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Intubação Oreotraqueal Introdução: O manejo da via aérea no departamento de emergência (DE) vai muito além da escolha das melhores drogas para a sequência rápida de intubação (SRI) ou mesmo da passagem e do posicionamento do tubo na traqueia do paciente. Além da competência da intubação, médicos que atuam no cuidado a pacientes críticos devem dominar a abertura e o posicionamento da via aérea, a ventilação e a oxigenação não invasivas, o manejo de dispositivos como bougie, máscara laríngea e videolaringoscópio, e os cuidados peri- intubação. A intubação orotraqueal (IOT) é um procedimento médico especializado, indicado para várias circunstâncias clínicas. Intubação de sequência rápida (ISR) é a melhor e mais segura técnica para a intubação orotraqueal (IOT) no departamento de emergência (DE), além de ser a mais usada mundialmente. A IOT é um procedimento realizado em muitas situações de emergência que visa à colocação de uma cânula no interior da traqueia com o auxílio de acessórios específicos para assegurar um suporte ventilatório eficiente e seguro. O tamanho do tubo deve ser o maior possível. Em geral, utilizam-se tubos de 7,5 a 8,0 para mulheres e 8,0 a 8,5 para homens. O paciente deve ter um acesso venoso de bom calibre e estar monitorizado com todo o equipamento disponível (monitor de pressão arterial, oxímetro de pulso e cardioscópio), inclusive com capnometria. Indicações de IOT: Em linhas gerais agrupamos essas indicações em 4 grupos principais: 1. INSUFICIÊNCIA RESPIRATÓRIA REFRATÁRIA A MEDIDAS NÃO INVASIVAS: este grupo inclui não apenas pacientes hipoxêmicos com dessaturação e desconforto respiratório, mas também pacientes com distúrbios ventilatórios e retenção de CO2, também conhecido com insuficiência respiratória hipercápnica, ou insuficiência respiratória tipo 2. 2. INCAPACIDADE DE PROTEÇÃO DE VIAS AÉREAS: a clássica indicação de intubação por rebaixamento do nível de consciência. Podemos citar como exemplo pacientes com trauma e glasgow menor que 9, pacientes com doenças estruturais de sistema nervoso central, coma metabólico, intoxicações exógenas e todo quadro que leve o paciente a ter um rebaixamento do nível de consciência importante a ponto de não garantir a proteção de vias aéreas e colocá-lo em risco de broncoaspiração 3. CURSO DA DOENÇA: nesse grupo incluímos todos os pacientes com algum preditor de piora no quadro clínico nos quais podemos antecipar o procedimento de intubação para realizá-lo em um momento mais seguro para o paciente. Como exemplo podemos citar os pacientes com doença pulmonar grave em evolução com risco de evolução para insuficiência respiratória e fadiga muscular nas próximas horas. 4. SITUAÇÕES EXTREMAS: essa indicação inclui casos de parada cardiorespiratória ou apneia. Segundo o manual de via aérea na emergência do Walls, temos 3 indicações clássicas para indicar via aérea definitiva: ○ Há falha em manter a via aérea pérvia/protegida? ○ Há falha na ventilação ou oxigenação? ○ Há necessidade de se antecipar a um possível desfecho clínico desfavorável? Preditores de Via Aérea Difícil: Deve-se fazer uma avaliação inicial das VA. Nessa avaliação, devemos procurar preditores de dificuldade, tanto para a ventilação bolsa-válvula- máscara quanto para a intubação orotraqueal. Em pacientes com preditores de via aérea difícil, o uso do ultrassom point- of-care (POCUS) e a marcação anatômica da membrana cricotireoide previamente ao procedimento de intubação é fundamental para facilitar o procedimento que pode vir a ser necessário durante um momento de estresse. Cinco avaliações devem ser realizadas: 1.Laringoscopia difícil (mnemônico LEMON): L: Look externally - avaliação subjetiva de potenciais dificuldades a serem encontradas durante a laringoscopia, como alterações anatômicas, sangramento, obesidade etc. E: Evaluate - avaliação 3-3-2. Abertura oral idealmente deve ser maior ou igual a 3 dedos, distância mento-hioide de 3 dedos, distância do osso hioide a tireoide de 2 dedos – levando em conta o tamanho do dedo do paciente. M: Mallampati - diz respeito à relação entre abertura oral, tamanho da língua do paciente e tamanho da orofaringe. Dividido em 4 categorias, sendo III e IV mais relacionadas a falhas de intubação. Embora clássica, o uso dessa avaliação é difícil no DE. O: Obstruction - a obstrução pode ser visualizada ou indicada por sinais como: voz abafada, estridor, dispneia e salivação excessiva. N: Neck mobility - diz respeito à possibilidade de mobilização cervical. Pacientes com restrição extrínseca (colar cervical) ou intrínseca (doenças reumatológicas, por exemplo) apresentam maior dificuldade à laringoscopia direta. 2. Ventilação bolsa-válvula-máscara difícil (mnemônico ROMAN): R: Restriction/Radiation - radioterapia cervical recente ou doenças que aumentem a resistência ou reduzam a complacência pulmonar, por exemplo: asma, DPOC, pneumonia ou SDRA. O: Obstruction/Obesity - índice de massa corporal (IMC) > 26, abscessos, tumores, laringoespasmo, angioedema e apneia obstrutiva do sono. M: Mask seal, Mallampati, Male - sondas oro ou nasogástricas, barba, sexo masculino, Mallampati III ou IV. O uso de filme adesivo transparente, como os utilizados como fixadores de acessos venosos, sobre a barba pode melhorar parcialmente a dificuldade. A: Age - idade maior que 55 anos. N: No teeth - ausência de dentes dificulta o selo adequado da máscara. Pode ser remediada com o posicionamento de gaze entre as gengivas com o objetivo de suprir a falta da dentição. 3. Dificuldade de posicionamento de dispositivo extraglótico (mnemônico RODS): R: Restriction - equivalente à restrição citada no mnemônico ROMAN. Restrição de abertura oral e de mobilidade cervical também está relacionada com maior dificuldade de ventilação e posicionamento. O: Obstruction/Obesity - quando há obstrução da via aérea, o selo da máscara laríngea com a via aérea pode não ser suficiente para gerar pressão que seja capaz de superar a resistência da via aérea. D: Distorted airway - alterações na anatomia da via aérea podem fazer com que não haja selo adequado da máscara laríngea, impedindo a ventilação. S: Short thyromental distance - o posicionamento da língua em pacientes com distância tireomentoniana ou mento-hioide curta pode dificultar a inserção do dispositivo extraglótico. 4. Cricotireoidostomia difícil (mnemônico SMART): S: Surgery - alteração de anatomia ou tecido fibrótico de cirurgias prévias podem dificultar a localização anatômica correta e o procedimento em si. Manipulação recente também dificulta o procedimento em decorrência do edema e/ou sangramento local. M: Mass - tumores sólidos, bócio, hematomas e abscessos cervicais dificultam a identificação correta dos marcos anatômicos necessários para o procedimento. A: Anatomy - pescoço curto ou excesso de tecido subcutâneo podem dificultar a localização anatômica. Enfisema subcutâneo ou infecção local também dificultam o acesso cervical. R: Radiation - radiação local pode dificultar o procedimento em decorrência da aderência dos planos e fibrose locais. T: Tumor - tumores cervicais ou da via aérea podem complicar o procedimento tanto pela alteração anatômica quanto por sangramento durante o procedimento. 5. Via aérea difícil fisiológica (mnemônico CRASH): Embora não existam preditores perfeitos, a via aérea anatomicamente difícil é bem estudada. Igualmente importante, a via aérea fisiologicamente difícil é pouco discutida. O mnemônico CRASH auxilia a avaliação e o manejo da via aérea fisiologicamente difícil. C: Consumption increase (aumento do consumo de oxigênio) - pacientes com sepse, SDRA, tireotoxicose, gestantes e crianças têm consumo periférico de oxigênio aumentado, o que resulta em rápida dessaturação no período de apneia. Tratamento: otimização da pré-oxigenação e uso de oxigenação apneica. R: Right ventricular failure (insuficiência ventricular direita – IVD) - pacientes com emboliapulmonar, por exemplo. Tratamento: otimização da pré-oxigenação, vasodilatadores pulmonares inalatórios, escolha de medicações sedativas menos cardiodepressoras e uso precoce de vasopressores. A: Acidosis (acidose metabólica) - intubação e ventilação mecânica podem levar a perda da alcalose respiratória compensatória em pacientes com acidose metabólica (cetoacidose diabética, choque e sepse). Além disso, 60 segundos de apneia levam a queda de pH em 0,15 e aumento de PaCO2 em 12,5 mmHg. Tratamento: corrigir acidose metabólica previamente, minimizar o tempo de apneia, considerar intubação acordado, manter volume minuto alto. S: Saturation (saturação) - pacientes hipoxêmicos, principalmente hipoxemia refratária. Tratamento: otimizar pré-oxigenação (uso de VNI, CNAF), considerar intubação acordado. H: Hipotension (hipotensão) - otimizar hemodinâmica com reposição volêmica ou uso de vasopressores. S e q u ê n c i a R á p i d a d e Intubação: O mnemônico dos 7 Ps da intubação reúne 7 etapas fundamentais para realização da sequência rápida de intubação (SRI), que consiste na administração de um sedativo seguido de um bloqueador neuromuscular. A SRI é muito utilizada no departamento de emergência, pois está relacionada ao aumento do sucesso na primeira tentativa, menos risco de broncoaspiração e menor taxa de complicações relacionadas ao procedimento. Além disso, como o nome diz, trata-se de um procedimento de rápida execução. Preparação: • Monitorizar o paciente é de grande importância (se for possível e houver tempo). • Acesso venoso é fundamental (se possível, dois acessos é o ideal). • Equipamentos e acessórios: 1. Deixar o aspirador de secreções prontamente disponível. 2. Testar e deixar o dispositivo bolsa-válvula-máscara pronto e ligado ao oxigênio. 3. Testar o ventilador. 4. Testar o laringoscópio: deve-se dispor de lâminas de vários tamanhos, assim como mais de um laringoscópio. 5. Testar e deixar preparado o tubo orotraqueal (pelo menos dois tamanhos diferentes). 6. Coxim suboccipital acessível. 7. Material e drogas para manuseio de choque, arritmias ou parada cardiorrespiratória devem estar disponíveis. • Definição das drogas que serão usadas na ISR, de acordo com as. características do paciente e de suas morbidades. • As drogas devem ser colocadas em seringas com a identificação. clara de cada uma delas. Pré-oxigenação: Consiste em ofertar oxigênio a uma FiO2 de 100% por meio da máscara não reinalante ou dispositivo bolsa-válvula-máscara por 6 a 8 minutos, com objetivo de aumentar a concentração de oxigênio nos alvéolos, fazendo com que o paciente tolere, durante a laringoscopia, um maior tempo de apneia sem dessaturar. Espera-se que durante essa etapa o paciente atinja saturações próximas a 100%, porém, em situações de patologias pulmonares, isso nem sempre será possível, por isso, aqui vão algumas dicas que podem otimizar a pré- oxigenação do seu paciente: • Manter o paciente com cabeceira elevada ou em posição sentada durante a pré-oxigenação • Realizar manobras de posicionamento para abertura de via aérea • Realizar ventilações com o dispositivo bolsa-válvula-máscara sincronizado com a ventilação espontânea do paciente (realizar ventilações de forma devagar e calma) • Realizar pré-oxigenação na VNI • Administrar medicação sedativa em dose baixa em caso de paciente com agitação importante (cetamina é uma ótima escolha nesse cenário) Nem todos os pacientes respondem da mesma forma durante o procedimento. 1. Obesos, crianças e gestantes tendem a reduzir a SatO2 de forma mais rápida. 2. Lembrar disso para que a intubação seja realizada da forma mais rápida e segura. Posicionamento: O posicionamento do paciente pode ser a diferença entre você conseguir ou não visualizar a via aérea. É uma etapa fundamental antes da laringoscopia que otimiza e retifica a via aérea, de modo a facilitar tanto a intubação quanto a ventilação do paciente caso um resgate ventilatório seja necessário. Quando for possível, realizar a hiperextensão cervical também auxilia na abertura e retificação de via aérea. Como reparo anatômico para avaliar o posicionamento adequado do paciente observamos se o lobo da orelha está alinhado com o esterno do paciente. Em pacientes obesos apenas o coxim suboccipital não é suficiente para garantir uma posição adequada e para isso utilizamos o que chamamos de “rampa”. Realizamos a rampa colocando coxins desde a região dorsal do paciente (aproximadamente na altura da coluna lombar) até a região occipital. Pré-tratamento: A etapa do pré tratamento é o momento que deixaremos nosso paciente pronto para ser intubado. Isso inclui otimizar o status hemodinâmico do paciente, objetivando uma PAM > 65 mmHg ou uma PAS > 90mmHg, ainda que seja necessário administração de soluções cristalóides ou drogas vasoativas. Além disso, avaliamos nesse momento a necessidade de administrar medicações analgésicas ou broncodilatadoras com fentanil e lidocaína para melhor segurança do procedimento. Quando indicadas, as drogas recomendadas são lidocaína e/ou fentanil. As drogas devem ser administradas cerca de 3 minutos antes da infusão do agente indutor + bloqueador neuromuscular. Paralisia e indução: A paralisia e indução é o momento no qual são administrados as medicações sedativas e bloqueadores neuromusculares que foram prescritos e preparados no momento da preparação do procedimento (primeiro P). A orientação sobre o momento da infusão e dose deve ser feita pelo médico no momento da administração da droga. Passagem do tubo: A laringoscopia deve ser realizada com o laringoscópio na mão esquerda, entra-se pelo lado direito da boca, introduzindo o laringo até chegar na valécula. Nesse momento realiza-se um movimento com o laringo para cima e para frente. Pós intubação: Após a passagem do tubo, é necessário conferir o posicionamento do mesmo. A primeira coisa é realizar uma ventilação com o ambu e observar a expansibilidade torácica, ao mesmo tempo que se realiza a ausculta. O primeiro ponto a ser auscultado é o epigastro, se houver ruído presente significa que houve uma intubação esofágica, a cânula deve ser retirada e uma nova tentativa realizada. Se não houver ruído realiza-se as auscultas do hemitórax esquerdo e sequencialmente o direito para avaliar se houve intubação seletiva. Se o murmúrio estiver presente apenas em um hemitórax deve-se avaliar intubação seletiva (mais comum a IOT ser realizada seletiva à direita) e ocorrência de pneumotórax. O método padrão ouro para checar a intubação é a capnografia. Após confirmado o posicionamento deve-se fixar o tubo com material apropriado e solicitar um RX de tórax. Na imagem do RX a cânula de IOT deve estar posicionada à 2cm da carina. Outras coisas importantes a serem realizadas após o procedimento é a reavaliação periódica do paciente, sobretudo nas duas primeiras horas, nas quais as taxas de complicações são maiores; conectar o paciente à ventilação mecânica e solicitar uma gasometria arterial para avaliar os parâmetros da ventilação. Complicações: A IOT não é um procedimento isento de complicações, que variam de simples laceração labial até uma perfuração faringoesofágica. Entre elas, laceração labial, lesões dentárias e de partes moles, lesões esofagotraqueais, sangramento em vias aéreas superiores, hipotensão, pneumotórax, bradicardia, regurgitação do conteúdo gástrico, arritmias cardíacas, edema de laringe, paralisia de cordas vocais. Critérios de Extubação: • Evento agudo que motivou a VM: revertido ou controlado. • Troca gasosa: PaO2 ≥ 60mmHg com FIO2 ≤ 0,40 e PEEP ≤ 5 a 8cmH20. • Avaliação hemodinâmica: sinais de boa perfusão tecidual, independência de vasopressores (doses baias e estáveis são toleráveis), ausência de insuficiência coronariana ou arritmias com repercussão hemodinâmica. • Capacidade de iniciar esforço inspiratório. • Nível de consciência. • Tosse. • Equilíbrio ácido-básico(pH ≥ 7,30). • Balanço hídrico. • Eletrólitos séricos (K, Ca, Mg, P). Referências Bibliográficas: • Martins,Herlon Saraiva / Santos,Rômulo Augusto Dos / Neto,Rodrigo Antonio Brandão / Arnaud,Frederico - Medicina de Emergência – Série Revisão Rápida – 6a Edição, Editora Manole, 2023. – Capítulo 1. • MedCoffee 2023 - Ventilação Mecânica • SanarFlix - Apostila Clínica Médica - Ventilação Mecânica • SanarFlix - Apostila Cirurgia - ACLS: Via Aérea • Resumos da Med • Guia Prático IOT Medway 2024