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Língua Portuguesa - Interpretação de texto I
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77. Unifor-CE
“Bem quisera ter mais intimidade com ela, falar-lhe de minhas dúvidas, de minhas fraquezas, de
meus receios. Mas somos nesta casa uma família de estranhos. Assalta-me freqüentemente a
impressão de que vivemos num alojamento de emigrantes, que só a língua têm em comum.
Revolto-me contra mim mesmo, pois suponho ser em parte o causador desse mal-estar. Minha
natureza cria embaraços à aproximação de uns aos outros. Vivem constrangidos, sem liberdade,
como que em presença de um inválido.”
O trecho acima apresenta características evidentes de:
I. Narração em primeira pessoa, com predomínio do tom reflexivo e de marcas de aná-
lise psicológica.
II. Dissertação, voltada para a exterioridade das ações e marcada por um tom de convicção.
III. Prosa poética, apoiada em figuras de linguagem e empenhada na expressão do mun-
do imaginário em que vive o autor.
Está correto somente o que está caracterizado em:
a) I. b) II. c) I e II. d) I e III. e) II e III.
As questões de números 78 a 80 baseiam-se no texto abaixo.
“Hoje não escrevo
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares
de assuntos.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as
letras se reunindo com o maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão
dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda
natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O
mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no
espelho (infiel) do dicionário.
(...)
Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o
papel de sinaizinhos pretos. Conclui que não há assunto, quer dizer: que não há para você, por-
que ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não
corta na verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira assuntan-
do, assuntando. Então hoje não tem crônica.”
Carlos Drummond de Andrade.
78. Unifor-CE Considere as seguintes afirmações:
I. A ação de escrever priva, por vezes, o escritor de usufruir de coisas simples do cotidiano.
II. Não basta haver variedade de assunto; escrever exige predisposição e inspiração.
III. O escritor empenha-se em produzir textos de qualidade superior à daqueles escritos
por simples falantes da Língua.
Está correto, em relação ao texto, o que se afirma em:
a) somente II; d) somente II e III;
b) somente I e II; e) I, II e III.
c) somente I e III;
79. Unifor-CE De acordo com o último parágrafo do texto:
a) momentos de reflexão são importantes para que o assunto venha a ocupar a mente
daquele que escreve;
b) escrever bem implica sensibilidade e talento na percepção da matéria a ser explorada
na escrita;
c) a indisposição para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos é própria das
pessoas casmurras;
d) a falta, bem como a abundância de assunto, depende das condições intelectuais da-
quele que escreve;
e) letras e escritor embaralham-se no momento de passarem a expressão das idéias para
o papel.
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80. Unifor-CE No fragmento “reflexos no espelho (infiel) do dicionário”, o adjetivo infiel
denota que:
a) nem sempre o significado dicionarizado das palavras satisfaz plenamente a busca da-
quele que escreve;
b) as palavras dicionarizadas perdem a essência de seu significado, uma vez contextuali-
zadas;
c) o emprego adequado da palavra decorre da atividade de consulta ao dicionário;
d) há matizes de significado entre as palavras arroladas na mesma série sinonímica;
e) o escritor não pode dispensar o auxílio do dicionário – o que lhe garante a perfeição
do texto.
As questões de 81 a 84 referem-se ao seguinte texto:
“Os Jardins
Sempre olhei para os jardins com doçura e gratidão. Eles são as minhas aldeias. Tão sos-
segados! Só nos jardins há amores-perfeitos. Aquele jardim era meu amigo. Tinha uma
árvore, um jardineiro risonho, mas triste, com qualquer coisa de gato e de mulher. E tinha
canteiros de rosas. Era um Jardim sereno. Sábado. Quem pode vai para fora. Os outros
ficam aqui mesmo. Imagine o campo, logo mais. A noite caindo sem desastres. O cheiro de
terra. Uma voz de água no silêncio. Ah! dormir com o sentimento de pôr, nos olhos e nas
mãos, amanhã, bem cedo a luz que desce de um céu imenso perdido, luz cheia de sombras
de asas. Lembro-me dela. Ela pousa, primeiro, nas árvores, como se dissesse – Bom-dia!
Chega, depois até a gente tão simples, tão igual, como se convidasse – Não quer andar?
Este desejo de viver no campo, que enche de ar refrigerante os meus sentimentos, não veio
da cidade, com certeza. Veio, talvez, do tempo. Hoje, “ir para fora” tem um sentido mais
libertador. Que bom ver outra vida! Que bom ouvir a outra face do disco!... É preciso gostar
da vida. A vida arranja tudo pelo melhor, às vezes na realidade. Às vezes na imaginação,
realidade de uso interno.”
Álvaro Moreyra.
81. Cesgranrio “Eles são as minhas aldeias. Tão sossegados! Só nos jardins há amores-
perfeitos.”
No texto, as palavras destacadas conotam, respectivamente:
a) esconderijo e flor silvestre; d) proteção e felicidade;
b) lugarejo e beleza natural; e) segurança e incerteza.
c) solução e realidade;
82. Cesgranrio A caracterização do jardineiro “com qualquer coisa de gato e de mulher”
corresponde, semanticamente, a:
a) meio arredio e misterioso; d) bastante descrente e desiludido;
b) muito arredio e pouco confiável; e) com certa melancolia e pouca sinceridade.
c) pouco desconfiado e muito observador;
83. Cesgranrio O texto estrutura-se com períodos curtos. Semanticamente, essa construção
caracteriza a:
a) realidade e a expressão dos anseios do narrador;
b) narração e a relação realidade-imaginação;
c) sensibilidade e o contraste do sentimento com a razão;
d) fantasia e a irrealização pessoal do narrador;
e) reflexão e a progressiva introspecção do narrador.
84. Cesgranrio A palavra ou expressão que marca o ingresso no imaginário é:
a) “amores-perfeitos”. d) “céu imenso perdido”.
b) “Sábado”. e) “luz cheia de sombras de asas”.
c) “cheiro de terra”.

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