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<p>FERNANDO DA ROCHA PERES QUEM PEDIU A BÊNÇÃO A GREGÓRIO DE MATOS? o ficar viúvo, em ascendeu ao arcebispado em 1677, por procuração, sem 1678, com 42 ter vindo ao Brasil, haver permanecido na Corte e, lo- anos, do seu casa- go depois, ter renunciado ao alto cargo de prelado, no mento (Lisboa, ano de 1681, alegando "achaques" e doença, apesar 1661) com D. Michaela de Andrade, o magistrado Gre- dos reclamos constantes da população ("homens no- gório de Matos e Guerra (Salvador, 1636; Recife, 1695) bres e honrados") da cidade do Salvador e do seu Se- vai receber a tonsura¹ para ser nomeado (1679) de- nado da Câmara. Diante desses fatos supomos que sembargador do Tribunal da Relação Eclesiástica da Ba- GMG, na expectativa de viajar e chegar à Bahia, jun- A sua condição de bacharel em Cânones (direi- to com D. Gaspar Barata, e vendo o seu intento frus- to formado por Coimbra em 1661, o seu trado, resolveu a sua partida para o ano de 1682, che- prestígio na Corte como juiz do as suas relações gando a Salvador com uma "carta de de amizade, dentre as quais o padre Antônio Vieira, do rei D. Pedro II, que o confirma na função de de- o status sócio-econômico da sua família, os "Matos" sembargador e acrescenta-lhe o "benefício" (renda da Bahia, empresários, proprietários rurais e funcio- de tesoureiro-mor da Sé nários do governo local, deram ao canonista os Essa breve introdução biográfica, cheia de datas, so- necessários para conseguir a prebenda ou bre alguns passos da vida de torna-se emprego. vel para podermos enquadrá-lo no seu estado de Designado por D. Gaspar Barata de Mendonça, arce- ocupando cargos na estrutura judicial e buro- bispo do Brasil, que criou o Tribunal da Relação Ecle- crática da Igreja, na Bahia do século XVII, e também siástica da Bahia, mediante provisão (1678), passada para situá-lo na sua "briga" com os seus "pares", com pelo rei D. Pedro II, Gregório de Matos e Guerra foi a baiana que vai ser chamada, em sua poesia "feito" clérigo com Ordens Menores, e foi tonsura- apógrafa ("reprodução de um escrito de do, ainda em Portugal. "presépio de bestas" A sua nomeação como desembargador eclesiástico está A problemática que pretendemos levantar ou "en- datada de 1679, mas o doutor Gregório de Matos e nesse artigo, não ficará restrita aos aspectos ex- Guerra (de agora em diante GMG) só retorna para a teriores da contenda que GMG manterá com os reli- Bahia, com o intuito de e "ocupar" o car- giosos da Bahia, através do seu texto apógrafo, go, no ano de 1682, na "frota" que deixou Lisboa, em e fescenino, mas desbordará, em certo momento, dezembro, e chegou ao Brasil no início de 1683. para o aspecto "ideológico" da sua postura frente ao A permanência de GMG em Lisboa, entre a nomea- "fato a sua ção e a posse, de 1679 a 1683, deu-se, assim presumi- Para tanto torna-se fundamental a transcrição de tre- mos, pelo fato de D. Gaspar Barata, seu protetor, que chos de um documentário inédito, de que tomamos 4 3</p><p>de ouba free cm naca 1685 perfer de Guerra ao Tribunal do Santo Ofício, 1685</p><p>conhecimento, recentemente, através da informação generosa de dois docentes e pesquisadores6, cujo con- (f. 468v.) Isto é o de que por hora posso fazer // pre- teúdo revela, com as reservas necessárias, o comporta- sente a Vossas Senhorias. Se houver de // novo outra mento e a (in)credulidade do poeta GMG dentro da coisa de que o faça // não serei em nada moroso em "cena" religiosa da Bahia. // tudo o que tocar a esse Sagrado // Tribunal. Guar- de Deus a Vossas Senhorias // como desejo para Santo Regimento // desse Tribunal e extirpação das // here- sias. Bahia 10 de Maio de 1685 // Prostrado a sombra A preciosa fonte descoberta e revelada é uma de- do Respeito de // Vossas Senhorias Ilustríssimas/ Antonio Rodrigues da núncia feita da Bahia, contra GMG, em 1685, junto ao Tribunal do Santo Ofício, em Lisboa, por um "mo- Esse documento, transcrito somente na denúncia re- rador" chamado Antônio Rodrigues da Costa, a qual ferente a GMG, tem instantes indicativos da compos- foi juntada aos Cadernos do promotor de e tura do poeta, herética e audaciosa para o tempo. Se que tem o seguinte teor: tomamos ao da o seu núcleo, podemos des- "Ilustríssimos Senhores tacar, para uma análise, dois fatos delatados contra o ex-clérigo, a saber: 1) veiculador da idéia Pareceu-me agora dar conta a Vossas Senhorias // de de que Jesus Cristo cometia o pecado da algumas coisas pertencentes // a esse tribunal para que sodomia; 2) conhecido "de todos", o poeta, como nossa Santa // Fé seja sempre exaltada e se de // casti- go que errarem seu // Santo Caminho.// Em verdade essa denúncia aponta também GMG co- mo um crítico do Tribunal do Santo Ofício, e um irre- "Nesta Cidade vive um Bacharel // cha- verente, em público, ao "Lignum Crucis", em mado Gregório de Matos e Guerra // natural desta Ci- propósitos que já eram suficientes para dade que nessa Corte foi // Juiz do Cível, homem sol- incriminá-lo como "homem solto sem modo de to sem modo // de Cristão, e nas coisas pertencentes // a esse Tribunal fala com no(-)// (f. 467v.) notá- Do ponto de vista biográfico, a delação vem confirmar vel desprezo e notório escândalo // e sendo Tesoureiro- os cargos que GMG ocupou, na Bahia, durante pou- mor da Santa // Sé desta Cidade e Desembargador CO tempo alguns meses - e da sua Eclesiás-//tico disse que era tão grande letra(-)// do que dos mesmos ("privado do ofício") - já em 10 de maio se atrevia a mostrar como // Jesus Cristo nosso Reden- de 1685. tor // fora Nefando por outra palavra mais torpe, e execranda, estando // presente um Clérigo chama- do // Antonio da Costa que na Ilha Terceira // foi vi- gário de um (sic Igreja daquele // Bispado e nas con- versações dizem // também o dissera, tem notícia Acreditamos que essa malsinação foi o instrumen- desta também o Doutor // Manoel Antu- to tão usual naquele tempo - que os clérigos da nes Cura da Santa Sé // desta Cidade e o Padre Sub- cidade do Salvador utilizaram para indigitar ou indi- Chantre So (-)//lano de Lima, e em outras ciar o poeta GMG perante o "Santo a Inqui- disse que tomara morrer subi(-)//tamente por não ou- sição, não só por seu caráter de "homem de vir estar onde lhe // dissesse um Padre da Companhia blasfemador e mas também por seus poe- (de) Jesus que // o enfastiava; e outras muitas / (f. mas (apógrafos) contra a desregrada e pecaminosa con- 468r.) Muitas coisas escandalosas, e passan(-)//do pe- duta dos padres práticas sexuais e simonia - na sede la sua porta a procissão dos // Passos de Cristo, passando do Arcebispado brasileiro no século XVII. o Andor // do Senhor com a Cruz as costas se deixou Antes de voltarmos ao miolo da peça denunciatória, // estar com um barrete branco na // cabeça sem fazer devemos esclarecer que com a chegada do novo prela- nenhuma // inclinação ao Senhor e por o povo mur do, Dr. Fr. João da Madre de Deus, em 1683, empos- (-)//murar apenas fez acatamento com // a cabeça ao sado na Sé Vacante, o clérigo e poeta "tonsurado" Sagrado lignum Crucis // com que por seus nunca ja- GMG foi instado pelo arcebispo a receber Ordens Sa- mais vistos // costumes foi privado do ofício, // em es- cras (maiores) e a vestir batina, tendo então respondi- ta terra é havido por um Teista, // geralmente de to- do, segundo Manuel Pereira Rabelo: que não po- dos. // (final da denúncia contra GMG) dia votar a Deus aquilo que era impossível cumprir pela 6 OBRASIL 3</p><p>de sua natureza: e que a troco de não men- reges de toda sorte, contra aqueles que praticavam bru- devia inteira verdade, perderia todos os te- xarias e feitiçarias, foram uma ferramenta odiosa de dignidades do perseguição vária, e muitas delas eram caluniosas e fru- tos da imaginação pressurosa dos denunciantes de GMG, que ficou na "tradição", re- ("dedos-duros"), dos chamados "familiares" (fun- não sua integridade ou "inteireza", como do Santo Ofício. no nosso entender, a sua razão para não coonestar com a simples aparência e do hábito clerical (com ordens maiores), e a sua para as coisas da "natureza" humana. Os exemplos que ele via, na prática, dentro do cle- de então, de modo algum justificavam a N caso de GMG a denúncia ("carta") foi escrita o sacrifício. Homem visado e odiado, pelo promotor do eclesiástico da cidade da Bahia, An- perder os cargos importantes tonio Roiz (Rodrigues) da o qual tinha "po- pagos. der" para assacar e atribuir ao poeta, ex-clérigo, a ter- aspecto a ser considerado é aquele referente ao rível assim considerada no seu momento (apógrafo) de GMG que achincalha os histórico, de que Jesus Cristo foi sodomita. Naquele frades e freiras da Bahia, interrogando-se, de cenário de "terror" inquisitorial essa acusação era um se a sua veia satírica e fescenina despicou-se anátema sobre o poeta GMG difícil de comprovar depois da "perda do ofício" ou da denún- pecado e denúncia porém vamos observar que a o que podemos afirmar é que a denúncia é pos- sua poesia (apógrafa), mais de uma vez, comete a ri- à sua destituição como clérigo e, ma "herética" e inusitada: A invocação do uma vingança contra o poeta, instrumentada nome "sagrado" filho de Deus feito homem - pa- pelos seus desafetos, ex-colegas de clericato, e por to- ra compor uma rima profana (o baixo corporal) carac- dos aqueles (governadores, nobres, militares, advoga- teriza muito bem traço "popular" e a afoiteza do mulatos, usurários etc.) que ele vergastou com a vocabulário poético de GMG, e o seu repassamento "musa E certo que essa denúncia com o cancioneiro medieval. todos os ressentimentos e ódios em direção Acreditamos que o poeta GMG não foi parar na foguei- seguramente dos clérigos e freiras contra os ra, em um "Auto de fé", mesmo em apesar cunhou os apodos (frei Foderibus, frei Gar- dessa denúncia (falsa ou verdadeira?), porque a sua fa- frei Porraz, frei Sovela, frei Fodaz, frei Fustiga, mília extensiva era poderosa ("gente rica e honrada") frei Pirtigo, frei Bertoeja, frei Jumento, frei e o seu Pedro Gonçalves de Matos, foi "familiar" frei Fedor, sóror Urtiga, sóror Florencinha, junto ao Tribunal da Inquisição, em 1618, nomeado Madama de Jesus, dentre outros) e aos quais ele por D. Marcos Teixeira, e ainda aparece atuando, co- endereçou poemas (apógrafos) relatando os seus mo em 1646, quando da "Grande freiráticos" e os ridicularizando frades Inquisição" na principalmente da Ordem de S. Francisco - como for- Aliás, a "limpeza de sangue" de GMG (não ter as- ladrões, e os colocando sempre cendência judaica, moura, negra, mulata) já tinha si- e escatológicas (frades apedre- do comprovada em processo ("Habilitações de gene- que se borram e se urinam, que recebem pane- quando da sua nomeação, em 1663, para juiz de etc.), dentro de uma "lição" poética fora de Alcácer do Sal, em razão pela qual da Idade Média, onde a "poesia não vemos, na a afirmativa, tão ocorrente, vagantes, apelava para uma linguagem to- de que o poeta era "cristão-novo" ou descendia deles. mada do material e Retomemos o fio condutor da denúncia contra GMG ao centro da denúncia, que nos interessa e nela iremos encontrar, no seu final, uma "palavra particular, vamos ficar com as passagens que infer- chave" que sintetiza, no nosso entendimento, toda a poeta GMG como ao dizer que visão do mundo e o comportamento do homem, ca- Cristo cometia o pecado "nefando", que foi so- nonista, poeta, magistrado, clérigo: um se atrevia a e com a afirma- Dilacerado pelas contradições "ideológicas" dentro de que "blasfemo" era um do caroço da Igreja Católica Apostólica Romana, ad- feitas ao Tribunal da In- vindas do cisma protestante e das resoluções do Con- os cristãos-novos, os judaizantes, he- cílio de Trento, o "tempo barroco" de GMG, em Por- 7</p><p>tugal e no Brasil, foi um momento de perplexidade de um pão, que é formidável diante da vida, da crença, dos seus em Coim- vendo, que estais todo em todo, bra, do teocentrismo versus antropocentrismo, das e estais todo em qualquer parte? "idéias" racionalistas e naturalistas, do terror inqui- Quanto a que o sangue vos beba, sitorial, em Espanha e Portugal, de uma isso não, e perdoai-me: cia" pendular entre os valores: Vi- como quem tanto vos ama, da/morte; Virtude/pecado; etc. Esse es- há de beber-vos o sangue? garçamento interior do homem, do clérigo (do poe- Beber o sangue do amigo ta, livre-pensador), "entre vai de- é sinal de inimizade; terminar a sua descrença ou in)credulidade para com pois como quereis, que o beba, os fundamentos "humanos" ou temporais da religião para confirmarmos pazes? católica: uma crença "imposta" e em nome da qual Senhor, eu não vos entendo; eram cometidos os maiores desatinos a escraviza- vossos preceitos são graves, ção do índio, do negro, a Inquisição, como exemplos vossos juízos são fundos, e perseguição (até genocídios em nome da doutri- vossa idéia na e na qual os seus clérigos e minis- Eu confuso neste caso tros, muitas vezes, não davam o bom exemplo. entre tais perplexidades o ser dentro da cultura portuguesa no sé- de salvar-me, ou de perder-me, culo XVII, apesar de o termo não estar ainda diciona- sei, que importa rizado, mas tudo faz supor que era de uso corrente, de através da Espanha, significava trazer em si, acre- ditando, a "idéia" de um Deus "natural" e pessoal, sem admitir sua "revelação" histórica. Teísmo e Deis- mo, no momento indicado, tinham a mesma acepção, A "confusão" e pasmo do poeta diante do dilema pelo menos na linguagem não especulativa, (morte/salvação) instauram na sua consciência antinô- uma conotação "negativa" pois tanto o mica uma visão "natural" de um Deus "vivente" quanto o eram dos fundamentos Jesus Cristo que não cabe no sacramen- da religião católica consubstanciados no Velho e No- to Testamento. o de atribuído a A sua dúvida (recusa ?) em comer o pão (corpo) e vi- GMG, perante o tribunal da Inquisição, definia a sua nho (sangue) de Cristo, Deus feito homem ("Eu e o dentro dos quadros da cristanda- Pai somos um" Jo. 30), lançar o poeta no abis- de ortodoxa, a sua pecha de mo (Pascal: "O silêncio eterno desses espaços infini- tos me atemoriza"), mas ele reconhece, como saída, o insondável do desconhecido (vida eterna) e retruca, com uma divindade única, sem as imper- O feições da religião revelada (histórica), a qual deve ser texto apógrafo de GMG em instantes de profun- (re)conhecida e adorada pela sua dentro da reflexão denota a sua visão in- de uma visão (pan)teista: terior, a sua dúvida e a sua religiosa ao con- testar, com "perplexidade", as Escrituras e o Sacra- "Todos os brutos vos louvam mento da Eucaristia: troncos, penhas, montes, vales, e pois vos louva o sensível vossa mesa divina louve-vos como poderei chegar-me, Mais adiante, em outra instância de percepção "na- se é triaga da virtude agora com um toque o poeta vai e veneno da maldade? contraditar os preceitos religiosos, ao desfiar o seu jo- Como comerei de um pão, go barroco interior entre o sagrado e o profano, que que me dais, porque me salve? resulta numa interpretação "livre" da Bíblia Um pão, que a todos dá vida, sis, II, 19-20; "E Adão pôs os nomes a todo o gado, e a mim temo, que me mate. e às aves dos céus, e a todo o animal do campo Como não hei de ter medo quando diz: 8 REVISTA DOBRASIL</p><p>cousa como falar "proteção ou, como disse o padre Louren- como Pai Adão falava Ribeiro, seu inimigo: pão por vinho por vinho, caralho por caralho. "De Cristão não é, senão Quem pôs o nome de crica de herege, tudo, o que obra, crica que se esparralha, pois nele a heresia sobra, senão nosso Pai Adão, e lhe falta o ser cristão: quando com Eva brincava? remetê-lo à Inquisição se pôs o nome às cousas já uma vez se intentou, Pai da nossa prosápia, mas bem veis, quem atalhou, porque Deus lho permitiu, senhores, tão grande bem: por que hemos de emendá-las ?''22 mas não o saiba o título deste artigo, ao ser uma interrogação, procu- de texto apógrafo ("Romance") um rou, antes de tudo, acentuar o momento fugaz em que exemplo de de uma lei- GMG foi clérigo, mesmo com ordens menores, alto popular, das Escrituras, assim co- dignitário da Igreja da Bahia, por ter sido filho dos paródica da origem da linguagem ("pro- "donos do poder" (como diria Raimundo Faoro), mas criada por Adão, em nome de Deus, onde se também pretendeu frisar e crivar a sua empostação de elementos materiais da "Eucaristia" (pão e "homem" coerente com a sua "natureza" de confundidos, no ato da criação, com os órgãos que na hora da morte, não com uma "crise esses responsáveis pela "natureza" e multi- diante do misterioso e te- do homem. ria escrito: exemplos poderiam ser dados da "heterodo- do seu mas a nossa pontua- "Ofendi-vos, Meu Deus, bem é verdade, chega ao seu fim, com a revelação da sua É verdade, meu Deus, que hei delinqüido o Santo Ofício, ao Inquisidor D. vos tenho, e ofendido, de a qual não teve percurso, talvez por Ofendido vos tem minha TEXTO Edições 1983. 6. A dra. Anita Novinsky e dr. Luiz os quais, em oportu- do clericato, "por mão do Bispo, que com alguãs nidades diversas, forneceram a indicação da existência do docu- corta parte do cabello do sogeito, que se de- mento. Anita Novinsky foi quem localizou, em Lisboa, nos de- da Bluteau, D. Raphael'' Vocabulário por- pósitos da Torre do Tombo, os "Cadernos do os quais anatomico, architectonico (etc.), Coim- vão ser utilizados, pela primeira vez, na sua tese sobre os cristãos do século XVIII em dez volumes, de 1712 novos na Bahia (vide nota 16). 7. Inquisição de Lisboa Cadernos do Promotor 58 (antigo foi na Bahia, conforme a "provisão" de 56), Arquivo Nacional da Torre do Na transcrição do composto de três desembargadores (Bluteau, S. documento fizemos a atualização da ortografia desdobramos as quer dizer, homem que despacha, porque co- para uma melhor compreensão do leitor. o docu- se diz quando há litígio entre dous, sobre o domi- mento entregue ao promotor de Lisboa em 30 de junho àquelle que desembargava, ou desemba- de 1685) contém outras quatro contra dois rigos e duas mulatas, da folha 466r. até a folha 468 do em Lisboa, no ano de 1671 (Memorial 8. Bluteau, Cousa indigna de se exprimir com pa- da Biblioteca Nacional de Lisboa, Seção lavras: cousa da qual não se pode fallar sem vergonha. Nefandus, Coleção Fundo Geral, Códice 1077, letra "G")e a, um CIC (Nefando peccado. Nefando abuso. Barros, 3. fl. publicadas em Pegas, Emmanuelis Alvarez; 63. col. 3). Peccado nefando. o de Sodomia. Chama-se o demo- Regni Portugalliae, Lisboa, 1682. nio Incubo, ou Succubo, de servir hora de hora de Ordem de Cristo Antiga. Livro 73, fólio 406v., no acto carnal, mas em nenhum Author se lé, que tenha commet- Nacional da do tido o peceado nefando; prova evidente de que he torpeza tão enor- de GMG vide: Fernando da Rocha; me, que até o demonio a Guerra: Salvador, No Evangelho de S. João (21.20) vamos "Voltando 9</p><p>Pedro, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava, que ao 16. Novinsky, Anita; Cristãos novos da Bahia, S. Paulo, Perspec- tempo da ceia estivera até reclinado sobre seu Estaria tiva, 1972, p. 115, 138, 178. aqui, nessa passagem evangélica, o argumento de GMG para 17. No processo de "Habilitação" de GMG (Leitura de "mostrar" uma relação amorosa (homossexual) entre Cristo e S. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, maço 6, letra "G") João? foram ouvidas testemunhas em Guimarães (Portugal) e na Bahia em Os lusiadas (Canto IX, 34, verso 6), vai dizer sobre a "pureza de do poeta, condição para "Exemplos mil se vem de amor (Cunha, Antônio Ge- ser nomeado (Chancelaria de D. Afonso VI, Livro 21, fólio raldo da; do de Oslusiadas, Rio, Pre- Arquivo Nacional da Torre do Tombo). sença, 1980, p. 144, 307). 18. Bluteau, no século XVIII, registra "Deista" dizendo que "Ou- Em 1910 o escritor baiano Almachio Diniz publicou um livro, tras suas heresias e blasfemeas são tão enormes, que não convem em Lisboa (A carne de Jesus; novela contendo seis gravuras de- darlhes lugar em Vocabulário Catholico" diz que os mesmos senhadas por A. Spitz ed., Bahia, Livraria Catilina, 1913), (deistas) podem ser chamados de o qual foi excomungado pelo arcebispo da Bahia, D. Jerônimo Tho- (du préfixe tri, et du gr. theos, dieu). Nom da Silva, pelo fato de o autor haver narrado, em ficção, à tous ceux qui admettent dans la Trinité non seulement trois per- "amor" (irrealizado) de mulheres para com Jesus Cristo. sonnes, mais encore trois Dieux (Larousse du XXe Siècle, Paris, 9. Com a mesma de GMG, arquiteto, artista Librairie Larousse, 1933). tico e escritor Flávio de Carvalho, em 9 de junho de 1931, vai atra- 19. Bluteau, "Herege. o que defende proposições vessar, com chapéu na cabeça, de uma procissão de que segue alguma doutrina condenada pela Igreja. Aqueles que Corpus Christi, em S. Paulo, e quase é linchado pelos (Car- chamam os hereges os tratam com demasiada bran- valho, Flávio de; Experiência 2, São Paulo, irmãos Ferraz, 1931). 10. Em 5 de agosto de 1683 o clérigo GMG foi destituído da sua As heresias, na península ibérica, têm largo curso doutrinário, es- função de tesoureiro-mor da Sé e por Antônio Velho pecialmente difundidas da Espanha. Sobre o assunto remetemos da Gama; Cathalogo chronologico dos bispos (etc.), página 60, para Pelayo, M.M., Historia de los heterodoxos espanoles, Buenos manuscrito pertencente ao Jorge de Moser, Lisboa. Aires, Glem, 4 V., 1946. 11. Vide em Matos, de, Obras completas, Salvador, Ja- 20. Matos, de, op. cit., V. I, p. 49, 50. naína, 1968, V. VII, p. 1.702. Manuel Pereira Rabelo é o 21. Matos, de, ibidem, p. 50. de GMG, no século XVIII. 22. Matos, de, op. cit., vol. III, p. 569. 12. Bajtin, Mijail, La cultura popular en la Edad Media y en Essa "louvação" panteista de Deus, criador do mundo, tem suas nacimiento, Barcelona, Barral, 1974. "raízes" em S. Paulo dos 15.28)" 13. Bluteau; S.V: He pois blasfemia huma injuria vo- para que Deus seja tudo em todos" (Des omnia in omnibus) na cal, ou escrita, ou mental, contra a honra de Deos, ou dos Santos. afirmação de por ele foram criadas todas as coisas nos Blasphemia a que se diz com palavras, que são contra e na terra, visíveis e invisíveis, aos a Fé Catholica; v.q. Deos é injusto. Blasphemia he 1.16). o nomear indecentemente alguma parte do corpo de Nosso Se- 23. Mendonça, Jose Lourenço D. de; e Moreira, Antônio Joaquim, nhor Jesus dos principais actos e procedimentos da Inquisição em 14. Em documentos baianos do século XVII vamos encontrar um Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1980, p. 126, 127. "morador" chamado Antonio Roiz da Costa, que foi 24. Matos, de, op. cit., V. 4, p. 788. Na poe- dor" da Câmara da Cidade, em 1666 (Atas da Câmara, Salvador, ma é de autoria do vigário Lourenço Ribeiro. Prefeitura Municipal, 1949, p. 259) em 1679 (Atas 25. É Ronald de Carvalho (Pequena história da literatura brasi- da 1950, p. 258). Na obra apógrafa de GMG (op. cit., vol. leira, Rio de Janeiro, F. Briguiet, 1949, p. 119, quem comparando vemos três poemas satíricos contra o doutor An- GMG a Verlaine, muito apressadamente, fala em "crise de misti- tônio Rodrigues da Costa, Cavalheiro do Hábito de Cristo, juris- cismo" e diz que o poeta arrependeu-se depois de haver lavrado ta, que o poeta ridiculariza ao vê-lo chegar de Portugal com vesti- "contrato com Remetemos o leitor para um exce- menta esquisita, e o chama de "Doutor e "Cutilada". lente estudo de Pires, Homero: de Mattos: poeta reli- É bem provável que esse "personagem" seja o denunciante do in Obras de de Mattos, Rio de Janeiro, Acade- poeta. mia Brasileira, 1929, V. 1, Sacra, p. 23 a 38. 15. Mattos, de, op. cit., 2, p. 387; V. p. 1.368, 1.533. 26. Matos, de, op. cit., I, 1968, p. 46. DA ROCHA PERES nasceu em Salvador. Ba- da UFBA. Tem publicados: Poemas bissextos, Salvador, Edi- charel em Direito e mestre em Ciências Sociais (História) ções 1972; da Sé, Salvador, Edições pela Universidade Federal da Bahia. Professor adjunto do Macunaíma, 1974; Correspondente contumaz: Cartas de Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciên- de Andrade a Pedro Nava (edição preparada por Fer- cias Humanas da UFBA. Foi diretor do SPHAN (Subsecre- nando da Rocha Peres, Introdução e Notas), Rio de Janei- taria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para a ro, Nova Fronteira, 1982; Gregório de Mattos e Guerra: uma Bahia e Sergipe. Também foi diretor executivo da Funda- re-visão Salvador, Edições 1983. So- ção Cultural do Estado da Bahia e pró-reitor de Extensão bre GMG, a religião e a igreja (na Bahia do século XVII) da UFBA. Atualmente dirige o Centro de Estudos Baianos o autor está preparando um livro (tese de doutorado). 11 3</p>

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