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Módulo Exigibilidade do Crédito Tributário SEMINÁRIO II - SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO, MANDADO DE SEGURANÇA E TUTELAS PROVISÓRIAS Questões 1. No art. 151 do CTN, que significa o termo “exigibilidade”? Quando surge essa “exigibilidade”? E qual o efeito da suspensão da exigibilidade? Impede-se (i) o lançamento, (ii) a inscrição na dívida ativa, (iii) a execução fiscal; (iv) todos estes atos? (Vide anexos I a IV). O professor Paulo de Barros Carvalho[footnoteRef:1] nos ensina que: [1: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. São Paulo: Noeses, 2021, Item 2.7 do Capítulo 2 da segunda parte. p. 450.] Por exigibilidade havemos de compreender o direito que o credor tem de postular, efetivamente, o objeto da obrigação, e isso tão-só ocorre, como é óbvio, depois de tomadas todas as providências necessárias à constituição da dívida, como a lavratura do ato de lançamento tributário. No período que antecede tal expediente, ainda não se tem o surgimento da obrigação, inexistindo, conseqüentemente, crédito tributário, o qual nasce com o ato do lançamento. Ocorrendo alguma das hipóteses previstas no art. 151 da Lei n. 5.172/66, aquilo que se opera, na verdade, é a suspensão do teor de exigibilidade do crédito, não do próprio crédito que continua existindo tal qual nascera. Deste modo, a exigibilidade nada mais é do que o direito do Fisco de cobrar o crédito tributário do sujeito passivo, sendo que tal direito apenas irá surgir a partir do momento do lançamento, que constituirá o crédito tributário, como determinado no art. 142 do Código Tributário Nacional – CTN (Lei n° 5.172/1966)[footnoteRef:2]. [2: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional.] Além disso, como bem pontua Fabiana Del Padre Tomé[footnoteRef:3], para que o Fisco esteja habilitado a cobrar o crédito tributário, a prestação deverá estar vencida e, apenas após tal vencimento, poderá ser constituído o crédito. [3: TOMÉ, Fabiana Del Padre. Exigibilidade do crédito tributário: amplitude e efeitos de sua suspensão. In: SOUZA, Priscila de (Coord.). Direito tributário e os conceitos de direito privado. São Paulo: Noeses, 2010. ] Já em relação aos efeitos da suspensão da exigibilidade do crédito tributário, primeiramente, destaca-se que não há impedimento ao lançamento, pois, como visto acima, o lançamento é o ato necessário à constituição do crédito e faz surgir a sua exigibilidade pelo Fisco.[footnoteRef:4] [4: “Dessas noções conceituais, e considerando que a exigibilidade é característica de crédito tributário já constituído, concluímos que a concretização de causa suspensiva da exigibilidade tributária não impede a lavratura do ato de lançamento. O termo de existência do crédito tributário não é impedido ou postergado por qualquer das causas suspensivas da exigibilidade do crédito tributário, cabendo à autoridade administrativa exarar o ato competente para evitar que se opere o fato decadencial.” TOMÉ, Fabiana Del Padre. Exigibilidade do crédito tributário: amplitude e efeitos de sua suspensão. In: SOUZA, Priscila de (Coord.). Direito tributário e os conceitos de direito privado. São Paulo: Noeses, 2010. ] Ainda que existam julgados no sentido de que a hipótese prevista no inciso IV do art. 151 do CTN[footnoteRef:5], como o trazido no Anexo II deste trabalho, coaduno com o entendimento de que, mesmo havendo deferimento de medida liminar em mandado de segurança preventivo, esta não tem o condão de impedir o lançamento do crédito pelo Fisco. Nesse sentido, vale aqui voltarmos, novamente, às lições de Fabiana Del Padre Tomé[footnoteRef:6]: [5: Art. 151. Suspendem a exigibilidade do crédito tributário: [...] IV - a concessão de medida liminar em mandado de segurança.] [6: TOMÉ, Fabiana Del Padre. Exigibilidade do crédito tributário: amplitude e efeitos de sua suspensão. In: SOUZA, Priscila de (Coord.). Direito tributário e os conceitos de direito privado. São Paulo: Noeses, 2010. ] O ato de lançamento tributário, devidamente notificado ao contribuinte, confere existência ao crédito tributário. E o termo de existência não é impedido ou postergado por qualquer das causas suspensivas da exigibilidade do crédito tributário. Pelo contrário: para que possamos falar na suspensão da exigibilidade do crédito tributário é necessário que exista o crédito a ser suspenso. O fato suspensivo da exigibilidade do crédito tributário produz a paralisação da incidência de normas voltadas à efetivação do direito de o sujeito ativo exigir os valores do sujeito passivo. Por isso concordamos com Décio Porchat no sentido de que, notificada a autoridade competente da medida liminar concedida, está deverá efetuar o ato de lançamento, constituindo o crédito tributário, para, depois disso, operar-se a suspensão da exigibilidade do gravame. Se assim não o fizer, sua inércia ocasionará a perda do direito de constituir o crédito tributário (decadência), nos termos do art. 173, I ou 150, § 4º, do CTN, conforme se trate de tributo sujeito a lançamento de ofício ou a lançamento por homologação, respectivamente. Portanto, a suspensão da exigibilidade do crédito tributário tem como efeito sustar procedimentos de cobrança deste crédito pelo Fisco, como a inscrição na dívida ativa e a execução fiscal. Tal entendimento pode ser verificado também nos julgados trazidos nos Anexos I, III e IV deste trabalho. 2. As hipóteses de “suspensão da exigibilidade do crédito tributário” previstas no art. 151 do CTN são taxativas? (Vide anexo V) De acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ), as hipóteses previstas no art. 151 do CTN, de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, são taxativas. Pode exemplificar, neste sentido, a tese firmada no Tema Repetitivo n° 378, que assim dispõe: “A fiança bancária não é equiparável ao depósito integral do débito exequendo para fins de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, ante a taxatividade do art. 151 do CTN e o teor do Enunciado Sumular n. 112 desta Corte.” (grifos nossos). Encontra-se tal entendimento também no âmbito do CARF, como se pode observar no seguinte julgado: ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2009 SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO POR DÉBITOS. ATO DECLARATÓRIO EXECUTIVO NÃO NULO. Não se verificando a suspensão da exigibilidade do crédito tributário (art. 151 do CTN), não há que se falar em irregularidade da exclusão da Contribuinte da sistemática do SIMPLES Nacional. Ato Declaratório de Exclusão restou perfeitamente hígido e os débitos para com a Fazenda Pública foram claramente demonstrados. As hipóteses de suspensão da exigibilidade do crédito tributário encontramse previstas de maneira taxativa no art. 151 do CTN, o qual não comporta uma leitura expansiva de seu conteúdo. (Nº Acórdão 1002-000.346 / Relator(a) Breno do Carmo Moreira Vieira / Data da Sessão 08/08/2018). Entretanto, também há entendimento no sentido de que as hipóteses previstas no art. 151 do CTN não são taxativas, como é o caso do julgado trazido no Anexo V deste trabalho, o qual estabelece a suspensão da exigência tributária quando o contribuinte houver formulado consulta fiscal antes da constituição do crédito tributário. Neste sentido, não podemos olvidar do art. 161, § 2º do CTN[footnoteRef:7]. [7: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou emlei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito.] Ainda neste sentido, Danilo Monteiro de Castro[footnoteRef:8] nos esclarece: [8: CASTRO, Danilo Monteiro de. Fiança bancária e seguro garantia em ambiente tributário: análise da recente jurisprudência do STJ (após o CPC/2015). In.: Texto e Contexto no Direito Tributário [Coord. Paulo de Barros Carvalho], São Paulo: Noeses, 2020. p. 278.] Vários são os exemplos práticos de situações a gerar suspensão da exigibilidade do crédito tributário não previstas no artigo 151 do CTN (consulta fiscal; tutela de evidência; sentença procedente em mandado de segurança; etc.), que justificam a superação de referido dogma, especialmente no momento histórico-filosófico que nos encontramos. Ademais, o que se defende é apenas a interpretação das normas existentes no artigo 151 do CTN pelos comandos processuais, já que parte daquelas dependem destas para se consumar. Insista-se, as regras materiais atinentes à espécie têm de ser calibradas por aquelas de cunho processual, quando dependerem desse ambiente para se concretizar. Ora, não é crível exigir atualização da lista do artigo 151 do CTN sempre que tivermos novidades processuais que possam influir na interpretação das hipóteses de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, quer pela sua taxatividade, que pelo veículo normativo inerente às regras processuais (lei ordinária). Portanto, em princípio, o entendimento majoritário da jurisprudência nos leva a crer que o rol do art. 151 do CTN é taxativo. Porém, coaduno com o entendimento contrário, uma vez que não podemos deixar de considerar a prática, onde diversas situações, em que pese não elencadas no referido art. 151, também acabam resultando na suspensão da exigibilidade do crédito tributário. 2.1. Considerando que não houve alteração nos art. 151 do CTN, pergunta-se: a) A equiparação, prescrita pelo §2º do art. 835 do CPC/15, a dinheiro da fiança bancária e do seguro garantia, tem o condão de consagrar a hipótese de suspensão da exigibilidade do crédito tributário prevista no art. 151, II, do CTN? Quais os efeitos jurídicos causados pela apresentação de fiança bancária ou seguro garantia em processo judicial que discute a relação jurídica tributária? O art. 835 do Código de Processo Civil (CPC/2015) dispõe o seguinte: Art. 835. A penhora observará, preferencialmente, a seguinte ordem: I - dinheiro, em espécie ou em depósito ou aplicação em instituição financeira; II - títulos da dívida pública da União, dos Estados e do Distrito Federal com cotação em mercado; III - títulos e valores mobiliários com cotação em mercado; IV - veículos de via terrestre; V - bens imóveis; VI - bens móveis em geral; VII - semoventes; VIII - navios e aeronaves; IX - ações e quotas de sociedades simples e empresárias; X - percentual do faturamento de empresa devedora; XI - pedras e metais preciosos; XII - direitos aquisitivos derivados de promessa de compra e venda e de alienação fiduciária em garantia; XIII - outros direitos. § 1º É prioritária a penhora em dinheiro, podendo o juiz, nas demais hipóteses, alterar a ordem prevista no caput de acordo com as circunstâncias do caso concreto. § 2º Para fins de substituição da penhora, equiparam-se a dinheiro a fiança bancária e o seguro garantia judicial, desde que em valor não inferior ao do débito constante da inicial, acrescido de trinta por cento. § 3º Na execução de crédito com garantia real, a penhora recairá sobre a coisa dada em garantia, e, se a coisa pertencer a terceiro garantidor, este também será intimado da penhora. Assim sendo, o § 2º do art. 835 do CPC/2015 equipara, para fins de substituição da penhora, a dinheiro, a fiança bancária e o seguro garantia judicial, desde que em valor não inferior ao débito constante da inicial, acrescido de 30%. Desta forma, a literalidade do § 2º do art. 835 do CPC/2015 apenas equipara a fiança bancária e o seguro garantia judicial a dinheiro, para fins de substituição da penhora, não havendo qualquer disposição quanto à suspensão da exigibilidade do crédito tributário. Além disso, de acordo com o entendimento sumulado do STJ (Súmula 112), apenas o depósito integral e em dinheiro suspenderá a exigibilidade do crédito tributário. Ademais, como já abordado na questão anterior a esta, relativa à taxatividade das hipóteses de suspensão da exigibilidade do crédito, a tese firmada no Tema Repetitivo n° 378/STJ, preconiza que a fiança bancária não é equiparável ao depósito integral do débito exequendo para fins de suspensão da exigibilidade do crédito tributário. Portanto, a fiança bancária e o seguro garantia judicial, segundo entendimento jurisprudencial, não possuem o condão de suspender a exigibilidade do crédito tributário. Já com relação aos efeitos da fiança bancária e do seguro garantia em um processo juidicial, o STJ, no julgamento do REsp 1156668/DF, em procedimento de Recursos Repetitivos, dando surgimenot ao Tema n° 378, acima mencionado, entendeu que a fiança bancária e o seguro garantia tem efeito jurídico apenas de “garantir o débito exequendo, em equiparação ou antecipação à penhora, com o escopo precípuo de viabilizar a expedição de Certidão Positiva com Efeitos de Negativa e a oposição de embargos.”[footnoteRef:9] [9: REsp n. 1.156.668/DF, relator Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, julgado em 24/11/2010, DJe de 10/12/2010.] Por fim, tal temática é alvo de muitos debates entre estudiosos do Direito Tributário, e, nesse sentido, vale lembrar importante passagem do estudo feito por Danilo Monteiro de Castro[footnoteRef:10]: [10: CASTRO, Danilo Monteiro de. Fiança bancária e seguro garantia em ambiente tributário: análise da recente jurisprudência do STJ (após o CPC/2015). In.: Texto e Contexto no Direito Tributário [Coord. Paulo de Barros Carvalho], São Paulo: Noeses, 2020. p. 284.] Espera-se que a questão seja novamente analisada pelo STJ com a profundidade que o tema exige (enfrentamento da questão perante conflito de natureza tributária, com explícita análise do artigo 835, § 2º, CPC), de preferência na sistemática dos recursos repetitivos, com a prudência pertinente a esse regime de julgamento, para que a questão seja pacificada da melhor forma possível (de preferência a enaltecer a alta liquidez destas garantias, motivadora de referida equiparação processual) e, principalmente, com a necessária reflexão sobre antigos dogmas (no caso a taxatividade, via interpretação literal, do art. 151 do CTN) que, há tempos, não mais se justificam. b) As espécies de tutela provisória, identificadas segundo o fundamento do pedido, se de urgência ou de evidência, previstas no CPC/15 se aplicam ao Processo Tributário? Tais medidas têm o condão de suspender a exigibilidade do crédito tributário? De início, lembra-se que, o art. 15 do CPC/2015, dispõe que “na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente”. Assim, em que pese não dispor, expressamente, em relação ao processo tributário, podemos considerar que o CPC/2015 é aplicado ao processo tributário, tendo em vista a ausência de Código específico.[footnoteRef:11] [11: “Isso implica reconhecer que adjetivar o processo de “tributário” é tomar como pressuposto da relação processual um conflito de interesses entre o fisco e contribuinte. Mas, isto não infirma o fato de que processo tributário é, também, processo civil, e que à falta de um Código específico, as contendas entre Fisco e contribuinte serão resolvidas por meio das regras do processo civil, do Código de Processo Civil.” (VERGUEIRO, Camila Campos. CPC/2015, as ações antiexacionais do contribuinte, a tutela provisória cautelar e de evidência. In: CONRADO, Paulo Cesar. Processo Tributário Analítico, v.3. São Paulo: Noeses, 2016.p. 197)] Isto posto, faz-se necessário trazer à baila as diferenças das espécies de tutela provisória, e, para tanto, utilizo-me das palavras de Camila Campos Vergueiro[footnoteRef:12] que, de forme muito didática, nos ensina: [12: VERGUEIRO, Camila Campos. CPC/2015, as ações antiexacionais do contribuinte, a tutela provisória cautelar e de evidência. In: CONRADO, Paulo Cesar. Processo Tributário Analítico, v.3. São Paulo: Noeses, 2016. p. 184.] As tutelas cautelar e antecipada, como apontado, inserem-se na mesma classe de tutela provisória cujo fundamento para o deferimento é caracterizado pela urgência, consagrando, portato, a ideia de risco para sua concessão, isto é, do periculum in mora, enquanto a tutela provisória de evidência não se subdivide em nenhuma espécie e seu fundamento para concessão independe do perigo. Ao separar as tutelas provisórias em “de urgência” e “de evidência”, o legislador de 2015 adota, portanto, outro critério de classificação para distingui-las, o da existência, ou não, de risco ao requerente aguardar a tutela final do processo. Assim, feitas tais considerações, conclui-se que as tutelas provisórias previstas no CPC/2015 são aplicáveis ao Processo Tributário. Por conseguinte, frisa-se que, nos termos do art. 151, IV e V, do CTN, suspendem a exigibilidade do crédito tributário a concessão de medida liminar em mandado de segurança, e a concessão de medida liminar ou de tutela antecipada, em outras espécies de ação judicial. Neste contexto, nos esclarece Rodrigo Dalla Pria[footnoteRef:13] que: [13: PRIA, Rodrigo Dalla. Direito processual tributário. - 2.ed., rev. e atual. – São Paulo: Noeses, 2021. p.232.] Destarte, sob a óptica estritamente normativa, as tutelas provisórias suspensivas da exigibilidade do crédito tributário atuarão de modo a comprometer, temporariamente, a aplicabilidade (eficácia técnico-sintática) das normas abstratas e gerais cujas incidências tiverem lugar - considerado o fluxo de causalidade jurídica próprio à cobrança do crédito tributário - em momento imediatamente posterior àquele em que a indigitada tutela provisória haja sido concedida. É possível concluir, portanto, que a tutela provisória suspensiva da exigibilidade do crédito tributário atua diretamente sobre a força perlocucionária do ato de fala constitutivo do crédito tributário, mitigando-o de forma a obstar seus efeitos sobre a conduta do sujeito passivo. Em alguns casos, os atos de cobrança já praticados terão sua eficácia social comprometida pelo advento da tutela suspensiva da exigibilidade do crédito tributário, pois não terão capacidade para produzir seus peculiares efeitos sociais. É o que ocorre, por exemplo, com os atos indiretos de cobrança do débito fiscal (negativa de certidões; protestos extra-judiciais; anotações em cadastros de devedores etc.). Portanto, as tutelas provisórias anteriormente mencionadas tem o condão de suspender a exigibilidade da obrigação tributária. 3. Sobre o depósito judicial efetuado nos autos de um mandado de segurança preventivo, portanto, impetrado antes da constituição do crédito tributário, pergunta-se: a) Trata-se de faculdade do contribuinte? O art. 7º, III, da Lei n° 12.016/2009 (que disciplina o mandado de segurança), dispõe que, ao despachar a inicial, o juiz ordenará que se suspenda o ato que deu motivo ao pedido, quando houver fundamento relevante e do ato impugnado puder resultar a ineficácia da medida, caso seja finalmente deferida, sendo facultado exigir do impetrante caução, fiança ou depósito, com o objetivo de assegurar o ressarcimento à pessoa jurídica. Ainda, nos termos do art. 151, II, do CTN, suspende a exigibilidade do crédito tributário o depósito do seu montante integral. Ressalte-se que, o STJ possui entendimento de que o depósito judicial é ato volitivo do contribuinte, ou seja, é uma faculdade. Vejamos: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL DO BANCO FIAT S/A E OUTRO. DEPÓSITO JUDICIAL. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. ART. 151, II, DO CPC. FACULDADE DO CONTRIBUINTE. MANDADO DE SEGURANÇA. CABIMENTO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. AGRAVO DO BANCO FIDIS S/A. OFENSA AO ART. 535 DO CPC/1973 NÃO CARACTERIZADA. DEPÓSITOS JUDICIAIS PARA SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. NATUREZA DE INGRESSOS TRIBUTÁRIOS DEPENDENTES DO DESTINO DA DEMANDA JUDICIAL. VALORES NÃO DEDUTÍVEIS DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ. AGRAVO IMPROVIDO. 1. A jurisprudência desta Corte Superior é no sentido de que o depósito de que trata o art. 151, II, do CTN constitui direito subjetivo do contribuinte, que pode efetuá-lo tanto nos autos da ação principal quanto em Ação Cautelar, sendo desnecessária a autorização do Juízo. É facultado ao sujeito passivo da relação tributária efetivar o depósito do montante integral do valor da dívida, a fim de suspender a cobrança do tributo e evitar os efeitos decorrentes da mora, enquanto se discute na esfera administrativa ou judicial a exigibilidade da exação (AgRg no REsp 517937/PE, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 28/4/2009, DJe 17/6/2009). 2. Quanto ao Agravo do Banco Fidis S/A, no que se refere à alegada afronta ao disposto no art. 535, inciso II, do CPC, verifico que o julgado recorrido não padece de omissão, porquanto decidiu fundamentadamente a quaestio trazida à sua análise, não podendo ser considerado nulo tão somente porque contrário aos interesses da parte. 3. O STJ consolidou o entendimento segundo a qual os depósitos judiciais utilizados para suspender a exigibilidade do crédito fiscal consistem em ingressos tributários, sujeitos à sorte da demanda judicial, e não em receitas tributárias, de modo que não são dedutíveis da base de cálculo do IRPJ até o trânsito em julgado da demanda. 4. Recurso Especial de Banco Fiat S/A e outro provido. Agravo de Banco Fidis S/A improvido. (REsp n. 1.691.774/SP, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 10/10/2017, DJe de 16/10/2017.) (grifos nossos). Rodrigo Dalla Pria nos adverte que, se entendermos o depósito no mandado de segurança como uma medida de contracautela, ou seja, para assegurar eventual risco à parte contrária quando da concessão da medida, este deixa de ser considerado uma faculdade da parte e passa a ser uma decisão do juiz.[footnoteRef:14] [14: “A tomada de posição acerca da natureza do depósito no mandado de segurança em matéria tributária - se consubstancia contracautela necessária, em situações de risco de dano, à concessão de medida liminar; ou se constitui a causa autônoma de suspensão da exigibilidade prevista no art. 151, inciso II, do CTN - é determinante para a resposta a outra pergunta importante, qual seja: a realização do depósito do montante integral do débito no mandado de segurança em matéria tributária depende de autorização/anuência do juízo da causa ou, ao contrário, é uma faculdade/direito subjetivo do impetrante? Se optar-se por atribuir ao depósito o status de contracautela, sua realização estará à mercê do juízo, pois compete a ele avaliar o cabimento ou não de sua realização. Nesse caso, a suspensão da exigibilidade do crédito dependerá não só da realização do depósito, mas também da efetiva verificação das duas condições necessárias à concessão da liminar: o fundamento relevante e o risco de ineficácia da medida. Caso se entenda, ao contrário, que o depósito em mandado de segurança impugnativo de débito tributário tem natureza de causa autônoma de suspensão da exigibilidade do crédito, sua realização não dependerá de autorização do juízo, pois se estará diante de verdadeiro direito subjetivo do contribuinte. Além disso, a produção do efeito suspensivo, nesta específica hipótese, independe, inclusive, da verificação das condições legais de concessão da medida liminar. A esse respeito, o Superior Tribunal de Justiça vem reiteradamente afirmando a orientação segundo a qual o depósito do montante integral do débito em mandado de segurança se apresenta, realmente, como causa autônoma de suspensão da exigibilidade, assumindo, por via de consequência, a natureza deverdadeiro direito subjetivo da parte, que garante ao impetrante o direito de discutir a legitimidade do débito sem que seja coagido por qualquer espécie de ato constritivo de seu patrimônio.” (PRIA, Rodrigo Dalla. Direito processual tributário. - 2.ed., rev. e atual. – São Paulo: Noeses, 2021. p. 411/412).] Portanto, de acordo com o entendimento do STJ, o depósito judicial, inclusive em mandado de segurança, é uma faculdade do contribuinte. b) Há distinção entre depósito judicial para fins do art. 151, II do CTN e prestação de caução? Conforme anteriormente mencionado neste trabalho, nos termos do art. 151, II, do CTN, suspende a exigibilidade do crédito tributário o depósito do seu montante integral. Por outro lado, não há previsão legal expressa no art. 151 do CTN quanto à prestação de caução. Assim, a mesma discussão travada na resposta à pergunta 2.1, “a”, deste trabalho, em relação à fiança bancária e o seguro garantia judicial, podemos aplicar à prestação de caução. Neste sentido, vale transcrever o entendimento do STJ, através de excertos da ementa do, já mencionado, REsp n. 1.156.668/DF, com grifos nossos: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543-C, DO CPC. CAUÇÃO E EXPEDIÇÃO DA CPD-EN. POSSIBILIDADE. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ART. 151 DO CTN. INEXISTÊNCIA DE EQUIPARAÇÃO DA FIANÇA BANCÁRIA AO DEPÓSITO DO MONTANTE INTEGRAL DO TRIBUTO DEVIDO PARA FINS DE SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE. SÚMULA 112/STJ. VIOLAÇÃO AO ART. 535, II, DO CPC, NÃO CONFIGURADA. MULTA. ART. 538 DO CPC. EXCLUSÃO. 1. A fiança bancária não é equiparável ao depósito integral do débito exequendo para fins de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, ante a taxatividade do art. 151 do CTN e o teor do Enunciado Sumular n. 112 desta Corte, cujos precedentes são de clareza hialina: (...) 3. Deveras, a suspensão da exigibilidade do crédito tributário (que implica óbice à prática de quaisquer atos executivos) encontra-se taxativamente prevista no art. 151 do CTN, sendo certo que a prestação de caução, mediante o oferecimento de fiança bancária, ainda que no montante integral do valor devido, não ostenta o efeito de suspender a exigibilidade do crédito tributário, mas apenas de garantir o débito exequendo, em equiparação ou antecipação à penhora, com o escopo precípuo de viabilizar a expedição de Certidão Positiva com Efeitos de Negativa e a oposição de embargos. (...) 4. Ad argumentandum tantum, peculiaridades do instituto da fiança demonstram, de forma inequívoca, a impossibilidade de sua equiparação ao depósito, tais como a alegação do benefício de ordem e a desoneração do encargo assumido mediante manifestação unilateral de vontade do fiador, nos termos dos arts. 827 e 835 do Código Civil, verbis: "Art. 827. O fiador demandado pelo pagamento da dívida tem direito a exigir, até a contestação da lide, que sejam primeiro executados os bens do devedor." "Art. 835. O fiador poderá exonerar-se da fiança que tiver assinado sem limitação de tempo, sempre que lhe convier, ficando obrigado por todos os efeitos da fiança, durante sessenta dias após a notificação do credor." (...) (REsp n. 1.156.668/DF, relator Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, julgado em 24/11/2010, DJe de 10/12/2010.) Do exposto, há distinção do depósito judicial para a caução, uma vez que, nos termos do entendimento do STJ, apenas aquele pode suspender a exigibilidade da obrigação tributária, vez que esta não tem esse condão, visto não ser equiparada ao depósito. A caução será utilizada apenas para garantia do juízo e deferimento de medida liminar, por exemplo, caso em que a suspensão da exigibilidade do crédito tributário se dará com fulcro no art. 151, IV do CTN.[footnoteRef:15] [15: “Com efeito, nos casos em que estiverem presentes as condições de concessão da liminar e, ainda, restar demonstrado o risco de dano à pessoa jurídica titular da relação jurídico-tributária objeto do mandado de segurança, não há qualquer impedimento legal à concessão da liminar mediante a prestação de contracautela nas modalidades caução ou fiança, situação em que as garantias fidejussórias em comento não serão concedidas com o intuito de promover a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, mas como condição para a concessão de medida liminar - expressamente prevista no art. 7°, inciso III, in fine, da Lei 12.016/2009 -, esta sim produtora dos indigitados efeitos suspensivos.” (PRIA, Rodrigo Dalla. Direito processual tributário. - 2.ed., rev. e atual. – São Paulo: Noeses, 2021. p. 414).] c) O levantamento do depósito judicial vincula-se ao êxito (com trânsito em julgado) da ação proposta pelo contribuinte ou o juiz pode a qualquer tempo autorizar o levantamento? (Vide anexo VI) Inicialmente, lembramos que o art. 32, § 2º da Lei n° 6.830/1980, estabelece que “após o trânsito em julgado da decisão, o depósito, monetariamente atualizado, será devolvido ao depositante ou entregue à Fazenda Pública, mediante ordem do Juízo competente.” Neste mesmo sentido foi a decisão do STJ, no julgamento do EREsp 215.589/RJ, trazido no Anexo VI deste material, em que o entendimento aplicado foi de que “o depósito judicial efetuado para suspender a exigibilidade do crédito tributário é feito também em garantia da Fazenda e só pode ser levantado pelo depositante após sentença final transitada em julgado em seu favor, nos termos do consignado no art. 32 da Lei 6.830/80.”. Portanto, em que pese o depósito judicial ser uma faculdade do contribuinte, como já trazido neste trabalho, a partir do momento que o contribuinte realiza o depósito, o STJ entende que além de suspender a exigibilidade do crédito tributário, também é uma garantia da Fazenda, e, assim, não poderia ser levantado antes do trânsito em julgado da demanda. Ademais, segundo Rodrigo Dalla Pria, a restrição quanto ao levantamento do depósito antes do trânsito em julgado tem o capacidade de evitar “fraudes processuais, especialmente nas causas em que a mera suspensão da exigibilidade e todos os efeitos dela decorrentes têm, por si só, o condão de satisfazer a pretensão do impetrante”[footnoteRef:16]. [16: PRIA, Rodrigo Dalla. Direito processual tributário. - 2.ed., rev. e atual. – São Paulo: Noeses, 2021. p. 415.] d) O impetrante pode desistir do mandado de segurança e pedir o levantamento do depósito? Ao responder, relembre-se do que respondeu na letra “a)” a respeito da facultatividade ou não do depósito. A Lei n° 12.016/2009, que regulamenta o mandado de segurança, apenas aborda o tema da desistência quando estabelece, em seu art. 22, § 1º que “o mandado de segurança coletivo não induz litispendência para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada não beneficiarão o impetrante a título individual se não requerer a desistência de seu mandado de segurança no prazo de 30 (trinta) dias a contar da ciência comprovada da impetração da segurança coletiva.”. Assim, exceto a disposição acima, não há qualquer outra disposição na referida lei em relação à possibilidade, ou não, de desistência do mandado de segurança pelo impetrante, tampouco previsão quanto aos efeitos da desistência no que tange a eventual depósito judicial efetuado. Entretanto, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 669367, na sistemática de repercussão geral, firmou a seguinte tese (Tema 530): “É lícito ao impetrante desistir da ação de mandado de segurança, independentemente de aquiescência da autoridade apontada como coatora ou da entidade estatal interessada ou, ainda, quando for o caso, dos litisconsortes passivos necessários, a qualquer momento antes do término do julgamento, mesmo após eventual sentença concessiva do ‘writ’ constitucional, não se aplicando, em tal hipótese, a norma inscrita no art. 267, § 4º, do CPC/1973.” Desta forma, há entendimento pacificado do STF de que é possível a desistência do mandado de segurança a qualquer tempo, sem a anuência da parte contrária, inclusive após a sentença concessiva do mandado de segurança. Isto posto, quanto ao depósito,vale lembrar, primeiramente, que este é uma faculdade do contribuinte, nos termos do entendimento do STJ, como apontado na resposta à letra “a” desta questão. Além disso, quanto ao levantamento do depósito, retomamos a resposta à letra “c” desta questão, ou seja, o entendiemnto do STJ é de que o depósito só pode ser levantado pelo depositante após sentença final transitada em julgado em seu favor. Ora, se a decisão que homolga a desistência do mandado de segurança extingue o processo sem resolução do mérito, como preconiza o art. 485, VIII do CPC, em princípio, vejo não ser possível entender que tal decisão é favorável ao contribuinte, já que não houve resolução do mérito. Assim sendo, de acordo com o entendimento do STJ (de que os depósitos somente podem ser levantados após sentença transitada em julgado a favor do contribuinte), nesta situação específica, de desistência do mandado de segurança com extinção do processo sem resolução do mérito, entendo que os depósitos não poderiam ser levantados, devendo ser revertidos em renda da Fazenda Pública. Por fim, nesse sentido, podemos mencionar os seguinte julgados, com grifos nossos: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DO MÉRITO. DEPÓSITOS JUDICIAIS. LEVANTAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. CONVERSÃO EM RENDA. ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL PACÍFICO. VIOLAÇÃO DO ART. 1.022 DO CPC/2015. INEXISTÊNCIA. 1. Na via do recurso especial, este Tribunal Superior não procede à análise de matérias que não foram prequestionadas, ainda que sejam de ordem pública, razão pela qual não é adequada a apreciação de fato novo em favor da parte recorrente. Precedentes. 2. Não há violação do art. 1.022 do CPC/2015 quando o órgão julgador, de forma clara e coerente, externa fundamentação adequada e suficiente à conclusão do acórdão embargado. 3. A regra da conversão dos depósitos judiciais em renda da Fazenda Pública deve ser seguida quando não mais houver controvérsia judicial sobre a exigibilidade dos créditos tributários correlatos, daí porque se exige o trânsito em julgado para essa providência. Na hipótese em que há extinção do processo, sem resolução do mérito, o depósito deve ser convertido em renda do ente federado, após o trânsito em julgado. Precedentes. 4. Agravo interno não provido. (AgInt no AgInt no AREsp n. 1.658.162/SP, relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 19/10/2021, DJe de 21/10/2021.) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NOS SEGUNDOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS EXIGÍVEIS. DEPÓSITO JUDICIAL. LEVANTAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. 1. Tendo sido realizado com o fim de suspensão da exigibilidade de créditos tributários, os depósitos só podem ser levantados pelo contribuinte/responsável após o trânsito em julgado de sentença que os reconheça inexigíveis, servindo, até lá, como antecipação de garantia dos créditos. E, no caso de improcedência do pedido ou extinção do processo, sem resolução do mérito, o depósito deve ser convertido em renda do ente federado, após o trânsito em julgado. Precedentes. 2. Na hipótese em que a retenção das mercadorias caracterizar ilegalidade e houver concessão do mandado de segurança para a liberação, mas os tributos ainda se encontrarem exigíveis do contribuinte, ou há consequente conversão do depósito em renda da União ou a parte deve pedir a transferência do depósito judicial para conta vinculada à ação em que esteja discutindo a inconstitucionalidade ou a ilegalidade da cobrança (no caso específico dos autos, direito à imunidade constitucional), o que deve ser postulado junto ao juízo de primeiro grau. Precedentes. 3. No caso dos autos, porque não há a sentença afastando a exigibilidade dos créditos tributários englobados pelos depósitos judiciais, inviável o levantamento pela parte impetrante. 4. Agravo interno não provido. (AgInt nos EDcl nos EDcl no REsp n. 1.450.427/CE, relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 3/5/2021, DJe de 5/5/2021.) PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. DEPÓSITO JUDICIAL EFETUADO PARA SUSPENDER A EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO. CONVERSÃO EM RENDA. PRECEDENTES. 1. A Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça pacificou o entendimento de que, na hipótese de extinção do processo sem julgamento de mérito, os depósitos efetuados pelo contribuinte para suspender a exigibilidade do crédito tributário devem ser convertidos em renda da Fazenda Pública. Precedentes: EREsp 548.224/CE, Rel. Ministro Humberto Martins, Primeira Seção, DJ 17.12.2007, p. 120; EREsp 279.352/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Seção, DJ 22.5.2006, p. 139; EREsp 479.725/BA, Rel. Ministro José Delgado, Primeira Seção, DJ 26.9.2005, p. 166. 2. Hipótese em que a Corte a quo contrariou esse entendimento ao autorizar a transferência da garantia para outra demanda. 3. Recurso Especial provido. (REsp n. 1.733.989/SP, relator Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 17/5/2018, DJe de 21/11/2018.) 4. Identifique a diferença entre tutela antecipada e tutela cautelar. É possível a concessão de tutela provisória antecipada em mandado de segurança? Ou em mandado de segurança tão somente é admissível medidas provisórias de natureza cautelar? Quanto a diferença entre a tutela antecipada e a tutela cautelar, lanço mão, novamente, das lições de Camila Campos Vergueiro[footnoteRef:17]: [17: VERGUEIRO, Camila Campos. CPC/2015, as ações antiexacionais do contribuinte, a tutela provisória cautelar e de evidência. In: CONRADO, Paulo Cesar. Processo Tributário Analítico, v.3. São Paulo: Noeses, 2016. p. 190.] Em suma, tutela cautelar e tutela antecipada diferenciam-se em função dos efeitos que produzem, tomada a pretensão final do autor como referência: · a tutela antecipada identifica-se exatamente com a tutetla pretendida na sentença, ao final do processo, de modo que há uma coincidência (identidade) entre o pedido de tutela antecipada e de tutela final. Trata-se de medida que propicia a satifação dos efeitos da tutela final; · na tutela cautelar, não há identidade entre a medida provisória pretendida e a tutela final requerida. Tratando-se de medida de natureza conservativa, seja da situação concreta litigiosa, seja do próprio processo, sua finalidade é evitar que o problema posto para apreciação se agrave caso ele seja solucionado apenas no momento da prolação da sentença, ou como preleciona José Roberto dos Santos Bedaque, a tutela cautelar “representa, na verdade, atídoto contra a demora para entrega da tutela jurisdicional”. Desta forma, a tutela antecipada, como o próprio nome já diz, antecipa o pedido final do processo, ao passo que, na tutela cautelar, tem-se a finalidade de analisar questão incidental que, caso não seja analisada naquele momento, poderá se agravar até o final do processo. Frise-se ainda que, ambas as tutelas (antecipada e cautelar), são espécies de tutelas provisórias de urgência, como mencioando na resposta à questão 2.1, “b”, deste trabalho. Posto isto, quanto ao mandado de segurança, lembramos novamente do art. 7°, caput e inciso III da Lei n° 12.016/2009, o qual dispõe que ao despachar a inicial, o juiz ordenará que se suspenda o ato que deu motivo ao pedido, quando houver fundamento relevante e do ato impugnado puder resultar a ineficácia da medida, caso seja finalmente deferida, sendo facultado exigir do impetrante caução, fiança ou depósito, com o objetivo de assegurar o ressarcimento à pessoa jurídica. Já em relação à questão da possibilidade de se conceder tutela antecipada ou cautelar em mandado de segurança, encontramos entendimentos em ambos os sentidos. Paulo César Conrado[footnoteRef:18] entende ser possível apenas a concessão de tutela cautelar no mandado de segurança, vejamos: [18: CONRADO, Paulo César. Tutela de evidência em mandado de segurança afeta Direito Tributário. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2016-mai-25/paulo-conrado-tutela-evidencia-ms-afeta-direito-tributario.Acesso em: 04 abr. 2024.] Não há dúvida de que, de ordinário, medida liminar em mandado de segurança é provimento enquadrável no capítulo das cautelares; significa dizer: tende a assegurar um dado direito, e não o satisfazer de forma antecipada. Em matéria tributária, acentuaram essa premissa, as restrições trazidas pelo artigo 7º, parágrafo 2º, da Lei 12.016/2009 (atual diploma de regência do mandado de segurança), preceito que, em sua primeira parte, afirma que “não será concedida medida liminar que tenha por objeto a compensação de créditos tributários, a entrega de mercadorias e bens provenientes do exterior (...)”. Essas restrições são facilmente compreendidas se se considerar que, como sublinhado, medida liminar em mandado de segurança é provimento de natureza cautelar, afigurando-se inviável, daí, sua eventual satisfatividade — efeito que se verificaria, dentre outros, nos casos descritos naquele dispositivo. Por outro lado, Rodrigo Dalla Pria[footnoteRef:19] entende ser possível tanto a concessão de tutela cautelar quanto tutela antecipada em mandado de segurança, a depender da espécie de direito tutelado: [19: PRIA, Rodrigo Dalla. Direito processual tributário. - 2.ed., rev. e atual. – São Paulo: Noeses, 2021. p. 402/404.] Nesse contexto, a Lei 12.016/2009, em seu art. 7°, inciso III, ao determinar que o ato de autoridade seja suspenso quando houver "fundamento relevante" e "risco de ineficácia da medida", nada mais faz que expressar duas condições implícitas à noção de urgência insculpida no regime geral de direito processual (CPC). Trata-se, portanto, de típica tutela de urgência, exarada com base em juízos de probabilidade (fundamento relevante) e perigo (risco de ineficácia da medida), cujo conteúdo e eficácia assumirão ora caráter acautelatório, ora natureza antecipatória, a depender da espécie de direito material tutelado, bem como das necessidades concretas do impetrante. (...) É certo que, em matéria tributária, a eficácia "ordinária" da liminar em mandado de segurança é, precisamente, a prevista no art. 151, inciso IV, do CTN,379 qual seja: "a suspensão da exigibilidade do crédito tributário". Estamos a falar, neste caso, de tutela indiscutivelmente acautelatória da pretensão deduzida pelo impetrante, porque tende a evitar a prática de quaisquer atos de cobrança, por parte do Fisco, que possam inviabilizar os efeitos práticos da segurança que porventura venha a ser, ao final, concedida. (...) Em várias outras situações de violação a direitos líquidos e certos de sujeitos de direito tributário, a liminar em mandado de segurança produzirá efeitos antecipatórios plenos, satisfativos do interesse do impetrante. É o caso, por exemplo, das liminares concedidas no bojo de mandados de segurança impetrados com o intuito específico de: (i) obtenção de certidão negativa de débito; (ii) liberação de mercadorias apreendidas por falta de pagamento de tributos; (iii) processamento de recursos administrativos; ou, ainda, (iv) apreciação de pedidos de restituição, ressarcimento ou compensação de tributos. Portanto, em princípio, assim como o preconizado por Rodrigo Dalla Pria, supramencionado, entendo que, no caso de matéria tributária, em que pese ser a tutela cautelar ordinariamente a espécie utilizada no mandado de segurança, não há vedação da utilização da tutela antecipada no mandado de segurança. 5. A partir da vigência do CPC/15 foi instituído um novo fundamento para a concessão de tutela provisória, a evidência do direito, tal como preveem os arts. 294 e 311. Pergunta-se: É cabível o requerimento de liminar em mandado de segurança fundada na evidência do direito a partir da vigência do CPC/15? Ou diante das disposições da Lei Federal n. 12.016/09, apenas é cabível o requerimento de liminares fundadas em urgência, a outra espécie de tutela provisória prevista no CPC/15? O art. 311 do CPC/2015 dispõe: Art. 311. A tutela da evidência será concedida, independentemente da demonstração de perigo de dano ou de risco ao resultado útil do processo, quando: I - ficar caracterizado o abuso do direito de defesa ou o manifesto propósito protelatório da parte; II - as alegações de fato puderem ser comprovadas apenas documentalmente e houver tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante; III - se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova documental adequada do contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto custodiado, sob cominação de multa; IV - a petição inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos constitutivos do direito do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável. Parágrafo único. Nas hipóteses dos incisos II e III, o juiz poderá decidir liminarmente. Em que pese o dispositivo legal supratranscrito determinar a desnecessidade de demonstração de perigo de dano ou de risco quando da concessão da tutela de evidência, entende-se que é possível a sua concessão em mandado de segurança (ainda que, nesta situação, o art. 7°, III, da Lei n° 12.016/2009, estabeleça que para concessão da liminar deve haver “fundamento relevante e do ato impugnado puder resultar a ineficácia da medida”). Nesse sentido, Rodrigo Dalla Pria preceitua: Não descartamos, entretanto, que - ante o advento do CPC/2015 e da necessidade de integração e absorção dos novos paradigmas processuais gerais pelos subsistemas proces-suais especiais - seja possível vislumbrar a possibilidade de concessão de liminar em mandado de segurança respaldada exclusivamente na "evidência" do direito pretendido, tal qual definida nos incisos do art. 311 do CPC. Ademais, em matéria tributária, vislumbra-se a possibilidade de concessão de tutela de evidência em mandado de segurança apenas embasada no inciso II do art. 311 do CPC/2015.[footnoteRef:20] [20: PRIA, Rodrigo Dalla. Direito processual tributário. - 2.ed., rev. e atual. – São Paulo: Noeses, 2021. p. 236.] 6. Antes de responder a esta pergunta retome a distinção entre tutela antecipada e tutela cautelar tal como colocada na resposta à questão “4.”. Fixados esses conceitos, responda à seguinte pergunta: diante do novo cenário das tutelas provisórias do código de processo civil de 2015, a ordem judicial suspensiva da exigibilidade da obrigação tributária, tenha fundamento na urgência ou na evidência, assume natureza antecipada ou cautelar? Conforme mencionado na resposta à questão 4 deste trabalho, a tutela antecipada, como o próprio nome já diz, antecipa o pedido final do processo, ao passo que, na tutela cautelar, tem-se a finalidade de analisar questão incidental que, caso não seja analisada naquele momento, poderá se agravar até o final do processo. Assim sendo, a ordem judicial que suspende a exigibilidade do crédito tributário, nos moldes do art. 151, IV e V, do CTN, tem natureza de tutela cautelar, uma vez que sustará procedimentos de cobrança por parte do Fisco, como já mencionado na resposta à questão 1 deste trabalho. Para mais, vale transcrever a lição de Camila Campos Vergueiro[footnoteRef:21]: [21: VERGUEIRO, Camila Campos. CPC/2015, as ações antiexacionais do contribuinte, a tutela provisória cautelar e de evidência. In: CONRADO, Paulo Cesar. Processo Tributário Analítico, v.3. São Paulo: Noeses, 2016. p. 203/204.] Isso significa que a tutela provisória, no âmbito do proecesso antiexacional, impediente que é da continuidade da aplicação das regras tributárias de exigência do crédito tributário, nos termos do art. 151 do CTN, é medida nitidamente conservativa, pois objetiva preservar a eficácia prática do provimento final, concretizando um efeito de abstenção da Fazenda Pública dar continuidade à busca do seu direito creditório. Tal medida objetiva preservar a (i) relação jurídica material, uma vez que estagna o processo de aplicação das normas tributárias no sentido do pagamento, bem como (ii) evitar que a apreciação da tutela final pretendida seja prejudicada, pois, sem a obstrução temporário do processo de aplicação (sem a suspensão do processode positivação da obrigação tributária), mantendo o contribuinte a sua condição de inadimplente; por dever de ofício, o Fisco promoverá os atos necessários à satisfação de seu crédito. Anexo I REsp n. 843.027 TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. IRPJ E CSSL. DEPÓSITO JUDICIAL DA OBRIGAÇÃO PRINCIPAL ACRESCIDA DE CORREÇÃO MONETÁRIA. NÃO CONFIGURAÇÃO DA HIPÓTESE PREVISTA NO ART. 151, II, DO CTN. LAVRATURA DE AUTO DE INFRAÇÃO SOB A ÉGIDE DE VIGÊNCIA DE MEDIDA LIMINAR. CAUSA SUSPENSIVA DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC NÃO CONFIGURADA. 1. A sentença substitui a liminar, tornando, inclusive, prejudicado o agravo por força da teoria da cognição adotada pelo STJ. (Precedente: REsp 673291/CE, DJ 21/03/2005) 2. A eficácia declaratória ex tunc da sentença faz retroagir a mesma ao termo da liminar, época em que obstada a lavratura de auto de infração. 3. Deveras, a vigência de norma proibitiva à lavratura do auto de infração, qual seja, medida liminar suspensiva da exigibilidade do crédito (art. 151, do CTN), nulifica o referido ato administrativo, possibilitando a expedição de certidão positiva com efeito de negativa. 4. A tutela antecipada revela hipótese de suspensão da exigibilidade do crédito (art. 151, do CTN), por isso que dispensável o depósito. 5. Não obstante, verifica-se, in casu, que o depósito realizado é indiferente para o deslinde da controvérsia, diante da invalidade do auto de infração, o que impede, de per si, o prosseguimento da cobrança do crédito tributário. 6. Isto porque as causas suspensivas da exigibilidade do crédito tributário (art. 151 do CTN) impedem tão-somente a realização, pelo Fisco, de atos de cobrança, os quais têm início exatamente com a lavratura do auto de infração. Destarte, as causas suspensivas da exigibilidade não têm qualquer repercussão quanto à não-consecução do lançamento, máxime por estar-se diante de ato administrativo vinculado, cujo prazo decadencial opera-se em cinco anos. 5. O ato do lançamento não se confunde com o ato do auto de infração, ainda que o fisco possa integrá-los no mesmo suporte físico. 6. O lançamento contém, no seu antecedente, a descrição de fato jurídico tributário lícito, juridicizado pela regra matriz de incidência tributária, constituindo, destarte, o crédito tributário. Ao revés, o auto de infração é cabível somente nos casos de tributos sujeitos originariamente ao "autolançamento", cuja regular constituição foi frustrada, por isso trazendo, em sua hipótese, fato ilícito, vale dizer, o não pagamento da obrigação tributária e/ou o não cumprimento da obrigação tributária instrumental, e, no seu conseqüente, o dever de pagar multa pelo descumprimento da obrigação principal e/ou acessória, multa de mora e demais encargos legais, como os juros e a correção monetária. 7. Consoante cediço, posteriormente ao lançamento, inicia-se o processo de cobrança do crédito tributário, no qual estão inseridas as seguintes etapas, visando ao efetivo recebimento do referido crédito: a) a cobrança administrativa, que ocorrerá mediante a lavratura do auto de infração e aplicação de multa: exigibilidade-autuação (a qual, in casu, ocorreu simultaneamente com o lançamento, posto realizados, ambos os atos administrativos, no mesmo documento); b) a inscrição em dívida ativa: exigibilidade-inscrição; c) a cobrança judicial, via execução fiscal: exigibilidade-execução. 8. Os efeitos da suspensão da exigibilidade pela concessão de medida liminar anteriormente ao auto de infração têm o condão de impedir a sua lavratura, assim como de coibir o ato de inscrição em dívida ativa ou o ajuizamento da execução fiscal. 9. In casu, conquanto a autoridade fiscal tenha, no exercício de seu dever legal, efetuado o lançamento do crédito tributário que entendia devido, o qual permanece hígido, a lavratura do auto de infração, realizada em 18/01/99, deu-se em momento no qual plenamente em vigor - de 04/07/97 a 21/05/99 - norma proibitiva, qual seja, medida liminar concedida em ação cautelar incidental, tornando o referido ato de cobrança inválido. 10. Inexiste ofensa ao art. 535 do Código de Processo Civil quando o Tribunal aprecia as questões fundamentais ao deslinde da controvérsia posta, não sendo exigido que o julgador exaura os argumentos expendidos pelas partes, posto incompatíveis com a solução alvitrada. 11. Recurso especial desprovido. (REsp n. 843.027/CE, relator Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 2/10/2008, DJe de 20/10/2008.) Anexo II REsp n. 453.762/RS PROCESSO CIVIL E TRIBUTÁRIO. SUSPENSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. CAUSA SUSPENSIVA CONSISTENTE EM LIMINAR ANTECIPATÓRIA CONCEDIDA EM MANDADO DE SEGURANÇA. APLICAÇÃO DO ARTIGO 151, IV, DO CTN. 1. À luz das hipóteses enumeradas no artigo 151 do CTN é possível entrever que há causas suspensivas que antecedem à constituição do crédito tributário pelo lançamento e outras que o encontram constituído. 2. Em qualquer caso, emitida a ordem judicial suspensiva não é lícito à Administração Tributária proceder a qualquer atividade que afronte o comando judicial, sob pena de cometimento do delito de desobediência, hodiernamente consagrado e explicitado no art. 14, VI e parágrafo único Código de Processo Civil. 3. É vedado à Administração agir com desconsideração ao provimento liminar e com desprezo pelo Poder Judiciário sob o argumento de que a decisão liminar não corresponde ao trânsito em julgado da decisão final, porquanto esse argumento sofismático implica negar eficácia à antecipação da tutela que é auto-executável e mandamental. 4. Exsurgindo a suspensão prevista no art. 151, IV, do CTN no curso do procedimento de constituição da obrigação tributária, o que se opera é o "impedimento à constituição do crédito tributário". 5. O Judiciário ao sustar a exigibilidade do crédito tributário tanto pode endereçar a sua ordem à que não se constitua o crédito, posto do seu surgimento gerar ônus ao contribuinte até mesmo sob o ângulo da expedição de certidões necessárias ao exercício de atividades laborais, como também vetar a sua cobrança, ainda que lançado o tributo previamente à ordem. 6. Prosseguir na atividade constitutiva do crédito tributário, suspensa a sua exigibilidade por força de liminar judicial, caracteriza, inequivocamente, o que a doutrina do tema denomina de Contempt of Court, por influência anglo-saxônica, hodiernamente verificável nos sistemas do civil law. 7. Precedente. 8. Recurso especial conhecido e improvido. (REsp n. 453.762/RS, relator Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 3/6/2003, DJ de 17/11/2003, p. 205.) Anexo III AgRg no Ag em RESP n. 410.492/PR TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. DECADÊNCIA. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO. INVIABILIDADE. VEDAÇÃO CONTIDA EM LIMINAR MANDAMENTAL. MODIFICAÇÃO. SÚMULA 7/STJ. 1. As causas suspensivas da exigibilidade do crédito tributário (art. 151 do CTN) obstam a prática de atos que visem sua cobrança, mas não impedem o lançamento, que deve ser efetuado dentro do prazo de cinco anos. 2. Contudo, no caso dos autos, o Tribunal de origem deixou expressamente delineado que liminar concedida em mandado de segurança vedava a atuação do Fisco, inclusive quanto à constituição do crédito tributário. A modificação de tal conclusão encontra óbice na Súmula 7/STJ. Agravo regimental improvido. (AgRg no AREsp n. 410.492/PR, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 11/3/2014, DJe de 18/3/2014.) Anexo IV AgRg no REsp n. 1.454.463/RS TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. HIPÓTESES PREVISTAS NO ART. 151 DO CTN. PROPOSITURA DA AÇÃO EXECUTIVA FISCAL APÓS A SUSPENSÃO. EXTINÇÃO DO FEITO. ENTENDIMENTO FIRMADO EM REPETITIVO. RESP PARADIGMA 1140956/SP. 1. A jurisprudência do STJ firmou-se no sentido de que a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, por alguns dos motivos elencados nos incisos do art. 151 do CTN, conduz a inviabilidade de propositura da ação executiva fiscal, quando posterior ao fato suspensivo, ensejando a extinção do feito. Exegese do entendimento firmado no REsp 1140956/SP, Rel.Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 24/11/2010, DJe 03/12/2010. 2. A existência de qualquer das hipóteses previstas no art. 151 do CTN tem como consequência: (I) a extinção da execução fiscal, se a causa da suspensão ocorreu antes da propositura do feito executivo; ou (II) a suspensão da execução, se a exigibilidade foi suspensa quando já proposta a execução. Agravo regimental de SPRINGER CARRIER LTDA provido. Recurso especial de SPRINGER CARRIER LTDA provido. (AgRg no REsp n. 1.454.463/RS, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 19/8/2014, DJe de 26/8/2014.) Anexo V TJ/SP AgRg n. 9072726-72.2007.8.26.0000 MANDADO DE SEGURANÇA Consulta fiscal -- Formulação anterior à constituição do crédito tributário Suspensão da exigibilidade do crédito Manutenção da segurança: Quando formulada consulta fiscal antes da constituição do crédito tributário, suspende-se a exigência tributária, os juros e a multa até que haja resposta administrativa. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. (TJSP; Agravo Regimental Cível 9072726-72.2007.8.26.0000; Relator (a): Osvaldo Palotti Junior; Órgão Julgador: 14ª Câmara de Direito Público; Foro Central - Fazenda Pública/Acidentes - 12.VARA; Data do Julgamento: 31/01/2013; Data de Registro: 05/02/2013) Anexo VI EREsp 215.589/RJ PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. DEPÓSITO JUDICIAL (ART. 151, II, CTN). EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO. CONVERSÃO EM RENDA PELO ENTE TRIBUTANTE. PRONUNCIAMENTO DA 1ª SEÇÃO. 1. Em exame embargos de divergência opostos pelo ESTADO DO RIO DE JANEIRO para se definir se seria possível o levantamento do depósito efetuado para os fins do artigo 151, II, do Código Tributário Nacional no caso em que o processo é extinto sem julgamento de mérito. O aresto embargado, originário da 2ª Turma, Relator para acórdão o Min. Castro Meira (DJ 19/09/05), assim foi ementado: "TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. DEPÓSITO. ART. 151, II. SENTENÇA SEM JULGAMENTO DE MÉRITO. LEVANTAMENTO. 1. Conforme entendimento da Primeira Seção quanto ao depósito previsto no artigo 151, "quando a sentença extingue o processo sem julgamento do mérito, pode o depósito ser imediatamente devolvido ao contribuinte, que fica assim privado da suspensividade, inexistindo a possibilidade de haver, em favor da Fazenda, a conversão do depósito em renda" (EREsp 270.083/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, DJ de 02/09/2002). 2. Recurso especial conhecido e provido." Apontou como paradigmas os seguintes julgados: - EREsp 479.725/BA, 1ª Seção, de minha relatoria, DJU 26/09/05 (fl. 284): "EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. TRIBUTÁRIO. AFRMM. DEPÓSITO. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM APRECIAÇÃO DO MÉRITO. DEPÓSITO. LEVANTAMENTO ANTES DO TRÂNSITO EM JULGADO DA SENTENÇA. IMPOSSIBILIDADE. EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA PROVIDOS. 1. Em exame embargos de divergência opostos para se definir se é ou não possível o levantamento do depósito efetuado para os fins do artigo 151, II do Código Tributário Nacional nos casos em que o processo é extinto sem julgamento de mérito em face da ilegitimidade passiva da autoridade apontada como coatora. A Fazenda embargante aponta a divergência entre o acórdão embargado da relatoria do Ministro Francisco Peçanha Martins integrante da 2ª Turma e acórdão prolatado pelo Ministro Garcia Vieira da 1ª Turma. Divergência devidamente demonstrada, foram admitidos os embargos para julgamento de mérito. Sem impugnação. 2. Conforme assinala o aresto paradigma: "O depósito efetuado para suspender a exigibilidade do crédito tributário é feito também em garantia da Fazenda e só pode ser levantado após sentença final transitada em julgado se favorável ao contribuinte". O artigo 32 da Lei n.º 6830 de 22. 09. 1980 estabelece como requisito para levantamento do depósito judicial o trânsito em julgado da decisão. O aguardo do trânsito em julgado da decisão para possibilitar o levantamento do depósito judicial está fulcrado na possibilidade de conversão em renda em favor da Fazenda Nacional. 3. O cumprimento da obrigação tributária só pode ser excluída por força de lei ou suspensa de acordo com o que determina o art. 151 do CTN. Fora desse contexto o contribuinte está obrigado a recolher o tributo. No caso de o devedor pretender discutir a obrigação tributária em juízo, permite a lei que faça o depósito integral da quantia devida para que seja suspensa a exigibilidade. Se a ação intentada, por qualquer motivo, resultar sem êxito, deve o depósito ser convertido em renda da Fazenda Pública. É essa a interpretação que deve prevalecer. O depósito é simples garantia impeditiva do fisco para agilizar a cobrança judicial da dívida, em face da instauração em juízo de litígio sobre a legalidade da sua exigência. Extinto o processo sem exame do mérito contra o contribuinte, têm-se uma decisão desfavorável. O passo seguinte, após o trânsito em julgado, é o recolhimento do tributo. 4. Embargos de divergência providos." - REsp 553.541/CE, 1ª Turma, de minha relatoria, julg. 16/12/03 (fl. 296): "TRIBUTÁRIO. DEPÓSITO JUDICIAL. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM JULGAMENTO DO MÉRITO. IMPOSSIBILIDADE DO CONTRIBUINTE EFETUAR O LEVANTAMENTO. CONVERSÃO DO DEPÓSITO EM RENDA. 1. A extinção do mandado de segurança sem julgamento de mérito não impede que o valor do depósito judicial efetuado pelo contribuinte para suspender a exigibilidade fiscal enquanto perdurar a discussão da lide seja convertido em renda da Fazenda Pública. 2. A exigência de cumprimento da obrigação tributária só pode ser suspensa por lei. O contribuinte, sem causa legal em sentido contrário, está obrigado ao pagamento do tributo. 3. Precedentes: Resp 490641/PR, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 03.11.2003, p. 254; Resp 163045/SP, Rel. Min. Hélio Mosimann, DJ de 9.11.98, p. 74; Resp 251350/SP, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJ 12.03.2001, pg. 97; Resp 227.958, Rel. Min. Garcia Vieira, DJ 7/2/2000; Resp 258752/SP, Rel. Min. Milton Luiz Pereira, DJ de 25.02.2002, p. 218." - AgRgREsp 660.203/RJ, 1ª Turma, Rel. Min. Francisco Falcão, DJU 04/04/05 (fl. 306): "TRIBUTÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. DEPÓSITO JUDICIAL DO VALOR DO TRIBUTO. NATUREZA. EFEITOS. LEVANTAMENTO, PELO CONTRIBUINTE, CONDICIONADO AO TRÂNSITO EM JULGADO DE SENTENÇA DE MÉRITO EM SEU FAVOR. PRECEDENTES. 1. O depósito do montante integral, na forma do art. 151, II, do CTN, constituiu modo, posto à disposição do contribuinte, para suspender a exigibilidade do crédito tributário. Porém, uma vez realizado, o depósito opera imediatamente o efeito a que se destina, inibindo, assim, qualquer ato do Fisco tendente a haver o pagamento. Sob esse aspecto, tem função assemelhada à da penhora realizada na execução fiscal, que também tem o efeito de suspender os atos executivos enquanto não decididos os embargos do devedor. 2. O direito - ou faculdade - atribuído ao contribuinte, de efetuar o depósito judicial do valor do tributo questionado, não importa o direito e nem a faculdade de, a seu critério, retirar a garantia dada, notadamente porque, suspendendo a exigibilidade do crédito tributário, ela operou, contra o réu, os efeitos próprios de impedi-lo de tomar qualquer providência no sentido de cobrar o tributo ou mesmo de, por outra forma, garanti-lo. 3. As causas de extinção do processo sem julgamento do mérito são invariavelmente imputáveis ao autor da ação, nunca ao réu. Admitir que, em tais casos, o autor é que deve levantar o depósito judicial, significaria dar-lhe o comando sobre o destino da garantia que ofereceu, o que importaria retirar do depósito a substância fiduciária que lhe é própria. 4. Assim, ressalvadas as óbvias situações em que a pessoa de direito público não é parte na relação de direito material questionada - e que, portanto, não é parte legítima para figurar no processo - o depósito judicial somente poderá ser levantado pelo contribuinte que, no mérito, se consagrar vencedor. Nos demais casos, extinto o processo sem julgamento de mérito, o depósito se converte em renda. 5.Agravo regimental provido." Impugnação pela parte adversa defendendo a manutenção do aresto embargado. 2. A questãoem exame já foi enfrentada em diversas ocasiões nesta Corte, tendo a 1ª Seção, por ocasião do julgamento dos EREsp 479.725/BA, de minha relatoria, DJU 26/09/05, pronunciado-se na mesma linha dos arestos paradigmas, ou seja, de que o depósito judicial efetuado para suspender a exigibilidade do crédito tributário é feito também em garantia da Fazenda e só pode ser levantado pelo depositante após sentença final transitada em julgado em seu favor, nos termos do consignado no art. 32 da Lei 6.830/80. 3. O cumprimento da obrigação tributária só pode ser excluída por força de lei ou suspensa de acordo com o que determina o art. 151 do CTN. Fora desse contexto o contribuinte está obrigado a recolher o tributo. No caso de o devedor pretender discutir a obrigação tributária em juízo, permite a lei que faça o depósito integral da quantia devida para que seja suspensa a exigibilidade. Se a ação intentada, por qualquer motivo, resultar sem êxito, deve o depósito ser convertido em renda da Fazenda Pública. É essa a interpretação que deve prevalecer. O depósito é simples garantia impeditiva do fisco para agilizar a cobrança judicial da dívida, em face da instauração de litígio sobre a legalidade da sua exigência. Extinto o processo sem exame do mérito contra o contribuinte, têm-se uma decisão desfavorável. O passo seguinte, após o trânsito em julgado, é o recolhimento do tributo. 4. Precedentes: EREsp 479.725/BA, de minha relatoria, DJU 26/09/05; Resp 273.860/SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ 13/03/06; Resp 490.641/PR, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 03/11/2003; Resp 258.752/SP, Rel. Min. Milton Luiz Pereira, DJ de 25/02/2002; Resp 251.350/SP, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJ de 12/03/2001; Resp 227.958, Rel. Min. Garcia Vieira, DJ 7/2/2000; Resp 163.045/SP, Rel. Min. Hélio Mosiman, DJ de 09/11/98. 5. Embargos de divergência providos. (EREsp n. 215.589/RJ, relator Ministro José Delgado, Primeira Seção, julgado em 12/9/2007, DJ de 5/11/2007, p. 217.) image1.jpeg image2.jpeg image3.jpg