Prévia do material em texto
EDUCANDO PARA A PAZ FORMANDO MULTIPLICADORES DO BEM HELOÍSA MARIA DOS SANTOS TOLEDO LUIS FERNANDO CRESPO WELDER LANCIERI MARCHINI LUIZ CARLOS RAMOS ESTUDO DO SER HUMANO CONTEMPORÂNEO E S T U D O D O S E R H U M A N O C O N T E M P O R Â N E O E d u c a ç ã o , P o lític a s e H u m a n id a d e s 102 Transcender, integrar e desenvolver 4 UNIDADE 4 TRANSCENDER, INTEGRAR E DESENVOLVER INTRODUÇÃO Chegamos, enfim, à unidade IV, a último de nosso curso. Nesta unidade nos dedicare- mos a analisar questões relativas às experiências da humanidade em relação espiritual, ecológica e de fundação e conexão com o mundo. Para tanto, os capítulos apresentam importantes leituras sobre a forma como experienciamos estes distintos aspectos, aten- tando para as múltiplas formas de se conectar com a transcendência, o mundo e as pessoas. Os aspectos da religiosidade humana são explorados no primeiro capítulo, bem como à busca por experiências e vivências transcendentais. Para além destes elementos, outros pontos são levantados como, por exemplo, a violência com motiva- ção religiosa e (in)compreensão de valores absolutos. O segundo capítulo analisa as relações da humanidade com natureza. Trata-se de um tema extremamente importante e debatido na atualidade e, portanto, fundamental para que possamos compreender as formas como temos lidado com nossas conexões e tro- cas com o meio ambiente. O terceiro capítulo visa conectar as discussões anteriores e, neste sentido, estabelecer uma leitura sobre a unidade do ser, a relação entre a ciência e os mitos, as interrelações entre os indivíduos, a natureza e as múltiplas sociedades em um mundo cada vez mais conectado e globalizado. Por fim, o quarto capítulo visa estabelecer uma reflexão, um balanço sobre os temas estudados ao longo de nosso curso e, dessa forma, projetar uma compreensão geral sobre quem somos nos no universo, destacando que tal reflexão segue em contínuo, sempre em aberto, atenta às mudanças do mundo, mas, também, as nossas próprias mudanças e transformações. 1. O SER HUMANO É UM SER RELIGIOSO Uma jovem aluna do Ensino Médio vai à aula usando um Hijab, véu que as mulheres muçulmanas usam sobre a cabeça. Ela não pode ser cumprimentada pelo toque dos meninos, não deve receber aperto de mão nem beijo no rosto, e o fato de não poder ter contato físico faz com que ela enfrente problemas nas aulas de educação física, sobre- tudo, quando há jogos coletivos. Em um restaurante, o chef de cozinha prepara um suculento carré de porco e se sente ofendido quando o prato é oferecido a um ilustre cliente sem saber que se trata de um judeu. Muitas religiões adotam restrições alimentares. Além dos judeus, os islâmicos não comem carne suína. Hindus de algumas castas não comem carne de vaca, alimen- to que também não é consumido às sextas-feiras por membros de parte dos terreiros de candomblé e pelos católicos na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. Também há religiões que não permitem consumo de bebidas alcoólicas. 103 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo Uma funcionária chega à empresa onde trabalha com a cabeça raspada, pois passou pelo processo de inicia- ção do candomblé, e logo é chamada por todos de macumbeira. Enquanto isso, cristãos católicos utilizam um cru- cifixo no pescoço e cristãos, de ma- neira geral, vestem camisetas com es- tampas próprias de suas igrejas sem maiores problemas, mas estampas com motivos religiosos afro-brasileiros ainda geram preconceito. O que esses exemplos têm em comum? Eles trazem consigo duas informações im- portantes. A primeira diz respeito às características religiosas do ser humano. Somos religiosos e nossas crenças influenciam diretamente nosso cotidiano, nossos hábitos e costumes. Em geral, o ser humano não deixa de acreditar em seus princípios religiosos quando sai do templo ou vive seu cotidiano, ou seja, ele não deixa de ser religioso quan- do vai à escola, ao trabalho ou mesmo quando frequenta um restaurante. E a segunda informação é que a ignorân- cia motiva a maioria dos preconceitos em relação à religião. Quando ignoramos – aqui no sentido de desconhecimento – as práticas e doutrinas religiosas, corremos o risco de julgá-las como uma supersti- ção, banalidade ou, ainda – o que é mais grave –, corremos o risco de distorcê-las, atribuindo a elas um significado maléfico, passando, por exemplo, a identificar todo religioso de matriz africana como um ma- cumbeiro ou um islâmico como terrorista. O objetivo deste capítulo é entender o ser humano como um ser religioso. Não temos a pretensão de abarcar todas as religiões nem toda a história das religiões. Isso seria impossível. Mas podemos entender qual a função da religião na vida humana e como o desconhecimento pode levar a atitudes vio- lentas em relação ao outro, seja porque quem segue uma religião pode sofrer agressão física, seja porque impedem o fiel de viver livremente seus costumes e crenças. Figura 01. Estudante islâmica com seu Hijab Fo nt e: 1 23 R F. Figura 02. Diversidade de religiões Fo nt e: 1 23 R F. 104 Transcender, integrar e desenvolver 4 1.1. O SER HUMANO É UM SER RELIGIOSO A história das religiões é tão antiga quanto a história da sociedade, tornando-se difícil pen- sar no ser humano excluindo suas características, comportamentos e costumes religio- sos. Além de ser um fenômeno tipicamente humano, visto que não encontramos religião nas outras espécies da natureza, as atividades religiosas não se limitam a um território, a um grupo específico ou mesmo a um momento histórico (MONDIN, 2017, p. 224). A tradição religiosa brasileira é, fortemente, marcada por um reconhecimento do cris- tianismo como religião oficial. É comum que as pessoas sejam batizadas ou se casem em celebrações realizadas em igrejas cristãs, motivadas por uma herança cultural e não simplesmente pela pertença religiosa. Aos poucos, outras tradições religiosas – que sempre fizeram parte da sociedade, mas que eram ocultadas ou encobertas – come- çam a ganhar legitimamente o reconhecimento e o status de prática religiosa. Exemplo disso é o das religiões afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda. Era comum, há algumas décadas ou anos, que suas práticas religiosas fossem escondidas por receio de represália ou preconceito social. Hoje, o islamismo é a religião que mais cresce no mundo e no Brasil (BERKENBROCK, 2019, p. 24-25), no entanto, também é comum que se olhe para um islâmico com olhar preconceituoso, identificando-o como terrorista, devido à visão parcial e estereotipada que temos. É difícil encontrarmos uma religião que pregue deliberadamente a violência. Os livros sagrados até podem ter passagens e instrução de cunho violento, próprios do período em que foram es- critos, e, por isso, a leitura desses textos deve ser acompanhada de uma crítica literária. Mas, geralmente, o conjunto de instruções e doutrinas de uma religião não aponta para esse cami- nho e o preconceito e as práticas agressivas vêm de grupos e de pessoas que fazem leituras da tradição religiosa e de seus textos sagrados a partir de interesses específicos. Sendo assim, é possível colocarmos uma questão: minha crença religiosa (seja ela qual for) me dá o direito de oprimir quem não crê? PARA REFLETIR As religiões têm sua visão de mundo e sua visão sobre o ser humano. O artigo escrito pelo cientista da religião Volney Berkenbrock aponta características da ética iorubá, grupo étnico que oferece elementos para as religiões afro-brasileiras. BERKENBROCK, V. J. O Conceito de Ética no Candomblé. HORIZONTE - Revista de Estu- dos de Teologia e Ciências da Religião, v. 15, n. 47, p. 905-928, 30 set. 2017. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175- 5841.2017v15n47p905. SAIBA MAIS Acesso em: 21 abr. 2021. http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2017v15n47p905http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2017v15n47p905 105 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo 1.2. A RELIGIÃO COMO HORIZONTE É comum a relação entre a religião e o transcendente, entendido como a divindade cul- tuada. O transcendente se opõe ao imanente, com este fazendo referência ao imediato e físico, e aquele às realidades celestes ou que estão para além do plano físico. Con- tudo, há religiões que não trazem divindades em sua doutrina, como o clássico caso do budismo, entendido como uma religião imanente. Quando utilizamos a palavra religião, remetemo-nos a um sistema de crenças e costumes que pode, por vezes, ser grande – como é o caso do cristianismo –, mas também pode ser menor – como é o caso dos sistemas formados por grupos pequenos. O ser humano é religioso e por isso recorre à vivência religiosa, esteja ele fora ou dentro da religião ou, em termos mais técnicos, seja ele heterodoxo ou ortodoxo, oficial ou popular. Assim, os cristãos, por exemplo, podem fazer peregrinações, prática esta que nasceu da religiosidade popular e que foi assimilada pela religião. Embora não sejam termos opostos, o ser religioso e a religião são distintos. Criar um critério único que sirva para classificar ou não uma manifestação cultural como religião seria um equívoco. Talvez sirva a máxima dos antropólogos de entender que é religião aquilo que as pessoas que praticam e consideram religião (BERKENBROCK, 2019, p. 40). IMPORTANTE SAIBA MAIS Mas, e os ateus? Ao tratarmos da religião como uma característica cultural humana, faz-se necessária também a abordagem do ate- ísmo. O historiador brasileiro Leandro Karnal traz uma in- teressante reflexão sobre o seu próprio ateísmo. Confira ao vídeo, disponível no link a seguir: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LJN3yMMh6Hs Clique aqui e acesse o VÍDEO Acesso em: 16 abr. 2021 https://www.youtube.com/watch?v=LJN3yMMh6Hs https://www.youtube.com/watch?v=LJN3yMMh6Hs 106 Transcender, integrar e desenvolver 4 Mais que um transcendente, podemos entender que a religião traz consigo a capacida- de de transcendência. E é possível entender a transcendência não como um substan- tivo ou um objeto alcançado pelo fiel ao acreditar. Se assim o fizermos, toda religião se resumirá a um conjunto de doutrina ou conhecimentos acessíveis aos iniciados. Mais que isso, a transcendência é uma atitude e a religião tem o poder de levar seus fiéis a transcenderem as questões mais imanentes, e não porque elas sejam nocivas, mas porque o ser humano não se limita apenas à própria sobrevivência. O ser humano quer dar sentido, construir significados e olhar horizonte e perspectivas. A arte, o conheci- mento e a religião têm a capacidade de se tornarem instrumentos de transcendência. ÁGUIA E A GALINHA, UMA HISTÓRIA DE TRANSCENDÊNCIA Na década de 1970, o autor brasileiro Leonardo Boff (2017) escreveu uma obra inspi- rada em um conto africano segundo o qual um camponês havia encontrado uma águia, ainda filhote, e a teria criado junto às galinhas, no galinheiro. A águia acreditava ser uma galinha: ciscava, comia e se comportava como uma galinha. Depois de um tempo, o agricultor recebeu em sua casa a visita de um naturalista que, reconhecendo que aquele animal era uma águia, iniciou um processo para que ela ganhasse os céus, tor- nando-se a águia que sempre foi (BOFF, 2017, p. 29-32). O conto não tem o objetivo de entender a galinha como um animal menor ou inferior, mas entende que não podemos – assim como a águia -- nos sujeitar a ser aquilo que não somos. Podemos entender, então, que a galinha é o arquétipo daquele que se sujeita às questões imanentes, à sobrevivência, ao cotidiano. E não há erro algum em buscar a sobrevivência, isso é nobre! Mas o ser humano é um ser que não apenas sobrevive. Ele vive! A águia busca horizontes, transcendendo as questões mais imediatas ou imanentes. As aventuras de Pi. Direção de Ang Lee. EUA: Fox, 2012. (2h 05min.) A família de Pi decide se mudar para o Canadá após o zoológico que administram na Índia ser fechado por problemas financeiros. Com isso, os animais do zoológico e a família de Pi embarcam no navio que naufraga após grande tempestade. O jovem Pi passa então a convi- ver com um grande tigre em busca da sobrevivência em alto mar. Além de trazer elementos religiosos próprios do cristianismo, islamismo e hinduísmo, o filme retrata a lógica do discurso religioso à medida que o jovem Pi descreve os acontecimentos mais motivado pelo sentido que eles exercem sobre a sua vida. SUGESTÃO 107 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo A TRANSCENDÊNCIA COMO CÓDIGO DE CONDUTA O ser humano que adere a uma religião, assu- me também um código de conduta, isso ocorre porque a religião tem como uma de suas carac- terísticas a classificação da realidade a partir daquilo que é sagrado (MONDIN, 2017, p. 248). Ao entender um território, um objeto, um texto ou mesmo um comportamento como sagrado, o indivíduo organiza sua vida buscando, cada vez mais, configurar-se a esses princípios. Aos olhos daqueles que não vivem a religião, um determinado comportamento pode ser vis- to como alienação. Mas, na perspectiva do fiel, o comportamento o aproxima da divindade e o leva a transcender as realidades mais imanen- tes. Assim, o pão deixa de ser um simples ali- mento e se torna Eucaristia. O mesmo ocorre quando um islâmico se priva de um determinado alimento por causa do Ramadã – mês de jejum muçulmano –; quando os católicos deixam de comer carne vermelha por causa da Sexta-feira Santa; ou quando um hindu deixa de comer carne de vaca, pois entende que o animal é um presente da deusa La- xmi, personificação da prosperidade, para nutrir seus filhos com o leite. 1.3 A VIOLÊNCIA COM MOTIVAÇÃO RELIGIOSA A violência com motivação religiosa tem aumentado, ao ponto que vemos fiéis e seus respectivos espaços e templos religiosos serem apedrejados e destruídos, e as repor- tagens sobre o assunto são cada vez mais comuns. Figura 03. Deusa indiana Maa Laxmi Fo nt e: 1 23 R F. Como apresenta a reportagem, as religiões de afro-brasileiras são as maiores vítimas de agressões, provavelmente porque são associadas a práticas demoníacas. Leia o texto na íntegra: Disponível em: https://bit.ly/3Pl3wTY EXEMPLO Acesso em: 16 abr. 2021. https://bit.ly/3Pl3wTY 108 Transcender, integrar e desenvolver 4 Mas há também aquela violência que pode acontecer de forma velada, simbólica – ou mesmo explícita – de quem exclui o outro que traz consigo algum vestuário ou adesão religiosa. Muitas vezes pode não ser permitido ao fiel o uso de elementos religiosos, vestuários, evoluindo para a proibição de práticas culturais, seus princípios morais e a realização de seus ritos. Muitas práticas de violência são justificadas por interpretações religiosas distorcidas, parciais ou equivocadas, como as ideias já mencionadas, ou que práticas religiosas são comportamentos assumidos por pessoas de intelecto menos evoluído. 1.4 VALORES ABSOLUTOS? Existe uma fala interessante, normalmente atribuída ao Dalai Lama, que, em uma conversa, foi questionado sobre qual seria a melhor religião. Todos esperavam que ele respondesse que o budismo era a melhor, mas ele nos surpreende e diz que a melhor religião é aquela que faz de cada um uma pessoa melhor. CURIOSIDADE Quando uma religião pode ser vista como nociva à sociedade? Ainda carregamos as heranças da colonização europeia que separam o mundo entre civilizados e bárbaros, como se o processo de colonização tivesse ensinado os diferentes povos a agirem e se organizarem de forma civilizada. No entanto, esse processo também carregou consigo práticas de violência com motivação religiosa. Afinal, os “civilizados” são capazes de agir com violência. Em função disso, quando terminou a Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, 44 países assinaramum tratado internacional que deu origem à Liga das Nações. No entanto, o objetivo de paz foi frustrado com a expansão do nazismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939. É possível somar às arbitrariedades da guerra as posturas totalitárias no nazismo alemão, no fascismo italiano e no stalinismo soviético. Em 1945, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de ser um organismo capaz de assegurar critérios internacionais para a manutenção da paz. Em 1948, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Huma- nos, que, apesar de ser muito contestada, representa um consenso internacional em torno dos valores e direitos básicos que devem ser assegurados a todo ser humano. 109 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo A religião faz parte da vida humana. Algumas concepções e comportamentos religiosos no nosso cotidiano e na nossa vida profissional podem suscitar contrariedades em nós mesmos ou nas pessoas à nossa volta. Sendo assim, é sempre possível que encontre- mos situações em que entender as motivações religiosas será importante. Seja na área da saúde, da alimentação ou da educação, ou ainda em várias outras áreas, vamos nos encontrar diante de situações em que nem sempre a nossa vontade ou convicção pre- valecerá. Qual é o limite que separa a aceitação da nossa intervenção? Cada profissão tem sua ética, mas é importante que o critério não fira a dignidade humana. Conheça a Declaração Universal dos Direitos Humanos, disponível no site da Unicef no link a seguir: Infelizmente, vemos muitos exemplos de intolerância religiosa. Muitos deles se concretizam como agressão física. Aqui, trazemos duas reportagens, uma delas da violência sofrida por uma menina de 11 anos, que foi agredida ao voltar do terreiro de candomblé para sua casa. O caso aconteceu na cidade do Rio de Janeiro. O segundo caso trata de um judeu de 57 anos, de Jaguariúna, interior do estado de São Paulo. Leia a reportagem, disponível no link a seguir: Ambos os casos aconteceram claramente instigados por intolerância religiosa, nome comu- mente utilizado para falar da violência com motivação religiosa. É comum que símbolos re- ligiosos sejam desrespeitados e as pessoas agredidas gratuitamente, apenas por professa- rem determinada fé. https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos Disponível em: http://glo.bo/3Yir9R2 Disponível em: https://correio.rac.com.br/campinasermc/homem-e-vitima-de-intolerancia- religiosa-1.346630 SAIBA MAIS ATUALIDADE DO TEMA Acesso em: 16 abr. 2021. Acesso em: 16 abr. 2021. Acesso em: 16 abr. 2021. https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos http://glo.bo/3Yir9R2 https://correio.rac.com.br/campinasermc/homem-e-vitima-de-intolerancia-religiosa-1.346630 https://correio.rac.com.br/campinasermc/homem-e-vitima-de-intolerancia-religiosa-1.346630 110 Transcender, integrar e desenvolver 4 2. SOMOS ECOLÓGICOS Crianças em idade escolar provavelmen- te já plantaram feijão no algodão. Porém, dificilmente o feijão plantado no algodão tem uma vida longa, assim como dificil- mente alguém colherá dele outros grãos de feijão que sejam suficientes para a ali- mentação de uma pessoa. Então, por que plantamos feijões com as crianças? Muitas podem ser as motivações pedagó- gicas, mas é possível entender que plan- tar feijão é para muitos estudantes a pri- meira experiência de cuidado ecológico, pois é preciso regá-lo com certa frequência para que ele brote e cresça. O relato do feijão sintetiza o objetivo deste capítulo. Poderíamos tratar da relação do ser humano com a natureza de várias maneiras e todas elas teriam a potencialidade de provocar nossa consciência. Aqui, decidimos falar do cuidado. O ser humano aprende a cuidar do mesmo modo que aprende que a relação com a natureza é condição para a ma- nutenção da vida humana no planeta e para uma relação sustentável com o ecossistema. 2.1 IDENTIFICAR-SE COMO NATUREZA A geração pós-industrialização foi seduzida pela possibilidade de consumir novos pro- dutos que facilitariam a vida. Os descartáveis passaram a fazer parte da vida cotidiana e se tornava mais fácil utilizar copos descartáveis que lavar os copos reutilizáveis. E por mais que esses copos sejam recicláveis, nem sempre isso acontece. Seja porque a coleta seletiva ainda é precária em muitas cidades brasileiras ou porque a população ainda não tem o hábito de separar materiais recicláveis. Figura 04. Feijão Fo nt e: 1 23 R F. Figura 05. Descartáveis Fonte: 123RF. 111 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo 2.2. CUIDADO COMO PARADIGMA Não chegaremos ao fim do mundo. Mesmo que o ser humano não se livre de práticas nocivas como a poluição e o desmatamento, mesmo que novas pandemias aconteçam e vitimem grande parte da população, provavelmente, o mundo não acabará. O ecossis- tema sempre se adapta e espécies deixam de existir, muitas vezes, por consequência de hábitos humanos e outras espécies surgem, mas pode ser que o ser humano deixe de existir. Os tempos atuais mostram que o modelo civilizacional baseado no consumo é insustentável (BOFF, 2011, p. 17). Assim, vivemos um novo paradigma. Trata-se da consciência do cuidado e da inter-re- lação do ser humano com o ecossistema. Nesse sentido, não se trata de pensar e falar sobre o cuidado como objeto independente de nós. Mas de pensar e falar a partir do cuidado como é vivi- do e se estrutura em nós mesmos. Não temos cuidado. Somos cuidado. Isto significa que o cuidado possui uma dimensão ontológica que entra na cons- tituição do ser humano. É um modo-de-ser singular do homem e da mulher. Sem cuidado deixamos de ser humanos. (BOFF, 2011, p. 89) O ser humano se descobriu parte do ecossistema e não cabe mais continuar sendo o pre- dador que acreditava ter nascido para ser. A Terra não foi feita como quintal para nossa depredação. A atitude humana deve ser de responsabilidade e de harmonia. Tudo o que ele faz à Terra, faz a si, pois não é possível dissociar a vida humana do ecossistema. 2.3 CUIDADO COMO SUSTENTABILIDADE A produção de bens de consumo manufaturados há muito tempo faz parte da socieda- de, mas foi com a Revolução Industrial e com a produção do excedente que o mundo se viu imerso na lógica comercial e em suas consequências, como o impacto ambiental. Entre os anos 1880 e o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a sociedade estadunidense e da Europa deixaram de consumir a produção dos pequenos merca- dos locais para consumir os produtos produzidos pelos grandes mercados nacionais (LIPOVETSKY, 2007, p. 26). No Brasil, isso demorou um pouco mais para acontecer (MARCHINI; BRITO, 2016, p. 69-70), mas a indústria nacional começou a se organizar a partir dos anos 1950, consolidando-se nas décadas seguintes. O ser humano pós- -industrial deixou de consumir pela necessidade e passou a consumir motivado pelo desejo (LIPOVETSKY, 2007, p. 32). No século XXI, a sociedade viu a necessidade de pensar uma relação responsá- vel com os bens de consumo e com o ecossistema, consolidando-se as discussões sobre a sustentabilidade. A geração da passagem do século XX para o XXI viveu a abundância da produção industrial. Seria ela a geração da falta de cuidado? PARA REFLETIR 112 Transcender, integrar e desenvolver 4 A noção de sustentabilidade é difusa e fluida. Ela se encontra em processo de construção e legitimação técnica, em sua identificação e contextualiza- ção aos processos socioeconômicos das regiões e dos países. Combater a miséria humana e a depreciação exacerbada da natureza constituem seus principais pressupostos, que têm como base material as estruturas e os pro- gramas sustentáveis que gerem inclusão social, emprego e renda, e melho- ria de qualidade de vida às pessoas, com preservação ambiental. (FREITAS; FREITAS, 2016, p. 16) As discussões sobre o desenvolvimento sustentável foram se afirmandona segunda metade do século XX, envolvendo instituições internacionais como a ONU e a UNESCO. A Assem- bleia Geral das Nações Unidas, de 1959, instituiu a Primeira Década de Desenvolvimento das Nações Unidas para o período 1960 a 1970, visando, sobretudo, à redução da pobreza nos países subdesenvolvidos. Em 1965, criam o Programa das Nações Unidas para o De- senvolvimento (PNUD). À medida que as questões ambientais ganham relevância social, também o tema do desenvolvimento assume características interdisciplinares e inclui temas e abordagens de outras áreas, como sociologia, ciência política, biologia, ciências da terra, educação, gestão pública e empresarial (BARBIERI, 2020, p. 17-19). Já a expressão desenvolvimento sustentável surgiu em 1980, no documento denominado Estratégia de Conservação Mundial (World Conservation Strategy), produzido pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUNC) e World Wildlife Fund (WWF) – em português, Fundo Mundial para a Natureza –, afirmando que o desenvolvimento sustentável e a conservação da natureza são dependentes (BARBIERI, 2020, p. 33). Em 2000, o então presidente da ONU, Kofi Annan, criou o Pacto Global, na tentativa de que as empresas pudessem alinhar suas estratégias à perspectiva da sustentabilidade nas várias áreas. O Pacto tem por base a adesão das organizações aos seguintes 10 princípios que devem ser adotados pelas empresas que aderem ao Pacto Global. Eles são derivados da Declara- ção Universal dos Direitos Humanos da Declaração da Organização Internacional do Traba- lho sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e da Convenção das Nações Unidas Contra a Corrupção: DIREITOS HUMANOS I. As empresas devem apoiar e respeitar a proteção de direitos huma- nos reconhecidos internacionalmente; II. Assegurar-se de sua não participação em violações destes direitos. TRABALHO III. As empresas devem apoiar a liberdade de associação e o reconhe- cimento efetivo do direito à negociação coletiva. IV. A eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou compulsório; V. A abolição efetiva do trabalho infantil; VI. Eliminar a discriminação no emprego. Tabela 01. Princípios do Pacto Global 113 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo 2.4 INICIATIVAS LOCAIS A consciência do indivíduo de sua relação com o ecossistema e a perspectiva da sus- tentabilidade fez emergir um novo sujeito. Por mais que as estruturas sejam predomi- nantes, o ser humano traz consigo o poder de perceber-se como parte do ecossistema e romper o paradigma antropocêntrico, segundo o qual o ser humano se sente o centro do universo e assume a postura predatória. A crise do modelo civilizatório baseado em práticas predatórias aponta para a necessi- dade de práticas locais de integração do indivíduo e das sociedades com a natureza. O incentivo da agricultura familiar e a separação de recicláveis podem ser exemplos de iniciativas e práticas locais que criam consciência sustentável. MEIO AMBIENTE VII. As empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desa- fios ambientais. VIII. Desenvolver iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental. IX. Incentivar o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambiental- mente amigáveis. ANTICORRUPÇÃO X. As empresas devem combater a corrupção em todas as suas for- mas, inclusive extorsão e propina. Fonte: Pacto Global ([s. d.], [n. p.]). As ideias e estratégias do Pacto Global podem ser acessadas no site a seguir: https://www.pactoglobal.org.br/ SAIBA MAIS Acesso em: 19 abr. 2021. Não há como “jogar um lixo fora”. O lixão (aterro sanitário) é parte do ecossistema e traz impactos ambientais. PARA REFLETIR 2.5 TUDO ESTÁ INTERLIGADO Em 2015, o Papa Francisco escreveu a encíclica Laudato Si’ que trata do cuidado com a Casa Comum. Nesta encíclica, que é uma espécie de instrução que o papa escreve aos cristãos católicos, Francisco trata da inter-relação que há entre os seres vivos que habitam a Terra. https://www.pactoglobal.org.br/ 114 Transcender, integrar e desenvolver 4 Nessa perspectiva, aquilo que acontece do outro lado do planeta pode estar conecta- do com a vida de quem vive aqui no Brasil. Tal interconexão fica ainda mais evidente quando vamos delimitando o horizonte cultural e geográfico. Aquilo que acontece em outra região do país pode afetar nossa vida. Os acontecimentos da periferia da cida- de onde moramos não afetam apenas a vida daqueles que enfrentam problemas de habitação, saneamento básico ou transporte público, mas afetam toda a sociedade, gerando impactos concretos. Três termos (ou conceitos) são relevantes para o entendimento da Laudato Si’ são: Casa Comum, a ideia de que os seres estão interligados e a ecologia integral. A Casa Comum diz respeito ao espaço onde vivemos, diz respeito ao Planeta Terra, mas vai além, trata-se da casa onde vive a família humana (LS 13). Por viver na mesma Casa, a família humana está interligada e a pobreza de um é a pobreza do planeta. Econo- mia, tecnóloga, poluição, tudo nos conecta, nos inter-relaciona (LS 16). Ao enxergar- mos o ser humano na Casa Comum, na relação com o ecossistema, nos tornamos capazes de construir uma ecologia integral, que visa a harmonia dos seres vivos na sua inter-relação (LS 10-11). A princípio, o leitor do texto escrito pelo Papa pode entender que está diante de um texto que se limita a tratar das questões ecológicas e ambientais, mas isso é um enga- no. Papa Francisco, uma das principais lideranças globais da atualidade, traz um novo horizonte. Tratar da Casa Comum é tratar daquilo que nos une, inclusive da ecologia e das questões ambientais. Apesar de ser uma reflexão proposta pelo Papa, pensar a relação com a Casa Comum não é um exercício que se reduz ao catolicismo. O artigo de Elias Wolff e Suzana Terezinha Ma- tiello, Espiritualidade ecológica para a humanização da “casa comum – Aproximações a patir do cap. VI da Laudato Si”, trata da dimensão ecumênica do cuidado com a Casa Comum. Leia o texto na íntegra, disponível no link a seguir: https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/49902 https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-frances- co_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf SAIBA MAIS Acesso em: 20 abr. 2021. O texto completo da Laudato Si’, com tradução para a língua portuguesa, está disponível no site do Vaticano no link a seguir: Acesso em: 19 abr. 2021. https://revistas.pucsp.br/index.php/culturateo/article/view/49902 https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf 115 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo A encíclica Laudato Si’ traz a ideia de que as realidades presentes na Casa Comum estão interligadas, ou seja, há uma inter-relação entre os seres vivos que habitam o ecossistema. Como a vida também é feita de arte, indicamos um belo vídeo produzido pelo Sefras (Serviço Franciscano de Solidariedade) na ocasião da semana Laudato Si’, em 2020, para comemorar os cinco anos da publicação da encíclica. Assista ao vídeo com a canção composta (letra e música) por Cirineu Khun, inspirada na Laudato Si, disponível no link a seguir: Tudo está interligado Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gp2HLTGXQ8g Clique aqui e acesse o VÍDEO Acesso em: 19 abr. 2021. A sustentabilidade pode ser mais que uma teoria, transformando-se em práticas empresariais ou comunitárias que exercem impactos na vida dos indivíduos e na relação com o seu ecos- sistema, leia no link a seguir: Atualidade do tema https://ciclovivo.com.br/planeta/desenvolvimento/10-solucoes-inovadoras-para-desen- volvimento-sustentavel/ Acesso em: 19 abr. 2021. https://www.youtube.com/watch?v=Gp2HLTGXQ8ghttps://www.youtube.com/watch?v=Gp2HLTGXQ8g https://ciclovivo.com.br/planeta/desenvolvimento/10-solucoes-inovadoras-para-desenvolvimento-sustentavel/ https://ciclovivo.com.br/planeta/desenvolvimento/10-solucoes-inovadoras-para-desenvolvimento-sustentavel/ 116 Transcender, integrar e desenvolver 4 O ser humano cuida daquilo que lhe é caro, importante e valioso. Todas as pesquisas sobre sustentabilidade, os números sobre desmatamento e as interpretações sobre o aquecimento global são necessárias e devem embasar o conhecimento e as políticas públicas. Mas o ser humano se convence da importância de um comportamento susten- tável à medida que se sente envolvido ou se sente como parte desse ecossistema. O ser humano se sente interligado à medida que se reconhece como morador da Casa Comum. 3. INTERLIGADOS Dona Joana, mulher idosa que nunca foi à escola, é sábia. Conhece as plantas medicinais e sabe quando é a época de plantar cada semente, sabe quando vai chover ou não pela po- sição das nuvens. Ela sabe também que o ser humano e a natureza formam uma unidade, e é comum dizer que “tudo o que vai, volta” e “quem pratica o mal, recebe o mal”. Com sua sabedoria popular e vivencial, dona Joana sabe que somos um só com o cosmos. Com outras palavras, Joana tem a mesma leitura de mundo que embasa a ideia de mul- tiverso das Histórias em Quadrinhos (HQs) da Marvel e da DC Comics. Basicamente, o multiverso é uma realidade formada por universos distintos, mas que estão conectados. Quem está acostumado com os filmes talvez não tenha clareza do que é o multiverso, mas nas HQs existem vários mundos que podem ser acessados através de poderes e portais. Práticas locais, por si só, não se mostram capazes de construir um desenvolvimento susten- tável, pois são necessárias estruturas, práticas e deliberações de governos e instituições. Mas as práticas locais, além de possibilitarem mudanças concretas na vida das pessoas e nas relações comunitárias, geram consciência por suscitarem o debate sobre determinado assunto ou comportamento. Assim, uma pessoa pode ter consciência da escassez de água assistindo ao telejornal ou acompanhando o aplicativo de notícias, mas é quando falta água em sua casa que ela percebe a relevância do assunto. Figura 06. HQs da Marvel Fonte: 123RF. 117 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo Para quem acompanha os filmes do Universo Cinematográfico Marvel (UCM), fica fácil entender como um filme está conectado a outro, como uma informação presente no filme Homem-Formiga, por exemplo, torna-se crucial para entender aquilo que acontece em Vingadores Ultimato. Podemos ver outro exemplo de universo compartilhado na sé- rie Dark, exibida pela Netflix. Esta série mostra a sobreposição de diferentes realidades, as quais seus personagens adentram, transformando-as. A produção de HQs e de filmes de heróis movimenta sites e perfis que se ocupam em explicar e comentar cada publicação ou filme. Para entender mais sobre o multiverso nas HQs e nos filmes, acesse o site a seguir: https://www.legiaodosherois.com.br/2020/multiverso-marvel.html SAIBA MAIS Acesso em: 20 abr. 2021. Dica de filme Homem-Aranha no aranhaverso. Direção de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rod- ney Rothman. EUA: Sony Pictures, 2018 (117min.) Miles Morales é um adolescente como vários outros, que gosta de música, grafita muros e enfrenta questões próprias de sua idade, como a escola, os amigos e a relação com os pais. Ao ser picado por uma aranha, recebe os poderes do Homem- -Aranha, herói que já existia em seu mundo. Miles percebe, então, que um portal foi aberto e existem várias versões de heróis aranhas que estão presente em seu universo. O aranhaverso segue a mesma lógica do universo compartilhado e ajuda a entender o quanto a realidade apresenta uma unidade. A vida real não é um conjunto de filmes nem conta com superpoderes como nas HQs, mas de certa forma as realidades estão conectadas, seja por seu aspecto cultural, eco- nômico ou ambiental. Se tomamos o ser humano, podemos entendê-lo como um ser complexo, portador de várias capacidades, habilidades e características. Somos racio- nais, mas não somente. Somos seres de técnica, lúdicos, religiosos, emotivos... e tais características nos constituem como um ser histórico e concreto. https://www.legiaodosherois.com.br/2020/multiverso-marvel.html 118 Transcender, integrar e desenvolver 4 3.1 A UNIDADE DO SER O ser humano é uma unidade, mas, além disso, ele busca visualizar essa unidade em tudo aquilo que cerca sua vida, inclusive no universo, atribuindo sentido à sua existência. Independentemente de a unidade do ser com o universo ser natural ou construída, ela não perde sua importância, pois revela a capacidade do ser humano de se colocar em relação com as circunstâncias que vive, buscando produzir sentido para a sua existência. As crianças têm um costume de buscar identificar imagens nas nuvens e aquele aglo- merado de ar e água se transforma, na cabeça de quem o vê, em um grande bicho de pelúcia, um sorvete ou um brinquedo. E se a nossa vida, a realidade que nos cerca ou mesmo o universo tem sentido ou não, isso pouco importa. O que mais importa é que o ser humano é capaz de produzir sentido e isso o coloca em relação com o universo. João da Cruz (2020, p. 982), um reconhecido místico medieval, tem uma célebre fra- se em que afirma que “[...] onde não há amor, ponha amor e colherá amor”. O au- tor se baseia na capacidade humana de construir sua própria existência. Quando se percebe como parte do universo, o ser humano insere-se na narrativa que dá sentido e unidade ao que existe. OS MITOS E O SENTIDO DA VIDA As culturas antigas tinham uma maneira peculiar de buscar entender a realidade que as cercavam. É comum escutar que o mito é um instrumento de culturas atrasadas, pouco evoluídas, que inventavam histórias para explicar questões que o conhecimento deles não conseguia alcançar. Também é comum a ideia do mito como mentira. Mas tais in- terpretações são equivocadas, pois não entendem a construção mítica no contexto em que ela acontece, mas em relação ao conhecimento científico e cultural posterior. Figura 07. Eco e Narciso, John William Waterhouse (1903) Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eco_e_Narciso#/media/Ficheiro:John_William_Waterhouse_-_Echo_and_Narcissus_-_ Google_Art_Project.jpg. Acesso em: 7 mai. 2021. 119 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo Uma das narrativas míticas mais conhecidas e, provavelmente, mais significativas é a que envolve o belo Narciso, condenado a não se apaixonar, e Eco, uma ninfa condenada a repetir apenas as palavras que os outros disserem a ela. O mito de Narciso e Eco é repleto de refle- xões sobre a existência humana e seus dilemas e sofrimentos. Para conhecê-lo, acesse o link a seguir: A narrativa de Narciso e Eco nos leva a pensar várias questões relativas não somente à nos- sa existência, mas também à nossa sociedade e história mais recente. O vídeo sobre Narciso e Eco publicado, no canal Tempero Drag, traz essas reflexões para a atualidade, dialogando com o pensamento decolonial. Para quem não conhece, o canal é importante uma fonte de informação: as falas de Rita são repletas de ironia, mas trazem um raciocínio muito bem arti- culado com os conhecimentos acadêmicos. Para assistir ao vídeo, acesse o link a seguir: https://www.mitografias.com.br/2016/03/eco-e-narciso/ SAIBA MAIS Acesso em: 20 abr. 2021 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kz6HPpM4RyY Clique aqui e acesse o VÍDEO Acesso em: 20 abr. 2021. https://www.mitografias.com.br/2016/03/eco-e-narciso/ https://www.youtube.com/watch?v=kz6HPpM4RyY https://www.youtube.com/watch?v=kz6HPpM4RyY 120 Transcender, integrar e desenvolver 4 As populações construíam narrativas com personagens e contextos que elaboravam uma compreensão da realidade. Porém, diante do mito, a pergunta a se fazer não é “oque aconteceu?”, mas “por que aconteceu?”, buscando compreender o mundo e a existência humana de maneira argumentativa. Assim, o mito trata de questões funda- mentais da existência humana, mas não como a alegoria ou a metáfora, que trazem in- terpretações mais estritas e direcionadas, e sim como narrativa que articula elementos religiosos com a interpretação da realidade. Os mitos gregos são os mais conhecidos. As narrativas de Narciso, Pandora, Sísifo e Prometeu são, relativamente, conhecidas e tratam de questões centrais da existência humana, como a esperança, o sofrimento e a punição dos deuses. Mas há também a mitologia nórdica, a africana e a mitologia indígena. Também Leandro Karnal faz uma pertinente reflexão sobre a vaidade tendo como base o mito de Narciso, estabelecendo a atitude humana nas redes sociais como seu ponto de partida. O vídeo possibilita uma fácil identificação de quem tem perfil em redes sociais e busca a melhor fotografia para postar em seu perfil. Para assisti-lo, acesse o link a seguir: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wOteOsC56Mc Clique aqui e acesse o VÍDEO Acesso em: 20 abr. 2021. https://www.youtube.com/watch?v=wOteOsC56Mc https://www.youtube.com/watch?v=wOteOsC56Mc 121 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo A CIÊNCIA E SEUS MITOS Assim como os mitos, também a ciência se ocupa das causas primeiras. A diferença é que, sobretudo a física, busca entender a origem do universo e sua lógica formulando suas teorias de acordo com os princípios e as leis da física, em que “[...] a energia deve ser conservada” (GLEISER, 2010, p. 23). Como explicar, então, a criação de matéria vinda do nada? A ciência é uma construção humana, uma narrativa que criamos para expli- car o mundo a nossa volta. As “verdades” que obtemos, como a lei da gravi- tação universal, de Newton, ou a teoria da relatividade espacial, de Einstein, apesar de brilhantes, funcionam apenas dentro de certos limites. Sempre existirão fenômenos que não poderão ser explicados por nossas teorias. Novas revoluções científicas irão acontecer. Visões de mundo irão se transformar. (GLEISER, 2010, p. 25) As religiões criam seus mitos – aqui no sentido de tentativa de explicar a realidade e a existência humana. Já a ciência cria suas teorias. A diferença entre elas está na linguagem. Enquanto a religião assume uma linguagem religiosa e narrativa, a ciência assume uma linguagem técnica e a coerência com suas leis e princípios. Ambas são úteis e relevantes na empreitada que o ser humano assume de decifrar sua existência. Se entendemos a mitologia como um conjunto de histórias fictícias que perderam a impor- tância à medida que ocorria o avanço das sociedades, então teremos muita dificuldade de entendermos que o cristianismo tem seus mitos. Pois, assim, estaríamos afirmando que as histórias bíblicas são mentirosas ou ultrapassadas. Mas os mitos são mais que isso: são relatos que buscam decifrar o sentido da vida humana, da existência e da criação e que constroem narrativas estabelecendo um diálogo entre tais questões e os elementos religiosos da cultura onde vivem. Assim, os relatos presentes, prin- cipalmente, no Antigo Testamento da Bíblia cristã, que retratam os elementos da criação e os primeiros personagens bíblicos, como Abraão, Isaac e Jacó, ou a narrativa do dilúvio, estru- turam a mitologia cristã, pois são narrativas que se ocupam de temas centrais à existência daquele povo e daquela sociedade (RIBEIRO, 2018, p. 117-118). IMPORTANTE O cristianismo tem sua mitologia? 122 Transcender, integrar e desenvolver 4 3.2 INTER-RELAÇÃO E A FRATERNIDADE UNIVERSAL O entendimento holístico do ser humano e da realidade que o cerca também está presente na religião e pode ser encon- trado em discursos do Papa Francisco, como vimos no capítulo anterior, sobre ecologia. Todos vivemos em uma Casa Comum e, por isso, há a necessidade de que o ser humano não se sinta no único direito de desfrutar os benefícios de vi- ver nesta Casa, mas contribua para sua construção ou mesmo para a sua manu- tenção (LS 13, 117). SAIBA MAIS Em 1997, Marcelo Gleiser participou do programa Roda Viva, da TV cultura. Gleiser, físico brasileiro, ficou conhecido pela relação que faz entre religião e ciência, não contrapondo as duas realidades. Para assistir à entrevista, visite: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qn7lAOK80Co Clique aqui e acesse o VÍDEO Acesso em: 20 abr. 2021. Figura 08. Natureza Fo nt e: 1 23 R F. https://www.youtube.com/watch?v=qn7lAOK80Co https://www.youtube.com/watch?v=qn7lAOK80Co 123 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo Como moradores da Casa Comum, os seres humanos, a fauna, a flora e tudo aquilo que existe está interligado. Há uma interdependência na relação dos seres humanos com o restante do planeta. A inter-relação entre ser humano e ecossistema possibilita um entendimento mais harmônico, apontando para a correção de um equívoco herme- nêutico que legitimou a concepção do ser humano como um predador. Essa inter-rela- ção implica uma postura ética. O conhecimento das consequências de nossos comportamentos e das estruturas que regem a Casa Comum nos leva a pensar possibilidades mais sustentáveis (LS 91, 240). A consciên- cia de si e do mundo que o cerca, e da pertença à Casa Comum, leva o ser humano a enten- der seu papel. E se tudo está interligado – e está – é difícil sentir-se alheio (FT, 34). Ocupando-se da responsabilidade fraterna, Francisco publicou, em 2020, a encíclica Fratelli Tutti, que continua a reflexão sobre a Casa Comum, apontando a importância das instituições e líderes políticos, do poder econômico, mas também da participação dos indivíduos, que constroem laços e iniciativas locais. Fratelli Tutti aponta para a superação da postura egoísta que se desenvolve na prática predatória em relação à natureza, à sociedade e aos próprios seres humanos (FT, 17). O texto completo da Fratelli Tutti está disponível no site do Vaticano, com tradução para a língua portuguesa. Para conhecê-lo, acesse o link a seguir: Entender a realidade em sua unidade de modo algum pode ser confundido com a ideia de uma realidade uniforme. As diferentes perspectivas culturais geram tensões e conflitos, além da necessidade de uma educação para a interculturalidade. O artigo escrito por Vera Candau trata da relação entre educação e interculturalidade. Disponível no link a seguir: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/ pt/2020/10/4/enciclica-fratellitutti.html https://www.scielo.br/pdf/es/v33n118/v33n118a15.pdf SAIBA MAIS SAIBA MAIS Acesso em: 20 abr. 2021. Acesso em: 20 abr. 2021. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2020/10/4/enciclica-fratellitutti.html https://www.vatican.va/content/francesco/pt/events/event.dir.html/content/vaticanevents/pt/2020/10/4/enciclica-fratellitutti.html https://www.scielo.br/pdf/es/v33n118/v33n118a15.pdf 124 Transcender, integrar e desenvolver 4 O mundo globalizado é um exemplo claro de como os vários rincões do mundo estão in- terligados, embora nem sempre seja possível identificar as implicações globais de um determinado acontecimento. No entanto, há duas situações recentes que mostram bem quando o mundo está interligado e como aquilo que acontece em determinado lugar no mundo pode afetar a todos, seja o habitante de uma grande cidade, como Nova Iorque, ou um pequeno vilarejo da Mongólia. O primeiro exemplo é o aquecimento global. A temperatura média do planeta está aumen- tando e isso pode acontecer por causas naturais ou por consequência da emissão de gases, mas é certo que acontece e gera impacto em todo o planeta. Você pode ter mais informações a respeito em reportagem do WWF Brasil, disponível no link a seguir: O segundo exemplo é ainda mais impactante. O Coronavírus (ou o Covid-19),um vírus de origem chinesa, espalhou-se por todo o mundo e gerou a maior pandemia da história da humanidade. Em Pandemias – o que é e como a globalização potencializa o problema, pu- blicado no portal UOL, Ronaldo Decicino mostra como os processos globais impactaram na proliferação desse vírus. Para conhecer o texto, acesse o link a seguir: Atualidade do tema https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_cli- maticas2/ Acesso em: 20 abr. 2021. https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/pandemias-o-que-e-e-como-a-globali- zacao-potencializa-o-problema.htm Acesso em: 20 abr. 2021. Babel. Direção de Alejandro González Iñárritu. EUA; França; México: Paramount, 2006 (2h 23min.) Um acidente envolvendo um casal estadunidense dentro de um ônibus no Marrocos desen- cadeia sucessivos acontecimentos que transcendem a geografia do local, chegando ao Ja- pão, ao México e mesmo aos EUA. O filme possibilita uma reflexão sobre como determinados acontecimentos e características sociais influenciam outros grupos ou classes. É possível olhar para o filme para além das narrativas dos personagens, como se eles representassem não apenas pessoas, e sim a sociedade na qual estão inseridos. SUGESTÃO https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_climaticas2/ https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/reducao_de_impactos2/clima/mudancas_climaticas2/ https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/pandemias-o-que-e-e-como-a-globalizacao-potenciali https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/pandemias-o-que-e-e-como-a-globalizacao-potenciali 125 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo Chegamos ao final de mais um componente curricular. Durante nossas aulas, pudemos ver várias características do ser humano contemporâneo. Tais características não são como um catálogo no qual podemos escolher quais mais nos apetecem ou quais que- remos vivenciar. Todas elas, de alguma maneira, permeiam nossa existência ou no mí- nimo a sociedade em que vivemos e, por consequência, nossa vida. Perceber o quanto somos interligados aos outros nos leva a uma atitude de empatia. 4. A REDESCOBERTA DO HUMANO Neste capítulo final, depois de percorrido longo caminho temático sobre o ser humano – para ele poder ser pensado na contemporaneidade –, serão apresentados alguns conceitos que marcam a vida em seu fazer cotidiano, deixando mais próximas ou mais distantes as diferentes dimensões humanas. De maneira especial, tais conceitos são o de ambivalência, o de cuidado, e o de temporalidade. Cada um dos conceitos toca o modo como as relações são constituídas – entre os próprios seres humanos, com o mundo e consigo. Eles levam à reflexão sobre a com- plexidade da existência humana, que não pode ser entendida de modo unívoco. Cada pessoa é um mundo em si que, na relação com outros, vai se mostrando de modos diversos; há uma novidade que sempre aparece e precisa ser compreendida. 4.1 A AMBIVALÊNCIA HUMANA A vivência humana, mais que complicada, é complexa. Significa que, a cada situa- ção, é necessário que o ser humano avalie as condições para poder agir –ainda que os contextos sejam semelhantes, podem não dar origem ao mesmo resulta- do. E cada contexto não é fechado em si mesmo, como um todo sólido; ele não é pronto, mas se dá de acordo com o conjunto de outros elementos e situações. Nes- te sentido, e em decorrência disso, o ser humano é único e totalmente novo em casa caso (considerando-se, principalmente, que cada um vai se moldando e sendo moldado pela realidade na qual vive). Cada pessoa, ao longo de sua história, vai se constituindo e se assumindo em uma individualidade, marcada por modos de perceber o mundo, gostos, valores e posturas que valerão para si; as áreas do conhecimento que, de maneira singular, tratam desta constituição, são as humanidades de maneira geral (filosofia, sociologia, história) e as ciências do psiquismo (psicologia, psicanálise). O ser humano constitui-se, assim, no movimento da realidade – por tal movimento ele é afetado e responde, de diferentes maneiras, aos estímulos que seu mundo circundante traz. Retomando uma ideia de Sartre, é possível entender que cada pessoa vai se cons- truindo a partir das escolhas que faz: ... o homem existe primeiro, se encontra, surge no mundo, e se define em seguida. [...] Ele apenas será alguma coisa posteriormente, e será aquilo que ele se tornar. [...] O homem é, não apenas como é concebido, mas como ele se quer, e como se concebe a partir da existência, como se quer a partir desse elã de existir, o homem nada é além do que ele se faz. (SARTRE, 2010, p. 19) 126 Transcender, integrar e desenvolver 4 Aquilo que o ser humano faz de si é fruto de um todo contextual, conforme indicado acima. Daí, classificar o ser humano como totalmente bom ou mau acaba sendo super- ficial, não abarcando a complexidade citada. No fundo, falamos de um ser ambivalente em si mesmo (anjo e demônio), mas que pouco sabe lidar com a ambivalência que o constitui. Ele é livre para ser e decidir. Todas as dimensões que, ao longo deste livro, foram apresentadas marcam a realida- de humana: na vivência de cada uma delas vai se construindo um mundo – o mundo humano. Talvez, a principal característica humana seja a racionalidade, que permite a reflexão diante da realidade; por meio dela, cada pessoa constrói conceitos sobre o próprio existir. Ela permite o entendimento e a classificação de algo como sendo bom ou mal, e dá parâmetros a partir dos quais o mundo pode ser avaliado. Receber Interpretar Avatar AgirSer afetado Receber o mundo, ser afetado por ele, interpretá-lo, avaliar e se motivar a agir é um processo que deveria ocorrer de modo refletido em todas as situações – mas não acon- tece. Resgata-se, então, a humanidade das pessoas quando elas param e refletem sobre o que fazem; mas uma reflexão detida, que não segue o ritmo frenético que a vida contemporânea imprime no cotidiano. Ao ser pensada a formação profissional, pensar este processo que leva ao agir é bas- tante significativo. Toda ação é uma resposta (não direta) aos estímulos do mundo; por exemplo, a primeira ação de escolher uma profissão é resposta à percepção de necessidades e possibilidades de ser no âmbito coletivo. Mas, até que ponto cada pes- soa pensa profundamente antes de escolher? M. Heidegger, filósofo contemporâneo afirma que “já desde séculos, o homem vem agindo demais e pensando de menos” (HEIDEGGER, 2001, p. 112). 127 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo 4.2 O CUIDADO DE SI Sendo ambivalente e pensando breve e superficialmente (por conta do ritmo da vida contemporânea), pouco espaço sobra para a importante vivência do cuidado. Pensar o ser humano contemporâneo é refletir sobre esta vivência. O cuidado do mundo e o cui- dado do outro são transpassados por uma noção bem íntima que se relaciona ao cuida- do de si. Este “si mesmo” foi pensado de diferentes modos, ao longo da história: alma, essência, identidade etc.; todos tratam de um voltar-se para si a partir de um olhar que busca entendimento. Às vezes, tal entendimento leva à ação; às vezes, o entendimento é a própria ação. Sócrates, trazido por Platão, alerta para uma necessidade: Em verdade, com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser conven- cer-vos, jovens e velhos, de que não deveis vos preocupar nem com o corpo, nem com as riquezas, nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma, a fim de que ela se torne excelente e muito virtuosa, e de que das riquezas não se origina a virtude, mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens, tanto para os cida- dãos individualmente como para o Estado. (PLATÃO, 1999, p. 82) Toda noção de cuidado vem de uma experiência do indivíduo nos ambientes nos quais, desde sempre, ele foi aprendendo a se relacionar com o mundo. A realidadeobjetiva pode ser uma só, mas existem tantos mundos quantos forem os seres humanos; daí, as diferentes experiências de cuidado. Neste livro, a noção de cuidar apareceu inúme- ras vezes – algumas, implicitamente. O cuidado de si é pensado, em Sócrates, como cuidado da alma. Neste ponto, também a vida profissional deve ser pensada como cuidado: toda vivência profissional é o cuidado com algo que toca a vida de outras muitas pessoas; mesmo indiretamente, ser profissional é cuidar da humanidade como um todo. Este cuidado vem do cuidado consigo. Platão traz esta noção socrática nos diálogos Alcibíades I e II. Alcibíades quer governar a cidade e Sócrates indica que, antes, ele deve aprender o cuidado de si. Refletindo sobre tais temas, Foucault indica: Não se pode governar os outros, não se pode bem governar os outros, não se pode transformar os próprios privilégios em ação política sobre os outros, em ação racional, se não se está ocupado consigo mesmo. (...) [O] cuidado de si é antes uma atividade (...). (FOUCAULT, 2010, pp. 35-36) Considerando-se a realidade grega antiga, a política era a destinação do cidadão, ca- minho de realização e sua contribuição para a vida social; enquanto ocupações outras Lance um olhar sobre as unidades deste livro, que apresentou uma reflexão sobre diversos âmbitos da vivência humana, e busque responder: O âmbito mais significativo para mim é _________________________. O âmbito no qual preciso mais dedicação e aperfeiçoamento é _________________. PARA REFLETIR 128 Transcender, integrar e desenvolver 4 ficavam para os não-cidadãos. Mas, ao se pensar a sociedade – já desde muito tempo –, as ocupações são as diversas profissões que estão à disposição das pessoas, como necessidades sociais que podem ser assumidas pelas ações e trabalho individuais. Em suma, o entendimento é o de que não se consegue bem atuar socialmente, cuidando daquilo que excede ao que é de si próprio, quando não há um cuidado de si. Trata-se de um outro elemento de resgate da dimensão humana. O cuidado de si é uma atividade, algo a que se deve dedicar; significa que depende de uma decisão racional que apenas é possível quando já passou a fase de formação bási- ca. Durante a formação profissional é que cada pessoa vai desenvolvendo o cuidado de si como um modo de estar no mundo e com ele se relacionar. Estruturas, livros e mestres são auxílio; mas é a pessoa em formação que molda o (a) profissional que deseja ser. Qual atenção você dá para o cuidado de si e de que modo o faz? Pensando-se a constituição de seu ser profissional, tente nomear quais ações você vai toman- do para projetar e realizar o(a) profissional que você deseja ser? Como você vai construindo competências específicas entre aquilo que você é e o que pretende ser como profissional? PARA REFLETIR 4.3 UMA EXISTÊNCIA TEMPORAL O tempo é um dos grandes temas da filosofia; é um dos mais profundos problemas filosóficos, já que nada na existência pode ser pensado fora da noção de tempo. Na verdade, o tempo sempre delimita o existir, podendo ser pensado o início e o fim de algo. É no horizonte do tempo que o ser humano projeta sua vida. Na contemporaneidade, a ideia de ‘fim’ é sempre postergada por meio de diferentes dispositivos; é algo como “poderei fazer no futuro”, sem trazer a clara consciência do fim, com a morte. Mas o tempo vai passando e, conforme passa, estranhamente rouba nosso próprio tempo. Viver a temporalidade é, de certo modo, fazer as pazes com o tempo, considerando nossa única possibilidade de existir. A poetisa Viviane Mosé trata da temática do tempo como uma relação com o próprio Eros. É um paradoxo entendermos que, quanto mais tempo já temos, menos tempo temos. 129 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo TEMPO quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos? o tempo andou riscando meu rosto com uma navalha fina sem raiva nem rancor o tempo riscou meu rosto com calma (eu parei de lutar contra o tempo ando exercendo instantes acho que ganhei presença) acho que a vida anda passando a mão em mim. a vida anda passando a mão em mim. acho que a vida anda passando. a vida anda passando. acho que a vida anda. a vida anda em mim. acho que há vida em mim. a vida em mim anda passando. acho que a vida anda passando a mão em mim e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo na verdade faz tempo mas eu escondia porque ele me pegava à força e por trás 130 Transcender, integrar e desenvolver 4 um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo se você tem que me comer que seja com o meu consentimento e me olhando nos olhos… acho que ganhei o tempo de lá pra cá ele tem sido bom comigo dizem que ando até remoçando (Disponível em: https://tempofestival.com.br/instantaneo/viviane-mose-e-os-desafios-do-tempo/, Acesso em: 04 jul. 2022.) PARA OUVIR... Ouça o que Viviane Mosé diz sobre o envelhecer, em seu canal do Youtube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MyLII1HEjzM Clique aqui e acesse o VÍDEO https://www.youtube.com/watch?v=MyLII1HEjzM https://www.youtube.com/watch?v=MyLII1HEjzM 131 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo O mundo profissional deve ser pensado a partir do que significa ser bom (boa) profis- sional. Mas, como o tempo passa, tal pensamento deve ser preocupação desde o início da formação: a qualidade profissional não vem como em um passe de mágica, quando finda o período de formação universitária. Refletir cotidianamente leva a construir – tam- bém cotidianamente – uma identidade profissional, não apenas enquanto fazer técnico, mas enquanto postura de quem assume um lugar social segundo a profissão escolhida. O tempo acaba, e é necessário ser bom (boa) desde agora! 4.4 O SER PENSANTE E O UNIVERSO Quem é o ser humano no Universo? Fora qualquer pretensão humana na construção do valor de si próprio, ao longo das temáticas tratadas neste livro, há um sentido que subjaz: entender que não há uma existência humana isolada de qualquer outro ser. Sig- nifica entender que a existência do indivíduo se dá em milhares de inter-relações, que constituem a complexidade indicada desde o início deste capítulo. Existimos, mas poderíamos não existir... Mas, por que é assim? Somos contingentes, e ter consciência deste fato dá condições de se repensar os caminhos de vida. A con- tingência mostra que cada pessoa pode ser transformada a cada instante, já que ela nunca estará pronta, em um estágio final. ... a existência contingente significa uma existência desprovida de certe- za – e uma certeza que está faltando neste desolado sítio nosso ou difícil de desencavar por baixo do entulho das verdades modernas é a certeza da solidariedade. O caminho que leva da tolerância à solidariedade, como qualquer outro, é um caminho indeterminado; é ele mesmo contingente. E assim também o outro caminho, que leva da tolerância à indiferença e isola- mento; é igualmente contingente e, portanto, igualmente plausível. O esta- do de tolerância é intrínseca e inevitavelmente ambivalente. Presta-se com igual facilidade – ou dificuldade – ao louvor comemorativo e à condenação zombeteira; pode tanto dar lugar à alegria quanto ao desespero. Viver em contingência significa viver sem uma garantia, apenas com uma certeza pro- visória, pragmática [...], e isso inclui o efeito emancipatório da solidariedade. (BAUMAN, 1999, p. 250) É interessante como o autor liga a ideia de contingência ao conceito de solidariedade. Ser solidário é diferente de ser tolerante. A certeza provisória é a única possível: existi- mos a partir do que não temos certeza – surgimos; somos, mas nunca plenos e sempre a nos fazer; seremos em um futuro sem qualquer certeza – mas nos projetamos para algo. Resgatar a humanidade é resgatar a solidariedade, sem qualquer sentido fanta- sioso ou romântico: trata-se de construir e realizar uma solidariedadereal. É fazer a solidariedade ser presente – no presente, já que o futuro é apenas projeto. Somos seres capazes de tudo o que foi apresentado ao longo de todas as unidades deste livro. Por fim, somos capazes da solidariedade em uma redescoberta de nós mesmos, no que é singular em nosso existir. 132 Transcender, integrar e desenvolver 4 CONCLUSÃO Este capítulo, que finaliza o livro de Estudo do Ser Humano Contemporâneo, percorreu um caminho de pensamento que objetivou identificar alguns elementos que marcam o ser humano e sua vida na contemporaneidade. Reconhecer as dimensões da ambiva- lência, do cuidado e da temporalidade (que é a finitude) permitem o reconhecimento da singularidade da experiência humana. Resgatar a humanidade em você, profissional em formação, é fazer entender que cada pessoa tem um projeto de realização; cada uma partilha de uma mesma existência, que é finita e requer cuidado para ser bem vivi- da. A ambivalência humana relativiza toda pretensão de estabelecimento de uma verda- de única que deva ser seguida. Cada pessoa é um projeto em si mesma. E, por fim, todo projeto profissional que não desemboca em solidariedade não contribui socialmente. Chegamos ao final que, por sua vez, deve abrir para um novo começo, a saber, um novo olhar sobre si que motiva a uma ação mais efetiva e que contribua com o mundo contemporâneo. Retome as unidades deste livro e, a partir das problematizações feitas neste capítulo 14, complete o quadro abaixo, que deve servir para que você verifique 5 dimensões humanas que devem ser mais bem vivenciadas por você, pensando-se seu projeto profissional. PONDO NO PAPEL DIMENSÃO VIVÊNCIA Ex.: COMUNICAÇÃO (Cap. 6) Desenvolver diferentes habilidades de comunica- ção; conhecer novas linguagens; buscar compreen- der a fala do meu interlocutor. 1 2 3 4 5 133 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Rubem. O enigma da religião. 5. ed. Campinas: Papirus, 2006. p. 35. ______. O suspiro dos oprimidos. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 100. ARANHA, Maria Lucia de Arruda. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1993. ARAÚJO, Sílvia Maria (Org.). Sociologia: um olhar crítico. São Paulo: Contexto, 2013. ARENDT, Hannah. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Ave Maria. 173. ed. São Paulo: Ave Maria, 2007. p. 1539. BOFF, Clodovis. O livro do sentido. Crise e busca de sentido hoje (parte crítico-analítica). São Paulo: Paulus, 2015. p. 418. v. 1. BOFF, Leonardo. Ecologia, mundialização e espiritualidade. São Paulo: Ática, 1993. p. 64. ______. Fundamentalismo: A globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002. p. 25. ______. São Francisco de Assis: ternura e vigor. Petrópolis: Vozes, 1981. p. 32. CANTALAMESSA, Raniero. Apaixonado por Cristo. O segredo de Francisco de Assis. São Paulo: Fons Sa- pientiae, 2015. p. 9-10. CASALDÁLIGA, D. Pedro. Nossa espiritualidade. São Paulo: Paulus, 1998. p. 8. CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. v. 1. COMBLIN, José. O caminho. Ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo: Paulus, 2004. p. 222-223. EQUIPE DO DEI. Introdução. In: VV.AA., A luta dos deuses. Os ídolos da opressão e a busca do Deus liber- tador. São Paulo: Paulinas, 1982. p. 7. FRANCISCO. Evangelii Gaudium. Sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, n. 55. Vaticano, 2013. Dis- ponível em: <https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papafrancesco_esor- tazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html>. Acesso em: 12 out. 2016. GEBARA, Ivone. Minha fé. In: Adital. Disponível em: <http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&- cod=87112>. Acesso em: 30 out. 2015. GIDDENS, Anthony. Sociologia. São Paulo: Penso, 2012. HATHAWAY, Mark; BOFF, Leonardo. O tão da libertação. Explorando a ecologia da transformação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 453. 134 Transcender, integrar e desenvolver 4 HÖFFE, Orfried. Justiça e política. Petrópolis: Vozes, 1991. HUME, David. Uma investigação sobre os princípios da moral. Campinas: Editora Unicamp, 1995. KANT, Immanuel. Métaphysique dês moeus. Paris: Flammarion, 1994. LIBÂNIO, João Batista. Eu creio nós cremos. Tratado de fé. São Paulo: Loyola, 2000. p. 45-46. LUMIA, Giuseppe. Elementos de teoria e ideologia do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2003. MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004. MARSHALL, Thomas. Cidadania e classe social. Rio de Janeiro: Zahar, 1949. MESTERS, Carlos; OROFINO, Francisco. O caminho que temos pela frente. Revista Concilium, Petrópolis, n. 361, p. 44-45, mar. 2015. RAWLS, John. Uma teoria da justiça. Lisboa: Editorial Presença, 1993. SILVA, José Afonso. Curso de direito constitucional positivo. 32. ed. rev. e atual. Emenda constitucional n. 56, de 20.12.2007. São Paulo: Malheiros, 2008. VECCA, Salvatore. La bellezza e gli oppressi: dieci lezioni sull’idea di giustizia. Feltrinelli, 2002. WALZER, Michael. As esperas da justiça: em defesa do pluralismo e da igualdade. Lisboa: Editorial Presença, 1999. WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos de sociologia compreensiva. Brasília: Editora UnB, 1999. 135 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Estudo do Ser Humano Contemporâneo