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Organizadores 
 
Alexandre Torres Petry 
Teresa Cristina Fernandes Moesch 
Cristiano de Moraes Franco 
Ricardo Ferreira Breier 
Rosângela Maria Herzer dos Santos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DIREITO DO CONSUMIDOR: DESAFIOS E PERSPECTIVAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Porto Alegre, 
 
 
 
Copyright © 2021 by Ordem dos Advogados do Brasil 
Todos os direitos reservados 
 
Organizadores 
 Alexandre Torres Petry 
Diretor da Revista da ESA/OABR/RS 
 
Teresa Cristina Fernandes Moesch 
Presidente da Comissão Especai de Defesa do Consumidor/OAB/RS 
 
Cristiano de Moraes Franco 
Coordenador do Grupo de Estudo de Direito do Consumidor 
 
 Ricardo Ferreira Breier 
Presidente da OAB/RS 
 
 Rosângela Maria Herzer dos Santos 
Diretora-Geral da ESA-OAB/RS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Jovita Cristina Garcia dos Santos – CRB 10/1517 
 
 
 
 
A revisão de Língua Portuguesa e a digitação, bem como os conceitos emitidos em trabalhos 
assinados, são de responsabilidade dos seus autores. 
 
 
Ordem dos Advogados do Brasil Seccional do Rio Grande do Sul 
Rua Washington Luiz, 1110 –Centro Histórico 
 CEP 90010-460 - Porto Alegre/RS 
D635 
 Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas/. Alexandre Torres 
Petry, Teresa Cristina Fernandes Moesch...[et.al] (Organizadores). 
Porto Alegre, 2021. 255p. 
ISBN: 978-65-88371-07-7 
1. Direito do consumidor. 2. Defesa do consumidor I Título. 
 
 CDU: 347.451.031 
 
 
 
 
 
ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL - CONSELHO FEDERAL 
DIRETORIA/GESTÃO 2019/2021 
 
Presidente: Felipe Santa Cruz 
Vice-Presidente: Luiz Viana Queiroz 
Secretário-Geral: José Alberto Simonetti 
Secretário-Geral Adjunto: Ary Raghiant Neto 
 Diretor Tesoureiro: José Augusto Araújo de Noronha 
 
ESCOLA NACIONAL DE ADVOCACIA – ENA 
 
Diretor-Geral: Ronnie Preuss Duarte 
 
ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL - SECÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL 
 
Presidente: Ricardo Ferreira Breier 
Vice-Presidente: Jorge Luiz Dias Fara 
Secretária-Geral: Regina Adylles Endler Guimarães 
Secretária-Geral Adjunta: Fabiana Azevedo da Cunha Barth 
Tesoureiro: André Luis Sonntag 
 
ESCOLA SUPERIOR DE ADVOCACIA 
 
Diretora-Geral: Rosângela Maria Herzer dos Santos 
Vice-Diretor: Darci Guimarães Ribeiro 
Diretora Administrativa-Financeira: Graziela Cardoso Vanin 
Diretora de Cursos Permanentes: Fernanda Corrêa Osório, Maria Cláudia Felten 
Diretor de Cursos Especiais: Ricardo Hermany 
Diretor de Cursos Não Presenciais: Eduardo Lemos Barbosa 
Diretora de Atividades Culturais: Cristiane da Costa Nery 
Diretor da Revista Eletrônica da ESA: Alexandre Torres Petry 
 
CONSELHO PEDAGÓGICO 
 
Alexandre Lima Wunderlich 
Paulo Antonio Caliendo Velloso da Silveira 
Jaqueline Mielke Silva 
Vera Maria Jacob de Fradera 
 
 
 
 
 
CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS ADVOGADOS 
 
Presidente: Pedro Zanette Alfonsin 
Vice-Presidente: Mariana Melara Reis 
Secretária-Geral: Neusa Maria Rolim Bastos 
Secretária-Geral Adjunta: Claridê Chitolina Taffarel 
Tesoureiro: Gustavo Juchem 
 
TRIBUNAL DE ÉTICA E DISCIPLINA 
 
Presidente: Cesar Souza 
Vice-Presidente: Gabriel Lopes Moreira 
 
CORREGEDORIA 
 
Corregedora: Maria Helena Camargo Dornelles 
 
Corregedores Adjuntos 
 Maria Ercília Hostyn Gralha, 
Josana Rosolen Rivoli, 
Regina Pereira Soares 
 
OABPrev 
 
Presidente: Jorge Luiz Dias Fara 
Diretora Administrativa: Claudia Regina de Souza Bueno 
Diretor Financeiro: Ricardo Ehrensperger Ramos 
Diretor de Benefícios: Luiz Augusto Gonçalves de Gonçalves 
 
COOABCred-RS 
 
Presidente: Jorge Fernando Estevão Maciel 
Vice-Presidente: Márcia Isabel Heinen 
 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
6 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
 
PREFÁCIO - Teresa Cristina Fernandes Moesch ...................................................................... 8 
APRESENTAÇÃO - Cristiano de Moraes Franco ..................................................................... 9 
O GREENWASHING E A (DES)NECESSIDADE DE SUA REGULAMENTAÇÃO 
ESPECÍFICA – Andreza Sordi ................................................................................................ 11 
A REDUÇÃO DA MENSALIDADE NA REDE PRIVADA DE ENSINO EM PERÍODO 
PANDÊMICO: BREVES CONSIDERAÇÕES DOUTRINÁRIAS E ANÁLISE 
JURISPRUDENCIAL – Bárbara Peixoto Nascimento Ferreira de Souza e Maria Luiza de 
Almeida Carneiro Silva ............................................................................................................ 30 
CONSUMO E LOGÍSTICA REVERSA: A RESPONSABILIDADE NOS PROCESSOS 
LOGÍSTICOS – Bruno pinto Coratto ....................................................................................... 45 
O DIREITO DO CONSUMIDOR: UM OLHAR SOB A PSICOLOGIA E O 
SUPERENDIVIDAMENTO ANTE A VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR NAS 
RELAÇÕES DE CONSUMO – Camila Possan de Oliveira, Luiz Guedes Sorino e Susandra 
Dorneles .................................................................................................................................... 58 
PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR NA RESCISÃO CONTRATUAL EM DECORRÊNCIA 
DA PANDEMIA DA COVID-19 NOS CASOS DE CANCELAMENTOS DE SHOWS E 
EVENTOS CULTURAIS – Camila Queiroz de Medeiros Santos, Marina Linna Pinheiro Cruz 
e Fabrício Germano Alves ........................................................................................................ 75 
MARKETPLACE E DIREITO DO CONSUMIDOR: DESAFIOS E PERSPECTIVAS – Carlos 
Bender Konrad .......................................................................................................................... 90 
A PANDEMIA E A SOCIEDADE DE CONSUMO: A OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA 
COMO FATOR DE VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR – Cristiano de Moraes 
Franco ..................................................................................................................................... 105 
PUBLICIDADE REDACIONAL/NATIVA: ABUSO DA VULNERABILIDADE DO 
CONSUMIDOR NO MEIO EDITORIAL – Fabrício Germano Alves, Mariana Câmara de 
Araújo e Pedro Henrique da Mata Rodrigues de Souza ......................................................... 119 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
7 
 
OS PRINCÍPIOS CONSUMERISTAS COMO ESCUDO ÀS PRÁTICAS ABUSIVAS EM 
MEIO A PANDEMIA DA COVID-19 – João Vitor Martins David e Marcelo Melchior .... 133 
O SUPERENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR COMO PERDA DAS CAPACIDADES 
– Jovana De Cezaro ................................................................................................................ 148 
CONSUMO E ENDIVIDAMENTO: UMA ANÁLISE DAS MUDANÇAS DE HÁBITOS E 
DE COMPORTAMENTO ORIGINADOS PELO CORONAVÍRUS – Luciane Dienstmann 
Ferreira.................................................................................................................................... 161 
A DIFICULDADE COM A ACESSIBILIDADE DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NO 
COMÉRCIO ELETRÔNICO – Isadora Leitão Wild Santini Picarelli e Luíza Severnini Sima
 ................................................................................................................................................ 172 
ASPECTOS PROCESSUAIS DA PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR TITULAR DE DADOS 
PESSOAIS – Oscar Valente Cardoso ..................................................................................... 182 
DEFESA DO CONSUMIDOR E O CUMPRIMENTO DE CONTRATOS EM TEMPO DE 
PANDEMIA – Soeli Teresinha Schilling Dienstmann .......................................................... 193 
GEOPRICING DIANTE DO ORDENAMENTO JURÍDICO CONSUMERISTA – Vinícius 
Wdson do Vale Rocha, Ingrid Altino de Oliveira e Ermana Larissa Soares .......................... 207 
PARTICIPAÇÃO ESPECIAL 
OS DIREITOS DO CONSUMIDOR EM TEMPOS DE PANDEMIA: ANÁLISE DAS 
RESPOSTAS DO GOVERNO FEDERAL E LEGISLATIVO PARAA PROTEÇÃO DOS 
CONSUMIDORES – Claudia Lima Marques, Lúcia Souza d’Aquino, Guilherme Mucelin, 
Maria Luiza Baillo Targa e Tatiana Cardoso Squeff .............................................................. 223 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
8 
 
PREFÁCIO 
 
 
Honrada e sensibilizada, recebo a deferência de prefaciar o E-book/2021, Direito do 
Consumidor- desafios e perspectivas, mais uma importante obra, dentre outras tantas, editada 
pela ESA- Escola Superior da Advocacia, braço cultural da OAB/RS – Ordem dos Advogados 
do Brasil, Seccional do Rio Grande do Sul, que tem por finalidade precípua o aperfeiçoamento 
profissional da advocacia gaúcha. 
Neste E-book são tratados importantes temas, todos pontuais e instigantes, da lavra de ícones e 
estudiosos do Direito do Consumidor, para nos auxiliar na atuação em prol do equilíbrio das 
relações de consumo. 
Com maestria, e em excelente momento, nos são trazidos, para leitura e reflexão, artigos 
pertinentes ao Direito do Consumidor, com abordagem técnica, precisa e clara. 
Parabenizamos o Dr. Alexandre Torres Petry, Diretor da Revista Eletrônica da ESA, pela 
competência e empenho de sempre. 
Agradecemos à ESA, na pessoa de sua diretora Rosângela Maria Herzer dos Santos, que a vem 
conduzindo com brilhantismo ao longo de tantos anos, sempre na busca do aprimoramento 
técnico da advocacia gaúcha. 
Em especial, agradecemos ao nosso grande mestre e Presidente da OAB/RS, Dr. Ricardo 
Ferreira Breier, que comanda nossa entidade com firmeza e dedicação exemplares. 
Que todos tenham uma boa leitura! 
 
Teresa Cristina Fernandes Moesch 
Presidente da Comissão Especial de Defesa do Consumidor da OAB/RS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
9 
 
APRESENTAÇÃO 
 
 
O avanço da Pandemia causada pelo Coronavírus trouxe consigo situações de preocupação e 
reflexão inevitáveis em um dos setores que mais é afetado em tempos de mudanças de cenário 
na economia: o mercado de consumo. Obviamente que a normalidade da sociedade foi afetada 
e inúmeras transformações sociais foram observadas, o que motivou a necessidade de 
adequação para que a proteção aos direitos dos consumidores seguisse sua linha inclusiva e 
plural. 
Acompanhar os desdobramentos legais e alterações no modo de consumo pressupõe a constante 
e indispensável atualização acadêmica, objetivo principal do Grupo de Estudos de Direito do 
Consumidor e que deu ensejo a presente obra, cujo intuito maior é o de estimular discussões, 
reflexões e mudanças práticas para uma melhor relação entre consumidores e fornecedores, 
vislumbrando o progresso das boas práticas de consumo. 
Em atenção às angústias quanto a eventuais atividades lesivas às boas práticas de consumo, o 
e-book “Direito Do Consumidor: Desafios e Perspectivas” surge da comunhão de esforços entre 
a OAB/RS, Escola Superior de Advocacia (ESA), Comissão de Defesa do Consumidor e o 
Grupo de Estudos de Direito do Consumidor ao verificar a necessidade de aprofundamento 
técnico e teórico na defesa dos preceitos consumeristas, principalmente em razão dos 
acontecimentos recentes e marcantes nas relações de consumo, as quais, devido à Pandemia e 
ampliação dos meios de acesso ao consumo, principalmente pelas plataformas digitais, 
ocasionaram no aumento de práticas abusivas e ilegais por parte dos fornecedores de produtos 
e serviços, gerando preocupação quanto a imprescindibilidade da busca de meios capazes de 
evitar, ou frear, eventuais litigiosidades. 
Assim, alinhado ao tema proposto foram selecionados e aprovados trabalhos que abrangem as 
mais diversas áreas do direito do consumidor, incluindo, como contribuição especial, o artigo 
de Cláudia Lima Marques, Lúcia Souza d’Aquino, Guilherme Mucelin, Maria Luiza Baillo 
Targa e Tatiana Cardoso Squeff sobre “Os direitos do consumidor em tempos de pandemia: 
análise das respostas do Governo Federal e Legislativo para a proteção dos consumidores”. 
Ainda na linha da perspectiva da análise dos direitos dos consumidores afetados pela Pandemia, 
seguem os artigos de Bárbara Peixoto Nascimento Ferreira de Souza e Maria Luiza de Almeida 
Carneiro Silva (A redução da mensalidade na rede privada de ensino em período pandêmico: 
breves considerações doutrinárias e análise jurisprudencial), Camila Queiroz de Medeiros 
Santos, Marina Linna Pinheiro Cruz e Fabrício Germano Alves (Proteção do consumidor na 
rescisão contratual em decorrência da pandemia da covid-19 nos casos de cancelamentos de 
shows e eventos culturais), Cristiano de Moraes Franco (A pandemia e a sociedade de consumo: 
a obsolescência programada como fator de vulnerabilidade do consumidor), João Vitor Martins 
David e Marcelo Melchior (Os princípios consumeristas como escudo às práticas abusivas em 
meio a pandemia da covid-19), Luciane Dienstmann Ferreira (Consumo e endividamento: uma 
analise das mudanças de hábitos e de comportamento originados pelo coronavírus) e Soeli 
Teresinha Schilling Dienstmann (Defesa do consumidor e o cumprimento de contratos em 
tempo de pandemia). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
10 
 
Outros importantes temas acolhidos dizem respeito à crescente utilização dos meios eletrônicos 
de consumo e a observância à proteção de dados, os quais foram explorados por Carlos Bender 
Konrad (Marketplace e direito do consumidor: desafios e perspectivas), Fabrício Germano 
Alves, Mariana Câmara de Araújo e Pedro Henrique da Mata Rodrigues Sousa (Publicidade 
redacional/nativa: abuso da vulnerabilidade do consumidor no meio editorial), Isadora Leitão 
Wild Santini Picarelli e Luíza Severnini Sima (A dificuldade com a acessibilidade das pessoas 
com deficiência no comércio eletrônico), Oscar Valente Cardoso (Aspectos processuais da 
proteção do consumidor titular de dados pessoais) e Vinícius Wdson do Vale Rocha, Ingrid 
Altino de Oliveira e Ermana Larissa Soares (Geopricing diante do ordenamento jurídico 
consumerista). 
Uma das grandes preocupações atuais entre consumidores e fornecedores é a evolução para um 
consumo mais consciente, sustentável e menos agressivo ao meio ambiente, tema abordado 
através dos artigos de Andreza Sordi (O greenwashing e a (des)necessidade de sua 
regulamentação específica) e Bruno Pinto Coratto (Consumo e logística reversa: a 
responsabilidade nos processos logísticos). 
Completam a presente obra artigos que tratam de relevante alteração legislativa e que traz um 
novo paradigma ao direito do consumidor, que é a questão do superendividamento, temática 
abarcada por Camila Possan de Oliveira, Luiz Guedes Soriano e Susandra Dorneles (O direito 
do consumidor: um olhar sob a psicologia e o superendividamento ante a vulnerabilidade do 
consumidor nas relações de consumo) e Jovana De Cezaro (O superendividamento do 
consumidor como perda das capacidades). 
Assim, a presente obra é fruto da reunião de esforços para que a defesa dos consumidores seja 
viabilizada e concretizada através do conhecimento, pois, muito além do estudo direcionado na 
matéria que engloba todos os atores do mercado de consumo, avançar em tópicos controvertidos 
e debatê-los se mostra como o verdadeiro caminho para o progresso. 
Boa leitura! 
 
Cristiano de Moraes Franco 
Coordenador do Grupo de Estudos de Direito do Consumidor da ESA/RS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
11 
 
O GREENWASHING E A (DES)NECESSIDADE DE SUA 
REGULAMENTAÇÃO ESPECÍFICA 
 
Andreza Sordi1 
 
 
Resumo: O presente estudo objetiva traçar considerações acerca do greenwashing. Tal prática 
verifica-se quando, utilizando-se de estratégias de marketing e motivadas pelo intuito de 
alavancar suas vendas a um público ambientalmente responsável, organizações empresariais 
vendem a ideia de que seus produtos são sustentáveis e, portanto, respeitam o meio ambiente,contudo, essa informação não encontra respaldo na realidade. Diante disso, pretende-se 
investigar se os efeitos possivelmente ocasionados pelos apelos contidos implícita ou 
explicitamente nos bens de consumo, frutos do greenwashing já se encontram regulamentados 
no conjunto legislativo do ordenamento pátrio. Por meio de uma perspectiva hermenêutica, 
abordam-se aspectos atinentes ao surgimento e aos impactos causados pela prática no meio 
ambiente e na sociedade. A importância do assunto em tela ganha destaque na medida em que 
se constata que o greenwashing já é amplamente utilizado por grande parte das empresas, em 
âmbito nacional e mundial. A conclusão alcançada é a de que as leis, resoluções e a 
principiologia constitucional e infraconstitucional que já existe no ordenamento jurídico 
brasileiro é suficiente para regular as relações decorrentes da prática, não havendo a necessidade 
de criação de nova regulamentação sobre o tema. 
 
Palavras chave: Greenwashing, consumo sustentável, meio ambiente, publicidade, direito do 
consumidor. 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Nunca foi tão fácil ser um consumidor consciente. Basta adquirir um produto que “cuida 
do meio ambiente”. Tendo essa premissa como ponto de partida, o presente trabalho versa sobre 
a prática conhecida como greenwashing, tendo por intuito investigar se o estabelecimento de 
uma legislação específica sobre o tema se faz necessário – ou não – no ordenamento jurídico 
brasileiro. 
Justifica-se a importância da pesquisa pelo fato de este ser um assunto que está presente 
no quotidiano de todos os consumidores, manifestando-se por meio de apelos – implícitos ou 
explicitamente contidos nos bens de consumo. Além disso, o instituto em tela afeta 
consideravelmente o meio ambiente, na medida em que traz informações que, em muitos casos, 
não são verdadeiras, induzindo o consumidor em erro e gerando um efeito adverso: ao invés de 
proteger, acaba por poluir o ecossistema. 
 
1 Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de Passo Fundo – UPF. Pós-graduada em Ciências 
Jurídicas – Atividades de Magistratura pelo Centro Universitário Projeção – Uniprojeção. Advogada, inscrita na 
OAB/RS sob nº 106.703/RS. E-mail para contato: andreza.sordi@hotmail.com. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
12 
 
Isso ocorre devido ao fato de o consumidor ser levado a acreditar que está adquirindo 
um produto ambientalmente responsável, produzido de acordo com as normas técnicas e com 
base no respeito à natureza, quando, isso, em verdade, trata-se de uma estratégia de marketing. 
Confiando em elementos provenientes unilateralmente do fornecedor, o consumidor adquire o 
produto de boa-fé, mesmo que, na maioria dos casos, tais informações estejam desprovidas de 
dados comprobatórios e inseridas unicamente com o intuito de alavancar as vendas. 
Diante disso, busca-se enfrentar a seguinte problemática: a criação de novas leis ou 
regulamentos específicos para combater o greenwashing é, realmente, necessária, ou a prática 
já encontra suficientes regulamentações no ordenamento jurídico pátrio, ainda que de forma 
implícita? 
Com base nesta indagação, o presente trabalho possui como objetivo geral investigar a 
prática definida como greenwashing, e como objetivos específicos averiguar suas origens e o 
seu surgimento, através de um panorama sociológico, ambiental e constitucional, tudo à luz do 
direito do consumidor e do ordenamento jurídico-constitucional. Ainda, visa perquirir quais as 
principais razões pelas quais a sua regulamentação por meio de uma legislação específica se 
faz - ou não, necessária. 
Visando responder a questão apresentada, optou-se por realizar uma pesquisa de revisão 
bibliográfica, por meio da abordagem qualitativa. Para tanto, foram analisadas diversas obras 
doutrinárias, textos e artigos científicos atinentes ao assunto em debate, os quais tiveram uma 
delimitação temporal abrangente, envolvendo publicações desde os anos 1992 até 2020. 
Como critérios de inclusão à pesquisa, foram selecionados materiais já publicados em 
renomados periódicos, livros e sites que mantivessem relação direta com o tema, escritos tanto 
em língua portuguesa quanto em inglesa. Publicações que não contemplassem o tema proposto 
no presente estudo, bem como, que não estivessem disponíveis na íntegra, juntamente com 
pesquisas provenientes de fontes desconhecidas foram os critérios de exclusão adotados para a 
realização do trabalho. 
A investigação bibliográfica foi realizada tendo como fontes diversos repositórios e 
bases de dados, como por exemplo a Biblioteca Virtual Pearson, a Scientific Electronic Library 
Online (SciELO), e o Google Acadêmico. Além disso, também foram utilizadas obras 
doutrinárias, bem como, dados provenientes de pesquisas de campo realizadas por instituições 
de renome na área e pela Secretaria Nacional do Consumidor. Também foram consultadas 
legislações em vigor atualmente, extraídas diretamente do site oficial da Presidência da 
República. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
13 
 
No que tange à apresentação do presente estudo, optou-se por ordená-lo em dois 
capítulos, sendo o primeiro denominado de: greenwashing: a sustentabilidade disfarçada e o 
segundo denominado de: principais regulamentações atinentes ao greenwashing no 
ordenamento jurídico brasileiro. 
O primeiro capítulo foi dividido em dois subtópicos, denominados “contextualização” 
e “o greenwashing: breves noções conceituais” e visa trazer breves noções a respeito do 
surgimento do instituto, bem como, traçar algumas definições que auxiliam na tentativa de sua 
conceituação. Já o segundo capítulo é responsável por trazer exposições acerca de como a 
prática é regulamentada, mostrando que existem várias regras e princípios que cuidam do tema 
no ordenamento pátrio, ainda que de forma indireta. Este, por sua vez, foi dividido em três 
subtópicos, sendo eles: regulamentação – CONAR; projeto de lei nº 4.752-b, de 2012 e o 
greenwashing e a (des)necessidade de sua regulamentação específica. 
Por último, importa ressaltar que o presente estudo não possui o intuito de esgotar a 
matéria objeto de debate, mas sim, servir como caminho para possibilitar maiores reflexões. 
Isto porquê, não se trata de um tema simples que pode ser esgotado em breves linhas, mas algo 
instigante e que comporta inúmeras discussões. 
 
2. GREENWASHING: A SUSTENTABILIDADE DISFARÇADA 
 
2.1 Contextualização 
 
 Cada vez mais, temas como o esgotamento de recursos naturais, os altos níveis de 
consumo e de descarte e a elevada poluição ambiental vêm ganhando destaque e sendo 
debatidos de maneira mais intensa por grande parte dos estudiosos e da população mundial. 
 Inegavelmente, “vivemos em uma era de mudanças planetárias aceleradas sem 
precedentes. De fato, muitos cientistas acreditam que nosso consumo crescente e o consequente 
aumento da demanda por energia, solo e água estão moldando uma nova época geológica: o 
Antropoceno”2 (Relatório Planeta Vivo - WWF, 2018, p. 03). 
 
2 O surgimento do conceito do Antropoceno tem sido amplamente discutido na literatura. O termo foi usado pela 
primeira vez pelo biólogo Eugene F. Stoemer na década de 1980, mas só foi formalizado em 2000, numa 
publicação conjunta com o Prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, na Newsletter do International Geosphere 
Biosphere Programme (IGBP) do mês de maio. Nessa comunicação, os autores propõem o uso do termo 
Antropoceno para a época geológica atual, para enfatizar o papel central do homem na geologia e ecologia, e o 
início dessa época nos finais do século XVIII, que coincide com o aumento nas concentrações de CO2 e CH4, e, 
também, com a invenção da máquina a vapor, em 1784, por James Watt. (...) Em 2002, Crutzen publicou um artigo 
sucinto, intitulado “Geologyof Mankind” na revista Nature. Para Crutzen, o homem tem se convertido em uma 
poderosa força geológica e será uma força predominante no meio ambiente no futuro, fazendo necessário distinguir 
esta nova época com um termo que descreva apropriadamente esta “Idade dos Humanos” (“Age of Humans”) (DA 
SILVA, Cleyton; ARBILLA, Graciela, 2018, p. 1621-1622). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
14 
 
 Apesar de ser um dos assuntos mais debatidos nos dias atuais, a preocupação com o 
meio ambiente não é um tema tão recente. É sabido que a origem dos movimentos 
ambientalistas remonta ao Século XVIII, quando especialistas já demonstravam preocupações 
afetas a temas ligados a questões ambientais, como a poluição e o esgotamento das riquezas 
naturais (MENDONÇA; DIAS, 2019, p. 208, apud RODRIGUES, 2009). 
A partir da tomada de consciência quanto a finitude dos recursos ambientais, os 
consumidores passaram a atentar para a necessidade de mudanças nos padrões de consumo. 
Diante disso, temas como consumo e desenvolvimento sustentáveis começaram a ser debatidos. 
 
Declarado pela Resolução ONU nº 153/1995, o chamado consumo sustentável 
exsurge como nova preocupação da ciência consumerista. Com efeito, o próprio 
consumo de produtos e serviços, em grande parte, pode e deve ser considerado como 
atividade predatória dos recursos naturais. E, como se sabe, enquanto as 
necessidades do ser humano, sobretudo quando alimentado pelos meios de 
comunicação em massa e pelos processos de marketing, são infinitas, os recursos 
naturais são finitos, sobretudo quando não renováveis. A nova vertente, pois, do 
consumerismo visa exatamente a buscar o necessário equilíbrio entre essas duas 
realidades, afim de que a natureza não seja privada de seus recursos, o que, em 
consequência, estará a ameaçar a própria sobrevivência do ser humano neste planeta 
(...) (GRINOVER, 2019, pg. 11). 
 
 
Impulsionado pelos meios de comunicação em massa, como por exemplo, a internet, 
constata-se o surgimento de um “despertar da atenção da sociedade” com relação aos impactos 
causados pela ação humana no meio ambiente. Em decorrência disso é que os consumidores 
passaram a analisar dados referentes a como os produtos que eles consomem afetam o 
ecossistema (MÉO, 2017, pg. 12). 
 Em 2019, o instituto de pesquisas NIELSEN entrevistou mais de 21 mil consumidores 
brasileiros e constatou que a sustentabilidade é um tema que está em pauta. Segundo dados 
coletados, “42% dos consumidores brasileiros estão mudando seus hábitos de consumo para 
reduzir seu impacto no meio ambiente e 30% dos entrevistados estão atentos aos ingredientes 
que compõem os produtos” (NIELSEN, 2019). 
 Assim, é possível afirmar que o consumidor moderno está tendente a optar, diante da 
ampla oferta de bens de consumo, por aqueles cuja produção causa menos impactos ambientais. 
Dados retirados da pesquisa “Vida Saudável e Sustentável”, realizada no ano de 2019 pelo 
Instituto Akatu, em parceria com a GlobeScan, corroboram esta afirmação, mostrando que 57% 
(cinquenta e sete por cento) dos consumidores analisam informações sobre questões 
socioambientais na hora de adquirir um produto (AKATU; GLOBESCAN, 2019, p. 17). Além 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
15 
 
disso, uma parcela significativa afirmou que deseja reduzir o impacto negativo gerado pelos 
produtos que consomem no meio ambiente (AKATU; GLOBESCAN, 2019, p. 16). 
 Nesse cenário, fica clara a necessidade de as empresas mudarem sua forma de produção 
se quiserem se manter competitivas no mercado e, efetivamente, vender os bens que produzem. 
A adaptação voltada à preocupação ambiental deve se dar desde a parte inicial da fabricação, 
no que tange ao cuidado com os insumos utilizados, até o pós-consumo, com o tratamento que 
é dado aos dejetos resultantes da fabricação, bem como, com o destino que terá o produto 
quando de seu descarte. 
Em outros termos, levando em conta essa mudança de mentalidade do consumidor, os 
produtos e serviços que passaram a se destacar e a ganhar valor de mercado são os que fazem 
uso de sistemas de produção ecologicamente corretos, seja por meio da utilização de matérias 
primas menos danosas, alterações do modo de extração e práticas pouco nocivas que causam 
menos impactos ambientais (PAVIANI, 2019, p. 93). 
 
A partir desses alertas e da crescente preocupação ambiental, surgiram diversas 
iniciativas que prometiam cuidado com o meio ambiente, dentre as quais os selos de 
sustentabilidade, que representam um elo entre produtor e consumidor e identificam 
produtos que não causam (ou causam menos) impactos ao meio ambiente. Sob uma 
identificação visual, trata-se de um diagrama informativo para bens produzidos no 
âmbito das especificações ambientais. A iniciativa tem origem principalmente na 
Europa, tendo recebido impulso de Organizações Não-Governamentais (ONGs). 
(STELZER; GONÇALVES, 2016, p. 133). 
 
Tendo isso em vista, em decorrência da crescente preocupação com a conservação do 
meio ambiente, as empresas se viram obrigadas a adotar novos posicionamentos e a criar novas 
formas de produção, voltadas à conservação ambiental. O consumidor ecologicamente correto, 
cada vez mais preocupado com o que consome e em como o seu consumo afeta a vida no 
planeta, impôs, de certa forma, o desenvolvimento de produtos que resultem em menos 
impactos negativos ao ecossistema. 
Cientes destes dados, cada vez mais empresas buscam adaptar suas formas de produção, 
de modo que menos consequências negativas sejam sentidas pelo meio-ambiente. O problema 
ocorre quando as empresas dizem estar utilizando métodos de produção sustentáveis apenas 
como forma de marketing, no intuito de aumentar os índices de vendas, sem, contudo, estarem 
adotando essas condutas na prática. Daí é que tem surgimento a prática que se convencionou 
chamar de greenwashing. 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
16 
 
2.2 O greenwashing: breves noções conceituais 
 
A expressão greenwashing não é algo que comporta uma definição simples. Mediante 
breve pesquisa, é possível encontrar inúmeras tentativas de estabelecer um conceito para essa 
complexa prática. Uma delas define o greenwashing como: 
 
aglutinação do inglês green, que significa verde, e washing, lavando, o termo 
greenwashing, corresponde, em tradução livre, lavagem verde, mas também pode ser 
compreendido como “maquiagem verde”, ocorrendo quando as organizações se valem 
da política ambiental para promoverem um produto ou serviço, sendo que na 
realidade, busca-se apenas o lucro (PAVIANI, 2019, pg. 98). 
 
Existem registros sobre o termo que datam de 1992. Nesse ano, o Greenpeace3 publicou 
um livro denominado “The Greenpeace book of Greenwash”, no qual há menção acerca do 
surgimento dessa prática. Conforme o registro, por volta das décadas de 1970 e 1980 foi 
constatado um aumento com a preocupação ambiental. Isso se deu em decorrência de diversos 
fatores, dentre os quais, o surgimento de movimentos de cidadãos de diversos países contrários 
à degradação ambiental, bem como, a maior exposição da mídia quanto aos problemas 
relacionados ao meio ambiente (GREENPEACE FOUNDATION, 1992, p. 2-3). 
 Mas foi mais precisamente no fim dos anos 80 que esse movimento se intensificou, 
quando as pessoas começaram a correlacionar temas como a poluição das águas e da camada 
de ozônio, a extinção das florestas e a alta quantidade de emissão de resíduos tóxicos às 
empresas multinacionais. Diante disso, tornou-se extremamente difícil para elas negarem a sua 
contribuição com a degradação ambiental, e foi aí que nasceu a estratégia Greenwash (lavagem 
verde), como um projeto desenvolvido pela indústria com o intuito de convencer os 
consumidores de que as empresas transnacionais preocupam-se e adotam medidas voltadas à 
preocupação ambiental (GREENPEACE FOUNDATION, 1992, p. 2-3). 
 Com o passar do tempo, essaprática tornou-se amplamente difundida em âmbito 
mundial, e vastamente utilizada pelas mais diversas companhias empresariais. No Brasil, não 
foi diferente. Uma pesquisa realizada em 2019 pelo IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do 
Consumidor), conseguiu comprovar que o greenwashing está presente também no mercado 
brasileiro. 
Referida pesquisa utilizou dados coletados em grandes supermercados nos estados do 
Rio de Janeiro e São Paulo, entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, sendo que os produtos 
analisados foram delimitados por categorias (cosméticos, higiene, produtos de limpeza e 
 
3 O Greenpeace é uma organização internacional sem fins lucrativos e totalmente financiada por seus apoiadores. 
Está presente em mais de 55 países e desenvolve campanhas globais coordenadas entre vários escritórios 
(GREENPEACE BRASIL). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
17 
 
utilidades domésticas). A pesquisa teve por objetivo analisar se os produtos avaliados 
continham indícios da prática do greenwashing, levando em conta os dados apresentados nas 
embalagens e comparando as alegações com sites de referência de certificadoras independentes 
e canais de serviço de atendimento das empresas (SACs) (INSTITUTO BRASILEIRO DE 
DEFESA DO CONSUMIDOR, 2019, p. 6). 
As informações coletadas mostraram que, dentre os produtos analisados, “509 
continham alguma alegação cunho socioambiental, sendo que 67% (341 produtos) 
corresponde à categoria de higiene e cosméticos, seguido de limpeza, 17% (89 produtos); e 
utilidades domésticas, 16% (79 produtos)” (INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO 
CONSUMIDOR, 2019, p. 9). 
 
A partir da avaliação feita, foi constatado que 48%, sendo 243 produtos analisados 
praticam Greenwashing e a categoria que mais o faz proporcionalmente é a de 
utilidades domésticas. Foram encontradas alegações irregulares em 75% dos itens 
dessa categoria, o que indica que 3 em cada 4 produtos desse tipo apresentaram 
alguma irregularidade. No caso dos produtos de limpeza, o Greenwashing apareceu 
em 66% dos rótulos analisados - portanto, 2 em cada 3 produtos. Na categoria de 
higiene e cosméticos, enfim, a prática foi constatada em 37% dos produtos estudados, 
o que indica que o Greenwashing esteve presente em 1 em cada 3 embalagens. O 
problema mais recorrentemente encontrado nos rótulos analisados foi o da falta de 
provas das vantagens ambientais dos produtos - especialmente das “alegações 
animais”, que informam a não realização de testes ou a ausência de ingredientes de 
origem animal. Os fabricantes dos produtos estudados pelo Idec que incorreram nessa 
irregularidade não disponibilizaram na embalagem dos produtos, em seu site, pelo 
canal do SAC ou após serem notificados extrajudicialmente documentos que 
embasassem suas alegações. Além da falta de provas, a pesquisa encontrou diversos 
produtos com alegações irrelevantes, destacando-se os aerossóis que alegam não 
conter CFC e os produtos saneantes que indicam fazer uso de tensoativos 
biodegradáveis (INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR, 
2019, p. 10-11). 
 
 Assim, fica claro que, mesmo sendo uma prática com surgimento não tão recente, o 
fenômeno greenwashing está cada dia mais presente no dia a dia dos consumidores. É fato que 
existem empresas que demonstram preocupação verdadeira com o meio ambiente, e que, com 
base nisso, prezam pela sua conservação na elaboração dos produtos que oferecem ao mercado. 
Ocorre, contudo, que infelizmente, essas não são a maioria. O problema surge exatamente na 
hora de diferenciar as fabricantes que realmente cumprem seu papel ambiental das que apenas 
vendem a ideia, mas não a implementam na prática. 
O ordenamento jurídico brasileiro, preocupado com a parte vulnerável das relações de 
consumo, possui diversos comandos protetivos voltados aos consumidores, os quais podem ser 
utilizados como manto protetor contra possíveis abusos cometidos por parte dos fornecedores. 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
18 
 
3. PRINCIPAIS REGULAMENTAÇÕES ATINENTES AO GREENWASHING NO 
ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO 
 
A Constituição da República Federativa do Brasil (CF/88) demonstrou particular 
preocupação com a defesa da parte vulnerável da relação de consumo. Nesse ímpeto, elencou, 
em seu art. 5º, XXXII CF/884, a promoção da defesa do consumidor como sendo um direito 
fundamental. Ademais, mediante breve análise do inciso V do artigo 170 da CF/885, verifica-
se que a defesa do consumidor também foi tratada pela Carta Maior como um dos princípios 
que regem a ordem econômica brasileira. 
Nessa senda, como forma a dar efetividade ao comando estabelecido no artigo 5º, 
XXXII da CF/88, foi criada, em 1990, a Lei 8.078/90, denominada Código de Defesa do 
Consumidor (CDC). O referido diploma foi considerado um marco de extrema importância na 
busca pela efetivação e proteção dos direitos dos consumidores. 
Contudo, apesar de trazer conceitos e previsões extremamente afrentes de seu tempo, o 
Código em debate não apresentou nenhuma regulamentação que tratasse, especificamente, 
sobre a prática do greenwashing. Não obstante, mesmo diante da ausência de uma normatização 
específica, constata-se que dentre os princípios e regras que o Código, efetivamente, prevê, 
existem alguns que podem ser utilizados para acautelar e combater a prática. 
Dentre os princípios, vale destacar os que demandam uma atuação transparente por parte 
do fornecedor, reconhecem a vulnerabilidade do consumidor frente o mercado consumerista, 
determinam que o comportamento dos atores integrantes da relação de consumo deva se pautar 
na boa-fé e no fornecimento de informações quanto a seus direitos e deveres (MÉO, 2017, pg. 
329). 
Ênfase maior merece o princípio da informação, o qual auxilia na construção de uma 
consciência voltada ao desenvolvimento sustentável. Referido princípio pode ser conceituado 
como a obrigação que as empresas possuem de prestar ao consumidor informações que sejam 
claras, verdadeiras e precisas, além disso, também encerra o direito que este possui de ser 
devidamente informado sobre o desenvolvimento sustentável da sociedade em que vive 
(LOVATO, p. 167-170). 
 
4 Art. 5º CF. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e 
aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à 
propriedade, nos termos seguintes: XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor. 
5 Art. 170 CF. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim 
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: V - 
defesa do consumidor. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
19 
 
Além disso, o artigo 6º, inciso III do CDC prevê que a informação adequada e clara 
sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, 
características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos 
que apresentem é um direito básico do consumidor, bem como, um dever do fornecedor. 
O CDC também regulamenta a prática da publicidade no ordenamento jurídico 
brasileiro. É possível comprovar a preocupação do microssistema com a tutela desse tema 
mediante a regulamentação da proteção contra a publicidade enganosa e abusiva como um dos 
direitos básicos6 do consumidor. 
Tendo em vista as diversas formas pelas quais o greenwashing se manifesta, verifica-se 
que em muitos casos, pode caracterizar espécie de publicidade enganosa nas modalidades 
comissiva e por omissão7 (fulcro no artigo 37 CDC). Assim, tem-se que não somente o 
fornecimento de informações falsas, mas também a ausência de informações essenciais aoconsumidor é considerada pelo CDC como publicidade enganosa (SENACON, 2013, p. 138). 
Mais precisamente, a proteção contra publicidade enganosa e abusiva, consideradas 
como práticas comerciais condenáveis é conferida pelo CDC a partir de seu artigo 30. A oferta 
publicitária é tratada pelo CDC como um dos mais relevantes aspectos do mercado 
consumerista e, diante disso, a ela é atribuído caráter vinculativo. Assim, conforme o diploma, 
tudo o que disser respeito a um produto ou a um serviço deve, obrigatoriamente, corresponder 
à expectativa que foi incutida no consumidor, sob pena de sofrer sanções especificadas na Seção 
II do Capítulo V do CDC (GRINOVER, 2019, pg. 145). 
O artigo 378 veda qualquer modalidade de publicidade enganosa. É importante ressaltar 
que o dispositivo não proíbe a publicidade. Posiciona-se somente contra dois tipos de 
publicidade perniciosa ao consumidor (GRINOVER, 2019, pg. 340). 
 
6 Art. 6º CDC. São direitos básicos do consumidor: IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, 
métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no 
fornecimento de produtos e serviços. 
7 Em primeiro lugar, podemos identificar dois tipos de publicidade enganosa: a por comissão e a por omissão. Na 
publicidade enganosa por comissão, o fornecedor afirma algo capaz de induzir o consumidor em erro, ou seja, diz 
algo que não é. Já na publicidade por omissão, o anunciante deixa de afirmar algo relevante e que, por isso mesmo, 
induz o consumidor em erro, isto é, deixa de dizer algo que é (GRINOVER, 2019, pg. 343). 
8 Art. 37 CDC. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva. § 1° É enganosa qualquer modalidade de 
informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, 
mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, 
quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços. § 2° É abusiva, dentre 
outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, 
se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja 
capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. § 3° 
Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial 
do produto ou serviço. § 4° (Vetado). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
20 
 
De acordo com a Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor (SENACON), a 
“enganosidade” nos anúncios publicitários pode se manifestar de várias formas, dentre elas: 
 
a falta de comprovação dos benefícios socioambientais alegados; a aposição de 
informação dessa natureza em locais de difícil identificação pelo consumidor, 
colocando-o em dúvida se a qualidade se refere ao produto ou à sua embalagem; 
informar que o produto é reciclável sem que haja sistema de logística reversa ou coleta 
seletiva que viabilize a sua real reciclagem; e sustentar seu aspecto “natural” mesmo 
após ter sido industrializado (SENACON, 2013, p. 138-139). 
 
 Além de configurar prática vedada e de ferir os direitos básicos do consumidor, realizar 
afirmação falsa ou enganosa, e a omissão de informação relevante sobre as características, 
qualidade, quantidade, segurança e desempenho dos produtos são considerados crimes pela 
legislação consumerista, conforme os arts. 669 e 6710, do CDC (SENACON, 2013, p. 139). 
 
3.1 Regulamentação - CONAR 
 
 Diante da constatação da inexistência de normas específicas no CDC - ou em qualquer 
outro diploma, sobre vedação ao greenwashing, o anexo U do Código Brasileiro de 
Autorregulamentação Publicitária do CONAR traz apelos à publicidade voltada à 
responsabilidade socioambiental e à sustentabilidade. 
 O CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) é uma 
organização não governamental criada em 1980, com o intuito de regulamentar a publicidade 
no Brasil. Possui como missão “impedir que a publicidade enganosa ou abusiva cause 
constrangimento ao consumidor ou a empresas e defender a liberdade de expressão 
comercial”. Em cumprimento aos objetivos que motivaram a sua criação, a entidade define 
princípios básicos que definem a ética na publicidade: 
 
Os preceitos básicos que definem a ética publicitária são: todo anúncio deve ser 
honesto e verdadeiro e respeitar as leis do país, deve ser preparado com o devido senso 
de responsabilidade social, evitando acentuar diferenciações sociais, deve ter presente 
a responsabilidade da cadeia de produção junto ao consumidor, deve respeitar o 
princípio da leal concorrência e deve respeitar a atividade publicitária e não 
desmerecer a confiança do público nos serviços que a publicidade presta (CONAR). 
 
 
 
9 Art. 66. Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação relevante sobre a natureza, característica, 
qualidade, quantidade, segurança, desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos ou serviços: Pena - 
Detenção de três meses a um ano e multa. § 1º Incorrerá nas mesmas penas quem patrocinar a oferta. § 2º Se o 
crime é culposo; Pena Detenção de um a seis meses ou multa. 
10Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou abusiva: Pena Detenção de 
três meses a um ano e multa. Parágrafo único. (Vetado). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
21 
 
O CONAR recebe denúncias provenientes de consumidores, associados e outras 
autoridades, a cerca de irregularidades praticadas por fornecedores em atos publicitários. É 
possível encontrar menção de dois casos11 nos quais foram feitas representações acerca de 
supostas práticas de greenwashing, julgados pela ONG. Em ambos, foi reconhecida a 
ocorrência da prática. 
Contudo, tendo em vista que o CONAR não é um órgão estatal, ele não é dotado do 
poder de aplicar multas, bem como, suas normas são de natureza não vinculativa. Ao analisar 
as denúncias recebidas, se verificada a sua procedência, o CONAR apenas expede 
recomendações para alterar ou suspender a veiculação do anúncio (CONAR). Entretanto, 
apesar de não possuir força judicial, os pareceres emitidos pelo CONAR influenciam nas 
decisões, bem como nas escolhas dos consumidores e de investidores externos (PAVIANI, 
2019, pg. 101). 
 
3.2 Projeto de lei nº 4.752-B, de 2012 
 
Diante dessa aparente falha legislativa, no intuito de realizar uma regulamentação 
específica da prática do greenwashing, mais recentemente, no ano de 2012, foi apresentado à 
 
11 CASO 1: ACHOLATADO ORGÂNICO NATIVE. Mês/Ano Julgamento: MAIO/2013. Representação nº: 
087/13. Autor(a): Grupo de consumidores Anunciante: Usina São Francisco. Relator(a): Conselheiro Manoel 
Zanzoti Câmara: Sétima Câmara Decisão: Alteração Fundamentos: Artigos 1º, 3º, 6º, 27, 36 e 50, letra "c" do 
Código e seu Anexo U Resumo: Grupo de consumidores reunidos pela Proteste questiona embalagem do 
Achocolatado Orgânico Native, em especial a menção "Aço - Reciclável - Ecológico", considerada irrelevante e 
passível de induzir o consumidor a erro. Em sua defesa, a anunciante alude a documento da ABNT, intitulado 
Simbologia de Identificação de Materiais. O relator considerou a denúncia pertinente. Segundo o seu 
entendimento, a lata é reciclável, mas o aço não é ecológico. "A prática do greenwashing como estratégia de 
marketing é conhecida do mercado e cabe a instituições como o Conar e aos consumidores fazer com que ela seja 
reduzida", escreveu o relator em seu voto. Ele considerou importante a denúncia formulada, demonstrando o 
crescimento do nível de consciência das pessoas. Recomendoua alteração da embalagem, de forma que seja 
retirada a palavra "ecológico". Seu voto foi aceito por unanimidade (CONAR. Disponível em: 
http://www.conar.org.br/processos/detcaso.php?id=3546. Acesso em: 15 ago. 2020). 
CASO 2: ORGANIQUE BRASIL. Mês/Ano Julgamento: ABRIL/2013. Representação nº: 046/13. Autor(a): 
Conar, mediante queixa de consumidor. Anunciante: Organique Brasil. Relator(a): Conselheira Tânia Pavlovsky. 
Câmara: Segunda Câmara. Decisão: Alteração. Fundamentos: Artigos 1º, 3º, 23, 27 e 50, letra "b" do Código. 
Resumo: Consumidora de Osasco (SP) queixa-se de anúncio em internet da Organique, uma empresa 
fabricante de cosméticos. No entendimento da denunciante, a empresa divulga usar ingredientes naturais em seus 
produtos, o que não corresponderia à verdade, na medida em que vários componentes químicos fazem parte das 
fórmulas. Não estaria havendo, questiona a consumidora, greenwashing? Em sua defesa, a empresa esclarece que 
comercializa três linhas de produtos, sendo que em uma delas não são empregados conservantes, matérias-primas 
de origem animal e petróleo. Para a defesa, a consumidora estendeu essa propriedade específica de uma das suas 
linhas para as demais. A relatora não julgou suficientes esses argumentos. Ela considerou que as alegações de 
cuidados com o meio ambiente frisados no site da empresa não estão devidamente provados. "O site deixa muitas 
dúvidas em aberto e foi isso o que causou a queixa da consumidora", escreveu em seu voto. Ela recomendou a 
alteração, de forma a esclarecer que a empresa também comercializa linhas de produto que não se enquadram na 
apresentação geral do site, além de comprovar as ações que diz promover em benefício do meio ambiente. Seu 
voto foi aceito por unanimidade (CONAR. Disponível em: 
http://www.conar.org.br/processos/detcaso.php?id=3420. Acesso em: 15 ago. 2020). 
http://www.conar.org.br/
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
22 
 
Câmara dos Deputados o Projeto de Lei número 4.752/2012, que regulamentava o 
greenwashing de maneira expressa. 
Referido projeto tinha por intuito obrigar “organizações e empresas que utilizam 
propaganda sobre sustentabilidade ambiental de seus produtos ou serviços a explicarem-na a 
partir dos rótulos dos produtos e do material de publicidade (...) (BRASIL; Câmara dos 
Deputados, 2012). 
Além disso, o projeto também previa as sanções a serem aplicadas em caso de prática 
da “maquiagem verde”, conforme denominada pelo projeto. O Art. 4º estabelecia que “A 
prática da maquiagem verde sujeita as pessoas físicas e jurídicas por ela responsáveis às 
sanções previstas no art. 72 da Lei n o 9.605, de 12 de fevereiro de 1998” (BRASIL; Câmara 
dos Deputados, 2012). 
Ou seja, o greenwashing, quando comprovadamente praticado pelas empresas no Brasil, 
passaria a configurar uma infração administrativa ambiental, prática lesiva ao meio ambiente 
que poderia acarretar como punição desde uma simples advertência, até a destruição ou 
inutilização do produto. 
O projeto foi recebido e analisado pela Câmara dos Deputados, contudo, ao ser emitido 
o parecer da Comissão de Defesa do Consumidor, a proposição foi considerada inapropriada. 
Dentre as diversas razões adotadas para o indeferimento do projeto, a principal delas foi a 
afirmação que a prática do greenwashing já é regulamentada, ainda que indiretamente, pelo 
CDC, quando este se refere à publicidade enganosa, em seu artigo 37 (BRASIL; Câmara dos 
Deputados, 2012). 
Além disso, alegou-se que o projeto extrapolaria a seara consumerista, uma vez que 
estabelecia punições previstas na legislação ambiental aos que praticassem a referida conduta. 
Não obstante, também foi arguido que a criação de exigências de que as empresas obtivessem 
certificação por parte de terceiros, ou comprovassem as alegações por meio de dados científicos 
“implica um grande desincentivo às mencionadas ações, por criar insegurança jurídica 
flagrante às empresas, além de criar ônus adicionais imprevisíveis” (BRASIL; Câmara dos 
Deputados, 2012). 
Tendo isso em vista, a Comissão responsável pelo parecer apontou as soluções que 
entendeu serem cabíveis e suficientes para a prevenção e repressão da “maquiagem verde”. De 
acordo com ela, “o que se deveria incentivar é a criação de critérios claros para a utilização 
de apelos ambientais e/ou de sustentabilidade na publicidade de produtos e, com estas regras, 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
23 
 
criar penalidades para as empresas que estiverem usufruindo destes apelos, sem cumprir os 
critérios estabelecidos” (BRASIL; Câmara dos Deputados, 2012). 
Assim, verifica-se que apesar da tentativa de criação de uma norma que tratasse, 
especificamente, da prática do greenwashing, optou-se pela não conversão do projeto em lei. 
Um dos principais argumentos para tanto foi a alegação de que a prática já se encontra 
devidamente acautelada no ordenamento pátrio, não necessitando de maiores regulamentações. 
 
3.3 O greenwashing e a (des)necessidade de sua regulamentação específica 
 
 Diante do panorama apresentado, no qual o greenwashing aparece como prática 
responsável por ocasionar danos não só ao meio ambiente, mas também aos consumidores como 
um todo, surge a necessidade de intervenção por parte do direito, através de mecanismos aptos 
a possibilitar a proteção e defesa da parte vulnerável da relação de consumo. Contudo, como 
ocorre com outras condutas ilícitas já reconhecidas pelo ordenamento jurídico, nem sempre a 
regulamentação específica sobre o assunto é necessária, uma vez que, em grande parte dos 
casos, as normas já existentes são suficientes para reger o tema e disponibilizar instrumentos 
capazes de coibir e reprimir a prática. 
 Nessa senda, ganham destaque as previsões estabelecidas no CDC, as quais, somadas, 
constituem um manto protetor ao consumidor-vítima (efetiva ou potencial) do greenwashing. 
O arcabouço protetivo inicia-se no artigo 3112 do referido diploma e prossegue nos 
artigos seguintes, ganhando destaque o parágrafo único do artigo 36, que estabelece uma 
obrigação que deve ser cumprida pelo fornecedor, no intuito de acautelar a veracidade das 
informações que são disponibilizadas nos produtos. Aponta o referido dispositivo que, “o 
fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder, para 
informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão 
sustentação à mensagem”. 
Constata-se que este artigo é uma das mais importantes ferramentas no combate ao 
grenwashing, uma vez que estabelece a obrigatoriedade de o fornecedor estar munido dos dados 
comprobatórios das informações que disponibiliza nos invólucros dos bens de consumo. Assim, 
não seria suficiente a mera alegação de que o produto respeita o meio ambiente, uma vez que o 
 
12 Art. 31. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, precisas, 
ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço, garantia, 
prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança 
dos consumidores 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
24 
 
consumidor poderia solicitar acesso às informações para conferir se aquilo que está descrito no 
produto realmente foi cumprido. 
 Contudo, é no artigo 37 do CDC que encontramos o dispositivo que mais se coaduna e 
é capaz de acautelar o consumidor para que ele não se torne vítima do greenwashing, prática 
que, conforme já ressaltado, amolda-se perfeitamente ao conceito de publicidade enganosa. O 
artigo 3713 veda qualquer conduta que seja capaz de iludir ou ludibriar o consumidor. 
Nesse ímpeto, conforme artigo 66 do CDC, “fazer afirmação falsa ou enganosa, ou 
omitir informação relevante sobre a natureza, característica, qualidade,quantidade, 
segurança, desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos ou serviços”, configura 
crime contra as relações de consumo, estando o fornecedor sujeito à pena de detenção que varia 
de três meses a um ano e multa. Importa ressaltar que, ainda que a conduta seja culposa, seu 
autor pode sofrer sanções de detenção, de um a seis meses ou multa. 
Além disso, a conduta de “fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser 
enganosa ou abusiva” também é considerada crime pelo CDC, sujeito a pena de detenção, que 
pode ser de três meses a um ano e multa”, conforme preceitua o artigo 67 do referido diploma 
legislativo. 
Não obstante, além das diversas sanções penais, outras, de índole administrativa, 
também podem ser impostas ao fornecedor que pratica greenwashing. Tais sanções encontram 
previsão no artigo 56 do CDC14, e podem ser aplicadas inclusive de forma cumulativa. 
 Diante disso, fica claro que o ordenamento pátrio possui diversos mecanismos que estão 
previstos legalmente e que são capazes de combater o greenwashing. Além disso, outros 
instrumentos, não jurídicos, também podem ser invocados para fazer frente à prática. Citam-se 
como exemplo as já mencionadas recomendações expedidas pelo CONAR, a importância da 
 
13 Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva. § 1° É enganosa qualquer modalidade de informação 
ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por 
omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, 
propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços. § 2° É abusiva, dentre outras a 
publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se 
aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz 
de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança. § 3° Para os 
efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do 
produto ou serviço. 
14 Art. 56. As infrações das normas de defesa do consumidor ficam sujeitas, conforme o caso, às seguintes sanções 
administrativas, sem prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em normas específicas: I - multa; II - 
apreensão do produto; III - inutilização do produto; IV - cassação do registro do produto junto ao órgão 
competente; V - proibição de fabricação do produto; VI - suspensão de fornecimento de produtos ou serviço; VII 
- suspensão temporária de atividade; VIII - revogação de concessão ou permissão de uso; IX - cassação de licença 
do estabelecimento ou de atividade; X - interdição, total ou parcial, de estabelecimento, de obra ou de atividade; 
XI - intervenção administrativa; XII - imposição de contrapropaganda. Parágrafo único. As sanções previstas neste 
artigo serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser aplicadas 
cumulativamente, inclusive por medida cautelar, antecedente ou incidente de procedimento administrativo. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
25 
 
educação ambiental, bem como, medidas preventivas que podem ser adotadas pelos próprios 
consumidores antes da aquisição dos produtos. Ressalta-se que a prevenção e cuidado na hora 
da aquisição do produto é uma das formas mais eficazes de não ser vítima da prática. 
 Assim, algumas condutas são recomendadas para que o consumidor não seja enganado 
com afirmações inverídicas. A primeira é fugir de afirmações falsas, desconfiando de “produtos 
que possuem afirmações ambientais vagas como “ecológico”, “sustentável” ou “amigo do 
meio ambiente”” contudo, não apresentam nenhum dado comprobatório ou suporte para 
comprovação. Além disso, mas não menos importante, é fundamental ter cuidado com imagens 
que parecem selos oficiais, mas na verdade, são desenhos criados pela própria empresa para 
confundir os adquirentes de seus produtos (INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO 
CONSUMIDOR, 2019, p. 25). 
Outra dica importante é ter cuidado com as mensagens que são inseridas nos produtos, 
sempre pesquisando se elas são realmente compatíveis com o alegado pelos fornecedores, uma 
vez que 
 
muitas empresas colocam recomendações e sugestões em suas embalagens, como 
“Preserve o Meio Ambiente, ele agradece”, “Economize água”, “Por favor, recicle 
essa embalagem”. No entanto, a empresa carece de política socioambiental e de ações 
voltadas à sustentabilidade de seus produtos. A responsabilidade com o meio 
ambiente é tanto do consumidor, quanto da empresa. É comum encontrar casos em 
que o consumidor quer reciclar a embalagem do produto, mas o fabricante não investiu 
em embalagens 100% recicláveis ou biodegradáveis e não consegue. Até mesmo 
casos nos quais a empresa pede para o consumidor economizar água, mas a sua 
empresa não tem a prática de fazer reuso de água, reaproveitamento e até mesmo 
racionamento (INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR, 2019, 
p. 26). 
 
 
A conduta mais indicada para confirmar a veracidade dos dados contidos nos produtos 
é entrar em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) da empresa, por meio 
de telefone ou e-mail, os quais precisam estar informados no rótulo do produto, solicitando 
provas concretas das afirmações realizadas. Deste modo, constata-se que “o consumo 
sustentável apenas é bem sucedido se a maioria dos consumidores participarem dele 
voluntariamente, sendo educados para traduzir as informações que recebem sobre o tema em 
novos comportamentos, aqui e agora” (MÉO, p. 186). 
Somada a isso, a educação ambiental15 é outro importante instrumento no combate ao 
greenwashing. Prevista na Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, desempenha importante papel 
 
15 Art. 1o Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade 
constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do 
meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
26 
 
de conscientização e sensibilização dos consumidores e também das empresas, auxiliando no 
reconhecimento de práticas que “possam realmente ser comprovadas através da oferta de 
informações claras, uma vez que as embalagens devem trazer informações verdadeiras e com 
linguagem adequada ao entendimento do público geral” (SIQUEIRA; VARGAS, 2013, p. 03). 
Assim, constata-se que o sistema jurídico brasileiro é rico e completo ao prever regras 
e princípios suficientemente capazes de proteger o consumidor do greenwashing. Diante disso, 
verifica-se que não é indispensável a edição de uma regulamentação específica para combater 
a prática e viabilizar a proteção do consumidor. Isto porque, ainda que indiretamente, 
encontram-se disposições principiológicas e regramentos dispostos no ordenamento jurídico 
brasileiro capazes de combater e regular os efeitos possivelmente causados pelo greenwashing. 
 
4. CONCLUSÃO 
 
No presente trabalho estudou-se a prática conhecida como greenwashing, sua relação 
com o meio ambiente e com a sociedade atual. O intuito principal foi aferir se existe (ou não) a 
necessidade de serem criadas leis específicas para sua regulamentação. 
Constatou-se que é notória a preocupação mundial com o impacto que os altos índices 
de consumo vêm ocasionando ao meio ambiente no decorrer dos últimos séculos. Em 
decorrência disso, se tornou urgente a mudança nos padrões de produção e consumo, 
principalmente no que tange ao cuidado com a finitude dos recursos naturais. 
Assim, os movimentos ambientalistas influenciaram osconsumidores do século XXI a 
adquirirem produtos que são feitos de modo a causar menos prejuízo ao ecossistema, tanto na 
fase de produção, quanto no descarte. Tendo isso em vista e imbuídos do intuito de alavancar 
suas vendas, muitos fabricantes começaram a inserir nas embalagens dos bens de consumo que 
ofertam informações que levam a entender que eles são feitos de modo ambientalmente correto, 
contudo, isso não é o que ocorre na realidade. Esta prática ficou conhecida como greenwashing. 
O Código de Defesa do consumidor foi publicado em 1990 de forma a dar efetividade 
ao comando constitucional que estabelecia a obrigatoriedade de sua criação. Apesar de 
configurar um diploma com normas consideradas bastante avançadas para seu tempo, o Código 
não trouxe nenhuma regulamentação que tratasse especificamente do greenwashing. 
Com o passar dos anos e com o aumento da prática, foram surgindo questionamentos 
acerca da necessidade de criação de uma lei que previsse de forma especifica condicionantes à 
sua ocorrência. Assim, em 2012 foi apresentado o Projeto de lei nº 4.752-B, de 2012 à Câmara 
dos Deputados, o qual estabelecia normas específicas sobre o greenwashing. Referido projeto, 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
27 
 
no entanto, não foi convertido em lei sob o principal argumento de que regulamentava algo que 
já encontra previsão legal no ordenamento jurídico, ainda que implicitamente. 
Deste modo, conclui-se que, apesar de não possuir uma legislação que trate de maneira 
particularizada sobre o tema, o ordenamento jurídico brasileiro contém instrumentos capazes 
de combater o greenwashing. Exemplos desta alegação são os pareceres expedidos pelo 
CONAR, os quais, apesar de não serem dotados de força judicial, influenciam nas decisões do 
público consumerista. 
Além disso, as normas do Código de Defesa do Consumidor que regulamentam a 
publicidade no ordenamento jurídico brasileiro também podem ser utilizadas no combate à 
prática. Igualmente, do CDC, podem ser extraídos diversos princípios aplicáveis. Assim, com 
base na transparência, na vulnerabilidade do consumidor, na boa-fé e na informação, é possível 
estabelecer vedações e combater o greenwashing. 
Por fim, também existem outras formas de combate à referida prática, como a educação 
ambiental e outras que podem ser adotadas pelo próprio consumidor. Medidas simples e não 
jurídicas, como a busca de dados comprobatórios no próprio site da fornecedora para se 
certificar de que as alegações contidas na embalagem do produto são verdadeiras, e o 
acompanhamento de pesquisas feitas por instituições ambientalistas, são alguns exemplos 
disso. 
Deste modo, conclui-se que, a criação de novas leis ou regulamentos específicos para 
combater o greenwashing não se faz necessária no ordenamento jurídico brasileiro. Isto porque, 
apesar de não possuir uma legislação que trate de maneira particularizada sobre o tema, é 
possível constatar que existem inúmeras normas (tanto regras quanto princípios) 
suficientemente capazes de regulamentar a prática, protegendo de maneira satisfatória a parte 
mais fraca da relação de consumo. 
 
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Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
28 
 
explicarem-na a partir dos rótulos dos produtos e do material de publicidade e estabelece as 
sanções à prática da maquiagem verde, previstas na Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. 
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Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
30 
 
A REDUÇÃO DA MENSALIDADE NA REDE PRIVADA DE ENSINO 
EM PERÍODO PANDÊMICO: BREVES CONSIDERAÇÕES 
DOUTRINÁRIAS E ANÁLISE JURISPRUDENCIAL 
 
Bárbara Peixoto Nascimento Ferreira de Souza1 
Maria Luiza de Almeida Carneiro Silva2 
 
Resumo: O presente trabalho trata das solicitações, realizadas por alunos e pais/responsáveis, 
de redução da mensalidade na rede privada de ensino, que veio à tona como uma das 
consequências da pandemia da Covid-19, em virtude da ausência de aulas presenciais em meio 
ao risco de contaminação e, consequentemente, risco à saúde e à vida de todos os envolvidos 
no ambiente acadêmico. Nesse contexto, serão abordados os posicionamentos a favor e contra 
à redução da mensalidade nas escolas e faculdades da rede privada de ensino, bem como o 
posicionamento os Tribunais Superiores. As dificuldades com relação à matéria são determinar 
medidas que não sobreponham os interesses de uma das partes, considerando as famílias e as 
instituições envolvidas nessa relação jurídica, e a construção de uma jurisprudência sólida nesse 
sentido. O estudo do tema escolhido é necessário e importante, pois traz consequências para a 
realidade social, econômica e jurídica. À vista das dificuldades apontadas, o presente trabalho 
tem como objetivo apresentar o debate relativo ao tema e apontar como solução viável o 
preenchimento de certos critérios para que seja a lide decidida, retirados do entendimento 
jurisprudencial. Como procedimentos metodológicos foram utilizados a pesquisa explicativa e 
exploratória, bem como a técnica de pesquisa documental indireta e o método dedutivo. 
Conclui-se que a temática não se encontra pacificada jurisprudencialmente, demandando 
estudos mais aprofundados para solucionar as questões práticas que lhe são inerentes. 
 
Palavras-chave: Ensino privado. Redução da mensalidade. Prestação de serviço. Pandemia. 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Diante da incidência do coronavírus (Sars-Cov-2), em nível de pandemia, reconhecida 
pela Organização Mundial da Saúde, sobrevieram recomendações e restrições de isolamento 
social impostas pelo Ministério da Saúde, de modo que os governos estaduais e municipais 
foram levados a tomar diversas medidas visando tutelar direitos fundamentais 
constitucionalmente estabelecidos como o direito à vida e à saúde, sendo uma delas a suspensão 
das atividades presenciais nas escolas e faculdades. Esta medida, em especial, proporcionou 
mais à frente a utilização da educação à distância ou ensino remoto como forma de substituir 
as aulas presenciais e dos estudantes não serem de todo prejudicados. 
 
1 Mestra em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2020). Especialista em Direito 
Constitucional e Tributário pela Universidade Potiguar (2015). Parecerista ad hoc da Revista Antinomias. 
Advogada – OAB/RN n° 11.970. E-mail: barbarapeixoto_nfs@hotmail.com. 
2 Mestra em Direito pela Universidade do Rio Grande do Norte (2020). Especialista em Direito Processual Civil 
pela Universidade de Anhanguera – MS (2016). Pós-graduanda em Direito Constitucional pela Damásio 
Educacional. Parecerista ad hoc da Revista Antinomias. E-mail: marialuiza.acs@hotmail.com. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
31 
 
A somar, em razão do cenário pandêmico existente, surgiram inúmeras consequências 
deletérias na saúde pública, bem como nas mais diversas relações de mercado, ante à 
paralisação da atividade econômica ou à sua significativa redução, refletindo integralmente na 
situação socioeconômica da população e das próprias empresas. 
Justamente nesse quadro, verificou-se por parte dos pais/responsáveis - nos casos em 
que os alunos são menores de idade - e dos próprios discentes a necessidade de adoção de 
providências conducentes ao reequilíbrio das obrigações contratuais, que terminaram por ser 
afetadas em razão da pandemia, considerando, para tanto, que o advento desse fato 
extraordinário impôs a cobrança desproporcional das mensalidades escolares, assim como uma 
prestação de serviço supostamente irregular. 
Em razão desta solicitação, de outro lado estão as Instituições de Ensino privadas, que, 
por sua vez, alegam que as consequências da pandemia enfrentada são comuns às partes 
contratantes, portanto, não somente um lado vivencia os inconvenientes do momento de 
extrema excepcionalidade social e econômica. Além disso, esclarecem que a interrupção 
ocorrida não foi causada por sua vontade ou conduta, dentre outros motivos. 
Destarte, em meio a essa discussão jurídica, o trabalho propõe a exposição e análise dos 
posicionamentos a favor e contra à redução da mensalidade nas escolas e faculdades da rede 
privada de ensino, a fim de se determinar solução ou soluções através de preenchimento de 
certos critérios argumentativos para que seja a lide decidida, retirados do entendimento 
jurisprudencial pátrio. 
Para tanto, em um primeiro momento buscou-se destacar os argumentos positivos à 
redução da mensalidade e o porquê ela seria o caminho jurídico mais acertado, para 
posteriormente analisar, de igual forma, as dificuldades enfrentadas pelas Instituições de Ensino 
privadas a serem consideradas na modificação do negócio jurídico, como redução de receita, 
manutenção dos profissionais contratados e de sua estrutura etc., para, por fim, apontar alguns 
critérios a serem levados em consideração no ato decisório, mediante a jurisprudência, de 
maneira a favorecer o acesso à educação aos alunos e ao mesmo tempo não prejudicar em 
demasia a rede privada. 
Ressalta-se que, para a realização deste estudo, utilizou-se do método dedutivo, partindo 
das premissas previamente definidas na legislação e doutrina, por intermédio de pesquisa de 
documentação indireta, tendo como base, para tanto, documentos que não somente abordem o 
tema, mas que sejam necessários para a discussão dele. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
32 
 
Foi efetuada uma pesquisa explicativa, visando identificar os fatores que determinam 
ou que contribuem para a redução das mensalidades no ensino privado, a fim de compreender 
qual seria o melhor caminho; e exploratória, buscando, ao explicitar a temática em seu atual 
estado e aprimorar o conhecimento já existente. 
 
2 A REDUÇÃO PELO DIREITO FUNDAMENTAO SOCIAL DE ACESSO À 
EDUCAÇÃO 
 
Do Estado exige-se, para a proteção do direito à vida, em seu duplo aspecto (direito de 
nascer e direito de subsistir), tanto abstenções, quanto ações, traduzidas em prestações negativas 
e positivas, respectivamente. No cenário pandêmico, como mencionado anteriormente, houve 
a imposição de restrições, através de normas governamentais, com o propósito de tutelar, a 
partir do direito à vida, como mencionado, o direito à saúde, constitucionalmente definidos nos 
artigos 5° e 6° da Constituição Federal (BRASIL, 1988), respectivamente, sendo uma delas o 
lockdown, medida de cunho mais rigoroso, imposta para restringir ao máximo a circulação dos 
cidadãos em locais públicos, sendo permitida apenas a saída por motivos essenciais. 
 A educação, considerada como não essencial, sofreu impacto decisivo desde então e 
diante dessa nova realidade, surgiram normas com o objetivo de permitir que o processo de 
ensino-aprendizagem continuasse através do ensino remoto; no âmbito das instituições federais 
de ensino, o Ministério da Educação publicou a Portaria nº 343, de 17 de março de 2020, seguida 
das Portarias de nº 345/2020 e nº 395/2020, dispondo sobre a substituição das aulas presenciais 
por aulas em meios digitais enquanto durar a situação de pandemia do Novo Coronavírus – 
COVID-19 (BRASIL, 2020). Destarte, convémdestacar a redação do seu artigo 1º, abaixo 
transcrito: 
Art. 1º Autorizar, em caráter excepcional, a substituição das disciplinas presenciais, 
em andamento, por aulas que utilizem meios e tecnologias de informação e 
comunicação, nos limites estabelecidos pela legislação em vigor, por instituição de 
educação superior integrante do sistema federal de ensino, de que trata o art. 2º do 
Decreto nº 9.235, de 15 de dezembro de 2017. 
 
Considerando esta autorização, as Instituições de ensino passaram a disponibilizar suas 
aulas através do ensino remoto, como forma de dar continuidade ao período letivo, no entanto, 
com o transcorrer do tempo, a expectativa gerada no setor educacional de que o retorno às aulas 
presenciais dar-se-ia com segurança em junho ou julho do ano de 2020, em verdade, não se 
concretizou, de maneira que o planejamento realizado pelas instituições para o ano letivo, 
considerando o ensino presencial, não foi efetivado, graças a manutenção pandemia e, 
consequentemente, do ensino remoto por mais tempo do que o previsto; passando 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
33 
 
posteriormente para o ensino híbrido e atualmente, após mais de um ano, o retorno das aulas 
presenciais em alguns Estados do país. 
Nesse contexto, há de se considerar que houve a redução de alguns custos fixos por parte 
da rede de ensino privada relativos à itens de manutenção, energia e água durante todo o período 
sem aula presencial, de modo que, em busca do reestabelecimento do equilíbrio contratual, 
torna-se cabível existir essa atenuação da mensalidade, até mesmo porque aqueles que 
promovem o seu pagamento também tiveram seus rendimentos fortemente afetados, pois 
dúvida não há de que a pandemia provocada pelo novo coronavírus trouxe a reboque a 
fragilização de uma economia já bastante combalida. 
Como consequência, as relações contratuais de trato sucessivo foram abruptamente 
afetadas pela imprevisibilidade desse fato, estatuindo aos dois lados desse liame novas bases 
para a criação de uma nova compreensão acerca dos direitos e das obrigações estabelecidos 
nesta relação contratual. 
Cabe o destaque que os serviços educacionais ofertados se caracterizam como relação 
de consumo, formada pelo binômio consumidor, como destinatário final do serviço (art. 2° 
caput, do CDC), e fornecedor, como prestador do serviço (art. 3°, caput, e §2° do CDC), 
portanto, se submetem ao regime de tutela do Código de Defesa do Consumidor (BRASIL, 
1990). 
O artigo 6º, em seu inciso V, do CDC, permite essa rediscussão contratual quando 
dispõe que a modificação ou revisão das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações 
desproporcionais em razão de fatos supervenientes que as tornem extremamente onerosas é um 
dos direitos do consumidor (BRASIL, 1990). Ao passo que os artigos 39, V e 51, § 1º, III, 
ambos igualmente do CDC, determinam que é vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, 
exigir do consumidor vantagem obviamente excessiva, que se mostre onerosa ao considerar a 
natureza e o conteúdo do contrato pactuado entre as partes (BRASIL, 1990). 
Uma vez que se a realidade foi modificada, os contratos firmados antes precisam 
adaptar-se, seja quanto ao serviço ou produto fornecidos, seja quanto ao preço ou 
contraprestação exercida, a um contexto em que o lucro se mostre menos expressivo em virtude 
da continuidade da atuação. Nesse sentido, diversos são os fatores a serem considerados para 
se readequar os contratos pactuados, como capacidade de substituição das atividades 
presenciais por digitais; retirada dos serviços acessórios incorporados (atividades 
extracurriculares, alimentação etc.); impacto econômico causado pela pandemia quanto aos 
custos das instituições de ensino (PIZZOL, 2020, p. 550). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
34 
 
Igualmente há de se atentar para o fato de que a cessação de uma relação pedagógica 
em virtude de dificuldades financeiras, possui a capacidade de gerar outros danos aos 
diretamente interessados, seja de esfera emocional ou acadêmica. 
A educação à distância é acompanhada de dificuldades em vários ramos da sua 
atividade, tem-se o desafio a instrução pedagógica, tendo em vista que o processo educativo da 
EAD difere do processo presencial de educação, dependendo da criação de um ambiente virtual 
de aprendizagem que seja integrativo e interativo o suficiente, cabendo ao docente-tutor a 
missão de procurar criar laços com os seus alunos, abrangendo todas as competências didático-
pedagógicas, sociais, tecnológicas, linguísticas, tutoriais, interculturais e de aprendizagens 
(CARMO; FRANCO, 2019). 
Nessa perspectiva, não obstante estejam disponíveis plataformas digitais capazes de 
prover o ensino remoto, a ausência de formação específica dos professores quanto a utilização 
das tecnologias da informação e comunicação dificulta o processo de lecionar (AVELINO; 
MENDES, 2020, p. 60). Os docentes se mostram despreparados para ensinar de forma remota 
e utilizar sites que disponibilizam serviço de videoconferências (ARTIGAS, 2017, p. 24400), o 
que acaba prejudicando a transmissão da educação. 
Quanto aos estudantes, estes indicam divergências quanto a qualidade e frequência das 
aulas, bem como demanda desse aluno acesso as tecnologias disponíveis para acompanhar o 
ensino à distância (SANTOS JUNIOR; MONTEIRO, 2020, p. 13), o que pode vir a gerar custos 
para os seus familiares, desde o aumento da capacidade da rede de internet instalada em casa à 
compra de notebook e deslocamento para locais que tenham fácil acesso à internet. 
Com efeito, não se pode minimizar o valor da educação enquanto direito fundamental, 
pela simples leitura do art. 205 da Constituição Federal, verifica-se que a educação é um direito 
de todos, cabendo ao Estado o dever de fornecê-la, de forma gratuita ao menos nos graus 
elementares e fundamentais, e incentivá-la com a colaboração da sociedade, respeitando a 
liberdade de aprendizagem e de ensino, de acordo com o art. 206 da Carta (BRASIL, 1988). 
O direito à educação não somente é um direito fundamental, é também um direito 
humano, ultrapassando os limites do texto constitucional; sendo enfatizado no preâmbulo da 
Declaração Universal dos Direitos Humanos - que, por sua vez, foi proclamada objetivando o 
respeito, por parte dos órgãos e indivíduos, aos direitos e liberdades por meio do ensino -, a 
importância da educação como forma de solidificação dos outros direitos fundamentais 
(CARVALHO, 2020). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
35 
 
Essa essencialidade faz com que a educação seja um direito que transcenda os limites 
do texto constitucional. É mais do que um direito fundamental; é um direito humano. Inclusive, 
a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi proclamada como um ideal comum a ser 
atingido por todos os povos e nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da 
sociedade se esforce em promover o respeito aos direitos e liberdades por meio do ensino e da 
educação. Enfatiza, em seu preâmbulo, a importância do ensino e da educação para a 
concretização dos demais direitos fundamentais (CARVALHO, 2020). 
Tais circunstâncias colaboram com a compreensão da possibilidade dessa diminuição, 
que, por sua vez, deverá ser efetivada em um percentual que não inviabilize, a curto ou médio 
prazo, a própria sobrevivência da instituição, o que não traria nenhum benefício futuro aos 
estudantes. 
Nos Tribunais de Justiça de vários estados brasileiros desenrola-se o ajuizamento de 
Ação Civil Pública, através da qual requerem a diminuição das mensalidades e/ou a suspensão 
da prestação de serviços contratados em primeiro momento - as aulas presenciais -, é o caso, 
por exemplo, dos seguintes estados: Ceará; Amazonas; Pernambuco; Rondônia; Alagoas; Rio 
Grande do Norte; isto porque o desequilíbrio contratual provocado pela pandemia juntamente 
com o caráter de fundamentalidadedo direito de acesso à educação autoriza o ingresso da ação 
(NASCIMENTO; RICHTER; ROSA, 2020, p. 89). 
Atestado este desequilíbrio, é direito subjetivo do consumidor obter à revisão contratual, 
independentemente se trata ou não de risco inerente à atividade ou se o evento superveniente 
foi causado ou não pelo fornecedor. 
Logo, tem-se que é plenamente cabível, sob o ponto de vista social, econômico e jurídico 
o desconto nas mensalidades escolares, seguindo a tendência do movimento atual e de pós-
pandemia, objetivando garantir o direito fundamental à educação e evitar prejuízo econômicos 
aos que procedem com o pagamento, e emocionais e de aprendizado aos discentes. 
 
3 A REDUÇÃO COMO INTERVENÇÃO NA LIBERDADE CONTRATUAL 
PRIVADA: AUSÊNCIA DE DESEQUILÍBRIO E ONEROSIDADE EXCESSIVA. 
 
 Em virtude dos severos impactos socioeconômicos causados pela pandemia, além da 
paralisação total ou parcial de inúmeras atividades, a renda percebida por alguns núcleos 
familiares também foi impactada. Buscando adequar-se a essa nova realidade a todos imposta, 
os serviços educacionais vêm tentando se rearranjar e se reinventar, sobretudo com a adoção 
do ensino remoto ou do Ensino à Distância. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
36 
 
Para tanto, além de preparar e viabilizar um ambiente virtual de aprendizagem, 
disponibilização de conteúdos on-line, elaboração de atividades e provas virtuais, bem como 
capacitação e atualização dos docentes e dos demais funcionários, as instituições de ensino 
frequentemente têm sofrido com a falta de adesão dos alunos e com a falta de incentivo e 
credibilidade por parte dos próprios pais/responsáveis. 
Desta feita, começou-se a indagar se seria possível pleitear descontos/redução dos 
valores à título de mensalidade escolar ou universitária. 
Visando a melhor compreensão da temática ora exposta, faz-se mister ressaltar o teor 
do artigo 478 do Código Civil (BRASIL, 2002), in verbis: 
 
Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de 
uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para 
a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá 
o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar 
retroagirão à data da citação. 
 
 Ademais, deve ser destacado o Enunciado nº 365 do CJF/STJ, na IV Jornada de Direito 
Civil: “A extrema vantagem do art. 478 deve ser interpretada como elemento acidental da 
alteração das circunstâncias, que comporta a incidência da resolução ou revisão do negócio por 
onerosidade excessiva, independentemente de sua demonstração plena” (BRASIL, 2006). 
Compreende-se por onerosidade que pode servir de fundamento para a revisão ou 
resolução contratual, e que não necessita de prova, aquela em que um dos contraentes auferiu 
vantagens em detrimento de outro, devendo-se comprovar o prejuízo e consequente 
desequilíbrio do contrato. 
No caso em apreço, para a reivindicação de redução de mensalidade é imprescindível 
que seja demonstrada, de fato, uma alteração na renda considerada, decorrente dos efeitos 
imprevisíveis da pandemia da Covid-19, gerando a impossibilidade de arcar com a mensalidade 
que vinha sendo adimplida até então, devendo ser proceder-se à análise de cada caso concreto. 
O Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 6º, V, determina que são direitos 
básicos do consumidor a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações 
desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem 
excessivamente onerosas (BRASIL, 1990). 
Nessa esteira, cumpre destacar que nos autos do Processo nº 0722291-
35.2020.8.07.0016, em trâmite perante o 5º Juizado Especial Cível de Brasília, os pedidos da 
parte autora foram julgados improcedentes, não entendendo o Juízo pela redução de 
mensalidade em razão da pandemia, tendo em vista que não houve inadimplência ou 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
37 
 
desequilíbrio contratual por parte da instituição de ensino, de modo que o objetivo do contrato 
firmado seria alcançado ao final do ano letivo (DISTRITO FEDERAL, 2021). 
A parte autora sustentou que após a suspensão das aulas presenciais devido as medidas 
de isolamento social, o contrato teria sofrido desequilíbrio financeiro, já que a mensalidade não 
teria sido alterada, mas sem a correspondente prestação de integral dos serviços contratados. 
Ademais, aduziu que existiria correlação direta entre o valor das mensalidades e o cumprimento 
do calendário escolar inicial, com a previsão de 200 dias letivos. Por fim, requereu a redução 
em 50% das mensalidades de maio e junho de 2020, além das vincendas, até o retorno das aulas 
presenciais (DISTRITO FEDERAL, 2021). 
Por seu turno, a instituição de ensino afirmou ter realizado todas as adequações 
necessárias e emergenciais decorrentes da Covid-19, com ajustes na organização pedagógica e 
administrativa, bem como reorganização do calendário letivo, seguindo os ditames legais, 
preservando a qualidade do ensino e sem que houvesse perda de aprendizado por parte dos 
alunos, destacando que a redução da mensalidade seria inviável no caso em apreço (DISTRITO 
FEDERAL, 2021). 
Segundo a Magistrada ao proferir a sentença, ao contrário do que afirmou a parte autora, 
não se pode deduzir que a escola tenha inadimplido o contrato de prestação de serviços 
educacionais, uma vez que a suspensão das aulas presenciais não decorreu de sua vontade 
própria, por negligência quanto ao cumprimento das obrigações oriundas do instrumento 
contratual (DISTRITO FEDERAL, 2021). 
 Ademais, frisou-se que em razão de ajustes pedagógicos para dar continuidade à 
prestação dos serviços, adveio nova legislação que adotou critérios outros, aplicáveis à situação 
ora vivenciada. Destacou-se ainda que a instituição de ensino prestou todos os esclarecimentos 
à parte autora, além do seu calendário escolar, que foi reformulado de acordo com as 
necessidades do ensino à distância, de modo que cabia ao autor aceitar esta nova realidade 
contratual ou pugnar pela rescisão (DISTRITO FEDERAL, 2021). 
 O autor interpôs recurso inominado em face da sentença de improcedência, sustentando 
que deveria ser restabelecido o reequilíbrio das condições contratuais em face das medidas 
sanitárias adotadas e que o teriam prejudicado desproporcionalmente, pugnando pelo desconto 
de 50% nas mensalidades dos seis meses de paralisação ou outro percentual entendido como 
justo por ocasião do julgamento da lide (DISTRITO FEDERAL, 2021). 
 Ao contrário do que foi alegado pelo Recorrente, entendeu a Segunda Turma Recursal 
dos Juizados Especiais do Distrito Federal que ambas as partes sofreram impactos financeiros, 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
38 
 
de modo que não se verificou enriquecimento injusto da escola frente ao suposto desequilíbrio 
contratual. Ainda, destacou-se que a forma e o modo de prestação de serviço educacional foram 
alterados por determinação legal, a saber o Decreto nº 40.509/2020, do Distrito Federal, de sorte 
que a recusa da escola em negociar desconto de mensalidade não caracterizaria ato ilícito, mas 
apenas ato discricionário da empresa, exercício regular de seu direito, razão pela qual não cabe 
ao Poder Judiciário substituir a vontade da parte em questão para renegociar os termos 
contratuais, mantendo-se a sentença de primeiro grau (DISTRITO FEDERAL, 2021). 
 Nos autos do Agravo de Instrumento nº 5017332-51.2020.8.24.0000, a Quarta Câmara 
Civil do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, à unanimidade, manteve decisão de primeiro 
grau que indeferiu o pedido de redução em 30% sobre o valor das mensalidades do curso de 
Direito de uma Universidade do Norte do Estado. A parte autora sustentou que os alunos teriam 
recebido serviços educacionais diversos daqueles contratados originalmente, além de não terem 
acesso à biblioteca, salas deaula e laboratórios, tendo ainda que arcar com a mensalidade de 
forma integral (SANTA CATARINA, 2020). 
 O desembargador Selso de Oliveira ressaltou que a instituição de ensino vinha adotando 
as medidas necessárias para manter as contratações e readequá-las à atual situação de cada 
aluno, tais como abertura de edital para concessão de bolsas, abstenção de cobrança de juros e 
multa em caso de atraso no pagamento, renegociação, parcelamento etc. Acerca das atividades 
que exigem participação presencial, destacou que poderiam ser futuramente repostas, sem 
prejuízo dos alunos e com a isenção de novos custos, com a readequação dos calendários 
acadêmicos (SANTA CATARINA, 2020). 
 No âmbito do Tribunal de Justiça da Paraíba, convém mencionar que nos autos do 
Agravo de Instrumento nº 0800130-28.2020.8.15.9001 o desembargador relator Marcos 
Cavalcanti de Albuquerque indeferiu o pedido de antecipação da tutela recursal requerido pela 
parte agravante, visando a redução imediata do valor da mensalidade enquanto o 
estabelecimento de ensino permanecesse fechado para aulas presenciais na forma contratada, 
alegando significativas mudanças financeiras na contratação. Ainda, aduziu que a instituição 
de ensino teve diminuição de gastos, alteração na modalidade de ensino contratado, bem como 
redução qualitativa e quantitativa dos serviços (PARAÍBA, 2020). 
 O desembargador relator ressaltou que a revisão contratual é possível, desde que sejam 
apresentados motivos concretos que justifiquem o desequilíbrio da relação contratual, ferindo 
a função social do contrato. Assim, em consonância com a Teoria da Imprevisão, um contrato 
pode ser revisto desde que a parte que sofreu uma perda substancial no contrato comprove que 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
39 
 
o contrato se tornou excessivamente oneroso para ela, necessitando ser revisado, conforme os 
artigos 478, 479 e 480 do Código Civil, bem como o artigo 6º do Código de Defesa do 
Consumidor (PARAÍBA, 2020). 
 O pedido de antecipação de tutela recursal foi indeferido, tendo em vista que a parte 
agravante não demonstrou probabilidade jurídica do pedido, pois não acostou prova concreta 
que houve redução substancial dos gastos da instituição, bem como análise técnica de redução 
qualitativa e quantitativa do ensino com o sistema virtual implementado em virtude da 
pandemia de Covid-19. Ademais, os serviços continuam sendo prestados, os professores 
continuam ministrando suas aulas, de modo que a instituição de ensino tem seus gastos 
decorrentes de todas essas atividades, não havendo como alegar a redução. Frisou-se, ainda que 
a Agravante, primeiramente, deveria ter demonstrado mudança em sua própria condição 
financeira, oriunda de um impacto imprevisível decorrente da pandemia e impossibilidade de 
arcar com o valor da mensalidade (PARAÍBA, 2020). 
 Acerca da temática ora analisada, em 28 de dezembro de 2020, o Supremo Tribunal 
Federal julgou inconstitucionais as leis dos Estados do Ceará, Maranhão e Bahia, que 
estabeleceram desconto obrigatório nas mensalidades da rede privada de ensino durante a 
pandemia do novo coronavírus. O Ministro Edson Fachin foi relator da ADI nº 6.423, na qual 
a Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino – Confenen – contestava a Lei 
Estadual nº 17.208/2020, do Ceará; bem como da ADI nº 6.575, cujo objeto de questionamento 
era a Lei Estadual nº 14.279/2020, da Bahia. Já o Ministro Alexandre de Moraes foi o relator 
da ADI nº 6.435, na qual a Confenen questionava a Lei Estadual nº 11.259/2020, do Maranhão 
(BRASIL, 2020). 
 O voto do Ministro Alexandre de Moraes prevaleceu no julgamento das três Ações 
Diretas de Inconstitucionalidade, sustentando que as normas violariam a competência privativa 
da União para legislar sobre Direito Civil. Ademais, esclareceu que, ao estabelecerem redução 
geral dos preços contratualmente fixados para os serviços educacionais, as leis modificaram, de 
forma geral e abstrata, o conteúdo dos negócios jurídicos (BRASIL, 2020). 
 Sendo assim, a competência concorrente dos Estados para legislar sobre direito 
consumerista se restringe a normas sobre a responsabilidade por dano ao consumidor, não se 
confundindo com competência legislativa geral sobre direito do consumidor, que é exercida 
pela União por meio do Código de Defesa do Consumidor (BRASIL, 2020). 
 O Ministro Alexandre de Moraes ainda ressaltou que os efeitos decorrentes da pandemia 
do novo coronavírus sobre os negócios jurídicos privados, até os decorrentes de relações de 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
40 
 
consumo, receberam tratamento através da Lei Federal nº 14.010/2020, que dispôs sobre o 
Regime Jurídico Emergencial e Transitório das relações jurídicas de Direito Privado (RJET) no 
período da pandemia do coronavírus (Covid-19). Nessa esteira, a referida lei acabou 
restringindo o âmbito de competência complementar por parte dos Estados para legislar, além 
de não conter qualquer previsão geral de modificação contratual de prestação de serviços 
educacionais (BRASIL, 2020). 
 Nessa toada, resta evidente que a pandemia impôs inúmeros e severos desafios aos 
setores da sociedade, da saúde, da economia e da educação, impactando de maneira contundente 
a vida da coletividade. Não obstante, as instituições de ensino privadas, frente à esse 
acontecimento imprevisível, foi compelida a realizar diversas alterações e rearranjos 
procedimentos pedagógicos e metodológicos, treinamento de docentes, aperfeiçoamento do 
quadro administrativo, desenvolvimento de ferramentas virtuais, tais como, ambientes virtuais 
de aprendizagem, entre outros, dependendo do dispêndio de recursos financeiros para tanto, 
razão pela qual não há como alegar redução de gastos tão somente pela ausência de aulas e 
atividades presenciais. 
 Portanto, constata-se que a jurisprudência pátria ainda não possui entendimento 
consolidado, mas há a tendência em considerar o ensino à distância como prestação efetiva dos 
serviços educacionais, de modo que não haveria que falar em descumprimento contratual ou 
desequilíbrio que importe na revisão do contrato pactuado, já que a suspensão das aulas 
presenciais se dá por razões alheias à instituição de ensino, devendo ser aplicada a Teoria da 
Imprevisão para ambas as partes. Ademais, cabe a quem pleiteia a redução da mensalidade 
comprovar de forma eficaz a diminuição da capacidade financeira que justifique o seu pleito e 
gere onerosidade excessiva. 
 
4 CONCLUSÃO 
 
 Através da pesquisa realizada, verificou-se que pandemia do novo coronavírus alterou 
de maneira significativa os serviços educacionais tradicionalmente ofertados no âmbito 
privado, firmados através de instrumento contratual. 
 Para tanto, as instituições de ensino necessitaram de readequações nos setores 
pedagógico, administrativo e de tecnologia da informação, gerando, por conseguinte, uma 
modificação dos papeis dos docentes e discentes, com a reformulação da própria transmissão 
de conhecimento, a partir da adoção do ensino à distância ou da modalidade remota, com 
amparo legal. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
41 
 
 Já os alunos foram drasticamente impactados com a suspensão das referidas aulas 
presenciais e implementação de ambientes minimamente adequados para assistirem às aulas 
virtuais, por vezes sofrendo com problemas de conexão da internet ou mesmo pela falta de um 
local próprio ao desempenho de suas atividades acadêmicas, sendo observada, ainda, a redução 
da renda de inúmeras famílias em virtude da pandemia. 
 Nessa esteira, verifica-se o surgimento de um verdadeiro dilema entre os alunos e seus 
responsáveis, e as instituições de ensino. Os primeiros pleiteiam a redução das mensalidades 
contratualmente pactuadas, entendendo que as instituições de ensino tiveram redução de custos 
fixos com a implementação da modalidade virtual, como energia elétrica, água emanutenção, 
aduzindo o desequilíbrio contratual e onerosidade excessiva, devendo ser observada, ainda, a 
condição de consumidor no caso em apreço. Ademais, afirmam que a educação à distância 
acarreta inúmeras dificuldades, que refletem no desempenho dos próprios alunos, ao passo em 
que os docentes não estariam devidamente preparados para essa nova realidade. 
 Por seu turno, as instituições de ensino aduzem ter realizado todas as adequações 
urgentes e necessárias decorrentes da pandemia de Covid-19 e das medidas de isolamento 
social, por intermédio de alterações nos calendários letivos, criação de ambientes virtuais de 
aprendizagem, organização administrativa e pedagógica, visando preservar a qualidade do 
ensino, razão pela qual a redução da mensalidade não se justificaria, uma vez que o 
desequilíbrio contratual não fora verificado. 
 A celeuma foi observada em inúmeros estados brasileiros, a exemplo do Ceará, 
Amazonas, Paraíba, Bahia, Pernambuco, Distrito Federal, Rio Grande do Norte, dentre outros. 
Destarte, resta evidente que ainda não há um entendimento pacificado pelos Tribunais 
Superiores, que têm sustentado a necessidade de análise detida de cada caso concreto, cabendo 
a quem pleiteia a redução de mensalidade comprovar de forma eficaz o impacto na renda 
auferida em decorrência da situação pandêmica, defendendo a aplicação da Teoria da 
Imprevisão para ambas as partes. 
 Assim, o Judiciário tem buscado, até então, a composição e harmonização dos interesses 
que compõem a lide, uma vez que a pandemia é um acontecimento totalmente imprevisível e 
cujos efeitos, a curto e longo prazo, estão longe de serem mensurados. 
 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
42 
 
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SANTOS JUNIOR, Verissimo Barros dos. MONTEIRO, Jean Carlos da Silva. Educação e 
covid-19: as tecnologias digitais mediando a aprendizagem em tempos de pandemia. Revista 
Encantar - Educação, Cultura e Sociedade - Bom Jesus da Lapa, v. 2, p. 01-15, jan./dez. 2020. 
Disponível em: http://www.revistas.uneb.br/index.php/encantar/article/view/8583. 
Acesso em: 23 jun. 2021. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
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CONSUMO E LOGÍSTICA REVERSA: A RESPONSABILIDADE NOS 
PROCESSOS LOGÍSTICOS 
 
Bruno Pinto Coratto1 
 
Resumo: Em uma sociedade em que o consumo é vendido como uma necessidade inerente a 
cada um de nós, a manutenção do modelo de exploração capitalista conduz a humanidade para 
o colapso ambiental. Neste cenário emerge a necessidade de gerenciamento eficiente de matéria 
prima como forma de tentar amenizar os efeitos da produção de resíduos sólidos decorrente da 
fabricação bens em larga escala. A logística reversa, neste contexto, se destaca como um dos 
pontos centrais da discussão inserida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, já que conduz 
ao correto descarte dos materiais após a utilização pelo consumidor, além de funcionar como 
uma ferramenta de preservação ambiental. Este artigo investiga a responsabilidade pelo 
processo de logística reversa, tendo em vista sua complexidade e a atuação de diferentes atores, 
utilizando pesquisa bibliográfica na literatura relacionada ao tema e documental na legislação 
aplicável. Pelas análises realizadas, foi possível concluir que o caso é de responsabilidade 
compartilhada por todos os envolvidos na cadeia de produção e consumo e pelo poder público, 
circunstância que é corroborada pelas disposições constitucionais relacionadas à proteção 
ambiental e da saúde humana, bem assim pela Lei nº 12.305/10. 
 
Palavras-chave: Política Nacional de Resíduos Sólidos; Pós-consumo; Resíduos Urbanos; 
Responsabilidade Compartilhada; Solidariedade Intergeracional. 
 
INTRODUÇÃO 
 
As relações de consumo, mais do que objeto de estudo do Direito do Consumidor, 
representam verdadeira externalização do modo de ser e de existir dos indivíduos dentro da 
sociedade contemporânea (ou “pós-pós-moderna”). O modelo de produção capitalista, baseado 
na exploração e na acumulação infinitas de bens materiais, encontra obstáculo na finitude dos 
recursos ambientais que sustentam este mesmo modelo, criando uma espécie de contradição 
interna – ou um tipo de dilema do capitalismo, um paradoxo. 
Na busca por soluções que atenuem os impactos nocivos da exploração dos recursos 
naturais em larga escala e que possam responder à geração de resíduos decorrente desta 
exploração, surge a possibilidade de reaproveitamento de materiais (ou de partes de produtos, 
como embalagens) para substituir a retirada de matéria prima da natureza na fabricação de 
novos bens, ideia pautada em uma lógica de desenvolvimento sustentável. Neste contexto, a 
logística reversa se revela como instrumento que possibilita o desenvolvimento de políticas 
 
1 Mestre em Ambiente e Desenvolvimento, Especialista em Direito Processual Civil, Advogado inscrito na 
OAB/RS sob o nº 82.192. E-mail: bruno.coratto@universo.univates.br. 
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econômicas e sociais com o escopo de fomentar o adequado gerenciamento de resíduos sólidos 
e de concretizar a proteção constitucional ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e à 
saúde humana. 
 Dessa relação emerge o problema de pesquisa formulado, qual seja de que forma se 
organiza a responsabilidade no âmbito dos processos de logística reversa, tendo em vista se 
tratar de procedimento complexo e com a inclusão de diferentes sujeitos. O objetivo geral é 
descrever como a responsabilidade civil se apresenta na logística reversa de resíduos sólidos. 
Para tanto, identificar-se-á o contexto social em que se inserem os processos de logística 
reversa, bem como serão conceituados os processos logísticos analisados. Como hipótese, 
aventa-se estar diante de caso de responsabilidade compartilhada, uma vez que a gênese da 
logística reversa possui estreita relação com o sistema de proteção ambiental 
constitucionalmente delineado que, por sua vez, traz a solidariedade intergeracional como 
característica marcante. 
 A pesquisa proposta se mostra relevante em um contexto em que não só a preocupação 
com a proteção ambiental é urgente, mas também as relações de consumo se alteram em razão 
de fatos de grande impacto mundial, como a pandemia de COVID-19, que aumentou 
demasiadamente a produção de resíduos sólidos nas residências no mundo inteiro. Como se 
verá, é impossível pensar em proteção ambiental efetiva sem falar em consumo, o que, por seu 
turno, conduz ao estudo das normas aplicáveis às relações consumeristas. O consumo, por sua 
vez, age como um importante fator de produção de resíduos sólidos com potencial de 
contaminação ambiental e de risco à saúde da população, sendo importante debruçar-se sobre 
potenciais soluções para estas questões. 
Para tanto, partir-se-á de uma reflexão acerca da natureza das necessidades humanas 
que movem os sujeitos ao consumo, ponto crucial para o entendimento da produção de resíduos 
sólidos tratada pela logística reversa. Adotando como referencial teórico ideias oriundas da 
sociologia e da filosofia, a parte inicial buscará contextualizar as relações sociais em que as 
ferramentas de logística estão inseridas, a partir do ponto de vista do sujeito. Posteriormente, 
será abordado o conceito de logística reversa com base na legislação brasileira aplicável ao 
gerenciamento de resíduos sólidos, bem assim em doutrina e literatura pertinentes ao tema. 
Com a consolidação do contexto social em que a logística reversa é desenvolvida e uma 
vez fixado o conceito que será trabalhado, serão abordados os aspectos legais relacionados à 
responsabilidade pelos processos logísticos. Esta abordagem, por seu turno, se desenvolverá 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
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tendo como pano de fundo as disposições constitucionais relacionadas ao meio ambiente e à 
saúde humana, áreas que possuem estreita relação com o objeto abordado neste estudo. 
 
1 A NECESSIDADE COMO MERCADORIA 
 
Antes de ingressar no cerne da questão proposta, é necessáriodar um passo atrás em um 
esforço para delinear o contexto social em que as relações expostas ocorrem, a fim de facilitar 
a melhor compreensão do problema analisado. É indiscutível que o modelo capitalista de 
produção de bens/produtos, mundialmente hegemônico, gera impactos ao meio ambiente que 
podem ser irreversíveis, já que a necessidade de produção constante é intrínseca ao próprio 
sistema (KEUCHEYAN, 2019). Mais do que isto, a incessante produção com a finalidade de 
acúmulo ilimitado de capital demanda, invariavelmente, um aporte igualmente incessante de 
consumo – tanto é assim que a produção excedente está historicamente relacionada ao 
surgimento do capitalismo. 
 É nesse contexto que o consumo ganha lugar de destaque: para Bauman (2008, p. 41), 
quando o consumo passa a ser a “principal força propulsora e operativa da sociedade” e a 
coordenar “a integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos, 
desempenhando ao mesmo tempo um papel importante nos processos de autoidentificação 
individual e de grupo” se está diante do fenômeno do consumismo. Vale dizer que neste cenário 
em que o consumo funciona como parte estruturante da própria sociedade, ele adquire quase 
uma espécie de vontade própria com relação às necessidades que serão atendidas. E continua o 
sociólogo: 
 
De maneira distinta do consumo, que é basicamente uma característica e uma 
ocupação dos seres humanos como indivíduos, o consumismo é um atributo da 
sociedade. Para que uma sociedade adquira esse atributo, a capacidade profundamente 
individual de querer, desejar e almejar deve ser, tal como a capacidade de trabalho na 
sociedade de produtores, destacada (‘alienada’) dos indivíduos e reciclada/reificada 
numa força externa que coloca a ‘sociedade de consumidores’ em movimento e a 
mantém em curso como uma forma específica de convívio humano, enquanto ao 
mesmo tempo estabelece parâmetros específicos para as estratégias individuais de 
vida que são eficazes e manipula as probabilidades de escolha e conduta individuais 
(BAUMAN, 2008, p. 41) 
 
Dentro da lógica de produção e acumulação capitalista, o consumo age como 
engrenagem que mantém o sistema funcionando com força total. A produção excedente deve 
ser consumida pela sociedade para que mais bens sejam produzidos; esta produção, por sua vez, 
aumenta exponencialmente, gerando uma estrutura que se retroalimenta e que tende ao colapso, 
já que toda esta dinâmica se desenvolve em condições materiais limitadas. O consumo, 
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portanto, encontra razão de ser na necessidade dos seres humanos enquanto indivíduos. A ideia 
de necessidades básicas – saúde, alimentação, moradia etc. – possui estreita relação com o 
conceito de mínimo existencial, ou seja, com o que se considera que sejam as condições básicas 
para que um ser humano possa ver concretizada sua dignidade fundamental2. 
O ponto do qual o capitalismo se apropria através do consumismo são as necessidades 
que vão além daquilo que é básico, as chamadas necessidades artificiais (les besoins artificiels), 
criadas justamente para dar vasão à massiva produção do sistema. Nesta lógica, uma rede de 
ferramentas muito bem engendradas - como a publicidade e a obsolescência programada - 
incute no sujeito, já submerso na sociedade de consumo, necessidades artificiais das quais nem 
sempre ele está totalmente consciente (KEUCHEYAN, 2019). Naturalmente, a aquisição de 
bens depende da promessa de satisfação dos desejos do sujeito consumidor; quer dizer, uma 
mercadoria só se torna atraente se dela puder ser extraído o atendimento de uma necessidade 
(BAUMAN, 2008), muitas vezes artificial. 
No caminho das necessidades inventadas, a banalização do que é de fato necessário 
transforma a própria insatisfação dos sujeitos em mercadoria que a todo momento nos é 
ofertada. Na sociedade de consumo, o ápice da satisfação do sujeito é alcançado no exato 
momento em que ele está consumindo, nem antes, nem depois: é o consumo que faz desaparecer 
qualquer barreira socioeconômica entre os sujeitos; no instante em que o consumo se concretiza 
não existem diferenças entre ricos e pobres. A constante sensação de insatisfação, nesta 
perspectiva, é um trampolim para o consumo (DEBORD, 1997), algo fomentado pelo sistema 
através das necessidades artificiais. 
A dinâmica descrita é mais fácil de ser entendida a partir de um exemplo simples: uma 
grande multinacional do ramo de tecnologia lança seu smartphone uma vez por ano, sempre na 
mesma época. A aquisição do bem no exato momento de seu lançamento representa a satisfação 
máxima do sujeito, já que concretiza o consumo e possibilita ao consumidor se destacar ao 
ostentar um signo que o tornará diferente daqueles que não podem consumir como ele (a 
logomarca da empresa estampada no smartphone). No entanto, na sociedade de consumo, no 
ano seguinte o bem adquirido por este sujeito já não carregará os mesmos atributos de quando 
foi lançado; lhe faltará a novidade, a característica que torna seu portador distinto dentre os 
demais consumidores. 
 
2 Evidentemente, a criação de condições mínimas de existência digna do ser humano não deve ser adotada como 
padrão para a atuação estatal, que deve buscar sempre a máxima densificação dos direitos fundamentais elencados 
pela Constituição Federal, concretizando, em sua máxima extensão, os direitos e garantias constitucionais. 
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Em termos de tecnologia, um ano é pouco tempo para que um aparelho eletrônico perca 
sua utilidade, de modo que se presume que o smartphone conserve suas características e seu 
desempenho originais. Apesar disto, o sujeito da sociedade consumista entenderá que existe a 
necessidade de ter sempre o melhor e mais moderno telefone, fabricado pela empresa que cobra 
mais caro por seus produtos, porque somente assim ele alcançará lugar de destaque em seu 
contexto social. Esta necessidade – que é artificial, já que no exemplo o bem não necessita ser 
trocado apenas um ano após o lançamento – é incutida na mente dos sujeitos através de diversos 
mecanismos, como a publicidade, que vende a promessa de que ter determinado bem fará com 
que se alcance algum tipo de sucesso – quase como um “hiperfetichismo” da mercadoria. O 
produto “antigo”, rejeitado pelo sujeito em razão da aquisição de seu novo bem, retornará à 
cadeia de produção e consumo de alguma forma ou, então, será descartado pelo seu antigo 
proprietário. 
O descarte inadequado de resíduos sólidos possui um grande potencial lesivo ao meio 
ambiente e à saúde da população em geral, representando um problema a ser enfrentado pelo 
Estado e um risco à coletividade. É a partir desta dinâmica de consumo constante e de aumento 
da geração de resíduos sólidos urbanos, aliada ao descarte inadequado de materiais, que surge 
a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010 e que elenca 
expressamente em seu art. 3º, IX o consumo como atividade geradora de resíduos sólidos. Neste 
contexto, a logística reversa é um dos instrumentos previstos pela PNRS na concretização do 
gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos. 
 
2 O CONCEITO DE LOGÍSTICA REVERSA 
 
As disposições relacionadas à logística reversa estão inseridas em um contexto maior 
que se ocupa do gerenciamento integrado de resíduos sólidos. Um dos grandes objetivos da 
PNRS é possibilitar “gestão integrada e o gerenciamento ambientalmente adequado dos 
resíduos sólidos” (BRASIL, 2010), sendo a logística reversa um dos instrumentos mais 
importantes previstos para a concretização desta gestão. 
A PNRS, por sua vez, faz parte de um conjunto amplo de políticas públicas ambientais, 
tais como a Política Nacional do Meio Ambiente, a Política Nacional de Educação Ambiental 
e a PolíticaFederal de Saneamento Básico (art. 5º, Lei nº 12.305/2010). Nesta perspectiva, não 
se pretende esgotar todas as previsões da Lei nº 12.305/2010, que cria um sistema amplo e 
complexo de princípios, objetivos e instrumentos de gerenciamento ambiental e 
desenvolvimento sustentável, mas tão somente investigar as disposições pertinentes à 
responsabilidade pelos processos de logística reversa. 
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50 
 
A logística reversa tem como ponto de partida o último sujeito da cadeia de produção e 
consumo: o consumidor. É possível alegar, portanto, que o caminho percorrido pela logística 
reversa é o inverso daquele da logística convencional de produção e distribuição de bens para 
consumo, já que seu objetivo é a restituição de resíduos ao setor produtivo – indústria ou 
comércio. O conceito integrado à legislação está descrito na norma do art. 3º, inciso XII da 
PNRS, que caracteriza a logística reversa como: 
 
[...] instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um 
conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a 
restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu 
ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente 
adequada. (BRASIL, 2010) 
 
 Da leitura da norma supracitada verifica-se que o conceito de logística reversa é 
complexo, pois se desdobra em outras caracterizações, como a de “destinação ambientalmente 
adequada”, circunstância que também é tratada pela PNRS em seu art. 3º, inciso VII. Além 
disto, é importante se atentar para a condição de instrumento de desenvolvimento econômico e 
social que a logística reversa possui, bem assim para os objetivos que devem ser alcançados 
através das ações adotadas. 
O conceito de “destinação final ambientalmente adequada”, por seu turno, abarca uma 
série de procedimentos possíveis de serem adotados, dentre os quais estão a reciclagem de 
materiais e sua reutilização, a compostagem, a recuperação de produtos e seu aproveitamento 
energético. O rol trazido pelo inciso VII do art. 3º da PNRS não é taxativo e possibilita a adoção 
de outras ações, desde que haja autorização do órgão competente. 
Além disso, é de se destacar o conceito de “disposição final ambientalmente adequada” 
(art. 3º, inciso VIII da PNRS), que diz respeito aos casos de distribuição dos rejeitos em aterros 
sanitários de forma segura. De toda sorte, em ambos os casos deve-se agir para evitar o risco 
da ocorrência de dano à saúde pública e à segurança, com vista a minimizar eventuais impactos 
ambientais decorrentes dos processos adotados. A necessidade de redução de riscos ambientais 
fica evidente na disposição do art. 33 da Lei nº 12.305/2010, que prevê a implementação 
compulsória de logística reversa para (i) agrotóxicos; (ii) pilhas e baterias; (iii) pneus; (iv) óleos 
lubrificantes; (v) lâmpadas fluorescentes; e (vi) eletroeletrônicos, em razão de seu altíssimo 
potencial de contaminação ambiental e de agravos à saúde da população em caso de descarte 
inadequado. 
A viabilização do recolhimento e da devolução de resíduos sólidos à indústria é apenas 
um dos objetivos dos processos de logística reversa, conceito que não se esgota neste ponto. É 
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51 
 
necessário que as ações logísticas possibilitem o desenvolvimento econômico e social de 
determinados setores e regiões, já que o desenvolvimento sustentável é um dos princípios 
elencados pela PNRS. Estes processos logísticos, ao mesmo tempo em que contribuem para o 
desenvolvimento econômico e social, devem possibilitar o retorno do produto à cadeia de 
produção ou a destinação ambientalmente adequada do resíduo – evitando a ocorrência de 
danos ou riscos ao meio ambiente e à saúde pública. Ou seja, em última análise, os processos 
logísticos evitam a produção de lixo desnecessariamente, viabilizando o reingresso de materiais 
na cadeia de produção como forma de desenvolvimento econômico e social e, em caso de 
impossibilidade deste retorno, garantem o descarte seguro de rejeitos. Neste mesmo sentido, é 
a explicação de Viviane Kelly Silva Sá: 
 
Ao se falar, pois, em LR, não basta que seja evitado apenas o retorno do produto 
utilizado ao Meio Ambiente. O que, na verdade, se pretende com o sistema é que o 
material passível de reaproveitamento seja recolhido pelo mercado fornecedor e 
reinserido no ciclo de negócios ou ciclo produtivo. (SÁ, 2021, p. 47) 
 
 Portanto, assim como os processos de logística que possibilitam a distribuição de bens 
para consumo, a logística reversa se materializa através de processos complexos com a 
participação de diferentes atores, o que pode tornar nebulosa a definição da responsabilidade 
por cada uma das etapas dos procedimentos adotados. A logística reversa é um instrumento que 
não se encerra na mera viabilização do recolhimento e da devolução de resíduos sólidos à 
indústria produtora, de modo que a responsabilidade dos sujeitos envolvidos nos processos 
logísticos vai além do simples transporte de resíduos, uma vez que estes procedimentos devem 
contribuir para o desenvolvimento econômico e social, de forma sustentável e com o mínimo 
de riscos e de danos ao meio ambiente e à saúde da população. 
 
3 A RESPONSABILIDADE NA LOGÍSTICA REVERSA 
 
Viu-se que a Lei nº 12.305/10 disciplina o gerenciamento de resíduos urbanos no país 
através da previsão de diretrizes, objetivos e instrumentos a serem implementados na 
materialização de seu propósito. A ratio legis da PNRS vem da matriz constitucional de 
proteção aos direitos fundamentais à saúde humana e ao meio ambiente – notadamente dos 
artigos 196 e 225 da Carta da República -, tendo em vista que se está diante de norma que 
impacta diretamente questões de saúde pública e de proteção ambiental. Este fato, por si só, já 
confere uma ideia de como se organiza a responsabilidade nos processos de logística reversa, 
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que são instrumentos de concretização da PNRS, no entanto existem disposições específicas na 
legislação que corroboram este ponto. 
 É cediço que dentro do sistema normativo brasileiro a Constituição Federal ocupa lugar 
de superioridade hierárquica, de modo que o respeito às disposições constitucionais, em última 
análise, garante a manutenção da “superlegalidade” (BONAVIDES, 2004) da norma 
constitucional que fundamenta o Estado e, portanto, sua qualidade de norma máxima. Daí 
porque normas infraconstitucionais são estruturadas de acordo com as disposições 
constitucionais sobre os temas dos quais tratam, podendo repetir alguns dispositivos da 
Constituição Federal ou apenas estar em conformidade com a norma superior. No caso da PNRS 
é possível identificar duas bases constitucionais distintas para sua estruturação: as disposições 
sobre a saúde da população e sobre a proteção ambiental. 
 A Constituição Federal de 1988, em seu art. 196, dispõe que a saúde é um direito 
universal, incumbindo ao Estado a responsabilidade por sua proteção, promoção e recuperação 
através de políticas públicas com escopo de reduzir os riscos de doenças e outros agravos, 
possibilitando também à iniciativa privada a exploração econômica da assistência à saúde (art. 
199, CF/88). A ideia de redução de riscos remete aos princípios da precaução e da prevenção 
relacionados às ações de saúde e aparece em diversos pontos da PNRS – como ocorre 
expressamente no art. 6º, inciso I. A relação entre resíduos sólidos urbanos e agravos à saúde 
pública é bastante evidente, já que o descarte inadequado de materiais possui potencial de 
contaminação do solo, da água e do ar e pode, de forma objetiva, causar danos à saúde da 
população. 
 Da mesma forma, as disposições constitucionais de proteção ambiental ficam evidentes 
ao longo da PNRS. Inicialmente porque todas as relações aqui abordadas– sejam elas de 
consumo, de logística, de desenvolvimento social, de descarte de resíduos etc. – se desenvolvem 
dentro de um ambiente – natural, artificial, do trabalho etc. É impossível dissociar a atividade 
humana do ambiente na qual ela se desenvolve e onde o sujeito está inserido. Neste contexto, o 
art. 225 da Carta da República eleva o acesso integral ao meio ambiente ecologicamente 
equilibrado ao patamar de bem jurídico constitucional – o bem ambiental -, repetindo a ideia de 
universalidade do direito – como ocorre com a saúde –, mas indo além no que tange à 
responsabilidade por sua proteção e preservação. Isto porque a norma constitucional é expressa 
ao impor não só ao Poder Público, mas também à coletividade – sociedade civil, por exemplo -
, o dever de preservação ambiental. Tem-se, assim, a vinculação da ideia do bem ambiental – 
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e, portanto, à preservação ambiental - àquilo que é considerado essencial à sadia qualidade de 
vida e de uso comum da população (FIORILLO; FERREIRA, 2009). 
Significa dizer que além de agir de modo a preservar o meio ambiente ecologicamente 
equilibrado, é dever de toda a coletividade defender o bem ambiental para que as futuras 
gerações tenham assegurado o direito ao acesso integral à natureza em toda sua extensão, 
determinação que consagra o princípio da solidariedade3 – no sentido de responsabilidade 
compartilhada, universal -, tanto na titularidade da prerrogativa ao acesso integral ao meio 
ambiente equilibrado como no dever de proteção e de preservação ambiental. Fala-se, assim, 
em responsabilidade intergeracional pela proteção do meio ambiente ecologicamente 
equilibrado, conceito que se relaciona de forma muito estreita ao desenvolvimento sustentável 
presente na PNRS. 
 A partir da matriz constitucional relatada, é possível perceber que a logística reversa, 
enquanto instrumento de densificação da proteção constitucional ao meio ambiente e à saúde 
humana, atrai para si uma responsabilidade ampla e compartilhada. Esta hipótese é corroborada 
pela análise das disposições da Lei nº 12.305/10, já que sujeita à PNRS as pessoas físicas e 
jurídicas, de direito público e privado, desde que sejam responsáveis direta ou indiretamente 
pela geração de resíduos sólidos ou, ainda, que desenvolvam ações de gestão integrada ou de 
gerenciamento de resíduos. A abrangência da lei, trazida em seu art. 1º, §1º, é dilatada pela 
disposição constante no art. 3º, inciso IX, que elenca o consumo de bens como atividade 
geradora de resíduos sólidos. Nesta perspectiva, é importante que se fixe a premissa de que o 
consumidor pessoa física (ou o consumidor final de produtos) também está sujeito às 
disposições da legislação de regência, podendo ser, desta forma, elencado como responsável 
solidário pelos processos de logística abordados. 
 De igual modo, ao discorrer sobre os objetivos gerais da PNRS, a Lei nº 12.305/10, em 
seu art. 4º, refere se tratar de uma política pública composta por uma série de objetivos, metas 
e instrumentos que devem ser adotados pelo Governo Federal de forma isolada ou em conjunto 
com os demais entes federativos ou, ainda, com particulares, mas sempre buscando alcançar a 
gestão integrada e o gerenciamento adequado de resíduos sólidos. Fica cada vez mais claro que 
a responsabilidade pelo alcance dos objetivos elencados pela PNRS – e pelos processos de 
logística reversa -, é compartilhada, tendo em vista a possibilidade de realização de ações 
 
3 Não ser solidário com o outro e com o meio ambiente levou o ser humano a negar-se como parte do problema e 
a entender suas interações com a natureza como algo que pode ser dissociado das grandes questões enfrentadas, o 
que está absolutamente equivocado. 
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conjuntas entre o Poder Público e a sociedade civil, dispositivo diretamente relacionado com a 
solidariedade trazida pelo art. 225 da Constituição Federal. 
Esta forma de organização da responsabilidade pela logística reversa é reforçada pelos 
princípios elencados nos art. 6º da Lei nº 12.305/10, especialmente aqueles dos incisos VI e 
VII, quais sejam “a cooperação entre as diferentes esferas do poder público, o setor empresarial 
e demais segmentos da sociedade” e “a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos 
produtos” (BRASIL, 2010), respectivamente. Novamente a legislação retoma o princípio 
ambiental da solidariedade para fundamentar o permissivo legal da ação conjunta entre o poder 
público e a sociedade civil a fim de alcançar os objetivos da PNRS. 
Esse tipo de responsabilidade se materializa através da realização dos processos 
logísticos: no caso da logística reversa de garrafas plásticas, por exemplo, tão importante quanto 
a disposição de locais adequados para a coleta dos materiais após sua utilização (indústria e 
comércio, com ou sem a participação do poder público) é a conscientização do consumidor final 
sobre o descarte adequado do produto. Esta conscientização, por seu turno, pode vir de ações 
informativas oriundas de políticas públicas de educação ambiental com foco na logística reversa 
(novamente há a participação do Estado nos processos), ou mesmo da troca de garrafas plásticas 
usadas por desconto na aquisição de novos produtos (participação ativa da indústria e do 
comércio). Nesta situação é possível visualizar que todos os integrantes dos processos de 
produção e consumo – pessoas físicas e jurídicas de direito público ou privado - têm sua parcela 
de responsabilidade para que o objetivo seja alcançado. 
 Outro exemplo de logística reversa aplicada no Brasil se relaciona com as embalagens 
de produtos agrotóxicos. Estabelecida pela Lei nº 9.974/00, a norma aplicável a estes produtos 
determina que é do usuário de agrotóxicos o dever de efetuar a devolução das embalagens 
vazias aos estabelecimentos comerciais no prazo de até um ano após sua aquisição, salvo 
exceções devidamente autorizadas. Após a devolução pelo consumidor final, é da empresa que 
produz, comercializa ou importa o agrotóxico a responsabilidade por dar a destinação final 
ambientalmente adequada, a fim de proporcionar a reutilização, reciclagem ou sua inutilização. 
Nesta dinâmica, cabe ao poder público exercer a fiscalização do cumprimento das etapas, 
realizar o licenciamento dos locais de recebimento de embalagens e atuar de forma a 
conscientizar os consumidores destes produtos acerca da importância do descarte adequado 
destes materiais. 
 A logística reversa de embalagens de agrotóxicos é realizada no país através do chamado 
Sistema Campo Limpo, que é operacionalizado pelo Instituto Nacional de Processamento de 
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Embalagens Vazias – inpEV. De acordo com dados do inpEV, em 2019 o programa de logística 
reversa recebeu cerca de 45,6 mil toneladas de material, deste total, 94% foram destinados para 
a reciclagem (destinação final ambientalmente adequadas) e 6% para a incineração (disposição 
final ambientalmente adequada) (INPEV, 2020). Estas informações demonstram o impacto 
potencial que os processos de logística reversa possuem sobre questões de política ambiental e 
de proteção à saúde da população, pois, neste exemplo específico, se está diante de resíduo 
sólido altamente contaminante e extremamente prejudicial. 
É interessante observar que o consumidor final adquire grande relevância nessa 
dinâmica, pois representa o ponto de partida da logística reversa, que depende do descarte 
correto dos resíduos sólidos em primeiro lugar. Evidentemente, todos os integrantes desta 
cadeia logística possuem sua importância, já que as ações a serem tomadas dependem de um 
esforço conjunto dos envolvidos. No entanto, em geral, as políticas públicas são criadas a partir 
de estruturas verticalizadas, ou seja,de prestações direcionadas do poder público – algumas 
vezes em conjunto com particulares - a determinados grupos sociais; na logística reversa o que 
se verifica é uma estrutura mais horizontal com relação à organização do sistema, que deriva 
da conduta integrada daqueles englobados na cadeia de produção e de consumo de bens. 
Assim, é possível concluir que a responsabilidade pelos processos de logística reversa é 
ampla e compartilhada, sendo imputável à indústria produtora, aos integrantes da cadeia de 
comercialização dos produtos – inclusive ao importador em substituição ao fabricante 
internacional -, ao consumidor final e ao poder público de forma solidária. Nesta perspectiva, é 
de extrema importância que todos os envolvidos na cadeia de produção e consumo de 
bens/produtos estejam engajados nos processos de logística reversa, cumprindo os papeis 
designados a cada um deles, a fim de possibilitar a efetividade das ações realizadas e a 
concretização dos objetivos inicialmente estabelecidos, tanto para os processos de logística 
reversa, como para a PNRS de forma integrada. 
 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
O objetivo geral deste artigo foi analisar a forma como a responsabilidade se apresenta 
na logística reversa, tendo em vista se tratar de um processo complexo, do qual participam 
diferentes sujeitos e que está inserido em um contexto mais amplo de políticas ambientais. A 
pesquisa se mostrou relevante do ponto de vista acadêmico, dada a necessidade de investigação 
do tema proposto em razão de sua pouca discussão e da ausência de implementação efetiva dos 
processos de logística reversa de forma mais ostensiva. Metodologicamente, os procedimentos 
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56 
 
adotados – pesquisa bibliográfica e documental – se mostraram suficientes para se chegar ao 
resultado pretendido, especialmente porque o que se propôs inicialmente foi uma abordagem 
teórica sobre o tema. 
 Inicialmente, investigou-se o contexto social em que as relações de consumo se 
desenvolvem, considerando que estas relações caracterizam atividades geradoras de resíduos 
sólidos e, portanto, estão sujeitas à PNRS. Viu-se que a sociedade consumista, como produto 
capitalista, impulsiona o consumo dos indivíduos através de uma série de instrumentos que 
incutem necessidades artificiais nos sujeitos. Estes processos são infinitos, já que se constroem 
sobre a lógica capitalista de acumulação sem fim de riquezas, elevando seu potencial de geração 
de resíduos, de contaminação ambiental e de riscos à saúde da população em caso de descarte 
inadequado. 
 A partir daí, foi analisado o conceito de logística reversa em um esforço para delimitar 
as ações que fazem parte dos processos logísticos investigados. Foi possível constatar que a 
viabilização do retorno de materiais à indústria e ao comércio é apenas um dos objetivos da 
logística reversa, que deve cumprir uma série de outras funções relacionadas ao 
desenvolvimento econômico e social do local onde se desenvolve. Além disto, a coleta e 
devolução de resíduos sólidos à indústria e ao comércio tem como escopo possibilitar seu 
reaproveitamento na cadeia produtiva ou, não sendo possível, uma destinação ambientalmente 
adequada aos resíduos, sem que haja riscos ambientais ou à saúde da população. 
 Uma vez estabelecidas a dinâmica social em que a geração de resíduos sólidos se 
desenvolve e a caracterização da logística reversa, partiu-se para a investigação da 
responsabilidade pelos processos logísticos. A análise da Lei nº 12.305/10 demonstrou a 
presença de matriz constitucional na construção da PNRS, especialmente no que trata sobre a 
proteção ambiental e sobre a saúde da população. Esta constatação se mostrou relevante do 
ponto de vista do que se propôs neste estudo porque a responsabilidade pela proteção ambiental 
é marca distintiva das disposições constitucionais sobre o tema. Desta forma, a hipótese 
inicialmente aventada se mostrou verdadeira, uma vez que se está diante de caso de 
responsabilidade compartilhada entre todos os envolvidos na cadeia de produção e de consumo 
de bens, assim como da responsabilidade solidária do poder público, conclusão que se origina 
não apenas da análise do texto constitucional, mas também da própria norma infraconstitucional 
analisada. 
 Naturalmente, este estudo possui algumas limitações, sendo importante que se prossiga 
na análise da responsabilidade pelos processos de logística reversa a fim de avançar no tema e 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
57 
 
de verificar como as ações são delineadas na prática, o que possibilitará o exame da matéria 
para além da abordagem teórica. Ademais, uma vez identificadas eventuais dificuldades na 
implementação destes procedimentos, é importante que sejam apontados caminhos para 
solucionar estas questões, com o intuito de alcançar os objetivos traçados na PNRS, 
densificando a proteção ambiental e de saúde pública por meio do gerenciamento integrado de 
resíduos sólidos e da otimização da logística reversa. 
 
REFERÊNCIAS 
 
BAUMAN, Zygmunt. Vida Para Consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. 
Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. 
 
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 15 ed. São Paulo: Malheiros, 2004 
 
BRASIL. Constituição da República Federativa Brasileira de 1988. Brasília, DF: Presidência 
da República, 1988. 
 
BRASIL. Lei nº 9.974 de 6 de junho de 2000. Altera a Lei no 7.802, de 11 de julho de 1989 
[...]. Brasília, DF. Presidência da República, 2000. 
 
BRASIL. Lei nº 12.305 de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos 
[...]. Brasília, DF. Presidência da República, 2010. 
 
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. 
Tradução: Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. 
 
FIORILLO, Celso Antônio Pacheco; FERREIRA, Renata Marques. Direito Ambiental 
Tributário. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. 
 
INSTITUTO NACIONAL DE PROCESSAMENTO DE EMBALAGENS VAZIAS (INPEV). 
Sistema Campo Limpo em Números. 2020. Disponível em <https://inpev.org.br/sistema-campo-
limpo/em-numeros/>. Acesso em 10 jun. 2020. 
 
KEUCHEYAN, Razmig. Les Besoins Artificiels: comment sortir du consumérisme. Paris: 
Zones, 2019. 
 
SÁ, Viviane Kelly Silva. A (in)efetividade do sistema de logística reversa no Brasil. Belo 
Horizonte: Dialética, 2021. E-book Kindle. 
 
 
 
https://inpev.org.br/sistema-campo-limpo/em-numeros/
https://inpev.org.br/sistema-campo-limpo/em-numeros/
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
58 
 
O DIREITO DO CONSUMIDOR: UM OLHAR SOB A PSICOLOGIA E O 
SUPERENDIVIDAMENTO ANTE A VULNERABILIDADE DO 
CONSUMIDOR NAS RELAÇÕES DE CONSUMO 
 
Camila Possan de Oliveira1 
Susandra Dorneles2 
Luiz Guedes Soriano3 
 
Resumo: Objetiva-se com o presente artigo, analisar-se os direitos do consumidor em tempos 
de Covid-19. Para tanto, serão analisados os desafios e perspectivas do consumidor ante a sua 
vulnerabilidade, assim como considerações acerca do seu superendividamento. E, finalmente, 
abordar-se-á o contexto do consumo como parâmetro de sucesso, bem como demonstrar-se-á a 
visão da psicologia do sentido da vida sobre o consumismo. 
Palavras-chave: Direito do Consumidor. Superendividamento. Direito e Psicologia. 
Pandemia. Covid-19. 
 
INTRODUÇÃO 
 
O presente artigo, em um primeiro momento, tem como escopo analisar os direitos do 
consumidor em tempos de Covid-19, sob uma perspectiva “presente e futuro”, tendo em vista 
que o relacionamento entre as pessoas físicas e jurídicas mudaram consideravelmente (levando 
em consideração – especialmente – a proteção do consumidor enquanto pessoa física). Assim, 
analisar-se-ão os desafios e as perspectivas ante a vulnerabilidade dos consumidores. 
O consumidor em tempos de pandemia enfrenta inúmeros problemas: desde serviçosque já haviam sido contratados e foram interrompidos a abuso de preço de itens de consumo. 
Contudo o fator mais preocupante é, sem dúvidas, com relação à saúde mental dos 
consumidores, eis que experimentam prejuízos muitas vezes nefastos, sobretudo porque são 
vulneráveis e, se não forem protegidos pelo Estado, ficarão à mercê tanto de problemas 
financeiros quanto patológicos. 
Em um segundo momento, a preocupação será com o superendividamento dos 
consumidores em tempos de Covid-19, visto que muitos, até mesmo antes já estavam 
superendividados, ou seja, o vírus tão somente agravou ainda mais um cenário que já antes se 
 
1 Advogada (OAB/RS 102.333). Mestre em Direito do Consumidor e da Concorrência pela UFRGS, especialista 
em Direito Bancário, Direito do Consumidor e Direito Processual Civil. E-mail: camila.possan@gmail.com 
2 Advogada (OAB/RS nº 117.926). Pós-graduanda LLM em LGPD & GDPR na FMP. Especialista em Direito do 
Consumidor pela Verbo Jurídico. MBA em Licitações e Contratos Administrativos e MBA em Administração 
Pública Municipal pela Unipública. Graduada em Direito pela PUCRS. E-mail: susandradorneles@hotmail.com 
3 Psicólogo (CRP 07/30195). Mestrando em Psicologia e Saúde na UFCSPA. Especialista em Psicologia 
Humanista Fenomenológica Existencial e em Logoterapia e Análise Existencial. Graduado em Psicologia pela 
UniRitter. E-mail:psicoluizguedes@gmail.com 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
59 
 
mostrava preocupante. Para tanto, serão analisadas propostas normativas que visam resguardar 
o consumidor durante a pandemia. E, nesse sentido, impende destacar que estão sendo tomadas 
providências legislativas que refletem direta ou indiretamente no cuidado com o 
superendividamento do consumidor, o que se mostra de suma importância, principalmente para 
o atual momento. 
E, por fim, a abordagem psicológica se faz necessária, sobretudo porque houve um 
aumento expressivo nos índices de crises e transtornos de ansiedade no Brasil em decorrência 
do isolamento social. Este aumento é resultado – em sua maior parte – das compras realizadas 
por meio do comércio eletrônico, visto que facilitam e instigam à compra pelo impulso, levando 
o consumidor a experimentar sentimentos momentâneos de saciedade e que logo são 
substituídos pela culpa de uma compra, muitas vezes, desnecessária, a qual pode acarretar um 
superendividamento. 
 
OS DIREITOS DO CONSUMIDOR E O COVID-19: DESAFIOS E PERSPECTIVAS 
ANTE A VULNERABILIDADE DOS CONSUMIDORES 
 
Os direitos dos consumidores estão expressamente previstos no Código de Defesa do 
Consumidor, desde o seu advento em 11 de setembro de 1990. Além disso, o consumidor tem 
um direito fundamental de proteção pelo Estado, eis que a Constituição Federal estabeleceu que 
este deve proteger àquele na forma da lei, como se pode atestar pela regra estabelecida no artigo 
5º, XXXII, da CF4. 
Em março de 2020, quando o Covid-19 de fato assustou a população brasileira, houve 
um aumento abusivo nos preços de produtos de higiene, especialmente o álcool em gel, água 
sanitária, máscaras cirúrgicas e luvas o que acarretou a falta de tais itens em muitas prateleiras 
de supermercados e farmácias, eis que a demanda aumentou significativamente (SOGLIO, 
2020). Contudo, sabe-se que, de acordo com o CDC tal prática é tida como abusiva e 
expressamente vedada, consoante disposto no artigo 39, X5. 
Diante desse cenário, a relação entre as pessoas físicas e jurídicas modificou-se 
consideravelmente, à medida que até aqueles consumidores que eram relutantes ao comércio 
eletrônico tiveram de lançar mão do mesmo para satisfazer as suas necessidades e os 
fornecedores que somente dispunham de loja física tiveram de se “reinventar”, fazendo uso dos 
 
4 XXXII –“ o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor; ” (BRASIL, 1988). 
5 Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: [...] X - elevar sem justa 
causa o preço de produtos ou serviços. (BRASIL, 1990) 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
60 
 
meios eletrônicos para ao menos tentarem fornecer os seus produtos e, assim, não acabarem 
tendo de fechar as portas de seus estabelecimentos. 
Nesse “universo novo”, surgem os desafios para ambos os lados da relação de consumo, 
de onde deve ser observado sobretudo, os direitos do consumidor, já que este indivíduo é 
sempre o elo mais fraco das relações. A boa-fé contratual e os seus deveres anexos estarão 
sendo respeitados? O dever de informação, especialmente? Quem deve proteger os 
consumidores? 
Afinal, sabe-se que por meio do comércio eletrônico, como é a publicidade quem vai 
até a casa dos consumidores, a aceitação é realizada com apenas um clique (LORENZETTI, 
2010). Portanto, depreende-se que a violação aos direitos básicos do consumidor pode-se tornar 
bastante frequente, como no caso da presença de publicidade enganosa, das cláusulas abusivas, 
bem como da falta de transparência e boa-fé (BAGGIO, 2015). 
Destarte, se antes da pandemia do Covid-19, o consumidor já era posto em risco no 
comércio eletrônico, imagine-se agora em um cenário no qual até os que não estavam 
habituados ao seu uso tiveram de se adequar. Pode-se dizer que há uma “insegurança 
endêmica”, pois se até os fornecedores habituais já colocavam no mercado eletrônico, muitas 
vezes, produtos e serviços sem certa cautela ou mesmo análise criteriosa acerca dos riscos, o 
que esperar dos que tiveram de se adequar praticamente de supetão à nova realidade? 
Logo, a preocupação se faz necessária sobretudo ante a vulnerabilidade do consumidor, 
que aliás, acrescente-se que se pode dar sob quatro aspectos: técnica (onde o consumidor não 
tem conhecimentos técnicos suficientes acerca do produto ou dos serviços que está adquirindo); 
jurídica (o consumidor tem pouco conhecimento jurídico, econômico, contábil acerca da pessoa 
jurídica); fática ou econômica (há desigualdade no quesito recursos financeiros, onde 
geralmente o fornecedor detém o monopólio) e; informacional (onde o consumidor não dispõe 
de informação ou a tem de maneira incompleta, incompreensível) (MARQUES; MIRAGEM, 
2014). Em breve síntese: 
 
A vulnerabilidade do consumidor é reconhecida pelo CDC em seu art. 4º, I, pois se 
entende que este está exposto às técnicas agressivas de publicidade, podendo vir a ser 
induzido a contratar algo que sequer necessita, sem ter a oportunidade de discutir as 
condições do negócio. São comuns as situações em que o consumidor não detém 
informações suficientes sobre o produto ou serviço, e que, quando contrata algo que 
realmente precisa, deve submeter-se às regras impostas pelos fornecedores (BAGGIO, 
2015, p. 280). 
 
Diante deste cenário, é importante ressalvar que incumbe ao Estado a defesa e a proteção 
dos interesses econômicos do consumidor, a fim de que este não sofra prejuízo e/ou seja passado 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
61 
 
para trás. Assim, ainda que alguns fornecedores não estejam preparados para o atual cenário, 
pode-se esperar que, se os consumidores estiverem bem orientados, a tendência é de que sejam 
menos lesados nos seus direitos. 
Dessa forma, no tocante ao caso de abuso de preços de itens de consumo, impende 
ressaltar que ainda que seja vedado, é importante que os consumidores também façam a sua 
parte, tal como denunciando as empresas que os desrespeitam junto aos órgãos de proteção ao 
consumidor, tais como Procons estaduais e municipais, pois o fornecedor não pode se aproveitar 
da situação de pandemia para auferir vantagem.6 
Um ponto que merece relevante destaque na questão de abuso e desrespeito por parte 
dos fornecedores em tempos de covid-19, diz respeito ao abuso de preço das empresas de 
serviços funerários quanto à qualidade na prestação dos serviços,eis que se têm relatos de que 
muitas funerárias se aproveitaram do momento de fragilidade pelo qual o consumidor passa, ao 
perder um ente querido, para auferir lucros e vantagens.7 
E, se não bastasse, os consumidores depararam-se com problemas dos mais diversos, 
tais como cancelamento de viagens, shows, peças de teatro, dentre outros. E, no caso dos danos 
suportados pelo consumidor no comércio eletrônico, indaga-se como ficarão protegidos estes 
indivíduos no “novo mercado” pós-pandemia, onde muitos restarão superendividados, lesados 
e desamparados. Afinal, conforme muito bem assevera Bruno Miragem: 
A agilidade do fornecimento e o conforto de adquirir e receber em casa rivaliza com 
as dificuldades no caso de desacertos negociais, a crescente automatização das 
contratações, a reclamação de vícios de produtos e serviços, ou ainda problemas de 
conexão (em especial para quem não contratar planos com melhor velocidade e 
dados). A equação de vantagens e desvantagens permite perceber a tendência de que 
muitas dessas atividades que passaram a se realizar pelo meio digital prossigam assim 
no pós-pandemia (MIRAGEM, 2021). 
 
 Os danos podem ser estratosféricos, eis que vão desde uma simples compra de produto 
com defeito – exemplificativamente – a um vazamento de dados do consumidor, que pode ferir 
a sua imagem, honra, bom nome, assim como também sofrer golpes de estelionato, invasão de 
privacidade, dentre outros. Infere-se, portanto, que os exemplos são inúmeros e sobretudo 
preocupantes. 
No caso de um consumidor hipervulnerável, como é o caso dos idosos, a preocupação 
se torna ainda maior, pois estes – em sua maioria – não têm o mínimo tato para lidar com a 
 
6 É conveniente salientar que o PROCON RS, inclusive, lançou cartilha acerca das Relações de Consumo e 
Pandemia. Disponível em: https://www.procon.rs.gov.br/procon-rs-lanca-cartilha. Acesso em 04 jun. 2021 
7 Para maiores informações, recomenda-se a leitura da matéria publicada no site do IDEC. Disponível em: 
https://idec.org.br/dicas-e-direitos/coronavirus-os-principais-direitos-do-consumidor. Acesso em: 1 jun.2021. 
https://www.procon.rs.gov.br/procon-rs-lanca-cartilha
https://idec.org.br/dicas-e-direitos/coronavirus-os-principais-direitos-do-consumidor
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
62 
 
nova tecnologia, são carentes de informações, assim como são passados para trás com maior 
facilidade, podendo ou não contrair débitos que nem mesmo conhecem a procedência ou, se 
conhecem, foram induzidos a contratar. 
A estimativa é de que muitos consumidores restarão superendividados num cenário pós-
covid, o que traz à tona a preocupação com a saúde mental do consumidor, principalmente do 
compulsivo, que compra sem ter a real necessidade e vai se endividando; do que não estava 
habituado ao manejo do comércio eletrônico; do que muitas vezes gasta o que não tem em um 
momento de desespero, de dor, como no caso relatado dos serviços funerários. 
Portanto, num atual momento, a única resposta conclusiva à que se pode chegar, no que 
tange ao futuro dos consumidores no “novo mercado” pós-pandemia, é a de que se o Estado 
controlar e regulamentar assiduamente o mercado de consumo, uma vez que é seu dever a 
proteção e a defesa do consumidor, menores serão os danos. Caso contrário – consoante já 
mencionado – o cenário será desastroso. 
 
BREVES LINHAS SOBRE O SUPERENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR 
 
Um dos nefastos efeitos da pandemia de Covid-19 no mundo, foi o abalo econômico, o 
qual ensejou a perda de empregos e outras fontes de renda dos cidadãos. Dessa situação, 
resultou a impossibilidade de alguns consumidores arcarem com seus compromissos 
financeiros. Alguns já se encontravam superendividados, antes mesmo da crise em comento. 
Sobre essa situação, Claudia Lima Marques, Káren Rick Danilevicz Bertoncello e 
Clarissa Costa de Lima referem se tratar de uma situação de força maior "agravada ainda pelas 
medidas de ‘isolamento social’, com a parada do comércio, doença em massa e fragilidade dos 
empregos, especialmente, os informais, liberais e autônomos” (2020, p. 2). 
No atual momento, há três dispositivos do Código Civil que merecem ser trazidos à 
baila. Tratam-se dos artigos 393, 394 e 395, os quais prevêem: 
 
Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força 
maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado. Parágrafo único. O 
caso fortuito ou de força maior verifica-se no fato necessário, cujos efeitos não era 
possível evitar ou impedir. 
Art. 394. Considera-se em mora o devedor que não efetuar o pagamento e o credor 
que não quiser recebê-lo no tempo, lugar e forma que a lei ou a convenção estabelecer. 
Art. 395. Responde o devedor pelos prejuízos a que sua mora der causa, mais juros, 
atualização dos valores monetários segundo índices oficiais regularmente 
estabelecidos, e honorários de advogado. (BRASIL, 2002). 
 
Em análise à presente situação pandêmica, a doutrina ensina que “deve haver um 
impedimento real e comprovado que justifique a impossibilidade de cumprimento do dever 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
63 
 
contratualmente assumido” (CHATER, 2020). Requisito este que está, à toda evidência 
preenchido, no caso do trabalhador que não mais consegue auferir renda (ou ao menos, não nas 
proporções anteriores), encontrando, portanto, uma impossibilidade justificável em dar 
cumprimento às avenças celebradas. 
Nesse sentido, convém trazer à baila, a título exemplificativo, o notório caso dos 
funcionários do IPA (Centro Universitário Metodista de Porto Alegre). Conforme extensamente 
noticiado nos veículos de comunicação, o referido Instituto passou a atrasar os salários dos 
funcionários em setembro de 2016 (GZH, 2018), dando início à desestruturação da vida 
financeira dos mesmos. Com a pandemia, lockdown, e consequente perda de alunos, a 
instituição passou por dificuldade financeira maior ainda, tendo passado a pagar os funcionários 
em valor menor do que o ajustado, tendo, inclusive, firmado confissões de dívida em razão 
dessa situação. 
No entanto, esses funcionários, sendo muitos deles professores com mais de décadas de 
docência na mesma universidade, os quais já possuíam uma vida financeira estruturada sob os 
seus rendimentos, viram-se inadimplentes da noite para o dia. Assim, foi se iniciando um 
calvário de inadimplência diante de bancos, fornecedores de serviços básicos como água e luz, 
despesas imobiliárias etc. Estes funcionários, os quais têm importante papel de consumidores 
na sociedade, tiveram que acabar por contratar empréstimos, ou, ainda, fazendo uso do cheque 
especial, viram suas tranquilas vidas financeiras virarem uma grande bola de neve, chegando, 
inclusive, ao superendividamento. 
Estas situações transbordam os limites dos problemas econômicos de cada família e 
afetam toda a sociedade de modo geral. Com o superendividamento ocasionado pela pandemia, 
mais pessoas deixam de ser consumidoras ativas e, com isso, diminui-se o fluxo do consumo, 
reduzindo, também, os lucros dos fornecedores, o que, por sua vez, reduz empregos, criando 
um ciclo de crise econômica sem fim. 
Para falar no superendividamento, antes é necessário conceituar o endividamento, o qual 
pode ser explicado como a existência de alguma dívida, fato este inerente à partição de uma 
sociedade de consumo (MARQUES, LIMA, BERTONCELLO, 2010, p. 17). 
A doutrina conceitua o superendividamento como o comprometimento de 50% ou mais 
da possibilidade futura ou atual de pagamento de gastos, retirando-se o utilizado com o mínimo 
existencial (MARQUES, LIMA, BERTONCELLO, 2010, p. 20). Ou ainda, in verbis: 
O superendividamento pode ser definido como impossibilidade global do devedor-
pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé, de pagar todas as suas dívidas atuais e 
futuras de consumo(excluídas as dívidas com o Fisco, oriundas de delitos e de 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
64 
 
alimentos) em um tempo razoável com sua capacidade atual de rendas e patrimônio 
(MARQUES, LIMA, BERTONCELLO, 2010, p. 21). 
 
Essa situação tem ocorrido, conforme já referido, com muitos brasileiros, o que 
demanda o planejamento de uma solução efetiva e rápida para o problema, com o fito de evitar-
se um colapso total no mercado de consumo e nas vidas daqueles que dele fazem parte, sejam 
como fornecedores, consumidores e, também, trabalhadores. 
Algumas medidas vêm sendo tomadas, como pode-se citar como exemplo, o Instituto 
Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) que exarou manifestação em sentido da 
impossibilidade de cancelamento dos planos de saúde de consumidores que se encontrem 
inadimplentes (IDEC, 2020). Nesta ordem de ideias, também podem ser mencionados algumas 
propostas normativas que visam resguardar o consumidor durante a pandemia: Projeto de Lei 
nº 1087/20, que atualmente está com a Comissão de Defesa do Consumidor, Projeto de Lei nº 
1080/20, o qual se encontra com a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania e, ainda, 
Projeto de Decreto Legislativo nº 131/20, que está com a Comissão de Seguridade Social e 
Família. 
O Projeto de Lei nº 1087/20 tem a seguinte ementa: 
 
Altera o disposto na Lei 13.979, de 06 de fevereiro de 2020, acrescentando o inciso 
IV, §2º do Art. 3º, e assim, ficando impedida a majoração, sem justa causa, do preço 
de produtos ou serviços, durante todo o período do reconhecimento de estado de 
calamidade pública em razão dos efeitos da pandemia de coronavírus (CÂMARA 
DOS DEPUTADOS, 2020, b.). 
 
Já o Projeto de Lei nº 1080/20, por sua vez, conforme consta nas suas informações no 
site da Câmara de Deputados, “proíbe a cobrança de taxas, multas e encargos em casos de 
cancelamento ou remarcação de serviço por causa de epidemias” (CÂMARA DOS 
DEPUTADOS, 2020, a.). 
O Projeto de Decreto Legislativo nº 131/20, pretende sustar o reajuste de medicamentos, 
conforme prevê a sua ementa: 
 
Susta os efeitos da Resolução nº 1, de 26 de março de 2010, da Agência Nacional de 
Vigilância Sanitária, que dispõe sobre a forma de definição do Preço Fabricante (PF) 
e do Preço Máximo ao Consumidor (PMC) dos medicamentos em 31 de março de 
2019, estabelece a forma de apresentação do Relatório de Comercialização à Câmara 
de Regulação do Mercado de Medicamentos - CMED, disciplina a publicidade dos 
preços dos produtos farmacêuticos e define as margens de comercialização para esses 
produtos (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2010). 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
65 
 
De fato, vê-se que estão sendo tomadas providências legislativas que refletem, direta ou 
indiretamente, no cuidado com o superendividamento do consumidor neste momento de 
pandemia. 
Um Projeto que, também merece destaque, em que pese seja anterior à situação de 
pandemia, é o Projeto de Lei nº 3515/2015, já aprovado na Câmara, remetido ao Senado Federal 
em 12/05/2021. A proposição restou assim ementada: 
 
Altera as Leis nºs 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Código de Defesa do 
Consumidor), e 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto do Idoso), para aperfeiçoar 
a disciplina do crédito ao consumidor e dispor sobre a prevenção e o tratamento do 
superendividamento, e a Lei nº 9.492, de 10 de setembro de 1997. (CÂMARA DOS 
DEPUTADOS, 2015). 
 
O Projeto de Lei acima referido pretende incentivar a concessão e obtenção de crédito 
de maneira responsável, inclusive, com educação financeira dos consumidores. Claudia Lima 
Marques refere sobre a necessidade do referido Projeto de Lei: 
 
Ainda que haja algumas normas esparsas, acórdãos de tribunais superiores e 
iniciativas de programas de tratamento de superendividamento há intensa necessidade 
de uma norma sistematizadora, sendo a atualização do Código de Defesa do 
Consumidor, por intermédio do Projeto de Lei nº 3515/2015 o veículo ideal para tal 
desiderato (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2015). 
 
A aprovação do referido projeto e sua transformação efetiva em legislação, com a 
alteração do Código de Defesa do Consumidor, é um dos instrumentos para a reconstrução da 
economia do país e das finanças de cada consumidor. O que se espera é que sua morosa 
tramitação, agora com os problemas agravados em razão do Coronavírus, seja acelerada, 
oferecendo-se, ao menos, este alento aos brasileiros. 
 
O CONTEXTO DO CONSUMO COMO PARÂMETRO DE SUCESSO 
 
O homem contemporâneo é perpassado pelo contexto que está inserido, ou seja, dentro 
de suas vivências é submetido aos condicionamentos que o colocam à mercê de um modelo de 
sociedade que preza por características específicas para delimitar o que é sucesso e fracasso, 
sendo, o maior parâmetro de sucesso, o consumo. 
Dentro do viés de consumo, é necessário observar que a captura de desejo, tão bem 
descrita por Deleuze, ao analisar o pensamento de Foucault acerca da sociedade do controle, é 
um processo consciente de uma indústria que busca lucrar a partir de angústias existenciais do 
consumidor (DELEUZE, 2018; FOUCAULT, 2014). Por meio dessa captura de desejo, o 
sujeito se vê frente a diversas dúvidas existenciais, que não são elaboradas de maneira correta 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
66 
 
por fatores que o limitam, porém, com uma certeza quase que metafísica, deve consumir cada 
vez mais como mecanismo de autoafirmação do seu sucesso. 
Tal comportamento de ação sem reflexão é descrito por Chul Han como uma 
característica de uma sociedade que herda aspectos muito específicos da sociedade do controle, 
mas que passa para outros paradigmas – ainda permeados pelo consumo – e se torna uma 
sociedade do desempenho, onde existe a necessidade constante de produção individual e 
coletiva, e o sujeito constantemente precisa acelerar suas ações, diminuindo sua capacidade 
reflexiva e, consequentemente, trazendo graves problemas no ato de controlar impulsos, 
fazendo com que potências positivas – a capacidade de dizer sim ao meio – esteja a todo vapor; 
enquanto as potências negativas – a capacidade de negar o desejo do meio – estejam debilitadas 
(CHUL HAN, 2010). Na prática, o que existe é um sujeito que cede ao consumo e não reflete 
sobre as razões que o fazem consumir. 
Lipovétsky traz uma visão sobre o homem hipermoderno relacionado ao hedonismo e a 
enfermidade, um ser humano que busca novas experiências por meio do consumo e, portanto, 
nunca considerar-se-á o suficiente, ficando refém do mercado e das novas necessidades criadas 
a cada uma das experiências sanadas na relação dual entre mercado-consumidor 
(LIPOVÉTSKY, 2006). O homem em crise consigo, acaba por passar por experiências ainda 
mais vazias, na tentativa de preencher-se com o efêmero do consumo, portanto, sente-se mais 
vazio, mais frustrado existencialmente e com cada vez mais urgência na busca de experiências. 
Um ciclo de busca por prazer para preencher sentido, mas que no fim da experiência traz o 
mesmo resultado: vazio existencial por uma vivência desprovida de sentido (FRANKL, 2016). 
 
O TER E O SER: O CONSUMO COMO BUSCA DE SER 
 
A relação do ato de ter com o consumo é intuitiva, faz parte do processo de adquirir um 
bem e ser proprietário de tal bem, exercendo poder sobre esse bem; enquanto o consumo está 
ligado à compra de alguma coisa. Portanto, o ter e o consumir mesclam-se desde que tais atos 
existem. 
Fromm descreve o ato de ter como decorrente da propriedade privada, onde o seu dono 
passa a exercer poder direto diante do que foi adquirido (FROMM, 1977). A necessidade de 
ter, varia de acordo com a construção do sujeito que busca tal ter, das experiências 
internalizadas por ele durante suas vivências. Um exemplo é o pré e o pós primeira guerra 
mundial. No pré-guerra, o valor das coisas antigas era maior; no pós, o que é novo tem um valor 
agregado maior.Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
67 
 
 Com o consumo do novo, do efêmero, de coisas não feitas para durar, também foi 
modificando-se a ligação do ser com o ter, onde o ser mescla-se com a capacidade de ter, ou 
seja, o existencial é confundido com a capacidade de consumo (SILVA, 2011). A mescla entre 
o ser e o ter causam profundas mudanças nas experiências e nas percepções do homem frente 
a própria realidade. Onde antes existia um limite bem estabelecido, existe uma apropriação das 
perturbações como características de posse: 
 
O estilo mais recente de fala indica a vigência de alto grau de alienação. Ao dizer 
“tenho um problema”, em vez de “estou perturbado”, a experiência subjetiva é 
eliminada: o eu da experiência é substituído por uma expressão impessoal 
relacionado com posse. (FROMM, 1977, p. 41). 
 
O dinheiro, como instrumento das trocas que possibilitam o ter, acaba por se tornar um 
passe livre para tudo o que bem entender, sendo depositado nele não apenas o desejo pelo 
consumo, mas também uma satisfação antecipada de adquirir objetos, ou seja, ele é visto como 
objeto necessário para o prazer na esfera pessoal e social (SILVA, 2011). Com o entendimento 
do dinheiro como fonte de gratificação, perde-se o horizonte do simbólico do dinheiro como 
meio para um fim e se coloca no ato de consumo um peso de satisfação como ser, o que não 
corresponde com a realidade concreta, justamente pelo caráter efêmero da compra e do 
significado esvaziado no impacto de preenchimento existencial que o consumo exerce no ser 
humano (FRANKL, 2016). 
O ter e o ser como expressão do mesmo fenômeno, torna-se um sintoma de uma 
sociedade doente, que adoece os indivíduos ao retirar o referencial de quem se é como 
característica humana e coloca valores existenciais como condicionados aos valores de 
consumo (FROMM, 1977). 
 
A VISÃO DA PSICOLOGIA DO SENTIDO DA VIDA SOBRE O CONSUMISMO 
 
Com as visões de Deleuze, analisando Foucault, Lipovétsky sobre a sociedade 
hipermoderna, Chul Han sobre a sociedade do desempenho, a sociedade atual e Fromm sobre 
o ser e ter, pode-se partir para o ponto central da análise do consumo a partir de uma perspectiva 
da Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Frankl, a terceira escola de psicoterapia de 
Viena, focada em uma complementação do pensamento vigente da época, baseada na 
psicanálise de Freud e na psicologia individual de Adler. 
Frankl refere que a visão psicanalítica de ser humano vê como motivador uma busca 
primordial por prazer; enquanto a visão adleriana enxerga o ser humano que tem como força 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
68 
 
motriz uma busca por prazer. A logoterapia não nega as vontades de poder e prazer, pelo 
contrário, diz que ambas são importantes, o poder como meio de realização de sentido e o prazer 
como consequência de tal realização, porém o que move mesmo o ser humano seria uma 
vontade de sentido (FRANKL, 2008). 
A partir da vontade de sentido é necessário conceituar que quando ela se encontra 
frustrada por alguma razão existencial, abre-se espaço para que as vontades de poder e prazer 
se sobreponham, criando interações vazias do ser humano com o mundo que o cerca em uma 
busca incessante e infrutífera para a realização e preenchimento de sentidos da vida (FRANKL, 
2008). Neste escopo também está inserida a relação humana frente ao consumo, mais 
precisamente como forma de se atingir o prazer por meio do poder de compra, mas sempre 
sendo insuficiente quando se fala de questões existenciais (FRANKL, 2016). 
A felicidade – aqui representada pelo prazer – não deve ser algo de uma busca por si só, 
e sim uma consequência, visto que o homem não busca a felicidade em si, mas sim um motivo 
para experimentar tal sensação de felicidade (STUDART, 2020). Ela, por si só, não passa de 
uma falsa sensação efêmera, que se esvai em um processo de busca por novos desejos a atingir 
e que dialoguem com: 1. o que a sociedade demanda, colocando o homem como passivo e 
abrindo mão da sua liberdade responsável pela própria existência e; 2. a ideia de que é possível 
construir uma existência humana a partir de estímulos externos e de consumo, complementando 
a ideia de Chul Han sobre a diminuição da reflexão em detrimento a uma ação vazia de vontade 
de sentido (CHUL HAN, 2010). 
Quanto ao prisma do consumismo, é necessário falar sobre valores sociais e como tais 
valores permeiam não apenas a relação do homem com o seu social, mas também consigo 
mesmo. Scheler, em seus estudos sobre os valores humanos, estabelece que tais valores são 
universais, porém, a capacidade de apreensão de tais valores perpassa pela interação do homem 
em grupos e subgrupos específicos, gerando conhecimento e também influenciando na própria 
noção de realidade criada por tais grupos e, consequentemente, pelos indivíduos pertencentes a 
tais grupos (SCHELER, 2019). 
Majoritariamente, na sociedade contemporânea, o poder de compra é visto como um dos 
valores mais importantes nas relações sociais e de poder, estabelecendo caráter valorativo para 
indivíduos de acordo com tal poder de consumo (CHUL HAN, 2010). Portanto, a busca de 
aceitação e pertencimento – natural em seres sociais – acaba por gerar uma apreensão de valores 
importantes para a sociedade vigente, no caso, consumo para atingir algo além de si, mas sem 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
69 
 
a capacidade primordial do ser humano, a autotranscedência, ou seja, a capacidade de se voltar 
para algo ou alguém além de si mesmo (FRANKL, 2016). 
A debilidade de autotranscedência faz com que o ser humano fique preso em ações 
apequenadas e infrutíferas, no que tange à busca pela realização de sentidos na vida. O sentido 
jamais está do lado de dentro, mas sim no lado de fora, quando se é capaz de sair de si e realizar-
se no – e com – o mundo (FRANKL, 2008). 
Portanto, é plausível que as relações de consumismo desenfreado possam ser vistas não 
como uma característica natural da sociedade contemporânea, mas sim como um sintoma de 
adoecimento social (FRANKL, 2016). Uma classe dominante dita o que é valoroso por meio 
do marketing, adoecendo a capacidade reflexiva e individual a partir do adoecimento social, o 
qual mantém o ser humano com a capacidade de transcender ao social adoecido, cada dia mais 
debilitado, gerando um rebanho formado por seres incapacitados de exercer uma autonomia 
completa frente a própria realidade (CHUL HAN, 2010; LIPOVÉTSKY. 2006; FRANKL, 
2016). 
A patologia é social, mas afeta o indivíduo com neuroses noogênicas, psicopatologias 
existenciais, que advêm da esfera noética do ser humano, a dimensão acima da fisiológica e da 
psicológica – dimensões que o homem compartilha com animais – sendo a dimensão 
unicamente humana, que não adoece por si só, mas pode se tornar menos acessível pelo 
enfraquecimento existencial (FRANKL, 2016). 
As neuroses noogênicas perpassam por várias esferas humanas, nas relações consigo e 
com o mundo, afetando e fazendo com que o indivíduo afete quem com ele interage. Abrindo 
margem para um ponto específico dos tempos atuais: a realidade implacável de uma pandemia 
global que causa impacto em praticamente todos os setores humanos, principalmente no que 
tange à saúde mental. O ser humano como ser integral – biopsicossocialnoético – vive um 
paralelismo psicofísico, onde o que é físico influencia, e é influenciado constantemente o que 
é psicológico, gerando também uma debilidade na capacidade de transcender esse paralelismo 
por meio do antagonismo psiconoético, a capacidade de ser além do físico e psicológico, agora 
debilitado por fatores que oprimem o ser humano de todos os lados globalmente (FRANKL, 
2008). 
No cenário de pandemia, no isolamento social, para os que o podem fazer, e no cenário 
de exposição ao Covid-19, para os que não podem se dar a tal luxo, existe uma constante: um 
aumentocrítico nos índices de crises e transtornos de ansiedade no Brasil (OMS, 2021)¹. Tal 
aumento na ansiedade está ligado ao aumento de consumo pelas compras no comércio 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
70 
 
eletrônico, facilitadas pelo impulso ao preenchimento que o consumo exerce na vida do 
indivíduo contemporâneo, levando a sentimentos momentâneos de saciedade, mas que logo são 
substituídos pela culpa de uma compra, muitas vezes, desnecessária e que pode gerar um 
superendividamento (FRANKL, 2016). 
Somada à culpa pela compra, também está a insatisfação por não se poder consumir o 
suficiente em uma sociedade hiperconsumista, que faz com que o sujeito experiencie não apenas 
o vazio do descontrole pelo consumo, mas também a frustração por não poder fazê-lo o 
suficiente para o que é exigido (CHUL HAN, 2010; LIPOVÉTSKY, 2006). A pandemia do 
Covid-19 não apenas amplia esse sentimento no indivíduo – muitas vezes financeiramente 
afetado pela crise global –, como também deixa mais visível socialmente os impactos de um 
consumo desenfreado e que jamais poderá ser saciado. 
A busca por sentido mediante o prazer da satisfação imediata trazida pelo consumo, e 
do poder de ser apto a consumir, causam impactos tão profundos na saúde mental do indivíduo 
que geram um vazio preocupante e um caos inclusive no que tange à saúde pública, com 
aumento de demanda por tratamento psicológico que não consegue ser aplacado pelo poder 
público (FRANKL, 2016). A lógica de ter de representar uma existência plena é reforçada 
diariamente pelo mercado, gerando consumo, o que consequentemente traz insatisfação por não 
dar às pessoas o que elas realmente procuram, impactando na saúde mental, encadeando na 
saúde física, impactando na capacidade laboral que perpetua a crise, afetando o próprio 
mercado. 
A sociedade do desempenho busca a satisfação por meio do prazer que a produção 
incansável deveria causar, porém, não coloca na equação um ponto de extrema importância no 
que tange ao ser humano, a capacidade de sofrer (CHUL HAN, 2010; FRANKL, 2008). A fuga 
do desenvolvimento do ato de sofrer – que só pode ser desenvolvido sofrendo – coloca o ser 
humano à mercê de toda essa lógica do prazer como ponto alto da existência humana, tornando-
se um vetor de patologias das mais variadas e sendo utilizada como jargão mercadológico para 
influenciar as massas ao consumo (FRANKL, 2016). 
Os impactos sociais podem ser medidos quando se observa um poder cada vez maior da 
indústria do consumo e um aumento cada vez maior nas patologias do vazio, nos transtornos 
depressivos e também nos transtornos ansiosos, seria um simples acaso? (OMS, 2020). 
Enquanto não existir uma educação que perpassa a saúde mental reflexiva e a desaceleração da 
ação para um aumento da capacidade crítica do indivíduo e da coletividade, as patologias 
ligadas ao consumo exacerbado vão sobrecarregar o poder público na esfera da saúde física, 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
71 
 
mental e também, na esfera judicial, com relações abusivas frente ao consumidor 
psicologicamente adoecido. 
 
CONCLUSÃO 
 
Conforme visto, o consumo em si, bem como, o direito do consumidor, em razão da 
pandemia de Covid-19, precisa ser abordado por um novo enfoque. Nesse sentido, inclusive, a 
defesa dos consumidores, devido à situação pandêmica em que se vive, vem encontrando cada 
vez mais desafios, pois, a vulnerabilidade destas figuras mais fracas do mercado, restou ainda 
mais evidenciada. 
Nesse “universo novo”, surgem os desafios para ambos os lados da relação de consumo, 
de onde deve ser observado sobretudo, os direitos do consumidor, já que este indivíduo é 
sempre o elo mais fraco das relações. A boa-fé contratual e os seus deveres anexos estarão 
sendo respeitados? O dever de informação, especialmente? Quem deve proteger os 
consumidores? 
Assim, o presente trabalho ventilou alguns questionamentos, de modo que se pudesse 
compreender que a atual situação, além de tudo, inclusive, agravou a situação financeira de 
alguns consumidores que já se encontravam endividados, tornando-os superendividados. E, 
nessa ordem de ideias, explicou-se que há algumas iniciativas em andamento para beneficiar o 
consumidor superendividado, bem como para evitar que outros, que já se encontram 
endividados, acabem por ter a sua inadimplência agravada. Para isso, no entanto, é necessária 
maior celeridade na tramitação de tais projetos, o que se espera do Legislativo. 
Nessa ordem de ideias, ainda, abordou-se, pelo enfoque da psicologia, o consumo como 
parâmetro de sucesso, demonstrando-se que o homem contemporâneo é perpassado pelo 
contexto que está inserido, ou seja, dentro de suas vivências ele é submetido aos 
condicionamentos que o colocam à mercê de um modelo de sociedade, que preza por 
características específicas para delimitar o que é sucesso e fracasso, sendo, o maior parâmetro 
de sucesso, o consumo. 
Portanto, o que se viu foi que a Covid-19 mudou o cenário econômico da sociedade e 
de seus membros, demandando um novo enfoque no tratamento do superendividamento. Para 
tratar o referido problema, também é necessário observar-se que o consumo não pode ser uma 
ferramenta de escape, mas apenas um meio de manter o funcionamento do mercado, de modo 
que todos possam consumir o necessário para suas vidas. 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
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Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
75 
 
PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR NA RESCISÃO CONTRATUAL EM 
DECORRÊNCIA DA PANDEMIA DA COVID-19 NOS CASOS DE 
CANCELAMENTOS DE SHOWS E EVENTOS CULTURAIS 
 
 
Camila Queiroz de Medeiros Santos1 
Marina Linna Pinheiro Cruz2 
Fabrício Germano Alves3 
 
 
Resumo: O ato de contratar é um importante instituto jurídico, pois está intrínseco nas relações 
sociais desde os primórdios. Ocorre que, com o surgimento da pandemia da COVID-19, houve 
algumas mudanças inevitáveis nas relações contratuais. Nesse contexto, o consumidor, antes 
elo fragilizado e protegido da relação, viu-se, repentinamente, responsabilizado pelos encargos 
das relações contratuais, mudando a então perspectiva criada no Direito, onde o prestador de 
serviço quem devia encarregar-se daqueles. Àvista disso, o presente trabalho tem como intuito 
elucidar, a partir da legislação previamente existente, bem como as extraordinárias criadas para 
atender o novo cenário, as dificuldades enfrentadas pelas partes do contrato, diante de toda a 
crise, financeira e econômica, no âmbito da pandemia. Busca-se, portanto, analisar de forma 
mais detalhada as possibilidades atuais para que se possam resolver os conflitos consumeristas 
decorrentes do cancelamento de shows e eventos de uma forma justa para ambas as partes. 
Adotou-se como procedimentos metodológicos a pesquisa de natureza aplicada, com 
abordagem qualitativa exploratória, e metodologia dedutiva, com o intuito de analisar e propor 
soluções viáveis para enfrentar as dificuldades do cenário atual, com apoio em textos 
bibliográficas e entendimentos jurisprudenciais. Conclui-se, portanto, que por se tratar de um 
momento extraordinário, é necessária tolerância de ambas as partes, e, ainda, a boa-fé contratual 
como parâmetro de distribuição de equidade dos encargos nos contratos de consumo 
enquadrados no entretenimento. 
 
Palavras-chave: cancelamento de eventos; coronavírus; rescisão contratual; direito do 
consumidor; pandemia. 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Tendo seus primeiros casos confirmados em meados de dezembro de 2019 em Wuhan, 
na China, e o primeiro caso brasileiro em fevereiro de 2020, em São Paulo, onde um homem 
de 61 anos que regressou de uma viagem feita à Itália, o coronavírus – SARS-Cov-2, 
popularmente conhecido como COVID-19, avançou e se difundiu com extrema rapidez em todo 
 
1 Discente do Curso de Graduação em Direito do Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES) da Universidade 
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E-mail: kmilaqms@hotmail.com 
2 Discente do Curso de Graduação em Direito do Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES) da Universidade 
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E-mail: marinalpc@hotmail.com 
3 Advogado (OAB/RN 6318). Especialista em Direito do Consumidor e Relações de Consumo (UNP). Mestre e 
Doutor em Sociedad Democrática, Estado y Derecho pela Universidad del País Vasco / Euskal Herriko 
Unibertsitatea (UPV/EHU) – Espanha. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E-
mail: fabriciodireito@gmail.com 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
76 
 
o mundo, tornando-se um evento extraordinário que traz consigo grandes riscos à saúde pública 
universal. Ainda, foi no dia 11 de março de 2020, que o diretor-geral da Organização Mundial 
da Saúde (OMS), classificou o estado da contaminação como uma pandemia global (DE 
OLIVEIRA, 2020). 
Trata-se de uma doença volátil e de transmissibilidade fácil, uma vez que, entre outras 
tantas formas, se difunde pelo ar, por isso demandou medidas mais extremas para promover a 
sua contenção. Uma delas foi a medida restritiva quanto ao trânsito de pessoas, proibindo a 
abertura de diversos estabelecimentos, visando diminuir o contato da população entre si, 
restringido o vírus a determinados indivíduos, e, em consequência dessa medida, restou 
proibida também a realização de eventos, festivais, entre tantas outras atividades culturais. 
Com efeito, as sociedades passaram a vivenciar os impactos sociais, econômicos, 
culturais e políticos decorrentes da pandemia. Outrossim, nas relações jurídicas de consumo 
não foi diferente. De um lado fornecedores precisam ter receitas para manter seus negócios; de 
outro, consumidores não querem pagar por serviços que não estão sendo prestados e querem 
proteger suas economias pessoais (BRITTO, 2020). 
Logo, a repercussão no meio jurídico sobre os efeitos da pandemia do novo coronavírus, 
diante da crise vivenciada, demanda que o intérprete-aplicador tenha que revisitar os 
fundamentos jurídicos das relações em matéria contratual. 
No setor da cultura, os cancelamentos de shows e eventos geraram algumas 
consequências, como mudanças nas obrigações de fazer, dispensa no pagamento de multas 
rescisórias, entre outros danos que colocam os consumidores em desvantagem manifestamente 
exagerada. 
Por consequência, o Poder Judiciário correntemente admite que, para a resolução de 
conflitos dentro desse ramo, e, diante as circunstâncias nas quais os indivíduos se inserem, 
deve-se buscar uma alternativa cordial que satisfaça fornecedor e consumidor, levando sempre 
em consideração o panorama econômico e os resultados que a pandemia causará ao país, 
sobretudo compatibilizando-se com os princípios da boa-fé e da confiança. Todavia, os juízes 
não devem atender automaticamente aos pedidos de sociedades empresariais ou empresários 
sem demonstração real de desequilíbrio financeiro (NOTÍCIAS STJ, 2020). 
Diante disso, tem-se como foco a análise dos impactos do coronavírus no mercado de 
consumo brasileiro pela perspectiva do produtor, observando juntamente a situação do do 
consumidor individual, estritamente no setor da cultura no que tange a shows e eventos, com o 
propósito de notabilizar o ordenamento jurídico protetivo do consumidor como um 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
77 
 
intermediário de boas negociações para o corpo social em tempos de dificuldades, solucionando 
os problemas acerca das novas possibilidades e situações, decorrentes da pandemia, dentro do 
âmbito contratual, sempre buscando uma forma cordial de resolução de conflitos. Essa análise 
é de grande importância, uma vez que esse tema está intrínseco no convívio em sociedade por 
natureza, em razão dessa modalidade negocial se fazer fortemente disposta no dia a dia dos 
brasileiros. 
Por fim, como método adota-se a investigação dedutiva, com uma pesquisa de natureza 
aplicada e de abordagem qualitativa e exploratória, de modo que fundamentado aos princípios 
gerais do Direito e especificamente do Direito das Relações de Consumo, serão determinadas 
conclusões ao tema aqui abordado, buscando a solução que o mundo jurídico manifesta para 
conciliar as relações afetadas pela pandemia da COVID-19. 
Em um primeiro tópico, são dispostas informações acerca das relações contratuais de 
consumo, em razão de que, para se entender as mudanças ocorridas na fase de pandemia, faz-
se necessário que se entenda previamente o modelo ordinariamente seguido nas relações 
contratuais. 
Na segunda análise, levanta-se o debate acerca do setor cultural e da não obrigação de 
fazer em face da COVID-19, pois com a pandemia surgiram novos fatos e encargos, os quais 
livraram o prestador de serviço, em algumas situações, de cumprir prontamente a obrigação de 
fazer imposta a ele anteriormente. 
E no último tópico, como análise complementar, é disposto sobre o tema da revisão 
contratual por fato superveniente diante da pandemia, onde é levantada uma análise mais 
aprofundada acerca da consideração ou não da pandemia como fato superveniente, sendo, por 
essa razão, passível de mudanças no modelo contratado previamente. 
 
2 RELAÇÃO CONTRATUAL DE CONSUMO 
 
O Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 3°, §2º, traz o conceito de serviço como 
a atividade elaborada, mediante remuneração, que irá proporcionar benefícios e/ou 
compensações ao adquirente. Isto posto, a expressão “remuneração” permite incluir todos 
aqueles contratos em que for possível identificar, no sinalagma escondido (contraprestação 
escondida), uma remuneração indireta do serviço de consumo. “[...] Remuneração” (direta ou 
indireta) significa um ganho direto ou indireto para o fornecedor. “Gratuidade” significa que o 
consumidor não “paga”, logo, não sofre um minus em seu patrimônio” (MARQUES; 
BENJAMIN; MIRAGEM, 2019). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
78 
 
Para mais, produto é qualquer bem, consumível fisicamente ou não, móvel ou imóvel, 
novo ou usado, material ou imaterial, fungível ou infungível, principal ou acessório 
(BENJAMIN; MARQUES; BESSA, 2020 a). Desta maneira, o bem irá sero ponto principal da 
relação consumerista, e, segundo José Geraldo Brito Filomeno (2018), o fornecedor será 
compreendido quando propiciar a oferta de bens e serviços no mercado de consumo, 
parcamente importando sua finalidade. 
Sendo assim, seguindo a temática do enunciado, o art. 6° da Constituição Federal de 
1988 insere o direito ao lazer no rol dos direitos sociais com a intenção de possibilitar melhores 
condições de vida às pessoas. O lazer, como bem imaterial relacionado ao consumo de serviços 
artístico-culturais é de grande importância para ampliar as relações sociais, como também para 
elevar o desenvolvimento socioeconômico, de modo que esses liames estão ligados diretamente 
ao capital, que, assim, influenciam positivamente o aproveitamento desses recursos do 
entretenimento. 
Na perspectiva do Direito das Relações de Consumo, as relações vinculadas a shows e 
eventos culturais derivam dos prestadores de serviços; no ato de adquirir um ingresso; a partir 
dos organizadores, artistas; e entre vários outros componentes que constituem esse ramo tão 
significativo para a economia. 
Em vista disso, o Código de Defesa do Consumidor traz variadas disposições que 
interessam ao fornecimento de serviços. Com efeito, para a verdadeira proteção do consumidor, 
o decisivo é o intérprete determinar com exatidão que se trata de uma relação de consumo e 
aplicar o microssistema tutelar do consumidor. Aplicar o CDC (Lei nº 8.078/1990) pressupõe 
determinar o seu campo de aplicação (BENJAMIN; MARQUES; BESSA, 2020b). Outrossim, 
as leis atravessam os direitos consumeristas, civis e até penais, que são empregadas às violações 
da norma. 
A indústria do entretenimento se tornou um ramo econômico que está em constante 
busca do consumidor. Logo, quando se observa a compra e venda de ingressos, a título de 
exemplo, o produtor está admitindo a obrigação de executar um evento inteiramente 
estabelecido dentro dos requisitos que foram apresentados ao usufruidor, consoante um 
contrato. Além disso, mais um caso que pode ser considerado, acontece quando há alteração no 
contexto do evento (v.g., localização, horário, data), a qual assevera ao comprador o direito de 
resgatar o seu valor pago, como também a opção de troca de ingresso por outro, se houver a 
alternativa. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
79 
 
No meio dos shows e eventos culturais, para que ocorra a relação de consumo, o 
fornecedor, nos termos do art. 3° do Código de Defesa do Consumidor, que arrola todos os seus 
atributos, funciona de modo típico e característico, no qual o irá dispor de um usuário, gerando 
uma ligação contratual, por escrito ou não, baseados na prestação de serviços. 
Diante dos contratos, deve-se ser aplicado a proporcionalidade entre consumidores e 
prestadores, pela simples situação de desigualdade, para que o prejuízo seja distribuído deforma 
igualitária entre eles, visando esclarecer e verificar o contrato de acordo com o meio que o 
cerca. 
O art. 47 da Lei nº 8.078/1990 consolida o princípio in dubio para o consumidor, ao 
determinar que “as cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao 
consumidor”. Isto posto, o princípio da função social do contrato é evidente pela atenção em 
preservar o consumidor, já que corresponde à parte mais vulnerável da relação negocial, 
ecoando na interpretação do negócio jurídico. 
A Lei da Liberdade Econômica (Lei nº 13.874/2019) fortaleceu essa segurança no art. 
113, §1º, inciso IV, ao designar que a compreensão do acordo jurídico tem de atribuir a 
percepção que for mais conveniente à parte que não elaborou o dispositivo, se identificável. 
Assim, a interpretação favorável ao aderente não atinge apenas as situações de conflito entre 
duas cláusulas contratuais, mas também os casos em que há conflito interpretativo decorrente 
de apenas uma cláusula isoladamente (TARTUCE; NEVES, 2020 a). 
Em conformidade com os arts. 39 a 41 do Código de Defesa do Consumidor, que 
regulam as práticas abusivas, impulsionam-se essas questões ao intérprete para que leve em 
consideração para um bom relacionamento contratual, sempre ao lado do princípio do 
protecionismo. 
A vulnerabilidade é uma situação que poderá ser permanente ou provisória, individual 
ou coletiva, e que fragiliza, enfraquece o sujeito de direitos, desequilibrando a relação de 
consumo (BENJAMIN; MARQUES; BESSA, 2020 c). Consequentemente, o Código de Defesa 
do Consumidor objetiva restabelecer, proteger e preservar a estabilidade contratual na relação 
de consumo, mantendo, dessa forma, o sinalagma da relação contratual, onde ele distribui os 
encargos para o prestador de serviços, por ser a parte mais fortalecida e favorecida da relação 
contratual, e oferece amparo ao consumidor, a parte fragilizada da relação. 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
80 
 
3 O SETOR CULTURAL E A OBRIGAÇÃO DE NÃO FAZER FACE À PANDEMIA 
DO COVID-19 
 
É de se concordar que o contrato é um dos institutos mais importantes do Direito 
Privado, e como qualquer relação jurídica, o vínculo da obrigação procede de um fato jurídico. 
Desse modo, quando dois lados se posicionam na perspectiva objetiva e subjetiva de um 
contrato, há uma expectativa de que o acordo seja adimplido. No entanto, na rota em que se faz 
do seu início a sua conclusão podem ocorrer múltiplos imprevistos que podem acarretar um 
inadimplemento. 
No que tange ao setor contratual do mercado consumerista, em razão da pandemia que 
assola, entre tantos outros, o Brasil, tem-se tornado cada vez mais comuns situações em que os 
fornecedores não cumprem com as obrigações a quais se dispuseram face ao consumidor, assim, 
não executando a parte contratual em que lhes cabia no período em que firmaram negócio com 
o comprador. 
Dentro dessa realidade, foram realizadas diversas publicações de medidas de proteção, 
com o intuito de retardar a propagação desse vírus tão volátil que assombra o país e que está 
afetando intensamente o campo das relações contratuais. Desse modo, está se tornando cada 
vez mais habitual as notícias de cancelamentos de shows, congressos, entre tantos outros 
eventos. Um exemplo acerca disso, corresponde à limitação de um público de quinhentas 
pessoas para a realização de shows e eventos. Continuadamente, deu-se a proibição total da 
realização de shows e eventos em algumas localidades. Uma das medidas mais drásticas 
adotadas em momento mais devastador da pandemia. 
Nesse cenário, e por previamente não haver normas específicas, teoricamente seriam 
adotadas as normas gerais e habituais do microssistema protetivo do consumidor. Contudo, 
ocorre que, a não efetivação das obrigações no âmbito da pandemia da COVID-19 não 
corresponde a uma simples recusa por parte do fornecedor. Destarte, é importante salientar que 
a ausência de serviço ou de uma inexecução não irá se confundir com as hipóteses dispostas 
nos artigos 12 a 17, nem nos artigos 18 a 25 do referido Código, que tratam, respectivamente, 
dos casos referentes à responsabilidade civil do fornecedor por fato ou por vício do produto ou 
do serviço. 
O artigo 35 do Código de Defesa do Consumidor dispõe sobre o caso da recusa do 
fornecedor de cumprir com sua parcela na obrigação, e, nessa hipótese, o consumidor poderá 
exigir seu direito, na forma de cumprimento forçado da obrigação, como também rescindir ou 
aceitar a prestação de serviço equivalente. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
81 
 
Ainda sobre o tema, o artigo 84 do mesmo Código trata dos casos da obrigação de fazer 
ou não fazer, e em seu §1°, o legislador afirma que “a conversão da obrigação em perdas e 
danos somente será admissível se por elas optar o autor ou se impossível a tutela específica ou 
a obtenção do resultado prático correspondente”, abrindo possibilidade então para a reparação 
por meio de indenização, uma vez que é praticamente impossível a obtençãodo resultado 
correspondente na data marcada. 
Todavia, nem sempre essa inexecução obrigacional será relacionada a uma conduta 
culposa ou dolosa por parte do devedor. Em casos fortuitos ou de força maior, como o cenário 
pandêmico atualmente vigente no país, que rompem o nexo causal, por mais que o fornecedor 
queira cumprir com sua obrigação, ele está impossibilitado frente ao problema de saúde pública, 
bem como as normas estatais impostas diante da conjuntura buscando solucioná-la. 
O caso fortuito é mais do que a força maior, pois é um fato que não se espera, o que 
constitui algo raro na atualidade, uma vez que, no mundo pós-moderno, tudo pode acontecer 
(TARTUCE; NEVES, 2020b). Não havia possibilidade de o contratante preparar-se para uma 
pandemia que surpreendeu toda a população mundial, e que se deu por um vírus que sequer 
existia previamente na forma encontrada atualmente. 
Portanto, a regulamentação disposta no Código Civil em seu artigo 393, em condições 
gerais, dispõe que para que se averigue a inimputabilidade do obrigado, a ausência de prestação 
necessita decorrer de impasse intransponível a realização da obrigação, incomum ao controle 
do devedor, decorrente de evento extraordinário ou de terceiros. 
A vulnerabilidade como base principiológica sempre esteve presente ao se justificar a 
proteção aos mais frágeis, ao exemplo de consumidores e trabalhadores. A contemporaneidade 
está fazendo entender que todos são vulneráveis, alguns ainda mais (CARVALHO; 
FERREIRA, 2020). 
Como resultado de tamanhas restrições e para tentar amenizar a crise decorrente da 
conhecida pandemia, criou-se a Lei n° 14.046 de 2020, com apoio no estado de calamidade 
pública reconhecido pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, a qual “dispõe 
sobre medidas emergenciais para atenuar os efeitos da crise decorrente da pandemia da covid-
19 nos setores de turismo e cultura”. 
Essa nova disposição normativa visa dar amparo aos empresários do setor de turismo e 
cultura, que estão suportando imensos encargos da atual fase que o Brasil está vivenciado, com 
redução e baixo caixa há meses, buscando, portanto, viabilizar a continuação de suas atividades, 
com intuito de evitar o fechamento definitivo. Na atual conjuntura, o prestador de serviço, antes 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
82 
 
predador da relação consumerista, passou a ser também um elo fragilizado da relação 
contratual, em razão de seus muitos negócios suspensos e paralisados. 
Na proposta inicial para Medida Provisória n° 948, que dispõe sobre o cancelamento de, 
entre outros, eventos nos setores de cultura, devido ao estado de calamidade pública aceito pelo 
Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março de 2020, que posteriormente transformou-se na 
mencionada Lei de n° 14.046/2020, as entidades mencionadas anteriormente necessitam de 
medidas urgentes para o enfrentamento da crise que está a se desenrolar, ocasionando, além de 
cancelamento de reservas em estabelecimentos hoteleiros, também inúmeros cancelamentos 
diversos eventos. Esta crise impacta o fluxo no caixa das sociedades empresariais e ameaça 
suas permanências no mercado, correndo um risco de encerrarem de vez suas atividades 
(BRASIL, MP 948, 2020) 
A Lei de n° 14.046/2020, em seu artigo 2°, desobriga o fornecedor a reembolsar os 
valores pagos pelo consumidor no caso de adiamento ou cancelamento de shows, eventos e 
espetáculos em decorrência da pandemia da COVID-19, desde que obedeça a alguns 
regramentos, que são dispostos em seus incisos: “I – a remarcação dos serviços, das reservas e 
dos eventos adiados;” ou “II – a disponibilização de crédito para uso ou abatimento na compra 
de outros serviços, reservas e eventos disponíveis nas respectivas empresas”. 
Sobre o inciso I, é importante destacar que deverão ser respeitadas as condições 
originalmente contratadas, ou seja, o novo evento deverá ser oferecido na mesma qualidade da 
proposta inicial, e é isso de que trata o §5° do artigo em questão. Ou seja, no primeiro comando, 
o prestador do serviço não será obrigado a reembolsar instantaneamente os valores pagos pelo 
consumidor. 
Entretanto, imagine a hipótese em que uma turma em um determinado curso de uma 
Universidade contratou um fornecedor específico para organizar as festas referentes às 
comemorações que acontecem no decorrer de seu curso. Ocorre que, a festa de 50% (festa na 
qual os discentes comemoram o lapso temporal de metade de seu curso decorrido) da turma 
restou-se impossibilitada de ser realizada em razão das atuais restrições impostas visando a 
preservação da saúde pública, contudo, uma realização posterior possivelmente não será mais 
de interesse dos contratantes, pois a festa perderá a razão de ser. Nessa análise, resta o 
entendimento de que esse seria um típico caso no qual a não obrigação do produtor quanto ao 
ressarcimento seria invalidada, e ele deveria sim arcar com os encargos contratuais, pois, ainda 
que esteja enfraquecido, ele continua sendo o dominador da relação, enquanto o consumidor 
corresponde à parte mais fragilizada. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
83 
 
A Medida Provisória nº 1.036/2021 – que atualiza a Lei nº 14.046/2020 – prorroga 
regras para cancelamento ou remarcação de eventos durante o período da pandemia, uma vez 
que o antigo decurso de tempo previsto em lei, não foi suficiente para cessar a pandemia e 
tampouco seus impactos. Nessa ocasião, o legislador em seu art. 2°, §4º, dilatou o prazo anterior 
para o novo prazo: até 31 de dezembro de 2022. 
Sobre a solicitação da remarcação ou reembolso, a Lei estabelece, em seu artigo 2°, §1°, 
que o consumidor respeite o prazo de 120 (cento e vinte) dias, contados desde a comunicação 
do cancelamento ou adiamento, ou de 30 (trinta) dias antes da realização do evento, sendo usado 
o prazo que decorrer antes. E, caso o consumidor não respeite esse prazo, fica o fornecedor 
desobrigado de ressarcir a parte, em consonância com o §3° do mesmo artigo. 
Diante o exposto, a volta dos eventos com grandes públicos ainda depende do 
cronograma de vacinação e da contenção do vírus. Logo, a situação do consumidor que realizou 
a compra de ingressos, na maioria dos casos, é de solicitação do reembolso. Entretanto, a 
legislação instituiu alguns empecilhos, como foi mostrado. 
Isto posto, a ordem é de que o prestador do serviço não será obrigado a reembolsar 
instantaneamente os valores pagos ao consumidor desde que garanta: remarcação ou 
disponibilização do crédito para utilização na compra de outros serviços, reservas ou eventos 
da mesma entidade empresarial, isto é, somente se não for possível remarcar ou oferecer o 
crédito, o consumidor poderá requerer o reembolso dos ingressos pagos para shows e eventos. 
 
4 REVISÃO CONTRATUAL POR FATO SUPERVENIENTE DIANTE DA 
PANDEMIA DA COVID-19 
 
No momento em que se fala de direito dos contratos no âmbito da COVID-19, verifica-
se que o Código Civil, em seu artigo 317, consolidou a revisão contratual por fato 
superveniente, diante de uma imprevisibilidade somada a uma onerosidade excessiva. Quando, 
por motivos imprevisíveis, sobrevier desproporção manifesta entre o valor da prestação devida 
e o do momento de sua execução, poderá o juiz corrigi-lo, a pedido da parte, de modo que 
assegure, quanto possível, o valor real da prestação. 
Apesar da possibilidade de interpretação no sentido de que esse dispositivo possibilita 
a revisão contratual, principalmente se conjugado com o art. 478 do Código Civil, que trata da 
resolução por onerosidade excessiva, atualmente, a revisão judicial do contrato civil por fatos 
posteriores à celebração está tratada isoladamente no art. 317, pois o art. 478 dispõe sobre a 
extinção, e não sobre a revisão contratual (TARTUCE, 2014). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
84 
 
Ainda sobre o tema, é possível enxergar nesse dispositivo uma cláusula pararevisão 
contratual permitida ao julgador. Na oportunidade, o juiz poderá fixar correção monetária, se 
dando o valor real da prestação, como pode ser inferido a partir da identificação do escopo do 
dispositivo. Essa cláusula é colocada para que ocorra a alteração entre a formação do contrato, 
que compõe o plano de existência, e a ocasião da execução do contrato, uma vez que será esse 
contrato abstrato colocado em prática. 
Dando continuidade, para que o juiz se torne apto para uma possível revisão de contrato, 
deverá haver uma desproporção entre o valor da prestação no momento da formação e o 
momento da execução, e ainda, a desproporção deverá ser decorrente de motivos os quais não 
poderiam ser previstos (SCHREIBER et al, 2019) 
Esse artigo trata do caso em que os contratos são feitos de forma a manter o sinalagma 
da relação jurídica, até porque, caso não o façam, o contrato será inválido, somente 
posteriormente sofre um desequilíbrio, que se dará por motivo imprevisível, e um grande 
exemplo prático e importante para o debate aqui explanado, é o caso da pandemia causada pela 
COVID-19. 
Nesse sentido, o dispositivo adota a teoria da imprevisão (desdobramento da antiga 
cláusula rebus sic stantibus). E, sobre tal, a I Jornada de Direito Civil adotou o enunciado n° 
17: “A interpretação da expressão “motivos imprevisíveis” constante do art. 317 do novo 
Código Civil deve abarcar tantas causas de desproporção não previsíveis como também causas 
previsíveis, mas de resultado imprevisíveis”. 
Inclusive, tal teoria ressurgiu no Direito em decorrência dos impactos deixados pela 
primeira guerra nas relações contratuais, como uma forma de amenizar o caos instaurado 
economicamente após uma catástrofe de tamanha magnitude, e, para tanto, o legislador adotou 
medidas extraordinárias visando admitir a revisão contratual. 
Nessa perspectiva, nota-se que os princípios que guiam o dispositivo são a conservação 
do negócio jurídico e a função social em sua eficácia interna, pois buscam manter, diante dos 
novos fatos e das novas configurações, o pacto inicial ou o mais perto possível, firmado em 
contrato. 
Em épocas normais, os contratos devem ser efetuados em sua totalidade, em 
conformidade com o princípio pacta sunt servanda, que pode ser traduzido como a 
consolidação da força obrigatória que as obrigações assumidas devem ser respeitadas e 
cumpridas integralmente. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
85 
 
Contemporaneamente, a problemática contratual envolvendo a pandemia e suas 
complicações imprevisíveis, mitiga o princípio pacta sunt servanda, assim, tornando-se uma 
exceção às ordens de força obrigatória. De fato, o estado de calamidade na saúde mundial, em 
uma apreciação abstrata e genérica, por se tratar de um evento fora do comum, faz com que a 
prestação se torne demasiadamente onerosa. 
Não restam dúvidas de que a revisão contratual tratada pelo Código de Defesa do 
Consumidor é facilitada justamente por não exigir o fator imprevisibilidade, bastando que o 
desequilíbrio negocial ou a onerosidade excessiva decorra de um fato superveniente 
(TARTUCE; NEVES, 2020c). A situação de shows e eventos no Brasil não deixa consumidores 
e fornecedores em situação de igualdade para que o prejuízo seja distribuído deforma igualitária 
entre eles. 
A Medida Provisória nº 1.036/2021 gera alguns impactos no mercado de consumo 
cultural. A princípio, os consumidores que estavam impossibilitados de usufruir do evento 
contratado em razão da pandemia, em consequência do seu adiamento ou cancelamento, devem 
procurar os seus produtores para negociarem qual a melhor forma de resolução da necessidade 
ali apresentada. Além disso, os fornecedores devem oferecer crédito para os consumidores 
utilizarem em futuros eventos, como também remarcar ou reembolsar o valor até 31 de 
dezembro de 2022. 
Partindo dessa premissa, observa-se que as partes dos negócios bilaterais – ou 
pluraterais – estão passando por obstáculos por ambos os lados. Logo, uma das soluções a serem 
analisada é a retificação dos contratos, a qual permitirá a reavaliação das cláusulas do negócio 
de uma obrigação, a fim de reconstituir a estabilidade financeira por meio da manutenção das 
convenções, alterando ou, na sua inviabilidade, resolvendo a obrigação amigavelmente. 
Diante de todo o exposto, sendo a pandemia fato superveniente e abarcando a 
imprevisibilidade, bem como a execução do contrato demandando uma onerosidade excessiva, 
no âmbito do fornecedor, sendo inclusive atentado contra a saúde pública efetuar o 
cumprimento de diversos contratos, como por exemplo a realização de shows, resta-se o 
entendimento de que as novas normas, as quais impõe um novo prazo para que se efetue o 
cumprimento contratual, são viáveis, uma vez que são medidas extraordinárias para momentos 
extraordinários. 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
86 
 
4 CONCLUSÃO 
 
Como restou demonstrado, no âmbito de shows e eventos, o Direito das Relações de 
Consumo é essencial e imprescindível, uma vez que é com fundamento nele que as relações são 
regularizadas e os contratos são pactuados. Nessas relações os prestadores de serviços se 
obrigam e comprometem-se a efetivar a execução de um contrato nas medidas e condições 
previamente combinadas, executando um evento dentro dos requisitos apresentados ao 
usufruidor. Dentro desse tema, a priori, entende-se o ordenamento consumerista como fiel 
protetor dos consumidores, como parte mais fragilizada da relação. É o caso do artigo 47 da Lei 
n° 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor) que traz o princípio in dubio para o 
consumidor e o princípio pacta sunt servanda. 
Porém, algumas vezes esses contratos não conseguem ser realizados por motivos que 
vão além do domínio do fornecedor. É o exemplo dos casos fortuitos ou de força maior, como 
o caso da pandemia enfrentada pelo Brasil, onde por mais que a parte queira cumprir com o que 
ficou acordado, este cumprimento resta impossibilitado. Além disso, não existia possibilidade 
de prever antecipadamente a situação, bem como se preparar para ela. 
Nessa realidade, os fornecedores de serviços passaram a suportar encargos altíssimos, 
com redução de fluxo de caixa, tornando-se também uma parte fragilizada na relação jurídica, 
e em razão disso, juntamente com a crise financeira, o legislador lançou a Lei de n° 14.046 de 
2020, no intuito de realizar a manutenção das sociedades empresariais, possibilitando a 
continuação das atividades e retardando o seu fechamento, já que deu suporte econômico. 
Levantadas as considerações, a referida Lei se faz essencial diante do cenário pandêmico 
atual, para que se possa distribuir os encargos e manter o sinalagma da relação jurídica, 
deixando-a mais viável para ambas as partes. Não cumpriria a função social, um contrato que 
resultasse no fechamento de diversas entidades empresariais, por estar cobrando encargos 
acima da realidade dos brasileiros, em razão da crise desencadeada pela pandemia. Entretanto, 
é importante destacar que o consumidor ainda é a parte mais protegida da relação jurídica, 
contudo, resta agora destinar um olhar mais cuidadoso para a outra figura da relação, que 
também se encontra fragilizada de certa forma. 
Sobre o contrato, o fornecedor não terá mais a obrigação de pagar imediatamente o valor 
referente aos ingressos, contudo, ele ainda deverá promover os eventos na mesma qualidade do 
anteriormente acordado. Ou seja, acredita-se que no caso de festas únicas e insubstituíveis, que 
sua realização em outra época perca sua razão de ser (como o já mencionado caso das festas de 
50% dos cursos de graduação), o mais correto nesses casos seria prender-se ao modelo 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
87 
 
tradicional contratual, pois, ainda que o fornecedor se encontre enfraquecido, ele continua 
sendo a parte mais forte da relação. Por isso, omais adequado é que o consumidor não tenha 
que arcar sozinho com os encargos contratuais. 
Diante da análise disposta, resta-se o entendimento de que as normas editadas em razão 
da pandemia, protegendo também o fornecedor de serviços, são uma fonte viável e socialmente 
aceitável de manter a equivalência nas relações jurídicas. São uma forma mais pacífica de 
enfrentar a crise que assola o Brasil, e é interessante ressaltar que, em ocasiões extraordinárias, 
medidas extraordinárias são tomadas, já que as medidas tradicionais não abarcam a 
problemática. 
Assim, dentro do âmbito de exceção, é uma alternativa altamente racional e razoável, 
pois busca manter o consumidor protegido, quando continua a oferecer a efetuação do contrato 
nos mesmos termos realizados na oportunidade inicial, mas busca também auxiliar o prestador 
de serviços, pois dilata o prazo para a realização dos eventos, e permite que o dinheiro 
arrecadado possa permanecer em caixa, para que assim ele consiga manter suas atividades. 
Para que o enfrentamento da crise se dê de forma positiva, é necessário que ambas as 
partes cedam um pouco e façam algum esforço, pois a pandemia é um evento que afeta a todos, 
sem restrições, e nesse momento é necessário se valer da solidariedade, considerando, além de 
partes contratuais, serem humanos atrás delas. 
 
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atenuar os efeitos da crise decorrente da pandemia da covid-19 nos setores de turismo e cultura. 
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Acesso em: 07 jun. 2021. 
 
BRASIL. Medida provisória nº 948, de 8 de abril de 2020. Dispõe sobre o cancelamento de 
serviços, de reservas e de eventos dos setores de turismo e cultura em razão do estado de 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm
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88 
 
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Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
89 
 
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https://www.sanarmed.com/coronavirus-o-que-voce-precisa-saber-apos-1-ano-de-pandemia-no-brasilhttps://www.sanarmed.com/coronavirus-o-que-voce-precisa-saber-apos-1-ano-de-pandemia-no-brasil
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
90 
 
MARKETPLACE E DIREITO DO CONSUMIDOR: DESAFIOS E 
PERSPECTIVAS 
 
Carlos Bender Konrad1 
 
Resumo: Este artigo objetiva desenvolver uma reflexão crítica sobre os impactos que a 
pandemia do Covid-19 pode causar nas relações envolvendo consumidores e como se deve 
compreender o instituto do marketplace, que foi exponencialmente beneficiado pela ampliação 
do uso, diante das restrições impostas pelo confinamento. Num primeiro momento, após a 
introdução, haverá uma breve contextualização da figura do marketplace. Após, passa-se a 
analisar, em linhas gerais, como é feita a identificação do referido instituto no âmbito do direito 
privado. No terceiro tópico, analisam-se os impactos desse arranjo privado no direito do 
consumidor, apresentando alguns pontos que desafiam a defesa do consumidor. Após, caminha-
se para a conclusão do presente trabalho. 
 
Palavras-chave: Marketplace. Fornecedor. Intermediador. Proteção Consumidor. Pandemia 
 
INTRODUÇÃO 
 
A Organização Mundial da Saúde declarou, no início de 2020, que o surto da doença 
causada pelo novo coronavírus se constituía uma emergência de saúde pública de importância 
internacional. 
O Brasil rapidamente identificou contágio de estrangeiros que realizaram viagens 
internacionais e chegaram ao território nacional. O primeiro caso da doença foi oficialmente 
diagnosticado em 26 de fevereiro de 2020 e até o presente momento a pandemia segue 
dizimando vidas e atividades empresariais, com ou sem reflexo direto em outras áreas do 
Direito. 
Relevante do ponto de vista do e-commerce, principalmente com a vasta digitalização 
dos serviços exigida pela pandemia decorrente da Covid-19, as raízes do marketplace estão 
fincadas no modelo do shopping center. 
Nesse cenário, verifica-se que, além de atual, o tema é relevante do ponto de vista 
econômico, na medida em que as principais plataformas de comércio eletrônico 
experimentaram significativo impacto positivo nas suas atividades nos últimos meses, apesar 
do encolhimento econômico decorrente da crise sanitária do novo vírus. 
É inegável que a exigência do confinamento, bem como o fato de que as pessoas foram 
impedidas de se deslocar livremente para realizar suas compras favoreceram o modelo de 
 
1 Mestrando e Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Inscrito na Ordem 
dos Advogados do Brasil do Rio Grande do Sul sob o número 88.862. E-mail: carlosbkonrad@hotmail.com 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
91 
 
comércio eletrônico e reafirmaram a importância do estudo da proteção do consumidor em 
plataformas de e-commerce. As publicações de resultados de companhias abertas demonstram 
que o consumo on-line se manteve durante a pandemia e, em alguns casos, aumentou, 
impactando positivamente as empresas. 
Assim, a presente pesquisa pretende analisar brevemente o modelo interno utilizado 
preponderantemente no âmbito das relações de marketplace, bem como quais os impactos 
desses arranjos no âmbito do direito do consumidor. 
A hipótese levantada corresponde a que o marketplace se trata de arranjo contratual, 
compatível já com o sistema constitucional e legislativo de proteção do consumidor, como 
desdobramento, entende-se que o consumidor já está suficientemente protegido pelas normas 
infraconstitucionais que são compatíveis com o modelo atual de comércio eletrônico. 
O trabalho contará com a seguinte estrutura: introdução, considerações sobre o 
marketplace, aspectos societários, reflexos do arranjo do marketplace no direito do consumidor 
e qual a consequência das relações consumeristas na relação societária para, então, direcionar 
para as conclusões do trabalho. 
O método empregado corresponde a revisão bibliográfica, com procedimento 
monográfico e metodologia dedutiva. 
Busca-se responder ao seguinte questionamento: diante da evolução das novas 
tecnologias, principalmente a vasta digitalização da economia, a legislação de proteção do 
consumidor é atual e suficiente para tratar da responsabilização dos fornecedores e 
intermediadores, componentes do marketplace, perante o consumidor? 
O tema, além de relevante e atual, tem aplicação prática e foi pouco explorado no âmbito 
acadêmico, justificando-se a presente pesquisa, a fim de trazer uma reflexão e atualização 
acerca de temática inovadora, útil e pertinente à advocacia e comunidade acadêmica. 
 
1. MARKETPLACE: ALGUMAS APROXIMAÇÕES 
 
O marketplace é um termo anglófono e corresponde a “open area in a town where a 
market is held” (LONGMAN, 2010, p. 1071). 
O Banco Central do Brasil2 conceitua como “empresas de comércio eletrônico, que 
aproximam compradores e vendedores por meio de plataformas centralizadas para a venda de 
produtos ou serviços”. 
 
2O que são “arranjos de pagamento”. Disponível em: 
www.bcb.gov.br/htms/novaPaginaSPB/liqcentralizada.asp?idpai=SPBARRPAG&frame=1#11. Acesso em 22 jun 
2021. 
http://www.bcb.gov.br/htms/novaPaginaSPB/liqcentralizada.asp?idpai=SPBARRPAG&frame=1#11
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
92 
 
Não existe legislação específica sobre o assunto no Brasil, tampouco o modelo de 
negócios é conceituado em alguma lei, diferentemente do que o faz o Código de Defesa do 
Consumidor ao definir, já no início, o seu âmbito de incidência, com conceitos muito claros e 
delimitados (BRANDÃO, 2021). 
 Em regra, trata-se de um modelo semelhante ao shopping center, embora tenha 
assumido novos formatos com a ampla digitalização da economia e das relações empresariais. 
 Com efeito, o Prof. Dr. Klaus considerava entre os principais efeitos da revolução 
tecnológica a ampla digitalização das atividades, o que alcançaria, sem dúvidas, as relações 
empresariais e teria impactos nas relações consumeristas (SCHWAB, 2014). 
 Embora houvesse recalcitrância por diversos setores para a ampla digitalização, a 
ocorrência e rápida disseminação da Covid-19 exigiu rapidamente ampla digitalização de 
produtos, serviços, etapas e processos de empresas e particulares. 
 A ocorrência da pandemia acabou com a resistência dos agentes econômicos em aceitar 
a vasta digitalização dos serviços, tratando-se de verdadeira revolução tecnológica em poucos 
meses3. Os agentes econômicos têm o dever de se adaptar à nova realidade tecnológica, como 
dever de resiliência (LUPION, 2020), sob pena de serem superados pelos concorrentes. 
 Assim, as relações estabelecidas unicamente ou preponderantemente a ambientes 
físicos, como centros de compras (shopping centers), sofreram gravemente com as 
determinações legislativas de restrição de circulação, confinamento, fechamento de espaços, 
entre outros. 
Foram diversas as discussões envolvendo revisão de alugueis4, demandas contra 
orientações de fechamento de estabelecimentos comerciais, questionamentos sobre pagamentos 
de alugueis, entre outras disputas comerciais envolvendo agentes econômicos como decorrência 
das medidas sanitárias e sociais. 
 Porém, os sítios eletrônicos não foram diretamente afetados pelas medidas sanitárias. 
Verificaram-se diversos resultados positivos5 empresas que disponibilizam plataformas 
de comércio e, entre os destaques mundiais, estão os e-marketplaces ou, em tradução literal, o 
“shopping center virtual”. 
 
 
3https://www.economist.com/finance-and-economics/2020/10/08/how-the-digital-surge-will-reshape-finance. 
Acesso em 20 abr 2021. 
4https://valorinveste.globo.com/mercados/renda-variavel/empresas/noticia/2020/04/16/grandes-redes-
renegociam-aluguel-de-lojas-e-armazens.ghtml Acesso em 27 abr 2021. 
5 https://forbes.com.br/forbes-tech/2021/04/receita-do-e-commerce-europeu-deve-atingir-us-465-bilhoes-em-2021-clearlake-capital-oystr-receiv-ao-cubo-muito-mais/. Acesso em 27 abr 2021. 
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https://forbes.com.br/forbes-tech/2021/04/receita-do-e-commerce-europeu-deve-atingir-us-465-bilhoes-em-2021-clearlake-capital-oystr-receiv-ao-cubo-muito-mais/
https://forbes.com.br/forbes-tech/2021/04/receita-do-e-commerce-europeu-deve-atingir-us-465-bilhoes-em-2021-clearlake-capital-oystr-receiv-ao-cubo-muito-mais/
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
93 
 
1.1. Modelo de shopping center 
 
O modelo de negócio de shopping center foi controvertido por muitos anos, até que foi 
positivado em lei. 
É possível verificar que o modelo de shopping center tem pontos de convergência 
(PSCHEIDT, 2019) que podem auxiliar a compreender o modelo de marketplace, embora este 
último tenha pontos que o diferenciam - a demonstrar a atualidade e os desafios para o Direito 
do Consumidor. 
Os centros de compras representam novo instrumento da atividade econômica, típico 
dos países que contam com uma economia de mercado, capitalista. O shopping center é 
utilizado preponderantemente para o fornecimento de produtos e serviços. Cuida-se de 
fenômeno econômico-social da pós-modernidade, originado nos Estados Unidos da América, 
que se espalha por outros países, inclusive o Brasil (NOGUEIRA DA GAMA, 2002). 
Após um período de controvérsia, pode-se verificar que a Lei do Inquilinato (Lei 
8.245/1991) adota expressamente a nomenclatura de shopping center, consagrando, pois, figura 
tipificada no Direito brasileiro: 
 
Art. 52. O locador não estará obrigado a renovar o contrato se: 
(...) 
§ 2º Nas locações de espaço em shopping centers, o locador não poderá recusar a 
renovação do contrato com fundamento no inciso II deste artigo. 
§ 3º O locatário terá direito a indenização para ressarcimento dos prejuízos e dos 
lucros cessantes que tiver que arcar com mudança, perda do lugar e desvalorização do 
fundo de comércio, se a renovação não ocorrer em razão de proposta de terceiro, em 
melhores condições, ou se o locador, no prazo de três meses da entrega do imóvel, 
não der o destino alegado ou não iniciar as obras determinadas pelo Poder Público ou 
que declarou pretender realizar. 
 
Art. 54. Nas relações entre lojistas e empreendedores de shopping center, 
prevalecerão as condições livremente pactuadas nos contratos de locação respectivos 
e as disposições procedimentais previstas nesta lei. 
§ 1º O empreendedor não poderá cobrar do locatário em shopping center : 
a) as despesas referidas nas alíneas a , b e d do parágrafo único do art. 22; e 
b) as despesas com obras ou substituições de equipamentos, que impliquem modificar 
o projeto ou o memorial descritivo da data do habite - se e obras de paisagismo nas 
partes de uso comum. 
§ 2º As despesas cobradas do locatário devem ser previstas em orçamento, salvo casos 
de urgência ou força maior, devidamente demonstradas, podendo o locatário, a cada 
sessenta dias, por si ou entidade de classe exigir a comprovação das mesmas. 
 
Assim, do ponto de vista físico, o marketplace tem semelhanças com o modelo do 
shopping center. O caso mais próximo, mas com menor risco de envolver controvérsias é a 
situação do marketplace híbrido, isto é, quando o fornecedor tem uma plataforma eletrônica em 
que reúne diversos fornecedores, ao mesmo tempo em que conta com lojas físicas. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
94 
 
Trata-se do principal modelo do mercado varejista brasileiro. É possível identificar essas 
empresas que atuam no ramo varejista em grandes centros de compras nas capitais brasileiras, 
assim como os seus sites na rede mundial de computadores. 
Ocorre que esses empreendimentos que contam com lojas físicas também foram 
duramente afetados durante a pandemia, como pode ser visto das diversas demandas 
envolvendo revisões de alugueis e indenizações pelo fechamento dos locais físicos. Não foram 
poucos os casos de grandes redes varejistas demandando condomínios de centro de compras 
quando houve a determinação do poder público para fechamento dos centros de compras. 
Além disso, a responsabilidade de shopping center não é objeto de controvérsia atual na 
doutrina e na jurisprudência, quanto a contratação com as lojas que integram o local de compras. 
O consumidor, quando ingressa no condomínio de lojas que integra o centro de compras, 
consegue facilmente identificar onde ou com quem contratou determinado produto ou serviço. 
Assim, quando adquire um produto em determinada rede varejista sabe quem poderá questionar 
ou demandar se houver algum problema com o produto ou serviço. 
 Embora seja uma forma interessante de compreender a figura do marketplace puro, em 
oposição ao híbrido, acima mencionado, a figura do shopping center não é capaz de captar as 
controvérsias e desafios para o Direito do Consumidor que o e-marketplace gera no âmbito da 
proteção do consumidor. 
 
1.2. Shopping center versus marketplace 
 
O modelo de shopping center pode auxiliar a compreensão do modelo do marketplace, 
porém não é capaz de demonstrar a complexidade do modelo de negócios virtual (e-
marketplace). 
Com efeito, o agente econômico que administra o centro de compras virtual tem 
algumas vantagens em incluir outros agentes econômicos na sua plataforma, como (i) 
ampliação de portfólio de bens e serviços; (ii) desnecessidade de contratação de mais 
colaboradores; (iii) atribuição de maior visibilidade aos seus produtos; (iv) reunião de produtos 
em um único “carrinho de compras” virtual; (v) possibilidade de pagar todos os produtos de 
diversos fornecedores de uma só vez; (vi) usar o mesmo sistema de entregas para todos os 
produtos; (vii) possibilitar ao consumidor comparar os produtos de diversos fornecedores e um 
único site; (ix) estabelecer maior garantia ou prestígio de que o contrato celebrado pelo 
consumidor será cumprido, porque a titular do marketplace, de certa forma, avaliza os produtos 
e serviços ali disponibilizados, entre outros. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
95 
 
O marketplace é espécie do gênero e-commerce, comercio eletrônico; Claudia Lima 
Marques (2004, p. 39) conceitua comércio eletrônico como sendo “uma das modalidades de 
contratação não presencial ou à distância para a aquisição de produtos e serviços através do 
meio eletrônico ou via eletrônica”. 
De maneira ampla, o comércio eletrônico é um novo método de fazer negócios com o 
uso de sistemas de redes eletrônicas. 
Jean Mikhael Makdissi Junior (2018, p. 45) define a plataforma como uma plataforma 
tecnológica digital com endereço eletrônico (site) e com objetivo de promoção de venda. O 
principal diferencial é promover a integração de diversos vendedores. Os clientes do 
marketplace, independentemente do número de vendedores, realizam uma jornada de compras 
única (conceito one-stop-shop), uma vez que todas ofertas são disponibilizadas através de um 
único carrinho de compras, pagamento e, em alguns casos, entrega. 
Uma diferença inicial em relação ao modelo de shopping center é que a contratação é 
realizada com o agente que administra a plataforma, o que traz uma noção maior de segurança 
para o consumidor, pelo prestígio ou seriedade que o titular do marketplace confere àquela 
transação. 
Richard (KESTENBAUM, 2017) identifica basicamente três tipos marketplaces, os 
quais são os seguintes: (i) vertical, isto é, aquele que vende bens de diversos fornecedores, mas 
todos os bens são de um único tipo, como joias; (ii) horizontal, sendo aquela situação em que 
são vendidos bens diferentese de diferentes fornecedores, como roupas ou livros, neste caso, 
porém, há uma característica; (iii) global, é aquele que vende bens de qualquer tipo, como 
roupas, livros, eletrodomésticos, móveis... 
Assim, muitas vezes o consumidor tem a impressão de que o proprietário da plataforma, 
ou seu administrador, de alguma forma “garante” que aquele produto tem as qualidades 
especificadas e que a entrega será feita. 
Este ponto tem como consequência a noção de que o marketplace age como 
intermediador, o que atrai a disciplina do Código de Defesa do Consumidor. 
A negociação nos sítios eletrônicos que operam com essa modalidade, aponta a 
existência de três tipos de marketplace, a saber: (i) marketplace puro, em que os vendedores 
se valem da plataforma para venda dos seus produtos, não realizando esta as vendas diretas 
aos consumidores; (ii) modelo híbrido, mais comum e usual no mercado varejista on-line, em 
que, além de serem comercializados produtos próprios dessas empresas, há também a 
negociação, no próprio site, de produtos e serviços de terceiros; (iii) modalidade híbrida e 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
96 
 
loja física, em que as empresas possuem comércio virtual próprio, atuam como marketplaces, 
além de possuírem venda direta ao consumidor em lojas físicas. 
Nesse contexto, verifica-se que embora tenha origens no arranjo de shopping center, o 
marketplace, principalmente em meio eletrônico, corresponde a um modelo de negócios mais 
complexo, mais atual e com outro sistema de responsabilidade. 
 Essa evolução no âmbito empresarial, naturalmente tem repercussões no âmbito do 
direito do consumidor, na medida em que a contratação foge da clareza de ingressar em um 
estabelecimento comercial para adquirir um produto, seja em uma loja física única, seja em uma 
loja física integrante do condomínio de shopping center. 
 
2. ASPECTOS INTERNOS NO MARKETPLACE 
 
Este item se justifica para compreender como é criada a figura do marketplace entre os 
agentes econômicos, como lojistas. Isto é, o foco, neste ponto, é na figura dos agentes privados 
não consumidores. 
O modelo de e-marketplace afasta a noção de competição pura e simples entre agentes 
econômicos, amparada na clássica noção de ser econômico puramente racional (THALER, 
2000). Não se trata de oposição de interesses e competição entre agentes econômicos, mas de 
colaboração e coordenação de interesses. 
Com efeito, a economia compartilhada, amplamente vigente na realidade 
contemporânea demonstra como os agentes econômicos cooperam em busca de uma melhoria 
nas suas condições (HAMARI; SJOKLINK; ANTTI, 2015). 
Assim, diante dos reflexos da shared economy, incumbe ao Direito identificar e adaptar 
a legislação e seus institutos para regular a vida em sociedade. 
Embora o conceito adotado pelo Banco Central do Brasil indique uma tendência a 
considerar uma “empresa”, não parece ser possível enquadrar o marketplace na figura do artigo 
966 do Código Civil, não só porque muitas vezes envolve fornecedores que normalmente 
competem no mercado, mas também porque não se trata de reunião de particulares para formar 
uma sociedade empresária. Com efeito, é possível verificar que diversos sítios reúnem na 
mesma plataforma muitas vezes fornecedores de roupas ou móveis concorrentes e que, se 
comparado ao modelo de shopping center, muitas vezes devem obedecer às cláusulas de raio e 
que competem pelo mesmo consumidor. 
As pesquisas sobre o contrato celebrado entre os agentes que integram o marketplace 
são restritas, mas é possível verificar que normalmente envolvem contratos de adesão, de um 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
97 
 
fornecedor/vendedor (seller), em relação à plataforma do agente econômico principal. Esses 
elementos são corroborados pelo seguinte teor de instrumento contratual: 
 
Se o estoque das lojas parceiras da xxx não puder entregar as mercadorias 
encomendadas por você, iremos notifica-lo o mais rápido possível e qualquer quantia 
debitada pela xxx do seu cartão de crédito será re-creditada em sua conta e a xxx irá 
notificá-lo por e-mail, no endereço fornecido por você no momento da encomenda 
(CANEN, 2019). 
 
Em se tratando de dois agentes econômicos organizados, com interesse lucrativo e perfil 
profissional, fica afastada a regência pelo Código de Defesa do Consumidor. O contrato é 
regido, pois, pelo Código Civil. 
O contrato é atípico, de modo que resta incidente a disciplina da matéria por instrumento 
particular “e outras avenças” (FORGIONI, 2016, p. 52). 
A menção a contratos de “parceria comercial” e congêneres não auxilia na compreensão 
do fenômeno, merecendo ser tratado como instrumento contratual atípico. 
Dessa forma, a tendência é a de elaborar os contratos entre os agentes que compõem o 
marketplace à luz do Código Civil, seja porque envolvem dois agentes econômicos interessados 
em obter lucro, seja porque as atividades são integradas, sem que ocorra o fim da cadeia de 
consumo (capaz de afastar a incidência do Código de Defesa do Consumidor nesta relação de 
marketplace). 
É possível questionar a possibilidade de que uma pessoa física, não profissionalmente 
organizada e voltada para o lucro, realizar a venda de produtos em marketplace, como a venda 
de livros ou outros produtos. Embora viável abstratamente, há uma tendência de que as 
plataformas exijam qualificações de “empresas”, pessoas jurídicas, para cadastro, 
especialmente o número de Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), incentivando a 
integração de atividades empresariais nesta plataforma. 
No âmbito interno, prevalece, pois, a liberdade de contratar entre os elos do 
marketplace. 
Assim, há temas que são tratados por cláusulas comuns, como forma de pagamento. 
Diferentemente do e-commerce, que vende diretamente ao seu cliente, o marketplace se 
posiciona como parte, sendo comum o uso da ferramenta chamada split, que consiste em 
funcionalidade que realiza a divisão automática dos valores entregues pelo consumidor, 
permitindo a partição do valor relativo ao fornecedor e ao portal divulgador intermediador, 
separando a quantia em um único momento. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
98 
 
Essa ferramenta reafirma a liberdade contratual das partes integrantes do marketplace e 
reafirma a autonomia de vontade das partes. Afasta-se, de certa forma, a noção de empresa, ou 
sociedade empresária, em favor da noção de relação eminentemente contratual. 
 Diante da vasta possibilidade de redação das cláusulas e da aproximação da adesão de 
um contratante aos termos, é evidente a incidência do Código Civil. 
 Nesse contexto, extrai-se que as partes podem fixar os termos do contrato livremente, 
restando à parte aderente apoiar-se no regime previsto no Código Civil, com as alterações da 
Lei de Liberdade Econômica. 
O princípio do pacta sunt servanda gera obrigações, direito e deveres às partes 
contratantes e deve ser utilizado pelas empresas que prestam serviço de marketplace. 
Contratos de “parceria” comercial com os vendedores (sellers) são importantes para a 
definição da responsabilização civil destes tanto nas demandas administrativas como nas 
judiciais - isentando, por conseguinte, as plataformas da reparação de danos a consumidores. 
Os contratos com os consumidores ou os termos de uso da plataforma devem alertar, 
com destaque, que a responsabilidade nas transações é somente da empresa com a qual se 
compra/contrata, reforçando as teses defensivas em caso de judicialização. Busca-se, de certa 
forma, reaproximar a figura do marketplace com a do shopping center. 
Caso a plataforma de comércio cometa erros ou abusos, porém, será responsável 
perante os consumidores. 
Ressalva-se, por último, o direito de regresso em caso de responsabilização objetiva 
por vício no produto ou falha na prestação de serviço em sua plataforma, não devendo o 
marketplace arcar com prejuízosfinanceiros a que não deu causa. 
Ocorre, também, por ocasião da celebração do contrato entre os sellers e o marketplace 
a estipulação de mecanismos como a retenção do pagamento do consumidor até a efetiva 
entrega do produto ou serviço ao consumidor. 
No Brasil é comum o uso em marketplaces globais, isto é, que contam com uma grande 
quantidade de produtos de diversos tipos. Assim, o transportador é contratado pelo marketplace 
e após a entrega do produto a plataforma já autoriza a transferência dos valores para o 
fornecedor componente da plataforma. 
Verifica-se, pois, que no âmbito eminentemente privado, regido por regras civis e 
empresariais, os fornecedores regulam seus interesses por contratos atípicos e com ferramentas 
que protegem seus interesses. 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
99 
 
3. REFLEXOS NO DIREITO DO CONSUMIDOR 
 
Relevante para o estudo do Direito do Consumidor é sempre responder à pergunta como 
proteger o consumidor e como equilibrar a sua relação com os fornecedores. 
 
3.1. Algumas aproximações 
 
Os arranjos contratuais envolvendo o atual tema do marketplace não contam com 
positivação, a qual estabeleça termos, condições, responsabilidade etc. 
O Brasil segue sem lei específica tratando de comércio eletrônico. 
Porém, todas aquelas atividades que se enquadrem no regime de relação 
fornecedor/produtor e consumidor devem adequar-se à legislação consumerista, inclusive o e-
commerce. 
Fabio Ulhôa Coelho destaca que “a circunstância de a venda ter se realizado num 
estabelecimento físico ou virtual em nada altera os direitos dos consumidores e os correlatos 
deveres dos empresários” (1999, p. 67). 
Bruno Miragem (2014. p. 104) trata do objeto da relação jurídica consumerista, 
afirmando que a mercadoria da relação sempre será serviço ou produto e qual a incidência da 
norma. Deste modo, a incidência das normas de proteção do consumidor a uma série de 
atividades é dependente da caracterização das mesmas como produto ou serviços na exata 
definição legal. Muitos agentes econômicos desejam colocar-se à margem do regime do Código 
de Defesa do Consumidor, visando a aplicação, por exemplo, das normas gerais do sistema, 
com grande interesse em ter suas relações regidas pelo Código Civil. 
Assim, todos aqueles que se beneficiam do moderno arranjo do marketplace devem 
servir como garantes, arcar com o ônus das transações com os consumidores. Nesse contexto, 
a tendência, no Brasil, é considerar o marketplace simples intermediador, encaixando a relação 
entre o consumidor e a plataforma já nos contornos estabelecidos pelo Código de Defesa do 
Consumidor. 
O caso das intermediadoras de consumo não está intimamente ligado a produção em 
série dos produtos ou serviço, tampouco os custos e benefícios dos mesmos, mas sim o valor 
que lucra por “aluguel” do espaço ao fornecedor para venda dos seus serviços e produtos. 
A plataforma é remunerada pela venda dos produtos de terceiros, intermediando a 
relação. Isto é, oferece sua plataforma para o público, lucrando por venda de produto ou serviço 
que não detém. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
100 
 
A responsabilidade dos intermediadores da relação de consumo em meio eletrônico 
decorre da violação do dever de segurança, além de que, na atuação de aproximação entre o 
consumidor e o fornecedor, é remunerado por percentual da venda, diretamente e/ou taxas de 
utilização do serviço. A responsabilidade do fornecedor pelo fato do produto ou do serviço na 
internet provém por danos decorrentes de atos ilícitos com fundamento no risco decorrente do 
desenvolvimento de sua atividade (MIRAGEM, 2018, p. 588). 
Mais adiante o referido autor (MIRAGEM, 2018, p. 676) afirma que os sítios eletrônicos 
que realizam anúncios ou intercambio ou aproximação de relações negociais participam do 
resultado econômico por lucro no percentual sobre os valores negociados, ou indiretamente, em 
vista da valorização da marca, formação de conceito economicamente avaliável, e informações 
de finalidade econômica ou promocional. 
Conclui o referido autor que os sítios eletrônicos de intermediação de consumo ou leilão 
virtual possuem os serviços caracterizados como objetos de relação de consumo, incidindo 
assim a responsabilização pelo fato do serviço, conforme o art. 14 do CDC analisado acima, 
pois presume o risco proveito de toda a cadeia de fornecedores vinculados à prestação. Inferi o 
autor que não importa se a vítima do dano foi parte ou não da relação de consumo, uma vez que 
o art. 17 do CDC preceitua os consumidores equiparados, em virtude do evento danoso causado 
por um acidente de consumo. 
 
3.2. A “lei do e-commerce” 
 
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) contém previsões expressas a respeito das 
obrigações e responsabilidades quanto ao fornecimento de produtos e serviços, cujas regras 
receberam relevantes adaptações através do Decreto 7.962/2013. 
O referido Decreto acrescentou novas regulamentações acerca do comércio eletrônico, 
como por exemplo a exigência das informações que identifiquem claramente o fornecedor 
(CNPJ, endereço), forma de atendimento, informações sobre a oferta, entrega dos produtos e 
serviços contratados. 
Amplia-se o acesso a informação e proteção do consumidor. 
Desta forma, segundo a legislação consumerista, o fato da operadora 
de marketplace atuar como intermediadora da negociação entre o anunciante e o consumidor a 
torna solidariamente responsável, equiparando-a ao fornecedor do serviço ou produto. 
Levanta-se a tese de que a Lei 12.965/14, "Marco Civil da Internet", traz em seu bojo 
normativo a expressa vedação de responsabilização civil ao provedor de conexão à internet 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
101 
 
por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros, o que, por analogia, aplicar-se-ia aos 
marketplaces. O referido diploma prevê ainda a "responsabilização dos agentes de acordo 
com suas atividades" e a "liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet" (art. 
3º, VI, VIII da lei 12.965/14). 
Essa interpretação não tem sido aceita, tendo em vista que a plataforma de marketplace 
não se confunde com a figura do provedor de acesso à internet. Os provedores de acesso a 
internet organizam a infraestrutura necessária para que um cliente da empresa consiga acesso 
à rede mundial de computadores, que não se confunde com uma plataforma orientada para 
aquisição de produtos e serviços. 
A tendência é no sentido de que quando há interação da plataforma de marketplace 
com os vendedores e consumidores, ela assume a posição de intermediador e, portanto, incide 
a disciplina do Código de Defesa do Consumidor. 
 Trata-se de medida que efetivamente protege o consumidor e, de alguma forma, 
equilibra seus poderes diante da plataforma e dos vendedores que compõem o marketplace. 
 
3.3. Os membros do marketplace 
 
Não está excluída da figura do marketplace, porém, a possibilidade de pessoa física 
realizar a venda de produtos na referida plataforma. 
Nesta situação, ocorre um dos maiores desafios da matéria envolvendo Direito do 
Consumidor, na medida em que a pessoa física, em tese, não se enquadra na figura de 
fornecedor que “desenvolve atividade”, conforme previsão do artigo 3º do CDC. Trata-se de 
um elo na corrente que pontualmente realizou um ato. 
Assim, é possível considerá-lo fornecedor e atrair o regime de proteção ao consumidor, 
entendendo que aquele vendedor episódico “desenvolve atividade” de “distribuição ou 
comercialização de produtos ou prestação de serviços”? Uma pessoa física que vende um 
equipamento esportivo numa plataforma de e-commerce pode ser enquadrada como fornecedor 
na forma da lei consumerista? 
Em se tratando de relação privada, não envolvendo consumidor, incide, no caso a 
liberdade das partes em contratar, prestigiada pelo Código Civil e fortalecida pela Lei 
13.874/2019. 
Porém, umarelação privada em que uma pessoa física retira um produto ou serviço da 
cadeia de consumo deve ser protegida pelo CDC, trata-se da destinação final, “destruição” 
(EFING, 1999, p. 53). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
102 
 
Este é um dos maiores desafios no âmbito do Direito do Consumidor, na medida em que 
não há uma resposta clara pelos operadores do Direito, diversamente dos outros pontos aqui 
estudados sobre a figura do marketplace. 
 
4. CONCLUSÃO 
 
A resistência dos agentes econômicos em digitalizar seus produtos, serviços e etapas de 
trabalho foi mitigada com a rápida disseminação do novo vírus. 
O comércio eletrônico foi claramente beneficiado, apesar das restrições sanitárias e 
sociais, na medida em que possibilitou que os consumidores adquirissem bens e produtos a 
ainda que na vigência do confinamento. 
 A relação da figura do shopping center com o marketplace é muito próxima e, se em 
alguns pontos diferenciam-se, em outros, aproximam-se. Tanto em um como em outro caso, 
facilita-se a compreensão dessa figura integrante do e-commerce. 
 Os agentes econômicos que compõem a plataforma de marketplace têm desenvolvido 
ativamente modelos contratuais e ferramentas para que protejam seus direitos no contexto de 
uma economia compartilhada. 
 A proteção do consumidor e o equilíbrio entre consumidor e fornecedor é um desafio 
nas relações privadas, principalmente num contexto de vasta digitalização de serviços. Se por 
um lado os agentes ativamente buscam formas de proteger seus direitos, como ocorre entre a 
plataforma e os sellers, por outro, não há essa proatividade em relação aos consumidores. 
Assim, a legislação de proteção do consumidor tem sido atualizada, principalmente por meio 
de atos infralegais, para amparar o consumidor num contexto de grande utilização do comércio 
eletrônico. 
Fica claro, pois, que a legislação de proteção ao consumidor é compatível com os novos 
arranjos empresariais, especialmente o ajuste chamado marketplace. 
 A evolução das tecnologias tem facilitado o ajuste das empresas, o que é compatível 
com o papel que a Constituição consagra à livre iniciativa, mas também é adequado com o 
mandamento constitucional que determina a proteção do consumidor. 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
103 
 
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Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
105 
 
A PANDEMIA E A SOCIEDADE DE CONSUMO: A OBSOLESCÊNCIA 
PROGRAMADA COMO FATOR DE VULNERABILIDADE DO 
CONSUMIDOR 
 
Cristiano de Moraes Franco1 
 
Resumo: Tendo em vista uma sociedade impulsionada pelo consumo, onde os fornecedores buscam o 
lucro máximo acima de qualquer coisa, o consumidor se vê desamparado no mercado de consumo ante 
as práticas utilizadas para manter a economia em movimento. Estas práticas buscam envolver o 
consumidor, sem que este perceba que esta sendo manipulado, para seguir as tendências previstas pelos 
fabricantes, por meio do uso exaustivo da publicidade visando alimentar o desejo dos consumidores e 
atingir suas metas de lucro. Nesse sentido, o objetivo deste artigo é contextualizar a obsolescência 
programada enquanto uma das práticas permeadas no mercado de consumo, analisando-se a 
vulnerabilidade do consumidor frente a este fenômeno e o seu agravamento durante a Pandemia da 
Covid-19. 
 
Palavras-chave: Mercado de consumo. Obsolescência programada. Consumidor. Vulnerabilidade. 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
 A estrutura econômica e os modelos de negócios adotados pelas sociedades modernas 
incentivam e impulsionam, em muitos casos, a prática comercial desenfreada, vertendo a 
estabilização financeira e a organização dos Estados na manutenção da sociedade no consumo 
de massa. 
Como passo natural da evolução humana e tecnológica, resultado da superação dos 
desafios impostospor difíceis momentos históricos, tais como conflitos territoriais, crises na 
produção e instabilidades econômicas, a indústria observa na sociedade de consumo as 
tendências pelas quais irá fomentar e criar necessidades de demanda sobre aqueles que 
consomem seus produtos e serviços. 
Dentro desta perspectiva observa-se o fenômeno da obsolescência programada como 
uma maneira da indústria movimentar o mercado de consumo, de modo a não deixar suas 
vendas em baixa, induzindo os consumidores a adquirirem produtos em espaços cíclicos de 
tempo, onde os fabricantes fazem com que os consumidores inclinem-se em acreditar na 
essencialidade dos seus produtos e serviços mais atuais para que possam permanecer ativos no 
convívio em sociedade, mesmo não sendo esta uma necessidade real. 
 
1 Advogado, graduado em Direito pela FMP (2012), pós-graduado em Direito do Consumidor e Direitos 
Fundamentais pela UFRGS (2014) e o em Direito Processual Civil pela PUCRS (2017). OAB/RS 95.121. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
106 
 
 Logo, o presente artigo busca compreender a vulnerabilidade do consumidor frente à 
técnica da obsolescência planejada e de que forma ela pode estar sendo utilizada durante a 
Pandemia da Covid-19. 
 
2. DEFININDO A OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA 
 
A busca pela retomada da economia em tempos de crises econômicas, tais como a que 
se vive hoje em razão do evento pandêmico causado pela Sars-Cov2 (Covid-19), tem como um 
de seus pilares a manutenção da livre circulação de mercadorias e da sociedade do consumo em 
massa. 
O sistema econômico que proporciona a sociedade baseada no consumo tem como 
características essenciais a produção em série de produtos (com ciclo de vida pré-estabelecido 
pelo fabricante), a formação de crédito para a massa social consumidora e a pressão publicitária 
para levar a massa a consumir ao máximo possível a produção (GOYTISOLO, 1968, p. 53), 
gerando o fenômeno da alegria em comprar ser maior que a alegria de possuir o bem ou de ter 
o serviço. 
Este é considerado o escopo fundamental para a constante necessidade de consumir: 
publicidade, crédito e obsolescência. Afinal, o consumidor é alvo e formador de tendências, 
cedendo suas necessidades instintivas àquelas criadas e promovidas pela cultura do consumo 
(MARCONDES FILHO, 1986, p. 146), sendo o ato de consumir uma “produção de uma 
felicidade etérea e efêmera, que ilude e abastece a pessoa por um curto espaço de tempo” 
(GONÇALVES, 2012, p. 470). 
Desta forma, a “riqueza”, baseada nos bens imateriais e pela informação, conduziu-nos 
ao aumento do consumo na sociedade, onde a maior parte do crédito se destinada ao consumo, 
pois, como lecionada Bauman, todo indivíduo é, antes de tudo, um ser consumidor, onde o 
consumo contínuo atrai valores que irão moldar as identidades dos indivíduos para que se 
sintam mais satisfeitos e incluídos na sociedade de consumo, visto que “numa sociedade de 
consumidores, todo mundo precisa ser, deve ser e tem que ser um consumidor por vocação” 
(BAUMAN, 2007, p. 73). 
 Esta sociedade envolvida no consumismo, fez com que o mercado passasse a valer-se 
da produção em série para a satisfação da angústia dos indivíduos pelo consumo e para 
corresponder à nova necessidade de distribuição em massa, de forma que o mercado econômico 
“passa a ser caracterizado por uma cultura de adesão, sem possibilidades de escolha” 
(CAVALCANTE, 2013, p. 74), de maneira que o consumidor se tornou o centro da economia 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
107 
 
contemporânea por estar cada vez mais autônomo no mercado de consumo, sobretudo pela 
ampliação e difusão do comércio eletrônico durante a Pandemia. 
 É sob este cenário que, com o intuito de ampliar suas vendas, e respectivamente seus 
lucros, em meados da Década de 1920, os fabricantes deram início à aplicação da obsolescência 
programada, ou planejada, em seus produtos, utilizando em suas linhas de produção novos 
critérios de qualidade, inferiores aos usualmente praticados, como forma de manter o mercado 
de consumo ativo (NEVES, 2013, p. 325). 
 Destaca-se que tal plano de negócio fora conceituado na Década de 1930 sob a ideia de 
que, com a obrigatoriedade da redução da vida útil dos produtos, a fragilizada economia 
americana, que buscava se reerguer após a Crise de 1929, iria reaquecer, justificando-se sua 
aplicação no sentido de que, por se tratarem de produtos com menos resistência, estes teriam 
um menor custo final ao consumidor e seriam mais acessíveis a uma faixa maior de uma 
população empobrecida e em crise, considerando-se que esta população sem poder de compra 
estava utilizando os seus bens por mais tempo, ao seu máximo, provocando o adiamento na 
retomada da economia baseada no consumo (CONCEIÇÃO; CONCEIÇÃO; ARAÚJO, 2014, 
p. 91/92). 
 Aliada a este conceito de redução de tempo de durabilidade e utilização do produto, em 
1950 passou a se compreender que a obsolescência poderia ser causada intrinsecamente no 
consumidor, teoria esta defendida pelo designer industrial norte-americano chamado Clifford 
Brooks Stevens. Sua definição consistia em criar o desejo do consumidor de ter algo um pouco 
mais novo, um pouco melhor, um pouco antes do que seria necessário, dando azo ao estilo de 
vida americano (NEVES, 2013, p. 331). 
 Isso fez com que os fabricantes começassem a fazer uso das ferramentas de 
comunicação para seduzir o consumidor a adquirir o que era novo, utilizando novos designs e 
funções a fim de fazer despertar no consumidor o seu desejo de ter consigo o que era tido como 
novidade, moderno, de melhor qualidade que o antigo e o que a grande massa de consumidores 
desejava ter ou já tinha, configurando-se a “obsolescência percebida, companheira da planejada, 
cujos objetivos são um só: a intensificação do consumo” (CONCEIÇÃO; CONCEIÇÃO; 
ARAÚJO, 2014, p. 92/93). 
Portanto, nas relações de consumo modernas, e diante da possibilidade de uso da 
obsolescência programada, é grande a possibilidade de que um produto, ao entrar na linha de 
produção, já possua uma estimativa de duração no tempo, a chamada vida útil, ou ainda, ciclo 
de vida. Este ciclo pode ser mais longo ou mais curto, e o que tem se tornando cada vez mais 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
108 
 
notório é que o tempo de vida útil dos produtos vem decaindo, sobretudo por haver excesso de 
oferta no mercado de consumo, isto é, vasta opção de bens disponíveis ao consumidor, e por 
vontade econômica do fabricante pela necessidade da economia em fluir. 
A indústria, portanto, se utiliza da obsolescência programada através de duas 
perspectivas: ou com o objetivo de reduzir o ciclo de vida de seus produtos, ou mesmo na 
criação de ciclos consideravelmente curtos, com base na projeção de novas necessidades ao 
consumidor, mas sempre buscando a movimentação do mercado e o controle do fluxo de 
produtos, uma vez que estes são desenvolvidos já pensados na sua substituição. 
Isto vai de encontro à concepção de que um cliente satisfeito não gera demanda, não 
adquire novos produtos, o que, por óbvia consequência, não gera lucros à indústria. 
Para Lipovetsky, “enquanto se acelera a obsolescência dirigida dos produtos, a 
publicidade e as mídias exaltam os gozos instantâneos, exibindo um pouco por toda parte dos 
sonhos do eros, do conforto e dos lazeres” (LIPOVETSKY, 2007, p. 36). 
É, neste contexto, que podemos observar a ocorrência do fenômeno dos “produtos 
tornarem-se rapidamente ultrapassados, seja pela necessidade do consumidor em comprar, [...], 
seja em razão de as empresas programarem a vida útil dessas mercadorias para períodos cada 
vez mais curtos” (CABRAL; RODRIGUES, 2012, p. 49). 
Conforme aponta Bruno Miragem (2014, p. 43), o avanço tecnológico das últimas 
décadas acarretou em dois efeitos imediatos sobre o mercado de consumo:Primeiro, uma ampliação do acesso a bens de consumo, tanto mediante a inclusão de 
novos consumidores (...) quanto no surgimento veloz de novos produtos . [...] 
Segundo, uma rapidez maior com que produtos adquiridos por consumidores tornam-
se obsoletos, em especial, pelas expectativas em relação à sua utilidade serem logo 
frustradas em razão de outros produtos que apresentam aperfeiçoamentos em relação 
ao original. 
 
 O que se observa é que nos novos produtos a ideia geral de durabilidade já não pode ser 
mais a mesma que a de algumas poucas décadas passadas, onde a obsolescência das coisas 
ocorria de um processo natural, “orgânico”. 
 Vê-se que a prática da indústria em fabricar produtos que tenham uma vida útil reduzida, 
já objetivando a sua substituição pelo consumidor, induzindo este a assim agir em razão de 
incisivas campanhas publicitárias, é uma das pilastras do consumismo, que faz com que a 
economia flua no mercado de consumo através da criação da necessidade nos consumidores 
para que almejem pelo novo, justificando tal medida pelas barreiras impostas à manutenção 
daquilo que é antigo, seja pela falta de insumos ou pelo alto custo em realizar o reparo. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
109 
 
Logo, para a indústria, a manutenção dos lucros com um bom nível de vendas, não 
ocorre tão e somente pela inclusão de novos consumidores no mercado de consumo, mas 
depende, sobretudo, dentro de uma ideologia mercadológica, da sistemática “substituição 
periódica dos produtos adquiridos por outros, para o que exigirá, necessariamente, a redução 
do seu ciclo de vida útil, de sua durabilidade” (MIRAGEM, 2014, p. 44). 
Nota-se aqui o cerne da obsolescência programada, que pode ser definida como a 
redução artificial da durabilidade ou funcionamento do produto quanto ao seu ciclo de vida, 
pela vontade de seu fabricante em aplicar uma estratégia negocial para que seja feita a 
substituição planejada daquele bem em uma frequência maior do que demandaria naturalmente 
(VIO, 2004, p. 193), estimulando, ou até mesmo obrigando, uma nova compra desta mercadoria 
ou sua substituição por novos modelos, podendo ser configurada de três maneiras: função, 
qualidade e desejabilidade. 
A obsolescência por função pode ser tida como a modalidade mais antiga e de maior 
ocorrência da redução da vida útil de um produto (CABRAL; RODRIGUES, 2012, p. 52), 
configurando-se como aquela cujo objetivo é tornar uma determinada mercadoria ultrapassada 
assim que um novo artigo é lançado e introduzido no mercado de consumo, com novas 
funcionalidades aparentes, também podendo ser denominada de obsolescência tecnológica, pois 
comumente sua aplicação recebe como pretexto o avanço de determinada tecnologia (que pode 
ocorrer de fato, ou não, hipótese de quando se percebe o uso de tal artifício para introduzir uma 
irreparabilidade artificial, na qual o consumidor não entende ser possível, ou ao menos razoável, 
a manutenção da função do produto adquirido). 
Já a obsolescência por qualidade, ou deterioração acelerada, ocorre quando o artigo é 
desenvolvido para tenha sua durabilidade mitigada, quebrando ou se desgastando em tempo 
inferior àquele esperado quando da sua aquisição. Ou seja, o fabricante introduz no mercado 
algo que sabe que poderia ter uma vida útil superior a que realmente tem, mas mantem o seu 
perecimento precoce com o intuito de incrementar suas receitas, sendo tal atitude passível de 
recriminações e sanções por não respeitar a garantia mínima estipulada em lei (PADILHA; 
BONIFÁCIO, 2013). 
Por sua vez, a obsolescência de desejabilidade, psicológica ou percebida, ocorre quando 
o produto se torna ultrapassado e imprestável, ainda que em condições perfeitas de uso pelo 
consumidor, mas este assim compreende em razão de lançamentos de itens similares com 
modificações de design, principalmente, tornando o item antigo menos desejado (CABRAL; 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
110 
 
RODRIGUES, 2012, p. 52). Ou seja, é quando o fabricante cria a percepção de desejo pelo 
novo no consumidor, que passa a precisar daquilo em razão da aceitação que terá na sociedade. 
 Fato é que, além de ser uma estratégia constantemente utilizada pela indústria, a 
obsolescência programada persevera na sociedade hiperconsumerista pela manutenção do 
modelo econômico adotado pela sociedade moderna, em que há excesso de produção e estímulo 
constante ao consumo sem que haja a prestação de informações claras ao consumidor final 
quanto à vida útil daquilo que adquire, fazendo-se prevalecer a ideia de poder e felicidade de 
ter algo novo sem questionar a sua qualidade e longevidade (HOLANDA; VIANA, 2018, p. 
112), notando-se o cumprimento estrito do objetivo dos fabricantes de criar um desperdício de 
algo desnecessariamente descartado mesmo que ainda pudesse cumprir com a sua finalidade, 
sendo oportuno verificar eventuais ilicitudes e ilegalidades na prática de tal política utilizada 
no fabrico de produtos forte à legislação consumerista. 
 
3. OS PRINCÍPIOS PROTETIVOS DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR EM 
RELAÇÃO À OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA 
 
É nítido que, atualmente, o consumidor se encontra diante de uma sociedade que 
convive com excessos, seja de produção, oferta ou publicidade, estando o mercado de consumo 
afetado pelo consumismo e pelas políticas industriais que objetivam o lucro em larga escala e 
em menor espaço de tempo. Para combater abusividades e ilegalidades àqueles que se 
caracterizam como a parte frágil desta relação, os princípios gerais do direito do consumidor, 
conferidos a partir do Código de Defesa do Consumidor, visam promover a correta 
interpretação e aplicação das regras que regulamentam tal relação. 
Nas relações de consumo, como sabido, o consumidor enquadra-se como a parte fraca, 
que demonstra fragilidade real e concreta decorrente de dois aspectos: um de ordem técnica e 
outro de cunho econômico (NUNES, 2011, p. 175), devendo haver uma busca pela igualdade 
diante da diversidade de vulnerabilidade a qual o consumidor está sujeito: técnica, jurídica, 
fática e informacional. 
 No que tange à verificada redução desejada da durabilidade de um produto como prática 
lesiva ao consumidor, percebe-se a necessidade de proteção daquele que aparece como a parte 
mais frágil na relação de consumo, com o objetivo de evitar uma relação ainda mais onerosa, 
injusta e desigual ao consumidor, posto que a política da obsolescência programada fere a boa-
fé e a confiança dos consumidores, os tornando vulneráveis a um fenômeno ocasionado por 
verdadeiro truque da indústria, que se vale de seu conhecimento técnico, afinal, arquiteta o 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
111 
 
produto sem prestar as informações necessárias capazes de evitar frustrações e erros por parte 
de quem irá consumir suas criações. 
 O princípio da boa-fé objetiva tem em seu núcleo a busca pela harmonia e transparência 
das relações de consumo, visando o equilíbrio entre os atos jurídicos celebrados entre 
consumidores e fornecedores. 
 Sob a temática da obsolescência programada, o princípio da boa-fé se vê ferido em razão 
do perecimento dos produtos tão logo finde sua garantia legal, tornando-se este um bem 
inutilizado ou por defeito insanável ou pela falta de peças de reposição, frustrando amplamente 
a perspectiva do consumidor àquela mercadoria (CABRAL; RODRIGUES, 2012, p. 41), 
deixando o fabricante de agir dentro dos parâmetros da honestidade e lealdade, em desacordo à 
prestação de informação qualificada para que o consumidor efetivamente compreenda no que 
está empenhando o seu dinheiro. 
 Na mesma ótica, o princípio da transparência objetiva uma relação mais sincera e menos 
danosa entre os agentes que celebram o contrato no mercado de consumo, com intuito de que o 
consumidor não adquira um bem sem ter as informações claras e precisas sobre a qualidade 
daquiloque está negociando e que satisfaça e seja adequado ao que pretende. 
 Por tal razão, o princípio da transparência deve ser compreendido como uma 
oportunidade do consumidor conhecer os produtos e serviços que são oferecidos e ao 
fornecedor de proporcionar conhecimento prévio do conteúdo a que se obrigará a entregar, não 
podendo fazer uso da publicidade para negligenciar informações, iludir e induzir o consumidor 
a erro, a fim de que este consuma algo pensando em uma durabilidade que não se mostrará 
verdadeira e condizente com a realidade (CABRAL; RODRIGUES, 2012, p. 42). 
 Por sua vez, o princípio do equilíbrio objetiva direitos e deveres que confiram equidade 
aos contratos, almejando a justiça contratual entre os contratantes da relação de consumo, 
fazendo uso de normas imperativas com o intuito de coibir cláusulas abusivas, que possam vir 
a oferecer vantagem a somente uma das partes, onde ocorram excessivos benefícios ao 
fornecedor, ou que tais cláusulas sejam incompatíveis com a boa-fé, sobretudo no que condiz 
ao equilíbrio econômico a ser perseguido diante da ocasião do ato abusivo do produto tornar-
se obsoleto e obrigar o consumidor a adquirir um novo (MIRAGEM 2013, p. 129). 
 Deve-se vislumbrar o equilíbrio nas relações de consumo juntamente com o princípio 
da confiança, de maneira que, ocorrendo uma inexecução de contrato, seja assegurado ao 
consumidor a sua troca ou seu ressarcimento, evitando-se riscos e prejuízos. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
112 
 
 Assim, em que pese as normas do Direito do Consumidor influenciem ações e medidas 
adotadas pelos fornecedores e agentes econômicos, temos que a proteção do consumidor frente 
à obsolescência programada recebe importante guarida principiológica, recaindo sobre os 
fornecedores os deveres de observância ao poder da livre iniciativa para que não recaiam em 
abusos e práticas condenáveis. 
 
4. A OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA SOB A ANÁLISE DO DIREITO DO 
CONSUMIDOR TENDO COMO PLANO DE FUNDO À PANDEMIA PELA SARS-
COV-2 (COVID-19) 
 
Com o surgimento do vírus Sars-CoV-2, conhecido popularmente por Covid-19, o 
mundo decretou estado de calamidade pública e adotou, como medida para frear a sua 
propagação, o isolamento social. E estas medidas de distanciamento social, adotadas 
massivamente, surtiram efeitos diretos no mundo do trabalho e nas formas de consumo. 
Isto porque as relações de trabalho e ensino, anteriormente desenvolvidas 
predominantemente de forma presencial, passaram a ser desenvolvidas de forma remota, o que 
ocasionou em mudanças significativas na forma de consumir, que anteriormente também 
ocorria com maior frequência pela presença física dos consumidores nos estabelecimentos 
comercias, ampliando de forma exponencial o consumo no formato e-commerce. 
O trabalho e o estudo, agora desenvolvidos em home office, gerou a necessidade de que 
os trabalhadores e estudantes “aparelhassem” as suas residências para que pudessem continuar 
a desenvolver as suas atividades, gerando uma grande procura por aparelhos eletrônicos, como 
notebooks, smartphones, mesas de trabalho e cadeiras ergonômicas, assim como, a sua 
permanência por maior tempo em casa ampliou exponencialmente a utilização de 
eletrodomésticos, gerando nesses consumidores a necessidade de adquirir novos aparelhos 
domésticos que antes não pareciam tão imprescindíveis 
Além da aquisição desses bens, a aquisição de produtos do gênero alimentício, 
farmacêutico e de vestuário, antes adquiridos essencialmente de forma presencial, passaram a 
ser adquiridos, predominantemente, de forma online. 
 Diante deste cenário, notadamente o evento pandêmico causado pela Sars-CoV-2 
(Covid-19) apontou um novo marco na era do consumo, com transformações significativas ao 
mercado e à sociedade, acarretando em um movimento de aceleração da obsolescência 
programada de diversos produtos, principalmente os eletrônicos e eletrodomésticos, que 
passaram a ter maior utilização por seus usuários no período de distanciamento social e uma 
chegada ainda mais breve à vida útil destes aparelhos. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
113 
 
A indústria, visando o lucro máximo, projeta suas criações já com a característica da 
durabilidade reduzida, seja pelo material empregado na fabricação, causando um desgaste mais 
rápido, ou seja, pela “reinvenção” dos produtos de nova geração, nada mais sendo que uma 
renovação de moda para movimentar o mercado de consumo, tornando as inovações não 
adaptáveis aos produtos antigos. 
Sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor (CDC) “o produto não é considerado 
defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado no mercado” (art. 12, § 2.º), 
mas apenas quando “não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-se em 
consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais sua apresentação, o uso e os riscos que 
razoavelmente dele se esperam e a época em que foi colocado em circulação” (art. 12, § 1.º, I, 
II, III). 
Neste ponto, ao considerar a obsolescência programada como uma política empresarial 
já sedimentada, a atuação de órgãos e instituições de defesa do consumidor para coibi-la é 
legítima, servindo para, conforme destaca Bruno Miragem (2014, p. 45): 
 
(...) verificar seus efeitos tanto no tocante à transparência da política de informação 
dos fornecedores sobre o uso de matérias-primas e outras informações relevantes do 
processo de fabricação e oferta ao mercado, quanto do efetivo benefício ao 
consumidor, mediante redução de preços, assim como a apuração de outros custos 
sociais e ambientais decorrentes da prática. 
 
 Dito isso, nota-se que eventual barreira à aplicação de políticas de redução artificial da 
durabilidade dos produtos ou do ciclo de vida de seus componentes, com o intuito de lhes 
diminuir o tempo estimado de vida útil e torna-los obsoletos, se daria com a inserção de normas 
reguladoras e proibitivas sobre esta prática perversa e lesiva à dignidade, segurança e dos 
interesses dos consumidores, isto é, com a implementação de expressa tipificação da 
obsolescência programada como prática abusiva. 
 Muito embora não haja previsão direta no texto legal e a realidade demonstre a 
ocorrência cada vez mais presente de produtos destinados a ter sua durabilidade artificialmente 
reduzida de maneira abusiva através da aplicação da obsolescência planejada aos produtos, 
existem movimentos legislativos para que o Código de Defesa do Consumidor receba 
atualizações pontuais sobre o tema. 
 É o que se verifica pelos Projetos de Lei 7.875/2017, 3.019/2019 e 1.791/2021, que 
tramitam na Câmara dos Deputados e o Projeto de Lei 2.833/2019, de tramitação junto ao 
Senado Federal. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
114 
 
 Mas importante perceber que, mesmo que o CDC se revele insuficiente para coibir tal 
estratégia ou até mesmo, quando necessário, reparar o dano, tal prática não pode ser vista com 
singeleza como parte do exercício regular da livre-iniciativa por parte dos fabricantes, posto 
que estes não cumprem com o seu dever de prestação de boa informação aos consumidores para 
que estes possam ter ciência da real expectativa a se ter sobre determinado bem. 
 Na prática, o que se verifica é que o consumidor fica à margem da vontade dos 
fabricantes em resolver o problema da reposição de peças ou de consertos para seus produtos, 
isso quando o fazem e não forçam o consumidor a adquirir um novo produto semelhante de 
mesma funcionalidade. 
 Aliás, no que tange à possibilidade de conserto dos produtos, é sabido ser de praxe das 
assistências técnicas a cobrança de valores elevados de custos e peças de reposição, isso quando 
há peças disponíveis para efetuar o conserto, como com o viés de inviabilizar o reparo e 
influenciar a aquisição de uma nova mercadoria, persuadindo o consumidor a desistir do 
produto antigo para substituí-loa fim de evitar dissabores ainda maiores (CABRAL; 
RODRIGUES, 2012, p. 52). 
 Considerando a obsolescência programada como uma política empresarial já 
sedimentada, tratando-se de uma estratégia negocial, 
 
(...) é inequívoca a legitimidade dos órgãos e instituições de defesa do consumidor 
(...) para verificar seus efeitos tanto no tocante à transparência da política de 
informação dos fornecedores sobre o uso de matérias-primas e outras informações 
relevantes do processo de fabricação e oferta ao mercado, quanto do efetivo benefício 
ao consumidor, mediante redução de preços, assim como a apuração de outros custos 
sociais e ambientais decorrentes da prática. 
 
 Sob este prisma é que se percebe a importância de uma necessária e expressa proteção 
ao consumidor à manutenção e propagação de tal prática comercial, afinal, a se ver 
impossibilitado de prolongar a vida útil de seus bens torna-se verdadeira vítima nesta sociedade 
da cultura do consumismo e de políticas tortas de desenvolvimento. 
 Embora seja uma prática de difícil identificação, por estarmos em uma sociedade de 
ordem jurídica fundada na livre iniciativa, como já visto, o fenômeno da obsolescência 
programada deve ser enfrentado, pois é um meio de atingir inúmeros direitos do consumidor e 
da sociedade como um todo. 
 Nota-se que a vulnerabilidade do consumidor frente a esta prática negocial está justo na 
falta de percepção da qualidade do produto que se adquire, não se sabendo se este cumprirá sua 
expectativa legítima de utilidade, algo que deveria ser esclarecido adequadamente no momento 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
115 
 
da escolha da mercadoria pelo consumidor, afinal, trata-se de informação básica que envolve a 
sua segurança. 
 Vê-se que a ideia de satisfação que o consumidor cria sobre o produto é encurtada por 
fatores exógenos aplicados pelos fabricantes que assim os arquitetam e os idealizam com a 
intenção de diminuir seu ciclo de vida útil, de maneira que o consumidor, inevitavelmente, será 
lesado em sua legítima expectativa. 
 Configura-se, assim, como uma vulnerabilidade técnica, uma vez que ao comprar o bem 
“o comprador não possui conhecimentos específicos sobre o objeto que está adquirindo e, 
portanto, é mais facilmente enganado quanto às características do bem ou quanto à sua 
utilidade” (MARQUES; MIRAGEM, 2012, p. 154). 
 Vejamos que o encurtamento do ciclo útil do produto ocorre ao frustrar uma expectativa 
real do consumidor sobre este bem, posto ser perfeitamente natural algo se tornar obsoleto 
através do desgaste natural ou pelo uso indevido. 
 Esta lesão, quanto a real e legítima expectativa do consumidor em ter produtos e serviços 
que satisfaçam sua vontade, atinge diretamente o princípio basilar da boa-fé objetiva, traçado 
no artigo 4° do Código de Defesa do Consumidor, bem como fica reforçado no inciso IV, do 
artigo 51, que expressamente torna nula as cláusulas que “estabeleçam obrigações consideradas 
iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou seja, 
incompatíveis com a boa-fé ou a equidade”. 
 E, como se não bastasse o consumidor estar sujeito a esta e tantas outras práticas 
abusivas no mercado de consumo, a Pandemia causada pelo vírus Sars-CoV-2, trouxe como 
incremento à prática da obsolescência programada a sua aceleração, isto é, o maior uso de 
aparelhos eletrônicos, como notebooks, smartphones, além de eletrodomésticos, como fogões 
e máquinas de lavar, por maiores períodos de tempo, seja em razão do trabalho ou estudo remoto 
e maior permanência em tempo de utilização, fez com que se criasse no consumidor uma 
necessidade irreal de consumir mais e além do que o necessário. 
 Neste ensejo, para que haja confiança entre os agentes que compõe a relação de 
consumo, necessário que exista lealdade recíproca. Esta lealdade, por parte do fornecedor, 
principalmente, se dá através da informação clara sobre a qualidade de produção e durabilidade 
de seus produtos e serviços, com o intuito de que não se criem expectativas incertas ao 
consumidor, de modo que este consuma ou não seus produtos conforme seus critérios de 
necessidade e conveniência. 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
116 
 
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
Finalizando, há de destacar a ideia inicial de que o Código de Defesa do Consumidor 
em muito tem contribuído para a proteção e salvaguarda dos consumidores nas relações de 
consumo. É certo que vivemos em um país que preza pela livre iniciativa econômica, dentro de 
um Estado Democrático, e que se exerce uma economia capitalista. 
 A realidade da sociedade de consumo hoje faz com que a demanda pelo lucro dos 
fornecedores os levem a fazer uso de práticas que fogem da boa-fé objetiva, conceituada como 
princípio básico dos contratos consumeristas, para trazer ao mercado produtos cada vez mais 
atrativos aos olhos dos consumidores, para que prefiram estes produtos dentro da forte 
concorrência do mercado. 
 Neste ponto, não há como deixar de constatar a importante situação de vulnerabilidade 
dos consumidores frente a estas inúmeras técnicas de persuasão para que consumam 
constantemente, levando a um devaneio social pelo consumo. Vê-se que as aquisições do 
consumidor não se restringem mais ao que lhe seja útil ou necessário no dia-a-dia, pois a 
indústria ao fazer uso de intensas operações publicitárias leva o consumidor a acreditar que 
“precisa” daquilo que lhe é ofertado para se sentir incluído na sociedade, pois acredita que tais 
bens ou serviços sejam imprescindíveis à sua vida e que somente assim atingirá o status 
necessário para que a sociedade como um todo o aceite. 
 Nota-se que a obsolescência programada se apresenta como uma prática que busca 
introduzir na sociedade uma política de rápido descarte de seus bens de consumo, uma vez que 
são utilizados por pouco tempo até que se tornem obsoletos, seja por falta de peças de reposição 
ou pelo desejo do consumidor em adquirir aquilo que é o novo, ou que ofereça alguma outra 
função. 
 Assim, em razão das alterações na forma de consumo geradas pela Pandemia, que passa 
a ser predominantemente um consumo por meios online, é possível verificar que a indústria 
consegue expandir as suas técnicas de publicidade para criar mais demanda e necessidade de 
novos produtos ao se utilizar da fragilidade do consumidor que estava acostumado a consumir 
de uma maneira tradicional, utilizando o momento de crise para sedimentar e permear a 
obsolescência programada de forma ainda mais acintosa. 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
117 
 
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Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
119 
 
 PUBLICIDADE REDACIONAL/NATIVA: ABUSO DA 
VULNERABILIDADE DO CONSUMIDOR NO MEIO EDITORIAL 
 
Fabrício Germano Alves1 
Mariana Câmara de Araújo2 
Pedro Henrique da Mata Rodrigues Sousa3 
 
Resumo: O desenvolvimento paulatino da tecnologia, aliado à busca constante por informações 
adequadas e verídicas, gera a necessidade, notadamente dos consumidores, de se informarem 
acerca dos mais variados assuntos. Mais ainda, nota-se que a facilidade que a informação é 
alcançada possibilita a diversidade de fontes consultadas, o que pode ser um problema quando 
determinadas técnicas publicitárias são utilizadas em meios alternativos. Nesse contexto, a 
publicidade redacional/nativa, inserida clandestinamente em meios editoriais, como jornais, 
documentários, entrevistas etc., quando não é facilmente identificada, pode vir a prejudicar o 
processo decisório dos consumidores, uma vez que estes não esperam a presença de campanhas 
publicitárias em espaços reservados apenas para fins informacionais. Assim, o empecimento da 
questão transita em torno, em primeiro, da premência pela captação dos consumidores, 
principalmente em contextos pandêmicos, de vulnerabilidade mental, física e informacional, e, 
em segundo, da impossibilidade de identificação de tal estratégia publicitária. A partir disso, de 
modo a explicitar a importância da temática para fins de proteção dos consumidores, objetiva-
se analisar as limitações jurídicas da utilização deste mecanismo publicitário, sobretudo, 
quando o discernimento dos consumidores sobre a percepção da publicidade no meio editorial 
entrava o seu processamento de informações. Para tanto, tem-se como procedimento 
metodológico a pesquisa de natureza aplicada, com abordagem qualitativa e hipotético-
dedutiva, e objetivo descritivo. À vista disso, conclui-se que a vulnerabilidade dos 
consumidores reside na ausência de identificação da publicidade nativa/redacional, mormente 
em períodos pandêmicos, com base no princípio da identificação publicitária previsto nas 
regulamentações consumeristas e publicitárias. 
Palavras-chave: Consumidor; publicidade nativa; identificação publicitária; períodos 
pandêmicos. 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
Em meio à era da informação, a partir da disseminação constante e facilitada sobre fatos 
e acontecimentos do cotidiano, matérias, documentários, notícias e reportagens adquiriram um 
destaque elevado. Nessa perspectiva, a busca pela informação verídica e adequada influenciou 
 
1 Advogado (OAB/RN 6318). Especialista em Direito do Consumidor e Relações de Consumo (UNP). Mestre e 
Doutor pela Universidad del País Vasco / Euskal Herriko Unibertsitatea (UPV/EHU) – Espanha. Professor da 
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). E-mail: fabriciodireito@gmail.com 
2 Acadêmica do Curso de Graduação em Direito do CCSA da Universidade Federal do Rio Grande do Norte 
(UFRN). Bolsista de Iniciação Científica do Projeto de Pesquisa intitulado Proteção jurídica do consumidor no 
comércio eletrônico (marketplace). E-mail: marrie.camara@yahoo.com.br 
3 Acadêmico do Curso de Graduação em Direito do CCSA da Universidade Federal do Rio Grande do Norte 
(UFRN). Aluno de Iniciação Científica do Projeto de Pesquisa intitulado Proteção jurídica do consumidor no 
comércio eletrônico (marketplace). E-mail: pedro.damatta@outlook.com.br 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
120 
 
o discernimento de diversos cidadãos para com a percepção sobre a realidade, ou seja, percebe-
se que as fake news (notícias falsas) não são mais uma problemática urgente, uma vez que a 
averiguação/verificação de informações se tornou mais descomplicada devido ao acesso à 
internet e a matérias jornalísticas de noticiários com integridade e credibilidade. 
 Em contrapartida, ao se beneficiarem da credibilidade adquirida em razão do processo 
de disseminação de informações verídicas, diversas ferramentas jornalísticas passaram a abrir 
espaço para a publicidade furtiva, disfarçada, dissimulada, clandestina (que não permite sua 
identificação pelos consumidores). De modo mais específico, nota-se que o meio editorial, 
favorecido pela atenção constante de incalculáveis consumidores, tornou-se, paulatinamente, 
um espaço oportuno para inserir peças publicitárias disfarçadas de notícias ou, até mesmo, 
ocultadas por estas. 
Mais ainda, avista-se que a publicidade redacional, também chamada de publicidade 
nativa, pode vir a ser potencializada em meio a períodos pandêmicos e de isolamento social, 
quando as informações relativas à saúde individual e coletiva são essenciais para o pleno 
desenvolvimento dos indivíduos. 
Nessa conjuntura, é oportuno destacar que o empecimento da questão se relaciona a dois 
pontos: a) a utilização de ferramentas e de meios alternativos, no meio editorial, que incitam o 
consumo, potencializada em contextos pandêmicos, de premência pela informação; e b) a 
dificuldade/impossibilidade de identificação publicitária, neste meio, por parte dos 
consumidores, os quais têm o seu processo decisório prejudicado devido à dificuldade de 
distinção entre notícia e publicidade. 
 Assim, considera-se que o entendimento sobre a temática é um fator primordial para a 
percepção da publicidade nativa no meio editorial pelo consumidor, isto é, torna-se necessário 
analisar este mecanismo publicitário devido à sua relevância para o público consumerista que, 
por diversas vezes, pode confundir matérias jornalísticas com campanhas publicitárias 
disfarçadas, fato que prejudica seu processo decisório. 
 A partir da menção da problemática e da importância quanto à tal espécie publicitária, 
tem-se como finalidade fulcral analisar os limites jurídicos para a utilização da publicidade 
redacional como ferramentade incitação ao consumo do público leitor/telespectador, 
principalmente com base no princípio da identificação da publicidade instituído pelo Código de 
Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990). De fato, objetiva-se verificar 
estas limitações uma vez que podem ser inseridos anúncios publicitários em matérias 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
121 
 
jornalísticas, em noticiários, em entrevistas informativas etc., notadamente em períodos 
pandêmicos, quando a informação alcança patamares mais elevados. 
 Para tanto, como procedimentos metodológicos, serve-se de pesquisa de natureza 
aplicada, com abordagem qualitativa e hipotético-dedutiva, além de possuir objetivo descritivo. 
Para mais, com base na necessidade de inserir a discussão no contexto da relação jurídica de 
consumo e da publicidade, utiliza-se das técnicas de coleta de pesquisa padrão – leitura 
informativa por seleção de modo interpretativo (LAKATOS; MARCONI, 2021) – de 
doutrinas/literatura jurídica referentes ao Direito das Relações de Consumo e ao Direito 
Publicitário. 
 Por fim, no que tange à estruturação, segmenta-se em dois tópicos. O primeiro insere na 
discussão o conceito de consumidor equiparado com o fito de incidir devidamente a aplicação 
do Código de Defesa do Consumidor, uma vez configurada a relação jurídica de consumo por 
exposição do consumidor à publicidade. Mais ainda, tal tópico também define a publicidade, a 
título de contextualização, e apresenta as diretrizes para a compreensão conceitual da 
publicidade nativa/redacional. 
 No segundo, por sua vez, a partir dos critérios normativos constantes no Código de 
Defesa do Consumidor, no Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária e no Código 
Consolidado da Câmara de Comércio Internacional sobre Práticas de Publicidade e 
Comunicação Comercial, é caracterizada a abusividade da publicidade redacional/nativa e, 
além disso, a discussão é inserida em possíveis condições de contextos pandêmicos e de 
isolamento social, quando a informação verídica é de extrema necessidade e constantemente 
buscada em meios editoriais, a saber, jornais, documentários, entrevistas etc. 
 
2 PUBLICIDADE E PUBLICIDADE REDACIONAL/NATIVA 
 
Embora a relação jurídica seja um dos elementos mais essenciais e importantes da 
experiência jurídica (REALE, 2013), o legislador optou pela não delimitação expressa da sua 
conceituação no Código de Defesa do Consumidor, ou seja, da conceituação da relação jurídica 
de consumo. Desse modo, para que haja a efetiva compreensão da sua significância, faz-se 
necessária a análise em conjunto dos elementos que a formam, sendo estes: os elementos 
subjetivos, caracterizados pelas figuras do consumidor e do fornecedor; o objeto, em referência 
ao produto ou ao serviço, e o elemento causal ou finalístico, relacionado à destinação final do 
objeto (ALVES, 2014). 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
122 
 
 Para efeitos de conveniência temática, toma-se como foco principal, nessa primeira 
abordagem, a figura do consumidor e as suas definições legais presentes no Código de Defesa 
do Consumidor (CDC). A primeira é proveniente do art. 2º, caput¸ dessa legislação, o qual, de 
maneira stricto sensu, define consumidor como sendo “toda pessoa física ou jurídica que 
adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final”, ou seja, adquire ou utiliza bens 
ou serviços em seu próprio benefício, satisfazendo, assim, seus anseios e necessidades 
(BENJAMIN; MARQUES; BESSA, 2020). 
 Há também presente no CDC a figura do consumidor equiparado, o qual, de maneira 
lato sensu, é caracterizado pelo parágrafo único do art. 2º como sendo “a coletividade de 
pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo”. Ademais, 
também integram tal rol de definições os textos dos arts. 17 e 29, ambos do Código de Defesa 
do Consumidor, os quais asseveram, respectivamente, que “para os efeitos desta Seção, 
equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento” e que “equiparam-se aos 
consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas”, 
dentre as quais estão às práticas publicitárias. 
 Em outra perspectiva, para percepção do fornecedor e do objeto da relação de consumo, 
há de se compreender a publicidade como sendo um conjunto de ferramentas com o objetivo 
primordial de informar e convencer o público como forma de estímulo ao consumo (SOUSA; 
ALVES, 2020); assim, de certa forma, a publicidade conta como uma influência capaz de 
persuadir o consumidor (AMA, 2017) na aquisição de produtos e serviços, pois as funções da 
prática publicitária se relacionam, de todo modo, a apelos de ordem lógica e psicológica com o 
fito de convencimento e persuasão dos consumidores (DIAS, 2018). 
 Com base nas considerações acerca das figuras equiparadas da classe consumerista, há 
de se relacionar tais designações com a publicidade, de forma a haver o pleno reconhecimento 
de uma relação jurídica de cunho consumerista, pois, somente assim, haverá a compreensão do 
caráter das campanhas publicitárias quanto à sua influência para com a decisão do consumidor 
no que tange ao consumo de produtos e de serviços. 
 Diante dessa premissa, observa-se que o Código de Defesa do Consumidor, ao denotar, 
em seu art. 29, que uma das formas de equiparação à figura consumerista é referente àqueles 
consumidores expostos às práticas previstas no Código (BRASIL, 1990a), promove, em síntese, 
a regulamentação da publicidade, uma vez que as “práticas previstas no Código” podem ser as 
práticas publicitárias enganosas e de cunho abusivo que influem negativamente no processo 
decisório do consumidor. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
123 
 
 À vista disso, sob tal percepção, dentro do âmago do estudo da publicidade, revela-se 
imprescindível o estudo das publicidades redacional e nativa, supostamente vistas como 
furtivas e abusivas, portanto, pertinentes ao conteúdo adotado. Assim, convém destacar o 
conceito de publicidade denominada redacional ou dissimulada, que é configurada quando o 
anúncio é veiculado de maneira disfarçada, seja uma matéria de cunho editorial online ou 
impressa em jornais, revistas e outros meios de comunicação das massas (SILVA, 2002). 
 Este tipo de publicidade pode ser caracterizado como sendo uma forma de veiculação 
cujo anúncio passa para o seu público-alvo a impressão de ser isenta e revestida de objetividade, 
de maneira que os leitores são influenciados a pensar que determinada publicidade é, na 
verdade, um informativo ao público, sem qualquer interesse econômico diretamente exposto 
(PASQUALOTTO, 1997). Tal forma de comunicação publicitária é veiculada nos meios 
regulares de produção de conteúdo que fazem parte dos veículos de comunicação, ocultando, 
de toda forma, o seu verdadeiro caráter publicitário (MARQUES; BENJAMIN; MIRAGEM, 
2019). 
 O Código de Defesa do Consumidor, em seu âmago, não se deteve a dispor de maneira 
expressa nenhuma normativa que fizesse menção à publicidade redacional. No entanto, infere-
se que o microssistema de proteção consumerista busca coibir esse tipo de publicidade, uma 
vez que rechaça qualquer forma de comunicação publicitária que tenha o propósito de confundir 
o consumidor (ALVES, 2020), de acordo com o art. 30 do Código Brasileiro de 
Autorregulamentação Publicitária (BRASIL, 1980) e com o art. 36, caput, CDC, o qual 
determina que a publicidade deve ser facilmente identificada. 
 Já a publicidade nativa (native advertising) diz respeito aos anúncios pagos que estão 
correlacionados ao conteúdo de determinada página, sendo assimilados pelo design, de forma 
que o usuário é influenciado a pensar que tal publicidade pertence à página (ALVES, 2016). 
Assim, entende-se que, para ser considerado de fato uma publicidade nativa, o anúncio tem de 
estar totalmente de acordo com o conteúdo,de tal maneira que o leitor não perceba que está 
sendo alvo de uma campanha publicitária. 
 Logo, com fulcro na importância da publicidade nas práticas relacionadas ao consumo, 
uma vez que estas despertam no consumidor mais interesse de compra, ressalta-se a 
problemática dessa prática publicitária quando for utilizada de forma abusiva diante da 
vulnerabilidade da figura do consumidor nos meios editoriais, como jornais, entrevistas etc. 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
124 
 
3 ABUSIVIDADE DA PUBLICIDADE REDACIONAL/NATIVA EM PERÍODOS 
PANDÊMICOS 
 
Em resposta ao fomento e à disseminação do mercado de consumo para o maior 
contingente de pessoas possíveis, a publicidade é utilizada como uma ferramenta que incita a 
aquisição e a utilização de produtos e serviços (ALMEIDA, 2009), uma vez que a sua natureza 
impende a necessidade de informar o público consumidor, de forma a convencê-lo e a persuadi-
lo, facilitando o ímpeto de consumo de bens e de serviços (SANTOS, 2000). 
 Assim, resta comprovada que a atuação da publicidade é uma forma muito eficiente de 
angariar benefícios para a ampliação da cultura consumerista. No entanto, em seu exercício, a 
prática publicitária também pode trazer alguns malefícios ao grupo consumidor, principalmente 
quando assume uma postura de caráter abusivo, enganando a figura consumidora e exercendo, 
manifestamente, um abuso de direito. 
 
3.1 Publicidade como prática abusiva 
 
 É notório que a massa populacional que figura o polo consumerista de uma relação de 
consumo não consegue diferenciar, em sua integralidade, uma publicidade com um teor 
verdadeiro de um falso, haja vista que as pessoas buscam ilusões e subterfúgios, sendo, 
portanto, alienados neste tipo de relação (FREUD, 2011). Desse modo, a parcela dominante, 
isto é, o polo que abarca os fornecedores, pode se utilizar dessa fragilidade informacional e 
perceptiva do consumidor sobre o que vem a ser real e irreal para veicular campanhas 
publicitárias que influenciam ainda mais o processo decisório. 
 Diante dessa premissa, percebe-se que a utilização da publicidade redacional/ nativa 
pode ser vista como forma de ludibriar o interesse e a decisão de compra da massa populacional 
às custas da sua fragilidade informacional no que diz respeito às práticas publicitárias. Assim, 
tais tipos de publicidade podem ser considerados abusivos, uma vez que se utilizam de uma 
vulnerabilidade da classe consumidora para influenciá-la indevidamente. 
 Ao considerar que a publicidade é oriunda do direito constitucional à liberdade de 
iniciativa posto pelo art. 170, caput, (BRASIL, 1988), tem-se que as ações que se aproximam 
do teor dos atos ilícitos passam a ser consideradas abusivas ao consumidor e ao mercado de 
consumo. Assim, a atuação do fornecedor não poderá incidir em abuso de direito, pois, assim, 
de acordo com o art. 187 do Código Civil, restará configurado o ato ilícito (BRASIL, 2002). 
 Observa-se, portanto, que a publicidade é amparada constitucionalmente dentro dos 
limites da livre iniciativa, todavia, o seu excesso, caracterizado como abusividade, poderá 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
125 
 
ensejar a responsabilização dos sujeitos envolvidos. Nesse sentido, tem-se as práticas abusivas 
como ações, condutas ou posturas que agridem o consumidor, notadamente na fase pré-
contratual, a qual a publicidade está inserida (NUNES, 2018), de maneira a acarretar prejuízo 
ao consumidor (OLIVEIRA, 2019), desrespeitando direitos e princípios estabelecidos no 
Código de Defesa do Consumidor. 
 Em se tratando dos princípios consumeristas, o art. 4º do CDC, em seu inciso VI, expõe 
a coibição e repressão a todos os abusos praticados no mercado de consumo, inclusive aqueles 
que podem causar prejuízos aos consumidores (BRASIL, 1990a). A publicidade 
nativa/publicidade redacional se encaixa nos parâmetros desse texto normativo, uma vez que 
se configura como abusiva devido à sua dificuldade de identificação. 
 Não obstante, revela-se também a importância do inciso IV do art. 6º do Código de 
Defesa do Consumidor, o qual caracteriza expressamente como um dos direitos básicos do 
consumidor “a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais 
coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no 
fornecimento de produtos e serviços”. Ademais, nessa linha, considera-se proibida toda 
publicidade enganosa ou abusiva, mediante os dizeres do art. 37, caput, do CDC (BRASIL, 
1990a) 
 Nesse ínterim, uma publicidade será tida como abusiva quando, em seu âmago, a for de 
caráter discriminatório de qualquer natureza, que incite violência, explore medos ou 
superstições, aproveite-se da deficiência de julgamento e da experiência da criança, desrespeite 
valores ambientais ou, ainda, que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma 
prejudicial ou perigosa à sua saúde ou à sua segurança, de acordo com o art. 37, §2º do CDC. 
O referido dispositivo apresenta um rol de natureza exemplificativa e não taxativa, o que 
implica dizer que não prevê expressamente todas as espécies de publicidade que podem ser 
consideradas abusivas (ALVES, 2020). 
 
3.2 Princípio da identificação publicitária em relação à publicidade redacional/nativa 
 
 Nesse viés, percebe-se que a veiculação dos anúncios publicitários deve ser pautada 
pelo princípio da clareza, da ostentação, isto é, pelo princípio da identificação da publicidade 
(JACOBINA, 1996). Tal princípio viabiliza a noção de que a publicidade deverá ser 
disseminada de forma a ser compreendida em seu caráter publicitário, ou seja, deverá um 
anúncio revelar explicitamente o seu teor como publicidade, de modo que o público esteja 
consciente que está sendo alvo de uma campanha dessa natureza. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
126 
 
O princípio da identificação da publicidade tem o objetivo primordial justamente de 
garantir a supressão das formas abusivas veiculadas pelas campanhas publicitárias, estas que 
ludibriam o consumidor com uma mensagem publicitária propositalmente furtiva, oculta ou 
simulada (DENSA, 2014), como a publicidade redacional/nativa. 
O caput do art. 36 do Código de Defesa do Consumidor prevê o princípio da 
identificação da publicidade quando institui que “a publicidade deve ser veiculada de tal forma 
que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal” (BRASIL, 1990a). Não 
somente, o art. 28 do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária também consagra 
este princípio quando expõe que “o anúncio deve ser claramente distinguido como tal, seja qual 
for a sua forma ou meio de veiculação” (BRASIL, 1980). 
Ademais, como complemento, o art. 9º do Código Consolidado da Câmara de Comércio 
Internacional sobre Práticas de Publicidade e Comunicação Comercial prevê não apenas a 
necessidade da publicidade ser identificada facilmente, mas busca a garantia de que o 
anunciante também tenha a sua própria identificação de modo explícito, especificando que 
“quando um anúncio é difundido em um meio que contenha notícias ou matéria editorial, deve 
ser apresentado de forma a que possa ser facilmente reconhecido como anúncio, e a identidade 
do anunciante deve ser evidente” (BRASIL, 2006). 
Diante disso, impera a necessidade de uma peça publicitária ser reconhecida pelo 
consumidor como tal, e, notadamente em períodos pandêmicos, como o causado pela pandemia 
da COVID-19, responsável pela necessidade de isolamento social e pela busca por informação 
relacionadas à saúde e ao bem-estar populacional, deve-se levar na mais alta consideração o 
disposto no art. 36, §2º do CDC, o qual frisa que é abusiva, dentre outras, a publicidade que 
“seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à saúde” 
(BRASIL, 1990a). 
Nesse contexto, nota-se que, em virtude da proliferação excessivade casos de infecção 
pelo coronavírus, por exemplo, diversas diretrizes foram editadas e estabelecidas com o intuito 
de evitar o aumento desenfreado no número de casos e, consequentemente, no número de 
mortes. Sob esse prisma, a propaganda, que possui o objetivo puramente informativo, 
diferentemente da publicidade (ALVES, 2020), exerce um papel ativo muito importante: o de 
transmitir as informações e as regras a serem seguidas para o bom funcionamento social dentro 
da situação pandêmica atual. 
O consumidor, notadamente, já se utiliza do meio publicitário para a busca de 
informações sobre produtos/serviços, e essa atitude, dentro de um período de pandemia, é ainda 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
127 
 
mais frequente, uma vez que as pessoas procuram, na propaganda, informativos que dizem 
respeito à saúde, bem como as restrições impostas pelas autoridades. Assim, os consumidores, 
que confundem a publicidade com a propaganda, mais ainda nos meios jornalísticos, são alvos 
da publicidade nativa/redacional em virtude da dificuldade de identificação. 
A grande problemática a esse respeito, porém, vige em torno do caráter abusivo de 
alguns tipos de publicidade, como a redacional e nativa, as quais não propiciam ao consumidor 
a integralidade de informações e a percepção imediata de seu teor publicitário. Sendo assim, o 
consumidor, vulnerável em sua própria natureza na relação jurídica de consumo, ao adentrar na 
busca por informações importantes no dado momento, não consegue identificar o anúncio 
publicitário como tal, tendo, portanto, a sua vulnerabilidade agravada em razão da abusividade 
da publicidade, o que pode acarretar danos psicológicos e, muitas vezes, físicos à figura do 
consumidor, notadamente em períodos de pandemia. 
 
3.3 Responsabilidade civil, administrativa e penal dos agentes 
 
À vista disso, no que se refere às maneiras de responsabilização dos agentes das 
campanhas publicitárias, seja o fornecedor anunciante, as agências publicitárias ou, até mesmo, 
os veículos de comunicação, há de se perceber três vertentes da responsabilidade: civil, 
administrativa e penal. 
Em primeiro lugar, nota-se que a responsabilidade civil – considerada como decorrente 
de um ato de omissão ou de comissão, seja doloso ou culposo, que cause dano a outrem 
(GONÇALVES, 2021) – é eduzida do próprio Código de Defesa do Consumidor, o qual 
regulamenta as relações de consumo, à medida que, no seu artigo 12, aborda, como regra geral, 
a apuração da responsabilidade por fato ou dano de modo objetivo, uma vez que independe da 
comprovação de culpa stricto sensu ou dolo do agente. 
De fato, percebe-se que o referido Código não exige a verificação acerca das intenções 
do fornecedor, em razão de as publicidades enganosas e abusivas já serem consideradas ilícitas 
por si só – artigo 37 (BRASIL, 1990a). Neste caso, relativo a campanhas publicitárias, a 
aferição da responsabilidade civil funciona como um mecanismo de garantia dos direitos dos 
consumidores (ALVES; SOUSA, 2021). 
Em segundo lugar, tem-se a responsabilidade administrativa – verificada quando, por 
omissão ou comissão, determinado agente causa dano a outrem no exercício de suas funções e 
de seu cargo (DI PIETRO, 2020) –, mas de igual teor à responsabilidade civil. Assim, de 
maneira mais específica, no que se refere ao ambiente publicitário para configurar o cargo de 
fornecedor anunciante, de agência publicitária ou de veículo de comunicação, nota-se que o 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
128 
 
dano aos consumidores dar-se-á quando as campanhas publicitárias vierem a lesar o processo 
decisório destes, por exemplo, à medida que ficam impossibilitados de identificar a publicidade 
nativa nos meios editoriais. 
A responsabilização administrativa pode se efetivar igualmente com fundamento nas 
disposições constantes no Código de Defesa do Consumidor. Ela é exercida por órgãos que 
possuem poder de polícia, tais como os PROCONs, a Defensoria Pública ou o Ministério 
Público, que também possuem competência para atuar na tutela coletiva do consumidor. 
Para regulamentar a responsabilidade no campo ético, avista-se o artigo 46 do Código 
Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária (CBAP), que possibilita a responsabilização de 
diretores e de qualquer outro cargo em uma firma, companhia ou instituição que sejam parte do 
planejamento, da criação, da execução e/ou da veiculação de um anúncio ou de uma campanha 
publicitária. Além disso, tal Código regulamenta, de modo especifico, a responsabilidade dos 
três protagonistas da atividade publicitária, quais seja, anunciante, agência publicitária e veículo 
de divulgação – artigo 45, alíneas “a”, “b” e “e”, respectivamente (BRASIL, 1980). 
Em terceiro lugar, por último, para a caracterização da responsabilidade penal, incide, 
principalmente, o próprio Código de Defesa do Consumidor, o qual tutela as relações de 
consumo de modo imediato ou mediato. Este, diretamente, objetiva proteger as relações de 
consumo de acordo com o artigo 61 do mencionado Código (BRASIL, 1990a) e, 
especificamente, com o artigo 7°, caput, da Lei n° 8.137/1990 (BRASIL, 1990b). Aquele, 
indiretamente, possui a finalidade de resguardar os bens previstos nos artigos 63 ao 74 do 
Código (BRASIL, 1990a) e nos incisos do artigo 7° da referida Lei (BRASIL, 1990b). 
Dessa forma, evidencia-se que há diversas alternativas para responsabilizar os agentes 
publicitários, os veículos e os fornecedores anunciantes com o fito de proteger os consumidores 
e as relações de consumo, uma vez constatada a publicidade nativa ao considerar a sua não 
identificação por parte dos consumidores expostos a ela, notadamente em períodos assolados 
por pandemias, na medida em que a busca por informação se torna constante. 
 
5 CONCLUSÃO 
 
A publicidade passou a ser veementemente discutida pelas sociedades, notadamente por 
causa das suas mais diversas formas de aparição no mercado de consumo com o fito principal 
de incitar os consumidores. A partir disso, com o objetivo de proteger e salvaguardar, então, 
tais consumidores expostos às práticas publicitárias, é de extrema importância utilizar o Código 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
129 
 
de Defesa do Consumidor, o qual apresenta e define a incidência a partir da consideração dos 
seus elementos capazes de configurar a relação jurídica de consumo. 
De fato, para a incidência do Código, é necessário que os seus elementos essenciais 
sejam considerados, quais sejam, o consumidor, o fornecedor, o produto/serviço e a destinação 
final. Logo, o primeiro pode ser visualizado como aquele exposto às práticas publicitárias, de 
acordo com o art. 29 do citado Código; o segundo, por sua vez, quando relacionado à 
publicidade, pode ser o agente publicitário ou o fornecedor-anunciante; o terceiro é o 
produto/serviço ao qual o consumidor é exposto por meio das campanhas publicitárias, e o 
último elemento é referente à utilização do produto/serviço para uso próprio/final. 
Dessa maneira, uma vez caracterizado o consumidor por equiparação, exposto à 
publicidade, de modo geral, esta é responsável por incitar o consumo e por tentar persuadir 
determinado consumidor a adquirir produtos/serviços. De modo mais específico, tem-se o 
conceito da publicidade nativa/redacional quando determinada campanha publicitária é 
veiculada no meio editorial/jornalístico ou em websites de notícias e de entrevistas de cunho 
informacional, ou seja, a peça publicitária é inserida neste contexto informativo sem que o 
consumidor perceba, o que lesa o seu processo decisório devido a não identificação da 
publicidade. 
Nessa perspectiva, então, de busca informacional por parte dos consumidores, 
principalmente em períodos pandêmicos, quando a necessidade de informações relativas à 
saúde é de extrema relevância, a publicidade nativa/redacional pode ser utilizada demaneira 
indiscriminada para influenciar o consumidor a adquirir produtos/serviços justamente nesse 
contexto de vulnerabilidade acentuada. 
É por este motivo que o princípio da identificação publicitária é de fulcral importância 
para regulamentar a utilização desta espécie de publicidade. Esse princípio está previsto em 
diversas determinações como ferramenta para coibir anúncios publicitários que lesam os 
consumidores, quais sejam, no art. 36, caput, do Código de Defesa do Consumidor, no art. 28 
do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária e, mais ainda, no art. 9º do Código 
Consolidado da Câmara de Comércio Internacional sobre Práticas de Publicidade e 
Comunicação Comercial. Tais normatizações preveem exatamente a vedação de anúncios 
publicitários que dificultem a sua identificação por parte do público consumerista, o que se 
aplica perfeitamente à publicidade nativa/redacional. 
Posto isso, com a utilização da técnica de publicidade nativa/redacional no meio 
editorial/jornalístico, uma vez que ausência de identificação publicitária prejudica o processo 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
130 
 
decisório racional dos consumidores, nota-se que existem maneiras de responsabilizar os 
sujeitos envolvidos na campanha publicitária, quais sejam, no meio civil, no administrativo e 
no penal. 
Em primeiro, no âmbito civil, deve-se responsabilizar tais agentes por meio do Código 
de Defesa do Consumidor, notadamente dos artigos 12 e 37, os quais dispõem sobre 
responsabilidade objetiva, sem a necessidade de aferição de dolo ou de culpa stricto sensu, e 
sobre as publicidades ilícitas, respectivamente. Em segundo, no âmbito administrativo, nota-se 
que a responsabilidade reside no dano a outrem, e pode ser concretizada por uma das 
autoridades competentes, a exemplos dos PROCONs e do Ministério Público. Em terceiro, no 
penal, a responsabilidade é assegurada igualmente pelo próprio Código de Defesa do 
Consumidor e pela Lei n° 8.137, quando são salvaguardados bens jurídicos relativos às relações 
de consumo, como omitir informações ou promover peças publicitárias abusivas. 
Assim, é perceptível que a publicidade nativa é um problema referente à 
ausência/impossibilidade de identificação, pelos consumidores, de campanhas publicitárias 
veiculadas nos meios jornalísticos, que pode ocorrer ou ser acentuada em períodos pandêmicos, 
de vulnerabilidade social, quando a busca por informação é constante devido ao necessário 
isolamento social. 
 
REFERÊNCIAS 
 
ALMEIDA, João Batista de. A proteção jurídica do consumidor. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 
2009. 
 
AMA. American Marketing Association. 2017. Disponível em: 
https://www.ama.org/thedefinition-of-marketing-what-is-marketing/. Acesso em: 16 jun. 2021. 
 
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Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
133 
 
OS PRINCÍPIOS CONSUMERISTAS COMO ESCUDO ÀS PRÁTICAS 
ABUSIVAS EM MEIO A PANDEMIA DA COVID-19 
 
João Vitor Martins David1 
Marcelo Melchior2 
 
Resumo: O tema deste artigo trata da importância que a aplicação dos princípios do direito do 
consumidor como amparo na seara de aplicação do código de defesa do consumidor. O objetivo 
desta temática se dá pela necessidade de transparência entre as relações de consumo, bem como 
a sua importância para que os consumidores não sejam enganados ou mesmo prejudicados pela 
sua ausência, ainda mais em se tratando dos tempos pandêmicos que se enfrenta. A justificativa 
da pesquisacorresponde à possibilidade de escolha entre a melhor opção defensiva para o 
resguardo dos direitos do consumidor. A pesquisa, por sua vez, manteve-se na linha teórica, com 
ênfase na pesquisa bibliográfica, buscando na doutrina os conceitos e entendimentos abordados. 
Assim sendo, os dados coletados foram tratados de forma qualitativa e descritiva analítica. 
Relativo ao método de interpretação dos dados será utilizado o método hipotético-dedutivo. No 
que diz respeito à visão geral do artigo, abordará a aplicação dos princípios norteadores do 
código de defesa do consumidor como escudo às práticas abusivas na pandemia. Desse modo, 
pode-se concluir que os princípios são extremamente importantes e indispensáveis para as 
relações de consumo como forma de garantir ao consumidor todas as informações e diretrizes 
defensivas possíveis para o resguardo de seus direitos, tendo em vista a sua condição de 
hipossuficiência e como instrumentos defensivos aos abusos dos fornecedores de insumos 
essenciais em plena pandemia do COVID-19. 
 
Palavras-chave: princípios – código de defesa do consumidor – formas de proteção. 
 
INTRODUÇÃO 
 
O presente artigo científico fará uma análise da aplicação dos princípios norteadores das 
relações de consumo, respaldadas pela constituição e principalmente frente ao código de defesa 
do consumidor. 
Como objetivo geral, buscam-se apresentar os diversos direitos que possuem os 
consumidores em suas relações, com ênfase na aplicabilidade princípios como instrumentos de 
resguardo do direito do consumidor na pandemia do COVID-19. 
Deste modo, o presente artigo justifica-se pela importância de compreender o papel que 
estes princípios ocupam dentro do Código de Defesa do Consumidor, partindo desde a sua 
origem constitucional até as suas aplicações contemporâneas na seara consumerista. 
 
1 Bacharel em Direito pela Fundação Educacional Machado de Assis – FEMA Santa Rosa/RS, pós-graduando em 
advocacia tributária pela EBRADI, e em Direito Civil e Processo Civil pela Faculdade LEGALE, advogado 
inscrito na OAB sob nº 120.126/RS. E-mail: advogadojoaodavid@gmail.com 
2.Bacharel em Direito pela Fundação Educacional Machado de Assis – FEMA Santa Rosa/RS, pós-graduando em 
Direito Constitucional Aplicado pela Faculdade LEGALE. E-mail: marcelomelchior@outlook.com 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
134 
 
Além disso, é vital pesquisar e inteirar-se sobre a extensão do tema e sua relação com 
todo o ordenamento jurídico brasileiro da qual a constituição serve de base, donde se buscam os 
conceitos para exemplificar a aplicação cotidiana. 
A pesquisa em questão qualifica-se primeiramente como pesquisa teórica, visto que 
explana conceitos referentes aos princípios das relações de consumo, sendo que as 
considerações e análises foram concebidos através da exploração e coleta de dados em livros, 
artigos científicos e na legislação aplicada ao tema. 
 
1 CONCEITUAÇÃO DE PRINCÍPIO 
 
Imperioso conceituar a palavra princípio, para que se verifique a importância que tal 
vocábulo tem no ordenamento jurídico. Logo, princípio tem como sinônimos as palavras 
início e origem, isto é, donde tudo se começa sendo a base das demais fontes do direito. 
Assim sendo, princípios, para Miguel Reale Júnior, são como: 
 
[...] verdades ou juízos fundamentais, que servem de alicerce ou de garantia de certeza 
a um conjunto de juízos, ordenados em um sistema de conceitos relativos à dada 
porção da realidade. Às vezes também se denominam princípios certas proposições, 
que apesar de não serem evidentes ou resultantes de evidências, são assumidas como 
fundantes da validez de um sistema particular de conhecimentos, como seus 
pressupostos necessários. (REALE, 1986, p. 60). 
 
Da mesma forma, segundo Luís Roberto Barroso: 
 
[...] são o conjunto de normas que espelham a ideologia da Constituição, seus 
postulados básicos e seus fins. Dito de forma sumária, os princípios constitucionais 
são as normas eleitas pelo constituinte como fundamentos ou qualificações essenciais 
da ordem jurídica que institui. (BARROSO, 1999, p. 147). 
 
Adverte Celso Antônio Bandeira de Mello: 
 
Princípio - já averbamos alhures - é, por definição, mandamento nuclear de um 
sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre 
diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata 
compreensão e inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalização do 
sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. É o 
conhecimento dos princípios que preside a intelecção das diferentes partes 
componentes do todo unitário que há por nome sistema jurídico positivo [...]. Violar 
um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção 
ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas 
a todo o sistema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou de 
inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque representa 
insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais, 
contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra. Isto 
porque, com ofendê-lo, abatem-se as vigas que os sustêm e alui-se toda a estrutura 
nelas esforçada. (MELLO, 2000, p. 747-748). 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
135 
 
Conforme se verifica, princípio é donde provêm os ideias, as primeiras formas de 
conceituação de ato e fato, ou seja, o núcleo de todo um ordenamento jurídico, concebido no 
âmago das culturas de determinada sociedade. 
Ainda, a própria lei que instituiu o Código de Defesa do Consumidor é tida pela 
doutrina com uma norma principiológica, visto que possui proteção constitucional dos 
consumidores, frente ao art. 5° XXXII da CF. Nesse sentido Tartuce e Neves afirmam: 
 
A Lei n. 8.078 é norma de ordem pública e de interesse social, geral e principiológica, 
o que significa dizer que é prevalente sobre todas as demais normas especiais 
anteriores que com ela colidirem. As normas gerais principiológicas, pelos motivos 
que apresentamos no início deste trabalho ao demonstrar o valor superior dos 
princípios, têm prevalência sobre as normas gerais e especiais anteriores. 
(TARTUCE; NEVES, 2014, p. 28). 
 
Ressalvada a importância dos princípios para todo o ordenamento jurídico, parte-se para 
a análise pontual de cada um dos princípios norteadores do direito consumerista, sendo eles: 
Boa-fé objetiva, Vulnerabilidade e Hipossuficiência do consumidor, Transparência e confiança 
nas relações de consumo e o princípio da Publicidade. 
 
1.1 PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA 
 
A boa-fé se trata de uma conduta atrelada a lealdade, o que significa dizer que as 
relações de consumo devem ser pautadas pela honestidade e a lealdade, vocábulos que são 
sinônimos da boa-fé. Assim, a boa-fé objetiva está previsto no art. 4º, III, CDC. 
A melhor descrição do princípio é o que apresenta Flávio Tartuce: 
 
[...] harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e 
compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento 
econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios nos quais se funda a 
ordem econômica (art. 170 da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e 
equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores. (TARTUCE, 2020, p. 89). 
 
Analisando os ensinamentos do nobre doutrinador acima citado, se verifica que o 
objetivo do princípio apresentado é a busca pelo justo equilíbrio e uma harmonia entre as partes 
que se relacionam entre consumidores e fornecedores. 
Além do mais, a objetividade do princípio da boa-fé trata-se de uma evolução do 
conceito, saindo do plano abstrato (intenção) adentrando o campo da concretude (atuação do 
homem) conforme distingue Flávio Tartuce:Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
136 
 
Como é notório, a boa-fé objetiva representa uma evolução do conceito de boa-fé, que 
saiu do plano psicológico ou intencional (boa-fé subjetiva), para o plano concreto da 
atuação humana (boa-fé objetiva). Pelo conceito anterior de boa-fé subjetiva, relativo 
ao elemento intrínseco do sujeito da relação negocial, a boa-fé estaria incluída nos 
limites da vontade da pessoa. Esse conceito de boa-fé subjetiva, condicionado 
somente à intenção das partes, acaba deixando de lado a conduta, que nada mais é do 
que a própria concretização dessa vontade. E como se sabe, conforme o dito popular, 
não basta ser bem intencionado, pois de pessoas bem intencionadas o inferno está 
cheio. (TARTUCE, 2020, p. 89-90). 
 
Outrossim, o dever da boa-fé objetiva, ainda que previsto no art. 4º, III do CDC, é um 
dever ético, o que o torna uma obrigação inerente a qualquer negócio jurídico. Ademais, 
imperioso ressaltar os deveres anexos à boa-fé objetiva, tais como: dever de agir com 
honestidade e com razoabilidade, dever de transparência, informação, lealdade e probidade, 
sendo que alguns deles estão previstos no art. 6º do CDC, dispositivo que trata dos direitos dos 
consumidores. 
 
1.2 Princípio da vulnerabilidade e hipossuficiência do consumidor 
 
Ademais, outros importantes princípios da relação de consumo são os princípios da 
vulnerabilidade e da hipossuficiente do consumidor. Nesse ponto, a legislação consumerista 
busca dar equidade à relação de consumo, uma vez que ampara o consumidor armando-o e 
protegendo-o material e processualmente por meio do dispositivo legal que é o Código de 
Defesa do Consumidor. 
A desigualdade entre consumidor e fornecedor é notória e um dos exemplos dessa 
desigualdade é a possibilidade da inversão do ônus probatório no decurso da demanda 
processual. Outro exemplo está na responsabilidade objetiva do fornecedor, bastando ao 
consumidor demonstrar o fato, o dano e nexo de causalidade entre o fato e o dano causado ao 
mesmo. 
Portanto, é imprescindível tal tratamento material e processual dado a relação de 
consumo, ao passo que a equidade é a solução para reequilibrar esse negócio jurídico. O que se 
vê na importância que Flávio Tartuce dá à temática: 
 
Com a mitigação do modelo liberal da autonomia da vontade e a massificação dos 
contratos, percebeu-se uma discrepância na discussão e aplicação das regras 
comerciais, o que justifica a presunção de vulnerabilidade, reconhecida como uma 
condição jurídica, pelo tratamento legal de proteção. Tal presunção é absoluta ou iure 
et de iure, não aceitando declinação ou prova em contrário, em hipótese alguma. 
(TARTUCE, 2020, p. 89-90). 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
137 
 
Além do mais, essa equidade é verificada nas decisões judiciais que preceituam e 
aplicam os princípios abordados, no claro entendimento da desproporcionalidade de condições 
jurídicas entre consumidor e fornecedor. Importante demonstrar a real aplicabilidade dos 
princípios, pois são artifícios realmente usados na prática, não permanecendo apenas no campo 
teórico, o que se vê a partir da decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul: 
 
APELAÇÃO. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE CIVIL. 
INTERRUPÇÃO NO FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA. BENEFICIO 
DA GRATUIDADE DE JUSTIÇA. PERDA DA QUALIDADE DO FUMO. FALTA 
DE GERADOR. CULPA CONCORRENTE NÃO COMPROVADA. DANOS 
MATERIAIS CONFIGURADOS. - A falta de impugnação ou recurso em relação a 
concessão do benefício da Gratuidade de Justiça no momento correto gera a preclusão 
temporal que impede o conhecimento por este Tribunal. Ademais, não apresentado 
nas contrarrazões nenhum fato superveniente a justificar a revogação da gratuidade, 
razão de sua manutenção. - No caso em tela plenamente aplicável o CDC uma vez que 
o autor, ainda que não seja o destinatário final do serviço, é pequeno produtor rural, 
encontrando-se em situação de vulnerabilidade frente ao fornecedor. - A 
responsabilidade civil da requerida é objetiva com base no art. 37, § 6º, da CF e art. 
14 do CDC, bastando a comprovação do dano e do nexo de causalidade. - A 
interrupção da energia elétrica causou diversos danos suportados pela parte autora e 
que, frente a comprovação do nexo causal devem ser ressarcidos integralmente. - 
O consumidor não tem obrigação de adquirir um gerador próprio para socorre-lo no 
caso de ineficiência do serviço fornecido pela ré, pois tal exigência seria a 
transferência da responsabilidade de fornecer um serviço eficiente da concessionária 
para os usuários. - Para efeitos de prequestionamento, consideram-se incluídos no 
acórdão os elementos suscitados pela parte ré. GRATUIDADE DA JUSTIÇA DA 
PARTE APELANTE MANTIDA. APELAÇÃO PROVIDA. UNÂNIME.(Apelação / 
Remessa Necessária, Nº 50018416420208210007, Sexta Câmara Cível, Tribunal de 
Justiça do RS, Relator: Gelson Rolim Stocker, Julgado em: 27-05-2021) (grifou-se) 
 
Por conseguinte, os princípios trazidos à discussão têm viés protetivo aos consumidores. 
Além disso, são realmente aplicados às lides consumeristas, o que torna o dispositivo com 
respaldo maior para com os usuários, visto que o disposto na lei é respeitado e aplicado no 
campo empírico. 
 
1.3 Princípio da publicidade 
 
Outrossim, segundo Vidal Serrano Nunes Júnior, publicidade é: “o ato comercial de 
índole coletiva, patrocinado por ente público ou privado, com ou sem personalidade, no âmago 
de uma atividade econômica, com a finalidade de promover, direito ou indiretamente, o 
consumo de produtos e serviços” (NUNES, 2001, p. 22-23). 
Ainda segundo o mesmo autor, são quatro os aspectos fundamentais da publicidade: o 
material, o subjetivo, o conteudístico e o finalístico. Aspecto material por se tratar de 
acontecimentos da comunicação social, embora nem toda comunicação social integre o 
conceito de publicidade. Aspecto subjetivo por ser bancada por instituições públicas ou 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
138 
 
privadas, personalizadas ou não. Aspecto conteudístico por possuir uma vinculação econômica. 
E aspecto finalístico por ter como objeto direta ou indiretamente a promoção da venda de 
produtos e serviços por meio de uma divulgação efetiva (NUNES, 2003, p. 114). 
Portanto, as relações de consumo têm como premissa a venda de produtos ou a prestação 
de serviços entre fornecedores e consumidores. A publicidade envolve sempre a venda de 
produtos ou a prestação de serviços de forma direta ou indireta. Na publicidade direta ou 
proporcional, o preço ou forma de pagamento de um produto ou serviço é divulgado na mídia, 
enquanto na publicidade indireta ou institucional, apenas o nome da empresa é exibido, o que 
não impede a promoção de empresas de serviço de produtos negociadas por terceiros. 
Com relação à definição de produtos e serviços, o artigo 3º do Código de Defesa do 
Consumidor nos seus §1º e 2º que trazem a conceituação legal de produto e serviço, que é: 
 
Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou 
estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de 
produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, 
distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. 
§ 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial. 
§ 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante 
remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, 
salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. (BRASIL, 1990). 
 
Os fornecedores podem ser entendidos como fabricantes, produtores, importadores 
comerciantes e prestadores de serviços, enquanto os consumidores são as pessoas que compram 
ou usam produtos ou serviços como o destinatário final, isto é, utilizam-se do produto/serviço 
para o seu benefício, sem qualquerintenção de repasse ou revenda. 
No entanto, há outro conceito de consumidor conforme a legislação consumerista, que 
são os consumidores por equiparação. Essa ideia baseia-se no sentido de que para implementar 
uma legislação destinada ao consumidor, está deve amparar todos os indivíduos, sejam eles 
determinados ou não, desde que estejam sujeitos às práticas comercias, devendo ser 
considerados como consumidores por equiparação, sujeitos à reparação em caso de dano. 
(NUNES, 2003, p. 114). 
Obviamente, o objetivo desse conceito é garantir que a partir da vigência das disposições 
da Lei de Defesa do Consumidor, mesmo que garanta meios legais para quem não pagou por 
produtos ou serviços, deve assegurar sua eficácia. 
O princípio da publicidade é essencial para o direito. Assim sendo, não se pode falar em 
seguridade nas relações jurídicas, sem que os jurisdicionados possuam realmente o direito de 
usufruir e fiscalizar a sua aplicabilidade. Destarte, não há exercício de cidadania sem que o 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
139 
 
Estado assegure tal direito, trazendo isso para a temática deste artigo, a sua negativa colocaria 
em risco a seguridade e confiabilidade jurídica dos negócios jurídicos, visto que isto seria um 
retrocesso para o Direito. 
Primeiramente é necessário destacar a base constitucional que o princípio da publicidade 
possui, na qual a Constituição Federativa do Brasil no seu artigo 37 narra: "A administração 
pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e 
dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, 
publicidade e eficiência [...]". Fica clara a intenção do legislador em propagar tais ideias sobre 
as demais legislações infraconstitucionais. (BRASIL, 1988). 
Um exemplo da aplicabilidade desta publicidade, dentro do Código de Defesa do 
Consumidor é o princípio da vinculação contratual da publicidade, contido no artigo 30 e 35: 
 
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por 
qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos 
ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra 
o contrato que vier a ser celebrado. 
Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, 
apresentação ou publicidade, o consumidor poderá, alternativamente e à sua livre 
escolha: 
I - exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou 
publicidade; 
II - aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente; 
III - rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente 
antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos. (BRASIL, 1990). 
 
Portanto, o nível do contrato, as diretrizes incluem o princípio da publicidade 
vinculativa. A publicidade é uma questão jurídica verdadeiramente unilateral porque obrigou 
os fornecedores a cumprirem suas promessas desde a propagação. 
O artigo 36 do mesmo Código traz as obrigações que os fornecedores têm para com os 
consumidores, com a seguinte redação: 
 
Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e 
imediatamente, a identifique como tal. 
Parágrafo único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, 
em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos 
e científicos que dão sustentação à mensagem. (BRASIL, 1990). 
 
Outro exemplo fácil de constatar, a importância de tal princípio é o da veracidade, 
presente no artigo 37 do mesmo Código, em que o legislador se preocupou em punir a 
publicidade enganosa com a seguinte redação: “É proibida toda publicidade enganosa ou 
abusiva”. Esta legalidade apresenta duas formas, por comissão ou por omissão. Em anúncios 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
140 
 
de comissões enganosas, os fornecedores afirmam que certas declarações podem estar 
incorretas, o que pode enganar os consumidores. Já na forma omissiva os patrocinadores não 
confirmam o conteúdo relevante de uma determinada maneira e também induzem os 
consumidores a cometerem erros. (BRASIL, 1990). 
Ainda dentro do mesmo artigo, tem-se a proibição de qualquer forma de discriminação 
que uma publicidade possa apresentar, necessitando assim de um padrão ético e extremo 
cuidado nas informações inseridas nos mesmo. 
Portanto, é fácil de perceber a preocupação em que o legislador teve em proporcionar a 
faculdade e a necessidade de informar os consumidores sobre seus direitos. Reconhecendo 
assim a hipossuficiência e a vulnerabilidade que esta relação jurídica entre fornecedores e 
consumidores possui. Desta forma instituiu um código recheado de normas e princípios para o 
seu controle, onde se destaca a publicidade, por onde o legislador agiu para coibir quaisquer 
modalidades de anúncios enganosos ou abusivos, para resguardar a boa-fé dos consumidores. 
 
2 DAS PRÁTICAS ABUSIVAS 
 
No que se refere às práticas abusivas nas relações de consumo, imperioso ressaltar o que 
se trata de prática abusiva, abusividade e abuso de direito. Todos esses termos estão 
relacionados entre si, encontram conceituações próximas ao passo que servem de fundamentos 
mútuos. 
Nesse sentido, as práticas abusivas não são atos ilícitos, muito pelo contrário, são atos 
legais, pautados na legislação, porém praticados com excesso, ou seja, o exercício de um direito 
legalmente previsto, porém usado de maneira excessiva capaz de causar dano a outrem. 
Assim disciplina Rizatto Nunes: 
 
[...] a prática real do exercício dos vários direitos subjetivos acabou demonstrando 
que, em alguns casos, não havia ato ilícito, mas era o próprio exercício do direito em 
si que se caracterizava como abusivo. A teoria do abuso do direito, então, ganhou 
força e acabou preponderando. (NUNES, 2018, p. 403). 
 
Ainda, são consideradas práticas abusivas, todas as formas de atividade dos 
fornecedores no mercado de consumo, que apresentam características contrárias ao estabelecido 
nas normas reguladoras, isto é, que estão em desacordo com o ordenamento jurídico, no caso 
em tela, brasileiro. 
Neste ínterim, aborda Bruno Miragem: 
Por práticas abusivas considera-se toda a atuação do fornecedor no mercado de 
consumo, que caracterize o desrespeito a padrões de conduta negociais regularmente 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
141 
 
estabelecidos, tanto na oferta de produtos e serviços, quanto na execução de contratos 
de consumo, assim como na fase pós-contratual. Em sentido amplo, as práticas 
abusivas englobam toda a atuação do fornecedor em desconformidade com padrões 
de conduta reclamados, ou que estejam em desacordo com a boa-fé e a confiança dos 
consumidores. (MIRAGEM, 2020, p. 273). 
 
No tocante a origem histórica do conceito de abuso de direito, este tem início no Direito 
Romano, estando intimamente ligado com a intenção de prejudicar outro indivíduo, sendo 
aplicado de maneira mais abrangente às relações de vizinhança, conforme traz Flavio Tartuce: 
 
A respeito das raízes históricas do conceito, sinaliza Renan Lotufo que o abuso de 
direito decorre da aemulatio do Direito Romano, ou seja, do “exercício de um direito, 
sem utilidade própria, com a intenção de prejudicar outrem”, cuja aplicação ampliada 
atingiu as relações de vizinhança. Na mesma linha, San Tiago Dantas demonstra que 
o abuso de direito encontra origens no Direito Romano, principalmente nos conceitos 
de aequitas e no ius honorarium. (TARTUCE, 2021, p. 356). 
 
Avançando no tema, sabe-se que no abuso de direito tem interpretação equivalente no 
Código Civil Brasileiro, a partir da análise do artigo 927, caput. A legislação busca 
analogamente gerar o dever de indenizar a partir de uma nova interpretação deste artigo, 
comparando o abuso de direito ao ato ilícito stricto sensu, conforme explica FlávioTartuce: 
 
Tal dispositivo já revolucionou a visualização da responsabilidade civil, trazendo 
nova modalidade de ilícito, também precursora do dever de indenizar. O abuso de 
direito é tratado pelo Código Civil de 2002 como um ilícito equiparado, pelo que 
consta do art. 927, caput, da mesma codificação. De acordo com o último comando, 
“aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a 
repará-lo”. Como se percebe, a norma compara o abuso de direito ao ilícito puro, ao 
colocar o art. 187 ao lado do art. 186, dando tratamento equivalente a ambos para os 
fins de gerar o dever de reparar. Trata-se do ilícito indenizante, na classificação 
atribuída a Pontes de Miranda. (TARTUCE, 2021, p. 356). 
 
Assim, as práticas abusivas estão previstas no artigo 39 do Código de Defesa do 
Consumidor, elencando em um rol exemplificativo, todas as situações tidas como abusos de 
direito dos fornecedores, se tratando de exemplificativo para que não sejam engessadas as 
possibilidades, ofertando maior amplitude à aplicação da norma e maior segurança aos 
consumidores. 
Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas 
abusivas: 
I - condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro 
produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos; 
II - recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas 
disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade com os usos e costumes; 
III - enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou 
fornecer qualquer serviço; 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
142 
 
IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, 
saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços; 
V - exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva; 
VI - executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa 
do consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes; 
VII - repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo consumidor no 
exercício de seus direitos; 
VIII - colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo 
com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas 
não existirem, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade 
credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade 
Industrial (Conmetro); 
IX - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se 
disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de 
intermediação regulados em leis especiais; 
X - elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços. 
XI - Dispositivo incluído pela MPV nº 1.890-67, de 22.10.1999, transformado em 
inciso XIII, quando da conversão na Lei nº 9.870, de 23.11.1999; 
XII - deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a 
fixação de seu termo inicial a seu exclusivo critério 
XIII - aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente 
estabelecido; 
XIV - permitir o ingresso em estabelecimentos comerciais ou de serviços de um 
número maior de consumidores que o fixado pela autoridade administrativa como 
máximo. 
Parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos remetidos ou entregues ao 
consumidor, na hipótese prevista no inciso III, equiparam-se às amostras grátis, 
inexistindo obrigação de pagamento. (BRASIL, 1990). 
 
A importância da definição de que o rol de práticas abusivas, trazidos pelo Código de 
defesa do consumidor, seja exemplificativo, uma vez que toda e qualquer ação que esteja em 
desacordo com a norma jurídica estará amparada pelo ordenamento, fato que, se taxativo fosse, 
o rol estaria engessado às mudanças sociais. Assim, para que seja configurada a prática abusiva, 
deve-se atentar à violação do princípio da boa-fé e da própria confiança do consumidor. 
É o que referenda Bruno Miragem: 
 
A referência e a proibição das práticas abusivas no CDC têm caráter exemplificativo, 
admitindo, além do que expressamente foi previsto pela legislação (em especial, o rol 
do artigo 39), o reconhecimento de diversos comportamentos que por sua natureza, 
ou pelo fato de se darem nocurso de uma relação de consumo, caracterizam-se como 
violadores da boa-fé e da confiança dos consumidores. A natureza da abusividade da 
conduta dos fornecedores, neste particular, observa-se tanto pelo exercício de uma 
posição dominante na relação jurídica (Machtposizion), quanto pela contrariedade da 
conduta em exame aos preceitos de proteção da confiança e à boa-fé. (MIRAGEM, 
2020, p. 273) 
 
A conceituação das práticas abusivas apresenta os parâmetros do Código Civil, numa 
clara manifestação baseada no diálogo das fontes, sendo eles: o fim social e econômico, a boa-
fé objetiva e os bons costumes, tendo como a principal consequência no campo consumerista, 
a responsabilidade objetiva do fornecedor. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/MPV/Antigas/1890-67.htm#art9
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9870.htm#art39xiii
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
143 
 
Ademais, as práticas abusivas estão presentes igualmente no artigo 51 do Código de 
Defesa do Consumidor, de forma complementar, pois prevê as cláusulas abusivas. Assim, toda 
a matéria que for contratual está amparada no artigo 51, já os casos extracontratuais estão 
amparados no artigo 39, ambos da Lei 8.078/90, conforme apresenta Flavio Tartuce: 
 
Além disso, deve-se compreender o art. 39 do CDC como em um diálogo de 
complementaridade em relação ao art. 51 da mesma norma. Deve haver, assim, um 
diálogo das fontes entre as normas da própria Lei Consumerista. Nesse contexto de 
conclusão, se uma das situações descritas pelo art. 51 como cláusulas abusivas ocorrer 
fora do âmbito contratual, presente estará uma prática abusiva. Por outra via, se uma 
das hipóteses descritas pelo art. 39 do CDC constituir o conteúdo de um contrato, 
presente uma cláusula abusiva. Em suma, as práticas abusivas também podem gerar a 
nulidade absoluta do ato correspondente. (TARTUCE, 2021, p. 358). 
 
A presente pesquisa se ateve ao inciso X do artigo 39 do Código de Defesa do 
Consumidor, visto que foram recorrentes as práticas abusivas de elevação substancial do preço 
de produtos essenciais à proteção do ser humano no combate à pandemia do novo corona vírus 
– COVID-19. 
Imperioso ressaltar que a Lei 8.078/90 não possui o condão de limitar e determinar o 
preço dos produtos e serviços. Ocorre que o aumento do preço, independentemente de qualquer 
elemento razoável que justifique tal mudança do preço trata-se de uma ação coibida pelo 
dispositivo legal. 
Assim, a justa causa está relacionada com as boas práticas, com a boa-fé objetiva e 
também com os bons costumes, princípios protetivos da relação de consumo. Portanto, há um 
parâmetro a ser obedecido, trata-se dos índices da inflação, sendo que todo o aumento muito 
superior à inflação, há presunção de abusividade da conduta, conforme Antônio Herman de 
Vasconcellos e Benjamin: 
 
A regra, então, é que os aumentos de preço devem sempre estar alicerçados em justa 
causa, vale dizer, não podem ser arbitrários, leoninos ou abusivos. Em 
princípio, numa economia estabilizada, elevação superior aos índices de inflação cria 
uma presunção – relativa, é verdade – de carência de justa causa. (VASCONCELLOS 
& BENJAMIN, 2021, p. 534). 
 
Diversos foram os casos de aumentos exacerbados dos preços de materiais e produtos 
essenciais no combate ao novo corona vírus. Órgãos de proteção do consumidor de diversos 
estados brasileiros registraram aumento de até 1000% (hum mil por cento) nos preços de álcool 
em gel e máscaras, produtos altamente eficazes contra a disseminação do vírus, entre fevereiroe abril de 2020, período em que foram identificados os primeiros casos positivos de brasileiros 
contaminados. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
144 
 
Esses aumentos de preços não apresentam uma justificativa plausível, uma vez que se 
tratam de crescimentos desproporcionais sobre produtos essenciais, além de que ocorrem em 
momento de extrema vulnerabilidade e hipossuficiência dos consumidores. 
A situação se verifica a partir de estudos do PROCON/RS que apresentam relatos dos 
mais variados produtos que aumentaram com o advento da pandemia do novo corona vírus, 
onde resta caracterizada a prática abusiva com a demonstração do aumento do preço sem que 
haja relevantes aumento nos custos do produto: 
 
Ressalta-se, para que haja aumento abusivo dos valores são obrigados os fornecedores 
e comerciantes aumentem os valores sem qualquer tipo de aumento no custo do 
produto ou que venham se aproveitar de situações de desastres, como foram os casos 
dos itens de prevenção: luvas, máscaras e álcool em gel. Nesse caso, o consumidor 
que se sentir lesado deve procurar e relatar o fato ao PROCON e até mesmo ao 
Ministério Público Estadual. As empresas que elevarem os valores de mercadores, 
sem justa causa, poderão sofrer aplicação de multa administrativa até mesmo serem 
processadas criminalmente. (RIO GRANDE DO SUL, 2021) 
 
Todavia, os reflexos dessas condutas são inúmeros, além do fato de violarem princípios 
protetores dos consumidores e também dispositivos legais que configuram as ações dos 
fornecedores como abusivas, além do inciso X, amplamente debatido. Ocorre que a prática de 
aumento de preço relacionada com o período caótico e de desespero social que representa uma 
pandemia, faz com que a conduta do fornecedor se prevaleça sobre a vulnerabilidade humana. 
Assim, o fornecedor de produtos ou serviços que vê na necessidade humana em meio a 
uma pandemia uma oportunidade lucrativa sobre seus bens ou serviços essenciais não atenta 
apenas contra a legislação consumerista, mas também, contra a dignidade e a existência da 
pessoa humana. 
 Mas o questionamento que se insurge é o fato de como o consumidor pode se resguardar 
dessas práticas abusivas. Objetivamente, deverá o consumidor que tomar conhecimento de 
qualquer irregularidade, denunciar o ato junto aos órgãos de proteção ao consumidor (PROCON 
estadual), como também, informar aos representantes do Ministério Público a existência de tais 
condutas. 
Porém, o que se verifica subjetivamente, é o fato de que o Código de Defesa do 
Consumidor apenas prevê e proíbe as práticas abusivas. Ocorre que não há qualquer previsão 
de sanção legal a ser aplicada ao fornecedor. Assim, ao ser evidenciado o ilícito, apresentam-
se duas correntes: a primeira que assegura a impunibilidade da conduta frente a ausência de 
tipificação; e a outra que é aplicada no ordenamento jurídico brasileiro, assegura que todas as 
sanções que rejeitem a prática abusiva poderão ser aplicadas. 
Assim disciplina Bruno Miragem: 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
145 
 
Além da enumeração exemplificativa das condutas tipificadas como proibidas, outra 
característica particulariza a disciplina das práticas abusivas pelo CDC, com respeito 
às sanções pela violação da proibição pelos fornecedores. Neste aspecto, note-se que 
a regra de proibição foi econômica. Apenas estabeleceu a vedação às condutas que 
define, dentre outras que podem ser acrescidas mediante interpretação e concreção 
judicial do conceito indeterminado de prática abusiva. Nada mencionou sobre as 
sanções nos casos de violação da proibição. E, neste aspecto, surgem duas 
possibilidades de interpretação da regra: uma primeira, mais restritiva, indicaria a 
impossibilidade da cominação de sanções frente à ausência de previsão expressa. 
Outra, mais abrangente – e acolhida corretamente no direito brasileiro – de que a 
ausência de sanções específicas, ao tempo em que se define como proibidas certas 
condutas enunciadas, caracteriza o ilícito da violação da proibição. Neste caso, 
reconhecido o ilícito, todas as sanções que o rejeitem são admitidas. (MIRAGEM, 
2020, p. 326). 
 
Portanto, a prática abusiva é coibida por diferentes searas, conforme prevê o próprio 
Código de Defesa do Consumidor, que em seu artigo 56, caput, traz a seguinte redação: “Art. 
56. As infrações das normas de defesa do consumidor ficam sujeitas, conforme o caso, às 
seguintes sanções administrativas, sem prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em 
normas específicas: [...]”. (BRASIL, 1990). 
Todavia, as aplicações destas sanções são de responsabilidade dos órgãos de 
fiscalização, principalmente no âmbito estadual, mais notadamente dos PROCONS. Imperioso 
ressaltar a atuação do cidadão/consumidor, ainda que não seja lesado, denuncie práticas 
abusivas, com responsabilidade, lealdade e boa-fé. Somente assim que será possível coibir as 
condutas ileais e eivadas de má-fé, criando assim uma relação harmônica entre consumidor e 
fornecedor, nos termos das legislações vigentes. 
 
CONCLUSÃO 
 
O presente artigo científico fez uma análise principiológica acerca da construção e 
estruturação do Código de Defesa do Consumidor bem como a sua aplicabilidade aos negócios 
jurídicos contemporâneos. Para tanto, primeiramente foi elaborado uma conceituação do termo 
princípio, para posteriormente explanar acerca da publicidade, da boa-fé objetiva, da 
vulnerabilidade e hipossuficiência do consumidor. 
Destarte, as ponderações precípuas e conclusivas envolvem as condições mínimas 
necessárias para que se concretize uma relação justa e democrática entre as relações de 
consumo, porquanto o Código de Defesa dos Consumidores é o principal meio pelo qual o 
consumidor tem buscado exercer seus direitos e garantias. 
Ademais, constata-se que o Estado é modelado em conformidade ao meio social que, 
por sua vez, é dotado de tecnologia e procedimentos democráticos, logo, a publicidade, a boa-
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
146 
 
fé são garantias mínimas para que sejam realizados negócios jurídicos justos. Nesta celeuma, 
se faz importante destacar ainda a hipossuficiência e a vulnerabilidade que os consumidores 
possuem em relação aos fornecedores, vez que, geralmente o porte econômico de ambos 
possuem diferenças significativas. 
Outrossim, destaca-se o papel do Código de Defesa do Consumidor na defesa contra as 
práticas abusivas, muitas dessas praticadas em virtude do grande avanço da globalização e as 
facilidades propiciadas pela tecnologia. Meios estes que são utilizados como ferramentas para 
muitas vezes transgredir normas e abusar de direitos frente aos consumidores. 
Ao final, percebe-se o quanto a sociedade avança em direção ao amplo acesso de 
informações e, portanto, faz-se fundamental que o seu ordenamento jurídico, em destaque aqui 
o Código de Defesa dos Consumidores, haja para garantir tais direitos e protege-los, fornecendo 
os meios para que todos os alcancem. 
Por fim, com esse avanço social é imprescindível a atuação conjunta do cidadão e dos 
órgãos de fiscalização, uma vez que as denúncias e as sanções a serem aplicadas tenham o 
condão de coibir o fornecedor de praticar condutas desproporcionais e contrárias ao aparato 
legislativo consumerista. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
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__________. Manual de Direito do Consumidor: direito material e processual. Volume único. 
10 ª Edição. Editora Forense, Rio de Janeiro, 2021. 
 
VASCONCELLOS, Antônio Herman de e BENJAMIN. Código Brasileiro de Defesa do 
Consumidor. Comentado pelos autores do anteprojeto: GRINOVER, Ada Pellegrini... [et al]; 
colaboração FILHO, Vicente Gomes de Oliveira; BRAGA, João Ferreira. Direito matéria e 
processo coletivo. Volume único. 12ª Edição. Editora Forense. Rio de Janeiro, 2019. 
 
 
 
 
 
 
 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
148 
 
O SUPERENDIVIDAMENTO DO CONSUMIDOR COMO PERDA DAS 
CAPACIDADES 
 
Jovana De Cezaro1 
 
Resumo: O presente artigo visa promover reflexões acerca do superendividamento do 
consumidor como perda das capacidades civis. Objetiva-se debater se o superendividamento do 
indivíduo na sociedade de consumo é instrumento capaz de fazer com que o consumidor perca 
suas capacidades civis, afetando a sua dignidade. A sociedade de consumo, por meio da 
publicidade, instiga o consumo de bens ou serviços e o seu rápido descarte, fazendo com que 
alguns indivíduos busquem créditos visando consumir cada vez mais e acabem se endividando 
excessivamente. Na sociedade de consumo, por meio do marketing, objetiva-se tão somente 
estimular desejos e incentivar o consumo, sem pensar na situação econômica e financeira do 
consumir. Sendo assim, denota-se que o superendividamento leva o consumidor a perder suas 
capacidades civis, sendo estas indispensáveis para uma vida digna. 
Palavras-chave: Consumidor. Perda das capacidades. Sociedade de consumo. 
Superendividamento. 
 
INTRODUÇÃO 
 
Vive-se, atualmente, em uma sociedade de consumo, onde o ato de consumir impera, 
dita padrões a serem seguidos e tornou-se um pressuposto para uma existência digna. Contudo 
não se trata apenas do consumo de produtos e serviços essenciais, mas também de bens 
supérfluos e desnecessários. 
A sociedade de consumo ergue-se em torno do verbo adquirir, onde o indivíduo é 
motivado e impulsionado a consumir. Para consumir produtos e serviços os consumidores 
necessitam do crédito, que atua como elemento indispensável nas relações interpessoais, porém, 
muitas vezes acabam superendividando-se. 
O superendividamento é caracterizado pelo estado de insolvência do indivíduo, de 
maneira que torna-se improvável o pagamento de seus débitos. O consumidor endividado se 
encontra em um estágio ameaçado, uma vez que o acumulo de dívidas prejudica o custeio das 
necessidades básicas e, assim sendo, de sua dignidade. 
Nesse sentido, o superendividamento do consumidor pode ser compreendido como 
perda das capacidades civis, tendo em vista a incapacidade de consumir, o que faz com que o 
indivíduo seja, consequentemente, excluído da vida social. 
 
 
1 Mestranda do Programa de Pós Graduação em Direito da Universidade de Passo Fundo - UPF. Pós-Graduanda 
em Direito do Trabalho. Advogada. Inscrita na OAB/RS sob número 120.665. Endereço de e-mail: 
jovanadc@hotmail.com. 
Direito do Consumidor: Desafios e Perspectivas 
 
149 
 
1. A SOCIEDADE DE CONSUMO 
 
O consumo é uma atividade presente em toda e qualquer sociedade humana e é parte 
integrante da vida das pessoas. Mas, a doutrina afirma que, um dos elementos centrais que 
define a pós-modernidade vivida atualmente é o consumismo, o que faz com que se defina a 
atual sociedade como sociedade de consumo. 
Nessa sociedade que encoraja o ato de consumir, todos os sujeitos são tidos como 
consumidores2. O consumo está preenchendo uma função além da satisfação de necessidades 
básicas comuns a todos os grupos sociais, tendo em vista que o consumidor precisa estar 
cercado de novas vontades e de buscar a todo momento satisfazer suas necessidades infinitas. 
O consumo é compreendido como uma atividade necessária à subsistência e “tem raízes 
tão antigas quanto os seres vivos”. Mas, “de maneira distinta do consumo, que é basicamente 
uma característica e uma ocupação dos seres humanos como indivíduos, o consumismo é um 
atributo da sociedade (BAUMAN, 2008, p. 37-41). 
Diferentemente do consumo, o consumismo se caracteriza pela aquisição de tudo aquilo 
que possa proporcionar felicidade. 
 
pode-se dizer que o “consumismo” é um tipo de arranjo social resultante da 
reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos rotineiros, permanentes e, por 
assim dizer, “neutros quanto ao regime”, transformando-os na principal força 
propulsora e operativa da sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, 
a integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos, 
desempenhando ao mesmo tempo um papel importante nos processos de auto-
identificação individual e de grupo, assim como na seleção e execução de políticas de 
vida individuais. O “consumismo” chega quando o consumo assume papel-chave que 
na sociedade de produtores era exercido pelo trabalho. [...] De maneira distinta do 
consumo, que é basicamente uma característica e uma ocupação dos seres humanos 
como indivíduos, o consumismo é um atributo da sociedade. Para que uma sociedade 
adquira este atributo, a capacidade profundamente individual de querer, desejar e 
almejar deve ser [...] destacada (alienada) dos indivíduos e reciclada/reificada numa 
força externa que coloca “a sociedade dos consumidores” em movimento e a mantém 
em curso como uma forma específica de convívio humano, enquanto ao mesmo tempo 
estabelece parâmetros específicos para as estratégias individuais de vida que são 
eficazes e manipula as probabilidades de escolha e condutas individuais (BAUMAN, 
2008, p. 41). 
 
Para Canclin “el consumo es el conjunto de procesos socioculturales en que se realizan 
la apropiación y los usos de los productos". Para o mesmo autor, “consumir suele asociarse a 
 
2 Artigo 2° do Código de Defesa do Consumidor: “Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou 
utiliza produto ou serviço como destinatário final. Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de 
pessoas, ainda que indetermináveis,

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