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MÍSTICOS E MÍSTICAS DO NORDESTE (SÉCULO XX) Drance Elias da Silva João Luiz Correia Júnior José Afonso Chaves (Organizadores) Recife, 2023 UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO – UPE REITORA Profa. Dra. Maria do Socorro de Mendonça Cavalcanti VICE-REITOR Prof. José Roberto de Souza Cavalcanti CONSELHO EDITORIAL DA EDITORA UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO – EDUPE Membros Internos Prof. Dr. Ademir Macedo do Nascimento Prof. Dr. André Luis da Mota Vilela Prof. Dr. Belmiro Cavalcanti do Egito Vasconcelos Prof. Dr. Carlos André Silva de Moura Profa. Dra. Danielle Christine Moura dos Santos Profa. Dra. Emilia Rahnemay Kohlman Rabbani Prof. Dr. José Jacinto dos Santos Filho Profa. Dra. Márcia Rejane Oliveira Barros Carvalho Macedo Profa. Dra. Maria Luciana de Almeida Prof. Dr. Mário Ribeiro dos Santos Prof. Dr. Rodrigo Cappato de Araújo Profa. Dra. Rosangela Estevão Alves Falcão Profa. Dra. Sandra Simone Moraes de Araújo Profa. Dra. Silvânia Núbia Chagas Profa. Dra. Sinara Mônica Vitalino de Almeida Profa. Dra. Virgínia Pereira da Silva de Ávila Prof. Dr. Waldemar Brandão Neto Membros Externos Profa. Dra. Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento - Universidade Tiradentes (Brasil) Profa. Dra. Gabriela Alejandra Vasquez Leyton - Universidad Andres Bello (Chile) Prof. Dr. Geovanni Gomes Cabral - Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Brasil) Profa. Dr. Gustavo Cunha de Araújo - Universidade Federal do Norte do Tocantins (Brasil) Prof. Dr. José Zanca - Investigaciones Socio Históricas Regionales (Argentina) Profa. Dra. Letícia Virginia Leidens - Universidade Federal Fluminense (Brasil) Prof. Dr. Luciano Carlos Mendes de Freitas Filho - Instituto Federal da Bahia (Brasil) Prof. Dr. Pedro Gil Frade Morouço - Instituto Politécnico de Leiria (Portugal) Prof. Dr. Rosuel Lima-Pereira - Universidade da Guiana - França Ultramarina (Guiana Francesa) Profa. Dra. Verónica Emilia Roldán - Università Niccolò Cusano (Itália) Prof. Dr. Sérgio Filipe Ribeiro Pinto - Universidade Católica Portuguesa (Portugal) DIRETOR CIENTÍFICO E COORDENADOR Prof. Dr. Carlos André Silva de Moura SECRETÁRIO EXECUTIVO Felipe Ramos da Paixão Pereira Rocha ASSISTENTE ADMINISTRATIVO Renan Cortez da Costa CAPA E DIAGRAMAÇÃO Danilo Catão REVISÃO Os Autores Este livro foi submetido à avaliação do Conselho Editorial da Universidade de Pernambuco. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução deste livro, ou de seus capítulos, para fins comerciais. A referência às ideias e trechos deste livro deverá ser necessariamente feita com atribuição de créditos aos autores e à EDUPE. Esta obra ou os seus artigos expressam o ponto de vista dos autores e não a posição oficial da Editora da Universidade de Pernambuco – EDUPE Catalogação na Fonte (CIP) Universidade de Pernambuco Núcleo de Gestão de Bibliotecas e Documentação - NBID M678 Místicos e Místicas do Nordeste (Século XX) / Organização de: Drance Elias da Silva, João Luiz Correia Júnior e José Afonso Chaves. -- Recife : EDUPE, 2023. 260 p. [recurso eletrônico] ISBN: 978-65-85651-38-7 1. Religião - Filosofia. 2. Espiritualidade. 3. Mística I. Silva, Drance Elias da. II. Correia Júnior, João Luiz. III. Chaves, José Afonso. IV. Título. CDD: Ed. 23 -- 200.1 Elaborado por Claudia Henriques CRB4/1600 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO Drance Elias da Silva 6 PREFÁCIO José Afonso Chaves 10 INTRODUÇÃO Marcelo Barros 12 MÍSTICOS(AS) LIGADOS À DEVOÇÃO POPULAR Cícero Romão Batista Padre Cícero Silvério Leal Pessoa Orlando Pereira da Silva 17 Maria da Luz Irmã Adélia de Cimbres Wêdja Domingos de Melo 29 Maria de Araújo Beata Maria de Araújo Maria do Carmo Pagan Forte 42 Maria Rita Irmã Dulce Lucas Costa Monteiro 53 MÍSTICOS LIGADOS À INSTITUIÇÃO ECLESIAL Caetano Minette de Tillesse Padre Caetano Luciene Lima Gonçalves Fabrício Wagner do Nascimento Cavalcante 66 Helder Pessoa Camara Dom Helder João Luiz Correia Júnior Filipe Francisco N. Domingues da Silva 79 Jerônimo de Carvalho Silva Gueiros Pastor Jerônimo Aleandro Correia da Silva Lira 93 Joaquim Arnóbio de Andrade Padre Arnóbio Lucileide Cavalcante Silva 103 Marcelo Pìnto Carvalheira Dom Marcelo Sérgio Sezino Douets Vasconcelos 115 MÍSTICOS(AS) LIGADOS À TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO Adélia Carvalho Irmã Adélia Zélia Cristina Pedrosa do Nascimento 127 Agostinha Vieira de Melo Irmã Agostinha Marcelo Barros Malu Aléssio 140 Angelino Caio Feitosa Frei Angelino Faustino dos Santos 151 Geraldo Leite Bastos Padre Geraldo Leite Anderson Felipe da Silva Santos 165 Ivan Teófilo Padre Ivan Luiz Alberto Ribeiro Rodrigues Pe. João Carlos Ribeiro 179 José Calixto Ferreira de Araújo Padre Calixto Luiz Alberto Ribeiro Rodrigues 192 José Comblin Padre Comblin Alzirinha Rocha de Souza 206 Margarida Alves Eunaide Monteiro de Almeida Silva José Landes Marinho Soares 220 Reginaldo Veloso Padre Reginaldo José Artur Tavares de Brito 233 Romano Zufferey Padre Romano Valmir Assis da Silva Filho 244 CONSIDERAÇÕES FINAIS 257 6 APRESENTAÇÃO Mística, Sensibilidade e Fé comprometida Drance Elias da Silva1 Sabemos que a espiritualidade é o estilo ou o modo como se vive a fé, e a mística, a emulação que decorre dessa espiritualidade, que se traduz como uma energia amorosa, impregnada da presença inefável de Deus, voltada à constante afirmação da vida. Em uma perspectiva de libertação, a experiência pessoal da fé, toda a realidade pessoal, comunitária, social e cósmica é perpassada pela presença divina, assim como inserida em um contexto de projeto histórico do Deus da vida. A adesão a um Deus de libertação, que ins- pira uma mística de abertura ao “outro”, não fica restrita ao pertenci- mento no espaço do religioso. A busca pela justiça de Deus está posta sob a inspiração de exprimir o desejo: a transformação do mundo. Os ideais sociais modernos, por exemplo, a liberdade, a participação, a fraternidade, a solidariedade, o respeito à diferença, à dignidade das pessoas, o cuidado pelos fracos, estão colocados como pressuposto da mensagem cristã. A fé, na experiência de quem luta pela soberania da vida, exprime seu compromisso com a transformação social e política, expressando uma espiritualidade que não corre risco de viver no vazio de piedosas abstrações, pois encontra nessa práxis de libertação, o meio eficaz de sua efetiva encarnação. A tarefa da fé, sob tal ótica, não é vista e en- tendida como uma abstrata afirmação da existência de Deus, mas o 1 Atualmente é professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e do Bacharelado em Teologia da Universidade Católica de Pernambuco. País de origem: Brasil. E-mail: dranceelias1991@gmail.com 7 discernimento concreto do Absoluto. Nesse discernimento, a fé em sua relação com a vida, é tratada como matéria de amor. Em uma espiri- tualidade assim vivida, a mística reveste de coragem todos aqueles e aquelas que se mostram capazes de questionar e de se opor às situações de mortes decorrentes de profundas injustiças. A mística desenha com sensibilidade nosso amor pelo outro. É assim que a gente vê como cada místico apresentado consegue, com sua sensibilidade humana e reli- giosa, se aproximar do outro em sua necessidade. O percurso místico a seguir não são simples frases subjacentes aos textos, mas, o desenho geral de como essas pessoas se dispuseram a enfrentar o desamor em um mundo que tanto falta sensibilidade e reconhecimento do outro. MÍSTICA, Uma postura de fé, Toda humildade e vida laboriosa, Desejo de Deus, Beber do próprio poço. Encontrar o sagrado nas feições do povo. Vivência na experiência, na alegria, na simplicidade, no cuidado com o outro. Em oração, preces a Deus agindo em nós. A contemplação é bela e profunda, de modo leve, ativa e criativa, Transmuda o corpo com o êxtase, com o sonho vivo. MÍSTICA, Coragem de levar adiante a vida que se medita, Inserida, Encarnada, Que se mistura ao drama humano. MÍSTICA, Paixão e compromisso, Oceano profundo, Que à noite risca o mundo, Escrevendocartas dizendo sua oração: “aos pobres me doou”. MÍSTICA, Desapego e entrega de si, Presença que arde o coração, Experiência da espera, do topar com Deus E ser transformado. MÍSTICA, O olhar mais profundo, cuidadoso, prático De palavra viva e comunitária. 8 O interior é denso, de amor, do bem, da verdade, da bondade. Tudo na experiência e na vida do outro. A penitência é reflexão, Mudar é a conversão. MÍSTICA, A morte nunca é em vão Muitos viram sementes e uma flor de justiça brota. Morrer na luta, Pela vida plena, Pela vida em abundância. Pelo pão repartido, Pelo sangue testemunho, Pelo ressignificar da fé. Tudo isso se faz laço com a vida no espírito. MÍSTICA, A cor do destino nas aparições, Algo de sobrenatural desponta! Luz que enche corações, Visão que aponta missão, caminho da boa oferenda. Os pedidos são escutados, O corpo resgatado E os anjos cantam por essa doação! MÍSTICA, Na verdade, vida interior, Perpassada pelo mundo como um rio que corre. Vida beata, Dom consagrado. Ah, quanto mistério na hóstia em sangue! A vida em êxtase incomoda, Pois quando bate à qual seja porta, Une a devoção, O sagrado, O coração. Eis a ponta de lança da mais profunda prece, Nossa bendita oração. Nesse percurso místico percebemos em suas entrelinhas, algo que se dá e funda no sentido mais fundamental, uma aliança em torno da justiça, pois a vida, qualquer que seja e tenha sido tirada pelo des- respeito e não o reconhecimento, foi ela que prevaleceu como motu continuo da vida espiritual. Todos esses místicos e místicas, portanto, sabia da força que transbordaria do laço através da sua espiritualidade, e que esta desenharia impacientemente a sua subjetividade religiosa. 9 Essas espiritualidades e místicas significaram ações comunicativas de luta por reconhecimento, revelando-se, assim, como expressão de ex- periência de injustiça social dos sujeitos. Todo esse percurso religiosa- mente poético é sinal de permanência firme no amor, no direito e na solidariedade ao outro que sofre. Eis o sentido de suas espiritualidades e místicas. 10 PREFÁCIO José Afonso Chaves2 Um livro, bem sabemos, nunca é o resultado do trabalho de uma única pessoa. Por mais que, em geral, ele expresse um esforço intelec- tual de um indivíduo, sempre temos muitas mãos envolvidas em sua feitura, desde aquele que assume o papel de editor até aqueles que o produzem graficamente, sem esquecer daqueles que mais diretamente os fazem chegar em nossas mãos, como os livreiros. Chamo atenção dessa condição do livro porque, este livro, pre- cisamente, acentua essa sua natureza colaborativa. Além de abrigar a contribuição de diversos estudiosos e estudiosas da mística e das personagens místicas de que trata essa obra, esse trabalho nasceu, li- teralmente, de uma conversa entre os pesquisadores dos Grupos de pesquisa “Religião Cristã, Fundamentos e Desafios Contemporâneos” e “Religiões, Identidades e Diálogos”, do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP. Esses pesquisadores deram-se conta do quanto de pesquisas, orientações e textos já haviam sido produzidos em suas atividades acerca de tanta gente que, na sua abertura de vida ao Divino, tinham contribuído para a vivência de muitas propostas místicas nascidas ao longo de suas trajetórias pelo chão do nordeste brasileiro. Resolveram, portanto, compartilhar essa riqueza espiritual com um público maior. Eis o desfecho dessa conversa: o livro que agora chega em suas mãos. É um trabalho diversificado, na forma de organização dos textos, na abordagem e mesmo nos modos de gestação e amadurecimento de 2 José Afonso Chaves é professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da UNICAP. E-mail: afonso.chaves@unicap.br 11 cada uma dessas experiências místicas aqui tratadas. Entretanto, para além de toda essa diversidade, existem aspectos que perpassam todos os trabalhos, dando uma coerência construtiva ao projeto do livro. Gostaria de salientar, a seguir, três desses aspectos. O primeiro deles diz respeito ao universo da memória. Elemento, por si só, de grande importância, posto que toda experiência humana ocorre em meio às muitas contribuições já realizadas por aqueles e aquelas que nos antecederam. Assim, para melhor nos compreender- mos, precisamos nos reconhecer em uma estrada que já foi palmilhada por muitos. Mais ainda, esse aspecto recobre-se de importância, por conta de uma cultura do esquecimento tão comum aos dias de hoje. O segundo, nos fala do testemunho da esperança. Sabendo que esses místicos e místicas aqui retratados se puseram no caminho do movimento de Jesus de Nazaré e que este está assentado no evento da Ressurreição, que lembra o tempo todo que a experiência humana guarda uma promessa de vida plena, sempre nova e que se transforma no caminho da emancipação, não podemos deixar de notar que o per- curso místico dessas figuras nos deixa a lembrança de que a esperança é uma condição humana que não pode ser abdicada. O terceiro parece guardar um convite inquietante. O modo como os textos foram elaborados, guardando a dimensão de vivência dessas experiências místicas, estão a nos provocar; embora a mística que aqui se apresenta esteja circunscrita ao mundo do cristianismo, não pode- mos deixar de perceber que há uma provocação para que todos e todas nunca esqueçam de alimentar em seu cotidiano a dimensão da mística, pois sem ela a construção de sentido do existir seria tarefa inválida. O que esses textos nos mostram, por fim, é que esses homens e mulheres se entregaram de tal modo ao encontro da Alteridade Radical e que está em Deus que não podiam realizar essa entrega se não fosse pela via da vida mística. Que saibamos encontrar nosso modo de seguir por esse mesmo caminho através, também, da leitura desse livro. 12 INTRODUÇÃO MÍSTICOS E MÍSTICAS, SANTOS AO PÉ DA PORTA Marcelo Barros3 Quando o mistério é muito profundo, a linguagem mais capaz de penetrá-lo é a amorosa. Essa mistagogia não se apreende por vias na- cionais, pois a maravilha que é cada ser humano só se revela na intimi- dade do diálogo espiritual. Isso se comprova ainda mais, quanto mais especial forem as pessoas das quais nos aproximamos. Se do santuário de uma vida, só podemos nos aproximar de pés descalços e de cabeça baixa, como o profeta do Sinai diante da sarça ardente, quando a in- tensidade do fogo sagrado se torna incêndio, a experiência mística faz com que cada encontro seja inédito e renovador. Cada pessoa contem- plada se torna sacramento do Espírito que, incessantemente, renova a face da terra e rejuvenesce nossas vidas. “Santidade ao pé da porta” é a expressão do Papa Francisco na exortação apostólica sobre o chamado à santidade na Igreja. Ele dis- tingue, de um lado, a santidade extraordinária de pessoas especiais como São Francisco e Santa Clara, São João da Cruz e Santa Tereza e, do outro lado, a santidade anônima, construída nos pequenos gestos de amor e solidariedade da vida cotidiana, que podemos encontrar na doação amorosa de vizinhos e vizinhas com os/as quais convivemos (Francisco, Gaudete et exsultate, n. 6- 9). Os místicos e místicas do Nordeste que este livro reúne, confor- me o testemunho dos irmãos e irmãs que, nessas páginas, são mui- 3 Marcelo Barros é monge beneditino, teólogo e assessor de comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. Tem 65 livros publicados, entre os quais um dos mais recentes é “Não deixe cair a profecia. A herança de Dom Helder Camara para a humanidade de hoje”. Recife, CEPE, 2022. E-mail: irmarcelobarros@uol.com.br 13 to diversificados. A diferença entre essas figuras aqui retratadas é tão grande que, à primeira vista, fica difícil descobrir pontos em comum, além do profundo amor a Jesus Cristo e a fé no projeto divino para o mundo. Alguns/mas foram militantes comprometidos com a cami- nhada da Igreja dos pobres. Outros, traduziram no Nordestee mais no meio dos pobres a antiga espiritualidade monástica vivida na tradição dos mosteiros e conventos. A lista começa com um pastor presbiteria- no da Igreja evangélica tradicional. Poderia haver o nome de outros evangélicos ilustres por sua mística e espiritualidade como o pastor Djalma Torres, da Aliança Batista que viveu em Salvador, BA e nos deixou há poucos anos. Alguém também poderia lembrar João Pedro Teixeira, trabalhador rural, membro da Assembleia de Deus, líder da Liga Camponesa de Sapé, mártir da luta pela Terra em 1962 e imor- talizado no filme de Eduardo Coutinho: “Cabra marcado pra morrer”. Sua esposa, dona Elizabeth Teixeira, também evangélica, heroína que resistiu a todas as perseguições e à injustiça de uma pobreza extrema, hoje com 98 anos, vive ainda em João Pessoa. De todo modo, só podemos agradecer aos autores e autoras des- te livro o primoroso trabalho que tiveram para nos oferecer essa amostra de santos e santas da nossa casa, místicos e místicas com os quais convivemos e, talvez, mesmo a alguns, tivemos como amigos. Pessoalmente, dos vinte irmãos e irmãs aqui recordados, tive a graça de conviver com dez desses mestres e mestras, sendo que com alguns como Dom Helder Camara que me ordenou presbítero, o padre José Comblin que me formou em teologia e a irmã Agostinha que me acom- panhou espiritualmente, durante anos, tenho um preito de gratidão especial. Com os amigos Reginaldo Veloso e Geraldo Leite, em longos diálogos, aprendi a orar os salmos do jeito dos pobres de Deus e em co- munhão com o povo oprimido. Com frei Angelino, em vários diálogos de alma, aprendi a revalorizar a oração de Jesus e a mística do silêncio do coração. 14 Nenhum deles se considerava místico e quase todos viveram sua espiritualidade no diálogo e no aprendizado com os mais pobres. Até hoje, tenho aqui ao lado dessa mesa na qual escrevo, um caderno todo escrito com a letra da irmã Agostinha Vieira de Melo. Nesse caderno, ela copiava as palavras de sabedoria que ouvia das pessoas pobres com as quais convivia em Mandacaru (João Pessoa). Quando completou 25 anos de votos monásticos, alugou um barraco na beira da linha de trem para conviver com as pessoas mais pobres. Assim, ela buscava escutar os segredos que o Espírito esconde dos grandes e revela aos pequenos. Qual o Cristo em seu caminho de cruz, todos esses irmãos e irmãs tiveram de renunciar às tentações do prestígio e do poder mesmo re- ligioso. Todos e todas, de um modo ou de outro, viveram marginaliza- ções e foram incompreendidos. Assim, puderam retomar o primeiro amor e se deixarem conduzir por este Espírito da Paz que “sopra onde quer, ouve-se a sua voz, mas não sabe para onde vai, nem para onde vem”. A nós, cristãos, o Espírito sussurra um nome que nos leva ao Infinito: Jesus de Nazaré. Mas, nos leva também a outros nomes que são sinônimos de amor e de paz, nas mais diferentes religiões e nas mais diversas culturas. Que riqueza. Nenhum mortal pode amordaçar a ventania. O mistério é nossa Paz e os caminhos religiosos, se con- seguem sê-lo, podem apenas ser nossas parábolas de amor. Em um de seus mais belos escritos, o sermão pronunciado em sua ordenação presbiteral, no século IV, Gregório de Nissa, pastor da Igreja oriental, propunha: Imagine-se uma pessoa que caminha no deserto, sob o sol escaldante do meio-dia. Você está sedento/a e não tem água. De repente, à margem do caminho, eis uma fonte de águas límpidas e transparentes ali ao seu alcan- ce. Sem dúvida, não lhe passará pela cabeça ficar racioci- nando sobre a natureza da água, nem perder tempo com estudos sobre como aquela água chegou até ali. Você vai 15 simplesmente aproximar-se da fonte, jogar o seu corpo por terra e beber daquela água até saciar-se (Gregório de Nissa, 1996, Omelie XI). Do mesmo modo, você que está com sede, faça isso com esse livro. Deus o(a) abençoe e o(a) acompanhe neste caminho. Seu irmão Marcelo Barros REFERÊNCIAS FRANCISCO, Exortação apostólica Gaudete et exsultate, sobre a chama- da à santidade no mundo atual. Disponível em: https://www.vatican. va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-fran- cesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html. Acesso em: 13 set. 2023. GREGÓRIO DE NISSA. Omelie sul Cantico dei Cantici. Roma: Città Nuova, 1996, pp. 225- 226. (Omelie XI). 79 HELDER PESSOA CAMARA Dom Helder João Luiz Correia Júnior28 Filipe Francisco Neves Domingos da Silva29 INTRODUÇÃO Dom Helder Camara (1909 – 1999), chamado carinhosamente de “Dom”, foi um dos religiosos do Nordeste brasileiro, no século XX, “que ultrapassaram as fronteiras das igrejas e do país, por suas qua- lidades éticas e espirituais, intelectuais ou políticas”, conforme escre- veu o historiador Pe. José Oscar Beozzo (Camara, 2009, vol. I, tomo I, Apresentação, p. xvii). De acordo com Beozzo: Homem de ação, no pleno sentido da palavra, Dom Helder era ao m tempo um contemplativo e um poeta, sem tem- po de organizar e muito menos de publicar as milhares de páginas que escreveu, quase sempre nas horas, mas da madrugada consagradas à meditação, à oração e à escrita de sermões, poemas, de conferências e cartas. Nele, va- mos encontrar várias das virtudes de figuras marcantes da Igreja Católica do Brasil: o profetismo e a veia literária de Pedro Casaldáliga; a intrepidez e o senso político de 28 Doutor em Teologia, com concentração em Bíblia, pela PUC-Rio. Professor titular e pesquisador da Universidade Católica de Pernambuco, onde leciona em Programas de Pós- graduação (Ciências da Religião e Teologia), e no Bacharelado em Teologia. 29 Doutorando em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco, onde leciona no Programa de Pós-graduação em Ciência Política. Mestre em História Social e Política pela UFPE. 80 Ivo Lorscheiter; a atenção aos pobres e a capacidade de conciliação de Luciano Mendes de Almeida; a bondade e intuição teológica de Aloísio Lorscheider; a coragem e de- fesa intransigente dos direitos dos pequenos de Evaristo Arns (Camara, 2009, vol. I, tomo I, Apresentação, p. xix). Os textos do Dom foram escritos com requintes estéticos por meio de palavras bem escolhidas, em prosa (expressão natural da lingua- gem) ou em verso (cada uma das linhas de um poema). Sem dúvida, quando navegamos nesse legado textual, novos e diversos horizontes vão se abrindo, revelando-nos um olhar surpreendentemente original e belo diante da paisagem que vislumbramos. Esses mares muito rara- mente foram calmos, pois sua coragem diante do percurso foi carrega- da de paixão por Cristo, e na paixão de Cristo. A posse de Dom Helder na Arquidiocese de Olinda e Recife, em 12 de março de 1964, aconteceu em um contexto intenso e conturbado da história do Brasil, doze dias depois do golpe civil-militar que roubou vinte e um anos de nossa história política (1964-1985). O mundo vivia a contracultura, os processos libertários de decolonização, as revoluções promovidas pelos movimentos sociais e a contraposição de “mundos”, termo muito utilizado por Dom Helder em tempos de Guerra Fria para se referir aos antagonismos do primeiro mundo (países de capitalismo avançado), segundo mundo (países socialistas) e terceiro mundo (paí- ses “subdesenvolvidos”). Já a Igreja romana, por seu turno, vivencia- va o processo de recepção do aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II. Antes de chegar em terras pernambucanas, durante os vinte e oito anos que morou no Rio de Janeiro de 1936 a 1964, Dom Helder teve uma ascensão extraordinária nas frentes eclesiais, sociais e políti- cas. Tornou-se membro do Conselho Nacional de Educação, fundou a Cruzada São Sebastião para auxiliar a população periférica e o Banco da Providência para dar suporte as famílias mais desprotegidas, arti- 81 culou a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), além de ter sido um dos idealizadores da Sudene, Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste. Foi no Rio de Janeiroque o Dom se projetou para o Brasil e para o mundo. Partir do Rio de Janeiro, onde era arcebispo auxiliar desde 1956, para o Recife, não deve ter sido fácil foi muito doloroso para o Dom. Mas ele sempre manteve contato com a família mística que lá foi edificada. Vale ressaltar que os militares nomearam o golpe civil-militar de “Gloriosa Revolução democrática de 31 de março de 1964”. Não foi “gloriosa”, porque sua herança foi nefasta, com o aumento da desi- gualdade social, hiperinflação, favelização, aumento da dívida externa e uma população impedida de votar para os principais cargos políti- cos. Não foi “revolução”, porque não houve uma mudança estrutural no país: pobres se perpetuam no empobrecimento crescente, e ricos continuaram cada vez mais ricos às custas da mão de obra assalariada ou contratada temporariamente; manteve-se a estrutura latifundiária e agroexportadora em detrimento de uma reforma agrária profunda. Não foi “democrática” nem tinha caráter popular porque depôs um presidente legítimo e constitucional, João Goulart. E, por fim, não foi em “31 de março”, pois já era a madrugada do “dia da mentira”, pri- meiro de abril Mas, o importante mesmo é compreender que esse evento é fruto de um processo histórico de relações de poder entre diversas forças sociopolíticas, um golpe de Estado não acontece do dia para a noi- te. Sugerimos, para aprofundamento desse período, a obra “1964. A Conquista do Estado”, do historiador e cientista político uruguaio René Armand Dreifuss. Trata-se de um trabalho de pesquisa rigoroso sobre os atores e forças sociais desse conflituoso e delicado momento de nossa História política (Dreifuss, 2006). Foi nesse caldeirão político que o Dom chegou ao Recife. A ques- tão é: por que ele? Acreditamos que por sua fina capacidade de diálogo, 259 Assim são os Místicos (as) A desenhar suas asas. Os organizadores. Tipografias PT Sans PT Serif