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Treinamento físico aplicado aos esportes Apresentação Periodizar o treinamento de um atleta para muitos pode parecer algo complexo e que leva tempo. Porém é importante destacar que, como em qualquer outra área de atuação, o planejamento é fundamental para que se consiga atingir resultados satisfatórios. Nesse sentido, apesar de ser uma tarefa trabalhosa que exige amplo conhecimento para ser realizada e aplicada, deve ser encarada como básica devido ao seu caráter fundamental. Tal planejamento precisa estar pautado em princípios científicos e no conhecimento da modalidade esportiva. Isso possibilitará a tomada de decisão referente aos métodos de treinamento, às sequências de exercícios e à carga de treinamento que serão aplicados no decorrer do tempo com o objetivo de atingir o melhor desempenho. Nesta Unidade de Aprendizagem você vai ver aspectos teóricos e práticos de como realizar a periodização do treinamento em diferentes modalidades esportivas. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as exigências físicas das modalidades esportivas.• Analisar a importância do desenvolvimento integral do atleta.• Elaborar uma periodização física, técnica e tática em esportes coletivos. • Infográfico Recentemente, o surf vem recebendo maior visibilidade, com um aumento importante do número de praticantes. A maior popularidade da modalidade vem acompanhada de sua profissionalização no que se refere à utilização de tecnologia para o desenvolvimento de equipamentos esportivos, monitoramento, julgamento e transmissão dos campeonatos, que cada vez mais estão estruturados a nível local, regional, continental e mundial, inclusive com o esporte sendo selecionado como modalidade olímpica. Apesar disso, as informações científicas acerca do surf são incipientes, sobretudo em relação aos componentes físicos, técnicos e táticos. No Infográfico a seguir, você vai conhecer as demandas físicas e fisiológicas do surf competitivo que podem servir para o planejamento de programas de treinamento específico da modalidade. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/590d932c-39f7-4df7-be14-53e09b88b88b/57c884dd-9d54-4c82-8cd8-3efcca63ce5f.png Conteúdo do livro O treinamento físico é fundamental para se atingir desempenho no esporte. Para isso, precisa ser planejado, executado e avaliado em seus diversos níveis (macrociclo, mesociclo, microciclo e sessão de treinamento), tendo como orientação princípios científicos e características específicas da modalidade que se pretende trabalhar. Além disso, a periodização do treinamento precisa contemplar de forma integral a demanda do esporte, envolvendo sobretudo os aspectos físicos, técnicos e táticos dos atletas. Na obra Treinamento esportivo, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, leia o capítulo Treinamento físico aplicado aos esportes, onde você vai ver conceitos e exemplos de planejamento adequado para um programa de treinamento em seus diversos níveis e em diferentes modalidades. Boa leitura. TREINAMENTO ESPORTIVO Luiz Fernando Novack Treinamento físico aplicado aos esportes Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as exigências físicas das modalidades esportivas. Analisar a importância do desenvolvimento integral do atleta. Elaborar uma periodização física, técnica e tática em esportes coletivos. Introdução O planejamento de um programa de treinamento é fundamental para atingir os objetivos propostos em relação ao desempenho físico, técnico e tático em uma modalidade esportiva. Além disso, a periodização do treinamento precisa obrigatoriamente seguir critérios científicos e a especificidade de cada esporte. Para isso, ciclos de treinamento devem ser aplicados, envolvendo o aspecto temporal de longo, médio e curto prazo. Neste capítulo, você vai estudar aspectos teóricos e práticos nos diver- sos níveis de uma periodização em diferentes esportes. Além disso, você vai ver conceitos e exemplos referentes a como planejar adequadamente e de forma efetiva um programa de treinamento em seus diversos níveis e em diferentes modalidades. 1 Demandas físicas no esporte As modalidades esportivas possuem demandas diferentes no que se refere a capacidades físicas. Nesse sentido, analisar as demandas específi cas de determinado esporte é de suma importância para o desenvolvimento de um programa de treinamento físico (BOMPA; HAFF, 2012). Dessa forma, é preciso conhecer a modalidade a ser trabalhada para que um programa de treinamento seja desenvolvido de maneira eficiente, levando em consideração todas as valências físicas envolvidas, sobretudo as prioritárias, com o objetivo de melhorar o desempenho (CUNHA, 2016). Segundo Gomes (2009), dentre as principais capacidades físicas envolvidas nos esportes, podemos destacar a resistência, a força e a velocidade. A partir delas, podemos analisar as modalidades esportivas em relação à sua especifici- dade (BOMPA; HAFF, 2012; NOVACK et al., 2018), conforme exemplificado na Figura 1. Figura 1. Predominância das capacidades físicas de força, velocidade e resistência por modalidade. Fonte: Adaptada de Bompa e Haff (2012) e Novack et al. (2018). Exemplos de modalidades coletivas Para exemplifi car com algumas modalidades coletivas, comecemos com o caso do futebol de campo. É importante destacar que se trata de modalidade mista, que envolve de maneira importante a força, a velocidade e a resistência. De todo modo, trata-se de um esporte considerado predominantemente de resistência, devido à duração de cada partida — 90 minutos, divididos em dois tempos de 45 minutos corridos, com intervalo de 15 minutos entre eles — e pelo fato de 37,7% e 31,4% do volume total realizado pelos atletas estarem relacionados a permanecerem parados ou caminhando (0 a 6,0 km/h) e trotando (6,1 a 12,0 km/h), respectivamente. Apesar disso, são as ações em curto espaço de tempo envolvendo força e velocidade — bem como o produto das duas, denominado po- Treinamento físico aplicado aos esportes2 tência — que normalmente defi nem o resultado das partidas, como na realização de aceleração máxima, atingimento e manutenção de alta velocidade durante o sprint de um atacante para chegar à bola antes do marcador e conseguir fi nalizar a jogada, ou até mesmo nos saltos realizados por defensores e atacantes durante disputas de bolas aéreas após cobrança de escanteio (NOVACK et al., 2018). No que tange o futsal, sobretudo devido às dimensões reduzidas do campo de jogo, ao menor tempo de partida — 40 minutos, divididos em dois tempos de 20 minutos não corridos, com 10 minutos de intervalo entre eles — e à possibilidade de se fazer várias substituições durante uma partida, inclusive com o mesmo atleta podendo sair e voltar para o jogo minutos depois, o que se sobressai é a necessi- dade de velocidade e força em relação à resistência, se comparado ao futebol de campo, por exigir maiores ações de aceleração, desaceleração e deslocamento em alta intensidade durante a partida (CETOLIN; FOZA, 2010). O mesmo pode ser observado em relação ao basquete, em que o cronômetro também para quando a bola não está em jogo e o tempo total de disputa é de 40 minutos, disposto em quatro tempos de 10 minutos com intervalos de 2 minutos entre o primeiro e segundo quartos e entre o terceiro e o quarto quartos, bem como 15 minutos de intervalo entre o segundo e terceiro quartos (FIBA, 2018). Além disso, dentre as ações físicas demandadas na modalidade, assim como no futsal, pode-se destacar a aceleração, a desaceleração, a mudança de direção, porém com maior importância para os saltos. Nesse sentido, o perfil morfológico e físico dos atletas difere de maneira importante, sendo mais altos, pesados e fortes do que os atletasdo futsal, devido à alta demanda de contato corporal entre os jogadores durante a competição, sobretudo durante os bloqueios e disputas de bola aéreas, como se vê em um rebote disputado por dois pivôs (LEMKE; REIS, 2015). Exemplos de modalidades individuais Quando analisamos a modalidade de ciclismo estrada na categoria Elite mas- culina, caracterizada por distâncias acima de 100 km (CBC, 2018), podemos considerar a maior importância da resistência em relação a força e velocidade. De todo modo, não se pode ignorar as valências físicas de força e velocidade no programa de treinamento para esta modalidade, pois tais capacidades são de fato importantes em alguns momentos da prova, sobretudo em trechos de subida e sprint fi nal. Ainda em relação ao ciclismo, no caso da prova de 200 m em pista observamos maior demanda de velocidade e força e menor demanda de resistência, devido à sua curta duração (FERREIRA, 2017). De modo similar, podemos observar diferenças em provas dentro de uma mesma modalidade. Assim, a prova de 100 metros livres na natação apresenta 3Treinamento físico aplicado aos esportes maior prevalência das capacidades físicas de força e velocidade em relação à resistência. Porém, quando comparamos com a prova de 800 metros, observa- mos maior importância da resistência. Nesse caso, o treinamento de resistência predominante e necessário para o desempenho na prova de 800 metros trará bem pouca ou nenhuma vantagem se aplicado no atleta que compete na prova de 200 metros. O mesmo vale para as modalidades de corrida de 100 metros rasos e maratona, em que na primeira há predominância quase que exclusiva da velocidade devido à sua brevíssima duração (na casa dos 9 e 10 segundos para homens e mulheres de categoria elite mundial, respectivamente), enquanto a segunda está relacionada predominantemente à resistência, devido à longa distância a ser percorrida (42,195 km) e consequente longo tempo de duração (pouco mais de duas horas de duração para indivíduos de elite mundial) (BOMPA; HAFF, 2012). Já ao analisar a modalidade de levantamento de peso olímpico, podemos observar especificidade quase que exclusiva da capacidade física de força em relação a velocidade e resistência. Mas vale lembrar que a velocidade específica para a realização dos movimentos de arranque e arremesso é importante para o desempenho, e, por isso, precisa ser incluídas no treinamento (SILVA et al., 2017). A partir do momento em que são identificadas as demandas específicas da modalidade esportiva a ser treinada, é possível escolher testes para embasar o desenvolvimento do programa de treinamento individualizado em termos de frequência, volume e intensidade. Além disso, a realização desses testes de forma periódica permite analisar a evolução do indivíduo durante o treinamento proposto e a necessidade de adequações no programa. Nesse sentido, a literatura científica apresenta a descrição de testes para traduzir em números o desempenho em relação a resistência, força e velocidade, os quais precisam ser escolhidos com critério, levando em consideração a especificidade da modalidade, como é o caso do teste de velocidade para o futebol de campo. Tendo em vista que a velocidade é fundamental e decisiva no futebol de campo e que a maior parte das ações de alta velocidade ocorrem em metragens específicas durante o jogo, o teste consiste na realização de corrida em máxima velocidade em um percurso em linha reta, permitindo a determinação da velocidade nas distâncias de 10 e 30 metros por meio do tempo de deslocamento. Para isso, o avaliado parte da posição de pé, com um dos pés na linha de partida, devendo, ao sinal do avaliador, deslocar-se no menor tempo possível até o final do percurso demarcado por cones nas marcas de 10 e 30 metros. O tempo de teste é acionado no momento em que o avaliado inicia o deslocamento, tomando o tempo na marca de 10 metros e encerrando no momento em que o avaliado termina o percurso e ultrapassa a marca de 30 metros. Devem ser realizadas duas tentativas, com intervalo de 3 a 5 minutos entre elas, sendo registrado o melhor tempo de execução. Treinamento físico aplicado aos esportes4 2 Desenvolvimento atlético integral Um programa de treinamento, além de contemplar o aspecto físico, pre- cisa levar em consideração os aspectos técnicos e táticos, sobretudo nas modalidades coletivas (BOMPA; HAFF, 2012). Segundo Cunha (2016), o treinamento da técnica tem sua importância no sentido de trabalhar os aspectos biomecânicos e fi siológicos na execução dos movimentos envolvi- dos no esporte para torná-los mais efi cientes. É importante que o trabalho técnico avance de movimentos mais básicos para os mais complexos, a fi m de buscar a construção do movimento ideal dos gestos esportivos, levando em consideração o nível e a fase de desenvolvimento do atleta e evitando a especialização precoce. O mesmo é válido para o treinamento tático, que permite que o atleta ou equipe adquira comportamentos no sentido de facilitar a tomada de decisão e organização de ações ofensivas e defensivas a fi m de cumprir determinado objetivo. Nesse contexto, o Quadro 1 indica algumas orientações de trabalho dos componentes físicos, técnicos e táticos em relação à faixa etária dos praticantes. Nele, é possível observar que dos 12 aos 16 anos é importante estimular as capacidades físicas, as técnicas de movimento e os comportamentos táticos mais básicos e gerais, independentemente da modalidade esportiva. Já na faixa etária dos 16 aos 19 anos, devem ser trabalhados o desempenho das diferentes capacidades físicas de forma geral, ampliando as variações de movimentos técnicos mais complexos com execução em velocidades mais elevadas, além de diferenciar a tática de jogo levando em consideração as demandas específicas da modalidade. Por sua vez, na faixa etária acima de 19 anos são contemplados os aspectos determinantes para o alto desempenho esportivo, como a preparação física geral e específica à modalidade, a espe- cialização da técnica levando em consideração a execução com qualidade e total domínio dos mais diversos movimentos envolvidos no esporte, além da tática em seu maior nível de complexidade, tendo em vista sua associação com outras posições, as tomadas de decisão em situações reais de competição e as variações possíveis do sistema de jogo. 5Treinamento físico aplicado aos esportes Fonte: Adaptado de Cunha (2016). 12–16 anos 16–19 anos + de 19 anos Características da preparação Dominar as técnicas e a tática coletiva elementar Otimizar os as- pectos motores determinantes Desenvolver fatores direta- mente ligados ao rendimento Desenvolver a condição física geral Otimizar os fatores determinantes do rendimento Desenvolver o complexo global dos fatores de ren- dimento, incluindo a preparação física geral e específica Técnica Aprender e estabilizar as técnicas básicas Consolidar e man- ter as técnicas básicas (maior velocidade de encadeamento das ações) Adquirir variantes ou novas técnicas Individualizar Dominar Ser constante Variar Tática individual Iniciar aprendiza- gem elementar (ler e reagir em situações padronizadas) Desenvolver as qualidades perceptivas (ler e reagir) face a um adversário particular Respeitar indica- ções individuais Ler e variar rapida- mente a resposta motora em situa- ções análogas Tática coletiva Aprender esquemas e combinações elementares Desenvolver os conhecimentos práticos Introduzir o plano de jogo Formar um sistema de soluções associativas Desenvolver velo- cidade, coopera- ção e sincronismo Implantar o plano de jogo (relação de forças com o adversário) Quadro 1. Linhas orientadoras para as diferentes fases de formação do atleta Treinamento físico aplicado aos esportes6 Vale ressaltar que nos esportes coletivos as demandas físicas, técnicas e táticas são específicas não apenaspara cada modalidade, mas também para diferentes posições de jogo, devido ao fato de cada jogador cumprir funções diferentes. Isso pode ser exemplificado pela comparação entre zagueiros e laterais no futebol de campo, mesmo que, do ponto de vista tático, ambas posições sejam consideradas como defensores. Porém, os laterais na maior parte das vezes possuem também a função de colaborar nas ações ofensivas, o que os distingue em relação às demandas físicas e técnicas durante o jogo. Nesse sentido, os laterais percorrem em média uma distância total de 10,1 km e uma distância em alta intensidade de 0,68 km durante uma partida, ambas bem acima das cifras apresentadas pelos zagueiros, que percorrem 8,7 km e 0,41 km de metragem total e metragem em alta intensidade, respectivamente (CONDE et al., 2018). Dessa forma, podemos considerar que os zagueiros possuem maiores demandas da força, enquanto os laterais tendem a possuir maior capacidade de resistência e velocidade. Além disso, do ponto de vista técnico os zagueiros precisam possuir bom passe, grande capacidade de rou- bada de bola durante os confrontos individuais e serem exímios cabeceadores em relação aos laterais, que precisam, por sua vez, de grande capacidade de executar cruzamentos de bola na área quando no ataque e capacidade de rápida recomposição de defesa após uma tentativa de ataque frustrada. De modo similar, podemos observar diferenças entre as ações de armadores e pivôs no basquete. Os armadores, do ponto de vista tático, são responsáveis por organizar o jogo da equipe, ou seja, possuem maior demanda de condução de bola, deslocamento, velocidade e tomada de decisão em relação à orientação e início da execução de jogadas ensaiadas e treinadas em comparação à po- sição de pivôs. Estes atuam mais próximos à cesta tanto em ações defensivas quanto defensivas, o que justifica seu menor volume de jogo e deslocamento. Dentre as ações técnicas e táticas dos pivôs, pode-se destacar a realização de rebotes e bloqueios defensivos e ofensivos, além de serem responsáveis por finalizar muitas jogadas. Além disso, é possível observar diferenças no perfil morfofisiológico de armadores e pivôs, com estes apresentando estatura e peso mais elevados em relação aos primeiros (DANIEL et al., 2016). Ao planejar um programa de treinamento, os aspectos físicos, técnicos e táticos precisam estar contemplados, levando em consideração uma série de fatores que vão deste o nível de desenvolvimento dos atletas, a especificidade da modalidade, até o calendário de competições. No caso do futebol profissional, é comum o período competitivo durar vários meses e os jogos ocorrerem a 7Treinamento físico aplicado aos esportes cada 72 horas. No Brasil, essa situação é agravada devido às grades distâncias percorridas para deslocamento até os locais das partidas, tornando comum o pouco tempo para treinar. Dessa forma, na maioria das vezes os trabalhos são planejados e executados de forma a atender a objetivos físicos, técnicos e táticos em uma mesma sessão de treinamento ou mesmo exercício, conforme apresentado no Exemplo a seguir. Treino técnico-tático: Fase preparatória ou aquecimento (duração 15 min): ■ exercícios de estabilidade; ■ exercícios de ativação com elástico; ■ deslocamento envolvendo saltos, deslocamento frontal, para trás e lateral com aceleração e desaceleração. Fase principal (duração 50 min): ■ posse de bola em campo reduzido com superioridade numérica, 7 contra 6 em quadrado com dimensão de 15 × 15 m — equipe dividida em dois grupos (10 min); ■ ataque contra defesa utilizando uma das metades do meio campo com dimensão de 55 × 95 m (20 min); ■ 11 contra 11 em campo reduzido com dimensões de 90 × 40 m (20 min). Fase final (10 min): ■ posicionamento durante bola parada lateral e frontal (fase defensiva). A fase preparatória está relacionada a componentes físicos e de aquecimento para a atividade principal. Dessa forma, engloba exercícios de estabilidade, ativação muscular com elástico e deslocamentos envolvendo saltos, corridas para frente, para trás e lateralmente com o objetivo de atingir intensidades im- portantes de aceleração, desaceleração e mudança de direção. No que se refere à fase principal, a primeira parte inclui trabalho de posse de bola em campo reduzindo com diferentes objetivos, com destaque para os objetivos físicos relacionados à melhoria da resistência cardiovascular, trabalho de aceleração, desaceleração e mudança de direção. Por sua vez, os principais objetivos técnicos estão relacionados a condução de bola, desarme, tomada de decisão e execução de passe e deslocamento para oportunizar opção de passe, entre outros. Treinamento físico aplicado aos esportes8 No que tange a segunda parte, envolve o trabalho com componentes físicos, técnicos e táticos em jogo em campo reduzido, que oportuniza, do ponto de vista físico, o trabalho de resistência cardiorrespiratória, capacidade de ace- leração, desaceleração e mudança de direção em maiores intensidades e com atingimento limitado de ações de alta intensidade devido às dimensões do campo. Já os componentes técnicos estão presentes em situações de jogo, com destaque para passes, lançamentos, cruzamentos, finalizações e confrontos individuais. A tática é trabalhada no que se refere a orientação e correção de posicionamento, tomada de decisão nas mais diversas situações de jogo na fase defensiva e ofensiva de jogo, entre outras. Já a fase final é caracterizada pelo atingimento de objetivos técnicos e táticos, com a técnica relacionada a realização de cruzamentos, formação de barreira e cabeceio. Por sua vez, a parte tática abrange o posicionamento nas situações específicas de bola parada, podendo ser extrapolada para definição da organização ofensiva de contra-ataque no caso da retomada da posse de bola. 3 Periodização física, técnica e tática em esportes coletivos No que se refere à periodização de longa duração, denominada macrociclo, normalmente é composta de quatro fases com objetivos e cargas de treinamento distintos, sendo elas a preparação geral e especial, competição, pico e transição ou recuperação (GOMES, 2009; BOMPA; HAFF, 2012; CUNHA, 2016). Em relação aos esportes coletivos, mais especificamente o futebol, a fase de preparação geral e especial é aplicada nas primeiras três a quatro semanas da temporada, com parte desse período sendo chamado de pré-temporada. As primeiras sessões de treinamento da pré-temporada envolvem exer- cícios com predominância de volume de trabalho em relação à intensidade, com objetivo de aquisição das principais capacidades físicas envolvidas na modalidade (resistência, velocidade, força, potência, entre outros). No que tange a quantidade de treinos em um microciclo de pré-temporada, pode-se observar no exemplo mostrado no Quadro 2 que nesta etapa de treinamento são realizados treinos em dois períodos (manhã e tarde), com frequência de três a quatro treinos com carga de aquisição para um de característica regenerativa. 9Treinamento físico aplicado aos esportes Fonte: Adaptado de Gomes e Souza (2009). Dias da semana Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Domingo Manhã Coorde- nação e velocidade Força especial Regenera- tivo Coorde- nação e velocidade Força especial Regene- rativo Resistência aeróbica Tarde Resistên- cia de velocidade Resistên- cia espe- cial Resistên- cia de velocidade Resistência especial Resistência aeróbica Veloci- dade e força Livre Quadro 2. Microciclo durante pré-temporada no futebol Vale ressaltar que na pré-temporada os trabalhos evoluem rapidamente para exercícios específicos, com predominância de intensidade em relação a volume e com múltiplos objetivos físicos, técnicos e táticos. Além disso, a otimização dos treinos envolvendo os diversos componentes da modalidade é de extrema importância, devido ao longo período competitivo, calendário apertado, excesso de jogos e pouco tempopara treinar. Após duas semanas de trabalho, normalmente começam os jogos, ou seja, a fase competitiva. Apesar disso, a fase de preparação especial avança durante o período competitivo, por volta de duas a três semanas, devido à falta de tempo hábil para completá-la. Nessa fase, são priorizadas cargas de treinamento mais elevadas, com ênfase na intensidade, porém com o cuidado de reduzir a carga nos dias que antecedem os jogos. A partir disso, a fase competitiva se estende por meses, envolvendo microci- clos de treinamento com um e dois jogos, conforme exemplificado nos Quadros 3 e 4, respectivamente. Nesse sentido, é possível observar que no microciclo de um jogo podem ser programados treinamentos em dois períodos uma a duas vezes na semana, com uma das sessões diárias podendo ser exclusiva para trabalhos de força. Já no que se refere a semanas com dois jogos, torna-se inviável as sessões em dois períodos no mesmo dia. Além disso, observa-se a divisão dos trabalhos em grupos distintos: para quem jogou (PQJ), para quem não jogou (PQNJ), para quem vai jogar (PQVJ) e para quem não vai jogar (PQNVJ). Isso ocorre devido ao elenco de uma equipe profissional de futebol possuir por volta de 28 a 30 atletas, dentre os quais 11 são titulares (PQJ ou PQVJ), outros 11 são reservas (PQNJ) e os outros seis a oito atletas não são relacionados para a partida (PQNVJ). Treinamento físico aplicado aos esportes10 Fonte: Adaptado de Gomes e Souza (2009). Dias da semana Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Domingo Manhã Livre Regene- rativo PQJ e coletivo PQNJ Livre Veloci- dade/resis- tência de velocidade Livre Tático Concen- trados Tarde ou noite Livre Força especial Técnico Técnico ou tático Técnico/ tático Concen- trados Jogo Quadro 3. Microciclo durante pré-temporada, período competitivo com um jogo Fonte: Adaptado de Gomes e Souza (2009). Dias da semana Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado Domingo Manhã Livre Livre Força especial (PQNVJ) Livre Força ou veloci- dade (PQJ) e técnico (todos) Tático (PQVJ) e técnico e resistência/ velocidade (PQNVJ) Concen- trados Tarde ou noite Regenera- tivo (PQJ) e coletivos (PQNJ) Aqueci- mento (velocidade ou força) técnico/ tático Jogo Rege- nerativo (PQJ) e coletivo (PQNJ) Tático Concentra- dos Jogo Quadro 4. Microciclo durante pré-temporada, período competitivo com dois jogos Dessa forma é importante planejar, executar e controlar a carga de trei- namento de todos os atletas, independentemente do grupo no qual estão inseridos, para que todos tenham a adequada preparação física, técnica e tática e estejam preparados no caso de precisarem atuar nos jogos com alto desempenho. Outro aspecto que pode ser observado nas semanas com um e dois jogos é a concentração no dia que antecede o jogo. Esse costume é praticado para 11Treinamento físico aplicado aos esportes garantir que os atletas fiquem por volta de 24 horas em ambiente com alto controle de descanso, alimentação e hidratação, chegando ao início da partida em ótimas condições para o alto desempenho. No que se refere à fase de pico, é utilizada no futebol em microciclos de manutenção, que envolvem baixos volumes de treinamento, porém atendendo às intensidades específicas da modalidade. Tais microciclos são distribuídos durante a temporada a fim de atender à necessidade de descanso dos atletas devido ao excesso de jogos. Já a fase de transição ou recuperação conta com a execução de treinamentos com baixo volume e baixa intensidade, estimulando que o atleta descanse e ao mesmo tempo mantenha-se ativo para não perder valores mínimos de aptidão física, com o objetivo de facilitar o processo de preparação para um próximo clico de treinamento (CHANDLER; BROWN, 2009; BOMPA; HAFF, 2012; CUNHA, 2016). Dessa forma, pudemos observar, ao longo do capítulo, a complexa missão que é planejar, executar e avaliar um programa de treinamento físico para modalidades esportivas, tendo em vista que, além de todos os princípios do treinamento físico por si só, devem ser levadas em conta também as particu- laridades da modalidade esportiva e a individualidade biológica dos diferen- tes atletas que atuam na mesma equipe, desempenhando, por vezes, papéis completamente diferentes. Além disso, deve-se levar em conta o calendário esportivo, que muitas vezes, como visto no capítulo, impõe diversas dificul- dades logísticas, a ponto de a mesma sessão de treino possuir um objetivo técnico, tático e físico, o que torna o papel do profissional de educação física ainda mais importante para o sucesso da equipe e de seus atletas. BOMPA, T. D.; HAFF, G. G. Teoria e metodologia do treinamento: periodização. 5. ed. São Paulo: Phorte Editora, 2012. CBC. Organização geral do esporte. 2018. 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Journal of Sport Pedagogy and Research, v. 5, n. 1, p. 4–12, 2019. 13Treinamento físico aplicado aos esportes Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamentedinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Treinamento físico aplicado aos esportes14 Dica do professor Nos esportes coletivos em que o calendário de jogos tem duração de vários meses, a exemplo do futebol profissional, é comum o período de transição e recuperação estar associado às férias dos atletas. Devido ao calendário apertado do futebol brasileiro e ao tempo escasso para treinamento até que inicie o próximo período competitivo, é importante que os jogadores se mantenham ativos durante as férias a fim de minimizar a redução das capacidades físicas e permitir que atinjam patamares de desempenho aceitáveis durante a pré-temporada e estejam aptos a iniciar a temporada de jogos. Na Dica do Professor, você vai acompanhar mais detalhes sobre esse período de treinamento. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/015f55295fc3e6dccdca81891af16911 Na prática O planejamento de treinamento nos esportes é fundamental para atingir os resultados pretendidos. Nesse sentido, em se tratando de esportes coletivos, mais especificamente o futebol, cujo período competitivo tem duração de vários meses e conta com um a dois jogos por semana, a periodização se faz imprescindível a fim de propiciar condição física adequada aos atletas durante toda a temporada para que estejam aptos a desenvolver todo o seu talento em campo. A literatura científica indica que atletas que participam da pré-temporada têm capacidade de participar de maior número de jogos no ano com menor risco de lesão. Assim, a periodização adequada desse período inicial de treinamento tem papel importante para dar aos jogadores a sustentação física durante o período competitivo. Neste Na prática, você vai conhecer três microciclos de treinamento referente à periodização de uma pré-temporada em um clube de futebol profissional que disputa campeonatos de nível estadual e nacional. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/e3a6bfa0-e477-487d-bcba-5637027709c9/46fddfa4-4185-493b-9f89-4a392148d5ac.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Efeitos de um microciclo de Crossfit® em variáveis da carga interna de treinamento Neste artigo você vai ter acesso a um exemplo de microciclo de treinamento na modalidade Crossfit, bem como informações relacionadas ao controle da carga de treinamento. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Periodização tática: uma proposta metodológica para jovens judocas Confira no artigo a seguir a proposta de periodização de treinamento com ênfase em aspectos táticos no judô. Vale ressaltar que o artigo aborda a organização, as principais características e os objetivos do planejamento de treinamento específico para a modalidade. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Novas discussões sobre periodização e monitoramento do treinamento Confira no Editorial da Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício uma interessante abordagem sobre as discussões recentes na literatura científica em relação à periodização do treinamento esportivo. https://www.revistas.ufg.br/fef/article/view/51987/33038 https://www.researchgate.net/profile/Rui_Resende/publication/335433147_Periodizacao_Tatica_uma_Proposta_Metodologica_para_Jovens_Judocas/links/5d6b934092851c853883b003/Periodizacao-Tatica-uma-Proposta-Metodologica-para-Jovens-Judocas.pdf Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. http://portalatlanticaeditora.com.br/index.php/revistafisiologia/article/view/2360/3584