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TRAUMA RAQUIMEDULAR • Devemos considerar lesão de coluna em pacientes com traumas múltiplos. • Até 10% dos doentes com fratura da coluna cervical tem uma segunda fratura na coluna vertebral não contígua. • 5% dos pacientes com lesão da coluna vertebral iniciam os sintomas neurológicos ou pioram após o atendimento → pode ser devido a isquemia ou progressão do edema da medula → mas podem ser devido a movimentação excessiva da coluna. DERMÁTOMOS • Área da pele inervada pelos axônios sensoriais dentro de uma raiz nervosa. MÉDULA ESPINHAL • Miótomos: cada raiz nervosa da medula que faz a movimentação dos grandes grupos musculares. • Origina-se da extremidade caudal da medula oblonga → no foram magno. Em adultos termina na altura de L1 como cone medular → abaixo desse nível está a cauda equina → relativamente mais resistente a lesões. OBS: As lesões abaixo de L1, tem uma repercussão menos grave. CLASSIFICAÇÕES DAS LESÕES • Nível ósseo: ocorreu dano ósseo. • Nivel neurológico: nível mais caudal da medula com função sensitiva e motora bilateral. • Nível sensitivo: nível mais caudal da medula com função sensitiva normal. • Nivel motor: grupo muscular mais baixo que possui grau de força de pelo menos 3. OBS: Qualquer função motora ou sensorial abaixo do nível da lesão constitui uma lesão incompleta → sensação (reconhecimento de posição), movimentos voluntários nos MMII, preservação sacral (sensibilidade), contração voluntária do esfíncter anal, flexão voluntária do dedo do pé. Reflexos sacrais como reflexo bulbocavernoso e contratilidade involuntária anal NÃO se qualificam como preservação sacral. O reflexo bulbocavernoso (toque retal + estímulo na glande/clitóris, quando faz esse estímulo o ânus contrai involuntariamente, ou seja, é um reflexo e não uma movimentação voluntária. Consideramos que o paciente possui preservação sacral se contrair o ânus voluntariamente. TRATOS DA MEDULA ESPINHAL • Dos tratos da medula espinhal, 03 podem ser testados clinicamente: Trato corticoespinhal lateral, Trato espino- talâmico e as colunas dorsais. São distribuídos aos pares e as lesões podem ser unilaterais ou bilaterais. • Trato corticoespinhal: via descendente, MOTORA, 90% decussação nas pirâmides – bulbo. Ou seja, se seccionar a medula a paralisia motora vai ser do mesmo lado da lesão pois o trato cruzou lá em cima. • Colunas dorsais: via ascendente, decussação na parte inferior do bulbo (fascículo grácil e cuneiforme). PROPRIOCEPÇÃO/POSIÇÃO, TATO EPICRÍTICO E SENSAÇÃO VIBRATÓRIA. Então se a pessoa tem uma lesão do lado direito, ela vai ter ausência de tato, vibração e propriocepção do mesmo lado por que as fibras só cruzam no bulbo. • Trato espinotalâmico: via ascendente, TEMPERATURA E DOR, decussação na parte cervical e lombar da medula. Ou seja, se o paciente tem uma lesão do lado esquerdo ele não sente temperatura e dor só que a direita. É o único que cruza na periferia. • Síndrome Central da Medula: desproporção entre a perda de força motora nas extremidades superiores (maior) que a perda de força nas extremidades inferiores (menor). Comum nas lesões da coluna em hiperextensão (comum nas pessoas de meia-idade com osteoartrite). Devido ao trato corticoespinhal lateral transmitir o estímulo das fibras motoras no centro para o MMSS e na periferia para o MMII → pode haver graus variáveis de perda sensorial → lesões por hiperextensão → história é de uma queda para frente que resulta em impacto facial. Acredita-se que seja decorrente de um comprometimento vascular no território da artéria espinhal anterior → essa artéria supre as porções centrais da medula → pode ocorrer com ou sem fratura ou luxação da coluna cervical → a recuperação da força muscular costuma seguir um padrão → 1° músculos dos membros inferiores → depois membros superiores e das mãos. • Síndrome de Brown-Sequard: hemissecção da medula. É comum no trauma penetrante. Ocorre comprometimento motor ipsilateral (trato corticoespinhal) e perda da sensibilidade postural/de posição ipsilateral (coluna dorsal) + perda contralateral da sensibilidade térmica e à dor (trato espinotalâmico). Paciente não sente vibração do mesmo lado que seccionou a medula e do lado oposto não sente dor e temperatura. • Síndrome anterior da medula: lesões das vias motoras e sensitivas da parte anterior da medula → causa PARAPLEGIA + PERDA BILATERAL DE SENSAÇÃO, DOR E TEMPERATURA. A sensibilidade da medula posterior/dorsal estão preservadas (propriocepção, vibração e sensação de pressão profunda). É o de pior prognóstico. CHOQUE NEUROGÊNICO • Repercussão hemodinâmica → perda do tônus vasomotor e da inervação simpática para o coração. • Lesão da medula cervical ou torácica alta (T6 ou acima) → comprometimento das vias simpáticas descendentes → perda do tônus vasomotor → vasodilatação dos vasos viscerais e periféricos → HIPOTENSÃO → perda de inervação simpática para o coração → BRADICARDIA ou pelo menos falta de resposta a hipovolemia com taquicardia → quando há suspeita desse choque ainda há que descartar fontes de sangramento. • Os efeitos do choque neurogênico não respondem bem a ressuscitação volêmica que é feita inicialmente. • Pode-se usar vasopressores com critério. (NORADRENALINA) • Pode-se usar ATROPINA (0,5 – 2mg por hora) para corrigir a bradicardia hemodinamicamente significativa. CHOQUE MEDULAR • Paciente com lesão medular aguda pode apresentar choque medular, isso é, após as primeiras horas do trauma na medula, essa edemacia, provoca alterações nas células de condução e paciente pode apresentar completa arreflexia da lesão para baixo. • Perda de força motora e de reflexos que ocorrem imediatamente após a lesão. Período de arreflexia, paralisia motora e perda da sensibilidade. • Interrupção fisiológica da condução nervosa pela medula, demonstrando pela ausência do reflexo bulbocavernoso. Prognóstico de um TRM só pode ser definido após as primeiras 24 horas, quando termina o choque medular. • Reflexo Bulbocavernoso: testado fazendo estímulo na glande/clitóris e checando se há ou não contração do esfíncter anal. Quando a contração ocorrer, é sinal que o paciente já está fora do choque medular. EXAMES DE IMAGEM • Pacientes com dor cervical e RX normal → solicitar RNM (suspeitar de lesão ligamentar). • Quando o paciente tiver que ser transferido, a pesquisa radiográfica pode ser adiada para o serviço que irá recebe- lo. • 10% dos pacientes com fratura de cervical tem uma segunda fratura não contígua na coluna vertebral. Paciente com fratura em cervical é indicada varredura completa da coluna vertebral. O exame de escolha para essa varredura é a TC, em segundo lugar o RX. RETIRADA DO COLAR CERVICAL • N: déficit neurológico. • E: intoxicação. • X: lesões graves que causam distração. • U: incapaz de relatar seu histórico (nível de consciência alterado) ou amnésia retrógrada. • S: sensibilidade na coluna, linha média, apresenta dor. • Se o paciente não apresentar nenhum dos critérios acima podemos retirar o colar cervical sem RX. • Se o paciente apresentar qualquer 1 dos critérios, não podemos retirar o colar antes de um RX. • CCR – CRITÉRIOS CANADENSES: • Para paciente conscientes (ECG =15) estáveis e há suspeita de lesão cervical: o Idade > 65 anos. o Mecanismo de trauma: queda maior ou igual 1 metro, sobrecarga axial na cabeça, acidente automobilístico em alta velocidade (> 100km/h), capotamento com ejeção, veículos motorizados de lazer, acidentes de bicicleta. o Parestesia nas extremidades. • Se o paciente apresentar algum desses critérios, devemos solicitar o RX. • Algum fator de baixo risco que permita avaliação segura da mobilidade? o Colisão traseira automobilística. o Paciente sentado na sala de emergência. o Deambulando. o Início tardio de dor cervical. o Sem dor na linha mediana posterior cervical. • Se sim → consegue rotacionar o pescoçoativamente (45° a direita e esquerda)? Se sim, não precisa de RX. Se não, devemos solicitar RX. OBS: Se o paciente não apresentar nenhum dos critério, do NEXUS e nem do CCR, podemos retirar o colar sem exame de imagem: pedir para o paciente movimentar o pescoço voluntariamente: sem dor pode retirar (caso ao movimentar a cabeça o paciente sinta dor, devemos colocar o colar novamente e fazer um exame de imagem). AVALIAÇÃO RADIOLÓGICA • O RX de coluna cervical de boa qualidade deve visualizar a base do crânio, as 07 vértebras cervicais e a 1ª vértebra torácica. (7C12T5L,S,C). • O exame de escolha quando disponível é a TC de coluna, e em segundo lugar o RX. • Não devemos remover o colar até que seja feita a avaliação neurológica e da coluna cervical incluindo palpação e movimento voluntário em todos os sentidos. • Cervical: o Devido maior mobilidade é mais propensa a fraturas. o Lesão da medula espinhal cervical baixa ou torácica alta → podem causar hipoventilação por paralisia dos músculos intercostais ou do diafragma e pode causar choque neurogênico. Pacientes com lesão medular alta podem evoluir para insuficiência respiratória. o C5 e C6 → parte mais móvel → mais vulnerável a fraturas. o C5 é a vértebra mais comum de fraturar. o C5 e C6 é a região mais comum de subluxação. o A lesão mais comum de C1 é a fratura por explosão da vértebra (fratura de Jefferson). O mecanismo usual do trauma → uma sobrecarga axial. Quando um objeto cai sobre a cabeça ou quando o paciente cai, batendo a cabeça. Devemos solicitar RX transoral, que permite ver a região de C1 e C2 e pela TC. Geralmente não estão associadas a lesão de medula, mas devem ser tratadas como instáveis e serem imobilizadas. o Fraturas do Axis (C2): lesões em hiperflexão do pescoço → fraturas do odontóide (chicote). A hiperextensão e deslocamento do pescoço leva a fratura do corpo de C2 → fratura do enforcado. • Torácica: o Mobilidade mais restrita. o Maioria das fraturas são em CUNHA → geralmente não estão associadas a lesão da medula. o FRATURAS LUXAÇÃO → geralmente tem lesão da medula. • Lombar: o A junção toracolombar → junção entre parte flexível e inflexível → mais vulnerável a lesões em relação a torácica. o 15 % das lesões. TRATAMENTO BÁSICO DAS LESÕES DE COLUNA E MEDULA • Imobilização: todo paciente com pareplegia e tetraplegia, perda de sensibilidade no tórax e abdome é evidência presuntiva de instabilidade da coluna. Colar cervical não garante imobilização no transporte, por isso devemos associar os imobilizadores laterais (head block – coxins), prancha rígida e movimentação em bloco. o Não corrigir deformidades aparentes, apenas imobilizar em prancha rígida de forma confortável. • Reposição volêmica: caso na se detecte hemorragia ativa, a hipotensão persistente após a reposição de 1L de cristaloide → pode ser choque neurogênico (bradicardia), enquanto o hipovolêmico o paciente está geralmente Taquicárdico → o uso criterioso de vasopressores está indicado. • Transferência: sempre que identificada uma lesão que seu serviço não é capaz de tratar, solicitar transferência para o tratamento definitivo. QUANDO RETIRAR A PRANCHA RÍGIDA • Para proteger a coluna não é necessário ficar horas na prancha rígida. • É usada só no transporte → deixar o paciente deitado em uma superfície firme e utilizar medidas de proteção da coluna quando movimentar o paciente. Devemos remover assim que possível. • Após 2 horas em pranchar já podem iniciar a formação de úlceras de pressão. AVALIAÇÃO SECUNDÁRIA • Após estabilização do paciente. • É o momento de reavaliar o paciente com detalhes. • Momento de solicitar exames adicionais como TC, RNM, RC de coluna vertebral.