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Discipulado para uma nova 1 O Padrão Divino O discipulado segundo o modelo de Jesus Cristo Josadak Lima O Padrão Divino O discipulado segundo o modelo de Jesus Cristo 1ª edição São Bernardo do Campo - SP - 2016 Copyright © 2016, Josadak Lima Direios cedidos à Associaçâo da Igreja Metodista e Publicado pelo Departamento Editorial da Igreja Metodista - Angular Editora. É proibida a reprodução total ou parcial da obra, de qualquer forma ou por qualquer meio sem a autorização prévia e por escrito do autor. A violação dos Direitos Autorais (Lei n.º 9610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal Secretaria Editorial Joana D’Arc Meireles Capa Fabio Nelson Marchiori Diagramação Alexandre Paes Dias Revisão Celena Alves Lima, Josadak. O Padrão Divino - O discipulado segundo o modelo de Jesus Cristo. Volume 1 – São Bernardo do Campo, SP: Editeo, 2016. p. 64 ISBN: 978-85-8046-040-7 1. Discipulado. 2. Missão 3. Santidade Sumário Capítulo 1 Seguir Jesus: o mais desafiador projeto de vida ...................................................11 Capítulo 2 Conhecendo a escola de discipulado de Jesus .....................................................17 Capítulo 3 O que significa quando Jesus disse: “Siga-me”? ...................................................25 Capítulo 4 O Processo do discipulado segundo o padrão de Jesus ......................................33 Capítulo 5 A formação de uma comunidade discipuladora a partir de Jesus ....................39 Capítulo 6 Promovendo encontros transformadores ............................................................45 Capítulo 7 Discernindo a quem atende a sua voz ..................................................................51 Capítulo 8 Como saber em quem investir a vida? ..................................................................59 Apresentação O PADRÃO DIVINO – O discipulado segundo o modelo de Jesus Cristo é o título que não contém apenas conceitos de discipulado. É o resultado de uma jornada na busca de ser e fazer discípulos por mais de duas décadas. A grandeza de ser um discípulo é sua relação com Jesus, numa caminhada de fé seguindo suas pisadas. Uma jornada repleta de novos começos e novas descobertas; de novas compreensões e experiências, no encontro com novas pessoas na caminhada, novas situações e lugares onde a formação espiritual brota da vida iluminada pela fé em Jesus, tornando-se uma grande sinfonia de louvor a Deus. Qual a contribuição desta obra para tal processo? Primeiro, este livro nasce da convicção de que Jesus é o modelo de como ser e fazer discípulos. Por isso, seu intuito é convidar-nos a voltar às práticas do discipulado, de acordo com o padrão divino observado no Mestre dos mestres. Segundo, é que trata de conceitos transferíveis e vivenciais, que passa primeiramente pela vida cotidiana, na qual o discípulo se move e se regula pela graça, para se dedicar e amar mais a Deus. Josadak Lima Pastor Metodista da Sexta Região Eclesiástica Capítulo 1 Seguir Jesus: O mais desafiador projeto de vida O autêntico no seguimento de Jesus implica na busca permanente de ser como ele, onde crendo, se segue e, se crê, seguindo. Refletir sobre a Pessoa de Jesus como nosso referencial nos permite entender o discipulado como o mais fascinante projeto de vida, pois discipulado não é um método ou uma estratégia, mas um estilo de vida. É por isso que a prática da Palavra se faz extremamente necessária na transformação do homem, de dentro para fora. Neste caso, o ato de seguir Jesus não deve ser compreendido como uma forma de submissão legalista, mas sim, como um diálogo, como que ao redor de uma mesa. 12 Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. 13Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.(Jo 16.12-13) O ideal de discipulado que temos à nossa frente é totalmente humano, mas é também totalmente divino. É a Pessoa de Jesus Cristo que nos convida a tê-lo como Mestre. Jesus nos convida a um exercício constante de humildade e mansidão; nos chama para uma caminhada sob o seu jugo suave e leve, para não cairmos na tentação de fazer aquilo que ele não fez. Portanto, neste primeiro capítulo, abordaremos o discipulado segundo Jesus Cristo, com o objetivo de avultar a figura de Jesus, de modo a poder obter a graça de conhecê-lo internamente para amá-lo e segui-lo. É fundamental que, como discípulos e discípulas, estejamos em sintonia com o pensamento e estilo de vida de Jesus. Jesus não foi um mero personagem histórico. Um homem comum. Jesus não foi apenas outra pessoa, ou uma pessoa boa, ou um líder importante de uma religião. Jesus é o personagem mais surpreendente da Escritura Sagrada e da história humana. Por isso que é necessário imitá-lo para se progredir orgânica e harmoniosamente na vida espiritual e comunitária. Jesus é o exemplo da graça e do amor de Deus imerecidamente à humanidade. Portanto, faz todo sentido a vida cristã ser uma imitação da vida de Jesus. Pois todo o Evangelho se faz carne e gesto na pessoa de Jesus Cristo e deve ser o mesmo para quem o segue. Jesus – Deus em carne humana – foi assim que ele mesmo se apresentou e, assim, devemos aceitá-lo e segui-lo. A compreensão da figura de Jesus descrita pelos Evangelhos deve ser discernida a partir de sua historicidade (sua relação sociopolítica-econômica-cultural e religiosa), que sempre aponta para o “Jesus histórico” como opção para se concretizar o caminhar do cristão com Deus. É a partir dessa compreensão histórica, culturalmente situada, da comunidade de crentes em Jesus que chegamos a compreensão do Cristo como nosso referencial de vida. Tudo no cristianismo histórico tem a sua iluminação a partir da Pessoa de Jesus Cristo. Logo, o nosso caminhar com Deus significa, em primeira ordem, entrar no caminho de Jesus, para conhecê-lo histórico e espiritualmente. A forma de como fazer isto, é seguir de “perto”, imitar Jesus, como o apóstolo Paulo fazia: “Tornem-se meus imitadores, como eu o sou de Cristo” (1Co 11.1). Isto significa que seguir Jesus implica em permanecer na sua Palavra; requer convicção e não mero interesse intelectual. Ninguém deve seguir a Cristo apenas por curiosidade, é preciso ser constante. Seguir Jesus Cristo é um estilo de vida. Nesta jornada, diariamente somos colocados sob o teste da perseverança. O verdadeiro discípulo é a pessoa que, perseverantemente, “permanece” nos mandamentos de Jesus. Jesus é verdadeiro homem, verdadeiro Deus. Ele tinha duas naturezas: a divina e a humana, que não implica em duas personalidades ou pessoas. Desejamos enfatizar o fato de que Jesus foi mais do que apenas nosso Salvador. Essa não é uma afirmação desrespeitosa e não causa nenhum conflito com a doutrina.O propósito do Filho de Deus era redimir-nos, mas também mostrar-nos a maneira correta de viver. Qualquer coisa que esteja aquém desse objetivo duplo empobrece a vida em abundância que Jesus promete aos seus seguidores, em João 10.10. 1 1 HABERMAS, Ronald. Discipulado completo. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2009, p. 226. A pessoa de Jesus como referencial humano de uma vida centrada em Deus Jesus Cristo – homem – nenhuma outra expressão pode estimular mais intensamente o nosso coração do que ele. Assim, como existem diversos textos que provam a divindade de Jesus, como em João 1.1-2, há também inúmeros textos que asseveram sua humanidade (Mt 1.18, 20; 21.18; 26.3). A natureza divina de Jesus é comprovada pelo seu extraordinário ministério terreno, seus nomes e títulos, e também por suas declarações explícitas. Os Evangelhos também revelam que Jesus possuía atributos próprios do ser humano, exceto quanto ao pecado. Jesus propõe aos seus seguidores um novo coração. Um transplante de coração. Um coração novo, sincero de fé, de amor, que produz um comportamento reto e transparente. Jesus falou do “jugo” do discipulado (Mt 11.29-30), como algo leve e suave. Emoutra parte, ele afirmou: “Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz” (Jo 13.15). Os rabinos, do tempo de Jesus, frequentemente falavam acerca de tomar sobre si “o jugo da Lei”, e sob a orientação deles, aquele fardo poderia se tornar pesado. O “jugo” de Jesus, ao contrário, é suave, não por seu chamado ao discipulado ser menos exigente, mas porque esse jugo nos torna pupilos daquele que é “manso e humilde de coração”. O segredo do discipulado de Jesus, portanto, consiste num convite pessoal: “vinde a mim” (Mt 11.28). Não é um convite para uma religião, mas para um relacionamento comprometido e pessoal! Ele nos chama para um jugo leve e suave. A opressão religiosa gera peso e dúvida. A “dúvida”, quando causada pela ação inescrupulosa de líderes que só se importam consigo mesmos, oprime a alma do individuo. O melhor caminho mesmo é aprender de Jesus. Os relatos dos evangelhos mostram que Jesus nos deixou o exemplo em tudo. Segui-lo fielmente depende de você. A Bíblia ensina que devemos seguir os passos de Jesus. Por quê? Todos os registros bíblicos da revelação de Deus, tanto do Antigo como do Novo Testamento, devem ser interpretados a partir da Pessoa de Jesus Cristo. Jesus nos deixou o padrão de vida moral e ético para que sigamos o seu exemplo. O testemunho de Paulo, em Gálatas 6.11-18, expõe sua posição em gloriar -se tão somente na cruz de Cristo e na mensagem da Graça centralizada no Evangelho. Porquanto, no final dos tempos, todos os seres humanos, tanto os que o receberam quanto os que o rejeitaram, dobrarão seus joelhos diante dele, conforme os textos afirmam em Romanos 14.9; Filipenses 2.11). O chamado de Jesus ao discipulado é o chamado para submeter-se ao seu senhorio. No discipulado de Jesus, o quebrantamento interior é a base da obediência e do coração ensinável. A expressão de Jesus “os humildes de espírito” (Mt 5.5), está relacionada à ideia de quebrantamento. Uma pessoa humilde de espírito reconhece que é espiritualmente necessitado, dependente da Graça e Misericórdia de Deus. Portanto, só atende o chamado ao discipulado as pessoas que têm coragem de correr riscos, de sair de seu casulo, de pensar a história pelo reverso da lógica imperante. Neste caminho só atinge a sabedoria quem “vê” o visível e o invisível, o real e o sonhado, a injustiça e a justiça, o óbvio e desejável, a certeza contra toda a desesperança que um novo dia ainda vai renascer e as nossas exigências ganharão mais encanto a partir desse mundo. Além disto, seguir Cristo implica em uma atitude de humildade. A respeito da humildade, a bíblia ensina: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus” (Fl 2.5). Ao exortar os crentes em Éfeso para que vivessem em retidão e não como antes, Paulo escreveu: “Todavia, não foi isso que vocês aprenderam de Cristo” (Ef 4.20). Não podemos deixar de ser como Jesus, que aconselhava quando era solicitado e quando não solicitado. Ele orientava seus discípulos com palavra e vida para que, assim, pudessem orientar as próximas gerações de discípulos e discípulas. Capítulo 2 Conhecendo a escola de discipulado de Jesus O processo de discipulado não deve se limitar apenas a contemplação, mas deve nos conduzir ao encontro de Jesus Cristo e à identificação com ele. Desde o início do seu ministério, Jesus atraiu muitos discípulos, mas selecionou e treinou um grupo especial de seguidores comprometidos; estes chegaram a conhecer melhor nosso Senhor e acompanhá-lo nas atividades ministeriais diárias. “Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna”. (Jo 6.68) O próprio Jesus tomou a iniciativa da seleção dos Doze. Primeiro, ele convocou quatro (Mc 1.16-20), e em seguida, convidou os demais para o seguirem. Eram homens rudes, não muito cultos, aparentemente com poucas possibilidades. Com efeito, Jesus sabia muito bem o que fazia. O discipulado é a nossa oportunidade de utilizarmos os infini - tos recursos de Deus. É a chance de mudar nossa vida da mediocridade para uma vida que tenha significado. No discipulado não estamos fazendo favor a Deus. Ele que está nos fazendo um favor. É vital que o discípulo agarre-se a este importante conceito. 2 Qual foi o principal trabalho de Jesus aqui na terra? Foi fazer discípulos! Segundo Jesus (Mt 28.19), discipular implica em equipar pessoas enquanto caminha com elas. Significa investir em pessoas anônimas e transformá-las em gigantes da fé. Assim, como foi com Jesus, a formação da próxima geração de discípulos não acontece por acidente. É um processo intencional focado em relacionamentos comprometidos e pessoais, no contexto do discipulado. Jesus orou ao Pai antes de ir para o Getsêmani: “Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer” (Jo 17.4). Observe que isto foi antes da cruz, mas Jesus fala que ele já completou “a obra que me deste para fazer”. Esta obra, sem dúvida, trata-se do discipulado dos doze! 2 HENDRICHSEN, Walter. Discípulos são feitos, não nascem prontos. São Paulo: Atos, 2002, p. 29. Com efeito, como afirma Kornfield3, Jesus tinha duas obras para consumar: uma por meio de sua morte e outra por meio de sua vida. Quando declarou “Está consumado!” e rendeu seu espírito (Jo 19.30), consumou sua obra redentora. Mas existiu outra obra. Ele teve uma obra vocacional: o propósito de andar conosco aqui na terra, ministrando durante três anos, foi à formação dos discípulos. Paramos muitas vezes para refletir sobre a obra consumada em sua morte, que é o centro do evangelho e o coração tanto da Ceia como do Batismo. Mas refletimos muito pouco sobre o trabalho principal de sua vida, possivelmente porque nem sabemos que o fazer discípulos foi tal trabalho.4 Jesus é o Filho de Deus, mas é também o filho de Maria. Portanto, toda essência da vida cristã depende da pessoa histórica de Jesus Cristo. A vida que ele viveu aqui na terra é o tipo de vida que seus seguidores devem viver. Creio que grande número de cristão são “ateus praticantes” – creem que a porção divina de Je-sus dominava seu lado humano. Para eles, Jesus foi como o incrível Hulk. Quem se deixa levar por essa falsidade precisa relembrar alguns trechos bastante explícitos das Escrituras, como Hebreus 2.17; 4.15. 5 Inseridos na escola de Jesus Jesus escolheu e deu instruções para seus discípulos. O convite ao discipulado não foi um evento de um só momento ou de uma só vez, mas foi feito por meio de repetidos chamados e convites. A maioria dos que foram chamados já lhe conhecia. Tiveram a oportunidade de vê-lo e ouvi-lo. Sabiam quem era o Mestre, como ele vivia e o que pensava. Era Jesus mesmo que tomava a iniciativa do convite: passa, olha e chama. O convite de Jesus ao discipulado, à primeira vista, parece ser algo que não custa nada, mas acolher este convite requer decisão e compromisso. A pessoa deve está disposta a abandonar tudo e assumir, ao lado de Jesus, um estilo de vida itinerante. Na prática, o convite coincide com a convivência formadora, que durou três anos. 3 KORNFIELD, David. As bases na formação de discipuladores. São Paulo: Sepal, 1994, p. 10. 4 KORNFIELD, David. As bases na formação de discipuladores. São Paulo: Sepal, 1994, p. 11 5 HABERMAS, Ronald. Discipulado Completo. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2009, p. 152. O texto bíblico acerca da formalização do grupo dos doze é Marcos 3.13-14. Neste texto, está registrado que Jesus primeiro orou ao Pai para ouvir dele sobre quem deveria ser parte, de forma definitiva, do grupo seleto. Escolheu aqueles cujos perfis ele havia observado de perto e que foram aprovados pelo Pai Celeste. Não escolheu a elite religiosa, nem pessoas altamente qualificadas. Escolheu gente simples dispostas a obedecer. Foi com este grupo que Jesus começou a maior revolução da histórica. Jesus tinha uma visão de longo alcance com seus discípulos (Mc 3.13-14). Ele não se preocupava só com o imediato, olhava lá na frente, para os milhares que deveriam ser alcançados pelo evangelho. Para que isto acontecesse, Jesus precisou treinar alguns poucosdiscípulos para assumirem a tarefa de pregar o Reino de Deus e discipular as nações. Equipar discípulos é indispensável para que alcancemos a realização e a plenitude do Evangelho no mundo. Com efeito, a preparação dos doze envolvia instrução a respeito de diversos aspectos de como ser e fazer discípulos. Os doze aprendiam pela experiência do cotidiano com Jesus, mas era necessário mais que isso, uma instrução especial para aclarar o entendimento quanto a missão. Considerando que o discípulo é basicamente um aluno, um dos aspectos do discipulado é a informação. Para se tornar discípulo, você deve adquirir e dominar um conjunto de conhecimentos. Portanto, o ensino sempre faz parte do discipulado. Em Marcos 4, por exemplo, Jesus conta diversas parábolas, com a finalidade de instruir os discípulos sobre a natureza da tarefa de semear a Palavra, sobre a autenticidade da vida e sobre a natureza e funcionamento do Reino de Deus. Marcos, capítulo 4, começa com a seguinte declaração: “novamente Jesus começou a ensinar”. Quando olhamos todo o Evangelho de Marcos observamos que o ensino ocupou lugar importante no ministério de Jesus: • Jesus começou seu ministério ensinando na sinagoga (1.21); • ensinou dentro de uma casa (2.2); • ensinou num barco (4.1); • ensinou andando pelo caminho (10.17). Uma das grandes características de Jesus, que deve estar presente na vida de cada pessoa discipuladora é a adaptabilidade, ou a capacidade de ensinar em qualquer circunstância e a qualquer número de pessoas. O evangelho de João, do capítulo 13 ao 17, mostra, de forma mais detidamente, as últimas instruções de Jesus aos doze. De fato, Jesus queria um grupo preparado, equipado para a tarefa, e por isto se propôs a ensiná-los aproveitando todas as oportunidades que surgiam no dia a dia (Mc 10.17-22; 12.17-27), extraindo o conteúdo do ensino da vida diária e o apresentando com argumentação simples, linguagem direta e não abstrata, método adequado para o exercício do discipulado (Mt 5.13; 6.28; Mc 4.3). A vida disciplinada e o seguimento de Jesus Quem se dedica a cavar fundo e com perseverança no discipulado, descobre um verdadeiro e autêntico tesouro espiritual com significado para a vida. A imagem utilizada pelo apóstolo Paulo, em Filipenses 3.12-13, é de um corredor espichando-se para frente ou esticando-se com todas as forças, sem olhar para trás, nem comparando sua posição com a posição relativa aos demais participantes da corrida. Essa atitude dá sentido à disciplina no seguimento de Jesus, no processo da maturação cristã cuja a disciplina é um meio, não um fim. Ou seja, o discipulado é a jornada do fim ao meio. Os verbos utilizados em Filipenses 3.12-13 - prosseguir, esquecer e avançar - mostram o quanto Paulo estava sendo pessoal, como alguém comprometido com o discipulado cristão. Ele não faz uma aplicação de natureza coletiva, focalizando a igreja de Filipos, mas se refere a si mesmo. Sua motivação, para tanto, é o fato de ter sido alcançado por Cristo Jesus, ou seja, Jesus o salvou no caminho de Damasco; ali foi o começo e não fim da corrida. Agora a sua prioridade de vida é “conhecer a Cristo”, apropriar-se dele cada vez mais. Da mesma forma, o autor da carta aos Hebreus dirige-se aos cristãos que, pelo tempo de caminhada, já deveriam está ensinando outras pessoas, mas continuavam neófitos na fé (Hb 5.11-14). A causa básica do problema está apresentada, no versículo 11, que é a negligência para “ouvir”. Então, o autor apresenta uma proposta concreta, convincente e válida, baseada na experiência (versículo 14). Não se trata de uma imposição, mas de uma livre decisão de optar ou não pelo crescimento espiritual. Com efeito, os cristãos hebreus tinham muito que saber acerca de Jesus, mas ainda não estavam em condições de compreender, em virtude da negligência. Quando se lê “lentos para aprender”, deve-se entender um sentido ético correspondente à preguiça, ou indisposição de se dedicar a ouvir e a aprender. Certamente, este comportamento se constitui num grande obstáculo para se cultivar um coração ensinável. Devemos entender que a vida espiritual é semelhante à natural. Em todos os seus estágios depende de fatores para o desenvolvimento. O problema é que, a exemplo dos cristãos Hebreus, o período da “infância espiritual” (normal ao novo convertido), pode ser prorrogado abusivamente, tornando a pessoa incapaz para absorver instruções mais madura (“alimento sólido”, versículo 14). Todavia, na vida cristã não pode haver prorrogação, pois do contrário, nunca estará preparado para a etapa seguinte. Por outro lado, um crescimento sadio dá condições de se apropriar do que seria impossível no estágio anterior. Um pouco mais adiante (Hb 6.1), o autor fala acerca de “ensinos elementares”, referindo-se a rudimentos básicos ou iniciais da fé, o ABC da vida cristã. Pelo fato deles estarem ainda na “infância” espiritual, apresentavam dificuldade em discernir corretamente entre o bem e o mal. Qual o resultado disso? A cogitação infantil de tomar uma terrível decisão: rejeitar a Cristo. Eles não tinham a consciência de que isso significava o maior mal. De fato, esses cristãos eram inexperientes, imaturos e despreparados para refletirem sobre assuntos de grande vulto do pensamento cristão. Não tinham capacidade para considerações mais profundas a respeito de temas difíceis. Entretanto, havia um problema mais sério: esses cristãos não queriam crescer. Por quê? Haviam se tornando empedernidos e insensíveis, mentes preguiçosas. De onde o construtor começa a construir o edifício? Não é a partir dos alicerces? Quanto mais alto for o edifício, mais profundo precisa ser o alicerce. Porém, para um edifício ser construído é necessário ir além dos alicerces. Quais as consequências de não irmos além dos alicerces? Dependência doentia, superficialidade, inexperiência e meninice. O resultado disto é uma igreja apenas de pessoas cheias de caprichos carnais, de “não me toques” e bebês que não sabem alimentar-se sozinhos. A rigor, não vamos conseguir maturidade cristã ficando sempre condicionados aos primeiros estágios da caminhada, tais como Jesus Cristo salva, Jesus Cristo cura, Jesus Cristo voltará etc. Quem estaciona nesse estágio elementar, está insuficientemente instruído, não cresceu ainda a ponto de poder explicar, a quem perguntar, a razão de sua esperança em Cristo; não cresceu na compreensão inabalável de que o cristianismo é superior, de que a salvação que Jesus veio oferecer é a grande salvação eterna, ancorada no céu pela obra realizada por Jesus Cristo. Capítulo 3 O que significa quando Jesus disse: “Siga- me”? “Seguir Jesus” era o termo que fazia parte do sistema do discipulado na época do Novo Testamento, onde o relacionamento mestre-discípulo é diferente do relacionamento professor-aluno. O aluno assiste a aulas, mas não convive com o professor, enquanto que os discípulos, à semelhança do relacionamento pai-filho, se formam na convivência. Os pais não dão aulas para seus filhos, mas convivem. Todas as exigências do Reino de Deus ficam explícitas no chamado de Jesus ao discipulado. John MacArthur, em seu livro Evangelho Segundo Jesus Cristo, faz excelentes abordagens a este respeito. Vejamos como ele expõe esta questão: 1) Quando Jesus chamava os discípulos, ele os instruía cuidadosamente quanto ao custo de segui-lo. Pessoas de coração dúbio, que não estavam dispostas a comprometer-se com ele, não o seguiam. Desse modo, ele afastava os que relutavam em pagar o preço, como no caso do jovem rico. Ele advertia a todos os que pensavam tornar-se discípulos a que calculassem o preço disso cuidadosamente. 2) Em países em que a civilização cristã se espalhou, grande número de pessoas se cobre com uma capa decente, mas frágil, de cristianismo. Se permite certo envolvimento com o cristianismo; o suficiente para se tornarem pessoas respeitadas, mas não perseguidas. Sua religião é uma almofada grande e macia que as protege das agruras da vida e, ao mesmo tempo, aceita mudanças de lugar e forma para amoldar-se àsconveniências. Não é de se admirar que os cínicos falem de hipócritas na igreja e dispensem a religião, por considerá-la um escapismo. 3) Cristão não é quem simplesmente faz um “seguro contra incêndio”, quem se alista para fugir de uma vida pós-morte desagradável. Cristão, é alguém que segue a Cristo como seu Senhor e Salvador; alguém que deseja agradar a Deus. Seu objetivo fundamental é ser em tudo um discípulo de Jesus Cristo. Quando peca, busca perdão e dispõe-se a continuar avante. Este é o seu espírito e o seu caminhar. 4) O chamado ao discipulado cristão exige explicitamente dedicação total. Compromisso pleno, sem que nada fique intencionalmente retido. As pessoas que pensam poder simplesmente fazer profissão de uma série de fatos do evangelho e continuar vivendo de qualquer forma, conforme bem entendem, deveriam examinar a si mesmos e verificar se realmente estão na fé (2Co 13.5). Por que o discipulado de Jesus é tão importante? 6 Há pelo menos quatro razões, qualquer uma deve ser suficiente mesmo sem as outras, para que nós nos comprometamos a ver o discipulado como o principal trabalho de nossa vida. 1) O discipulado é tão importante porque o amor de Deus e seus propósitos para conosco só podem ser comunicados por meio de uma relação comprometida e pessoal. Jesus deu o exemplo. Como? O Verbo divino tornou-se, em tudo, semelhante a nós, exceto quanto à natureza pecaminosa (Jo 1.14). Embora a palavra “encarnação” não apareça nas Escrituras, mas seus componentes sim (“em” e “carne”). Assim, o “Verbo” tornou-se o conteúdo, o mestre, o ambiente, a verdade visível de Deus. À luz de Filipenses 2.5-8, a encarnação de Jesus consistiu no esvaziamento do Verbo divino. O termo “esvaziamento” (do grego ekenosen) trata da renúncia de Jesus ao assumir a natureza humana, sendo Deus, sem deixar de ser Deus. Convém ressaltar que este “esvaziamento”, não é de sua divindade, mas de sua glória, visto que Jesus deixou o Céu, despojando de sua própria majestade. Seu despojamento aconteceu por vontade própria. Foi uma limitação de si mesmo para um propósito. Portanto, a teoria de que Jesus renunciou a sua divindade quando se encarnou, isto é: deixou de ser Deus, é contrária ao ensino das Escrituras Sagradas. Desta maneira, ao se esvaziar, Jesus estaria renunciando sua natureza divina, e teríamos nele, unicamente, uma pessoa humana. Mas, não é isto que a Bíblia ensina. 2) O discipulado é tão importante porque é o mandamento de Cristo O discipulado é o mandamento de Cristo indiretamente porque somos mandados a imitá-lo, e diretamente porque a Grande Comissão, segundo Mateus 28.18-20, foram suas últimas palavras: 6 Adaptado de KORNFIELD, David. As bases na formação de discipuladores. São Paulo: Sepal, 1994. 18 Então, Jesus aproximou-se deles e disse: foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. 19Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. Fazer discípulos, segundo Jesus, é equipar pessoas enquanto caminha com elas, moldando o seu caráter. Significa investir em pessoas anônimas e transformá-las em gigantes da fé. Quando Jesus disse “vão e façam discípulos”, mostrou que discipulado se faz por meio de relacionamentos pessoais. Mas também o discipulado implica em: ensinar, corrigir e santificar. Ensinar é o mesmo que discipular? Não! Segundo o pastor contemporâneo Ed Renê, [...] para a primeira tarefa (“ensinar as coisas”), precisamos de boas salas, apostilas, bons métodos didáticos e mestres que conheçam profundamente o assunto. Mas, para a segunda (“ensi- nar a obedecer as coisas”), precisamos de modelos, exemplos, referenciais, e assim poderemos aprender não apenas o que Jesus mandou que fizéssemos,mas também como podemos fazê- -lo. Não fazemos discipulado do púlpito, ou da classe de Escola bíblica, mas sim na dinâmica dos nossos relacionamentos.7 3) O discipulado é tão importante pela quantidade de resultados (reprodução geométrica). O discipulado é um processo que dura toda a vida. Se o discipulado não se reproduz, morre. Por meio do discipulado o processo da multiplicação continua de geração em geração, como está escrito em 2 Timóteo 2.2: “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confia-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros”. Note que este versículo fala de quatro gerações de discípulos: 1) Paulo, 2) Timóteo, 3) homens fiéis e 4) outros. Num contexto mais amplo, podemos observar três aspectos do método de fazer discípulos: • escolha cuidadosa, em oração, de pessoas fiéis; • concessão da visão gloriosa a eles; • enviar esses pessoas para que discipulem (Mt 28.19). 7 KIVITZ, Ed Renê. Koinonia. São Paulo: Abba Press, 1994, p. 28. Com efeito, 2 Timóteo 2.2, trata de um processo multiplicativo. Enquanto os homens fiéis estão ensinando ou-tros,Timóteo está no processo de levantar mais homens fiéis, que estejam aptos a ensinar. Im-plantar esta visão de multiplicação de discípulos constitui o único caminho que a Comissão de cristo pode ser cumprida,no final das contas.Outros ministérios e outras formas podem ser úteis, mas nunca irão substituir o discipulado.8 4) O discipulado é tão importante pela qualidade dos resultados. A palavra-chave de Efésios 4.12 é “preparar” ou aperfeiçoar (do grego katartizo), que tem o mesmo significado de “restaurar”, em Gálatas 6.2; e “consertando” as redes, em Marcos 1.19. Qualquer que seja o caso, sempre quer dizer a mesma coisa. O verbo “preparar” foi utilizado pelos antigos escritores para descrever o ato de um cirurgião pondo no lugar ossos fraturados. Como diz Marcos Monteiro, “significa uma correção de osso partido, ou seja, a cura de uma fratura óssea pela exata restauração de suas partes” 9. É isto que também ocorre espiritualmente com os discípulos de Jesus. Certamente, na igreja local, por meio da pregação e do ensino bíblico formal, pode-se chegar a unidade da fé, mas não tão eficientemente como por meio do discipulado. A ideia que o verbo “aperfeiçoar” (Ef 4.12) comunica é que se aquilo que queremos utilizar não estiver “pronto”, deve ser melhorado e alinhado. Pense nisto, na perspectiva da formação espiritual de um discípulo: ele não está totalmente preparado, é necessário suprir certas deficiências ou corrigir e ajustar certas coisas erradas. Este é o processo pelo qual o discípulo participa da construção da comunhão, chegando juntos a uma compreensão lúcida e equilibrada dos princípios do evangelho e os utilizando como um modo de vida prático e de ajuda mútua, de dependência entre si. O fim de tudo é a “unidade da fé”, que significa dizer a mesma coisa, crer na mesma coisa, na mesma doutrina. É o mesmo que ser “um” na verdade de Deus, a sã doutrina. Essa busca da qualidade nos resultados inclui também os dons espirituais. Ajudar o discípulo descobrir e desenvolver seus dons e colocá-lo a serviço uns dos outros e não a serviço próprio é um dos alvos do discipulado segundo Jesus Cristo. 8 HENRICHSEN, Walter. Discípulos são feitos, não nascem prontos. São Paulo: Atos, 2002, p. 11. 9 MONTEIRO, Marcos A. L. Em diálogo com a Bíblia: Efésios. Curitiba: Encontro, 1994. 4 Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. 5E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. 7Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil. (1Co 12.4-7) Na variedade dos dons revela-se a unidade da igreja que não é uniformidade, mas diversidade. O discípulo de Jesus não se relaciona passivamente com os dons nem faz deles o palco para sua projeção, pois o verdadeiro protagonista deste processo, dessa superabundância de dons, é o próprio Deus. Capítulo 4 Processo do discipulado segundo o padrão de Jesus O discipulado cristão tem como modelo, sobretudo, o proceder de Jesus, que, a partir da convivência com os doze, estabeleceuo padrão da perfeição cristã, que é nosso ideal de vida hoje. Ao escolher os doze discípulos e formalizá-los Jesus demonstra nitidamente que queria um grupo preparado espiritualmente e equipado para a tarefa de expandir o Reino de Deus. Por isto, se propôs a ensiná-los, aproveitando todas as oportunidades que surgiam no cotidiano (Mc 10.17-22; 12.17-27), extraindo o conteúdo do ensino da vida diária, e o apresentando com argumentação simples, linguagem direta e não abstrata, método adequado para a formação deles (Mt 5.13, 6.28; Mc 4.3). O discipulado é a nossa oportunidade de utilizarmos os infini - tos recursos de Deus. É a chance de mudar nossa vida da mediocridade para uma vida que tenha significado. No discipulado não estamos fazendo favor a Deus. Ele que está nos fazendo um favor. É vital que o discípulo agarre-se a este importante conceito.10 Aspectos do padrão de Jesus: visão, compromisso e ritmo de vida No Antigo Testamento, os Dez Mandamentos é o padrão divino para o estilo de vida em harmonia com a vontade de Deus. Por meio deles o povo de Israel cumpriria sua parte do acordo da Aliança (Êx 19.5). Dentro deste padrão divino, o mais importante vem primeiro. A ordem dos mandamentos, de Êxodo 20.1-17, por exemplo, é altamente significativa. Os quatro primeiro tratam da questão fundamental da relação do homem com Deus. Estes introduzem os outros seis, que dizem respeito ao comportamento humano na comunidade ou a sua relação com o semelhante. 10 HENRICHSEN, Walter. Discípulos são feitos, não nascem prontos. São Paulo: Atos, 2002, p. 2. No Novo testamento aparece esse mesmo padrão: a nova vida em Cristo está disponível - e de graça - para todas as pessoas, mas requer, que vivamos de forma agradável a Deus: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecerei no meu amor” (Jo 15.10). Tal estilo de vida espiritual deve ser encarnada na existência de cada pessoa que segue Jesus, praticando as virtudes para fecundidade da ação divina. A própria conformação a Cristo requer, por assim dizer, o respirar um clima de amizade e de encontro pessoal com ele. Neste sentido, o desenvolvimento da cultura da formação espiritual requer, a priori, o padrão divino que oriente o coração humano para Deus. Por causa das numerosas demandas da vida frenética do mundo contemporâneo estamos expostos, hoje mais do que nunca, a uma série fatores que nos tira do padrão de vida requerido por Jesus. Segundo Kornfield 11, o padrão divino no discipulado é quando acontecem três coisas: 1) visão; 2) o crescente compromisso; 3) ritmo de vida de várias pessoas coincidem. No discipulado dos doze, começando pelo chamado, em Marcos 1.16-18, podemos identificar pelo menos três aspectos do padrão divino de Jesus: 16 Andando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e seu irmão André lançando redes ao mar, pois eram pescadores. 17E disse Jesus: Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens. 18No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. (Mc 1.16-18) 1) Visão: “eu vos farei pescadores de homens”. O discipulado é um ministério estratégico que reconstrói a autoestima do discípulo. O chamado de Jesus inclui o trabalho de fazer discípulos, e o seu discipulado contém todos os ingredientes importantes para o desenvolvimento do tipo de pessoa que Deus quer. 2) Crescente compromisso: “No mesmo instante eles deixaram as suas redes”. Devemos fazer discípulos e ensiná-los a se envolver paulatinamente com os objetivos e padrões que Jesus mostrou. 3) Ritmo de vida juntos: “e o seguiram”. Não podemos seguir Jesus sem uma meta. Nossa meta deve ser o seguimento de Jesus. 11 KORNFIELD, David. As base na formação de discipuladores. São Paulo: Sepal, p. 29-43. É na caminhada do discipulado, que pouco a pouco, ganhamos a mesma visão, desenvolvemos um crescente compromisso e chegamos a ter um ritmo de vida juntos. O alvo desta caminhada é a maturação espiritual e integração de toda a vida como um projeto orgânico de formação espiritual pelo discipulado, formando uma verdadeira comunidade de discípulos do Senhor que sirva como ponto de referência para outros, educando na fé. O processo do discipulado de Jesus torna-se facilitado pelo fato da comunicação de Deus por meio dele ser pura graça. É dom gratuito e não fruto solidário da nossa cooperação. Jesus toma a iniciativa; ele não fica esperando que os discípulos lhe procurem. Ele procurou ter aprendizes, no intuito de mais tarde enviá-los para fazer discípulos (Mt 28.19). Na relação de Jesus e os doze há uma palavra-chave para entender o caminho formativo dos discípulos: imitação. Trata-se de recopiar virtudes e estilo de vida de quem se segue. Que no caso dos cristãos, não pode ser nada além de Jesus Cristo: caminhar sobre suas pegadas (1Pe 2.21). Esta relação é absolutamente pessoal e situa-se no centro da vida da pessoa que está em discipulado. Esta vai progredindo pelo caminho, efetivando mudança de direção na própria vida. A “imitação” não tem como referência os aspectos da conduta exterior. Mesmo sendo uma progressiva adequação comportamental, o foco do imitar é sempre as virtudes. Desta forma, o mais importante não é o caminho a ser percorrido, mas o Mestre Amado, seguido e servido, com o coração e afetos. Discipulando dentro do padrão divino Não há caminhos prontos, acabados, definitivos. Caminhos de Deus com as pessoas são feito no caminhar, na história, na companhia do outro. Dizemos que Jesus Cristo é o “Caminho”, mas muitos não aprenderam a caminhar como convém aos verdadeiros seguidores do Mestre. O mais importante é o sentido e direção para onde se caminha. O contínuo processo de aperfeiçoamento pessoal, seguimento de Jesus, só tem relevância se não for uma caminhada solitária, por mais que pareça ser. O evangelho de João mostra que os primeiros discípulos haviam tido algum contato com João Batista antes de se tornarem discípulos de Jesus. Assim, por mais preparados que alguém possa estar, virá o tempo, para cada um de nós, em que o chamado de Jesus chegará pessoalmente e teremos que tomar a decisão de segui-lo ou não.12 Isto começou com os primeiros discípulos por ganhar a visão do discipulado de Jesus, passando por um crescente compromisso com ele, até alcançarem um ritmo de vida juntos. 12 CARSON, D.A. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 1.430. O Reino de Deus foi revelado em primeiro lugar na vida de Jesus e, depois, na vida de seus seguidores fiéis. A Bíblia é a nossa regra de fé e prática. Veja uma breve ilustração disto, no texto de Mateus 5.17-32: • Os versículos 17-20 nos dão o padrão ético do Reino de Deus. A ética, do ponto de vista divino, possui princípios morais imutáveis, que é responsabilidade cristã. • Os versículos 21-26 nos dão o padrão do relacionamento pessoal (respeito, reparação da ofensa, companheirismo), onde diz que o conviver sem ressentimento com o próximo é mais uma das nossas responsabilidades cristãs. • Os versículos 27-32 nos dão o padrão do comportamento sexual que devemos ter. A Bíblia diz que “não havendo profecia, o povo se corrompe” (Pv 29.18). O termo “profecia” se refere à mensagem de Deus dada por meio de um profeta. Se refere a uma visão profética ou o ensino do profeta acerca da vontade e do propósito de Deus. Essa revelação é indispensável na formação discipular, sem a qual, anda cego, tropeçando, sem direção e confiança. Capítulo 5 A formação de uma comunidade discipuladora a partir de Jesus O desejo de Jesus, a exemplo do grupo dos doze, foi estabelecer uma comunidade de imitadores, vivendo a plenitude da graça, expressa na transformação pessoal e serviço mútuo. Compreender o que é Igreja é menos importante do que viver o seu real significado. Mas o processo de procurar entender o que ela é, nos conduz num aprendizado sobre sua natureza como comunhão viva a partir do exame dos valores do Reino de Deus. O que estou afirmando é que, a priori, não existe desenvolvimento integral de um discípulo sem o Evangelho de Cristo e a orientação do Espírito Santo. Ao formar sua comunidade,Jesus teve como objetivo ajudar quem persistia na tarefa de conquistar novas pessoas para o discipulado, preservar quem já estava envolvido e reconquistar quem, por qualquer razão, havia se afastado da fé. Jesus lhes apresentou, primeiro, o Evangelho (Mc 1.14-15). Ora, não podemos orientar alguém no caminho do Senhor e a tomar com clareza essa importante decisão na vida sem levar em consideração o Evangelho. Essa construção de Jesus tem na base uma singela missão: abrir seu ângulo de visão para enxergar nas pessoas, que as rodeiam, possíveis novos parceiros de caminhada, e, por outro lado, fortalecer ainda mais os laços dos que estão integrados. A comunidade inclusiva de Jesus Jesus – verdadeiro Deus, verdadeiro homem – alcançou às diversas camadas da sociedade, indistinta e simultaneamente, com sua mensagem simples e profunda do Evangelho, sempre preservando a dignidade do homem. Com efeito, Jesus não fazia diferenciação entre às pessoas: ricos e pobres, cultos e ignorantes, homens e mulheres. Seu convite ao discipulado se dirigia a todos, sem exceção: • chamou pessoas simples do povo (Mc 1.14-20); • chamou quem era marginalizado pela sociedade (Mt 9.9-13); • chamou quem estava oprimido pelas imposições religiosas (Mt 11.28-30); • chamou a liderança rica da comunidade (Lc 1.18-30); • chamou qualquer pessoas que o desejasse seguir (Mt 22.1-14). Aprendemos assim, que o cristianismo se caracteriza, essencialmente, por ser a religião do Deus que busca os homens; do pastor que, deixando as noventa e nove ovelhas num lugar seguro, sai à procura daquela que se perdeu. Onde dizer sim para Deus é dizer sim para o seu amor; amor como surpresa e como evento que acontece na singularidade e simplicidade da vida. Desta forma, podemos observar no discipulado de Jesus três propósitos básicos: 1) A glória de Deus: isto é, tudo que Jesus fazia teve como ponto referencial e ideal a glorificação do Pai; 2) O bem das pessoas: ou seja, o propósito do Evangelho é realizar a pessoa em sua plenitude; em todas as suas faculdades, emoções e trabalho; 3) O bem da comunidade: pois a vontade de Deus não coexiste com o egoísmo ou individualismo, mas sim com o bem comum. As implicações práticas de seguir Jesus Cristo Com efeito, a abordagem do homem Jesus em sua extrema humanidade e grandeza, como nosso Salvador e Mestre, carrega algumas implicações quanto o segui-lo. Desde o início, o entusiasmo dos discípulos de Jesus era grande. Neles havia um crescente compromisso, pois era o entusiasmo do primeiro amor. Para alguns do grupo dos doze, tudo começou com um convite à beira do mar da Galileia. Eram pescadores e esta era a profissão deles. Jesus passa e os convida. Eles largam tudo e o seguem. Na raiz deste grande entusiasmo inicial está a pessoa de Jesus que chama, a Boa-Nova do Reino que os atrai! Eles ainda não percebem todo o alcance que o contato com Jesus implica para a vida deles, mas isto, por enquanto, não importa! O que im- porta é eles poderem seguir Jesus que anuncia a tão esperada Boa-Nova do Reino,até que,enfim,o Reino chegou.(Mc 1.15)13 Seguir Jesus pressupõe ruptura! O compromisso desses primeiros discípulos foi crescendo pouco a pouco até alcançarem uma participação efetiva e plena na missão de Jesus (Mc 6.7-13). De fato, em Jesus, tudo é ação formadora. 13 FIGUEIRA, Eulálio; JUNQUEIRA, Sergio. Teologia e educação: educar para a caridade e solidariedade. São Paulo: Paulinas, 2011, p 147. • Na maneira de conviver com os discípulos; • na forma como se envolvia com eles; • no processo da missão de anunciar as Boas-Novas do Reino; • na metodologia de ensino participativo, especialmente pelas parábolas; • nas estratégias de acompanhamento dos discípulos em seu processo de formação. Assim, em torno da pessoa de Jesus, formaram-se alguns grupos, um deles, um grupo menor de doze (Mc 3.14), à semelhança das doze tribos de Israel (Mt 19.28). Dentro deste grupo, Jesus se relacionava, por assim dizer, com subgrupos: 1) um grupo mais amplo de setenta e, dentre eles, dois seguidores (Lc 10.1); 2) uma comunidade ampla de homens e mulheres (Lc 8.1-3); 3) as multidões, que se reuniam para ouvir sua mensagem. Agora, vejamos as três dimensões do processo de formação dos discípulos, que faz de nós hoje uma comunidade discipuladora: 1) Ter em nós a vida de Jesus, como experiência pessoal da presença de Cristo ressuscitado, onde refazemos nossas vidas à luz do padrão do Mestre e na companhia dele. Isto requer de nós uma entrega radical e continua. 2) Imitar o exemplo de Jesus, recriando em nós a vida dele, por meio da convivência diária com seu povo, permitindo um confronto constante dos nossos erros, pelo espelho da vida de Jesus. 3) Participar do destino de Jesus, na disposição de carregar a cruz e morrer com Jesus. Isto exige de nós um compromisso concreto e diário com a missão do Senhor, e com seu ideal comunitário, tal como Jesus foi fiel ao Pai celeste. Concluindo, o seguir Jesus implica em realizar sua missão no mundo. E mais: 1) O seguimento apaixonado e radical de Jesus deve ser o centro de toda nossa vida cristã. 2) O dom espiritual básico deve ser vivido com integridade e criatividade no contexto comunitário e no mundo, frutificando para o Reino de Deus. 3) Vivência dos valores do Evangelho (amor, obediência etc.), abrangendo todas as áreas da vida. 4) Viver em harmonia uns com os outros, sendo disponível e assumindo responsabilidade, superando o individualismo e os inevitáveis conflitos. 5) Educar a vida contemplativa, para que a vida de oração e estudo da Palavra ilumine o trabalho e a vida comunitária, criando profunda harmonia em nosso homem interior. Capítulo 6 Promovendo encontros transformadores Não é possível vivenciar o discipulado de Jesus a partir de situações de imprevistos. É preciso ser intencional e percorrer com paciência, passo a passo, o caminho da formação espiritual, onde o divino e o humano de fundem. Jesus era humano, muito humano! Mas ele disse: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14.9). Desse modo, pelo jeito de ser, e pelo seu testemunho de vida, Jesus encarnou Deus e o revelou aos discípulos que o acompanhavam por todas as partes: desde as sinagogas até as casas de pecadores marginalizados da sociedade. Enquanto age, acontece a ação formadora, os discípulos participavam na dureza da jornada de Jesus. Houve momentos em que o grupo não tinha tempo nem para comer, tamanha era a demanda do povo que os procuravam. Contudo, a convivência se tornou íntima e familiar: comiam juntos, andavam juntos, se alegravam e sofriam juntos. E eram essas coisas que marcavam a vida dos discípulos. Enquanto convivia diariamente com os doze, Jesus formava-os para a vida e a missão. O ambiente amigável e acolhedor, estabelecido pelo Mestre do amor, facilitava a intimidade dos discípulos com o Pai celeste. Esta era a maneira de Jesus dar sentido à existência dos seus seguidores, pautada na experiência com Deus, vivida por meio de “encontros” marcantes e transformadores. À medida que crescia nele a intimidade com o Pai, Jesus adquiria um olhar diferente para ler e entender a Bíblia e a vida. A Bíblia era ensinada pelos fariseus e pelos escribas a partir de uma determinada ideia de Deus. Jesus, que experimentava Deus como Pai, já não podia concordar com tudo que se ensinava na sinagoga. 14 A formação intelectual privilegia a mente, mas não transforma o caráter da pessoa. O verdadeiro discipulado não faz apologia à ignorância, nem tão pouco ao conhecimento, mas o que vale mesmo são as experiências com o sobrenatural de Deus. 14 FIGUEIRA, Eulálio; JUNQUEIRA, Sergio. Teologia e educação: educar para a caridade e solidariedade. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 136. O Padrão Divino A personalidade e a identidade do seguidor de Jesus serão perfeitas a medida que se fundem com a maturidade dele, por meio de uma relação comprometida e pessoal com as outras pessoas discípulas de Jesus. De fato, leva tempo para que a pessoa cristã alcance a maturidade. Jesus nunca exigiu mais do que seus discípulospudessem dar. Também nunca lhe pediu algo que não pudessem fazer. Nenhum de nós já chegou à plena maturidade – não estamos suficientemente amadurecidos em nenhuma esfera da vida. Quando nos julgamos “perfeitos” estamos apenas revelando nossa própria imaturidade e incapacidade espiritual. Com efeito, a maturidade não é uma posição a qual chegar, mas um processo pelo qual passamos. Assim, todos nós precisamos de ajuda para perseverarmos na fé; precisamos de auxílio para conseguir enxergar nossos problemas e de cuidado para melhor solucioná-los. C. S. Lewis explicou, assim, este conceito, dizendo não conseguir motivar -se por mero esforço moral e que compreendemos que, após darmos os primeiros passos na vida cristã, tudo que necessita ser mudado no nosso íntimo só pode ser feito pelo intermédio de Deus. Jesus serviu de modelo para seus discípulos e os discipulou rumo à maturidade. A formação espiritual, unida às demais facetas da formação humana, como a formação psicológica, favorece a maturidade. Quando Jesus discipulou os doze, usou pelo menos cinco processos chaves: O primeiro deles foi os encontros transformadores, os outros quatro veremos nos capítulos seguintes deste livro. O que são encontros transformadores? Encontros transformadores são encontros pessoais onde a vida de alguém é marcada por receber sabedoria, direção ou poder de Deus pela ajuda de outra pessoa. Quando lemos, por exemplo, João 1.35-42, podemos identificar alguns desses encontros transformadores: 35 No dia seguinte João estava ali novamente com dois dos seus discípulos. 36Quando viu Jesus passando, disse: Vejam: É o Cordeiro de Deus! 37Ouvindo-o dizer isso, os dois discípulos seguiram Jesus. 38Voltando-se e vendo que os dois o seguiam, perguntou-lhes: O que você querem? Eles disseram: Rabi (que significa Mestre), onde estás hospedado?. 39Respondeu ele:Venham e verão. Então foram, por volta das quatro horas da tarde, viram onde ele estava hospedado e passaram com ele aquele dia. 40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido o que João dissera e que haviam seguido Jesus. 41O primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: Achamos o Messias (isto é, o Cristo) 42E o levou a Jesus. Jesus olhou para ele e disse:Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas (que traduzido é Pedro). (Jo 1.35-42) Há pelo menos três desses encontros transformadores, nesta passagem: • a revelação do Cordeiro de Deus: “Vejam: É o Cordeiro de Deus!” (v. 36); • impacto pelo contato pessoal: “passaram com ele aquele dia” (v. 39). • mudança de identidade: Jesus olhou para ele e disse: “Você é Simão, filho de João. Será chamado Cefas (que traduzido é Pedro)”. Segundo os relatos dos evangelhos, este foi o primeiro contato pessoal desses discípulos com Jesus. A resposta deles à pergunta de Jesus e o modo como se referiu a ele, “Rabi”, 15 mostra a intenção séria de segui-lo. O principal objetivo de encontros transformadores é a renovação espiritual. A espiritualidade é, sem dúvida, uma das áreas mais profundas da teologia. Suas dimensões são ricas em significado e chamado. Todavia, no tocante a espiritualidade, há muitas misturas hoje em dia. Não pode haver verdadeira espiritualidade quando se diz experimentar o derramar do Espírito e se divorciar do profundo compromisso com a Palavra de Deus e vice-versa. Para alguns, “igreja espiritual” se justifica com aquele ambiente marcado por muito ruído, instrumentos musicais tocando com bastante volume. Pode até ser que haja espiritualidade nisso, mas o que a Bíblia define como espiritualidade cristã é outra coisa. No Novo Testamento o termo espiritual vem da palavra Espírito Santo, que se revela especialmente através dos seus frutos. Tem havido uma tremenda confusão entre espiritualidade cristã e espiritualismo. Todavia, espiritualismo é filosofia. O sufixo “ismo” leva a isso. É uma doutrina que admite a existência do espírito. Admitindo também a imortalidade da alma, o espiritualismo deixa implícito sua crença na existência de Deus. Aqui, não se deve confundir espiritualismo com espiritismo. Já a espiritualidade cristã é uma cultura bíblico-espiritual. É o relacionamento do crente com Deus e sua vida no Espírito como membro do Corpo de Cristo. O discipulado propõe a construção da verdadeira espiritualidade, por meio do estudo da Palavra, da oração, comunhão e adoração. 15 O título “Rabi” era de respeito e não se referia, como veio a acontecer mais tarde, àquele que tinha sido treinado nas escolas rabínicas. Capítulo 7 Discernindo a quem atende a sua voz “Aquele que quiser estar só e sem arrimo de mestre e guia será como a árvore do campo isolada e sem dono, que, por mais frutos que dê, os viajantes os colhem antes de amadurecer”(João da Cruz16) Não existe discipulado fácil. Se for fácil não é discipulado! No “exame” para o discipulado de Jesus não há condições de “colar” as respostas, pois o “exame” é individual e as respostas somente podem ser dadas por quem percorre o caminho e se identifica com ele. O movimento se desloca, decisivamente, do exterior (da religiosidade) para o interior, dos comportamentos à essência do ser, dos gestos ao coração, sentimentos puros, motivações corretas e paixão; onde Cristo se torna, de fato, a forma, no sentido profundo e multifacetário. A relação a ser vivida na dimensão afetivo-relacional-espiritual com Cristo tem um alto preço. Quem não pagar o primeiro “preço” – a fé e o arrependimento – jamais poderá dar início à caminhada do discipulado. No processo dessa caminhada educativo-formativa, as raízes profundas do nosso eu vão sendo atingidas, expondo suas fraquezas e vulnerabilidades, gerando mudanças radicais de dentro para fora. Portanto, no discipulado de Jesus, para obter sucesso, existem algumas implicações e uma delas são as altas exigências. Jesus estava constantemente desafiando os discípulos e as multidões. Suas palavras fugiam do ordinário, do comum. Com o convite às pessoas que desejassem ser seus discípulos, Jesus sempre conseguia uma reação: por vezes a ira e a indignação, como no caso dos líderes religiosos; outras vezes, o assombro, o espanto, a perplexidade por parte dos ouvintes por falar com tanta autoridade e poder. 16 João da Cruz (1542-1591). Teólogo espanhol que se destacou pelo misticismo e exercícios espirituais. É o autor das seguintes obras: Subida ao Monte Carmelo, Noite Escura, Chama Viva de Amor e Cântico Espiritual. O Senhor Jesus fez severas exigências àqueles que seriam seus discípulos – exigências que são totalmente desprezadas nestes dias de vida voltada ao luxo. É como vermos o cristianismo simplesmente como uma fuga do inferno e uma garantia de se chegar ao céu. Além disso, sentimos que temos todo o direito de desfrutar do melhor que esta vida tem a oferecer. Estamos cientes da existência daqueles versículos incisivos na Bíblia que falam sobre o discipulado,mas temos dificuldade de conciliá-los com nossas vidas sobre como o cristianismo deveria ser.17 Jesus deixava muito claro que havia um preço a pagar em ser seu discípulo: a nossa própria vida, o próprio eu. Na visão de Jesus, discipulado é um estilo de vida. Portanto, quem acha que já aprendeu tudo deixou de ser discípulo e passou a ser “mestre” É necessário estabelecer altas exigências O discipulado de Jesus exige renúncia, autonegação e disposição completa. Jesus estabeleceu critérios claros para quem queria segui-lo. Jesus foi categórico: “não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27), sem que antes haja formado a consciência: é preciso abandonar tudo; é esta a recomendação de Jesus! Ou seja: Para ser discípulo do Senhor Jesus, é preciso abandonar tudo. Esse é o significado inequívoco das palavras do Salvador. Não importa quanto possamos reclamar de tal exigência “estrema”; não importa quanto possamos nos rebelar contra uma política tão “impossível” e “insensata”; permanece o fato de que essa é a palavra do Senhor, e ele deseja exatamente o que disse.18 Lendo os Evangelhos, descobrimos que Jesus não procurou grande númerode pessoas para discipular. Ele procurou o tipo de pessoa que valesse a pena reproduzir. Veja isto: 25 Uma grande multidão ia acompanhando Jesus; este, voltando-se para ela, disse: 26Se alguém vem a mim e ama a seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. 27E aquele que não carregar sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo. (Lc 14.25-27) 17 MACDONAL William. O discipulado verdadeiro. 2.ed. ampl. São Paulo: Mundo Cristão, 2009, pp. 12-13 18 Ibidem, p.18. Afinal, qual é o custo do discipulado de Jesus? O custo é “tudo” (Mt 14.33). Tudo o quê? Tudo o que somos e o que temos. Segundo William Macdonald, quando lemos Lucas 14.33, devemos encarar algumas verdades poderosas: • Jesus não exigiu isso de certa classe seleta de trabalhadores cristãos, mas de todos. Ele disse; “qualquer de vocês...”. • Jesus não disse que devemos simplesmente estar dispostos a abandonar tudo. Ele disse: “qualquer de vocês que não renunciar”. • Jesus não disse que devemos renunciar apenas uma parte de nossa riqueza. Ele disse: “Qualquer de vocês que não renunciar a tudo o que possui” • Jesus não disse que se apegar aos seus tesouros teria diante de si a possibilidade de viver uma forma diluída de discipulado. Ele disse: “não pode ser meu discípulo”. Este desafio do discipulado de Jesus só será aceito quando nós estivermos dispostos a “perder” a vida (Mc 8.35), e este “perder a vida” implica em viver em função do amor de Cristo e do seu evangelho. Amor a Cristo significa viver em conformidade com o que ele ordenou (Jo 15.9-12; 1Jo 2.3-11). Amor ao evangelho significa que as boas-novas que Jesus veio fazer devem ser prioridades em nossas vidas. De volta a João 6, versículo 60, vemos que alguns ouvintes de Jesus reagiram à sua mensagem, dizendo: “Dura é essa palavra. Quem pode suportá-la?” O discurso era duro porque era ao mesmo tempo difícil e aparentemente ofensivo. Difícil porque até aquele momento nenhum mestre havia sido tão ousado ao ponto de utilizar tanto o “eu sou” como Jesus o fez e, ainda com uma terminologia que o povo nunca tinha ouvido: “Eu sou o pão da vida” (v. 47), “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (v. 51). Quando as palavras e atos de Jesus eram favoráveis às pessoas, em multidão, o seguiam. Mas quando a Palavra era dura e o desafio era maior, poucos permaneciam. A mensagem era aparentemente ofensiva, pois, Jesus se “colocou” acima de Moisés, ao declarar que o pão que foi dado ou maná, saciou a fome, mas não deu vida; ele, sim, sendo o “pão da vida”, faria com que a pessoa tivesse vida eterna. Jesus também pareceu ofensivo ao declarar que teriam que comer a sua carne e beber o seu sangue, algo ofensivo para os judeus. Mas Jesus era o Mestre que ensina com coragem e intrepidez, com a marca das altas exigências. Naquele contexto Jesus tinha que ser direto e duro, assim é no discipulado, não podemos fazer concessões, baixar as exigências. Indo um pouco mais fundo, em João 6.68-69, à luz da confissão de Pedro, podemos ressaltar três perspectivas do discipulado de Jesus: 1) A exclusividade da fé: só Jesus tinha, e obviamente tem, as palavras de vida eterna; 2) A estabilidade da fé: os discípulos já tinham crido. A expressão “temos crido” indica o resultado de um ato anteriormente feito, que foi o de crer em Jesus; 3) A finalidade da fé: que é o reconhecimento da divindade de Jesus. Jesus falou diversas vezes sobre a recompensa do discipulado, por meio da expressão: “Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará” (Mt 10.39; 16.25; Mc 8.35; Lc 9.24, 17.33; Jo 12.25). Por que isto foi repetido tantas vezes? Não seria porque esta frase estabelece um dos princípios mais fundamentais da vida cristã, a saber, que a vida guardada para si mesmo é vida perdida, enquanto vida derramada para o Senhor é vida encontrada, salva, alegre e mantida pela eternidade. 19 O que significa manter as altas exigências no discipulado? O próprio discipulado, em si, é uma alta exigência, pois ser discípulo significa ser aluno, ser aprendiz. Significa estar na escola de Jesus; adotar uma postura de aprendizado, e aprendizado não consiste apenas em ouvir certas lições sobre determinado assunto da Bíblia; antes é ouvir e praticar o que foi ensinado. Cada um de nós é responsável diante de Jesus quanto a exigência de “abandonar tudo”. É um assunto absolutamente particular, e por isso, não podemos estipular o que a pessoas tem de “abandonar”. As exigências do discipulado devem ser altas. É aqui que começa a seleção entre o verdadeiro e o falso discípulo. Se em nosso discipulado não mantivermos altas exigências, teremos crentes esquentando bancos, ao invés de líderes que se tornem discipuladores que se multiplicam. Este deve ser o nosso alvo: multiplicar discipuladores. Na prática, uma das altas exigências do discipulado, por exemplos, é separar tempo para nos dedicar, na companhia de outros seguidores de Jesus, para o nosso crescimento pessoal, especialmente no contexto de um grupo pequeno, os quais são indispensáveis para cultivar a identidade de família. 19 MACDONAL William. O discipulado verdadeiro. 2.ed. ampl. São Paulo: Mundo Cristão, 2009, p. 90. Identificando quem atende a sua voz Discernimento quanto a quem atende a sua voz é o quarto processo utilizado por Jesus no discipulado dos doze. Relembrando meus mais de vinte anos caminhando no discipulado, acredito ser este o critério que tive (e continuo tendo) mais dificuldade de aplicar. Requer quebrantamento interior, submissão de coração e obediência intencional. Costumamos dizer que pelo menos 50% do sucesso do discipulado depende da seleção do início. Se não selecionarmos bem, não teremos um movimento que cumpra com a grande comissão para chegar a “todas as nações” e “até a consumação do século”. Portanto, um dos critérios da seleção é discernir quem atende a sua voz. Para Jesus o “peneiramento” na seleção de seus seguidores era inevitável. Deste modo, se revelariam quem de fato eram discípulos de verdade, pois para seguir Jesus era necessário muito mais que um simples deixar suas ocupações profissionais, assim como fizeram alguns pescadores. Nos tempos bíblicos, o pastor não chamava ovelhas aleatoriamente. Chamava somente as que lhe pertenciam. As ovelhas reconheciam a voz do seu pastor e atendiam somente a ele! Observe o ensino de Jesus: 2 Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas 3O porteiro abre-lhe a porta, e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora. 4Depois de conduzir para fora todas as suas ovelhas, vai adiante delas, e estas o seguem, porque conhecem a sua voz [...] 16Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor [...] 27As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. (Jo 10.2-5, 16,27) No contexto do discipulado, distinguir a voz e atendê-la é uma questão chave. Só é nosso “discípulo” quem ouvir a nossa voz (ou comando). O importante aqui é o relacionamento entre as ovelhas e o pastor. Não pode haver um conhecimento mais íntimo que esse (vs. 14-15). Outro princípio que merece um destaque especial é o fato de que o discipulado de Jesus implica em reconhecer que sua autoridade tem como base a sua divindade. No discipulado é necessário uma fonte de autoridade para comandar nossas vidas. Esta autoridade precisa ser coerente, justa e que sirva de parâmetro seguro para guiar nossa existência. Jesus é a nossa autoridade suprema. Capítulo 8 Como saber em quem investir a vida? O exercício do discipulado não deve ser por meio de imposição, mas de uma relação simples de ajuda fraterna que não obriga a pessoa a colocar em prática as orientações recebidas. Cada pessoa é livre para fazer escolhas e assumir suas responsabilidades. Ninguém pode escolher e assumir responsabilidade pelos outros. Mas no processo de investir nossa vida em razão da vidade outras pessoas, temos de levar muito a série a oração como critério de seleção. Nisto Jesus é o Mestre por excelência. E, nós como seus discípulos, devemos nos portar como aprendizes de oração. É orando que Jesus nos ensina a orar (Lc 11.1). Observe como Lucas inseriu o pedido dos discípulos – “Senhor, ensina-nos a orar” - no momento em que eles já tinham crescido na formação interior ou para destacar que a pergunta nasceu das muitas vezes que viram Jesus orando. Jesus ensinou os discípulos a orar com fé, perseverança e humildade (Lc 11.5-11; Mt 7.7). Esforçando-se sempre por cumprir a vontade do Pai celeste (Mt 7.21). Para cultivar uma vida cristã vitoriosa, mesmo em meio às agitações da vida cotidiana, precisamos perseverar em oração, pois esta pratica alicerça bem nossa vida para que nos momentos difíceis não venhamos a naufragar diante das ondas agitadas pelo vento. Assim, temos de compreender “sacrifício” como necessidade para alcançar o ideal (1Co 9.24-25), ou seja, o discipulado é um treino permanente nas competições da vida, para o discernimento. Nos evangelhos encontramos elementos suficientes para fundamentar a formação espiritual, pelo “sacrifício”, como necessidade de educar para a vida. A oração, que eleva a alma para Deus em íntimo diálogo de amor, é uma disciplina espiritual discernidora. Desta forma, o olhar atento nos favorece uma conscientização de que, sem a oração, não é possível uma vida interior de piedade e discernimento. O Padrão Divino Precisamos aprender que somente olhando para o Autor e Consumador da fé, poderemos aprender o novo método relacional com Deus, ensinado por Jesus (Lc 11.1). Não me refiro ao método de oração, há muitos livros que ensinam isto, refirme ao estilo de vida permanente e constante como caminho para buscar a Deus e relacionar-se com ele como alguém vivo e pessoal e fazer as escolhas certas. Somente na escola de oração de Jesus é que percebemos o quanto somos precipitados, mas a confiança em Deus cresce em nós à medida que mantemos nossa comunhão com o Senhor pela oração. É na presença de Deus que nos sentimos pequenos, porém confiantes. Nos sentimos fortalecidos, porém humildes, perfeitamente humanos, porém envolvidos pela graça. Como podemos desenvolver uma vida de oração que nos possibilita discernir em que investir a vida? • Entendendo que o poder da oração está ligado a abertura sincera de nosso coração a Deus. • Discernindo que a oração não pode ser utilizada para fins egoístas. • Tendo cuidado para não usar a oração como cúmplice de nossas ações injustas. • Acreditando sempre que a oração de fé é restauradora. • Compreendendo que a oração não um monopólio clerical – é privilégio de qualquer pessoa. • Praticando a oração mútua – uns pelos outros. Com efeito, a oração é uma experiência transcendental, que coloca nosso homem interior em contato com Deus. A oração, na prática, é uma das armas do cristão para seu crescimento espiritual. A oração foi um dos processos utilizado por Jesus no discipulado dos doze. Jesus passava noites inteiras intercedendo pelos seus discípulos. 12 Num daqueles dias,Jesus saiu para o monte a fim de orar,e passou a noite orando a Deus. 13Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze deles, a quem também designou apóstolos.(Lc 6.12-13) Observe que antes de Jesus formalizar os doze, ele retirou-se e passou a noite em oração. Uma ocasião desta tão importante e com tantas implicações para o futuro do seu trabalho teria de ser “banhado” em oração. Assim como Jesus, a pessoa que discipula deve orar até sentir que o próprio Deus está lhe indicando as pessoas nas quais deve investir sua vida. Em suma: 1) O discipulado implica em obediência radical a Jesus. Esta é a condição básica do verdadeiro discipulado. 2) É um perigo afirmar que “reconhece” a autoridade de Jesus Cristo só em palavras, e não na forma de estilo de vida. 3) A perseverança é um dos critérios para o discipulado. O discípulo só permanece quando começa de forma correta. Ser atraído pelos milagres não é uma forma correta. Jesus censurou a atitude da multidão ao procurá-lo apenas por haver multiplicado o pão (Jo 6.25-27), e tal atitude se deu pelo fato de a mesma estar equivocada sobre a natureza do ministério de Jesus. 4) De fato, Jesus quer ver uma confissão de fé sincera, como aquela que Pedro fez: “Senhor, para onde iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus” (Jo 6.68-69). O caminho do discípulo do preparo para superar qualquer tipo de tentação ou prova é pela oração. Como aprendizes de Jesus, precisamos estar sempre desejando mais falar com ele e ouvir dele, em forma de diálogo, a fim de tomar a decisão certa. Sim! Pois, a oração não é alienação. É, pela oração, que concluímos o que é melhor a se fazer e o que não fazer. Sobretudo, em quem investir a vida! Além da oração, aqui estão os principais processos para nos dirigir retamente no caminho do Senhor: • A Palavra de Deus – o ponto referencial de toda prática cristã; • Experiência mística – não basta saber sobre Deus, é preciso viver a experiência da comunhão com ele; • Relacionar-se bem uns com os outros – com a consciência de que não somos donos da vida de ninguém, e nem podemos moldá-los à nosso modo de ser ou pensar. Bibliografia sugerida para leitura BRISCOE, Stuart. Discipulado diário para pessoas comuns. São Paulo: Vida, 1992. BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. Porto Alegre: Sinodal, 1989. CAMPANHÃ, Josué. Discipulado transformando igrejas. São Paulo: Eclésia, 2002. CÉSAR, Elben M. Lenz. Não perca Jesus de vista. Varginha, MG: Ultimato, 1997. COLEMAN, Robert. O Plano Mestre de evangelismo. São Paulo: Mundo Cristão, 2006. EVANS, Tony. Discipulado espiritual e dinâmico. São Paulo: Vida, 2000. HARBERMAS, Ronald. O discipulado completo. Rio de Janeiro: Central gospel, 2008. HENRICHSEN, Walter. Discípulos são feitos, não nascem prontos. São Paulo: Atos, 2002. JONES, Milton. Discipulado: o ministério da multiplicação. São Paulo: Vida Cristã, 1996. KORNFIELD, David. As bases na formação de discipuladores. São Paulo: Sepal, 1994. MACARTHUR, John. Chaves para o crescimento espiritual. São Paulo: Fiel, 2000. OGDEN, Greg. Elementos essenciais do discipulado. São Paulo: Vida, 2010. PETERSEN, Willian. O Discipulado de Timóteo. São Paulo: Vida, 1986. PHILLIPS, Keith. A formação de um discípulo. São Paulo: Vida, 1990.