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AULA 6 NEUROMARKETING SENSORIAL – O PONTO DE VENDAS Prof. Renê de Oliveira Joaquim dos Santos 2 CONVERSA INICIAL Após relembrarmos alguns conceitos de comportamento do consumidor, os principais fatores que influenciam o comportamento de compra, como é o processo de tomada de decisão do consumidor e os elementos utilizados para proporcionar o máximo de experiência para o consumidor, no ambiente de compra, nós mostraremos um pouco como o neuromarketing pode contribuir, em todas esses itens, e quais os principais instrumentos de neurociência utilizados. Dessa forma, o objetivo desta aula é mostrar alguns estudos de neuromarketing realizados para se compreender o comportamento de compra e para testar produtos, serviços e ambientes de marketing. Para isso, selecionamos análises que se tornaram referência na área e outras relevantes ao tema, encontradas nas bases científicas. TEMA 1 – CORRELATOS NEURAIS DE PREFERÊNCIA COMPORTAMENTAL PARA BEBIDAS CULTURALMENTE FAMILIARES Apesar de já termos falado dessa pesquisa, vale a pena entendermos, na íntegra, o que foi realizado pelo grupo do professor Montague (Montague et al., 2004), pois foi uma pesquisa que marcou, praticamente inaugurou as pesquisas de neuromarketing. O estudo consistiu em analisar as preferências do consumidor com relação aos dois refrigerantes de cola mais vendidos no mundo, Coca-Cola e Pepsi. Apesar de os produtos serem quimicamente quase idênticos, o ser humano possui preferências subjetivas por um ou outro. A pesquisa visava responder às seguintes problemáticas: Qual é a resposta comportamental e neural a essas bebidas quando apresentadas anonimamente? Qual é a influência comportamental e neural do conhecimento sobre qual bebida está sendo consumida? Nas primeiras perguntas, existe uma correlação entre a preferência comportamental expressa e a resposta neural medida por ressonância magnética funcional (fMRI)? O que motivou a comunidade científica a buscar entender essas questões foi o aumento da obesidade, diabetes tipo II, e dentre outras situações causadas pelo consumo excessivo de açúcar, sendo os refrigerantes açucarados alguns dos 3 maiores contribuintes para esses quadros. Algumas pesquisas utilizando fMRI identificaram que respostas cerebrais relacionadas à recompensa se ampliam conforme o grau em que os indivíduos encontram estímulos agradáveis e recompensadores. Diante disso, era tentador afirmar que os indivíduos iriam preferir o refrigerante que apresentasse o gosto mais agradável, porém alguns estudos, conforme demonstra Montague et al. (2004) sugeriram que as informações culturais poderiam modular a resposta cerebral relacionada à preferência do consumidor, mas ainda não existia nenhum estudo de analise cerebral que comprovasse isso. Então, a hipótese dos pesquisadores (Montague et al., 2004) era que poderia existir mecanismos paralelos no cérebro cooperando para influenciar a preferência do consumidor e, particularmente, isso poderia estar ocorrendo com a Coca-Cola e com a Pepsi, pois eram produtos tradicionais e consolidados na cultura e que investem maciçamente em marketing. A pesquisa foi realizada com 67 participantes, divididos em 4 grupos, sendo que o primeiro possuía 16 participantes, o segundo 17, o terceiro 16 e o quarto e último grupo, 18. Em todos os grupos foram analisadas duas preferências comportamentais distintas, a declarada e a comportamental. Primeiro, foi perguntado aos participantes qual bebida eles preferiam consumir: Coca-Cola, Pepsi ou se não tinham nenhuma preferência. As respostas eram anotadas como preferências declaradas e, em seguida, os indivíduos eram submetidos a rodadas de um teste de escolha forçada. Os dois primeiros grupos deveriam escolher uma dentre duas xícaras anônimas, em que uma continha Coca-Cola e a outra, Pepsi, sendo que cada indivíduo do grupo 1 tinha direito a 3 tentativas e cada indivíduo do grupo 2 tinha 15 tentativas. Os outros dois grupos deveriam escolher uma dentre duas xícaras semianônimas, ou seja, uma marcada e a outra não, mas que continham o mesmo refrigerante, sendo que cada indivíduo dos dois grupos também possuía direito a três tentativas. Porém, os participantes eram informados de que a xícara não rotulada possuía Coca-Cola ou Pepsi. Por exemplo, os indivíduos do grupo 3 recebiam duas xícaras com Coca-Cola, porém só uma delas estava rotulada como Coca- Cola, mas o participante era avisado de que, na xícara não rotulada, poderia ter qualquer uma das duas bebidas. Já os participantes do grupo 4 também recebiam duas xícaras, porém com Pepsi, sendo que uma delas estava rotulada como 4 Pepsi, mas o participante também era avisado de que, na xícara não rotulada, poderia ter qualquer uma das duas bebidas. Uma informação importante também é que em todas as xícaras havia 10 mililitros das bebidas. Por fim, as respostas dos participantes eram anotadas como sua preferência comportamental. Após a realização do teste de escolha forçada, os grupos foram submetidos ao mesmo teste dentro do escâner de fMRI. Para isso, foram necessárias algumas adaptações, devido às limitações de espaço. Dessa forma, os participantes recebiam a bebida por meio de um tubo. Além disso, eram utilizadas luzes amarelas e vermelhas para indicar a entrega de bebida. Para os testes anônimos (grupos 1 e 2), a luz vermelha previa a entrega de Pepsi e a luz amarela previa a entrega de Coca-Cola, mas os participantes não sabiam dessa diferenciação, ela existia apenas para informar que eram bebidas distintas. Para os testes semianônimos (grupos 3 e 4), era utilizada uma imagem do produto para prever a entrega da bebida identificada e uma luz amarela previa a entrega da bebida anônima. No caso dos participantes do grupo 3, eles visualizavam uma imagem da Coca-Cola e recebiam o líquido, em seguida visualizam uma luz amarela e recebiam a bebida, que para eles poderia ser Coca- Cola ou Pepsi, porém sempre lhes era fornecida Coca-Cola. Já os participantes do grupo 4 visualizavam uma imagem de Pepsi e recebiam a bebida, em seguida, visualizavam uma luz amarela e recebiam a bebida, que para eles poderia ser Coca-Cola ou Pepsi, porém sempre era fornecida Pepsi. O tempo da entrega da bebida após a exposição da luz ou imagem poderia variar de 6 a 10 segundos e o intervalo entre uma tentativa e outra variava de 6 a 16 segundos. O resultado do teste de gosto anônimo, grupos 1 e 2, mostrou que não existem diferenças significativas entre os indivíduos que preferiram Coca-Cola e os indivíduos que preferiram Pepsi, ou seja, a preferência de gosto ficou homogênea, divergindo da preferência declarada, em que constaram mais indivíduos com preferência declarada pela Coca-Cola. No teste de entrega de bebida anônima, escaneado pelo equipamento de fMRI, também realizado com os grupos 1 e 2, a resposta cerebral no córtex pré-frontal foi independente das preferências declaradas pelos sujeitos, ou seja, também apresentou uma preferência homogênea entre os indivíduos. No resultado do teste de gosto semianônimo de Coca-Cola, grupo 3, foi constatado que o efeito do rótulo de Coca-Cola foi significativo quando comparado 5 com o teste de sabor anônimo, em que os indivíduos mostraram um forte viés pela xícara rotulada, ou seja, a maioria dos indivíduos prefeririam a Coca-Cola. Além disso, os efeitos comportamentais desse teste não se correlacionaram com as preferências declaradas dos sujeitos. Já o resultado do teste de entrega de bebida semianônima, também realizado com o grupo 3, comparou a resposta cerebral no momento que lhes foi entregue Coca-Cola e os indivíduos sabiam que era Coca- Cola com a resposta cerebral no momento que receberam Coca-Cola e imaginavam que poderia ser Coca-Cola ou Pepsi. Os resultados apresentaram atividade cerebral significativa em algumas áreasdo cérebro quando os indivíduos estavam cientes da marca. O resultado do teste de gosto semianônimo de Pepsi, grupo 4, teve o procedimento exatamente igual ao teste realizado com o grupo 3, porém a xícara rotulada era de Pepsi, a não rotulada também continha Pepsi e os participantes foram avisados de que a xícara não rotulada poderia conter Coca-Cola ou Pepsi. Ao contrário do teste de Coca-Cola, a existência do rótulo de Pepsi não alterou significativamente a distribuição das opções em relação ao teste de sabor anônimo. Além disso, as seleções foram tendenciosas em favor do rótulo de Coca- Cola em um grau significativamente maior do que em favor do rótulo de Pepsi. Já o resultado do teste de entrega de bebida semianônima, também realizado com o grupo 4, não revelou áreas comuns de resposta cerebral em relação ao resultado do teste de entrega de bebida semianônima realizado com o grupo 3. Dessa forma, parece que o conhecimento da marca, para Coca-Cola e Pepsi, tem respostas diferentes, tanto em termos de afetar a preferência comportamental quanto em termos de modificar as respostas cerebrais. Concluindo-se, nesse experimento (Montague et al., 2004), foi usada varredura cerebral funcional para encontrar correlatos das preferências das pessoas por duas bebidas açucaradas semelhantes: Coca-Cola e Pepsi. Foi descoberto que dois sistemas separados estão envolvidos na geração de preferências: quando o julgamento era baseado apenas em informação sensorial, com testes anônimos, o sistema responsável era aquele que exercia atividade relativa no córtex pré-frontal ventromedial. De fato, o conhecimento da marca, pelo menos no caso da Coca-Cola, viola as decisões de preferência e utiliza outro sistema, em que são observadas atividades no hipocampo, cortex pré-frontal dorsolateral e mesencéfalo. 6 Dessa forma, pode-se concluir que a atividade relativa no cortex pré-frontal ventromedial é um indicador muito bom de qual estímulo sensorial é preferido pelo indivíduo. No entanto, fatores culturais têm uma forte influência nas preferências comportamentais expressas. A hipótese dos pesquisadores é que a informação cultural vicia as decisões de preferência através da região dorsolateral do córtex pré-frontal, com o hipocampo engajado para recordar as informações a ela associadas. Esses dois sistemas parecem funcionar independentemente em nossa experiência, uma vez que a atividade do córtex pré-frontal ventromedial não foi afetada pelo conhecimento da marca (Montague et al., 2004). TEMA 2 – METODOLOGIA DE PESQUISA DE RASTREAMENTO OCULAR PARA OS PLANOGRAMAS DA PRATELEIRA DE SUPERMERCADOS QUE DESENHAM A ATENÇÃO VISUAL DO CLIENTE: ESTUDO DE CASO EM EMBALAGENS DE SHAMPOO Em um estudo desenvolvido por pesquisadores indonésios e publicado no International Seminar on Industrial Engineering and Management em 2009 (Hidayatno; Elice; Komarudin, 2009), vamos ver mais um exemplo de utilização de eye tracking para testar a atenção visual dos consumidores em prateleiras de supermercado com exposição de embalagens de shampoo. Os pesquisadores introduzem o trabalho fornecendo um dado muito interessante, de que 80% das decisões de compra são tomadas nos pontos de venda e que apenas 50% das marcas são vistas pelos compradores, devido ao curto período de compras. Com isso, centenas de marcas concorrem para chamar a atenção do consumidor, por meio de posicionamento estratégico de produtos e embalagens atraentes. O objetivo daquela pesquisa foi, portanto, identificar quais elementos em prateleiras de embalagens de shampoo despertam a atenção dos consumidores. Hidayatno, Elice e Komarudin (2009) acreditavam que a posição das embalagens nas prateleiras é uma colocação estratégica. Devido a isso, em sua pesquisa, os autores analisaram a variável posição quantificada com base no número de fixações para cada posição das prateleiras dos supermercados e também identificaram os aspectos de design que despertam a atenção. A pesquisa foi realizada em laboratório, por meio de equipamento de eye tracking de tela, ou seja, o pesquisado ficava sentado em frete a uma tela de computador enquanto era exposto ao estímulo visual e rastreado pelo eye tracking. Foi 7 determinado, com base nas características dos indonésios, que o participante é capaz de visualizar quatro níveis de prateleiras. Dessa forma, 12 marcas de shampoo foram selecionadas para compor as imagens de teste. Foram selecionadas 60 mulheres, casadas, donas de casa e com idade entre 20 e 30 anos, para participarem do teste. Elas eram expostas à imagem e em seguida deveriam indicar as três marcas que mais lhes despertassem interesse e, após indicar essas três, elas deveriam indicar qual marca, dentre as três selecionadas, elas realmente comprariam. Para se realizar a análise, a imagem foi dividida em 12 quadrantes de áreas de interesse (AOI, do inglês area of interest), sendo que havia 4 linhas e 3 colunas. Dessa forma, foi possível identificar que as áreas de interesse mais visualizadas foram os quadrantes centrais, linha 2 com coluna 2 e linha 3 com coluna 2. Além disso, embalagens com cores fortes e ilustrações simplificadas foram consideradas mais atraentes. A pesquisa possui uma limitação por não ter sido realizada num ambiente real e com eye tracking ocular, mas contribui fortemente com o estudo de comportamento do consumidor (Hidayatno; Elice; Komarudin, 2009). TEMA 3 – UMA METODOLOGIA DE RASTREAMENTO OCULAR PARA TESTAR A PREFERÊNCIA DO CONSUMIDOR EM RELAÇÃO A BANDEJAS DE EXIBIÇÃO, EM UM AMBIENTE DE VAREJO SIMULADO Em um estudo desenvolvido por pesquisadores norte-americanos e publicado no Journal of Applied Packaging Research, em 2015 (Snyder et al., 2015), vamos ver um exemplo da utilização do eye tracking para testar ambientes de compra, verificando a atenção visual dos consumidores com relação à presença de bandejas de exibição em prateleiras de supermercado, pois essas bandejas têm sido tradicionalmente utilizadas para suportar embalagens de distribuição e estoque de varejo. Os pesquisadores sugeriram a hipótese de que as bandejas de exibição aumentariam a duração total da fixação do olhar dos participantes e diminuiriam o tempo para a primeira fixação na área de interesse (Snyder et al., 2015). A embalagem de um produto faz parte do valor entregue para o cliente; por isso, desenvolver uma embalagem bonita, criativa e que chame a atenção tem sido uma das estratégias dos profissionais de marketing da indústria para se 8 diferenciar e gerar atenção nas concorridas prateleiras do varejo. Para isso, algumas marcas buscam separar seus produtos no ponto de venda, por meio de uso de displays exclusivos, ilhas de produtos ou pontas de gôndolas, mas tudo isso gera custos adicionais. Portanto, uma estratégia alternativa é a utilização de bandejas, nos produtos, pois elas são colocadas na própria prateleira, gerando ganho de espaço físico e visual e minimizando custos adicionais. Para testar se essa estratégia é realmente eficaz, Snyder et al. (2015) optaram por analisar a utilização de bandejas de detergentes líquidos e tomates enlatados. Porém, já era comum se encontrar tomate enlatado em bandejas, mas detergente líquido, não. Por isso, a ideia da pesquisa era confrontar o participante com algo inesperado, ou seja: qual a reação dos participantes ao visualizar detergente líquido em bandejas? Dessa forma, isso se tornaria um verdadeiro indicador de se uma bandeja de exibição é atrativa. Não foram usadas marcas conhecidas no experimento, para não se correr o risco de elas influenciarem na decisão. Com isso, duas marcas fictícias de detergente líquido e de tomate enlatado foram criadas para a realização dos testes. As embalagens foram criadas nos padrões utilizados pelo mercado, para não gerar confusões e estranhamentos, e as bandejas também foramdesenvolvidas com base nas dimensões usuais. O experimento ocorreu em um ambiente de compras simulado chamado Cushop, localizado no Instituto Sonoco de Design e Gráficos de Embalagens da Clemson University em Clemson, Carolina do Sul, EUA. O ambiente de compras era composto de prateleiras de gôndolas, refrigeradores, stands de produção e sinalização, para criar uma atmosfera imersiva. Etiquetas de números foram colocadas nas prateleiras, abaixo de cada produto, para permitir que os participantes definissem qual item preferiam, porém o preço foi eliminado, no estudo. Foi entregue aos participantes uma lista de compras com itens em ordem aleatória, para que eles anotassem suas opções de compra e, para distrair os participantes do objetivo da pesquisa, itens como massas e biscoitos foram usados como produtos de disfarce (Snyder et al., 2015). A coleta de dados ocorreu em 2 dias, com 2 grupos de 30 participantes distintos; porém, foram expostos ao primeiro grupo apenas produtos sem bandejas e, ao segundo grupo, produtos com bandejas, à direita da prateleira, e produtos sem bandeja, à esquerda da prateleira. Os participantes eram informados de que o teste duraria em torno de 8 minutos e, após a calibragem dos 9 óculos de rastreamento ocular, eles recebiam uma lista de compras em que deveriam anotar o número dos produtos selecionados. Após realizarem o teste, os participantes respondiam a um formulário com perguntas demográficas, sobre preferências de consumo e fatores que influenciaram na sua decisão (Snyder et al., 2015). Três métricas de rastreamento ocular foram estudadas para determinar a preferência do participante. As métricas coletadas foram: tempo para primeira fixação (TTFF), duração total de fixação (TFD) e contagem de fixação (FC). TTFF é o tempo (em segundos) que um participante leva para realizar a primeira fixação, em uma AOI, depois de entrar na área circundante. TFD é o tempo total, em segundos, que um participante fixou, em uma determinada AOI. FC é o número de fixações, em uma determinada AOI (Snyder et al., 2015). Os resultados da pesquisa indicaram um aumento no tempo da primeira fixação para o sabonete líquido e para o tomate enlatado quando a embalagem testada foi colocada em uma bandeja de exposição. Não foi encontrada significância para a duração total da fixação, a contagem de fixação ou a decisão de compra quando uma bandeja de exibição foi introduzida no ambiente de compras. Além disso, os resultados da pesquisa indicaram que 69% dos participantes não perceberam um produto em uma bandeja de exibição como sendo de melhor qualidade. Outros disseram que não gostaram da tela porque ela cobria parte da embalagem e também foi possível notar que houve uma maior fixação dos participantes em produtos expostos do lado direito da prateleira, independente se possuía bandeja. Em geral, os dados do rastreamento ocular foram convergentes com os resultados da pesquisa de preferência, de que a presença de uma bandeja de exibição não parece aumentar a percepção ou a atenção do consumidor a um produto (Snyder et al., 2015). TEMA 4 – UM ESTUDO SOBRE A EFICÁCIA DOS TRAILERS DE FILMES, QUE IMPULSIONAM O DESEJO DE APRECIAÇÃO DOS CLIENTES: UMA ABORDAGEM DA CIÊNCIA DO CLIENTE USANDO ESTATÍSTICAS E GSR Em um estudo desenvolvido por pesquisadores japoneses e publicado no Journal of Business & Economics Research, em 2012 (Iida et al., 2012), diferentemente das três pesquisas anteriores (Montague et al., 2004; Hidayatno; Elice; Komarudin, 2009; Snyder et al., 2015), não se testou um ponto de venda, 10 mas optamos por abordá-la devido à utilização da técnica de resposta galvânica da pele. O que despertou o interesse dos pesquisadores a realizarem esse trabalho foi o fato de que os lucros da indústria cinematográfica no Japão estavam estagnados e os jovens, parando de irem ao cinema, sendo que historicamente o público jovem japonês é o que mais frequentava o cinema. Os trailers e pôsteres são as principais mídias publicitárias de um filme, sendo uma importante ferramenta de impacto, tanto é que uma outra pesquisa (Takahashi et al., 2000) revelou que 71% dos espectadores dos filmes assistem aos trailers antes de assistirem ao longa nos cinemas. Dessa forma, melhorar a qualidade dos trailers poderia levar a um aumento das bilheterias. De posse dessa informação, o objetivo da pesquisa de Iida et al. (2012) foi verificar a eficácia dos trailers de filmes por meio da resposta galvânica da pele, para tentar identificar quais os principais fatores que motivam os participantes a assistirem a um filme anunciado. Com seus resultados, seria possível auxiliar a indústria cinematográfica a criar trailers mais atraentes e eficazes. Em entrevistas com produtoras de filmes, os pesquisadores (Iida et al., 2012) conseguiram selecionar 17 elementos considerados pelos produtores para se elaborar um trailer. Em seguida, foi realizada uma pesquisa com 53 jovens com idade em torno de 20 anos, que foram convidados a avaliarem a importância daqueles 17 elementos e também a explicitarem suas preferências de gêneros de filmes. Dessa forma, foi possível definir, estatisticamente, grupos de interesse. Conforme já estudamos, a resposta galvânica da pele (GSR) é um fenômeno pelo qual a condutividade elétrica da pele muda em resposta ao estímulo psicológico, devido à produção de suor diante de certos estados psicológicos. No estudo de Iida et al. (2012), o GSR foi medido em indivíduos que assistiram a trailers de filmes, com o objetivo de identificar quantitativamente os tipos de cenas memoráveis para os espectadores como resultado de excitação, tensão ou outras formas de estimulação psicológica. O teste mediu a resposta galvânica da pele de 13 indivíduos enquanto eles assistiam a três trailers de filmes distintos, que foram selecionados conforme a pesquisa de preferência realizada anteriormente. Em uma pesquisa efetuada ao mesmo tempo que o experimento do GSR, os participantes foram convidados a nomear, as cenas, em cada trailer que os fizeram querer ver o filme anunciado. Embora as cenas que supostamente impulsionaram a motivação do espectador nem sempre tenham sido as que geraram uma resposta do GSR, a maioria dos 11 participantes indicou que a cena com a maior resposta do GSR os motivara a ver o filme (Iida et al., 2012). Esse e outros resultados levaram os autores a concluir que cenas que geram respostas galvânicas da pele afetam o desejo dos espectadores de ver um filme anunciado. Os dados revelaram que a maioria dos espectadores responde ao início e ao final do tempo de execução dos trailers de filmes. Com base nessas informações, os autores determinaram a validade de um efeito de primazia (pelo qual o início de um evento é memorável), bem como um efeito de recência (pelo qual o final de um evento deixa uma impressão duradoura); logo, a proposta dos autores foi de se criar trailers que produzam esse efeito. Além disso, também foi possível identificar quatro situações significativas: alterar o brilho da imagem pode afetar os espectadores, assim como produzir mudanças hábeis na trilha sonora; os efeitos sonoros captariam a sua atenção, porém longas cenas de ação podem resultar em fadiga do espectador (Iida et al., 2012). TEMA 5 – O ASPECTO DE NEUROMARKETING DA PSICOLOGIA DE PREÇOS TURÍSTICOS Para finalizar nossos estudos de casos, vamos mostrar um estudo que testou um ambiente de compra virtual (Boz; Arslan; Koc, 2017). Esse estudo foi realizado por pesquisadores de universidades turcas e foi publicado na revista científica Tourism Management Perspectives, no ano de 2017. Os serviços turísticos são extremamente intangíveis; eles não podem ser vistos e testados antes da compra. Além disso, eles não podem ser armazenados, trocados ou revendidos, o que torna o seu processo de venda bem delicado,assim como a precificação dos seus serviços, pois ambos são impactados por diversos fatores, desde os elevados custos fixos da operação até o alto nível de envolvimento psicológico dos clientes, especialmente com produtos de férias. O consumidor é extremamente sensível a preço. Para auxiliar no processo de precificação dos serviços turísticos, o objetivo do trabalho de Boz, Arslan e Koc (2017) era explicar como os turistas percebem os preços nos anúncios de pacotes de férias em termos de características de design, posicionamento e conteúdo. Para isso, foram utilizadas técnicas de neuromarketing para realizar a coleta de dados. Os pesquisadores mensuraram 33 estratégias de precificação utilizadas no setor de turismo para influenciar nas decisões de compra dos consumidores, com uma combinação de técnicas de 12 neuromarketing (eletroencefalograma – EEG, GSR, eye tracking e frequência cardíaca) e questionários. O artigo não deixa claro quais foram os critérios de seleção da amostra de entrevistados e nem como foram os procedimentos de utilização dos equipamentos. Os resultados da pesquisa demonstraram que os consumidores prestaram muito mais atenção aos elementos de taxa de desconto do que ao preço reduzido, ou seja: para o consumidor, a taxa de desconto, por exemplo, 30% ou 20%, lhe gera muito mais atenção do que simplesmente mostrar-lhe o preço já com o desconto. Dessa forma, quando o preço com desconto era exposto juntamente com a taxa de desconto, o resultado era muito mais eficaz. Além disso, foi identificado que os consumidores nunca leem frases sobre a promoção de um produto, em um parágrafo. Os entrevistados se concentraram mais no visual das pessoas, no rótulo de um preço ou na taxa de desconto localizada perto da representação de um ser humano. Consumidores do sexo feminino que observaram fotos sensuais de mulheres em anúncios de aldeias de férias em família desenvolveram uma atitude negativa em relação a esses estabelecimentos de hospitalidade (Boz; Arslan; Koc, 2017). De acordo com outros resultados do estudo, a mais adequada das 33 estratégias de preços era colocar rótulos de planos de parcelamento, taxas de descontos e preços reduzidos no centro da promoção visual. Além disso, declarações positivas de clientes anteriores em anúncios visuais contribuíam com a decisão dos potenciais consumidores. O estudo também analisou a experiência dos usuários de sites de venda de serviços turísticos e foi possível constatar que, dentre as áreas de interesse (menu, área de pesquisa, marca, taxas de descontos, contatos e ilustrações), a que mais gerou atenção visual dos pesquisados foram as áreas que ilustravam as taxas de descontos (Boz; Arslan; Koc, 2017). Por fim, o estudo buscou explicar os aspectos psicológicos da precificação como um elemento mix de marketing. A intangibilidade e a perecibilidade dos serviços tornam a sua precificação um grande desafio para os gestores do setor de turismo. Devido à falta de elementos tangíveis, os clientes podem atribuir uma maior importância ao preço e, por isso, segundo a pesquisa, o elemento visual que mais despertou atenção nos pesquisados foram as taxas de desconto (Boz; Arslan; Koc, 2017). 13 REFERÊNCIAS BOZ, H.; ARSLAN, A.; KOC, E. Neuromarketing aspect of tourısm pricing psychology. Tourism Management Perspectives, v. 23, p. 119-128, jun. 2017. HIDAYATNO, A.; KOMARUDIN, K. Eye-tracking research methodology for the planograms of supermarket shelf that draw shopper’s visual attention: case study in shampoo packaging. International Seminar on Industrial Engineering and Management, Dec. 2009. IIDA, T. et al. A study on effectiveness of movie trailers boosting customers’ appreciation desire: A customer science approach using statistics and GSR. Journal of Business & Economics Research, v. 10, n. 6, p. 375-384, 2012. MONTAGUE, P. R. et al. Neural correlates of behavioral preference for culturally familiar drinks. Neuron, v. 44, n. 2, p. 379-387, 14 out. 2004. RODRIGUES, F.; OLIVEIRA, M., DIOGO, J. Princípios de neuromarketing: neurociência cognitiva aplicada ao consumo, espaços e design. Viseu: PsicoSoma, 2015. SNYDER, E. et al. An eye-tracking methodology for testing consumer preference of display trays in a simulated retail environment. Journal of Applied Packaging Research, v. 7, n. 1, 2015. TAKAHASHI, Y. et al. A new movie summarization algorithm for effective movie selection: Toward human content interface design. Bulletin of Japanese Society for Science of Design, v. 142, n. 1, p. 41-50, 2000.