente determinado pelas demandas metabólicas e não é afetado por pe- quenas variações no transporte. VO2 representa a soma de todas as reações oxidativas e, por isso, reflete o estado global do metabolismo tissular.23 Todavia, VO2 representa o montante de O2 sen- do extraído naquele momento e não obrigatoria- mente aquele necessário à demanda metabólica. Em condições normais, a captação de O2 pelas células é independente da oferta. Apenas quando a oferta de O2 cai abaixo de um nível crítico (8 mL/kg/min a 10 mL/kg/min em animais) é que o consumo de O2 começa a declinar, propiciando o aparecimento da acidose láctica (dependência fisiológica da oferta de O2). 24,25 As condições patológicas frequentemente encontradas em pacientes graves (sepse, insu- ficiência respiratória, hipertensão pulmonar, (DPOC)) determinam prejuízo na capacidade tissular de extração de O2. Decorrendo disso, o VO2 torna-se mais dependente da oferta de O2, podendo elevar-se progressiva e proporcional- mente às elevações no transporte de O2 induzi- das pela manipulação terapêutica.23 Aumento significativo e imediato do VO2 em resposta a um aumento no DO2 sugere que o metabolismo tissular estava inadequado e, possivelmente, limitado pelo transporte (de- ( c m H 2 O ) ( m m H g ) p re ss ã o d e v ia s a é re a s p re ss ã o a rt e ri a l ∆ Pressão de Pulso (∆PP) = PPmáx - PPmin (Pmáx - Pmin) PPmin PPmáx SPmáx 2 segundos40 45 5 120 SPmin ∆ Pressão Sistólica (PS) = PSmáx - PSmin 2 FiGURa 15.6 Variação de pressão de pulso. Capítulo 15 tRaNSpoRtE DE oXIGÊNIo 189 pendência patológica da oferta de O2). Assim, pode-se pelo monitoramento dinâmico do VO2, diante de manipulações terapêuticas da oferta, determinar a eventual adequação cir- culatória.23,26,27 Essa visão foi progressivamente alterada nos últimos anos por diversos motivos. A presença de variáveis comuns a oferta e consumo de oxigênio caracteriza o acoplamen- to matemático que passou a ser muito contesta- do, em especial após estudos de determinação de consumo de oxigênio por mensuração direta (calorimetria indireta) que não confirmaram a presença da dependência patológica. Uma alternativa de avaliação é o uso da re- lação entre IC e taxa de extração de oxigênio (TEO2) (medidas independentes) para se ava- liar o VO2 (ver “Débito cardíaco”).27 Entretan- to, quando se eleva o IC e a TEO2 permanece a mesma (a SVO2 mantém-se igual com o au- mento de DO2), conclui-se que ocorreu au- mento do VO2. Essa relação permite verificar que, em alguns pacientes, o aumento da DO2 não é acompanhado pelo aumento do VO2 (a saturação venosa aumenta em paralelo ao au- mento da DO2). Essa observação demonstra que o acoplamento matemático nem sempre está presente. Durante o choque existem diferenças de res- posta circulatória regionais. Desse modo, deter- minações globais de VO2 e DO2 podem falhar na detecção de anormalidades regionais de perfu- são.27 Nesse contexto, a habilidade de monitora- FiGURa 15.7 Transporte de oxigênio e dióxido de carbono. vo 2 = (cao 2 -cvo 2 ) x Dc A Transporte de O 2 Oferta de O 2 Plasma Glóbulo vermelho capilar sistêmico b Expiração de CO 2 Transporte de CO 2 capilar pulmonar Células Alvéolo Alvéolo capilar pulmonar capilar sistêmico Células Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 190 ção regional da oferta e consumo de oxigênio po- deria determinar de maneira mais precoce a hipó- xia tecidual e orientar a intervenção visando evitar a disfunção multiorgânica. Diversas estratégias de monitoração regional têm sido estudadas.28,29 A abordagem lógica seria aquela assumin- do a prioridade terapêutica da “adequação” em detrimento da otimização progressiva prede- terminada da oferta de oxigênio, como se fez no passado. Assim, tem-se a visão de que a in- dividualização da otimização e a precocidade da intervenção se fazem necessárias, visto que valores predeterminados a serem atingidos e o início tardio da terapêutica não se mostraram benéficos, podendoaté aumentar a mortalidade na população de pacientes graves.8,10,11,23,30 Apesar das questões acima levantadas sobre o real papel do acoplamento, oferta e consumo de oxigênio, a literatura e a própria experiên- cia autorizam a monitorizar o paciente grave de forma a guiar com maior precisão a eventual reposição volêmica e o aumento do débito car- díaco e, dessa maneira, otimizar a oferta de oxi- gênio suficiente para reduzir a acidose láctica e atender à demanda metabólica (Figura 15.8).26 pressão venosa mista de oxigênio A força primária que move o O2 do capilar em direção à célula é o gradiente de pressão parcial. A difusão de O2 é diretamente propor- cional à diferença entre a PO2 capilar e a celular. A PO2 capilar reflete o conteúdo arterial de O2, fluxo sanguíneo local e extração local de O2. A PO2 capilar terminal representa o equilíbrio en- tre todos esses fatores. Da soma e mistura desse sangue capilar ter- FiGURa 15.8 Relação entre transporte e consumo de O 2 em condições patológicas e fisiológicas. A linha vermelha representa a dependência fisiológica do consumo de O 2 em relação ao transporte. A linha verde representa os estados de dependência patológica do consumo em relação ao transporte de O 2 . A elevação do lactato pode ser um marcador de que o transporte de O 2 , embora elevado, possa ainda estar insuficiente para o atendimento das necessidades metabólicas dos quadros hiperdinâmicos e hipercatabólicos. Lactato aumentado Lactato normal C o n su m o d e O 2 Oferta de O 2 Capítulo 15 tRaNSpoRtE DE oXIGÊNIo 191 minal afluente de todos os tecidos perfundidos origina-se a PvO2, importante indicador global da oxigenação tecidual. Seu valor normal é de aproximadamente 40 mmHg. Reduções abaixo desse nível estão obri- gatoriamente associadas a decréscimo na rela- ção oferta-consumo de O2 em tecidos perfundi- dos. Uma elevação acima desse nível pode ser o primeiro indício de sepse incipiente. A análise da PvO2 deve levar em conside- ração que o sangue venoso misto não repre- senta tecidos não perfundidos. Representa inadequadamente tecidos hipoperfundidos, e a hiperperfusão de alguns tecidos pode elevar artificialmente o seu valor. Exemplificando, um paciente séptico normovolêmico pode ter ini- cialmente uma PvO2 maior que 45 mmHg.31 Evolutivamente, ao se observar queda daquele valor para 38 mmHg, pode-se estar diante de uma das seguintes condições: queda na DO2, em função de compro- metimento cardíaco ou hipovolemia; hipoperfusão de alguns tecidos até então normoperfundidos; resolução do processo séptico traduzin- do a normalização da perfusão em teci- dos até então hiperperfundidos. saturação venosa mista de oxigênio A saturação venosa mista de oxigênio (SvO2) aproxima-se da PvO2 em significância e utili- dade na maioria das circunstâncias. Seu valor normal é aproximadamente 75% (faixa aceitável 68% a 77%). Valores acima desse nível indicam um aumento na relação oferta/consumo de O2, refletindo menor taxa de extração de O2, estando associados à cirrose, sepse, pancreatite, politrau- matismo etc. Valores inferiores a 68% podem estar associados a anemia, hipoxemia, aumento das demandas energéticas ou decréscimos no DC (Figura 15.9). A medida da SvO2 reflete de maneira mais fidedigna a resultante de todos os tecidos em relação ao metabolismo do oxigênio. A utiliza- ção da SvcO2 como substituto da SvO2 deve ser realizada com cuidado, visto que não são nume- ricamente iguais, ou seja, não há acurácia em FiGURa 15.9 Transporte e consumo de oxigênio. Demanda metabólica Consumo de O 2 Transporte O 2 Carga O 2 SvO 2 Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 192 relacionar a SvcO2 com a SvO2. 32-36 Entretanto, existe uma tendência ao longo do tempo entre as duas variáveis. Isso na fase aguda pode não traduzir o que realmente está acontecendo com o paciente, visto que a SvcO2 pode variar até 8 pontos acima ou abaixo da SvO2. E é necessário determinado tempo para avaliar a tendência da SvcO2. Habitualmente, nos pacientes graves, a SvcO2 se encontra acima da SvO2, diferente de situações normais onde a SvcO2 apresenta valor inferior à SvO2. Na ressuscitação de pacientes com sepse grave decorrente de disfunção me- tabólica ou choque séptico, em estudo clássico, Rivers et al, ao utilizarem a medida de SvcO2 colhida da veia cava superior como alvo tera- pêutico precoce (Early-Goal Directed Therapy) demonstraram redução de mortalidade ao atin- gir em 6 horas o valor de 70%.30 Em subgrupo de pacientes submetidos à cirurgia cardíaca, essa estratégia de monitoração no período pós- -operatório imediato também demonstrou be- nefício em reduzir a disfunção orgânica e tempo de internação.37 Entretanto, esse estudo utilizou a SvO2, diferente de Rivers, que utilizou a SvcO2. Tais achados demonstram que a instituição pre- coce de medidas de aumento da oferta de O2 em FiGURa 15.10 Relação entre os níveis de PvO 2 /SvO 2 e a função circulatória. Estados hiperdinâmicos Normal Reserva comprometida Acidose láctica Morte SvO 2PvO 2 (mmHg) 45 35 27 20 77 68 60 55 (%) pacientes que necessitam dessa estratégia parece ser mais importante que a maneira de monitora- ção da relação oferta/consumo de O2. reFerênciAs 1. Yassin J, Singer M. Fundamentals of oxygen de- livery. Contrib Nephrol. 2007;156:119-32. 2. Clowes GH Jr, Del Guercio LR. Circulatory response to trauma of surgical operations. Me- tabolism. 1960;9:67-81. 3. Shoemaker WC, Appel PL, Kram HB, Wax- man K, Lee TS. Prospective trial of supranor- mal values of survivors as therapeutic goals in high-risk surgical patients. Chest. 1988;94(6): 1176-86. 4. Fleming A, Bishop M, Shoemaker W, Appel P, Sufficool W, Kuvhenguwha A, et al. Pro- spective trial of supranormal values as goals of resuscitation in severe trauma. Arch Surg. 1992;127(10):1175-9; discussion 1179-81. 5. Tuchschmidt J, Fried J, Astiz M, Rackow E. 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A correção de déficits perfusionais não vi- sualizados parece ser uma meta adicional a ser perseguida nesses pacientes, no que diz respei- to à preservação da função orgânica. Sabe-se que a simples correção dos parâmetros clíni- introdução 16 cos, como pressão arterial, frequência cardíaca e diurese, não é suficiente. Em 1996, Rady et al., ao corrigir os parâmetros clínicos de pacientes que se apresentavam em estado de choque na sala de emergência, constataram que 31 dos 36 envolvidos ainda permaneciam com alteração de marcadores de perfusão sistêmica, identi- ficados pela hiperlactatemia e diminuição da saturação venosa central de oxigênio (SvcO2). 2 Contudo, a identificação de índices confiáveis de adequada perfusão celular e aplicados à bei- ra do leito de forma simples permanece um de- safio para a Medicina Intensiva e de Urgência. O lactato tem sido utilizado tradicional- mente como um marcador de perfusão teci- dual.3-5 Níveis séricos de lactato são indicadores disponíveis para avaliar o metabolismo celular em pacientes graves, mesmo sabendo que a interpretação desse teste nem sempre é direta. Contudo, reconhece-se que, apesar da com- plexidade das vias bioquímicas relacionadas à Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 198 cinética do lactato sanguíneo, este tem se mos- trado um melhor preditor prognóstico que as va- riáveis derivadas da oxigenação tecidual _ oferta e consumo de oxigênio. A mensuração do lactato à beira do leito é de fácil execução, com baixo custo, e pode ser utilizada como discriminador de gravidade para a ressuscitação agressiva de pacientes admitidos na sala de emergência.6-10 Tanto por medidas isoladas quanto seriadas, o lactato pode ser utilizado como um biomarcador para estimar o padrão e a extensão da hipoper- fusão tecidual, ajudar na avaliação da resposta ao tratamento ou ainda estimar o prognóstico de pacientes graves de acordo com sua cinética.1,11 Assim, é imperativa a correta interpretação dos níveis séricos de lactato, especialmente em pacientes graves, para poder não só elucidar os mecanismos fisiopatológicos que produziram sua elevação, mas também as vias pelas quais poder-se-ia interferir nesses mecanismos. Para se atingir esse objetivo, serão discutidos os seguintes aspectos: mecanismos da produção de lactato; mecanismos fisiopatológicos que inter- ferem na cinética do lactato (produção versus depuração); interpretação clínica dos níveis de lacta- to nos diferentes contextosclínicos (sín- dromes de choque). mecAnismos dA produção de lActAto bioquímica O lactato é o produto final da glicólise anae- róbia e é, normalmente, produzido a uma taxa de 1 mmol/kg/hora ou, aproximadamente, 1.500 mmol/dia. A única fonte de lactato é o piruvato. No citoplasma a glicose é convertida em piruva- to por uma reação que não requer oxigênio. O piruvato pode então sofrer ação da enzima piruvato desidrogenase e ser transformado em acetil-CoA, e a partir dai entrar na mitocôndria e gerar 36 ATP por uma reação dependente de oxigênio. Pode também ser transformado em lactato, produzindo apenas duas moléculas de ATP (adenosina trifosfato) (Figura 16.1).12 A reação para a glicólise anaeróbia é a seguinte: O balanço do lactato depende da sua pro- dução e consumo, sendo essencialmente meta- bolizado no fígado e nos rins, apesar de uma pequena parte ainda ser consumida pelo mio- cárdio como substrato energético.13,14 O cora- ção é um grande consumidor de lactato, sendo os leucócitos grandes produtores do mesmo.14 Isso pode explicar o porquê de os pulmões se- rem envolvidos como produtores de lactato nos casos da síndrome do desconforto respirató- rio agudo (SDRA), visto que nessa situação há grande recrutamento de leucócitos em nível alveolar decorrente da fase inicial secretória.15 Nas situações de hipóxia, nas quais o piru- vato não consegue entrar na mitocôndria para a geração de energia, ocorre a síntese de lactato para a obtenção de ATP, com consequente au- mento de sua produção. Observa-se que a reação produz lactato, um íon com carga negativa, e não o ácido láctico. Os íons hidrogênios necessários para converter lac- tato em ácido láctico devem ser gerados pela hi- drólise do ATP. Dessa forma, produção de lacta- to não é sinônimo de produção de ácido láctico. O ácido láctico em humanos existe predo- minantemente na sua forma ionizada, ou seja, as medidas no sangue são de lactato, e não de ácido láctico.1 A maior parte da produção fisiológica de lac- tato ocorre no músculo esquelético, intestino, glicose + 2 atp + 2 H 2 po 4 a2 lactato + 2aDp + 2H 2 o ADP = Adenosina Difosfato Capítulo 16 INtERpREtaÇÃo DoS NíVEIS DE laCtato E IMpaCto No pRoGNÓStICo 199 cérebro e eritrócitos circulantes. Em condições patológicas, a produção de lactato ocorre de forma significante em outros órgãos.1,16 O lactato gerado nesses tecidos pode ser extraído pelo fígado e convertido em glico- se (via gliconeogênese) ou pode ser utilizado como substrato primário para oxidação (fonte de energia), como ocorre primariamente no coração. Assim, poder-se-ia concluir que a hipóxia tecidual (metabolismo anaeróbio) seria a prin- cipal causa da elevação dos nivies séricos do lactato. Porém, qualquer situação que aumente a glicólise (aumento da demanda metabólica, por exemplo) poderia acarretar na elevação dos niveis de lactato sem significar hipóxia tecidual. Além disso, é importante ressaltar que o lactato mensurado em território arterial, retrata o pool de lactato de todo o organismo. Assim, regiões específicas que estejam sofrendo hipoperfusão tecidual podem gerar lactato localmente, o qual acaba se diluindo em todo o organismo. Por isso, ao utilizar outros mecanismos para mensu- rar o fluxo tecidual regional, como a tonometria gástrica, pode-se encontrar valores alterados que correspondam ao estado de hipoperfusão, e ao mesmo tempo encontrar níveis normais de lactato. Dessa forma, entende-se que a correção dos níveis de lactato não traduz com acurácia a ressuscitação da microcirculação.17 A hiperlactatemia também pode ser causada pela diminuição no clearance de lactato, mesmo na ausência de hipóxia, como, por exemplo, na presença de disfunção hepática.18 Nota-se, então, que níveis elevados de lactato podem ser uma combinação da excessiva pro- dução e da redução do clearance, ou simples- mente representar isoladamente uma delas.1,19 FiGURa 16.1 Metabolismo da glicose pelas vias aeróbicas e anaeróbicas. Nas situações em que a produção de energia (adenosina trifosfato – ATP) celular pelo mecanismo de aerobiose se encontra alterada, a energia é obtida a partir da síntese de lactato no citoplasma da célula. O lactato é gerado a partir do piruvato, o qual não entra na via do ácido cítrico na mitocôndria, mecanismo de anaerobiose. Este processo produz uma quantidade de energia de síntese de energia inferior àquela obtida pelo processo de metabolização da glicose em aerobiose. Além disso, pelo mecanismo de aerobiose, a hidrólise de ATP resulta na produção de íons H+, os quais não podem ser metabolizados acarretando no desenvolvimento de acidose intracelular. Glicogênio Glicose Glicólise anaeróbica Piruvato acetil-coa Piruvato desidrogenase ciclo do ácido cítrico CO 2 H 2 O Lactato Glicólise aeróbica Monitorização HEMoDinÂMiCa no PaCiEntE GraVE 200 Tem sido sugerido também que o lactato não é somente um marcador de hipoperfusão sistêmica, mas que está associado aos processos metabólicos e inflamatórios, em decorrência da troca de lactato intercelular como um combus- tível para o metabolismo aeróbio.11 A relação entre a hiperlactatemia e resposta inflamatória pode ser entendida como adequação da perfu- são tecidual, demonstrada pelo clareamento do lactato associada à diminuição dos mediadores inflamatórios, que acarretam menor injúria ce- lular.11 Portanto, é importante acompanhar a cinética do lactato com o parâmetro evolutivo no tratamento do paciente grave. No próximo tópico, destacar-se-ão os princi- pais mecanismos da hiperlactatemia. fisiopatologia da hiperlactatemia A concentração normal de lactato no san- gue é menor que 2 mmol/L, em repouso, e até 5 mmol/L durante o exercício. Inúmeras condições podem concorrer, si- multaneamente ou não, para hiperlactatemia. Deprivação de oxigênio (hipóxia tecidual), sepse (infecções, em geral, podem aumentar localmente, ou de forma sistêmica, os níveis séricos de lactato), infusão de adrenalina, de- ficiência de tiamina, alcalemia (metabólica ou respiratória), disfunção hepática e intoxicação por nitroprussiato podem elevar os níveis séri- cos de lactato. Do ponto de vista fisiopatológico, a hipóxia tecidual eleva os níveis de lactato por aumentar a glicólise anaeróbia (para manter a produção energética celular mais próxima do normal). A síndrome de choque é a grande responsável por essa situação. Intoxicação por nitroprussiato (cianeto) tam- bém eleva o lactato sérico por esse mecanismo. Causas da hiperlactatemia na sepse: hipóxia tecidual (principalmente nas fa- ses iniciais do choque séptico); por inibição da piruvato desidrogenase – enzima que inicia a oxidação do piru- vato na mitocôndria; glicólise aumentada, por elevação da de- manda metabólica. Esses dois últimos fatores explicariam hi- perlactatemia na sepse mesmo na ausência da hipóxia tecidual. Para tanto, é fundamental afastar a presença de hipoperfusão tecidual ao otimizar o fluxo tecidual e reavaliar a evolução do lactato. Para justificar a presença de hiper- lactatemia, principalmente nas fases iniciais da sepse, como decorrente de outras causas que não seja a hipoperfusão, deve-se excluir défi- cit de perfusão pela otimização de fluxo. Isso é muito importante, devendo-se lembrar que a disfunção de múltiplos órgãos está associa- da inicialmente à presença de hipóxia celular, que no momento zero ao atendimento inicial não se manifesta de forma clara, mas com a persistência e a demora na correção da mes- ma, os riscos aumentam o desenvolvimento da síndrome da disfunção de múltiplos órgãos (SDMO) que culmina na falência orgânica e óbito do paciente. Na sepse, com o emprego da infusão de adrenalina para a correção, da hi- potensão arterial, pode-se observar aumento glicólise e, consequentemente elevação dos ní- veis de lactato. Assim, deve ser lembrada a pos- sibilidade de a hiperlactatemia ser decorrente do uso de adrenalina nos pacientes que a estão