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RECREAÇÃO E LAZER AULA 1 Prof. Marcos Ruiz da Silva 2 CONVERSA INICIAL A Educação Física tem uma íntima relação com os estudos da recreação e do lazer, seja pela produção teórica ou na formação de profissionais que atuam na produção e execução de eventos diversos na área. Historicamente, os conteúdos da recreação e do lazer foram sendo apropriados pelos profissionais de Educação Física – apesar de a grande predominância ser relacionada com as práticas corporais – e incorporados nos conteúdos curriculares como uma disciplina. Ainda que a Educação Física tenha supremacia nos estudos da recreação e lazer no Brasil, pelo menos quantitativamente, áreas como o Turismo, a Sociologia, a Pedagogia, entre outras, também contribuem para a promoção de discussões e desenvolvimento de intervenções nesse campo. Não há unanimidade a respeito de haver alguma prioridade na produção de estudos sobre recreação e lazer e, da mesma forma, não há conformidade sobre os conteúdos desenvolvidos nos distintos cursos das diversas áreas (Isayama, 2004). Alguns estudos demonstram que as matrizes curriculares tratam da recreação e lazer como disciplinas bem variadas. Alguns enfoques surgem como protagonistas, como gestão, planejamento, sociedade, ludicidade, fundamentos teóricos, estágio supervisionado, saúde, entre outros (Silva et al., 2018). A multiplicidade de estudos e ações no campo da recreação e lazer é um fator positivo para uma área que cresce continuamente. Com uma demanda crescente de profissionais, a área tem exigido o domínio de técnicas para desenvolver as práticas adequadamente, associado à competência teórica. Considerando essas ideias iniciais, optamos por apresentar, neste texto, uma discussão de caráter introdutório à disciplina. Para isto, vamos falar sobre o papel da recreação e do lazer nos cursos de Educação Física, nas modalidades de bacharelado e licenciatura. Vamos conversar, no Tema 2, sobre alguns elementos do processo histórico da recreação e lazer para auxiliar a compreender os sentidos e significados atribuídos à recreação e ao lazer atualmente. Falaremos ainda sobre os sentidos e significados atribuídos ao lazer e à recreação, como fenômenos que podem ser compreendidos como objetos 3 distintos ou similares. E, ainda, abordaremos de forma particular algumas características do lazer e da recreação no Brasil. Para finalizar, vamos discutir sobre o campo de atuação na recreação e lazer, demonstrando a diversidade de locus das experiências e suas particularidades. Acreditamos que esse é um bom início para tratarmos de nossa disciplina. Aproveite e bons estudos! TEMA 1 – RECREAÇÃO E LAZER EM CURSOS DE EDUCAÇÃO FÍSICA É pertinente iniciar a discussão desse tema com a seguinte questão: por que estudar lazer e recreação nos cursos de Educação Física, seja na modalidade licenciatura ou bacharelado? Acreditamos que esse questionamento é realizado por vários alunos, principalmente aqueles que têm uma maior afinidade com conteúdos relacionados com fisiologia, treinamento esportivo, esportes, por exemplo. Isto é reforçado quando um aluno apresenta dificuldade em relacionar sua área de atuação com as discussões que envolvem a recreação e o lazer. Um estudante de um curso de bacharelado em Educação Física que pretende atuar em academias de ginástica com treinamento resistido pode apresentar dificuldade em compreender que o sujeito que frequenta esses espaços está em um determinado cenário, o do lazer. E, com isto, cria resistência em assimilar a complexa trama de sentidos e significados que as pessoas constroem quanto às atividades que realizam nesse espaço-tempo. E, ainda, entender que isso interfere diretamente na forma como elas se relacionam com o exercício físico, entre outras práticas corporais. Outra questão importante na construção de ideias pré-concebidas com o lazer e a recreação, como uma disciplina na graduação nos cursos de Educação Física, está na associação com conteúdos eminentemente práticos, como os jogos e brincadeiras. Embora seja possível admitir que o universo das manifestações populares, como as cantigas de roda, as gincanas, as brincadeiras de soltar pipa, bolinha de gude, esconde-esconde, entre outras, fazem parte do universo das discussões da recreação e lazer, o debate sobre essa área de conhecimento avança para além da aplicação de conteúdos que colaboram com a aquisição de competências para saber-fazer. 4 Um primeiro argumento que vamos utilizar para justificar a existência da disciplina de recreação e lazer nos cursos de Educação Física – bacharelado e licenciatura – é a sua relevância social. Há uma crescente demanda para o campo de atuação com recreação e lazer na sociedade atual. São crianças, jovens, adultos e idosos que têm encontrado no lazer um espaço para o exercício da convivência social. Com isso, é imprescindível que os profissionais tenham as competências necessárias para planejar e executar as atividades, intimamente articulados com competências que deem condições de refletir sobre o assunto. Outro argumento favorável à disciplina diz respeito à predominância das atividades físico-desportivas, como opção de lazer das pessoas. Seja com a realização de caminhadas, passeios em parques e bosques, realização de piqueniques, participação em programas de exercício físico ou esporte em clubes e academias, com os passeios de bicicleta, nas corridas, entre outras atividades. Práticas diretamente ligadas com o objeto da Educação Física, aqui entendido por nós como o corpo em movimento nas diversas manifestações do jogo, do esporte, da dança, das lutas, do exercício físico, da ginástica e outras práticas corporais. Embora reconheçamos que a disciplina de recreação e lazer ocupa um espaço imprescindível na formação dos professores/profissionais de Educação Física, faz-se necessário alertar para alguns aspectos fundamentais. Entre eles, o estabelecimento de ementas e planos de ensino que ampliem a abordagem sobre esses temas. Para isso, é preciso considerar o lazer como um fenômeno sociocultural com estreita associação com o contexto da qualidade de vida. Considerando ainda que o profissional de Educação Física se encontra envolvido com a área da saúde, seu papel no campo do lazer e da recreação diz respeito também à promoção de hábitos saudáveis nas pessoas. Isso se processa à medida que as pessoas incorporam estilos de vidas ligados à prática regular do exercício físico. Nesse caso, a atuação desse profissional transcende a aplicação de exercícios físicos ou ensinamentos técnicos e táticos sobre alguma modalidade esportiva. Ela diz respeito ao estímulo de uma educação para e pelo lazer – assunto que discutiremos mais a frente – por meio da difusão de conhecimentos que auxiliem as pessoas a conceber as práticas corporais como um direito e, desta forma, as estimulem a buscarem soluções para diminuir as barreiras 5 inibidoras que restringem o acesso aos recursos físicos, financeiros, e até de tempo para o usufruir dessas atividades. Com isso, o professor/profissional de Educação Física precisa ter contato com subsídios teóricos para lhe auxiliar a fazer uma leitura crítica da área do lazer e recreação. E também contar com ferramentas que lhe deem condições de propor ações concretas às mais diversas populações, atendendo as ansiedades, desejos e necessidades dos distintos grupos sociais. TEMA 2 – DIMENSÃO HISTÓRICA DO LAZER E DA RECREAÇÃO As percepções sobre lazer e recreação que as pessoas possuem foram construídas historicamente. À medida que a sociedade se desenvolvia e o lazer ganhava espaço na vida das pessoas. Saber alguns aspectos dos percursos que o lazer e a recreação percorreram durante o processo civilizacional nos dá condições de fazer uma leitura maissubstancial das nossas compreensões na atualidade. É interessante iniciarmos esta nossa discussão refletindo se o lazer é um fenômeno que sempre existiu na sociedade. Embora não seja consenso entre os estudiosos sobre qual é a origem do lazer, alguns estudos indicam que o lazer sempre existiu. Claro que não da forma como existe nos dias de hoje. O que nos permite indicar com mais precisão o lazer nas sociedades é considerar a sua relação com o trabalho, em virtude de haver uma interdependência entre os elementos do binômio trabalho-lazer. Nas civilizações mais remotas, a vida não era marcada de forma fracionada e grande parte da humanidade viveu empenhada na luta pela sobrevivência, em busca do que era indispensável para viver. Não havia uma clara distinção entre o trabalho e a vida. Trabalhar era, ao mesmo tempo, viver (Requixa, 1980). Conforme as sociedades se desenvolvem, o trabalho ganha um espaço central na vida das pessoas, marcado por regras mais definidas. No entanto, com a dinâmica da econômica, cada vez mais, com finalidade lucrativa, o tempo ganha uma dimensão utilitarista e, com isso, o lazer perde terreno. (Requixa, 1980) Para alguns autores, como Mascarenhas (2005), o lazer passa a existir de forma sistematizada a partir da organização social do tempo do trabalho. Marcellino (2010) complementa esse raciocínio nos dizendo que com a 6 regulamentação da jornada de trabalho e o tempo de descanso, como férias anuais remuneradas e aposentadoria, foi possível à dimensão do lazer ganhar mais espaço e visibilidade na vida das pessoas. Especificamente no Brasil, a influência de diversas culturas de trazidas por imigrantes que vieram colonizar o país contribuiu para a assimilação de um modo de viver, incluindo, inclusive, as práticas trazidas por eles e também a organização de espaços para o consumo e desfrute do lazer, os clubes e as associações. Embora o lazer possa ser considerado um espaço de direito de todos, podemos afirmar que muitas conquistas aconteceram para que uma camada maior da população pudesse ter a acesso. Por exemplo, as mulheres não tinham concessão de participar de algumas atividades sociais, consideradas no século XIX predominantemente masculinas, como frequentar bares e cafés, participar de alguns jogos, inclusive de exercícios físicos, ficando restritas à convivência social somente em casa (Mascarenhas, 2005). A dinâmica da vida cotidiana contribuiu, ao longo do tempo, para que as características das atividades praticadas no lazer sofressem alterações. Jogos considerados exclusivos de determinada elite econômica e cultural ganharam o gosto da população, conquistando espaço na vida de indivíduos de diferentes camadas sociais. A busca constante por experiências prazerosas colaborou para que houvesse uma ressignificação do lazer que pode representar um espaço para a humanização do sujeito ou para promover a alienação. Nesse contexto, vemos o papel do professor/profissional de Educação Física com a capacidade de levar às pessoas a possiblidade de gerar atitudes positivas no lazer. TEMA 3 – DIMENSÃO HISTÓRICA DO LAZER E DA RECREAÇÃO NO BRASIL Apesar de o lazer poder ser considerado uma atitude voluntária do indivíduo que se entrega ao tempo liberado das obrigações para o usufruto com práticas que lhe deem prazer e, com isso, não existe uma regra específica para a forma e o conteúdo com que cada pessoa resolve ocupar esse tempo, é importante destacar a participação do Estado na construção de um modo de ver e pensar o lazer. As políticas públicas em nosso país, voltadas à promoção do lazer e da recreação, são algo relativamente recente. No século XIX, a mobilização das 7 pessoas era realizada por iniciativa particular, com o convívio familiar e com amigos, nas ruas bares, nas residências e outros espaços informais. Ou, ainda, nos clubes sociorrecreativos formalizados pelos diversos grupos sociais, predominantemente organizados pelas elites econômicas da época. Grande parte das possiblidades de participação popular em eventos festivos surgia a partir das comemorações religiosas. Além disso, existiam companhias de circo e teatro que percorriam o país oferecendo seus espetáculos. Outras iniciativas privadas de entretenimento, como ringue de patinação, bailes, disputas esportivas também faziam parte das oportunidades de recreação e lazer que as pessoas desfrutavam. Alguns registros apontam que as primeiras iniciativas de organização da recreação popular no Brasil aconteceram no Rio Grande do Sul. Por volta do ano de 1927, as praças públicas foram adaptadas para receber o público infantil. Com o uso de pneus, cordas e outros objetos foram montados, de forma rudimentar, parques para a diversão das crianças. Nesse período, a recreação era entendida como uma forma de manutenção da saúde e também como oportunidade de recuperação dos desgastes provocados pelo trabalho. Questões importantes para um país que se industrializava e tinha um discurso fundado no progresso da nação. Isso, por sua vez, contribuiu para aproximar os profissionais ligados às práticas corporais a esse campo de atuação. Por consequência, a identificação com o profissional de Educação Física se torna inevitável (Melo; Junior, 2003). Apesar de as práticas recreativas em parques e praças fazerem parte de um contexto não formal, houve também, no início do século XX, a preocupação em proporcionar às crianças “atividades recreativas”, sob o mesmo princípio da manutenção ou promoção da saúde, visando um desenvolvimento saudável. Isso colaborou, também, para estabelecer uma forte ligação com a Educação Física (Melo; Junior, 2003). Esses aspectos atribuídos à recreação, cujo princípio era a formação das crianças e jovens em adultos saudáveis, evidenciaram a construção do sentido educacional atribuído à função das atividades recreativas. Nesse movimento, a criação de colônias de férias, acampamentos educativos, ajudam a reforçar uma visão instrucional, para além das características eminentemente lúdicas. Outras iniciativas surgiram, em grande parte do Brasil, com ofertas de oportunidades recreativas para crianças, jovens e adultos. As programações já 8 contemplavam atividades artísticas em geral, acesso a bibliotecas para leituras, e outras que transcendiam as atividades de caráter eminentemente lúdicas. Com isso, a associação com práticas recreativas ganhou conotações com a obtenção de resultados positivos ao cidadão e, por consequência, à sociedade em geral. Ao ser inserida na escola, no contexto das aulas de Educação Física, ou estabelecida como práticas fora do contexto da escola, a afinidade com a área da Educação Física contou com a colaboração do interesse do Estado em oferecer às pessoas, atividades de caráter motor (correr, saltar, arremessar, chutar, andar, correr), manifestado a partir dos jogos e brincadeiras infantis, das atividades de ginástica e dos esportes, entre outras possibilidades. TEMA 4 – SENTIDOS ATRIBUÍDOS À RECREAÇÃO E AO LAZER As discussões teóricas sobre o lazer e a recreação realizadas no Brasil sofrem influências de diferentes correntes teóricas, principalmente pelas disseminadas na Europa e nos Estados Unidos. Uma que se apresenta a partir da nomenclatura recreação e outra pela nomenclatura lazer, respectivamente. Essa dupla denominação tem permitido os debates na área e, de maneira geral, o primeiro é associado a um conjunto de atividades e o segundo trata de um fenômeno social. Entre as diversas posições teóricas dos estudiosos, algumas chegam a apresentar as diferenças e outros as particularidades entre os dois termos. Temos considerado que recreação e lazer podem ser entendidos como um mesmo objeto, sendo que a diferença de concepção foi produzida pelo sentido originário de cada termo, conforme foi traduzido dos textos originários, comorecreation e leisure do inglês, ou loisir, do francês. Contudo, aceitamos a ideia de que o essencial nos debates da recreação e do lazer não os entender como mesmo objeto ou objetos distintos. O problema está na restrição adotada no uso dos termos. Nessa direção, julgamos equivocado reduzir o termo recreação a um conjunto de atividades, predominantemente organizadas a partir de jogos e brincadeiras. Ainda, quando há a utilização de jogos e brincadeiras nas escolas como estratégia didática dos professores, referindo-se à aula como recreação escolar, reforçando esse mal-entendido. Às atividades denominadas recreativas, como os jogos e brincadeiras, são instituídos sentidos diferenciados conforme o contexto em que está inserido. 9 Podem ser absorvidos pelas pessoas no convívio social lúdico no lazer, mas também são utilizadas para a realização de dinâmicas em treinamentos corporativos e na escola como estratégica didática, por exemplo. Outros sentidos são atribuídos à recreação e lazer tomados por diferentes correntes teóricas. Alguns entendem lazer como mercadoria e outros como direito inalienável do sujeito. Uma concepção muito difundida no Brasil é a do sociólogo Nelson Marcellino (1998, p, 38) de que lazer é: cultura, compreendida em seu sentido mais amplo, vivenciada, praticada ou fruída no seu tempo disponível [...] combinando os aspectos tempo e atitude e tendo como traço definidor o caráter desinteressado dessa vivência. Outro sociólogo que colaborou de maneira expressiva para os estudos do lazer no Brasil foi o francês Jofre Dumazedier. Entre suas várias contribuições, seu estudo sobre os interesses franceses em atividades vivenciadas no lazer nos permite compreender a abrangência e a diversidade de experiências possíveis nesse cenário. A partir da taxionomia, Dumazedier (1980) afirmou existir interesses predominantes, por parte das pessoas, em cinco características de atividades que ele chamou conteúdos culturais do lazer. Esses conteúdos culturais do lazer, descritos por Dumazedier (1980), são organizados em cinco grupos, como segue: Físico-esportivo – predominância de atividades motoras, como caminhar, correr, andar de bicicleta, praticar algum esporte, pescar. Artístico – predominância do sentido estético, como apreciar uma exposição de artes, uma peça de teatro, assistir um espetáculo. Manual – predominância da manipulação e alteração do objeto, como realização de pequenos concertos, artesanato, cultivo de flores. Intelectual – predominância de elementos ligados ao que é racional, cognitivo, como jogos intelectivos, leitura, assistir documentários, participar de cursos. Social – predominância da interação entre as pessoas – independente do conteúdo –, como participação em festas, encontros familiares e com amigos. Essa classificação ganhou a contribuição de outros estudiosos que ampliaram a classificação das atividades, ou interesses culturais de lazer. 10 Camargo (1998) apresentou os interesses turísticos de lazer, no qual as pessoas buscam por característica de atividade motivados pelo interesse de conhecer novos lugares, novas culturas, com viagens, por exemplo. Com fundamentação nas novas dinâmicas sociais provocadas pelo avanço das tecnologias, em especial aquelas ligadas ao ambiente virtual, Schawartz (2003) propôs os interesses virtuais do lazer, tendo em vista o crescente interesse das pessoas em experiências virtuais, com jogos, redes sociais, assistindo filmes, por exemplo. Essa organização das características das atividades, ou interesses culturais do lazer, tem um caráter de certa forma didático, para apresentar a abrangência das experiências no lazer. Essa divisão não acontece de forma não objetiva, mas dá condições aos profissionais de pensarem em planejamentos de lazer que permitam à diversificação das experiências. O que observamos nos dias de hoje é a multiplicidade de sentidos atribuídos à recreação e ao lazer. A assimilação de valores sobre o tema diz respeito ao sentido atribuído. No entanto, de maneira geral, ainda ocorre uma valorização exacerbada do trabalho em detrimento do lazer. É necessário destacar que o profissional precisa estar atendo à aquisição de conhecimentos de caráter operacional, ou seja, aqueles que permitem planejar e executar intervenções no campo do lazer. Entretanto, essas competências precisam estar alicerçadas em conhecimentos teóricos sobre a recreação e lazer como fenômenos socioculturais. TEMA 5 – CAMPOS DE ATUAÇÃO O campo de trabalho para o profissional de Educação Física na área da recreação e lazer é muito diverso. Há aquele grupo de profissionais que irá atuar como integrante de uma equipe de animação, na promoção e execução de atividades e programas recreativos, e aquele grupo de profissionais que atua com atividades que fazem parte do conteúdo do lazer, mas muito específicas, como o profissional em uma academia de ginástica, desenvolvendo atividades de dança, ginástica, e treinamento resistido, ou ainda como componente de alguma equipe de treinamento esportivo. Para o primeiro grupo, não há dificuldade de conseguir estabelecer as relações diretas com a atividade desenvolvida com o tema recreação e lazer. 11 Entretanto, para o segundo grupo, essa leitura do contexto é um pouco mais complexa, conforme explicado no Tema 1. Apesar de aceitarmos a ideia de que uma academia de ginástica é um equipamento específico de lazer, vamos tratar, neste tema, especificamente sobre o mercado de atuação para o grupo que desenvolve programas recreativos, seja em hotéis, clubes, navios, empresas e outros espaços. Primeiramente, vale destacar que é necessário a esse profissional o domínio sobre os princípios fundamentais da recreação e lazer, sobre os interesses, necessidades e expectativas das pessoas, sobre desenvolvimento humano, adequação de atividades às características de distintos grupos etários, entre outros. Somente o domínio de técnicas de jogos e brincadeiras não dá conta de suportar a atuação nesse campo. O campo de trabalho é diverso e, a cada dia, surgem novos mercados, veja a seguir no Quadro 1 algumas oportunidades para atuar com recreação e lazer: Quadro 1 – Locus de intervenção recreativa e finalidade Locus de intervenção Finalidade Em âmbito escolar Desenvolvimento de projetos, eventos e programa recreativos no contra turno, férias e feriados Em instituições de longa permanência, como creches e asilos Planejamento e aplicação de programas recreativos voltados a promover o bem estar físico, emocional, cognitivo e social. Nas empresas Promover ações com o intuito de melhorar a qualidade de vida no ambiente do trabalho. Em hospitais Planejar ações com finalidades terapêuticas para os pacientes e acompanhantes. Em acampamentos e hotéis Desenvolver programas recreativos, explorando os aspectos naturais e permitindo aos clientes melhor utilização dos espaços. Em navios Oferecer programas diversificados para a diversão e descanso dos turistas. Nos grupos específicos de idosos saudáveis Mobilizar pessoas e desenvolver programas que contribuíam para garantir a autonomia das pessoas. Em festas comemorativas Promover ações de entretenimento adequadas ao perfil do público. Em buffet infantil Desenvolver atividades para a diversão das crianças e familiares Com jogos virtuais Explorar os recursos das tecnologias virtuais para a diversão de crianças, jovens, adultos e idosos Clubes sociorrecreativos Promover programas recreativos e eventos para compor o calendário de atividades aos associados. Secretarias estaduais e municipais Atender a comunidade com programas de recreação e lazer. Em empresas de marketing Desenvolver ações de entretenimento que possam criar uma melhor aproximação do público consumidor com o produto. 12 Conforme demonstrado no Quadro 1, é expressivaa diversidade de locus de atuação para o profissional atuar no campo do lazer. Apesar de ser possível afirmar que o conteúdo de cada programa – jogos, brincadeiras, shows, oficinas de atividades manuais, cultivo de plantas, rodas de conversa, cinema, entre outras atividades – é similar em diferentes ambientes – por exemplo, é possível haver nos diversos segmentos apresentados no Quadro 1 apresentação de teatro –, para cada público e cada local, há objetivos distintos a serem alcançados. Isso faz com que cada conteúdo assuma forma distinta na sua organização e realização. Outro detalhe é que, para cada característica do local e atuação, como um hotel, há particularidades que acabam por contribuir para que a forma de organização das atividades e consequentemente, sua forma de execução, sejam singulares. Por mais que possamos sugerir um conjunto de competências desejáveis para um profissional de recreação e lazer, consideramos que o acesso às produções acadêmicas que tratam dessas temáticas irá colaborar para desenvolver nesses profissionais, sensibilidades suficientes para compreender as necessidades e desejos de clientes e usuários quando se dispõem a dedicar um tempo da vida para suas experiências no lazer. Um aspecto que é necessário evidenciar é sobre o professor de Educação Física e seu papel nesse processo de envolvimento das pessoas no universo do lazer. Apesar de ser possível que esse professor possa propor atividades e eventos para os alunos, como atividades extracurriculares, há uma dimensão de sua intervenção que ocorre dentro das aulas de Educação Física. Isso mesmo, as aulas de Educação Física têm um papel fundamental na promoção de educação dessas crianças para o lazer. Isso ocorre à medida que o professor apresenta aos alunos seu conteúdo, de forma que possa enriquecer sua visão de mundo quanto às práticas corporais, estimulando-os a participar de atividades semelhantes no lazer. Com base nesses argumentos, afirmamos que o professor que atua na escola e o bacharel em Educação Física que atua em outros espaços necessitam estabelecer um diálogo com seu objeto de trabalho com sustentação teórica sobre a recreação e o lazer. 13 NA PRÁTICA Apresentamos nesta aula que o lazer e a recreação são fenômenos sociais, construídos historicamente. Isso colaborou para a multiplicidade de sentidos atribuídos a esses termos. Desta forma, apresente pelo menos três pensamentos que possam representar esses distintos sentidos: 1. Educativo, por atribuir a eles a função de formar as crianças, tornando-as adultos adequados às convenções sociais; 2. Positivo à promoção e manutenção da saúde do indivíduo; 3. Possibilidade de desenvolvimento pessoal e social. FINALIZANDO Finalizamos com alguns apontamentos sobre o que discutimos em cada tema. No Tema 1, apresentamos uma discussão sobre o papel da disciplina da recreação e lazer, compreendendo que muitos estudantes têm dificuldade de relacionar essa disciplina com sua formação, de maneira geral. Claro que isso se deve à visão restrita que alguns possuem em relação a essa área, restringindo sua abrangência aos jogos e brincadeiras. Destacamos que a relevância social é um argumento plausível para justificar a existência da disciplina de recreação e lazer nos cursos de Educação Física. Para isso, apoiamo-nos na concepção de que os sujeitos se valem do seu tempo disponível das obrigações profissionais e sociais para desfrutar das diversas práticas, como corridas, caminhadas, ginásticas, exercícios físicos, práticas esportivas, entre outras. Nessa direção, ficou evidente que as pessoas investem tempo, disposição emocional, dinheiro para poderem passar algum tempo com experiências agradáveis que possam garantir retornos positivos. Assim, apreender os sentidos da recreação e o lazer para as pessoas poderá auxiliar na constituição de competência técnica e compromisso político com sua atividade profissional. Apresentamos, no Tema 2, algumas particularidades do desenvolvimento da recreação e lazer no Brasil, demonstrando o início do processo da institucionalização das ações do Estado para a promoção do lazer como política pública e como isto contribuiu para aproximar a área da Educação Física. 14 No tema 3, falamos sobre alguns aspectos históricos da recreação e lazer, sem pretensão de esgotar o assunto, mas para demonstrar as transformações que ocorreram com o lazer durante o processo civilizacional. Um aspecto que fica evidenciado é a valorização do trabalho em detrimento do lazer. Destacamos, ainda, no Tema 4, alguns sentidos atribuídos à recreação e ao lazer, destacando a influência semântica da origem desses termos para influenciar alguns estudiosos, como também para provocar algumas compreensões equivocadas. Para finalizar, destacamos, no Tema 5, a diversidade de espaço para a atuação no cenário da recreação e lazer, esclarecendo ainda que o professor de Educação Física tem um papel fundamental para que as pessoas possam se educar para o lazer. 15 REFERÊNCIAS CAMARGO, L. O. L. Educação para o lazer. São Paulo: Moderna, 1998. DUMAZEDIER, J. Valores e conteúdos culturais do lazer. São Paulo: SESC, 1980. MARCELLINO, N. C. Lazer: concepções e significados. Licere, Belo Horizonte, v.1, n.1, p.37-43, 1998. MASCARENHAS, F. Entre o ócio e o negócio: teses acerca da anatomia do lazer. 2005. 307f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. MELO, V. A; JUNIOR, E. de D. A. Introdução ao lazer. São Paulo, Barueri: Editora Manole, 2003. SCHWARTZ, G. M. O conteúdo virtual do lazer: contemporizando Dumazedier. LICERE. Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, Belo Horizonte, v. 6, n. 2, p. 23-31, 2003.