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34 C om en tá ri os e r es po st as d as a ti vi da de s R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt. 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Uma viagem no tempo: primeiras leituras 188 Para sugestões gerais sobre o trabalho com os textos transcritos nesta seção, leia, neste Suplemento, a parte inicial da orientação para a seção “Uma viagem no tempo: primeiras leituras” do Capítulo 6. Os poemas escolhidos para o primeiro contato dos alu- nos com textos árcades buscam representar dois aspectos básicos dessa estética: a adoção de uma filosofia de vida que busca a harmonia com a natureza e nega as virtudes do luxo e da riqueza, e a valorização de uma forma mais simples, que se contrapõe de maneira evidente ao rebusca- mento da linguagem barroca. Para estimular a conversa sobre os textos lidos, alguns tópicos podem ser sugeridos aos alunos: > A leitura desses textos foi mais fácil do que a dos textos da mesma seção em capítulos anteriores? Por quê? > Do que tratam os textos lidos? > Que impressões/sentimentos foram desencadea- dos pelos textos lidos? > O que aparece representado nas obras de arte re- produzidas na seção? > Perceberam alguma relação entre as imagens e o texto? > O eu lírico do primeiro poema apresenta algumas características do que ele considera uma vida ideal. Que características são essas? > As pessoas, hoje, gostariam de levar uma vida se- melhante? Por quê? > Marília é o nome da mulher referida em dois dos poemas. Será que se trata da mesma pessoa? > Que características têm as pessoas que leem textos como esses? Por quê? > Os textos e as imagens os fazem lembrar outros textos, músicas ou filmes contemporâneos? Se sim, qual é a semelhança percebida? Se não, quais são as principais diferenças? As perguntas acima servem somente como um roteiro básico para estimular a participação dos alunos e podem, evidentemente, ser substituídas por outras que o professor julgar mais interessantes. Os próprios alunos podem fa- zer questões que tenham sido motivadas pela leitura dos textos. O importante é que essa experiência faça com que se sintam mais à vontade para discutir textos literários, sem que se preocupem em encontrar uma interpretação “correta” para eles. Outra atividade que poderia enriquecer a conversa en- tre os alunos seria apresentar, para a turma, as músicas “Casa no campo” (de Zé Rodrix e Tavito, muito conhecida na gravação de Elis Regina) e “Vilarejo” (indicada na seção “Conexões” deste capítulo). Nos dois casos, o elogio da vida simples, em meio à natureza, caracteriza uma releitura contemporânea dos ideais árcades e é possível que os alu- nos percebam isso na comparação com o rondó O prazer, de Silva Alvarenga, e reconheçam a expressão de uma vida mais tranquila e harmoniosa como um anseio cada vez maior de quem vive nas nossas caóticas cidades. O trabalho realizado ao longo deste capítulo favore- ce o desenvolvimento da competência de área 5 e das habilidades H15, H16 e H17. Para identificá-las, consultar a matriz do Enem 2009, que se encontra no Portal Moderna Plus. Capítulo 11 Arcadismo 190 Leitura da imagem 191 1 As árvores aparecem de modo organizado, plantadas lado a lado, de modo simétrico, dando ao observador a impressão de ordem. 2 O que se percebe é que tudo na construção do palá- cio e dos jardins parece calculado, medido, disposto geometricamente para produzir, no observador, a noção de simetria e de controle. O resultado final é a ideia de ordem devido ao equilíbrio entre as partes (se dividirmos a tela ao meio, veremos que os dois lados do palácio são equivalentes). A simetria é provocada pela duplicação dos elementos: há, na entrada, dois semiarcos idênticos que conduzem a um portão ladeado por duas construções também idênticas. A natureza, que poderia representar o toque “selvagem” e desordenado na imagem, também foi “domada” para representar os desenhos geométricos (criados pelo paisagista Le Nôtre). 3 O que fica evidente no quadro de Pierre Patel é o total controle do ser humano sobre a natureza. Em primeiro lugar, pelo gigantismo da construção. É admirável que, no século XVII, tenha sido erguido um palácio como esse. Além disso, a organização dos jardins nos leva a concluir que todo o terreno em torno do palácio foi moldado pela mão humana, para que as árvores assu- missem a disposição geométrica que têm até hoje. > Porque demonstra que o rei, com seu poder, é capaz de domesticar até mesmo a natureza. Da imagem para o texto 191 4 O eu lírico se dirige a uma mulher, chamada Marília. > Que observe, com ele, as perfeições da natureza. 5 A natureza é apresentada de modo positivo: o rio Tejo “sorri”, as borboletas coloridas brincam, enquanto o rouxinol e a abelhinha voam; o campo é “alegre” e a manhã é clara. Em resumo, o cenário apresentado pelo eu lírico é alegre e acolhedor. > O eu lírico usa a natureza para mostrar como o seu estado de espírito depende da visão de Marília. Quando caracteriza a natureza de modo positivo, definindo um ambiente marcado pela alegria e pelo otimismo, está preparando a apresentação do argumento final: “Tudo o que vês, se eu não te vira,/Mais tristeza que a morte me causara”. A alegria e o bem-estar promovidos pelo lugar agra- dável em que se encontram perderiam o significado se ele não pudesse ver a sua amada Marília. Sup_P1_(001-037)-d.indd 34 11/11/10 12:32 PM 35 C om en tá ri os e r es po st as d as a ti vi da de s R ep ro du çã o pr oi bi da . A rt. 1 84 d o C ód ig o P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 6 Os verbos associados aos elementos da natureza demonstram ações simples e inocentes: o rio sorri, o vento (Zéfiros) brinca, o rouxinol suspira, a abelhinha gira. O diminutivo abelhinha transmite uma certa infantilização e, portanto, marca inocência. > A combinação da descrição positiva, das ações as- sociadas à natureza e do diminutivo provoca uma sensação de que há um clima de festa, de brinca- deira que se desenrola naquele campo alegre diante do olhar de Marília. 7 A perfeição do cenário sugere tratar-se de uma nature- za artificial. O modo infantilizado como os elementos da natureza são referidos no poema também reforça a ideia de uma natureza pouco natural. > Resposta pessoal. Espera-se que o aluno perceba que, no poema, a natureza é tão “construída” pelo olhar de Bocage quanto os jardins do palácio. Nos dois casos, o que é apresentado ao leitor/observador não é um cenário realmente natural, mas sim uma natureza criada pelo ser humano, para se acomodar a seus propósitos. É possível, porém, que alguns alunos discordem dessa leitura, contrapondo a elaboração dos jardins à aparente simplicidade do cenário do poema. Nos dois casos, entretanto, é essencial que a artificialidade seja constatada. O resgate de temas clássicos 195 No Capítulo 8, tratamos detalhadamente do tema do carpe diem. Retomar esse conceito com os alunos. Além disso, na seção “A tradição do Classicismo” abordamos a evolução da temática do carpe diem desde a Antiguidade Clássica. Retomar, com os alunos, o rondó O prazer, de Silva Alva- renga, transcrito na seção “Uma viagem no tempo: primeiras leituras” deste capítulo. Esse poema ilustra bem o tema do ideal da natureza, da fuga da cidade e do menosprezo da riqueza e do poder. Texto para análise 197 1 O eu lírico faz um convite à sua amada para que des- frute, com ele, a beleza e a simplicidade da natureza. 2 O cenário apresentado é bucólico. O inverno se foi e a “fértil Primavera” enche o prado de flores, as aves voam e o vento nordeste torna o céu e o rio Tejo azuis. > O tema árcade presente nessa descrição é o locus amoenus, isto é, a natureza é apresentada como um lugar tranquilo e agradável onde os amantes se encontram. 3 Há dois elementos que retomam a poesia clássica:na forma, o uso do soneto; no conteúdo, a referência a ele- mentos da mitologia clássica (os Zéfiros e os Amores). 4 a) Os cenários que se opõem são a cidade (simbolizada pela corte) e a natureza. A corte é caracterizada pela sua grandeza falsa, oca (“vã”), e a natureza, pela perfeição. b) O tema desenvolvido é o fugere urbem. O eu lírico convida a sua amada a abandonar a grandeza vazia da cidade, da urbanização, e a desfrutar da perfeição que o cenário bucólico oferece aos amantes. 5 O cenário bucólico, com a descrição da natureza como um lugar agradável, é apresentado nas duas primeiras estrofes; o convite à amada, nos dois tercetos. > A construção do cenário, além de desenvolver o tema do locus amoenus, serve de base para a apresentação do fugere urbem. A natureza, apresentada como mo- delo de perfeição, é o argumento para que a amada aceite o convite do eu lírico, abandonando a “falsa” grandeza da corte. 6 Espera-se que os alunos, ao observarem os acon- tecimentos apresentados na linha do tempo, per- cebam a importância das novas ideias surgidas na Europa que se opõem à força da religião na determinação dos comportamentos humanos. Na França, as ideias iluministas ganham destaque, com a publicação de O contrato social, de Rousseau, e Cândido, de Voltaire. No campo da ciência e da tecnologia, dois acontecimentos importantes demonstram a mudança de perspectiva que ca- racteriza esse período: Newton publica a lei da gravidade, e Savery inventa a máquina a vapor. A busca pela racionalidade passa a ser uma preo- cupação do ser humano, que deseja entender e explicar o mundo que o cerca a partir da razão, e não mais viver o conflito motivado pela fé, como acontecia no período que compreende o Barroco. O que ocorre, então, é a valorização e a retomada de um modelo que reflita uma visão de mundo guiada por essa nova maneira de enxergar a realidade: daí o retorno aos ideais clássicos que privilegiam exa- tamente essa visão de mundo. A natureza passa a ser a medida da perfeição, assim como o era para os antigos, e determina, por exemplo, a formação da Arcádia Clássica, que pregará o retorno à nature- za como a melhor maneira de viver, como se pode identificar, por exemplo, no poema de Bocage “Re- creios campestres na companhia de Marília”. As muitas arcádias 198 Se julgar interessante, explicar aos alunos o pseudônimo adotado por Bocage na Nova Arcádia: Elmano é um anagra- ma de Manoel; Sadino indica que o poeta era originário da cidade de Setúbal, banhada pelo rio Sado. A poesia satírica 203 Um trecho das Cartas chilenas aparece na seção “A tradição da literatura barroca: a sátira política”, quando apresentamos a tradição da poesia satírica. É bom que os alunos percebam, agora no contexto da literatura árcade, como a poesia satírica de Tomás Antônio Gonzaga se ins- creve naquela tradição. Outros árcades 203 Se necessário, lembrar os alunos de que madrigal é uma composição poética breve que exprime um pensamento fino, terno ou galante. Surgiu no século XIV, no norte da Itália, e destinava-se quase sempre a ser musicado. O conceito foi apresentado no Capítulo 2, na análise do poema de José Paulo Paes. Se achar interessante, pedir aos alunos que retomem o conceito ali apresentado. Sup_P1_(001-037)-d.indd 35 11/11/10 12:32 PM 36 C om en tá ri os e r es po st as d as a ti vi da de s Tome nota 204 O rondó O prazer, apresentado na seção “Uma viagem no tempo: primeiras leituras” deste capítulo, ilustra bem a segunda possibilidade de organização dessa forma poética. Texto para análise 205 1 O eu lírico, deprimido com a sua prisão, diz à sua ama- da que encontra forças para resistir ao sofrimento no amor que nutre por ela e na ilusão de contemplar sua figura. > O eu lírico encontra-se numa masmorra. O poeta, na vida real, foi preso logo após a Inconfidência Mineira, da qual foi um dos integrantes, e escreve parte das liras no cárcere. Por isso, a relação entre a situação poética de Dirceu e os episódios vividos pelo poeta. 2 O primeiro interlocutor definido é a amada do poeta, Marília. O segundo é o Amor, que aparece personificado. a) A Marília, o eu lírico relata o sofrimento pela distância que se impôs entre eles em razão da prisão e como a imagem da amada, ainda que ilusória, o reconforta. Ao Amor, o eu lírico faz um apelo: que ele vá até sua amada e veja se ela está triste, pois, se isso acontecer, será um consolo para ele. b) Quando o eu lírico dirige-se à sua amada para tratar do sofrimento amoroso em razão do distanciamento entre eles, recupera um dos grandes temas clássicos desenvolvidos na poesia camoniana. A personifica- ção do Amor, figura mitológica a quem o eu lírico faz seu apelo, é outro elemento que marca a retomada dos antigos poetas clássicos nos quais Camões se inspirava. 3 a) Esses versos mostram o eu lírico angustiado, triste, deprimido em razão do sofrimento que vive por estar preso e distante de sua amada. b) Não. A referência “à dor imensa”, “à violência da mágoa” (que o eu lírico não suporta) indicam um “exagero” na apresentação dos sentimentos que é pouco comum entre os árcades. c) Além da manifestação “mais real” dos sentimentos do eu lírico, o que se evidencia como rompimento com características do Arcadismo é o cenário: Dirceu não se encontra em uma paisagem tipicamente ár- cade, caracterizada como um lugar agradável (o locus amoenus), mas em uma masmorra lúgubre, muito diferente da natureza perfeita típica do Arcadismo. 4 É possível identificar a busca pela simplicidade for- mal pelo uso de uma linguagem mais clara, com um vocabulário mais simples e sem rebuscamento. Não há, no poema, metáforas complexas que dificultem a compreensão do que é dito, pois uma das característi- cas da poesia árcade é a expressão das ideias de forma clara. Seria interessante, nesse momento, comparar a estrutura utilizada na lira de Gonzaga aos poemas barrocos que os alunos estudaram no capítulo anterior. Isso permitiria a percepção de uma “simplificação” da linguagem que garante a maior facilidade na compre- ensão dos poemas árcades. 5 O Amor é apresentado como um guerreiro forte, que vence os tigres, e que toma como objetivo render o eu lírico, declarando-lhe guerra ao coração. > O eu lírico se refere ao sentimento amoroso como um “cego engano”, do qual ele não conseguiu fugir. Ao utilizar essa imagem, o eu lírico associa o Amor a algo que lhe causa sofrimento, mas que, mesmo assim, acaba por vencê-lo. 6 O eu lírico dirige-se às pedras. Ele diz para temerem a ferocidade do Amor (caracterizado como “tirano”), que mais se empenha onde há mais resistência. 7 O elemento da paisagem local (Minas Gerais) incorpo- rado é o cenário rochoso (penhascos e penhas). > O eu lírico marca a oposição entre o cenário e sua alma: seria de esperar que entre as rochas que carac- terizam o cenário se encontrasse um “peito forte”, mas entre as “penhas” se criou uma “alma terna” e um “peito sem dureza”, que não consegue resistir à guerra que o Amor declara contra ele. 8 O eu lírico opõe a dureza do cenário à força do Amor. Nem mesmo um cenário como esse garantiu sua proteção contra o sentimento que o tomou, conforme se observa na segunda estrofe do soneto. Mais do que isso, na estrofe final, o eu lírico alerta as “penhas” sobre a tirania do amor que será mais forte quanto mais resistência houver. Poderíamos dizer que, nessa estrofe, o eu lírico sugere que cenário “duro” é o que determina a força maior que o Amor empregará para vencer seu adversário. 9 Espera-se que os alunos percebam, na comparação entre os dois textos, que a visão do amor desenvolvi- da por Cláudio Manuel da Costa é muito semelhante àquela apresentada por Camões. Para orientar melhor a leitura analítica, sugerimos que cada um dos pontos sejam propostos para discussão entre os alunos. Em- bora as respostas possam variar, em linhas gerais, a leitura dosdois textos deverá levá-los a concluir que: a) No soneto de Camões, o eu lírico é derrotado pelo Amor. Sua derrota deve-se ao fato de que, uma vez tocado pelo sentimento amoroso, ele recupera a esperança, justamente o sentimento que ele não tem, fazendo com que se sinta seguro e protegido dos efeitos do amor. Na última estrofe, a “astúcia” do Amor é revelada: ele desperta na alma das pessoas “Um não sei quê, que na[s]ce não sei onde./Vem não sei como, e dói não sei por quê”. b) Sim. A semelhança no comportamento do eu lírico nos dois poemas ocorre porque ambos investem na razão (o fato de terem consciência dos perigos do amor) como proteção contra os danos do amor. O Amor também é caracterizado de modo parecido. Em Camões, ele aceita o desafio e derrota o eu lírico. No soneto de Cláudio Manuel da Costa, o Amor é caracterizado como uma espécie de guerreiro cuja missão é tomar o coração do eu lírico. c) A conclusão a que chega o eu lírico, no soneto de Cláudio Manuel da Costa, é semelhante àquela do soneto camoniano: não há condição humana (ou da natureza) capaz de enfrentar a força do sentimento amoroso. Por esse motivo, as pedras são advertidas Sup_P1_(001-037)-d.indd 36 11/11/10 12:32 PM