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J 
CENTRO DE ESTUDOS DE CiêNCIA E FILOSOFIA POUTICA 
A PROPOSTA DA CRIAÇAO DOS CURSOS JURfDICOS: 
DE 1827 a 1977 
"O Estado é obra de arte politica" 
D.JACIR MENEZES 
1. Os primeiros debates; 2. A clausura do mundo coni~ 
brlcense; 3. A liberdade de ensino; 4. O Estado, obra de 
arte política: j. Direito romano e filosofia jurídica,· 6. Os 
Estatutos do Visconde da Cachoeira; 7. A grande pergunta. 
1. Os primeiros debates 
o projeto de criação dos cursos jurídicos de que foi relator Martim Fran­
cisco Ribeiro de Andrada, na Assembléia Geral Constituinte e Legislativa, 
em 19 de agosto de 1823, abria o seu art. 19 com esse solecismo como­
vente: "Haverão duas mUversidades, uma na cidade de São Paulo e outra 
na de Olinda, nas quais se ensinarão todas as ciências e belas letras." 
A seguir, determinava que estatutos próprios regulariam o número de 
professores, os fundos neceSsários, regendo-se, provisoriamente, pelos Es­
tatutos da Universidade de Coimbra, alterados por medidas "adequadas 
às circunstâncias e luzes do século". Veremos, no correr de nossà análise, 
até onde alcançarão os raios dessas "luzes do século". 
Ao elaborar-se a lei de 11 de agosto de 1927, venceu a idéia de dois 
centros acadêmicos em Olinda e em São Paulo. Houve impugnações; os 
dissidentes alinharam razões geográficas, prosódicas e sociais: os caminhos 
para São Paulo, pela serra de Cubatão, eram difíceis, havia falta de casa 
para alojar os estudantes, os gêneros eram caros. E houve mesmo quem 
lembrasse com impertinência a ameaça de o "desgracioso dialeto paulista 
viciar a pronúncia dos moÇos que fossem estudar em São Paulo" - informa 
Almeida Nogueira. 
O Côn. Fernandes Pinheiro saiu em defesa - e chegou mesmo a dizer, 
liricamente, "que o Tietê vale bem o Mondego do outro hemisfério". Com 
a cauda de seu nome frocada de indianismo, Montezuma ergueu o tacape: 
R. Cio poL, Rio de Janeiro, 20(2): 13-22, abr./jun. 1m 
"Longe de me opor a que haja um só colégio, já disse que desejava mais; 
porém não sei por que a cidade de São Paulo deva merecer semelhante 
preferência. Não sei por que aqui sempre se anda com São Paulo para 
cá e São Paulo para lá. Em nada aqui se fala que não venha São Paulo."! 
Os provincianismos se arregaçavam. O deputado define a universidade: 
"um armazém de conhecimentos", isto é, uma espécie de pegue-pague onde 
cada qual se abastece conforme sua capacidade digestiva. Silva Lisboa, o 
futuro Cairu, encompridou suas razões com histórica erudição, citando 
Lord Amersh, que qualificara o porto do Rio como celestial e, portanto, 
digno de ter a universidade. Também insiste em que São Paulo daria uma 
pronúncia lusitana, que começávamos a amolecer e adoçar por todo esse 
Brasil a fora. 
Andrada Machado defende São Paulo e ataca a Bahia: jamais escolheria 
a Bahia. E por quê? porque "é a segunda babilônia do Brasil, as distrações 
são infinitas e também o caminho da corrupção: é uma cloaca de vícios". 
Montezuma protesta contra essa visão da Bahia como uma cloaca. Veio 
acalmar a dissidência a emenda do Deputado Paula Soares criando os 
dois cursos. 
Houve momentos de eloqüência. O Sr. Gomide profetizou o futuro 
nestes termos: "o Pará terá um dia a opulência. da Rússia; o Maranhão 
a da Alemanha; Pernambuco, a da França; a Bahia, a da Grã-Bretanha; o 
Rio a de toda a Itália; São Paulo, 'a da Espanha; Santa Catarina será 
a nossa Irlanda; a parte meridional do Brasil equilibrará por si os Estados 
Unidos ... " Diante desse quadro, o Sr. Andrada Machado rosnou lá de 
sua cadeira: "é muito exagerar!" 
Vasconcelos corta as extravagãncias, dizendo que o despotismo lavrara 
nas províncias: ",um presidente com a maior facilidade manda agarrar 
qualquer cidadão e manda-o para aqui, dizendo que é um demagogo e 
revolucionário". Em face do que obtemperava: "para maior liberdade dos 
mestres e alunos na explicação e desenvolvimento das doutrinas, convém 
que, por enquanto, se estabeleçam as aulas no Rio de Janeiro. Do con­
trário, não me admiraria se soubesse que o presidente da província onde 
estivesse o curso jurídico teria mandado em ferros para as fortalezas desta 
corte os professores e estudantes - como republicanos e incendiários".2 
2. A clausura do mundo conimbricense 
Veja-se bem: Vasconcelos, uma das inteligências organizadoras de nossa 
vida pública, já excluía o papel da liberdade jacobina louvada por histo­
riadores enfezadinhos, que está hoje sendo inoculada no adolescente mal 
adolescido, nas falsificações "marxificantes". A liberdade constitucional de 
construir o Império, compatível com a centralização e a unidade, era o 
grande problema das elites jurídicas. Nem todos os presidentes da provín-
1 Almeida Nogueira. Tradições e reminisâncias, São Paulo, 1907. v. 1. 
2 Anais da Comarca Deputados. Sessão de 5 de agosto de 1826, ed. 1875. 
14 R.C.P. 2/77 
cia, substitutos dos capitães-mo{eS, intérpretes da ordem reinol, estariam 
à altura de suas funções. Nessalinba de idéias, Vasconcelos acusava o 
ensino coimbrão: 
"Estudei direito naquela Universidade e por fim.saí um bárbaro: foi-me 
preciso até desaprender" - depõe, _corajosamente. Argüía que, entre as 
noções que a sebenta inculcava,- eS,tavam a negação da soberania dos 
povos e as teses do Estado patrimonial português, coisas hostis ao nascer 
do Brasil. 
O mundo coimbrão era impermeável às doutrinas que circulavam nas 
universidades européias. A jurisprudência de Melo Freire, de Lobão, enro-­
dilhada aos pés do rei e do altar, expJ.imia, em matéria de direito público, 
o mais atrasado absolutismo. Debalde a maçonaria tentava abrir brechas 
para o constitucionalismo liberal. Sabe-se que os cursos jurídicos foram 
instalados em dois mosteiros. Mas não se cuide que foi a consagüinidade 
ideológica da jurisprudência e da reologia que ali os instalou. Foi o fato 
material de existirem boas salas desocupadas e áreas convenientes para 
novas instalações, com dois frades ociosos e rezando.3 Em São Paulo, o 
convento tinha biblioteca de cinco mil volumes. -
E os professores? O lente do primeiro ano devia fazer uma sinopse 
crítica da Constituição do Império, texto que seria vendido aos alunos. 
Tinham prazo para escrever compêndio da matéria a ser lecionada, que 
seria aprovada pela congregação e pela Assembléia Geral. Os cursos, pla­
nejados ainda no Gabinete do Visconde de São Leopoldo, então ministro 
do Império, iniciaram-se em 1828, no Gabinete do Marquês de Olinda. 
Eram matérias preparatórias, nos termos da lei de 11 de agosto, que este 
ano celebramos, o latim, a filosofia, a retórica, o francês e a geometria. A 
1 Q de março e a 15 de maio,com as devidas cerimônias oficiais, abriam-se, 
respectivamente, os cursos superiores de direito em São Paulo e 0linda.4 
Os Estatutos do Visconde da Cachoeira, de 2 de março de 1825, eram 
conseqüência do decreto de 9 de janeiro, que determinava a criação de 
um curso jurídico no Rio e que não funcionou. Ou por outra, só veio a 
ser instituído em 1891. Mas foram aqueles estatutos que primeiro regu­
laram os cursos jurídicos de Olinda e Recife, criados pela lei de 11 de 
agosto de 1827, cujo art. 19 -prescrevia sua aplicação no que não a con­
trariasse. Os lentes ganhariam honorários iguais aos dos desembargadores 
das Relações das Províncias. Aparteia Clemente Pereira: "Estou por estas 
idéias. Com pouco dinheiro não teremos lentes capazes." 
Nesta data natalícia, relembram-se sempre os episódios da história das 
reformas por que foram passando os cursos e sua multiplicação nas demais 
cidades do país. Menciono, de passagem, a reforma de 1879, ideada pelo 
3 Discurso do Sr. Paula SOuza-: "Há em São Paulo uns conventos bastantemente 
espaçosos e cheios de cômodos, ocupados por um ou dois religiosos e por isso já 
têm servido de aquartelamento às tropas sem o menor incômodo dos religiosos, que 
apenas ocupam uma ou duas celas. Anais da Câmara dos Deputados. Sessão de 14 
de agosto de 1826. 
4 Beviláqua, Clóvis. História da Faculdade de Direito do Recife. Rio, Livraria Fran­cisco Alves, 1927. v. 1. 
Cursos Jurídicos 15 
conselheiro Carlos Leôncio de Carvalho, que ensaia o ensino livre no 
Brasil. Ora, entre as reivindicações estudantis das passeatas de 1964, na 
atmosfera de exaltada interferência discente na administração universitária, 
ouvi várias vezes o pregão da liberdade de freqüência às aulas. A reforma 
de 1875 ensaiou o regime livre: firmou-se o direito de requerer na secre­
taria a prestação de exames de qualquer número de matéria, independente 
de freqüência e matrícula, nas épocas regulamentares. Os particulares 
podiam fundar cursos jurídicos com as disciplinas das faculdades oficiais; 
após sete anos consecutivos de funcionamento e a concessão do grau 
. acadêmico a mais de 40 alunos, o governo concederia "o título de facul­
dade livre, com todos os privilégios e garantias de que goza a faculdade ou 
escola oficial" (art. 21, § lQ do Decreto nQ 7.247 de 19 de abril de 1879). 
O monopólio do eixo Recife--São Paulo, entretanto, só se veio a rom­
per na República, com o Decreto de 2 de janeiro de 1891, sob inspiração 
positivista de Benjamin Constant. A primeira faculdade livre foi a da Bahia, 
reconhecida pelo Decreto nQ 599, de 17 de outubro daquele ano. No Rio, 
já se havia tentado a fundação da Faculdade de Ciências Jurídicas e 
Sociais, em 1882, que não funcionou. Em 19 de maio de 1891, os Condes 
de Afonso Celso, Cândido Mendes, o Visconde de Ouro Preto e mais 
outras figuras, lavram a ata de instalação. Alfredo Valadão chamou-a a 
Faculdade dos Condes, fazendo pendant com a Faculdade dos Conselhei­
ros, onde predominavam agraciados no Império assim titulados. Ambas as 
faculdades, pelo Decreto nQ 639,_de 31 de outubro de 1891, fundiram-se 
numa só por ocasião da implantação da Universidade do Rio de Janeiro 
a 7 de setembro de 1920. Seguem-se as Faculdades Livres de Minas Gerais 
(1892), de p'orto Alegre (1900), de Belém (1901), do Ceará (1903), 
de Manaus (1909), e mais três: de Niterói, Pelotas e Paraná, no ano 
de 1912. 
3. A liberdade de ensino 
E a liberdade de ensino? Ouçamos o comentário da mais sólida e lúcida 
cabeça do Nordeste, o Df. Thomas Pompeu de Souza Brasil: 
"Os professores, sem alunos ou apenas ouvidos por curiosos, de freqüên­
cia intermitente, perderam pouco a pouco o gosto pelo ensino, tomaram­
se faltosos, esmorecidos, levando raramente as suas lições além dos pro­
legômenos ou matérias elementares da cadeira. A derrocada do ensino 
pagou o ensaio de sua liberdade extemporânea; e as tentativas posteriores 
para soerguê-lo, mantendo esse mesmo germe de desorganização, fracas­
saram miseravelmente. I) 
Com a desorganização, decai o nível dos estudos. José Veríssimo narra 
o caso de jubilação de um professor que se recusara a imposições injustas 
I) Souza Brasil, Thomas Pompeu de. Mem6ria hist6rica da Faculdade de Direito do 
Ceará. Fortaleza, Tip. Minerva, 1913. 
16 R.C.P. 2/77 
dos seus alunos e manteve sua fudta deeonduta enfrentando a v~a discente, 
e o de um ministro pusilânime, que cedeu à pressão demag6gic.a.6 
3.1 Os agentes do disciplinamenlo social 
Era sensível a inspiração conimbricense na organização e não podia deixar 
de ser assim. Mas foi contrariada em vários pontos. Um deles, exterior: 
não imitamos o uso da batina como indumentária acadêmica. Asamarra 
preta, entretanto, tinha papel igualitarizante: evitava que o estudante rico, 
de calções e meias de seda, fivelas de prata, humilhasse o pobretão, de 
calças de ganga e meias de algodão. A batina lá, apagava distinções esta­
mentais, que aqui já não eram tão visíveis. O Pharol Paulistano ironizava 
o ''uniforme padresco", em 1828: . 
"Não é tão ridícu,lo ver um homem casado, um militar, vestido à ecle­
siástica? Ora, suponhamos que uma senhora brasileira queira freqüentar 
as aulas. Seria obrigada a trajar à moda dos padres?!" E concluía que 
para formar nosso espírito público não precisávamos disso: "em uma 
palavra, adotemos o que há de bom, se é que o há, em Coimbra, e deixemos 
essas carrancices, que não se compadecem com as luzes do século". 
Parece que as luzes do século iam ter melhor clarão espiritual nesse lado 
do Atlântico. 
Subsistia, acirrado, em Portugal, o antibrasileirismo, alimentado pela 
estupidez das cortes~ Escreveu Monsenhor Muniz Tavares, citando Armo­
tage, que elas se constitucionalizavam, sem sequer saber o que era Cons­
tituição. A enxurrada gananciosa de parasitos vinda com D. João VI 
também manteria aqui a linha de hostilidade, com seus núcleos de restau­
radores utópicos. A soberania do país tropeçava nos métodos do abso­
lutismo. Inaugurando o constitucionalismo liberal, precisava, ao mesmo 
tempo, organizar a autoridade capaz de impor a ordem nacional. Em 
suma, sua inspiração de liberdade constitucional era a potestas legibus 
obligata. Encamou-a depois, virilmente, o Pe. Feijó, sofrendo as ~gitações 
da Regência. A construção do Estado seria guiada pela sagacidade jurídica 
dos varões do Império. 
Muitos se enganaram na interpretação do idealismo maçônico de 1817 
e 1824. Leram-lhe as palavras, mas não penetraram o miolo sociológico. 
Os homens às vezes estão dizendo uma coisa e o conteúdo histórico de 
seus atos é diverso ou oposto. Tenha-se em mente que, quando ocorria a 
fundação dos cursos jurídicos, o Brasil estava apenas a dez anos de dis­
tância dos sangrentos acontecimentos de 1817 e a três de 1824. o abs0-
lutismo bragantino seria atacado pelo espírito maçônico e pelas "aca­
demias" e lojas em consonância com o capitalismo mercantil. Era a hora 
do surgimento da produção de "técnicos" para a obra estatal - adminis­
tradores, funcionários quaUficados, legisladores, juízes, advogados, em 
suma, os agentes do disciplinamento das relações sociais e do sistema 
normativo da vida pública e privada. Vencida a etapa da colonização no 
6 Veríssimo, José. A educação nacional. 2. 00. Rio, Liv. Francisco Alves, 1906.. 
Cmsos juridic08 
velho estilo, Portugal não tinha uma burguesia forte capaz de organizar o 
Estado constitucional, todo escorado nas instituições do absolutismo rea­
lengo e no parasitismo, que se agravariam após a restauração de 1640. 
A ação organizadora requeria o jurista, o administrador, o parlamentar, 
o político que representassem pensamento bem diferente. Eles iriam falar 
a linguagem de um Estado afirmativo que ensaiaria os rumos da soberania, 
nas posições políticas de um Zacarias, de um Itaborahy, de um Vascon­
celos, de um Pimenta Bueno. 
4. O Estado, obra de arte política 
A leitura dos relatórios e comentários legislativos sobre o ensino superior 
mostra a filiação dos problemas a recuar no passado. Desde cedo os 
quadros docentes são falhos. A maioria dos professores é acusada de 
descaso ou de incapacidade; os estudantes, despreparados para o curso 
superior; a pouca freqüência às aulas, agravada pela dificuldade de acesso 
aos livros didáticos; as bibliotecas, paupérrimas; os avisos ministeriais 
interferindo em tudo - na censura aos mestres, que aprovavam alunos 
incapazes (aviso de 26 de setembro de 1831), na colocação dos alunos 
nas classes (aviso de 25 de novembro de 1833), na negligência dos lentes 
(aviso de 17 de dezembro de 1832) etc. Diz Thomas Pompeu: "O Estado 
exercia nelas completa e absoluta ingerência mesmo em atos de somenos 
importância. Sem autonomia administrativa e apertados pela fiscalização 
do ensino, então dominado pela concepção teológica, esses institutos eram 
simples aparelhos administradores de uma ciência bastarda, pêca, sem 
elevação, estritamente profissional e sectária, da qual se ausentaram as 
originalidades, a erudição e espírito e o exame imparcial dos fatos e de 
suas leis."7 
A crítica exagera e perde de vista certas conexões históricas. Thomas 
Pompeu de Souza Brasil, um dos fundadores da Faculdade Livre de 
Direito do Ceará, em 1903 (e que ainda examinou minha turma de vesti­
hulandos em 1926), era um lúcido e excepcional espírito, escandalizando, 
por sua irreverência, o meio beato, ao lado de Soriano de Albuquerque 
e Leiriade Andrade. Mas, a prevalecer esse juízo totalmente negativo, 
não teríamos a docência jurídica que nossa história cultural atesta, através 
de misérias e grandezas que estão à vista na perspectiva histórica do país. 
E assim volto ao estribilho deste ensaio: o Estado é obra de arte política. 
Essa obra ir-se-ia modelando pelo correr dos séculos XIX e XX. Onde 
poderíamos encontrar mais forte consciência do problema organizatório 
senão nas elites que saíram das faculdades de direito? Imbuídas do pensa­
mento jurídico europeu, pensaram os instrumentos ideológicos necessários 
à máquina de coordenação política, seus tribunais, seus órgãos delibera­
tivos e executivos, seu sistema bancário e creditício, seu sistema fiscal, seus 
métodos de defesa da ordem pública. Foram elites predominantemente 
T Souza Brasil, Thomas Pompeu de. op. cit. 
18 R.c.P. 2177 
"bacharelícias", que, a par das·idéias'mais gerais do Velho Mundo, soube­
ram discernir horizontes inacessíveis a: qualquer tecnicismo nascente. São 
elites responsáveis pelo que de mais alto e nobre se fez na organização 
da vida coletiva. Para que lembrar os Códigos do Processo Civil e Cri­
minal, que Beviláqua dizia ser "as ,leis mais respeitadoras da dignidade 
individual que tivemos"?8 
5. Direito romano e filosofia Jurfdica 
Se grandiosa era a faina do engenheiro na imensidade do país e de suas 
riquezas, pairava, acima de todas essas atividades, a obra da inspiração 
organizadora, superior e envolvente como uma atmosfera. Foi o espírito 
jurídico, representado pelas gerações saídas daqueles cursos, que, para 
usar a expressão do escritor, fortaleceu o "instinto de nacionalidade". 
Sabe-se que a inteligência técnica se desenvolve no contexto das relações 
humanas e naturais; sua expressão objetiva são as ciências que interpretam 
aquelas relações. O humanismo clássico correspondeu à fase pré-científica 
e sobreviveu num relativo equilíbrio entre as duas grandes áreas do conhe­
cimento. Mas o progresso das ciências naturais da segunda metade do 
século XIX e o avanço das ciências aplicadas pelo industrialismo marca­
ram o início do descompasso com as concepções religiosas e filosóficas, do 
antigo humanismo, determinando-lhe a transformação que se estendeu à 
física e à cosmologia. 
Observando o fenômeno através do ensino jurídico, ali chegam, como 
efeitos de bomba de explosão retardada, as conseqüências da transfor­
mação que leva o ensino da filosofia jurídica a certas capitulações, de que 
a Escola de Recife foi o arauto ressonante. Cadeiras de filosofia e de 
direito romano homosiaram-se nos cursos de doutorado para dar' espaço 
a novas disciplinas (direito do trabalho, teoria geral do Estado, dilatações 
da órbita do direito público comendo territórios do civilismo quiritário) ... 
Não obstante, a desaparição era apenas superação das formas vetustas 
do direito romano e da filosofia jurídica, que ressurgiram represent(lndo 
o novo racionalismo e o novo humanismo. Técnicas da nova metodologia 
rompiam seus compromissos com o humanismo teológico e seus avatares, 
mas não com o humanismo da metodologia emergente do pensamento 
científico e filosófico moderno, com o determinismo probabilístico, a 
física quântica, a dialética hegeliana, a cosmovidência de outra "espiri­
tualidade" e de outro racionalismo.8 
Ora, evidentemente essa visão geral, integrativa, reflexiva e crítica envol­
veria a totalidade das relações humanas. Visão eminentemente antropo­
cêntrica, que se não desquita do sociocentrismo: a associatividade humana 
é o fenômeno básico: no ordenamento dessa associatividade está a raiz 
inabluível do direito. O primado voltou a ser o das ciências sociais, que 
8 Beviláqua, Clóvis. Linhas e perfis jurídicOS. Rio, Liv. Freitas Bastos, 1930. p. 84. 
8 Menezes, Djacir. Idéias contra ideologias. Rio, Imprensa Universitária, 1972. 
Cursos jUrídico3 
interpretam a· realidade cultural como fenômeno intrinsecamente humano; 
e dentre essas ciências, sobreleva a que se preocupa com o aspecto nor­
mativo das ações humanas. No centro, hegemonicamente, enriquecida das 
conquistas recentes, após tantos eclipses momentâneos - a ciência do 
direito, na plenitude de sua cosmovidência ética.lo 
Se, em 1827, a nacionalidade nascente precisou educar elites para estru­
turar o Estado, em 1977 - século e meio transcorridos - o desafio 
para desenvolver a metodologia de organização no campo do direito 
público e do privado dirige-se particularmente à inteligência jurídica, 
responsável pela segurança coletiva. A sociedade patriarcal e agrária até 
os fins da monarquia reclamou a ação de "elites bacharelícias" na edifi­
cação do poder governamental; o tecnicismo, na fase posterior, assumiu 
uma liderança cujo horizonte lhe fugia. A transformação industrial no 
mundo circungirou na ideologia de um tecnocratismo que já começou a 
enfraquecer com a infiltração de um humanismo jurídico mais ajustado à 
hora universal. 
6. Os Estatutos do Visconde da Cachoeira 
Esse raciocínio denuncia a dicotomia sumária que se armara no raiar do 
tecnocratismo: de um lado, as ciências físico-naturais; de outro, as 
histórico-culturais, dualismo herdado do pensamento europeu, de que 
somos tributários inevitáveis. II Mas essa dicotomia entrou a decair; a 
revisão de nossos hábitos mentais corre paralela ao fenômeno do tecnicismo 
humanista, que terá de evoluir dentro de atmosfera essencialmente jurídica 
e universitária. E tal como disse do Estado, o estilo desse pensamento 
normativo é feito ao compasso da ação política: "então surge a necessi­
dade de defender o humanismo contra a pressão tecnicista, que se está 
exagerando nessas pulsões sociais em crescendo." 
Na mesma ordem de considerações, concluí: "Esse humanismo terá 
novos estilos de pensamento e estará para o humanismo clássico na mesma 
dist~cia que o céu ptolomaico para o céu copernicano e desta para o 
continuum espaço-tempo einsteiniano - três etapas imensas da visão do 
universo. A terceira etapa, cujo centro é a universidade, será a digestão 
prodigiosa de toda a grande herança do pensamento filosófico."12 
Acrescentarei agora, neste ano comemorativo das origens do ensino 
superior no Brasil, que, se o centro é a universidade, o meridiano da 
responsabilidade política passa pelos órgãos elaborativos do pensamento 
jurídico, essência da ordem nas sociedades humanas, quaisquer que sejam 
as latitudes das ideologias. 
Não se contesta a idéia de que a universidade é o órgão de criação 
espiritual artística, científica e filosófica em clima da liberdade de pensa-
10 _-o Filosofia do direito. Rio, Editora Rio, 1974. 
11 Temas de política e filosofia. Rio, DIP, 1962. 
12 _-o Idéias contra ideologias. Rio, Imprensa Universitária, 1971. 
20 R.C.P. 2/17 
mento. Mas não nos esqueçamo$ de _ a lP.I!versidade ésimul~ 
uma instituição do Estado no SÍSlenf!l (Jrtl4nko de seus processos. Aquela 
liberdade não é o caldo de cultura para dissolução dos vínculos de cida­
dania. Longe de ser foco de desequih'brio institucional, é fator de soli­
dariedade no processo do ordenaínento coerçitivo. Vínculos que estão 
sendo consumidos astuciosamente na cóinbuStão ideológica das pregações 
que conduzem à massificação típica do absolutismo moderno. Em largas 
franjas do movimento estudantil atuam veículos outrora desconhecidos: 
a ameaça da droga e da pornografia aliaram-se ao histerismo político. A 
função superior de reflexão e crítica do sistema não abole a lealdade 
constitucional, cujas raízes prendem-se, longinquamente, nas faculdades de 
direito, aos velhos artigos dos Estatutos do Visconde da Cachoeira, 
normas que passaram ao diploma de 7 de novembro de 1831, que 
prescrevia: o ensino se fundamenta nos compêndios que "deviam estar de 
acordo com o sistema jurado pela nação", aprovados pela Assembléia 
Geral e mandados imprimir pelo governo.18 
Não se atribuam a ingenuidade de repor tais normas no mesmo diapasão 
dos remotos estatutos. Como escreve Schlesinger, os estudantes dispõem 
hoje de muitos instrumentos~ assalto aos edifícios públicos, seqüestro de 
. professores, vaias organizadas, paralisações das aulas, volantes mimeogra­
fadas, articulações de comandos subversivos, cursos de educação revolu­
cionária no estrangeiro. H Se em alguns países foram momentaneamente 
silenciados, estão, todavia, prontos para reaparecer nas crises políticas 
propícias. Como confrontar aquela antiga "lealdade jurada às instituições 
políticas" com a lealdade reflexiva e crítica atualmente encarnada na legi­
timidade da ação universitária? A campanha insidiosa do marxismo per­
turba a mentalidade estudantil tentando a confusão. 
Repetirei que as idéias são os instrumentos que permitem compreender 
as transformações que vão pelo mundo. Mas o que vimos, nos movimentos 
da chamada "esquerda universitária" e suas adjacências ideológicas, nos 
países mais avançados, foi a ignorância científica e filosófica crispada de 
paixão política. Falaram muito do que entendiam pouco. Concordo com 
Hannah Arendt: a violência poderá destruir a verdade; mas não poderia 
nunca substituí-la. 
7. A grande pergunta 
Estas reflexões quadram bem neste sesquicentenário, a prétexto de evocar 
o nascedouro das instituições docentes do direito. E, no centro delas, para 
encerrar estas palavras em cumprimento do honroso convite do prezado 
13 Valadão, Haroldo. História do direito. especialmente do direito brasileiro. Rio, 
1972. 2 v.; Paim, Antonio. História da Escola de Recife. Rio, 1968; Barbosa. Rui. 
Reforma do ensino secundário e superior. Rio, MBC, 1942; Lobo, Francisco Bruno. 
HistórÚl da Faculdade de Medicina. Rio, v. 1; Cavalcanti, Amaro. Notícia histórica. 
Rio, Imprensa Nacional, 1898. . 
H Scblesiuger I., Arthur. The crisis of confitknce. Boston, Houg)ltoaMiffliD, 1969. 
amigo Adonias Filho, presidente deste Conselho, formularei a grande 
pergunta: até que ponto é permitido promover a crítica institucional sem 
quebrar a indispensável fidelidade à Pátria? Até que grau a crítica cien­
tífica e filosófica não vira bandeira suspeita e se toma arma dos inimigos 
conjurados para o assalto ao poder? 
o Instituto de Organização Racional do Trabalho do Rio 
de Janeiro - IDORT-RJ - como seus congêneres de outros 
estados, propõe-se a realizar e proporcionar a seus associados 
e demais interessados: 
Intercâmbio internacional Revista 
Forum de estudos Bibli'oteca 
Treinamento Prêmio de organização 
Assistência técnica e administração 
. Congressos 
Sede: Rua Prof. Alfredo Gomes, 22 - Rio de Janeiro, RJ. 
Itc.P. 2/77

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