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ClipboardPageNumber Dedico este livro a todos aqueles, que assim como eu, têm sonhos e buscam realizá-los a cada dia. Espero que minha história sirva de exemplo para aqueles que acreditam que são capazes de mudar o próprio destino. Sumário Irmão, parceiro e amigo, por Jânyo Diniz Prefácio, por André Esteves Apresentação PARTE I A pequena Santana dos Garrotes Naviraí, a primeira mudança e os primeiros empreendimentos A mudança para Pimenta Bueno A volta para a Paraíba A chegada ao Recife PARTE 2 A primeira grande alegria: o vestibular de Direito da UFPE Um novo empreendimento: a empresa de cobrança Praxis De volta aos negócios: a empresa Janguiê Cobranças As graduações O encontro com o amor A carreira da magistratura e a docência O nascimento dos herdeiros O Ministério Público do Trabalho e os primeiros empreendimentos educacionais O despertar de um escritor Juiz versus procurador: uma decisão difícil Alunos e parceiros de vida Mestre e doutor em Direito PARTE 3 O sonho de criar uma instituição de ensino superior A abrafi e a abmes A marca Ser Educacional e o crescimento da Maurício de Nassau O empreendedor nunca para Em busca de um sonho Campanha na rua A hora de expandir PARTE 4 A Faculdade Joaquim Nabuco A mudança de faculdade para centro universitário e o curso de Medicina A responsabilidade social O Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau Uma empresa na Bolsa de Valores Cidadão do Brasil A lista da Forbes Janguiê por Janguiê Irmão, parceiro e amigo Conheço Janguiê por toda a vida, e não poderia ser diferente: ele é meu irmão mais velho, me levava para a escola quando eu tinha quatro anos e ficava na porta até eu ficar distraído para ele poder ir embora. Defini-lo em poucas palavras é possível, mas inexato. Ele é o tipo de pessoa que pode ser chamado de inteligente, objetivo, determinado, firme, ousado, criativo, austero, até certo ponto autoritário, flexível, humano, patriarcal, fraterno, generoso e vaidoso. Mas, acima de tudo, empreendedor visionário e obstinado. As contradições aparentes de seu comportamento — autoritário, flexível, severo e humano — se devem às heranças comportamentais de nossos pais: mãe absolutamente amorosa, sensível e altruísta, e pai rigoroso, duro, severo e autoritário. Essas características pessoais e comportamentais fizeram com que ele pudesse perseguir e construir seus sonhos baseado em uma capacidade incomum de conciliar uma extenuante jornada diária de estudos e trabalho, e um senso crítico e de oportunidade ímpar. Ainda estudante, Janguiê montou o que seria seu primeiro negócio formal (na infância, já havia sido engraxate e vendedor de laranjas): uma empresa de cobranças. Quando finalizou a graduação em Direito, fez um concurso para juiz do trabalho e, durante suas horas de estudo, percebeu que não havia nenhum bom curso preparatório para concursos públicos na área jurídica em Recife. Dessa carência e de seu senso de oportunidade nasceu o Bureau Jurídico, melhor curso preparatório para concursos públicos que o estado de Pernambuco já teve e embrião daquilo que seria o grande negócio da sua vida e o conduziria a ser dono da primeira empresa de Pernambuco a ter ações negociadas na Bolsa de Valores. Professor, juiz, procurador do Ministério Público da União, empreendedor, empresário, filantropo. Janguiê tem muitos atributos e predicados, o mais importante deles, e que junto com suas características pessoais lhe permitiu transformar seus sonhos em realidade, foi a capacidade ímpar de liderar, de aglutinar pessoas ao seu redor, de dar a elas um propósito e fazer com que se sentissem parte integrante dos seus projetos e sonhos, como se fossem os seus próprios sonhos. Foi assim com sua família, com seus irmãos, com as quais começou a desenvolver suas habilidades naturais de liderança, trazendo todos eles para participar do projeto, em que, sob sua hábil condução, cada um tinha um propósito, um objetivo e uma responsabilidade, o que demonstrava não somente sua capacidade de liderança, mas de escolher a posição correta para cada um. Essas capacidades de liderança, aglutinação e escolha da pessoa certa para o lugar certo, auxiliados pelo seu forte carisma, auxiliaram a trazer dezenas de outros profissionais competentes, os quais o ajudaram a criar e a desenvolver suas empresas. Além das empresas que Janguiê criou ou ajudou a criar, ele ainda possui um fundo para investimentos em startups que financiam empreendedores jovens e visionários como ele é, em todas as áreas, tem investimentos nas áreas de TI, comunicação e na indústria. De todas as facetas da pessoa e do profissional que Janguiê se tornou, a menos conhecida pelo grande público é sua generosidade, sua capacidade de ajudar não só sua família, membros próximos e parentes distantes, mas todos aqueles que dele precisam. O Instituto Janguiê Diniz, desconhecido do público, tem diversos projetos vinculados à educação que transformam a vida das pessoas. Um deles, o de desenvolvimento do perfil empreendedor da mulher em comunidades carentes da cidade do Recife, é um dos mais interessantes. Esse projeto capacita, orienta e financia a criação de microempresas por mulheres carentes, com o objetivo de transformá-las no centro de provisão de recursos para a família, contribuindo com o aumento da renda e melhorando o grau de desenvolvimento familiar, especialmente o dos filhos. Os projetos do Instituto Janguiê Diniz até esse momento não puderam ser divulgados por determinação de Janguiê. Espero que agora esse perfil de sua personalidade também possa ser conhecido por todos. O mais importante, Janguiê é muito jovem, está no início da sua vida de empreendedor, ainda tem muito a construir, não vai ficar apenas nas empresas que já participou ou participa atualmente, como educação, Comunicação, TI, Indústria. Vai continuar financiando novos empreendimentos, criando novos produtos e ajudando com sua criatividade e força de trabalho a gerar empregos, educar os jovens e a desenvolver o país. Jânyo Diniz, irmão Prefácio Janguiê Diniz nos relata neste livro, de forma simples e objetiva, sua emocionante história de vida. Da infância sofrida e incerta ao fantástico sucesso do Grupo Ser Educacional, passando por todos os momentos marcantes na vida de um homem: a descoberta do amor e o casamento, o nascimento dos filhos, o primeiro emprego, o amadurecimento profissional. O traço mais marcante, contudo, desta fascinante trajetória é o empreendedorismo, presente em todos os momentos da vida de Janguiê. De engraxate, vendedor de laranjas e picolés durante a infância no interior recém-explorado do Brasil ao megaempresário frequentador da lista da revista Forbes e acionista controlador de uma grande empresa de capital aberto, a vontade de fazer acontecer está presente durante todo o tempo. Janguiê, durante esta narrativa, nos mostra a essência do empreendedor: sua capacidade infinita de superar obstáculos e adversidades, de sonhar o impossível mantendo os pés no chão, sua obstinação de vencer e realizar, de antecipar o futuro. Tudo isto está aqui, o leitor é brindado com uma história de empreendedorismo “puro-sangue”, em que o sucesso chega sem atalhos, por meio de muita dedicação, trabalho, foco e sacrifício. Tenho enorme orgulho de ter participado de uma pequena parte desta incrível trajetória quando do processo de abertura de capital do Grupo Ser Educacional. Lembro-me das primeiras conversas em que eu, já admirado com a história empresarial do grupo e de seu controlador, explicava os impactos para a empresa do processo em discussão e como nosso banco poderia ajudá-lo, num processo educacional comum a todos os empresários que passam por este momento. Chamou minha atenção a maneira simples, direta, objetiva com que Janguiê me questionava sobre todos os pontos do processo e logo se criou um elo entre nós e a conversa rapidamente se tornou uma conversa entre empreendedores brasileiros, acima de qualquer outro tema. Frequentemente sou questionado sobre as possibilidades de sucesso no longoprazo do nosso querido Brasil como nação, e invariavelmente respondo em tom otimista, o que me faz ser questionado, principalmente em momentos de crises, tão comuns por aqui. A história narrada neste livro é a melhor explicação para meu otimismo com o nosso país. Janguiê parte de carências extremas, no interior recém- ocupado do Brasil para, apenas com sua perseverança e obstinação épicas, e com inegociável respeito à ética, criar um dos maiores grupos empresariais na área de educação do país e, além disso, uma das mais inspiradoras histórias de sucesso pessoal e empresarial do Brasil moderno. O mais fascinante é que o sucesso do Grupo Ser Educacional promove o que mais precisamos: educação, especialmente em áreas ainda carentes do país. É motivante pensar que dos seus diversos campi, das suas centenas de cursos, dos seus milhares de alunos, plantam-se diariamente sementes para a produção de novos Janguiês, tão necessários e transformadores para nossa sociedade. Tenham uma ótima leitura! André Esteves, Chairman & CEO do BTG Pactual Apresentação Ao completar 50 anos de vida e ver que, depois de anos de muito trabalho, estudo e luta, o grupo educacional que fundei há onze anos está entre os maiores do país, decidi escrever o primeiro livro da minha autobiografia. Nele, pretendo contar, ainda que em uma breve síntese, um pouco da história desta fase da minha vida. É que planejo escrever minha biografia em cinco volumes. O primeiro agora que acabo de completar cinquenta anos. O segundo, quando completar sessenta. O terceiro, o quarto e o quinto quando eu fizer setenta, oitenta e noventa anos, respectivamente, e se Deus assim permitir. Não nasci em uma família rica. Tudo que conquistei foi fruto de muita dedicação aos livros e ao trabalho. Por falar em trabalho, comecei a trabalhar aos oito anos de idade e posso dizer, por experiência própria, que o trabalho enaltece e engrandece o homem. Além de trabalhar muito, estudei muito. Agradeço aos meus pais, os quais, mesmo sem ter oportunidade de estudar quando jovens, sempre incentivaram todos os sete filhos a buscar os livros. Devo mais ainda ao meu tio Nivan, que me apresentou ao Direito, uma novidade que se tornou minha paixão e meu trabalho. Ao olhar para trás, vejo que fui um jovem de coragem por abandonar minha família para correr atrás do sonho de fazer uma faculdade. Nunca tive medo de arriscar e nos negócios sempre fui até o fim. Errei e aprendi com meus erros. Hoje, com mais experiência do que aquele jovem de 14 anos que deixou os pais no Norte do país e veio para o Nordeste em busca de uma oportunidade de vida, posso dizer que me tornei mais cauteloso. O fervor e a impulsividade da juventude ficaram no passado e passei a ser muito mais atento às mudanças do mercado. Considero-me uma prova viva de que vencer na vida é possível com muito trabalho, estudo, dedicação, foco e objetividade. Foi assim que vivi e venci. E é dessa mesma forma que educo meus filhos, mostrando a eles que para crescer é preciso estudar e se esforçar bastante. A educação é capaz de mudar o homem. Ela me mudou, mudou o meu status. O estudo é capaz de abrir os nossos horizontes e nos mostrar caminhos antes desconhecidos. Ter podido cursar duas graduações, pós-graduações, mestrado e doutorado foi algo que fez de mim um profissional qualificado e me ofereceu oportunidades de atuar em várias áreas. Ao escrever este primeiro livro não quero simplesmente contar o que aconteceu na primeira fase de minha vida, as dificuldades pelas quais passei, minhas conquistas ou os meus erros. Espero que as próximas páginas sejam mais que a história de um empresário que está dando certo. Torço para que a minha trajetória seja um incentivo a todos que a lerem e que, ao final deste primeiro livro, eu possa servir de exemplo para algum jovem que não acredita que é capaz de mudar seu próprio destino. PARTE I A pequena Santana dos Garrotes Nasci no dia 21 de março de 1964, dez dias antes do golpe de Estado de 31 de março, data em que os militares assumiram o poder no Brasil, depondo João Goulart. Minha história começa aí. A cidade é Santana dos Garrotes, um pequeno município distante cerca de 415 km de João Pessoa, capital da Paraíba. Santana dos Garrotes, que ainda hoje é caracterizada pela simplicidade das pequenas casas, tinha menos de 5 mil habitantes e era margeada pelo que chamávamos de Rio das Queimadas. Foi lá que meus pais, João Diniz e Maria de Lourdes, se conheceram e se casaram ainda muito jovens. Minha mãe com 14 anos, meu pai com 23 anos. Meu pai teve nove irmãos e após a morte do meu avô paterno, Benedito Muniz Diniz, que era o delegado de Santana dos Garrotes e foi assassinado, ele assumiu o comando da família. Ainda uma criança, aos catorze anos, ele trabalhava como peão na pequena fazenda do meu avô materno, Severino Bezerra da Costa. Depois de trabalhar em várias cidades e em vários estados do país, como Maranhão, São Paulo, Brasília e Paraná, ele voltou para a cidade natal. Em 1962, começou a namorar a minha mãe e quando ela completou 13 anos, ele a pediu em casamento. O combinado era que o casamento aconteceria somente quando ela chegasse aos 20, mas eles acabaram se casando no ano seguinte, em 1963. Quando nasci, em 1964, papai morava em uma pequena casa de taipa no sítio de meu avô. Posteriormente, depois de muito trabalho árduo e extenuante, ele conseguiu construir uma pequena casa na cidade. Em 1966, nasceu meu primeiro irmão, João. Em 1968, veio Jânyo, e em 1969, Jair. Além de meus pais e meus irmãos, também morava conosco minha tia Benedita, que foi criada por meu pai devido à morte dos meus avós paternos. Papai continuou a trabalhar nas fazendas do pequeno vilarejo de Santana dos Garrotes. Foi lá onde vivi meus primeiros cinco anos de vida, até me mudar, em 1969, para Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Contarei os motivos para essa mudança mais adiante. 1966 - Da esquerda para a direita: prima Irismar, Janguiê, Avó Maria José, prima Pê, primo Neto e acima o Tio Durval Sou o mais velho de seis irmãos e uma irmã, que foi adotada. Além de mim, João, Jânyo e Jair, meus pais tiveram Jonaldo, Joaldo e Raquel, a única menina e que chegou como um presente para nós. Em razão da idade, pouco me lembro daquela época, mas algumas lembranças jamais serão esquecidas. Papai trabalhava o dia inteiro e, enquanto isso, mamãe cuidava do lar e dos filhos. Na maioria das vezes, ela cozinhava, limpava e lavava roupas não apenas para nós, mas também para os homens que trabalhavam com papai e frequentavam constantemente nossa casa. Comecei meus estudos na única escola que havia na cidade, a Escola Pública de Santana dos Garrotes. Apesar de meus pais não terem tido a oportunidade de frequentar uma escola na infância, estudar sempre foi uma exigência deles e eu os agradeço muito por isso. A escola ficava bem próxima à casa onde morávamos, e como Santana dos Garrotes era uma cidade muito pequena, ia a pé todos os dias. Era lá onde eu passava as manhãs. Gostava também de ir à fazenda do meu avô e brincar com os carneiros que ele tinha. Lembro-me de, por várias vezes, quando ainda nem sabia falar direito, desafiar a fúria de um dos animais e ter a sorte de não sair machucado daquela aventura. Fisicamente, fui uma criança bastante magra e alta para minha idade. Acredito que tenha herdado essas características da minha família materna. Principalmente do meu avó Severino Bezerra. Junto com meu irmão João, gostava de ir brincar e tomar banho no açude. Na volta para casa, sempre ouvíamos as reclamações de mamãe, que não gostava que brincássemos por lá, pois eu não sabia nadar. Mas aquela era a nossa diversão. Desde pequenos, mamãe ensinou todos os irmãos a ajudar em casa, então aprendemos os afazeres domésticos. Como na residência sempre havia mais pessoas além de nós, filhos, uma verdadeira força-tarefa era necessária para dar conta de tudo. Apesar de vivermos humildemente, nunca faltou comida na nossa mesa e as dificuldades que apareciam, encarávamos de frente. Àsvezes, meu pai passava dias trabalhando no mato sem voltar para casa e eu, o filho mais velho, sempre assumi o papel de cuidar da minha mãe e dos meus irmãos. Mas a vida em Santana dos Garrotes não era fácil, e como tantas outras famílias, convivíamos com a seca contínua que devastava o sertão nordestino. O trabalho para meu pai na pequena Santana dos Garrotes já estava ficando escasso, pois já não havia tantas fazendas produtivas que garantissem emprego e o peso da responsabilidade com a família fez com que ele tomasse a decisão de mudar com todos nós para outra cidade. Como ele já conhecia alguns estados devido ao trabalho de peão e empreiteiro, o destino escolhido foi Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Lá morava meu tio José Bezerra, irmão de mamãe, e que poderia nos ajudar. A pequena casa, algumas vacas e jumentos — papai vendeu tudo. Com o dinheiro, comprou as passagens de ônibus para todos nós, que seguiríamos juntos para o novo desafio. Lembro-me como se fosse hoje. Fomos de carro fretado de Santana dos Garrotes para Patos, ainda no interior da Paraíba. Em Patos, pegamos um ônibus até São Paulo, e de São Paulo, outro para Naviraí, no Mato Grosso. Naviraí, a primeira mudança e os primeiros empreendimentos Quando chegamos a Naviraí, em 1969, eu tinha cinco anos. Apesar de também ficar no interior, era uma cidade bem mais populosa e ativa, completamente diferente de Santana dos Garrotes. Era difícil acreditar que, até os anos 1950, Naviraí fora apenas um campo desabitado. Mas, com a chegada dos colonizadores, a cidade se desenvolveu e tornou-se um importante acesso às principais regiões do Brasil através de uma rodovia federal que partia de lá para os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso. Passamos a primeira noite na casa do tio José Bezerra da Silva. Logo depois, com o dinheiro que havia sobrado da mudança, papai alugou de um descendente de japonês um pequeno casebre de madeira com sala, um quarto e cozinha. Morávamos em sete pessoas lá. Meus pais, tia Benedita, eu e meus irmãos João, Jânyo e Jair. Mamãe nos matriculou em uma escola pública e, com o apoio do cunhado José Bezerra, papai conseguiu um trabalho de peão em uma fazenda. Mais tarde, passou a trabalhar como “gato”, que era como os empreiteiros que arregimentavam os peões para fazer as roçadas e derrubadas nas fazendas eram conhecidos. Junto com outros trabalhadores, ele deveria derrubar cerca de 200 hectares de mata a fim de preparar o terreno para plantio e, ao mesmo tempo, fazer a retirada de madeira de lei, que posteriormente seria comercializada. Tratores ou serras elétricas não eram comuns naquela época, a derrubada das árvores era feita manualmente. As ferramentas que os peões utilizavam eram machados e foices. Com o dinheiro que recebeu quando terminou a empreitada, papai abriu uma pequena lanchonete na cidade. Naviraí era quase inteiramente povoada por peões de fazendas. A estrutura da cidade era bastante interessante e até comum para a época: foi toda planejada como uma teia de aranha, com ruas partindo de um centro. Historicamente, ela foi criada a partir de uma clareira no meio da mata e fazia parte de um plano de interiorização do Brasil que atraía interesses de capitalistas na época e contava com apoio do presidente Juscelino Kubitschek, que idealizou Brasília seguindo os mesmos ideais. Para papai, a mudança para Naviraí era uma esperança de fugir da seca que, naquela época, castigava o Nordeste há muitos anos. Como filho mais velho, me sentia responsável e ajudava meus pais como podia. Todos os dias, antes de ir para a escola, acordava cedinho para abrir a lanchonete. Em alguns dias da semana, acordava ainda de madrugada para ir até uma fazenda buscar leite para servir o café da manhã dos peões e fabricar sorvete, que vendíamos na lanchonete. Nesses dias, acordava por volta das quatro da manhã para pegar o ônibus que me levaria até a fazenda. Mamãe também já estava de pé naquele horário, preparando o nosso café da manhã. Lembro-me até hoje, era chá de capim- santo — uma erva bastante comum no Nordeste e que plantávamos no nosso quintal — com pão caseiro e manteiga. Havia apenas uma condução para ir e outra para voltar. Eu não poderia perdê-las, caso contrário, não teria como levar o leite para casa. Eram cerca de dezoito quilômetros até a fazenda. Eu descia do ônibus e ficava na porteira da fazenda esperando o vaqueiro que trazia os dois galões de leite num cavalo. Eu ia e voltava sozinho, entrava no ônibus carregando os dois galões de 20 litros de leite cada. Lembro-me de uma madrugada em 1972, quando havia chovido bastante e as estradas estavam alagadas e barrentas. Eu tinha oito anos e, como de costume, acordei cedo, sai antes de amanhecer e peguei o ônibus até a fazenda das vacas leiteiras. Após receber os dois galões do vaqueiro, voltei para o ponto de ônibus na estrada, dentro do horário previsto para a viagem de volta, mas o transporte não chegava. Esperei por cerca de uma hora, mas nada de o ônibus aparecer. Àquela altura do dia, mamãe já estava preocupada com minha demora. Naquela época sequer existia telefone para que eu pudesse avisá-la. O que ninguém poderia imaginar é que, devido às dificuldades da estrada, o ônibus havia quebrado. Com apenas oito anos de idade, mas já tendo nas costas a responsabilidade de levar o leite a tempo de fazer o café para os peões e o sorvete da lanchonete, só pensava que precisava voltar de qualquer jeito e então não pensei duas vezes: saí andando pela estrada, arrastando um galão de cada lado, certo de que a caminhada iria durar longos 18 quilômetros, e de que eu não poderia desistir. Minha vida sempre foi assim, cheia de dificuldades, desde muito cedo. Mas uma característica inerente a mim e que carrego até hoje é a obstinação e determinação em superar todas as adversidades que surgem em meu caminho. Por sorte, após alguns quilômetros de caminhada arrastando os galões, um conhecido de meu pai passou dirigindo uma caminhonete e meu deu uma carona até a lanchonete. Papai estava muito bravo com meu atraso e, sem querer escutar minha justificativa, quase me deu uma surra, pois achava que eu tinha perdido o ônibus por negligência. Mas me senti aliviado por ter conseguido cumprir minha tarefa de levar o leite até a lanchonete, mesmo chegando atrasado. Depois desse episódio, e de muita reclamação de mamãe, aquela foi a última vez que fui à fazenda buscar leite. Nessa época, eu, João e Jânyo estávamos em idade escolar. Jair ainda era muito novo e ficava em casa com mamãe e tia Benedita. João, Jânyo e eu íamos juntos para a escola. Eu acompanhava os meus irmãos até a entrada da sala de aula para ter certeza de que eles iam estudar. Jânyo, o mais novo, sempre foi muito estudioso. Entretanto, sempre foi muito tímido. Quando eu o deixava na sala de aula precisava ficar esperando até ele se distrair com as atividades escolares e com os colegas de classe para que eu pudesse ir embora. Caso contrário, ele chorava e eu tinha que voltar para a porta da sala de aula para ele me ver. João, que era mais velho que Jânyo, sempre foi um menino muito perspicaz e muito ativo, mas também muito peralta. Gostava muito de brincar e de brigar com os coleguinhas, e quase nada de estudar. Ele era daqueles garotos que você tinha que ficar esperando entrar na sala de aula para não correr o risco de ele fugir para o pátio para brincar. A mudança de Santana dos Garrotes, na Paraíba, para Naviraí, no Mato Grosso do Sul, teve vários impactos sobre nós, que éramos muito pequenos. Mas sem dúvida o maior deles foi a dificuldade de adaptação ao frio. Na Paraíba, o clima é muito quente, com poucos períodos de chuva durante todo o ano e, de repente, estávamos em uma cidade em que, no inverno, a temperatura atingia zero grau e geava com frequência. Foi difícil aguentar, já que a casa de madeira que morávamos não absorvia a temperatura como os materiais que são usados nas construções de hoje. Lembro-me que, nos dias mais frios, mamãe usava o fogão a lenha para nos aquecere chegamos a ficar longos períodos sentados lá, próximos ao fogão, tomando chá de capim-santo. O frio também dificultava a ida para a escola, mas não nos permitíamos faltar às aulas por causa disso. Algumas crianças na cidade, acostumadas ao frio, achavam estranho quando chegávamos com casacos e luvas na sala de aula, mas para os sertanejos, habituados com altas temperaturas, estar abaixo de 18° já é passar bastante frio. E assim a vida seguia. A responsabilidade de estudar, trabalhar e ajudar a cuidar dos irmãos menores já me era inerente. Precisei, desde muito novo, me acostumar ao desafio de administrar o tempo. Estudar sempre foi para mim um ato prazeroso e eu me dedicava ao máximo, não repetindo nenhum ano e procurando estar sempre entre os melhores da sala. Por volta dos nove anos, percebi que os outros garotos iam todos os sábados à matinê do cinema, mas eu não podia fazer o mesmo. A vida era difícil, e o que o meu pai ganhava dava apenas para sustentar a família, sem nenhum luxo. Foi então que resolvi sonhar em montar meu primeiro negócio, meu primeiro empreendimento. Costumo me definir como empreendedor. Fazedor de coisas. E digo que o empreendedor é aquele que sonha e busca transformar os sonhos em realidade. Com base neste primeiro sonho, pedi ao tio Francisco, irmão da minha mãe, que fizesse uma caixa de engraxate para mim, pois eu pretendia ganhar dinheiro engraxando sapatos. Lembro-me, até hoje, como era a caixa de engraxate: triangular e feita com uma madeira chamada Pinus. Como sempre fui autodidata, com uma pequena quantia em dinheiro que mamãe me deu, comprei as graxas e as escovas e aprendi as técnicas sozinho. Estudava pela manhã e à tarde ia para as ruas de Naviraí engraxar sapatos. Foi assim que comecei a ganhar meus primeiros trocados. O negócio deu certo e, com o dinheiro que eu ganhava como engraxate, ia todos os sábados para a matinê do cinema e ainda levava um pouco para ajudar em casa. Passei pouco mais de um ano engraxando, até perceber que outros garotos da cidade estavam ganhavam mais dinheiro que eu vendendo laranjas, chamadas naquela região de poncãs ou mexericas. A ambição de ganhar mais me fez decidir mudar de ramo e partir para o meu segundo empreendimento. Optei por vender a caixa de engraxate, fui na central de distribuição de frutas e verduras da cidade, comprei uma caixa de mexericas e comecei a vender de porta em porta. Aumentei o meu lucro rapidamente. De cada caixa de poncãs que eu vendia, comprava duas. No entanto, uma das características do empreendedor de sucesso é ter informações e profundo conhecimento do negócio, e eu não tinha conhecimento suficiente na época para saber que as laranjas são produtos sazonais e que dependem de safra de cultivo. Logo os produtos se esgotaram e a safra também. Eu não tinha como comprar e não tinha o que vender. Surgiu um problema: o que fazer quando não fosse época de mexericas? Aos leitores, deixo uma lição: quando forem montar ou participar de qualquer negócio, aprendam tudo o que puderem sobre ele. Nunca achem que sabem o suficiente ou que é um negócio perfeito. Vocês precisam estar preparados para as dificuldades e eu, naquela época, não estava. Precisava rapidamente pensar em alguma outra atividade que desse tanto lucro quanto a venda das poncãs. Como na lanchonete do meu pai vendíamos sorvetes e eu conhecia alguns fornecedores de picolé, comprei um caixa de picolés e passei a vendê-los de porta em porta. Eu estava de volta aos negócios, com meu terceiro empreendimento. Assim, pude continuar ajudando em casa e ainda sobrava um pouco de dinheiro para mim. Nesta época, 1973, já havia nascido, em Naviraí, meu irmão mato-grossense, Jonaldo, meu quarto irmão e o quinto filho dos meus pais. Por outro lado, a lanchonete não ia bem. Já não dava mais lucro. Chegava a hora de pensar em uma nova mudança para algum lugar onde houvesse mais oportunidades. Em 1974, papai vendeu a lanchonete por menos da metade do que ela valia, comprou uma Kombi velha, colocou tudo que tínhamos nela: as roupas e algumas panelas. Iríamos nos mudar novamente. Iríamos tentar um novo começo, dessa vez em Pimenta Bueno, Rondônia, região Norte do Brasil. A mudança para Pimenta Bueno Pimenta Bueno, distante cerca de 1.500 quilômetros de Naviraí, não era a primeira opção que meus pais tinham em mente. Com malas, algumas panelas e tudo o que tínhamos, meus pais, minha tia Benedita e todos os meus irmãos, a Kombi seguiu lotada de Naviraí, no Mato Grosso, até Cacoal, em Rondônia. Durante a viagem, que durou quase nove dias, a Kombi quebrou duas vezes. As estradas da época eram de barro e o período de chuvas dificultou ainda mais o trajeto. Inicialmente fomos para Cacoal porque meu tio Francisco Bezerra morava lá. Meus pais, com a esperança de receber alguma ajuda do parente, resolveram bater à sua porta. Mas a situação dele não era muito boa e em nada podia nos ajudar. Ficamos em Cacoal numa pequena casa alugada por cerca de uma semana. Em seguida, meus pais resolveram ir para Pimenta Bueno, uma cidade localizada a cerca de 30 quilômetros dali. Pimenta Bueno era uma cidade pequena, situada entre dois rios, o Barão de Melgaço e o Pimenta, com cerca de 5 mil habitantes. Pertencente ao então território de Rondônia, em 1974 ainda era uma cidade nova, surgida de um antigo posto telegráfico. Não havia telefone, muitos porcos-do-mato cruzavam os rios, além de muitos índios que, nus, eram vistos com frequência pelas ruas, já que várias aldeias ficavam nos arredores da cidade. Quando chegamos à cidade, restavam apenas 400 mil cruzeiros no bolso de meu pai, valor que ele usou para alugar uma casa. Em seguida, abriu uma conta em um dos bancos de Naviraí. Com um cheque, mesmo sem fundos, vindo futuramente a pagar a quantia, ele comprou um pequeno ponto de comércio, onde abriu um pequeno bar e lanchonete, criando um novo empreendimento. Dessa vez não seria necessário buscar leite de madrugada nas fazendas, mas eu, como filho mais velho, continuava ajudando papai. Todos os dias, acordava ainda de madrugada para abrir o bar e lanchonete. No bar do pai - Pimenta Bueno Papai, apesar de não ter tido a oportunidade de estudar, sempre tentou criar alguns negócios/empreendimentos. Infelizmente, nenhum deles deu certo, porque ele não dispunha das principais características para um empreendedor de sucesso, principalmente o conhecimento e as habilidades gerenciais. Em vista disso, tendo a concordar com Fernando Dolabela, que enfatiza que o empreendedorismo é um fenômeno cultural, pois o pressuposto básico é que todos nós temos um potencial empreendedor, que é ou não desenvolvido pelo fenômeno cultural. Se você tem uma família empreendedora, provavelmente tenderá a ser empreendedor. Acho que acompanhar papai sempre tentando criar novos empreendimentos fez o tino empreendedor despertar em mim. É importante ressaltar que, com meu pai, aprendi poucas coisas na vida. Mas as poucas que aprendi foram imprescindíveis para a formação de meu caráter: ter coragem de tentar e arriscar sempre, sem nunca desistir; trabalhar muito e não ter medo de enfrentar qualquer tipo de trabalho, desde que honesto; ser honesto e sempre cumprir com a palavra. Com meu pai aprendi que palavra dada é palavra que deve ser rigorosamente cumprida. Pouco importa se está registrada em papel ou não. Deve-se honrar “o fio do bigode”. O que é combinado não é caro. E tenho seguido essas imprescindíveis lições desde que me entendo por gente. Todas as manhãs, antes da escola, eu ia primeiro até o bar e lanchonete, varria o chão, fazia o café, colocava todas as cadeiras nas mesas e organizava o local. Papai chegava mais tarde, pois trabalhava no bar até cerca de meia noite, de domingo a domingo. Algumas vezes, meu irmão João ia comigo. E quando terminávamos de limpar, arrumar as cadeiras e as mesas e fazer o café, aproveitávamos que ainda não havia clientes e papai não tinha chegado para jogar uma partidinha na sinuca do bar. Quando ele chegava, eu seguia para a escola com meus irmãos.Em Naviraí, estudei até a terceira série do ensino infantil em uma das escolas públicas da cidade. Em Pimenta Bueno, fiz a quarta série do ensino infantil na Escola Sandoval Meira e depois estudei da quinta à oitava série do primeiro grau, hoje ensino fundamental, no Colégio Municipal Anísio Serrão de Carvalho. Eu não me via como a maioria dos garotos da escola. Ao contrário, gostava muito de estudar e, apesar da pouca idade, sabia que aquele era o único caminho para superar meu status quo de pobreza, para alçar novos voos, melhorar e vencer na vida. Até hoje, costumo dizer que a única e mais fácil forma de mobilidade social é através do estudo, da educação. Especialmente na sociedade em que vivemos, na qual o conhecimento é muito mais importante que os recursos materiais como fator de desenvolvimento humano, sendo, inclusive, considerado instrumento de poder. Nenhum país do mundo pode aspirar sair do estágio de subdesenvolvimento para o estágio de desenvolvimento se não investir maciçamente na educação de seu povo. Logo, ou eu estudava para tentar mudar de vida, vencer na vida, ou as outras alternativas seriam ganhar na loteria — o que é quase impossível — ou ser peão de fazenda, como meu pai foi por muitos e muitos anos. Morávamos no interior, mas tínhamos parentes em outras cidades grandes do país que, graças ao estudo, estavam bem de vida. Eram advogados. Isso me inspirava e, como a maioria das crianças que moravam no interior, aos dez anos eu sonhava ser médico. A vida não era fácil. Era trabalhar muito e estudar mais ainda. O bar ia se arrastando — além da venda de lanches e bebidas, servia comida para os peões que trabalhavam nas fazendas. A vida seguia o mesmo estilo de Naviraí, só que com mais trabalho e responsabilidades: acordava muito cedo, ajudava minha mãe nas atividades da casa, ajudava meu pai na lanchonete, ia com meus irmãos para a escola, estudava e, às vezes, quando sobrava tempo, brincava. 1972 – Na escola, em Naviraí, Mato Grosso Mamãe, apesar de ser uma mulher de poucas letras, também ensinou coisas importantíssimas para minha vida: suportar, com paciência, as dores e os sofrimento que constantemente a vida oferece. Nunca vi uma mulher sofrer tanto sem reclamar. Me ensinou como amar os filhos e a família sem qualquer restrição. Nunca vi uma mulher amar tanto e incondicionalmente seus filhos. Ela vive e morre por nós e para nós. Me ensinou a amar o próximo e ter sempre compaixão. Eu já não engraxava mais sapatos, nem vendia laranjas (mexericas) ou picolés, mas trabalhava com meu pai na lanchonete. Prestes a completar doze anos, fiz um curso que iria mudar minha vida: o antigo curso de datilografia (ASDFG). E, ainda aos doze anos, consegui um emprego como office-boy em um escritório de contabilidade chamado Pajé. A partir dali, eu não pararia mais. Em Pimenta Bueno também fui vendedor de roupas num bazar da cidade do qual não me lembro o nome. Local onde aconteceu um trágico acidente em minha vida: o dono do bazar era inimigo de um concorrente. Certo dia, o concorrente, que tinha bebido além da conta, passou na frente da loja e insultou o meu patrão. Os dois começaram a discutir e fui à porta para ver o que estava acontecendo, quando o bêbado arremessou um pedaço de tijolo que acertou em cheio o meu rosto, provocando o afundamento do lado esquerdo da minha face. Por muita sorte eu não morri. E claro, não voltei mais para aquele emprego. Trabalhei também em outra loja de roupas chamada Casa Três irmãos. Era um vendedor premiado, pois vendia mais do que qualquer outro funcionário. Ganhava um salário mínimo mais comissões. Com o dinheiro comprava minhas coisas, naquela época meu fascínio eram as roupas, e ajudava com as despesas de casa. Ainda em Pimenta Bueno, fui locutor de rádio. Apesar da pouca idade, apenas catorze anos, já tinha uma voz grossa e durante vários meses apresentei o programa O ouvinte é quem manda, na rádio pirata local. Lembro que o slogan do programa, que era ouvido em toda a cidade, era: “Ligue e ofereça uma música para sua amada!”. Naquela época, o telefone era uma grande novidade, mas nem todos tinham acesso a ele. Foi ainda na época de Pimenta Bueno, mais especificamente na maternidade de Cacoal, que nasceu meu sexto irmão, Joaldo. Naquela mesma época, meus pais adotaram Raquel, minha única irmã. Ela chegou à nossa casa ainda um bebê, sua mãe biológica havia falecido durante o parto e o pai não sabia como criá-la. Como éramos seis filhos homens, meus pais a trouxeram e ela passou a ser a única filha do clã Janguiê. Em 1979, eu estava prestes a acabar a oitava série, e começava a me preocupar, pois em Pimenta Bueno não havia escolas com segundo grau, o atual ensino médio. As cidades mais próximas que ofereciam esse nível de escolaridade eram Porto Velho, capital do estado, Ji-Paraná, também em Rondônia, e Cuiabá, capital do Mato Grosso. Eu tinha duas opções: parar de estudar e desistir do meu sonho de ter uma vida melhor, vencer na vida e poder ajudar minha família, ou sair de Pimenta Bueno, sozinho, em busca de outras oportunidades de estudo e de vida. Mesmo sendo um adolescente de catorze anos, já tinha consciência de que toda escolha é feita de renúncias, então deixei-me guiar pela razão. Eu tinha que abdicar da vida em família e passar a viver sozinho dali em diante para poder buscar a realização dos meus sonhos e vencer na vida. Naquele momento, aprendi mais uma lição: a vida é feita de escolhas e fazer escolhas implica renúncias. Aprendi também que o sucesso está intrinsecamente vinculado à dor e ao sofrimento. Sem dor e sem sofrimento não existe sucesso. 1979 – Com os amigos de trabalho, em Pimenta Bueno, Rondônia 1980 - Os irmãos: Jair, João, Raquel, Janguiê, Jânyo e Joaldo (menor à frente). A volta para a Paraíba Ainda pensando para onde eu iria em busca de concluir os estudos do ensino médio e ter oportunidade de cursar um ensino superior, eu cogitava duas possibilidades: em João Pessoa, Paraíba, morava Irene Bezerra da Costa, minha tia materna, e no Recife, Pernambuco, eu tinha outro tio por parte de mãe que era advogado, Nivan Bezerra da Costa, que eu não conhecia. Achei melhor voltar para a Paraíba. Deixei Pimenta Bueno, de ônibus, em dezembro de 1978, aos catorze anos. A viagem até a Paraíba, mais precisamente até João Pessoa, durou pouco mais de oito dias. As estradas de Pimenta Bueno a Cuiabá eram péssimas, de chão de barro e repletas de atoleiros, e em dezembro é puro inverno em Rondônia. Foram cinco dias para andar cerca de 900 quilômetros até chegar a Cuiabá, no Mato Grosso, e de lá foram mais três dias para chegar até João Pessoa. Encarei a viagem sozinho, mas com a proteção de Deus, levando comigo tudo que tinha construído na vida até então. Uma mala de roupas e um velho tocador de fitas cassete. Passei toda a viagem escutando as canções melancólicas de um cantor que, na época, era sucesso entre os jovens de Pimenta Bueno, Fernando Mendes. Um cantor mineiro que se tornou conhecido no inicio da década de 1970. “Toda sorte tem quem acredita nela…” dizia uma das minhas canções favoritas. Chegando a João Pessoa, segui para a casa da minha tia Irene, que morava num antigo conjunto habitacional chamado Conjunto João Agripino. Eu já tinha estado uma vez em João Pessoa durante uma viagem que fiz com minha mãe, quando meu avô Severino Bezerra morreu. Mas para mim foi um grande êxtase chegar na capital do estado da Paraíba, estado onde eu tinha nascido. A cidade, que era pequena na época, com menos de um milhão de habitantes e poucos edifícios, para mim era a maior cidade do mundo, com suas belas praias e seus encantos. Morei por um ano em João Pessoa, uma cidade que era completamente diferente de todas as outras em que havia vivido. Minha tia Irene foi uma mãe para mim, e foi lá que estudei o primeiro ano científico, hoje ensino médio, no Colégio Lyceu Paraibano. A casa da minha tia parecia mais uma república de estudantes. Moravam ela e meu padrinho Luiz, seu esposo; minhas três primas, filhas dela, Lucrécia,Lana e Luna; meu primo, também filho dela, Maciébe; meu primo Neto, filho de uma irmã dela; além de Genival, outro primo, filho de outro parente. Todos foram morar com ela no intuito de estudar e com o mesmo objetivo: vencer na vida. O ano que passei em João Pessoa foi um ano quase perdido. Só consegui fazer o primeiro ano do ensino médio, sem fazer qualquer outro curso ou trabalhar onde quer que seja. Vi que a cidade não proporcionava as oportunidades que eu almejava. Decidi então ir morar no Recife, uma cidade maior, mais estruturada e com mais opções de cursos, inclusive o de medicina, que até então era o meu objetivo. Aquela seria a cidade que me acolheria de braços abertos e me proporcionaria a oportunidade de fazer e ser o que sou hoje. Era final de 1979 quando arrumei as malas e segui para o Recife, em Pernambuco. A chegada ao Recife Quando terminei o primeiro ano do científico, me mudei para o Recife. Foi meu tio Otacílio Bezerra que me ajudou a ir morar lá. Era 1980 e a única referência que eu tinha era o endereço do escritório do meu tio Nivan, que ficava no antigo edifício Seguradora, na Avenida Guararapes, no bairro de Santo Antônio, centro da cidade. Recife era muito diferente de João Pessoa, pelo centro circulavam ônibus elétricos e a Avenida Guararapes era o coração da cidade. Todos os grandes edifícios e escritórios da época estavam concentrados lá. Meu tio Nivan não me conhecia e após eu me apresentar como seu sobrinho, ele perguntou de quem eu era filho. Nunca me esquecerei de sua expressão ao questionar a resposta daquele rapaz de quinze anos, bastante alto e magro: se eu dizia ser filho de Lourdes, que estava em Rondônia, o que eu estava fazendo ali? Meu tio permitiu que eu explicasse o que fazia ali, sozinho e longe da minha família. E contei a ele toda a história, desde a decisão de vir à Paraíba em busca de oportunidades de estudo até o motivo de estar no Recife, buscando realizar o sonho de estudar e ser médico. O que eu precisava dele era uma chance para trabalhar e ter um lugar para morar. Como tio Nivan mantinha um escritório de advocacia, ele perguntou se eu sabia trabalhar com alguma coisa que me fizesse útil no escritório. Foi aí que o velho curso de datilografia (ASDFG) que eu tinha feito em Pimenta Bueno mudou minha vida. De fato, eu tinha feito um excelente curso e me tornado um exímio datilógrafo, batendo centenas de teclas por minuto, sem olhar para o teclado, algo que me ajuda até hoje quando estou trabalhando no computador, tudo isso fruto da técnica ensinada no curso ASDFG que fiz com doze anos de idade. Contei ao tio Nivan que, ainda em Pimenta Bueno, havia feito curso de datilografia e ele pediu que eu demonstrasse. Havia várias secretárias datilografando nas hoje clássicas máquinas de escrever Remington e Olivetti — não havia computadores naquela época. Ele me deu uma petição e em menos de meia hora datilografei as dezenas de páginas que compunham o documento. Menos da metade do tempo que as secretárias levavam. Depois do teste ele disse que eu estava contratado como office- boy do escritório, e que eu iria ganhar um salário mínimo. Era a chance de que eu precisava naquele momento para mudar a minha vida. Para construí-la. De fato, o curso ASDFG e aquela oportunidade de emprego que meu tio me deu mudaram não só a minha vida, mas a de toda minha família. Meu tio pediu para eu procurar uma escola pública para estudar e me ofereceu um pequeno quarto nos fundos de uma gráfica na antiga Rua Velha, no Bairro da Boa Vista, para morar. Mas, logo em seguida, me levou para morar em sua própria casa, junto com sua família. Tive dois pais na vida: o João Diniz, que me concebeu e me pôs no mundo, me transmitindo os valores éticos de ser honesto, trabalhar muito e cumprir com a palavra; e o Nivan Bezerra da Costa, que me ensinou na prática a arte de advogar, me transformando num profissional e advogado de sucesso. Devo tudo a eles. Um complementou o outro. Meu tio Nivan era um homem muito franzino, com belos cabelos pretos e lisos. Era muito vaidoso e extremamente inteligente e perspicaz. Sabia, como poucos, a arte de advogar, além de ser um estudioso do Direito. Comprava todos os livros novos que saíam sobre o tema e estudava muito para embasar suas petições. Morei por cerca de três anos em sua residência, junto com minha Tia Berenice, meus primos Nivan Júnior, Mércia, Kátia e Vânia — seus filhos —, e outra prima chamada Irismar Neta, que também morava com ele para estudar. Era mês de janeiro e o calendário escolar começaria em fevereiro. Eu tinha um problema pela frente: não havia mais vagas nas escolas públicas, estavam todas lotadas. Como recebia um salário mínimo no escritório do meu tio e não pagava aluguel, procurei uma escola particular que tivesse uma mensalidade que eu pudesse pagar. Daí, com parte do salário mínimo que ganhava, me matriculei num pequeno colégio particular chamado de Colégio Porto Carreiro, localizado na Rua da Concórdia, no bairro de São José. Estudei lá o segundo e o terceiro anos do ensino médio. Era um colégio modesto, que cobrava mensalidade baixa, em torno de um quinto do salário mínimo que eu recebia. Foi a única escola privada em que estudei, pois até então só havia estudado em escolas públicas. Vivia para trabalhar e estudar, pois a única alternativa que me restava era passar no vestibular de medicina, na Universidade Federal de Pernambuco. Entretanto, trabalhando no escritório do meu tio e tendo como exemplo ele, que era um grande advogado, o interesse pela medicina foi diminuindo. Morava no bairro de Candeias, na cidade de Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife. Diariamente, me levantava às 5 horas da manhã, me arrumava, tomava café e seguia para o ponto de ônibus, para pegar o coletivo das 6h00, pois as aulas começavam às 7h00 da manhã, e o colégio era localizado no bairro de São José, no Recife, a cerca de 30 quilômetros de distância. As aulas duravam até as 11h30 no colégio e depois eu seguia a pé para o escritório de advocacia. Trabalhava até tarde da noite, datilografando as intermináveis peças jurídicas que meu tio elaborava à mão, com caneta esferográfica. Com o salário que ganhava, pagava o colégio, as aulas de inglês e francês e todas as minhas despesas, e algumas vezes mal sobrava dinheiro para pagar as refeições diárias no trabalho. Não foram poucos os dias em que os almoços se resumiram a pão doce com caldo de cana comprados na padaria próxima ao escritório ou então a dividir a refeição que minha prima Mércia, advogada que trabalhava no escritório, trazia de casa e, por gentileza, dividia comigo. A rotina que eu mantinha no Recife foi muito diferente das cidades anteriores. Era muito mais trabalho e muito mais estudo. Uma das minhas maiores dificuldades foi perceber que, como eu sempre tinha estudado em escola pública e de cidades pequenas, havia tido menos acesso aos livros que os outros garotos do colégio. Assim, eu precisava me empenhar ainda mais. Precisava, de alguma forma, recuperar o “tempo perdido”. Apesar do colégio Porto Carreiro ser uma escola modesta, já tinha ficado bem claro que o nível dos alunos da capital era bem diferente dos alunos do interior. Eu já sabia que estudar e me dedicar era a única forma de me destacar, então, abdicava de todas as diversões de adolescentes. Enquanto os garotos da minha idade e da minha turma iam para as baladas, eu ficava em casa ou nas bibliotecas públicas da cidade estudando até altas madrugadas, sábados, domingos e feriados. Todo o tempo que sobrava da correria diária, eu aproveitava para estudar. Era nos intervalos entre as aulas e o trabalho, nas madrugadas e nos finais de semana e feriados que eu revisava as matérias para entender e acompanhar os assuntos. Desde o ensino básico sempre tive facilidade com as matérias relacionadas à área de humanas — português, história, geografia, estudos sociais. Por instinto ou por saber que seria um diferencial se eu dominasse as outras matérias, procurei dar mais importância para aquelasdisciplinas de que não gostava, ou que não dominava, como química e física e matemática, que tinham muitas fórmulas. Preocupei-me em decorar as fórmulas. Eu passava nos exames porque tinha decorado, mas depois esquecia tudo. Começava a perceber mais um erro que não poderia cometer: se você só decora, o assunto serve apenas para uso imediato, depois você esquece… Era preciso aprender cada um deles se eu quisesse me sair bem no vestibular. O trabalho no escritório de tio Nivan me encantava cada dia mais. Além de limpar todo o escritório e de datilografar intermináveis peças jurídicas, eu fazia todo o serviço de bancos e protocolava as petições nas diversas varas dos vários tribunais. Via na prática o Direito vivo, pois acompanhava os debates jurídicos e as sentenças que eram prolatadas e que mudavam radicalmente as vidas das pessoas. Para melhor — no caso dos vencedores dos processos —, ou para pior — os perdedores. Aprendi que a profissão de advogado, que luta nos tribunais pelos direitos das pessoas, é tão importante quanto a de um médico, que usa a medicina para salvar as vidas das pessoas. Logo, o interesse pela Medicina deixou de existir. Foi despertado em mim o fascínio pelo Direito. Mas primeiro eu precisava ser aprovado no vestibular, para a Faculdade de Direito do Recife, da Universidade Federal de Pernambuco. PARTE 2 A primeira grande alegria: o vestibular de Direito da UFPE Já naquela época os vestibulares para Direito eram muito concorridos. Em Pernambuco, nos anos 1980, apenas quatro faculdades ofereciam o curso: a Universidade Federal de Pernambuco, instituição pública; a Universidade Católica, a Faculdade de Olinda e a Faculdade de Caruaru, todas instituições privadas. Isso para uma demanda baseada em cerca de nove milhões de habitantes. Mais uma vez, eu tinha três opções: dar o máximo de mim e passar no vestibular da UFPE, pois eu não podia pagar uma faculdade particular; continuar como office-boy, sem registro nem carteira assinada e ganhando salário mínimo; ou voltava para Rondônia. Meu objetivo era a primeira opção. Logo, precisei me dedicar profundamente aos estudos para tentar recuperar os anos de escola pública e poder passar no vestibular. Era uma rotina de cerca de três horas por dias, durante a semana, que ia até as madrugadas, e de doze horas por dia nos sábados, domingos e feriados. Estudava só, pois sempre gostei de estudar sozinho, e consegui ver todo o programa do vestibular, principalmente as matérias que eu não dominava, como física, química, biologia e matemática. Apesar dos estudos no colégio e por minha própria conta, tive a oportunidade de, nos últimos seis meses do terceiro ano, fazer um cursinho intensivo no antigo colégio União de Recife. Foi lá que aprendi a decorar todas aquelas longas fórmulas de matemática, física e química, que, assim que passei no vestibular, fiz questão de esquecer, e nunca mais me lembrei de nenhuma delas. Eu tinha dezessete anos e o ano era 1983. Fiz a prova do vestibular no prédio da Universidade Federal Rural de Pernambuco, que ficava no outro lado da cidade. Sabia que havia me saído bem em todas as provas, exceto a de física, que achei que tinha reprovado no ponto de corte. Eu tinha que acertar determinado número de questões para não ficar no ponto de corte, e achei que tinha acertado uma a menos. Fiquei desesperado. Na época, nas noites de finais de semana, eu também ajudava minha tia Berenice na lanchonete do cinema drive in que ela tinha no bairro do Pina, servindo sanduíches e refrigerantes para os clientes. Lembro-me bem quando Júnior, um colega meu, passou lá na noite de sábado e perguntou se eu tinha sido aprovado. Respondi que o resultado ia sair naquela noite, mas que eu achava que tinha ficado no ponto de corte de física. Quando fui para casa, às 10 horas da noite, o resultado já tinha saído e resolvi dar uma paradinha no Colégio Elo, no bairro de Boa Viagem, e ver a lista que estava afixada no muro. Olhei vários nomes e, tamanha foi a minha surpresa, meu nome estava lá! Como aprovado entre os primeiros colocados! Não acreditei. Olhei umas cinquenta vezes e li letra por letra para ver se era mesmo o meu nome. Era eu mesmo. Tinha sido aprovado no vestibular de Direito, entre os primeiros colocados, na Universidade Federal de Pernambuco. O meu sentimento era uma mistura de orgulho com felicidade. Aquela foi a primeira grande alegria da minha vida. Tive orgulho de mim mesmo porque vi que meu esforço, minhas noites de sono, minha renúncia às baladas haviam sido recompensadas. Aquele foi um grande estímulo e um reforço da consciência que eu desenvolvia desde pequeno: o sucesso depende de esforço. Não existe sucesso sem renúncia e sem dor. A aprovação no vestibular me incentivou a ter sonhos maiores, mas já sabendo que era preciso esforço para conquistá-los. E isso exigia paciência e determinação. Ali começava uma nova etapa da minha vida. Eu me lembro como se fosse hoje o primeiro dia de faculdade lá no campus da UFPE. As aulas aconteciam em um prédio afastado e rodeado de árvores que ganhara o apelido de “motel”, tamanho era o uso que faziam do lugar para encontros sexuais. Estudei no motel o primeiro período e a partir do segundo fomos para o clássico e centenário prédio cujas pedras vieram da França, a velha Faculdade de Direito do Recife. O curso iria durar cinco anos. Eu era um dos mais jovens de uma turma em que a maior parte dos alunos era de “filhinhos de papai” — expressão usada para aqueles garotos ricos, filhos de desembargadores, juízes, políticos, empresários, que tinham estudado nas melhoras escolas privadas do Recife. Ou seja, eram jovens que, além de inteligentes, foram muito bem preparados. No entanto, eu já vivenciava a área jurídica através do trabalho no escritório do meu tio Nivan e tinha a prática que a maioria deles não tinha. Mesmo assim tive que me superar e estudar mais que os outros, pois não tinha nenhuma base teórica para poder acompanhar todas as cadeiras do curso. De fato, o curso me trouxe aprofundamento teórico tanto na parte filosófica do Direito quanto na teoria geral e na dogmática da área. Faculdade de Direito do Recife Ainda no primeiro período da faculdade conheci o professor João Maurício Adeodato, que ministrou a disciplina de Introdução ao Direito e se tornou um grande amigo. Adeodato foi de grande importância em minha vida. Mas esse capítulo contarei mais adiante. O trabalho no escritório ia bem, eu estava progredindo e já trabalhava também com cobranças jurídicas, o que me proporcionava ganhar comissões extras. Como estudava em faculdade pública e não pagava mensalidade, aproveitei o dinheiro que ganhava, inclusive as comissões extras das cobranças que fazia, para pagar cursos particulares de inglês na Cultura Inglesa e francês na Aliança Francesa. Ao mesmo tempo, economizava um pouco para poder visitar minha família, que continuava morando em Pimenta Bueno, Rondônia. Nas férias anuais de final de ano, conciliava o recesso do trabalho e da faculdade, e sempre ia visitá- los. Tudo o que ganhava com o trabalho era investido na minha própria educação. Durante a época da faculdade tive um amigo chamado Alessandro Vales Candeias, que desejava seguir a carreira diplomática. Em minhas conversas com ele acabei me interessando também pelo concurso do Itamaraty. Ser diplomata significava prestar concurso no Itamaraty, ser aprovado e passar a vida viajando pelo mundo. Precisava de muita dedicação, já que o concurso era — e ainda é — muito concorrido. Então, eu encaixava as aulas de idiomas nos horários que podia: tardes de sábado e domingo, noites durante a semana que podia correr da faculdade, enfim. Absolutamente todos os horários eram preenchidos e o foco era a aprovação no concurso para o Itamaraty. Eu já estava no terceiro ano da faculdade de Direito. A facilidade nos cursos de línguas, principalmente o curso First Certificate in English, certificado pela Universidade de Cambridge, da Inglaterra, via Cultura Inglesa, me proporcionou ingressar no cursode Letras da Universidade Católica de Pernambuco, uma tradicional universidade particular do Recife, sem precisar prestar vestibular, pois aproveitei o certificado de proficiência em inglês fornecido pela universidade europeia. Foi então que tracei uma nova meta: terminar ao mesmo tempo as duas faculdades, Direito e Letras, e prestar o concurso do Itamaraty. Só era preciso organizar os horários e diminuir as horas de sono. A correria se intensificou, agora eu cursava duas faculdades, trabalhava e ainda tinha as aulas aos sábados, além da preparação solitária para prestar o concurso para diplomata. Hábitos nada diferentes daqueles de quando eu me preparava para fazer o vestibular. Eu já conhecia toda a rotina do escritório de advocacia do meu tio. Como estava em um momento avançado do curso de Direito, já ajudava a redigir as ações, dava entrada nos processos e acompanhava os trâmites. No escritório, lidávamos com ações trabalhistas, ações de cobranças e todo tipo de atividade de um escritório médio de advocacia. Eram muitas ações e eu conhecia a rotina das execuções, dos mandados de busca e apreensão. Acabei percebendo que o escritório já não dava conta das ações de cobrança, recusando algumas causas, e existiam pessoas e empresas que não as moviam porque não conheciam advogados ou empresas especializadas. Comecei a me questionar: por que não sair do escritório e montar uma empresa de cobranças? Esta seria uma oportunidade incomparável de crescimento pessoal e profissional. Meu espírito empreendedor não havia adormecido, estava a cada dia me pedindo por novos desafios e a ideia de um novo empreendimento, desta vez com conhecimento de mercado, pensado e estruturado em uma área que eu tinha domínio, não saía de minha cabeça. 1986 – Janguiê e a mãe, Lourdes, na colação de grau da formatura de Direito 1987 – Foto para colação de grau da turma de Direito da UFPE Um novo empreendimento: a empresa de cobrança Praxis Eu tinha apenas vinte anos. Já não morava mais na casa do meu tio, mas em um pequeno apartamento na Rua Bispo Cardoso Ayres, no bairro da Boa Vista. Era a casa do zelador que a síndica do prédio tinha me alugado. Um pequeno quitinete quarto e sala, perto da casa de máquina dos elevadores. Como não havia telhas, apenas laje, fazia um calor terrível e um barulho ensurdecedor. Naquela época já moravam comigo João e Jânyo, que eu trouxe para estudar no Recife. Eu tinha ousadia, determinação, coragem, obstinação, conhecimento prático e teórico sobre o Direito, responsabilidade e, acima de todas essas características, tinha sonhos, muitos sonhos. Sabemos que as principais conquistas da humanidade “foram precedidas pelo estágio do sonho ou pela ambição na mente de algum visionário”. E eu sou um homem de sonhar muitos sonhos: é que “o homem de um sonho só, é um pobre de espírito e de espírito pobre. Eu nasci para sonhar muitos sonhos e venho ao longo dos meus anos de vida sonhando vários, realizando alguns, tentando outros e uns poucos restam sepultados na cova do tempo”. E gosto de sonhar sonhos impossíveis, pois “só o impossível é digno de ser sonhado. O possível colhe-se facilmente no solo fértil de cada dia”. Quando eu me refiro a sonhos impossíveis, quero dizer projetos difíceis, mas nunca irrealizáveis ou inexequíveis. E tenho convivido muito bem com isso, pois segundo um provérbio russo, “as cargas que escolhemos não pesam em nossas costas”. Ao longo desses meus anos de vida, venho sonhando meus sonhos seguindo sempre a filosofia de Nietzsche, que em resposta a um discípulo seu que queria saber o “melhor meio de subir este monte”, respondeu: “sobes sempre e não penses nisso”. Além disso, se pararmos para pensar, dentro da palavra impossível, está o possível, e no Evangelho de Lucas, na Bíblia Sagrada, existe um versículo que nos dá confiança para sempre tentar uma vez mais: “Pois para Deus nada é impossível”. E é pensando assim que venho sonhando e realizando meus sonhos, carregando meus fardos, subindo meus montes, mas tendo sempre em mente o verso de Carlos Drummond de Andrade: “com apenas minhas mãos e o sentimento do mundo”. Às vezes, para mim, a realização ou concretização de um sonho é muito mais importante do que uma recompensa financeira. Eu estava sempre sonhando durante o período de faculdade. Ela já não era um ambiente novo e eu já estava acostumado com o fato de ser um dos alunos mais jovens da turma. Um jovem que pensava grande, que queria ousar. Assim, não me constrangi em chamar dois colegas e montar uma empresa de cobrança chamada Praxis. Comuniquei ao meu tio Nivan que sairia do escritório dele para dar início ao meu próprio negócio. No início, ele ficou um pouco triste, mas ele me conhecia. Tio Nivan sabia que o escritório dele já estava pequeno para mim, e então, concordou e apoiou meus planos. Com alguns recursos que tinha poupado, meus colegas e eu montamos a empresa, que infelizmente, por diversos motivos, durou poucos meses. Os empreendimentos não são perenes, e as sociedades podem ser piores que um casamento. Alguns meses depois, o negócio foi à falência. De volta aos negócios: a empresa Janguiê Cobranças Mas não desanimei. Como asseverou João Carlos Paes Mendonça, um dos maiores empreendedores do Brasil, “a história de um empreendedor de sucesso não é feita só de acertos. Ele valoriza os erros como aprendizado para fazer mais e melhor”. E eu valorizei. No mundo dos negócios uma coisa é certa: em algum momento, algo vai dar errado. Se você decidir parar no primeiro erro, seu negócio acabou. No entanto, se você optar por recomeçar, involuntariamente será mais fácil acertar por já ter errado uma vez. Fugindo de sociedades, sem titubear, montei sozinho uma nova empresa de cobrança, a Janguiê Cobranças. E sem qualquer cerimônia contratei alguns advogados com mais idade e experiência para trabalhar comigo naquela nova empreitada. A sede do empreendimento já estava escolhida: o edifício Teresa Cristina, ao lado do Cinema São Luís, no 6º andar, sala 614. Ficava no centro velho da cidade do Recife, onde tudo acontecia. Inicialmente comecei com quatro funcionários. Mas, com o tempo, cheguei a ter cerca de trinta funcionários, entre auxiliares, advogados e cobradores. O período que trabalhei no escritório do tio Nivan me fez adquirir conhecimento de mercado e relacionamentos, e então, para atrair a clientela, anunciei a empresa em outras áreas da cidade e logo apareceram vários clientes. Com poucos meses, o número não parava de crescer. Eu estava com 21 anos, ainda não tinha terminado o curso de Direito e já me considerava um empresário bem-sucedido. Era a primeira vez em que eu realmente estava ganhando dinheiro, atuando em uma área com mais rentabilidade e que me permitia investir para expandir meu próprio negócio. 1988 - A empresa Janguiê Cobranças - Recife E mais uma vez o rumo da minha vida iria mudar. O dinheiro faz a cabeça da gente. Quando encontramos um ramo lucrativo não queremos sair dele. E foi por isso que eu desisti de estudar para o Itamaraty, desisti de ser um diplomata e sepultei o velho sonho de ser um embaixador do Brasil. Empreender era o que eu mais queria naquele momento e nem cheguei a prestar o concurso. O meu amigo da faculdade, o Alessandro Waley Candeas? Ele passou em primeiro lugar no concurso, foi laureado da sua turma e até hoje é um diplomata realizado e bem-sucedido. A vida no Recife estava correndo bem. No entanto, eu já começava a vislumbrar problemas: como na época a inflação era alta, os escritórios de cobrança ganhavam dinheiro via honorários e também parte dos juros que cobravam dos devedores, além de ganhar pelo dinheiro que ficava parado na burocracia dos bancos e dos processos. Com a experiência que tinha na área, era de se esperar que os planos econômicos fariam cair os juros e acabariam por estancar os lucros dos escritórios. As graduações No final de 1987, me formei em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Logo em seguida em Letras, pela Universidade Católica de Pernambuco. A minhacolação de grau ocorreu no Centro de Convenções de Pernambuco, e o baile de formatura, no tradicional Clube Internacional do Recife. Foi uma grande festa inesquecível e com muita alegria. Meus pais, irmãos, primos, quase todos compareceram, além de duas ex-namoradas. As poucas que tive, pois minha vida era estudar e trabalhar. Passado o furor da alegria pela formatura, precisava realizar mais uma prova para poder ser de fato advogado e trabalhar: o exame da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB. Não tive dificuldades na prova e logo fui aprovado, recebendo a minha carteira com o número 10.573. O problema de ser um advogado recém-formado, ou um recém-formado em qualquer outra profissão, é que você não sabe de nada, apesar de achar que sabe, mas a sociedade pensa que você sabe de tudo e cobra por isso. Graças a Deus e ao escritório do meu tio Nivan, eu tinha a prática e estava preparado para conviver no competitivo mundo da advocacia. Estava com 22 anos e continuei por mais quatro com a empresa Janguiê Cobranças. Neste ínterim, comecei a cursar a segunda turma de pós-graduação na Escola da Magistratura de Pernambuco, ESMAPE, e foi lá que conheci um professor que se tornaria um grande amigo, Dorgival Soares de Souza. Ele era professor da Faculdade de Direito de Olinda e tinha sido aprovado no concurso para juiz de direito do Estado de Pernambuco. Dorgival e eu discutíamos muito sobre o Direito. Ele como professor e eu com um pouco de conhecimento prático, em virtude do escritório, e teórico, em razão dos estudos. Seus elogios eram constantes e recebê-los me fazia sentir ainda muito mais capaz do que já acreditava ser. Dorgival tinha que tomar posse como juiz do Estado e teria que se mudar para o interior. Em nossas conversas, cada vez mais frequentes, ele percebeu que eu havia acumulado muito conhecimento sobre Direito e Justiça do Trabalho. A verdade é que eu me sentia muito bem estudando Direito do Trabalho. Foi assim que ele me convidou para substituí-lo como professor de Processo Trabalhista (Prática Trabalhista) da Faculdade de Direito de Olinda. “Você não quer ficar no meu lugar?” Meus olhos brilharam. Aceitei o convite prontamente. Fui com ele até a faculdade, fui apresentado à diretoria, participei do processo seletivo e fui, no final de 1988, contratado para ser professor daquela instituição, permanecendo lá até meados de 2002. Entretanto, como no Brasil infelizmente o professor não é valorizado, minha renda como professor era muito menor que a renda da Janguiê Cobranças, então, resolvi continuar com a empresa, na esperança de dias melhores e me preparando para dias piores. O encontro com o amor Musa minha Um dia conheci alguém com um sorriso Acanhada tão linda como uma flor Tão meiga como o orvalho. Quando vez primeira a vi Foi num local dançante Se balançava tão suave como uma pluma errante. Fiquei parado por horas somente A lhe contemplar olhava, fitava E olhava sem vontade de cessar. Essa diva era tão linda que fiquei a indagar Como no mundo podia alguém assim se assemelhar. O seu sorriso era doce que a todos encantava o seu olhar Vigoroso e o seu bailar deslumbrava. O seu jeito era inocente e muito tímido então, Mas o seu coração tinha audácia, amor e paixão. Por essa deia afervorei-me de um modo singular Totalmente de encontro à minha maneira de pensar. Hoje ela é musa dos meus sonhos, Musa dos meus bisonhos, Musa, diva, deia minha A mais bonita rainha. ESTE FOI UM DOS POEMAS QUE ESCREVI PARA SANDRA, MINHA ESPOSA, E QUE ANOS DEPOIS PUBLIQUEI JUNTO COM OUTROS TEXTOS EM UM LIVRO QUE ESCREVI EM SUA HOMENAGEM INTITULADO DESVELO. Como de costume, fui passar as férias de final de ano em Pimenta Bueno, na casa dos meus pais. No entanto, aquela vez foi diferente. Eu estava formado. Era bacharel em Direito e em Letras, com apenas 22 anos. Em dezembro de 1988, fui para Rondônia visitar meus familiares e, daquela vez, ficaria por lá um pouco mais de tempo que o comum. Eu ainda tinha o mesmo perfil de anos: 1,84 m de altura, cabelos compridos, corpo magro. Mas nunca esquecerei a noite de carnaval daquele ano quando eu estava com os amigos em um baile tradicional da cidade, no Clube Apidiá. Foi lá que a vi pela primeira vez. Uma garota dançava à minha frente. Pele branca, corpo esbelto, olhos claros, cabelos loiros e cacheados, sorriso perfeito. Lindíssima. Antes de me aproximar, já sabia que ela se tornaria a mulher de minha vida. Sandra Cristina, minha esposa. Sandra tinha 16 anos, sua família era da cidade de Colatina, no Espírito Santo. Quando pequena, ela tinha ido morar em Pimenta Bueno com seus pais, que tinham comprado um pequeno sítio. Seu pai fora agricultor, sua mãe, professora. Eles moravam nos arredores de Pimenta Bueno, e, infelizmente, quando ela tinha apenas oito anos, perdeu seu pai, que faleceu devido a um câncer. Após a morte do marido, Dona Orlandina, sua mãe, resolveu vender o sítio e ir morar na cidade. Ela é a caçula entre quatro irmãos e desde a terceira série primária estudava com Jonaldo, que naquela época ainda morava em Pimenta Bueno. Eles eram muito amigos: Jonaldo, Jair, Raquel e Célia, irmã de Sandra. Quando adolescentes, por vezes Jonaldo disse que iria apresentar Sandra ao meu irmão mais novo João. Tudo sempre em tom de brincadeira. Mesmo indo todos os anos para Pimenta Bueno, nunca havia coincidido de encontrá-la, pois no período de férias ela sempre viajava com a família para o Espírito Santo para visitar a avó e ficava por lá durante dois meses. O carnaval de Pimenta Bueno era festa de bailes. As famílias se reuniam para brincar e dançar ao som das marchinhas tradicionais da época. Quando me aproximei, ela sequer me olhou. Nunca havia me visto, para ela eu era um estranho e, assim, ela não me deu abertura. Até que Jonaldo nos apresentou, dizendo-lhe que eu era o irmão que morava em Recife. Nós nos entendemos desde as primeiras conversas e pela primeira vez pude eleger em quem depositar minhas emoções. Depois de tantas experiências, eu vivia a mais intensa delas: me apaixonar. Apesar da pouca idade de Sandra, sua mãe, que era pai e mãe ao mesmo tempo, aprovou o namoro. Alguns dos nossos parentes acharam que aquele relacionamento não iria resistir à distância. Foram dois meses de férias e embarquei de volta para o Recife. Sandra ficou em Pimenta Bueno. 1988 - O início do namoro com Sandra, em Pimenta Bueno. Naquela época, o percurso já era feito uma parte de ônibus e outra de avião. A viagem já não durava tantos dias. Ainda assim, antigos versos de uma canção de peões enamorados que ouvi quando saí de Pimenta Bueno aos 14 anos voltaram a ecoar no meu coração: “Você não me ensinou a te esquecer… Você só me ensinou a te querer”. Sandra não saía do meu pensamento. O telefone ainda era um meio de comunicação caro e mesmo eu pedindo que ela me ligasse com chamadas a cobrar, ela se sentia constrangida e nosso contato foi basicamente através de cartas. Em julho, retornei a Pimenta Bueno e aquele foi o nosso segundo encontro. Nos dois anos seguintes Sandra e eu nos encontramos apenas quatro vezes, nos períodos de férias, já que a vida era bastante corrida e de muito trabalho. Eu com a minha empresa de cobranças, além de ministrar aulas de Prática Trabalhista na Faculdade de Direito de Olinda. Ela, em Pimenta Bueno fazendo o ensino médio. No final do ano voltei a Pimenta Bueno e a pedi em noivado com a promessa de casarmos apenas quatro anos depois. Ela ainda tinha 17 anos de idade e estava no segundo ano do ensino médio. A ela, escrevi inúmeras cartas e poemas de amor. Com o namoro seguindo por telefone, cartas e viagens semestrais, a saudade era uma constante. Em julho de 1989, Sandra ficou um mês no Recife e resolvi dar o ultimato: devíamos morar juntos. Ela completaria 18 anos em janeiro de 1990. Em março daquele ano eu completaria 25 anos. Conversamos com dona Orlandina e informamos nossos planos. Ela nos apoiou e disse a Sandra que as portas de sua casa em Pimenta Bueno estariam sempre abertas e que se não desse certo, ela poderiavoltar a qualquer hora. Mas fez com que Sandra prometesse apenas uma coisa: ser feliz todos os dias. Em novembro de 1989, Sandra retornou definitivamente para Recife. Inicialmente, mamãe achava que eu era muito novo para casar. Mas eu estava completamente apaixonado por Sandra e era independente financeiramente, então, não precisava da aprovação de ninguém. Se o casamento era a minha vontade e a de Sandra, isso nos bastava. Claro que em um casamento não se é feliz todos os momentos. São duas pessoas diferentes, convivendo em uma mesma casa e dividindo alegrias e tristezas. Mas, à minha Sandra prometi que faria de tudo para vê-la sempre feliz. Infelizmente, naquele momento, as condições financeiras não me permitiam fazer uma festa de casamento, como eu gostaria de fazer, mas faríamos isso em um outro momento. Eu só queria poder trazê-la para o meu lado. Começaríamos a nossa vida, construiríamos a nossa família. O casamento civil veio alguns anos depois. E o religioso acontecerá em breve, como a realização de um sonho. Nesta altura eu já tinha um carro de segunda mão. Era um Opala Diplomata que constantemente eu reformava para dar uma cara de novo, e tinha comprado um pequeno apartamento num prédio caixão no bairro de Jardim Atlântico, em Olinda. Este apartamento, por sinal, tive que comprar duas vezes, já que o primeiro vendedor falsificou uma procuração e me vendeu um imóvel que não era dele. Sandra se mudou para o Recife no final de 1989 e foi morar comigo e meus irmãos. Ela assumiu a casa, se mostrando uma gestora impecável: organizava horários, fazia as compras, cuidava de todos os meus irmãos como uma mãe. Carinho que eles sempre retribuíram a ela. Eu preciso agradecer e registrar aqui a paciência e tolerância que ela teve e tem comigo ao longo de todos esses anos em que estamos juntos. Principalmente a paciência e a tolerância que teve no início de nossa vida conjugal, quando meus irmãos João, Jânyo, Jair, Jonaldo e Raquel moravam conosco. Ela sempre acolheu todos em nossa casa de forma harmoniosa. 2013 – Sandra Janguiê Sandra terminou o ensino médio e depois se formou em pedagogia, vindo posteriormente a fazer diversas pós-graduações na área da psicopedagogia. Acho que por conta de todas essas pós que ela fez na área de psicologia e terapia é que ela tem me entendido e vivido comigo durante estes 25 anos. “O amor sempre foi a razão de nossa cumplicidade. Ao revisitar os nossos 25 anos de casamento, tenho a convicção de que construímos uma história feliz, alicerçada pelo respeito e admiração mútuas; pela convicção de termos conseguido criar o nosso maior patrimônio: a família. Aos 50 anos, Janguiê já construiu uma história que representa um legado a todos: uma vida marcada pela perseverança, superação de limites e crença no futuro. Ele nos mostra a necessidade de renovar os sonhos. Nele, o humano e o gênio se fundem. Sempre digno de meu amor! Amo ontem, hoje e sempre!” Sandra Janguiê, esposa A carreira da magistratura e a docência Como disse anteriormente, além da empresa de cobranças, cursei a segunda turma da Escola de Magistratura de Pernambuco (ESMAPE). Também fiz a pós-graduação em Direito do Trabalho, pela Universidade Católica de Pernambuco, e logo me vi dando aulas de Processo Trabalhista. Mais uma vez, as experiências no escritório de tio Nivan serviram como abertura de portas para novos caminhos. Por conhecer a rotina do Direito Trabalhista através da rotina no escritório e ter ficado amigo de um professor de Processo Trabalhista da Faculdade de Direito e Olinda, acabei tendo uma chance para lecionar e descobri uma nova paixão: as salas de aula. 1988 - Formatura da turma da Escola de Magistratura Aquele era um novo desafio e eu precisaria de muita coragem. O perfil dos alunos daquela época era bem diferente do perfil dos alunos de hoje. Todos eram mais velhos que eu. Logo, eu tinha que comprovar minha competência diante das turmas. As aulas eram aos sábados. Inicialmente foram quatro turmas de cerca de sessenta alunos cada — a grande maioria estava em sua segunda graduação. Eu me preparei até a medula, sabia que ia ser cobrado, estudei todos os processualistas da época até saber absolutamente tudo sobre cada aula que iria ministrar. Além disso, procurei passar as informações de forma simples. Mesmo que a terminologia fosse complicada, era preciso saber traduzi-la de forma que seu significado ficasse claro. Foi o meu acerto. Os alunos gostaram imediatamente das aulas. E aqui fica uma lição para aqueles que querem iniciar-se no magistério. Não é preciso saber de tudo. Mas é preciso saber transmitir para os alunos de forma simples e didática tudo que sabe. Eu sempre fiz isso. O conhecimento que adquiri através dos cursos de pós- graduação que fiz na ESMAPE e na UNICAP, além do estudo profundo que fazia para ministrar as aulas de Processo Trabalhista e Direito do Trabalho na Faculdade de Direito de Olinda, aliados ao fato de que o lucro na empresa de cobrança Janguiê Cobranças estava diminuindo por questões econômicas que estavam assolando o país, me fizeram despertar o interesse em ingressar na magistratura trabalhista. E este desafio era bem maior do que dar aulas de Processo do Trabalho e Direito do Trabalho ou conduzir uma empresa de cobranças. Atuando como juiz, no Recife Para ser magistrado é preciso saber muito e o concurso era e ainda é um dos mais rigorosos do país. Para tanto, impus-me um rigoroso plano de estudos e para finalizá-lo até a data do concurso era preciso muita dedicação. Foram seis horas por dia, todos os dias, sábados, domingos e feriados. Me tornar juiz do Trabalho se tornou um sonho e uma saída para garantir estabilidade financeira. Entretanto, eu não morava mais sozinho e precisava dedicar um pouco de tempo a minha esposa, Sandra. Mas dela tive todo o apoio para estudar para o concurso. A jornada de estudos e trabalho era árdua, mas eu tinha foco e objetivos. Quando tinha um compromisso ou ficava doente, “pagava” as horas que perdia de estudos no dia seguinte ou dividia nos próximos dias. Sempre fui disciplinado, sempre estabeleci compromissos comigo mesmo. Aquele era mais um desafio e eu precisava superá-lo. E aqui deixo uma lição para os mais jovens: a disciplina e a determinação são armas importantíssimas para o sucesso. Foi nesta mesma época que Sandra me deu uma alegria indescritível: estava grávida do nosso primeiro filho, a quem demos o nome de �ales. O nascimento de �ales foi a segunda grande alegria da minha vida, e motivou-me ainda mais para que eu conquistasse a vaga de juiz. Na época não havia cursos preparatórios para esse tipo de concurso no Recife e eu tive que ser autodidata, e continuei seguindo à risca o meu próprio plano de estudo, com base em minhas experiências e no que eu conhecia do concurso. Comprei toda a bibliografia das principais matérias. Sabia que estudar uma matéria por dia não daria certo. O cérebro cansa rápido e acaba não processando todo o conteúdo. Então, pensei em outra forma: no início, eu estudava cada disciplina por um determinado tempo até cansar dela. Pegava, por exemplo, o livro de Direito Administrativo e lia sublinhando as passagens mais importantes, os principais pontos. Passado um determinado tempo, percebia que já estava cansado daquele assunto e o estudo não rendia tanto. Então, trocava de matéria. Começava novamente, lendo e sublinhando outra matéria e notava que o interesse pela leitura se renovava só pelo fato de o assunto ser diferente. Ao final do tempo de estudo daquele dia, eu conseguia cobrir seis ou sete matérias. Com o tempo, cerca de dois ou três meses depois, o cérebro já estava treinado e eu conseguia estudar uma matéria só por horas a fio, sem me cansar ou ficar desinteressado pelo conteúdo. Apenas isso seria insuficiente para ser aprovado no concurso, então o estudo não parava por aí. Depois de ter visto todo o conteúdo a primeira vez, eu voltei a estudar as mesmas matérias, reler cada livro. Dessa vez, a estratégia era outra: datilografava numa pequena máquinaRemington as partes que havia sublinhado na primeira etapa dos estudos. É assim que você processa a informação: quando você faz quadros sinóticos, quando você resume, quando você traduz em outras palavras. Eu repassei toda a essência das matérias. Passada a segunda etapa, entrei em uma nova fase de estudos. Na terceira etapa, passei a estudar os resumos datilografados. E fiz sínteses das sínteses. Fui sublinhando a essência da essência. Acredito que, dessa forma, cheguei a estudar todo o programa do concurso uma, duas, três, quatro vezes… Eu também comprava livros e revistas que traziam questões de concursos. Quando fui fazer a prova, já tinha resolvido, no mínimo, umas cinco mil questões. Outro aspecto a que precisei me dedicar bastante foi a forma de escrever. Sempre me preocupei com o escrever bem, com o bom emprego das palavras. Os termos jurídicos são muito específicos e é preciso saber seu significado exato para usá-los corretamente. Por isso eu ia anotando todos os termos jurídicos que apareciam durante a minha leitura. Cheguei a fazer um dicionário jurídico para uso pessoal. Estava tão bem preparado para o concurso que me saí extraordinariamente bem nas três primeiras provas — a de questões, a escrita dissertativa e a elaboração de sentença. No entanto, apesar de todo o conhecimento, pequei da forma mais ingênua que se podia pecar: a falta de humildade na prova oral. A maturidade me ensinou várias coisas e uma delas foi deixar a ousadia da juventude de lado. Hoje, certamente não faria o que fiz. A prova oral para magistratura implicava um sorteio de tema para questionamentos. Sorteei “os recursos no processo trabalhista”. A banca, composta por três grandes nomes do Direito, me perguntou se eu aceitava o tema e eu disse que sim, mas que eles poderiam se sentir à vontade para perguntar sobre qualquer outro ponto do programa que quisessem, pois eu estava disputando o primeiro lugar do concurso. Pura arrogância e prepotência justificadas pela sede de vitória próprias da juventude. Aquela atitude me valeu a perda de valiosos pontos. Ao invés de tirar 10, a nota máxima, com os três avaliadores, tirei apenas notas regulares: 8,5 com um avaliador e 9,0 com dois outros. As notas da prova oral, aliadas à pouca pontuação que obtive na prova de títulos, me fizeram perder o primeiro lugar no concurso para magistrado do TRT da 6ª região, mas ainda assim fiquei entre os dez primeiros, dentre 33 candidatos aprovados. Porém, apesar da aprovação e boa classificação, aquela lição ficou guardada na memória como um erro que eu jamais cometeria novamente. Lembro que estavam na banca profissionais de renome, como a desembargadora federal do trabalho, Eneida Melo, e o ilustre advogado Pedro Paulo Pereira Nóbrega, hoje desembargador do trabalho. Durante todo o ano de 1991 e parte de 1992 eu tinha estudado e desenvolvido toda uma técnica para passar no concurso para juiz, o qual eu poderia aplicar a qualquer outro concurso. Aquelas se mostraram um conjunto de técnicas didáticas eficientes. Agradeço por ter aprendido a estudar desde cedo e por gostar disso. E, em pouco tempo, aprendi a ensinar, descobrindo uma outra atividade prazerosa. Sabia que também faziam parte do meu segredo muita determinação, muita disciplina e muito tempo de estudo, aliados a enfoques objetivos de cada matéria. A aprovação na magistratura trabalhista para o Tribunal de Trabalho da 6ª Região foi a terceira grande alegria da minha vida. Agora, eu era juiz do Trabalho — um cargo público, estável e bem remunerado. Novos horizontes estavam se abrindo. Somente quando passei a ser magistrado pude comprar o meu primeiro carro zero quilômetro: era um Monza vinho, um belo carro. Na imagem acima, a posse como magistrado TRT 6ª região, em 1992 O nascimento dos herdeiros Do meu casamento com Sandra, tenho três filhos: �ales, Elora e Mel. É impossível mensurar o amor e o orgulho que tenho de cada um deles. �ales é o mais velho, nasceu dia 20 de janeiro de 1992. No auge dos meus estudos para a magistratura trabalhista. Me lembro como se fosse hoje quando Sandra me disse que estava grávida. Foi uma alegria enorme. Na época, eu estudava e trabalhava dia e noite. Como era uma vida muito corrida, não pensava em parar sequer para comer, foi assim que cheguei a pesar 67 quilos com 1,84m de altura e contraí tuberculose. Ainda hoje sou uma pessoa magra (tenho 85 quilos). Naqueles tempos, a situação na empresa de cobranças já não era das melhores. De trinta funcionários eu tinha reduzido o quadro para dez e os lucros continuavam a cair. A situação estava tão ruim que eu não tinha nenhum plano de saúde. Nem para mim nem para Sandra. O parto, cesariana, foi realizado em uma pequena clínica de saúde chamada Clínica do Prado, no bairro do Prado, no Recife. E para pagar o hospital e a equipe médica eu tive que vender uma linha telefônica fixa que possuía — vale lembrar que na década de 1980 e 1990 linhas telefônicas ainda valiam algum dinheiro —, além de vender alguns objetos pessoais. Mesmo assim, alguns cheques pré-datados que dei para a médica foram devolvidos por falta de fundos. Só pude pagar os valores posteriormente. Além dos problemas financeiros, outro fato marcou o nascimento de �ales. Enquanto deixei Sandra na clínica e fui em busca de conseguir dinheiro para pagar a cirurgia, minha esposa entrou em trabalho de parto e a médica a levou para a sala de cirurgia sem a minha presença. Quando retornei ao hospital, �ales já tinha nascido, o que foi extremamente marcante e constrangedor para mim, pois não estive ao lado de Sandra durante o parto. Como disse, o nascimento do meu filho �ales foi a segunda grande alegria da minha vida. O primeiro filho. Até hoje ele é uma das razões do meu viver, junto com Elora e Mel. Já com 22 anos, é um jovem inteligente, parecido fisicamente comigo por ser alto, e também estudante da ciência do Direito, com um futuro brilhante pela frente. Certa vez, em meu aniversário, ele disse que ficaria muito feliz se conseguisse ser na vida a metade do que eu fui. Diante daquela frase e com os olhos marejados de orgulho, eu lhe respondi que ele não precisa ser nada do que fui, mas apenas ser o �ales. O verdadeiro �ales. O �ales cheio de sonhos e de utopias, com muita garra para realizar os seus sonhos e atingir seus objetivos. Janguiê Diniz ao lado do filho �ales, em Congresso de Direito promovido pelo Bureau Jurídico. Elora foi nossa segunda filha e muito desejada. Hoje com quinze anos, lindíssima, alta, tímida e tão inteligente quanto �ales. Na época de seu nascimento a situação financeira da nossa família já era estável, eu já era procurador no Ministério Público do Trabalho. Apesar da vida continuar muito corrida com todas as atividades, pude acompanhar com tranquilidade e muita alegria toda a gestação de Sandra e o nascimento da nossa primeira princesa. Elora nasceu em 1º de abril de 1999, no Hospital Santa Joana, também no Recife. 1999 - O nascimento de Elora Mel é a nossa caçula, e com certeza é quem tem o gênio mais parecido com o meu. Ela é daquelas pessoas que não têm medo de nada, corajosa, ousada, questionadora, ao mesmo tempo que consegue ser doce e carinhosa. 2002 - Em evento com as filhas Mel e Elora Uma das coisas que sempre fiz questão com todos eles foi de conciliar os momentos de trabalho e de família. Apesar de estar sempre viajando a trabalho e sempre atento a cada uma das empresas, sempre estive presente nas reuniões e festas escolares, como dia dos pais, dias das crianças, feiras de ciências, etc. Eu tive uma infância difícil. E apesar de os meus filhos terem nascido em situações de vida diferentes, faço questão de transmitir aos três os valores que recebi dos meus pais: trabalhar e estudar muito, ter coragem para enfrentar os desafios e dificuldades que possam surgir no caminho, honestidade, lealdade e ética. Além disso, quero que eles valorizem o amor pela família e pelo próximo. Quero que saibam que, na vida, nada é fácil e que nenhum objetivo é conquistado sem luta. Sonhoque no futuro eles continuem com saúde para construir suas vidas, que todos sejam pessoas de bem, batalhadoras, que conquistem seu espaço e tenham a sorte que eu tive de encontrar uma companheira leal, paciente e incentivadora ao lado. “Poderia passar dias e mais dias falando de como ele é um bom pai e pessoa, pois sou seu filho e sou convicto disso, e isso nunca iria se esgotar. Falar do meu pai algumas vezes parece fácil, outras não. Para mim, ele sempre será, junto com minha mãe, a pessoa mais importante de toda a minha vida, pois devo minha existência, educação, tudo que eu sou a ele. Além disso, ele é uma pessoa maravilhosa, a mais determinada e corajosa que conheço. Nunca conheci homem mais corajoso que ele. Pode ser difícil ser filho de uma pessoa tão corajosa, tão determinada, tão admirada, mas é uma tarefa que carrego de forma apaixonada, de corpo e alma. Às vezes, lembro-me de sua trajetória, de como já esteve doente, magro, com as preocupações à flor da pele, mas nunca desistiu, nunca pensou em desistir. Acredito que desistir não é uma palavra que está em seu dicionário. Ele será sempre o meu maior herói, minha maior inspiração! Amo você, meu pai, sei que nossos laços são eternos! Espero que um dia eu seja a metade do homem que o senhor é, pois como disse o poeta Augusto do Anjos: Para onde fores, Pai, para onde fores, Irei também, trilhando as mesmas ruas…” �ales Janguiê “Meu pai é uma lição de vida! Lembro-me quando, em 2006, todos da família estávamos de férias a caminho da Bahia. No caminho para o hotel, ele estava no telefone, tratando de negócios. Me esforcei para ouvir o que dizia. Com muita firmeza, ele falou para a pessoa que estava no outro lado da linha: “Nunca podemos subestimar alguém dizendo que ele é o pior. Devemos, sim, autoestimar e dizer que ele é o melhor”. Isso ficou como uma lição para mim. Ele sempre me ensinou a me superar, a buscar ser a melhor que puder ser, por mim e ninguém mais. Tenho muito orgulho de ser sua filha.” Elora Janguiê “Meu amor por ele é tão grande que não conseguiria expressar em poucas palavras. Mesmo quando ele está longe, sinto sua presença. Sei que posso contar com ele para tudo o que precisar. E ele sabe que também pode contar comigo. Ele é forte e às vezes bravo, mas basta um abraço e ele se derrete.” Mel Janguiê Janguiê Diniz em evento de inauguração do Bureau Jurídico, em 1993 O Ministério Público do Trabalho e os primeiros empreendimentos educacionais Eu tinha sido aprovado no concurso para juiz estudando com meus próprios métodos e técnicas. No entanto, observador que sempre fui, percebi que vários advogados e estudantes de Direito não sabiam como estudar para os concursos da área e, aproveitando que no Recife não havia cursinhos especializados, enxerguei ali uma nova oportunidade de negócio: resolvi dar aulas de preparação para concursos da magistratura e do Ministério Público. A atividade como juiz do Trabalho não me impedia de exercer a função de professor e, mais uma vez, eu só precisaria organizar meu tempo. No dia 11 de agosto de 1993 — data comemorativa da fundação dos cursos jurídicos no Brasil —, fundei, no Recife, o Bureau Jurídico. Um curso preparatório para concursos da Magistratura e do Ministério Público. No início, o Bureau Jurídico funcionou informalmente, apenas eu ensinava a um grupo de 50 a 60 alunos, a maioria deles ex-alunos meus das faculdades em que dei aulas. Entretanto, em 1996, o empreendimento ganhou personalidade jurídica e se transformou em uma empresa educacional. A minha primeira empresa educacional. O Bureau, como ficou conhecido, era destinado a alunos da área jurídica de todas as idades. A sede ficava na Rua do Progresso, em frente ao Consulado Americano, no bairro da Boa Vista, e eu comecei como único professor do curso. Com o sucesso inicial, logo a turma atingiu cerca de cem alunos, ensinando as matérias que eram minha especialidade, como Direito do Trabalho, Processo do Trabalho, Processo Civil e Sentença Trabalhista. 1996 - O prédio do Bureau Jurídico, com sede na Rua José Osório, no Recife. A ideia do nome do curso foi minha e de Roberto Bitu, um diretor da secretaria da 14ª Junta de Conciliação e Julgamento da Comarca do Recife, hoje Vara Trabalhista. Durante certo tempo, Bitu foi meu sócio, juntamente com Marcílio Florêncio, mas algum tempo depois, ambos resolveram deixar a sociedade justificando que não tinham tempo para o negócio e eu decidi continuar sozinho, pois enxergava ali uma oportunidade de atingir o sucesso. O Bureau Jurídico era exatamente o que o mercado de educação no Recife estava precisando naquele momento. O número de alunos matriculados aprovados nos concursos aumentava e não demorou para o curso se tornar um sucesso. Não havia espaço nem horários disponíveis para tantos alunos que queriam se matricular. Comecei a receber demandas de alunos de outros estados. Eram centenas de pessoas que vinham de vários lugares do país, como Rondônia, Pará, entre outros, apenas para estudar no Bureau Jurídico. As aulas eram expositivas e teóricas, aliadas à interpretação de casos práticos, principalmente nas aulas de sentença. Além da matéria teórica, eu ensinava aos alunos as técnicas de estudo, de otimização do tempo e de memorização com mais facilidade. Tudo o que eu tinha feito para ser aprovado no concurso para juiz. Assim se passaram alguns anos e o Bureau Jurídico foi crescendo. Foi preciso contratar mais professores. Tudo que eu ganhava com o Bureau Jurídico era reinvestido no próprio Bureau. Com o sucesso que estava fazendo no Recife e vislumbrando a oportunidade, decidi que havia chegado a hora de expandir. O Bureau passou, então, a operar com franquias em outras cidades do Nordeste, como Maceió, Caruaru e Goiânia. O sucesso de público e aprovações acontecia com muita intensidade. Lembro-me de um determinado concurso para delegado em Recife em que, dos cerca de 120 aprovados, aproximadamente cem haviam sido alunos do Bureau Jurídico. Tudo corria bem, exceto por um detalhe: eu era juiz do Trabalho no exercício da presidência da 14ª Junta de Conciliação e Julgamento do Recife, pois o titular da Junta, o dr. Ivan Valença, ocupava cadeira no Tribunal em substituição ao desembargador, que era seu pai. Logo, eu só estava lotado no Recife por acaso e quando ele voltasse para assumir a titularidade da Junta, eu, que havia sido aprovado para juiz do trabalho substituto, teria que ir assumir uma junta no interior do Estado, pois, segundo a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (loman), o juiz tem que morar na comarca onde está lotado, embora muitos não cumpram a norma. 1997 - As aulas no Bureau Jurídico Foi por esse motivo, também, que eu já havia adiado um novo curso de pós-graduação stricto sensu, ou mais especificamente o mestrado, e, aliado a isso, surgia o receio: como continuar coordenando o Bureau Jurídico estando em outra cidade? Para sair desse impasse e continuar com a estabilidade profissional e financeira que o cargo público me oferecia, eu precisava fazer um novo concurso, que me permitisse ficar no Recife e continuar levando adiante meus planos empresariais na área de educação. Haveria uma nova oportunidade. Desta vez, o concurso era para procurador do Trabalho e dispunha de vagas para o Recife. O conteúdo programático era parecido com o de juiz, eu conhecia as matérias e lidava diariamente com elas no Bureau Jurídico. Como já tinha acumulado bagagem suficiente com o estudo para o concurso da magistratura trabalhista, resolvi me inscrever. Na época, o Bureau estava “bombando” de alunos, e minha ida para o interior iria sepultar o meu sonho de empreendedor educacional, já que teria que deixar o Bureau nas mãos de outras pessoas e isso fatalmente poderia levá-lo à bancarrota. Eu continuava sendo professor de Processo Trabalhista e Prática Trabalhista da Faculdade de Direito de Olinda e já começava a escrever vários trabalhos jurídicos para diversas revistas especializadas nacionais, como a Revista Jurídica Consulex, a LTR, etc. A minhacarreira jurídica também me deu a oportunidade de escrever vários livros na área. Enquanto ainda era professor na Faculdade de Direito de Olinda, pude escrever três livros jurídicos: Recursos no Processo Trabalhista, Temas de Processo Trabalhista e Sentença Trabalhista, todos publicados pela Editora Consulex. Fiz o concurso para procurador de trabalho só com o estudo feito para o concurso de juiz de trabalho, e confesso que me surpreendi com o resultado da seleção. Esperava ser aprovado, mas fiquei com o primeiro lugar do Norte e Nordeste, e o 11º lugar no Brasil, dentre quase nove mil candidatos. Eu estava com a minha estabilidade definitiva garantida pelo cargo de procurador lotado em Recife, sem correr o risco de ter que me mudar. Foi assim que pude me dedicar mais ativamente ao Bureau Jurídico, que foi se transformando em um complexo educacional à medida que a procura dos estudantes crescia. O nome do Bureau Jurídico se tornou referência no ensino preparatório para concursos e, em média, sete de cada dez bacharéis em Direito que almejavam a magistratura ou o Ministério Público, especialmente do Trabalho, procuravam estudar no Bureau. Graças ao bom relacionamento que mantive com os professores na época de faculdade, e também com os que conheci ao longo da vida, eu tinha liberdade para convidar os melhores professores dos cursos e faculdades mais conceituadas para dar aulas. Queria formar um time de estrelas para o corpo docente do Bureau. Os resultados eram concretos e notórios. Nosso índice de aprovação nos concursos era altíssimo, uma prova de que a concepção do curso, os conteúdos e os métodos de ensino que trabalhávamos eram eficientes. Minha vida ficava ainda mais corrida. Trabalhava de dia na Procuradoria e ministrava aulas à noite no Bureau Jurídico e na Faculdade de Direito de Olinda. 1999 – Participação de Lula no Congresso Mundial de Direito, promovido pelo Bureau Jurídico Eu não queria parar por ali. Não queria ficar apenas com o Bureau Jurídico. A vida já tinha me ensinado muita coisa. Uma delas foi que a arrogância não leva ninguém a lugar algum. Depois de apanhar muito, aprendi a não ser arrogante, no entanto, eu tinha muitos sonhos e muitas ambições. Depois do erro cometido ainda criança, quando não estudei o produto antes de me lançar na venda de laranjas e só fui descobrir que a oferta da fruta era sazonal tarde demais, o que me deixou sem mercadoria para vender, aprendi a estudar o mercado. Quando prestei vestibular, na década de 1980, Pernambuco tinha apenas quatro faculdades de Direito: uma pública e três particulares, sendo uma delas em Caruaru, cidade no agreste do estado, a 120 quilômetros do Recife. Quase uma década depois, no fim dos anos 1990, o cenário não havia mudado: eram apenas quatro instituições. Era claro que Pernambuco precisava de mais faculdades. O Recife precisava de mais faculdades. E não falo apenas pelo curso de Direito, mas de instituições com vários cursos, que oferecessem oportunidades à demanda existente e crescente de alunos. Por experiência própria, tinha certeza de que a educação era a única maneira de sair da pobreza, de alcançar o sucesso na vida. E sempre defendi a democratização da educação. No Recife, o mercado era bastante receptivo. O vestibular se tornava cada vez mais competitivo e os colégios tradicionais precisavam de diferenciais para atrair os alunos. Em sua maioria, eles apostavam nos índices de aprovação nos vestibulares como mote das campanhas publicitárias. E eu observava a movimentação desse mercado. Mais uma vez, sentia a necessidade de expandir os negócios. Em 1999, fundei o BJ Colégio e Curso. A ideia do BJ seguia os mesmos padrões do Bureau Jurídico: uma escola particular, especializada em ensino médio e que aplicava os métodos mais sofisticados dos cursinhos preparatórios. O resultado foi melhor que o esperado: sucesso imediato. Logo no primeiro ano de abertura do colégio as turmas ficaram lotadas e eu percebia, ainda mais, que a educação era uma área carente e que, aprimorando meus conhecimentos e cercado de pessoas com conhecimento na área, de confiança e focadas, como eu, seria possível investir ainda mais. “Conheci Janguiê no início de 1996 ao ingressar no MPT como servidor, e com ele convivi pessoal e profissionalmente até o ano de 2005, quando assumi o cargo de procurador do trabalho e fui lotado na Procuradoria do Trabalho de São Luís, no Maranhão. Foi em 1996, logo após meu ingresso, que, coincidentemente, teve início na Procuradoria do Trabalho em Pernambuco um processo destinado a oferecer uma melhor estrutura de apoio aos gabinetes dos procuradores, tendo sido lotado, justamente, no gabinete do então procurador do trabalho, Janguiê Diniz. Desde o primeiro instante, ele me propiciou as mais amplas oportunidades de aprendizagem e de crescimento profissional, facultando-me o acesso aos casos concretos submetidos à sua análise, o que foi muito importante para que, hoje, eu pudesse estar também na carreira do Ministério Público. Pois bem! Nesta época, Janguiê era professor da Faculdade de Direito do Recife — da ufpe — e da Faculdade de Direito de Olinda — da aeso —, além de coordenador do Bureau Jurídico, que ministrava cursos preparatórios para concursos públicos e realizava congressos jurídicos nacionais e internacionais. Além disso, estudava para o mestrado em Direito na ufpe e escrevia artigos para as mais diversas revistas jurídicas do país. Sua produção foi muito intensa nesse período. É dessa fase o livro Ação Rescisória dos Julgados, fruto de sua tese de mestrado, e que considero uma de suas melhores obras jurídicas. Irrequieto, Janguiê desenvolvia várias atividades simultaneamente, mas sempre demonstrou preocupação com a educação e, creio, já nutria o sonho de ter sua própria instituição de ensino superior. Paralelamente às atividades acadêmicas, Janguiê seguia sua carreira no Ministério Público, sendo promovido a procurador regional do Trabalho e tendo chegado à chefia da Procuradoria do Trabalho em Pernambuco, permanecendo à frente da instituição de 1999 a 2003. Foi nesse período que, em razão do sucesso do Bureau Jurídico, ele foi procurado por representantes da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), que, em sociedade com o Bureau, instalou um campus na cidade do Recife. Mas a parceria não durou muito tempo e um desentendimento entre os sócios ensejou o desfazimento do negócio e o Bureau, com Janguiê à frente, se viu forçado a demandar contra o ex-sócio, buscando o ressarcimento e a indenização por aquilo que não pôde realizar em razão do fim prematuro dos negócios conjuntos. Neste momento Janguiê deu, mais uma vez, mostras de seu conhecimento jurídico. Ao receber do advogado a minuta da petição inicial da ação contra a Universo para análise, revisou todo o texto, remontando toda a história da sociedade e de seu desfazimento, demonstrando grande preocupação com a narrativa dos fatos, o seu enquadramento jurídico e os pedidos a serem formulados. Tive a oportunidade de participar, também, desse momento, o que contribuiu para minha aprendizagem e meu desenvolvimento profissional. Os pedidos feitos na ação foram quase que integralmente concedidos de forma liminar pelo juiz da causa e mantidos em grau de recurso (agravo de instrumento) pelo Tribunal de Justiça, o que levou a Universo a assinar os termos de um acordo que satisfez as pretensões do Bureau — e também da Universo, claro, já que era um acordo. A partir daí, com a imensa capacidade de trabalho que possui, Janguiê intensificou as ações para concretizar seu sonho, erguendo o que hoje todos conhecem como o Grupo Ser Educacional. Quem hoje vê esse império erguido, não pode avaliar o quanto de trabalho, de suor, de tempo e de dedicação foi despendido. A história de sucesso do grupo é também de muita dor e de sofrimento, porque não foi fácil chegar até onde ele chegou. Tive o privilégio de acompanhar, de perto, uma parte dessa história, momentos cruciais, decisivos, da vida de Janguiê e de seu maior empreendimento. Se me perguntaremqual traço de sua personalidade mais se destaca, eu diria que é o destemor. Poucas vezes vi alguém tão destemido. Mas ele alia o destemor à ousadia e o resultado é que ele se revela como um empreendedor nato. Para além disso, Janguiê é profundamente ligado à família e, ousaria dizer, o elemento de equilíbrio de seu núcleo familiar. Sempre demonstrou preocupação com o bem-estar e o desenvolvimento de toda a família, seus irmãos, seus pais, seus filhos, sua esposa, procurando fazer com que todos eles crescessem e progredissem juntos. Sua mãe, Dona Lourdes, por ocasião de seu último aniversário, chegou a dizer que seus irmãos tinham mais receio dele (Janguiê), caso fossem mal na escola, do que dela mesma. Tinha um carinho especial por seu tio, já falecido, o advogado Nivam Bezerra da Costa, que o acolheu em Recife num momento muito difícil de sua vida, quando ainda era estudante. Claro, todas as suas qualidades, como o destemor, a ousadia, a coragem, aliadas ao trabalho incansável e diuturno, creio, foram e são determinantes para o sucesso de seu empreendimento e todas as conquistas que obteve. E não foram poucas: lembro que antes de ingressar no Ministério Público, Janguiê foi juiz do Trabalho e que, ao término de seu mandato à frente da Procuradoria, ele apresentou tese de doutorado, conquistando mais um importante título acadêmico. Janguiê parece ter vindo ao mundo para empreender, para criar. Destemor, obstinação, determinação, ousadia e inteligência são traços marcantes em sua personalidade e, certamente, conferem-lhe o perfil de empreendedor. Tenho grande admiração por Janguiê e continuo torcendo por ele, para que ele permaneça crescendo e que com ele possam crescer, também, todos aqueles que, hoje, colaboram com esse grandioso empreendimento que é o grupo Ser Educacional. Parabéns, Janguiê.” José Laízio Pinto Júnior, procurador-chefe do MPT/PE O despertar de um escritor A facilidade com as Ciências Humanas, o curso de Direito, que exige muita leitura e um extenso vocabulário, e o curso de Letras me fizeram tomar ainda mais gosto pela escrita. Incentivado pela vivência profissional, pela docência e especializações na área trabalhista, escrevi em 1994 meu primeiro livro: Os recursos no processo trabalhista — Teoria e Prática. A obra foi publicada pela Editora Consulex, de Brasília, e está com a quinta edição no prelo. O livro, direcionado para estudantes e profissionais da área trabalhista, discursa sobre todo o sistema recursal trabalhista. Desde a teoria geral dos recursos, passando pelos princípios recursais à análise dos recursos trabalhistas, de per se. Analiso desde um simples Embargo de Declaração até um Recurso Extraordinário perante o STF. Esta foi a primeira de catorze obras que publiquei desde então. Em seguida, vieram A sentença no processo trabalhista — Teoria e Prática, publicada pela Editora Consulex em 1996 e que abordava a teoria e a prática das sentenças trabalhistas. No livro, ensino aqueles que querem ser juízes do Trabalho a elaborarem uma sentença trabalhista. Ainda em 1996, escrevi o livro Temas de processo trabalhista — Vol. I, publicado pela mesma editora. Na obra, abordei diversos temas de Direito Processual, especialmente na área trabalhista. Foi o volume I porque eu tinha a intenção de escrever outros volumes. Entretanto, o tempo não me permitiu. Na mesma época, comecei a me enveredar por outros caminhos: escrever artigos para publicações nos veículos impressos. O primeiro desses textos trazia o título “Empregado doméstico” e foi publicado no jornal Diário de Pernambuco, em 14 de maio de 1996. Depois deste, seguiriam-se outras centenas sobre os mais diversos temas, não só do Direito, mas também sobre economia, política e atualidades. Meu terceiro livro publicado foi Ação rescisória dos julgados, editado pela LTR Editora, de São Paulo, em 1997, foi fruto da dissertação de mestrado que defendi perante a Universidade Federal de Pernambuco, na qual obtive a nota máxima na defesa. A editora ainda publicaria mais algumas obras minhas: O direito e a justiça do trabalho diante da globalização, em 1999, e Atuação do Ministério Público do Trabalho como árbitro nos dissídios individuais de competência da justiça do trabalho, em 2005, obra esta que consistiu na minha tese de doutoramento, também defendida perante a Universidade Federal de Pernambuco. Além destes, publiquei Manual para pagamento de dívidas com títulos da dívida pública, em 1998, e Ministério Público do Trabalho — Ação civil pública, ação anulatória, ação de cumprimento, em 2004. Ambos pela Editora Consulex. No entanto, escrever livros jurídicos demanda bastante tempo e ainda mais atenção. Eu já tinha uma vida bastante movimentada com a Procuradoria, as aulas nas faculdades, especialmente a Faculdade de Direito do Recife, mantida pela UFPE, e o Bureau Jurídico, que em 2003 se tornaria a Faculdade Maurício de Nassau. Então, era cada vez mais difícil ter tempo para escrever livros sobre o Direito. Lembram que comentei, alguns capítulos atrás, que escrevi para Sandra vários poemas enquanto ainda éramos namorados? Eles deram origem ao livro Desvelo, publicado pela Editora Bargaço em 1990 e com reedição em 2011. Nele, constam vários poemas que escrevi não apenas para Sandra, mas textos em homenagem a pessoas que foram importantes na minha vida. Apesar de escrever ter se tornado uma paixão, as demandas diárias não me permitiram publicar mais nenhum livro na área do Direito. No entanto, eu continuava escrevendo os artigos e enviando-os para vários jornais impressos em todo o Brasil, que os publicavam constantemente. Não havia um tema específico para eles, mas eu gostava e gosto de abordar temas cotidianos e fatos relevantes que acontecem no Brasil e no mundo. Até o fim de 2013, mais de quinhentos artigos meus já foram publicados por diversos jornais impressos do Brasil e por sites conceituados. É difícil escolher apenas um texto que tenha me marcado, entretanto, sempre há aqueles que são mais debatidos e com temas que sempre estão em pauta nas manchetes, como por exemplo as eleições. Meus artigos resultaram na publicação de mais quatro livros: Educação Superior no Brasil, em 2007; Educação na era Lula, em 2011; Política e Economia na Contemporaneidade; e O Brasil e o mundo sob o olhar de um brasileiro, estes dois últimos em 2012. Todos eles pela Editora Lumen Juris, do Rio de Janeiro. Educação Superior no Brasil e Educação na era Lula trazem artigos apenas sobre a área de educação. O primeiro foi lançado em um período em que o debate sobre educação crescia e se tornou bastante amplo na busca de alternativas viáveis para garantir o acesso à educação a todos os brasileiros. Já o segundo traz textos com reflexões sobre os acertos e erros do então chefe de Estado, Luís Inácio da Silva, e indicação de ações que precisavam ser tomadas pela atual presidente Dilma Rousseff. Política e Economia na Contemporaneidade, como o próprio título já deixa claro, traz artigos que abordam a estreita relação entre economia e política, peças da engrenagem social. Os textos abordam assuntos como democracia, reforma tributária, desafio do primeiro emprego, responsabilidade social, infraestrutura, etc. O livro foi uma coletânea com 64 artigos que pretendiam ajudar na compreensão de temáticas que estiveram presentes na pauta pública na primeira década do século XXI. Já o livro O Brasil e o mundo sob o olhar de um brasileiro traz artigos que levantam inúmeras perspectivas sobre os vários temas do cotidiano da região Nordeste e do Brasil. Os textos trazem questionamentos relevantes sobre a economia, política, educação e atualidades ligadas aos interesses públicos, no momento em que o Brasil vinha se destacando diante dos outros países como uma economia forte e resistente em meio à crise econômica mundial. E foi com a publicação dos artigos que decidi criar meu blog, o Blog do Janguiê, no qual todos os meus textos são postados e assim, posso atingir um público ainda maior, compartilhando minha opinião e recebendo aopinião de centenas de pessoas sobre os temas. Além dos livros jurídicos e artigos temáticos, durante meus vinte e poucos anos de trajetória profissional como advogado, professor da Faculdade de Direito do Recife (UFPE), magistrado da Justiça do Trabalho, procurador do Ministério Público do Trabalho, fundador e acionista majoritário do Grupo Ser Educacional, presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras das Faculdades Isoladas e Integradas (Abrafi) e do Sindicato das Instituições Particulares de Ensino Superior do Estado de Pernambuco (SIESPE), vice-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), diretor geral da Faculdade Maurício de Nassau e reitor da UNINASSAU — Centro Universitário Maurício de Nassau, e em algumas outras funções que exerci, tive a oportunidade e a honra de discursar em dezenas de eventos, congressos, cursos, posses de magistrados, inaugurações, confraternizações, entregas de premiações, etc. Acredito que discursar é ter a oportunidade de falar ao mundo. E em cada um dos discursos que escrevi, pude transmitir, através das palavras, meus pensamentos, minha admiração, gratidão, incentivo, apoio e homenagem a várias pessoas. Em alguns discursos que fiz pude reviver a emoção de um momento único na vida de quem tem oportunidade de cursar o ensino superior: a colação de grau. Durante os discursos, me enxergava no brilho do olhar de cada um daqueles alunos que se formava e levava consigo a esperança de mudar o mundo. Foi graças a esses textos que, em 2013, lancei o livro Palavras em Pergaminho. Um livro que reúne todos os discursos que marcaram minha trajetória e que, sem dúvida, tiveram o poder de mudar as coisas, a vida das pessoas e as motivações, cada um daqueles textos mudou a minha história e a minha vida. Esta autobiografia passa a ser, então, meu 15º livro. E ainda pretendo escrever vários outros. Juiz versus procurador: uma decisão difícil Quando passei no concurso para juiz do Trabalho, eu morava em Olinda, no bairro de Jardim Atlântico, no meu primeiro apartamento próprio. Quando tomei posse do cargo, comecei a trabalhar na 14ª Vara, antiga Junta de Conciliação e Julgamento, de segunda a sexta no prédio do Cais do Apolo, onde as Varas eram instaladas. Trabalhava pela manhã, fazendo audiências — lembro- me que eram mais de dez por dia —, e no período da tarde e à noite fazia sentenças em casa. Eu tinha um prazer inexplicável em trabalhar como magistrado. Foram quase dois anos em que a rotina de trabalho não me cansava. Todos os dias da semana eu fazia audiências, atendia os advogados, as partes, despachava com os escreventes, etc. Se o sonho de empreender na área de educação não tivesse sido mais forte, provavelmente nunca teria deixado o cargo. Alguns podem até achar o contrário, mas naquela época, ser juiz era ser detentor de um status que outras carreiras jurídicas não possuíam. O juiz julga, decide a vida das pessoas, dos jurisdicionados. Os membros de outras carreiras apenas podem requerer ou opinar. Assim, a decisão final de largar a magistratura e seguir a carreira de procurador só aconteceu no limite do prazo. Lembro-me que deixei Sandra bastante nervosa no dia da posse. Como fui aprovado no concurso para procurador do Ministério Público do Trabalho, e o concurso é nacional, deveria tomar posse em Brasília. Na data marcada, viajei para a capital brasileira munido dos documentos necessários, mas ainda sem a decisão tomada. Sandra ficou no Recife, com uma procuração, minha carta de renúncia do cargo de juiz do Trabalho e com a responsabilidade de, assim que eu decidisse tomar posse como procurador, ir ao Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região e dar entrada no meu pedido de exoneração. A explicação para o nervosismo de Sandra era simples: legalmente, eu não poderia acumular os cargos públicos de juiz e procurador. Caso isso acontecesse, eu poderia ser processado, correndo o risco de perder ambos. Então, para ser procurador, eu não poderia ser juiz, ou seja, eu precisava pedir exoneração antes da posse, ou simultaneamente. Além disso, ela deveria esperar o meu contato para dar entrada na exoneração do meu cargo de juiz. Tudo isso para não correr o risco de eu me arrepender e desistir de tomar posse como procurador e ela já ter dado entrada no pedido de exoneração. Naquela tarde, Sandra estaria na faculdade, assistindo aulas. Celulares não eram tão comuns e outros alunos não viam com bons olhos os que possuíam telefones móveis. Por isso, Sandra deixava o aparelho dela sempre desligado durante as aulas. Mas naquele dia, ela precisava ficar com o telefone ligado e foi exatamente quando ela saiu da sala que o celular tocou, chamando a atenção dos demais alunos. Ao receber minha ligação, Sandra abandonou a sala de aula e foi para o Tribunal Regional do Trabalho, seguiu os trâmites necessários e então, eu não era mais juiz do Trabalho e poderia tomar posse como procurador do Ministério Público do Trabalho. Passei vinte anos no cargo de procurador. Durante todos os anos em que atuei como membro do Parquet, sempre cumpri com as minhas funções com total esmero e dedicação. Em 1998, com apenas cinco anos na função, fui promovido, por merecimento, pelo Excelentíssimo Senhor Procurador Geral da República Dr. Geraldo Brindeiro, a procurador Regional do Trabalho. Em 1999, fui nomeado, pelo Excelentíssimo Senhor Procurador Geral do Trabalho Dr. Guilherme Basso, procurador Regional Chefe da Procuradoria Regional do Trabalho da 6ª Região, em Pernambuco, permanecendo à frente do cargo até 2003. O trabalho na Procuradoria fluía sem maiores problemas. E eu estava feliz assim. Tinha a estabilidade de um cargo público na área do Direito, poderia continuar com meus planos de empreender na área de educação e não corria o risco de ser transferido para uma cidade do interior do estado, já que em Pernambuco só existia Procuradoria na capital, Recife. A Procuradoria faz parte de um capítulo especial da minha vida. Lá, ganhei muito mais que o exercício do Parquet em uma experiência de aprendizagem recíproca e colaborativa. Construí amizades que levarei para a vida toda. No entanto, é preciso ter coragem para fazer escolhas, e, como já disse, algumas escolhas implicam renúncias. A partir de 2008, o Grupo Ser Educacional entrou em um período de expansão contínua. Eu, como sócio majoritário, participava da tomada de decisões, mas o cargo de procurador me impedia de estar à frente do grupo. E este empecilho estava mexendo muito comigo. Eu queria gerir o grupo, participar ativamente da gestão. Queria ser mais que um conselheiro. Queria estar à frente. No início de 2013, após a Faculdade Maurício de Nassau se tornar UNINASSAU — Centro Universitário Maurício de Nassau, e obter a autorização do Ministério da Educação para ofertar o curso de Medicina, além dos primeiros ensaios para abertura de capital do grupo na Bolsa de Valores, decidi que era hora de me dedicar exclusivamente ao negócio. A decisão de pedir exoneração da Procuradoria do Trabalho estava tomada. No entanto, por motivos que até hoje ainda não são compreensíveis para mim, antes de dar entrada no processo da exoneração, fui surpreendido com a instauração perante o Conselho Nacional do Ministério Público (cnmp) de um inquérito administrativo por, supostamente, acumular o cargo de procurador com o exercício de atividade empresarial e sindical. Após 22 anos de carreira pública, sendo quase dois como juiz do Trabalho e outros vinte exercendo a função de procurador regional do Ministério Público do Trabalho, de dedicação e de amor à justiça, tive que comprovar ao Conselho Nacional do Ministério Público, com a ajuda de uma das mais inteligentes, competentes e diligentes advogadas do Brasil, dra. Luciana Browne, que eu estava protegido pela Constituição Federal (arts. 128 parágrafo 5º, II, “c”) e pela própria Lei Complementar do Ministério Público da União, Lei 75/93 (art. 237, III), que faculta a qualquer membro do Ministério Público ser sócio cotista ou acionista de qualquerempresa, já que a gerência da instituição sempre foi exercida pelo meu irmão Jânyo Janguiê Bezerra Diniz. Tive que comprovar também que sempre cumpri corretamente minhas funções, sem nunca ter faltado a uma sessão ou atrasado sequer um processo. E provei com certidões expedidas pelo próprio Ministério Público do Trabalho. Apesar de tudo, foi proferida uma decisão política no sentido de que o procurador geral da República deveria ajuizar uma ação para propor a pena de demissão do cargo, caso fosse comprovada a acumulação e a ação fosse julgada procedente. Após a decisão, conversei com a dra. Luciana Browne e com vários outros juristas brasileiros. Todos foram unânimes em afirmar que a ação, se ajuizada, teria pouca chance de ser julgada procedente, e que a decisão do cnmp seria facilmente derrubada no Supremo Tribunal Federal. Por outro lado, em pouco tempo eu poderia pedir aposentadoria, já que na época do fato eu já tinha comprovado por certidão quase trinta anos de serviço público, embora tivesse apenas 49 anos de idade. Resolvi ir pelo caminho mais difícil e mais doloroso. Para evitar prolongar as discussões e fornecer mais combustível para os invejosos, em 22 de agosto de 2013 pedi exoneração do cargo de procurador regional do Ministério Público do Trabalho, perdendo meus quase trinta anos de serviço público. Foi assim que, mais uma vez, o meu lado empreendedor se mostrou mais forte e a vontade de estar à frente do Grupo Ser Educacional me fez renunciar a um dos mais importantes cargos da república. Apesar da minha inegável tristeza por virar uma página deste importante capítulo da minha história, deixei a instituição com uma profunda gratidão por tudo o que ali passei, aprendi e exerci. O Ministério Público do Trabalho sempre estará em mim, pois muito me orgulha ter escrito parte da minha história como membro desta importante e respeitada instituição. CARTA DE AGRADECIMENTO AO MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO Em 22 de dezembro de 1993, depois de ser aprovado em um difícil concurso público de âmbito nacional, em que concorreram quase 9 mil candidatos, logrando êxito entre os primeiros colocados, tomei posse no honroso cargo de procurador do Trabalho do Ministério Público da União, lotado na Procuradoria Regional do Trabalho da 6ª Região. Antes disso, em 1992, também fui aprovado em concurso público para o cargo de juiz togado do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região, tendo exercido o cargo até dezembro de 1993, quando pedi exoneração para tomar posse como procurador do Trabalho. Em 20 de abril de 1998, fui promovido, por merecimento, pelo Excelentíssimo Senhor Procurador Geral da República, a procurador Regional do Trabalho. Em 1999, fui nomeado, pelo Excelentíssimo Senhor Procurador Geral do Trabalho, procurador Regional Chefe da Procuradoria Regional do Trabalho da 6ª Região, em Pernambuco, permanecendo à frente do cargo até 2003. Durante os vinte anos em que estive atuando como membro do Parquet, sempre cumpri com as minhas funções com esmero e dedicação. E, conforme atesta certidão expedida pelo MPT, anexa, nunca tive nenhuma falta, jamais atrasei qualquer processo e nunca faltei a nenhuma sessão. Registro também que, em conformidade com o art. 128 § 5º, II, “c” da Constituição Federal/88, bem como com o art. 237, III, da Lei Complementar 75/93 (Lei Orgânica do Ministério Público da União), que faculta aos membros do Ministério Publico participar de qualquer sociedade ou empresa como cotista ou acionista, nos últimos anos fui e continuo sendo acionista majoritário do Grupo Ser Educacional, mantenedor do Centro Universitário Maurício de Nassau — uninassau e das Faculdades Maurício de Nassau e Joaquim Nabuco, instituições educacionais que vêm, durante dez anos, graduando, qualificando milhares de brasileiros e contribuindo imensamente para o desenvolvimento socioeconômico do nosso país. Ademais, assevero também que, nos termos da lei, presido a Associação Brasileira das Faculdades Isoladas e Integradas — abrafi. Ontem, vinte anos depois de assumir o digno cargo de membro do Ministério Público do Trabalho, tomei uma das mais difíceis decisões de minha vida: pedi exoneração da função de procurador regional do Trabalho, que conquistei com muito estudo e dedicação. Protocolizei, em Brasília, o meu pedido de exoneração ao procurador geral do Trabalho. A partir de agora concentrarei todos os meus esforços na atividade educacional. A convite do conselho de administração do Grupo Ser Educacional, oportunamente assumirei a função de presidente do Conselho de administração do grupo, e também a de reitor do Centro Universitário Maurício de Nassau — uninassau. Um grupo que, oferecendo educação de qualidade para o povo brasileiro, não para de crescer, possuindo 23 unidades em 17 cidades de todos os estados do Nordeste e mais dois do Norte, contando com mais de 90 mil alunos e oferecendo emprego para 5.500 colaboradores, além de ser o quinto maior pagador de imposto (ISS) em Recife, Pernambuco. A vida é assim. É preciso ter coragem para fazer escolhas, e algumas escolhas implicam renúncias. Entretanto, com isso, abro espaço para a renovação do Parquet pelos mais jovens. Logo, apesar da minha inegável tristeza por virar uma página deste importante capítulo da minha história, deixo a instituição com uma profunda gratidão por tudo o que ali passei, aprendi e exerci. Meus sinceros agradecimentos a todos os colegas e servidores do Ministério Público da União e, em especial, aos do Ministério Público do Trabalho, a todos os juízes, desembargadores e servidores do Tribunal Regional do Trabalho da Sexta Região, bem como a toda sociedade pernambucana, que transformaram, durante estes vinte anos, o exercício do Parquet em uma experiência de aprendizagem recíproca e colaborativa. Finalizo reafirmando que deixo o Ministério Público do Trabalho, mas ele sempre estará em mim, pois muito me orgulha ter escrito parte da minha história como membro desta importante e respeitada instituição. Recife, 22 de agosto de 2013. Janguiê Diniz “Na tarde do dia 21 de agosto de 2013, acompanhei Janguiê à Diretoria de Recursos Humanos do Ministério Público do Trabalho, em Brasília. O objetivo era protocolarmos o seu pedido de exoneração ao cargo de procurador regional do Trabalho, da Procuradoria do Trabalho da 6ª Região. Dias de reflexão antecederam aquela tomada de decisão de Janguiê. Por ocasião desta experiência, percebi que Janguiê se recolhe, reflete, compartilha com algumas pessoas da sua confiança as suas inquietações, colhe opiniões diversas e recolhe-se novamente. Até que a decisão chega e desta ele geralmente não reflui e não sofre mais. É como se todo o sofrimento já tivesse sido experimentado durante o período de maturação, de reflexão. Na hora da decisão, ele está ali, frio, inabalável. Naquela tarde, no MPT, fomos recebidos pela diretora do setor, a dra. Izabel Cristina, que de tão surpreendida com a decisão dele quase se recusou a receber o requerimento, questionando por várias vezes: “Tem certeza”? A dra. Izabel, na tentativa de descontrair, ainda disse: “Dr. Janguiê, o senhor é um ‘cabeção’, referindo-se ao fato de ele ter sido aprovado em dois dos mais difíceis concursos públicos da área do Direito: juiz do Trabalho e procurador do Trabalho. Janguiê estava triste, muito triste, mas em nenhum momento desestruturou-se. Naquele momento, a sua fleuma surpreendeu-me.” Luciana Browne, advogada e amiga pessoal de Janguiê Diniz Alunos e parceiros de vida Ser docente da Universidade Federal de Pernambuco, na Faculdade de Direito do Recife, foi a realização de mais um sonho. Enxerguei em vários alunos os mesmo sonhos que eu tinha quando ocupava uma daquelas cadeiras. Comecei ensinando na Faculdade de Direito da ufpe como professor assistente, pois ainda era aluno do mestrado. Na mesma época, já era professor efetivo de Prática Trabalhista da Faculdade de Direito de Olinda. Posteriormente, fiz o concurso para professor efetivo, concorrendo com cerca de dez ilustres participantese tendo sido aprovado em segundo lugar, tomando posse em 1994. Na Faculdade de Direito da ufpe, ministrei as cadeiras de Processo Civil, Processo Trabalhista e Prática Trabalhista durante quase vinte anos. Sempre gostei muito de ensinar. É que para ensinar você precisa estudar, e quando se estuda você angaria conhecimento, o capital que considero mais importante na sociedade em que vivemos. Além do dividendo do conhecimento adquirido, o relacionamento com os alunos enriquece muito o professor. Ensinar é também aprender. Principalmente quando você ensina no grande palco dos debates jurídicos que é a Faculdade de Direito do Recife da ufpe, onde também tive a honra de cursar o mestrado e doutorado. As primeiras faculdades do Brasil foram a velha Faculdade de Direito do Recife e a Faculdade do Largo de São Francisco; ambas foram criadas no mesmo decreto pelo imperador Dom Pedro I, em 11 de agosto de 1827. Pernambuco representava as tradições liberais, o intenso amor da pátria, enquanto São Paulo representava o espírito de organização política e da atividade econômica. Pela Faculdade de Direito do Recife da ufpe passaram grandes nomes da política e do direito no Brasil como José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Clovis Bevilácqua, Pontes de Miranda, Silvio Romero, Tobias Barreto, Pinto Ferreira, dentre outros. Entretanto, em 2010, com o andamento que o Grupo Ser Educacional tomava, tornou-se impossível me dedicar como devia e queria aos alunos da Faculdade de Direito do Recife e pedi exoneração do honroso cargo de professor. Mas, em vez de contar sobre este episódio da minha vida, deixarei que um dos meus alunos que se tornou um grande amigo e parceiro, André Emmanuel Batista Barreto Campello, hoje um renomado procurador da Fazenda Nacional, faça um relato daquela época. “Fui aluno do Professor Janguiê na Faculdade de Direito do Recife. Um dos melhores professores que já tive na vida. A aula dele era espetacular! Só quem viu a sua trajetória profissional, sua dedicação ao trabalho e ao seu sonho de empreender em educação compreende o quão difícil e árduo foi tal caminho. Depois comecei a me vincular ao Bureau Jurídico, a partir de 1997, e fui contratado em 1998. Trabalhei na instituição até agosto de 2001. Muito me orgulho de ter compartilhado de um pequeno trecho da trajetória profissional de Janguiê. Na época, eu tinha entre 21 e 24 anos. Fui coordenador de cursos jurídicos, editor do Jornal do Direito, colaborei na estruturação da Escola Jurídica do Recife (ejur), na coordenação administrativa de vários Congressos Jurídicos, e também trabalhei também na implantação das franquias do bj por outros estados. Se pudesse utilizar um conceito histórico, muito empregado pelo historiador inglês Arnold Toynbee, diria que vivi em uma fase heroica do Bureau Jurídico, pois estávamos na época de desbravamento de inúmeras fronteiras. Curiosamente, no período em que trabalhei no Bureau Jurídico começaram a se delinear os caminhos para o futuro da empresa: a transformação em uma instituição de ensino superior. Foi uma honra muito grande ter podido aprender e ter trabalhado com o estimado professor na busca de tantos objetivos: os cursos jurídicos, a promoção dos congressos, a ejur e a implantação das franquias. Confesso que, sem dúvida, o trabalho era extenuante. Alguns dias chegávamos às 8h00 e saíamos às 22h00 e, muitas vezes, a tensão era enorme, mas era, sobretudo, muito empolgante. Havia muita motivação para fazer tudo acontecer de forma perfeita. Era ótimo trabalhar com a equipe do Bureau, mesmo quando havia divergências comuns a qualquer ambiente de trabalho. Até hoje me pergunto de onde vinha tamanha empolgação… Creio que era uma conjugação de fatores: a remuneração (que eu considerava satisfatória) e, mais ainda, sentir-se parte de uma equipe muito competente que percebia que participava de algo que estava se tornando gigante! A sensação era ótima, sentíamos que o infinito era possível, bastava apenas o nosso trabalho e a nossa dedicação! E essa sensação era ainda mais sentida e transmitida pelo Janguiê. Curioso que as pessoas tinham muito medo da sua liderança, de levar um “esporro” do Janguiê. No entanto, apesar desse ar intimidador, que eu credito ao porte corporal alto e forte, quando trabalhava lá, sempre fui tratado de forma muito profissional e educada e não compartilhei desse suposto “medo”. Conhecendo o perfil de Janguiê desde a Faculdade de Direito e sabendo que ele sempre foi um professor exigente com seus alunos, o único receio que eu tinha enquanto funcionário do Bureau Jurídico era de desapontá-lo pelo trabalho que realizava, então, por esta razão tentava fazer tudo de forma o mais perfeita possível, inclusive tentando me antecipar aos problemas. As experiências profissionais no Bureau Jurídico, bem como os ensinamentos passados pelo Janguiê em sala de aula, sempre me acompanharam. Hoje, compartilho muitos dos seus ensinamentos com alunos, ex-alunos e estagiários. Por fim, uma curiosidade anedótica: O professor Janguiê tem vários talentos, mas havia um deles que me impressionava: geralmente, quase todos os dias, ele almoçava no Bureau Jurídico, degustando o almoço que dona Lúcia preparava na cantina da escola. Ele vinha da Procuradoria Regional do Trabalho — 6ª Região e almoçava conosco lá, nas mesas de plástico brancas que ficavam no saguão do refeitório, na parte interna do Bureau. Ele fazia tal refeição na empresa, porque, no início da tarde, sempre tinha reuniões com a equipe. Apesar de morar bem perto da empresa — no bairro da Torre —, eu também almoçava lá, comendo o almoço de dona Lúcia, pois, como não tinha carro, ficava complicado voltar sob o sol escaldante de Recife, para a empresa, às 13h00. Pois bem, como havia dito, o professor Janguiê vinha da prt, portanto, estava todo engravatado, com paletó, mas mesmo assim, sempre após o almoço, como sobremesa, ele conseguia chupar manga espada sem macular sua roupa, sua camisa social! Era incrível! Um talento ímpar! Note que não se tratava de apenas uma manga, eram várias! Creio que manga era uma das frutas prediletas dele! E essa habilidade ainda é motivo para muitas gargalhadas em nossas conversas!” André Emmanuel Batista Barreto Campello, Procurador da Fazenda Nacional e ex-aluno e funcionário CARTA DE AGRADECIMENTO À FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE Em 1983, no imponente prédio da Faculdade de Direito do Recife, finquei a pedra fundamental para a construção de um sonho, quando me matriculei no curso jurídico da respeitada instituição. Por aqueles corredores tracei minha trajetória profissional, ao concluir minha graduação, mestrado e doutorado e, em 1990, ingressar na docência através de concurso público. Hoje, 27 anos depois, tomo uma das mais difíceis decisões de minha vida: deixar a Casa de Tobias. Neste dia 5 de março de 2010 apresentei meu pedido de exoneração do cargo de professor do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco ao Magnífico Reitor Amaro Lins. Durante um período, através de liminar confirmada por sentença da Justiça Federal, consegui a licença sem remuneração, na esperança de reorganizar minha agenda para conciliar as responsabilidades empresariais com o ofício de professor. Mas optei pelo caminho do empreendedorismo e as escolhas implicam renúncias. Não pretendo mais manter minha função por meio da judicialização. Com isso, abro espaço para a renovação da banca pelos mais jovens. Apesar da minha inegável tristeza por virar a página deste importante capítulo da minha história, deixo a instituição com uma profunda gratidão por tudo o que ali conquistei, e futuramente pretendo voltar, por meio de um novo concurso público, para poder retribuir a toda a bagagem intelectual que a Casa me proporcionou. Meus agradecimentos aos professores e amigos João Maurício Adeodato, Ivanildo Figueiredo, George Browne, Alexandre Pimentel, Clóvis Correia, Sérgio Torres, Zélio Furtado, Raimundo Juliano e Ivo Dantas, aos reitores Efrém Maranhão, Mozart Neves e Amaro Lins, àsfuncionárias Valéria, Ricarda, Josi e Ana Paula, e especialmente a todos os meus ex-alunos que transformaram, durante estes vinte anos, o exercício da docência em uma experiência de aprendizagem recíproca e colaborativa. Hoje eu deixo a Faculdade, mas ela sempre estará em mim, com seu fervor cultural, sua capacidade de germinar ideias, sua agitação criadora. Muito me orgulho de ser filho deste importante marco intelectual da história de nosso Brasil. Janguiê Diniz Mestre e doutor em Direito Além das graduações em Direito, pela Universidade Federal de Pernambuco (ufpe), e de Letras, pela Universidade Católica de Pernambuco (unicap), fiz pós-graduações em Direito do Trabalho pela unicap; em Direito Coletivo, pela oit em Turim, na Itália; e especialização em Direito Processual Trabalhista, pela Escola da Magistratura de Pernambuco (esmape); mestrado e doutorado pela ufpe. Nenhum desses cursos foi feito com intenção de alavancar o meu currículo ou com o intuito de me tornar um professor. A docência surgiu naturalmente para mim e acredito que desempenhei um bom papel como tal. No entanto, quando comecei a dar aulas na Faculdade de Direito de Olinda e na Universidade Federal de Pernambuco, eu ainda não possuía os cursos de mestrado e doutorado. Na época era possível, mesmo sem tais cursos, fazer o concurso para professor efetivo da ufpe. Antes de falar sobre os dois cursos, preciso frisar que acredito que todo profissional de qualquer área do conhecimento deve fazer mestrado e doutorado. Além disso, ganha-se muito mais respeito quando se tem o título de doutor. Logo, como eu já era docente em universidades, fiz os cursos não apenas para angariar conhecimento, mas, também, para ser respeitado como acadêmico. De fato, após o término da faculdade, alguns formandos acreditam que já têm conhecimento suficiente. Entretanto, aqueles que acreditam na educação como diferencial para a vida geralmente sentem um vazio intelectual, uma sensação de que nada foi absorvido e até uma indagação sobre como o diploma foi conquistado. Ir além do diploma universitário é essencial, principalmente para o desenvolvimento e inserção do graduado no mercado de trabalho. Acredito que cursar mestrado e doutorado é ter consciência da necessidade de constante atualização do conhecimento da área em que se é profissional, bem como da troca de experiências entre profissionais para a elaboração de estudos. Cursar pós-graduação é imprescindível para aqueles que desejam uma atualização profissional, para promover discussões ou se aprofundar em determinado tema. Mas o mestrado e o doutorado vão além disto. Fazer esses cursos significa se tornar um cientista ou pesquisador e um profundo conhecedor de um tema restrito. Era isso que eu queria, ser um profundo conhecedor de certas áreas do Direito Processual Trabalhista. Iniciei o mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco em 1994. O curso deveria durar dois anos, mas as minhas atividades diárias na Procuradoria e como professor no Bureau Jurídico e na ufpe não me permitiram uma dedicação exclusiva ao curso e acabei levando quatro anos para concluí-lo, colando grau como mestre em dezembro de 1998. Foi no mestrado que me aproximei ainda mais do professor João Maurício Adeodato, que conheci na graduação e viria a ser orientador da minha tese. Foi ali que estreitamos nossa parceria, que perdura até hoje. João Maurício foi quem elaborou o projeto para a implantação do curso de Direito da Faculdade Maurício de Nassau e é coordenador e docente na instituição. Nossa parceria ultrapassou os limites da universidade e ele se tornou um grande amigo e conselheiro. Além dele, um outro professor marcou o curso. Lembro-me bem do professor Cláudio Souto, que uma vez me disse: “Meu filho, toda linha escrita tem o seu valor. Nunca deixe de mostrar ao mundo os seus escritos. Nunca deixe morrer o seu pensamento traduzido em escritos”. Esta metáfora marcou minha vida e me fez investir em escrever livros na área do Direito. Voltar à sala de aula como aluno não foi difícil. Claro que a turma de mestrado geralmente é composta por alunos mais velhos e com mais experiência de mercado, o que torna o curso ainda mais interessante. Minha dissertação de mestrado teve como tema A Ação Rescisória dos Julgados, posteriormente publicada pela Editora LTR com o prefácio da grande jurista Ada Pellegrini Grinover. Não tive problemas em defendê-la por já ser profundo detentor do conhecimento sobre o assunto, já que sempre fui apaixonado pelo tema. Na banca de avaliação estavam grandes mestres do direito como Ivo Dantas, Paulo Lobo Saraiva e Geraldo Brindeiro, que, em consenso, me aprovaram com nota 10. Já o doutorado me tomou um pouco mais de tempo. Em tempo normal, ele deveria durar quatro anos, mas levei seis anos para finalizar, iniciando em 1999 e colando grau como doutor em julho de 2004. Naquela época, eu já havia iniciado o Bureau Jurídico e posteriormente a Faculdade Maurício de Nassau. Isso, somado ao trabalho na Procuradoria e às outras atividades, me proporcionava uma frenética correria diária. Para minha sorte, no início dos anos 2000, o aluno de doutorado na ufpe podia pedir prorrogação de até seis anos para conclusão do curso. Se fosse hoje, com certeza eu teria sido jubilado na universidade, embora, mesmo tendo pedido prorrogação, eu tenha defendido a tese dois dias antes do prazo para o jubilamento. Para o doutorado, ainda que nunca tenha escondido que a área processual trabalhista me encantava, escolhi um tema de Direito Processual comum: a arbitragem. Ou mais especificamente: “a atuação do Ministério Público do Trabalho como árbitro nos dissídios individuais de competência da Justiça do Trabalho”. Desta vez, com o apoio do professor Raimundo Juliano como meu orientador, discursei sobre a possibilidade de membros do Ministério Público do Trabalho atuarem como árbitros e julgadores, julgando processos e dizendo o direito. E na banca de avaliação estavam quatro grandes nomes do direito: Lucio Grassi, Alexandre da Maia, Paulo Lobo Saraiva e Zélio Furtado, mais o professor Francisco Queiroz Cavalcante. Fui aprovado por maioria por distinção. Tornar-me mestre e doutor na área do Direito era mais uma conquista de vida. Foi mais um objetivo conquistado e, mais uma vez, eu via que a educação mudava a minha vida. Ser um cientista ou pesquisador em determinada área é um diferencial na atual sociedade em que vivemos, a sociedade do conhecimento. “Eu era um jovem professor da Faculdade de Direito do Recife quando conheci Janguiê Diniz, um aluno poucos anos mais novo do que eu. Ele diferia de seus colegas nas classes, tinha um olhar muito atento e uma conversa inteligente, um rapaz que prometia sucesso. Conforme o conheci melhor, constatei seu espírito empreendedor: criou uma empresa de cobranças que logo fez sucesso. Ao contrário de muitos outros alunos que comandavam negócios ou trabalhavam em empresas, entretanto, ele não descuidava dos estudos, estava sempre atualizado nas matérias. Fiz amizade com Janguiê desde os tempos em que ele foi meu aluno. Logo ele já estava formado, dava aulas e era juiz do Trabalho. Depois Janguiê se tornou procurador do Trabalho, continuava professor e o Bureau Jurídico fazia sucesso. Podia ter parado por aí, mas ele sonhava mais alto. Queria fazer mais na área da educação. A ideia era criar uma universidade que podia começar como uma faculdade em crescente expansão, procurando reunir os melhores professores. Acompanhei sua luta, seus percalços, suas voltas por cima. No início, a parceria com a Universidade Salgado de Oliveira, do Rio de Janeiro, lhe pareceu conveniente. Janguiê entrou com o trabalho de estruturação dos cursos de Direito em Pernambuco. O professor Janguiê animava colegas e alunos, promovia encontros. Mas o rompimento foi inevitável. Fui também testemunha ocular de sua capacidade de recuperação: em pouco tempo fundou a própria faculdade, a Maurício de Nassau, em instalações simples, tudo muito apertado. Fui o primeiro professor e Janguiê meencarregou de fazer o projeto do curso de Direito, o primeiro do grupo. Estabeleci as disciplinas, a carga horária, o programa de ensino, cuidei de muitos detalhes. Acompanhei também a comissão do Ministério da Educação e Cultura no reconhecimento do curso. A convite de Janguiê, assumi o cargo de coordenador dos cursos. Vivo viajando para dar aulas nas unidades da Faculdade Maurício de Nassau. Pela qualidade do ensino de seus muitos e muitos cursos hoje em dia, tenho certeza de que o destino da uninassau é se espalhar por todo o país. É uma confirmação de que é possível realizar um sonho e comprova o acerto da impressão que tive quando conheci o Janguiê e ele era meu aluno em sala de aula: uma pessoa diferente das outras, um fazedor.” João Maurício Adeodato, ex-professor e amigo pessoal PARTE 3 O sonho de criar uma instituição de ensino superior Em meados de 1999, enquanto ainda coordenávamos os cursos do Bureau Jurídico e do bj Colégio e Curso, recebi uma proposta de participar de uma sociedade com uma instituição particular que estava em plena expansão no Brasil e que se mostrou interessada pelos métodos que utilizávamos tanto no Bureau Jurídico quanto no bj. A Universidade Salgado de Oliveira (Universo) havia sido criada em 1971, em São Gonçalo (RJ), a partir de uma escola particular de primeiro e segundo graus surgida em 1959, e foi reconhecida pelo Ministério da Educação em 1993. Era uma instituição conceituada e de boa qualidade que ainda não tinha representação em Pernambuco. A proposta da Universo poderia viabilizar o grande campus universitário que eu imaginava para o Recife e resolvi aceitar, somando esforços como um parceiro local. Forças somadas, no ano 2000 foi inaugurado no Recife o campus da Universidade Salgado de Oliveira, e fui seu primeiro reitor. Contratamos bons professores e isso, aliado à excelente reputação da Universo pelo país e às metodologias de ensino fizeram com que os alunos buscassem os cursos autorizados na instituição. Infelizmente, nem toda sociedade dá certo. Mais uma vez, digo que se formos comparar, eu diria que uma sociedade é como um casamento: ninguém deveria ficar sócio de alguém com quem não tenha convivido por pelo menos um ano. Este é o período mínimo para saber se alguém é compatível com você. E como pessoas diferentes pensam diferentes, dois anos depois deixei a parceria com a instituição. Contudo, eu continuava sonhando em empreender no ramo educacional e construir uma grande universidade, e tinha certeza que iria realizar meu sonho. Ao acompanhar os caminhos da educação no país, cada dia eu entendia esta como sendo a única forma de o Brasil crescer, se desenvolver e mudar. Mas a realidade era diferente. O número de instituições de ensino superior era baixo e isso tornava os vestibulares cada vez mais disputados. Nas seleções para as universidades públicas as vagas eram preenchidas, em sua maioria, pelos melhores alunos das escolas particulares da cidade. A demanda continuava muito grande e a oferta de instituições era insuficiente. Era preciso qualificar a mão de obra de uma forma voltada para o mercado. Não digo deixar as teorias de lado, mas aliar o conceito teórico à prática, de forma que os estudantes saíssem das faculdades de fato preparados para o mercado de trabalho. Esse seria um modelo de ensino superior competitivo e que elevaria a cultura da população. O Bureau Jurídico e o bj Colégio e Curso continuavam crescendo e se expandindo. Em 2000, havíamos inaugurado a franquia do Bureau Jurídico de Goiânia, em Goiás. Eu sabia que a criação de uma empresa que se mostrasse sólida ao longo dos anos seria não apenas uma fonte de renda, mas também a mudança de vida e destino de muitas pessoas. Eu tinha planos. E, mais uma vez, precisava de pessoas de confiança para me ajudar. Meus irmãos já estavam formados, cada um em uma área diferente. Eles seriam as pessoas ideais para me ajudar. João, assim como eu, havia se formado em Direito. Eu pela ufpe e ele pela Universidade Católica. Jânyo tornou-se engenheiro mecânico pela ufpe, tinha o dom da organização e se mostrava um grande gestor em uma indústria, a Companhia Industrial de Vidro (civ). Joaldo se formou em Sistema de Informação pela Universo e se tornou um grande conhecedor da área. “Nessa trajetória toda, a coragem sempre marcou a atuação de meu irmão, capaz de enfrentar interesses contrários com altivez e determinação. Considero-o um exemplo a ser seguido.” João Janguiê, irmã A abrafi e a abmes Quando fundei a Faculdade Maurício de Nassau, nós, assim como outras faculdades, éramos uma instituição pequena. Na época, a entidade de classe mais representativa que defendia os interesses das instituições de ensino superior privado era a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (abmes), da qual sou vice-presidente há dois mandatos. A abmes nasceu do sonho de um grupo de mantenedores de instituições privadas que no início da década de 1980 percorreu todo o país com o objetivo de propor a criação de uma associação para representar nacionalmente a categoria e lutar pelos interesses legítimos das instituições de ensino superior particulares. Na época, ainda existia bastante discriminação com as instituições de ensino privado, a ponto de os mantenedores mais velhos contarem que antes da criação da abmes, não era raro os mantenedores passarem horas e horas nas antessalas das secretarias no Ministério da Educação para tentar ser atendidos e dar entrada em processos de autorização e reconhecimento de cursos. A abmes passou a articular e representar os interesses do setor, criar parcerias e promover seminários para disseminar os assuntos de interesse das instituições de ensino superior privadas. A entidade sempre teve um espírito conciliador. Mesmo quando era necessário judicializar algumas questões para defender o setor, ela preferia tentar resolver na forma da conciliação. Mas nem tudo podia ser resolvido sem uma discussão jurídica perante os Tribunais. No entanto, a abmes, até a fundação da abrafi, não tinha um DNA beligerante e nunca tinha ajuizado uma ação contra o mec. Era necessário criar uma associação com esse perfil, sem desprezar, também, o espírito conciliador. Sempre fui muito inquieto, sempre queria fazer com que as coisas acontecessem rápido. Nunca me acomodei diante das dificuldades e mudanças que o sistema de educação superior vinha impondo durante os últimos anos. Assim, em meados de 2005, junto com um grupo de mantenedores de diversas instituições de ensino superior, que mensalmente compareciam às reuniões da abmes e do Conselho Nacional de Educação, que se sentiam desapontados com a falta de atenção e o menosprezo com os interesses das instituições, fundei a Associação Brasileira das Mantenedoras das Faculdades Isoladas e Integradas (abrafi). Diante dos outros mantenedores, eu era um mantenedor bastante jovem, com uma visão empreendedora e estava assumindo a presidência de uma associação que visava defender, inclusive judicialmente, os interesses das faculdades pequenas. Tratava-se de um segmento até então com pouca representatividade. Eu não tinha medo de arriscar e de buscar novos desafios. Mesmo a abrafi representando o segmento da educação superior com maior número de instituições — as faculdades —, nosso número de associados nem sempre foi grande. Mas isso não fez com que eu deixasse de investir e de acreditar na associação. O trabalho na presidência da abrafi sempre foi bastante intenso. Sempre lutei em prol dos interesses das faculdades isoladas, e por via de consequência, em prol da educação superior do Brasil. É uma luta constante, árdua e extenuante, em prol da coletividade das instituições de ensino superior. Sempre fiz questão de separar o trabalho da abrafi, que fazia e faço junto ao Ministério da Educação, ao Conselho Nacional de Educação e diversos outros órgãos públicos, do trabalho que faço pessoalmente em prol do Grupo Ser Educacional. Por ter formação jurídica e, modéstia à parte, em virtude do conhecimento acumuladodos direitos e deveres constitucionais, em decorrência dos cargos de magistrado, membro do Ministério Público, além do mestrado e doutorado em Direito e de ter sido professor da ufpe, nunca tive medo de iniciar embates jurídicos contra a União, o mec ou qualquer outro órgão público, no intuito de evitar ilegalidades e até arbitrariedades perpetradas contra as faculdades privadas. Em alguns momentos fui muito enfático nas lides contra o mec ao defender os interesses das faculdades, sem medo de colocar meu nome e de me posicionar contrário a algumas imposições do Ministério da Educação. Mas, nunca antes de ter tentado, por via da negociação e da conciliação, chegar a um consenso. Hoje, continuo presidindo a abrafi com este mesmo espírito, sempre com o pensamento em algo grandioso: a expansão da educação superior brasileira de qualidade, para que daqui a alguns anos eu ainda possa ler estatísticas que mostrem que todo brasileiro tem a oportunidade de conquistar um diploma de curso superior. Como a educação é a base de tudo, penso que quando chegar a esse patamar o Brasil deixará de ser um país do futuro para ser um país do presente, respeitado em todo o planeta. “A travessia de José Janguiê Bezerra Diniz ganhou espaço na grande mídia do país e seu nome foi parar na seleta lista de bilionários brasileiros da revista Forbes. A manchete quase sempre é a mesma: “Ex-engraxate brasileiro é o novo bilionário da Forbes”. Parece-me natural que tal aconteça e que os dois extremos contidos na expressão usada sejam recorrentes para descrever aquele que desde tenra idade trabalhou duramente para atingir o “Olimpo” — não o etéreo, mas o real — nos seus projetos de vida. Em todos os setores encontraremos exemplos semelhantes. No caso de Janguiê, porém, alguns detalhes também recorrentes em seus inúmeros depoimentos me chamam a atenção. A figura do pai, o João, desponta como definitiva ao cravar na mente do menino de apenas oito anos que todo trabalho é digno e que mesmo na sua simplicidade qualifica o ser humano; que a educação é fundamental para a pessoa e para o país, e que viver é lutar incessantemente. Mesmo sendo “homem de poucas letras”, o pai transformou com os seus ensinamentos o menino em “caminhante”, como se inspirado fosse pelo belíssimo poema “Caminante” do espanhol Antonio Machado: Caminhante, são tuas pegadas / o caminho e nada mais; / Caminhante, não há caminho, /o caminho se faz ao andar. / Ao andar se faz o caminho, / e ao olhar pra trás se vê a vereda que nunca voltará a pisar. / Caminhante não há caminho sem rastro no mar. E Janguiê caminha em busca de seus sonhos. Vai, no momento certo, ao encontro do “porto seguro” do tio — um segundo pai — com a sua pequena/grande bagagem. Sua estrela guia e seu talento nato o conduziram também e daí em diante ninguém mais o segurou. Há uma farta documentação conhecida de todos sobre a sua travessia que ainda está longe de terminar. Com base na sua estrutura familiar — o seu “berço” —, que ele irá reeditar na construção de sua própria grande família, situa-se no centro desse universo um homem generoso, inteligente, digno, ético, determinado, inquieto, empreendedor e “com grande gosto pelo risco” — como dizia o grande mestre Milton Santos. Com formação acadêmica sólida, autor de diversos livros, com vasta experiência na área do Direito e da docência, comanda o seu grupo empresarial — o “Ser Educacional” — com pulso forte. Janguiê acredita nas possibilidades da educação como o melhor caminho para transformar o nosso país numa grande nação. Com o seu trabalho, ele se tornou um dos mais importantes protagonistas da história contemporânea da educação brasileira. O “nosso caminhante” e homenageado pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior com o “Prêmio Milton Santos de Educação Superior” — cuja travessia começa em Santana dos Garrotes (PB), passa por Naviraí (MS) e Pimenta Bueno (RO), deságua e se transforma num rio caudaloso em Recife (PE) — carrega com ele as marcas de sua primeira profissão: os famosos e confortáveis shinning shoes. “Caminhante, não há caminho, /o caminho se faz ao andar…” Cecília Horta Professora aposentada da Universidade Federal de Juiz de Fora (u�f)/MG e diretora acadêmica da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (abmes). “Dr. Janguiê sempre foi um profissional que, através de sua audácia e empreendedorismo, conseguiu se tornar uma figura emblemática dentro do segmento da Educação Superior Privada, prova essa temos ao conhecer seu histórico de vida. Com certeza e sempre demonstrando sua paixão sobre tudo o que faz, ele será um nome que ainda aparecerá muito dentro da história da Educação Brasileira.” Bernadete Maria de Lima de Paula, Socióloga — Secretária Executiva — abrafi A marca Ser Educacional e o crescimento da Maurício de Nassau Com a abertura da Faculdade Maurício de Nassau em 2003, passei a manter três empresas na área de educação: o Bureau Jurídico, o Colégio bj e a faculdade. Então, decidimos criar uma marca que agregasse todas as outras. Surgiu assim o Grupo Ser Educacional, que hoje é o mantenedor de todas as unidades da Faculdade Maurício de Nassau e Joaquim Nabuco. 2003 - Inauguração da Faculdade Mauricio de Nassau, no Recife A escolha do nome e da criação da marca para o Grupo veio com o auxílio de uma empresa especializada. O verbo “ser” designa existência, instiga aspiração, estar e pertencer. O “ser” de indivíduo, de ser humano — única criatura dotada de inteligência reflexiva e inventiva. Ser que cria, produz, empreende, gera riqueza, ensina, aprende, compartilha e se comunica. Já a marca foi inspirada na ilustração do homem vitruviano de Leonardo Da Vinci, sintetizado na estrela de cinco pontas, as quais lembram os cinco sentidos que estabelecem a comunicação da alma com o mundo material: tato, audição, visão, olfato e paladar. Para a escolha das cores, o azul assinala a entrada nos domínios mais profundos do espírito e uma das suas qualidades mais sutis é a aspiração. Essa cor faz parte do espectro frio e, por sua quietude e confiança, promove a devoção e a fé. O azul é uma cor associada ao dever, à beleza e à habilidade. A serenidade dessa cor traz consigo paz, confiança e sentimentos agradavelmente relaxantes. Sua fluidez e força serena são traços atraentes, que provocam admiração por parte das outras pessoas. Em resumo, tudo que o Grupo Ser Educacional pretendia ser: forte, confiável, cumpridor de seu dever com a sociedade e admirado pelo trabalho que realiza. Junto com o Grupo Ser Educacional surgiu também o Instituto Ser Educacional. Mas falarei sobre ele em um episódio mais à frente. Ao elaborar a missão e os valores do grupo, queríamos que eles englobassem mais do que os valores da faculdade — eles precisavam representar a ideia de um grupo com a intenção de crescer e investir em educação como forma de mudar a sociedade e, consequentemente, o país. Assim, determinamos que nossa visão seria figurar entre os cinco maiores grupos educacionais do país, reconhecido por prestar serviços de qualidade, com resultados sustentáveis e satisfação dos alunos, colaboradores, acionistas, das organizações e comunidades. Tudo isso aliado à missão de produzirmos, proporcionarmos e socializarmos conhecimento, formando profissionais e seres humanos éticos, íntegros e competentes, com melhores condições de empregabilidade. Desde seu surgimento, tanto o Grupo Ser Educacional quanto a Faculdade Maurício de Nassau prezam pela qualidade, estimulam a criatividade, o respeito, a honestidade, a austeridade e a diversidade. A meta inicial da Faculdade Maurício de Nassau era começar ofertando os cursos tradicionais, aqueles que todo mundo conhecia e que atraíam mais alunos. Foi por isso que, apesar de termos elaborado cerca de vinte projetos de cursos para solicitar autorização ao mec, demos entrada em apenas seis. Mas logo no segundo semestre de funcionamento, fomos dando entrada nas solicitações. Eu sabia que era importante criar mais cursos, abastecer a sociedadede novas oportunidades para elevar o nível geral da cultura local, sem, entretanto, descaracterizá-la. Então, estávamos sempre pesquisando no mercado quais as áreas que precisavam de profissionais capacitados e buscávamos oferecer aqueles cursos. Gradativamente fomos aumentando o leque de ofertas da faculdade e os cursos oferecidos iam se destacando por aplicar métodos em que o enfoque das matérias era mais prático, visando ao aprendizado, e por ter professores didáticos e bem selecionados. Toda a dinâmica de ensino da Maurício de Nassau foi desenvolvida por bem-sucedidos e muito exigidos professores de cursinhos e de outras faculdades que eu trouxe para trabalhar comigo, e não demorou para que a nossa estratégia de ensino contrastasse com a inércia sisuda e acomodada das velhas academias. Como eu era procurador do Ministério Público do Trabalho, a legislação me impedia de gerir qualquer empresa, dessa forma, eu atuava como conselheiro do grupo, acompanhando todo o desenvolvimento e deixando a administração e presidência a cargo do meu irmão Jânyo Diniz. Apesar disso, fazia questão de estar presente em todas as tomadas de decisões, congressos e eventos. Naqueles anos, o Bureau Jurídico também era famoso por produzir grandes congressos. Em alguns eventos chegamos a reunir cerca de 5 mil pessoas, e aquela também se tornou uma forma de fortalecer a imagem da faculdade. Os congressos passaram a ser uma realização do Bureau Jurídico e da Faculdade Maurício de Nassau. No ano seguinte, em 2004, tínhamos a Faculdade Maurício de Nassau e o Bureau Jurídico funcionando no mesmo local. Mas a verdade é que a Nassau começou a crescer rapidamente e a cada semestre era preciso mais e mais salas para dar suporte aos novos cursos e à demanda de alunos. No mesmo ano, surgiu a oportunidade de adquirir um terreno na mesma rua em que funcionava a faculdade e minha visão de empreendedor me fez realizar a compra e construir um novo prédio, passando então a denominar o primeiro bloco de A e o segundo de B. Em 2005, fizemos a transferência da faculdade para o Bloco B. O prédio possui cinco andares, sendo uma das maiores estruturas arquitetônicas da instituição, cinco laboratórios de informática espalhados nos andares da estrutura, além de outros oito laboratórios e estúdios vinculados a cursos, duas cantinas, secretaria e a biblioteca da instituição — que posteriormente seria transferida para um prédio individual. Conseguimos dar suporte a nossa demanda por mais um semestre, mas no semestre seguinte precisamos utilizar novamente as salas do Bloco A para a faculdade. Era hora de pensar em outra estratégia. Decidi retirar o Colégio bj do bloco A. De fato, me incomodava aquela mistura de alunos do colégio saindo no final da tarde e os alunos da faculdade chegando no início da noite. Comecei a buscar um espaço para alugar e remanejar o colégio e acabei encontrando um local na Rua Benfica, onde o colégio funciona até hoje. Contudo, apesar da retirada do Colégio bj, a cada semestre precisávamos de mais e mais salas, e nesse processo a faculdade acabou “engolindo” o Bureau Jurídico. Se pudesse mostrar em proporções, eu diria que a cada semestre eu tinha duas turmas de alunos no Bureau para vinte turmas que abriam na Maurício de Nassau. Acabei decidindo fechar a estrutura física do Bureau — e recentemente retomei o projeto através de aulas online com o nome de Bureau de Cursos e Bureau Jurídico. Eu era grato a tudo que o Bureau me proporcionou e foi ele que me levou a pensar e construir a Faculdade Maurício de Nassau, mas o meu sonho era o ensino superior e eu não poderia me privar ou desistir disso. Os semestres continuavam e a demanda apenas aumentava. Já precisávamos de mais estrutura. Em 2006, comecei a negociar com a Fábrica e Fundição Capunga, uma indústria especialista na produção de estruturas em aço e metal, que funcionava ao lado da faculdade, na Rua Joaquim Nabuco, 747. Após meses negociando com dezesseis herdeiros, realizei a compra do imóvel e transformamos toda a estrutura em salas de aula. No projeto, a antiga Fundição Capunga teve a fachada totalmente restaurada para receber as instalações da Faculdade e passou a ser chamado de Bloco Capunga ou, por coincidência, Bloco C. Abrimos o acesso dele para o Bloco A para que os alunos pudessem usufruir de ambas as estruturas no que diz respeito a laboratórios e secretaria, além da própria cantina que foi construída no local. O Bloco Capunga também recebeu o principal auditório da instituição, que foi construído em 2009 e recebeu o nome de Auditório Capiba, em homenagem a Lourenço da Fonseca Barbosa, o maior compositor de frevos do Brasil, conhecido como Capiba. CARTOGRAFIA DA FUNDIÇÃO CAPUNGA. (Artigo assinado pelo diretor-geral, Janguiê Diniz, cujo texto foi publicado na edição de 5 de outubro de 2006 do Jornal do Commercio) Às vezes somos vítimas de um saudosismo que se recusa a entender que o tempo muda o cenário. Balzac chega de fininho a um sentido meu e lança meus olhos ao chão. Não ao chão do presente de minha cidade Recife. Mas ao chão azul de um passado do Recife. E a voz de Balzac continua, insiste, dizendo-me bem baixinho aos ouvidos: “Tempo muda cenário”. Com sua insistência, abruptamente meus olhos se renovam. Grito num comício dentro de minha alma que Balzac me trouxe a jovialidade. Agora, sou um homem maduro, mas com olhar novo, moderno e em progressão para o pós-moderno. Já não mais estou cego ao presente. Na Fundição da Capunga, de fato, há uma nova pulsação: a Faculdade Maurício de Nassau fazendo parte da nossa História. E é gostoso testemunhar que parte da Veneza Brasileira não está morta, enterrada em uma fundição que já não mais existe há anos. É prazeroso perceber que não mais estou preso a uma minúscula fenda de uma caverna: o saudosismo. Antes, paredes cansadas, fatigadas, entregues pela força natural do tempo. Pretas, queimadas pelo fogo forjando o ferro a quente e a frio. Antes, o medo de caminhar por ruas estreitas e estranhas que se recusavam a se entregar à necessidade de uma população em busca de espaço para investir em seus sonhos. Antes, de fato, um passado petrificado em um saudosismo estranho à velocidade de nossa época. Antes, por fim, um lugar sem o relógio de nosso tempo. Eis a antiga Fundição da Capunga. A Capunga e as Graças surgiram de loteamentos desenvolvidos no século XIX, primitivo sítio que começava na Camboa do Manguinho (Parque do Amorim) e se estendia até a margem do Capibaribe. E, conforme nos ensinou Clarice Lispector, por o tempo urgir, o sítio foi dividido em dois: Capunga Velha e Capunga Nova. Das mãos do sargento-mor Luís Ferreira Feio e sua mulher, d. Maria Correia Monteiro, com o tempo, passou para as do comerciante açoriano Guilherme Fischer. Com a morte deste, passou para as mãos da Irmandade de São Pedro dos Clérigos do Recife. Com a insistência da filosofia machadiana, em 1878, concluiu-se a construção de um templo. E a população cresceu. Já havia 4.511 pessoas livres e 922 escravos. E para lá afluíam as novidades. E surge, por exemplo, na fundição, o engenheiro e mestre ferreiro Hermínio Filomeno forjando o ferro a quente. Sua finalidade é dar forma ao ferro. Ofício que nos remonta aos primeiros momentos da civilização egípcia. Os passos do mundo parecem andar no ritmo da velocidade da luz. Devemos nos preocupar com a velocidade de nossos olhos. O bater de nossas pálpebras não pode estar obedecendo à preguiçosa lentidão de um saudosismo que freia nossa cidade. Já não é o ferro o único a dar forma ao que nos circunda. Já não temos apenas 4.511 pessoas, ou melhor, 5.433 pessoas no antigo sítio. Mas o homem não dorme. O homem pulsa. O homem renasce. O homem faz germinar o aparente chão queimado, infecundo e que repousa em minúsculas fendas de um passado que já foi o caminho das Índias. Sim, faz germinar! Faculdade Maurício de Nassau! Como não enxerguei tudo isso antes?! Como ela estava ilegível àquela primeira vista… àquela vista cansada, velha e míope da qual há tão pouco tempo medistanciei. Obrigado, Balzac! A realidade de uma cidade é sempre móvel. A vida de uma cidade obedece à filosofia de Machado de Assis, ou seja, respeita a filosofia dos humanistas. Isso! É necessário entender a sequência natural de nosso espaço urbano, assim como é mister compreender que precisamos morrer para dar vida a quem teima em chegar. E chega! E assim, enfim, nasce a Faculdade Maurício de Nassau na antiga fundição. Já não há mais o descompromisso com o local. Já não existe mais umidade naquele chão. Para lembrar nosso poeta Manoel Bandeira, já estava na hora de “lavar o tédio dos telhados que envelheciam”. Por que a necessidade de se buscar em espaço onírico uma Pasárgada para se viver a necessidade de nosso tempo? Hoje, com a Faculdade Maurício de Nassau, há um novo ferro dando forma a todo um coletivo de pessoas não assistidas por um governo carente de recursos, preso a um déficit público. O ferro nos portões da Faculdade Maurício de Nassau nos lembra — mas apenas nos lembra — aquelas 4.511 pessoas e aqueles 922 escravos. A fachada da Maurício de Nassau na fundição é a fronteira entre o chão que dá repouso aos olhos míopes do saudosista e a nova cartografia urbana. Existe um espaço onde se encontra o alimento mais substancioso à formação do recifense, a educação. Milhares de jovens se instrumentalizam com o conhecimento científico para ter identidade, garantia e desenvolver nossa Veneza Brasileira. Junto com a antiga fundição, adquirimos também o casarão que durante alguns anos abrigou o Centro Administrativo do Grupo Ser Educacional e hoje abriga a direção e reitoria da uninassau. A estrutura foi totalmente restaurada. À medida que o Ministério da Educação autorizava a abertura dos cursos, a demanda da Faculdade Maurício de Nassau continuava a crescer. Fomos precisando de mais espaço e assim construímos o bloco do Centro Superior de Tecnologia — CST, um bloco especialmente construído para os cursos de tecnologia, com biblioteca própria, uma cantina e seis laboratórios de informática. Mais recentemente, construímos o Bloco D, que abriga os laboratórios dos cursos de Saúde e Química, além das clínicas- escolas; o Bloco E, que foi construído após a mudança de nomenclatura da Faculdade Maurício de Nassau para Centro Universitário Maurício de Nassau, é o edifício com maior número de salas e andares da instituição. Assim como os outros, é equipado com laboratórios de informática, cantina e área de convivência projetada para os alunos. O prédio possui sete andares e é uma das nossas maiores estruturas físicas. E há pouco construímos o Centro Administrativo do Grupo Ser Educacional no bairro de Santo Amaro, região central do Recife. São dois blocos, com estrutura moderna, que passarão a abrigar toda a mantenedora. Não pensem que tudo foi alegria e facilidade. Em todos esses anos, a faculdade passou por vários problemas e alguns deles poderiam ter acabado com a nossa reputação muito antes de nos firmarmos. Toda instituição de ensino passa por constantes avaliações do Ministério da Educação: para credenciamento, para autorização de cursos, para reconhecimento de cursos e recredenciamento. E foi daí que veio um dos nossos maiores e piores problemas iniciais. Sempre ao término de um curso, os alunos são submetidos a uma avaliação do mec chamada enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes). Em 2008, a faculdade, que tinha cerca de quatros anos de existência, realizou o primeiro enade de sua história. Dezoito alunos do curso de Biomedicina, por algum motivo, decidiram boicotar a prova, resultando em uma nota 1 para o curso (em uma escala de 1 a 5). Acontece que naquele mesmo ano o mec criou dois outros indicadores: o cpc (Conceito Preliminar de Curso), que corresponde à nota obtida pelos alunos no enade (maior pontuação) somada a uma nota conferida à titulação de doutores do corpo docente do curso, acrescida de alguns insumos; e o igc (Índice Geral de Cursos), que corresponde à soma de todos os cpcs conferidos aos cursos da instituição. Apesar de já ter 35 cursos autorizados, por ter apenas quatro anos de funcionamento a instituição realizara naquele ano apenas o enade do curso de Biomedicina. Por consequência, só tinha o cpc daquele curso. Como os alunos boicotaram a prova e a nota do enade foi a mais baixa possível, o cpc do demais cursos teve a mesma nota. O mec cometeu um erro inadmissível e conferiu igc 1 à instituição, levando em consideração a nota de um único curso em meio a outros 35. Com a divulgação dos resultados, a Maurício de Nassau passou pela sua primeira crise de imagem, quando ainda estava trabalhando na consolidação da marca. A saída para amenizar a situação foi cobrar administrativamente e até judicialmente o reconhecimento do erro por parte do mec. O erro fez com que a faculdade fosse considerada a pior faculdade de Pernambuco, o que ia contra qualquer propósito da instituição e foi um fato inacreditável até para a população, pois era impossível que uma instituição com a estrutura que era oferecida pela Nassau e com alunos e corpo docente satisfeitos com seu ensino e qualidade, tivesse sido avaliada com aquela nota. O mec reconheceu que o resultado obtido pela Faculdade Maurício de Nassau no igc calculado com base no conceito preliminar de curso obtido por uma única graduação não poderia ser generalizado para todas as outras 35 graduações que a instituição oferecia na época. O presidente do Inep, instituto de pesquisa responsável pela avaliação, considerou o caso atípico e fez a apreciação do pedido de retificação. A qualidade dos cursos da Faculdade Maurício de Nassau havia sido reconhecida pelo próprio mec, que nos concedeu o Triplo cmb, conceito que atribui excelência ao corpo docente, infraestrutura e projeto pedagógico. Enquanto isso, o resultado do enade havia sido consequência de um boicote dos alunos ao exame, o que nos levou a intensificar perante nosso corpo discente a importância de realizar a prova conscientemente. Claro que as normas em relação ao enade de 2008 hoje são diferentes e não se fala mais em boicote, mas este episódio poderia ter destruído o meu sonho de expandir a faculdade e o sonho de milhares de alunos que estavam tendo oportunidade de cursar um ensino superior. Bloco B - UNINASSAU - Recife - PE Bloco E - UNINASSAU - Recife - PE Bloco Capunga - UNINASSAU - Recife - PE O empreendedor nunca para Sem dúvida, posso dizer que o caminho dos estudos me levou ao sucesso. No entanto, é preciso cultivar em cada um de nós a vontade de fazer, de empreender. Essa vontade nasce conosco, faz parte da vida e não podemos deixá-la sufocar. No início desta biografia, comentei sobre o que era ser empreendedor. Geralmente usamos a palavra empreendedor para significar o fundador de um novo negócio, onde antes não havia nenhum, dando o contexto, do inédito. Mas, empreendedorismo não é só isso: é a força do fazer acontecer, em qualquer área, seja ela inédita ou não. Pode ser uma simples padaria. Quase todos querem ser empreendedores. Entretanto, o sucesso do empreendedorismo depende da apresentação por parte do empreendedor de determinadas características, requisitos, condições, habilidades e competências para sonhar, criar, abrir e gerir um negócio, criando resultados positivos e não desperdiçando oportunidades. Segundo Raymond Kao, empreender “é fazer algo novo (criativo) e/ou diferente (inovador) com o objetivo de criar riqueza para o indivíduo e adicionar valor para a sociedade”. Eu, particularmente, defino empreendedor como sendo aquele indivíduo que transforma pensamentos em ação e sonhos em realidades. Muitos alegam que o sucesso do empreendedor depende da sorte. Costumo dizer que sorte em empreendedorismo é a conjugação de conhecimento, habilidades, competência, oportunidade e iluminação divina. Certa vez perguntaram para Oscar Schmidt, ex-jogador de basquete, porque ele acertava tantas cestas. Ele respondeu que era sorte e explicou que depois de todo o treinamento com o time inteiro, ele ficava, todos os dias, pelo menosmais quatro horas treinando arremessos. Chamou este momento solitário de sorte. Além disso, ninguém chega onde quer chegar por um golpe de sorte. A diferença está na atitude e determinação. O empreendedor é aquele que transforma a situação mais trivial em uma oportunidade excepcional. Que além de sonhador é visionário, inovador e estrategista. Que vive no futuro, nunca no passado e usa o presente como ferramenta para o amanhã. Concordo com Fernando Dolabela quando afirma que o empreendedorismo é um fenômeno cultural, já que o pressuposto básico é que todos nós tenhamos um potencial empreendedor, que é ou não desenvolvido pelo fenômeno cultural. Se a pessoa tem uma família empreendedora, provavelmente ela tenderá a ser empreendedora. Se a família não é empreendedora, a tendência é que ela procure um emprego formal e estável, como um concurso público, por exemplo. Como disse antes, papai, apesar de não ser um homem letrado, sempre tentou criar seu próprio negócio, pois tinha o tino empreendedor. Entretanto, como não possuía as verdadeiras características do empreendedor os negócios não deram certo. Mas eu cresci vendo-o fazer várias tentativas, principalmente lanchonetes e bares. A principal característica do empreendedor é o sonho. Todas as conquistas da humanidade foram precedidas pelo estágio do sonho ou pela ambição na mente de algum visionário. Por outro lado, dizia Abílio Diniz que “enquanto alguns sonham com o sucesso, nós acordamos cedo para fazê-lo”. É importante registrar que o empreendedor sonha e luta para transformar os sonhos em realidade. Imagina ou concebe ideias ou visões e procura desenvolvê-las, projetando-as no futuro e tornando-as realidade. Em resumo, ele primeiro constrói um sonho e depois organiza todas as suas forças para concretizá-lo. A realização ou concretização de um sonho é, para muitos empreendedores, uma motivação muito maior do que a esperança de recompensa financeira. O empreendedor é ousado e propenso a correr riscos. Sonhar é pensar grande; escrever e reescrever seus sonhos em guardanapos de papel e blocos ao lado da cama. O não empreendedor sonha e continua sonhando, e sonhando… Tem medo de testar seu sonho na realidade dura e concreta do mundo. Aqueles que têm apenas ideias mirabolantes, ainda que bonitas e maravilhosas, mas não lutam para que se tornem realidade, pois têm medo, não são empreendedores. Sonham, mas não agem. Parece até que sonhar é uma fuga. Além do Grupo Ser Educacional, passei a ser investidor em vários segmentos. Em todos eles observando as oportunidades de mercado. Para gerir esses investimentos criei a JJ Participações, uma holding imobiliária proprietária da maioria dos imóveis que o Grupo Ser Educacional utiliza e que concentra a atuação nas regiões Norte e Nordeste, com expectativa de expansão para todo o país. Além da uninassau, das Faculdades Maurício de Nassau, das Faculdades Joaquim Nabuco e do bj Colégio e Curso, mantenho investimentos em várias outras empresas como o LeiaJa.com, um portal de comunicação com mais de 25 milhões de pageviews mensais; o Bureau Jurídico — Cursos para Concursos, um portal de cursos para concursos online; o Bureau de Cursos, um portal de cursos online com mais de quatro mil ofertas de videoaulas; a ibs, holding de empresas de tecnologia; a Cenário Inteligência, empresa de ideias e estratégias políticas e de mercado, etc. E antes que perguntem por que mesmo estando à frente de um grupo de educação eu mantenho outros investimentos, a resposta é simples: o investimento é tão importante quanto uma poupança. Entretanto, investimentos necessitam de mais cuidado para serem realizados, pois todo o esforço de cortar gastos pode ser desperdiçado se o dinheiro for mal investido. É comum o investidor prestar mais atenção à promessa de rentabilidade do que às chances de perda do que foi aplicado. Mas acredite: não há investimento sem risco! Se você investe em empreendimentos, você corre o risco daquela empresa não dar certo. Por isso, o primeiro passo para ser um bom investidor é antes de tudo ser um bom poupador. Não há uma regra especifica para decidir onde e quando investir. É uma questão de estar atento ao mercado e às demandas. Muitos investidores baseiam-se em análise técnica e fundamentalista para decidir onde alocar seu dinheiro. Quem quer bons rendimentos em um curto espaço de tempo precisa utilizar a análise técnica, que indica os bons pontos de entrada e saída do papel. A análise fundamentalista também indica quais empresas são boas, mas por estudar a empresa, ela aponta companhias que renderão bons dividendos no futuro. Vejam o exemplo da Cenário Inteligência, que é uma empresa especializada em pesquisas de mercado e estratégias políticas e mercadológicas. Para investir em um empreendimento como este é preciso, em primeiro lugar, analisar os profissionais envolvidos. Se há equipe qualificada para executar os trabalhos, o sucesso é uma questão de tempo. Em 2012, a Cenário foi responsável por pesquisas de opinião e estratégias políticas para candidatos em várias cidades de Pernambuco nas eleições daquele ano e, acertou grande parte dos resultados. Para ser um bom investidor é preciso avaliar. Acredito que ainda não seja um grande investidor, mas tenho aprendido todos os dias com os erros e acertos. Assim como no Grupo Ser Educacional, continuarei avaliando possíveis áreas de investimentos. “Sou um jovem universitário e sonhador. Tenho 23 anos e estou terminando o curso de Engenharia de Gestão na Universidade Federal do ABC (ufabc), em Santo André/SP. Em 2012, ingressei como estagiário em uma multinacional no setor de matriz energética, a Asea Brown Boveri. Após um ano na empresa, fui efetivado, mesmo antes de concluir a graduação. Estava criando as condições necessárias para prosperar na minha carreira como engenheiro, porém frequentemente questionava-me em relação ao dia a dia. O que eu estava vivendo era o meu verdadeiro sonho? O cargo mais alto que eu atingiria dentro de alguns anos me deixaria plenamente satisfeito com a minha trajetória? Quando li pela primeira vez a história de persistência de Janguiê Diniz, fiquei fascinado ao perceber que um sonho era possível. Entendi que por meio de novas decisões era possível mudar a minha trajetória. Passei a ler cada vez mais sobre a história do Janguiê, incluindo os textos do seu blog. Conhecer a história dele abriu a minha mente para um mundo completamente diferente. Um mundo onde cada um é responsável pelo seu próprio destino. Mundo de infinitas possibilidades para os que lutam de verdade pelos seus sonhos, mesmo que para isso seja necessário renunciar a alguns padrões impostos pela sociedade como, por exemplo, deixar de ser empregado para empreender no seu próprio negócio. Procurando então solucionar minhas indagações diárias, em busca de algo que tivesse maior relação com o meu perfil, e que me fizesse feliz todos os dias, resgatei uma antiga paixão, adquirida durante o ensino fundamental e médio: dar aulas particulares de reforço para os meus amigos. A satisfação de fazer o que se gosta somada à competência fez com que a procura pelas aulas aumentasse. Com o objetivo de atender à demanda cada vez maior, eu e alguns amigos alugamos um prédio em frente à ufabc e passamos a lecionar reforço acadêmico para alunos do ensino fundamental, médio e universitário. Assim surgiu a Noctuam Ensino! Pouco tempo depois, pedi demissão para me dedicar integralmente, junto ao meu sócio, ao nosso empreendimento, que completará um ano no fim de 2014. A escola já conta com um plano de expansão para suprir, ainda nesse ano, a demanda de todo ABC e de Higienópolis, um dos bairros mais tradicionais da cidade de São Paulo. Gostaria que soubessem que, aqui em São Paulo, tem um jovem que mudou completamente o rumo da sua carreira, após conhecer o exemplo de talento e obstinação de Janguiê. Agradeço-lhe por servir de inspiração a mim, bem como a outros tantos jovens sonhadores.” Luis G. Mendes, Jovem Sonhador e Sócio Diretor da Noctuam Ensino Em buscade um sonho O ano era 2002 e meu projeto com a Universo em Recife não havia dado certo. No entanto, o sonho de ter a minha escola de ensino superior continuava. Eu conhecia todos os procedimentos para pedir autorização no Ministério da Educação para abrir uma instituição. Então, resolvi contratar pessoas especializadas para me ajudar nesse percurso. Naquela época, eu já havia trazido meus irmãos para morarem e estudarem no Recife. Todos se formaram em áreas que eram de seu interesse e acabariam por me ajudar a expandir o Bureau Jurídico e, também, na criação da Faculdade Maurício de Nassau, no Recife. Quando perguntadas quanto à ideia de montar uma faculdade, muitas pessoas são levadas ou quase forçadas a acreditar que é preciso ter rios de dinheiro. Essa ideia não deixa de ser verdade, já que o investimento é de fato expressivo. Mas talvez o mais importante seja ter um plano real e concreto e saber negociar. Além deste, inúmeros fatores são importantíssimos, tornando a tarefa de criar uma instituição de ensino um trabalho de extrema complexidade. Eu investia tudo o que ganhava em meus empreendimentos e já havia decidido a nunca mais fazer sociedade. No entanto, não conseguiria fazer sozinho todos os processos que envolvem a abertura de uma instituição de ensino. Assim, contratei bons profissionais que me ajudariam nos vários requisitos importantes para alcançar meu objetivo. Antes de tudo, eu precisava ter em mente que montaria uma nova empresa. Desta forma, a mesma deveria ser registrada e eu precisaria escolher a razão social, o nome fantasia da minha faculdade, a marca… Eu ainda não sabia que nome escolher, mas sabia que não queria que a minha faculdade fosse chamada por uma sigla. Eu precisava escolher um nome que fosse forte, tivesse simpatia do público e homenageasse alguém ou alguma coisa importante para Pernambuco. Então, fui para às ruas do Recife realizar pesquisas. Ao mesmo tempo, contratei o Instituto Latino Americano de Planejamento Educacional (ilape), para me auxiliar na elaboração do projeto pedagógico institucional e dos cursos para os quais pediríamos autorização para funcionamento, além de prestar consultoria sobre os tramites iniciais da faculdade que, até então, não tinha nome definido. Nas ruas, ouvimos centenas de pessoas para descobrir qual seria ideal para uma faculdade e as sugestões foram surgindo: Faculdade do Recife, Faculdade Gilberto Freire, Frei Caneca, Faculdade das Américas, UniAmérica… Em um primeiro momento até cogitei em registrar “Faculdade do Recife”, mas se eu decidisse levar a instituição para outros locais, não poderia abrir uma Faculdade do Recife na cidade de Olinda, por exemplo. Depois de várias entrevistas, o nome mais aceito era o de Maurício de Nassau, que tinha sido um grande personagem na história de Pernambuco. Definido o nome, eu precisava de uma marca. Como minha ideia inicial era abrir uma faculdade de Direito, eu queria que a marca tivesse tanta força quanto o nome, então, nada mais justo do que um brasão. Fui em busca do da família Nassau, na Holanda, mas a imagem original não me agradou. Não sou um entendido em marcas, mas via naquele brasão uma imagem pesada, formal demais para a proposta que eu tinha para a Faculdade Maurício de Nassau. Decidi então contratar uma agência de publicidade para estilizar o brasão original. A missão ficou com a Agência Um Comunicação, sob os cuidados de Eduardo Nunes, um publicitário de muito talento que hoje faz carreira na Inglaterra, e que entendeu minha ideia e soube colocar todos os elementos na marca da Maurício de Nassau. As mudanças para chegarmos à marca começaram com a inclusão da palavra Facvldade (sim, com “V”) e Veritas, tradicional nas instituições de direito. A palavra Veritas, que vem do latim e significa “verdade”, é inspirada numa expressão bíblica que diz “e conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”. Verdade aí tem o sentido de conhecimento adquirido. A minha ideia era que a Maurício se tornasse uma grande e tradicional faculdade de direito, com oportunidade para que os alunos mudassem de vida através do conhecimento. A partir daí, fizemos um estudo da heráldica ou parassematografia, para adicionar ao brasão os elementos corretos e que, de fato, representassem o que eu queria propor com a Faculdade Maurício de Nassau. Incluímos a coroa mural, o sol, e definimos as cores e o grifo. Cada um deles com seu significado e que, juntos, caracterizavam o que eu sonhava para a Faculdade e para os alunos que viessem a fazer parte dela. Gostaria de abrir um parêntese técnico para que vocês compreendam o significado de cada um dos elementos que compõem a marca da Maurício de Nassau, pois me orgulho muito de ter participado diretamente da elaboração dela, ajustando e apontando cada um dos elementos e detalhes que a formam. A coroa mural é o símbolo universal dos brasões de domínio e pode constituir uma peça móvel do brasão, mas sua função essencial na heráldica é indicar uma propriedade, um fortificado. O número de torres indica a grandeza do domínio, do campo conquistado. Com quatro torres visíveis que figuram como ornato exterior do escudo, essa coroa se classifica como sede de município. O sol é um símbolo próprio dos soberanos e reis. Significa eternidade, vitória e as virtudes da magnanimidade, da ousadia e da magnificência. Faculdades são berços de sabedoria desde sempre. Contudo, a era da informação tratou de exigir mais predicados destas instituições. O brasão demonstra o respeito daqueles que fazem parte da Faculdade Maurício de Nassau, indicando que através do conhecimento, as pessoas serão líderes, vitoriosas, fortes, justas e dominarão as áreas em que atuarem. As instituições de hoje não podem ser estáticas, tampouco se mostrarem ultrapassadas, senão estarão fadadas ao insucesso. Em linhas traçadas na vertical, deixando o escudo partido em duas metades, as cores apresentadas no brasão são azul e vermelho. O azul do campo do escudo é o símbolo heráldico da justiça, nobreza, perseverança e lealdade, predicados de um povo em prol de sua cidade ou domínio. O detentor de um brasão com essa cor tem como “obrigação” promover a agricultura e socorrer os desempregados demitidos injustamente por seus patrões. Já o vermelho, por sua vez, é representante da nobre condição social e das virtudes militares dos antepassados, simbolizando o ânimo intrépido, valoroso, grandioso e forte dos guerreiros. Quem carrega o vermelho no seu brasão é um homem de decisão e tem a tarefa de socorrer os oprimidos. O grifo, sem sombra de dúvida, é o elemento mais chamativo da composição. Pertencente ao mundo fantástico, o grifo é um animal que possui a parte superior de águia e o corpo de leão. Essa figura composta por um mamífero e uma ave é uma busca pela diferenciação do leão, uma tentativa de sair do comum, pois o leão é uma das figuras mais empregadas na Heráldica, sendo encontrado nos brasões de inúmeras famílias e nas armas de diversos países. A presença do grifo no brasão representa força, grandeza, coragem, nobreza de condição. Também caracteriza domínio e proteção, condições que um superior deve ter sobre aqueles que domina. “Foi um desafio muito interessante e estimulante trabalhar com Janguiê e Jânyo. Eles já tinham definido o nome da Faculdade Mauricio de Nassau, e discutimos como seria a logomarca da instituição. Tinha que passar credibilidade e solidez em ensino, mesmo sendo uma nova instituição, e a atuação de Janguiê como educador — ele era professor titular da ufpe, dono do Bureau Jurídico, reitor da Universo, etc. — passava essa credibilidade. Precisávamos traduzir esses atributos na marca. Surgiu a ideia do brasão, e o slogan “Fazendo parte da sua história”, que considero uma solução bastante feliz. O brasão passa solidez e credibilidade como queríamos, e o slogan a proximidade necessária da instituição com o aluno.” Luiz Augusto, Sócio Diretor da Agência Um Assim, tínhamos a marca da Faculdade Maurício de Nassau definida e anexada ao processo de pedido de credenciamentofeito ao mec, ainda em 2002. Enquanto isso, o ilape elaborava os projetos para os cursos iniciais da Faculdade, que também seriam encaminhados para autorização do mec. O projeto pedagógico institucional é obrigatório para a solicitação de credenciamento de qualquer instituição de ensino junto ao ministério e representa a linha pedagógica norteia que a instituição para gerenciamento dos cursos de graduação, pós-graduação e extensão. Um dos pontos fundamentais do projeto é levantar e apresentar os mecanismos de inserção regional, demonstrando um estudo sobre as demandas da região e a justificativa dos cursos oferecidos pela instituição. Há também que demonstrar sua preocupação com o mercado de trabalho da região e também um estudo sobre os egressos da instituição. Como tinha sido aluno, era professor e empreendedor, eu conhecia as necessidades da cidade. Sabia que não adiantaria exaltar apenas que queria abrir uma faculdade para dar mais oportunidade de ingresso no ensino superior aos estudantes. Ao contrário. Eu queria que os estudantes saíssem da faculdade realmente preparados para o mercado de trabalho, por isso, em cada curso decidi por explorar o máximo da prática profissional aliada à base teórica. Este seria um dos diferenciais da Faculdade Maurício de Nassau. Assim, decidi que a missão da Faculdade Maurício de Nassau seria ser uma instituição educacional formadora de cidadãos competentes, qualificados e preparados para o mercado de trabalho, imbuídos de responsabilidade social e compromissados com a preservação da cultura nacional e com o desenvolvimento sociocultural do Brasil. Junto com o ilape e outros consultores, elaboramos o projeto pedagógico de vinte cursos. No entanto, inicialmente pedimos autorização para oferecer apenas seis deles: Administração, com habilitações Geral, Gestão Hospitalar; Gestão de Sistemas de Informação; Comunicação Social, com habilitações em Jornalismo e Publicidade e Propaganda; Turismo; e Direito. Mas eu ainda tinha outro problema. Onde instalar a estrutura física da instituição? Eu ainda comandava o Bureau Jurídico, que continuava crescendo e já tinha adquirido uma casa na Rua José Osório, onde o cursinho estava instalado. Mantenho este imóvel até hoje, por motivos sentimentais, afinal, ele foi o primeiro imóvel que adquiri para meus empreendimentos. Para dar entrada no credenciamento da Faculdade Maurício de Nassau, eu precisava ter um lugar para instalar a faculdade. Então, comecei a procurar. Eu já entendia sobre negócios e sabia que qualidade de ensino era um quesito obrigatório para todas as instituições. Então, não poderia investir apenas em um corpo docente qualificado. Precisava ter um diferencial que atraísse os alunos e esse diferencial seria a localização. A Faculdade Maurício de Nassau precisava se instalar em um bairro que fosse de fácil acesso para qualquer pessoa, independente de onde ela viesse. Em Recife, os principais corredores de trânsito são a Avenida Guararapes, no centro da cidade, e a Avenida Agamenon Magalhães, no Derby. A primeira recebe a grande maioria de linhas de ônibus e a segunda é por onde passam a maior parte das linhas que vem das cidades vizinhas, além de ser um importante corredor de carros. Entre idas e vindas para o Bureau Jurídico, passei várias vezes em frente a um terreno onde ficava uma torre de telefonia, da antiga Telpe Celular. Um dia, pulei o muro do terreno, cheio de mato, e sentei em uma das calçadas. O espaço era enorme, tinha início na Rua Guilherme Pinto e ia até a Avenida Beira Rio. Olhava ao redor e pensava: esse lugar seria perfeito para montar a minha faculdade. Pouco tempo depois, descobri que o terreno havia sido colocado à venda. Os proprietários eram da Fundação Sistel de Seguridade Social, com sede em Brasília. Sem saber quanto custava e a forma de pagamento, não pensei duas vezes. Peguei um avião e fui até Brasília negociar. Fui recebido pelo então presidente do órgão e durante horas de conversa expliquei minhas motivações e planos para o terreno. O valor de venda era pouco mais de 1,5 milhão de reais; e, claro, eu não tinha esse valor. Depois de horas de negociação, acredito que consegui ganhar a confiança do presidente da Sistel e fechamos um compromisso de compra e venda do terreno com o pagamento de uma entrada no valor de 155.000 reais e quitação do restante do valor em 18 parcelas. O valor inicial foi pago em 12 de setembro de 2002 e a última parcela foi quitada em 25 de março de 2004. Voltei para Recife e agora tinha o lugar para colocar a faculdade de pé. Com endereço e projetos pedagógicos prontos, dei entrada no credenciamento da faculdade e autorização dos cursos. Logo depois, comecei a reformar o terreno e construir as salas de aula. Seria ali, na Rua Guilherme Pinto, nº 114, no Bairro das Graças, Recife, Pernambuco, que funcionaria o primeiro bloco da Faculdade Maurício de Nassau. A reforma inicial visava à revitalização de um casarão, que já estava construído no terreno e serviria como parte administrativa da instituição. As obras incluíram a colocação de uma passarela e a construção do primeiro andar para acomodação das salas de aula. O espaço abrigaria também biblioteca, lanchonete, etc. Hoje, esse espaço é o Bloco A da uninassau e tem, além das salas, um ginásio de esportes. Infelizmente, até hoje, quando pedimos autorização para fornecimento de curso ou credenciamento de uma instituição, não há um prazo fixo para liberação. A publicação das portarias depende da visita dos consultores e da avaliação que acontece após eles conhecerem toda a estrutura e projeto da instituição. Mesmo depois disso, as portarias podem ser publicadas rapidamente ou demorar um pouco mais. Eu havia dado entrada em todo o processo de autorização, tanto para a faculdade quanto para os cursos. Só me restava preparar toda a infraestrutura de salas, bibliotecas, laboratório de informática e todos os requisitos para quando houvesse a visita dos consultores do mec, que fariam a avaliação e dariam uma nota, de 1 a 5 (sendo 1 e 2 considerado insuficiente e 5 a nota máxima), para o projeto. No entanto, eu sabia que o setor educacional estava em expansão e a política do então presidente Fernando Henrique Cardoso estava permitindo que o número de instituições particulares crescesse. Baseado na conjuntura do período e no trabalho que tínhamos realizado, eu acreditava que não demoraria a conseguir as legalizações necessárias. A Faculdade Maurício de Nassau recebeu uma avaliação de nota 4 e foi credenciada em 14 de maio de 2003, através da portaria nº 1.109, publicada no Diário Oficial do dia 15 de março de 2003. No mesmo dia, foram autorizados os cursos de Administração, Gestão Hospitalar e Gestão de Sistemas de Informação, através da portaria nº 1.110, Comunicação Social, com habilitações em Jornalismo e Publicidade e Propaganda, mediante a portaria nº 1.111 e Turismo, através da portaria nº 1.112. O curso de Direito seria autorizado pouco tempo depois, em 18 de agosto de 2003, com publicação no Diário Oficial do dia seguinte, pela portaria nº 2.241. Era a concretização do meu sonho de ter uma instituição de ensino superior. Agora, a campanha de publicidade precisa sair para a rua. “Quando eu conheci o Janguiê, a primeira impressão que tive foi realmente a de um grande empreendedor. Primeiro pela história dele, mas não só isso. Eu vi que ele tinha uma liderança forte na comunidade e tinha um perfil adequado para começar um projeto do porte que sonhava. Por outro lado, ele era bem diferenciado dos mantenedores de então, que geralmente tinham saído da educação básica, do comércio ou da indústria, e não tinham uma formação acadêmica. O Janguiê era diferente nesse sentido, ele já entrava com uma faculdade para o credenciamento com o cabedal acadêmico bem denso, com potencial inclusive para ser reitor e na realidade poucos tinham isso na época. A impressão que eu tive dele, era de que seria um grande empreendedor na área da educação superior no Nordeste. Mas, preciso rever isso porque eletem o perfil de um grande empreendedor na área de educacional no Brasil. Sem falar em um cara muito educado, que tinha e tem sensibilidade para conversar, negociar e avaliar projetos.” Celso Frauches, Fundador do ilape Campanha na rua A portaria de credenciamento da Faculdade Maurício de Nassau foi publicada em maio de 2003, o que significava que poderíamos começar a funcionar no segundo semestre, em agosto. Mas para isso acontecer, precisaríamos correr com a campanha de publicidade para a realização de vestibular e divulgação dos resultados dos alunos aprovados. Eu havia feito uma licitação com várias agências de publicidade para a criação da marca da Maurício de Nassau e a mesma agência que me ajudou nessa tarefa foi a responsável por elaborar a primeira campanha publicitária da faculdade. Porém, como atrair alunos para uma instituição nova? A primeira campanha da Nassau teve algumas facilidades: o nome e a marca foram muito bem aceitos pela população. Além disso, como meu objetivo era uma faculdade de excelência no curso de Direito, vinculei todas as peças à área jurídica. Eu havia tido uma carreira de juiz e era procurador, também atuava como professor na Universidade Federal de Pernambuco e em cursinhos, realizava muitos congressos jurídicos e tinha vindo de uma outra instituição. Meu nome era bastante conhecido na área, então, além de apresentar a faculdade, estrutura, qualidade do corpo docente, pedi que fosse utilizado o meu nome e o do Bureau Jurídico, que em 2003 continuava fazendo sucesso em várias cidades. Acredito que as pessoas buscavam em uma faculdade muito além da teoria e eu era conhecido por ser um professor extremamente didático, esse era o segredo do sucesso do Bureau. Este perfil foi de certa forma herdado pela Maurício de Nassau. O slogan da primeira campanha, que é o slogan que faz parte da própria marca, é mantido até hoje. “Fazendo parte da sua história” não era apenas uma frase de impacto, era a proposta da Faculdade Maurício de Nassau para cada um de seus alunos. Queríamos marcar, ser lembrados por proporcionar não apenas a oportunidade de estudo, mas por ter feito a diferença na vida daqueles estudantes. Veiculamos intensamente a campanha em rádio, TV, mídia impressa, internet, panfletagem na rua e mediante todas as formas pelas quais pudéssemos chamar atenção. A resposta foi bastante positiva. Após o primeiro vestibular, matriculamos cerca de 500 alunos e depois, com a entrada do curso de Direito, chegamos a pouco mais de 600. Para o primeiro semestre de funcionamento, esse número era excelente. Há algum tempo, li um artigo na revista Fortune em que pesquisadores ingleses revelam as virtudes que caracterizam as pessoas excepcionais: determinação e foco. Ele era intitulado “What it takes to be great” e defendia que o verdadeiro talento está na capacidade de trabalhar duro na busca de um objetivo preciso. Não me considero uma pessoa excepcional, mas os ingleses estavam certos ao dizer que o talento é resultado de trabalho duro. Eu estava realizando o meu sonho pondo em prática essa máxima. “Após participar da elaboração da marca da Faculdade Maurício de Nassau, preparamos a campanha, que foi um sucesso, já que o nome de Janguiê já era forte na educação pernambucana devido ao Bureau Jurídico. Ele sempre acreditou muito no investimento em comunicação e, desde o início, apostou fortemente na mídia.” Luiz Augusto, sócio-diretor da Agência Um A hora de expandir Talvez um dos sonhos mais comuns entre as pessoas seja o de ter o seu próprio negócio. Para muitos, essa vontade se manifesta com ainda mais força em momentos de desemprego ou quando já não há mais satisfação em trabalhar para um patrão. O problema é que a maioria das pessoas tem medo de arriscar abrir seu próprio empreendimento e acaba desistindo antes mesmo de tentar. O medo muitas vezes vem da inexperiência no mercado e do receio de perder o investimento feito em um eventual fiasco. Entretanto, o que se deve ter em mente é que o retorno nem sempre é na velocidade que esperamos. Ainda assim, não são poucos os que se arriscam no empreendedorismo. Aqueles que têm perseverança, acreditam no seu potencial, fazem um planejamento de seu negócio, conhecem bem o seu público-alvo e área de atuação, conseguem se destacar diante daqueles que apenas montam algo à espera de retorno imediato. O segredo do sucesso é simples. É preciso planejar, ter os pés no chão e vencer a insegurança, subindo um degrau de cada vez, aumentando assim suas chances de alcançar o tão desejado sucesso. Foi baseado nesses princípios que construí o Grupo Ser Educacional. Quando chegou o momento de pensar na expansão do grupo, depois de anos planejando e calculando cada detalhe do negócio que mudaria minha vida, não poderia agir de modo diferente. Quando abri a Faculdade Maurício de Nassau, no Recife, eu já sonhava com um grupo educacional, e aquele sonho significava que, em algum momento, os negócios teriam de se expandir para outros estados e cidades. Isso começou a se tornar uma realidade em meados de 2006, quando a Nassau já estava firmada e o número de cursos e alunos só crescia. Decidi implantar uma unidade da faculdade em João Pessoa e comecei a pesquisar possibilidades de aquisição ou de credenciamento para um novo campus, levando a marca da Maurício de Nassau até lá. Antes que pudesse continuar meus planos na capital paraibana, surgiu a oportunidade de adquirir a mantença de uma instituição em Campina Grande: o Instituto Campinense de Ensino Superior (ices). Campina Grande é uma cidade no interior da Paraíba e se mostrava com grande potencial de crescimento. O ices era uma das instituições com maior credibilidade da cidade, oferecia quatro cursos de graduação — Administração, Biomedicina, Enfermagem e Nutrição — e tinha cerca de 400 alunos. A estrutura física do instituto não deixava nada a desejar para os padrões da Faculdade Maurício de Nassau — eram dezoito salas climatizadas e em formato de anfiteatro, biblioteca com mais de seis mil livros e periódicos, laboratórios de informática com quarenta máquinas conectadas à internet, além de área administrativa e praça de alimentação. Decidi negociar, era uma oportunidade única para começar o projeto de expansão do grupo. Meu irmão Jânyo, junto com a nossa equipe, visitou por várias vezes a instituição e, em 5 de abril de 2007, acertamos todos os detalhes e adquirimos o ices. Entretanto, antes mesmo de concluirmos a aquisição do ices outra oportunidade de aquisição surgiu, desta vez em João Pessoa, capital da Paraíba. A cidade que era a minha primeira opção para expandir a Faculdade Maurício de Nassau. Em João Pessoa a proposta era para a aquisição da Faculdade Metropolitana da Paraíba (famep), mantida pelo Centro Nacional de Ensino Superior (Cenesup). Era uma negociação diferente da que ocorreu em Campina Grande. No caso de João Pessoa, ainda não havia uma unidade em funcionamento, mas já existia um credenciamento para a faculdade e para oferecer o curso de Direito, que era o principal objetivo das minhas instituições. Além do Direito a famep também tinha credenciamento para oferecer o curso de Administração. Adquirimos a mantenedora e o primeiro vestibular da instituição já utilizando o nome da Faculdade Maurício de Nassau aconteceu em 2006. Para comportar a estrutura da faculdade, alugamos o turno da noite do Colégio Visão, na Avenida Governador Argemiro de Figueiredo. Em 2010, a unidade de João Pessoa foi transferida para um prédio próprio, localizado na Avenida Epitácio Pessoa, uma das principais vias da cidade. O prédio conta com onze andares, mais de 30 mil metros de área construída e oferece mais de vinte cursos de graduação e tecnólogos de curta duração. No prédio, os mais de 7 mil alunos da instituição têm acesso a mais de cem salas de aulas, além de um auditório com 400 lugares, áreas cultural e esportiva, e diversos laboratórios e núcleos práticos. Já o Colégio Visão tornou-se o campus Almirante Barroso, e o prédio, que possui 24 salas de aula, abrigaos cursos de pós- graduação da Maurício de Nassau em João Pessoa. Na mesma unidade, funcionam diariamente cursos técnicos nas áreas de: Administração, Comércio, Contabilidade, Informática, RH, Transações Imobiliária, Segurança no Trabalho e Logística. Em 2007, lançamos uma nova marca, a Faculdade Joaquim Nabuco, a respeito da qual discorreremos em um capítulo à parte. Nesse mesmo ano, com o pensamento bem mais maduro sobre o negócio e as expansões, decidi buscar aporte de capital para financiar o crescimento do grupo. Foi então que conheci o Cartesian Capital Group LLC, através de um dos diretores da empresa, o Francisco Barreto. O Cartesian Capital Group é um fundo de private equity americano com experiência comprovada em ajudar empresas com fins lucrativos a se expandir internacionalmente. Em 2008, o Cartesian entrou no grupo com a compra de 11% do Ser Educacional, aportando 48 milhões de reais. A entrada desse recurso nos deu fôlego para continuar o processo de expansão e, ainda em 2008, adquirimos, simultaneamente, as unidades de Natal e Maceió. Em Natal, depois de seis meses estudando o negócio, realizando auditorias, concluímos a aquisição da Faculdade Casa do Fera (cdf). A instituição contava com 600 alunos em quatro cursos, e os nossos planos eram de aumentar a oferta e, em cinco anos, elevar o número de alunos para 5 mil. Tínhamos planos de começar do zero, mas tal estratégia demandaria muito mais tempo. Então, resolvemos partir para uma aquisição como forma de entrar mais rápido no mercado natalense. Compramos 100% da faculdade, na época com recursos próprios. Junto com o aporte financeiro do Cartesian Group, vieram também os trabalhos para transformar o Grupo Ser em um grande grupo de educação. O primeiro passo era implantar uma governança corporativa. Esse processo já tinha sido iniciado anteriormente, antes da entrada do Cartesian, com a contratação da Mesa Corporate, do grande, competente e inestimável amigo, Herbert Steinberg — uma consultoria especializada em governança corporativa e familiar —, e que foi responsável por criar as bases e os fundamentos de nossa governança coorporativa. Durante o processo de expansão, a contratação da Mesa e a entrada do Cartesian Group foram, sem dúvida, um divisor de águas. Mesa e Cartesian, juntos ao Grupo Ser, foram responsáveis por abrir o nosso apetite pelo mercado de capitais e pelo modelo de crescimento que almejávamos. Do ponto de vista financeiro, foi o próprio Francisco Barreto, do Cartesian — que depois de algum tempo se tornou um grande amigo da minha família —, que trouxe as técnicas e os conhecimentos financeiros para o cotidiano do Grupo. “Desde o começo me chamou muito a atenção a determinação do Janguiê e também o convencimento que ele tinha sobre o futuro do grupo. Por mais que ele não tivesse um conhecimento muito aprofundado do setor financeiro, ele entendeu rapidamente o valor que um sócio financeiro poderia trazer para o Ser Educacional. Apesar do grande sucesso do grupo e das realizações no plano pessoal do Janguiê, ele não perdeu sua essência como pessoa e sua sensibilidade. Ele ainda se preocupa muito com sua comunidade, com os problemas do dia a dia, como por exemplo a pobreza, a falta de infraestrutura, a insegurança, etc., e sempre está disposto a ajudar o seu entorno.” Francisco Barreto, Managing Director da Cartesian Capital Group LLC Foram criados processos e plataformas em que debatíamos sempre todas as ideias, melhorando assim a qualidade da decisão de rumos do grupo. Na sequência, foi montado um conselho de administração que, na sua primeira versão, contou com conselheiros independentes como Fernando Tigre, Cássio Casseb, o próprio Herbert Steinberg, da Mesa, ao lado de Francisco Barreto, representando o Cartesian, e meu irmão, Jânyo Diniz, me representando. Na segunda fase do conselho, Fernando Tigre e Cássio Casseb não puderam permanecer e foram substituídos por Jonaldo Diniz e Flávio Luz, permanecendo o Herbert e Francisco. Hoje, o conselho de administração do grupo é formado por mim, como presidente, por Jânyo Diniz, Francisco Barreto, Herbert Steinberg e Flávio Luz. “Quando conheci o Janguiê, encontrei um empresário com brilho no olho, com espírito empreendedor aguçado, com bons resultados e bastante ambição. A princípio fui reticente quanto aos números e indicadores que me eram apresentados. Ao longo do tempo, aprendi sobre o negócio, sobre ele, sua gestão, sua família e descobri uma pessoa que escuta, que aprende e que faz acontecer. Deu no que deu… o Janguiê e suas instituições são um sucesso. Pessoalmente, Janguiê é uma pessoa de valores, trabalhadora (muito), visionário e que respeita seus sócios, seus colaboradores, sua família e seus amigos.” Herbert Steinberg Fundador e Presidente da Mesa Corporate Além do conselho de administração, cujo objetivo foi profissionalizar a empresa, implementamos também sistemas modernos de gestão, além de práticas contábeis internacionais, auditorias anuais por uma das big four e controles internos de padrão internacional. Também implantamos um plano de remuneração variável baseado na meritocracia. Nossos planos de expansão não pararam por aí. Em 2008, surgiu a oportunidade de realizar a aquisição de uma tradicional instituição com unidades em Salvador e em Lauro de Freitas, na Bahia, a Faculdade Baiana de Ciências (fabac). A fabac era uma instituição bem familiar, onde tudo era tratado com o dono, os alunos negociavam direto com ele, informalmente. Esse foi nosso primeiro desafio pós-aquisição: acabar com a informalidade que existia. Se me perguntarem o que é mais difícil: adquirir ou montar uma instituição nova, a resposta, sem dúvida, é adquirir. Não pela negociação até o fechamento de contrato, mas sim porque é muito mais complicado mudar os hábitos já existentes. A aquisição de uma instituição acaba trazendo consigo toda a política e costume dos sócios anteriores e cabe aos novos mantenedores remodelar toda a política da instituição para adequá-la ao que se deseja. Todas as instituições adquiridas pelo Grupo Ser Educacional passam por esse processo. Prezamos por uma única política, por um sistema uniforme, em todas as unidades do grupo, e a aquisição da fabac foi bem desafiadora em relação a isso. Permitam-me explicar. A fabac foi vendida porque não tinha mais como crescer e também como se manter. Em meados de 2008, enquanto ainda negociávamos, começaram a vazar para os funcionários os rumores da negociação. Eles esperavam que a aquisição fosse feita pela Estácio, na época muito mais conhecida. Além disso, os baianos não sabiam da existência do Grupo Ser Educacional e das Faculdades Maurício de Nassau. Culturalmente, existe uma “disputa” entre Pernambuco e Bahia. Sinceramente, não sei explicar os motivos. São dois estados completamente diferentes, com culturas diferentes. O que aconteceu é que, para alguns funcionários da fabac, era mais fácil aceitar a compra da instituição por um grupo do Sudeste do que por um grupo pernambucano. Após a finalização da aquisição o primeiro passo seria transformar a estrutura informal de gestão em uma estrutura profissional, privilegiando aqueles que aceitassem a cultura do grupo e que fossem capazes de disseminar essa cultura para os outros — estes teriam oportunidades de crescimento no grupo. Nós chegávamos para uma gestão de resultados. A transição aconteceu de forma muito rápida e as mudanças foram claras. A fabac tinha alguns problemas de infraestrutura e, inicialmente, foi feita uma reforma, com a construção de novas salas de aula e instalação de elevadores. Os alunos começaram a observar que a Faculdade Maurício de Nassau chegava para promover melhorias. A biblioteca, por exemplo, tinha déficit de livros, e além de reformada, recebeu títulos novos. Assim, os alunos percebiam que chegamos para agregar. Cada aquisição tem sua história. Em Maceió, adquirimos a Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (esamc), com cerca de mil alunos. Era realmente incrível como os alunos tinhamorgulho de ser esamc, principalmente porque, na época, havia pouquíssimos cursos na instituição. No entanto, o nome esamc era muito forte. Quando fizemos a aquisição da instituição, não havia organização acadêmica, existiam problemas de documentação e déficit de investimentos. No entanto, e apesar de todos os problemas, os alunos sentiram-se incomodados por serem incorporados por uma instituição ainda nova no mercado e ainda mais nova na cidade. Posso afirmar que, no início, sofremos com a desconfiança do mercado nos processos de aquisição porque ainda não éramos tão consolidados como os outros grandes grupos, e Maceió foi uma grande prova disso. Cada vez mais organizados e trabalhando mais e mais, o nosso corpo discente não parava de crescer. Ao mesmo tempo, investíamos cada vez mais em nossas estruturas, no corpo docente, em publicidade, ações sociais, etc. Eu tinha um objetivo: estar entre os grandes e para isso eu precisava trabalhar com altos padrões de qualidade e sempre fazendo igual às instituições de ponta do país, ou ainda melhor. O Nordeste é uma região carente, mas ao mesmo tempo, de inúmeras oportunidades. Eu queria ser líder na minha região, portanto, precisava ser ousado. Meu modelo de expansão era norteado pela escolha dos melhores cursos, dos melhores pontos — e isso incluía ainda ter o curso de Direito em todos eles —, sempre mantendo o foco no crescimento e nos resultados. Os resultados? Mantínhamos instituições enxutas nos custos, mas responsáveis no trato com os acionistas e, especialmente, com os alunos. Meu sonho começava a se realizar. A maior prova de que nosso trabalho estava dando certo foi quando, em 2009, a Faculdade Maurício de Nassau ganhou o prêmio JC Recall de Marcas na categoria Educação, como a marca de instituição superior particular mais lembrada, ultrapassando instituições tradicionais. O feito iria se repetir ainda em 2010, 2011, 2012, 2013 e 2014. Em 2010, adquirimos a faupe, em Recife, e esta foi uma incorporação muito difícil. Todos a viam como uma instituição extremamente organizada e os alunos acreditavam que o fato de ser uma instituição especializada lhe proporcionava um diferencial no mercado. Mas, internamente, quando executamos os processos de auditoria, percebemos que faltava muita coisa — organização acadêmica, legalização de cursos. Se não tivéssemos realizado a aquisição, é provável que ela não conseguisse sobreviver por um ou dois anos mais. Mas nossos planos de expansão não eram baseados apenas em aquisições. Também investíamos em crescimento orgânico e isso era bastante visível no Recife. Em apenas sete anos de funcionamento, a Faculdade Maurício de Nassau já contava com mais de quatro prédios e a cada semestre precisávamos de mais espaço e mais salas para receber os novos alunos. Foi então que adquirimos um novo imóvel e construímos um bloco especialmente projetado para os cursos de tecnologia, o Centro Superior de Tecnologia (cst). Ainda em 2010, a Faculdade Maurício de Nassau se consolidou como uma potência esportiva ao vencer os Jogos Universitários Brasileiros (jubs). Este foi um dos nossos investimentos adicionais. Oferecemos inúmeras bolsas de estudo para atletas e acreditamos que o esporte, aliado à educação, é uma forma de incentivar os jovens a se desenvolver e a adquirir cidadania. A conquista do jubs também rendeu à instituição o Troféu Eficiência concedido pela Confederação Brasileira do Desporto Universitário (cbdu). Já em Campina Grande, após apenas três anos de existência, a Faculdade Maurício de Nassau recebeu o Top Of Mind, do Sistema Correio de Comunicação. Nosso projeto de expansão e consolidação da marca continuou e, em 2011, adquirimos a Faculdade Tobias Barreto em Aracaju, Sergipe. Além dela, ultrapassamos a fronteira da região Nordeste e chegamos à região Norte, na capital no Pará, Belém. As regiões Norte e Nordeste são parecidas social e culturalmente. Nas duas, a carência por mão de obra qualificada e de instituições de ensino superior para atender a estas necessidades é latente. A nova unidade instalada na região Norte veio através da aquisição da Faculdade Universo (faune). O interessante dessa aquisição é que, apesar de ser uma instituição pequena, eram dezesseis sócios. Então, nós sentamos em uma mesa redonda com todos eles para negociar. O acordo foi fechado na véspera do Natal, quando todos os sócios estavam na cidade e poderiam assinar a documentação. A Nassau chegou ao mercado de Belém já com dez cursos aprovados pelo mec, no prédio onde antes funcionava a faune, cuja marca foi incorporada ao grupo. Com esta aquisição atingimos o número de 45 mil alunos e 3.500 colaboradores, distribuídos em treze campi, onze cidades de sete estados das regiões Norte e Nordeste e uma completa infraestrutura para preparar e produzir talentos. Entramos em 2012 com dezenas de projetos em andamento. Antes da abertura de capital realizada em 2013, aquele certamente foi o ano mais promissor. Demos o pontapé com o credenciamento para funcionamento de uma instituição na cidade de Caruaru, no agreste pernambucano e a 120 km de distância do Recife. A unidade Caruaru iniciou suas atividades no segundo semestre do ano, com quatro cursos — Administração, Ciências Contábeis, Pedagogia e Serviço Social, nove cursos de pós-graduação e mais oito cursos técnicos. Além de Caruaru, em 2012 também ampliamos a atuação em Salvador, com a unidade em Mercês, que funciona num colégio tradicional da cidade. Neste mesmo ano, investimos 15 milhões de reais na compra e reforma de todo a estrutura do antigo Colégio Doroteias para a instalação da Faculdade Maurício de Nassau em Fortaleza. Reformamos toda a estrutura, preservando e restaurando todos os prédios históricos do colégio, que é patrimônio da cidade. Entre todas as aquisições que já realizamos, o processo de transição mais fácil foi em Teresina. Isto foi em 2012, quando adquirimos três instituições no Piauí: Faculdade Aliança, Faculdade Piauiense de Teresina e Faculdade Piauiense de Parnaíba, que ficava no interior do estado. As faculdades já apresentavam uma boa organização interna. Claro que havia problemas: deficiência de acervo, alguns problemas de infraestrutura, mas nós conseguimos trabalhar muito bem os diretores locais — eles aceitaram e souberam entender muito rápido a cultura do Grupo Ser Educacional e da Faculdade Maurício de Nassau, e disseminar essa tradição. Entretanto, esse processo de compra também teve uma peculiaridade. Apesar de as três faculdades pertencerem ao mesmo grupo empresarial, essa aquisição foi uma das mais difíceis em termos de negociação, pois a parte documental correspondia a três empresas distintas. O que representava três auditorias, três contratos de locação, etc. Além disso, houve uma resistência por parte dos estudantes, porque, mais uma vez, eles imaginavam que a instituição seria adquirida por um grupo do Sudeste. Ao final de todo o processo, as três unidades do Piauí agregaram cerca de 6 mil alunos ao grupo, isso representava pouco mais de 10% do volume que tínhamos antes da negociação. Ainda em 2012, adquirimos a Faculdade de Tecnologia inesul, do Maranhão, e em Manaus, a nossa segunda unidade na região Norte. Com a abertura das novas unidades e a expansão das já existentes, o grupo cresceu em torno de 25% naquele ano. Fechamos 2012 com dezoito unidades, distribuídas em onze estados e com um total de 62 mil alunos. Posso afirmar que aquele foi um ano maravilhoso. Completamos nove anos de Grupo Ser Educacional repletos de muito trabalho e muitas realizações. Pode-se imaginar que nove anos são pouco tempo se compararmos com outras instituições. É auspicioso ressaltar, porém, que neste curto período de existência construímos para uma nova sociedade um novo conceito de educação superior em Pernambuco e na região Nordeste. Foi também no âmbito empresarial que veio o reconhecimento do nosso esforço. Com mais de 3 mil funcionários, o Grupo Ser Educacional recebeu Prêmio ISS Contribuintes do Desenvolvimento, parceria entre a Prefeiturado Recife e o Jornal do Commercio, por ser um dos maiores contribuintes com imposto sobre serviço (ISS) no Recife. É claro que essa evolução não aconteceu por um passe de mágica nem dependeu exclusivamente do esforço individual de poucos. Chegamos ao ponto em que estamos graças à conjunção de esforços, graças aos profissionais que integram nosso time: pessoas que se preocupam em construir o futuro de nossos jovens estudantes e de nosso país. Pessoas que, por méritos próprios, por sua elevada formação ética, profissional e moral tornaram-se os nossos referenciais, os símbolos que orientam as nossas ações. Iniciamos o ano de 2013 continuando o nosso projeto de expansão e adquirindo a Faculdade Decisão, localizada em Paulista, região metropolitana do Recife. A instituição possuía 650 alunos regularmente matriculados nos cursos superiores de graduação em Administração, Ciências Contábeis, Pedagogia, Sistema de Informação e Gestão de RH. A marca foi incorporada à Faculdade Joaquim Nabuco. As mudanças para alunos e colaboradores foram muito bem recebidas, já que a missão e os valores do Grupo Ser Educacional e da Faculdade Joaquim Nabuco trazem diferenciais estratégicos como a criatividade para o desenvolvimento de cursos que geram oportunidades reais de empreendedorismo e empregabilidade, uma necessidade local. Em seguida, adquirimos a Faculdade Juvêncio Terra, em Vitória da Conquista, interior da Bahia. A instituição possuía um campus com 33 salas de aula, três laboratórios de informática, biblioteca com 270m², área de convivência comum, além dos departamentos administrativos. Toda a estrutura passou por adaptações para atingir os padrões da Faculdade Maurício de Nassau. A instituição, que pertencia ao Grupo Educacional Juvêncio Terra, atendia a 530 alunos nos cursos de Administração, Secretariado Executivo, Relações Públicas, Ciência da Informação, Biblioteconomia, Filosofia e Psicologia. Todos os alunos foram incorporados ao Grupo Ser Educacional. A relevância da aquisição foi simples: Vitória da Conquista é a terceira maior cidade do estado da Bahia e do interior do Nordeste. Mesmo com toda a expansão, Recife ainda é o grande desafio do Grupo Ser Educacional. Não apenas por ser a nossa maior instituição, com o maior número de alunos, mas porque, como temos a imagem extremamente consolidada, não podemos nos dar ao luxo de nos acomodar. Hoje, existe uma competição acirrada no mercado de educação do Recife e outros players chegam a todo momento para buscar a fatia de mercado que nós possuímos. Então, só continuaremos a crescer se continuarmos investindo. Ainda em 2013, adquirimos mais um prédio histórico no centro do Recife. Os oito andares do JK, prédio localizado na esquina de uma das mais movimentadas avenidas da cidade, passou a abrigar os alunos do ensino técnico da uninassau. O JK se junta aos outros prédios históricos que o Grupo Ser possui no centro do Recife. Esse projeto faz parte da nossa política de revitalização do centro. Por meio dele, adquirimos e reformamos prédios históricos, mantendo as características originais, mas dando condições de utilização e colocando-os de volta à atividade. Além do JK, finalizamos a construção de uma unidade no bairro de Boa Viagem, zona sul da cidade. A construção, de onze andares, vai atender à nossa demanda de alunos da região e contará com cursos de graduação e pós-graduação, além dos cursos técnicos. O final de 2013, com a abertura de capital realizada pelo grupo e o valor arrecadado, nos proporcionou fôlego para novas aquisições no ano seguinte. Iniciamos 2014 com a aquisição da Faculdade Anglo Líder (fal), em São Lourenço da Mata, Pernambuco, que foi incorporada às Faculdades Joaquim Nabuco. A aquisição de uma nova unidade em São Lourenço da Mata — uma cidade que apesar de estar na região metropolitana do Recife, contava com poucas opções de ensino superior — veio para fortalecer e consolidar ainda mais o Grupo Ser Educacional como líder de mercado no Norte e Nordeste. A fal era a única instituição de ensino superior de São Lourenço da Mata. O alto número de alunos dessa cidade matriculados nas instituições do grupo localizadas em Recife era um índice claro dessa demanda. Em seguida, adquirimos a Faculdade Santa Emília (fase), que agregou pouco mais de 1.500 estudantes ao grupo e tinha sede em Olinda, cidade vizinha ao Recife. De fato, o crescimento orgânico do grupo, através de suas aquisições, impulsiona a economia local e incrementa a mão de obra qualificada. Apesar de ser uma cidade mais antiga que Recife, Olinda ainda sobrevive de turismo e é considerada uma cidade-dormitório. Nossas últimas aquisições, até o lançamento deste livro, foram a Universidade da Amazônia (unama) e a Faculdade Integrada Tapajós (fit), ambas no Pará. Sem dúvida, esta foi a nossa maior e mais difícil aquisição. A negociação foi feita com seis famílias sócias, cada qual com um pensamento diferente. A quantidade de sócios e a divergência de pensamentos torna o processo mais lento porque é preciso chegar a um consenso. Foi a negociação mais desgastante que realizamos. Um ano e meio depois de seu início, assumimos as instituições em outubro de 2014. Com essas negociações, atingimos o número de trinta unidades e presença em onze estados. Atendemos mais de 120 mil alunos. E graças ao trabalho desenvolvido e aos números que representamos, nos tornamos o maior grupo de educação das regiões Norte e Nordeste. “Quem conhece o profissional Janguiê Diniz de perto vai concordar comigo. Sua principal característica, que salta aos olhos de tão evidente, é a sua incrível capacidade de trabalho. Janguiê é uma máquina de trabalhar. Organiza seu tempo com precisão britânica. Tudo controla, inclusive suas próprias emoções. Desde cedo aprendeu a importância do trabalho organizado. Aliada a uma personalidade determinada a atingir objetivos previamente traçados, Janguiê transpôs as dificuldades enormes que surgiram na sua trajetória. Hoje, vitorioso, reconhecido pela sua capacidade empreendedora, não mudou sua maneira de encarar a vida. A cada dia que passa continua a exercer seu ofício como dantes, criando situações desafiantes como se por detrás de seu percurso profissional não houvesse um grupo educacional construído e consolidado pelo seu espírito inquieto. Todo dia é um novo desafio que ele se propõe a ultrapassar. Mente ágil, raciocínio rápido e objetivo, fino no trato e no trajar, duro e inflexível quando a situação assim o exige, enxerga sempre os macro e microambientes de seu negócio como poucos. Quem conhece o homem Janguiê Diniz de perto também vai concordar comigo. Uma pessoa determinada. Determinada a conseguir o que deseja. Um homem que criou entre si e a grande maioria das pessoas uma barreira aparentemente instransponível e inacessível para acesso à sua intimidade. Inicialmente desconfiado nos primeiros contatos, barreira içada pelo acúmulo de sofrimentos que carregou da infância e da juventude de amadurecimento precoce, vai aos poucos revelando quem realmente é. Carinhoso com seus amigos. Reconhecido e grato a quem lhe ajudou no passado. Um ser humano solidário, excelente esposo e pai de família exemplar. É assim que vejo Janguiê Diniz. Profissional multifacetado. Homem determinado. Nada do que conseguiu veio por acaso. É fruto de muito trabalho e dedicação Os sucessos profissional e pessoal vieram como consequência natural. Sua história de vida com certeza faria parte da seção “Meu Tipo Inesquecível”, da antiga revista Seleções do Reader’s Digest, muito conhecida há anos atrás.” Antônio Vasques, Primeiro diretor de expansão do Grupo Ser Educacional Faculdade Mauricio de Nassau - Fortaleza - CE Faculdade Maurício de Nassau - Lauro de Freitas - BA Faculdade Maurício de Nassau - Maceió - AL Unidade Unama - Belém - PA Faculdade Maurício de Nassau - Campina Grande - PB Faculdade Maurício de Nassau - Natal - RN PARTE 4 A Faculdade Joaquim Nabuco No ano de 2007, o panorama era o seguinte: a Faculdade Maurício de Nassau continuava crescendo,a cada semestre conseguíamos autorização para a abertura de novos cursos, mas eu ainda enxergava em Pernambuco uma demanda de mercado que não era atendida. O período era propício para crescer. A educação era um setor que estava recebendo atenção do governo e o número de faculdades particulares estava em pleno desenvolvimento. Claro que, como qualquer empresa, era provável que algumas delas não resistiriam durante muito tempo e acabariam sendo adquiridas por outros grupos educacionais. Acompanhei na Bahia um projeto parecido com o que eu viria a implantar na Faculdade Joaquim Nabuco. Um amigo meu, que fundou a Faculdade de Tecnologia e Ciências (ftc), ergueu a instituição em uma região mais distante, voltada a um público de maior poder aquisitivo que tinha condições de ir de carro até lá. Ao mesmo tempo, ele adquiriu um prédio no centro de Salvador e instalou a Faculdade Cidade, uma instituição para um público com renda per capita diferenciada, à qual o aluno poderia chegar facilmente de ônibus. Então, tive a ideia de aplicar o mesmo conceito aqui em Pernambuco. Para chegar ao nome Faculdade Joaquim Nabuco, percorri as mesmas etapas da escolha do nome da Faculdade Maurício de Nassau. A ideia era não vincular o nome da instituição a uma sigla e, baseado em uma nova pesquisa, percebemos que o nome de Joaquim Nabuco era bastante aceito e admirado pelo povo pernambucano. Joaquim Nabuco foi um político, diplomata, historiador, jurista e jornalista brasileiro formado pela Faculdade de Direito do Recife. Também foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e um dos grandes diplomatas do Império do Brasil (1822-1889), além de orador, poeta e memorialista. No entanto, Nabuco ficou mais conhecido pela sua luta em favor dos escravos, um paradoxo para quem foi educado por uma família escravocrata. Joaquim Nabuco, no final do século XIX, participou ativamente da campanha abolicionista que culminou com a abolição da escravatura em 1888. Definido o nome, começamos a pensar na marca que representaria a instituição. Ela deveria representar a união entre as raças, então, pensamos em duas mãos se unindo, como a representação de brancos e negros. Junto às mãos, acrescentamos a frase “Libertas et Veritas” (Liberdade e Verdade) e a tagline, que é a promessa de marca, “Educação superior ao seu alcance”. A Nabuco tinha exatamente esta proposta: atingir um público que não poderia arcar com o custo de outras faculdades particulares, trabalhadores que precisam estudar próximo ao local de trabalho para reduzir os custos com deslocamento e que, ao mesmo tempo, querem investir em um ensino superior que transmita qualidade, dinamismo e seja voltado para o mercado. Com o nome escolhido e a marca pronta, elaboramos o projeto pedagógico e demos entrada em duas unidades da Joaquim Nabuco — uma para ser instalada na Avenida Guararapes, centro do Recife, e a outra na cidade de Paulista, na região metropolitana do Recife. A unidade de Paulista recebeu o credenciamento primeiro, em 30 de abril de 2007, através da Portaria nº 388, e começou a funcionar com aproximadamente trezentos alunos e três cursos — Jornalismo e Publicidade e Propaganda, através da Portaria nº 374, e Turismo, através da Portaria nº 375. No mesmo ano, o curso de Administração foi autorizado em 25 de maio de 2007, mediante a Portaria nº 458, e o curso de Direito, em 26 de setembro de 2007, pela Portaria nº 834. Já a unidade do Recife teve a portaria de credenciamento publicada em 23 de outubro de 2007, no Diário Oficial da União, sob o número 998. No mesmo dia, foram autorizados os cursos de Administração, através da Portaria nº 893, Jornalismo e Publicidade e Propaganda, pelo Portaria nº 891, e Sistemas de Informação e Turismo, por meio da Portaria nº 892. Com o lema “A educação ao alcance de todos”, a Faculdade Joaquim Nabuco sociabiliza o conhecimento a fim de propiciar a valorização do ser humano, a transformação do seu meio social e a melhoria de sua qualidade de vida. A Nabuco passou a oferecer cursos superiores a um custo menor e com maior acessibilidade para as classes C e D, mantendo, no entanto, o padrão de excelência do Grupo Ser Educacional, com estrutura completa e docentes bem preparados. A maioria das pessoas pode questionar esse tipo de investimento, principalmente pelo risco de os alunos da Nassau deixarem a instituição e migrarem para a Nabuco, já que ela oferecia os mesmos cursos por um preço mais baixo, mas este não era um medo meu. As duas instituições foram pensadas para um público-alvo diferente e, apesar de possuírem estrutura física similar de laboratórios, bibliotecas e todo o resto, elas não são concorrentes entre si. A Nabuco tem localização estratégica para aqueles que utilizam preferencialmente o transporte público — a unidade Recife fica em um dos principais corredores de ônibus da cidade. Já na Maurício de Nassau, há estrutura poliesportiva que a Nabuco não comporta. O sucesso foi imediato, tanto em Paulista quanto no Recife. A cada semestre abríamos novos cursos e a busca por eles é cada vez maior. O investimento em estrutura para a instituição, assim como na Faculdade Maurício de Nassau, foi contínuo, e os resultados dessas melhorias fizeram com que, em 2013, a marca da Faculdade Joaquim Nabuco passasse por uma reformulação para traduzir melhor essa postura de aprimoramento. Apesar da mudança na marca, foram mantidas as características originais e os princípios e valores que fundamentam nossa instituição e expressam o nosso comportamento. A missão da Faculdade Joaquim Nabuco é democratizar o conhecimento e o ensino, proporcionar ascensão social e profissional e valorizar o ser humano. A marca da Joaquim Nabuco passou a ter uma tipografia mais moderna, formas arredondadas e na cor preta, para possibilitar maior contraste. Manteve, porém, seus elementos clássicos, ao mesmo tempo que lançou o olhar para o futuro. A força particular do dístico “Libertas Et Veritas” passou a integrar o símbolo da marca, e a tagline “Educação superior ao seu alcance” agora oferece maior legibilidade e visibilidade à nossa promessa. Hoje a Faculdade Joaquim Nabuco oferece 24 cursos de graduação, além dos a distância, de pós-graduação e de tecnólogos e técnicos, que são o forte da instituição, pois propiciam uma formação mais rápida (dois anos). A instituição está dando tão certo que expandimos a marca para mais duas cidades. Além do Recife e Paulista, ela está presente em Olinda e São Lourenço da Mata, atendendo mais de 12 mil alunos. A mudança de faculdade para centro universitário e o curso de Medicina Com o passar dos anos, as Faculdades Maurício de Nassau cresciam visivelmente a passos largos, principalmente no Recife. Junto com o crescimento orgânico do Grupo Ser, investíamos cada vez mais na infraestrutura e no corpo docente da instituição. O resultado era que o nível de aceitação da faculdade era cada vez maior e o número de alunos crescia a cada novo semestre. Provavelmente vocês já ouviram um monte de siglas para os nomes das instituições de ensino superior, mas a verdade é que só existem três tipos delas no Brasil. De acordo com o Decreto nº 5.773/06, as instituições de educação superior, de acordo com sua organização e respectivas prerrogativas acadêmicas, são credenciadas como faculdades, centros universitários e universidades. As instituições são credenciadas originalmente como faculdades. O credenciamento como universidade ou centro universitário, com as consequentes prerrogativas de autonomia, depende do credenciamento específico de instituição já credenciada, em funcionamento regular e com padrão satisfatório de qualidade. Antes de continuar a história, preciso explicar que as universidades se caracterizam pela indissociabilidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão. São instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano, que se caracterizam por produção intelectual institucionalizada medianteo estudo sistemático dos temas e problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e cultural quanto regional e nacional; ao menos um terço do corpo docente deve possuir titulação acadêmica de mestrado ou doutorado; e um terço do corpo docente deve trabalhar em regime de tempo integral. A criação de universidades federais se dá por iniciativa do Poder Executivo, mediante projeto de lei encaminhado ao Congresso Nacional. Já a criação de universidades privadas se dá por transformação de instituições de ensino superior já existentes e que atendam ao disposto na legislação pertinente. São centros universitários as instituições de ensino superior pluricurriculares, abrangendo uma ou mais áreas do conhecimento, que se caracterizam pela excelência do ensino oferecido, comprovada pela qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar. Os centros universitários credenciados têm autonomia para criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior. Assim, seguindo a legislação, primeiro nos credenciamos como faculdade. Contudo, com o passar dos anos, a Faculdade Maurício de Nassau se tornou uma instituição plurricurricular, com cursos nas áreas de humanas, exatas, biológicas e saúde, tanto na graduação como nos cursos tecnólogos e de pós-graduação. E, em meados de 2008, quando nossa oferta de cursos já passava de 40 opções de graduação e 200 cursos de extensão, e já havíamos começado o projeto de expansão para outras cidades e estados, avaliamos que havia chegado a hora de dar um passo adiante. Queríamos nos tornar centro universitário. Para tanto, as instituições devem ter condições econômicas, financeiras e estruturais de manutenção de atividades de ensino de graduação com nível de razoabilidade profissional e técnica, de integração institucional com empresas públicas e privadas, conselhos, sindicatos e outras entidades organizadas em função de mercados de trabalho e de promoção do exercício profissional, bem como de programas de acompanhamento e de promoção de educação continuada para egressos e para atendimento a demandas sociais de formação, especialização, adaptação e atualização profissional. Além disso, devem possuir corpo docente com pelo menos um terço de professores com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado, pelo menos um quinto de professores em regime de tempo integral e não ter nenhum pedido de abertura de curso indeferido durante o processo. Assim como as universidades, um centro universitário adquire autonomia para organizar e extinguir, em sua sede, novos programas educacionais e cursos de graduação e pós-graduação que atendam as demandas de mercado, implementando programas de extensão, de pesquisa, maior empregabilidade e mais oportunidade de intercâmbios nacionais e internacionais, podendo emitir e registrar os diplomas dos estudantes formados pelo centro universitário, fazendo com que o processo aconteça com muito mais agilidade. A qualidade de ensino sempre foi uma premissa da Faculdade Maurício de Nassau. Então, atingir a meta de mestres e doutores em nosso corpo docente não era um empecilho. Investíamos muito e fortemente em infraestrutura. Os ambientes didático- acadêmicos e administrativos atendiam aos requisitos de qualidade, conforto e segurança exigidos pelo mec. O processo de autorização já durava mais de três anos. Eram visitas recorrentes do mec para avaliações, e continuávamos solicitando e recebendo autorização para disponibilizar novos cursos, sem nenhuma reprovação. Em 2012, a Faculdade Maurício de Nassau já disponibilizava mais de seiscentas salas de aula equipadas, na totalidade, com multimídia de apoio ao ensino. Os laboratórios foram pensados e construídos com cuidado acadêmico para atender aos projetos pedagógicos dos cursos. Juntos, os laboratórios de informática somavam mais de 650 máquinas conectadas à internet, que servem ao corpo social da Nassau. Toda essa estrutura estava distribuída em sete blocos que abrigam as salas de aula, biblioteca, laboratórios e um prédio destinado a estacionamento (edifício-garagem). Os mais de 18 mil alunos que estudavam na instituição já dispunham de clínicas- escola para atendimento às necessidades didáticas dos cursos de Nutrição, Fisioterapia, Enfermagem e Odontologia, que também prestam assistência à comunidade, ginásio de esportes, e outros ambientes esportivos que servem ao curso de Educação Física e à prática de esportes, bastante incentivada pela instituição. Para os alunos do curso de Direito, havia sido criado o Núcleo de Práticas Jurídicas, que se destina ao desenvolvimento de práticas reais e simuladas aprendidas em sala de aula, e onde atualmente é oferecido atendimento ao público. Por reconhecer a importância da prática de intercâmbios, nacionais e internacionais, a faculdade já buscava parcerias com instituições no exterior, sempre buscando o aprimoramento dos estudantes e garantindo o melhor em termos de capacitação. Em 28 de maio de 2012, o então ministro da Educação Aloízio Mercadante credenciou a Faculdade Maurício de Nassau como Centro Universitário Maurício de Nassau, de acordo com a portaria nº 701, publicada no Diário Oficial do dia seguinte. Começava ali uma nova etapa, repleta de novos desafios. E o primeiro passo seria uma reformulação da marca, que passaria a ser UNINASSAU — Centro Universitário Maurício de Nassau. Além disso, era preciso mostrar a alunos e funcionários as mudanças que aconteceriam, e que agora, como centro universitário, teríamos ainda mais trabalho a fazer. Alguns podem pensar que a marca não é tão importante, pois a identidade de uma instituição de ensino se faz com suas ações. De fato, ao longo do tempo, o conjunto de ações vai construir, gradualmente, uma imagem pública da instituição. No entanto, a marca se consolida pelas ações e pela associação simbólica. No nosso caso, o brasão. No caso da uninassau, foram adicionados ao brasão detalhes que representam a nossa evolução, crescimento e modernidade. A transição para Centro Universitário Maurício de Nassau aconteceu de forma tranquila. Foi impressionante ver o quanto essa mudança fez crescer o orgulho que nossos alunos já tinham da instituição. Termos nos tornado a uninassau foi, além do reconhecimento de nove anos repletos de muito trabalho e muitas realizações, um fortalecimento de nossa marca. Claro que, ao longo daqueles nove anos, promovemos um refinamento em nossa visão, em nossa missão e em nosso modelo de atuação, tudo isso buscando refletir, de forma mais atualizada e moderna, o nosso jeito de ser e de interagir com o mundo globalizado, mas sempre mantendo nossos valores e tradições regionais. Mas, muito mais que isso, nós temos orgulho de ser um grupo educacional genuinamente nordestino e de preservar nossas características. Nossa visão se refere a uma sociedade em constante evolução, enquanto nossa missão visa identificar aquilo que se está construindo e a forma como o fazemos. Os resultados que alcançamos nos últimos anos foram fundamentais para confirmar que nossa visão da sociedade e de ensino estava em sintonia com as expectativas e com as necessidades da sociedade em que atuamos. Sem dúvida, 2012 foi um ano histórico para o Grupo Ser Educacional. Além do credenciamento como Centro Universitário Maurício de Nassau, tivemos outras duas conquistas importantes: a autorização para o curso de Medicina e o recebimento da certificação iso 9000. A autorização para oferecer esse curso chegou no momento em que o Recife, assim como o restante do Brasil, apresentava um déficit no número de médicos. Demos início ao projeto em 2008, com um investimento de 5 milhões de reais para a construção de laboratórios, aquisição de livros, contratação de professores e convênios com unidades hospitalares. Mais uma vez, seriam inúmeras visitas do mec e avaliações sobre as condições da instituição. Além de aprovação do mec, o curso também contou com a autorização do Conselho Nacional de Medicina (cnm), que aprovoua qualidade dos laboratórios, da matriz curricular e avaliou a demanda de profissionais da área na região. Os dois órgãos exigiram convênio com a rede pública de hospitais, que no caso da uninassau se deu com toda a rede estadual e municipal, além de alguns hospitais particulares. Desde o início do projeto aquele era um dos nossos focos. Não queríamos apenas um hospital. Por isso fechamos parceria com todos os hospitais públicos e negociamos com alguns da rede privada: queríamos garantir aos nossos alunos a aprendizagem prática do projeto pedagógico oferecido em sala de aula. A certificação iso veio da questão ambiental, que também é uma preocupação do Grupo Ser Educacional desde a sua fundação. A uninassau deu início ao processo de certificação em meados de 2010, assegurando que os processos necessários para o Sistema de Gestão Integrada fossem estabelecidos, implantados e mantidos, de acordo com os requisitos da norma nbr iso 9001:2008. O processo de certificação da iso 9000 e 14000, que designam, respectivamente, o grupo de normas técnicas estabelecendo um modelo de gestão de qualidade e a série de diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro da organização, foi finalizado no final de 2012, colocando a uninassau como a única instituição de ensino da região já com os processos de certificação concluídos em todos os cursos de graduação, pós-graduação e extensão. Receber a recomendação para uma certificação do porte da iso 9001 demonstra nosso compromisso com a qualidade e satisfação dos nossos alunos e clientes, além de nossa preocupação em garantir que os serviços prestados atendam efetivamente os regulamentos, legislação e requisitos aplicáveis. Mas, acima de tudo, é o reconhecimento de nosso trabalho como referência no mercado. Ter a certificação é ter um modelo de gestão reconhecido nacional e internacionalmente. A iso 9001 é aplicação da melhoria contínua, o que significa dizer que estamos sempre trabalhando pra amanhã sermos melhores que hoje. A responsabilidade social As minhas atividades e as do Grupo Ser Educacional não se restringem apenas ao ensino superior. Desde que abri a Faculdade Maurício de Nassau e criei a marca Ser Educacional, só fizemos crescer. E diante de um crescimento tão significativo, percebi que poderia fazer muito mais pela sociedade do que apenas contribuir com a educação e formação de cidadãos qualificados. Antes de falar sobre o Instituto Ser Educacional, preciso explicar uma coisa. Ter uma postura socialmente responsável e nos preocuparmos com a cidadania não significa dizer que uma empresa atingiu seu máximo em produtividade e deixou de buscar a excelência na qualidade de seus produtos ou serviços. Ao contrário, assumindo uma postura de preocupação com ações de responsabilidade social, todas as empresas estão agregando valor às suas marcas, e isso gera retornos positivos, como o aumento do nível de confiança dos consumidores. As empresas fazem parte de um sistema complexo em que fazem constantes trocas de recursos e energias. Considero que é dever das empresas contribuir na tentativa de minimizar as dificuldades vividas pela população, principalmente porque, se contribuirmos para a melhora das condições de vida do povo, estaremos ampliando o mercado consumidor. Foi com o pensamento de agradecer à sociedade por todo o sucesso que a Faculdade Maurício de Nassau vinha tendo que fundei o Instituto Ser Educacional e, posteriormente, o Instituto Janguiê Diniz, e passei a investir fortemente em ações de responsabilidade social. Fundado em 2003, o Instituto Ser Educacional tem se destacado pelas ações de inclusão social, desenvolvimento social e econômico, defesa do meio ambiente, memória cultural, de produção artística e do patrimônio cultural, além de fomentar o desenvolvimento econômico e social da região em que está inserido, prestando assessoria aos movimentos sociais organizados e instituições governamentais na elaboração e execução de projetos sociais efetivos, de modo a torná-los agentes multiplicadores do bem. Até o final de 2014, o instituto mantinha 23 projetos, alguns executados durante todo o ano e outros repetidos anualmente, como a campanha do “Natal Solidário”. Em todas as ações é possível ver a participação de alunos e colaboradores, além de parceiros externos. Em todas as unidades de instituições do Grupo Ser Educacional existe atuação do Instituto Ser. Entre os projetos que acontecem em todas as unidades, poderia destacar o “Faculdade na Comunidade”, um evento anual destinado a oferecer à comunidade diversas atividades culturais, sociais, profissionalizantes e de saúde que possibilitem a melhoria da qualidade de vida de toda a população atendida; o “Trote Legal”, realizado semestralmente com os alunos calouros e destinado a angariar materiais escolares, roupas e alimentos para serem destinados à população carente e entidades beneficentes; o “Ação Tropical”, que tem como objetivo envolver a comunidade acadêmica na conscientização em prol da preservação do meio ambiente por meio da limpeza das praias e praças da cidade; a “Páscoa Solidária”, uma campanha de arrecadação de artigos de chocolate para doação à comunidade carente, visando despertar a solidariedade na comunidade acadêmica; o “Feirão do Imposto”, nas unidades que têm o “impostômetro” (um contador que exibe o valor de impostos pagos pelos brasileiros); a campanha de doação de sangue, órgãos e tecidos; e vários outros. Além do “impostômetro”, temos também o “verdômetro”: uma ação ambiental a fim de informar e sensibilizar a sociedade sobre a necessidade de atitudes concretas no que se refere à preservação do meio ambiente, em especial a Mata Atlântica. Consiste em um contador eletrônico que aponta a quantidade de mudas destinadas ao reflorestamento da Mata Atlântica, além de transmitir mensagens ambientais educativas. Outras iniciativas que merecem destaque são as atividades de cultura de paz, participação política, ações humanitárias (Haiti e Mata Sul), trotes universitários, faculdade na comunidade, ações de sensibilização e conscientização social, bem como a constituição do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau. Dentro das ações de cultura de paz destacam-se as caminhadas pela paz, os programas “Gente que Faz a Paz”, “Empoderamento Econômico para Jovens Mulheres”, em parceria com a Nike Foundation, o contador de homicídios, o posto de recolhimento de armas de fogo, o banco de DNA dos familiares de desaparecidos políticos, o prêmio Maria da Penha, dentre outros. Dentre as ações humanitárias, ganharam evidência a Corrente Solidária Haiti e o Comitê Ecumênico de Apoio às Vítimas das Chuvas em Pernambuco. No entanto, uma das ações do Instituto Ser Educacional que me deixa mais feliz e em que percebo, de fato, o quanto nossa sociedade precisa de iniciativas como essa é o projeto “Faculdade na Comunidade”. O programa está em execução há mais de seis anos e objetiva a comunicação com a comunidade de modo que ela participe ativamente da vida acadêmica. Da mesma forma, a instituição também se compromete efetivamente com a melhoria das condições de vida da comunidade, ao repartir com ela o saber que produz e as informações que detém. Como isso acontece? É simples. O Instituto Ser Educacional promove a ação através de atendimentos na área de saúde, bem como realização de palestras, debates, cursos, exposições, brincadeiras, jogos, atividades esportivas, retirada de documentos, dentre outros. Apenas neste projeto já foram envolvidos mais de 10 mil pessoas, entre professores, alunos e colaboradores, e mais de 20 mil beneficiados. Além desses projetos citados, uma de nossas ações mais conhecidas é a Maratona Internacional Maurício de Nassau. Um grande evento de atletismo que reúne anualmente atletas renomados do Brasil e do mundo. Ao longo das cinco edições em que foi realizada, a maratona vem contribuindo para consolidar o estado de Pernambuco como uma referência nacional em eventos para este tipo de esporte. Já na primeira edição, em 2010, a maratona reuniu 2.500participantes, entre atletas de elite masculinos e femininos nacionais e internacionais, corredores de rua, atletas amadores, para-atletas e simpatizantes do esporte, sem discriminação de gênero e faixa etária. Hoje, a Maratona Internacional Maurício de Nassau já faz parte do calendário nacional e internacional de inúmeros atletas e de pessoas que aproveitam o evento para conhecer ou rever a cidade do Recife. Além da atuação do Instituto Ser Educacional, fundei em 2012 o Instituto Janguiê Diniz. A finalidade é prestar assistência social gratuita nas áreas de educação, saúde, cultura, meio ambiente, esporte e outras de interesse social, atendendo toda a população, isoladamente ou em parceria com a União, os estados e os municípios. Hoje, o Instituto Janguiê Diniz possui representação nos estados de Pernambuco, Paraíba e Bahia. Uma das suas principais ações é o “Programa Gente de Futuro”, cujo objetivo é promover a formação de microempreendedores. Participam do projeto pequenos empreendedores de comunidades menos favorecidas. Os participantes realizam aulas de informática básica, empreendedorismo, técnicas de vendas, qualidade, comunicação e relações humanas, planejamento financeiro, oficinas de estímulo à leitura e oficinas temáticas. Ao final do curso, todos elaboram um plano de negócios para melhoria da atividade que já é realizada. O plano é submetido à avaliação e os aprovados são contemplados com a concessão de microcrédito. O financiamento tem juros sociais, cuja moeda é contabilizada pela prestação de serviços à comunidade, sempre de acordo com o perfil e as habilidades do empreendedor. Apenas neste projeto já foram mais de cem pessoas capacitadas e mais de cinquenta tiveram os projetos aprovados para o recebimento do microcrédito. Os projetos de responsabilidade social realizados por cada empresa são contribuições imprescindíveis para que possamos construir um novo mundo menos desigual e reduzir os problemas existentes e tão evidentes na atual conjuntura social em que vivemos. Tenho muito orgulho do trabalho feito pelo Instituto Ser Educacional e pelo Instituto Janguiê Diniz. Atuar com responsabilidade social em todas as nossas atividades é um desafio que vencemos a cada dia e, ao longo dos anos, estamos aperfeiçoando o nosso jeito de interagir com a sociedade e incorporando ainda mais o conceito de responsabilidade social às práticas. O Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau Além das instituições de ensino, o Grupo Ser Educacional criou o Instituto Maurício de Nassau. De 2003 a 2010, o instituto desenvolvia trabalhos de pesquisas políticas, sociais, econômicas, de mercado e cientificas, agregando ainda mais valor ao nosso grupo e divulgando informações relevantes que contribuíssem para a compreensão da realidade do estado de Pernambuco e do Brasil. Em 2012, o nome mudou para Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (ipmn) e o projeto passou a ser uma ong sem fins lucrativos, conveniada ao Grupo Ser Educacional e com os mesmos objetivos já estabelecidos. A proposta do ipmn é gerar conteúdo e informação para enriquecer o debate sobre os mais diferentes aspectos da economia e do mercado de Pernambuco. Com isso, estimulamos a prática de melhores estratégicas para o desenvolvimento da região. As pesquisas do instituto envolvem questões temáticas e sistemáticas. Quanto às primeiras, abordamos temas pontuais como o mercado de veículos, imóveis, planos de saúde, academias, entre outros. Já em relação às segundas, aborda questões como o valor da cesta básica, pesquisas sobre mobilidade urbana e índice de confiança do consumidor — um indicador econômico que funciona como uma prévia da economia, indicando se o consumidor está propenso ao consumo ou não. Todos os meses, trazemos novas informações e isso nos proporcionou uma grande aceitação do público. Hoje, com centenas de pesquisas realizadas e depois de anos de atuação, o ipmn fechou parceria com um grande veículo de comunicação de Pernambuco e passou a ser fonte de pesquisas eleitorais municipais e estaduais. Enquanto fornecíamos dados de pesquisas sobre economia, empregos, cesta básica e outros dados sociais, o trabalho fluía sem problemas. Entretanto, quando a atuação passa a envolver pesquisas políticas, a visibilidade aumenta e acabam surgindo algumas polêmicas. Foi em 2008 que o Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau começou a realizar pesquisas de intenção de voto para a eleição municipal do Recife. Naquele ano, realizamos aproximadamente oito pesquisas sobre a disputa pela prefeitura da cidade e existiam dois candidatos reconhecidos pela imprensa e pelo universo político como favoritos: Mendonça Filho e Cadoca. Ambos apareciam em pesquisas de variados institutos liderando a disputa. O ipmn divulgou os resultados de sua primeira pesquisa e, ao contrário dos resultados apresentados pelos outros institutos, trazíamos João da Costa, candidato do PT apoiado pelo então prefeito João Paulo, em condições reais de vencer o pleito. Quando o ipmn divulgou a sua primeira pesquisa mostrando que João da Costa, Mendonça e Cadoca estavam embolados na preferência dos eleitores, passamos a ser alvo direto de críticas. Para a população e para os candidatos, era difícil acreditar que um instituto novo estava contradizendo as fontes tradicionais de pesquisas eleitorais. Não posso negar que é difícil competir com empresas tradicionais, neste caso institutos de pesquisa. O caminho para qualquer um que seja novo em um mercado, porém, é comprovar sua qualidade e eficiência e assim conquistar seu público e seus méritos. Quando pensei em criar o Instituto, profissionais competentes e comprometidos eram essenciais. Foi assim com o Grupo Ser Educacional e não haveria outra forma de dar certo. Eu confiava na equipe do ipmn e queria que eles confiassem em si mesmos também. Então, pedi apenas que eles executassem o trabalho que sabiam fazer e não ligassem para os resultados de outros institutos. A recomendação valeu a pena. Continuamos divulgando os nossos resultados e não demorou até que as pesquisas dos outros institutos mostrassem o que o ipmn já tinha antecipado: João da Costa estava na disputa e seria eleito prefeito do Recife. As urnas confirmaram o resultado e nós começamos a aparecer como referência em pesquisa política. Em 2010, o ipmn alçou novos voos e realizamos pesquisas para a disputa pelo governo do estado. Nos dois anos anteriores à eleição para governador intensificamos os investimentos no instituto, qualificamos ainda mais a equipe e ofereci as condições necessárias para a realização de pesquisas maiores. O instituto é uma parte do Grupo Ser Educacional e, portanto, também queria que ele se tornasse uma referência nacional. Na eleição de 2010, o ipmn mostrou, inicialmente, o candidato Jarbas Vasconcelos em condições de motivar o segundo turno contra o governador Eduardo Campos, candidato à reeleição. Porém, as pesquisas seguintes do ipmn mostraram as chances de sucesso eleitoral de Campos já no primeiro turno. Na eleição para governo de Pernambuco em 2014, o ipmn começou a divulgar pesquisas já no ano anterior. Em 2013, a equipe do ipmn constatou que existia o fenômeno “eduardismo” e que este seria capaz de proporcionar o sucesso eleitoral do candidato apoiado pelo então governador Eduardo Campos. Como corriqueiro, críticas foram feitas ao ipmn. Em agosto, o ipmn foi o primeiro instituto a mostrar, também, o crescimento eleitoral de Fernando Bezerra Coelho, candidato do PSB ao Senado. E, mais uma vez, acertamos. O trabalho do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau, assim como o das outras marcas que compõem o Grupo Ser Educacional, é feito por profissionais competentes e comprometidos com resultados, o que nos dá e transmite credibilidade. Ao mesmo tempo, nossos alunos também podem participar das atividades desenvolvidas pelo ipmn como pesquisadores, o que traz ainda mais conhecimento para cada um deles. Uma empresa na Bolsa de Valores Muitos acreditam que os empreendedores já nascem prontos, que eles simplesmentetem o dom para empreender. Existe um pouco de verdade nessa afirmação. Entretanto, posso afirmar com conhecimento de causa que a vida de todos os empreendedores não é fácil. Em vez de noites de sono, são muitas as noites gastas trabalhando em projetos constantemente planejados, estudados e avaliados. Isto sem falar em tudo de que é preciso abdicar ou renunciar em prol dos empreendimentos. Com todas essas características, espera-se também que o empreendedor, seja destemido. Errado! Destemidas são aquelas pessoas que não têm medo, que não têm receio. Não se espera isso de um empreendedor porque no empreendedorismo não ter medo é bastante perigoso. Pessoas destemidas se arriscam demais. Não planejam e nem avaliam seus atos. Por consequência, acabam não sabendo tomar as melhores decisões. Pessoas destemidas não calculam os riscos, deixam-se levar pelas circunstâncias e acreditam que nada vai dar errado. Então, se não podemos ser destemidos, os empreendedores devem ser medrosos? Também não. O que diferencia o empreendedor das outras pessoas é justamente sua capacidade de ser corajoso, ousado, de encarar riscos, de se expor e de assumir responsabilidades e as consequências de seus atos. O medo é importante para que nós, empreendedores, sejamos capazes de ponderar cada ação tomada. Porque eu inicio este capítulo tratando das características dos empreendedores? Explicarei. Quando negociamos com o Cartesian Capital Group a venda de 11% do Grupo Ser Educacional, havia um prazo para esse aporte ser retirado: cinco anos. Esse era o tempo máximo que eles poderiam continuar conosco e, ao final desse período, existiam algumas opções: comprarmos a porcentagem de volta ou seguir para uma abertura de capital na Bolsa de Valores. 2013 - Abertura de Capital na Bolsa de Valores - BM&FBOVESPA Abrir o capital é uma das decisões mais importantes e estratégicas para qualquer companhia. Ela altera da forma definitiva a gestão, os controles internos e a transparência da organização. A decisão de abrir o capital não é das mais simples, mas seu impacto é muito grande, tanto nas atividades diárias quanto em seu futuro. Abrir capital não é para qualquer um. A entrada no mercado de ações requer muita preparação e acredito que a maior dúvida é se a companhia é capaz de cumprir as exigências dos investidores. O processo de abertura de capital envolve vários requisitos, sendo três deles os principais: o primeiro é o tamanho da oferta. Não confundam tamanho com estrutura física. Para a abertura de capital, tamanho está relacionado à oferta. A empresa precisa fazer uma oferta inicial de ações de pelo menos 100 milhões de dólares, o chamado ipo (initial public offering). Economicamente, o valor de mercado de uma companhia que consegue ofertar tal quantia é, no mínimo, o triplo. Há também um outro detalhe sobre as ofertas iniciais. Uma oferta inicial mais baixa que US$ 100 milhões não consegue atrair os investidores institucionais, nacionais e estrangeiros. E esses são os maiores compradores. Não estou dizendo que a compra de ações por pessoas físicas não seja importante, no entanto, investidores institucionais colocam pelo menos 1 milhão de dólares em cada emissão. O segundo requisito para abrir o capital de uma empresa é a transparência. As empresas abertas são obrigadas a enviar informações detalhadas à Bolsa, à Comissão de Valores Mobiliários (cvm), o órgão regulador e fiscalizador do mercado de capitais brasileiro, e aos acionistas. Além disso, os bancos de investimento, as corretoras e as administradoras de recursos também exigem informações. Trocando em miúdos, abrir capital significa ter de dar satisfação aos sócios e aos analistas, e por isso, são poucos os empresários que estão dispostos a realizar o processo. Por último, e não menos importante, o terceiro pré-requisito para uma empresa abrir capital com sucesso é mostrar uma história que atraia os investidores. Diante de tantos detalhes e tantas restrições, por que abrir capital? É simples. Ter ações comercializadas com sucesso na Bolsa de Valores significa ter mais recursos para investir em projetos de investimentos e tornar-se mais competitivo. Além disso, a imagem institucional é fortalecida, ganha-se muito mais projeção e reconhecimento, pois será constantemente avaliada pelos investidores. Pois bem, ao final de 2012, aproximava-se o prazo para o Cartesian Capital Group deixar o Grupo Ser Educacional. Cinco anos haviam se passado e o grupo cresceu em ritmo acelerado nesse período. Estávamos na marca das dezoito instituições e atendíamos mais de 60 mil alunos. Como já comentei, havia duas opções para a saída do Cartesian. Poderíamos partir para a realização de um ipo, dando continuidade ao nosso projeto de expansão e consolidação, ou devolver o aporte financeiro que recebemos e continuar sendo uma companhia de capital fechado. Neste cenário, caso quiséssemos expandir, poderíamos usar as linhas de crédito bancário que tínhamos aprovadas e que, até então, não haviam sido utilizadas. Foram dezenas de reuniões e discussões sobre o futuro do Ser Educacional. Em cada uma delas levantávamos os prós e contras de uma abertura de capital. Entretanto, o fato era que o trabalho de governança corporativa realizado pela Mesa Corporate, aliado à equipe de gestão à frente do grupo e tudo o que havíamos construído, em todos os pontos de vista, acabaram por nos qualificar para uma abertura de capital. Nós estávamos prontos e o momento econômico do ramo educacional era favorável para dar esse passo. Em abril de 2013, depois de cinco anos de amadurecimento, decidimos partir para o ipo. Decisão tomada, o primeiro passo era protocolar um pedido de registro de companhia na cvm. Depois, é preciso solicitar a listagem na BM&F Bovespa, pois apenas as empresas que possuem esse registro podem ter suas ações negociadas na Bolsa. Não existe um período pré-determinado para a conclusão do processo de abertura de capital. Contudo, as primeiras avaliações da cvm do prospecto preliminar levam cerca de trinta dias e estima-se em torno de três a quatro meses até o pregão. Começava ali uma corrida contra o tempo. Em agosto de 2013, quando demos entrada no processo na cvm, o grupo era composto por 23 unidades, com 76 mil alunos matriculados, número que subia para 91 mil quando contabilizado com os alunos do Pronatec, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego. No prospecto inicial entregue à cvm há várias exigências a serem cumpridas, como entregar as três últimas demonstrações financeiras anuais e a do trimestre mais recente. A auditoria mais recente passa por um auditor autorizado pela própria cvm, para que não haja manipulação de números. Começamos realizando várias reuniões para definir quais auditorias independentes, escritórios de advocacia, bancos de investimentos, consultores e banco subscritor, ou coordenador de oferta, nos acompanhariam no processo. Os bancos de investimento ou consultores de ipo são quem definem, juntamente conosco, as características do ipo — volume de recursos a ser captados, composição da oferta, definição da faixa de preço, etc. Visitamos inúmeras instituições para conhecer, apresentar o Grupo Ser Educacional e receber propostas. Decidimos, então, trabalhar com quatro bancos: o BTG Pactual e o Credit Suisse — Investment Banking Brasil, que seriam os nossos coordenadores líderes do processo; e o Santander e o Goldman Sachs, por serem bancos comerciais e nossos parceiros há muitos anos. Os bancos nos auxiliariam a definir a oferta de ações — optamos por ações primárias (novas), secundárias (dos acionistas vendedores) e com esforços de colocação no exterior. Os vendedores das ações foram o Cartesian Group (Poah One Acquisition Holdings VII) e eu, o fundador do grupo, como pessoa física. Uma vez escolhidos os bancos, houve uma divisão de tarefas entre eles. O BTG Pactual nos ajudaria a modelar a companhia, definir o nosso preço, nosso valuation, e o Credit Suisse ficou responsável por como iríamos pensar a companhia e apresentá-la ao mercadode capitais. Em relação aos advogados, era preciso escolher dois: um nacional e outro que trabalhasse com representação internacional, já que queríamos capital estrangeiro. Para nos auxiliar com a documentação no Brasil, decidimos trabalhar com o escritório Pinheiro Neto Advogados, com sede em São Paulo. Além dessa função, eles seriam responsáveis pela elaboração dos documentos das ofertas, pelas reestruturações societárias, como a transformação de sociedade por ações fechada em sociedade por ações aberta (S.A.) e pela organização do estatuto social. Para a auditoria, continuamos com a PricewaterhouseCoopers Auditores Independentes na prestação de serviços de auditoria externa para as demonstrações contábeis. Esse já era um trabalho que vinha sendo realizado desde 2009 de forma bastante satisfatória e preferimos manter a equipe no processo. Começamos uma sequência de, sem exagero, centenas de reuniões com os advogados e bancos para a preparação da documentação exigida pela cvm. Precisávamos também definir o valuation da companhia. Valuation é o processo de estimar o valor de uma empresa de forma sistematizada, usando um modelo quantitativo. O valor é calculado através de planilhas financeiras de balanços, demonstração de resultados entre os últimos cinco e dez anos para estimar um valor futuro e recalculá-lo para o valor do presente. É essa análise, junto com as características da empresa, que define o valor das ações que serão comercializadas ao mercado. Mesmo assim, esse cálculo ainda envolve certa dose de subjetividade no julgamento porque, durante a apresentação da empresa para os possíveis investidores, é preciso transmitir segurança, conhecimento de mercado no setor, percepção da lógica que vem embutida nas negociações de ações e, o que eu considero principal, confiança. Ninguém vai investir em seu negócio se não adquirir confiança em você. Durante o processo de abertura de capital, optamos por entrar no Novo Mercado da Bovespa, que é um segmento criado em 2000 e que exige padrões de governança corporativa altamente diferenciados. A partir da primeira listagem, em 2002, ele se tornou o padrão de transparência e governança exigido pelos investidores para as novas aberturas de capital. Em paralelo a todos esses detalhes, tivemos que entender todos os procedimentos de sigilo de informação, especulações de mercado e agregar novos membros à nossa equipe, como o diretor de mercado e o de relações com investidores. Assim, estavam definidos todos os passos para a realização do ipo. A faixa de preço indicativa para as ações foi definida entre 19,50 e 23,50 reais por papel. Como queríamos investimentos estrangeiros, teríamos que nos preparar para um roadshow pela Europa e Estados Unidos. Mais uma vez, precisávamos nos preparar. Toda a equipe que participaria do roadshow passou por aulas de reciclagem da língua inglesa. Até então, o Grupo Ser Educacional era conhecido apenas nas regiões Norte e Nordeste. Entretanto, quando realizamos o depósito da intenção de abrir capital na cvm, viramos notícia no país inteiro. Claro que havia peculiaridades para tais publicações. O fato de sermos uma empresa genuinamente nordestina era uma delas. A outra era porque, com base no lote inicial de papéis a ser vendido, o ipo poderia movimentar até 723,3 milhões de reais, considerando o preço máximo da faixa indicativa, o que seria um dos maiores ipo da história do setor educacional. No final de setembro de 2013, preparamos a equipe para mais de um mês fora do Recife e fora do Brasil. Começaria o nosso roadshow em busca de investidores. Jânyo, Joaldo, Francisco Barreto, Habib Bichara, nosso diretor financeiro, e eu seguiríamos para o Rio de Janeiro e São Paulo para reuniões com dezenas de investidores que haviam sido contatados pelos bancos e demonstraram interesse em nos conhecer e, possivelmente, investir no Grupo Ser Educacional. No Rio de Janeiro foram cerca de trinta reuniões. Foram sete a oito reuniões diárias. Em São Paulo, o mesmo número. De lá, seguimos para o circuito internacional. Nos acompanharam nas viagens e reuniões representantes dos bancos e, no roadshow internacional, duas tradutoras. No circuito internacional, a primeira parada foi na Holanda, em Amsterdã. Poucas horas após nossa chegada ao país, começariam as reuniões. Não posso esconder que a primeira reunião foi a pior de todas. Nervos à flor da pele, tínhamos dormido apenas três horas e o fuso horário ainda era uma dificuldade para a nossa equipe. Além disso, não tínhamos tido tempo de repassar com os tradutores os assuntos das reuniões, o que resultou em uma dificuldade em fluir os conteúdos — eram pausas para que elas fizessem as traduções. Apesar de todos nós falarmos inglês, a utilização de tradutores para esses tipos de reuniões é comum devido ao grande número de termos técnicos que são utilizados por nós e pelos possíveis investidores. A reunião durou cerca de uma hora e saímos de lá decepcionados com o nosso desempenho. Mas, ainda haveria outras dezenas de reuniões e precisávamos continuar. Como teríamos que viajar para a próxima reunião, aproveitamos o intervalo para ajustar todos os detalhes e estarmos bem preparados para o que viria. O funcionamento das apresentações era basicamente com o pessoal do banco fazendo a introdução e, se não pudessem, Francisco fazia. Eu iniciava, falando da história da fundação do grupo e o que eu esperava dele, depois Jânyo explicava nosso sistema de gestão, Habib relatava o funcionamento financeiro e Joaldo fazia as colocações complementares. No primeiro dia na Europa, fizemos reuniões em Amsterdã, Rotterdã, duas reuniões em Paris. Em seguida, tínhamos que pegar o trem para seguir para Londres. Ao seguir para a estação para embarcar no trem, conhecemos a pontualidade do horário britânico. Éramos um grupo com nove pessoas e, na espera para embarcarmos juntos, chegamos com 1 minuto de atraso — e já haviam fechado o portão. Nos dias seguintes, passaríamos por inúmeras cidades e alguns países da Europa. As reuniões começavam às 7h00 e seguiam até às 20h00. Sempre com duração de 60 a 90 minutos. Muitas vezes, até os horários de almoço eram utilizados. Quando isso acontecia, Jânyo assumia as apresentações e nós almoçávamos. Sempre nos lembrávamos de levar um sanduíche para que ele comesse no carro. O mais difícil dessas reuniões era não saber se, ao final delas, poderíamos contar com o capital do investidor ou não. Apenas falávamos, respondíamos as perguntas e a reunião se encerrava. Depois é que os investidores faziam as ofertas diretamente aos bancos, que só nos passaria a informação dos books ao final do roadshow. Tivemos oportunidade de conhecer investidores de muitos países. Estrangeiros que moraram no Brasil por anos e acabaram por falar português conosco. Outros que investiam em várias empresas de segmentos diferentes. Cada um com sua história e peculiaridade. Quando saímos da Europa e fomos para os Estados Unidos, já estávamos experientes nas reuniões. O conteúdo fluía facilmente e os encontros eram cada vez mais produtivos. A pior parte do roadshow é o cansaço, físico e mental. Como são reuniões seguidas, nós falávamos sempre a mesma coisa e as perguntas que eram feitas a nós também eram, em geral, as mesmas. Chegou um ponto da viagem em que as reuniões se tornaram mecânicas. Claro que não só de seriedade se faz um roadshow. Houve episódios engraçados, como a reunião com o fundo de investimentos William Blair. O encontro seguia tão bem e eu estava tão empolgado com a conversa com o John, analista do fundo, que quando Jânyo deveria começar a falar, eu continuei: “William! Como eu estava dizendo…”. Jânyo tentava me interromper, mas eu prosseguia: “William!”. Isso se repetiu não apenas uma, mas duas, três vezes… Jânyo tentava me corrigir apontando para o cartão de visitas do rapaz. E eu continuava: “William!”. Quando me dei conta do cartão de visitas, que Jânyo insistia em apontar, acabei falando: “William! Phillip! George!”. E todos na sala começaram a rir e nós ganhamos oinvestimento. Houve algumas barreiras no roadshow. A principal delas foi a língua. Não porque não soubéssemos falar ou entender inglês, mas porque era muito mais difícil achar os termos corretos para explicar programas como o Fies e ProUni para quem não tinha conhecimento deles. Nos últimos dias, as reuniões já funcionavam de modo automático e não era incomum achar que tínhamos respondido determinadas perguntas que eram feitas em uma reunião porque já tínhamos respondido à mesma em encontros passados. No final do roadshow, enfrentamos um perigoso desvio de percurso. Perto do fechamento do nosso segundo book de investidores, houve a publicação de um relatório de instrução normativa da Receita Federal sobre um possível imposto e isso fez com que o mercado caísse quase 10% aqui no Brasil. Nesse momento, nós nos preparávamos para entrar em mais uma reunião e decidimos que Joaldo, o representante do banco, e eu voltaríamos para a sede do BTG em Nova York para acompanhar o que acontecia. Enquanto isso, os outros continuariam na reunião. Ao fim da reunião, Jânyo, Habib e Francisco nos encontraram no banco. Lembro-me bem que ao chegar ao banco, questionaram o Jânyo sobre o que fazer. Para ele, se não foi possível segurar o mercado, deveríamos arrumar as malas, encerrar o ipo, cancelar tudo e voltar para o Brasil. Depois disso, seguimos para uma sala de reuniões e seguiram-se mais de três horas de discussão, entre mais de trinta pessoas, sobre qual decisão tomar. Foi então que decidi perguntar para cada um deles a opinião sobre o que fazer. Ouvimos cada um dos representantes de bancos presentes, pesamos o momento econômico mundial, o que estava acontecendo, as possibilidades já no fim do ano de uma nova janela de mercado, a expectativa de que o cenário macroeconômico se deteriorasse ainda mais não conseguíssemos realizar um ipo no ano de 2014. Batemos o martelo, nosso pregão foi marcado para o dia 18 de outubro de 2013. Nós tínhamos uma expectativa de valor arrecadado um pouco acima do que foi captado, entretanto, devido a essas informações do mercado, tínhamos que optar por arrecadar um pouco menos ou desistir do processo. Diante da situação, o consenso foi que a abertura de capital não seria tão boa quanto o programado e que, do ponto de vista do valor de ações, nós iríamos perder dinheiro. No entanto, se não fizéssemos naquele momento, perderíamos tudo que já tínhamos investido e mais, havia o risco de não conseguirmos realizar o ipo pelos próximos seis meses. Então, a consciência que tivemos é que esse valor poderia ser recuperado depois da operação. Contudo, teríamos ainda mais um susto no nosso caminho. A instrução normativa da Receita Federal teria outras consequências, além da queda do mercado. Em 12 de setembro de 2013, a Receita Federal publicou a Instrução Normativa nº 1.394, que revogou a Instrução Normativa nº 456, de 5 de outubro de 2004, que regulamenta a Lei nº 11.096/05. A nova instrução trouxe novas disposições em relação às isenções fiscais instituídas pelo ProUni, em especial ao cálculo de referidas isenções. Como esse dado foi posterior à entrega do nosso prospecto, a informação não estava relatada no material. A cvm determinou, então, a suspensão da realização do nosso ipo por um prazo de até trinta dias, justificando que o prospecto da distribuição não contemplava informações completas, precisas e atuais para uma tomada de decisão consciente por parte dos investidores. Começou uma nova corrida contra o tempo. Precisávamos tomar as medidas necessárias e revogar a decisão da cvm a tempo de realizar o pregão. Além disso, a demora em reverter a situação poderia significar a perda de mais investimentos. Alteramos o prospecto inicial na seção de fatores de risco da oferta para inclusão dos efeitos de possível perda ou redução das políticas de financiamento e/ou benefícios fiscais. A cvm revogou a suspensão três dias depois e nosso pregão foi marcado para o dia 29 de outubro de 2013. Captamos R$ 619,428 milhões com a oferta pública inicial e nossas ações foram precificadas em R$ 17,50. Esse valor já valorizou mais de 30%. Fomos a segunda empresa do Nordeste brasileiro a abrir capital e o maior ipo do setor de educação na América Latina. Para nós, as coisas nunca foram fáceis. Mas sempre conseguimos vencer no final. A verdade é que pensar em não fazer o ipo pelos próximos seis meses era um cálculo demasiadamente otimista. Fomos o último ipo realizado em 2013 e, até agora, final de 2014, houve mais um. Me orgulho do trabalho que fizemos e do resultado que conseguimos com a operação de abertura de capital. Para nós, o que mudou não foram os processos internos, porque já trabalhávamos com toda a estrutura de uma empresa de gestão profissional mesmo com o capital fechado. A vida da empresa foi, sim, transformada pela exposição ao mercado. A entrada na Bovespa nos trouxe, também, mais visibilidade. Passamos a ser mais procurados por veículos de comunicação para entrevistas e nos tornamos referência no setor de educação das regiões em que atuamos. Tivemos que aprender a falar com o mercado e para o mercado. Pessoalmente, a abertura de capital fez com que meu nome se tornasse mais conhecido nacionalmente e, por consequência, o número de pedidos de entrevistas para grandes veículos se intensificasse. Fui capa de editoriais de grandes jornais como o Estado de São Paulo e de revistas como a IstoÉ Dinheiro, além de ter participado de programas de veiculação nacional, como o programa de entrevistas Show Business, apresentado por João Doria e veiculado pela Rede Bandeirantes. A IstoÉ Dinheiro se tornou um capítulo a parte em 2014. Em outubro, fomos o grande vencedor do prêmio “As melhores do Middle Market”, destinado a empresas brasileiras de médio porte em expansão. Além da premiação principal como a “Empresa do Ano”, o Ser Educacional foi agraciado com o prêmio especial de “Melhor Gestão Financeira” e também foi vencedora na categoria “Educação”. Ter sido considerada a melhor empresa entre as 1.352 concorrentes foi a certeza de que estamos no caminho certo. “O Janguiê, apesar de tudo aquilo que construiu na vida, é uma pessoa que não escuta somente sua própria voz. Ele é um empreendedor que consegue escutar e ponderar as vozes das pessoas que o rodeiam. Um dos grandes diferenciais que ele tem é não se limitar a escutar o seu próprio eu, sua própria consciência. Janguiê sabe que nem sempre ele tem as respostas certas e sabe avaliar o que outras pessoas falam.” Habib Bichara, Diretor financeiro do Grupo Ser Educacional DISCURSO DA ABERTURA DE CAPITAL DO GRUPO SER EDUCACIONAL No empreendedorismo a ética é um preceito fundamental, porque o empreendedorismo constrói ou destrói; subtrai ou soma. Quando não há o conteúdo ético no empreendedorismo você pode estar legalmente criando uma empresa, mas que destrói, que subtrai valor da sociedade. Com efeito, ser empreendedor, portanto, é investir em ações que ajudem a formar uma sociedade justa e compromissada com o bem estar econômico e social de um país. Com efeito, foi com base no preceito ético que eu criei o Grupo Ser Educacional. A criação do Grupo, cujo embrião foi o Bureau Jurídico — Cursos para Concursos, partiu de um sonho de preparar profissionais para o mercado de trabalho, especialmente no setor público, ajudando a resgatar a história do estado abolicionista de Pernambuco, berço de personalidades luminares como Joaquim Nabuco, Frei Caneca, Gilberto Freyre, dentre muitos outros. A criação da Faculdade Maurício de Nassau em Recife, primeira unidade do Grupo, não foi senão o prolongamento desse eterno sonho. Faço questão de registrar que sou homem de sonhar muitos sonhos. É que “o homem de um sonho só é um pobre de espírito e de um espírito pobre. Nasci para sonhar muitos sonhos e venho ao longo desses meus anos de vida sonhando vários, realizando alguns, tentando outros e uns poucos restam sepultados na cova do tempo…”. E sonhando sonhos impossíveis. Pois, só o impossível é digno de ser sonhado. O possível colhe-se facilmenteno solo fértil de cada dia. E tenho convivido muito bem com isso, pois segundo um provérbio russo: “Os fardos que escolhemos não pesam em nossas costas”. E, ao longo desses meus anos de vida, venho seguindo a filosofia de Nietzsche, que respondendo a uma pergunta de um discípulo seu, que indagou: “Mestre, qual o melhor modo de subir aquele monte?”, respondeu: “sobes sempre, e não penses nisso”. Venho sonhando e realizando meus sonhos, carregando minhas cargas, subindo meus montes, mas tendo sempre em mente o pensamento de Carlos Drummond de Andrade: “Com apenas minhas mãos, mas com o sentimento do mundo todo”. Nessa perspectiva, quando criamos o Bureau Jurídico — Cursos para Concursos, a intenção inicial era apenas a de qualificar os estudantes para ingressarem nas carreiras jurídicas, principalmente na magistratura e no Ministério Público. O sucesso do empreendimento foi tamanho que fui impulsionado a sonhar um sonho maior. O de ajudar o estado de Pernambuco, a região Nordeste e o Brasil a ingressar mais rapidamente em níveis de desenvolvimento das economias globais oferecendo educação superior de qualidade para o povo brasileiro. É que estamos vivendo na era da globalização. Na sociedade do conhecimento. Nesta nova era, nenhum país do mundo pode aspirar ser desenvolvido, soberano e independente sem um sistema educacional forte. Do básico ao superior. Num mundo em que o conhecimento é muito mais importante que os recursos materiais como fator de desenvolvimento humano, a importância da educação é cada vez maior, sendo, inclusive, instrumento de poder. Fundamos há dez anos em Recife a Faculdade Maurício de Nassau. A primeira das 23 unidades que hoje fazem parte do Grupo Ser Educacional. Quando começamos, eram apenas pouco mais de 600 alunos nos cursos de Direito, Administração, Comunicação Social, Turismo, Sistema de Informação e Biomedicina. Em pouco mais de três anos de existência, a Faculdade Maurício de Nassau se consolidou como uma instituição de ensino focada em ministrar educação de qualidade, e, ampliando e aperfeiçoando sua estrutura de gestão e governança corporativa, implementou e consolidou o seu projeto de expansão, direcionando suas ações para os principais municípios do Norte e Nordeste do Brasil. E assim começamos a crescer, expandindo nossas atividades para todas as capitais do Nordeste. Hoje possuímos unidades em todos os estados do Nordeste e em dois do Norte, acompanhando o crescimento destas regiões e visualizando um público que busca, cada vez mais, a educação como única oportunidade de mobilidade social e de mudança. A inspiração do Grupo Ser Educacional é congregar e manter algumas das melhores instituições de ensino superior em atuação no Nordeste e Norte do Brasil. Durante esses dez anos de trabalho árduo e extenuante, mantivemos o nosso objetivo inicial de oferecer educação de qualidade com foco no mercado regional, e assim tem sido durante todo esse período. Todas as instituições do Grupo que foram criadas organicamente, ou adquiridas há mais de três anos, estão ranqueadas entre as melhores instituições de ensino superior da região, com indicador satisfatório de qualidade criado pelo Ministério da Educação. Por outro lado, passados dez anos de atuação, mantivemos nossos vetores de liderança para decidir, inovar e reinventar; competência de articular e mobilizar conhecimento, experiências, habilidades e atitudes; ousadia para empreender, construir e gerar riquezas com responsabilidade; e a solidez de um grupo que se tornou firme e estável. E não pensamos em parar. Quando digo que não pensamos em parar, é porque enxergamos que ainda podemos crescer muito mais. A realização do ipo do Grupo Ser, com o início das negociações de nossas ações no novo mercado da BM&F Bovespa, é um marco importante de nossa história, e contribuirá, sobremaneira, para que possamos implementar nossas estratégias de crescimento e aumentar nossa capacidade de ajudar o país a educar e qualificar a mão de obra de seu povo. Em paralelo, ampliaremos nossas atividades sociais. O Grupo Ser sempre atuou fortemente com projetos sociais nas comunidades onde suas unidades estão inseridas, um trabalho realizado, com louvor, através do Instituto Ser Educacional. São inúmeros projetos e parcerias junto à população carente, desde atendimento jurídico, fisioterápico e odontológico gratuitos até campanhas de doação de órgãos e tecidos, alimentos, livros e brinquedos para os menos assistidos. De maneira que quero, em primeiro lugar, agradecer a Deus e aos meus familiares por este momento singular de estar aqui, hoje, dia 29 de outubro de 2013, colocando o Grupo Ser Educacional no mercado de capitais perante a BM&F Bovespa. Momento esse que representará um divisor de águas na história do grupo e por que não dizer na história da educação do Norte e Nordeste do Brasil. Em segundo lugar, agradecer a todos os nossos colaboradores, professores e alunos. Em terceiro lugar, aos advogados que participaram do processo, em especial ao escritório Pinheiro Neto. E em quarto lugar a todos os bancos, BTG Pactual, Credit Swisse, Santander e Goldman Sachs. Muito obrigado a todos que acompanham e acompanharão a nossa trajetória. A todos que acreditaram e acreditam no grupo, reafirmo aqui o compromisso de que, a partir de hoje, iniciaremos uma nova fase de crescimento sustentável na promoção de educação de qualidade no afã de colaborar com o desenvolvimento socioeconômico de nosso Brasil. Muito obrigado e que Deus abençoe a todos. Janguiê Diniz, Fundador do Grupo Ser Educacional 2013 – Durante discurso na BM&FBOVESPA Cidadão do Brasil Talvez por conta das minhas errâncias, nomadismos, persistências profissionais, acadêmicas e empreendedoras, as minhas carreiras, a jurídica e a educacional, me permitiram ser agraciado com vários prêmios. Entre eles, recebi, com muito orgulho e gratidão, os títulos de cidadão de cidades como Recife, João Pessoa, Natal, Campina Grande, Salvador e também do estado de Pernambuco. Aprendi a amar cada uma dessas cidades, como amava a minha Santana dos Garrotes, minha Naviraí e minha Pimenta Bueno. E todas elas me deram a oportunidade de crescer e ser quem sou hoje. Seguindo aquele sol nordestino da minha infância; porque o sol que nos alumia é também o mesmo sol visto e comparado com a ideia do bem, da luz, do alumbramento, na alegoria filosófica de Platão; talvez porque, humildemente, pus os pés, cravei n’alma, meu coração no céu, no sol e no chão de cada uma destas cidades, os meus sonhos. Tornei-me um filho do Recife em 2000. Uma cidade monumental, de tantos sonhos, de tantos heróis, de tantas batalhas, a cidade de tantos encantos. Onde a cultura transcreve a multiplicidade de gestos criados no folclore de Ariano Suassuna, na pessoa de Capiba, nas figuras contagiantes do frevo e do maracatu carnavalesco. No ano seguinte, 2001, fui declarado cidadão pernambucano. E para recordar o passado, devo parafrasear Brandão, que, ao escrever o hino do estado, compôs a história na frase que aqui reproduzo: “De um povo que altivo descansa, como atleta depois de lutar, no passado o teu nome era um mito, era o sol a brilhar no infinito, era a glória na terra a brilhar”. Como uma valsa, essas linhas assentam no meu coração o nome que eternizo de um imortal estado, do meu imortal Pernambuco! A capital da minha Paraíba me declarou cidadão em 2011. Aos catorze anos, quando parti e voltei para o Nordeste, ouvia ao longe uma canção de Caetano Veloso que ficou martelando na minha cabeça e que, vez por outra, aparece para me jogar na cena chorosa da minha primeira “triste partida”; que me faz lembrar o dia em que deixei, pequenino, a minha cidade natal: “Eu não estou indo- me embora. Estou preparando a hora de voltar”. Voltei para meu estado natal e lá fui muito feliz. Em 2012, recebi o título de cidadão soteropolitano. São Salvador da Bahia de Todos os Santos, centro da cultura afro- brasileira, que se destaca pela sua arte, a sua cultura, a gastronomia, a música, a arquitetura, a contagiantealegria e solidariedade do seu povo, tão bem retratadas nas belíssimas canções compostas por Dorival Caymmi. O título de cidadão natalense veio em 2013. Natal, a cidade do sol, das grandes dunas de areia. Natal de Augusto Severo, o mártir da tecnologia aeronáutica, abolicionista, líder político, deputado federal e inventor dos balões semidirigidos. Natal é muito mais que suas belas praias e paisagens, seus monumentos históricos que entretêm e deslumbram seus turistas e moradores. Recebi com orgulho e gratidão cada um desses títulos. Seja pela dedicação, seja pelo trabalho realizado através das instituições de ensino ou por qualquer outro motivo, sinto-me imensamente gratificado principalmente por saber que venho cumprindo com meu propósito de vida ao difundir a educação e melhorar o país. Sou cidadão pernambucano, recifense, natalense, soteropolitano, pessoense com muito orgulho e satisfação. E que venham muitos outros. Mas, acima de tudo, sou cidadão do Brasil. Acima: Recebimento do Prêmio ISS, com o prefeito do Recife, Geraldo Júlio, e o empresário João Carlos Paes Mendonça. À esquerda: recebimento dos títulos de Cidadão Natalense e Pernambucano, respectivamente. À direita: recebimento do título de Cidadão de Salvador A lista da Forbes Encerro este livro falando sobre a inclusão do meu nome na famosa lista de bilionários da revista Forbes. Foi com grande surpresa que, em meados de junho de 2014, recebi a ligação de um repórter informando que, na edição seguinte da revista, meu nome seria incluído no ranking de bilionários daquela publicação, e fui questionado se concordaria em dar uma entrevista. Perguntei a ele se caso eu não concedesse a entrevista a matéria seria ainda publicada. A resposta foi enfática: falando ou não, a matéria sairia, pois o dado havia sido coletado nas informações públicas da Bovespa. Diante dessa informação, decidi falar e contar um pouco de como foi a minha luta e minha trajetória até chegar à Forbes. Conheço a revista há anos, não apenas pelas listas que ela costuma publicar, mas também porque é uma publicação sobre negócios e a economia americana que traz artigos e reportagens originais sobre finanças, indústria, investimento e marketing. Também sei que eles elaboram o ranking de bilionários de acordo com o patrimônio pessoal conquistado por cada pessoa, principalmente daquelas que detêm ações nas bolsas de valores do mundo inteiro. É comum que empresários acompanhem as edições. Na semana anterior ao primeiro contato do repórter, os papéis do Grupo Ser Educacional, do qual sou dono de pouco mais de 70% das ações, tinham ultrapassado a marca de 1,5 bilhão de dólares, chamando a atenção dos editores da Forbes. Sempre quis construir um grande grupo educacional, mas nunca almejei ser rico, muito menos bilionário. Tudo que conquistei na vida foi fruto dos estudos e desde pequeno entendi que estudar era a única forma de mudar a minha vida e a de minha família. E venho difundindo esta filosofia por onde ando. Entendo que a única forma de mobilidade social é através da educação. Nas condições em que eu vivia, não poderia pagar uma faculdade particular; então precisei me dedicar e traçar metas para entrar em uma faculdade pública. Foi estudando que consegui me formar em Direito e Letras, fazer pós-graduação, mestrado e doutorado, e, por fim, construir o Grupo Ser Educacional. Esse é meu principal conselho: estudar sempre e cada vez mais. Além disso, é preciso determinação, persistência e um pouco de sorte. O que eu almejava quando criei a empresa Bureau Jurídico, embrião da Faculdade Maurício de Nassau, era ajudar outros alunos e profissionais do Direito a passar nos concursos da magistratura e do Ministério Público. Depois, com a criação da Faculdade Maurício de Nassau, eu desejava dar mais oportunidades aos jovens de cursar o ensino superior. Mas tendo sempre em mente que a empresa tinha que ter sustentabilidade financeira. Se tivesse que me definir, diria que sou um “superador” de adversidades. Acredito que minhas maiores virtudes são a determinação, a persistência e a obstinação. Traço uma meta e trabalho para atingi-la, custe o que custar. Nunca pensei em desistir em nenhum de meus empreendimentos. Cada erro cometido se tornou uma experiência e aprendizado para não errar novamente. Acredito que a inclusão do meu nome na lista de bilionários da Forbes seja o resultado de muito trabalho e esforço. Minha infância e adolescência foram assim. Por sinal, eu ainda trabalho cerca de quinze horas por dia. Costumo dizer que é agora, aos cinquenta anos, que estou começando o projeto do empreendedorismo educacional. Para aqueles que desejam ser empreendedores, deixo alguns conselhos: em primeiro lugar, é preciso sonhar e lutar para tornar seu sonho realidade. Ser ousado e corajoso. Ter determinação, obstinação e persistência. E procurar munir-se de profundo conhecimento sobre a atividade em que pretende atuar. Muita gente acredita que o empreendedorismo é algo intrínseco às pessoas e acaba colocando o conhecimento em segundo lugar. Erro crasso. Muitos têm vontade de abrir o próprio negócio, mas acabam desistindo por medo de fracassar, em virtude da falta de conhecimento sobre a atividade. Para que o leitor nunca mais se esqueça deste conselho, conto aqui uma piada que considero muito engraçada e ilustrativa. Um padre está dirigindo numa estrada, quando vê uma freira no acostamento. Para e oferece carona. A freira aceita. Ao entrar no carro, ela revela suas lindas pernas ao cruzá-las. O padre não resiste e coloca a mão nas pernas dela. Ela olha para o padre e diz: “Padre, lembre-se do Salmo 129”. O padre, sem graça, responde “Desculpe-me irmã, é que a carne é fraca”, e retira a mão. Novamente a freira diz: “Padre, lembre-se do Salmo 129”. Chegando ao destino, a freira agradece a carona e o padre corre para a Igreja, pega a Bíblia e procura o Salmo 129 para ler. Lá é dito o seguinte: “Não desista, siga em frente, seja persistente, mais acima encontrarás a glória do paraíso”. A conclusão que se extrai é que se você não está bem informado nem tem profundo conhecimento sobre o seu trabalho, sua atividade ou seu empreendimento pode perder excelentes oportunidades. Por fim, além disso, para empreender é preciso ter foco, manter-se determinado em sua meta, esquivando-se de erros, que podem ser fatais. Entretanto, caso venha a cometê-los, é essencial tirar lições desses momentos para recomeçar mais forte, porque devemos ter em mente que um erro cometido, bem como a determinação e a persistência em evitá-lo, são a garantia de que não o cometeremos novamente, e o acerto fica mais fácil de ser atingido. Esta é uma lição que aprendi com um grande amigo e um dos maiores empreendedores do Brasil, João Carlos Paes Mendonça, fundador do Grupo Bompreço, que foi adquirido pelo grupo Wallmart. João Carlos hoje está no ramo de shopping centers e já construiu o terceiro maior grupo de shopping centers do Brasil. JCPM, como é conhecido, me ensinou que o que caracteriza um bom empreendedor é a vocação e o foco no que faz. Deve ser ético, ter vontade de trabalhar, ser austero nos gastos, persistente, assumir riscos, ter paixão pelo que faz, respeitar as pessoas e gostar delas. Segundo ele, a história de um empreendedor de sucesso não é feita só de acertos. Ele valoriza os erros como aprendizado para fazer mais e melhor. Ele mesmo afirma que errou quando diversificou os investimentos e perdeu o foco. Errou ao entrar em outros estados sem conhecer a cultura local e devido à dificuldade de logística. Nessa perspectiva, ouso afirmar que, aos cinquenta anos, estou entrando na segunda fase da minha vida. E graças ao estudo e ao trabalho diuturno, árduo e extenuante, construí uma trajetória de conquistas e sucesso. Muitos dizem que já está na hora de eu parar de trabalhar ou pelo menos diminuir o ritmo. Entretanto, não tenho a intenção de parar. Muito pelo contrário, agora é que vou começar a trabalhar de verdade. Trabalhar e criar coisas e empreendimentos são algumas das minhas paixões.Ainda sou jovem, tenho metade da vida pela frente e muito para fazer pelo desenvolvimento do Brasil. E se Deus quiser, permitir e me der forças, continuarei fazendo. Continuarei lutando, com muita ética e honestidade, para ampliar o número de instituições de ensino no Brasil e o número de vagas nas universidades brasileiras; para educar e qualificar mais e mais o povo de nosso país. E nos próximos quatro volumes da minha biografia, contarei a vocês o restante da minha trajetória, que espero ser uma trajetória de contribuição para o Brasil. Nunca sonhei em entrar na lista da Forbes. A minha entrada foi apenas a consequência de um trabalho. Por fim, para aqueles que sonham em construir um império, seja ele qual for, deixo aqui quatro mensagens que sempre nortearam minha vida: “Haverá um momento em que a porta se abrirá e deixará o futuro entrar! Aproveite.” Graham Greene “O cavalo só passa selado uma vez. Quando ele passar, devagar ou correndo, pule em cima dele, pois não terá uma segunda chance.” Provérbio popular “Toda manhã na África uma gazela acorda. Ela sabe que deverá correr mais do que o leão ou morrerá, pois será comida por ele. Toda manhã na África um leão acorda. Ele sabe que deverá correr mais do que a gazela ou morrerá de fome. Conclusão: quando o sol nascer, não importa se você é um leão ou uma gazela. É melhor começar a correr.” (Autor desconhecido) “Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio marque meia-noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter hoje. Posso reclamar porque está chovendo… Ou agradecer às águas por lavarem a poluição. Posso ficar triste por não ter dinheiro… Ou me sentir encorajado para administrar minhas finanças, evitando o desperdício. Posso reclamar sobre minha saúde… Ou dar graças a Deus por estar vivo. Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que eu queria… ou posso ser grato por ter nascido. Posso reclamar por ter que ir trabalhar… ou agradecer por ter trabalho. Posso sentir tédio com as tarefas da casa… ou agradecer a Deus por ter um teto para morar. Posso lamentar decepções com amigos… ou me entusiasmar com a possibilidade de fazer novas amizades. Se as coisas não saíram como planejei, posso ficar feliz por ter hoje para recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só de mim.” Charles Chaplin Janguiê por Janguiê Durante todo o livro contei minha história e como cheguei onde cheguei nesta vida. Mas, como Janguiê definiria o Janguiê? Não concebo uma vida sem trabalhar e acho que não me acostumaria a viver sem trabalho. Ainda me considero muito jovem, tenho muito para fazer pelo desenvolvimento do Brasil e, em especial, pela educação. Há anos minha rotina de trabalho é a mesma. Acordo todos os dias por volta das 6h00 e começo cuidando do corpo e da mente, faço musculação e, quando posso, costumo jogar vôlei. Além disso, leio muito, sobre tudo. A informação é um diferencial para qualquer profissional. A minha rotina de trabalho tem início aos domingos à noite, quando faço o cronograma da semana, escrevo alguns textos que publico no meu blog, delego as atividades para a minha equipe e cobro o resultado das atividades já delegadas. Aliás, devo abrir um parêntese para falar que se não fosse pelo profissionalismo e dedicação de toda a equipe de executivos e colaboradores do Ser Educacional, o grupo não estaria onde está hoje. Claro que quando estamos à frente de um grande grupo, como o Ser Educacional, a rotina não é exatamente previsível. Sempre acontece uma viagem inesperada ou algum evento não programado. No entanto, tento, ao máximo, seguir um cronograma. Na minha vida, seja pessoal ou profissional, tenho alguns princípios que me guiam e que foram absorvidos pelo Grupo Ser Educacional: Gandhi, há mais de sessenta anos, enunciou os sete maiores males do mundo, que, se não forem combatidos, levam à destruição dos seres humanos: política sem princípios; riqueza sem trabalho; comércio sem moralidade; prazer sem consciência; educação sem formação de caráter; ciência sem humanidade; e veneração sem sacrifício. Aprendi com Gandhi e fiz de seus enunciados os princípios e valores que orientam minha vida e minhas ações: política com princípios; riqueza com trabalho; comércio com moralidade; prazer com consciência; educação com formação de caráter; ciência com humanidade; e veneração com sacrifício. Me defino como um obstinado, determinado e “superador” de adversidades. Ao mesmo tempo, valorizo imensamente minha família. Levo minha mãe como exemplo de superação, pois, durante mais de quinze anos, ela foi portadora do vírus da Hepatite C e passou por vários tratamentos, que sempre causaram fortes efeitos colaterais, mas nunca fizeram efeito contra o vírus. No entanto, em 2014, tivemos a possibilidade de trocar o acompanhamento médico e conhecer novos tratamentos, com medicações importadas que prometiam menos efeitos colaterais durante a manipulação. Foram longos meses aguardando até a finalização de todo o tratamento e a realização de novos testes, que, para alegria de toda a nossa família, deram negativo para o vírus. Mesmo sendo necessário repetir o exame daqui a alguns meses, é maravilhosa a sensação de alívio e de saber que ela está curada e poderá ter mais qualidade de vida. Acredito que minhas maiores virtudes são persistência, determinação e obstinação. Traço uma meta e trabalho para atingi- la, custe o que custar. Se me perguntarem pelos meus defeitos, eu diria que são trabalhar demais, ser muito otimista e ser um sonhador. Mas, sem essas três características, eu não seria eu. Aos cinquenta anos escrevo uma biografia com histórias que começaram na minha infância. Espero, daqui há dez anos, poder escrever uma continuação deste livro, contando o crescimento do Ser Educacional, a origem de outros empreendimentos que pretendo criar, bem como falar sobre o fortalecimento da educação brasileira e do próprio Brasil. Aos setenta e aos oitenta, se Deus me der vida, escreverei a conclusão desta história. E, quem sabe, pensarei em me aposentar aos noventa anos… “Falar de meu irmão mais velho é ao mesmo tempo fácil e também muito difícil. Difícil porque para explicar em poucas linhas a trajetória de um homem de sucesso, um espelho para mim e para meus familiares, é deveras complicado, e fácil porque falar da pessoa Janguiê é um prazer. Aqui irei pular a parte difícil, isto é, não vou falar de sua trajetória, ou dos últimos vinte anos em que estou ao seu lado na área profissional, participando de seus projetos, empreendimentos e acima de tudo de seus sonhos. Falo apenas o que vem do coração e deixo as letras me levarem. Aqueles que não o conhecem dizem que ele é uma pessoa exigente, difícil e até mesmo autoritária, mas o que dizer de um homem que lutou e luta todos os dias com perseverança, criando dezenas de negócios? Errou em vários deles (e em sua biografia ele conta esses episódios), mas quem nunca errou jamais irá acertar. Mas, acima de tudo, alguns dizem que ele tem “o dom”, o dom de empreender, de criar e de conquistar. O que dizer de um homem que estudava mais de oito horas por dia sonhando em passar em um concurso e acabou passando em vários? Um homem que até hoje trabalha até quinze horas por dia. O que dizer de um homem que além de cuidar de seus filhos e esposa sempre esteve ao lado da família, não deixando que nenhum problema nos separasse? Aquele que sempre foi um segundo pai, cuidando de seus irmãos e até mesmo de vários amigos aos quais ajuda, mas não gosta de que falem sobre isso. Eu sei o que dizer, e digo: obrigado. Obrigado pelo amigo que sempre foi, obrigado pela pessoa que você é, obrigado por ter me ensinado a ser quem eu sou hoje (e ai já se vão vinte anos trabalhando juntos), obrigado por poder lhe chamar de irmão, e, acima de tudo, obrigado por ser um pai quando precisamos. Te amo, maninho…” Joaldo Diniz, irmão #Novo Século nas redes sociais Conheça - www.novoseculo.com.br/Leia - www.novoseculo.com.br/blog Curta - /NovoSeculoEditora Siga - @novoseculo Assista - /EditoraNovoSeculo http://www.novoseculo.com.br/ http://www.novoseculo.com.br/blog https://www.facebook.com/NovoSeculoEditora https://twitter.com/novoseculo https://www.youtube.com/user/EditoraNovoSeculo Falta da educação gera corrupção Diniz, Janguiê 9788542814842 256 páginas Compre agora e leia Sabe-se que a corrupção é parte da natureza humana e sempre existiu em todos os tempos e culturas, tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, afetando negativamente a efetividade das políticas públicas e o crescimento econômico. O que varia são as consequências – para o corrupto e para a sociedade em que ele vive.Segundo análise do projeto da ONG Transparência Internacional, sobre o Índice de Percepção da Corrupção, que classi¬fica os países e territórios com base em quão corrupto seu setor público é percebido, o Brasil ¬ficou em 69º lugar, empatado com a África do Sul e a Macedônia, dentre 176 países avaliados.Não dá para desassociar a educação da corrupção. Os dados do Índice de Percepção de Corrupção Mundial são claros em a¬firmar que os países com menores índices de educação e igualdade tendem a ter as maiores taxas de corrupção. Especi¬ficamente no setor de educação, a corrupção é capaz de limitar a acumulação de capital humanoe, em longo prazo, afetar toda a estrutura de desenvolvimento da sociedade.O único meio conhecido de vencer defeitos e falhas humanas é a educação. Educar para que haja respeito; para que nos encaremos com igualdade, fraternidade e solidariedade. http://www.amazon.com.br/s/?search-alias=digital-text&field-keywords=9788542814842 Compre agora e leia http://www.amazon.com.br/s/?search-alias=digital-text&field-keywords=9788542814842 Rosto Sumário Irmão, parceiro e amigo, por Jânyo Diniz Prefácio, por André Esteves Apresentação PARTE I A pequena Santana dos Garrotes Naviraí, a primeira mudança e os primeiros empreendimentos A mudança para Pimenta Bueno A volta para a Paraíba A chegada ao Recife PARTE 2 A primeira grande alegria: o vestibular de Direito da UFPE Um novo empreendimento: a empresa de cobrança Praxis De volta aos negócios: a empresa Janguiê Cobranças As graduações O encontro com o amor A carreira da magistratura e a docência O nascimento dos herdeiros O Ministério Público do Trabalho e os primeiros empreendimentos educacionais O despertar de um escritor Juiz versus procurador: uma decisão difícil Alunos e parceiros de vida Mestre e doutor em Direito PARTE 3 O sonho de criar uma instituição de ensino superior A abrafi e a abmes A marca Ser Educacional e o crescimento da Maurício de Nassau O empreendedor nunca para Em busca de um sonho Campanha na rua A hora de expandir PARTE 4 A Faculdade Joaquim Nabuco A mudança de faculdade para centro universitário e o curso de Medicina A responsabilidade social O Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau Uma empresa na Bolsa de Valores Cidadão do Brasil A lista da Forbes Janguiê por Janguiê