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DEIVI DE OLIVEIRA SCARPARI 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA: O ENSINO MÉDIO DEVE FORMAR 
PARA A VIDA OU PARA O MERCADO DE TRABALHO? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Criciúma, Dezembro de 2003. 
 
 
 
 
 
DEIVI DE OLIVEIRA SCARPARI 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA: O ENSINO MÉDIO DEVE FORMAR 
PARA A VIDA OU PARA O MERCADO DE TRABALHO? 
 
 
 
 
Monografia apresentada à Diretoria de Pós-
Graduação da Universidade do Extremo Sul 
Catarinense – UNESC, para a obtenção do título 
de especialista em Didática e Metodologia do 
Ensino Superior. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Criciúma, Dezembro de 2003. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 DEDICATÓRIA 
 
Aos meus pais, Pedro e Deonilda, meus irmãos, 
Rivelino, Jean, Andréia (in memorian) e minha 
namorada Silvane. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
A Deus, figura abstrata, mas muito concreta em 
todos os momentos de minha vida. 
Aos meus pais, meus maiores mestres, pois suas 
sabedorias transcenderam as barreiras entre o 
existente e o não existente. 
Aos meus irmãos, presenças marcantes e 
constantes em minha vida, que sempre unidos, 
nunca me deixaram desanimar. 
À minha namorada Silvane, que sempre foi meu 
braço direito e minha força motriz nessa 
caminhada final. 
Em especial a Giani Rabelo – orientadora – que 
com sabedoria e tranqüilidade guiou-me. Através 
da sua prática docente mostrou-me que formar 
para a vida é a “tomada consciente de decisões” 
(Paulo Freire). 
Enfim, a todos os amigos, aos professores, aos 
meus alunos, aos educadores que 
generosamente responderam ao questionário e 
àqueles que me acompanharam durante este 
curso de especialização. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“Que se destine meu aluno à carreira militar, à 
eclesiástica ou à advocacia, pouco me importa. 
Antes da vocação dos pais, a natureza chama-o 
para a vida humana. Viver é o ofício que quero 
ensinar. Saindo de minhas mãos, ele não será, 
concordo, nem magistrado, nem soldado, nem 
padre: será primeiramente um homem”. (Jean 
Jacques Rousseau) 
 
“Se vi mais longe foi porque subi em ombros de 
gigantes” (Isaac Newton) 
 
 
 
 
 
RESUMO 
 
Esta monografia teve por objetivo principal realizar estudo sobre o papel/função 
social da escola com ênfase no Ensino Médio. A educação cumpre a função de 
socialização do homem. A escola surgiu para suprir as necessidades impostas pela 
sociedade. Hoje, a escola forma o indivíduo para atuar sobre a sociedade. O Ensino 
Médio, em seu primórdio, tinha por finalidade preparar o indivíduo para o mercado 
de trabalho (vestibular). A nova Lei de Diretrizes e Bases redimensiona o Ensino 
Médio, assim ele deve contribuir para a transformação social do aluno. Percebe-se 
ao longo da história da educação que o Ensino Médio constitui-se como nível de 
mais difícil enfrentamento. Em sua versão propedêutica preparatória para o 
vestibular a aprendizagem se dá de forma mecânica, ou seja, os conteúdos são 
transmitidos. Em decorrência disso a reformulação da Lei revela a necessidade de 
atualização da educação. A Lei é clara ao definir as finalidades do Ensino Médio. Ela 
prevê a formação e o aprimoramento do ser humano, incluindo a formação ética e a 
autonomia intelectual. Assim, o papel que o educador passa a desempenhar é uma 
importante função onde ensinar não é transmitir conhecimentos, mas oportunizar, 
mediar o conhecimento. Neste sentido o conteúdo escolar não ficará obsoleto, será 
ampliado. Os educadores e as instituições são chamados a refletirem sobre as 
habilidades e as competências. Partindo do princípio que a educação passou e 
passa por diferentes mudanças foi realizada uma pesquisa com os professores do 
Ensino Médio a fim de analisar seus pensamentos a respeito do papel social do 
ensino ministrado nas Escolas Públicas, bem como sua formação e prática docente. 
A escola escolhida pertence à Rede Pública e localiza-se no Sul de Santa Catarina. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO 07
 
CAPÍTULO I 
1 – ORIGEM E PAPEL SOCIAL DA ESCOLA ...................................................... 12
1.1 – Origem da escola ......................................................................................... 12
1.2 – Papel social da escola ................................................................................. 15
1.2.1 – No início de sua existência ....................................................................... 15
1.2.2 – Nos dias atuais .......................................................................................... 16
 
CAPÍTULO II 
2 – O ENSINO MÉDIO .......................................................................................... 20
2.1 – Desmistificando sua origem ......................................................................... 20
2.2 – A atual função social do Ensino Médio ........................................................ 24
 
CAPÍTULO III 
3 – O PROFESSOR ..............................................................................................28
3.1 – Papel social do professor nos dias atuais .................................................... 28
3.2 – O perfil docente na atualidade educacional ................................................. 32
 
CAPÍTULO IV 
4 – A PESQUISA .................................................................................................. 36
 
CONCLUSÃO ........................................................................................................ 43
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 47
 
ANEXOS ................................................................................................................ 50
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
Para a maioria das pessoas, a educação existe, supostamente, para 
ajudar a formar o caráter intelectual de uma pessoa e proporcionar oportunidades de 
ascensão social e econômica. Entretanto o processo de definir o verdadeiro papel da 
educação e as formas desejáveis de sua ocorrência está ligado a regimes 
particulares de moralidade. A verdade é que a realidade não se apresenta a nós já 
rotulada. Tudo é socialmente construído. Isto ocorre, mesmo quando falamos sobre 
as instituições que organizam boa parte de nossas vidas. Tomemos as escolas 
como exemplo. Para alguns, esta é vista como casta engrenagem de democracia: 
abre horizontes, assegura mobilidade. Para outros, é forma de controle social ou, 
talvez, de expressão de ameaças culturais em instituições cujos currículos e 
ideologias ameaçam o universo moral dos estudantes que as freqüentam. 
Com toda a retórica sobre o ensino o que se destaca, na verdade, é a sua 
função. Há atualmente uma imensa pressão para definir a função da escola, assim 
esta monografia tem por objetivo buscar respostas sobre qual o verdadeiro papel 
social do Ensino Médio ministrado nas escolas da rede pública. 
No dia-a-dia do ambiente escolar convive-se com a dupla tarefa de 
proporcionar aos jovens situações de ensino aprendizagem com o objetivo de 
possibilitar uma formação cultural e científica mais ampla aos alunos do Ensino 
Médio. Porém, o ideal de formar cidadãos pensantes que possam atuar na 
sociedade tem sido um caminho de tortura, pois esbarra-se em muitas situações 
problemas que limitam o trabalho docente. Diante desses problemas, como 
professor de Física há quatro anos na Escola Pública, passo a refletir sobre alguns 
aspectos. 
Um dos aspectos que me deixa pensativo e inquieto é referente ao 
“verdadeiro papel social da escola”. Percebe-se que existem duas correntes 
ideológicas: formar para o vestibular (ou seja, para o mundo do trabalho) e formar 
para a vida. 
Segundo a primeira concepção, formar para o vestibular significa preparar 
o aluno para encarar a dura concorrência às vagas dos cursos superiores. Os alunos 
que têm essa pretensão encaram a escola como a chave que abrirá a porta para o 
curso e, certamente, a vida tão sonhada. O objetivo é passar no vestibular. Não 
importa se amanhã determinados conteúdos serão utilizados ou não pelos alunos. 
 
 
 
Este é o caso das grandes empresas-escolas que centralizam seus objetivos no 
lucro. 
É fato consumado, estatisticamente, que a maioria da população brasileira 
não consegue chegar ao Ensino Superior. Desta forma, o Ensino Médio torna-se a 
“graduação” de muitos alunos. 
Baseado nestes dados, o formar para a vida, parece apresentar-se como 
a concepção mais importante. Assim, questiono-me sobre qual meu papel, enquanto 
professor, dentro desse contexto. Como os professores do Ensino Médio encaram 
esta escola que forma para a vida? Como deve ser a prática pedagógica no dia-a-
dia? 
Perguntas como estas têm sido incógnitas nestes quatro anos de “sala de 
aula”. Durante estes anos venho trabalhando junto aos alunos a disciplina de Física. 
Percebo que, às vezes, nós, professores, nos perdemos em meio a tantas correntes 
filosóficas que parecem fazer parte de um certo modismo. Ora deve-se ensinar 
dessa forma e priorizar tal aspecto, ora a prioridade já é outra. Desta forma minhas 
ações e decisões em sala de aula nem sempre vão de encontro àquilo que planejei 
e revoltar-se diante de alguns fatos e situações que acontecem no cotidiano das 
escolas é, diria, natural, pois ouve-se com freqüência comentários do tipo: 
- Ele tirou três, mas acho que ele deve passar porque é tão educado, 
responsável... 
- Ah; passa, passa! Essa menina está noiva, só pensa em casar. 
- Ah, passa ele, tadinho! Ele só vai trabalhar na roça1 mesmo. Não 
precisa saber todos esses conteúdos, na roça não vai usar isso. 
É lamentável encarar a realidade. Saber que o aluno não vai cursar o 
Ensino Superior não o torna menos importante que o outro. Ao contrário, este 
deveria ser visto com outros olhos, uma vez que ele, dificilmente, irá ocupar outros 
bancos escolares. Portanto deveria receber uma formação mais profunda e 
consistente. 
Sendo assim, a tarefa: formar para a vida torna-se muito mais difícil do 
que apenas preparar para o vestibular. O aluno deve sair do Ensino Médio capaz de 
reconhecer e aplicar, no seu dia-a-dia, o conteúdo escolar. Deve torná-lo 
instrumento que lhe possibilite uma vida justa. No entanto, como encarar esse 
 
1 Neste caso se refere ao aluno que reside em área rural. 
 
 
 
desafio? Como transformar nossa escola numa escola libertadora? Parece que esta 
jornada é árdua, entretanto quero, ao fim deste trabalho, ter metas e conceitos 
definidos para que possa promover novos caminhos para uma realidade cheia de 
perspectivas. 
O professor é parte fundamental no processo ensino-aprendizagem, pois 
dá sentido e concretude à prática educativa. Sem ele não seria possível realizar um 
estudo amplo sobre este tema. Para que este trabalho atingisse seu verdadeiro 
objetivo foi realizada uma pesquisa com intuito de coletar informações a respeito do 
pensamento dos professores sobre o papel/função social do Ensino Médio, bem 
como aspectos relevantes sobre sua formação e prática docente. 
A pesquisa foi desenvolvida por meio de um Estudo de Caso, com nove 
professores do Ensino Médio numa escola2 da rede pública estadual, situada na 
Região Sul do estado de Santa Catarina. Tomei o estudo de Caso como modalidade 
de pesquisa, pois segundo Lüdke & André (1986, p.17), o estudo de Caso se 
constitui numa unidade dentro de um sistema maior. O destaque está naquilo que 
ele tem de único, de particular, mesmo que posteriormente se evidenciem 
semelhanças com outroscasos e situações. Chizzotti (2001, p. 102), diz que o caso 
é tomado como unidade significativa do todo e é suficiente para fundamentar 
julgamento fidedigno e para propor uma intervenção. Para o autor, o estudo de Caso 
retrata uma realidade e também revela uma multiplicidade de aspectos globais. 
O estudo foi desenvolvido em quatro fases distintas. Na primeira fase 
dediquei-me à revisão bibliográfica e ao estudo teórico sobre a origem da escola, 
seu papel social desde sua origem até os dias atuais, dando ênfase ao Ensino 
Médio. Na segunda fase, procurei a Direção da escola escolhida para realização da 
pesquisa, pedindo-lhe autorização para a execução da mesma. Na terceira fase, 
estabeleci contato com os professores aos quais apliquei um questionário de 
perguntas abertas. Escolhi esta técnica de coleta de dados porque este tipo de 
questionário permite uma expressão maior de sentimentos e idéias sobre os 
assuntos indagados. Uma das grandes vantagens deste tipo de questionário são as 
informações mais gerais e mais refletidas por parte dos pesquisados. Na quarta 
fase, analisei os dados obtidos à luz de todo referencial teórico construído. 
 
2 Por princípios éticos não mencionarei o nome e nem a localização exata da escola pesquisada. 
 
 
 
Para alcançar uma apresentação mais clara e entendimento mais 
profundo sobre as questões aqui abordadas, esta monografia será apresentada em 
quatro momentos diferentes. 
O primeiro capítulo aborda a origem e o papel social da escola. Veremos 
que nos primórdios, os conhecimentos necessários para a vida eram adquiridos 
mediante à participação do adolescente nos afazeres da vida adulta no seio familiar. 
Com o passar dos séculos, essa forma de transmissão de conhecimento se tornara 
insuficiente e ineficaz. Para acompanhar a velocidade do desenvolvimento e a 
complexidade do dia-a-dia da sociedade burguesa do século XVI, criou-se a 
instituição chamada escola, cuja peculiar função seria a de melhorar o processo de 
socialização com intenção de integrar o jovem aos modos de produção. Além do 
mais, para a sociedade capitalista burguesa da época havia necessidade de 
dominação da classe menos favorecida socialmente. 
O segundo, primeiramente se refere à origem e desmistificação da 
educação escolar: sua função, seu destino, seu público. Posteriormente este 
capítulo direciona-se ao surgimento e regulamentação do Ensino Médio no Brasil e 
as controvérsias que passam a existir, pois ao longo da história o Ensino Médio 
constitui-se a partir de duas vertentes: a propedêutica - que prepara para o vestibular 
- e a que prepara para a vida, que surge a partir da reformulação do Ensino Médio 
estabelecida pela Lei de Diretrizes e Bases, de 1996, onde enfatiza não mais a 
preparação para o vestibular, mas o aprimoramento do educando como pessoa 
humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e 
do pensamento crítico (LDB/96 – seção IV – art. 35). 
O terceiro, enfoca o papel e perfil do professor nos dias atuais, 
caracterizando a escola como centro de excelência de vida da população excluída 
socialmente, assim ao professor é atribuído um papel importantíssimo: o sucesso da 
aprendizagem dos alunos, fazendo do desenvolvimento curricular um processo vivo 
e concretizando as reformas pelas quais o ensino passa, onde ensinar não se trata 
apenas de uma coleção de habilidades técnicas. O ato de ensinar assume a função 
e complexidade de transmitir o conhecimento historicamente acumulado e não 
transferir conhecimentos. Segundo Freire, “quem forma se forma e re-forma ao 
formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado” (1998, p. 25). É neste 
sentido que ensinar não é transmitir conhecimentos, conteúdos, muito menos formar 
deve assumir sentido de moldar, dar forma. 
 
 
 
Por último, no quarto capítulo, faço uma análise do pensamento dos 
professores a respeito do papel/função social do Ensino Médio, bem como dos 
aspectos relevantes sobre sua formação e prática docente. 
Este capítulo pretende discutir a função do professor no contexto do 
trabalho de uma escola localizada, como já foi mencionado, no Sul de Santa 
Catarina. Os professores foram questionados de forma a responder sobre a função 
do Ensino Médio hoje. As respostas obtidas evidenciam a falta de sintonia entre 
realidade escolar e teorias pedagógicas. Assim cada professor pensa, age, e 
compreende o sentido e relevância do seu trabalho separadamente do outro. Desta 
forma, falta clareza sobre como conduzir o aprendizado de modo a promover, junto 
ao aluno, as qualificações humanas que é dever do Ensino Médio. A pesquisa 
revelou dados importantes referentes à compreensão da função do professor e do 
Ensino Médio da Escola Pública que serão apresentados e discutidos ao longo do 
capítulo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO I 
ORIGEM E PAPEL SOCIAL DA ESCOLA 
 
1.1 – Origem da escola 
 
A educação faz parte da nossa vida, ninguém está isento dela. Em casa, 
na rua, na Igreja ou na escola, de um modo ou de outro, estamos envolvidos com 
ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar. Para saber, para fazer, 
para ser ou para conviver, todos os dias misturamos pedaços de nossa vida com a 
educação. Com uma ou com várias: educação? Educações? Sabendo então que a 
educação “invade” nossa vida, por que não começar a pensar sobre ela. 
Segundo Gómez: 
 
A educação, num sentido amplo, cumpre uma iniludível função de 
socialização, desde que a configuração social da espécie se transforma em 
um fator decisivo da hominização e em especial da humanização do 
homem. 
A espécie humana, constituída biologicamente com tal, elabora 
instrumentos, artefatos, costumes, normas, códigos de comunicação e 
convivência como mecanismos imprescindíveis para a sobrevivência do 
grupo e da espécie. Paralelamente, e posto que as aquisições adaptativas 
da espécie às peculiaridades do meio não se fixam biologicamente nem se 
transmitem através de herança genética, os grupos humanos põem em 
andamento mecanismos e sistemas externos de transmissão para garantir, 
a sobrevivência nas novas gerações de suas conquistas históricas. Este 
processo de aquisição por parte das novas gerações das conquistas sociais 
– processo de socialização – costuma denominar-se genericamente como 
processo de educação (1998, p. 13). 
 
Numa análise histórica, percebe-se que nas sociedades primitivas devido 
às necessidades de produção a educação das criançasera de responsabilidade dos 
adultos e principalmente das famílias. O conhecimento necessário à vida adulta e ao 
futuro ofício se dava de forma prática no contato direto com o trabalho do pai. Dessa 
forma a criança crescia com sua profissão praticamente definida. Geralmente a 
mesma do pai. 
Enguita retrata que na Roma Arcaica havia 
 
(...) uma mistura de aprendizagem familiar e participação na vida adulta em 
geral: o jovem varão simplesmente acompanhava o pai no trabalho da terra, 
no foro ou na guerra, enquanto as filhas permaneciam junto à mãe 
ajudando-a em outras tarefas (1998, p. 105). 
 
 
 
 
Ainda, ele afirma, que para os camponeses auto-suficientes da época as 
instituições escolares existentes desempenhavam apenas um papel de educar na 
religiosidade, ou quando não, na política (ibidem, p. 105). 
Conforme Aranha, a transmissão do conhecimento acontecia de forma 
direta e “informal, no sentido de não obedecer a regras explícitas nem ser 
submetidas a rígido controle externo” (1996, p. 72), mediante a participação 
cotidiana das crianças nas atividades da vida adulta. 
Esta forma de transmissão de conhecimento simples e rudimentar que 
havia na época fica também evidenciada na fala de Enguita quando ele diz que: 
 
Em geral, a aprendizagem e a educação tinham lugar como socialização 
direta de uma geração por outra, mediante a participação cotidiana das 
crianças nas atividades da vida adulta e sem a intervenção sistemática de 
agentes especializados que representa hoje a escola, instituição que então 
desempenhava um papel marginal (1989, p. 107). 
 
Desta forma, os conhecimentos necessários para a vida só poderiam ser 
adquiridos mediante à participação do adolescente nos afazeres da vida adulta. O 
jovem aprenderia seu ofício em contato com o mundo adulto, geralmente no seio da 
sua própria família. 
Na Idade Média, o processo educativo se diferenciava um pouco. A 
permanência na família original era substituída em grande medida pela educação ou 
aprendizagem em outro ambiente social – outra família. Essa mudança de ambiente 
era necessária para que os laços afetivos não influenciassem na auto-disciplina e na 
formação da criança. Segundo Enguita: 
 
Esta espécie de intercâmbio familiar tinha lugar de forma especial no 
artesanato. O mestre artesão acolhia um pequeno número de aprendizes 
entrando com eles numa relação de mútuas obrigações. O aprendiz estava 
obrigado a servir fielmente ao mestre não apenas nas tarefas do oficio, mas 
no conjunto da vida doméstica. O mestre estava obrigado a ensinar-lhes as 
técnicas do ofício, mas também a alimentá-lo e a vesti-lo, dar-lhe uma 
formação moral e religiosa e prepará-lo para converter-se em um cidadão, e 
com freqüência, a ensinar-lhe os rudimentos literários e a enviá-lo a uma 
escola na qual pudesse adquiri-los (Ibidem, p. 106-107). 
 
Percebe-se que essa mudança de ambiente familiar era sinal de 
decadência. O sistema de ensino no seio familiar já não dava mais conta de 
preparar, não conseguia mais ensinar com qualidade as crianças e os jovens para 
conviver futuramente no mundo adulto, no sistema de produção, na sociedade. 
 
 
 
Com o passar dos séculos, o crescimento populacional e a aceleração do 
desenvolvimento científico e histórico das comunidades humanas, bem como a 
complexidade das estruturas, acentuam a ineficácia e insuficiência dos processos de 
socialização direta das novas gerações nas células primárias de convivência tal 
como a família, a comunidade ou grupos de trabalho e produção. 
Como o processo de transmissão de conhecimentos já não tinha mais 
força para acompanhar a velocidade do desenvolvimento e a complexidade do dia a 
dia da sociedade, o ensino promovido pela família não dava mais conta de preparar 
os jovens para os sistemas produtivos da época. Segundo Gómez: 
 
Para suprir tais deficiências surgem ao longo da história diferentes formas 
de especialização do processo de educação ou socialização secundária 
(tutor, preceptor, academia, escola religiosa, escola laica...), que 
conduziriam aos sistemas de escolarização obrigatória para todas as 
camadas da população nas sociedades industriais contemporâneas. Nestas 
sociedades a preparação das novas gerações para sua participação no 
mundo do trabalho e na vida pública requer a intervenção de instâncias 
específicas como a escola, cuja peculiar função é atender e canalizar o 
processo de socialização (Ibidem, p. 13). 
 
Havia necessidade de uma educação mais formal para completar a 
formação necessária ao indivíduo para a futura atuação no mercado de trabalho e 
na sociedade Moderna, pois a complexidade científica, tecnológica e as mudanças 
introduzidas pelos novos valores conduziriam e reforçariam que a transmissão do 
conhecimento deveria prosseguir por outro caminho. Paro conclui que tornaram-se 
 
(...) insuficientes os mecanismos informais de transmissão e apropriação 
desse saber, havendo a necessidade de instituições formalmente 
destacadas para essa tarefa. 
Entre essas instituições, destaca-se a escola, cuja especificidade é 
precisamente de transmissão do saber de forma sistemática e organizada 
(1988, p. 105). 
 
Enfim, podemos concluir que a instituição escolar nem sempre existiu. A 
escola surgiu para suprir as necessidades imposta pela sociedade Moderna. Sua 
existência é decorrente da complexidade e das necessidades originadas pelos 
avanços dos meios de produção da sociedade moderna. A escola institucionalizada, 
semelhante àquela que hoje conhecemos, é uma criação burguesa do século XVI. 
 
 
 
 
 
 
1.2 – Papel social da escola 
 
1.2.1 – No início de sua existência 
 
Dentro deste complexo processo de socialização que a escola cumpre 
nas sociedades contemporâneas é necessário aprofundar a análise para 
compreender quais são os objetivos explícitos no processo de socialização da 
educação. 
Com a aceleração do desenvolvimento histórico, a complexidade das 
estruturas e a diversificação de funções e tarefas da vida nas sociedades, cada dia 
mais povoadas e complexas, aumenta o número de pessoas marginalizadas 
socialmente. Para a sociedade capitalista esses “marginais”, “mendigos”, 
“vagabundos”, amedrontavam a ordem pública. Com a necessidade de dominação 
da massa subvertida criam-se instituições escolares a fim de “(...) dar remédio à 
grande perdição que de vagabundos, órfãos e crianças desamparadas havia, (...) 
porque é certo que ao se remediar estas crianças perdidas põe-se obstáculo aos 
latrocínios, delitos graves” (VARELA,1983, p.240, apud Enguita, 1989, p.109). 
Além do mais, as pessoas desocupadas representavam um desperdício 
de mão de obra, pois seus braços eram inativos. Assim, a educação escolar cresce 
satisfatoriamente com ênfase na formação para o mercado de trabalho, seguindo a 
filosofia da classe dominante. Para os burgueses, pessoas ocupadas não teriam 
tempo para conturbar a ordem pública. Além disso, quando bem controladas e 
manipuladas geram renda à nação. 
A educação escolar visando ao mercado de trabalho se reafirma com a 
revolução industrial, pois, segundo Enguita: 
 
(...) foi o desenvolvimento das manufaturas que converteu definitivamente 
as crianças na guloseima cobiçada pelos industriais: diretamente, como 
mão de obra barata, indiretamente, como futura mão de obra necessitada 
de disciplina. O momento culminante dos orfanatos e, em geral, do 
internamento e disciplinamento das crianças em casas de trabalho e outros 
estabelecimentos similares foi o século XVIII. 
Na Inglaterra, as workhouses converteram-se em Schools of Industry ou 
Colleges of Labour. O essencial não era já pôr os vagabundos e seus filhos 
a fazer um trabalho útil com vistas à sua manutenção, mas educá-los na 
disciplina e nos hábitos necessários para trabalhar posteriormente (Ibidem, 
p.109). 
 
 
 
 
Fica expresso claramente que a origem da escola de massas se dá para 
controlar e dominar a classe menos favorecida socialmente. A escola seria o “painel 
de controle” do povo, lugar onde se poderia divulgar o conhecimento necessário e o 
doutrinamento ideológico da classe dominante. Assim, podia-se formar mão de obra 
qualificada, tanto em produção quanto em subserviência. 
É claro que a burguesia recitava um discurso de “educação para o povo” 
pois necessitava “formar” os trabalhadores para sua messe. Entretanto temia as 
conseqüências de que a educação demasiada poderia alimentar ambições àquelas 
pessoas de níveis mais baixos, como percebemos na fala de Enguita: 
 
A via intermediária era a única que podia suscitar o consenso das forças 
bem-pensantes: educá-los, mas não demasiadamente. O bastante para que 
aprendessem a respeitar a ordem social, mas não tanto para que pudessem 
questioná-la. O suficiente para que conhecessem a justificação de seu lugar 
nesta vida, mas não ao ponto de despertar neles expectativas que lhes 
fizessem desejar o que não estavam chamados a desfrutar (Ibidem, p. 112). 
 
 
A escola surge como instituição formadora de indivíduos. Formadora no 
sentido literal, de formar, moldar mentes, sempre mantendo viva a falsa idéia de 
preparar o povo para a vida e para o mercado de trabalho. O que se queria na 
verdade era preparar mão de obra barata e de fácil manipulação para atender as 
necessidades de consumo da burguesia que sempre se sobressai sobre a classe de 
menor poder aquisitivo. Esta, talvez por ingenuidade, ou mesmo por necessidade de 
sobrevivência, acabava submetendo-se aos princípios ditados pela alta sociedade. 
 
 
1.2.2 – Nos dias atuais 
 
Desde o surgimento das sociedades industriais, a função principal que a 
sociedade delega e encarrega à escola é a incorporação futura ao mercado de 
trabalho. Na visão neoliberal a escola é colocada como um bem a ser adquirido, um 
tesouro que trará ao seu possuidor ascensão social, profissional e prosperidade 
econômica. As crianças e jovens que não freqüentam a escola são rotuladas de 
“inferiores” ou “fracassadas” socialmente, “sem futuro”. Essa ideologia se faz 
fortemente presente na atualidade onde várias empresas educacionais vivem 
 
 
 
exclusivamente deste tipo de exploração. O marketing contendo essa visão aparece 
evidente nos meios de comunicação, principalmente nas épocas de vestibulares. 
Uma outra função da escola é a formação do indivíduo para sua 
intervenção na vida pública. Segundo Gómez, “a escola deve prepará-lo para que se 
incorpore à vida adulta e pública, de modo que se possa manter a dinâmica e o 
equilíbrio nas instituições, bem como as normas de convivência que compõem o 
tecido social da comunidade humana” (1998, p. 15). 
A educação escolar é uma prática que tem como função criar condições 
para que todos os alunos desenvolvam suas capacidades e aprendam o conteúdo 
para construir instrumentos de compreensão da realidade e de participação em 
relações sociais, políticas e culturais diversificadas e amplas. Condições estas 
fundamentais na construção de uma sociedade democrática e não excludente. 
Preparar para a vida pública nas sociedades formalmente democráticas 
na esfera política, governadas pela implacável e às vezes selvagem lei do mercado 
na esfera econômica, comporta necessariamente que a escola provoque o 
desenvolvimento de conhecimentos, idéias, atitudes e pautas de comportamento 
que permitam sua incorporação eficaz no mundo civil, no âmbito da liberdade do 
consumo, da liberdade de escolha e participação política, da liberdade e 
responsabilidade na esfera familiar. Características bem diferentes daquelas que 
requer sua incorporação submissa e disciplinada, para a maioria, no mundo do 
trabalho assalariado. 
O Ensino Médio proposto pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) 
sugere um currículo voltado para o desenvolvimento de competências, no qual a 
interdisciplinaridade e contextualização estejam presentes na prática pedagógica. A 
finalidade é educar para a vida, superando o rótulo de ensino preparatório para 
vestibular. 
A nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) propõe o rompimento do modelo 
neoliberal que tinha como objetivo preparar para o prosseguimento de estudos 
(Ensino Superior) e a formação para o trabalho (Segundo Grau Profissionalizante). A 
idéia proposta nesta lei é de integrar numa mesma e única modalidade, finalidades 
até então dissociadas, para oferecer, de forma articulada, uma educação 
equilibrada, com funções equivalentes para todos os educandos. Em seu art. 35, 
verifica-se que as finalidades do novo Ensino Médio são: 
 
 
 
• A formação da pessoa, desenvolvendo os seus valores e as 
competências necessárias à integração de seu projeto de vida ao meio social no 
qual está inserido; 
• A preparação para sua integração no mundo do trabalho, com as 
competências que garantam seu aprimoramento profissional e permitam 
acompanhar as mudanças que caracterizam a produção no nosso tempo; 
• O desenvolvimento das competências para continuar aprendendo, de 
forma autônoma e crítica, em níveis mais complexos de estudos. 
Etapa final da educação básica, o Ensino Médio precisa dar fechamento à 
vida escolar básica de forma a assegurar uma base comum a todosaqueles que o 
cursaram, pela própria compreensão do que seja a etapa educacional que é direito 
de todos e que deve favorecer a construção dos alicerces para o exercício da vida 
cidadã - uma inserção social situada, uma possibilidade de inserção econômica 
plena. Desta forma, pressupõe uma unidade de construção que objetive a igualdade 
de acesso aos bens econômicos e culturais, que tenha como premissa a preparação 
para a vida adulta com autonomia. 
As competências que o educando deve demonstrar ao final do Ensino 
Médio requerem, na construção do currículo desse nível, um comprometimento com 
o mundo do trabalho e com a prática social, dentro de uma dimensão de 
aprimoramento do aluno, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da 
autonomia intelectual e do pensamento crítico. 
Assim, a educação poderá contribuir para a transformação social, na 
medida que for capaz de ser instrumento em poder dos grupos sociais dominados 
em seu esforço de superação da atual sociedade de classes. Desta forma, a 
questão da educação enquanto fator de transformação social inscreve-se no 
contexto mais amplo do problema das relações entre educação e política. 
Segundo Paro: 
 
(...) a educação se revela como fator de transformação social, também, em 
seu caráter intrínseco da apropriação do saber historicamente acumulado, 
na medida em que, através dela, a classe revolucionária se apodera da 
ciência, da tecnologia, da filosofia, da arte, enfim, de todas as conquistas 
culturais realizadas pela humanidade em seu desenvolvimento histórico, 
que hoje estão nas mãos da minoria dominante. Esse saber, ao ser 
apropriado pela classe dominada, serve como elemento de sua afirmação e 
emancipação cultural na luta pela desarticulação do poder capitalista e pela 
organização de uma nova ordem social (1998, p. 105). 
 
 
 
 
Para que essa transformação social ocorra é necessário que a escola 
oportunize a apreensão do conhecimento. Este é essencial, jamais poderá ficar em 
segundo plano. A escola existe para socializar o conhecimento construído 
historicamente. O aluno deve ter a oportunidade de fazer uso de todos os 
conhecimentos acumulados a fim de se desenvolver intelectualmente para que no 
futuro possa agir e interagir socialmente sempre em busca de uma vida melhor para 
si e para a comunidade em que vive. 
Essa visão social da escola de formar para a vida é muito mais ampla. 
Sendo assim, a formação intelectual do indivíduo também será capaz de 
proporcionar sua integração ao mercado de trabalho. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO II 
O ENSINO MÉDIO 
 
2.1 – Desmistificando sua origem 
 
Como vimos no capítulo anterior, a educação escolar surge nos moldes 
da ideologia capitalista burguesa, com a finalidade de formar os indivíduos com 
menor poder aquisitivo para servir de mão de obra barata e qualificada e também 
como forma de controlar as mentes para a aceitação da sua “inferior classe social”, 
mantendo, assim, a ordem e gerando lucro nos meios de produção. No Brasil, esta 
ideologia se mantém impregnada no surgimento da educação escolar. 
Até 1932 existiam no Brasil os seguintes cursos: 
 
(...) ao curso primário havia as alternativas de curso rural e curso 
profissional, todos com 4 anos de duração; ao curso primário poderiam 
suceder o curso ginasial e o curso normal antecedido de 3 anos de curso 
propedêutico. Já ao curso rural sucedia necessariamente o curso básico 
agrícola com 2 anos de duração, e ao curso profissional sucedia o curso 
complementar, também de 2 anos (KUENZER, 1997, p.11). 
 
Estes cursos eram voltados para os fins de um processo produtivo, aos 
interesses das indústrias e dos grandes latifundiários, por isso, destinavam-se na 
maioria das vezes às classes sociais com menor poder aquisitivo. Afinal, estes 
empregos asseguravam-lhes a sobrevivência. Os cursos eram de poucos anos de 
duração. Vale a pena lembrar que estes cursos não davam acesso aos cursos 
superiores existentes. 
O acesso às melhores oportunidades de emprego se dava através dos 
cursos superiores. Esse acesso se tornava quase que restrito à população de maior 
poder aquisitivo, pois a mediação entre o curso ginasial e o superior se dava através 
de estudos livres e exames de seleção. 
O surgimento do Ensino Médio (chamado de Secundário na época) no 
Brasil se regulamenta a partir da reforma “Gustavo Capanema”, em 1942. Segundo 
Kuenzer, 
 
(...) com a reforma CAPANEMA, e com a promulgação das Leis Orgânicas, 
extinguem-se os cursos complementares, que são substituídos por cursos 
de 2° ciclos, denominados genericamente de cursos legais, com a 
diferenciação de científico clássico, com 3 anos de duração sempre 
destinados a preparar os estudantes para o ingresso ao nível superior; os 
 
 
 
cursos normal, agrotécnico, comercial técnico e industrial técnico, 
colocavam-se no mesmo nível. Estes, contudo, não asseguravam o acesso 
ao nível superior (Ibidem, p.13). 
 
Nota-se que mesmo surgindo essa nova modalidade de ensino – Ensino 
Secundário – não se descarta a formação para o mercado de trabalho. A óptica de 
formar trabalhadores para servir ao capital ainda prevalece. Ainda mais, que a 
conclusão do Ensino Secundário não dava, ao certo, direito de freqüentar o Ensino 
Superior. Para ingressar nas poucas vagas existentes era necessário realizar testes 
classificatórios. Por essa e outras razões a população mais carente da sociedade 
optava pela realização dos cursos profissionalizantes. Assim, consumava-se a 
supremacia da classe dominante. Através da formação superior a classe dominante 
cria para si uma camada de intelectuais que seriam responsáveis pela sua 
homogeneidade, consciência e função, nos campos econômicos, sociais e político. A 
classe desfavorecida só serviria de mão de obra manipulável a serviço do 
capitalismo burguês. 
Para Kuenzer, o Ensino Secundário (hoje Médio), quando da sua criação, 
tinha por finalidade: 
 
• Formação da personalidade integral do adolescente; 
• Acentuar e elevar, na formação espiritual dos adolescentes, a consciência 
patriótica e humanística; 
• Preparação intelectual que possa servir de base a estudos mais elevados 
de formação especial (Ibidem, p.14). 
 
É importante notar que estas finalidades vão de encontro com as do papel 
social da escola, citadas no capítulo anterior, quando se refere à dominação 
ideológica da classe menos favorecida economicamente. 
Ainda, a autora afirma que: 
 
Esta marcada separação em duas vertentes distintas para atender àdemanda bem definida da divisão social e técnica do trabalho organizado e 
gerido pelo paradigma taylorista/fordista como resposta ao crescente 
desenvolvimento industrial, se complementa com a criação do sistema 
SENAI, em 1942, e SENAC, em 1946, pela iniciativa privada, como forma 
de atender às demandas de mão-de-obra qualificada. É neste período, 
também que as escolas de aprendizes artífices transformam-se em Escolas 
Técnicas Federais, com a Lei Orgânica do Ensino Industrial (Ibidem, p. 14). 
 
 
 
 
Assim, reitera-se a existência do duplo caminho: os que vão estudar com 
vistas à formação mercadológica - mão-de-obra às indústrias - e os que vão estudar 
para serem intelectuais mandantes da futura geração – classe dominante. 
Apenas em 1961, com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da 
Educação Nacional, os cursos técnicos dariam acesso ao ensino de nível superior. 
Essa diferenciação, contudo, não altera a essência do princípio educativo que era 
atender as necessidades definidas pela divisão técnica e social do trabalho de 
formar trabalhadores instrumentais e trabalhadores intelectuais através de cursos 
distintos. 
Porém, essa igualdade de direitos de acesso ao Ensino Superior durou 
apenas dez anos. Em 1971, com a Lei de Diretrizes e Bases do Governo Militar, a 
equivalência entre o Ensino Médio (secundário) e Técnico é substituída pela 
obrigatoriedade da habilitação profissional para todos os que cursassem, passando 
a ser chamado de ensino de Segundo Grau3. Assim, todos teriam formação técnica 
para servir as necessidades industriais do país. Essa articulação do ensino ao 
modelo político e econômico da ditadura, é claro, tinha seus objetivos implícitos: 
• A contenção da demanda de estudantes secundarista ao Ensino 
Superior, como forma de impedir futuras ideologias contrárias aos interesses 
governamentistas; 
• A despolitização do Ensino Secundário, por meio de um currículo 
tecnicista, que visasse apenas repetição e o cumprimento de tarefas, sem 
questionamentos. 
• A preparação de forças de trabalho qualificada para atender às 
demandas do desenvolvimento econômico que se anunciava com o crescimento 
obtido no “tempo de milagre”, o qual com pretensão anunciava o acesso do Brasil ao 
bloco do primeiro mundo. 
Sendo assim, surge na década de 70 vários cursos de ordem puramente 
técnica. Kuenzer afirma que “o Parecer 45/72 fixa em uma primeira listagem, 52 
habilitações plenas (nível técnico) e 78 habilitações parciais (auxiliar técnico), 
perfazendo um total de 130 possíveis cursos, sendo a maior parte voltada para 
ocupações do setor secundário” (1997, p.18). Vale a pena ressaltar que esse 
montante de cursos é uma visão explícita da educação para o mercado de trabalho. 
 
3 Há, ainda hoje, muitas pessoas que usam essa expressão ao se referirem ao Ensino Médio. 
 
 
 
A afirmação acima confirma-se com a fala de Agnelo Correia Viana, em 
um documento oficial: 
 
Já se pode ter idéia de que a relevante missão do ensino de segundo grau é 
a de abrir oportunidades educativas para uma grande parte dos 
adolescentes, fazendo habilitação profissional não um apêndice coercitivo e 
artificial nos currículos de estudos gerais, mais uma real preparação para as 
atividades do trabalho destinadas àqueles que o desejam, dela necessitam 
de imediato e com ela pretendem realizar suas aptidões em qualquer época 
(MEC, 1979, p.14 apud Kuenzer, 1997, p.19). 
 
Em 1975, o Conselho Federal de Educação faz um novo estudo sobre o 
sistema educacional brasileiro. No parecer 76/75 o ensino de 2° Grau deixa de ser 
puramente tecnicista passando a ter outro enfoque – o de formação 
profissionalizante básica. Segundo esta nova visão, o jovem aprenderia na escola os 
amplos princípios de formação profissional que seriam complementados na 
Universidade ou no emprego. A formação deixa de ser entendida somente como 
preparatória para o exercício de uma única ocupação e passa a ser considerada 
como formação global. Global, no sentido de formar o aluno não para o exercício de 
uma única profissão mais para várias outras. É claro que estes “ajustes” ocorreram 
devido às rápidas e profundas transformações no mundo do trabalho. O 
aperfeiçoamento viria a ser adquirido no Ensino Superior. Então, os alunos poderiam 
acessar qualquer curso superior desde que conseguissem passar pelo funil apertado 
que é o vestibular. 
Segundo Kuenzer o que concretamente fez o parecer 76/75 foi “permitir a 
coexistência de todas as ofertas possíveis – técnico pleno, técnico parcial e 
habilitação básica, acomodando a legislação à realidade, legitimando tudo o que já 
existia de tal modo que permanecesse como era antes de 1971” (1997, p. 24), 
porém com a diferença que agora haveria um núcleo comum na formação básica. A 
idéia de formação para o trabalho continua sendo alvo neste parecer. Porém abre 
vistas ao acesso ao Ensino Superior para qualquer pessoa que completasse o 
Ensino Técnico. 
Com a promulgação da Constituição de 1988, o Ensino Médio toma novos 
rumos na história. Em seu artº 208 determina o dever do Estado para com a 
educação em todos os níveis, assegurando no item II a “progressiva universalização 
do Ensino Médio gratuito”. 
 
 
 
E mais, em seu artº 205, Capítulo III, reconhece a imprescindibilidade de 
um mínimo de educação básica ao estabelecer que, “a educação, direito de todos e 
dever do Estado e da Família, será promovida e incentivada com colaboração da 
sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o 
exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. 
Estariam assim, pois, assegurados os princípios básicos, no texto 
constitucional que levariam a discussão de um projeto de educação nacional, 
comprometido com um modelo de sociedade mais democrática. 
Percebe-se nesta nova lei constitucional, a idéia de universalização dos 
direitos e acesso universal ao conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Com 
relação aos fins da educação, o artº 205 aponta para uma formação mais 
diferenciada, priorizando o desenvolvimento intelectual da pessoa, do preparo para o 
exercício da cidadania e da qualificação para o trabalho. 
Conclui-se, então, que ao longo da história, o Ensino Médio no Brasil tem 
se caracterizado pela formação puramente para o mercado de trabalho, sempre em 
consonância com os meios de produção. Porém, após a promulgação da nova 
Constituição Federal com princípios mais igualitários redireciona a educação média 
a novos caminhos e não apenasao do mercado de trabalho. 
Hoje o Ensino Médio confronta-se com duas finalidades intrínsecas: 
preparar para a vida ou preparar para o mercado de trabalho? 
 
 
 2.2 – A atual função social do Ensino Médio 
 
Sempre que se procura saber qual a função da Escola e principalmente 
do Ensino Médio, as respostas que se obtém, tanto por parte dos alunos e pais, 
quanto dos professores e demais setores educacionais, convergem para a questão 
do trabalho. Fala-se que se estuda “para ter uma vida melhor”. Mas, quando se 
procura saber o que isso significa, surge a idéia de ter sucesso, de “ser alguém na 
vida”. E, quando indagados sobre as formas de se obter essa melhoria financeira, 
surge a fala de que se consegue pelo trabalho, ou melhor, pelo emprego. Uns, 
querem emprego de imediato – geralmente a classe menos favorecida 
economicamente; outros, com maior expectativa, se preparam para conseguir 
passar no vestibular com o intuito de ter emprego melhor futuramente. Além do mais, 
 
 
 
os empregadores estão exigindo a conclusão do Ensino Médio na admissão de 
novos funcionários, o que força às pessoas a concluírem o Ensino Médio. Esta é 
uma visão ideológica da formação escolar para o trabalho. A escola é considerada a 
chave da porta do mundo do trabalho. 
Do ponto de vista ideológico Neoliberal, o modelo estrutural escolar deve 
ser tal que vise suprir as necessidades impostas pelo mercado de trabalho. A escola 
necessária a esse modelo é aquela que desenvolve no futuro trabalhador as 
habilidades cognitivas, sociais e culturais exigidas no seu futuro emprego. 
Gandin, ao discutir sobre a função social da escola atual comenta que “o 
novo papel da escola parece ser o de dotar os indivíduos de armas modernas para a 
acirrada competição do mercado de trabalho. Toda e qualquer habilidade gerada ou 
conteúdo desenvolvido deve estar a serviço deste objetivo maior” (1999, p. 64). 
Essas armas modernas não são adquiridas facilmente. O mercado de trabalho exige 
muita competência de seus trabalhadores. Competência essa que se pauta pelo 
conhecimento. 
Percebe-se ao longo da história da educação brasileira, e também nos 
dias atuais, que o Ensino Médio se constituiu como o nível de mais difícil 
enfrentamento, em termos de sua concepção, estrutura e formas de organização, 
em decorrência de sua própria natureza de mediação entre a educação fundamental 
e a educação superior. A característica mais geral observada é a de Ensino 
Fundamental, Ensino Médio propedêutico e completando pelo Ensino Superior. Ao 
fim do Ensino Superior, o aluno ganha certificado de conclusão, estando apto a 
encarar o competitivo mercado de trabalho. Percebe-se que nesse sistema, o Ensino 
Médio tem função de ligação entre o Ensino Fundamental e o Superior. 
Em sua versão propedêutica preparatória para o vestibular, o Ensino 
Médio tem se caracterizado por uma ênfase na estrita divisão disciplinar do 
aprendizado. Seus objetivos educacionais se expressavam, e usualmente, ainda se 
expressam em termos de listas de tópicos que a escola média deveria tratar, a partir 
da idéia de que o domínio de cada disciplina era requisito necessário e suficiente 
para o prosseguimento dos estudos. A escola que trabalha estritamente esta versão 
é uma escola conteudista que frisa a memorização e a decoreba. Os conteúdos são 
literalmente transmitidos. Quando questionados sobre a utilização e a aplicação de 
determinados conteúdos surge a fala: ah, não interessa. O importante é saber 
resolver para passar no vestibular. Dessa forma, parecia aceitável que só em etapa 
 
 
 
superior tais conhecimentos disciplinares adquiririam, de fato, amplitude cultural ou 
sentido prático. Geralmente é a escola procurada pela classe dominante, afim de 
conseguir acesso ao nível superior. 
Em contrapartida, na sua versão técnica profissionalizante, o ensino 
médio é caracterizado por uma ênfase no treinamento de habilidades práticas, 
associados por vezes a algumas disciplinas gerais, mas, sobretudo voltados a 
atividades produtivas ou de serviços. Treina-se para uma especialidade, razão pela 
qual se promove certo aprofundamento ou especialização de caráter técnico, em 
detrimento da formação mais geral, ou seja, promove-se competências específicas 
dissociadas de formação cultural mais ampla. Geralmente esse tipo de escola é 
destinado à classe dominada visto a difícil acessibilidade ao Ensino Superior. É 
necessário, sem dúvida, a existência desse tipo de escola que promove 
especialização profissional em Ensino Médio, mas que essa especialização não 
comprometa a formação geral para a vida pessoal e cultural em qualquer tipo de 
atividade. 
A reformulação do Ensino Médio no Brasil, estabelecida pela Lei de 
Diretrizes e Bases (LDB) da educação nacional publicada em 1996, regulamentada 
em 1998 pelas Diretrizes do Conselho Nacional de Educação e pelos Parâmetros 
Curriculares Nacionais (PCN’s), revela a “(...) necessidade de atualização da 
educação brasileira, tanto para impulsionar uma democratização social e cultural 
mais efetiva pela ampliação da parcela da juventude brasileira que completa a 
educação básica quanto para responder aos desafios impostos pelos processos 
globais (...)” que exigem um trabalhador mais qualificado. Assim, a seção IV da LDB, 
mais precisamente o artº 35, estabelece o Ensino Médio como etapa conclusiva da 
educação básica cujas finalidades são: 
 
I – A consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no 
ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento dos estudos; 
II – A preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para 
continuar aprendendo, de modo a ser capaz se adaptar com flexibilidade as 
novas condições de ocupação e aperfeiçoamentos posteriores; 
III – O aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a 
formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do 
pensamento crítico. 
IV – A compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos 
produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada 
disciplina. 
 
 
 
 
Baseado nos princípios da lei maior, os Parâmetros Curriculares 
Nacionais (PCN’s), trazem: 
 
O novo ensino médio, nos termos da lei, de sua regulamentação e de seu 
encaminhamento, deixa de ser, portanto, simplesmente preparatório para o 
ensino superior ou estritamente profissionalizante, para assumir 
necessariamente a responsabilidade de completar a educação básica. Em 
qualquer de suas modalidades, isso significa preparar para a vida, qualificar 
para a cidadaniae capacitar para o aprendizado permanente, em eventual 
prosseguimento dos estudos ou diretamente do mundo do trabalho.(2002, 
p.8) 
 
Estes princípios que norteiam a Educação Média priorizam a formação 
para vida, pois no mundo atual, de várias e rápidas transformações estar formando 
para a vida é muito mais do que apenas formar para uma determinada profissão. 
Formar para vida implica em traduzir o conhecimento em ação, o que é, sem dúvida, 
tarefa árdua, difícil e de longa caminhada, mas não impossível. 
As mudanças ocorrem dias após dias. Ficar estático no tempo é sinal de 
decadência. Um país que almeja um melhor padrão de vida precisa ter uma 
população que disponha de uma educação de maior qualidade. Isso desafia a 
comunidade educacional a pôr em prática propostas que superem as limitações do 
antigo Ensino Médio, organizado em duas tradições formativas, a pré-universitária e 
a profissionalizante. A escola deve ser como um centro de excelência na formação 
básica para que possa, realmente, colaborar para uma melhor qualidade de vida de 
nossa gente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO III 
O PROFESSOR 
 
3.1. Papel social do professor nos dias atuais 
 
Tornar a escola um centro de excelência na formação básica que 
contribua para uma melhor qualidade de vida da população excluída socialmente 
desafia a “comunidade educacional” a repensar sua prática docente. Em função 
dessa necessidade é preciso rediscutir o papel social do professor e sua real 
contribuição no processo ensino-aprendizagem. 
Um dos poucos consensos entre educadores é o fato de que ao professor 
é atribuído um papel de suma importância para o sucesso da aprendizagem dos 
alunos. Por isso, é amplamente reconhecido que a presença, em cada sala de aula, 
de um professor bem preparado, motivado e comprometido com a aprendizagem 
dos alunos poderá garantir a eficácia, a médio e longo prazo, dos objetivos 
propostos pela nova Lei. 
A LDB é clara ao definir as finalidades do Ensino Médio. Dentre estas, lê-
se: "o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação 
ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico" (art. 35, 
inciso III). 
Eis aí uma das chaves para a compreensão do papel dos sistemas 
educacionais, incluindo-se a escola e os professores. Ou a educação escolar 
contribui efetivamente para que o educando se torne uma pessoa crítica e sensível, 
dotada de identidade e autonomia, como pretende o novo Ensino Médio, ou segue-
se insistindo em restringir a vida dos alunos ao acúmulo de informações muitas 
vezes desconexas e a avaliações que quase sempre não expressam o processo de 
aprendizagem. 
Embora todas as ações voltadas para a melhoria das condições de 
funcionamento das escolas e o aprimoramento da gestão escolar sejam importantes, 
somente professores que se assumem como protagonistas das mudanças poderão 
reinventar a prática cotidiana de ensinar e de aprender, fazendo do desenvolvimento 
curricular um processo vivo e dando à gestão educacional a dimensão pedagógica 
que ela requer. 
 
 
 
É o professor, em última instância, que dá sentido e concretude às 
reformas que pregam transformar o ensino propedêutico num ensino para a vida; 
Quando as incorpora na sua prática profissional, constroe, no seu dia-a-dia, uma 
nova concepção de organização pedagógica. 
Sem o engajamento do professor como agente principal das mudanças, 
as diretrizes e parâmetros curriculares nacionais para a educação básica não 
passam de literatura que alimenta o sonho de se construir uma escola que contribua 
na transformação da realidade. 
Espera-se que a escola abra suas portas, olhos e ouvidos. Que saiba 
incorporar a diversidade das práticas sociais como subsídios ao processo de 
aprendizagem e que saiba propiciar o retorno dessa mesma aprendizagem às 
práticas. Que mude o seu dia-a-dia, as suas rotinas. Que não tenha tantas rotinas, 
mas que proponha desafios aos alunos, estimulando-os à curiosidade, à formulação 
de hipóteses, à busca de respostas, à construção de mecanismos e ferramentas de 
estudo, de pesquisa, enfim, de produção de conhecimento. Que incorpore o erro 
como parte do processo de aprendizagem e não como desvio moral passível de 
punição ou banimento. Que supere assim a cultura do fracasso que destrói a auto-
estima do educando e compromete o mesmo processo de construção da identidade 
pelo qual devia zelar. 
A LDB trouxe a autonomia às escolas. São elas que devem elaborar seu 
Projeto Político Pedagógico, baseadas na realidade que vivenciam, na sua 
concepção de Educação e no que esperam para o futuro. Não há conteúdo 
programático listado a ser seguido, não há livros obrigatórios a serem adotados. 
Esta autonomia causa angústia em alguns docentes, acostumados a tomar como 
base programas de vestibular e índices de livros didáticos. Repensar a organização 
curricular causa desconforto porque gera desequilíbrio. Implica mexer na estrutura 
praticamente imutável e hierarquizada dos saberes e disciplinas. 
Segundo Gandin: 
 
Os professores têm que preocupar-se com os “como”, com as técnicas, a 
metodologia de trabalho, mas somente depois de ter clareza sobre qual 
rumo desejam tomar, ou seja, depois de ter traçado (ainda que 
provisoriamente) o seu “para onde” e ter respondido o seu ‘por quê’ – o 
trabalho ganha consistência se esta resposta não é individual e sim do 
conjunto da escola. (1999, p.131) 
 
 
 
 
Nesse sentido, cabe aos professores selecionar o quê e como aprender 
de cada disciplina. Sendo meios e não fins em si mesmos, os conteúdos 
disciplinares devem ser significativos aos jovens, favorecer o desenvolvimento de 
competências. 
Isso significa dizer que a escola não terá que abrir mão da qualidade do 
ensino que oferece. Mas importa reconhecer que a qualidade da educação não 
reside na quantidade do que se ensina, mas na quantidade e qualidade do que se 
aprende. 
Ensinar não se trata apenas de uma coleção de habilidades técnicas, um 
pacote de procedimentos. Técnicas e habilidades são importantes, mas ensinar é 
muito mais do que isso. O ato de ensinar tem relação com a natureza de decisões e 
dos critérios dos professores. Ensinar é enfrentar complexidade, agir na urgência, 
tomar decisões responsáveis nos momentos de incerteza. 
Segundo Freire “o educador democrático não pode negar-se o dever de, 
na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, 
sua submissão” (1998, p. 28). 
Percebe-se, assim, a importância do papel do educador,pois sua tarefa 
não é apenas ensinar os conteúdos, mas também ensinar a pensar certo. Por isso 
cabe à escola, na pessoa do educador, respeitar não só os saberes com que os 
educandos chegam à escola, mas os saberes socialmente construídos na prática 
comunitária. Ensinar exige reflexão, pesquisa, estética e ética. A prática educativa 
tem de ser, em si, um testemunho rigoroso de docência e de pureza porque todo 
pensar certo é radicalmente coerente, exigindo que se reflita a partir da prática. É 
pensando criticamente a prática de hoje e de ontem que se pode melhorar a próxima 
prática. Uma das tarefas mais importantes da prática-educativo-crítica é proporcionar 
as condições em que os educandos e educadores ensaiam a experiência profunda 
de assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, transformador. Assim, 
o papel do professor é saber que ensinar não é transferir conhecimentos, mas criar 
as possibilidades para a sua própria produção. 
Paulo Freire diz: 
 
É preciso insistir: este saber necessário ao professor que ensinar não é 
transferir conhecimento – não apenas precisa de ser aprendido por ele e 
pelos educando nas suas razões de ser – ontológica, política, ética, 
epistemológica, pedagógica, mas também precisa ser constantemente 
testemunhado, vivido. (1998, p. 52) 
 
 
 
 
 
É necessário que o professor seja um profissional. Para Altet “o professor 
profissional é, antes de tudo um profissional da articulação do processo ensino-
aprendizagem em uma determinada situação, um profissional da interação das 
significações partilhadas” (2001, p. 26). 
Segundo Paro, a escola também tem função de transmitir o conhecimento 
historicamente acumulado, “(...) para que a humanidade não tenha que reinventar 
tudo a cada nova geração, fato que a condenaria a permanecer na mais primitiva 
situação (...)” (apud FERRETTI, p. 109). 
No entanto, deve-se reconhecer que estes conteúdos transmitidos sejam 
conhecimentos com vigência e eficácia social. Que estejam ligados a problemas 
concretos da natureza, da sociedade e da cultura, que se estruturem em torno de 
conceitos e teorias com alto poder explicativo e aplicáveis a contextos diversos. 
Para Oliveira: 
 
A prática educativa deveria estar, então, necessariamente vinculada a uma 
prática social global. Ou seja, “a concretização efetiva do processo de 
transmissão-assimilação do saber elaborado, de uma maneira ou de outra, 
é o ato mesmo de instrumentalizar os educandos para sua prática social 
mais ampla” (apud PEREIRA, 2000, p. 27). 
 
Assim o conteúdo escolar não ficará obsoleto ou esquecido. Poderá ser 
ampliado e mobilizado em diferentes situações ao longo da vida, permitindo ao aluno 
continuar a aprender, seja na continuidade formal dos estudos, no mundo do 
trabalho ou na vida pessoal e social. 
Para concluir, é importamte que o professor se conscientize da função da 
escola na transformação da realidade social dos seus alunos e que tenha clareza da 
necessidade da prática educativa estar associada a uma prática social mais global, 
com vistas a formar para a vida. 
Neste mundo altamente globalizado não podemos deixar nossos alunos a 
ver navios. Estamos vivendo a era do conhecimento. A escola deve ser o lugar 
privilegiado na construção deste. Sendo assim, não podemos esquecer que a 
formação para a vida não implica deixar o conhecimento em segundo plano, mas 
sim, saber mediar didaticamente o conhecimento erudito de uma forma 
interdisciplinar, contextualizada e que tenha significado aos alunos. Que o conteúdo 
lecionado não seja apenas para cumprir currículo, mas que tenha efetiva 
 
 
 
contribuição social para a vida do aluno. Para isso, é necessário que a comunidade 
escolar desenvolva seu Projeto Político Pedagógico calcado nas suas necessidades 
e que coloquem em prática através dos professores no dia-a-dia de sala de aula. 
 
 
3.2. O perfil docente na atualidade educacional 
 
Como sabemos, o ensino na atualidade atravessa um momento ímpar em 
sua história. Enfrenta a dúbia realidade em relação à formação para a vida versus 
formação para o trabalho. A condição social pós-moderna impõe à prática 
educacional um número bastante expressivo de demandas, responsáveis por obrigar 
os educadores a revisarem e renovarem, permanentemente, o seu entendimento 
acerca dos sentidos da educação que defendem e executam. 
A escola, organizada nos moldes tradicionais e tecnicistas, não atende às 
exigências constituídas hoje, pelo avanço da sociedade, no que diz respeito aos 
conhecimentos que devem compor a formação dos alunos. Não mais se sustenta a 
fragmentação do conhecimento, acentuando-se, ao contrário, a necessidade de uma 
formação de caráter mais geral. 
Deve a escola formar o cidadão multicompetente, curioso, capaz de reunir 
e transferir recursos conceituais e de procedimentos, que permitam aos cidadãos 
criar suas próprias saídas aos desafios enfrentados. A imprecisão, a mutabilidade e 
as incertezas do nosso tempo devem levar a escola a trabalhar com a dúvida em 
lugar das verdades absolutas. 
As habilidades requeridas pelo marcante avanço das tecnologias e das 
novas formas que o trabalho vem assumindo, impõem a exigência de uma maior 
competência dos educadores para entenderem e interpretarem informações, o que 
implica o domínio cultural sobre as diferentes áreas do conhecimento e das relações 
existentes entre elas. 
Hoje, os educadores e as instituições de ensino são chamados a 
refletirem sobre as habilidades e as competências inalienáveis à formação dos 
jovens, o que implica, necessariamente, pensar na competência dos profissionais de 
educação. 
Alteram-se as condições de trabalho e os padrões da profissão. A 
exigência define-se, hoje, sobretudo, pela constituição de um educador com um 
 
 
 
perfil próprio, contudo, capaz de se transformar inúmeras vezes, tendo em vista as 
contingências do contexto no qual se desenvolve a ação, sem que com isso venha a 
colocar em risco os princípios éticos inerentes à sua profissão. Novas habilidades 
cognitivas, sociais e relacionais são requeridas a todos, quase como condição de 
sobrevivência. 
Mais do que nunca, o educador não pode ser considerado somente como 
aquele que “dá aula”. Sua ação não se esgota nos limites das quatro paredes da 
sala de aula e, nela, não se apresenta somente como representante do ofício 
escolhido, mas como a pessoa que é composta de saberes, experiências, dúvidas, 
aspirações, conflitos, entre outros. Não se separa o educador da pessoa. 
A formação, entendida naperspectiva da promoção de transformações e 
não simplesmente como oferta de um instrumental técnico a ser utilizado, perpassa 
diferentes momentos e dimensões do educador, implicando-o como pessoa e como 
história de vida, que se integram e compõem a sua identidade profissional. 
Os professores estão totalmente conscientes do fato de que o trabalho 
docente mudou bastante nas últimas décadas. Ensinar não é mais o que era. As 
especulativas intensificaram-se. As obrigações ficaram mais difusas. Como já foi 
dito, o professor é mais do que um simples pacote de conhecimento. Há muito mais 
no desenvolvimento de um professor do que a aprendizagem de novas habilidades. 
São muitos os fatores importantes na construção de um professor. A visão do 
professor como pessoa possui implicações essenciais para a compreensão de 
mudança, de desenvolvimento profissional. 
Fullan (2000, p. 41) nos remete a um fato bastante interessante sobre o 
professor: antes de ser professor ele é pessoa. Julgamos a competência do docente 
e nos esquecemos que há vários aspectos em torno de seu trabalho; o sexo, a 
idade, a experiência são fatores que estão ligados diretamente com a prática 
pedagógica. Diferentes tipos de contextos, de lideranças e de relações de trabalho 
são necessários para garantir a continuidade das mudanças. O contexto aqui 
invocado é aquele que corporifica uma determinada cultura de ensino, um conjunto 
específico de relações de trabalho entre professores, colegas de trabalho e alunos 
conectados a uma comunidade de apoio e de questionamento comprometida com 
metas comuns e com o aperfeiçoamento contínuo. 
Fullan diz que ensinar: 
 
 
 
 
“(...) sempre será um trabalho exaustivo, os professores estão envolvidos 
em centenas de interações geradoras de tensão. Uma delas decorre de 
batalhas solitárias e de esforços não-valorizados, de perda de referências e 
de sentimentos corrosivos de desesperança. Levando o professor a 
acreditar em sua incapacidade. O cansaço em decorrência à sobrecarga e 
as culturas escolares fazem com que o professor se enfraqueça, perca sua 
identidade e a pressão aumenta (ibidem, p. 17) 
 
Se Paulo Freire (1998, p. 32) afirma que para ensinar é necessário 
pesquisar, pois não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino, Fullan (2000, 
p.17) em contra partida diz que as escolas precisam se transformar e que o 
professor está perigosamente sobrecarregado. Está ocupado buscando formas para 
saber lidar com uma gama de habilidades e de dificuldades que, em muitas 
situações rotulam e restringem sua prática. 
Na atualidade das exigências impostas à educação, para o professor, não 
basta ter o domínio do conhecimento específico da sua disciplina. Na verdade, o que 
é necessário hoje, mais do que nunca, é a presença de um profissional ciente e 
implicado na dinâmica viva da escola, o qual, além da dedicação ao conhecimento e 
ao aluno, possua uma visão sistêmica do espaço onde atua. 
A competência, solicitada aos educadores, parece ir bem além daquela 
referida aos saberes específicos às áreas do conhecimento. A estes se devem 
somar o conhecimento e a capacidade de lidar com o aluno, de trabalhar a 
informação que chega à sala de aula por vias diversas, de responder às 
expectativas inerentes a uma nova abordagem do currículo, tanto no que diz 
respeito à seleção e ao tratamento conceitual e integrador de conteúdos, quanto ao 
tratamento metodológico adotado. Exige-se, portanto, um profissional com saberes 
diferenciados e com sensibilidade para disponibilizá-los adequadamente. 
A competência dos profissionais da educação parece referir-se ao 
conjunto de características que o educador, sintonizado com as questões do seu 
tempo/espaço histórico, possa vir a reunir para o desempenho de sua ação 
pedagógica educacional. A par de um conhecimento técnico e inalienável, 
agregarem-se atitudes pessoais de respeito e vislumbre do outro, de 
compartilhamento e participação no coletivo de trabalho, de abertura à crítica e 
revisão de suas ações e conceitos, de coerência e retidão frente aos valores 
defendidos, tudo isso aliado a uma consciência crítica do educador sobre a realidade 
na qual se inscreve a sua prática e a existência de seus alunos. 
 
 
 
Na medida em que essa condição de saber, em todos os níveis, não é e 
nem poderia ser definitiva, sobretudo hoje, numa existência caracterizada por uma 
estabilidade precária, entende-se porque a competência, e igualmente a formação, 
não podem ser conquistadas de uma vez por todas em um processo terminal, mas, 
antes, como aquisição complexa, diversa e exigente, inscrita num tempo muito mais 
longo. 
A mudança educacional depende dos educadores e da formação que 
possam ter. Dependerá, também, das transformações possíveis a serem operadas 
no sistema de ensino e de seu funcionamento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO IV 
A PESQUISA 
 
Como vi no segundo capítulo, o papel e a função social do Ensino Médio 
tem passado por diferentes mudanças: modernidade, futuro, esgotamento de 
utopias, de sentido e paradigmas. Isso permite-me pensar a educação como uma 
prática social, que também se encontra em crise, onde o professor é a pessoa que 
representa a promessa ilustrada, porém não conquistada, fruto da própria indefinição 
do atual papel social da profissão-professor e do próprio sistema de ensino. 
Partindo desse princípio, realizei uma pesquisa com os professores do 
Ensino Médio a fim de analisar seus pensamentos a respeito do papel social do 
ensino ministrado nas Escolas Públicas, bem como sua formação e prática docente. 
A escola4 escolhida pertence à Rede Pública e está localizada no Sul de Santa 
Catarina. Todos os professores foram envolvidos, totalizando 9 (nove) ao todo. 
Nesse capítulo passarei a analisar as questões sobre o papel social do 
professor e da Escola – mais especificamente o Ensino Médio - com base nos dados 
coletados através de questionário5 contendo perguntas abertas que foram 
respondidas pelos professores da referida escola. 
Num primeiro instante, procurei conhecer os motivos que levaram cada 
um dos pesquisados a escolher a profissão professor. Como sabemos, a profissão 
docente é composta majoritariamente por mulheres e que são muitos os fatores que 
influenciam na escolha da mesma. Uma das pesquisadas relata que fez esta opção 
“por morar em uma região onde não há oferta de emprego, principalmente para o 
sexo feminino”. Outra diz que: “meus pais gostariam que eu fosse professora”.Essas 
respostas demonstraram a ausência de uma autonomia na hora da escolha da 
profissão magistério, principalmente para o sexo feminino. 
Em seguida, busquei delinear o perfil dos professores, desta escola, que 
atuam no Ensino Médio. Destes professores, 22% desempenham há mais de dez 
anos a função docente, 45% estão atuando entre cinco e dez anos e os demais, 
22%, menos de cinco anos. Estes professores atuam no Ensino Médio por diferentes 
razões. Uns dizem que sua disciplina é exclusiva desse nível de ensino; outros, 
dizem que fizeram esta escolha porque os alunos apresentam mais maturidade e 
 
4 Por princípios éticos não identificarei a escola pesquisada. 
5 Vide questionário em anexo 
 
 
 
mais senso crítico. 
Com relação à formação superior, 56% dos professores têm graduação 
na área em que atuam, sendo eles efetivos na escola. Os demais, 44% não são 
formados na disciplina que lecionam atualmente – professores transitórios pois não 
são efetivos. 
Com vistas nas informações citadas acima, posso questionar a qualidade 
de ensino oferecida pela escola pública. Percebo que o número de profissionais na 
educação que não têm formação ainda é grande. Como podemos esperar uma 
escola de qualidade, que forme para a vida, se os profissionais que nela atuam não 
tem formação na área que lecionam? Como fazer discussões a respeito do processo 
ensino-aprendizagem se estes profissionais não têm embasamento teórico a 
respeito de tais teorias? 
Ensinar não é tarefa fácil, não é simples. Ensinar exige competência 
profissional. Conforme Freire “(...) nenhuma autoridade docente se exerce ausente 
de competência” (1998, p.103). Para ele, o professor que não leva a sério sua 
formação, o professor que não estuda, que não se esforça para estar à altura de sua 
função, não tem moral para coordenar as atividades de sua classe. Ainda, ressalva 
que a incompetência desqualifica o processo de ensino e a própria autoridade do 
professor. 
A discussão sobre a formação e atuação dos professores amplia-se 
quando percebo que ainda há falta de condições materiais do trabalho docente. 
Ainda hoje, persistem problemas nas condições do exercício profissional, fato este 
que foi comprovado após a aplicação da pesquisa, pois 56% dos professores 
trabalham mais de duas disciplinas. Tais aspectos nos levam a entender que ainda 
há sérios problemas relacionados à formação e atuação dos professores. 
Outro fato que requer atenção é de que o magistério é encarado como 
“bico”. Isso se evidenciou a partir da pesquisa, pois alguns professores entrevistados 
têm vínculos empregatícios distintos. Durante o dia desempenham funções que nada 
tem em comum com o magistério. 
A situação de trabalho dos profissionais do Ensino Médio agrava-se ainda 
mais quando se analisa a carga horária. Dos professores entrevistados somente 
11% têm carga semanal equivalente à 10 h/a6, 22% trabalham 30 h/a semanais. 
 
6 h/a significa hora/aula 
 
 
 
Na rede pública os professores geralmente têm jornada de trabalho 
equivalente à 40 h/a semanais. A pesquisa comprova tal afirmação, porque 44% 
deles estão dentro desta margem. 33% estão além da carga horária “normal”, pois 
têm jornada de trabalho superior à 50 h/a. E mais, 11% dos restantes trabalham 
somente 10 h/a, porém a pesquisa revela que eles possuem outra profissão além da 
docência, comprometendo todo seu tempo livre. Essa realidade, que se apresenta 
nessa escola e com esses professores, faz parte de todo um contexto social de 
desvalorização da profissão professor. O que ocorre é que grande parte dos 
professores se sobrecarrega em função da questão salarial. 40 h/a não garante 
renda satisfatória, muito menos uma vida digna em relação a salário. 
Em contra partida a isso fica um questionamento: qual o tempo que estes 
professores disponibilizam para pesquisar? Novamente retomo a pergunta sobre a 
qualidade de ensino. Segundo Freire “não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem 
ensino” (1998, p. 32). Talvez, se os professores tivessem mais tempo poder-se-ia 
melhorar a prática educativa. Para isso seria necessário repensar e estudar o plano 
de carreira desta área profissional no que diz respeito à carga horária. 
A questão da formação do docente ao lado da reflexão sobre a prática 
educativa é análise que se incorpora à análise de tempo que o docente dispõe para 
pesquisar. Segundo Freire (1998, p. 32) fala-se hoje com insistência no professor 
pesquisador. O que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou forma 
de ser ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da natureza da prática 
docente a indagação, a busca, a pesquisa. O que se precisa é que, em sua 
formação permanente, o professor se perceba e se assuma como pesquisador. Na 
verdade ser pesquisador com uma carga horária tão exaustiva é utopia, é 
impossível. Se Freire fala sobre a importância da pesquisa, Fullan diz que alguns 
dos problemas do ensino, de maneira geral, estão relacionados à sobrecarga 
acumulada pelos profissionais da educação. Segundo ele (2000, p.17) os 
professores estão conscientes do fato de que seu trabalho mudou bastante nas 
últimas décadas. Ensinar não é mais o que era. As expectativas intensificaram-se. 
As obrigações ficaram mais difusas. As inovações como soluções, ironicamente, 
exarcebam o problema da sobrecarga. Os modismos e outras mudanças 
passageiras, as reformas em massa e multifacetadas – tudo isso deixa o professor 
ainda mais desanimado e sem tempo. A sobrecarga de expectativas supera a 
sobrecarga do trabalho. À medida que os professores enfrentam as expectativas 
 
 
 
crescentes maior é a sobrecarga de inovações e de reformas. É importante que eles 
busquem formas para por em prática o ato da pesquisa. Assim, partindo de 
princípios distintos, ambos autores comungam a idéia de que não há como ensinar 
sem pesquisar. Diante disso há necessidade de se pensar no tempo coletivo para 
preparação de aulas e outras tarefas coletivas do ambiente escolar, visando 
trabalhar de forma interdisciplinar, sempre de acordo com os objetivos estabelecidos 
no Plano Político Pedagógico da escola. Sendo assim, a política pública deveria 
repensar o entendimento sobre o assunto “hora-atividade”. Acredito que muito 
poderia melhorar se o profissional da educação permanecesse efetivamente na 
escola as quarenta horas de atividades, sendo que 50% dessa carga horária seria 
destinada à docência e o restante, momentopara elaboração de material didático, 
atendimento aos alunos com defasagem (aulas de reforço), correção de provas, 
planejamento coletivo, reuniões pedagógicas, etc. 
Outro questionamento dirigido aos educadores desta escola foi referente 
à função social da escola e do professor do Ensino Médio. Na visão dos professores 
entrevistados a educação, num sentido amplo, cumpre sua função de socialização, 
uma vez que a configuração social da espécie se transforma em um fator decisivo da 
humanização. No entanto parece que ainda há muitas dúvidas acerca do papel 
social da escola e do professor. A maioria dos entrevistados parece não saber de 
fato o que é socialização. 
Para um dos professores entrevistados compete ao Ensino médio: 
“preparar para a vida e para o vestibular”. 
Dentro deste complexo e dialético processo para que a escola cumpra 
sua função nas sociedades contemporâneas, é necessário que os educadores da 
escola aqui mencionada aprofundem estudos para que compreendam, de fato, quais 
são os objetivos explícitos e latentes do processo de socialização mediante alguns 
mecanismos e procedimentos. As definições acerca da função social da escola aqui 
citada são diversas e distintas. Há educadores que entendem a escola como uma 
trama de relações sociais que se organiza a partir da experiência cotidiana e pessoal 
do aluno e que compete ao professor e à escola oportunizar ao aluno condições 
para que transforme o meio em que vive. Tal afirmação comprova-se através do 
depoimento de um dos professores: “a função social da escola e do professor, bem 
como a função social do Ensino Médio é aproveitar todo o conhecimento do aluno, 
pois ao chegar no Ensino Médio, traz consigo uma carga de experiências que se 
 
 
 
traduzem como conhecimento historicamente adquirido, tendo, o professor a função 
de mediador”. 
Por outro lado há educadores que defendem a idéia de que o professor 
do Ensino Médio deve exclusivamente ensinar conteúdos que sejam subsídios para 
o ingresso na universidade, afim de que o aluno garanta um lugar na sociedade, ou 
seja, que esteja preparado para enfrentar o mercado de trabalho. Uma grande parte 
dos educadores questionados perdem-se em meio a conceitos equivocados sobre a 
função social não só do Ensino Médio como a do professor. Dão atenção exclusiva à 
transmissão de conteúdo e intercâmbio de idéias ocasionando uma ruptura na 
concepção e no trabalho pedagógico induzido pela primazia de uma formação 
totalmente utilitarista, quando não, imediatista. Assim os alunos aprendem e 
assimilam teorias/conteúdos. Este aprender e assimilar são conseqüências da 
transmissão, não das interações sociais do próprio ambiente escolar ou fora dela. 
Converte-se assim numa aprendizagem acadêmica para passar no vestibular. Isso 
se comprova a partir do depoimento de uma professora que defende a idéia que o 
Ensino Médio “deve garantir ao educando os conteúdos”. 
Como já disse, os professores encontram-se confusos, perdidos em 
relação à definição da função social da escola. Um dos pesquisados afirma que o 
professor da rede pública deve “(...) ensinar e repassar conhecimentos com 
qualidade”. Já, outro, diz que o educador deve “(...) mediar”. Ser o elo entre o aluno 
e o que ele busca na escola”. 
As contradições são muitas. Cada um dos seguimentos parece 
desempenhar sua função separadamente. A escola parece estar desvinculada do 
professor e este do processo e da sua função. Portanto pode-se afirmar que na 
escola, como em qualquer instituição social marcada por contradições e interesses 
em confronto, existem espaços de relativa autonomia que podem ser utilizados para 
desequilibrar a evidente tendência à reprodução conservadora do status quo 
(GÓMEZ, 1996, p. 19). Assim o processo de socialização acontece sempre através 
de um complicado e ativo movimento de negociação em que as reações e 
resistências dos professores e alunos como indivíduos provocam a recusa e 
ineficiência das tendências reprodutoras da instituição escolar. Os dados da 
pesquisa comprovam que os professores da escola escolhida para a realização 
desta pesquisa estão preocupados com “preparar o aluno para o vestibular”, com 
conteúdos programáticos e com a inserção do educando no mundo do trabalho. 
 
 
 
Entendem o aluno como parte, não como todo, dividindo em aluno-escola versus 
aluno-sociedade. 
Os professores quando afirmaram: “(...) preparar o aluno para enfrentar o 
mundo lá fora (...)”, esquecem que a escola faz parte do mundo. Portanto não pode 
estar dissociada do mundo, ou seja, da sociedade, pois a escola faz parte dela e, em 
alguns momentos, está a seu serviço. As relações que se estabelecem dentro da 
escola, muitas vezes, são reflexos do que ocorre fora dela. 
Sei que se atribui quase tudo à escola e aos professores. Os 
acontecimentos sociais são de responsabilidade de todos. Não só a escola age 
sobre o aluno, mas a família, os amigos, os meios de comunicação e a própria 
sociedade. Então, responsabilizar somente os educadores por tudo que ocorre é 
negar a existência do problema. Portanto a função social da escola e dos 
professores do Ensino Médio ultrapassa a reprodução da teoria, pois embasa-se no 
conhecimento público para provocar o desenvolvimento do conhecimento privado de 
cada um dos seus alunos (GÓMEZ, 1996, p. 22). 
O último questionamento feito aos educadores foi a respeito do 
entendimento de cada um sobre o “ensinar para a vida”. A maioria dos professores 
parece não ter muito conhecimento acerca do assunto. Falta-lhes conceitos teóricos 
sobre a teoria do formar para a vida. Associam formar para a vida a preparar o aluno 
para o mercado de trabalho, conforme declaração de um dos pesquisados. 
Sem compreender o que se faz, a prática pedagógica é uma reprodução 
de hábitos e pressupostos dados ou respostas que os professores dão a demandas 
ou ordens externas. Conhecer a realidade herdada, discutir os pressupostos de 
qualquer proposta e suas possíveis conseqüências é uma condição da prática 
docente ética e profissionalmente responsável. 
Portanto, o enfoque dado ao formar para a vida exige além da prática 
profissional do docente, o conhecimento da visão teórica aqui mencionada. Parece-
me que falta aos professores dessa escola conhecer o que é “formar para a vida” 
estreitando, assim, a disparidade existente entre teoria e prática. 
Se por um lado falta a estes professores a investigação referente às 
concepções de educação aqui abordadas, o conhecimento pedagógico será útil e 
relevante a eles e, certamente, será incorporado ao pensamento e ação destes. 
Por outro lado, os educadores revelam desejos e expectativas, embora 
ingênuas e tímidas, a respeito do ato de ensinar.O senso comum e a investigação pedagógica possibilitam uma melhor 
integração do docente ao processo-ensino-aprendizagem. Se falta a esses 
educadores conhecimentos teóricos para discernir a teoria do formar para a vida, 
sobra-lhes razões para acreditar que buscam alternativas e esclarecimentos, embora 
ainda insuficientes. 
Reconhecidamente os professores estão vivendo e sendo influenciados 
pela crise pela qual passa a educação. O momento atual exige do professor 
mudança de atitude. Parece-me relevante encerrar este capítulo registrando o 
depoimento de um dos professores sobre da necessidade de transformar: “Como 
consideração final, gostaria de dizer que não sei tudo, tenho muito a aprender, mas 
entendo que, a classe de educadores está carente de ética e união. Eu nunca ouvi 
professores falarem em ‘greve’ por mudanças, greve por ética, por respeito, ou 
ainda, greve por conhecimento”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCLUSÃO 
 
A função social da escola distingue-se de outras práticas educativas, 
como as que acontecem na família, no trabalho, na mídia, no lazer e nas demais 
formas de convívio social por constituir-se em uma ajuda intencional, sistemática, 
planejada e continuada para crianças e jovens durante um período contínuo e 
extensivo de tempo. A função da escola em proporcionar um conjunto de práticas 
preestabelecidas tem o propósito de contribuir para que os alunos se apropriem de 
conteúdos sociais e culturais de maneira crítica e construtiva. Esta função 
socializadora nos remete a dois aspectos: o desenvolvimento individual e o contexto 
social e cultural. É nesta dupla determinação que nos construímos como pessoas 
iguais, mas ao mesmo tempo, diferentes de todas as outras. Iguais por 
pertencermos à mesma matriz cultural, o que no permite fazer parte de grupos e 
compartilhar com outras pessoas um mesmo conjunto de saberes e formas de 
conhecimento que, por sua vez, só é possível ao que individualmente pudermos 
incorporar. Não há individual possível à margem da sociedade, da cultura. 
É no universo da escola que o aluno vivencia situações diversificadas que 
favorecem o aprendizado, para dialogar de maneira competente com a comunidade, 
aprender a respeitar e a ser respeitado, a ouvir e ser ouvido, a reivindicar direitos e 
cumprir obrigações, a participar ativamente da vida científica, cultural, social e 
política do país e do mundo. 
O papel formal da escola é o de ser a principal responsável pela 
organização, sistematização e desenvolvimento das capacidades científicas, éticas e 
tecnológicas de uma nação. Inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de 
solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, 
seu preparo para o exercício da cidadania, sua qualificação para o trabalho, bem 
como, meios para progredir nele e em estudos posteriores. 
O Ensino Médio, como é entendido, não favorece a realização das 
ambições cultivadas por seus alunos. Mas é necessário que cada um vença os 
obstáculos existentes e teste a sua perseverança, mesmo em condições hostis. Isso 
não exime o governo de suas obrigações nem transfere aos estudantes todas as 
responsabilidades de vencer, usando apenas a sua obstinação e sem dispor de um 
ensino qualitativo. 
É imperioso, porém, não esmorecer, mentalizar um projeto de vida e 
 
 
 
persegui-lo. É também importante que os alunos compreendam a luta dos 
professores e diretores de escola pela recuperação do ensino público Fundamental 
e Médio. 
Nessa perspectiva se inclui a tarefa de repensar o papel do professorado 
no Ensino Médio, capacitando-os cada vez mais. O professor deve oferecer aos 
seus alunos referências básicas do conhecimento e transmitir valores. Mas, acima 
de tudo, cabe a ele ser um desafiador, partindo do perfil da sua classe para conduzi-
la sempre a uma etapa mais ousada e motivá-la a conquistar algo que vá além da 
competência já adquirida. 
O aluno quer ver em seu professor não só o depositário de informação 
atualizada, mas um indivíduo que tem a capacidade de analisar e relacionar 
variáveis e fatos, de forma superior a que ele, aluno, consegue fazer. Não basta ao 
docente, demonstrar conhecimento dos fatos. Isso o aluno pode obter pelos meios 
de comunicação de massa. O que ele espera, na sala de aula, é uma interpretação 
surpreendente e diferenciada. 
Uma revisão do papel docente deve coincidir com a melhora da gestão 
escolar, a expansão qualitativa e quantitativa do sistema, o aperfeiçoamento dos 
currículos. Neste novo contexto serão desenvolvidas atitudes para fazer das 
próximas décadas uma era civilizatória, marcada pelo espírito de empreendimento e 
solidariedade. 
A escola pública, em qualquer nível, deve guiar-se pelo culto à cidadania 
e pela excelência pedagógica. Somente assim o estudante guardará 
prazerosamente a sua memória escolar. A sala de aula é um lugar inesquecível, 
para o bem ou para o mal. Qualquer adulto lembra, com saudade ou alívio, a 
configuração exata do espaço retangular em que aprendeu as primeiras letras e 
depois, no colégio e na faculdade, veio a descobrir os conhecimentos necessários à 
vida em sociedade e ao trabalho. Tornar esse lugar marcante no melhor sentido é 
uma tarefa dos mestres, principalmente no ensino público. 
É importante que o jovem não apague de sua lembrança o tempo vivido 
na escola. Não por um exercício gratuito de nostalgia, mas porque nesse período 
teve alguma coisa definitivamente colada à personalidade e que definiu, para toda a 
vida, a sua visão de mundo. 
A estrutura do atual Ensino Médio é a de um curso enciclopédico, 
supostamente propedêutico ao Ensino Superior. Querendo tudo ensinar, pouco 
 
 
 
ensina e, deste modo, falha em sua finalidade propedêutica. 
O atual Ensino Médio, nos tempos correntes, não se destina apenas a 
alguns, mas à grande maioria, senão a todos os jovens de uma nação moderna. Por 
isto mesmo, impõe-se a modificação de suas finalidades e de seus objetivos. 
Desmistificando o conceito de que educar para a vida é sinônimo de rejeição àquilo 
que está ligado à aquisição do conhecimento científico. Educar para a vida é saber 
trabalhar com o conhecimento científico. Educar para a vida é saber trabalhar com o 
conhecimento numa perspectiva universal; ou seja, saber lidar com o conhecimento 
proximal do aluno e a realidade que o explique. 
O Ensino Médio é destinado a todos, ou quase todos. Assim se diversifica 
segundo os interesses e as aptidões dos alunos, podendo para alguns assumiro 
caráter de severo curso acadêmico de preparo para estudos posteriores, ou seja, 
estudos universitários de caráter teórico e científico ou altos estudos de natureza 
literária, filosófica e artística. 
Para tal, seria necessário levar o indivíduo a aceitar a idéia das diferenças 
individuais e a adequar a escola aos tipos de inteligência e aptidão dos alunos, não 
impondo a todos um mesmo tipo uniforme de estudo. Cedo ou tarde, chegaremos a 
um curso geral prático, com ênfase na língua vernácula e em nossa literatura, nas 
matemáticas, e nas ciências – físicas e sociais – aplicadas e, ao lado deste curso 
comum, cursos enriquecidos com línguas estrangeiras e estudos teóricos para 
aqueles que se mostrarem interessados e capazes de ensino desta natureza. 
No entanto o Ensino Médio não deve ter por objetivo único a preparação 
do aluno para o seu ingresso na universidade. Deve, acima de tudo, prepará-lo sob 
diretrizes que garantam a ele capacidade de construir um referencial teórico capaz 
de dar-lhe possibilidade para enfrentar os obstáculos que a vida oferecer. O Ensino 
Médio concretiza-se, de fato, no educar para a vida. Este “educar para a vida” estará 
associado ao processo educacional considerado básico para o exercício da 
cidadania onde o aluno se entenda como integrante da sociedade colocando seus 
conhecimentos a serviço do bem comum, posicionando-se diante de temas 
polêmicos provocados pelo uso de tecnologias, pela exploração indiscriminada do 
ser humano e no que concerne à necessária intenção ética humana. Assim educar 
para a vida exige sem dúvida, a aquisição e conceitos necessários para a 
apropriação do conhecimento. 
 
 
 
A pesquisa revelou que os professores da escola pesquisada mostram-se, 
ainda, confusos a respeito do formar para a vida. Enquanto um pensa o professor 
como transmissor de conhecimentos, o outro define professor como “um grande 
showman”, capaz de fazer milagres através da sua prática docente. São extremos 
presentes na educação. A preocupação mais evidente destes professores é a 
formação, quase que em massa, para o mercado de trabalho. Quando discordam 
desse ponto de vista perdem-se nas suas definições. Encontram-se entre a “cruz e a 
espada”. A cruz é o formar para a vida, porém um formar que se define a partir do 
senso comum, sem base na teoria que a sustenta. A espada – preparar para o 
mundo do trabalho apoiando-se em uma concepção ora imediatista, ora utilitarista. 
Nesta Escola, estes professores estão presos a princípios voltados à formação 
fragmentada, ou seja, o aluno é um enquanto escola e outro enquanto sociedade. 
Assim eles esquecem que este aluno é um corpo, uma emoção, que é múltiplo na 
sua existência. Portanto a escola tem por função, na pessoa do professor, mediar, 
oportunizar ao aluno a construção do saber, para que ele não seja escravo deste 
mercado de trabalho. Neste sentido a Escola aqui citada contribui para que o aluno 
não seja um ser capaz de transformar o seu ambiente. Formar para a vida é, sem 
dúvida, entender a escola como um espaço de contrariedade, pois ela não é um 
bloco monolítico. Ela está sujeita a mudanças. Ela é como o ser humano – à medida 
que o tempo passa exige transformação nos atos e na forma de pensar. Formar para 
a vida é, sem dúvida, a forma mais evidente de acompanhar a evolução do ser 
humano. 
Para concluir, reporto-me ao trecho da obra “Pedagogia da autonomia” de 
Paulo Freire: 
 
(...) se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação 
pode. Se a educação não é chave das transformações sociais, não é 
simplesmente reprodutora da ideologia dominante. O que quero dizer é que 
a educação nem é uma força imbatível a serviço da transformação da 
sociedade, porque assim eu queira, nem tampouco é a perpetuação do 
‘status quo’ porque o dominante o decrete. O educador e a educadora 
críticos não podem pensar que, a partir do curso que coordenam ou do 
seminário que lideram, podem transformar o país. Mas podem demonstrar 
que é possível mudar. E isto reforça nele ou nela a importância de sua 
tarefa político-pedagógica. 
O professor democrático, coerente, competente, que testemunha seu gosto 
de vida, sua esperança no mundo melhor, que atesta sua capacidade de 
luta, seu respeito às diferenças, sabe cada vez mais o valor que tem para a 
modificação da realidade, a maneira consistente com que vive sua presença 
no mundo, de que sua experiência na escola é apenas um momento, mas 
um momento importante de ser autenticamente vivido. (p.126) 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
ALTET. Marguerite. As competências do professor profissional: entre 
conhecimentos, esquemas de ação e adaptação, saber analisar. Pg. 23 – 34. In: 
PERRENOUD, Philippe. Et al (orgs). Formando professores profissionais: quais 
estratégias? Quais competências? 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2001. 
 
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. São Paulo: Moderna, 
1996. 
 
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, 1988. 
 
BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9.394, de 20 de 
Dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 
 
PCN + Ensino Médio: orientações complementares aos Parâmetros Curriculares 
Nacionais. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias. / Secretaria de 
Educação Média e Tecnológica. Brasília: MEC; SEMTEC, 2002. 
 
CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 5ª ed. São Paulo: 
Cortez, 2001. 
 
ENGUITA, Mariano Fernández. A face oculta da escola: Educação e trabalho no 
capitalismo. Porto Alegre: ArtMed, 1989. 
 
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à pratica 
educativa. 7ª ed. São Paulo, SP: Paz e Terra S/A, 1998. 
 
FULLAN, Michael; HARGREAVES, Andy. A escola como organização 
aprendente: buscando uma educação de qualidade. 2ª ed. Porto Alegre: ArtMed, 
2000. 
 
GANDIN, Danili; GANDIN, Luís Armando. Temas para um projeto político-
pedagógico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. 
 
 
 
GENTILI, Pablo A. A; SILVA, Tomaz Tadeu da. Neoliberalismo, Qualidade total e 
educação. 2ª ed. Petrópolis, RJ, Vozes, 1995. 
 
GÓMEZ, A. I. Pérez. As funções sociais da escola: da reprodução à reconstrução 
crítica do conhecimento e da experiência. In: SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. I. 
Pérez. Compreender e transformar o ensino. 4ª ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998. 
 
KUENZER, Acácia Zeneida. Ensino Médio e Profissional: as políticas do Estado 
neoliberal. São Paulo: Cortez, 1997. 
 
LUCIANO, Fábia Liliã. Metodologia Científica e da Pesquisa.Criciuma: Líder, 
2001. 
 
LÜDKE, Menga & ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens 
qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. 
 
MINAYO. Maria Cecília de Souza (org). Pesquisa Social: teoria, método e 
criatividade. 11ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. 
 
PARO, Vitor Henrique. Administração escolar: introdução crítica. 3ª ed. São Paulo, 
SP: Cortez, 1998. 
 
PARO, Vitor Henrique. Parem de preparar para o trabalho!!! Reflexões acerca dos 
efeitos do Neoliberalismo sobre a gestão e o papel da escola básica. Pg. 101 – 120. 
IN: FERRETTI, Celso J. et al (orgs). Trabalho formação e currículo: para onde vai 
a escola? São Paulo: Xamã, 1999. 
 
PEREIRA, Júlio Emílio Diniz. Formação de professores: pesquisas, 
representações e poder. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. 
 
RICHARDSON, Roberto Jarry. Pesquisa social: métodos e técnicas. São Paulo: 
Atlas, 1985. 
 
 
 
 
RUMMEL, Francis J. Introdução aos procedimentos de pesquisa em educação. 
Porto Alegre: Globo, 1974. 
 
SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. I. Pérez. Compreender e transformar o 
ensino. 4ª ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ANEXO 
 
PESQUISA DE CAMPO 
 
Esta pesquisa faz parte de um estudo monográfico sobre a função social 
da escola, com ênfase no Ensino Médio. 
Por que escolhi você professor(a) como fonte de coleta de dados? 
Porque o professor é parte fundamental no processo ensino-
aprendizagem. É ele quem dá sentido e concretude à prática educativa. Não seria 
possível, pois, fazer um estudo amplo sobre este tema e deixá-lo de lado. Sei que o 
profissional da educação tem muito a contribuir nesse meu estudo. Por isso, peço 
colaboração nesse trabalho respondendo, se possível, as questões abaixo. 
É claro que, como todo processo de pesquisa científica exige sigilo e 
respeito, comprometo-me não expor nomes, ou qualquer outra coisa que o 
identifique. 
 
 
QUESTIONÁRIO 
 
 
1) Quais motivos lhe levaram a escolher a profissão docente? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
___________________________________________________________________ 
 
2) Por que você escolheu o ensino médio para atuar como professor(a)? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
___________________________________________________________________ 
 
 
 
 
 
 
3) Há quanto tempo atua no magistério? 
( ) menos de 5 anos 
( ) de 5 à 10 anos 
( ) mais de 10 anos 
 
4) Tem formação superior na área que leciona? 
( ) Sim ( ) Não 
Obs: Em caso negativo, porque ainda não fez? 
___________________________________________________________________ 
___________________________________________________________________ 
 
5) É efetivo nessa escola? 
( ) Sim ( ) Não 
 
6) Qual sua carga horária atual no magistério (nessa e nas outras, caso tenha 
outros vínculo)? 
( ) 10h/a ( ) 20h/a ( ) 30h/a ( ) 40h/a ( ) 50h/a ( ) 60 h/a 
 
7) Quantas disciplinas leciona (nessa e nas outras escolas)? 
( ) Uma ( ) Duas ( ) Mais de duas 
 
8) Tem outro emprego além do magistério? 
( ) Sim ( ) Não 
Em caso positivo, qual o período de trabalho? 
( ) Matutino ( ) Vespertino 
 
9) Na sua concepção teórica, qual o papel / função social da escola? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
___________________________________________________________________ 
 
 
 
 
 
 
10) Na sua concepção teórica, qual o papel/ função social do Ensino Médio? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
 
11) E na prática, dentro do contexto atual, qual o papel / função social do Ensino 
Médio? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
 
11) Qual é o papel do professor de Ensino Médio no processo de ensino-
aprendizagem? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
 
12) De um modo geral, o que é importante o aluno aprender no Ensino Médio? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
 
13) Muitos autores que escrevem na área da educação, afirmam que a escola deve 
formar para a vida. O que você entende por isso? 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________ 
 
14) Considerações finais. 
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________

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