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Conceitos atrelados a produção da amônia verde L. B. C. Embiruçu1 1SENAI CIMATEC, Salvador, Brasil (laura.embirucu@gmail.com) Denomina-se amônia verde a utilização do hidrogênio verde para produção de amônia. A geração pode ser descrita pela síntese de Haber-Bosch, onde os parâmetros que estão vinculados na reação são ajustados a fim de maximizar a reação do amoníaco. Essa tecnologia aponta como uma inovação tecnológica, pois durante a fabricação não há emissão de carbono e as taxas de emissão de poluentes são baixas, quando comparado a outros tipos de esquema produtivos. Palavras-chave: Biocombustíveis; Haber-Bosch; Hidrogênio; Amoníaco; Fertilizantes. INTRODUÇÃO A amônia ou amoníaco possui como propriedades químicas ser um gás incolor, tóxico, corrosivo (na presença de umidade), inflamável e possuir um odor característico. Sua fórmula estrutural é representada na figura 1, pode-se perceber que a substância é composta por: um átomo de nitrogênio e três átomos de hidrogênio. Figura 1: Fórmula estrutural da amônia O seu conhecimento e utilização é datado nas escritas de Plínio, este que era um naturalista romano, no seu livro Historie naturalis, no ano de 1782 nesse período foi cunhado de hammoniacum. No século XVIII Priestley, que dentre suas formações também era educador, conseguiu isolar o composto amoníaco e o denominou de gás alcalino. Em 1777 Scheele demonstrou que esse gás continha o hidrogênio e em 1778 Bergman nomeou de ammoniacum. Por fim, em 1785 Berthollet demonstrou a composição química da amônia e ela foi aceita pela comunidade científica. (SUTTON, 2008) Sua presença no meio ambiente ocorre de forma natural, combinada a outros organismos ou quando produzida artificialmente. Sua síntese mais reconhecida é a de Haber-Bosch, processo desenvolvido em escala laboratorial por Fritz Haber no ano de 1908 e em escala industrial em 1913 por Carl Bosch. Seu procedimento trata-se da obtenção de amoníaco por meio do diazoto e di-hidrogénio no estado gasoso. A reação é baseada também na ativação de átomos de hidrogênio e de nitrogênio na presença de um catalisador, o ósmio. A síntese do amoníaco é representada pela equação química: Para conseguir a maximização esperada o processo deve ser realizado com pressões elevadas e à temperatura mais baixa possível, cerca de 175 atm e 550°C. (F. AFTALION,2001). A amônia possui maior consumo no mercado de fertilizantes, visto que é o elemento chave do processo produtivo, seja pelos compostos de amônio (nitrato de amônio, sulfato de amônio, cloreto de amônio, sulfonitrato de amônio, fosfato de amônio), ou os nitratos, obtidos através do ácido nítrico, que é produzido a partir da amônia (nitrato de amônio, nitrato de cálcio, nitrato de sódio). A figura 2 representa uma planta industrial onde pode-se observar a aplicação da síntese de Haber-Bosch. (SHREVE, 1997). Figura 2: Processo Haber-Bosch Possui alta versatilidade, podendo ser utilizada na produção de plásticos, borrachas, explosivos, na indústria têxtil, na indústria bélica e substitui os CFCs (clorofluorcarbonetos) nos processos fabris. A primeira forma de utilização da amônia como combustível foi durante a segunda guerra mundial na Alemanha, o diesel do país havia sido confiscado pelo exército, e para a frota de ônibus conseguir circular eles modificaram a maquinaria dos ônibus, fazendo com que ela fosse utilizada largamente no território alemão. A produção da chamada "amônia suja” é responsável por cerca de 2% de todas as emissões de gases de efeito estufa. Atrelado a esse fator, a oxidação da amônia, contribui para a produção de gases do efeito estufa. Outro ponto negativo é a transformação de NH3 em NO2 (nitrito) que contribui para a lixiviação de nutrientes nos ecossistemas. Além disso, a presença exacerbada do amoníaco em ambientes aquáticos pode gerar a morte ou problemas no desenvolvimento de peixes. A amônia também pode o processo de eutrofização, este que é um aumento na quantidade de algas nos corpos hídricos e a redução da fotossíntese. Por ser consideravelmente mais leve que o ar (densidade relativa do ar, 0,5963) e possuir um caráter alcalino possibilita a reação com outros componentes alcalinos, a exemplo do dióxido de enxofre (SO2). Nesse exemplo citado eles reagem e formam aerossóis atmosféricos que possuem papel grave na redução da qualidade do ar, ela também possibilita a formação do MP2.5 que é componente que contribui para a formação da chuva ácida. MATERIAL E MÉTODOS O presente artigo caracteriza-se com base nos tipo de metodologia como sendo teórico de natureza básica, pois ele tem como finalidade a análise das variáveis referentes à produção de amônia atrelada a utilização do hidrogênio verde, esse processo recebe a nomenclatura de “amônia verde”. Também são analisados os fenômenos físicos atrelados a esse processo. A abordagem de construção foi qualitativa, visto que privilegia a análise de microprocessos. O trabalho caracteriza-se com uma revisão bibliográfica e para a sua sua construção teve como principais referências: (SUTTON, 2008); (F. AFTALION,2001) e (SHREVE, 1997). RESULTADOS E DISCUSSÃO Denomina-se amônia verde o sistema de fabricação de amônia que utiliza o hidrogênio verde. Sendo apontada como o "combustível do futuro” pela literatura, pois é produzida por meio de fontes e tecnologias limpas (solar, eólica, hidráulica, entre outras). Para utilizar o hidrogênio verde como fonte de energia são conhecidos quatro grande métodos, sendo eles: processos termoquímicos, eletrólise de água, processos rádio líticos e processos biológicos. Dentre os quais a eletrólise apresenta-se como a melhor alternativa com custo/benefícios significativos, esse sistema é uma fonte de energia limpa que só emite vapor de água e não deixa resíduos no ar, ao contrário do carvão e do petróleo. O sistema de produção do hidrogênio verde por eletrólise, este que é um processo físico-químico que utiliza a energia elétrica de uma fonte qualquer para forçar a ocorrência de uma reação química de produção de substâncias simples ou compostas que não podem ser encontradas na natureza ou que não são encontradas em grande quantidade. (ATKINS, 2006). Consiste na decomposição das moléculas de água (H2O) em oxigênio (O2) e hidrogênio (H 2), representada na figura 4, a água utilizada para a eletrólise deve conter sais e minerais para conduzir a eletricidade, dois eletrodos submersos na água e conectados a uma fonte de energia aplica uma corrente contínua, a dissociação do hidrogênio e o oxigênio acontece quando os eletrodos atraem para si os íons de carga oposta, durante a eletrólise ocorre uma reação oxidação-redução pelo efeito da eletricidade. (IBERDROLA, 2019) Figura 3: Processo de eletrólise Atualmente a maioria das indústrias de amônia utilizam o hidrogênio proveniente da queima de combustíveis fósseis, como o gás natural, esse sistema de produção é “hidrogênio azul”, representado pela figura 3. Todavia, esse esquema produtivo apresenta inúmeros pontos negativos quando comparado ao hidrogênio verde, sendo alguns deles: o hidrogênio verde utiliza energia renovável para sua produção, tornando-se assim um processo limpo, enquanto que o hidrogênio azul utiliza gás natural como combustível para a geração; é necessário capturar e armazenar carbono (CSS), porém para essa realização é necessário garantir que esse armazenamento ocorra de maneira segura, pois em caso de erro no processo esse carbono poderia vazar para a atmosfera; o consumo de energia no processo é extremamente alto. Figura 4: Esquema de produção do hidrogênio azul O sistema de produção do hidrogênio é classificado conforme a sua forma de produção e, com base nessa informação ele recebe uma coloração específica, na tabela 1 são apresentadas algumas das formas de fabricação e suas respectivas colorações. Atualmente, é produzido em cerca de 65 milhões de toneladas e espera-se, futuramente, maiores aplicações como em combustível para veículos elétricos com células combustíveis (FCEV), aquecimento industrial, doméstico eetc. COR FORMA DE PRODUÇÃO Azul Obtido a partir da queima de combustíveis fósseis, como gás natural e carvão mineral, seguida da captura e do armazenamento de carbono emitido no processo. Rosa Quando a fonte primária de energia é a nuclear Turquesa Utiliza um processo chamado pirólise do metano é usado para produzir hidrogênio e carbono sólido que pode ser armazenado ou utilizado em outro processo. Amarelo Quando se usa especificamente a energia solar para alimentar o processo de eletrólise. COR FORMA DE PRODUÇÃO Verde Quando se usa qualquer fonte renovável de energia na eletrólise. Preto Produto da gaseificação de carvão mineral. Cinza Obtido a partir da queima de combustíveis fósseis Tabela 1: Processos produtivos de hidrogênio O hidrogênio verde também pode ser embarcado na forma de amônia verde, e uma vez entregue ao seu destino final, deve-se iniciar o processo de craqueamento (extração do hidrogênio contido da amônia). Esse processo mostra-se vantajoso, pois o hidrogênio para ser transformando em líquido é necessário resfriá-lo a -253°C, e dessa forma gasta-se muita energia no processo de liquefação. Em contrapartida o amoníaco é liquefeito a -33°C ou submetido a baixas pressões. Figura 5: Cadeia de produção do hidrogênio verde CONCLUSÃO A amônia configura-se hoje como a maneira com o melhor custo/benefício de armazenar e transportar o hidrogênio verde. Em questões de mercado, são produzidas cerca de 240 milhões de toneladas anuais, gerando uma renda de aproximadamente US $90 bilhões em 2026. Existe a meta proposta pelo International Maritime Organization (IMO) de realizar a descarbonização de todo o transporte marítimo até 2030. Outro fator que torna essa tecnologia uma aposta positiva é que cerca de 80% da amônia consumida no Brasil é importada, provando, mesmo sendo um país que possui como um dos maiores modais a agricultura. A indústria de fertilizantes Yara iniciou a produção da amônia verde em Cubatão, litoral de São Paulo, apesar do volume inicial ser de 3%, mas já é o pontapé inicial para aprofundar estudos nesse setor tecnológico. AGRADECIMENTOS Agradeço ao SENAI CIMATEC e ao Projeto de Recursos Humanos (PRH 27.1) da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. REFERÊNCIAS SUTTON, Mark A. et al. Ammonia in the environment: from ancient times to the present. Environmental Pollution, v. 156, n. 3, p. 583-604, 2008. F. Aftalion, A history of the international chemical industry, 2nd edition, Philadelphia, PA: Chemical Heritage Press, 2001, ISBN: 978-0-94-190129-1 IBERDROLA. Hidrogênio VERDE. Disponível em: https://www.iberdrola.com/sustentabilidade/hidrogenio-ver de. Acesso em: 8 abr. 2022. ATKINS, P.W.; JONES, Loretta. Princípios de química: questionando a vida moderna e o meio ambiente. 3.ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. 965 p. SHREVE, R. N.; BRINK JR., JOSEPH A. Indústrias de Processos Químicos, 4 edição, Editora Guanabara Koogan S. A., 1997.