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CAPÍTULO 15 Sinalização celular 875 alteram a capacidade delas de controlar a transcrição de genes específicos. Assim, essas proteínas servem, ao mesmo tempo, como receptores e efetores intracelulares do sinal. Os receptores são estruturalmente semelhantes, fazendo parte de uma superfamí- lia de receptores nucleares. Muitos membros da família têm sido identificados somente por sequenciamento de DNA, e seus ligantes ainda não são conhecidos; eles são por isso denominados receptores nucleares órfãos e constituem uma grande fração dos receptores nucleares codificada no genoma de humanos, Drosophila, e do nematódeo C. elegans. Alguns receptores nucleares de mamíferos são regulados por metabólitos intracelulares e não por moléculas de sinalização secretadas; os receptores ativados pela proliferação de peroxissomos (PPARs; do inglês, peroxisome proliferation-activated receptors), por exem- plo, ligam-se a metabólitos lipídicos intracelulares e regulam a transcrição dos genes en- volvidos com o metabolismo dos lipídeos e com a diferenciação de células adiposas. É provável que os receptores nucleares de hormônios tenham evoluído desses receptores de metabólitos, o que explicaria sua localização intracelular. Os hormônios esteroides – que incluem o cortisol, os hormônios sexuais esteroi- des, a vitamina D (nos vertebrados) e a ecdisona, ou hormônio da muda (nos insetos) – são derivados do colesterol. O cortisol é produzido no córtex das glândulas suprarrenais e influencia o metabolismo de muitos tipos de células. Os hormônios sexuais esteroides são sintetizados nos testículos e nos ovários e são responsáveis pelas características se- xuais secundárias que distinguem machos de fêmeas. A vitamina D é sintetizada na pele em resposta à luz solar; após ser convertida em sua forma ativa no fígado e nos rins, ela regula o metabolismo do Ca21, promovendo sua captação pelo intestino e reduzindo sua excreção pelos rins. Os hormônios da tireoide, produzidos a partir do aminoácido tiro- Sinal extracelular I�B� Gene I�B� N F� B a ti va N F� B a ti va NF�B (A) (D) (B) (C) Pulso de TNF 0 0 0 2 4 6 0 2 4 6 Horas Horas Gene A ativo, gene B inativo Ciclo de retroalimentação negativa TNF mantido Gene A ativo, gene B ativo Quantidade de NF�B nuclear Expressão do gene A Expressão do gene B LEGENDA N N 0 6 60 120 210 300 380 410 480 510 Tempo em minutos Figura 15-63 A retroalimentação negativa na via de sinalização de NFkB induz oscilações na ativação da proteína NFkB. (A) O esquema mostra como NFkB ativada estimula a transcrição de IkBa, cujo produto proteico atua, retroativamente, no sequestro e inibição de NFkB no citoplasma; se o estímulo for persistente, as novas moléculas de IkBa sintetizadas serão ubiquitinadas e degradadas, liberando NFkB ativa novamente, que poderá retornar ao núcleo e ativar a transcrição (ver Figura 15-62). (B) Uma exposição curta a TNF-a produz um único pulso curto de ativação de NFkB, começando em minutos e terminando em 1 hora. Essa resposta induz a transcrição do gene A, mas não do gene B. (C) Uma exposição a TNFa, mantida durante o período de 6 horas do experimento, produz oscilações na ativação de NFkB que se extinguem ao longo do tempo. Essa resposta induz a transcrição de ambos os genes; o gene B é induzido somente após várias horas, indicando que sua transcrição requer ativação prolongada de NFkB, por razões ainda desconhecidas. (D) Estas micrografias de fluorescência confocal em intervalos de tempo, obtidas em um outro experimento de estimulação de TNF-a, mostram as os- cilações de NFkB em uma célula em cultura, como indica o seu movimento periódico para dentro do núcleo (N) de uma proteína de fusão composta por NFkB mais uma proteína vermelha fluorescente. Na célula mostrada no centro da micrografia, NFkB está ativa e dentro do núcleo, nos tempos de 6, 60, 210, 380 e 480 minutos, mas está exclusivamente no citoplasma nos tempos de 0, 120, 300, 410 e 510 minutos. (A–C, baseado em dados de A. Hoffmann et al., Science 298:1241–1245, 2002, e adaptado de A.Y. Ting e D. Endy, Science 298:1189–1190, 2002; D, oriundo de D.E. Nelson et al., Science 306:704–708, 2004. Todos com permissão de AAAS.) 876 PARTE IV Organização interna da célula sina, atuam aumentando a taxa metabólica de uma ampla variedade de tipos celulares, enquanto os retinoides, como o ácido retinoico, são produzidos a partir da vitamina A e têm papel importante como mediadores locais no desenvolvimento dos vertebrados. Embora todas essas moléculas de sinalização sejam relativamente insolúveis em água, são transportadas na corrente sanguínea e em outros fluidos extracelulares, ligadas a proteínas carreadoras que as tornam solúveis e das quais se dissociam antes de entrar nas células-alvo (ver Figura 15-3B). Os receptores nucleares se ligam a sequências específicas de DNA adjacentes aos genes regulados pelo ligante. Alguns deles, como os do cortisol, localizam-se inicialmen- te no citosol e entram no núcleo somente após a interação com o ligante; outros, como os receptores do hormônio tireóideo ou do retinol, ligam-se ao DNA no núcleo, mesmo na ausência do ligante. Em ambos os casos, o receptor inativo está ligado a complexos pro- teicos inibidores. A interação com o ligante altera a conformação do receptor, causando a dissociação do complexo inibidor e a ligação do receptor a proteínas coativadoras que estimulam a transcrição gênica (Figura 15-65). Em outros casos, contudo, a interação do ligante com um receptor nuclear inibe a transcrição: alguns receptores dos hormô- nios tireóideos, por exemplo, atuam como ativadores de transcrição na ausência de seus hormônios e tornam-se repressores da transcrição quando os hormônios estão ligados a eles. Até agora, focamos no controle da expressão gênica por moléculas de sinalização extracelular produzidas por outras células. Estudaremos agora a regulação gênica por um sinal ambiental mais global: o ciclo de luz e escuridão que resulta do movimento de rotação da Terra. Os relógios circadianos contêm ciclos de retroalimentação negativa que controlam a expressão gênica A vida na Terra evoluiu na presença de um ciclo de dia e noite, e muitos dos organis- mos atuais (desde arqueobactérias a plantas e humanos) apresentam um ritmo interno que dita diferentes comportamentos, em diferentes momentos do dia. Esses comporta- mentos podem variar de uma mudança metabólica cíclica nas atividades metabólicas de uma bactéria aos elaborados ciclos de dormir-acordar dos humanos. Os osciladores internos que controlam tais ritmos diurnos são chamados de relógios circadianos. Ter um relógio circadiano permite a um organismo antecipar as alterações regu- lares diárias no seu ambiente e realizar as ações apropriadas de forma antecipada. É obvio que o relógio interno não pode ser perfeitamente acurado; ele deve ser capaz de ser readequado por informações externas, como a luz do dia. Dessa forma, os relógios circadianos continuam funcionando mesmo quando as informações do ambiente (mu- danças entre luz e escuridão) são removidas, mas o período desse ritmo de trabalho livre geralmente é um pouco menor ou maior do que 24 horas. Os sinais externos, indicando Figura 15-64 Algumas moléculas de sinalização que se ligam a receptores intracelulares. Observe que todas elas são pequenas e hidrofóbicas. A vitamina D3 está representada em sua forma ativa hidroxilada. O estradiol e a testosterona são hormônios sexuais esteroides. O HO C O OH CH2OH Cortisol OH HO Estradiol O OH Testosterona HO Vitamina D3 CH3CH3 CH3 C O O _ CH3H3C Ácido retinoico HO I I O CH2 H NH3 + C COO _ Tiroxina OH CH2 OH I I CAPÍTULO 15 Sinalização celular 877 a hora do dia, promovem pequenos ajustes no funcionamento do relógio, de maneira a manter o organismo em sincronia com o seu ambiente. Com mudanças mais drásticas, os ciclos circadianos tornam-se gradualmente reprogramados por um novo ciclo de luz e escuridão,como qualquer um que tenha experimentado uma rápida troca de fuso ho- rário pode atestar. Poderíamos supor que o relógio circadiano seria um mecanismo multicelular complexo, com diferentes grupos de células responsáveis por diferentes partes do meca- nismo de oscilação. É surpreendente, entretanto, que, na maioria dos organismos mul- ticelulares, incluindo os humanos, os marcadores de tempo sejam células individuais. Assim, um relógio que opera em cada membro de um grupo especializado de células do cérebro (as células SCN do núcleo supraquiasmático do hipotálamo; do inglês, SCN, suprachiamatic nucleus) controla nossos ciclos diurnos de dormir e acordar, da tempera- tura corporal e da liberação de hormônios. Mesmo que essas células sejam removidas do cérebro e colocadas em um meio de cultura, elas continuam a oscilar individualmente, mostrando um padrão cíclico de expressão gênica com um período de aproximadamen- te 24 horas. No corpo intacto, as células SCN recebem informações neuronais da reti- na, direcionando-as ao ciclo de luz e escuridão; elas também mandam informações a respeito da hora do dia para outra área do cérebro, a glândula pineal, que retransmite o sinal temporal para o resto do corpo pela liberação do hormônio melatonina em con- comitância com o relógio. Embora as células do sistema nervoso central tenham um papel decisivo como cro- nômetros nos mamíferos, quase todas as outras células do corpo possuem um ritmo cir- cadiano interno com a capacidade de se reprogramar em resposta à luz. De modo seme- lhante, na Drosophila, muitos tipos diferentes de células possuem um relógio circadiano similar, que continua funcionando mesmo quando é removido do restante do corpo da mosca e pode ser reprogramado pela exposição a ciclos externos de luz e escuridão. O funcionamento dos relógios circadianos é, dessa forma, um problema funda- mental na biologia celular. Embora ainda não conheçamos todos os detalhes, os estudos em uma ampla variedade de organismos revelaram princípios básicos e dos componen- tes moleculares. O princípio-chave é o de que os relógios circadianos geralmente de- pendem de ciclos de retroalimentação negativa. Conforme discutido anteriormente, as oscilações na atividade de uma proteína de sinalização intracelular podem ocorrer se essa proteína inibir sua própria atividade com um longo retardo (ver Figura 15-18C e D). Na Drosophila e em muitos outros animais, incluindo humanos, o principal componen- te do relógio circadiano é um ciclo de retroalimentação negativa com retardo, baseado Figura 15-65 A ativação dos recepto- res nucleares. Todos os receptores nucle- ares se ligam ao DNA na forma de homo- dímeros ou de heterodímeros, mas, para simplificar, estão representados como mo- nômeros. (A) Todos os receptores possuem uma estrutura relacionada, que inclui três domínios principais, como mostrado. Um receptor no seu estado inativo ligado a proteínas inibidoras. (B) A interação do ligante com o receptor provoca o fecha- mento do domínio de ligação do receptor ao redor do ligante, como uma pinça, provocando, também, a dissociação das proteínas inibidoras e a ligação das proteí- nas coativadoras ao domínio de ativação da transcrição no receptor, aumentando, assim, a transcrição gênica. Em outros ca- sos, a interação com o ligante tem o efeito oposto, causando a ligação de proteínas correpressoras ao receptor, reduzindo a transcrição (não mostrado). (C) A estrutura do domínio de interação com o ligante no receptor do ácido retinoico está mostrado na ausência (à esquerda) e na presença (no centro) do ligante (mostrado em verme- lho). Quando o ligante interage, a a-hélice azul atua como uma tampa que se fecha repentinamente, prendendo o ligante no lugar. A mudança na conformação do receptor pela interação com o ligante também cria um sítio de ligação para uma a-hélice pequena (laranja) da superfície das proteínas coativadoras (Códigos PDB: 1LBD, 2ZYO e 2ZXZ.) Domínio de ativação da transcrição H2N Domínio de ligação ao DNA Domínio de interação com o ligante COOH Proteínas inibidoras (A) RECEPTOR INATIVO (B) RECEPTOR ATIVO Transcrição do gene-alvo Proteínas coativadoras Ligante DNA Elemento de ligação ao receptor Ligante �-hélice do coativador (C) 878 PARTE IV Organização interna da célula nos reguladores de transcrição: o acúmulo de determinados produtos gênicos inativa a transcrição de seus próprios genes, mas com um retardo, de forma que a célula oscila entre um estado no qual os produtos estão presentes e a transcrição é inativada, e um em que os produtos estão ausentes e a transcrição ocorre (Figura 15-66). A retroalimenta- ção negativa fundamental ao ritmo circadiano não deve estar baseada nos reguladores de transcrição. Em alguns tipos celulares, o relógio circadiano é constituído por proteí- nas que controlam suas próprias atividades por meio de mecanismos de pós-tradução, conforme discutiremos a seguir. Três proteínas em um tubo de ensaio podem reconstituir um relógio circadiano de cianobactérias O relógio circadiano mais bem conhecido é encontrado na cianobactéria fotossintética Synechococcus elongatus. O oscilador central desse organismo é notavelmente simples, sendo composto por três proteínas – KaiA, KaiB, e KaiC. O elemento central é a KaiC, uma enzima multifunctional que catalisa sua própria fosforilação e desfosforilação, em um ciclo de 24 horas: ela se autofosforila gradual e sequencialmente em dois sítios du- rante o dia e se desfosforila durante a noite. Essa cronometragem depende de intera- ções com as outras duas proteínas Kai: KaiA se liga a KaiC não fosforilada e estimula a autofosforilação de KaiC, primeiro em um sítio e, depois de algum tempo, no outro. A segunda fosforilação promove as ligações da terceira proteína, KaiB, a qual bloqueia o efeito estimulador de KaiA e, dessa forma, permite a autodesfosforilação de KaiC. Esse relógio depende de um ciclo de retroalimentação negativa: KaiC conduz a sua própria fosforilação até que, depois de algum tempo, ela recruta um inibidor, KaiB, que estimula a autodesfosforilação de KaiC. Surpreendentemente, quando as três proteínas Kai são purificadas e incubadas em um tubo de ensaio contendo ATP, ocorrem a fosforilação e a desfosforilação de KaiC em um ritmo aproximado de 24 horas, por um período de vários dias (Figura 15-67). As oscilações circadianas na fosforilação de KaiC leva a ritmos paralelos na expres- são de um grande número de genes envolvidos no controle das atividades metabólicas e na divisão celular (ver Figura 15-67). Como resultado, muitos aspectos do comporta- mento celular estão sincronizados com o ciclo circadiano. Mesmo em escuridão contínua, as cianobactérias geram oscilações de livre curso da fosforilação de KaiC com períodos aproximados de 24 horas. Como em outros reló- gios circadianos, o das cianobactérias é conduzido pelo ciclo ambiental de luz e escuri- dão. Cogita-se que a luz afete de forma indireta o relógio circadiano: as atividades das proteínas Kai são influenciadas por mudanças no potencial redox intracelular, as quais ocorrem como resultado da atividade fotossintética aumentada durante o dia. NÚCLEO CITOSOL Proteína Tim Proteína Per Fosforilação e degradação regulada de Per Fosforilação e degradação regulada de Per Gene Tim Gene Per Tim degradado em resposta à luz Formação do heterodímero mRNAs mRNAs Dissociação do heterodímero Figura 15-66 Esboço do mecanismo do relógio circadiano nas células de Drosophila. A característica central do relógio é a acumulação periódica e a degradação de duas proteínas de regula- ção de transcrição, Tim (abreviatura para eterno [timeless], com base no fenótipo de uma mutação gênica) e Per (abreviatura para período). Os mRNAs que codificam essas proteínas aumentam gradualmente durante o dia e são traduzidos no citosol, onde as duas proteínas se associam para formar um heterodímero. Após um tempo de retardo, o heterodímero sedissocia e Tim e Per são transportadas para o núcleo, onde Per reprime os genes Tim e Per, resultando em retroalimentação negati- va que causa a queda dos níveis destas proteínas. Além dessa retroalimentação na transcrição, o relógio depende de várias outras proteínas. Por exemplo, a degrada- ção controlada de Per, indicada no diagra- ma, impõe retardos na acumulação de Tim e Per, as quais são fundamentais para o funcionamento do relógio. As etapas nas quais os retardos específicos são impostos estão mostradas em vermelho. O ajuste (ou a reprogramação) do relógio ocorre em resposta a novos ciclos de luz-escuridão. Embora a maioria das células de Drosophila não possua fotor- receptores verdadeiros, a luz é sentida por flavoproteínas intracelulares, também chamadas de criptocromos. Na presença de luz, essas proteínas associam-se à proteína Tim e induzem a sua degradação, reprogramando, dessa maneira, o reló- gio. (Adaptada de J.C. Dunlap, Science 311:184–186, 2006.) CAPÍTULO 15 Sinalização celular 879 Resumo Algumas vias de sinalização importantes no desenvolvimento animal dependem de pro- teólise para controlar a atividade e a localização de proteínas reguladoras de transcri- ção latentes. Os receptores Notch pertencem a esse tipo de proteínas e são ativados por proteólise, após a ligação de Delta de outra célula; a cauda citosólica liberada migra para o núcleo, onde estimula a transcrição de genes de resposta a Notch. Na via de sina- lização Wnt/b-catenina, ao contrário, a proteólise da proteína reguladora de transcrição b-catenina é inibida quando as proteínas Wnt secretadas se ligam às proteínas receptoras Frizzled e LRP; como resultado, a b-catenina se acumula no núcleo e ativa a transcrição dos genes-alvo de Wnt. A sinalização pela proteína Hedgehog em moscas funciona de forma semelhante à de Wnt. Na ausência do sinal, o regulador de transcrição citoplasmático bifuncional Ci é processado proteoliticamente, formando um repressor de transcrição que mantém repri- midos os genes-alvo de Hedgehog. A ligação de Hedgehog aos seus receptores (Patched e iHog) inibe o processamento proteolítico de Ci; como resultado, a proteína Ci intacta se acumula no núcleo e ativa a transcrição dos genes que respondem a Hedgehog. Na sina- lização por Notch, Wnt e Hedgehog, o sinal extracelular desencadeia a troca de repressão para ativação da transcrição. A sinalização por meio do regulador latente de transcrição NFkB também depen- de de proteólise. Essa proteína normalmente é mantida inativa, no citoplasma, por pro- teínas inibidoras IkB. Uma grande variedade de estímulos extracelulares, entre os quais as citocinas pró-inflamatórias, inicia uma cascata de fosforilação e ubiquitinação de IkB, marcando-a para degradação; isso permite a translocação de NFkB para o núcleo e a ativação da transcrição dos seus genes-alvo. NFkB também ativa a transcrição dos genes que codificam IkBa, criando um ciclo de retroalimentação negativa, o que pode produzir, com a sinalização extracelular sustentada, oscilações prolongadas na ativida- de de NFkB. Figura 15-67 O oscilador circadiano central em cianobactérias. (A) KaiC é uma combinação de cinase e fosfatase que se autofosforila e autodesfosforila em dois sítios adjacentes. Na ausência de outras proteínas, a atividade de fosfatase é dominante, e a proteína geralmente não está fosforilada. A ligação de KaiA a KaiC suprime a atividade de fosfatase e promo- ve a de cinase, levando à fosforilação de KaiC, primeiro no sítio 1 e depois no sítio 2, resultando na KaiC bifosforilada. Esta, então, se autodesfosforila lentamente no sítio 1, mesmo na presença de KaiA, de forma que KaiC permanece fosforilada somente no sítio 2. Esta forma da proteína interage com KaiB, que bloqueia os efeitos estimuladores de KaiA, reduzindo, assim, a taxa de fosforilação de KaiC, e permitindo que ocorra a desfosforilação. A quantida- de de KaiC bifosforilada aumenta durante o dia e mostra um pico ao anoitecer. Ela ativa outras proteínas que fosforilam um regulador de transcrição (RpaA), o qual estimula a expressão de alguns genes (os genes dusk que mostram um pico no início da noite) e inibe a expressão de outros ge- nes (os genes dawn que mostram um pico pela manhã). Quando a desfosforilação de KaiC ocorre gradualmente durante a noi- te, esses efeitos são revertidos: os genes dusk são inativados e os genes dawn são ativados. (B) Neste experimento, as três proteí- nas Kai foram purificadas e misturadas em um tubo de ensaio com ATP (que é neces- sário para a atividade da KaiC-cinase). A cada 2 horas durante três dias, a proteína KaiC foi analisada por eletroforese em gel de poliacrilamida, no qual a forma fosfo- rilada da proteína migra mais lentamente (banda superior, P-KaiC) do que a forma não fosforilada (banda inferior, NP-KaiC). As três diferentes formas fosforiladas da KaiC não são distinguíveis por esse méto- do. A fosforilação da KaiC oscila dentro de um período aproximado de 24 horas. (C) A quantidade de KaiC fosforilada e desfosfo- rilada do experimento B está representada neste gráfico, bem como a quantidade total de proteína. (B e C são dados de M. Nakajima et al., Science 308:414–415, 2005. Com permissão de AAAS.) 1,2 1,0 0,8 0,6 0,4 0,2 0 0 24 48 72 Horas D en si d ad e re la ti va d a b an d a P-KaiC NP-KaiC 0 12 24 36 48 60 Horas (B) (A) (C) B C P C P C PP P C ASítio 1 Sítio 2 RpaA Aumento da expressão do gene dusk Redução da expressão do gene dawn NP-KaiC Proteína total P-KaiC 880 PARTE IV Organização interna da célula Algumas moléculas de sinalização pequenas e hidrofóbicas, como os hormônios es- teroides e tireóideos, difundem-se através da membrana plasmática da célula-alvo e ati- vam proteínas receptoras intracelulares que regulam diretamente a transcrição de genes específicos. Em muitos tipos celulares, a expressão gênica é regulada por relógios circadianos, nos quais uma retroalimentação negativa com retardo produz oscilações de 24 horas na atividade dos reguladores de transcrição, antecipando as necessidades de mudança du- rante o dia e a noite. SINALIZAÇÃO EM PLANTAS Nas plantas, como nos animais, as células estão em constante comunicação umas com as outras. As células vegetais se comunicam para coordenar suas atividades em resposta a mudanças nas condições de luz, de escuridão e de temperatura que orientam o ciclo de crescimento, de florescimento e de frutificação. Elas também se comunicam para co- ordenar o que acontece em suas raízes, seus ramos e suas folhas. Nesta seção final, con- sideraremos como as células vegetais sinalizam umas para as outras e como respondem à luz. Sabe-se pouco sobre os receptores e os mecanismos de sinalização intracelular envolvidos na comunicação celular em plantas, e nos concentraremos nos aspectos que os diferenciam daqueles utilizados pelos animais. A multicelularidade e a comunicação celular evoluíram de modo independente em plantas e animais Embora as plantas e os animais sejam eucariotos, eles evoluíram separadamente por mais de 1 bilhão de anos. Seu último ancestral comum foi um eucarioto unicelular que possuía mitocôndrias, mas não cloroplastos. A linhagem vegetal adquiriu cloroplastos depois que as plantas e os animais divergiram. Os primeiros fósseis de animais e de plantas multicelulares datam de aproximadamente 600 milhões de anos. Assim, parece que a multicelularidade nas plantas e nos animais evoluiu de forma independente en- tre 1,6 e 0,6 bilhão de anos atrás, cada um a partir de um eucarioto unicelular diferente (Figura 15-68). Se a multicelularidade evoluiu de forma independente nas plantas e nos animais, as moléculas e os mecanismos usados para a comunicação também devem ter evoluí- do separadamente, e espera-se que sejam diferentes. Contudo, deve haver algum grau de semelhança, já que os genes das plantas e dos animais divergiram a partir daqueles existentes no último ancestralunicelular comum a ambos. Assim, enquanto o óxido ní- trico, o GMP cíclico, o Ca21 e as GTPases da família Rho são amplamente utilizados para sinalização tanto nas plantas como nos animais, não existem homólogos para a família dos receptores nucleares Ras, JAK, STAT, TGFb, Notch, Wnt ou Hedgehog codificados AQUISIÇÃO DE MULTICELULARIDADE AQUISIÇÃO DE CLOROPLASTOS DIVERGÊNCIA DAS LINHAGENS ANIMAL E VEGETAL Núcleo Mitocôndria Célula eucariótica ancestral comum Ancestral unicelular das plantas Ancestral unicelular dos animais Cloroplasto AQUISIÇÃO DE MULTICELULARIDADE Figura 15-68 Divergência proposta para as linhagens animais e vegetais a partir de um ancestral eucarioto unicelular comum. Após a divergência, a linhagem vegetal adquiriu cloroplastos. Ambas as linhagens originaram, indepen- dentemente, organismos multicelulares – plantas e animais. (As imagens à direita são cortesia de John Innes Foundation.) CAPÍTULO 15 Sinalização celular 881 pelo genoma completamente sequenciado da pequena planta Arabidopsis thaliana. Da mesma forma, as plantas não usam o cAMP na sinalização intracelular. Não obstante, as estratégias gerais básicas da sinalização são, com frequência, muito semelhantes em animais e em plantas. Por exemplo, os receptores de superfície acoplados a enzimas são utilizados por ambos, como veremos a seguir. A classe dos receptores serina-treonina-cinase é a maior entre os receptores de superfície celular nas plantas A maioria dos receptores de superfície celular em plantas estão acoplados a enzimas. Con- tudo, enquanto nos animais a maior classe de receptores acoplados a enzimas é a dos RTKs, esse tipo de receptor é extremamente raro em plantas. As plantas utilizam uma grande diversidade de receptores serina-treonina-cinase transmembrana, os quais possuem um domínio citoplasmático típico de serina-treonina-cinase e um domínio extracelular de interação com o ligante. Os tipos mais numerosos desses receptores possuem um arranjo extracelular em sequência de estruturas repetidas ricas em leucina e por isso são chamados de cinases receptoras com repetições ricas em leucina (LRR, de leucine-rich repeat). O genoma de Arabidopsis possui cerca de 175 genes para os receptores LRR. Estes incluem uma proteína chamada Bri1, que faz parte de um receptor de superfície celular para hormônio esteroide. As plantas sintetizam uma classe de esteroides chamados de brassinosteroides, porque foram identificados originalmente na família Brassicaceae, da qual a Arabidopsis é um representante. Essas moléculas de sinalização regulam o crescimento e a diferenciação da planta por todo o seu ciclo de vida. A ligação de um brassinosteroide a um receptor Bri1 na superfície celular inicia uma cascata de sinali- zação intracelular que usa uma cinase GSK3 e uma fosfatase para regular a fosforilação e a desfosforilação de proteínas reguladoras de transcrição específicas no núcleo, regu- lando, dessa forma, a transcrição gênica específica. As plantas mutantes deficientes no receptor Bri1 são insensíveis aos brassinosteroides e por isso são anãs. Os receptores LRR são apenas uma das muitas classes de receptores serinas-treo- ninas cinase transmembrana em plantas. Existem, pelo menos, mais seis famílias, cada uma com seu próprio conjunto de domínios extracelulares. Os receptores de lectinas, por exemplo, possuem domínios extracelulares que interagem com moléculas de sina- lização do tipo carboidrato. O genoma de Arabidopsis codifica mais de 300 receptores serina-treonina-cinase, sendo essa a maior família de receptores conhecida em plantas. Muitos desses receptores estão envolvidos em respostas de defesa contra patógenos. O etileno bloqueia a degradação de proteínas específicas reguladoras de transcrição no núcleo Vários reguladores de crescimento em plantas (também chamados de hormônios vegetais) auxiliam na coordenação do desenvolvimento das plantas. Entre eles estão o etileno, a auxina, as citocinas, as giberelinas e o ácido abscísico, bem como os brassinos- teroides. Todos os reguladores de crescimento são moléculas pequenas produzidas pela maioria das células vegetais. Todos se difundem facilmente através da parede celular, podendo agir localmente ou serem transportados para agir sobre células mais distantes. Cada regulador de crescimento pode ter múltiplos efeitos. O efeito específico depende das condições ambientais, do estado nutricional da planta, da capacidade de resposta da célula-alvo e da atuação de outros reguladores de crescimento. O etileno é um exemplo importante. Essa pequena molécula gasosa (Figura 15-69A) influencia o desenvolvimento da planta de várias maneiras; ela pode, por exemplo, promover a maturação dos frutos, a queda das folhas e a senescência. Ela também atua como um sinal de estresse em resposta a dano, à infecção, à inundação, etc. Quando o broto de uma plântula em germinação, por exemplo, encontra um obstáculo, o etileno promove uma resposta complexa que permite que a plântula contorne o obstá- culo (Figura 15-69B e C). As plantas possuem vários receptores para o etileno, com estrutura semelhante e localizados no RE. Esses receptores são proteínas transmembrana diméricas com um do- mínio de ligação ao etileno contendo um átomo de cobre, e um domínio que interage (B) (A) (C) 1 mm C C H H H H Figura 15-69 Resposta tripla, mediada pelo etileno, que acontece quando o caule de uma plântula recém-germina- da encontra um obstáculo no solo. (A) Estrutura do etileno. (B) Na ausência de obstáculos, a raiz cresce para cima e é longa e fina. (C) Se a raiz encontrar um obstáculo, como um cascalho no solo, a plântula responde ao encontro de três for- mas. Primeiro, o caule torna-se espessado, o que permite que exerça mais força sobre o obstáculo. Em segundo lugar, a plântula protege a ponta do caule (parte superior), aumentando a curvatura de uma estrutura especializada em forma de gancho. Em terceiro lugar, ela reduz a tendência do caule de crescer contra a gravidade, para evitar o obstáculo. (Cortesia de Melanie Webb.) 882 PARTE IV Organização interna da célula com uma proteína citoplasmática chamada de CTR1, cuja sequência está intimamente relacionada com a MAP-cinase-cinase-cinase Raf, discutida anteriormente (ver Figu- ra 15-49). Surpreendentemente, os receptores não ligados é que são ativos e mantêm a CRT1 ativa. Por um mecanismo de sinalização desconhecido, a CRT1 ativa estimula a ubiquitinação e a degradação nos proteossomos de um regulador de transcrição nuclear chamado de EIN3, requerido para a transcrição dos genes de resposta ao etileno. Dessa forma, os receptores não ligados, porém ativos, mantêm esses genes inativados. A ligação do etileno inativa os receptores, alterando sua conformação de forma que eles não ativam mais a CTR1. A proteína EIN3 não é mais ubiquitinada e degradada e pode, agora, ativar a transcrição de um grande número de genes de resposta ao etileno (Figura 15-70). A distribuição controlada dos transportadores de auxina afeta o crescimento das plantas O hormônio vegetal auxina, que corresponde ao ácido 3-indolacético (Figura 15-71A), liga-se a proteínas receptoras no núcleo. Ele ajuda as plantas a crescerem para cima e na direção da luz, em vez de ramificarem, e garante o crescimento das raízes para baixo. Ele também regula a iniciação e o posicionamento dos órgãos, além de ajudar na flora- ção e na produção de frutos. À semelhança do etileno (e de algumas das moléculas de sinalização dos animais que foram descritas neste capítulo), a auxina influencia a ex- pressão gênica pelo controle da degradação dos reguladores de transcrição. Ela atua na estimulação da ubiquitinação e na degradação de proteínas repressoras que bloqueiam a transcrição de genes-alvo da auxina em células não estimuladas (Figura 15-71B e C). A auxina é única na maneira como é transportada. Ao contrário dos hormônios animais, que em geral são secretados por um órgão endócrino específicoe transportados (A) AUSÊNCIA DE ETILENO (B) PRESENÇA DE ETILENO Receptor de etileno ativo Íons de cobre Receptor de etileno inativo Etileno CTR1 Domínio da cinase ativo Cadeia da poliubiquitina CTR1 inativa EIN3 EIN3 Degradação nos proteassomos TRANSCRIÇÃO DOS GENES-ALVO DO ETILENO REPRESSÃO DOS GENES DE RESPOSTA AO ETILENO Membrana do RE CITOSOL Figura 15-70 A via de sinalização do etileno. (A) Na ausência de etileno, os receptores e CTR1 estão ativos, causando a ubiquitinação e destruição de EIN3, a proteína reguladora de transcrição no núcleo que é respon- sável pela transcrição dos genes de resposta ao etileno (B) A ligação do etileno inativa os receptores e destrói a ativação de CTR1. A proteína EIN3 não é degradada e, portanto, ativa a transcrição dos genes de resposta ao etileno. CAPÍTULO 15 Sinalização celular 883 pelo sistema circulatório para as células-alvo, a auxina tem seu próprio sistema de trans- porte. As proteínas transportadoras de influxo e as proteínas transportadoras de efluxo específicas ligadas à membrana plasmática movem a auxina, respectivamente, para den- tro e para fora das células vegetais. Os transportadores de efluxo podem ser distribuídos assimetricamente na membrana plasmática para direcionar o efluxo da auxina. Uma fi- leira de células com seus transportadores de efluxo confinados na membrana basal, por exemplo, transportará auxina do topo da planta para a base. Em algumas regiões da planta, a localização dos transportadores de auxina e, por- tanto, a direção do fluxo do hormônio são altamente dinâmicas e reguladas. Uma célula pode redistribuir rapidamente os transportadores pelo controle do tráfego das vesículas que os contêm. Os transportadores de efluxo, por exemplo, normalmente variam sua lo- calização entre as vesículas intracelulares e a membrana plasmática. Uma célula pode redistribuir esses transportadores na sua superfície, pela inibição da sua endocitose em um domínio da membrana plasmática, fazendo com que se acumulem nesse local. Um exemplo acontece na raiz, onde a gravidade influencia a direção do crescimento. Os transportadores de efluxo normalmente são distribuídos de forma simétrica nas células da extremidade da raiz. No entanto, passados alguns minutos após uma mudança de direção do vetor de gravidade, os transportadores de efluxo se redistribuem para um dos lados das células, e a auxina é bombeada para fora na direção da raiz que está voltada para baixo. Uma vez que a auxina inibe o alongamento da célula da raiz, esta redistribui- ção do transporte do hormônio causa a reorientação da ponta da raiz, de forma que ela cresce de novo voltada para baixo (Figura 15-72). Os fitocromos detectam a luz vermelha e os criptocromos detectam a luz azul O desenvolvimento das plantas é bastante influenciado pelas condições ambientais. Ao contrário dos animais, as plantas não podem mudar de ambiente quando as condições se tornam desfavoráveis; elas têm que se adaptar ou morrem. A influência ambiental mais importante é a luz, que é a fonte de energia das plantas e tem o papel mais im- Figura 15-71 Via de sinalização da auxina. (A) Estrutura da auxina, ácido 3-indolacético. (B) Na ausência de auxina, uma proteína repressora de transcrição (chamada de Aux/IAA) se liga a uma proteína reguladora de transcrição (chamada de fator de resposta à auxina, ARF; do inglês, auxin- -response factor) e a inibe, o que é necessário para a transcrição dos genes de resposta à auxina. (C) As proteínas receptoras de auxina estão localiza- das principalmente no núcleo e fazem parte dos complexos de ubiquitina- -ligase (não mostrado). Uma vez ativado pela ligação da auxina, o complexo receptor-auxina recruta o complexo ubiquitina-ligase, que ubiquitina as proteínas Aux/IAA, marcando-as para degradação nos proteassomos. A proteína ARF agora está livre para ativar a transcrição dos genes de resposta à auxina. Existem muitas proteínas ARF, Aux/IAA e receptores de auxina que atuam conforme mostra a figura. N H CH2COOH Fator de resposta à auxina (ARF) Repressor transcricional (Aux/IAA) Aux/IAA GENES-ALVO DE AUXINA INATIVOS Auxina Proteína receptora de auxina Complexo ubiquitina-ligase Ubiquitinação e degradação da proteína Aux/IAAARF ativa TRANSCRIÇÃO DE GENES-ALVO DE AUXINA (A) (B) AUSÊNCIA DE AUXINA (C) PRESENÇA DE AUXINA 884 PARTE IV Organização interna da célula portante ao longo de todo o seu ciclo de vida – desde a germinação, passando pelo de- senvolvimento da plântula, ao florescimento e senescência. As plantas selecionaram um grande conjunto de proteínas sensíveis à luz para monitorar a quantidade, a qualidade, a direção e a duração da luz. Essas proteínas em geral são referidas como fotorreceptores. No entanto, como o termo fotorreceptor também é usado para as células sensíveis à luz na retina dos animais (ver Figura 15-38), usaremos aqui o termo fotoproteína. Todas as fotoproteínas detectam a luz por meio de um cromóforo, ligado covalen- temente, que altera sua forma ao absorver a luz, induzindo uma mudança na conforma- ção da proteína. Os fitocromos são as fotoproteínas mais conhecidas das plantas, estan- do presentes em todas as plantas e em algumas algas. São as serinas-treoninas-cinase diméricas citoplasmáticas que respondem à luz vermelha e à luz infravermelha de forma diferencial e reversível: enquanto a luz vermelha geralmente ativa a cinase do fitocromo, a infravermelha a inativa. Acredita-se que o fitocromo, quando ativado pela luz, sofra autofosforilação, para depois fosforilar uma ou várias proteínas na célula. Em algumas respostas à luz, os fitocromos ativados migram para o núcleo, onde interagem com regu- ladores de transcrição e alteram a transcrição de alguns genes (Figura 15-73). Em outros casos, os fitocromos ativam, no citoplasma, um regulador latente da transcrição, que mi- gra para o núcleo onde regula a transcrição gênica. Em outros casos ainda, a fitoproteína dá início, no citosol, a vias de sinalização que alteram o comportamento da célula, sem o envolvimento do núcleo. As plantas detectam luz azul usando dois tipos de fotoproteínas, a fototropina e os criptocromos. A fototropina está associada à membrana plasmática, sendo par- cialmente responsável pelo fototropismo, ou seja, a tendência das plantas de cresce- GRAVIDADE Tecido vascular Epiderme Extremidade da raiz (A) (B) (D) (C) As células centrais da raiz respondem à gravidade A inibição do alongamento da célula epidérmica nesta região restabelece o crescimento vertical para baixo A auxina inibe o alongamento da célula epidérmica no lado inferior da raiz A reorientação dos transportadores do efluxo de auxina no centro das células da raiz direciona a auxina para o lado inferior da raiz RAIZ DESLOCADA EM 90° Figura 15-72 Transporte de auxina e gravitropismo da raiz. (A-C) As raízes respondem a uma mudança de 90° na orientação gravitacional e ajustam sua direção de crescimento de forma que voltam a crescer na direção descendente. As células que respondem à gravidade estão no centro da extremidade da raiz, enquanto as células epidérmicas localizadas mais internamente (no lado inferior) reduzem sua taxa de alongamento para restaurar o crescimento descendente. (D) As células que respondem à gravidade na extremidade da raiz redis- tribuem seus transportadores de efluxo de auxina em resposta ao deslocamento da raiz. Isso redireciona o fluxo de auxina principalmente para a parte inferior da raiz, onde inibe o alongamento das células epidérmicas. A distribuição assimétrica de auxina resultante na ponta da raiz de Arabidopsis, mostrada aqui, é determinada in- diretamente, pelo uso de um gene-repórter responsivo à auxina que codifica uma proteína fusionada à proteína verde fluorescente (GFP, green fluorescent protein); as células epidérmicas do lado inferior da raiz são verdes, enquanto as células localizadas no lado superior não são, refletindo a distribuiçãoassimétrica da auxina. A dis- tribuição dos transportadores de efluxo de auxina na membrana plasmática das células em diferentes regiões da raiz (mostrado como retângulos cinza) está indicada em vermelho, e a direção do efluxo de auxina está indicada por uma seta verde. (A fotografia de fluorescência em D é de T. Paciorek et al., Nature 435:1251–1256, 2005. Com permissão de Macmillan Publishers Ltd.) CAPÍTULO 15 Sinalização celular 885 rem em direção à luz. O fototropismo ocorre pelo alongamento celular direcionado, que é estimulado pela auxina, mas não se conhecem as ligações entre a fototropina e a auxina. Os criptocromos são flavoproteínas sensíveis à luz azul. São relacionados, estru- turalmente, a enzimas sensíveis à luz azul, chamadas de fotoliases, envolvidas no reparo de danos ao DNA induzidos por irradiação ultravioleta em quase todos os organismos, com exceção da maioria dos mamíferos. Ao contrário dos fitocromos, os criptocromos são encontrados também em, animais, nos quais têm um papel importante nos relógios circadianos (ver Figura 15-66). Embora se acredite que os criptocromos tenham evoluído a partir das fotoliases, eles não apresentam atividade de reparo do DNA. Resumo Acredita-se que a multicelularidade e os mecanismos de comunicação celular tenham evoluído de modo independente nas plantas e nos animais, cada um a partir de um euca- rioto unicelular diferente que, por sua vez, evoluiu de um ancestral eucarioto unicelular comum. Por esse motivo, não é surpreendente que os mecanismos de sinalização das célu- las animais e vegetais tenham semelhanças e diferenças entre si. Enquanto os animais con- tam principalmente com GPCRs e RTKs, as plantas contam basicamente com os receptores acoplados a enzimas do tipo serina-treonina-cinase, especialmente aqueles com repetições extracelulares ricas em leucina. Vários hormônios vegetais, ou reguladores de crescimento, entre eles o etileno e a auxina, participam no controle do desenvolvimento das plantas. O etileno atua por meio de receptores intracelulares para interromper a degradação de reguladores de transcrição nucleares específicos, que ativam a transcrição dos genes de resposta ao etileno. Os receptores para alguns outros hormônios vegetais, incluindo a au- xina, também regulam a degradação de reguladores de transcrição específicos, embora os detalhes sejam variáveis. A sinalização pela auxina é incomum, pois esse hormônio possui seu próprio sistema de transporte altamente regulado, no qual o posicionamento dinâ- mico dos transportadores controla a direção do fluxo de auxina e, portanto, a direção do crescimento da planta. A luz tem um papel importante na regulação do desenvolvimento nos vegetais. As respostas à luz são mediadas por uma variedade de fotoproteínas, como os citocromos, que respondem à luz vermelha, e os criptocromos e a fototropina, sensíveis à luz azul. Figura 15-73 Forma pela qual os fito- cromos mediam a resposta à luz nas células vegetais. O fitocromo, que é um dímero, sofre autofosforilação quando ativado pela luz vermelha e migra para o núcleo, onde ativa as proteínas regulado- ras de transcrição que estimulam a trans- crição de genes específicos de resposta à luz vermelha. LUZ VERMELHA TRANSCRIÇÃO DE GENES DE RESPOSTA À LUZ VERMELHA Fitocromo inativo AUTOFOSFORILAÇÃO INDUZIDA PELA LUZ E ATIVAÇÃO Fitocromo ativo (cinase) TRANSLOCAÇÃO PARA O NÚCLEO NÚCLEOProteína reguladora de transcrição P P Coativador CITOSOL O QUE NÃO SABEMOS • Como a célula integra a informa- ção recebida por seus muitos re- ceptores de superfície celular para tomar decisões do tipo “tudo ou nada”? • Muito do que sabemos sobre a sinalização celular é derivado de estudos bioquímicos de proteínas isoladas em tubos de ensaio. Qual é o comportamento quantitati- vo exato das redes de sinalização intracelular na célula intacta, ou em um animal intacto, nos quais outros incontáveis sinais e compo- nentes celulares podem influen- ciar a especificidade e força da sinalização? • Como os circuitos de sinalização intracelular geram padrões de si- nalização específicos e dinâmicos tais como oscilações e ondas, e como esses padrões são percebi- dos e interpretados pela célula? • As proteínas de suporte e os recep- tores tirosina-cinase ativados de- sencadeiam a reunião de grandes complexos de sinalização intrace- lular. Qual é o comportamento di- nâmico desses complexos, e como esse comportamento influencia a continuidade da sinalização? 886 PARTE IV Organização interna da célula TESTE SEU CONHECIMENTO Quais afirmativas estão corretas? Justifique. 15-1 Todos os segundos mensageiros são hidrossolúveis e se difundem livremente pelo citosol. 15-2 Com relação à regulação dos comutadores molecula- res, as proteínas-cinase e os fatores de troca de nucleotídeos de guanina (GEFs) sempre ativam as proteínas, enquanto as proteínas-fosfatase e as proteínas ativadoras de GTPase (GAPs) sempre inibem as proteínas. 15-3 A maioria das vias de sinalização intracelular fornece numerosas oportunidades para a amplificação das respostas aos sinais extracelulares. 15-4 A interação de ligantes extracelulares com os RTKs ativa o domínio catalítico intracelular, pela propagação de uma mudança de conformação através da bicamada lipídica através de uma única a-hélice transmembrana. 15-5 As tirosinas-fosfatase apresentam uma alta especifici- dade fina por seus substratos, ao contrário da maioria das se- rinas-treoninas-fosfatase, que apresentam uma especificidade ampla. 15-6 Apesar de plantas e animais terem evoluído a multi- celularidade de modo independente, todos eles usam prati- camente as mesmas proteínas de sinalização e os mesmos segundos mensageiros na comunicação célula-célula. Discuta as questões a seguir. 15-7 Suponha que a concentração circulante de um hor- mônio seja de 10210 M e o Kd da ligação ao seu receptor seja de 1028 M. Que fração de receptores estará ocupada com o hormônio? Se uma resposta fisiológica significativa ocor- rer quando 50% dos receptores estiverem ocupados com as moléculas do hormônio, qual deverá ser o aumento da con- centração do hormônio para provocar a resposta? A fração de receptores (R) ligados ao hormônio (H) para formar um complexo receptor-hormônio (R-H) é [R-H]/([R] 1 [R-H]) 5 [R-H]/[R]total 5 [H]/([H] 1 Kd). 15-8 As células se comunicam de maneiras que lembram a comunicação humana. Decida quais das seguintes formas de comunicação humana são análogas às sinalizações celu- lares autócrina, parácrina, endócrina e sináptica. A. Conversa telefônica B. Conversa com pessoas em um coquetel C. Um anúncio pelo rádio D. Falar consigo mesmo 15-9 Por que as respostas de sinalização que envolvem al- terações em proteínas já presentes nas células ocorrem em milissegundos, enquanto as respostas que requerem mu- danças na expressão gênica precisam de minutos ou horas para ocorrer? 15-10 Como é que células diferentes podem responder de diferentes formas às mesmas moléculas sinalizadoras mes- mo que elas tenham receptores idênticos? 15-11 Por que você supõe que a fosforilação/desfosfori- lação, por exemplo, tenha evoluído para ter um papel tão proeminente, em oposição à ligação alostérica de pequenas moléculas, na ativação e na inativação de proteínas nas vias de sinalização? 15-12 Considere uma via de sinalização composta por três proteínas-cinase que são ativadas sequencialmente por fos- forilação. Em um caso, a cinase é mantida em um comple- xo de sinalização por uma proteína de suporte; no outro, as cinases se difundem livremente (Figura Q15-1). Discuta as propriedades desses dois tipos de organização em termos de amplificação do sinal, velocidade e potencial para interação entre vias. CITOSOL 1 1 22 33 Figura Q15-1 Uma cascata de cinases organizada por meio de uma proteína de suporte ou composta por componentes que se difun- dem livremente. 15-13 Descreva três maneiras pelas quais um aumento em um sinal extracelularpode ser acentuado pela célula-alvo para produzir uma resposta abrupta do tipo “tudo ou nada”. 15-14 A ativação (“maturação”) de ovócitos de rã é sinali- zada por meio de um módulo de sinalização da MAP-cinase. Um aumento na progesterona ativa o módulo por estimular a tradução do RNA mensageiro da Mos, que é a MAP-cinase- -cinase-cinase da rã (Figura Q15-2). A maturação é facil- mente identificada visualmente pela presença de um ponto branco no centro da superfície marrom do ovócito (ver Fi- gura Q15-2). Para determinar a curva de dose-dependência da ativação da MAP-cinase induzida pela progesterona, coloque 16 ovócitos em cada uma de seis placas plásticas e adicione diferentes concentrações de progesterona. Após uma incubação de 18 horas, rompa os ovócitos, prepare um extrato e determine o estado de fosforilação (e, portanto, de ativação) da MAP-cinase por meio de uma eletroforese em gel de poliacrilamida-SDS (Figura Q15-3A). Essa análise mostra uma resposta gradual da MAP-cinase ao aumento da concentração da progesterona. MAPK 1 mm Ovócitos maduros MEK1 Mos Progesterona Figura Q15-2 Ativação da MAP-cinase induzida por progesterona, levando à matu- ração do ovócito. (Cortesia de Helfrid Hochegger.) CAPÍTULO 15 Sinalização celular 887 Figura Q15-3 Ativação de ovócitos de sapo. (A) Fosforilação de MAP- -cinase em um conjunto de ovócitos. (B) Fosfori- lação da MAP-cinase em ovócitos individuais. A enzima foi detectada por imunoensaio usando um anticorpo específico. As duas primeiras canaletas de cada gel contêm MAP-cinase inativa não fosforilada (2) e ativa fosforilada (1). (De J.E. Ferrell, Jr., e E.M. Mach- leder, Science 280:895– 898, 1998. Com permis- são de AAAS.) – + Progesterona (�M) 100 50 0 1010,10,010,001 % d a M A P- ci n as e at iv a CONJUNTO DE OVÓCITOS OVÓCITOS INDIVIDUAIS 0,03 0,1 0,3 – + (A) (B) Ativa (+ ) Inativa (– P) �M progesterona �M progesterona �M progesterona P Antes de romper os ovócitos, perceba que nem todos eles apresentam pontos brancos. Será que alguns deles atin- giram ativação parcial e ainda não alcançaram o estágio com pontos brancos? Para responder a essa pergunta, repita o ex- perimento, mas desta vez analise a ativação da MAP-cinase em ovócitos individuais. Você se surpreenderá ao constatar que os ovócitos terão sua MAP-cinase totalmente ativada ou completamente inativa (Figura Q15-3B). Como uma respos- ta “tudo ou nada” nos ovócitos individuais pode se traduzir em uma resposta gradual na população? 15-15 Proponha tipos específicos de mutações no gene da subunidade reguladora da PKA que poderia resultar em uma enzima permanentemente ativa ou permanentemente inativa. 15-16 A fosforilase-cinase integra sinais das vias de sinali- zação dependentes de cAMP e das dependentes de Ca21, que controlam a degradação do glicogênio nas células do fígado e do músculo (Figura Q15-4). A fosforilase-cinase é compos- ta por quatro subunidades. Uma delas é a proteína-cinase que catalisa a adição de fosfato à glicogênio fosforilase, tor- nando-a ativa para degradar glicogênio. As outras três subu- nidades são proteínas reguladoras que controlam a ativida- de da subunidade catalítica. Duas delas contêm sítios para a fosforilação pela PKA, que é ativada pelo cAMP. A subuni- dade remanescente é a calmodulina, que liga Ca21 quando a concentração citosólica do íon aumenta. As subunidades re- guladoras controlam o equilíbrio entre as conformações ati- va e inativa da subunidade catalítica, com o fosfato e o Ca21 deslocando o equilíbrio em direção à conformação ativa. De que forma esse arranjo permite que a fosforilase-cinase desempenhe seu papel como uma proteína integradora nas múltiplas vias que estimulam a degradação do glicogênio? 15-17 A polaridade planar da via de sinalização de Wnt normalmente assegura que cada célula da asa da Drosophila tenha um único pelo. A superexpressão do gene Frizzled a partir de um promotor de choque térmico (hs-Fz) induz o crescimento de múltiplos pelos em diversas células (Figura Q15-5A). Esse fenótipo é suprimido se hs-Fz for combinado com uma deleção heterozigótica (DshD) do gene Dishevelled (Figura Q15-5B). Esses resultados permitem a você ordenar a ação de Frizzled e de Dishevelled na via de sinalização? Em caso afirmativo, qual é a ordem? Explique seu raciocínio. (A) (B) hs-Fz / + + / + hs-Fz / + Dsh �/ + Figura Q15-5 Padrão de crescimento de pelos nas células da asa na Drosophila geneticamente modificada. (De C.G. Winter et al., Cell 105:81– 91, 2001. Com permissão da Elsevier.) Ca2+cAMP Ca2+ Ca2+ Fosforilase-cinase inativa Fosforilase-cinase ativa P P Figura Q15-4 Integração das vias de sinalização dependentes de cAMP e das dependentes de Ca21 pela fosforilase-cinase nas células do fígado e do músculo. REFERÊNCIAS Gerais Marks F, Klingmüller U & Müller-Decker K (2009) Cellular Signal Processing: An Introduction to the Molecular Mechanisms of Signal Transduction. New York: Garland Science. Lim W, Mayer B & Pawson T (2015) Cell Signaling: Principles and Mechanisms. New York: Garland Science. Princípios da sinalização celular Alon U (2007) Network motifs: theory and experimental approaches. Nat. Rev. Genet. 8, 450–461. 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Elas devem apresentar uma conformação correta, ser fisicamente robustas e estar estruturadas de forma adequada internamente. Muitas células também devem ser capazes de modificar sua forma e migrar para outros locais. Além disso, toda célula deve ser capaz de reorgani- zar seus componentes internos como decorrência dos processos de crescimento, divisão e/ou adaptação a mudanças no ambiente. Essas funções espaciais e mecânicas depen- dem de um incrível sistema de filamentos chamado citoesqueleto (Figura 16-1). As diversas funções do citoesqueleto dependem da atuação das três famílias de proteínas de filamento – filamentos de actina, microtúbulos e filamentos intermediários. Cada tipo de filamento possui funções biológicas, propriedades mecânicas e dinâmicas distintas; no entanto certas características fundamentais são comuns a todos eles. Da mesma forma que necessitamos da ação conjunta de nossos tendões, ossos e músculos, os três sistemas de filamentos do citoesqueleto devem atuar coletivamente para fornecer a uma determinada célula sua resistência, forma e capacidade de locomoção. Neste capítulo, descrevemos a função e a conservação dos três principais sistemas de filamentos. Vamos explicar os princípios básicos subjacentes à associação e dissocia- ção dos filamentos, e como outras proteínas interagem com os filamentos alterando a sua dinâmica, permitindo que a célula estabeleça e mantenha sua organização interna, para dar forma e remodelar a sua superfície e para mover organelas de forma controlada de um lugar para outro. Finalmente, discutiremos como a integração e a regulação do citoesqueleto permite que uma célula mova-se para outros locais. FUNÇÃO E ORIGEM DO CITOESQUELETO Os três principais filamentos do citoesqueleto são responsáveis por diferentes aspectos da organização espacial e propriedades mecânicas da célula. Os filamentos de actina de- terminam a forma da superfície da célula e são necessários para a locomoção das células como um todo; eles também conduzem a divisão de uma célula em duas. Os microtúbu- los determinam o posicionamento das organelas delimitadas por membrana, promovem o transporte intracelular e formam o fuso mitótico que segrega os cromossomos durante a divisão celular. Os filamentos intermediários proporcionam resistência mecânica. To- dos esses filamentos do citoesqueleto interagem com centenas de proteínas acessórias que regulam e ligam os filamentos uns aos outros e a outros componentes da célula. As proteínas acessórias são essenciais para a polimerização controlada dos filamentos do citoesqueleto em locais específicos, e incluem as proteínas motoras, incríveis máquinas moleculares que convertem a energia da hidrólise de ATP em força mecânica e que po- dem mover organelas ao longo dos filamentos ou mover os próprios filamentos. Nesta seção, discutiremos as características gerais das proteínas que formam os filamentos do citoesqueleto. Focaremos na sua capacidade para formar estruturas in- trinsecamente polarizadas e auto-organizadas que são altamente dinâmicas, permitindo que a célula modifiquerapidamente a estrutura e a função do citoesqueleto sob diferen- tes condições. Figura 16-1 O citoesqueleto. (A) Uma célula em cultura foi fixada e marcada para mostrar seus arranjos cito- plasmáticos de microtúbulos (verde) e de filamentos de actina (vermelho). (B) Esta célula em divisão foi marcada para mostrar seus microtúbulos do fuso (verde) e a rede de filamentos intermediários (vermelho). O DNA de am- bas as células está marcado em azul. (A, cortesia de Albert Tousson; B, cortesia de Conly Rieder.) 10 �m 20 �m (A) (B) 890 PARTE IV Organização interna da célula Filamentos do citoesqueleto adaptam-se para formar estruturas estáveis ou dinâmicas Os sistemas do citoesqueleto são dinâmicos e adaptáveis, organizados de tal forma que podem ser melhor comparados a uma trilha de formigas do que a uma grande via ex- pressa. Uma trilha de formigas pode persistir por várias horas do ninho até um delicioso local de piquenique, mas, considerando-se uma única formiga nessa trilha, teremos cer- tamente que afirmar que ela não se encontra estática. Se as formigas de reconhecimento encontrarem uma nova e melhor fonte de alimento, ou se os turistas limparem o local e terminarem seu piquenique, a estrutura dinâmica adaptar-se-á a uma velocidade es- tonteante. De modo semelhante, grandes estruturas citoesqueléticas podem persistir ou sofrer modificações de acordo com as necessidades, podendo apresentar uma duração que varia de menos de um minuto ao período total de vida da célula. No entanto, os com- ponentes macromoleculares individuais que compõem estas estruturas encontram-se sob um fluxo constante. Assim, da mesma forma que ocorre quando existe uma altera- ção na trilha das formigas, o rearranjo estrutural em uma célula requer uma quantidade de energia extra relativamente pequena quando as condições sofrem alteração. A regulação do comportamento dinâmico e a polimerização dos filamentos do cito- esqueleto permitem que a célula eucariótica construa uma enorme variedade de estruturas a partir dos três sistemas básicos de filamentos. As fotomicrografias do Painel 16-1 ilustram algumas dessas estruturas. Os filamentos de actina revestem a face interna da membrana plasmática de células animais, conferindo resistência e forma a essa fina bicapa lipídica. Eles também formam diversos tipos de projeções na superfície das células. Algumas dessas são estruturas dinâmicas, como os lamelipódios e os filopódios que as células usam para ex- plorar o território e para se movimentarem. Arranjos mais estáveis permitem que as células fiquem aderidas a um substrato subjacente e permitem a contração dos músculos. Os feixes regulares do estereocílio na superfície de células do ouvido interno contêm feixes de fila- mentos de actina que vibram como hastes rígidas em resposta ao som, e as microvilosidades, organizadas de modo semelhante na superfície de células epiteliais intestinais, ampliam enormemente a área de superfície apical para aumentar a absorção de nutrientes. Em plan- tas, filamentos de actina promovem a rápida corrente de citoplasma no interior das células. Os microtúbulos, que são frequentemente encontrados em arranjos citoplasmáti- cos que se estendem para a periferia da célula, podem rapidamente reorganizar-se para formar um fuso mitótico bipolar durante a divisão celular. Eles podem também formar cílios, que funcionam como chicotes de impulsão ou dispositivos sensoriais na superfície das células, ou feixes firmemente alinhados que servem como pistas para o transporte de materiais sobre longos axônios neuronais. Em células vegetais, arranjos organizados de microtúbulos ajudam a controlar o padrão da síntese da parede celular e, em muitos protozoários, eles formam a estrutura sobre a qual é construída toda a célula. Os filamentos intermediários revestem a face interna do envelope nuclear, forman- do uma espécie de gaiola protetora para o DNA da célula; no citosol, esses filamentos são trançados sob a forma de fortes cabos que mantêm as camadas das células epiteliais unidas ou que auxiliam a extensão dos longos e fortes axônios das células neuronais. Eles também permitem a formação de determinados apêndices resistentes, como os pelos e as unhas. Um importante e dramático exemplo da rápida reorganização do citoesqueleto ocorre durante a divisão celular, como ilustrado na Figura 16-2, que mostra o crescimento de um fibroblasto em uma placa de cultura. Após a replicação dos cromossomos, o arranjo de microtúbulos da interfase que se espalha por todo o citoplasma é reconfigurado para formar o fuso mitótico bipolar, que segrega as duas cópias de cada cromossomo cada uma para um dos núcleos das células-filhas. Ao mesmo tempo, as estruturas especializadas de actina que permitem que o fibroblasto rasteje sobre a superfície da placa se reorganizam para que a célula pare de se mover e assuma uma forma mais esférica. A actina e sua pro- teína motora associada, miosina, formam uma faixa em torno da região central da célula, o anel contrátil, que sofre constrição como se fosse um minúsculo músculo e separa a célula em duas. Quando a divisão está completa, os citoesqueletos dos dois fibroblastos-filhos se organizam em estruturas de interfase e convertem as duas células-filhas arredondadas em versões menores da célula-mãe, achatadas e com capacidade de deslizamento. Diversas células requerem rápidos rearranjos para que funcionem mesmo duran- te o período de interfase. Por exemplo, os neutrófilos, um tipo de leucócito, perseguem PAINEL 16-1 Os três principais tipos de filamentos proteicos que formam o citoesqueleto 891 FILAMENTOS DE ACTINA 25 nm 100 nm Os filamentos de actina (também conhecidos como microfilamentos) são polímeros helicoidais da proteína actina. São estruturas flexíveis com diâmetro de 8 nm que se organizam sob uma ampla variedade de feixes lineares, redes bidimensionais e géis tridimensionais. Apesar dos filamentos de actina estarem dispersos nas células, eles encontram-se predominantemente concentrados no córtex, subjacentes à membrana plasmática. (i) Filamento individual de actina; (ii) microvilosidade; (iii) fibras de tração (vermelho) terminando em adesões focais (verde); (iv) músculo estriado. 100 nm MICROTÚBULOS 25 nm Os microtúbulos são cilindros longos e ocos formados pela proteína tubulina. Apresentando um diâmetro externo de 25 nm, são bem mais rígidos que os filamentos de actina. Os microtúbulos são longos e retilíneos, e frequentemente apresentam uma extremidade ligada a um centro organizador de microtúbulos (MTOC) denominado centrossomo. (i) Microtúbulo individual; (ii) secção transversal da base de três cílios mostrando os trios de microtúbulos; (iii) arranjo interfásico de microtúbulos (verde) e organelas (vermelho); (iv) protozoário ciliado. 100 nm FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS 25 nm Os filamentos intermediários são fibras semelhantes a cabos com um diâmetro aproximado de 10 nm; eles são compostos por proteínas de filamentos intermediários, as quais pertencem a uma família grande e heterogênea. Um tipo de filamento intermediário forma uma rede denominada lâmina nuclear logo abaixo da membrana nuclear interna. Outros tipos estendem-se ao longo do citoplasma, conferindo resistência mecânica às células. Nos tecidos epiteliais, eles atravessam o citoplasma, de uma junção célula-célula a outra , fortalecendo, dessa forma, o epitélio como um todo. (i) Filamentos intermediários individuais; (ii) filamentos intermediários (azul) em neurônios e (iii) células epiteliais; (iv) lâmina nuclear. Fotomicrografias cortesia de R. Graig (i e iv); P.T. Matsudaira e D.R. Burgess (ii); K. Burridge (iii). Fotomicrografias cortesia de R. Wade (i); D.T. Woodrow (ii); D. Shima (iii); D. Burnette (iv). Fotomicrografias cortesia de R. Quinlan (i); N.L. Kedersha (ii); M. Osborn (iii); U. Aebi (iv). i ii iii iv i ii iii iv iv i ii iii 892 PARTE IV Organização interna da célula e englobam células bacterianas e fungos queacidentalmente, por exemplo, através de cortes na pele, têm acesso a locais de nosso organismo que normalmente deveriam ser estéreis. Como a maioria das células com locomoção, os neutrófilos avançam através da emissão de estruturas e protrusões, as quais estão repletas de filamentos de actina recen- temente sintetizados. Quando uma possível presa bacteriana move-se para uma direção diferente, o neutrófilo é obrigado a reorganizar suas estruturas protrusivas polarizadas em uma questão de segundos (Figura 16-3). O citoesqueleto determina a organização e a polaridade celular Nas células que adquiriram uma morfologia diferenciada e estável, como é o caso dos neu- rônios ou das células epiteliais maduras, os elementos dinâmicos do citoesqueleto também devem prover estruturas grandes e estáveis para a organização celular. Nas células epiteliais especializadas que revestem orgãos como o intestino e os pulmões, as protrusões da super- fície celular formadas pelo citoesqueleto, como as microvilosidades e os cílios, são capazes de manter o posicionamento, o comprimento e o diâmetro constantes ao longo de todo o tempo de vida da célula. No caso dos feixes de actina da região central das microvilosidades de células epiteliais intestinais, esse período se restringe a uns poucos dias. No entanto, feixes de actina da região central dos estereocílios de células do ouvido interno mantêm sua organização estável durante toda a vida do animal, tendo em vista que estas células não sofrem reposição. Não obstante, os filamentos de actina individuais permanecem extrema- mente dinâmicos e são continuamente remodelados, sendo substituídos a cada 48 horas, mesmo em estruturas de superfície celulares estáveis que persistem por décadas. Figura 16-2 Diagrama das alterações na organização do citoesqueleto associadas à divisão celular. O fibro- blasto rastejante representado tem um citoesqueleto dinâmico de actina polari- zada, (mostrado em vermelho) que reune lamelipódios e filopódios para deslocar sua borda anterior para a direita. A polarização do citoesqueleto de actina é auxiliada pe- los microtúbulos do citoesqueleto (verde), constituído por longos microtúbulos que emanam de um único centro de organiza- ção de microtúbulos, localizado na frente do núcleo. Quando a célula se divide, o arranjo polarizado de microtúbulos é reorganizado para a formação de um fuso mitótico bipolar, o qual é responsável pelo alinhamento e pela posterior segregação dos cromossomos duplicados (marrom). Os filamentos de actina formam um anel contrátil no centro da célula que divide a célula em duas após a segregação dos cromossomos. Após a completa divisão da célula, ambas as células-filhas reorganizam seus citoesqueletos de actina e de micro- túbulos em versões menores daquelas que se encontravam na célula-mãe, permi- tindo que estas se arrastem em direções opostas. Figura 16-3 Um neutrófilo perseguin- do uma bactéria. Nesta preparação de sangue humano, um agregado de bactérias (seta branca) está prestes a ser capturado por um neutrófilo. Conforme as bactérias se movimentam, o neutrófilo rapidamente reorganiza sua densa rede de actina na sua borda anterior (destacada em vermelho) para se movimentar em di- reção à bactéria (Animação 16.1). A rápi- da associação e dissociação do citoesque- leto de actina nesta célula permitem que ela altere a orientação e a direção de seu movimento em um intervalo de poucos minutos. (Obtida de um vídeo registrado por David Rogers.) Tempo 0 min 1 min 2 min 3 min CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 893 Além de formar protrusões estáveis na superfície das células especializadas, o citoes- queleto também é responsável pela polarização geral das células, permitindo que elas apre- sentem diferenças entre suas regiões superiores e inferiores ou anteriores e posteriores. A informação de polaridade em grande escala transmitida pela organização do citoesqueleto é muitas vezes mantida durante toda a vida útil da célula. As células epiteliais polarizadas usam arranjos organizados de microtúbulos, filamentos de actina e filamentos intermediá- rios para manter as diferenças essenciais entre a superfície apical e a superfície basolateral. As células também devem manter uma forte aderência entre si para permitir que esta ca- mada única de células atue de maneira eficiente como barreira física (Figura 16-4). Filamentos são polimerizados a partir de subunidades proteicas que lhes conferem propriedades físicas e dinâmicas específicas Os filamentos do citoesqueleto podem se estender de uma extremidade da célula a ou- tra, abrangendo dezenas ou mesmo centenas de micrômetros. No entanto, as moléculas individuais das proteínas que formam os filamentos possuem tamanho de apenas alguns nanômetros. A célula constrói os filamentos organizando um grande número dessas su- bunidades pequenas, como se fossem tijolos na construção de um enorme arranha-céu. Visto que essas subunidades são pequenas, elas podem difundir rapidamente pelo cito- sol, enquanto os filamentos organizados não podem. Assim, as células podem promover uma reorganização estrutural rápida, pela dissociação de filamentos em uma determina- da região e reassociação em uma região bastante afastada. Os filamentos de actina e os microtúbulos são formados por subunidades compac- tas e globulares – subunidades de actina no caso dos filamentos de actina e subunidades de tubulina no caso dos microtúbulos –, enquanto os filamentos intermediários são formados a partir de subunidades menores que são elas próprias alongadas e fibrilares. Esses três ti- pos principais de filamentos do citoesqueleto formam arranjos helicoidais de subunidades (ver Figura 3-22) que se autoassociam através da combinação de contatos proteicos entre extremidades ou lateralmente. As diferenças entre as estruturas destas subunidades e da resistência das forças de atração existente entre elas são as principais responsáveis pelas diferenças marcantes e características de estabilidade e propriedades mecânicas de cada tipo de filamento. Enquanto ligações covalentes entre suas subunidades mantêm coesa a cadeia principal de vários polímeros biológicos – como o DNA, o RNA e as proteínas – são Figura 16-4 Organização do citoes- queleto em células epiteliais polariza- das. Todos os componentes do citoesque- leto cooperarem para produzir as formas características de células especializadas, incluindo as células epiteliais que revestem o intestino delgado, aqui ilustradas. Na su- perfície apical (superior), que se volta para o lúmen do intestino, feixes de filamentos de actina (em vermelho) formam microvi- losidades que aumentam a área de super- fície celular disponível para a absorção de nutrientes a partir dos alimentos. Abaixo das microvilosidades, uma faixa ao longo da circunferência da célula composta por filamentos de actina é conectada às jun- ções aderentes célula-célula que ancoram as células umas às outras. Os filamentos intermediários (azul) estão ancorados a outros tipos de estruturas adesivas, como desmossomos e hemidesmossomos, que conectam as células epiteliais em uma camada rija e as conectam à matriz extra- celular subjacente; estas estruturas são dis- cutidas no Capítulo 19. Os microtúbulos (em verde) projetam-se verticalmente do alto da célula até sua base e fornecem um sistema coordenado geral que permite que a célula distribua componentes recém- -sintetizados aos seus locais adequados. APICAL BASAL Microvilosidades Rede terminal de actina Junção aderente Desmossomo Hemidesmossomo Lâmina basal Núcleo Filamentos intermediários Microtúbulos Microfilamentos de actina + + + + + + + + – – – – – – – – 894 PARTE IV Organização interna da célula interações não covalentes fracas que mantêm a estrutura dos três tipos de polímeros do citoesqueleto. Consequentemente, sua associação e dissociação podem ocorrer de forma rápida, sem que ligações covalentes sejam formadas ou quebradas. As subunidades dosfilamentos de actina e microtúbulos são assimétricas e ligam- -se umas às outras em um sistema cabeça-e-cauda, de tal forma que todas apontam para a mesma direção. Essa polaridade das subunidades confere aos filamentos uma polaridade estrutural ao longo de seu comprimento e faz as duas extremidades de cada polímero te- rem comportamentos diferentes. Além disso, subunidades de actina e tubulina são ambas capazes de catalisar a hidrólise de um nucleosídeo trifosfato – ATP e GTP respectivamente. Como discutiremos adiante, a energia derivada da hidrólise de nucleotídeos permite que os filamentos sofram uma rápida remodelagem. Ao controlar quando e onde a actina e os microtúbulos são organizados, a célula vincula as propriedades polares e dinâmicas destes filamentos à geração de força em uma direção específica, para avançar a borda anterior de uma célula em migração, por exemplo, ou para segregar os cromossomos durante a divisão celular. Em contraste, as subunidades de filamentos intermediários são simétricas e, portan- to, não formam filamentos polarizados com duas extremidades diferentes. As subunidades de filamentos intermediários também não catalisam a hidrólise de nucleotídeos. Não obs- tante, os filamentos intermediários podem se dissociar rapidamente quando necessário. Na mitose, por exemplo, cinases fosforilam as subunidades, levando à sua dissociação. Os filamentos do citoesqueleto nas células vivas não são formados simplesmente encadeando subunidades em fila única, uma atrás da outra. Por exemplo, 1.000 subuni- dades de tubulina alinhadas extremidade-a-extremidade ocupariam o equivalente ao diâ- metro de uma célula eucariótica pequena, mas um filamento formado desta maneira não teria força para evitar a ruptura provocada pela energia térmica do ambiente, a menos que cada subunidade no filamento estivesse firmemente ligada às duas subunidades vizinhas adjacentes. Um sistema que utilizasse fortes associações entre as subunidades adjacentes limitaria a taxa de dissociação do filamento, fazendo o citoesqueleto ser uma estrutura estática e bem menos útil do que na realidade é. Para fornecer tanto força quanto adapta- bilidade, os microtúbulos são constituídos por 13 protofilamentos – cadeias lineares de subunidades unidas extremidade-à-extremidade – que se associam umas às outras lateral- mente para formar um cilindro oco. A adição ou perda de uma subunidade na extremida- de final de um protofilamento forma ou rompe um número pequeno de ligações. Por outro lado, a perda de uma subunidade da região central do filamento requer o rompimento de muito mais ligações, enquanto a ruptura do filamento em dois requer o rompimento de múltiplas ligações dos protofilamentos ao mesmo tempo (Figura 16-5). A maior energia necessária para romper múltiplas ligações não covalentes simultaneamente permite aos microtúbulos resistir à ruptura térmica, ao mesmo tempo em que permite a rápida adi- ção e dissociação de subunidades nas extremidades do filamento. Os filamentos de actina helicoidais são muito mais finos e, portanto, requerem muito menos energia para serem rompidos. No entanto, múltiplos filamentos de actina muitas vezes estão agrupados em feixes no interior das células, proporcionando resistência mecânica, ao mesmo tempo em que permitem o comportamento dinâmico das extremidades dos filamentos. Como ocorre em outras interações entre proteínas, as subunidades dos filamentos do citoesqueleto são mantidas unidas por um grande número de interações hidrofóbicas e li- gações não covalentes (ver Figura 3-4). Os locais e tipos de contato entre as subunidades são diferentes para cada tipo de filamento. Os filamentos intermediários, por exemplo, unem-se formando fortes contatos laterais entre a-hélices supertorcidas, que se estendem ao longo do comprimento quase total de cada subunidade fibrosa alongada. Visto que as subuni- dades individuais são justapostas no filamento, os filamentos intermediários formam es- truturas fortes, semelhantes a uma corda (ou cabo) que toleram muito mais estiramento e dobramento do que os microtúbulos ou os filamentos de actina (Figura 16-6). Proteínas acessórias e motoras regulam os filamentos do citoesqueleto A célula regula o comprimento e a estabilidade dos filamentos do citoesqueleto, regu- lando também a quantidade e a geometria deles. Esse controle é feito basicamente pela regulação das ligações que ocorrem entre os filamentos e entre os filamentos e outros componentes celulares, de tal maneira que a célula pode formar uma ampla variedade CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 895 de estruturas macromoleculares. A modificação covalente direta das subunidades do fi- lamento regula algumas propriedades do filamento, mas a maior parte da regulação é realizada por centenas de proteínas acessórias que determinam a distribuição espacial e o comportamento dinâmico dos filamentos, convertendo a informação recebida atra- vés de vias de sinalização em ações do citoesqueleto. Essas proteínas acessórias ligam- -se aos filamentos ou às suas subunidades para determinar o local de polimerização de novos filamentos, para regular a distribuição das proteínas poliméricas entre as formas filamento ou subunidade, para modificar a cinética da polimerização e da dissociação dos filamentos, para acoplar a energia para gerar força e para ligar os filamentos uns aos outros ou a estruturas celulares, como as organelas ou a membrana plasmática. Nesses processos, as proteínas acessórias mantêm a estrutura do citoesqueleto sob o controle de sinais intra e extracelulares, entre os quais se incluem aqueles que determinam as drásticas transformações que o citoesqueleto sofre durante cada uma das etapas do ciclo celular. Atuando de forma conjunta, as proteínas acessórias permitem que a célula eu- Figura 16-5 Estabilidade térmica de fi- lamentos do citoesqueleto com extre- midades dinâmicas. Um protofilamento consistindo de uma única fita de subunida- des é termicamente instável, uma vez que o rompimento de uma única ligação entre as subunidades é suficiente para quebrar o filamento. Em contraste, a formação de um filamento do citoesqueleto a partir de mais de um protofilamento permite que as extremidades sejam dinâmicas, ao mesmo tempo em que permite que os filamentos sejam resistentes à ruptura térmica. Em um microtúbulo, por exemplo, a remoção de um único dímero de subunidades da extremidade do filamento exige o rompi- mento de ligações não covalentes entre um máximo de três outras subunidades, ao passo que a quebra do filamento ao meio requer o rompimento das ligações não covalentes em todos os 13 protofila- mentos. O ROMPIMENTO AO MEIO ROMPE UMA LIGAÇÃO A REMOÇÃO DE UMA EXTREMIDADE ROMPE UMA LIGAÇÃO + PROTOFILAMENTO ISOLADO: INSTABILIDADE TÉRMICA MÚLTIPLOS PROTOFILAMENTOS: ESTABILIDADE TÉRMICA + + A REMOÇÃO DE UMA EXTREMIDADE ROMPE POUCAS LIGAÇÕES O ROMPIMENTO EM DOIS ROMPE MÚLTIPLAS LIGAÇÕES Figura 16-6 Flexibilidade e estiramento em um filamento intermediário. Os filamentos intermediários são formados a partir de subunidades fibrosas alongadas com fortes contatos laterais, o que resulta em resistência às forças de estiramento. Quando uma minúscula sonda mecânica é arrastada sobre um filamento intermediá- rio, o filamento é esticado mais de três ve- zes o seu comprimento antes de se romper, como ilustrado pelos filamentos marcados com fluorescência nestas fotomicrografias. Essa técnica é denominada microscopia de força atômica (ver Figura 9-33). (Adaptada de L. Kreplak et al., J. Mol. Biol. 354:569– 577, 2005. Com permissão de Elsevier.) Impulso lateral Filamento intermediário 200 nm 896 PARTE IV Organização interna da célula cariótica mantenha uma alta organização mesmo apresentando uma estrutura interna flexível, podendo, inclusive, em muitos casos, locomover-se. Entre as mais fascinantes proteínas que se associam ao citoesqueleto estão as pro- teínas motoras. Essas proteínas se ligam a um filamento polarizado docitoesqueleto e utilizam a energia derivada de ciclos repetidos de hidrólise de ATP para se deslocarem ao longo do filamento. Dúzias de diferentes proteínas motoras coexistem em cada célula eu- cariótica. Elas diferem em relação ao tipo de filamento ao qual se ligam (actina ou microtú- bulos), à direção para a qual se movem sobre o filamento e em relação à “carga” que trans- portam. Diversas proteínas motoras transportam organelas delimitadas por membrana – como mitocôndrias, vesículas do aparelho de Golgi ou vesículas secretoras – rumo a suas posições adequadas dentro da célula. Outras proteínas motoras fazem os filamentos do citoesqueleto exercerem tensão ou deslizarem uns sobre os outros, gerando a força neces- sária para fenômenos como a contração muscular, o batimento de cílios e a divisão celular. As proteínas motoras do citoesqueleto que se movem unidirecionalmente sobre um caminho de polímeros orientados lembram algumas outras proteínas e complexos proteicos discutidos em outros pontos deste livro, como as DNA e RNA-polimerases, as helicases e os ribossomos. Todas essas proteínas apresentam a capacidade de usar ener- gia química para sua propulsão sobre um caminho linear, a direção do deslizamento dependendo da polaridade estrutural do caminho. Todas elas geram movimento pelo acoplamento da hidrólise de nucleosídeos trifosfato a mudanças conformacionais em larga escala (ver Figura 3-75). A organização e a divisão da célula bacteriana dependem de proteínas homólogas às proteínas do citoesqueleto eucarióticas Ao passo que as células eucarióticas geralmente são grandes e morfologicamente com- plexas, as células de bactérias em geral possuem um tamanho de poucos micrômetros e assumem uma morfologia simples, em forma de esferas ou bastões. As bactérias também não possuem redes elaboradas de organelas intracelulares delimitadas por membrana. Historicamente, os biólogos assumiram que um citoesqueleto não seria necessário em células assim tão simples. Agora sabemos, no entanto, que as bactérias contêm homólo- gos de todos os três tipos de filamentos do citoesqueleto eucariótico. Além disso, tubuli- nas e actinas bacterianas são mais diversificadas do que suas versões eucarióticas, tanto nos tipos de arranjos que formam quanto nas funções que desempenham. Quase todas as bactérias e diversas arqueobactérias contém um homólogo da tubu- lina, denominado FtsZ, que pode polimerizar em filamentos e organizar-se em um anel (denominado anel Z) na região em que é formado o septo, durante a divisão celular (Figura 16-7). Apesar de o anel Z persistir por muitos minutos, os filamentos individuais dentro dele são altamente dinâmicos, cada filamento apresenta uma meia-vida média de cerca de 30 segundos. Conforme a bactéria procede sua divisão, o anel Z torna-se menor até sua completa dissociação e desaparecimento. Acredita-se que os filamentos FtsZ no anel Z deem origem a uma força de flexão que impulsiona a invaginação da membrana necessária para que a divisão celular se complete. O anel Z pode também atuar como uma região para a localização das enzimas necessárias à construção do septo entre as duas células-filhas. Muitas bactérias também contêm homólogos da actina. Dois desses homólogos, MreB e Mbl, são encontrados principalmente em células de forma cilíndrica ou em for- ma espiral, onde eles se agrupam para formar regiões dinâmicas que se movem circun- ferencialmente ao longo do comprimento da célula (Figura 16-8A). Essas proteínas con- tribuem para a determinação da forma celular, servindo como um molde que promove a síntese dos peptidoglicanos da parede celular, semelhantemente à forma como os mi- crotúbulos auxiliam a organização da síntese da parede celular de celulose, nas células Figura 16-7 A proteína bacteriana FtsZ, um homólogo da tubulina em procariotos. (A) Uma faixa de proteína FtsZ forma um anel em uma célula bacteriana em divisão. Este anel foi marcado pela fusão da proteína FtsZ à proteína verde fluorescente (GFP), o que permite a sua observação em células de E. coli vivas com micros- cópio de fluorescência. (B) Filamentos e círculos FtsZ, formados in vitro, visualizados por microscopia eletrônica. (C) Cloroplastos de uma alga vermelha em divisão (vermelho) também se dividem usando um anel de proteína composto por FtsZ (amarelo). (A, de X. Ma, D.W. Ehrhardt e W. Margolin, Proc. Natl Acad. Sci. USA 93:12998– 13003, 1996; B, de H.P. Erickson et al., Proc. Natl Acad. Sci. USA 93:519–523, 1996. Ambos com permissão de National Academy of Sciences; C, de S. Miyagishima et al., Plant Cell 13:2257–2268, 2001, com permissão de American Society of Plant Biologists.)1 �m 1 �m 100 nm (B) (C) (A) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 897 dos vegetais superiores (ver Figura 19-65). Como acontece com FtsZ, os filamentos de MreB e Mbl são altamente dinâmicos, com meia-vida de alguns minutos, e a hidrólise de nucleotídeos acompanha o processo de polimerização. As mutações que interrompem a expressão de MreB ou Mbl causam anomalias extremas relativas à forma da célula e defeitos na segregação dos cromossomos (Figura 16-8B). As moléculas relacionadas a MreB e Mbl desempenham funções mais especializadas. Um homólogo da actina em bactérias particularmente intrigante é ParM, que é codificado por um gene em certos plasmídeos bacterianos que também contêm genes responsáveis por resistência a antibióticos e levam à disseminação de resistência a múltiplos fármacos em epidemias. Os plasmídeos bacterianos normalmente codificam todos os produtos gênicos necessários à sua própria segregação, presumivelmente como estratégia para garantir sua herança e propagação em hospedeiros bacterianos após a replicação do plasmídeo. ParM se organiza sob a forma de filamentos que, por sua vez, associam-se em cada extremidade com uma cópia do plasmídeo, e o crescimento do filamento ParM empurra as cópias replicadas do plasmídeo separando-as (Figura 16-9). Essa estrutura semelhante ao fuso aparentemen- te surge da estabilização seletiva de filamentos que se ligam a proteínas especializadas re- crutadas para as origens de replicação dos plasmídeos. Um parente distante da tubulina e do FtsZ, chamado de TubZ, tem uma função similar em outras espécies bacterianas. Assim, a autoassociação de proteínas de ligação a nucleotídeos em filamentos di- nâmicos é usada em todas as células, e as famílias da actina e da tubulina são muito antigas, pré-datando a separação entre o reinos eucariótico e as bactérias. Pelo menos uma espécie bacteriana, Caulobacter crescentus, parece conter uma proteína com similaridade estrutural significante com a última das três principais classes de filamentos do citoesqueleto encontradas em células animais, ou seja, com os filamen- tos intermediários. Uma proteína chamada crescentina forma uma estrutura filamentosa que influencia o incomum formato em semicírculo dessa espécie; quando o gene que codifica a crescentina é interrompido, as células de Caulobacter crescem como hastes retas (Figura 16-10). 1 �m1 �m 1 �m1 �m (A) (B) Figura 16-8 Homólogos da actina determinam a forma das células em bactérias. (A) A proteína MreB forma diversas regiões compostas por filamentos lineares ou helicoidais curtos, entrelaçados, que são vistos movendo-se em círculos ao lon- go do comprimento da bactéria e estão associados com os locais de síntese de parede celular. (B) A bactéria comum do solo Bacillus subtilis normalmente forma células com forma regular em bastonete quando visualizada por microscopia eletrônica de varredura (esquerda). Em contraste, células de B. subtilis que não possuem o homólogo de actina MreB ou Mbl crescem sob formas irregulares ou torcidas e acabam por morrer (no centro e à direita). (A, de P. Vats e L. Rothfield, Proc. Natl Acad. Sci. USA 104:17795–17800, 2007. Com permissão de National Academy of Sciences; B, de A. Chastanet e R. Carballido- -Lopez, Front. Biosci. 4S:1582–1606, 2012. Com permissão de Frontiers in Bioscience.) Figura 16-9 Papeldo homólogo de actina ParM na segregação de plasmí- deos em bactérias. (A) Alguns plasmí- deos bacterianos de resistência a fármacos (em laranja) codificam um homólogo da actina, ParM, que sofre nucleação espon- tânea formando pequenos filamentos dinâmicos (em verde) no interior do cito- plasma da bactéria. Uma segunda proteína codificada no plasmídeo chamada ParR (em azul) se liga a sequências específicas de DNA sobre o plasmídeo, além de es- tabilizar as extremidades dinâmicas dos filamentos de ParM. Quando o plasmídeo se duplica, ambas as extremidades dos fila- mentos ParM tornam-se estabilizadas, e os filamentos de ParM crescentes empurram os plasmídeos duplicados para extremida- des opostas da célula. (B) Nestas células bacterianas, que possuem um plasmídeo de resistência a fármacos, os plasmídeos estão corados em vermelho, e a proteína ParM, em verde. À esquerda, um peque- no feixe de filamentos ParM conecta os plasmídeos-filhos logo após sua duplica- ção. À direita, filamentos ParM totalmente polimerizados empurram os plasmídeos duplicados para os pólos da célula. (A, adaptada de E.C. Garner, C.S. Campbell e R.D. Mullins, Science 306:1021–1025, 2004; B, de J. Møller-Jensen et al., Mol. Cell 12:1477–1487, 2003. Com permissão de Elsevier.)2 �m (B)(A) Monômeros ParM Origem de replicação Filamentos ParM Proteínas ParR Plasmídeo ParM Plasmídeo 898 PARTE IV Organização interna da célula Resumo O citoplasma das células eucarióticas é organizado espacialmente em uma rede de pro- teínas filamentosas conhecida como citoesqueleto. Essa rede contém três tipos principais de filamentos: filamentos de actina, microtúbulos e filamentos intermediários. Todos esses três tipos de filamentos se organizam em arranjos helicoidais a partir de subunidades que se autoassociam usando uma combinação de contatos proteicos extremidade-extremida- de e laterais-laterais. As diferenças na estrutura das subunidades e na maneira pela qual elas se autoassociam conferem aos diferentes filamentos propriedades mecânicas diversas. A dissociação e associação das subunidades remodelam constantemente todos os três tipos de filamentos do citoesqueleto. A actina e a tubulina (as subunidades dos filamentos de ac- tina e dos microtúbulos, respectivamente) ligam e hidrolisam nucleosídeos trifosfato (ATP e GTP respectivamente) e se organizam cabeça-cauda formando filamentos polarizados capazes de gerar força. Em células vivas, as proteínas acessórias modulam a dinâmica e a organização dos filamentos do citoesqueleto, resultando em eventos complexos como a di- visão ou a migração celular, e dando origem a uma elaborada arquitetura celular para a formação de tecidos polarizados como os epitélios. As células bacterianas também contêm homólogos da actina, da tubulina e dos filamentos intermediários que formam estruturas dinâmicas que ajudam a controlar o formato e a divisão das células. ACTINA E PROTEÍNAS DE LIGAÇÃO À ACTINA O citoesqueleto de actina desempenha uma ampla gama de funções em diferentes tipos de células. Cada subunidade de actina, chamada às vezes de actina globular ou actina G, é um polipeptídeo de 375 aminoácidos firmemente associado a uma molécula de ATP ou ADP (Figura 16-11A). A actina é extraordinariamente conservada entre os eucariotos. As sequências de aminoácidos da actina de diferentes espécies de eucariotos geralmente têm similaridade na ordem de 90%. As pequenas variações na sequência de aminoácidos da actina podem gerar diferenças funcionais significativas. Nos vertebrados, por exem- plo, existem três isoformas de actina, denominadas a, b, e g, que diferem ligeiramente em suas sequências de aminoácidos e têm funções distintas. A a-actina é expressa ape- nas nas células musculares, enquanto a b e a g-actina são encontradas, em conjunto, em quase todas as células não musculares. Subunidades de actina se associam em um arranjo tipo cabeça-cauda para criar filamentos polares flexíveis As subunidades de actina unem-se em um arranjo tipo cabeça-cauda para formar uma hélice rígida, destrógira, que forma uma estrutura de aproximadamente 8 nm de largura chamada actina F ou actina filamentosa (Figura 16-11B e C). Visto que todas as subuni- dades assimétricas de actina de um filamento apontam na mesma direção, os filamentos são polares e possuem extremidades estruturalmente diferentes: uma extremidade me- nos (2) de crescimento lento e uma extremidade mais (1) de crescimento mais rápido. A extremidade menos (2) também é referida como a “extremidade da ponta”, e a extre- midade mais (1), como a “extremidade da pena” em uma alusão à aparência em “seta” do complexo formado pelos filamentos de actina e pela proteína motora miosina (Figura 16-12). Dentro do filamento, as subunidades estão posicionadas com sua fenda de liga- ção a nucleotídeos direcionada para a extremidade menos (2). Figura 16-10 Caulobacter e crescen- tina. A bactéria Caulobacter crescentus, que apresenta um formato de foice, expressa uma proteína, a crescentina, que possui uma série de domínios su- pertorcidos similares em tamanho e organização aos domínios dos filamentos intermediários eucarióticos. (A) A proteína crescentina forma uma fibra (vermelho) que se distribui ao longo da superfície interna da parede celular curva da bac- téria. (B) Quando o gene é interrompido, as bactérias crescem como hastes retas (embaixo). (De N. Ausmees, J.R. Kuhn e C. Jacobs-Wagner, Cell 115:705–713, 2003. Com permissão de Elsevier.) 2 �m 2 �m (A) (B) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 899 Os filamentos de actina individualmente são bastante flexíveis. A rigidez de um fi- lamento pode ser caracterizada por seu comprimento de persistência, o comprimento mí- nimo do filamento no qual flutuações térmicas aleatórias são suscetíveis de provocar sua curvatura. O comprimento de persistência de um filamento de actina é de apenas algumas dezenas de micrômetros. Em uma célula viva, no entanto, as proteínas acessórias provo- cam interligações e agrupam os filamentos em feixes, originando estruturas de actina de maior escala que são muito mais rígidas do que os filamentos individuais de actina. A nucleação é a etapa limitante na formação dos filamentos de actina A regulação da formação dos filamentos de actina é um importante mecanismo pelo qual as células controlam sua forma e movimento. Pequenos oligômeros de subunida- des de actina podem formar arranjos de forma espontânea, mas eles são instáveis e se dissociam facilmente, pois cada monômero é ligado a apenas um ou dois outros mo- nômeros. Para que um novo filamento de actina seja formado, as subunidades devem associar-se em um agregado inicial, ou núcleo, o qual será estabilizado por vários conta- tos entre as subunidades e, só então, poderá sofrer um rápido crescimento pela adição de novas subunidades. Esse processo é chamado de nucleação do filamento. Figura 16-11 Estruturas de um mo- nômero de actina e de um filamento de actina. (A) O monômero de actina possui um nucleotídeo (ATP ou ADP) liga- do a uma profunda fenda no centro da molécula. (B) Arranjo de monômeros em um filamento constituído por dois proto- filamentos, mantidos juntos por contatos laterais, e que se enrolam um ao outro como duas fitas paralelas de uma hélice, com uma torção repetida a cada 37 nm. Todas as subunidades de um filamento apresentam a mesma orientação. (C) Fo- tomicrografia eletrônica de filamento de actina em coloração negativa. (C, cortesia de Roger Craig.) (A) Extremidade mais (+) NH2 HOOC ATP (ADP quando no filamento) Extremidade menos (–) (C) 25 nm 37 nm Extremidade mais (+) Extremidade menos (–) Molécula de actina (B) Figura 16-12 Polaridade estrutural do filamento de actina. (A) Esta fotomi- crografia eletrônica mostra um filamento de actina polimerizado a partir de um filamento inicial curto de actina associado a domínios motores da miosina, resultan- do em um padrão de seta. O filamento cresceu muito mais rapidamente na extre-midade “pena” (1) que na extremidade “ponta” (–). (B) Imagem ampliada e modelo mostrando o padrão “seta”. (A, cortesia de Tom Pollard; B, adaptado de M. Whittaker, B.O. Carragher e K.A. Milligan, Ultramicro. 54:245–260, 1995.) Extremidade menos (–) Extremidade mais (+) 0,5 �m 20 nm (A) (B) Extremidade “ponta” (–) Extremidade “pena” (+) 900 PARTE IV Organização interna da célula Muitas características da nucleação e da polimerização de actina foram estudadas com actina purificada em tubos de ensaio (Figura 16-13). A instabilidade dos pequenos agregados de actina cria uma barreira cinética para a nucleação. Quando a polimeri- zação é iniciada, essa barreira resulta em uma fase de retardo, durante a qual não são formados filamentos. Durante essa fase de retardo, no entanto, alguns dos pequenos agregados instáveis conseguem fazer a transição para uma forma mais estável que se assemelha a um filamento de actina. Isso leva a uma fase de alongamento rápido do fila- mento, durante a qual subunidades são rapidamente adicionadas às extremidades dos filamentos nucleados (Figura 16-13A). Finalmente, conforme a concentração de monô- meros de actina diminui, o sistema se aproxima de um estado estacionário no qual a taxa de adição de novas subunidades na extremidade do filamento alcança um equilí- brio exato com a taxa de dissociação de subunidades. A concentração de subunidades livres que permanece em solução nesse momento é chamada de concentração crítica, Cc. Como explicado no Painel 16-2, o valor da concentração crítica é igual à constante de velocidade para perda de subunidades dividida pela velocidade constante da adição de subunidades – ou seja, Cc 5 koff/kon, que é igual à constante de dissociação, Kd, e o inverso da constante de equilíbrio, K (ver Figura 3-44). Em um tubo de ensaio, a Cc para a polimerização de actina – ou seja, a concentração de monômeros de actina livres na qual a fração de actina no polímero para de aumentar – é de aproximadamente 0,2 mM. Dentro da célula, a concentração de actina não polimerizada é muito maior do que isso, e a célula desenvolveu mecanismos para impedir que a maioria dos seus monômeros de actina sejam arranjados em filamentos, como discutiremos mais tarde. A fase de retardo no crescimento do filamento é eliminada se filamentos-base pre- existentes (como fragmentos de filamentos de actina que foram quimicamente interli- gados) são adicionados à solução no início da reação de polimerização (Figura 16-13B). A célula tira grande proveito dessa necessidade de nucleação: ela utiliza proteínas espe- ciais para catalisar a nucleação de filamentos em regiões específicas, definindo, desse modo, onde novos filamentos de actina deverão ser formados. Os filamentos de actina possuem duas extremidades distintas com diferentes taxas de crescimento Devido à orientação uniforme das subunidades assimétricas de actina no filamento, as es- truturas das duas extremidades são diferentes. Essa orientação faz as duas extremidades de cada polímero serem diferentes entre si, e estas diferenças refletirão nas taxas de crescimen- to do filamento. As constantes cinéticas de velocidade para a associação e a dissociação de Tempo após a adição de sal Tempo após a adição de sal Filamentos pré-formados (núcleos) adicionados aqui Nucleação (fase de retardo) Alongamento (fase de crescimento) Alongamento (fase de crescimento) 0 100 % d e su b u n id ad es d e ac ti n a n o s fi la m en to s 0 100 % d e su b u n id ad es d e ac ti n a n o s fi la m en to s % de subunidades livres não é modificada pela adição de núcleos % de subunidades livres no estado estacionário Filamentos de actina com subunidades associando-se e dissociando-se Filamentos de actina com subunidades associando-se e dissociando-se Filamento de actina em crescimento Filamento de actina em crescimento Oligômeros Subunidades de actina (A) (B) Alongamento (fase de crescimento) Estado estacionário (fase de equilíbrio) Figura 16-13 Curva de tempo da polimerização de actina em um tubo de ensaio. (A) A polimerização de subunidades de actina puras em filamentos ocorre após uma fase de retardo. (B) A polimerização ocorre mais rapidamente na presença de fragmentos pré-formados de filamentos de actina, que atuam como núcleos para o crescimento do filamento. A porcentagem de subunidades livres após a polimerização reflete a concentração crítica (Cc), em que não há mudança líquida no polímero. A polimerização de actina é frequentemente estudada através da observação da mudança na emissão de luz de uma sonda fluorescente, chamada pireno, que foi covalentemente ligada à actina. O pireno-actina fluoresce mais intensamente quando está incorporado a fila- mentos de actina. CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 901 subunidades de actina – kon e koff, respectivamente – são muito maiores para a extremidade mais do que para a extremidade menos. Isso pode ser visto quando se permite o arranjo de uma solução extremamente concentrada de monômeros de actina purificados sobre fila- mentos marcados de acordo com a polaridade – a extremidade mais do filamento se alonga até dez vezes mais rápido (ver Figura 16-12). Se os filamentos são rapidamente diluídos, de tal modo que a concentração de subunidades livres venha a situar-se abaixo da concentra- ção crítica, a extremidade mais (1) também sofrerá uma dissociação mais rápida. É importante observar, no entanto, que as duas extremidades de um filamento de actina têm a mesma afinidade líquida pelas subunidades de actina, se todas as subunida- des estiverem no mesmo estado de nucleotídeo. A adição de uma subunidade a qualquer uma das extremidades de um filamento com n subunidades resultará em um filamento de n 1 1 subunidades. Então, a diferença de energia livre e, como consequência, a constante de equilíbrio (e a concentração crítica) devem ser as mesmas para a adição de subunidades em qualquer uma das duas extremidades do polímero. Nesse caso, a razão das constantes de ve- locidade, koff/kon, deve ser idêntica nas duas extremidades, mesmo que os valores absolutos das constantes de velocidade sejam muito diferentes em cada extremidade (ver Painel 16-2). A célula aproveita-se da dinâmica e da polaridade dos filamentos de actina para realizar trabalho mecânico. O crescimento do filamento ocorre de forma espontânea quando o equilíbrio de energia livre (DG) para a adição de subunidades solúveis é me- nor que zero. Esse é o caso quando a concentração de subunidades em solução excede a concentração crítica. Uma célula pode acoplar um processo energeticamente desfa- vorável a esse processo espontâneo; assim, a célula pode usar a energia livre liberada durante a polimerização espontânea do filamento para mover uma carga associada. Por exemplo, ao orientar as extremidades mais (1), de rápido crescimento, dos filamentos de actina em direção à sua borda anterior, uma célula com capacidade de movimento pode empurrar a sua membrana plasmática para a frente, como discutiremos mais tarde. A hidrólise de ATP nos filamentos de actina induz o comportamento de rolamento em estado estacionário Até agora, em nossa discussão da dinâmica dos filamentos de actina, ignoramos o fato crítico que a actina pode catalisar a hidrólise do nucleosídeo trifosfato ATP. No caso das subunidades de actina livres, essa hidrólise ocorre de forma bastante lenta; no entanto o processo é acelerado quando as subunidades estão incorporadas nos filamentos. Logo após ocorrer a hidrólise de ATP, o grupo fosfato livre é liberado de cada subunidade, mas o ADP permanece preso na estrutura do filamento. Assim, dois tipos diferentes de es- truturas de filamento podem existir, um sob a “forma T” referente ao nucleotídeo ligado (ATP) e outro sob a “forma D” também referente ao nucleotídeo ligado (ADP). Quando o nucleotídeo é hidrolisado, grande parte da energia livre liberada pela clivagem da ligação fosfato-fosfato éarmazenada no polímero. Isso faz a alteração de energia livre para a dissociação de uma subunidade de polímero da forma D mais nega- tiva que a alteração de energia livre para a dissociação de uma subunidade de polímero na forma T. Consequentemente, a razão de koff/kon para o polímero sob a forma forma D, que é numericamente igual à sua concentração crítica Cc(D), é maior do que a razão cor- respondente para o polímero sob a forma T. Dessa forma, Cc(D) é maior do que Cc(T). Em determinadas concentrações de subunidades livres, os polímeros de forma D sofrerão encurtamento, enquanto os polímeros de forma T estarão em crescimento. Em células vivas, a maioria das subunidades de actina solúveis está sob a forma T, visto que a concentração livre de ATP é aproximadamente dez vezes maior que a de ADP. No entanto, quanto mais tempo as subunidades estiverem nos filamentos de actina, mais provavelmente terão seu ATP hidrolisado. A velocidade de hidrólise em comparação com a velocidade de adição de subunidades define se a subunidade em cada extremidade de um filamento estará sob a forma T ou D. Se a concentração de monômeros de actina é maior que a concentração crítica para ambas as forma T e D do polímero, então serão adi- cionadas subunidades ao polímero em ambas as extremidades antes que os nucleotídeos nas subunidades adicionados anteriormente tenham sido hidrolisados; como resultado, as pontas dos filamentos de actina permanecerão sob a forma T. Por outro lado, se a con- centração de subunidades é menor do que as concentrações críticas para ambas as formas T e D do polímero, então a hidrólise poderá ocorrer antes que a próxima subunidade seja 902 PAINEL 16-2 A polimerização de actina e tubulina TAXAS DE ADIÇÃO E TAXAS DE REMOÇÃO Um polímero linear de moléculas proteicas, como um filamento de actina ou um microtúbulo, associa-se (polimeriza) e dissocia-se (despolimeriza) pela adição ou remoção de subunidades nas extremidades do polímero. A taxa de adição dessas subunidades (chamadas de monômeros) é dada pela taxa constante kon, expressa em M–1 s–1. A taxa de remoção é dada por koff (unidades de s–1). subunidade + Polímero (com n subunidades) Polímero (com n + 1 subunidades) kon koff NUCLEAÇÃO Um polímero helicoidal é estabilizado por múltiplos contatos entre as subunidades adjacentes. No caso da actina, duas moléculas de actina sofrem ligação relativamente fraca, uma em relação à outra, mas a adição de um terceiro monômero de actina formando um trímero torna este grupo mais estável. Adições subsequentes de monômeros podem ocorrer sobre este trímero, que atuará como um núcleo para a polimerização. No caso da tubulina, o núcleo é maior e tem uma estrutura mais complicada (possivelmente sendo feito de um anel com 13 ou mais moléculas de tubulina), mas o princípio básico é o mesmo. A associação de um núcleo é relativamente lenta, o que explica a fase de retardo observada durante a polimerização. Essa fase de retardo pode ser reduzida ou inteiramente abolida se núcleos pré-formados, como fragmentos de microtúbulos ou filamentos de actina já polimerizados, forem adicionados. CONCENTRAÇÃO CRÍTICA O número de monômeros que são adicionados ao polímero (filamento de actina ou microtúbulo) por segundo será proporcional à concentração de subunidades livres (konC); no entanto, as subunidades deixarão a extremidade livre sob uma taxa constante (koff), a qual não depende de C. Conforme o polímero cresce, as subunidades são utilizadas, e C diminui até alcançar um valor constante, chamado de concentração crítica (Cc). Nessa concentração, a taxa de adição de subunidades se iguala à taxa de dissociação de subunidades. Neste equilíbrio, kon C = koff de tal forma que Cc = (onde Kd é a constante de dissociação; ver Figura 3-44). koff kon = CURVA DE TEMPO DA POLIMERIZAÇÃO A fase de retardo corresponde ao tempo necessário à nucleação. A fase de crescimento ocorre enquanto os monômeros são adicionados às extremidades do filamento, levando ao aumento do seu comprimento. A fase de equilíbrio, ou estado estacionário, é alcançada quando o crescimento do polímero devido à adição de monômeros é exatamente equilibrado pelo encurtamento do polímero devido à dissociação de monômeros. Tempo Q ua nt id ad e de p ol ím er o FASE DE RETARDO FASE DE CRESCIMENTO FASE DE EQUILÍBRIO EXTREMIDADES MAIS (+) E EXTREMIDADES MENOS (–) As duas extremidades de um filamento de actina ou de microtúbulo polimerizam sob diferentes taxas. A extremidade de crescimento mais rápido é denominada extremidade mais (+), enquanto a extremidade que apresenta crescimento mais lento é chamada de extremidade menos (–). A diferença entre as taxas de crescimento das duas extremidades se deve a alterações conformacionais que ocorrem em cada subunidade conforme elas se integram ao polímero. Subunidade livre Subunidade no polímero LENTO RÁPIDO Extremidade menos (–) Extremidade mais (+) Essa alteração conformacional afeta a velocidade na qual as subunidades se ligam às duas extremidades. Mesmo se kon e koff tiverem valores diferentes para as extremidades mais e menos do polímero, a relação kon/koff – e desse modo Cc – deverá ser a mesma em ambas as extremidades no caso de uma reação de polimerização simples (sem hidrólise de ATP ou GTP). Isso ocorre porque exatamente as mesmas interações de subunidade são quebradas quando uma subunidade é perdida em qualquer uma das extremidades, e o estado final da subunidade após a dissociação é idêntico em ambos os casos. Desse modo, o �G para a perda de subunidades, o qual determina a constante de equilíbrio para a sua associação com a extremidade, é idêntico em ambas as extremidades: se a extremidade mais (+) cresce quatro vezes mais rapidamente do que a extremidade menos (–), ela também sofre encurtamento quatro vezes mais rápido. Assim, para C > Cc ambas as extremidades crescem; para C < Cc, ambas as extremidades sofrem encurtamento. A hidrólise de nucleosídeo trifosfato que acompanha a polimerização de actina e de tubulina elimina essa restrição. Kd A polimerização de proteínas sob a forma de um longo polímero helicoidal como um filamento do citoesqueleto ou um flagelo de bactéria apresenta, caracteristicamente, a seguinte curva de tempo: 903 INSTABILIDADE DINÂMICA Os microtúbulos se dissociam aproximadamente cem vezes mais rápido de extremidades que contêm tubulina GDP do que extremidades que contêm tubulina GTP. Um quepe de GTP favorece o crescimento, mas, se for perdido, ocorrerá despolimerização. Quepe GTP CRESCIMENTO Microtúbulos isolados podem, portanto, alternar períodos de lento crescimento e períodos de rápida dissociação, um processo conhecido como instabilidade dinâmica. ENCURTAMENTO CAPAS ATP E CAPAS GTP A taxa de adição de subunidades em um filamento de actina ou microtúbulo em crescimento pode ser mais rápida do que a taxa na qual seus nucleotídeos associados são hidrolisados. Sob essas condições, a extremidade possuirá uma “capa” de subunidades contendo o nucleosídeo trifosfato – uma capa de ATP no caso de filamentos de actina ou uma capa de GTP no caso de microtúbulos. capa de ATP ou de GTP INSTABILIDADE DINÂMICA e ROLAMENTO são dois comportamentos observados em polímeros do citoesqueleto. Ambos estão associados à hidrólise de nucleotídeos trifosfato. Acredita-se que a instabilidade dinâmica predomine em microtúbulos e que o rolamento deva predominar em filamentos de actina. HIDRÓLISE DE NUCLEOTÍDEOS Cada molécula de actina apresenta uma molécula de ATP ligada com alta afinidade e que é hidrolisada em uma molécula de ADP ligada com alta afinidade logo após sua adição ao polímero. De forma semelhante, cada molécula de tubulina apresenta uma molécula de GTP ligada com alta afinidade que é convertida em uma molécula de GDP fortemente associada logo após sua adição ao polímero.Monômero livre Subunidade no polímero (T = monômero ligado a ATP ou GTP) (D = monômero ligado a ADP ou GDP) A hidrólise do nucleotídeo associado reduz a afinidade de ligação da subunidade pelas subunidades adjacentes e torna mais provável a dissociação desta subunidade na extremidade do filamento (ver Figura 16-44 para um modelo desse mecanismo). É geralmente a forma que é adicionada ao filamento e a forma que sofre dissociação. Considerando apenas os eventos na extremidade mais (+): D D D kT on kD off Como anteriormente, o polímero crescerá até C = Cc. Para fins ilustrativos, podemos ignorar kD on e kT off uma vez que eles geralmente são muito pequenos, de tal modo que o crescimento do polímero cessará quando kT on C = kD off ou Cc = Esse é um estado estacionário e não um equilíbrio verdadeiro, pois o ATP ou o GTP que é hidrolisado deverá ser reposto por reações de troca de nucleotídeos de subunidades livres ( ). kT on kD off ROLAMENTO (OU MOVIMENTO ESTACIONÁRIO) Uma consequência da hidrólise de nucleotídeos que acompanha a formação do polímero é a mudança da concentração crítica em ambas as extremidades do polímero. Considerando que kD off e kT on referem-se a diferentes reações, sua relação kD off /k T on não precisa ser a mesma em ambas as extremidades do polímero, de modo que: Cc (extremidade menos) > Cc (extremidade mais) Desse modo, se ambas as extremidades de um polímero estão expostas, a polimerização prossegue até que a concentração do monômero livre alcance um valor que seja acima de Cc para a extremidade mais (+) e abaixo de Cc para a extremidade menos (–). Neste estado estacionário, as subunidades estarão sendo, na média, associadas à extremidade mais (+) e, na média, dissociadas da extremidade menos (–) sob taxas idênticas. O polímero manterá um tamanho constante, mesmo considerando-se que existe um fluxo líquido de subunidades através do polímero, denominado rolamento ou movimento estacionário. D D D D D DDD T DDD T T D D D D D D T T T T DT T T T 904 PARTE IV Organização interna da célula adicionada, e ambas as extremidades do filamento estarão sob a forma D e encurtarão. Sob concentrações intermediárias das subunidades de actina, é possível que a velocidade de adição de subunidades seja mais rápida do que a hidrólise de nucleotídeos na extremida- de mais (1), porém mais lenta do que a hidrólise de nucleotídeos na extremidade menos (2). Nesse caso, a extremidade mais (1) do filamento permanecerá na conformação T, enquanto a extremidade menos (2) adotará a conformação D. O filamento, então, sofre uma adição líquida de subunidades na extremidade mais (1), enquanto simultaneamente perde subunidades na extremidade menos (2). Isso leva a uma propriedade característica do filamento denominada rolamento (Figura 16-14; ver Painel 16-2). Sob uma concentração intermediária particular de subunidades, o crescimento do filamento na extremidade mais (1) se encontra exatamente balanceado pela dissociação de subunidades da extremidade menos (2). Nessas condições, as subunidades alternam rapidamente entre os estados livre ou ligado ao filamento, enquanto o comprimento to- tal do filamento permanece inalterado. Esse ponto de “rolamento de repouso” requer consumo constante de energia sob a forma de hidrólise de ATP. As funções dos filamentos de actina são inibidas por químicos tanto estabilizadores quanto desestabilizadores do polímero Compostos químicos que estabilizam ou desestabilizam os filamentos de actina são fer- ramentas importantes para o estudo do comportamento dinâmico dos filamentos e de suas funções nas células. As citocalasinas são produtos de fungos que impedem a po- limerização da actina pela ligação à extremidade mais (1) dos filamentos de actina. A latrunculina impede a polimerização da actina pela sua ligação a subunidades de actina. As faloidinas são toxinas isoladas do cogumelo Amanita que se ligam firme e lateralmen- te aos filamentos da actina estabilizando-os e evitando a despolimerização. Todos esses compostos causam mudanças dramáticas no citoesqueleto de actina e são tóxicos para as células, indicando que a função dos filamentos de actina depende de um equilíbrio dinâmico entre os filamentos e os monômeros de actina (Tabela 16-1). Figura 16-14 O rolamento de um fi- lamento de actina é possível devido à hidrólise de ATP após a adição de subunidades. (A) Explicação para as diferentes concentrações críticas (Cc) nas extremidades mais (1) e menos (2). As subunidades com ATP ligado (subunidades na forma T) sofrem polimerização em ambas as extremidades do filamento cres- cente e, em seguida, passam por hidrólise de nucleotídeos dentro do filamento. Conforme o filamento cresce, o alonga- mento é mais rápido que a hidrólise na extremidade mais (1) neste exemplo, e as subunidades terminais desta extremidade estão, portanto, sempre sob a forma T. No entanto, a hidrólise é mais rápida do que o alongamento na extremidade menos (–), de tal forma que as subunidades terminais nesta extremidade estão sob a forma D. (B) O rolamento ocorre em concentrações intermediárias de subunidades livres. A concentração crítica para polimerização em uma extremidade do filamento sob a forma T é menor do que em uma extre- midade do filamento sob a forma D. Se a concentração real de subunidades está em algum ponto entre esses dois valores, a extremidade mais (1) cresce, enquanto a extremidade menos (–) diminui, resultando no rolamento. e D ( ) Subunidades solúveis sob a forma T ( ) Ta xa d e al o n g am en to 0 POLIMERIZAÇÃO SEGUIDA DE HIDRÓLISE DE NUCLEOSÍDEOS A adição na extremidade menos (–) é lenta – a hidrólise alcança o ponto de adição de subunidades A adição na extremidade mais (+) é rápida – a hidrólise encontra-se atrasada em relação à adição de subunidades Faixa de rolamento Concentração de subunidades (A) (B) Cc(T) < Cc(D) Para Cc(T) < C < Cc(D) ocorre rolamento Cc(T) Cc(D) Na extremidade mais (+) T Na extremidade menos (–) D – + – + Crescimento Encurtamento Os polímeros são uma mistura das formas T ( ) TABELA 16-1 Compostos químicos inibidores da actina e dos microtúbulos Composto químico Efeito nos filamentos Mecanismo Fonte original Actina Latrunculina Despolimeriza Liga-se a subunidades de actina Esponjas Citocalasina B Despolimeriza Promove o capeamento da extremidade mais (1) do filamento Fungos Faloidina Estabiliza Liga-se sobre os filamentos Cogumelos Amanita Microtúbulos Paclitaxel Estabiliza Liga-se sobre os filamentos Teixo Nocodazol Despolimeriza Liga-se a subunidades de tubulina Sintético Colchicina Despolimeriza Promove o capeamento das extremidades do filamento Crocus CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 905 Proteínas de ligação à actina influenciam a dinâmica e a organização dos filamentos Em um tubo de ensaio, a polimerização da actina é controlada simplesmente pela sua concentração, como descrito anteriormente, pelo pH e pela concentração de sais e ATP. Dentro de uma célula, no entanto, o comportamento da actina é também regulado por numerosas proteínas acessórias que se ligam aos monômeros ou filamentos da actina (resumido no Painel 16-3). No estado estacionário, in vitro, quando a concentração do monômero é igual a 0,2 mM, a meia-vida do filamento, uma medida referente a quanto tempo um monômero de actina individual gasta em um filamento em rolamento, é de aproximadamente 30 minutos. Em uma célula não muscular de vertebrados, a meia-vida da actina nos filamentos é de apenas 30 segundos, demonstrando que fatores celulares modificam o comportamento dinâmico dos filamentos de actina. As proteínas de ligação à actina alteram drasticamente a dinâmica e a organização dos filamentos da actina por meio de controle espacial e temporal da disponibilidade do monômero, da nucleação do filamento, do alongamentoe da despolimerização. Nas seções a seguir, descreveremos como essas proteínas acessórias modificam a função da actina na célula. A disponibilidade de monômeros controla a polimerização dos filamentos de actina Na maioria das células não musculares dos vertebrados, aproximadamente 50% da ac- tina estão em filamentos, e 50%, em solução – e, mesmo assim, a concentração do mo- nômero em solução é de 50 a 200 mM, bem acima da concentração crítica. Por que tão pouco da actina polimeriza em filamentos? A razão é que as células contêm proteínas que se ligam aos monômeros de actina e tornam a polimerização muito menos favorável (uma ação semelhante à droga latrunculina). A mais abundante dessas proteínas é uma pequena proteína chamada de timosina. Os monômeros de actina ligados à timosina estão em um estado de bloqueio, não podendo associar-se nem à extremidade mais (1) nem à extremidade menos (2) dos filamentos de actina, e não são capazes de hidrolisar ou modificar o nucleotídeo ao qual estão ligados. Como, então, as células recrutam monômeros de actina a partir desse conjunto blo- queado para utilizá-los para a polimerização? A resposta depende de uma outra proteína de ligação a monômeros chamada de profilina. A profilina liga-se à face do monômero de actina que é oposta à fenda de ligação ao ATP, bloqueando a lateral do monômero que normalmente se associaria à extremidade menos (2) do filamento, ao mesmo tempo em que deixa exposto o sítio do monômero que se liga à extremidade mais (1) (Figura 16-15). Quando o complexo de profilina-actina liga-se a uma extremidade mais (1) livre, uma mu- dança conformacional na actina reduz a sua afinidade pela profilina e ela é liberada, tor- nando o filamento de actina uma subunidade mais longa. A profilina compete com a timo- sina pela ligação a monômeros de actina individuais. Assim, regulando a atividade local da profilina, as células podem controlar o movimento de subunidades de actina sequestradas ligadas à timosina para as extremidades mais (1) dos filamentos. Vários mecanismos regulam a atividade da profilina, entre eles a fosforilação da profilina e sua ligação a fosfolipídeos inositol. Esses mecanismos podem definir as re- giões onde a profilina atuará. Por exemplo, a profilina é necessária para a polimeriza- ção do filamento na membrana plasmática, onde ela é recrutada por uma interação com fosfolipídeos acídicos da membrana. Nesse ponto, sinais extracelulares podem ativar a profilina de modo a produzir polimerização localizada de actina, provocando também a extensão de estruturas de locomoção ricas em actina como filopódios e lamelipódios. Fatores de nucleação de actina aceleram a polimerização e geram filamentos lineares ou ramificados Além da disponibilidade de subunidades de actina ativas, um segundo pré-requisito para a polimerização da actina celular é a nucleação do filamento. As proteínas que contêm moti- vos de ligação a monômeros de actina ligados em sequência medeiam o mais simples dos mecanismos de nucleação do filamento. Essas proteínas de nucleação de actina aproximam 906 PAINEL 16-3 Filamentos de actina Subunidades de actina – + – + – + – –+ + TropomiosinaCofilina Fimbrina �-actinina Filamina Espectrina Liga-se a filamentos com ADP-actina, acelera a dissociação Timosina Liga-se a subunidades, evita a associação Formina Promove a nucleação da polimerização e permanece associada à extremidade mais (+) em crescimento Complexo Arp 2/3 Promove a nucleação da polimerização para a formação de uma rede e permanece associado à extremidade menos (–) Profilina Liga-se a subunidades, acelera o crescimento Proteína de capeamento Evita a associação e a dissociação na extremidade mais (+) – + Tropomodulina Evita a associação e a dissociação na extremidade menos (–) Estabiliza o filamento Gelsolina Rompe os filamentos e se liga à extremidade mais (+) + + – – Associação em feixes, interligação e ligação a membranas ERM – – – – – – + + + + + + FILAMENTOS DE ACTINA Algumas das principais proteínas acessórias do citoesqueleto de actina. Excetuando-se as proteínas motoras miosina, é ilustrado um exemplo para cada um dos principais tipos. No entanto, a maioria das células contém mais de uma centena de proteínas de ligação à actina diferentes, e é provável que existam tipos importantes de proteínas de associação à actina que ainda não foram identificados. Membrana plasmática Filamento de actina CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 907 várias subunidades de actina para formar um ponto de nucleação. Na maioria dos casos, a nucleação da actina é catalisada por um de dois tipos diferentes de fatores: pelo complexo Arp 2/3 ou pelas forminas. O primeiro desses fatores é um complexo de proteínas que inclui duas proteínas relacionadas à actina (ARPs, actin-related proteins), cada uma apresentando aproximadamente 45% de similaridade com a actina. O complexo Arp 2/3 provoca a nucle- ação do crescimento do filamento de actina na extremidade menos (2), permitindo rápido alongamento na extremidade mais (1) (Figura 16-16A e B). Esse complexo pode se ligar lateralmente a um outro filamento de actina, ainda permanecendo ligado à extremidade menos (2) do filamento que inicialmente nucleou, dessa forma dando origem a filamentos individuais organizados em uma rede ramificada (Figura 16-16C e D). As forminas são proteínas diméricas que promovem a nucleação do crescimento de filamentos não ramificados, lineares, que podem ser interligados a outras proteínas para formar feixes paralelos. Cada subunidade de formina possui um sítio de ligação à actina monomérica, e o dímero de formina parece ser capaz de nuclear a polimerização de um filamento de actina pela captura de dois monômeros. Enquanto ocorre o crescimento do filamento recém-nucleado, o dímero de formina permanece associado à extremidade mais (1), de rápido crescimento e, ao mesmo tempo, permite a adição de novas subunidades a essa extremidade (Figura 16-17). Esse mecanismo de polimerização do filamento é nitida- mente diferente daquele usado pelo complexo Arp 2/3, que permanece estavelmente liga- do à extremidade menos (2) do filamento, impedindo a adição ou a perda de subunidades nessa extremidade. O crescimento do filamento de actina dependente de formina é forte- mente reforçado pela associação dos monômeros de actina com a profilina (Figura 16-18). Monômero de actina livre Monômero de actina livre Complexo actina- timosina Complexo actina-timosina Timosina Crescimento da extremidade mais Sem ligação Ausência de crescimento na extremidade mais (+) Monômero de actina livre Complexo actina- -profilina Complexo actina-profilina Crescimento da extremidade mais (+) Rápido crescimento na extremidade mais (+) Profilina Profilina Filamento de actina Filamento de actina A PROFILINA COMPETE COM A TIMOSINA PELA LIGAÇÃO AOS MONÔMEROS DE ACTINA E PROMOVE A POLIMERIZAÇÃO DOS FILAMENTOS Figura 16-15 Efeitos da timosina e da profilina na polimerização da actina. Um monômero de actina ligado à timosina é estericamente impedido de ligar-se e alongar a extremidade mais (1) de um filamento de actina (esquerda). Um monômero de actina ligado à profilina, por outro lado, é capaz de prolongar um fila- mento (direita). A timosina e a profilina não podem, ambas, ligarem-se a um único monômero de actina ao mesmo tempo. Em uma célula na qual a maioria dos monômeros de actina está ligado à timosina, a ativação de uma pequena quantidade de profilina pode produzir uma rápida organização dos filamentos. Como indicado (imagem inferior), a profilina se liga a monômeros de actina que são transitoriamente liberados do conjunto de monômeros ligados à timosina, encaminha-os para as extremidades mais (1) dos filamentos de actina, e é então liberada e reciclada para novos ciclos de alongamento do filamento. 908 PARTE IV Organização interna da célula Assim como no caso da ativação pela profilina, a nucleação dos filamentosde ac- tina por complexos Arp 2/3 e forminas ocorre principalmente na membrana plasmática, e a maior densidade de filamentos de actina na maioria das células está presente na pe- riferia da célula. A camada logo abaixo da membrana plasmática é denominada córtex celular, e os filamentos de actina nessa região determinam a forma e o movimento da superfície celular, permitindo que a célula altere sua conformação e rigidez rapidamente em resposta a mudanças no seu ambiente externo. N NC C N C Extremidade mais (+) Extremidade mais (+) Extremidade mais (+) 100 nm 10 nm 70 (C) (D) (B) (A) Complexo Arp2/3 ativo Complexo Arp2/3 inativo Monômeros de actina Filamento de actina nucleado + Extremidade menos (–) Extremidade mais (+) Actina Arp3Arp2 Arp3 Arp2 Outras proteínas Fator de ativação o Figura 16-16 Nucleação e formação da rede de actina pelo complexo Arp 2/3. (A) As estruturas de Arp2 e Arp3, comparadas à estrutura da actina. Ape- sar de a face da molécula equivalente à extremidade mais (1) (superior) tanto em Arp2 quanto em Arp3 ser bastante similar à extremidade mais (1) da actina, as diferenças nas laterais e na extremidade menos (2) evitam que essas proteínas relacionadas à actina possam formar filamentos associando-se entre si ou coassociando-se no interior dos filamentos à actina. (B) Um modelo para a nucleação do filamento de actina pelo complexo Arp 2/3. Na ausência de um fator de ativação, Arp2 e Arp3 são posicionadas por suas proteínas acessórias em uma orientação que evita induzirem a nucleação de um novo filamento de actina. Quando um fator de ativação (indicado pelo triângulo azul) liga-se ao complexo, Arp2 e Arp3 são posicionadas em uma nova conformação, a qual se asseme- lha à extremidade mais (1) de um filamento de actina. As subunidades de actina podem, então, ser adicionadas sobre esta estrutura, o que supera a etapa limitante da nucleação do filamento. (C) O complexo Arp 2/3 promove a nucleação de filamentos de maneira mais eficiente quando este se liga à lateral de um filamento de actina preexistente. O resultado é uma ramificação que cresce em angulo de 70° em relação ao filamento original. Ciclos repetidos de nucleação ramificada geram uma rede ramificada de filamentos de actina. (D) Em cima, fotomicrografias eletrônicas de filamentos de actina ramificados formados a partir da mistura de subunidades purificadas de actina com complexos Arp 2/3 purificados. Embaixo, imagem reconstruída de uma ramificação onde a estrutura cris- talizada da actina (rosa) e do complexo Arp 2/3 foram sobrepostas à densidade eletrônica. O filamento-mãe está direcionado de cima para baixo, e o filamento- -filho se ramifica à direta, no ponto em que o complexo Arp 2/3 se liga a três subunidades de actina sobre o filamento-mãe. (D, superior, de R.D. Mullins et al., Proc. Natl Acad. Sci. USA 95:6181–6186, 1998, com permissão de National Academy of Sciences; inferior, de N. Volkmann et al., Science 293:2456–2459, 2001, com permissão de AAAS.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 909 Proteínas de ligação ao filamento de actina alteram a dinâmica do filamento O comportamento do filamento de actina é regulado por duas classes principais de proteínas de ligação: aquelas que se ligam lateralmente a um filamento e aquelas que se ligam às extremidades (ver Painel 16-3). Entre as proteínas que se ligam à lateral do filamento, está a tropomiosina, uma proteína alongada que se liga simultaneamente a seis ou sete subunidades de actina adjacentes, ao longo de cada um dos dois sulcos do filamento helicoidal da actina. Além de estabilizar e enrijecer o filamento, a ligação da tropomiosina pode impedir que o filamento de actina interaja com outras proteínas; essa característica da tropomiosina é importante no controle da contração muscular, como discutiremos mais tarde. Um filamento de actina que para de crescer e não é especificamente estabilizado na célula sofrerá rápida despolimerização, especialmente em sua extremidade mais (1), uma vez que as moléculas de actina tenham hidrolisado seu ATP. A ligação de proteínas de capeamento (também denominadas CapZ devido à sua localização na banda Z dos músculos) à extremidade mais (1) estabiliza o filamento de actina em sua extremidade mais, pois torna-o inativo, reduzindo fortemente as taxas de crescimento e despolimeri- zação do filamento (Figura 16-19). Na extremidade menos (2), um filamento de actina pode ser capeado pelo complexo Arp 2/3 que foi responsável pela sua nucleação, embo- ra muitas extremidades menos (2) em uma célula típica se dissociam do complexo Arp 2/3 e não estão capeadas. A tropomodulina, mais conhecida por sua função no capeamento dos filamentos de actina que exibem uma vida-média excepcionalmente longa, nos músculos, liga-se firmemente às extremidades menos (2) dos filamentos de actina que foram revestidas e, assim, estabilizadas pela tropomiosina. Ela também pode capear transitoriamente os filamentos de actina pura e significativamente reduzir sua velocidade de alongamento e despolimerização. Uma grande família de proteínas tropomodulina regula o compri- mento e a estabilidade dos filamentos de actina em muitos tipos de células. Para efeito máximo, as proteínas que se ligam lateralmente a filamentos de acti- na revestem completamente o filamento e, portanto, devem estar presentes em grande quantidade. Em contraste, as proteínas que se ligam às extremidades podem afetar a di- nâmica do filamento mesmo quando estão presentes em níveis muito baixos. Visto que a associação e a adição de subunidades ocorrem principalmente nas extremidades dos fi- lamentos, uma molécula de uma proteína de ligação à extremidade por filamento de ac- tina (aproximadamente uma molécula para cada 200 a 500 subunidades de actina) pode ser suficiente para transformar a arquitetura de toda uma rede de filamentos de actina. Figura 16-17 Alongamento da actina mediado por forminas. As proteínas formina (em verde) formam um complexo dimérico capaz de nuclear a formação de um novo filamento de actina (em verme- lho) e que permanece associado à extremi- dade mais (1), de rápido crescimento, du- rante o processo de extensão. A proteína formina mantém sua ligação a uma das duas subunidades de actina expostas na extremidade mais (1) ao mesmo tempo em que permite que uma nova subuni- dade seja acrescida. Apenas uma parte da grande molécula dimérica de formina está ilustrada. Outras regiões regulam sua atividade e a ligam a estruturas específicas na célula. Diversas forminas estão indireta- mente conectadas à membrana plasmática celular e auxiliam a polimerização inser- cional do filamento de actina diretamente abaixo da superfície da membrana. Dímero de formina Filamento de actina Extremidade mais (+) Extremidade menos (–) Figura 16-18 Profilina e forminas. Alguns membros da família de proteínas forminas possuem domínios não estruturados ou “alças” que contêm diversos sítios de ligação à profilina ou ao complexo actina-profilina. Esses domínios flexíveis atuam como uma área de apoio para a adição da actina à extremidade mais (1) em cresci- mento do filamento de actina quando a formina está ligada. Sob condições determinadas, isso pode acelerar a taxa de extensão do filamento de actina de tal forma que o crescimento do filamento será mais rápido do que seria esperado em uma reação controlada por difusão, e mais rápido na presença de formina e profilina do que a taxa apresentada somente para a actina pura (ver também Figura 3-78). Alças de formina Formina Profilina Actina REPETIÇÃO COM O RECARREGAMENTO DE ACTINA ÀS ALÇAS Crescimento rápido e contínuo do filamento de actina na extremidade mais (+) Filamento de actina 910 PARTE IV Organização interna da célula Proteínas de clivagem regulam a despolimerização do filamento de actina Outro mecanismo importante da regulação dos filamentos de actina depende de proteí- nas que clivam um filamento de actina em muitos filamentos menores, gerando,assim, um grande número de novas extremidades do filamento. O destino dessas novas extre- midades depende da presença de outras proteínas acessórias. Sob algumas condições, as extremidades recém-formadas são capazes de nuclear o alongamento do filamento, ace- lerando, assim, a polimerização de novas estruturas de filamento. Sob outras condições, a clivagem promoverá a despolimerização de filamentos antigos, acelerando a taxa de despolimerização em um fator de 10 ou mais. Além disso, a clivagem altera as proprieda- des mecânicas e físicas do citoplasma: grandes feixes e redes rijas tornam-se mais fluidos. Uma classe de proteínas de quebra da actina é a superfamília gelsolina. Essas proteí- nas são ativadas por níveis elevados de Ca21 citosólico. A gelsolina interage com a lateral do filamento de actina e contém subdomínios que se ligam a dois sítios diferentes: um que é ex- posto na superfície do filamento e um que está escondido entre subunidades adjacentes. De acordo com um modelo, a gelsolina liga-se à lateral de um filamento de actina até que uma flutuação térmica crie um pequeno espaçamento entre as subunidades vizinhas, nesse mo- mento, a gelsolina penetra nessa lacuna para romper o filamento. Após o evento de clivagem, a gelsolina permanece ligada ao filamento de actina e capeia a nova extremidade mais (1). Outra importante proteína de desestabilização de filamentos de actina, encontra- da em todas as células eucarióticas é a cofilina. Também denominada fator de despoli- merização da actina, a cofilina liga-se ao longo do comprimento do filamento de actina, forçando uma maior torção do filamento (Figura 16-20). Esse estresse mecânico enfra- quece os contatos entre as subunidades de actina no filamento, tornando o filamento frágil e mais facilmente desestabilizado por movimentos térmicos, gerando extremida- des do filamento que se dissociam rapidamente. Como resultado, a maioria dos filamen- Figura 16-19 Capeamento e seu efei- to na dinâmica dos filamentos. Uma população de filamentos que não sofreu capeamento adiciona e perde subunidades tanto na extremidade mais (1) quanto na extremidade menos (2), o que resulta em rápido crescimento ou encurtamento, dependendo da concentração disponível de monômeros livres (linha verde). Na presença de uma proteína que provoca ca- peamento na extremidade mais (1) (linha vermelha), apenas a extremidade menos (2) mantém a capacidade de adicionar ou perder subunidades; consequentemente, o crescimento do filamento será mais lento em todas as concentrações acima da concentração crítica, e o encurtamento do filamento será mais lento em todas as con- centrações abaixo da concentração crítica. Além disso, a concentração crítica para a população se altera para aquela referente à extremidade menos (2) do filamento. + + Concentração de monômeros Ta xa d e cr es ci m en to Ta xa d e en cu rt am en to 0 População de filamentos não capeados: crescimento tanto na extremidade menos (–) quanto na extremidade mais (+) População de filamentos capeados: crescimento apenas na extremidade menos (–) Concentração crítica 74 nm 57 nm (A) Filamento de actina (B) Filamento de actina + cofilina Figura 16-20 Torção de um filamento de actina induzida pela cofilina. (A) Reconstrução tridimensional de crioeletrofotomicrografias de filamentos formados a partir de actina pura. Os colchetes mostram a extensão de dois giros da hélice de actina. (B) Reconstrução de um filamento de actina recoberto por cofilina, que se liga em uma proporção estequiométrica de 1:1 às subunidades de actina ao longo do filamento. A cofilina é uma proteína pequena (14 kD) comparada à actina (43 kD), e, desse modo, o filamento apresenta-se apenas leve- mente mais espesso. A energia de ligação da cofilina atua na deformação do filamento de actina, aumentando a sua torção fortemente e reduzindo a distância ocupada por uma volta da hélice. (De A. McGough et al., J. Cell Biol. 138:771–781, 1997. Com permissão dos autores.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 911 tos de actina no interior das células tem uma vida média menor do que a dos filamentos formados a partir de actina pura em um experimento in vitro. A cofilina liga-se preferencialmente a filamentos de actina contendo ADP, em detri- mento a filamentos de actina contendo ATP. Visto que a hidrólise de ATP é em geral mais lenta do que a associação do filamento, os filamentos mais recentes de actina da célula ainda contêm ATP, em sua maioria, e são resistentes à despolimerização por cofilina. Por- tanto, a cofilina tende a desmanchar os filamentos mais velhos na célula. Como discuti- remos mais tarde, a dissociação dos filamentos de actina antigos, mas não dos filamentos novos, mediada pela cofilina é crítica para o crescimento controlado e polarizado da rede de actina responsável pelo movimento celular unidirecional e pela motilidade intracelu- lar de patógenos. Os filamentos de actina podem ser protegidos da ação da cofilina por li- gação à tropomiosina. Assim, a dinâmica da actina em diferentes regiões subcelulares de- pende do equilíbrio entre as proteínas acessórias de estabilização e de desestabilização. Arranjos de filamentos de actina de alta complexidade influenciam as propriedades mecânicas celulares e a sinalização Os filamentos de actina em células animais estão organizados em vários tipos de arranjos: redes dendríticas, feixes e teias (redes semelhantes a géis) (Figura 16-21). Diferentes es- truturas são iniciadas pela ação de proteínas de nucleação distintas: os filamentos de ac- tina de redes dendríticas são nucleados pelo complexo Arp 2/3, ao passo que os feixes são formados a partir dos filamentos longos e lineares produzidos pelas forminas. As proteínas de nucleação dos filamentos nas redes gelatinosas (teias) ainda não estão bem definidas. A organização estrutural das diferentes redes de actina depende de proteínas aces- sórias especializadas. Como explicado anteriormente, o complexo Arp 2/3 organiza os filamentos em redes dendríticas, unindo as extremidades menos (2) do filamento à la- teral de outros filamentos. Outras estruturas de filamentos de actina são polimerizadas e mantidas por duas classes de proteínas: proteínas de enfeixamento, que associam os filamentos de actina em um arranjo paralelo, proteínas formadoras de gel, que mantém dois filamentos de actina unidos em um grande ângulo, um em relação ao outro, criando, assim, uma malha mais solta. Tanto as proteínas de enfeixamento quanto as de formação de gel têm dois sítios de ligação ao filamento de actina semelhantes, que podem ter se originado de uma cadeia única de polipeptídeos ou provir de duas cadeias polipeptídi- cas distintas, mantidas ligadas sob a forma de um dímero (Figura 16-22). O espaçamen- to e o arranjo desses dois domínios de ligação aos filamentos determina o tipo de estru- tura de actina que será formado a partir de uma determinada proteína de interligação. Cada tipo de proteína de enfeixamento também determina quais outras molécu- las podem interagir com os filamentos de actina interligados. A miosina II é a proteína motora que permite a contração das fibras de tração e de outros arranjos contráteis. O Figura 16-21 Arranjos de actina em uma célula. Um fibroblasto movendo-se sobre uma placa de cultura de tecidos é apresentado, destacando-se quatro áreas para mostrar os arranjos dos filamentos de actina. Os filamentos de actina estão apresentados em vermelho, com setas apontando em direção a suas extremi- dades menos (–). As fibras de tração são contráteis e exercem tensão. O córtex de actina localiza-se abaixo da membrana plasmática e consiste em redes semelhan- tes a gel ou redes de actina dendríticas que tornam possível a protrusão da mem- brana nos lamelipódios. Os filopódios são projeções finas da membrana citoplasmá- tica semelhantes a espículas e permitem que a célula explore seu ambiente. Fibra de tração Feixe contrátil Rede dendrítica 100 nm Feixe compactoLamelipódio Filopódio Rede com estrutura em gel Córtex celular 912 PARTE IV Organização interna da célula empacotamento extremamente firme dos filamentos de actina causado pela pequena proteína monomérica de enfeixamento fimbrina aparentemente exclui a miosina, e, as- sim, os filamentos paralelos de actina mantidos ligados pela fimbrina não são contráteis. Por outro lado, a a-actinina interliga filamentos de actina de polaridade oposta em fei- xes pouco compactos, permitindo a ligação da miosina e a formação de feixes de actina contráteis (Figura 16-23). Devido à grande diferença no espaçamento e à orientação dos filamentos de actina, a formação de feixes por fimbrina automaticamente desencoraja a formação de feixes por a-actinina e vice-versa, de tal forma que os dois tipos de arranjos proteicos são mutuamente excludentes. As proteínas de feixe que foram apresentadas até o momento formam conexões rígidas e resistentes entre seus dois domínios de ligação e o filamento de actina. Outras proteínas de interligação de actina fazem ligações flexíveis ou em curvas rígidas, entre seus dois domínios de ligação, permitindo-lhes formar teias ou géis de filamentos de actina em vez de feixes de actina. A filamina (ver Figura 16-22) promove a formação de uma rede frouxa e extremamente viscosa pela união de dois filamentos de actina em ângulos praticamente retos (Figura 16-24A). Os géis de actina formados pela filamina são necessários para que a célula possa estender finas projeções planas de membrana chamadas de lamelipódios, as quais as auxiliam a se mover sobre superfícies sólidas. Nos seres humanos, mutações no gene da filamina A causam defeitos na migração de células nervosas durante o desenvolvimento embrionário precoce. As células na região periventricular do cérebro deixam de migrar para o córtex e formam nódulos, causando uma síndrome chamada heterotopia periventricular (Figura 16-24B). Curiosamente, sabe-se que, além de se ligarem à actina, filaminas interagem com um grande número de proteínas celulares de grande diversidade funcional, incluindo receptores de mem- brana para moléculas de sinalização, e que mutações de filamina também podem levar a defeitos no desenvolvimento dos ossos, do sistema cardiovascular e de outros órgãos. Assim, filaminas podem também funcionar como estruturas de sinalização, conectando e coordenando uma ampla variedade de processos celulares ao citoesqueleto de actina. Uma proteína formadora de redes bastante diferente e muito estudada é a espec- trina, inicialmente identificada em eritrócitos. A espectrina é uma proteína longa e fle- xível, composta por quatro cadeias polipeptídicas longas (duas subunidades a e duas Figura 16-22 Estruturas em módulos de quatro proteínas de interligação com actina. Cada uma das proteínas apresentadas possui dois sítios de ligação com actina (em vermelho) com sequências similares. A fimbrina tem dois sítios de ligação com actina diretamente adjacen- tes, de tal forma que ela mantém seus dois filamentos de actina intimamente associados (distanciados em 14 nm) e alinhados com a mesma polaridade (ver Figura 16-23A). Os dois sítios de ligação com actina na a-actinina estão separados por um espaçador de aproximadamente 30 nm de comprimento, de tal forma que os feixes de actina formados serão menos compactos que os anteriores (ver Figura 16-23A). A filamina tem dois sítios de ligação com actina conectados por uma ligação em V, e, dessa maneira, os filamen- tos de actina interligados na rede estão orientados formando ângulos quase retos entre si (ver Figura 16-24). A espectrina é um tetrâmero de duas subunidades a e duas subunidades b e possui dois sítios de ligação com actina separados por uma dis- tância de 200 nm (ver Figura 10-38). Espectrina (tetrâmero) Fimbrina (monômero) �-actinina (dímero) Filamina (dímero) 50 nm Figura 16-23 A formação de dois tipos de feixes de filamentos de actina. (A) A fimbrina interliga os filamentos de actina em feixes coesos, que excluem do arranjo a proteína motora miosina II. Em contraste, a a-actinina, que é um homo- dímero, interliga os filamentos de actina em feixes pouco compactos, permitindo que a miosina (não ilustrada) seja incor- porada no feixe. A fimbrina e a a-actinina tendem a excluir-se mutuamente devido às grandes diferenças nos espaçamentos apresentados pelos feixes de filamentos de actina formados por essas proteínas. (B) Fotomicrografia eletrônica de moléculas de a-actinina. (B, cortesia de John Heuser.) (B) 100 nm 50 nm Feixe contrátilFeixe paralelo O empacotamento frouxo permite a participação da miosina II no feixe. O empacotamento compacto impede a participação da miosina II no feixe Filamentos de actina e �-actinina Filamentos de actina e fimbrina (A) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 913 subunidades b), organizadas de tal forma que seus dois sítios de ligação a filamentos de actina encontram-se 200 nm distantes um do outro (comparados aos 14 nm da fimbrina e aos aproximadamente 30 nm para a a-actinina; ver Figura 16-23). Nos eritrócitos, a espectrina concentra-se logo abaixo da membrana plasmática, onde forma uma rede se- melhante a uma teia bidimensional que se mantém unida por curtos filamentos de acti- na, cujos comprimentos exatos são estritamente regulados por proteínas de capeamento presentes em cada extremidade; a espectrina liga essa rede à membrana plasmática, pois tem sítios de ligação independentes para proteínas periféricas da membrana, que estão elas próprias posicionadas próximo à bicamada lipídica devido a proteínas integrais da membrana (ver Figura 10-38). A rede resultante cria um córtex celular forte, porém flexí- vel, que fornece suporte mecânico para a membrana plasmática sobrejacente, permitin- do que os eritrócitos retornem à sua forma original após espremerem-se através de um capilar. Proteínas bastante similares à espectrina são encontradas no córtex da maioria dos outros tipos celulares dos vertebrados, onde também auxiliam na manutenção e no estabelecimento da forma e na rigidez da membrana da superfície. Um exemplo parti- cularmente notável da função das espectrinas na promoção da estabilidade mecânica é o longo e fino axônio de neurônios no verme nematódeo Caenorhabditis elegans, onde a espectrina é necessária para evitar o rompimento durante os movimentos de torção que os vermes fazem quando rastejam. As conexões do córtex de actina do citoesqueleto à membrana plasmática ainda não estão totalmente compreendidas. Os membros da família ERM (nomeada a partir de seus três primeiros membros, ezrina, radixina e moesina), contribuem para a organi- zação dos domínios de membrana devido à sua capacidade de interagir com proteínas transmembrana e com o citoesqueleto subjacente. Ao fazê-lo, eles não só fornecem li- gações estruturais para fortalecer o córtex celular, mas também regulam a atividade das vias de transdução de sinal. A moesina também aumenta a rigidez cortical para promo- ver o arredondamento da célula durante a mitose. As medições por microscopia de força atômica indicaram que o córtex celular permanece maleável durante a mitose quando há depleção da moesina. Acredita-se que proteínas ERM liguem-se e organizem o córtex de actina do citoesqueleto em diferentes contextos, afetando, assim, tanto a forma e a rigidez da membrana como a localização e a atividade de moléculas de sinalização. Figura 16-24 A filamina interliga os filamentos de actina em uma rede tridimensional e é necessária para a migração neuronal normal. (A) Cada homodímero de filamina tem aproximada- mente 160 nm de comprimento quando completamente estendido e forma uma ligação flexível em ângulo reto entre dois filamentos adjacentes de actina. Um conjunto de filamentos de actina interligados por filamina forma uma rede ou gel mecanicamente forte. (B) Resso- nância magnética de um cérebro humano normal (à esquerda) e de um paciente com heterotopia periventricular (à direita)provocada por uma mutação no gene da filamina A. Em contraste com a superfície lisa ventricular no cérebro normal, uma zona rugosa de neurônios corticais (setas) é vista ao longo das paredes laterais dos ventrículos e representa os neurônios que não migraram para o córtex durante o de- senvolvimento do cérebro. Notavelmente, apesar de muitos neurônios não estarem no lugar adequado, a inteligência dos indivíduos afetados é frequentemente nor- mal ou apenas levemente comprometida, e a principal síndrome clínica associada é a epilepsia, que, muitas vezes aparece na segunda década de vida. (B) adaptado de Y. Feng e C.A. Walsh, Nat. Cell Biol. 6:1034–1038, 2004. Com permissão de Macmillan Publishers Ltd.) 50 nm Dímeros de filamina (B) (A) 914 PARTE IV Organização interna da célula As bactérias podem sequestrar o citoesqueleto de actina do hospedeiro A importância das proteínas acessórias na geração de motilidade baseada em actina e força é ilustrada de forma inequívoca pelo estudo de certas bactérias e vírus que usam componentes do citoesqueleto de actina da célula hospedeira para mover-se através do citoplasma. O citoplasma das células dos mamíferos é extremamente viscoso, contendo organelas e elementos do citoesqueleto que inibem a difusão de partículas grandes como bactérias ou vírus. Para movimentarem-se em uma célula e invadir as células vizinhas, vários patógenos, incluindo Listeria monocytogenes (causadora de uma forma rara, mas grave, de intoxicação alimentar), supera esse problema pelo recrutamento e ativação do complexo Arp 2/3 em sua superfície. O complexo Arp 2/3 provoca a nucleação do arran- jo de filamentos de actina e gera uma força substancial que empurra a bactéria através do citoplasma em velocidades de até 1 mm/s, deixando para trás uma longa “cauda de cometa” de actina (Figura 16-25; ver também Figuras 23-28 e 23-29). Esse movimento pode ser reconstituído em um tubo de ensaio, adicionando as bactérias em uma mistura de actina pura, complexo Arp 2/3, cofilina e proteínas de capeamento, ilustrando como a polimerização dinâmica de actina gera movimento através da regulação espacial da as- sociação e dissociação dos filamentos. Como veremos adiante, esse tipo de movimento baseado em actina também está envolvido na protrusão da membrana na borda anterior das células móveis. Resumo A actina é uma proteína do citoesqueleto altamente conservada que está presente em altas concentrações em quase todas as células eucarióticas. A nucleação representa uma bar- reira cinética para a polimerização de actina, mas uma vez iniciados, os filamentos de actina apresentam um comportamento dinâmico devido à hidrólise do nucleotídeo ATP. Os filamentos de actina são polarizados e podem sofrer rolamento quando um filamen- to cresce na extremidade mais (1) e simultaneamente sofre despolimerização na extre- (A) (B) (C) 10 �m 10 �m Proteína de capeamento Extremidade Extremidade Complexo Arp2/3Actina ActA Bactéria Cofilina Figura 16-25 O movimento da Listeria monocytogenes é baseado em actina. (A) Fotomicrografia de fluorescência de uma célula infectada que foi corada para revelar as bactérias em vermelho e os filamentos de actina em verde. Observe a cauda semelhante a um cometa formada pelos filamentos de actina atrás de cada bactéria em movimento. As regiões de sobreposição das fluorescências verde e vermelha aparecem em amarelo. (B) A motilidade de Listeria pode ser reconstituída em um tubo de ensaio com ATP e apenas mais quatro proteí- nas purificadas: actina, o complexo Arp 2/3, a proteína de capeamento e a cofilina. Esta fotomicrografia mostra as densas caudas de actina atrás das bactérias (preto). (C) A proteína ActA na superfície bacteriana ativa o complexo Arp 2/3 para nuclear uma nova polimerização de filamentos na lateral dos filamentos já existentes. Os filamentos crescem na sua extremidade mais até serem revestidos pela proteína de capeamento. A actina é reci- clada através da ação da cofilina, que aumenta a despolimerização nas extremidades menos (–) dos filamentos. Devido a esse mecanismo, a polimerização foca-se na superfície traseira da bactéria, propelindo-a para a frente (ver Animação 23.7). (A, cortesia de Julie Theriot e Tim Mitchison; B, de T.P. Loisel et al., Nature 401:613–616, 1999. Com permissão de Macmillan Publishers Ltd.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 915 midade menos (2). Nas células, a dinâmica dos filamentos de actina é regulada a cada etapa, e as diversas formas e funções da actina dependem de um repertório versátil de proteínas acessórias. Aproximadamente, metade da actina é mantida sob a forma mono- mérica através da associação com proteínas de sequestro como a timosina. Os fatores de nucleação, como o complexo Arp 2/3 e as forminas promovem a formação de filamentos ramificados e paralelos, respectivamente. As interações entre as proteínas que ligam ou capeiam filamentos de actina e aquelas que promovem o rompimento ou despolimeriza- ção dos filamentos podem retardar ou acelerar a cinética da associação e dissociação dos filamentos. Outras classes de proteínas acessórias agregam os filamentos em estruturas de maior magnitude por interligação dos filamentos uns aos outros em conformações geome- tricamente definidas. Conexões entre esses arranjos de actina e a membrana plasmática das células conferem resistência mecânica às células animais e permitem a formação de estruturas celulares corticais, tais como os lamelipódios, os filopódios e as microvilosida- des. A indução da polimerização dos filamentos de actina na sua superfície, permite que patógenos intracelulares sequestrem o citoesqueleto da célula hospedeira, utilizando-o para movimentar-se dentro da célula. MIOSINA E ACTINA Uma característica fundamental do citoesqueleto de actina é que ele pode formar estru- turas contráteis que se interligam promovem o deslizamento dos filamentos de actina, uns em relação aos outros, através da ação da proteína motora miosina. Além de con- duzirem a contração muscular, os arranjos de actina e miosina desempenham funções importantes em células não musculares. Proteínas motoras baseadas em actina são membros da superfamília da miosina A primeira proteína motora identificada foi a miosina de músculo esquelético, que é res- ponsável pela geração da força para a contração muscular. Essa proteína, atualmente conhecida como miosina II, é uma proteína alongada formada por duas cadeias pesadas e duas cópias de cada uma de duas cadeias leves. Cada uma das cadeias pesadas possui um domínio globular (cabeça) em sua extremidade N-terminal que contém a maqui- naria geradora de força, seguido por uma longa sequência de aminoácidos que forma uma extensão supertorcida que medeia a dimerização da cadeia pesada (Figura 16-26). As duas cadeias leves ligam-se próximo ao domínio globular N-terminal, ao passo que a cauda supertorcida formará feixes através da ligação às caudas de outras moléculas de miosina. Essas interações cauda-cauda levam à formação de um grande “filamento espesso” bipolar que apresenta várias centenas de cabeças de miosina, orientadas em direções opostas nas duas extremidades do filamento espesso (Figura 16-27). Cada cabeça de miosina se liga a ATP e é capaz de hidrolisá-lo, usando a energia dessa hidrólise para se deslocar rumo à extremidade mais (1) do filamento de actina (Figura 16-28). A orientação oposta das cabeças no filamento espesso torna eficiente o deslizamento, um em relação ao outro, dos pares de filamentos de actina em orienta- 150 nm 2 nm C-terminal Supertorção de duas �-hélices N-terminal Cadeias leves Pescoço ou região de dobradiça (A) (B) 100 nm Figura 16-26 Miosina II. (A) As duas cabeças globulares e a longa cauda de uma molécula de miosina II coradas com platina podem ser vistas nesta fotomicro- grafia eletrônica. (B) A molécula de miosina II é composta por duas cadeias pesadas, cada uma com aproximadamente 2 mil aminoácidos (em verde) e quatrocadeias leves (em azul). As cadeias leves são de dois tipos distintos, e uma cópia de cada tipo está presente em cada cabeça de miosina. A dimerização ocorre quando as duas a-hélices das cadeias pesadas, enrolam-se formando uma estrutura supertorcida devido à associação de aminoácidos hidrofóbicos distribuídos de modo regular (ver Figura 3-9). O arranjo supertorcido produz uma extensão em forma de bastão na solução, e essa parte da molécula forma a cauda. (A, cortesia de David Shotton.) 916 PARTE IV Organização interna da célula ção oposta, contraindo o músculo. No músculo esquelético, em que filamentos de actina cuidadosamente arranjados estão alinhados em arranjos de “filamentos finos” em torno dos filamentos grossos de miosina, o deslizamento dos filamentos de actina, controla- do por ATP resulta em uma poderosa contração. As células musculares cardíacas e lisas contêm moléculas de miosina II organizadas de modo semelhante, apesar de estas se- rem codificadas por genes diferentes. A miosina gera força pelo acoplamento da hidrólise de ATP a alterações conformacionais As proteínas motoras usam alterações estruturais em seus sítios de ligação ao ATP para produzir interações cíclicas com um filamento do citoesqueleto. Cada ciclo de ligação de ATP, hidrólise e liberação as impulsiona para frente em uma única direção em um novo sítio de ligação sobre o filamento. No caso da miosina II, cada passo do movimento ao longo da actina é gerado pela rotação de uma a-hélice de 8,5 nm de comprimento, cha- mada de braço de alavanca, a qual é estruturalmente estabilizada pela ligação a cadeias leves. Na base desse braço de alavanca, próximo à cabeça, existe uma hélice, semelhante a um pistão, que conecta os movimentos da fenda de ligação a ATP, na cabeça, com pe- quenas rotações do chamado domínio conversor. Uma pequena alteração nesse ponto (C) Cabeças de miosina 10 nm (B) (A) 500 nm Cauda de miosina Zona exposta Cabeças de miosina Figura 16-27 Filamento espesso bipolar de miosina II no músculo. (A) Fotomicrografia eletrônica de filamento espesso bipolar de miosina II isolado a partir de músculo de rã. Observe a zona central exposta, que se apresenta livre dos domínios globulares. (B) Diagrama esquemático, não representado em escala. As moléculas de miosina II se agregam através de suas caudas e projetam as cabeças para a região externa do filamento. A zona exposta no centro do filamento é constituída apenas por caudas de miosina II. (C) Uma pequena seção de filamentos de miosina II desenhada a partir de fotomicrografias eletrônicas. Uma molécula individual de miosina está realçada em verde. Os filamentos citoplasmáticos de miosina II em células não musculares são bem mais curtos, apesar de apresentarem organização semelhante (ver Figura 16-39). (A, cortesia de Murray Stewart; C, baseado em R.A. Crowther, R. Padrón e R. Craig, J. Mol. Biol. 184:429–439, 1985. Com permissão de Academic Press.) Figura 16-28 Evidência direta da atividade motora da cabeça de mio- sina. Neste experimento, cabeças de miosina purificadas foram aderidas a uma lâmina de vidro, e filamentos de actina corados com faloidina fluorescente foram adicionados a esta preparação para que se ligassem às cabeças de miosina. (A) Quando ATP foi adicionado, os filamentos de actina começaram a se mover sobre a superfície como consequência dos diversos movimentos individuais gerados por cada uma das muitas cabeças de miosina liga- das a cada filamento. As fotos mostradas nesta sequência foram obtidas em interva- los de 0,6 segundo, os dois filamentos de actina apresentados (um em vermelho e o outro em verde) movem-se em sentidos contrários, em velocidades de aproxima- damente 4 mm/s. (B) Uma representação esquemática do experimento. As grandes setas vermelhas indicam a direção do mo- vimento dos filamentos de actina (Anima- ção 16.2). (A, cortesia de James Spudich.) Cabeça de miosina Filamento de actina (B) Lâmina de vidro 5 �m (A) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 917 pode girar a hélice como uma longa alavanca, fazendo sua extremidade mais (1) distan- te mover-se cerca de 5,0 nm. Essas alterações conformacionais da miosina estão acopladas a alterações na sua afinidade de ligação por actina, permitindo que a cabeça de miosina seja liberada do ponto de adesão ao filamento de actina e, a seguir, seja novamente ligada, aderindo a um novo ponto. Esse ciclo mecanoquímico completo de ligação do nucleotídeo, hidrólise do nucleotídeo e liberação do fosfato (que provoca o “movimento de potência”) produz o movimento de um único passo (Figura 16-29). Em baixas concentrações de ATP, o inter- valo entre a etapa de produção de força e a ligação do próximo ATP é longo o suficiente para que passos individuais possam ser observados (Figura 16-30). Extremidade menos (-) Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) Extremidade mais (+) Filamento de actina Cabeça de miosina Filamento espesso de miosina HIDRÓLISE MOVIMENTO DE POTÊNCIA CONECTADA No começo do ciclo apresentado nesta figura, uma cabeça de miosina não ligada a um nucleotídeo está firmemente presa a um filamento de actina em uma configuração de rigor (assim denominada por ser responsável pelo rigor mortis, a rigidez cadavérica). Em um músculo em contração ativa, este estado é de duração extremamente curta, sendo rapidamente terminado pela ligação de uma molécula de ATP. LIBERADA Uma molécula de ATP se liga a uma grande fenda existente na “parte posterior” da cabeça (ou seja, no lado mais distante do filamento de actina) e imediatamente provoca uma leve modificação na conformação do sítio de ligação à actina, o que reduz a afinidade da cabeça pela actina e permite seu deslizamento sobre o filamento. (O espaço representado no desenho entre a cabeça e a actina enfatiza essa mudança, embora seja provável que, na realidade, a cabeça permaneça muito mais próxima à actina.) ENGATILHADA A fenda se fecha, como as valvas de uma concha, sobre a molécula de ATP, desencadeando um movimento no braço de alavanca, que, por sua vez, faz a cabeça se deslocar sobre o filamento a uma distância de aproximadamente 5 nm. Ocorre hidrólise de ATP, mas o ADP e o fosfato inorgânico (Pi) produzidos permanecem firmemente ligados à proteína. GERADORA DE FORÇA Uma ligação fraca da cabeça de miosina a um novo sítio do filamento de actina provoca a liberação do fosfato inorgânico produzido pela hidrólise de ATP, concomitante à forte ligação da cabeça com a actina. Essa ligação desencadeia o movimento de potência – a modificação conformacional geradora de força durante a qual a cabeça retorna à sua conformação original. Durante o movimento de potência, a cabeça perde seu ADP, retornando, portanto, ao ponto do início para um novo ciclo. CONECTADA Ao final de um ciclo, a cabeça de miosina está mais uma vez firmemente presa em uma configuração de rigor. Observe que a cabeça se deslocou para uma nova posição sobre o filamento de actina. ATP ATP ADP ADP ADP Pi Pi Braço de alavanca Figura 16-29 O ciclo de alterações estruturais sofridas pela miosina II para se deslocar sobre um filamento de actina. A cabeça da miosina II permanece ligada ao filamento de actina por apenas aproximada- mente 5% do período total do ciclo, permitindo que várias miosinas atuem em conjunto para mover um único filamento de actina (Animação 16.3). (Baseada em I. Rayment et al., Science 261:50–58, 1993.) 918 PARTE IV Organização interna da célula O deslizamento da miosina II ao longo dos filamentos de actina provoca a contração muscular A contração muscular é a mais familiar e a mais compreendida das formas de movimen- to em animais. Em vertebrados, as ações de correr, caminhar, nadar e voar dependem da rápida contração da musculatura esquelética em seu esqueleto estrutural ósseo, en- quanto movimentos involuntários como os batimentos cardíacos e o peristaltismo do intestino dependem da contração da musculatura cardíaca e da musculaturalisa, res- pectivamente. Todas essas formas de contração muscular dependem do deslizamento, controlado por ATP, de um conjunto extremamente organizado de filamentos de actina sobre arranjos de filamentos de miosina II. A musculatura esquelética foi um desenvolvimento evolutivo relativamente tar- dio, e as células musculares são altamente especializadas para uma contração rápida e eficiente. As longas e finas fibras musculares da musculatura esquelética são na verda- de grandes células individuais que se formam durante o desenvolvimento pela fusão de muitas células separadas. Os vários núcleos das células originais permanecem no interior dessa grande célula. Esses núcleos se posicionam abaixo da membrana citoplasmática (Figura 16-31). A maior parte do interior citoplasmático é constituída por miofibrilas, que é o nome dado aos elementos contráteis básicos da célula muscular. Uma miofibrila é uma estrutura cilíndrica de 1 a 2 mm de diâmetro que frequentemente é tão longa quan- to a própria célula muscular. Ela consiste em uma longa cadeia de unidades contráteis pequenas e repetitivas – chamadas sarcômeros, cada uma com um comprimento de 2,2 mm – conferem à miofibrila dos vertebrados sua aparência estriada (Figura 16-32). Cada sarcômero é formado a partir de um arranjo miniatura, exatamente orde- nado em paralelo e parcialmente superposto de filamentos delgados e espessos. Os fi- lamentos delgados são compostos de actina e proteínas associadas, sendo ligados por suas extremidades mais a um disco Z em cada extremidade do sarcômero. As extremida- des menos (2) capeadas dos filamentos de actina se estendem em direção ao centro do sarcômero, onde se sobrepõem aos filamentos espessos, os arranjos bipolares formados a partir de isoformas musculares específicas de miosina II (ver Figura 16-27). Quando essa região de sobreposição é examinada em uma secção transversal por microscopia eletrônica, os filamentos de miosina são vistos sob a forma de um arranjo hexagonal re- gular, com os filamentos de actina ordenadamente espaçados entre eles (Figura 16-33). Tanto a musculatura cardíaca quanto a musculatura lisa contêm sarcômeros, no entanto a organização destes não é tão regular quanto a apresentada na musculatura esquelética. O encurtamento do sarcômero é provocado pelo deslizamento dos filamentos de miosina sobre os filamentos delgados de actina, sem que ocorra modificação no tamanho de qualquer desses tipos de filamentos (ver Figura 16-32C e D). Os filamentos bipolares es- Figura 16-30 A força de uma única molécula de miosina se deslocando sobre um filamento de actina medida com uma armadilha óptica. (A) Diagrama esquemático do experimen- to, mostrando um filamento de actina com esferas ligadas em ambas as extre- midades e sendo mantido no lugar por feixes concentrados de luz denominados pinças ópticas (Animação 16.4). A pinça prende e move a esfera e também pode ser usada para medir a força exercida na esfera através do filamento. Neste experi- mento, o filamento foi posicionado sobre outra esfera na qual as proteínas motoras miosina II estavam ligadas, e a pinça óptica foi usada para determinar os efeitos da ligação de miosina sobre o movimento dos filamentos de actina. (B) Estes traços mos- tram os movimentos do filamento em dois experimentos independentes. Inicialmente, quando o filamento de actina não estava ligado à miosina, o movimento browniano do filamento produziu flutuações aleató- rias na posição do filamento. Quando uma única miosina foi ligada ao filamento de actina, o movimento browniano diminuiu de forma abrupta e um deslocamento de aproximadamente 10 nm resultou do movimento do filamento mediado pela proteína motora. A proteína motora, então, libera o filamento. Visto que a con- centração de ATP é muito baixa neste ex- perimento, a miosina permanece ligada ao filamento de actina por muito mais tempo do que ocorreria em uma célula muscular. (Adaptada de C. Rüegg et al., Physiology 17:213–218, 2002. Com permissão da American Physiological Society.) Y(A) (B) X Detector de posição Actina Microesfera Miosina Pinças ópticas 50 nm 50 nm D es lo ca m en to Tempo (s) 1 2 3 4 5 60 CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 919 pessos deslizam em direção à extremidade mais (1) de dois conjuntos de filamentos del- gados de orientação oposta, controlados por dúzias de cabeças de miosina independentes que se encontram posicionadas de tal forma a interagir com cada um dos filamentos del- gados. Visto que não existe uma coordenação entre os movimentos das cabeças de miosi- na, é essencial que elas permaneçam fortemente ligadas ao filamento de actina apenas du- rante um curto período de cada ciclo de ATPase para que não interfiram umas nas outras a ponto de provocar recuos. Cada filamento espesso de miosina possui aproximadamente 300 cabeças (294 em músculo de rãs), e cada cabeça cicla aproximadamente cinco vezes por segundo no curso de uma contração rápida – o deslizamento dos filamentos de actina e miosina entre si apresenta taxas de até 15 mm/s e permite a um sarcômero encurtar até 10% de seu comprimento em menos de 1/50 avos de segundo. O rápido encurtamento sincronizado de milhares de sarcômeros alinhados entre si pelas extremidades, em cada miofibrila, dá à musculatura esquelética capacidade de contração suficientemente rápida para que atividades como correr e voar ou tocar piano sejam realizadas. As proteínas acessórias controlam a impressionante uniformidade da organização do filamento, do seu comprimento e do espaçamento no sarcômero (Figura 16-34). As extremidades mais (1) dos filamentos de actina estão ancoradas no disco Z, o qual é constituído de CapZ e a-actinina; o disco Z cobre os filamentos (evitando a despolime- rização), além de mantê-los associados em um feixe regularmente espaçado. O compri- mento exato de cada filamento delgado é determinado por uma proteína-molde bastan- te grande denominada nebulina, a qual consiste quase que totalmente em repetições de um motivo de 35 aminoácidos com capacidade de ligação à actina. A nebulina estende- -se do disco Z até a extremidade menos (2) de cada filamento delgado, que é capeado e estabilizado pela tropomodulina. Embora haja alguma troca lenta de subunidades de actina em ambas as extremidades do filamento delgado no músculo, de tal forma que os componentes do filamento delgado apresentam uma meia-vida de vários dias, os fila- mentos de actina nos sarcômeros são incrivelmente estáveis em comparação com aque- les encontrados na maioria dos outros tipos de células, cujos filamentos dinâmicos de actina apresentam uma meia-vida de apenas alguns poucos minutos ou menos. Os filamentos espessos são posicionados a meio caminho entre os discos Z por pares opostos de uma proteína-molde ainda maior denominada titina. A titina age como uma mola molecular, contendo uma série de domínios semelhantes à imunoglobulina que po- dem desenovelar-se um a um quando é aplicado estresse a essa proteína. O enovelamento (A) Núcleo Miofibrila (B) 50 �m Figura 16-31 Células musculares esqueléticas (também chamadas de fibras musculares). (A) Estas imensas células multinucleadas são formadas pela fusão de várias células musculares precursoras chamadas de mioblastos. Aqui, uma célula individual de músculo é ilustrada. Em seres humanos adultos, uma célula muscular geralmente apresenta um diâmetro de 50 mm e pode ter vários centímetros de com- primento. (B) Fotomicrografia de fluorescência de músculo de rato mostrando os núcleos localizados perifericamente (em azul) nestas células gigantes. As miofibrilas estão coradas em vermelho. (B, cortesia de Nancy L. Kedersha.) Figura 16-32 Miofibrilas musculares esqueléticas. (A) Fotomicrografia eletrônica de baixa magnitude de sec- ção longitudinal de uma célula muscular esquelética de coelho, mostrando o padrão regular das estrias. A célula contém muitas miofibrilas alinhadas em paralelo (ver Figura 16-31). (B) Detalhe da musculatura esqueléticamos- trada em (A), mostrando porções de duas miofibrilas adjacentes e a definição de um sarcômero (seta preta). (C) Diagrama esquemático de um sarcômero isolado mostrando a origem das bandas claras e escuras vistas na foto- micrografia eletrônica. Os discos Z nas extremidades de cada sarcômero são sítios de ligação para as extremidades mais (1) dos filamentos de actina (filamentos delgados); a linha M, ou linha mediana, é o local das proteínas que ligam filamentos de miosina II adjacentes entre si (filamentos espessos). (D) Quando o sarcômero se contrai, os filamentos de actina e miosina deslizam uns sobre os outros sem encurtamento. (A e B, cortesia de Roger Craig.) (B) (C) (A) (D) Banda clara Banda clara Banda escura Filamento espesso (miosina) Filamento delgado (actina) Disco Z Disco ZLinha M 2 �m Disco Z Banda escura Banda clara M io fi b ri la Um sarcômero 920 PARTE IV Organização interna da célula e o desenovelamento “tipo mola” desses domínios mantêm os filamentos espessos po- sicionados no centro do sarcômero e permitem que a fibra muscular se reestruture após ter sido fortemente espichada. Em C. elegans, cujos sarcômeros são mais longos do que os dos vertebrados, a titina é também mais longa, sugerindo que ela também sirva como uma régua molecular, determinando, neste caso, o comprimento total de cada sarcômero. A contração muscular é iniciada por uma súbita elevação da concentração citosólica de Ca21 A interação molecular geradora de força entre os filamentos espessos de miosina e os fila- mentos delgados de actina ocorre somente quando um sinal é recebido pelo músculo es- quelético proveniente do nervo que o estimula. Imediatamente após o recebimento do sinal, a célula deve ser capaz de sofrer uma rápida contração, pelo encurtamento simultâneo de todos os seus sarcômeros. Duas características principais das células musculares tornam possível esta contração extremamente rápida. Primeiro, como discutido anteriormente, as cabeças motoras das miosinas individuais gastam em cada filamento espesso apenas uma pequena fração do tempo relativo ao ciclo de ATP ligadas ao filamento e ativamente gerando força, de tal forma que várias cabeças de miosina podem atuar em rápida sucessão sobre o mesmo filamento delgado sem que uma interfira sobre a outra. Segundo, um sistema espe- cializado de membranas transmite rapidamente o sinal que está chegando através de toda a célula. O sinal do nervo desencadeia um potencial de ação na membrana plasmática da célula muscular (discutido no Capítulo 11), e essa excitação elétrica se espalha rapidamente em uma série de dobras membranosas, os túbulos transversais, ou túbulos T – que se esten- dem para o interior da membrana plasmática em torno de cada miofibrila. O sinal é então transmitido através de uma pequena abertura para o retículo sarcoplasmático, uma estrutura adjacente, em forma de teia, que consiste em um retículo endoplasmático modificado e que envolve cada miofibrila como se fosse uma trama de tecido (Figura 16-35A e B). Figura 16-33 Fotomicrografia eletrôni- ca de músculo de voo de um inseto vis- to em secção transversal. Os filamentos de miosina e de actina estão empacotados sob uma constância de regularidade quase cristalina. Diferentemente de seus homó- logos em vertebrados, estes filamentos de miosina apresentam uma região central oca, como pode ser visto na fotografia em maior aumento à direita. A geometria do arranjo hexagonal difere levemente da que ocorre em músculos de vertebrados. (De J. Auber, J. de Microsc. 8:197–232, 1969. Com permissão da Societé Française de Microscopie Électronique.) 1 �m Actina (filamento delgado)Nebulina Titina Miosina (filamento espesso) Disco ZDisco Z Linha M TropomodulinaCapa Z Extremidade mais (+) do filamento de actina Extremidade menos (–) Figura 16-34 Organização das proteí- nas acessórias em um sarcômero. Cada molécula gigante de titina se estende do disco Z à linha M – uma distância de mais de 1 mm. Uma parte de cada molécula de titina encontra-se firmemente associada ao filamento espesso de miosina (o qual sofre inversão de polaridade na linha M); a parcela restante da molécula de titina é elástica e muda de comprimento confor- me o sarcômero sofre contração ou rela- xamento. Cada molécula de nebulina tem o comprimento exato de um filamento delgado. Os filamentos de actina também estão recobertos por tropomiosina e tro- ponina (não mostradas; ver Figura 16-36) e suas duas extremidades estão capeadas. A tropomodulina capeia a extremidade menos (2) dos filamentos de actina e a CapZ ancora a extremidade mais (1) ao disco Z, o qual também contém a-actinina (não mostrado). CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 921 Quando o potencial de ação resultante ativa um canal de Ca21 na membrana de um túbulo T, um influxo de Ca21 gera a abertura de canais de liberação de Ca21 no retícu- lo sarcoplasmático (Figura 16-35C). O Ca21 que flui para o citosol dá início à contração de cada miofibrila. Tendo em vista que o sinal proveniente da membrana citoplasmática da célula muscular é transmitido em milissegundos (através dos túbulos T e do retículo sarcoplasmático) para cada um dos muitos sarcômeros da célula, todas as miofibrilas da célula contraem ao mesmo tempo. A elevação da concentração de Ca21 é transitória, pois o Ca21 é rapidamente bombeado de volta ao retículo sarcoplasmático por uma bomba de Ca21 dependente de ATP (também chamada de Ca21-ATPase) abundante nessa membra- na (ver Figura 11-13). Normalmente, a concentração citoplasmática de Ca21 é restaurada aos níveis de repouso em 30 metros por segundo, permitindo o relaxamento das mio- fibrilas. Desse modo, a contração muscular depende de dois processos que consomem enormes quantidades de ATP: o deslizamento dos filamentos, conduzido pela ATPase do domínio motor da miosina, e o bombeamento de Ca21, regulado pela bomba de Ca21. A dependência de Ca21 na contração muscular esquelética de vertebrados, e sua consequente dependência de comandos transmitidos através de nervos, é o resultado da existência de um grupo de proteínas acessórias especializadas intimamente associadas aos filamentos delgados de actina. Uma dessas proteínas acessórias é uma forma mus- cular da tropomiosina, a proteína alongada que se liga ao longo do sulco da hélice dos filamentos de actina. Outra é a troponina, um complexo de três polipeptídeos, troponi- nas T, I e C (assim denominadas devido à sua ação respectiva de ligação à tropomiosina, inibição e ligação ao Ca21). A troponina I liga-se tanto à actina quanto à troponina T. Em um músculo em repouso, o complexo troponina I-T puxa a tropomiosina para fora da fenda normal de ligação, deixando-a em uma posição relativa ao filamento de actina que interfere na ligação das cabeças de miosina, impedindo, desse modo, qualquer interação geradora de força. Quando o nível de Ca21 é elevado, a troponina C – que se liga a até qua- tro moléculas de Ca21 – faz a troponina I se desconectar da actina. Isso permite o retorno (B) 0,5 �m Membrana plasmática Miofibrila Túbulos (T) transversais formados a partir de invaginações da membrana plasmática Retículo sarcoplasmático (A) (C) 35 nm Potencial de ação Canal de liberação de Ca2+ Canal de Ca2+ controlado por voltagem Membrana do túbulo T polarizada Membrana do retículo sarcoplasmático CITOSOL LÚMEN DO TÚBULO T (ESPAÇO EXTRACELULAR) LÚMEN DO RETÍCULO SARCOPLASMÁTICO Membrana do túbulo T despolarizada Canais de liberação de Ca2+ Ca2+ Figura 16-35 Túbulos T e o retículo sarcoplasmático. (A) Representação dos dois sistemas de membranas que trans- mitem o sinal de contração a partir da membrana plasmática da célula muscular para todas as miofibrilas da célula. (B) Fotomicrografia eletrônica mostrando uma seção transversal de um túbulo T. Observe a posição dos grandes canais de liberação de Ca21 na membrana do retículo sarco- plasmático, que se conectam à membrana do túbulo T adjacente.(C) Diagrama es- quemático mostrando como se sugere que um canal de liberação de Ca21 da mem- brana do retículo sarcoplasmático se abra pela ativação de um canal de Ca21 contro- lado por voltagem (Animação 16.5). (B, cortesia de Clara Franzini-Armstrong.) 922 PARTE IV Organização interna da célula da molécula de tropomiosina à sua posição normal e permite que as cabeças de miosi- na deslizem sobre os filamentos de actina (Figura 16-36). A troponina C é intimamente relacionada à calmodulina, uma proteína de ligação a Ca21 bastante comum (ver Figura 15-33); ela pode ser considerada uma forma especializada de calmodulina que adquiriu sítios de ligação para a troponina I e a troponina T, garantindo, desse modo, uma respos- ta extremamente rápida da miofibrila a elevações na concentração de Ca21. Nas células musculares lisas, assim denominadas por não apresentarem as estria- ções regulares características dos músculos esqueléticos, a contração também é provo- cada por um influxo de íons cálcio, mas os mecanismos de regulação são diferentes. A musculatura lisa forma a porção contrátil do estômago, do intestino e do útero, assim como as paredes das artérias e diversas outras estruturas que requerem contrações len- tas e por longos intervalos de tempo. O músculo liso é composto por camadas de cé- lulas bastante longas e em formato de fuso, cada qual contendo um único núcleo. As células musculares lisas não expressam as troponinas. Em vez disso, níveis elevados de Ca21 intracelular regulam a contração por um mecanismo dependente de calmodulina (Figura 16-37). A calmodulina ligada a Ca21 ativa a cinase da cadeia leve da miosina 10 nm Actina Complexo de troponina I C T Tropomiosina – Ca2+ (A) (B) + Ca2+ Figura 16-36 Controle da contração muscular esquelética pela troponina. (A) Um filamento delgado de uma célula muscular esquelética mostrando as posições da tropomiosina e da troponina sobre o filamento de ac- tina. Cada molécula de tropomiosina possui sete regiões regularmente espaçadas com sequência semelhante de aminoácidos, tendo sido sugerido que cada uma possua capacidade de se ligar a uma subunidade de actina sobre o filamento. (B) Imagem de microscopia crioeletrônica reconstruída de um filamento de actina, mostrando a posi- ção relativa de uma fita de tropomiosina sobreposta na presença (roxo) ou ausência (lilás) de cálcio. (A, adaptado de G.N. Phillips, J.P. Fillers e C. Cohen, J. Mol. Biol. 192:111–131, 1986. Com permissão de Academic Press; B, adaptado de C. Xu et al., Biophys. J. 77: 985–992, 1999. Com permissão de Elsevier.) Figura 16-37 A contração do músculo liso. (A) Sob estimulação muscular devido à ativação de receptores de superfície, o Ca21 liberado no citoplasma a partir do re- tículo sarcoplasmático (RS) liga-se à calmo- dulina (ver Figura 15-29). A calmodulina ligada ao Ca21 liga-se, então, à cinase da cadeia leve da miosina (MLCK), que fosfo- rila a cadeia leve da miosina, estimulando sua atividade. A miosina não muscular é regulada pelo mesmo mecanismo (ver Figura 16-39). (B) Células de músculo liso em uma seção transversal da parede intes- tinal de gato. A camada externa do mús- culo liso é orientada com o eixo longo de suas células, estendendo-se paralelamente ao longo do comprimento do intestino e, sob contração, provocará o encurtamento do intestino. A camada interna é orientada circularmente em torno do intestino e, quando contraída, fará o intestino se tornar mais estreito. A contração de am- bas as camadas empurra o material atra- vés do intestino, em um movimento seme- lhante ao que ocorre ao apertarmos um tubo de pasta de dentes. (C) Um modelo para o aparelho contrátil em uma célula do músculo liso, com feixes de filamentos contráteis contendo actina e miosina (vermelho) orientados obliquamente em relação ao eixo longitudinal da célula. Sua contração encurta bastante a célula. Neste diagrama, os ângulos dos feixes estão exa- gerados para ilustrar esquematicamente o efeito da contração. Além disso, apenas alguns dos muitos feixes estão ilustrados. (B, cortesia de Gwen V. Childs.) Ca2+ Ca2+/calmodulina (A) (B) (C) Calmodulina+ Célula muscular lisa relaxada Célula muscular lisa contraída ATP Retículo sarcoplasmático Camada internaCamada externa Cinase da cadeia leve da miosinaCinase da cadeia leve da miosina ativa FOSFORILAÇÃO DA CADEIA LEVE DA MIOSINA CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 923 (MLCK), desse modo, induzindo a fosforilação de uma das duas cadeias leves da miosina do músculo liso. Quando a cadeia leve é fosforilada, a cabeça da miosina pode interagir com filamentos de actina e provocar a contração; quando ela é desfosforilada, as cabeças de miosina tendem a dissociar da actina, tornando-se inativas. Os eventos de fosforilação que regulam a contração das células musculares lisas ocorrem de forma relativamente lenta, e a contração máxima frequentemente requer quase um segundo (em contraponto aos poucos milissegundos necessários à contração de uma célula muscular esquelética). No entanto, uma rápida ativação da contração não é importante para a musculatura lisa: sua miosina II hidrolisa ATP cerca de dez vezes mais lentamente que a miosina do músculo esquelético, produzindo um ciclo lento de alterações conformacionais da miosina que resulta em contração lenta. O músculo cardíaco é uma delicada peça de engenharia O coração é o músculo corporal que trabalha mais arduamente, contraindo cerca de 3 bilhões (3 3 109) de vezes ao longo da vida de um ser humano (Animação 16.6). Várias isoformas específicas de miosina muscular cardíaca e actina muscular cardíaca são ex- pressas nas células do coração. Mesmo pequenas alterações nestas proteínas cardíacas contráteis específicas – alterações que não causariam quaisquer consequências visíveis em outros tecidos – podem causar doenças cardíacas graves (Figura 16-38). O aparato contrátil cardíaco normal parece ser uma máquina tão delicada e fina- mente ajustada que uma mínima alteração em qualquer peça pode ser suficiente para levar a um gradual desgaste e destruição após vários anos de movimentos repetitivos. A miocardiopatia hipertrófica familiar é uma causa comum de morte súbita em atletas jovens. Ela é uma condição genética hereditária dominante que afeta aproximadamente dois em cada mil indivíduos e está associada ao aumento do tamanho do coração, vasos coronários anormalmente pequenos e distúrbios no ritmo cardíaco (arritmias cardía- cas). A causa dessa condição é uma das mais de 40 pequenas mutações de ponto nos genes que codificam a cadeia pesada de miosina b cardíaca (quase todas provocando alterações no domínio motor ou próximo a ele) ou uma entre as aproximadamente 12 mutações descritas em outros genes que codificam proteínas contráteis – como as ca- deias leves da miosina, a troponina cardíaca e a tropomiosina. As pequenas mutações troca de sentido no gene da actina cardíaca causam outro tipo de doença do coração, denominada miocardiopatia dilatada, que também pode resultar em insuficiência car- díaca precoce. A actina e a miosina desempenham uma série de funções em células não musculares A maioria das células não musculares contém pequenas quantidades de feixes de actina- -miosina II contráteis que se formam transitoriamente sob condições específicas e são muito menos organizados do que as fibras musculares. Os feixes contráteis não muscu- lares são regulados pela fosforilação da miosina, e não pelo mecanismo da troponina (Figura 16-39). Esses feixes contráteis fornecem suporte mecânico para as células, por exemplo, reunindo-se em fibras de tração corticais que conectam a célula à matriz ex- tracelular através de adesões focais ou formando um cinturão circunferencial que envolve a célula epitelial e conecta-a às células adjacentes através de junções aderentes (discuti- das no Capítulo 19). Conforme descrito no Capítulo 17, a actina e a miosina II presentes no anel contrátil geram a força para a citocinese,a fase final da divisão celular. Finalmen- te, como discutiremos adiante, os feixes contráteis também contribuem para a adesão e para o movimento de migração das células. As células não musculares também expressam uma grande família de outras proteínas miosina, que têm diversas estruturas e funções na célula. Após a descober- ta da miosina muscular convencional, um segundo membro da família foi encontrado na ameba de água doce Acanthamoeba castellanii. Essa proteína tinha uma estrutura de cauda diferente e parecia funcionar como um monômero e foi, portanto, nomeada miosina I (referência a uma cabeça). A miosina muscular convencional foi renomeada para miosina II (referência a duas cabeças). Subsequentemente, muitos outros tipos de miosinas foram descobertos. A cadeia pesada geralmente apresenta um domínio motor Figura 16-38 Efeito, no coração, de uma pequena mutação na miosina cardíaca. À esquerda, o coração normal de um camundongo com 6 dias de idade. À direita, o coração de um camundongo homozigoto para uma mutação pontual no gene da miosina cardíaca que provo- ca a mudança da Arg 403 para Gln. As setas indicam os átrios. No coração do camundongo com a mutação na miosina cardíaca, ambos os átrios estão bastante aumentados (hipertróficos). Este camun- dongo morre poucas semanas após seu nascimento. (De D. Fatkin et al., J. Clin. Invest. 103:147–153, 1999. Com permis- são de The American Society for Clinical Investigation.) 924 PARTE IV Organização interna da célula de miosina facilmente reconhecível na região N-terminal, e, então, diverge amplamente, apresentando uma grande variedade de domínios de cauda C-terminal (Figura 16-40). A família da miosina inclui uma série de membros de uma cabeça e de duas cabeças que são aproximadamente relacionados da mesma forma com a miosina I e com a miosina II, e a nomenclatura atual reflete aproximadamente a ordem de suas descobertas (da miosina III até pelo menos a miosina XVIII). As comparações entre as sequências de di- versos eucariotos indicam que existem pelo menos 37 famílias distintas de miosina den- tro dessa superfamília. Com uma única exceção, todas as miosinas se movem em direção à extremidade mais (1) do filamento de actina, no entanto suas velocidades de movi- mento são diferentes. A exceção é a miosina VI, que se move rumo à extremidade menos (2) do filamento. As caudas das miosinas (e as caudas das proteínas motoras em geral) aparentemente sofreram diversificação durante a evolução para permitir às proteínas a ligação a outras subunidades e para que possam interagir com diferentes cargas. Algumas miosinas são encontradas apenas nas plantas, e algumas são encontradas apenas em vertebrados. A maioria, no entanto, está presente em todos os eucariotos, sugerindo que as miosinas surgiram cedo na evolução eucariótica. O genoma humano contém aproximadamente 40 genes da miosina. Nove das miosinas humanas são expres- sas predominante ou exclusivamente nas células pilosas do ouvido interno, e mutações em cinco delas são conhecidamente causadoras de surdez hereditária. Essas miosinas extremamente especializadas são importantes para a construção e função dos belos e complexos feixes de actina encontrados nos estereocílios que se estendem a partir da superfície apical destas células (ver Figura 9-51); essas protrusões celulares vibram em resposta ao som e convertem ondas sonoras em sinais elétricos. Cadeias leves de miosina FOSFORILAÇÃO POR MLCK ESTADO INATIVO (cadeias leves não fosforiladas) ESTADO ATIVO: (cadeias leves fosforiladas) ASSOCIAÇÃO ESPONTÂNEA Sítio de ligação à actina Cauda de miosina liberada Filamento bipolar de 15 a 20 moléculas (A) (B) 1 �m ATP ADP P P Figura 16-39 A fosforilação da cadeia leve e a regulação da polimerização da miosina II em filamentos espessos. (A) A fosforilação controlada pela enzima cinase da cadeia leve da miosina (MLCK) de uma das duas cadeias leves (a chamada cadeia leve reguladora, mostrada em azul-claro) em miosina II não muscular em um tubo de ensaio leva a, pelo menos, duas consequências: provoca uma mudança conformacional na cabeça da miosina, expondo seu sítio de li- gação com actina, e libera a cauda de miosina de uma “placa de adesão” da cabeça da miosina, permitindo a associação das moléculas de miosina sob a forma de filamentos espessos, curtos e bipolares. O músculo liso é regulado pelo mesmo mecanismo (ver Figura 16-37). (B) Fotomicrografia eletrônica de filamentos curtos de miosina II corados negativamente que sofreram indução de associação in vitro pela fosforilação de suas cadeias leves. Esses filamentos de miosina II são muito menores do que os filamentos encontrados nas células musculares esqueléticas (ver Figura 16-27). (B, cortesia de John Kendrick-Jones.) Figura 16-40 Membros da superfamília da miosina. Uma comparação dos do- mínios estruturais das cadeias pesadas de alguns tipos de miosina. Todas as miosinas compartilham domínios motores similares (mostrados em verde-escuro), mas apre- sentam caudas C-terminais (em verde-cla- ro) e extensões N-terminais (em azul-claro) muito diversas. À direita estão esquemas da estrutura molecular de membros desta família. Muitas miosinas formam dímeros, com dois domínios motores por molécula, mas algumas (como é o caso das miosinas I, III e XIV) parecem atuar como monôme- ros, contendo um único domínio motor. A miosina VI, apesar de se apresentar estru- turalmente similar aos outros membros da família, é a única que se move em direção à extremidade menos (2) (em vez de mo- ver-se em direção à extremidade mais [1]) sobre um filamento de actina. A pequena inserção existente no interior do seu domí- nio motor de cabeça, específica desta mio- sina, é provavelmente a responsável pela mudança de direção no movimento. I II III V VI VII XI XIV Estrutura geral Tipo de miosinaDomínio motor 1.000 aminoácidos CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 925 As funções da maioria das miosinas ainda não foram determinadas, mas várias dessas moléculas já foram bem caracterizadas. As proteínas miosina I frequentemente contêm um segundo sítio de ligação à actina ou um sítio de ligação à membrana em suas caudas, e estão geralmente envolvidas na organização intracelular – incluindo a protru- são de estruturas ricas em actina na superfície da célula, tais como as microvilosidades (ver Painel 16-1 e Figura 16-4), e a endocitose. A miosina V é uma miosina de duas ca- beças que apresenta uma grande amplitude de passo (Figura 16-41A) e está envolvi- da no transporte das organelas ao longo dos filamentos de actina. Em contraste com as proteínas motoras de miosina II, que trabalham em conjunto e estão conectadas apenas transitoriamente aos filamentos de actina para não interferirem umas nas outras, a mio- sina V move-se continuamente, ou processivamente, ao longo dos filamentos de actina sem se dissociar. As funções da miosina V são bem estudadas na levedura Saccharomyces cerevisiae, que sofre um padrão de crescimento e divisão típico chamado de brotamento. Os filamentos de actina na célula-mãe apontam em direção ao broto, onde a actina está concentrada em regiões nas quais o crescimento da parede celular está ocorrendo. As proteínas motoras miosina V transportam uma vasta gama de cargas – incluindo mRNA, retículo endoplasmático e vesículas secretoras – ao longo dos filamentos de actina, para o interior dos brotos. Além disso, a miosina V medeia a distribuição correta das organe- las, como peroxissomos e mitocôndrias, entre as células mãe e filha (ver Figura 16-41B). Resumo Usando o seu domínio do pescoço como um braço de alavanca, as miosinas convertem a hidrólise de ATP em trabalho mecânico possibilitando seu movimento gradual sobre os fi- lamentos de actina. O músculo esquelético é composto por miofibrilas contendo milhares de sarcômeros formados a partir de arranjos altamente organizados de filamentos de acti- na e de miosina II, juntamente com diversas proteínas acessórias. A contraçãomuscular é estimulada pelo cálcio, que provoca o movimento da proteína tropomiosina associada ao filamento de actina, revelando sítios de ligação à miosina e permitindo que os filamentos deslizem uns sobre os outros. O músculo liso e as células não musculares possuem feixes con- tráteis de actina e miosina menos organizados, que são regulados por fosforilação da cadeia leve da miosina. A miosina V transporta cargas se deslocando sobre os filamentos de actina. MICROTÚBULOS Os microtúbulos são estruturalmente mais complexos do que os filamentos de actina, mas eles também são altamente dinâmicos e desempenham funções comparativamente diver- sas e importantes para a célula. Os microtúbulos são polímeros da proteína tubulina. A subunidade de tubulina é, em si, um heterodímero formado por duas proteínas globulares intimamente relacionadas chamadas a-tubulina e b-tubulina, cada uma composta por 445 a 450 aminoácidos, sendo as subunidades firmemente unidas por ligações não covalentes (Figura 16-42A). Essas duas proteínas tubulina são encontradas apenas nesse heterodíme- ro, e cada monômero a ou b tem um sítio de ligação para uma molécula de GTP. O GTP liga- do à a-tubulina encontra-se fisicamente ligado à interface do dímero e nunca é hidrolisado ou substituído; ele pode, portanto, ser considerado parte integrante da estrutura do hetero- dímero de tubulina. O nucleotídeo na b-tubulina, em contraste, pode estar sob a forma de GTP ou GDP e é passível de substituição no dímero de tubulina solúvel (não polimerizado). Figura 16-41 A miosina V transporta cargas sobre os filamentos de acti- na. (A) O braço de alavanca da miosina V é longo, permitindo-lhe dar um passo maior do que o dado pela miosina II, sobre o filamento de actina (ver Figura 16-29). (B) A miosina V transporta cargas e orga- nelas ao longo dos filamentos de actina, neste exemplo, ela está transportando uma mitocôndria para o broto em cresci- mento de uma célula de levedura. Miosina V Miosina V Cabeça Alcance do braço de alavanca de 30 a 40 nm Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) Filamento de actina Actina (A) (B) Mãe Brotamento 926 PARTE IV Organização interna da célula A tubulina ocorre em todas as células eucarióticas, podendo ser encontrada sob múltiplas isoformas. As tubulinas de levedura e de seres humanos apresentam uma simi- laridade de 75% em nível da sequência de aminoácidos. Nos mamíferos há pelo menos seis formas de a-tubulina e um número semelhante de b-tubulinas, cada uma codifi- cada por um gene diferente. As diferentes formas de tubulina são bastante similares e geralmente copolimerizam em microtúbulos mistos em testes in vitro. No entanto, elas podem ter distribuição distinta nas células e tecidos e executar funções sutilmente dife- rentes. Como um exemplo, as mutações em um gene de uma b-tubulina humana espe- cífica dão origem a um transtorno de paralisia do movimento ocular devido à perda da função do nervo óptico. Numerosas doenças neurológicas humanas têm sido associadas a mutações específicas nos diferentes genes de tubulina. Os microtúbulos são tubos ocos compostos a partir de protofilamentos Um microtúbulo é uma estrutura cilíndrica oca construída a partir de 13 protofilamen- tos paralelos, cada um composto de heterodímeros de ab-tubulina empilhados cabeça à cauda e enoveladas em forma de um tubo (Figura 16-42B-D). A polimerização do micro- túbulo gera dois novos tipos de contatos entre proteínas. Ao longo do eixo longitudinal do microtúbulo, o “topo” de uma molécula de b-tubulina forma uma interface com a “base” de uma molécula de a-tubulina da subunidade heterodimérica adjacente. Essa interface assemelha-se bastante à interface que mantém os monômeros a e b unidos na subunida- de dimérica e apresenta uma alta energia de ligação. Perpendicularmente a essas intera- ções, são formados contatos laterais entre protofilamentos vizinhos. Nessa dimensão, os Heterodímero de tubulina (= subunidade de microtúbulo) Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) Protofilamento Microtúbulo Lúmen (C)(B) 50 nm �-tubulina (A) �-tubulina (D) 50 nm (E) 10 nm � � GTP Figura 16-42 Estrutura de um microtúbulo e de suas subunidades. (A) A subunidade de cada protofilamento é um heterodímero de tubulina, formado por um par de monômeros de a e b-tubulina ligados com alta afinidade. A molécula de GTP no monômero de a-tubulina está tão fortemente associada que pode ser considerada como parte integrante da proteína. A molécula de GTP no monômero de b-tubulina, no entanto, apresenta uma associação de menor afinidade e desempenha papel importante na dinâmica do filamento. Ambos os nucleotídeos estão apresentados em vermelho. (B) Uma subunidade de tubulina (heterodímero ab) e um protofilamento estão apresentados esquematicamente. Cada protofilamento consiste em diversas subunidades adjacentes com a mes- ma orientação. (C) O microtúbulo é um cilindro oco rígido formado por 13 protofilamentos alinhados paralelamente. (D) Um segmento curto de microtúbulo, visto em microscopia eletrônica. (E) Fotomicrografia eletrônica de uma secção transversal de um microtúbulo mostrando um anel de 13 protofilamentos distin- tos. (D, cortesia de Richard Wade; E, cortesia de Richard Linck.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 927 principais contatos laterais ocorrem entre monômeros de mesmo tipo (a−a e b−b). Como os contatos longitudinais e laterais são repetidos durante a polimerização, um leve desem- parelhamento entre os contatos laterais dá origem à rede de microtúbulos helicoidal. Visto que múltiplos contatos nesse arranjo mantêm unidas a maior parte das subunidades de um microtúbulo, a adição ou a perda de subunidades ocorre quase exclusivamente nas ex- tremidades do microtúbulo (ver Figura 16-5). Esses contatos múltiplos entre subunidades fazem os microtúbulos serem rígidos e difíceis de serem flexionados. O comprimento de persistência de um microtúbulo é de vários milímetros, o que os torna os elementos estru- turais mais rijos e resistentes encontrados na maioria das células animais. Cada um dos protofilamentos de um microtúbulo é polimerizado a partir de su- bunidades que apontam para a mesma direção, sendo os protofilamentos, eles próprios, alinhados paralelamente (ver Figura 16-42). Portanto, a própria rede de microtúbulos tem uma polaridade estrutural distinta, com as a-tubulinas expostas na extremidade menos e as b-tubulinas expostas na extremidade mais. Da mesma forma que para os filamentos de actina, a orientação regular e paralela de suas subunidades dá origem à polaridade estrutural e dinâmica dos microtúbulos (Figura 16-43), com as extremidades mais (1) crescendo e encolhendo mais rapidamente. Microtúbulos sofrem instabilidade dinâmica A dinâmica dos microtúbulos, como a dos filamentos de actina, é profundamente in- fluenciada pela ligação e hidrólise de nucleotídeos – neste caso, GTP. A hidrólise do GTP ocorre apenas na subunidade de b-tubulina do dímero de tubulina. Ela procede muito lentamente em subunidades livres de tubulina, mas é acelerada quando essas subunida- des estão incorporadas em microtúbulos. Após a hidrólise do GTP, o grupo fosfato livre é liberado e o GDP permanece ligado à b-tubulina na rede dos microtúbulos. Assim, como no caso dos filamentos de actina, dois tipos diferentes de estruturas de microtúbulos podem existir, uma com a “forma T” do nucleotídeo ligada (GTP) e uma com a “forma D” ligada (GDP). A energia da hidrólise de nucleotídeos é armazenada como deforma- ção elástica na rede de polímero, tornando a variação de energia livre para a dissociação de uma subunidade a partir da forma D do polímero mais negativa do que a variação de energia livre para a dissociação de uma subunidade da forma T do polímero. Como consequência, a razão entre koff/kon da tubulina GDP (sua concentração crítica [Cc(D)]) é muito maior do que a da tubulina GTP. Desse modo, sob condições fisiológicas, a tubuli- na GTP tende a polimerizar e a tubulina GDPtende a despolimerizar. As velocidades relativas de hidrólise de GTP e adição de tubulina definem se as subunidades de tubulina na extremidade de um microtúbulo estarão sob a forma T ou D. Se a taxa de adição de subunidades for alta – e, portanto, o filamento está crescendo rapidamente –, é provável que uma nova subunidade seja adicionada ao polímero antes que o nucleotídeo da subunidade anteriormente adicionada seja hidrolisado. Nesse caso, a extremidade do polímero permanecerá sob a forma T, originando uma capa de GTP. En- tretanto, se a taxa de adição de subunidades é baixa, a hidrólise poderá ocorrer antes da adição da próxima subunidade, e a extremidade do filamento se apresentará sob a forma D. Se subunidades de tubulina GTP são adicionadas à extremidade do microtúbulo a uma taxa semelhante à taxa de hidrólise de GTP, a hidrólise poderá, eventualmente, “alcançar” a velocidade de adição de subunidades e transformar a extremidade em uma forma D. Essa transformação é súbita e aleatória, seguindo uma determinada probabilidade por unidade de tempo, que depende da concentração de subunidades livres de tubulina GDP. Suponha que a concentração de tubulina livre seja intermediária entre a concentra- ção crítica de uma extremidade de forma T e a concentração crítica de uma extremidade de forma D (i.e., acima da concentração necessária para a adição da forma T, mas abaixo daquela para a forma D). Nesse momento, qualquer extremidade que esteja sob a forma T sofrerá crescimento, ao passo que qualquer extremidade que esteja sob a forma D apre- Figura 16-43 O crescimento preferencial de microtúbulos ocorre na extremidade mais (1). Os microtú- bulos crescem mais rapidamente em uma das extremidades, em comparação à extremidade oposta. Um feixe estável de microtúbulos obtido a partir do núcleo de um cílio (chamado um axonema) foi incubado durante um curto período de tempo com subunidades de tubulina sob condições de polimerização. Os microtúbulos crescem mais rapidamente na extremidade mais (1) do feixe, a extremidade que se encontra na parte superior desta fo- tomicrografia. (Cortesia de Gary Borisy.) Microtúbulos recém-formados Extremidade mais (+) Extremidade menos (-) 1 �m Axonema 928 PARTE IV Organização interna da célula sentará dissociação e consequente encurtamento. Em um determinado filamento, uma extremidade sob a forma T poderá crescer durante um dado período de tempo, mas então repentinamente mudar para a forma D e começar a encurtar de forma rápida, mesmo con- siderando que a concentração de subunidades livres tenha se mantido constante. Algum tempo depois, este filamento pode readquirir a forma T e começar a crescer novamente. Esta rápida interconversão entre um estado de crescimento e de encurtamento, sob uma concentração uniforme de subunidades livre, é chamada instabilidade dinâmica (Figu- ras 16-44A e 16-45; ver Painel 16-2). A mudança do crescimento para o encurtamento é chamada de catástrofe, enquanto a mudança para o crescimento é chamada de resgate. Em uma população de microtúbulos, em um dado instante, algumas extremidades estão sob a forma T ao passo que outras se encontram sob a forma D, em uma razão dependente da taxa de hidrólise e da concentração de subunidades. In vitro, a diferença estrutural entre as extremidades de forma T e as extremidades de forma D é marcante. As subunidades de tubulina com GTP ligado ao monômero b produzem protofilamentos retos que interagem entre si por contatos laterais fortes e regulares. A hidrólise de GTP para GDP está associada, no entanto, a uma discreta alteração conformacional na pro- teína, que provoca uma flexão nos protofilamentos (Figura 16-44B). Em um microtúbu- lo em rápido crescimento, a capa de GTP parece restringir a curvatura dos protofilamen- tos, e as extremidades parecem lineares. No entanto, quando as subunidades terminais têm seus nucleotídeos hidrolisados, essa restrição é abolida, e os protofilamentos curvos afastam-se. Essa liberação cooperativa da energia de hidrólise armazenada no arranjo de microtúbulos resulta em uma rápida dissociação dos protofilamentos curvos, podendo ser observados oligômeros curvos de tubulina contendo GDP nas proximidades dos mi- crotúbulos em processo de despolimerização (Figura 16-44C). As funções dos microtúbulos são inibidas por fármacos estabilizadores e desestabilizadores dos polímeros Os compostos químicos que prejudicam a polimerização ou a despolimerização dos mi- crotúbulos são ferramentas poderosas para a investigação do papel desses polímeros em células. Enquanto a colchicina e o nocodazol interagem com subunidades de tubulina e levam à despolimerização dos microtúbulos, o paclitaxel se liga aos microtúbulos estabi- lizando-os, o que leva a um aumento líquido da polimerização da tubulina (ver Tabela 16- 1). Os fármacos desse tipo provocam um rápido e intenso efeito sobre a organização dos microtúbulos das células vivas. Tanto os fármacos de despolimerização dos microtúbulos (como o nocodazol) quanto os fármacos de polimerização de microtúbulos (como o pacli- taxel) matam preferencialmente as células em divisão, visto que microtúbulos dinâmicos são essenciais para o correto funcionamento do fuso mitótico (discutido no Capítulo 17). Alguns desses fármacos matam de maneira eficiente certos tipos de células tumorais em pacientes humanos, apesar de apresentarem um determinado grau de toxicidade para as células normais que apresentam uma alta taxa de divisão, como é o caso das células da medula óssea, do intestino e dos folículos pilosos. O paclitaxel, especificamente, tem sido amplamente utilizado no tratamento de câncer de mama e de pulmão, com frequência atingindo sucesso no tratamento de tumores resistentes a outros agentes quimioterápicos. Um complexo proteico contendo g-tubulina promove a nucleação dos microtúbulos Visto que a formação de um microtúbulo requer a interação de vários heterodímeros de tubulina, a concentração das subunidades de tubulina necessária para a nucleação espontânea de microtúbulos é muito alta. Portanto, a nucleação dos microtúbulos re- quer a ajuda de outros fatores. Enquanto a e b-tubulinas são unidades fundamentais dos microtúbulos, outro tipo de tubulina, chamado g-tubulina, está presente em quantida- des muito menores do que a e b-tubulina e está envolvido na nucleação do crescimento dos microtúbulos em diferentes organismos, que variam de leveduras a seres humanos. Os microtúbulos são geralmente nucleados a partir de uma localização intracelular específica conhecida como um centro organizador dos microtúbulos (MTOC) onde g-tubulina é encontrada em maior concentração. A nucleação depende em muitos casos do complexo do anel da g-tubulina (g-TuRC). Dentro desse complexo, duas proteínas CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 929 Crescimento rápido com extremidade protegida por GTP Perda acidental da capa de GTP Encurtamento rápido Reaquisição da capa de GTP Crescimento rápido com extremidade protegida por GTP etc. 50 nmDímero de GTP-tubulina � � GTP que pode ser substituído Protofilamento linear A HIDRÓLISE DE GTP ALTERA A CONFORMAÇÃO DA SUBUNIDADE E ENFRAQUECE AS LIGAÇÕES NO POLÍMERO DESPOLIMERIZAÇÃO SUBSTITUIÇÃO GDP-GTP (B) (A) (C) CRESCIMENTO ENCURTAMENTO CATÁSTROFE RESGATE Capa de GTP Região menos estável do microtúbulo contendo dímeros de GDP-tubulina Protofilamento curvado Dímero de GDP-tubulina GTP GTP GDPGDP GDPGDP GDP GDP GTP GTP GTP Figura 16-44 Instabilidade dinâmica devido a diferenças estruturais entre as extremidades do microtúbulo que estão sob crescimento e encurta- mento. (A) Se a concentração de tubulina livre em solução está entre as concentrações críticas das formas ligadas a GTP e a GDP, uma extremidade individual de um microtúbulo pode sofrer transições entre um estado de crescimento e um estado de encurtamento. Um microtúbulo em crescimento possui subunidades com GTP em sua extremidade, formando uma proteção, ou capa, de GTP. Se a hidrólisede nucleotídeos ocorre mais rapidamente do que a adição de subuni- dades, essa proteção é perdida, e o microtúbulo começa a sofrer encurtamento, em um evento denominado “catástrofe”. No entanto, subunidades com GTP ainda podem ser adicionadas à extremidade que está sob encurtamento e, se inseridas subunidades suficientes para formar uma nova capa, o microtúbulo retoma o crescimento em um evento chamado de “resgate”. (B) Modelo para as consequências estruturais da hidrólise de GTP na estrutura do microtúbulo. A adição de subunidades de tubulina contendo GTP à extremidade de um protofilamento provoca o crescimento linear deste, que poderá facilmente adotar a forma da parede cilíndrica do microtúbulo. A hidrólise de GTP, após a polimerização, modifica a conformação das subunidades e tende a forçar uma flexão do protofilamento, tornando-o menos eficiente na formação da parede do microtúbulo. (C) Em um microtúbulo intacto, protofilamentos formados de subunidades com GDP são forçados a adotar uma conformação linear devido à existência de muitas ligações laterais dentro da parede do microtúbulo, o que leva à formação de uma capa estável de subunidades contendo GTP. A perda da capa de GTP, no entanto, permite o relaxamento dos protofilamentos com GDP que adquirem a conformação mais curvada. Isso leva a uma disrupção progressiva do microtúbulo. Acima dos desenhos que esquematizam microtúbulos em crescimento e em encurtamento, fotomicrografias eletrônicas mostram microtúbulos reais em cada um desses dois estados. Observe particularmente os protofilamentos curvados de subunidades de GDP que estão desintegrando-se na extremidade do microtúbulo em encurtamento. (C, de E.M. Mandelkow, E. Mandelkow e R.A. Milligan, J. Cell Biol. 114:977–991, 1991. Com permissão de The Rockefeller University Press.) 930 PARTE IV Organização interna da célula acessórias ligam-se diretamente à g-tubulina, juntamente com várias outras proteínas que ajudam a criar um anel espiral de moléculas de g-tubulina, o qual serve como molde para gerar um microtúbulo com 13 protofilamentos (Figura 16-46). Os microtúbulos irradiam a partir do centrossomo nas células animais Muitas células animais têm um único e bem definido MTOC, chamado centrossomo, que está localizado próximo ao núcleo, e a partir do qual os microtúbulos são nucleados nas suas extremidades menos (2), enquanto as extremidades mais (1) apontam para fora e continuamente sofrem aumento e encurtamento, sondando o volume tridimen- sional completo da célula. Um centrossomo geralmente recruta mais de 50 cópias de g-TuRC. Além disso, as moléculas de g-TuRC são encontradas no citoplasma, e os cen- trossomos não são absolutamente necessários para a nucleação de microtúbulos, visto que sua destruição através de um pulso de laser não impede que ocorra a nucleação dos microtúbulos em outras partes da célula. Uma ampla variedade de proteínas com capa- cidade de ancoragem do g-TuRC no centrossomo já foi identificada, mas os mecanismos que ativam a nucleação dos microtúbulos em MTOCs e em outros locais da célula ainda não estão completamente compreendidos. Dois centríolos encontram-se imersos no centrossomo, compondo um par de es- truturas cilíndricas dispostas em ângulos retos, uma em relação à outra, em uma confi- Figura 16-45 A observação direta da instabilidade dinâmica dos microtúbu- los em uma célula viva. Microtúbulos em uma célula epitelial pulmonar de um tritão foram observados após a célula ter sido injetada com uma pequena quanti- dade de tubulina marcada com rodamina. Observe a instabilidade dinâmica dos microtúbulos na borda da célula. Quatro microtúbulos foram indicados individual- mente para facilitar esta observação: cada um deles mostra padrões alternados de crescimento e encurtamento (Animação 16.1). (Cortesia de Wendy C. Salmon e Clare Waterman-Storer.) tempo 0 s 125 s 307 s 669 s 10 �m �-TuSC �-TuSC (A) (B) (C) �-tubulinas Proteínas acessórias Proteínas acessórias no complexo do anel de �-tubulina Representação das sete cópias de �-TuSC na espiral sobreposta Sobreposição na espiral de �-TuSC “Fissura” no microtúbulo �-tubulina �-tubulina �-tubulina Extremidade mais (+) Figura 16-46 Nucleação de microtúbulos pelo complexo do anel da g-tubulina. (A) Duas cópias de g-tubulina associam-se a um par de proteínas acessórias para formar o complexo pequeno de g-tubulina (g-TuSC). Esta imagem foi gerada por microscopia eletrônica de alta resolução de complexos purificados individuais. (B) Sete cópias de g-TuSC associam-se para formar uma estrutura em espiral em que a última g-tubulina se encontra abaixo da primei- ra, resultando em 13 subunidades de y-tubulina expostas em uma orientação circular que corresponde à orientação dos 13 protofilamentos em um microtúbulo. (C) Em muitos tipos de células, as espirais de g-TuSC se associam a proteínas acessórias adicionais para formar o complexo do anel da g-tubulina (g-TuRC), que é capaz de promover a nucleação da extremidade menos (2) de um microtúbulo, como ilustrado. Observe a descontinuidade longitudinal entre dois protofilamentos, que resulta da orientação em espiral das subunidades de g-tubulina. Os microtúbulos geralmente possuem uma dessas “fissuras”, quebrando a uniformidade do empacotamento helicoidal de protofila- mentos. (A e B, de J.M. Kollman et al., Nature 466:879–883, 2010. Com permissão de Macmillan Publishers Ltd.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 931 guração em forma de L (Figura 16-47). Um centríolo consiste em um arranjo cilíndrico de microtúbulos curtos e modificados, dispostos em forma de barril e apresentando uma impressionante simetria nonamérica (Figura 16-48). Juntamente com um grande nú- mero de proteínas acessórias, os centríolos organizam o material pericentriolar, onde ocorre a nucleação dos microtúbulos. Conforme descrito no Capítulo 17, os centrosso- mos duplicam-se e dividem-se antes da mitose, cada metade contendo um par de centrí- olos duplicados. Os dois centrossomos se movem para lados opostos do núcleo no início da mitose e originam os dois pólos do fuso mitótico (ver Painel 17-1). A organização dos microtúbulos varia muito entre diferentes espécies e tipos de células. Em leveduras de brotamento, os microtúbulos são nucleados em um MTOC que está inserido no envelope nuclear, sob a forma de uma pequena estrutura multicamada denominada corpo polar do fuso, que é também encontrada em outros fungos e diato- máceas. As células de plantas superiores parecem nuclear microtúbulos em locais distri- buídos por todo o envelope nuclear e no córtex celular. Nem os fungos e nem a maioria + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + + Regiões de nucleação (complexos em anel de �-tubulina) Par de centríolos (A) (B) (C) Microtúbulos crescendo a partir do complexo em anel de �-tubulina do centrossomo Material pericentriolar Figura 16-47 O centrossomo. (A) O centrossomo é o principal MTOC nas células animais. Localizado no citoplas- ma, próximo ao núcleo, ele consiste em uma matriz amorfa de proteínas fibrosas às quais os complexos em anel da g-tubulina que irão nuclear o crescimento de microtúbulos estão ligados. Essa matriz é organizada por um par de centríolos, conforme descrito no texto. (B) Um centrossomo com microtúbulos ligados. A extremidade menos (2) de cada microtúbulo está inserida no centrossomo, tendo crescido a partir de um complexo em anel da g-tubulina, ao passo que a extremidade mais (1) de cada microtúbulo encontra-se livre no citoplasma. (C) Em uma imagem re- construída de MTOC de uma célula de C. elegans, pode ser observado um denso emaranhado de microtúbulos que emana de um centrossomo. (C, de E.T. O’Toole et al., J. Cell Biol. 163:451–456, 2003. Com permissão dos autores.) Figura 16-48 Um par de centríolos no centrossomo. (A) Uma fotomicrografia eletrônica de um corte fino de um centros- somo isolado mostrando o centríolo-mãe com seus apêndices distais e o centríolo- -filhoadjacente, que se formou através de um evento de duplicação durante a fase S (ver Figura 17-26). No centrossomo, um par de centríolos está rodeado por uma matriz densa de material pericentriolar a partir da qual ocorre a nucleação dos microtúbulos. Os centríolos também atuam como corpos basais para a nucleação dos axonemas ciliares (ver Figura 16-68). (B) Fotomicrografia eletrônica de um corte transversal através de um centríolo no córtex de um protozoário. Cada centríolo é composto por nove conjuntos de trios de microtúbulos dispostos sob a forma de um cilindro. (C) Cada trio contém um microtúbulo completo (um microtúbulo A) fusionado a dois microtúbulos incompletos (os microtúbulos B e C). (D) A proteína centriolar SAS-6 forma um dímero super- torcido. Nove dímeros SAS-6 podem asso- ciar-se para formar um anel. Localizado no núcleo da estrutura em forma de carretel, acredita-se que o anel SAS-6 seja responsá- vel pela simetria nonamérica do centríolo. (A, de M. Paintrand, et al. J. Struct. Biol. 108:107, 1992. Com permissão de Else- vier; B, cortesia de Richard Linck; D, corte- sia de Michel Steinmetz.) A B C Trio de microtúbulos Apêndices distais (A) (C) (B) Centríolo-mãe Centríolo-filho Material pericentriolar Dímero de SAS-6 1 2 3 4 56 7 8 9 (D) 932 PARTE IV Organização interna da célula das células vegetais contêm centríolos. Apesar dessas diferenças, todas essas células pa- recem usar g-tubulina para nuclear seus microtúbulos. Em células animais em cultura, a configuração semelhante a uma estrela dos mi- crotúbulos é robusta, com extremidades mais (1), dinâmicas, apontando para a peri- feria da célula e extremidades menos (2), estáveis, recolhidas próximo ao núcleo. O sistema de microtúbulos que irradia a partir do centrossomo atua como um aparelho que vigia os limites celulares e posiciona o centrossomo na região central da célula. Mes- mo em um fragmento isolado de células sem o centrossomo, microtúbulos dinâmicos organizam-se em um arranjo em forma de estrela com as extremidades menos dos mi- crotúbulos agrupadas no centro do arranjo devido a proteínas de ligação à extremidade menos (Figura 16-49). Essa capacidade que o citoesqueleto dos microtúbulos possui de localizar o centro da célula estabelece um sistema geral coordenado, que é, então, utili- zado para posicionar as diferentes organelas no interior da célula. As células altamente especializadas, com morfologias complexas, como os neurônios, as células musculares e as células epiteliais devem utilizar mecanismos adicionais de medida no estabelecimen- to de seus sistemas coordenados internos mais elaborados. Assim, por exemplo, quando uma célula epitelial forma junções célula-célula e torna-se altamente polarizada, as ex- tremidades menos (2) dos microtúbulos são movidas para uma região próxima à mem- brana plasmática apical. A partir dessa localização assimétrica, um arranjo de microtú- bulos se estende ao longo do eixo do comprimento da célula, com suas extremidades mais (1) voltadas para a superfície basal (ver Figura 16-4). Proteínas de ligação aos microtúbulos modulam a dinâmica e a organização dos filamentos A dinâmica da polimerização dos microtúbulos é muito diferente nas células quando comparada à dinâmica em soluções de tubulina pura. Os microtúbulos em células exi- bem uma velocidade muito superior de polimerização (normalmente 10 a 15 mm/min, em relação a cerca de 1,5 mm/min da tubulina purificada em concentrações semelhan- tes), uma frequência maior de catástrofe, e pausas longas no crescimento dos micro- túbulos, um comportamento dinâmico raramente observado em soluções de tubulina pura. Essas e outras diferenças surgem porque a dinâmica dos microtúbulos no interior das células é regulada por uma ampla variedade de proteínas que se ligam aos dímeros de tubulina ou aos microtúbulos, como resumido no Painel 16-4. As proteínas que se ligam aos microtúbulos são coletivamente chamadas de pro- teínas de associação a microtúbulos (MAPs; do inglês, microtubule-associated proteins). Algumas MAPs podem estabilizar os microtúbulos evitando sua dissociação. Um subgru- po de MAPs também pode mediar a interação de microtúbulos com outros componentes celulares. Esse subgrupo é bastante presente em neurônios, nos quais feixes de microtúbu- los estabilizados formam o centro dos axônios e dos dendritos que se estendem a partir do corpo celular (Figura 16-50). Essas MAPs apresentam pelo menos um domínio de ligação à superfície do microtúbulo e outro que se projeta a partir do microtúbulo. O comprimento do domínio que se projeta pode determinar a distância de empacotamento dos microtúbulos associados pela MAP, como demonstrado em células que foram modificadas para a super- Figura 16-49 Um arranjo de microtú- bulos pode localizar o centro de uma célula. Após a retirada, com o auxílio de uma agulha, de uma parte de uma célula pigmentar de peixe, os microtúbulos presentes no fragmento celular isolado reorganizam-se de tal modo que suas extremidades menos (2) se posicionam na sua região central, no interior de um novo centro organizador de microtúbulos. + + + + + + + + + ++++ + + + + + + + + + + + + + + + ++++ + + + + + + +++ + + + + + + ++ + + Centrossomo contendo um par de centríolos Cortar aqui com uma agulha Célula melanófora Fragmento celular excisado ESPERAR 4 HORAS Novo centro organizador de microtúbulos sem centríolos Fragmento celular com microtúbulos reorganizados + + + + + + + + ++ + + + + + + PAINEL 16-4 Microtúbulos 933 Microtúbulo Dímero �� de tubulina – + – + – + – + – + Cinesina-13 Induz à dissociação e à catástrofe Estatmina Liga-se a subunidades, evita a associação Tau MAP2 Plectina Catanina Quebra microtúbulos MAPs Estabiliza microtúbulos através de ligações laterais Ligação a filamentos intermediários XMAP215 Estabiliza extremidades mais (+) e acelera a associação +TIPs Permanece associado às extremidades mais (+) em crescimento e pode ligá-las a outras estruturas, como membranas �-TuRC Promove a nucleação da polimerização e permanece associado à extremidade menos (–) Centrossomo – + Associação em feixes e interligação MICROTÚBULOS Algumas das principais proteínas acessórias do citoesqueleto de microtúbulos. Excetuando-se as duas classes de proteínas motoras, é ilustrado um exemplo para cada um dos principais tipos de proteínas acessórias. Cada um desses tipos é discutido no texto. No entanto, a maioria das células contém mais de uma centena de proteínas de ligação ao microtúbulo diferentes, e – como ocorre no caso de proteínas associadas à actina – provavelmente existam tipos importantes de proteínas de associação a microtúbulos que ainda não foram identificados. 934 PARTE IV Organização interna da célula produção de diferentes MAPs. As células que superexpressam MAP2, que apresenta longos domínios projetados, formam feixes de microtúbulos estáveis com um amplo espaçamento, ao passo que células que superexpressam tau, uma MAP que apresenta domínios de pro- jeção curtos, formam feixes de microtúbulos empacotados de forma muito mais compacta (Figura 16-51). As MAPs são o alvo de diversas proteínas-cinase e a fosforilação de uma MAP pode controlar tanto sua atividade como seu posicionamento no interior das células. Proteínas de ligação à extremidade mais (1) do microtúbulo modulam as conexões e a dinâmica dos microtúbulos As células contêm inúmeras proteínas que se ligam às extremidades dos microtúbulos e, assim, influenciam sua estabilidade e dinâmica. Essas proteínas podem influenciar a velocidade na qual um microtúbulo muda do estado de crescimento para um estado de encurtamento (a frequência de catástrofes) ou a taxa de mudança de um estado de encurtamento para um estado de crescimento (a frequência de resgates). Por exemplo, membros de uma família de proteínas relacionadas à cinesina, conhecidos como fato- res de catástrofe (ou cinesina-13) ligam-seàs extremidades mais (1) dos microtúbulos e parecem forçar a separação dos protofilamentos, diminuindo a barreira normal de energia de ativação que impede que um microtúbulo adquira a forma caracteristica- mente curvada vista em protofilamentos que se encontram no estado de encurtamento (Figura 16-52). Outra proteína, denominada Nezha ou Patronina, protege as extremida- des menos (2) dos microtúbulos dos efeitos dos fatores de catástrofe. Apesar de terem sido identificadas pouquíssimas proteínas de ligação à extremida- de menos (2) dos microtúbulos, foi identificado um grande subconjunto das MAPs que se encontra enriquecido nas extremidades mais (1) dos microtúbulos. Um exemplo par- ticularmente comum é a XMAP215, que apresenta homólogos próximos em organismos variando das leveduras aos seres humanos. A XMAP215 liga subunidades de tubulina livre e as entrega na extremidade mais (1), promovendo, assim, a polimerização dos microtú- bulos e simultaneamente combatendo a atividade do fator de catástrofe (ver Figura 16-52). Figura 16-50 Posicionamento das MAPs no axônio e nos dendritos de um neurônio. Esta fotomicrogra- fia de imunofluorescência mostra a distribuição da proteína tau (verde) e MAP2 (cor de laranja) em um neurônio do hipocampo em cultura. A coloração de tau está restrita ao axônio (longo e ramificado neste neurônio), ao passo que a coloração de MAP2 está confinada ao corpo celular e a seus dendritos. O anticorpo usado para a detecção de tau liga-se unicamente à tau não fosforilada; a tau fosforilada também está presente nos dendritos. (Cortesia de James W. Mandell e Gary A. Banker.) 10 �m Figura 16-51 Organização dos feixes de microtúbulos pelas MAPs. (A) MAP2 liga-se à lateral do microtúbulo por uma de suas extremidades e estende um longo braço, sob a forma de uma projeção, con- tendo um segundo domínio de ligação ao microtúbulo, em sua outra extremidade. (B) Tau possui um domínio de interligação a microtúbulos mais curto. (C) Fotomi- crografia eletrônica mostrando um corte transversal de um feixe de microtúbulos em uma célula com superexpressão de MAP2. O espaçamento regular dos micro- túbulos (MTs) nesse feixe é consequência do comprimento constante dos braços da MAP2. (D) Corte transversal similar de um feixe de microtúbulos de uma célula superexpressando tau. Nesse caso, o espa- çamento dos microtúbulos é menor e eles encontram-se mais próximos do que em (C), pois tau possui um braço relativamen- te menor. (C e D, cortesia de J. Chen et al., Nature 360:674–677, 1992. Com permis- são de Macmillan Publishers Ltd.) MTs (C) (D) 300 nm 25 nm (A) Microtúbulo MAP2 (B) Microtúbulo Tau CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 935 A fosforilação da XMAP215 durante a mitose inibe sua atividade e altera o equilíbrio de sua competição com fatores de catástrofe. Esse redirecionamento leva ao aumento de até 10 vezes na instabilidade dinâmica de microtúbulos durante a mitose, uma transição que é essencial para a polimerização eficiente do fuso mitótico (discutido no Capítulo 17). Em muitas células, as extremidades menos dos microtúbulos estão estabilizadas pela associação a uma proteína de capeamento ou ao centrossomo, ou então servem como locais de despolimerização dos microtúbulos. As extremidades mais (1), ao con- trário, eficientemente sondam e exploram todo o espaço celular. As proteínas associa- das a microtúbulos denominadas proteínas de busca de extremidades mais (1TIPs, do inglês plus-end tracking proteins) acumulam-se nessas extremidades e parecem ser ra- pidamente transportadas através da célula como passageiras sobre as extremidades de microtúbulos em crescimento rápido, dissociando-se delas assim que o microtúbulo co- meça a sofrer encurtamento (Figura 16-53). Os fatores de catástrofes relacionados à cinesina e a XMAP215 mencionada anterior- mente se comportam como 1TIP e modulam o crescimento e o encurtamento da extremi- dade do microtúbulo a qual estão ligados. Outras 1TIPs controlam o posicionamento dos microtúbulos, ajudando a capturar e estabilizar a extremidade em crescimento do micro- túbulo em alvos celulares específicos, como as células do córtex ou do cinetocoro de um cromossomo mitótico. A EB1 e moléculas a ela relacionadas (pequenas proteínas diméricas altamente conservadas em animais, plantas e fungos) são participantes fundamentais nes- se processo. As proteínas EB1 não se movem ativamente rumo às extremidades mais (1), porém reconhecem uma característica estrutural da extremidade mais (1) em crescimen- to (ver Figura 16-53). Vários dos 1TIPs dependem das proteínas EB1 para o seu acúmulo na extremidade mais (1) e também interagem uns com os outros e com a estrutura dos microtúbulos. Ao ligarem-se à extremidade mais (1), esses fatores permitem que a célula aproveite a energia da polimerização dos microtúbulos para a geração de forças de impulso que podem ser usadas para o posicionamento do fuso, dos cromossomos ou das organelas. Figura 16-52 Efeitos das proteínas que se ligam às extremidades dos microtú- bulos. A transição entre o crescimento e o encurtamento dos microtúbulos é contro- lada nas células por uma ampla variedade de proteínas. Os fatores de catástrofe, como a cinesina-13, um membro da su- perfamília de proteína motoras cinesina, ligam-se às extremidades dos microtúbulos afastando-os, e promovendo, assim, sua despolimerização. Por outro lado, uma MAP, como a XMAP215, estabiliza a extre- midade de um microtúbulo em crescimen- to (XMAP refere-se à proteína associada a microtúbulos de Xenopus, do inglês Xenopus microtubule-associated protein, e o número refere-se à sua massa molecular em quilodáltons). A XMAP215 liga díme- ros de tubulina e os entrega à extremidade mais do microtúbulo, aumentando, dessa forma, a velocidade de crescimento dos microtúbulos e suprimindo catástrofes. XMAP215 Fator de catástrofe (cinesina-13) Frequência de catástrofes suprimida e velocidade de crescimento aumentada Frequência aumentada de catástrofes Capa de GTP na extremidade mais (�) do microtúbulo ESTABILIZAÇÃO DESESTABILIZAÇÃO Figura 16-53 Proteínas 1TIP encon- tradas nas extremidades mais (1) dos microtúbulos em crescimento. (A) Quadros sucessivos de um filme de fluorescência mostrando a borda de uma célula expressando tubulina marcada por fluorescência que é incorporada em micro- túbulos (vermelho), bem como a proteína 1TIP EB1 marcada com uma cor diferente (verde). O mesmo microtúbulo é indicado (asterisco) em quadros sucessivos do filme. Quando o microtúbulo está em crescimen- to (quadros 1, 2), a EB1 está associada à extremidade. Quando o microtúbulo sofre uma catástrofe e começa a encurtar, a EB1 é perdida (quadros 3, 4). A EB1 marcada é readquirida quando o crescimento do microtúbulo é resgatado (quadro 5). Ver Animação 16.8. (B) Na levedura de fissão Schizosaccharomyces pombe, as extre- midades mais (1) dos microtúbulos (em verde) estão associadas a um homólogo de EB1 (em vermelho), em ambos os polos das células em bastão. (A, cortesia de Anna Akhmanova e Ilya Grigoriev; B, cor- tesia de Takeshi Toda.) (A) (B) 5 �m 1 2 3 4 5 936 PARTE IV Organização interna da célula Proteínas de sequestro da tubulina e proteínas de quebra (ou fissão) dos microtúbulos desestabilizam os microtúbulos Tal como acontece com os monômeros de actina, a célula sequestra subunidades de tu- bulina não polimerizadas para manter o conjunto de subunidades ativas em um nível próximo da concentração crítica. Uma molécula da pequena proteína estatmina (tam- bém chamada Op18) liga-se a dois heterodímeros de tubulina e impede sua adição às extremidades dos microtúbulos (Figura 16-54). Assim, a estatmina diminui a concen- tração efetiva das subunidades de tubulina que estão disponíveis para a polimerização (uma ação análoga ao do fármaco colchicina) e aumenta a probabilidade de que um microtúbulo altere seu estado de crescimento para encurtamento. A fosforilação de es- tatmina inibe sua ligaçãoà tubulina e, assim, sinais que causam a fosforilação de es- tatmina podem aumentar a taxa de alongamento de microtúbulos e suprimir a instabi- lidade dinâmica. A estatmina foi relacionada à regulação tanto da proliferação celular quanto da morte celular. Curiosamente, os camundongos que não expressam estatmina apresentam desenvolvimento normal, mas são menos medrosos do que camundongos do tipo selvagem, refletindo o papel da estatmina nos neurônios da amígdala cerebelosa, nos quais ela é normalmente expressa em níveis elevados. O rompimento, ou fissão, é outro mecanismo utilizado pela célula para desestabi- lizar os microtúbulos. Para partir um microtúbulo, 13 ligações longitudinais devem ser quebradas, uma referente a cada um dos protofilamentos. A proteína catanina, assim de- nominada a partir da palavra japonesa para “espada”, consegue realizar esta tarefa (Figura 16-55). A catanina é constituída por duas subunidades, uma subunidade menor, que hi- drolisa ATP e desempenha ativamente a tarefa de quebra, e uma subunidade maior, que direciona a catanina para o centrossomo. A catanina libera os microtúbulos de sua cone- xão ao centro organizador de microtúbulos e acredita-se que também contribua para a rá- pida despolimerização dos microtúbulos observada nos pólos dos fusos, durante a mitose. Ela também pode estar envolvida na liberação e na despolimerização dos microtúbulos que ocorre na interfase de células em proliferação e em células pós-mitóticas, como os neurônios. Dois tipos de proteínas motoras movem-se sobre os microtúbulos Da mesma forma que os filamentos de actina, os microtúbulos também usam proteínas motoras para o transporte de carga e para executarem uma série de outras funções no in- terior da célula. Existem duas classes principais de motores baseados em microtúbulos, as cinesinas e as dineínas. A cinesina-1, também chamada de “cinesina convencional”, foi inicialmente purificada a partir de neurônios da lula, onde carrega organelas delimi- tadas por membrana do corpo celular em direção ao terminal do axônio, movendo-se na direção da extremidade mais (1) dos microtúbulos. A cinesina-1 é semelhante à miosina II, pois possui duas cadeias pesadas por motor ativo; essas cadeias formam dois domí- nios motores globulares de cabeça que são mantidos ligados por uma cauda alongada supertorcida que é responsável pela dimerização da cadeia pesada. Uma cadeia leve da cinesina-1 se associa com cada cadeia pesada através de seu domínio de cauda e medeia a ligação à carga. Assim como a miosina, a cinesina faz parte de uma grande superfamília de proteínas na qual o elemento em comum é o domínio motor (Figura 16-56). A leve- dura Saccharomyces cerevisiae possui seis cinesinas distintas. O nematódeo C. elegans tem 20 cinesinas, e os seres humanos possuem 45. Existem pelo menos 14 famílias distintas na superfamília das cinesinas. A maioria delas possui o domínio motor localizado na região N-terminal da cadeia pesada e cami- nha em direção à extremidade mais (1) do microtúbulo. Uma família possui o domínio motor no C-terminal e caminha na direção oposta, rumo à extremidade menos (2) dos microtúbulos, ao passo que a cinesina-13 possui um domínio motor central e, apesar de não se deslocar, usa a energia da hidrólise do ATP para despolimerizar extremidades de microtúbulos, como descrito anteriormente (ver Figura 16-52). Algumas cadeias pesa- das das cinesinas são homodímeros, e outras são heterodímeros. A maioria das cinesi- nas possui um sítio de ligação na cauda para outro microtúbulo; alternativamente, elas podem ligar o motor a uma organela envolvida por membrana através de uma cadeia Dímero de tubulina 2,5 nm Estatmina Figura 16-54 Sequestro da tubulina pela estatmina. Estudos estruturais com microscopia eletrônica e cristalografia su- gerem que a proteína alongada estatmina liga-se lateralmente a dois heterodímeros de tubulina. (Adaptada de M.O. Steinmetz et al., EMBO J. 19:572–580, 2000. Com permissão de John Wiley e Sons.) (A) (B) 20 �m Figura 16-55 Rompimento de microtúbu- los por catanina. Os microtúbulos corados com rodamina e estabilizados por paclitaxel foram adsorvidos na superfície de uma lâmina de vidro, e catanina purificada foi adi- cionada junto ao ATP. (A) Após 30 segundos da adição da catanina podem ser observadas umas poucas quebras nos microtúbulos. (B) O mesmo campo, 3 minutos após a adição de catanina. Os filamentos foram quebrados em vários pedaços, dando origem a uma série de pequenos fragmentos onde antes havia longos microtúbulos. (De J.J. Hartman et al., Cell 93:277–287, 1998. Com permis- são de Elsevier.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 937 leve ou de uma proteína adaptadora. Muitos dos membros da superfamília das cinesinas desempenham funções específicas na formação do fuso mitótico e na segregação dos cromossomos durante a divisão celular. Na cinesina-1, em vez do movimento de um braço de alavanca, pequenos movi- mentos no sítio de ligação ao nucleotídeo regulam a ligação e a dissociação do domínio motor de cabeça a uma região longa de ligação. Isso faz a segunda cabeça ser arremessa- da para frente ao longo do protofilamento sobre um sítio de ligação 8 nm mais perto da extremidade mais (1) do microtúbulo, o que corresponde a distância entre os dímeros de tubulina de um protofilamento. Os ciclos de hidrólise de nucleotídeos nas duas cabe- ças são altamente acoplados e coordenados, de tal forma que a ancoragem e a liberação da região ligante permitem que o motor de duas cabeças se mova passo a passo (ou ca- beça a cabeça) sobre o filamento (Figura 16-57). As dineínas são uma família de proteínas motoras de microtúbulo direcionadas para a extremidade menos (2) e não relacionadas às cinesinas. Elas são compostas por uma, duas ou três cadeias pesadas (que incluem o domínio motor) e um número gran- de e variável de cadeias intermediárias, cadeias intermediárias leves e cadeias leves associadas. A família das dineínas tem duas ramificações principais (Figura 16-58). O primeiro ramo contém as dineínas citoplasmáticas, as quais são homodímeros de duas cadeias pesadas. A dineína citoplasmática 1 é codificada por um único gene, em quase todas as células eucarióticas, mas está ausente de plantas com flores e de algumas algas. Ela é usada para o transporte de organelas e de mRNA, para o posicionamento do núcleo e do centrossomo durante a migração celular, e para a construção do fuso de microtú- bulos na mitose e na meiose. A dineína citoplasmática 2 só é encontrada em organismos eucarióticos que possuem cílios e é utilizada para transportar material da extremidade para a base dos cílios, em um processo denominado transporte intraflagelar. As dineínas Figura 16-56 Cinesinas e proteínas relacionadas à cinesina. As estruturas de quatro membros da superfamília das cine- sinas. Assim como na superfamília da mio- sina, apenas os domínios motores apresen- tam conservação. A cinesina-1 apresenta o domínio motor na extremidade N-terminal da cadeia pesada. O domínio central forma uma longa estrutura supertorcida, mediando a dimerização. O domínio C-terminal forma uma cauda que se liga ao material a ser transportado, como uma organela delimitada por membrana. A cinesina-5 forma tetrâmeros, em que dois dímeros se associam através das suas caudas. O tetrâmero de cinesina-5 bipolar é capaz de deslizar dois microtúbulos um em relação ao outro, de forma análoga à atividade dos filamentos espessos bipola- res formados por miosina II. A cinesina-13 possui seu domínio motor localizado no meio da cadeia pesada. Ela é um membro de uma família de cinesinas que perdeu a atividade típica de motor e, em vez disso, liga-se às extremidades dos microtúbulos para promover a despolimerização (ver Fi- gura 16-52). A cinesina-14 é uma cinesina C-terminal que inclui a proteína Ncd de Drosophila e a proteína Kar3 de leveduras. Essas cinesinas geralmente se movimen- tam em direção oposta a da maioria das cinesinas,rumo à extremidade menos (2), ao invés de rumo à extremidade mais (1), de um microtúbulo. N N N N N N C CN CN CN C C C C C Cinesina-1 Cinesina-5 Cinesina-13 Cinesina-14 N N N N CN 500 aminoácidos Domínio motor Figura 16-57 Ciclo mecanoquímico da cinesina. A cinesina-1 é um dímero composto por dois domínios mo- tores de ligação a nucleotídeos (cabeças) que estão conectados à longa cauda torcida (ver Figura 16-56). Os dois domínios motores da cinesina atuam de modo coordenado; durante um “passo” da cinesina, a cabeça secun- dária se desliga do sítio de ligação à tubulina, ultrapassa o domínio motor parceiro e se liga ao próximo sítio de tubulina disponível. Utilizando esse movimento “mão a mão”, o dímero de cinesina pode se deslocar por longas distâncias no microtúbulo sem se dissociar completamente do filamento. No início de cada passo, uma das duas cabeças dos domínios motores da cinesina, a cabeça secundária ou retardada (verde-escuro), está ligada com alta afinidade ao microtúbulo e ao ATP, enquanto a cabeça primária, ou líder, está ligada com baixa afinidade ao microtúbulo e apresenta uma molécula de ADP no seu sítio ativo. A dissociação do domínio motor secundário é promovida pela dissociação do ADP e ligação do ATP na cabeça primária (painéis 2 e 3 nesta figura). A ligação do ATP a esse domínio motor faz um pequeno peptídeo, chamado “elo de conexão”, passar de uma conformação voltada ao domínio secundário para uma conformação voltada ao domínio primário (o elo de conexão está representado em lilás, conectando o domínio motor primário e a cau- da supertorcida). Essa alteração impulsiona o domínio primário para frente quando ele se dissocia do microtúbulo e está ligado ao ADP (a dissociação requer a hidrólise de ATP e liberação de fosfato [Pi]). A molécula de cinesina agora está pronta para o próximo passo, que ocorre pela repetição exata desse processo (Animação 16.9). Super-hélice + Cabeça-líder Cabeça retardada Superfície do microtúbulo ATP ATP ATP ADP ADP ADP ADP ADP Pi Pi ATP ADP 938 PARTE IV Organização interna da célula axonemais (também chamadas dineínas ciliares) compreendem o segundo ramo e in- cluem monômeros, heterodímeros e heterotrímeros, respectivamente com uma, duas ou três cadeias pesadas contendo o motor. Elas são altamente especializadas para o rápido e eficiente movimento de deslizamento dos microtúbulos que direciona o batimento de cílios e flagelos (discutido mais adiante). As dineínas são as maiores proteínas motoras moleculares conhecidas, e estão tam- bém entre as mais rápidas: dineínas axonemais ligadas a uma lâmina de vidro podem mo- ver microtúbulos à velocidade de 14 mm/s. A proteína motora dineína não possui relação estrutural com as miosinas ou com as cinesinas, no entanto segue a mesma regra geral do acoplamento de hidrólise do nucleotídeo com a ligação e dissociação ao microtúbulo, bem como a regra das alterações conformacionais geradoras de força (Figura 16-59). Figura 16-58 Dineínas. (A) Fotomicro- grafia eletrônica de criofratura de uma molécula de dineína citoplasmática e de uma molécula de dineína ciliar (axonemal). Assim como a miosina II e a cinesina-1, a dineína citoplasmática é uma molé- cula com dois domínios globulares. A dineína ciliar apresentada provém de um protozoário e possui três cabeças; dineínas ciliares de animais possuem duas cabeças. Observe que a cabeça da dineína é bas- tante grande quando comparada à cabeça tanto de miosina quanto da cinesina. (B) Representação esquemática da dineína citoplasmática mostrando as duas cadeias pesadas (azul e cinza) que contêm os do- mínios de ligação aos microtúbulos (MT) e de hidrólise do ATP, ligados por uma haste longa. Ligadas à cadeia pesada estão múl- tiplas cadeias intermediárias (verde-escuro) e cadeias leves (verde-claro) que auxiliam a mediar muitas das funções da dineína. (A, cortesia de John Heuser; B, adaptado de R. Vale, Cell 112:467–480, 2003. Com permissão de Cell Press.) Dineína citoplasmática (A) (B) Dineína ciliar 25 nm ATPase Haste Domínio motor Ligação ao MT Cadeias intermediárias Cadeias leves Cadeia pesada Movimento de potência, 8 nm Haste Cauda Domínios AAA na cabeça motora ATPase principal Domínio C-terminal Ligação a outro microtúbulo + Microtúbulo ligado à haste ADP (C) (B) (A) N C Cauda Domínios AAA Domínios AAAHaste 15 nm Pi Figura 16-59 Movimento de potência da dineí- na. (A) A organização dos domínios em cada cadeia pesada da dineína. Este é um polipeptídeo bas- tante grande que contém aproximadamente 4 mil aminoácidos. O número de cadeias pesadas em uma dineína é igual ao número de suas cabeças motoras. (B) Ilustração da dineína c, uma dineína axonemal monomérica encontrada na alga verde unicelular Chlamydomonas reinhardtii. A grande cabeça mo- tora da dineína é composta por um anel plano que contém um domínio C-terminal (em cinza) e seis do- mínios AAA, quatro dos quais contendo sequência de ligação a ATP, mas um único deles (em vermelho- -escuro) responsável principal pela atividade ATPase. Estendendo-se desde a cabeça pode-se observar uma haste em espiral longa com o sítio de ligação a microtúbulos na extremidade, e uma cauda que se liga a um microtúbulo adjacente no axonema. Sob o estado ligado a ATP, a haste está desconectada do microtúbulo, e a hidrólise de ATP provoca a ligação entre haste e o microtúbulo (à esquerda). A subse- quente liberação de ADP e fosfato (Pi) leva à extensa alteração conformacional do “movimento de po- tência” envolvendo a rotação da cabeça e da haste em relação à cauda (à direita). Cada ciclo gera um passo de cerca de 8 nm, contribuindo, assim, para o batimento do flagelo (ver Figura 16-65). No caso da dineína citoplasmática, a cauda é ligada a uma car- ga, como uma vesícula, e um único movimento de potência transporta a carga sobre aproximadamente 8 nm do microtúbulo em direção a sua extremida- de menos (ver Figura 16-60). (C) Fotomicrografia eletrônica de dineínas monoméricas purificadas sob duas diferentes conformações representando dife- rentes etapas do ciclo mecanoquímico. (C, de S.A. Burgess et al., Nature 421:715–718, 2003. Com permissão de Macmillan Publishers Ltd.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 939 Microtúbulos e motores movem organelas e vesículas Uma função primordial das proteínas motoras do citoesqueleto em células em interfase é o transporte e o posicionamento de organelas delimitadas por membrana (Animação 16.10). A cinesina foi originalmente identificada como a proteína responsável pelo veloz transporte axonal anterógrado, pelo rápido movimento de mitocôndrias, de precursores de vesículas secretoras e diversos componentes sinápticos ao longo do grande caminho de microtúbulos do axônio em direção às distantes terminações nervosas. A dineína ci- toplasmática foi identificada como o motor responsável pelo transporte na direção opos- ta, o transporte axonal retrógrado. Apesar de as organelas da maioria das células não necessitarem percorrer distâncias tão longas, seu transporte polarizado é igualmente ne- cessário. Um típico arranjo de microtúbulos em uma célula em interfase está orientado com suas extremidades menos (2) próximas ao centro da célula, no centrossomo, e suas extremidades mais (1) estendendo-se para a periferia da célula. Assim, o movimento centrípeto de organelas ou vesículas, em direção ao centro da célula, requer a ação de dineínas motoras citoplasmáticas direcionadas para a extremidade menos (2), ao passo que o movimento centrífugo para a periferia exige cinesinas motoras direcionadas para a extremidade mais (1). Interessantemente, nas células animais, quase todo o transporte direcionado para a extremidade menos (2) é impulsionado unicamente pela proteína motora dineína citoplasmática 1, ao passo que 15 cinesinas diferentes são usadas para o transporte direcionado para a extremidade mais (1). Um claro exemplo do efeito dos microtúbulos e dos motoresde microtúbulos no comportamento das membranas intracelulares é a sua atuação na organização do retí- culo endoplasmático (RE) e do aparelho de Golgi. A rede de membranas tubulares do RE alinha-se com microtúbulos e se estende quase até a borda da célula (Animação 16.11), enquanto o aparelho de Golgi posiciona-se próximo ao centrossomo. Quando as células são tratadas com uma substância que despolimeriza microtúbulos, como a colchicina ou o nocodazol, o RE colapsa para o centro da célula e o aparelho de Golgi sofre frag- mentação e dispersão pelo citoplasma. In vitro, as cinesinas podem guiar membranas derivadas do RE sobre segmentos pré-formados de microtúbulos e se deslocar para as extremidades mais (1) desses microtúbulos, arrastando as membranas do RE em pro- trusões tubulares e formando uma teia membranosa bastante semelhante ao RE de uma célula. Por outro lado, as dineínas são necessárias para o posicionamento do aparelho de Golgi perto do centro da célula em células animais; elas fazem isso movendo as vesículas do Golgi ao longo de trilhos de microtúbulos em direção às extremidades menos (2) dos microtúbulos, localizadas no centrossomo. As diferentes caudas e suas cadeias leves associadas, em determinadas proteínas motoras, permitem que esses motores se liguem à organela a ser carregada de forma específica. Assim, receptores motores associados a membranas que são direcionados a compartimentos delimitados por membrana específicos interagem direta ou indire- tamente com as caudas dos membros da família adequada das cinesinas. Muitos vírus tiram proveito de transporte baseado em motores de microtúbulos durante a infecção e utilizam a cinesina para moverem-se do seu local de replicação e de polimerização para a membrana plasmática, a partir da qual eles poderão infectar as células vizinhas. Uma proteína de membrana externa do vírus Vaccinia, por exemplo, contém um motivo de aminoácidos que medeia a sua ligação à cadeia leve da cinesina-1 e o seu transporte ao longo dos microtúbulos para a membrana plasmática. Curiosamente, esse motivo está presente em mais de 450 proteínas humanas, um terço das quais está associado com doenças humanas. Assim, a cinesina transporta um conjunto diversificado de cargas en- volvidas em uma ampla gama de funções celulares importantes. No caso da dineína, um grande arranjo macromolecular geralmente medeia a li- gação às membranas. A dineína citoplasmática, que é por si só um enorme complexo proteico, requer a associação de um segundo grande complexo proteico conhecido por dinactina para a efetiva translocação de organelas. O complexo da dinactina inclui um filamento curto semelhante à actina formado a partir da proteína relacionada à actina Arp1 (distinta de Arp2 e Arp3, os componentes do complexo Arp 2/3 envolvido na nu- cleação dos filamentos convencionais de actina) (Figura 16-60). Várias outras proteínas também contribuem para a ligação da carga na dineína e para a regulação da proteína motora, e sua função é especialmente importante em neurônios: defeitos no transpor- 940 PARTE IV Organização interna da célula te baseado em microtúbulos têm sido associados a doenças neurológicas. Um exemplo impressionante é o chamado cérebro liso, ou lissencefalia, uma doença humana em que as células não migram para o córtex cerebral do cérebro em desenvolvimento. Um tipo de lissencefalia é causado por defeitos na Lis1, uma proteína de ligação à dineína ne- cessária para a migração nuclear em várias espécies. No cérebro normal, a migração do núcleo dirige o corpo da célula neural em desenvolvimento para a sua posição correta no córtex. Na ausência de Lis1, no entanto, os núcleos de neurônios em migração não conseguem se ligar à dineína, resultando em defeitos de migração nuclear. A dineína é continuamente necessária para a função neuronal, visto que as mutações em uma subu- nidade dinactina ou na região da cauda citoplasmática da dineína levam à degeneração neuronal em seres humanos e em camundongos. Esses efeitos estão associados ao trans- porte axonal retrógrado diminuído e fornecem fortes evidências da importância de um transporte axonal robusto para a viabilidade neuronal. A célula pode regular a atividade das proteínas motoras e, dessa forma, provocar alterações no posicionamento das organelas delimitadas por membrana e nos movimen- tos da célula como um todo. Um dos mais drásticos exemplos dessa regulação é dado pelos melanócitos dos peixes. Essas células gigantes, responsáveis por rápidas mudanças na coloração da pele de várias espécies de peixes, contêm grandes grânulos de pigmen- to que podem alterar sua localização em resposta a estímulos neuronais ou hormonais (Figura 16-61). Os grânulos de pigmento agregam ou dispersam movendo ao longo de uma extensa rede de microtúbulos ancorados no centrossomo por suas extremidades menos. O rastreamento de grânulos de pigmento individuais revela que o movimento para o interior é rápido e suave, enquanto o movimento para fora é irregular, com recuos frequentes. Ambos os motores de microtúbulos cinesina e dineína estão associados aos grânulos de pigmento. Os movimentos irregulares em direção à periferia provavelmente resultam de um cabo de guerra entre as duas proteínas motoras de microtúbulos, com as cinesinas mais fortes vencendo. Quando os níveis de AMP cíclico intracelular diminuem, a cinesina é inativada, deixando a dineína livre para arrastar os grânulos de pigmento rapidamente em direção ao centro da célula, alterando a coloração do peixe. Da mesma forma, o movimento de outras organelas revestidas por proteínas motoras específicas é controlado por um equilíbrio complexo entre os sinais competitivos que regulam tanto a ligação quanto a atividade dessas proteínas motoras. 25 nm Vesícula Filamento de Arp1 Complexo dinactina Microtúbulo Dineína citoplasmática Figura 16-60 A dinactina medeia a ligação da dineína a organelas delimitadas por membrana. A dineína requer a presença de um grande número de proteínas acessórias para associar-se a organelas delimitadas por membrana. A dinactina é um grande complexo que inclui componentes que se ligam fraca- mente a microtúbulos, componentes que se ligam a própria dineína e componentes que formam pequenos filamentos semelhantes à actina compostos pela proteína relacionada à actina Arp1. Figura 16-61 Os movimentos regu- lados dos melanossomos em células pigmentares de peixes. Estas células gigantes, responsáveis por mudanças na coloração da pele em diversas espécies de peixes, contêm grandes grânulos de pig- mentos, ou melanossomos (em marrom). Os melanossomos podem mudar sua loca- lização na célula em resposta a estímulos hormonais e neuronais. (A) Diagramas de uma célula pigmentar mostrando a disper- são e a agregação dos melanossomos em resposta, respectivamente, a um aumento ou a uma diminuição intracelular de AMP cíclico (cAMP). Essa redistribuição ocorre ao longo dos microtúbulos. (B) Imagens em campo claro de uma célula isolada a partir de uma escama de peixe ciclídio africano mostrando seus melanossomos dispersos no citoplasma (à esquerda) ou agregados no centro da célula (à direita). (B, cortesia de Leah Haimo.) (B) 50 �m DISPERSOS Aumento de cAMP Diminuição de cAMP (A) AGREGADOS CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 941 A polimerização dos arranjos complexos de microtúbulos requer microtúbulos dinâmicos e proteínas motoras A polimerização do fuso mitótico e do citoesqueleto neuronal são exemplos impressio- nantes e fascinantes do poder de organização dos grupos de proteínas motoras que inte- ragem com filamentos dinâmicos do citoesqueleto. Conforme descrito no Capítulo 17, a polimerização do fuso mitótico depende da reorganização do arranjo dos microtúbulos interfásicos para formar um novo arranjo bipolar de microtúbulos, com suas extremi- dades menos (2) concentradas nos polos e suas extremidades mais (1) sobrepostas no centro da célula ou conectadas aos cromossomos. A organizaçãodo fuso depende das ações coordenadas de várias proteínas motoras e de outros fatores que modulam a dinâ- mica da polimerização (ver Figuras 17-23 e 17-25). Os neurônios também contêm estruturas citoesqueléticas complexas. Conforme se diferenciam, os neurônios enviam processos especializados que irão receber sinais elétricos (dendritos) ou transmitir sinais elétricos (axônios) (ver a Figura 16-50). A bela e elaborada morfologia ramificada dos axônios e dendritos permite aos neurônios formar redes de sinalização extremamente complexas, interagindo de forma simultânea com muitas outras células e tornando possível o complexo comportamento dos animais su- periores. Tanto axônios quanto dendritos (coletivamente denominados neuritos) estão preenchidos por feixes de microtúbulos, que são essenciais tanto para a sua estrutura quanto para o seu funcionamento. Nos axônios, todos os microtúbulos estão orientados na mesma direção, com suas extremidades menos (2) apontando para o interior do corpo celular e suas extremida- des mais (1) direcionadas às terminações do axônio (Figura 16-62). Os microtúbulos não conseguem cobrir individualmente a distância entre o corpo celular e as termina- ções do axônio, pois geralmente têm poucos micrômetros de comprimento, mas grandes quantidades de microtúbulos sobrepostos formam um grande arranjo. Esses caminhos de microtúbulos alinhados funcionam como uma autoestrada para o transporte de pro- teínas específicas, vesículas contendo proteínas e mRNAs rumo aos terminais dos axô- nios, onde sinapses são construídas e mantidas. O axônio mais longo no corpo humano percorre da base da medula espinal ao pé e pode alcançar 1 metro de comprimento. Em comparação, os dendritos são geralmente muito mais curtos do que os axônios. Os microtúbulos nos dendritos se encontram paralelos uns aos outros, mas as suas polari- dades estão misturadas, alguns direcionam a sua extremidade mais (1) rumo à extremi- dade do dendrito, enquanto outros a apontam para o corpo da célula, em uma formação reminiscente ao arranjo antiparalelo dos microtúbulos do fuso mitótico. Cílios e flagelos motrizes são compostos por microtúbulos e dineínas Assim como as miofibrilas são máquinas motrizes altamente especializadas e eficientes compostas por filamentos de actina e miosina, cílios e flagelos são estruturas motrizes eficientes compostas por microtúbulos e dineína. Tanto os cílios quanto os flagelos são apêndices celulares semelhantes a pelos que possuem um feixe de microtúbulos em seu interior. Os flagelos são encontrados nos espermatozoides e em vários protozoários. Por um movimento ondulatório permitem que a célula que os possui nade através de meios líquidos. Os cílios são organizados de forma semelhante, mas eles batem em um mo- vimento semelhante ao de um chicote, que lembra o movimento do nado de peito. O batimento dos cílios tanto pode propelir uma célula única através de um fluido (como é o caso da locomoção do protozoário Paramecium) quanto movimentar fluidos sobre a superfície de um grupo de células em um tecido. No corpo humano, uma grande quanti- dade de cílios (109/cm2 ou mais) reveste o trato respiratório, varrendo camadas de muco, partículas de poeira e bactérias até a boca, onde elas serão engolidas e finalmente elimi- nadas. Do mesmo modo, os cílios ao longo do oviduto auxiliam o percurso dos óvulos em direção ao útero. O movimento de um cílio ou de um flagelo é produzido pela flexão de sua porção central, denominada axonema. O axonema é composto por microtúbulos e por suas proteínas associadas, organizados em um padrão regular e característico. Nove pares es- Vesícula com dineína ativa Vesícula com cinesina ativa Microtúbulo ++ + + + + + + + Corpo da célula neuronal Dendrito Axônio Sinapse NEURÔNIO Figura 16-62 A organização dos microtú- bulos em um neurônio. Em um neurônio, a organização dos microtúbulos é complexa. No axônio, todos os microtúbulos compartilham a mesma polaridade, tendo as extremidades mais (1) apontando em direção à extremidade terminal do axônio. Nenhum microtúbulo indi- vidual abrange o comprimento total do axônio, mas pequenos segmentos de microtúbulos pa- ralelos se sobrepõem produzindo um caminho capaz de levar ao rápido transporte axonal. Nos dendritos, os microtúbulos apresentam polari- dade mista, alguns com extremidades mais (1) direcionadas para a periferia da célula e outros para o interior. As vesículas podem associar-se com a cinesina ou com a dineína e serem movi- das para qualquer direção sobre os microtúbu- los nos axônios e nos dendritos, dependendo de qual motor que está ativo. 942 PARTE IV Organização interna da célula peciais de microtúbulos (consistindo em um microtúbulo completo e um microtúbulo parcial fusionados de forma a compartilhar uma parede tubular entre si) encontram-se organizados em um anel ao redor de um par de microtúbulos simples (Figura 16-63). Quase todas as formas de cílios e flagelos eucarióticos móveis (dos protozoários aos seres humanos) apresentam esse arranjo característico. Os microtúbulos estendem-se de for- ma contínua por todo o comprimento do axonema, o qual pode apresentar de 10 a 200 mm. Em intervalos regulares, ao longo do comprimento dos microtúbulos, as proteínas acessórias interligam os microtúbulos. As moléculas de dineína axonemal formam pontes entre os pares de microtúbulos adjacentes em torno da circunferência do axonema (Figura 16-64). Quando o domínio motor dessa dineína é ativado, as moléculas de dineína ligadas a um dos pares de micro- túbulos (ver Figura 16-59) tentam movimentar-se sobre o par de microtúbulos adjacente, forçando o deslizamento de um sobre o outro de forma semelhante ao deslizamento dos filamentos delgados de actina durante a contração muscular. No entanto, a presença de outras conexões entre os pares de microtúbulos impede este deslizamento, e a força da dineína é convertida em um movimento de flexão (Figura 16-65). Nos seres humanos, defeitos hereditários na dineína axonemal causam uma con- dição chamada de discinesia ciliar primária ou síndrome de Kartagener. Essa síndrome é caracterizada pela inversão da assimetria normal dos órgãos internos (sinus inversus) devido à disrupção do fluxo de fluidos no embrião em desenvolvimento, pela esterili- dade masculina devido à imotilidade de espermatozoides e por uma elevada suscetibi- lidade a infecções pulmonares, considerando a incapacidade dos cílios paralisados de limpar o trato respiratório dos detritos e das bactérias. As bactérias também podem mover-se em meio líquido usando estruturas de su- perfície celular chamadas de flagelos, mas estes não contêm microtúbulos ou dineína e não ondulam ou batem. Em vez disso, os flagelos bacterianos são filamentos helicoidais (A) (C) 100 nm 15 nm Camada interna Microtúbulo central único Conexão radial Braço externo da dineína Braço interno da dineína Nexina Membrana plasmática Microtúbulo A Microtúbulo B Microtúbulo A Microtúbulo B Par externo de microtúbulos (B) Proteínas internas de microtúbulos (MIPs) Figura 16-63 O arranjo dos microtúbulos em um flagelo ou em um cílio. (A) Fotomicrografia eletrônica de um flagelo de uma célula de alga verde (Chlamydomonas) mostrado em corte transversal, ilustrando a organização característica dos microtúbulos “9 1 2”. (B) Diagrama das partes de um flagelo ou cílio. As várias projeções que partem dos microtúbulos ligam estas estruturas entre si e ocorrem em intervalos regulares em todo o comprimento do axonema. (C) Imagem de uma tomografia eletrônica de alta resolução de um par externo de microtúbulo mostrando detalhes estruturais e as características internas dos microtúbulos denominadas proteínas internas de microtúbulos (MIPs). (A, cortesia de Lewis Tilney; C, cortesia de Daniela Nicastro.) (B) 100 nm (A) 50 nm Figura 16-64 A dineína ciliar. A dineína ciliar (axonemal) é um grande arranjo proteico (aproximadamente 2 milhões de dáltons) composto por 9a 12 cadeias polipeptídicas, a maior delas sendo a cadeia pesada que possui mais de 500 mil dáltons. (A) As cadeias pesadas formam a porção principal da cabeça globular e dos domínios da haste, e várias das cadeias menores estão agrupadas em torno da base da haste. Há duas cabeças na dineína exterior dos metazoários (na imagem), mas três cabeças nos protozoários, cada uma formada a partir da sua própria ca- deia pesada. A cauda da molécula liga-se com alta afinidade a um microtúbulo A, ao passo que as grandes cabeças globulares apresentam um sítio de ligação ao micro- túbulo B (dependente de ATP) (ver Figura 16-63). Quando as cabeças hidrolisam o ATP a elas ligado, elas se movem em dire- ção à extremidade menos (2) do microtú- bulo B, produzindo, assim, uma força de deslizamento entre os pares de microtú- bulos adjacentes do cílio ou do flagelo (ver Figura 16-59). (B) Fotomicrografia eletrôni- ca de criofratura de um cílio mostrando os braços de dineína projetados a intervalos regulares a partir de um par de microtúbu- los. (B, cortesia de John Heuser.) CAPÍTULO 16 Citoesqueleto 943 rígidos, longos, compostos por subunidades repetitivas da proteína flagelina. Os flagelos giram como propulsores, guiados por um motor rotatório especial inserido na parede celular bacteriana. O uso do mesmo nome para designar esses dois tipos de aparelhos para a natação é um infeliz acidente histórico. Os cílios primários desempenham funções importantes de sinalização nas células animais Muitas células possuem uma estrutura semelhante aos cílios e aos flagelos, porém mais curto e sem motilidade, chamado cílio primário. Os cílios primários podem ser vistos como compartimentos celulares especializados ou organelas, que realizam uma ampla gama de funções celulares, mas compartilham muitas características estruturais com os cílios móveis. Ambos os cílios móveis e aqueles sem motilidade são gerados durante a interfase em estruturas associadas à membrana plasmática chamadas de corpos ba- sais, que os enraizam firmemente na superfície da célula. No núcleo de cada corpo ba- sal existe um centríolo, a mesma estrutura encontrada nos centrossomos animais, com nove grupos de trios de microtúbulos fusionados com organização circular (ver Figura 16-48). Os centríolos são multifuncionais, eles contribuem para a polimerização do fuso mitótico em células em divisão, mas migram para a membrana plasmática de células em interfase para induzir a nucleação do axonema (Figura 16-66). Visto que não ocorre tra- dução proteica nos cílios, a construção do axonema exige transporte intraflagelar (IFT), um sistema de transporte descoberto na alga verde Chlamydomonas. De forma análoga ao axônio, motores movem cargas em ambas as direções anterógrada e retrógrada, neste caso mediado pela cinesina-2 e pela dineína citoplasmática 2, respectivamente. Os cílios primários são encontrados na superfície de quase todos os tipos de cé- lulas, onde eles percebem e respondem ao ambiente externo, funções mais bem com- preendidas no contexto do olfato e da visão. No epitélio nasal, os cílios que protundem a partir dos dendritos de neurônios olfatórios são os locais da recepção e da amplificação do sinal olfatório. Da mesma forma, os bastonetes e cones da retina dos vertebrados pos- suem um cílio primário equipado com uma extremidade expandida chamada de seg- mento externo, especializada na conversão da luz em um sinal neural (ver Figura 15-38). A manutenção do segmento externo requer o contínuo transporte mediado por IFT de grandes quantidades de lípidos e de proteínas para o cílio, a taxas de até 2 mil moléculas por minuto. As ligações entre a função dos cílios e os sentidos da visão e olfato são salien- tadas pela síndrome de Bardet-Biedl, um conjunto de distúrbios associados a defeitos no IFT, no cílio, ou no corpo basal. Os pacientes com a síndrome de Bardet-Biedl não possuem olfato e sofrem de degeneração da retina. Outras características dessa doença multifacetada incluem a perda da audição, a doença policística dos rins, o diabetes, a obesidade e a polidactilia, sugerindo que os cílios primários desempenham múltiplas funções em diversos aspectos da fisiologia humana. Figura 16-65 Flexão de um axone- ma. (A) Quando os axonemas são expos- tos à ação da enzima proteolítica tripsina, as ligações que mantêm os pares de microtúbulos unidos são rompidas. Nesse caso, a adição de ATP permite que a ação motora das cabeças de dineína provoque o deslizamento de um par de microtúbulos sobre o outro. (B) Em um axonema intacto (como no caso de um espermatozoide), o deslizamento dos pares de microtúbulos é impedido por ligações proteicas flexíveis. A ação motora causará, portanto, um movimento de flexão, criando ondas ou batimentos. + + + + + + – – – – – – +ATP Flexão Proteínas de ligação (B)(A) + + – – 944 PARTE IV Organização interna da célula Resumo Os microtúbulos são polímeros rígidos de moléculas de tubulina. Eles se organizam pela adição de subunidades de tubulina ligadas a GTP à extremidade livre de um dos microtú- bulos, com uma extremidade (a extremidade mais [1]) crescendo mais rapidamente do que a outra. A hidrólise do GTP ligado ocorre após a polimerização e enfraquece as ligações que mantém os microtúbulos unidos. Os microtúbulos são dinamicamente instáveis e suscetíveis à dissociação catastrófica, mas podem ser estabilizados nas células pela associação a ou- tras estruturas. Os centros organizadores de microtúbulos, como os centrossomos, protegem as extremidades menos (2) dos microtúbulos e continuamente promovem a nucleação da formação de novos microtúbulos. As proteínas associadas aos microtúbulos (MAPs) esta- bilizam os microtúbulos, e aquelas que se localizam na extremidade mais (1TIPS) podem alterar as propriedades dinâmicas do microtúbulo ou mediar suas interações com outras estruturas. Em contraponto à atividade de estabilização das MAPs, existem os fatores de ca- tástrofe, como as proteínas cinesina-13, que atuam na dissocição das extremidades dos mi- crotúbulos. Outros membros da família da cinesina usam, assim como a dineína, a energia da hidrólise de ATP para se mover unidirecionalmente sobre os microtúbulos. O motor de dineína move-se em direção à extremidade menos (2) dos microtúbulos, e seu deslizamento nos microtúbulos axonemais é responsável pela batida dos cílios e dos flagelos. Os cílios pri- mários são órgãos sensoriais não móveis encontrados em muitos tipos de células. FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS E SEPTINAS Todas as células eucarióticas contêm actina e tubulina. No entanto, o terceiro tipo prin- cipal de proteínas do citoesqueleto, os filamentos intermediários, forma um filamento citoplasmático apenas em alguns metazoários, incluindo os vertebrados, nemátodeos e moluscos. Os filamentos intermediários estão particularmente presentes no citoplasma de células sujeitas a estresse mecânico e geralmente não são encontrados em animais que possuem exoesqueletos rígidos, como os artrópodes e os equinodermos. Aparen- temente, os filamentos intermediários conferem resistência mecânica em animais que possuem tecidos moles ou maleáveis. Os filamentos intermediários citoplasmáticos são intimamente relacionados aos seus antepassados, as laminas nucleares, muito mais prevalentes e amplamente encon- tradas nos eucariotos, mas ausentes em organismos unicelulares. As laminas nucleares formam uma rede que reveste a membrana interna do envelope nuclear, na qual fornece sítios de ancoragem para os cromossomos e para os poros nucleares. Aparentemente, os genes de lamina sofreram duplicação muitas vezes ao longo da evolução dos metazoários, e os genes duplicados evoluíram para produzir os filamentos intermediários citoplasmáti- Centríolo-mãe Centríolo-filho Centríolo-mãe Centríolo-mãe Centríolo-filho Centríolo-filho Material pericentriolar – + + – 300 nm (A) (B) Membrana plasmática Cílio primário Cílio primário Corpo basal CentrossomoFuso mitótico Figura 16-66 Cílios primários. (A) Eletromicrografia e diagrama do corpo basal de um cílio primário do neurônio de um camundongo. O axonema do cílio pri- mário (seta preta) é nucleado pelo centríolo-mãe no corpo basal, que se localiza na membrana plasmática perto da superfície da célula. (B) Os centríolos funcio- nam alternadamente como corpos basais e como núcleo dos centrossomos. Antes de uma célula entrar no ciclo de divisão celular, o cílio primário é encoberto ou reabsorvido. Os centríolos recrutam material pericentriolar e duplicam durante a fase S, gerando dois centrossomos, cada um dos quais contém um par de centríolos. Os centrossomos promovem a nucleação dos microtúbulos e os posicionam nos pólos do fuso mitótico. Após a mitose, um cílio primário novamente cresce a partir do centríolo-mãe. (A, cortesia de Josef Spacek.) Parte IV - Organização interna da célula Capítulo 16 - Citoesqueleto