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Língua Portuguesa - Interpretação de texto I
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As questões de números 171 a 173 baseiam-se no texto abaixo.
“Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos – e, antes de
começar, digo os motivos por que silenciei e por que me decido. Não conservo notas: algumas que
tomei foram inutilizadas e, assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais
difícil, quase impossível, redigir esta narrativa. Além disso, julgando a matéria superior às minhas
forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia, como
adiante se verá. Também me afligiu a idéia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os
nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro
uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumivelmente verda-
deira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras
contestáveis e obliteradas?
Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia, enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, me
impediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça. Nunca tivemos censura prévia em obra de
arte. Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram raríssimos esses autos-de-fé. Em
geral a reação se limitou a suprimir ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demagógicas,
e disto escasso prejuízo veio à produção literária. Certos escritores se desculpam de não have-
rem forjado coisas excelentes por falta de liberdade – talvez ingênuo recurso de justificar
inépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sinta-
xe e acabamos às voltas com a delegacia de Ordem Política e Social, mas nos estreitos limites
a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. Não será impossível achar-
mos nas livrarias libelos terríveis contra a república novíssima, às vezes com louvores de sus-
tentáculos dela, indulgentes ou cegos. Não caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinam-
bá: se o fizermos, perderemos qualquer vestígio de autoridade e, quando formos verazes,
ninguém nos dará crédito. De fato ele não nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o
desejo de entregar-nos a esse exercício.”
Graciliano Ramos.
171. Unifor-CE O autor enumera razões que justificam um silêncio de dez anos. Entre elas,
é incorreta:
a) existia uma censura prévia, que o impediria de publicar seu livro, caso o escrevesse;
b) julgava-se incapaz de colocar num livro os acontecimentos que vivenciara;
c) sentia-se desautorizado a relatar fatos sobre pessoas reais e identificá-las por seu ver-
dadeiro nome;
d) perdera as anotações que havia feito, com intenção de dar veracidade aos fatos;
e) tencionava prender-se aos fatos, como realmente haviam ocorrido, sem romanceá-los.
172. Unifor-CE Infere-se do final do texto que:
a) sempre há pessoas que aceitam a opressão política e se beneficiam dela, para publicar
suas obras;
b) a falta de liberdade política, em qualquer época ou lugar, inibe também a capacidade
de criação literária;
c) numa época de força policial, os civis não conseguem fazer-se ouvir pelas autoridades
do poder;
d) escrever romances só é possível em determinadas situações políticas, com o uso de
pseudônimos ou de outros disfarces;
e) sem liberdade de criação, o escritor é como um cego, ou alguém em quem não se pode
confiar;
173. Unifor-CE O autor situa num mesmo plano, como limites à liberdade de expressão,
principalmente escrita:
a) os fatos reais em oposição à invenção literária;
b) um depoimento verdadeiro, contra a existência de uma censura prévia;
c) a força policial e a ausência de anotações que sirvam de apoio à narrativa;
d) a impossibilidade de escrever com clareza, e a proibição de usar nomes verda-
deiros;
e) as normas gramaticais e as ações da força policial.
Língua Portuguesa - Interpretação de texto I
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Para responder às questões de números 174 a 175, considere o poema que segue.
“Antes de lançares a semente no chão,
antes de calculares os lucros da seara,
e antes de somares o valor da jóia que vais dar a tua noiva,
ou os cofres que tu vais encher
e as coisas que tu vais transformar;
vê através do pequeno embrião de árvore:
a sombra, o pastor tocando a sua gaita
e a virgem derrubada debaixo da fronde,
e o neto do pastor subindo nos galhos
à procura dos ninhos escondidos;
e os ramos benfazejos descendo sobre novos berços.
Vê o jovem enforcado num dos galhos sem folhas,
e o Bem e o Mal sempre brotando da árvore;
e as sementes, como nas parábolas sagradas
dando de comer aos pássaros ou secando nas pedras;
e sempre galhos subindo para a glória de Deus
e sempre galhos descendo para a fome da terra.”
LIMA, Jorge de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974. v. 2, p. 57.
174. UFSE A idéia central do poema está em:
a) Uma semente é a síntese da vida individual, familiar e do mundo todo.
b) A árvore sempre foi e continuará associada à noção da bondade divina.
c) A árvore que brota da semente é o símbolo da riqueza material.
d) O Bem e o Mal fazem parte da vida, desde os tempos bíblicos.
e) O cultivo da terra garante os alimentos de toda a população, no mundo inteiro.
175. UFSE Infere-se corretamente do poema que:
a) os galhos de uma árvore podem simbolizar mais as coisas boas que as más, desde que
eles estejam floridos;
b) os pássaros, mesmo aqueles que prejudicam uma plantação comendo as sementes, são
símbolos do poder divino;
c) as crianças serão sempre mais felizes e saudáveis se crescerem em contato com a natureza;
d) a simplicidade da vida campestre, no ritmo lento da natureza, induz a uma acomoda-
ção do homem à rotina diária.
e) a árvore é sinônimo de vida, tanto espiritual, por elevar seus galhos ao céu, quanto
terrestre, por aquilo que produz.
Texto para as questões 176 e 177.
“Ciúme, como lidar com esse veneno
Marido apaixonado desconfia que a mulher, linda, o trai com um amigo. A mulher é honesta, o
amigo é sincero, mas o marido só enxerga à sua volta indícios da traição inexistente. Por fim, trans-
tornado, mata a mulher e se mata. A tragédia, no seu cruel desenrolar, é velha como o mundo.
Assim foi descrita magistralmente por William Shakespeare, no século XVII, no texto em que Otelo,
o general mouro, mata a doce Desdêmona. Antes dele e depois dele, homens e mulheres mataram
(e matam) pelo mesmo motivo: o ciúme, um sentimento insano, paranóico, doente, insuportável
para quem sente e doído, perigoso, para quem é alvo dele. A morte é uma atitude extrema, mas as
tragédias clássicas acabam sendo a melhor tradução para a força destruidora e devastadora desse
sentimento. A realidade, o verniz civilizatório ou, simplesmente, a sobrevivência do bom senso mes-
mo que o cotovelo doa colocam freios em boa parte das pessoas que dele sofrem – por isso, e só por
isso, as ruas não estão coalhadas de corpos adúlteros ou apaixonados desprezados. (...)”
Veja: 14/06/2000.
176. UFR-RJ A narração que dá início ao texto aborda um tema:
a) ausente nas obras clássicas; d) inerente a qualquer manifestação literária;
b) recorrente na literatura universal; e) próprio da literatura socialmente engajada.
c) cultivado pelas elegias pastoris;

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