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Prévia do material em texto

EDUCANDO PARA A PAZ
FORMANDO MULTIPLICADORES DO BEM
HELOÍSA MARIA DOS SANTOS TOLEDO
LUIS FERNANDO CRESPO
WELDER LANCIERI MARCHINI
LUIZ CARLOS RAMOS
ESTUDO DO SER HUMANO 
CONTEMPORÂNEO
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Transcender, integrar e desenvolver
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UNIDADE 4
TRANSCENDER, INTEGRAR E 
DESENVOLVER
INTRODUÇÃO
Chegamos, enfim, à unidade IV, a último de nosso curso. Nesta unidade nos dedicare-
mos a analisar questões relativas às experiências da humanidade em relação espiritual, 
ecológica e de fundação e conexão com o mundo. Para tanto, os capítulos apresentam 
importantes leituras sobre a forma como experienciamos estes distintos aspectos, aten-
tando para as múltiplas formas de se conectar com a transcendência, o mundo e as 
pessoas. Os aspectos da religiosidade humana são explorados no primeiro capítulo, 
bem como à busca por experiências e vivências transcendentais. Para além destes 
elementos, outros pontos são levantados como, por exemplo, a violência com motiva-
ção religiosa e (in)compreensão de valores absolutos.
O segundo capítulo analisa as relações da humanidade com natureza. Trata-se de um 
tema extremamente importante e debatido na atualidade e, portanto, fundamental para 
que possamos compreender as formas como temos lidado com nossas conexões e tro-
cas com o meio ambiente. O terceiro capítulo visa conectar as discussões anteriores e, 
neste sentido, estabelecer uma leitura sobre a unidade do ser, a relação entre a ciência 
e os mitos, as interrelações entre os indivíduos, a natureza e as múltiplas sociedades 
em um mundo cada vez mais conectado e globalizado.
Por fim, o quarto capítulo visa estabelecer uma reflexão, um balanço sobre os temas estudados 
ao longo de nosso curso e, dessa forma, projetar uma compreensão geral sobre quem somos 
nos no universo, destacando que tal reflexão segue em contínuo, sempre em aberto, atenta às 
mudanças do mundo, mas, também, as nossas próprias mudanças e transformações. 
1. O SER HUMANO É UM SER RELIGIOSO
Uma jovem aluna do Ensino Médio vai à aula usando um Hijab, véu que as mulheres 
muçulmanas usam sobre a cabeça. Ela não pode ser cumprimentada pelo toque dos 
meninos, não deve receber aperto de mão nem beijo no rosto, e o fato de não poder ter 
contato físico faz com que ela enfrente problemas nas aulas de educação física, sobre-
tudo, quando há jogos coletivos.
Em um restaurante, o chef de cozinha prepara um suculento carré de porco e se sente 
ofendido quando o prato é oferecido a um ilustre cliente sem saber que se trata de um 
judeu. Muitas religiões adotam restrições alimentares. Além dos judeus, os islâmicos 
não comem carne suína. Hindus de algumas castas não comem carne de vaca, alimen-
to que também não é consumido às sextas-feiras por membros de parte dos terreiros 
de candomblé e pelos católicos na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. 
Também há religiões que não permitem consumo de bebidas alcoólicas.
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Estudo do Ser Humano Contemporâneo
Uma funcionária chega à empresa 
onde trabalha com a cabeça raspada, 
pois passou pelo processo de inicia-
ção do candomblé, e logo é chamada 
por todos de macumbeira. Enquanto 
isso, cristãos católicos utilizam um cru-
cifixo no pescoço e cristãos, de ma-
neira geral, vestem camisetas com es-
tampas próprias de suas igrejas sem 
maiores problemas, mas estampas 
com motivos religiosos afro-brasileiros 
ainda geram preconceito.
O que esses exemplos têm em comum? Eles trazem consigo duas informações im-
portantes. A primeira diz respeito às características religiosas do ser humano. Somos 
religiosos e nossas crenças influenciam diretamente nosso cotidiano, nossos hábitos e 
costumes. Em geral, o ser humano não deixa de acreditar em seus princípios religiosos 
quando sai do templo ou vive seu cotidiano, ou seja, ele não deixa de ser religioso quan-
do vai à escola, ao trabalho ou mesmo quando frequenta um restaurante.
E a segunda informação é que a ignorân-
cia motiva a maioria dos preconceitos em 
relação à religião. Quando ignoramos – 
aqui no sentido de desconhecimento – as 
práticas e doutrinas religiosas, corremos 
o risco de julgá-las como uma supersti-
ção, banalidade ou, ainda – o que é mais 
grave –, corremos o risco de distorcê-las, 
atribuindo a elas um significado maléfico, 
passando, por exemplo, a identificar todo 
religioso de matriz africana como um ma-
cumbeiro ou um islâmico como terrorista.
O objetivo deste capítulo é entender o ser 
humano como um ser religioso. Não temos 
a pretensão de abarcar todas as religiões 
nem toda a história das religiões. Isso seria 
impossível. Mas podemos entender qual a 
função da religião na vida humana e como o desconhecimento pode levar a atitudes vio-
lentas em relação ao outro, seja porque quem segue uma religião pode sofrer agressão 
física, seja porque impedem o fiel de viver livremente seus costumes e crenças.
Figura 01. Estudante islâmica com seu Hijab
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Figura 02. Diversidade de religiões
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1.1. O SER HUMANO É UM SER RELIGIOSO
A história das religiões é tão antiga quanto a história da sociedade, tornando-se difícil pen-
sar no ser humano excluindo suas características, comportamentos e costumes religio-
sos. Além de ser um fenômeno tipicamente humano, visto que não encontramos religião 
nas outras espécies da natureza, as atividades religiosas não se limitam a um território, a 
um grupo específico ou mesmo a um momento histórico (MONDIN, 2017, p. 224).
A tradição religiosa brasileira é, fortemente, marcada por um reconhecimento do cris-
tianismo como religião oficial. É comum que as pessoas sejam batizadas ou se casem 
em celebrações realizadas em igrejas cristãs, motivadas por uma herança cultural e 
não simplesmente pela pertença religiosa. Aos poucos, outras tradições religiosas – que 
sempre fizeram parte da sociedade, mas que eram ocultadas ou encobertas – come-
çam a ganhar legitimamente o reconhecimento e o status de prática religiosa.
Exemplo disso é o das religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda. Era 
comum, há algumas décadas ou anos, que suas práticas religiosas fossem escondidas 
por receio de represália ou preconceito social. Hoje, o islamismo é a religião que mais 
cresce no mundo e no Brasil (BERKENBROCK, 2019, p. 24-25), no entanto, também é 
comum que se olhe para um islâmico com olhar preconceituoso, identificando-o como 
terrorista, devido à visão parcial e estereotipada que temos.
É difícil encontrarmos uma religião que pregue deliberadamente a violência. Os livros sagrados 
até podem ter passagens e instrução de cunho violento, próprios do período em que foram es-
critos, e, por isso, a leitura desses textos deve ser acompanhada de uma crítica literária. Mas, 
geralmente, o conjunto de instruções e doutrinas de uma religião não aponta para esse cami-
nho e o preconceito e as práticas agressivas vêm de grupos e de pessoas que fazem leituras 
da tradição religiosa e de seus textos sagrados a partir de interesses específicos. 
Sendo assim, é possível colocarmos uma questão: minha crença religiosa (seja ela qual for) 
me dá o direito de oprimir quem não crê?
PARA REFLETIR
As religiões têm sua visão de mundo e sua visão sobre o ser humano. O artigo escrito pelo 
cientista da religião Volney Berkenbrock aponta características da ética iorubá, grupo étnico 
que oferece elementos para as religiões afro-brasileiras.
BERKENBROCK, V. J. O Conceito de Ética no Candomblé. HORIZONTE - Revista de Estu-
dos de Teologia e Ciências da Religião, v. 15, n. 47, p. 905-928, 30 set. 2017.
Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-
5841.2017v15n47p905.
SAIBA MAIS
Acesso em: 21 abr. 2021.
http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2017v15n47p905http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2017v15n47p905
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Estudo do Ser Humano Contemporâneo
1.2. A RELIGIÃO COMO HORIZONTE
É comum a relação entre a religião e o transcendente, entendido como a divindade cul-
tuada. O transcendente se opõe ao imanente, com este fazendo referência ao imediato 
e físico, e aquele às realidades celestes ou que estão para além do plano físico. Con-
tudo, há religiões que não trazem divindades em sua doutrina, como o clássico caso do 
budismo, entendido como uma religião imanente.
Quando utilizamos a palavra religião, remetemo-nos a um sistema de crenças e costumes 
que pode, por vezes, ser grande – como é o caso do cristianismo –, mas também pode 
ser menor – como é o caso dos sistemas formados por grupos pequenos. O ser humano é 
religioso e por isso recorre à vivência religiosa, esteja ele fora ou dentro da religião ou, em 
termos mais técnicos, seja ele heterodoxo ou ortodoxo, oficial ou popular. Assim, os cristãos, 
por exemplo, podem fazer peregrinações, prática esta que nasceu da religiosidade popular e 
que foi assimilada pela religião.
Embora não sejam termos opostos, o ser religioso e a religião são distintos. Criar um critério 
único que sirva para classificar ou não uma manifestação cultural como religião seria um 
equívoco. Talvez sirva a máxima dos antropólogos de entender que é religião aquilo que as 
pessoas que praticam e consideram religião (BERKENBROCK, 2019, p. 40).
IMPORTANTE
SAIBA MAIS
Mas, e os ateus?
Ao tratarmos da religião como 
uma característica cultural 
humana, faz-se necessária 
também a abordagem do ate-
ísmo. O historiador brasileiro 
Leandro Karnal traz uma in-
teressante reflexão sobre o 
seu próprio ateísmo.
Confira ao vídeo, disponível no 
link a seguir:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LJN3yMMh6Hs
Clique aqui e acesse o
VÍDEO
Acesso em: 16 abr. 2021
https://www.youtube.com/watch?v=LJN3yMMh6Hs
https://www.youtube.com/watch?v=LJN3yMMh6Hs
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Transcender, integrar e desenvolver
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Mais que um transcendente, podemos entender que a religião traz consigo a capacida-
de de transcendência. E é possível entender a transcendência não como um substan-
tivo ou um objeto alcançado pelo fiel ao acreditar. Se assim o fizermos, toda religião se 
resumirá a um conjunto de doutrina ou conhecimentos acessíveis aos iniciados. Mais 
que isso, a transcendência é uma atitude e a religião tem o poder de levar seus fiéis 
a transcenderem as questões mais imanentes, e não porque elas sejam nocivas, mas 
porque o ser humano não se limita apenas à própria sobrevivência. O ser humano quer 
dar sentido, construir significados e olhar horizonte e perspectivas. A arte, o conheci-
mento e a religião têm a capacidade de se tornarem instrumentos de transcendência.
ÁGUIA E A GALINHA, UMA HISTÓRIA DE TRANSCENDÊNCIA
Na década de 1970, o autor brasileiro Leonardo Boff (2017) escreveu uma obra inspi-
rada em um conto africano segundo o qual um camponês havia encontrado uma águia, 
ainda filhote, e a teria criado junto às galinhas, no galinheiro. A águia acreditava ser 
uma galinha: ciscava, comia e se comportava como uma galinha. Depois de um tempo, 
o agricultor recebeu em sua casa a visita de um naturalista que, reconhecendo que 
aquele animal era uma águia, iniciou um processo para que ela ganhasse os céus, tor-
nando-se a águia que sempre foi (BOFF, 2017, p. 29-32).
O conto não tem o objetivo de entender a galinha como um animal menor ou inferior, mas 
entende que não podemos – assim como a águia -- nos sujeitar a ser aquilo que não 
somos. Podemos entender, então, que a galinha é o arquétipo daquele que se sujeita 
às questões imanentes, à sobrevivência, ao cotidiano. E não há erro algum em buscar a 
sobrevivência, isso é nobre! Mas o ser humano é um ser que não apenas sobrevive. Ele 
vive! A águia busca horizontes, transcendendo as questões mais imediatas ou imanentes.
As aventuras de Pi. Direção de Ang Lee. EUA: Fox, 2012. (2h 05min.)
A família de Pi decide se mudar para o Canadá após o zoológico que administram na Índia 
ser fechado por problemas financeiros. Com isso, os animais do zoológico e a família de Pi 
embarcam no navio que naufraga após grande tempestade. O jovem Pi passa então a convi-
ver com um grande tigre em busca da sobrevivência em alto mar. Além de trazer elementos 
religiosos próprios do cristianismo, islamismo e hinduísmo, o filme retrata a lógica do discurso 
religioso à medida que o jovem Pi descreve os acontecimentos mais motivado pelo sentido 
que eles exercem sobre a sua vida.
SUGESTÃO
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A TRANSCENDÊNCIA COMO CÓDIGO DE CONDUTA
O ser humano que adere a uma religião, assu-
me também um código de conduta, isso ocorre 
porque a religião tem como uma de suas carac-
terísticas a classificação da realidade a partir 
daquilo que é sagrado (MONDIN, 2017, p. 248). 
Ao entender um território, um objeto, um texto 
ou mesmo um comportamento como sagrado, o 
indivíduo organiza sua vida buscando, cada vez 
mais, configurar-se a esses princípios.
Aos olhos daqueles que não vivem a religião, 
um determinado comportamento pode ser vis-
to como alienação. Mas, na perspectiva do fiel, 
o comportamento o aproxima da divindade e o 
leva a transcender as realidades mais imanen-
tes. Assim, o pão deixa de ser um simples ali-
mento e se torna Eucaristia. O mesmo ocorre 
quando um islâmico se priva de um determinado 
alimento por causa do Ramadã – mês de jejum muçulmano –; quando os católicos 
deixam de comer carne vermelha por causa da Sexta-feira Santa; ou quando um hindu 
deixa de comer carne de vaca, pois entende que o animal é um presente da deusa La-
xmi, personificação da prosperidade, para nutrir seus filhos com o leite.
1.3 A VIOLÊNCIA COM MOTIVAÇÃO RELIGIOSA
A violência com motivação religiosa tem aumentado, ao ponto que vemos fiéis e seus 
respectivos espaços e templos religiosos serem apedrejados e destruídos, e as repor-
tagens sobre o assunto são cada vez mais comuns.
Figura 03. Deusa indiana Maa Laxmi
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Como apresenta a reportagem, as religiões de afro-brasileiras são as maiores vítimas de 
agressões, provavelmente porque são associadas a práticas demoníacas. Leia o texto 
na íntegra:
Disponível em: https://bit.ly/3Pl3wTY
EXEMPLO
Acesso em: 16 abr. 2021.
https://bit.ly/3Pl3wTY
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Mas há também aquela violência que pode acontecer de forma velada, simbólica – ou 
mesmo explícita – de quem exclui o outro que traz consigo algum vestuário ou adesão 
religiosa. Muitas vezes pode não ser permitido ao fiel o uso de elementos religiosos, 
vestuários, evoluindo para a proibição de práticas culturais, seus princípios morais e a 
realização de seus ritos.
Muitas práticas de violência são justificadas por interpretações religiosas distorcidas, 
parciais ou equivocadas, como as ideias já mencionadas, ou que práticas religiosas são 
comportamentos assumidos por pessoas de intelecto menos evoluído.
1.4 VALORES ABSOLUTOS?
Existe uma fala interessante, normalmente atribuída ao Dalai Lama, que, em uma conversa, 
foi questionado sobre qual seria a melhor religião. Todos esperavam que ele respondesse 
que o budismo era a melhor, mas ele nos surpreende e diz que a melhor religião é aquela que 
faz de cada um uma pessoa melhor.
CURIOSIDADE
Quando uma religião pode ser vista como nociva à sociedade? Ainda carregamos as 
heranças da colonização europeia que separam o mundo entre civilizados e bárbaros, 
como se o processo de colonização tivesse ensinado os diferentes povos a agirem e se 
organizarem de forma civilizada. No entanto, esse processo também carregou consigo 
práticas de violência com motivação religiosa. Afinal, os “civilizados” são capazes de 
agir com violência.
Em função disso, quando terminou a Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, 
44 países assinaramum tratado internacional que deu origem à Liga das Nações. No 
entanto, o objetivo de paz foi frustrado com a expansão do nazismo e a eclosão da 
Segunda Guerra Mundial, em 1939. É possível somar às arbitrariedades da guerra as 
posturas totalitárias no nazismo alemão, no fascismo italiano e no stalinismo soviético.
Em 1945, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de ser um 
organismo capaz de assegurar critérios internacionais para a manutenção da paz. Em 
1948, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Huma-
nos, que, apesar de ser muito contestada, representa um consenso internacional em 
torno dos valores e direitos básicos que devem ser assegurados a todo ser humano.
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Estudo do Ser Humano Contemporâneo
A religião faz parte da vida humana. Algumas concepções e comportamentos religiosos 
no nosso cotidiano e na nossa vida profissional podem suscitar contrariedades em nós 
mesmos ou nas pessoas à nossa volta. Sendo assim, é sempre possível que encontre-
mos situações em que entender as motivações religiosas será importante. Seja na área 
da saúde, da alimentação ou da educação, ou ainda em várias outras áreas, vamos nos 
encontrar diante de situações em que nem sempre a nossa vontade ou convicção pre-
valecerá. Qual é o limite que separa a aceitação da nossa intervenção? Cada profissão 
tem sua ética, mas é importante que o critério não fira a dignidade humana.
Conheça a Declaração Universal dos Direitos Humanos, disponível no site da Unicef no link 
a seguir:
Infelizmente, vemos muitos exemplos de intolerância religiosa. Muitos deles se concretizam 
como agressão física. Aqui, trazemos duas reportagens, uma delas da violência sofrida por 
uma menina de 11 anos, que foi agredida ao voltar do terreiro de candomblé para sua casa. 
O caso aconteceu na cidade do Rio de Janeiro.
O segundo caso trata de um judeu de 57 anos, de Jaguariúna, interior do estado de São 
Paulo. Leia a reportagem, disponível no link a seguir:
Ambos os casos aconteceram claramente instigados por intolerância religiosa, nome comu-
mente utilizado para falar da violência com motivação religiosa. É comum que símbolos re-
ligiosos sejam desrespeitados e as pessoas agredidas gratuitamente, apenas por professa-
rem determinada fé.
https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos
Disponível em: http://glo.bo/3Yir9R2
Disponível em: https://correio.rac.com.br/campinasermc/homem-e-vitima-de-intolerancia-
religiosa-1.346630
SAIBA MAIS
ATUALIDADE DO TEMA
Acesso em: 16 abr. 2021.
Acesso em: 16 abr. 2021.
Acesso em: 16 abr. 2021.
https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos
http://glo.bo/3Yir9R2
https://correio.rac.com.br/campinasermc/homem-e-vitima-de-intolerancia-religiosa-1.346630
https://correio.rac.com.br/campinasermc/homem-e-vitima-de-intolerancia-religiosa-1.346630
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2. SOMOS ECOLÓGICOS
Crianças em idade escolar provavelmen-
te já plantaram feijão no algodão. Porém, 
dificilmente o feijão plantado no algodão 
tem uma vida longa, assim como dificil-
mente alguém colherá dele outros grãos 
de feijão que sejam suficientes para a ali-
mentação de uma pessoa. Então, por que 
plantamos feijões com as crianças?
Muitas podem ser as motivações pedagó-
gicas, mas é possível entender que plan-
tar feijão é para muitos estudantes a pri-
meira experiência de cuidado ecológico, 
pois é preciso regá-lo com certa frequência para que ele brote e cresça.
O relato do feijão sintetiza o objetivo deste capítulo. Poderíamos tratar da relação do 
ser humano com a natureza de várias maneiras e todas elas teriam a potencialidade de 
provocar nossa consciência. Aqui, decidimos falar do cuidado. O ser humano aprende a 
cuidar do mesmo modo que aprende que a relação com a natureza é condição para a ma-
nutenção da vida humana no planeta e para uma relação sustentável com o ecossistema.
2.1 IDENTIFICAR-SE COMO NATUREZA
A geração pós-industrialização foi seduzida pela possibilidade de consumir novos pro-
dutos que facilitariam a vida. Os descartáveis passaram a fazer parte da vida cotidiana 
e se tornava mais fácil utilizar copos descartáveis que lavar os copos reutilizáveis. E 
por mais que esses copos sejam recicláveis, nem sempre isso acontece. Seja porque 
a coleta seletiva ainda é precária em muitas cidades brasileiras ou porque a população 
ainda não tem o hábito de separar materiais recicláveis.
Figura 04. Feijão
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Figura 05. Descartáveis
Fonte: 123RF.
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2.2. CUIDADO COMO PARADIGMA
Não chegaremos ao fim do mundo. Mesmo que o ser humano não se livre de práticas 
nocivas como a poluição e o desmatamento, mesmo que novas pandemias aconteçam 
e vitimem grande parte da população, provavelmente, o mundo não acabará. O ecossis-
tema sempre se adapta e espécies deixam de existir, muitas vezes, por consequência 
de hábitos humanos e outras espécies surgem, mas pode ser que o ser humano deixe 
de existir. Os tempos atuais mostram que o modelo civilizacional baseado no consumo 
é insustentável (BOFF, 2011, p. 17).
Assim, vivemos um novo paradigma. Trata-se da consciência do cuidado e da inter-re-
lação do ser humano com o ecossistema.
Nesse sentido, não se trata de pensar e falar sobre o cuidado como objeto 
independente de nós. Mas de pensar e falar a partir do cuidado como é vivi-
do e se estrutura em nós mesmos. Não temos cuidado. Somos cuidado. Isto 
significa que o cuidado possui uma dimensão ontológica que entra na cons-
tituição do ser humano. É um modo-de-ser singular do homem e da mulher. 
Sem cuidado deixamos de ser humanos. (BOFF, 2011, p. 89)
O ser humano se descobriu parte do ecossistema e não cabe mais continuar sendo o pre-
dador que acreditava ter nascido para ser. A Terra não foi feita como quintal para nossa 
depredação. A atitude humana deve ser de responsabilidade e de harmonia. Tudo o que ele 
faz à Terra, faz a si, pois não é possível dissociar a vida humana do ecossistema.
2.3 CUIDADO COMO SUSTENTABILIDADE
A produção de bens de consumo manufaturados há muito tempo faz parte da socieda-
de, mas foi com a Revolução Industrial e com a produção do excedente que o mundo 
se viu imerso na lógica comercial e em suas consequências, como o impacto ambiental.
Entre os anos 1880 e o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a sociedade 
estadunidense e da Europa deixaram de consumir a produção dos pequenos merca-
dos locais para consumir os produtos produzidos pelos grandes mercados nacionais 
(LIPOVETSKY, 2007, p. 26). No Brasil, isso demorou um pouco mais para acontecer 
(MARCHINI; BRITO, 2016, p. 69-70), mas a indústria nacional começou a se organizar 
a partir dos anos 1950, consolidando-se nas décadas seguintes. O ser humano pós-
-industrial deixou de consumir pela necessidade e passou a consumir motivado pelo 
desejo (LIPOVETSKY, 2007, p. 32).
No século XXI, a sociedade viu a necessidade de pensar uma relação responsá-
vel com os bens de consumo e com o ecossistema, consolidando-se as discussões 
sobre a sustentabilidade.
A geração da passagem do século XX para o XXI viveu a abundância da produção industrial. 
Seria ela a geração da falta de cuidado?
PARA REFLETIR
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Transcender, integrar e desenvolver
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A noção de sustentabilidade é difusa e fluida. Ela se encontra em processo 
de construção e legitimação técnica, em sua identificação e contextualiza-
ção aos processos socioeconômicos das regiões e dos países. Combater a 
miséria humana e a depreciação exacerbada da natureza constituem seus 
principais pressupostos, que têm como base material as estruturas e os pro-
gramas sustentáveis que gerem inclusão social, emprego e renda, e melho-
ria de qualidade de vida às pessoas, com preservação ambiental. (FREITAS; 
FREITAS, 2016, p. 16)
As discussões sobre o desenvolvimento sustentável foram se afirmandona segunda metade 
do século XX, envolvendo instituições internacionais como a ONU e a UNESCO. A Assem-
bleia Geral das Nações Unidas, de 1959, instituiu a Primeira Década de Desenvolvimento 
das Nações Unidas para o período 1960 a 1970, visando, sobretudo, à redução da pobreza 
nos países subdesenvolvidos. Em 1965, criam o Programa das Nações Unidas para o De-
senvolvimento (PNUD). À medida que as questões ambientais ganham relevância social, 
também o tema do desenvolvimento assume características interdisciplinares e inclui temas 
e abordagens de outras áreas, como sociologia, ciência política, biologia, ciências da terra, 
educação, gestão pública e empresarial (BARBIERI, 2020, p. 17-19).
Já a expressão desenvolvimento sustentável surgiu em 1980, no documento denominado 
Estratégia de Conservação Mundial (World Conservation Strategy), produzido pela União 
Internacional para a Conservação da Natureza (IUNC) e World Wildlife Fund (WWF) – em 
português, Fundo Mundial para a Natureza –, afirmando que o desenvolvimento sustentável 
e a conservação da natureza são dependentes (BARBIERI, 2020, p. 33).
Em 2000, o então presidente da ONU, Kofi Annan, criou o Pacto Global, na tentativa de 
que as empresas pudessem alinhar suas estratégias à perspectiva da sustentabilidade 
nas várias áreas.
O Pacto tem por base a adesão das organizações aos seguintes 10 princípios que devem 
ser adotados pelas empresas que aderem ao Pacto Global. Eles são derivados da Declara-
ção Universal dos Direitos Humanos da Declaração da Organização Internacional do Traba-
lho sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, da Declaração do Rio sobre Meio 
Ambiente e Desenvolvimento e da Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção:
DIREITOS HUMANOS
I. As empresas devem apoiar e respeitar a proteção de direitos huma-
nos reconhecidos internacionalmente;
II. Assegurar-se de sua não participação em violações destes direitos.
TRABALHO
III. As empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhe-
cimento efetivo do direito à negociação coletiva.
IV. A eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou compulsório;
V. A abolição efetiva do trabalho infantil;
VI. Eliminar a discriminação no emprego.
Tabela 01. Princípios do Pacto Global
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2.4 INICIATIVAS LOCAIS
A consciência do indivíduo de sua relação com o ecossistema e a perspectiva da sus-
tentabilidade fez emergir um novo sujeito. Por mais que as estruturas sejam predomi-
nantes, o ser humano traz consigo o poder de perceber-se como parte do ecossistema 
e romper o paradigma antropocêntrico, segundo o qual o ser humano se sente o centro 
do universo e assume a postura predatória.
A crise do modelo civilizatório baseado em práticas predatórias aponta para a necessi-
dade de práticas locais de integração do indivíduo e das sociedades com a natureza. 
O incentivo da agricultura familiar e a separação de recicláveis podem ser exemplos de 
iniciativas e práticas locais que criam consciência sustentável.
MEIO AMBIENTE
VII. As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desa-
fios ambientais.
VIII. Desenvolver iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental.
IX. Incentivar o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambiental-
mente amigáveis.
ANTICORRUPÇÃO X. As empresas devem combater a corrupção em todas as suas for-
mas, inclusive extorsão e propina.
Fonte: Pacto Global ([s. d.], [n. p.]).
As ideias e estratégias do Pacto Global podem ser acessadas no site a seguir: 
https://www.pactoglobal.org.br/ 
SAIBA MAIS
Acesso em: 19 abr. 2021.
Não há como “jogar um lixo fora”. O lixão (aterro sanitário) é parte do ecossistema e traz 
impactos ambientais.
PARA REFLETIR
2.5 TUDO ESTÁ INTERLIGADO
Em 2015, o Papa Francisco escreveu a encíclica Laudato Si’ que trata do cuidado com 
a Casa Comum. Nesta encíclica, que é uma espécie de instrução que o papa escreve 
aos cristãos católicos, Francisco trata da inter-relação que há entre os seres vivos que 
habitam a Terra.
https://www.pactoglobal.org.br/ 
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Nessa perspectiva, aquilo que acontece do outro lado do planeta pode estar conecta-
do com a vida de quem vive aqui no Brasil. Tal interconexão fica ainda mais evidente 
quando vamos delimitando o horizonte cultural e geográfico. Aquilo que acontece em 
outra região do país pode afetar nossa vida. Os acontecimentos da periferia da cida-
de onde moramos não afetam apenas a vida daqueles que enfrentam problemas de 
habitação, saneamento básico ou transporte público, mas afetam toda a sociedade, 
gerando impactos concretos.
Três termos (ou conceitos) são relevantes para o entendimento da Laudato Si’ são: 
Casa Comum, a ideia de que os seres estão interligados e a ecologia integral. A Casa 
Comum diz respeito ao espaço onde vivemos, diz respeito ao Planeta Terra, mas vai 
além, trata-se da casa onde vive a família humana (LS 13). Por viver na mesma Casa, 
a família humana está interligada e a pobreza de um é a pobreza do planeta. Econo-
mia, tecnóloga, poluição, tudo nos conecta, nos inter-relaciona (LS 16). Ao enxergar-
mos o ser humano na Casa Comum, na relação com o ecossistema, nos tornamos 
capazes de construir uma ecologia integral, que visa a harmonia dos seres vivos na 
sua inter-relação (LS 10-11).
A princípio, o leitor do texto escrito pelo Papa pode entender que está diante de um 
texto que se limita a tratar das questões ecológicas e ambientais, mas isso é um enga-
no. Papa Francisco, uma das principais lideranças globais da atualidade, traz um novo 
horizonte. Tratar da Casa Comum é tratar daquilo que nos une, inclusive da ecologia e 
das questões ambientais.
Apesar de ser uma reflexão proposta pelo Papa, pensar a relação com a Casa Comum não 
é um exercício que se reduz ao catolicismo. O artigo de Elias Wolff e Suzana Terezinha Ma-
tiello, Espiritualidade ecológica para a humanização da “casa comum – Aproximações a patir 
do cap. VI da Laudato Si”, trata da dimensão ecumênica do cuidado com a Casa Comum.
Leia o texto na íntegra, disponível no link a seguir:
https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/49902
https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-frances-
co_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf
SAIBA MAIS
Acesso em: 20 abr. 2021.
O texto completo da Laudato Si’, com tradução para a língua portuguesa, está disponível no 
site do Vaticano no link a seguir: 
Acesso em: 19 abr. 2021.
https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/49902
https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf
https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf
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A encíclica Laudato Si’ traz a ideia de que as realidades presentes na Casa Comum estão 
interligadas, ou seja, há uma inter-relação entre os seres vivos que habitam o ecossistema.
Como a vida também é feita de arte, indicamos um belo vídeo produzido pelo Sefras (Serviço 
Franciscano de Solidariedade) na ocasião da semana Laudato Si’, em 2020, para comemorar 
os cinco anos da publicação da encíclica. Assista ao vídeo com a canção composta (letra e 
música) por Cirineu Khun, inspirada na Laudato Si, disponível no link a seguir:
Tudo está interligado
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gp2HLTGXQ8g
Clique aqui e acesse o
VÍDEO
Acesso em: 19 abr. 2021.
A sustentabilidade pode ser mais que uma teoria, transformando-se em práticas empresariais 
ou comunitárias que exercem impactos na vida dos indivíduos e na relação com o seu ecos-
sistema, leia no link a seguir:
Atualidade do tema
https://ciclovivo.com.br/planeta/desenvolvimento/10-solucoes-inovadoras-para-desen-
volvimento-sustentavel/
Acesso em: 19 abr. 2021.
https://www.youtube.com/watch?v=Gp2HLTGXQ8ghttps://www.youtube.com/watch?v=Gp2HLTGXQ8g
https://ciclovivo.com.br/planeta/desenvolvimento/10-solucoes-inovadoras-para-desenvolvimento-sustentavel/
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O ser humano cuida daquilo que lhe é caro, importante e valioso. Todas as pesquisas 
sobre sustentabilidade, os números sobre desmatamento e as interpretações sobre o 
aquecimento global são necessárias e devem embasar o conhecimento e as políticas 
públicas. Mas o ser humano se convence da importância de um comportamento susten-
tável à medida que se sente envolvido ou se sente como parte desse ecossistema. O ser 
humano se sente interligado à medida que se reconhece como morador da Casa Comum.
3. INTERLIGADOS
Dona Joana, mulher idosa que nunca foi à escola, é sábia. Conhece as plantas medicinais e 
sabe quando é a época de plantar cada semente, sabe quando vai chover ou não pela po-
sição das nuvens. Ela sabe também que o ser humano e a natureza formam uma unidade, 
e é comum dizer que “tudo o que vai, volta” e “quem pratica o mal, recebe o mal”. Com sua 
sabedoria popular e vivencial, dona Joana sabe que somos um só com o cosmos.
Com outras palavras, Joana tem a mesma leitura de mundo que embasa a ideia de mul-
tiverso das Histórias em Quadrinhos (HQs) da Marvel e da DC Comics. Basicamente, o 
multiverso é uma realidade formada por universos distintos, mas que estão conectados. 
Quem está acostumado com os filmes talvez não tenha clareza do que é o multiverso, mas 
nas HQs existem vários mundos que podem ser acessados através de poderes e portais.
Práticas locais, por si só, não se mostram capazes de construir um desenvolvimento susten-
tável, pois são necessárias estruturas, práticas e deliberações de governos e instituições. 
Mas as práticas locais, além de possibilitarem mudanças concretas na vida das pessoas e 
nas relações comunitárias, geram consciência por suscitarem o debate sobre determinado 
assunto ou comportamento. Assim, uma pessoa pode ter consciência da escassez de água 
assistindo ao telejornal ou acompanhando o aplicativo de notícias, mas é quando falta água 
em sua casa que ela percebe a relevância do assunto.
Figura 06. HQs da Marvel
Fonte: 123RF.
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Para quem acompanha os filmes do Universo Cinematográfico Marvel (UCM), fica fácil 
entender como um filme está conectado a outro, como uma informação presente no 
filme Homem-Formiga, por exemplo, torna-se crucial para entender aquilo que acontece 
em Vingadores Ultimato. Podemos ver outro exemplo de universo compartilhado na sé-
rie Dark, exibida pela Netflix. Esta série mostra a sobreposição de diferentes realidades, 
as quais seus personagens adentram, transformando-as.
A produção de HQs e de filmes de heróis movimenta sites e perfis que se ocupam em explicar 
e comentar cada publicação ou filme. Para entender mais sobre o multiverso nas HQs e nos 
filmes, acesse o site a seguir:
https://www.legiaodosherois.com.br/2020/multiverso-marvel.html
SAIBA MAIS
Acesso em: 20 abr. 2021.
Dica de filme
Homem-Aranha no aranhaverso. Direção de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rod-
ney Rothman. EUA: Sony Pictures, 2018 (117min.)
Miles Morales é um adolescente como vários outros, que gosta de música, grafita 
muros e enfrenta questões próprias de sua idade, como a escola, os amigos e a 
relação com os pais. Ao ser picado por uma aranha, recebe os poderes do Homem-
-Aranha, herói que já existia em seu mundo. Miles percebe, então, que um portal 
foi aberto e existem várias versões de heróis aranhas que estão presente em seu 
universo. O aranhaverso segue a mesma lógica do universo compartilhado e ajuda a 
entender o quanto a realidade apresenta uma unidade.
A vida real não é um conjunto de filmes nem conta com superpoderes como nas HQs, 
mas de certa forma as realidades estão conectadas, seja por seu aspecto cultural, eco-
nômico ou ambiental. Se tomamos o ser humano, podemos entendê-lo como um ser 
complexo, portador de várias capacidades, habilidades e características. Somos racio-
nais, mas não somente. Somos seres de técnica, lúdicos, religiosos, emotivos... e tais 
características nos constituem como um ser histórico e concreto.
https://www.legiaodosherois.com.br/2020/multiverso-marvel.html
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3.1 A UNIDADE DO SER
O ser humano é uma unidade, mas, além disso, ele busca visualizar essa unidade em 
tudo aquilo que cerca sua vida, inclusive no universo, atribuindo sentido à sua existência. 
Independentemente de a unidade do ser com o universo ser natural ou construída, ela 
não perde sua importância, pois revela a capacidade do ser humano de se colocar em 
relação com as circunstâncias que vive, buscando produzir sentido para a sua existência.
As crianças têm um costume de buscar identificar imagens nas nuvens e aquele aglo-
merado de ar e água se transforma, na cabeça de quem o vê, em um grande bicho de 
pelúcia, um sorvete ou um brinquedo. E se a nossa vida, a realidade que nos cerca ou 
mesmo o universo tem sentido ou não, isso pouco importa. O que mais importa é que 
o ser humano é capaz de produzir sentido e isso o coloca em relação com o universo.
João da Cruz (2020, p. 982), um reconhecido místico medieval, tem uma célebre fra-
se em que afirma que “[...] onde não há amor, ponha amor e colherá amor”. O au-
tor se baseia na capacidade humana de construir sua própria existência. Quando se 
percebe como parte do universo, o ser humano insere-se na narrativa que dá sentido 
e unidade ao que existe.
OS MITOS E O SENTIDO DA VIDA
As culturas antigas tinham uma maneira peculiar de buscar entender a realidade que as 
cercavam. É comum escutar que o mito é um instrumento de culturas atrasadas, pouco 
evoluídas, que inventavam histórias para explicar questões que o conhecimento deles 
não conseguia alcançar. Também é comum a ideia do mito como mentira. Mas tais in-
terpretações são equivocadas, pois não entendem a construção mítica no contexto em 
que ela acontece, mas em relação ao conhecimento científico e cultural posterior.
Figura 07. Eco e Narciso, John William Waterhouse (1903)
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eco_e_Narciso#/media/Ficheiro:John_William_Waterhouse_-_Echo_and_Narcissus_-_
Google_Art_Project.jpg. Acesso em: 7 mai. 2021.
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Uma das narrativas míticas mais conhecidas e, provavelmente, mais significativas é a que 
envolve o belo Narciso, condenado a não se apaixonar, e Eco, uma ninfa condenada a repetir 
apenas as palavras que os outros disserem a ela. O mito de Narciso e Eco é repleto de refle-
xões sobre a existência humana e seus dilemas e sofrimentos.
Para conhecê-lo, acesse o link a seguir:
A narrativa de Narciso e Eco nos leva a pensar várias questões relativas não somente à nos-
sa existência, mas também à nossa sociedade e história mais recente. O vídeo sobre Narciso 
e Eco publicado, no canal Tempero Drag, traz essas reflexões para a atualidade, dialogando 
com o pensamento decolonial. Para quem não conhece, o canal é importante uma fonte de 
informação: as falas de Rita são repletas de ironia, mas trazem um raciocínio muito bem arti-
culado com os conhecimentos acadêmicos.
Para assistir ao vídeo, acesse o link a seguir:
https://www.mitografias.com.br/2016/03/eco-e-narciso/
SAIBA MAIS
Acesso em: 20 abr. 2021
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kz6HPpM4RyY
Clique aqui e acesse o
VÍDEO
Acesso em: 20 abr. 2021.
https://www.mitografias.com.br/2016/03/eco-e-narciso/
https://www.youtube.com/watch?v=kz6HPpM4RyY
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As populações construíam narrativas com personagens e contextos que elaboravam 
uma compreensão da realidade. Porém, diante do mito, a pergunta a se fazer não é 
“oque aconteceu?”, mas “por que aconteceu?”, buscando compreender o mundo e a 
existência humana de maneira argumentativa. Assim, o mito trata de questões funda-
mentais da existência humana, mas não como a alegoria ou a metáfora, que trazem in-
terpretações mais estritas e direcionadas, e sim como narrativa que articula elementos 
religiosos com a interpretação da realidade.
Os mitos gregos são os mais conhecidos. As narrativas de Narciso, Pandora, Sísifo e 
Prometeu são, relativamente, conhecidas e tratam de questões centrais da existência 
humana, como a esperança, o sofrimento e a punição dos deuses. Mas há também a 
mitologia nórdica, a africana e a mitologia indígena.
Também Leandro Karnal faz uma pertinente reflexão sobre a vaidade tendo como base o mito 
de Narciso, estabelecendo a atitude humana nas redes sociais como seu ponto de partida. O 
vídeo possibilita uma fácil identificação de quem tem perfil em redes sociais e busca a melhor 
fotografia para postar em seu perfil. Para assisti-lo, acesse o link a seguir:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wOteOsC56Mc
Clique aqui e acesse o
VÍDEO
Acesso em: 20 abr. 2021.
https://www.youtube.com/watch?v=wOteOsC56Mc
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A CIÊNCIA E SEUS MITOS
Assim como os mitos, também a ciência se ocupa das causas primeiras. A diferença é 
que, sobretudo a física, busca entender a origem do universo e sua lógica formulando 
suas teorias de acordo com os princípios e as leis da física, em que “[...] a energia deve 
ser conservada” (GLEISER, 2010, p. 23). Como explicar, então, a criação de matéria 
vinda do nada?
A ciência é uma construção humana, uma narrativa que criamos para expli-
car o mundo a nossa volta. As “verdades” que obtemos, como a lei da gravi-
tação universal, de Newton, ou a teoria da relatividade espacial, de Einstein, 
apesar de brilhantes, funcionam apenas dentro de certos limites.
Sempre existirão fenômenos que não poderão ser explicados por nossas 
teorias. Novas revoluções científicas irão acontecer. Visões de mundo irão 
se transformar. (GLEISER, 2010, p. 25)
As religiões criam seus mitos – aqui no sentido de tentativa de explicar a realidade 
e a existência humana. Já a ciência cria suas teorias. A diferença entre elas está na 
linguagem. Enquanto a religião assume uma linguagem religiosa e narrativa, a ciência 
assume uma linguagem técnica e a coerência com suas leis e princípios.
Ambas são úteis e relevantes na empreitada que o ser humano assume de decifrar 
sua existência.
Se entendemos a mitologia como um conjunto de histórias fictícias que perderam a impor-
tância à medida que ocorria o avanço das sociedades, então teremos muita dificuldade de 
entendermos que o cristianismo tem seus mitos. Pois, assim, estaríamos afirmando que as 
histórias bíblicas são mentirosas ou ultrapassadas.
Mas os mitos são mais que isso: são relatos que buscam decifrar o sentido da vida humana, 
da existência e da criação e que constroem narrativas estabelecendo um diálogo entre tais 
questões e os elementos religiosos da cultura onde vivem. Assim, os relatos presentes, prin-
cipalmente, no Antigo Testamento da Bíblia cristã, que retratam os elementos da criação e os 
primeiros personagens bíblicos, como Abraão, Isaac e Jacó, ou a narrativa do dilúvio, estru-
turam a mitologia cristã, pois são narrativas que se ocupam de temas centrais à existência 
daquele povo e daquela sociedade (RIBEIRO, 2018, p. 117-118).
IMPORTANTE
O cristianismo tem sua mitologia?
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3.2 INTER-RELAÇÃO E A FRATERNIDADE UNIVERSAL
O entendimento holístico do ser humano 
e da realidade que o cerca também está 
presente na religião e pode ser encon-
trado em discursos do Papa Francisco, 
como vimos no capítulo anterior, sobre 
ecologia. Todos vivemos em uma Casa 
Comum e, por isso, há a necessidade de 
que o ser humano não se sinta no único 
direito de desfrutar os benefícios de vi-
ver nesta Casa, mas contribua para sua 
construção ou mesmo para a sua manu-
tenção (LS 13, 117).
SAIBA MAIS
Em 1997, Marcelo Gleiser participou do programa Roda Viva, da TV cultura. Gleiser, físico 
brasileiro, ficou conhecido pela relação que faz entre religião e ciência, não contrapondo as 
duas realidades.
Para assistir à entrevista, visite:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qn7lAOK80Co
Clique aqui e acesse o
VÍDEO
Acesso em: 20 abr. 2021.
Figura 08. Natureza
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Como moradores da Casa Comum, os seres humanos, a fauna, a flora e tudo aquilo 
que existe está interligado. Há uma interdependência na relação dos seres humanos 
com o restante do planeta. A inter-relação entre ser humano e ecossistema possibilita 
um entendimento mais harmônico, apontando para a correção de um equívoco herme-
nêutico que legitimou a concepção do ser humano como um predador. Essa inter-rela-
ção implica uma postura ética.
O conhecimento das consequências de nossos comportamentos e das estruturas que regem 
a Casa Comum nos leva a pensar possibilidades mais sustentáveis (LS 91, 240). A consciên-
cia de si e do mundo que o cerca, e da pertença à Casa Comum, leva o ser humano a enten-
der seu papel. E se tudo está interligado – e está – é difícil sentir-se alheio (FT, 34).
Ocupando-se da responsabilidade fraterna, Francisco publicou, em 2020, a encíclica 
Fratelli Tutti, que continua a reflexão sobre a Casa Comum, apontando a importância 
das instituições e líderes políticos, do poder econômico, mas também da participação 
dos indivíduos, que constroem laços e iniciativas locais. Fratelli Tutti aponta para a 
superação da postura egoísta que se desenvolve na prática predatória em relação à 
natureza, à sociedade e aos próprios seres humanos (FT, 17).
O texto completo da Fratelli Tutti está disponível no site do Vaticano, com tradução para a 
língua portuguesa. Para conhecê-lo, acesse o link a seguir:
Entender a realidade em sua unidade de modo algum pode ser confundido com a ideia de 
uma realidade uniforme. As diferentes perspectivas culturais geram tensões e conflitos, além 
da necessidade de uma educação para a interculturalidade. O artigo escrito por Vera Candau 
trata da relação entre educação e interculturalidade. Disponível no link a seguir:
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/
pt/2020/10/4/enciclica-fratellitutti.html
https://www.scielo.br/pdf/es/v33n118/v33n118a15.pdf
SAIBA MAIS
SAIBA MAIS
Acesso em: 20 abr. 2021.
Acesso em: 20 abr. 2021.
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2020/10/4/enciclica-fratellitutti.html
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2020/10/4/enciclica-fratellitutti.html
https://www.scielo.br/pdf/es/v33n118/v33n118a15.pdf
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O mundo globalizado é um exemplo claro de como os vários rincões do mundo estão in-
terligados, embora nem sempre seja possível identificar as implicações globais de um 
determinado acontecimento. No entanto, há duas situações recentes que mostram bem 
quando o mundo está interligado e como aquilo que acontece em determinado lugar no 
mundo pode afetar a todos, seja o habitante de uma grande cidade, como Nova Iorque, 
ou um pequeno vilarejo da Mongólia.
O primeiro exemplo é o aquecimento global. A temperatura média do planeta está aumen-
tando e isso pode acontecer por causas naturais ou por consequência da emissão de gases, 
mas é certo que acontece e gera impacto em todo o planeta. Você pode ter mais informações 
a respeito em reportagem do WWF Brasil, disponível no link a seguir:
O segundo exemplo é ainda mais impactante. O Coronavírus (ou o Covid-19),um vírus de 
origem chinesa, espalhou-se por todo o mundo e gerou a maior pandemia da história da 
humanidade. Em Pandemias – o que é e como a globalização potencializa o problema, pu-
blicado no portal UOL, Ronaldo Decicino mostra como os processos globais impactaram na 
proliferação desse vírus. Para conhecer o texto, acesse o link a seguir:
Atualidade do tema
https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_cli-
maticas2/
Acesso em: 20 abr. 2021.
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/pandemias-o-que-e-e-como-a-globali-
zacao-potencializa-o-problema.htm
Acesso em: 20 abr. 2021.
Babel. Direção de Alejandro González Iñárritu. EUA; França; México: Paramount, 2006 (2h 23min.)
Um acidente envolvendo um casal estadunidense dentro de um ônibus no Marrocos desen-
cadeia sucessivos acontecimentos que transcendem a geografia do local, chegando ao Ja-
pão, ao México e mesmo aos EUA. O filme possibilita uma reflexão sobre como determinados 
acontecimentos e características sociais influenciam outros grupos ou classes. É possível 
olhar para o filme para além das narrativas dos personagens, como se eles representassem 
não apenas pessoas, e sim a sociedade na qual estão inseridos.
SUGESTÃO
https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_climaticas2/
https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_climaticas2/
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/pandemias-o-que-e-e-como-a-globalizacao-potenciali
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/pandemias-o-que-e-e-como-a-globalizacao-potenciali
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Chegamos ao final de mais um componente curricular. Durante nossas aulas, pudemos 
ver várias características do ser humano contemporâneo. Tais características não são 
como um catálogo no qual podemos escolher quais mais nos apetecem ou quais que-
remos vivenciar. Todas elas, de alguma maneira, permeiam nossa existência ou no mí-
nimo a sociedade em que vivemos e, por consequência, nossa vida. Perceber o quanto 
somos interligados aos outros nos leva a uma atitude de empatia.
4. A REDESCOBERTA DO HUMANO
Neste capítulo final, depois de percorrido longo caminho temático sobre o ser humano 
– para ele poder ser pensado na contemporaneidade –, serão apresentados alguns 
conceitos que marcam a vida em seu fazer cotidiano, deixando mais próximas ou mais 
distantes as diferentes dimensões humanas. De maneira especial, tais conceitos são o 
de ambivalência, o de cuidado, e o de temporalidade.
Cada um dos conceitos toca o modo como as relações são constituídas – entre os 
próprios seres humanos, com o mundo e consigo. Eles levam à reflexão sobre a com-
plexidade da existência humana, que não pode ser entendida de modo unívoco. Cada 
pessoa é um mundo em si que, na relação com outros, vai se mostrando de modos 
diversos; há uma novidade que sempre aparece e precisa ser compreendida.
4.1 A AMBIVALÊNCIA HUMANA
A vivência humana, mais que complicada, é complexa. Significa que, a cada situa-
ção, é necessário que o ser humano avalie as condições para poder agir –ainda 
que os contextos sejam semelhantes, podem não dar origem ao mesmo resulta-
do. E cada contexto não é fechado em si mesmo, como um todo sólido; ele não é 
pronto, mas se dá de acordo com o conjunto de outros elementos e situações. Nes-
te sentido, e em decorrência disso, o ser humano é único e totalmente novo em 
casa caso (considerando-se, principalmente, que cada um vai se moldando e sendo 
moldado pela realidade na qual vive).
Cada pessoa, ao longo de sua história, vai se constituindo e se assumindo em uma 
individualidade, marcada por modos de perceber o mundo, gostos, valores e posturas 
que valerão para si; as áreas do conhecimento que, de maneira singular, tratam desta 
constituição, são as humanidades de maneira geral (filosofia, sociologia, história) e as 
ciências do psiquismo (psicologia, psicanálise).
O ser humano constitui-se, assim, no movimento da realidade – por tal movimento ele é 
afetado e responde, de diferentes maneiras, aos estímulos que seu mundo circundante 
traz. Retomando uma ideia de Sartre, é possível entender que cada pessoa vai se cons-
truindo a partir das escolhas que faz:
... o homem existe primeiro, se encontra, surge no mundo, e se define em 
seguida. [...] Ele apenas será alguma coisa posteriormente, e será aquilo 
que ele se tornar. [...] O homem é, não apenas como é concebido, mas 
como ele se quer, e como se concebe a partir da existência, como se 
quer a partir desse elã de existir, o homem nada é além do que ele se faz. 
(SARTRE, 2010, p. 19)
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Aquilo que o ser humano faz de si é fruto de um todo contextual, conforme indicado 
acima. Daí, classificar o ser humano como totalmente bom ou mau acaba sendo super-
ficial, não abarcando a complexidade citada. No fundo, falamos de um ser ambivalente 
em si mesmo (anjo e demônio), mas que pouco sabe lidar com a ambivalência que o 
constitui. Ele é livre para ser e decidir.
Todas as dimensões que, ao longo deste livro, foram apresentadas marcam a realida-
de humana: na vivência de cada uma delas vai se construindo um mundo – o mundo 
humano. Talvez, a principal característica humana seja a racionalidade, que permite 
a reflexão diante da realidade; por meio dela, cada pessoa constrói conceitos sobre o 
próprio existir. Ela permite o entendimento e a classificação de algo como sendo bom 
ou mal, e dá parâmetros a partir dos quais o mundo pode ser avaliado.
Receber
Interpretar
Avatar
AgirSer afetado
Receber o mundo, ser afetado por ele, interpretá-lo, avaliar e se motivar a agir é um 
processo que deveria ocorrer de modo refletido em todas as situações – mas não acon-
tece. Resgata-se, então, a humanidade das pessoas quando elas param e refletem 
sobre o que fazem; mas uma reflexão detida, que não segue o ritmo frenético que a vida 
contemporânea imprime no cotidiano.
Ao ser pensada a formação profissional, pensar este processo que leva ao agir é bas-
tante significativo. Toda ação é uma resposta (não direta) aos estímulos do mundo; 
por exemplo, a primeira ação de escolher uma profissão é resposta à percepção de 
necessidades e possibilidades de ser no âmbito coletivo. Mas, até que ponto cada pes-
soa pensa profundamente antes de escolher? M. Heidegger, filósofo contemporâneo 
afirma que “já desde séculos, o homem vem agindo demais e pensando de menos” 
(HEIDEGGER, 2001, p. 112).
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4.2 O CUIDADO DE SI
Sendo ambivalente e pensando breve e superficialmente (por conta do ritmo da vida 
contemporânea), pouco espaço sobra para a importante vivência do cuidado. Pensar o 
ser humano contemporâneo é refletir sobre esta vivência. O cuidado do mundo e o cui-
dado do outro são transpassados por uma noção bem íntima que se relaciona ao cuida-
do de si. Este “si mesmo” foi pensado de diferentes modos, ao longo da história: alma, 
essência, identidade etc.; todos tratam de um voltar-se para si a partir de um olhar que 
busca entendimento. Às vezes, tal entendimento leva à ação; às vezes, o entendimento 
é a própria ação. Sócrates, trazido por Platão, alerta para uma necessidade:
Em verdade, com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser conven-
cer-vos, jovens e velhos, de que não deveis vos preocupar nem com o corpo, 
nem com as riquezas, nem com qualquer outra coisa antes e mais que com 
a alma, a fim de que ela se torne excelente e muito virtuosa, e de que das 
riquezas não se origina a virtude, mas da virtude se originam as riquezas e 
todas as outras coisas que são venturas para os homens, tanto para os cida-
dãos individualmente como para o Estado. (PLATÃO, 1999, p. 82)
Toda noção de cuidado vem de uma experiência do indivíduo nos ambientes nos quais, 
desde sempre, ele foi aprendendo a se relacionar com o mundo. A realidadeobjetiva 
pode ser uma só, mas existem tantos mundos quantos forem os seres humanos; daí, 
as diferentes experiências de cuidado. Neste livro, a noção de cuidar apareceu inúme-
ras vezes – algumas, implicitamente. O cuidado de si é pensado, em Sócrates, como 
cuidado da alma.
Neste ponto, também a vida profissional deve ser pensada como cuidado: toda vivência 
profissional é o cuidado com algo que toca a vida de outras muitas pessoas; mesmo 
indiretamente, ser profissional é cuidar da humanidade como um todo. Este cuidado 
vem do cuidado consigo. Platão traz esta noção socrática nos diálogos Alcibíades I e 
II. Alcibíades quer governar a cidade e Sócrates indica que, antes, ele deve aprender o 
cuidado de si. Refletindo sobre tais temas, Foucault indica:
Não se pode governar os outros, não se pode bem governar os outros, não 
se pode transformar os próprios privilégios em ação política sobre os outros, 
em ação racional, se não se está ocupado consigo mesmo. (...) [O] cuidado 
de si é antes uma atividade (...). (FOUCAULT, 2010, pp. 35-36)
Considerando-se a realidade grega antiga, a política era a destinação do cidadão, ca-
minho de realização e sua contribuição para a vida social; enquanto ocupações outras 
Lance um olhar sobre as unidades deste livro, que apresentou uma reflexão sobre diversos 
âmbitos da vivência humana, e busque responder:
O âmbito mais significativo para mim é _________________________.
O âmbito no qual preciso mais dedicação e aperfeiçoamento é _________________.
PARA REFLETIR
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ficavam para os não-cidadãos. Mas, ao se pensar a sociedade – já desde muito tempo 
–, as ocupações são as diversas profissões que estão à disposição das pessoas, como 
necessidades sociais que podem ser assumidas pelas ações e trabalho individuais. Em 
suma, o entendimento é o de que não se consegue bem atuar socialmente, cuidando 
daquilo que excede ao que é de si próprio, quando não há um cuidado de si. Trata-se 
de um outro elemento de resgate da dimensão humana.
O cuidado de si é uma atividade, algo a que se deve dedicar; significa que depende de 
uma decisão racional que apenas é possível quando já passou a fase de formação bási-
ca. Durante a formação profissional é que cada pessoa vai desenvolvendo o cuidado de 
si como um modo de estar no mundo e com ele se relacionar. Estruturas, livros e mestres 
são auxílio; mas é a pessoa em formação que molda o (a) profissional que deseja ser.
Qual atenção você dá para o cuidado de si e de que modo o faz?
Pensando-se a constituição de seu ser profissional, tente nomear quais ações você vai toman-
do para projetar e realizar o(a) profissional que você deseja ser? Como você vai construindo 
competências específicas entre aquilo que você é e o que pretende ser como profissional?
PARA REFLETIR
4.3 UMA EXISTÊNCIA TEMPORAL
O tempo é um dos grandes temas da filosofia; é um dos mais profundos problemas 
filosóficos, já que nada na existência pode ser pensado fora da noção de tempo. Na 
verdade, o tempo sempre delimita o existir, podendo ser pensado o início e o fim de 
algo. É no horizonte do tempo que o ser humano projeta sua vida.
Na contemporaneidade, a ideia de ‘fim’ é sempre postergada por meio de diferentes 
dispositivos; é algo como “poderei fazer no futuro”, sem trazer a clara consciência do 
fim, com a morte. Mas o tempo vai passando e, conforme passa, estranhamente rouba 
nosso próprio tempo. Viver a temporalidade é, de certo modo, fazer as pazes com o 
tempo, considerando nossa única possibilidade de existir.
A poetisa Viviane Mosé trata da temática do tempo como uma relação com o próprio Eros. 
É um paradoxo entendermos que, quanto mais tempo já temos, menos tempo temos.
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TEMPO
quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele
soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
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um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos…
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando
(Disponível em: https://tempofestival.com.br/instantaneo/viviane-mose-e-os-desafios-do-tempo/, Acesso em: 04 jul. 2022.)
PARA OUVIR...
Ouça o que Viviane Mosé diz sobre o envelhecer, em seu canal do Youtube.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MyLII1HEjzM
Clique aqui e acesse o
VÍDEO
https://www.youtube.com/watch?v=MyLII1HEjzM
https://www.youtube.com/watch?v=MyLII1HEjzM
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O mundo profissional deve ser pensado a partir do que significa ser bom (boa) profis-
sional. Mas, como o tempo passa, tal pensamento deve ser preocupação desde o início 
da formação: a qualidade profissional não vem como em um passe de mágica, quando 
finda o período de formação universitária. Refletir cotidianamente leva a construir – tam-
bém cotidianamente – uma identidade profissional, não apenas enquanto fazer técnico, 
mas enquanto postura de quem assume um lugar social segundo a profissão escolhida.
O tempo acaba, e é necessário ser bom (boa) desde agora!
4.4 O SER PENSANTE E O UNIVERSO
Quem é o ser humano no Universo? Fora qualquer pretensão humana na construção 
do valor de si próprio, ao longo das temáticas tratadas neste livro, há um sentido que 
subjaz: entender que não há uma existência humana isolada de qualquer outro ser. Sig-
nifica entender que a existência do indivíduo se dá em milhares de inter-relações, que 
constituem a complexidade indicada desde o início deste capítulo.
Existimos, mas poderíamos não existir... Mas, por que é assim? Somos contingentes, 
e ter consciência deste fato dá condições de se repensar os caminhos de vida. A con-
tingência mostra que cada pessoa pode ser transformada a cada instante, já que ela 
nunca estará pronta, em um estágio final.
... a existência contingente significa uma existência desprovida de certe-
za – e uma certeza que está faltando neste desolado sítio nosso ou difícil 
de desencavar por baixo do entulho das verdades modernas é a certeza 
da solidariedade. O caminho que leva da tolerância à solidariedade, como 
qualquer outro, é um caminho indeterminado; é ele mesmo contingente. E 
assim também o outro caminho, que leva da tolerância à indiferença e isola-
mento; é igualmente contingente e, portanto, igualmente plausível. O esta-
do de tolerância é intrínseca e inevitavelmente ambivalente. Presta-se com 
igual facilidade – ou dificuldade – ao louvor comemorativo e à condenação 
zombeteira; pode tanto dar lugar à alegria quanto ao desespero. Viver em 
contingência significa viver sem uma garantia, apenas com uma certeza pro-
visória, pragmática [...], e isso inclui o efeito emancipatório da solidariedade. 
(BAUMAN, 1999, p. 250)
É interessante como o autor liga a ideia de contingência ao conceito de solidariedade. 
Ser solidário é diferente de ser tolerante. A certeza provisória é a única possível: existi-
mos a partir do que não temos certeza – surgimos; somos, mas nunca plenos e sempre 
a nos fazer; seremos em um futuro sem qualquer certeza – mas nos projetamos para 
algo. Resgatar a humanidade é resgatar a solidariedade, sem qualquer sentido fanta-
sioso ou romântico: trata-se de construir e realizar uma solidariedadereal. É fazer a 
solidariedade ser presente – no presente, já que o futuro é apenas projeto. Somos seres 
capazes de tudo o que foi apresentado ao longo de todas as unidades deste livro. Por 
fim, somos capazes da solidariedade em uma redescoberta de nós mesmos, no que é 
singular em nosso existir.
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CONCLUSÃO
Este capítulo, que finaliza o livro de Estudo do Ser Humano Contemporâneo, percorreu 
um caminho de pensamento que objetivou identificar alguns elementos que marcam o 
ser humano e sua vida na contemporaneidade. Reconhecer as dimensões da ambiva-
lência, do cuidado e da temporalidade (que é a finitude) permitem o reconhecimento da 
singularidade da experiência humana. Resgatar a humanidade em você, profissional 
em formação, é fazer entender que cada pessoa tem um projeto de realização; cada 
uma partilha de uma mesma existência, que é finita e requer cuidado para ser bem vivi-
da. A ambivalência humana relativiza toda pretensão de estabelecimento de uma verda-
de única que deva ser seguida. Cada pessoa é um projeto em si mesma. E, por fim, todo 
projeto profissional que não desemboca em solidariedade não contribui socialmente.
Chegamos ao final que, por sua vez, deve abrir para um novo começo, a saber, 
um novo olhar sobre si que motiva a uma ação mais efetiva e que contribua com 
o mundo contemporâneo.
Retome as unidades deste livro e, a partir das problematizações feitas neste capítulo 14, 
complete o quadro abaixo, que deve servir para que você verifique 5 dimensões humanas 
que devem ser mais bem vivenciadas por você, pensando-se seu projeto profissional.
PONDO NO PAPEL
DIMENSÃO VIVÊNCIA
Ex.: COMUNICAÇÃO (Cap. 6)
Desenvolver diferentes habilidades de comunica-
ção; conhecer novas linguagens; buscar compreen-
der a fala do meu interlocutor.
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