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Ética e Legislação em Comunicação e Relações Públicas Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Me. Fábio Munhoz Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Ética e Comunicação Organizacional • Introdução; • Ética no Mundo dos Negócios; • Narrativas Organizacionais; • Desafios. • Investigar e refl etir sobre a origem e a importância da Ética nas questões sociais e Corporativas; • Interpretar e analisar parâmetros éticos norteadores da Comunicação Corporativa. OBJETIVOS DE APRENDIZADO Ética e Comunicação Organizacional Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional Introdução Nesta unidade, falaremos sobre a relação entre a Ética e a Comunicação Orga- nizacional, ou seja, a Comunicação praticada pelas Organizações junto aos seus públicos estratégicos e a presença, ou não, da Ética como norteadora das práticas que aí se apresentam. Num primeiro momento, para entendermos melhor o contexto no qual a Co- municação organizacional se enquadra, trataremos do mundo dos negócios e da relevância que a Ética ganha nesse cenário. Seja como prática efetiva buscada pelas Empresas seja como discurso merca- dológico/institucional para construção de uma imagem positiva que não encontra respaldo na realidade, a Ética está cada vez mais presente nas Corporações. Na sequência, discutiremos, justamente, qual o papel da Comunicação Orga- nizacional nesse contexto. Podendo ser vista como incentivadora de culturas Or- ganizacionais que realmente sejam expressões de virtudes Éticas; ou como mera promotora de imagens Organizacionais que buscam construir reputações sobre valores que não são praticados. E é aí que se encontram os maiores desafios sobre os quais também iremos tratar. Ética no Mundo dos Negócios A relação entre a Ética e o mundo dos negócios nunca foi fácil. Desde sempre, a busca por maiores lucros acaba atropelando valores, virtudes e responsabilidades. Na lógica do chamado Capitalismo selvagem, o único valor que parece sensibi- lizar dirigentes e executivos das Corporações é aquele que aparece nos resultados financeiros, ao lado dos cifrões. Numa aula inaugural sobre Ética, com executivos de Empresas, eu mal iniciava a exposição quando surgiu um questionamento radical: “Ética dá lucro? Caso contrário, estaremos perdendo tempo ao falar do tema em um MBA Empresarial!”. Essa descrença sucedeu-se em intervenções análogas em várias ocasiões, sintetizando uma conclusão equívoca e distorcida do espírito corporativo, traduzindo uma espécie de vazio existencial, como se as organizações fossem um mero e cruel instrumento de fabricar dinheiro. A diretriz seria: fazer dinheiro, muito dinheiro, pois com ele tudo se justifica (...) Quem foca o bem egoístico ignora a realidade de que a Empresa é mera abstra- ção suicida sem o cliente. E de que não há vida social sem um mínimo de consciência ética. (MATOS apud BARROS FILHO, 2013, p. 41) A própria consolidação das Relações Públicas como campo profissional, nos Estados Unidos do início do século passado, é testemunha dessa história de abusos e violações. 8 9 Aliás, poderíamos mesmo dizer que as RP surgem exatamente por conta disso: (Na década de 20 do século passado), a hostilidade contra as grandes Or- ganizações de negócios era uma gritante realidade. Os detentores dessas Empresas eram acusados de procurar monopolizar as atividades indus- triais, por meio de cartéis, de modo a fazer desaparecer a concorrência (...) Igualmente, pagavam a mão-de-obra com salários de fome. Nos EUA, criava-se, praticamente, um estado de guerra entre grandes empresas e a opinião pública. (ANDRADE, 1993, p. 57) Como vocês se lembram, foi diante desse cenário que o jornalista Ivy Lee em- preendeu uma série de ações buscando trabalhar a imagem do patriarca da família Rockefeller, John D. Rockefeller. Figura 1 – John Davison Rockefeller Fonte: Wikimedia Communs Saiba mais sobre John Davison Rockefeller no link a seguir: https://goo.gl/eKm7Cq Ex pl or Notem, portanto, que as RP surgem para o mundo dos negócios justamente para lidar com problemas relacionados a desvios éticos que impactam a opinião pública da época: abuso do poder econômico para eliminação da concorrência e determinação de preços, más condições de trabalho para os empregados e até mesmo uso da força e violência contra quem questionava os métodos. Tudo pelo lucro: Depois, com as novas medidas tomadas por Lee, principalmente median- te criação de numerosas fundações voltadas para o bem comum, como por exemplo, a Rockefeller Foundation for Medical Research, conse- guiu criar um halo de protetor da humanidade de benemérito na figura do milionário americano. Houve também um trabalho de esclarecimento junto à imprensa, com resposta pessoal de Rockefeller a todas as críticas publicadas no jornal. Não se pode dizer que Lee tenha usado técnicas exatas de RP, mas, de qualquer maneira, conseguiu solucionar a questão [...]. (ANDRADE, 1993, p. 58) 9 UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional De vilão a herói junto à opinião pública: o mesmo Rockefeller, que antes do traba- lho de Ivy Lee precisava da escolta de seguranças para não ser agredido em público, transforma-se numa referência positiva do espírito empreendedor estadunidense. E esse tipo de situação se repetiu, e ainda se repete, inúmeras vezes. Crises de imagem e de reputação geradas por práticas empresariais esvaziadas de Ética que precisam ser gerenciadas e contornadas por profissionais de Comunicação e RP. A grande diferença é que as Empresas estão cada vez mais atentas às suas prá- ticas e ao modo como elas são percebidas pelos diferentes públicos. Nesse sentido, a opinião pública passa a ter papel muito importante ao apresentar os limites éticos dentro dos quais os executivos devem operar suas Organizações. E esses limites ficam mais destacados e estreitos à medida que a Sociedade civil exerce sua cidadania, conquista e demarca territórios de direitos e deveres deixan- do claro o que aceita e o que não aceita por parte das Empresas. Segundo a Pesquisa Akatu, 2018 – Panorama do Consumo Consciente no Brasil: desafios, barreiras e motivações, os consumidores tendema valorizar cada vez mais as Empresas preocupadas com valores morais e éticos: Entre as oito principais causas que mais mobilizam o consumidor a com- prar um produto de determinada marca, cinco estão ligadas ao cuidado com pessoas: atuar no combate ao trabalho infantil; tratar funcionários da mesma forma, independentemente de raça, religião, sexo, identidade de gênero ou orientação sexual; investir em programas de contratação de pessoas com deficiência; contribuir para o bem-estar da comunidade onde está localizada; e oferecer boas condições de trabalho. (...) Já como posicionamento mais geral, 59% acreditam que as Em- presas deveriam fazer mais do que está nas leis e trazer mais benefícios para a sociedade. Saiba mais sobre a Pesquisa Akatu, 2018 no link a seguir: https://goo.gl/ChBrbm Ex pl or Além do Instituto Akatu, há uma série de Organizações e Empresas que sempre trazem Pesquisas de opinião e de Mercado que são muito importantes para nossas análises. Aqui, sugerimos algumas: • Euromonitor International – https://goo.gl/Nwvmpt; • The Future Laboratory – https://goo.gl/F4E488; • Mindminers – https://goo.gl/o3bwke; • ThinkWith Google – https://goo.gl/vnRB6E. Ex pl or É nesse contexto, por exemplo, que muitas Corporações passam a comunicar essa sua adequação às expectativas da opinião pública como diferencial competitivo. 10 11 E, desse modo, buscam construir uma imagem institucional ligada a valores que são bem aceitos pelo conjunto da Sociedade, principalmente, por seus consumido- res e demais stakeholders. Como experiência, peço que façam uma breve pesquisa nos sites de algumas grandes Empresas: busquem pelos princípios organizacionais ou valores organiza- cionais delas. Vocês perceberão que palavras como Ética, respeito, comprometimento, susten- tabilidade, diversidade, só pra ficar com as principais, são recorrentes. Afinal, são palavras que sintetizam muito daquilo que socialmente se espera dessas Empresas. E é assim que, como discutiremos mais adiante, surgem as narrativas em torno da responsabilidade social ou socioambiental ou sustentabilidade das Corporações. Num primeiro momento, esse esforço de Comunicação buscava posicionar as Empresas como diferentes em relação aos concorrentes, de tal forma a situá-las de modo mais positivo junto aos seus públicos estratégicos, ou seja, buscava-se criar um diferencial institucional e competitivo em relação às demais. Entretanto, com o passar do tempo e a adesão de grande parte das Empresas a essa lógica, aquilo que era um diferencial, hoje, é quase uma condição sine qua non1 para trabalhar a imagem das Organizações. Aliás, mais do que nutrir uma imagem positiva, existe uma demanda para que todos aqueles valores disseminados fora da Organização sejam efetivamente viven- ciados dentro dela. Isto é, não me basta dizer que sou Ética, ter a imagem de uma Empresa éti- ca, preciso ser Ética no meu dia a dia, nas minhas operações, na minha gestão. A Ética tem que ser reflexo natural de minha identidade organizacional, de minha cultura organizacional. Figura 2 – Muitas vezes, os esforços de Comunicação das Empresas projetam imagens institucionais muito diferentes daquilo que elas efetivamente são 1 Sine qua non ou conditio sine qua non é uma expressão vinda do latim que pode ser traduzida como “sem a/o qual não pode ser”. Refere-se a uma ação cuja condição é indispensável. 11 UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional O desalinhamento entre discurso e prática tem criado muitas situações constran- gedoras, para dizer o mínimo, que são inaceitáveis por parte da opinião pública. Assim, por exemplo, muitas Organizações investem recursos na construção de políticas de responsabilidade socioambiental, apóiam projetos sociais e ambientais, mas, ao mesmo tempo, estão envolvidas em esquemas de corrupção ou, ainda, aquelas Empresas que se autoproclamam sustentáveis, mas são negligentes com o meio ambiente em suas operações. Normalmente, quando isso acontece, tenta-se isolar e fulanizar os desvios éticos, apresentando a Organização como apenas mais uma vítima das ações isoladas de empregados que agiram sem o consentimento dos dirigentes. Obviamente, quando os próprios dirigentes estão envolvidos nos desvios, a coisa fica um pouco mais difícil... Como já discutimos na Unidade I, a Ética é um atributo individual e humano; logo, dizer que uma Empresa é ética ou não é, significa, na verdade, dizer que seus diri- gentes são, e reproduzem condições para os seus empregados serem, éticos ou não: Quando optamos por adestrar os funcionários a focarem em suas metas e a perseguirem os resultados e os condenamos a não atingirem isso, indireta- mente, promovemos a utilidade e a meta como valores éticos primordiais e somos forçados a ignorar outros valores éticos igualmente importantes para o bom funcionamento da Empresa. A crise do sistema financeiro de 2008 foi a prova cabal de que o sistema de recompensas e punições nos leva a não ver e a desconsiderar outros valores éticos, como transparência, honestidade, respeito, sustentabilidade e amor. (BARROS FILHO, 2013, p. 69 -70) Nesse sentido, e para tentarem se resguardar legalmente, muitas Empresas vêm adotando as chamadas políticas de compliance. Na prática, e de modo resu- mido, essas políticas são regras e diretrizes estabelecidas e amplamente comunicadas, especialmente junto aos seus colaborado- res, para evitar e detectar desvios legais e éticos nas operações das Empresas. Mais do que isso, essas políticas definem tam- bém o que fazer no caso de um desvio acontecer, ou seja, como lidar ou tratar com possíveis desvios. Veja o que diz o verbete sobre compliance na Wikipedia: https://goo.gl/NT6SgS Ex pl or Dessa forma, com todos estando cientes sobre as regras e as diretrizes, a Orga- nização busca se resguardar juridicamente, indicando que ela não aprova e, mais que isso, tem mecanismos que visam a inibir e a evitar potenciais desvios de seus Figura 3 Fonte: iStock/Getty Images 12 13 empregados. Busca-se, enfim, uma desresponsabilização da pessoa jurídica, atri- buindo culpa a atitudes isoladas de pessoas que lá trabalham. Sob os pontos de vista legal e formal, adotar políticas de compliance é, sem dú- vida, uma atitude inteligente e até mesmo bem-intencionada. Entretanto, sabemos que a Ética das Empresas depende em larga medida de sua cultura Organizacional, e esta não se muda apenas com um regulamento escrito. São valores, hábitos, comportamentos e modelos sociais que precisam ser lapi- dados no cotidiano, ao longo do tempo. Além disso, é sempre importante lembrar que as Empresas não são coisas isoladas do contexto em que estão inseridas. E, sa- bemos que muitas vezes esses contextos de negócios são extremamente “tóxicos” e têm o comportamento ético como vítima preferencial. Outra prática cada vez mais presente nas Organizações é a adoção de platafor- mas de gestão baseadas em Governança Corporativa. Segundo o IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa): Governança Corporativa é o sistema pelo qual as Empresas e demais Organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, con- selho de administração, diretoria, órgãos de fi scalização e controle e demais partes in- teressadas. As boas práticas de governança corporativa convertem princípios básicos em recomendações objetivas, alinhando interesses com a fi nalidade de preservar e otimizar o valor econômico de longo prazo da Organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para a qualidade da gestão da Organização, sua longevidade e o bem co- mum. Disponível em: https://goo.gl/Dfi ixT Ex pl or Figura 4 Fonte: iStock/Getty Images Nesse caso, além do monitoramento por parte de representantes de diferentes stakeholders, os próprios princípios básicos da Governança acabam sendo pro- motores de um ambiente mais ético: • Transparência: Consiste no desejo de disponibilizar para as partes interessa- dasas informações que sejam de seu interesse e não apenas aquelas impostas 13 UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional por disposições de leis ou regulamentos. Não deve restringir-se ao desempe- nho econômico-financeiro, contemplando também os demais fatores (inclusive intangíveis) que norteiam a ação gerencial e que condizem à preservação e à otimização do valor da Organização; • Equidade: Caracteriza-se pelo tratamento justo e isonômico de todos os só- cios e demais partes interessadas (stakeholders), levando em consideração seus direitos, deveres, necessidades, interesses e expectativas; • Prestação de Contas (Accountability): Os agentes de governança devem prestar contas de sua atuação de modo claro, conciso, compreensível e tem- pestivo, assumindo integralmente as consequências de seus atos e omissões e atuando com diligência e responsabilidade no âmbito dos seus papéis; • Responsabilidade Corporativa: Os agentes de governança devem zelar pela viabilidade econômico-financeira das Organizações, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e suas operações e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu modelo de negócios, os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, ambiental, reputacional etc.) no curto, médio e longo prazos. Na prática, o olhar da governança acaba se voltando, principalmente, para a susten- tabilidade econômica das Organizações, mas, indiretamente, as questões éticas também são pautadas, na medida em que cada vez mais influenciam os resultados financeiros. Narrativas Organizacionais De toda forma, e fundamentalmente, por conta da pressão da opinião pública e, por tabela, dos Órgãos de Justiça e Regulamentação, nos últimos anos, a Éti- ca transformou-se em um troféu que se busca conquistar e principalmente exibir. Para nós, que já avançamos um pou- co em nossos estudos, é fácil perceber que essa postura de muitas Empresas em relação à Ética já parte de uma pre- missa equivocada, que é pensá-la como algo exterior à Organização (‘‘um tro- féu’‘), quando o mais correto seria tomá- -la como aquilo que efetivamente é: um exercício contínuo de pautar suas ações de acordo com os valores e virtudes so- cialmente compartilhados. Nesse sentido, podemos dividir nos- sa análise em dois movimentos. Um primeiro movimento dedicado àquelas Figura 5 – A Ética não é um troféu com um valor em si. Ética é um exercício prático de fazer as melhores escolhas para o bem viver em Sociedade Fonte: iStock/Getty Images 14 15 Organizações que entendem a Ética como ela deve ser entendida. E um segundo, analisando aquelas Organizações que tomam a Ética como apenas um atributo ins- titucional ou de marca que ajuda em seu posicionamento no Mercado. Claro que desde já consideramos também aqueles casos em que Empresas praticam a Ética como deve ser e a partir daí utilizam sua vivência como dife- rencial competitivo. Em relação ao primeiro movimento, podemos ponderar sobre a importância da Comunicação organizacional, em especial, sua dimensão interna, no sentido de pro- mover narrativas que busquem a construção de uma identidade e cultura organiza- cional alinhadas aos valores e às virtudes, socialmente, compartilhados como éticos. É assim que, normalmente, em apoio aos Departamentos de Gestão de Pessoas, busca-se transformar hábitos e comportamentos corporativos, direcionando-os a partir de novos modelos sociais e rituais organizacionais mais adequados às práti- cas desejadas. O que se busca é construir Organizações que efetivamente estejam em conso- nância com seu tempo, e isso inclui o ser ético. Vejam o exemplo no site a seguir, de uma Empresa que presta serviços e consultorias Empresariais. Reportagem do Universa UOL, de novembro de 2018 – A 1a executiva trans do país. Danielle se tornou a primeira executiva trans do Brasil só no ano passado, quando já ocupava um cargo de direção na KPMG. Disponível em: https://goo.gl/KaQHhH Ex pl or Ao ler a reportagem, percebam o papel determinante da Organização no senti- do de promover uma cultura inclusiva que valoriza a diversidade, em relação a um tema tabu, raramente tratado da forma adequada, tanto pela Sociedade quanto pelas Empresas: Fui então promovida e, alguns meses depois, houve uma palestra sobre diversidade na Empresa. Vi uma palestra do Ramon Jubels, que é sócio- -líder do pilar Voices do Comitê de Inclusão e Diversidade da KPMG no Brasil. Ele é homossexual e contou um pouco sobre como foi o processo dele (...) Tive muita preocupação se eu receberia respaldo. Mas soube que a KPMG estava assinando o pacto do fórum das Empresas que apóiam os direitos LGBT, o que me deu tranquilidade. Vi que o assunto estava sendo discu- tido em um nível muito alto, que não era algo que eu ia fazer de forma isolada. Depois, formou-se o comitê de diversidade da KPMG. Notem que esse parece ser um daqueles casos em que a transformação da cul- tura organizacional e a consolidação de uma identidade corporativa vem antes da projeção de sua imagem institucional, como idealmente deveria ser em todas as si- tuações: primeiro a comunicação interna cria, facilita e compartilha narrativas que ajudam na transformação interior da Organização, para depois a Comunicação 15 UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional institucional entrar em cena e posicionar a imagem da Corporação por meio de suas diferentes ferramentas (como a assessoria de imprensa, por exemplo, o que parece ser o caso da consultoria na situação acima) junto aos demais stakeholders, externos à Empresa. Ocorre, porém, que nem sempre as coisas acontecem desse modo. Na pressa de impactar a opinião pública e os públicos estratégicos externos, muitas Empresas fazem a Comunicação de marketing antes mesmo de arrumar a casa. Surgem assim, por exemplo, as práticas do chamado greenwashing, ou seja, a apropriação injustificada de virtudes ambientais por parte de Empresas utilizando as técnicas de Marketing e Comunicação. Injustificada porque não corresponde à realidade das operações da Empresa, sen- do apenas uma forma de maquiar de verde sua imagem, a de seus produtos e marcas. Veja o que diz o verbete greenwashing na Wikipedia: https://goo.gl/ut5Cd5. Ex pl or Figura 6 Fonte: iStock/Getty Images Ou, ainda, aqueles casos em que na disputa pelos chamados pinkmoney e blackmoney, as Empresas vestem a máscara da inclusão, da diversidade e do com- bate aos diferentes preconceitos: o racial, a homofobia, a misoginia... Nos discursos, tudo lindo. No cotidiano, muitas vezes persistem as diferenças nos salários e nas oportunidades de carreira. Veja o que diz o verbete pinkmoney na Wikipedia: https://goo.gl/R0cbYI e o que é o movi- mento blackmoney: https://goo.gl/d6GaTT.Ex pl or 16 17 Infelizmente, é simples perceber essa contradição social entre discurso e prática quando analisamos dados de 2018 do IBGE, que nos mostram, por exemplo, que negros ganham em média R$1,2 mil menos que brancos ou que mulheres ganham 77,5% do salário de homens ou, ainda, de acordo com levantamento do Grupo Gay da Bahia, o fato de que o Brasil é o país no qual mais se assassina homosse- xuais no mundo. Leia as matérias citadas acima, na íntegra: • Negros ganham R$ 1,2 mil a menos que brancos em média no Brasil; trabalhadores relatam difi culdades e ‘racismo velado, disponível em: https://goo.gl/vSbNsN • Mulheres ganham 77,5% do salário dos homens no Brasil, diz IBGE, disponível em: https://goo.gl/EYqBK8 • Brasil é o país onde mais se assassina homossexuais no mundo, disponível em: https://goo.gl/qCbFmT Ex pl or Em todas essas situações, o que temos é um aparente predomínio, ou no míni- mo, um desalinhamento, das narrativas do Marketing em relação àquelas pensa- das para a gestão e gestação de uma cultura organizacional ética. A Ética e o direito definem a responsabilidade como a obrigação de res- ponder pelas ações próprias ou dos outros (HOUAISS, 2009, p. 1653). A responsabilidade socialde uma Empresa diz respeito aos impactos de suas ações, ao seu objeto de comercialização, e não às suas campanhas de ação solidária (BARROS FILHO, 2013, p. 207). De nada adiantam os esforços de marketing social, de marketing ambiental, de marketing cultural, de marketing esportivo etc. – todos sob o ‘‘guarda-chuva’‘ da responsabilidade social ou socioambiental – se, por exemplo, a Empresa sone- ga impostos, corrompe agentes do Poder Público, burla leis, assedia moralmente seus empregados, oferece produtos e serviços de má qualidade, reforça precon- ceitos etc. Quando pensamos no espírito ético utilitarista ou pragmático do capitalis- mo, nos perguntamos se um banco teria alguma responsabilidade social. Segundo os pensadores liberais que fundamentam o discurso ético do mercado, certamente teriam. A função de um banco é proteger os bens econômicos de seus clientes cobrando o menor valor possível pelos servi- ços. O projeto de expansão econômica de um banco deveria estar intima- mente ligado à sua capacidade de enriquecer os correntistas, promovendo assim um benefício geral e não o empobrecimento dos clientes por meio de planos de capitalização e ofertas de serviços caros, pouco úteis e com juros exorbitantes. Mas não é isso o que ocorre. Para encobrir as mazelas que seus maus serviços causam à população, preferem criar campanhas de ajuda a animais em extinção ou de reforma de escolas e hospitais. (...) Essa lógica utilitarista própria do capitalismo poderia estender-se a inúmeros outros setores da economia (BARROS FILHO, 2013, p. 208). 17 UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional Desafios Talvez esse seja o maior desafio das Organizações contemporâneas: gerir e ges- tar uma cultura e identidade organizacionais éticas. Mesmo porque, ao que parece, muitas Empresas somente se voltam para essas transformações quando se depa- ram com algum tipo de pressão que possa atrapalhar os negócios. Vejamos o amplamente conhecido caso de uma marca de cervejas que, em fe- vereiro, de 2015 enfrentou uma grande crise de imagem junto à opinião pública. Relembre o caso: • Outdoor da Skol para o Carnaval causa indignação em SP. EXAME. Disponível em: https://goo.gl/Q6D6TB. • Skol irá trocar campanha após acusação de “Apologia ao estupro”. G1. Disponível em: https://goo.gl/iue5Jq; • ‘‘Esqueci o Não’‘ da Skol sai de cena, mas cai na mira do Conar. Folha. Disponível em: https://goo.gl/iuyi2d. Ex pl or Após o acontecido, a marca tem buscado reposicionar sua Comunicação mer- cadológica e institucional no sentido de se desvencilhar dos inúmeros preconceitos e estereótipos que historicamente sempre marcaram as campanhas de marcas de cerveja. Para isso, aliás, vem tentando se vincular a uma série de causas identitárias (questões estéticas, raciais, de gênero, LGBTQ etc.). Certamente, os estrategistas de marketing, ao fazerem isso, enxergam não somente os ‘‘novos’‘ valores compartilhados pela Sociedade, mas, especialmente, o poder de con- sumo desses grupos. De qualquer modo, podemos ponderar, trata-se de uma mudança. Leia as seguintes matérias na íntegra: • Skol realiza pesquisa inédita sobre LGBTfobia no Brasil. Disponível em: https://goo.gl/ZGXT8E; • Skol troca a pele de suas. Disponível em: https://goo.gl/Shuoo9; • Marca de cerveja retoma propaganda de 97 para debater preconceito de gênero. Disponível em: https://goo.gl/UNKXrg; • Respeito is ON é a proposta de Skol para a diversidade. Disponível em: https://goo.gl/Lh6APJ. Ex pl or Entretanto, não é possível dizer que essa transformação para fora se sustenta em uma transformação interna, ainda que haja indícios de que talvez sim, confor- me podemos conferir na reportagem da revista Época Negócios. Por que a Ambev está mudando sua cultura, disponível em: https://goo.gl/mMbxmj Ex pl or 18 19 O fato é que o caso ilustra bem a situação na qual, diante de questões éticas, as Empresas – entenda-se aqui, os dirigentes das Empresas, apresentam-se reativas ao juízo da opinião pública, ou seja, tais Empresas por definição (como vimos na Unidade I) não são éticas, mas sim oportunistas. Mas toda Empresa não deveria ser exatamente assim, oportunista, no sentido de gerar oportunidades de negócios e dessa forma maximizar seus lucros? Ao pensarmos a Ética Empresarial com menos idealismo, é normal que o lucro encabece a lista de valores da Empresa e não o contrário. Afinal, os economistas liberais, utilitaristas, marxistas, keynesianos, os sociólo- gos e historiadores classificam o capitalismo como um sistema econômi- co em que os meios de produção, prestação de serviço, a propriedade privada e as relações sociais se estruturam na obtenção do lucro. Em- presas que se consideram sem fins lucrativos são um contrassenso, pois são cínicas ou ignorantes de sua própria causa (BARROS FILHO, 2013, p. 216). O lucro por parte das Empresas pode ser tomado com uma virtude, um valor. Assim como a sustentabilidade, a diversidade e o respeito (às leis, às pessoas, ao Poder Público), entre outros, também podem. A questão é a seguinte: o que fazer quando esses valores entram em conflito? Ou, exemplificando, o que é mais importante para decidir nossas escolhas, o lucro ou a sustentabilidade? O respeito às leis ou a sobrevivência do negócio? Como sabemos, a Ética não é um valor, mas um exercício prático sobre fazer escolhas de acordo com valores e virtudes entendidos como corretos pela Socieda- de em que vivemos, e nos responsabilizarmos pelas consequências dessas escolhas. O desafio de uma Empresa ética, portanto, é fazer escolhas que não se pautem exclusivamente nos resultados financeiros, no lucro. E é um desafio porque muitas vezes isso significa ir contra a natureza essen- cialmente econômica das Empresas. É possível deixar o lucro em segundo plano? Algum executivo ou acionista aceitariam isso? Como costuma brincar o professor Clóvis de Barros Filho, se houvesse um ga- barito capaz de nos ajudar com nossas escolhas, as coisas seriam muito mais fáceis: Os valores das empresas são como gabaritos, na hora da dúvida oferecem alguma resposta. Uma resposta entre muitas outras possíveis. Escolhida no meio de infinitas concorrentes. (...) Não havendo uma única resposta para as coisas da vida, continuamos livres para escolher nossos valores e nossos caminhos. Se não fosse assim – e a vida não passasse de uma prova de matemática –, não haveria escolha alguma. Tudo já estaria pronto. (...) Mas, aparentemente, no meio de uma infinidade de valores contraditórios continuaremos escolhendo, decidindo, auxiliados por todos os recursos da nossa inteligência. Por isso a ética não pode ser um valor. Uma resposta entre outras (...) 19 UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional Porque a ética é um saber, o grande guarda-chuva que estuda todos os valores, todos os argumentos, todas as máximas deliberativas, todos os paradigmas e formas de pensamento que o homem propôs ao longo da história do seu pensamento para viver o melhor possível de acordo com a própria inteligência (BARROS FILHO, 2013, p. 50-1). Figura 7 Fonte: iStock/Getty Images No caso da marca de cerveja, na origem da crise, o desvio se deu justamente porque a pluralidade de olhares e de valores da sociedade contemporânea em re- lação àquilo que se desejava comunicar foi ignorada. A marca se responsabilizou (ainda que reativamente) rapidamente pela consequência de seus atos e depois des- sa situação conseguiu fazer escolhas em que valores econômicos, valores sociais e valores morais parecem ter conjuminado. Nunca haverá como evitarmos completamente novos desvios éticos, mas, certa- mente a consolidação de uma cultura e identidade organizacional ética ajudaria muito. Nesse sentido, estar atento às mudanças dos humores e valores sociais e àquilo tudo que pode nos fazer viver em um mundo melhor é elementar. E é neste ponto que a Comunicação, e em especial as RP, podem ser importan- tes aliadas não só no sentido de compartilhar e promover hábitos,comportamen- tos e valores internamente, mas, principalmente, funcionando como radares que compreendem os diferentes públicos, a sociedade, os contextos, criando canais por meio dos quais a Empresa – e entenda-se aqui, novamente, os dirigentes da Empresa, dialoga e aprende com a complexidade do mundo. Sem os gabaritos, sem fórmulas prontas, fugindo dos adestramentos que geram feedbacks rápidos, mas rasos, e nesse caso, insuficientes. 20 21 Sempre com inteligência, com capacidade analítica: Afinal, desde que o homem circula entre Gaia e Urano, duas persona- gens resistem aos sucessivos capítulos da novela da humanidade: de um lado, o angustiado que sofre indefinidamente com as situações em que se envolve, por não ter certeza sobre a melhor maneira de viver; de outro lado, o charlatão que vive à custa das incertezas alheias. Nunca faltarão angustiados, vítimas abundantes e que proliferam. Eternos compradores de gabaritos existenciais. Negócio sustentável por natureza. (...) Dos astros às ervas, passando por amuletos, pomadas, loções, pulseiras, pílulas, rezas, mantras e todos os ismos à disposição na estante (...) Mais recentemente, veio somar-se a tudo isso o tripé do charlatanismo chance- lado pelo capital: lições de autoajuda em forma de livrinhos para aeropor- to, palestras motivacionais e pro programas de qualidade de vida. Todos, paliativos de curtíssima eficácia. (BARROS FILHO, 2013, 166) Na próxima Unidade, aprofundaremos a discussão sobre a Ética nas Rela- ções Públicas. Até lá! 21 UNIDADE Ética e Comunicação Organizacional Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Cultura e comunicação organizacional: um olhar estratégico sobre a organização MARCHIORI, M. Cultura e comunicação organizacional: um olhar estratégico sobre a organização. Edição 2. São Paulo: Difusão Editora, 2008. Cultura Organizacional e Liderança SCHEIN, E. Cultura Organizacional e Liderança. São Paulo: Editora Atlas, 2009. Filmes A Corporação Um documentário canadense de 2003, dirigido e produzido por Mark Achbar e Jennifer Abbott, baseado em roteiro adaptado por Joel Bakan de seu livro (The Corporation: the pathological pursuit of profit and power, com versão em português: A Corporação: a busca patológica por lucro e poder). O filme descreve o surgimento das grandes Corporações como pessoas jurídicas, e discute, do ponto de vista psicológico que, em sendo pessoas, que tipo de pessoas elas seriam; O Mundo Segundo A Monsanto Um documentário de 2008 dirigido por Marie-Monique Robin. Originalmente lançado em francês como Le monde selon Monsanto, o filme é baseado na investigação de três anos de Robin sobre as práticas Corporativas ao redor do mundo da multinacional Monsanto; O informante Em 1994, ex-executivo da indústria do tabaco deu entrevista bombástica ao programa jornalístico 60 minutos, da rede americana CBS. Na hora h, porém, a emissora recuou e não transmitiu a entrevista, alegando que as consequências jurídicas poderiam ser fatais. Baseando-se nessa história real, o informante narra a trajetória do ex-vice- presidente da Brown & Williamson, Jeffrey Wigand (Russell Crowe), e do produtor Lowell Bergman (Al Pacino), que o convenceu a falar em público; Fome de poder A história da ascensão do McDonald’s. Após receber uma demanda sem precedentes e notar uma movimentação de consumidores fora do normal, o vendedor De Illinois Ray Kroc (Michael Keaton) adquire uma participação nos negócios da lanchonete dos irmãos Richard e Maurice Mac Mcdonald no Sul da Califórnia. 22 23 Referências ANDRADE, C. T. S. Para entender Relações Públicas. 4.ed. São Paulo: Loyola, 1993. BARROS FILHO, C. (org.) Ética e Comunicação Organizacional. São Paulo: Paulus, 2007 BARROS FILHO, C. O executivo e o martelo: reflexões sobre Ética Empresarial. São Paulo: HSM, 2013. KUNSCH, M. M. K. Planejamento de relações públicas na Comunicação inte- grada. São Paulo: Summus, 2003. 23