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Dedico este livro a todos aqueles, que assim como eu, têm sonhos e
buscam realizá-los a cada dia. Espero que minha história sirva de
exemplo para aqueles que acreditam que são capazes de mudar o
próprio destino.
Sumário
Irmão, parceiro e amigo, por Jânyo Diniz
Prefácio, por André Esteves
Apresentação
PARTE I
A pequena Santana dos Garrotes
Naviraí, a primeira mudança e os primeiros empreendimentos
A mudança para Pimenta Bueno
A volta para a Paraíba
A chegada ao Recife
PARTE 2
A primeira grande alegria: o vestibular de Direito da UFPE
Um novo empreendimento: a empresa de cobrança Praxis
De volta aos negócios: a empresa Janguiê Cobranças
As graduações
O encontro com o amor
A carreira da magistratura e a docência
O nascimento dos herdeiros
O Ministério Público do Trabalho e os primeiros empreendimentos
educacionais
O despertar de um escritor
Juiz versus procurador: uma decisão difícil
Alunos e parceiros de vida
Mestre e doutor em Direito
PARTE 3
O sonho de criar uma instituição de ensino superior
A abrafi e a abmes
A marca Ser Educacional e o crescimento da Maurício de Nassau
O empreendedor nunca para
Em busca de um sonho
Campanha na rua
A hora de expandir
PARTE 4
A Faculdade Joaquim Nabuco
A mudança de faculdade para centro universitário e o curso de Medicina
A responsabilidade social
O Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau
Uma empresa na Bolsa de Valores
Cidadão do Brasil
A lista da Forbes
Janguiê por Janguiê
Irmão, parceiro e amigo
Conheço Janguiê por toda a vida, e não poderia ser diferente: ele é
meu irmão mais velho, me levava para a escola quando eu tinha
quatro anos e ficava na porta até eu ficar distraído para ele poder ir
embora. Defini-lo em poucas palavras é possível, mas inexato. Ele
é o tipo de pessoa que pode ser chamado de inteligente, objetivo,
determinado, firme, ousado, criativo, austero, até certo ponto
autoritário, flexível, humano, patriarcal, fraterno, generoso e
vaidoso. Mas, acima de tudo, empreendedor visionário e
obstinado. As contradições aparentes de seu comportamento —
autoritário, flexível, severo e humano — se devem às heranças
comportamentais de nossos pais: mãe absolutamente amorosa,
sensível e altruísta, e pai rigoroso, duro, severo e autoritário.
Essas características pessoais e comportamentais fizeram com
que ele pudesse perseguir e construir seus sonhos baseado em uma
capacidade incomum de conciliar uma extenuante jornada diária
de estudos e trabalho, e um senso crítico e de oportunidade ímpar.
Ainda estudante, Janguiê montou o que seria seu primeiro negócio
formal (na infância, já havia sido engraxate e vendedor de
laranjas): uma empresa de cobranças. Quando finalizou a
graduação em Direito, fez um concurso para juiz do trabalho e,
durante suas horas de estudo, percebeu que não havia nenhum
bom curso preparatório para concursos públicos na área jurídica
em Recife. Dessa carência e de seu senso de oportunidade nasceu o
Bureau Jurídico, melhor curso preparatório para concursos
públicos que o estado de Pernambuco já teve e embrião daquilo
que seria o grande negócio da sua vida e o conduziria a ser dono da
primeira empresa de Pernambuco a ter ações negociadas na Bolsa
de Valores.
Professor, juiz, procurador do Ministério Público da União,
empreendedor, empresário, filantropo. Janguiê tem muitos
atributos e predicados, o mais importante deles, e que junto com
suas características pessoais lhe permitiu transformar seus sonhos
em realidade, foi a capacidade ímpar de liderar, de aglutinar
pessoas ao seu redor, de dar a elas um propósito e fazer com que se
sentissem parte integrante dos seus projetos e sonhos, como se
fossem os seus próprios sonhos. Foi assim com sua família, com
seus irmãos, com as quais começou a desenvolver suas habilidades
naturais de liderança, trazendo todos eles para participar do
projeto, em que, sob sua hábil condução, cada um tinha um
propósito, um objetivo e uma responsabilidade, o que
demonstrava não somente sua capacidade de liderança, mas de
escolher a posição correta para cada um. Essas capacidades de
liderança, aglutinação e escolha da pessoa certa para o lugar certo,
auxiliados pelo seu forte carisma, auxiliaram a trazer dezenas de
outros profissionais competentes, os quais o ajudaram a criar e a
desenvolver suas empresas.
Além das empresas que Janguiê criou ou ajudou a criar, ele
ainda possui um fundo para investimentos em startups que
financiam empreendedores jovens e visionários como ele é, em
todas as áreas, tem investimentos nas áreas de TI, comunicação e
na indústria.
De todas as facetas da pessoa e do profissional que Janguiê se
tornou, a menos conhecida pelo grande público é sua
generosidade, sua capacidade de ajudar não só sua família,
membros próximos e parentes distantes, mas todos aqueles que
dele precisam. O Instituto Janguiê Diniz, desconhecido do público,
tem diversos projetos vinculados à educação que transformam a
vida das pessoas. Um deles, o de desenvolvimento do perfil
empreendedor da mulher em comunidades carentes da cidade do
Recife, é um dos mais interessantes. Esse projeto capacita, orienta
e financia a criação de microempresas por mulheres carentes, com
o objetivo de transformá-las no centro de provisão de recursos
para a família, contribuindo com o aumento da renda e
melhorando o grau de desenvolvimento familiar, especialmente o
dos filhos. Os projetos do Instituto Janguiê Diniz até esse momento
não puderam ser divulgados por determinação de Janguiê. Espero
que agora esse perfil de sua personalidade também possa ser
conhecido por todos.
O mais importante, Janguiê é muito jovem, está no início da sua
vida de empreendedor, ainda tem muito a construir, não vai ficar
apenas nas empresas que já participou ou participa atualmente,
como educação, Comunicação, TI, Indústria. Vai continuar
financiando novos empreendimentos, criando novos produtos e
ajudando com sua criatividade e força de trabalho a gerar
empregos, educar os jovens e a desenvolver o país.
Jânyo Diniz, irmão
Prefácio
Janguiê Diniz nos relata neste livro, de forma simples e objetiva,
sua emocionante história de vida. Da infância sofrida e incerta ao
fantástico sucesso do Grupo Ser Educacional, passando por todos
os momentos marcantes na vida de um homem: a descoberta do
amor e o casamento, o nascimento dos filhos, o primeiro emprego,
o amadurecimento profissional.
O traço mais marcante, contudo, desta fascinante trajetória é o
empreendedorismo, presente em todos os momentos da vida de
Janguiê. De engraxate, vendedor de laranjas e picolés durante a
infância no interior recém-explorado do Brasil ao megaempresário
frequentador da lista da revista Forbes e acionista controlador de
uma grande empresa de capital aberto, a vontade de fazer
acontecer está presente durante todo o tempo.
Janguiê, durante esta narrativa, nos mostra a essência do
empreendedor: sua capacidade infinita de superar obstáculos e
adversidades, de sonhar o impossível mantendo os pés no chão,
sua obstinação de vencer e realizar, de antecipar o futuro. Tudo
isto está aqui, o leitor é brindado com uma história de
empreendedorismo “puro-sangue”, em que o sucesso chega sem
atalhos, por meio de muita dedicação, trabalho, foco e sacrifício.
Tenho enorme orgulho de ter participado de uma pequena
parte desta incrível trajetória quando do processo de abertura de
capital do Grupo Ser Educacional. Lembro-me das primeiras
conversas em que eu, já admirado com a história empresarial do
grupo e de seu controlador, explicava os impactos para a empresa
do processo em discussão e como nosso banco poderia ajudá-lo,
num processo educacional comum a todos os empresários que
passam por este momento. Chamou minha atenção a maneira
simples, direta, objetiva com que Janguiê me questionava sobre
todos os pontos do processo e logo se criou um elo entre nós e a
conversa rapidamente se tornou uma conversa entre
empreendedores brasileiros, acima de qualquer outro tema.
Frequentemente sou questionado sobre as possibilidades de
sucesso no longoprazo do nosso querido Brasil como nação, e
invariavelmente respondo em tom otimista, o que me faz ser
questionado, principalmente em momentos de crises, tão comuns
por aqui. A história narrada neste livro é a melhor explicação para
meu otimismo com o nosso país.
Janguiê parte de carências extremas, no interior recém-
ocupado do Brasil para, apenas com sua perseverança e obstinação
épicas, e com inegociável respeito à ética, criar um dos maiores
grupos empresariais na área de educação do país e, além disso,
uma das mais inspiradoras histórias de sucesso pessoal e
empresarial do Brasil moderno.
O mais fascinante é que o sucesso do Grupo Ser Educacional
promove o que mais precisamos: educação, especialmente em
áreas ainda carentes do país. É motivante pensar que dos seus
diversos campi, das suas centenas de cursos, dos seus milhares de
alunos, plantam-se diariamente sementes para a produção de
novos Janguiês, tão necessários e transformadores para nossa
sociedade. Tenham uma ótima leitura!
André Esteves, Chairman & CEO do BTG Pactual
Apresentação
Ao completar 50 anos de vida e ver que, depois de anos de muito
trabalho, estudo e luta, o grupo educacional que fundei há onze
anos está entre os maiores do país, decidi escrever o primeiro livro
da minha autobiografia. Nele, pretendo contar, ainda que em uma
breve síntese, um pouco da história desta fase da minha vida. É
que planejo escrever minha biografia em cinco volumes. O
primeiro agora que acabo de completar cinquenta anos. O
segundo, quando completar sessenta. O terceiro, o quarto e o
quinto quando eu fizer setenta, oitenta e noventa anos,
respectivamente, e se Deus assim permitir.
Não nasci em uma família rica. Tudo que conquistei foi fruto de
muita dedicação aos livros e ao trabalho. Por falar em trabalho,
comecei a trabalhar aos oito anos de idade e posso dizer, por
experiência própria, que o trabalho enaltece e engrandece o
homem.
Além de trabalhar muito, estudei muito. Agradeço aos meus
pais, os quais, mesmo sem ter oportunidade de estudar quando
jovens, sempre incentivaram todos os sete filhos a buscar os livros.
Devo mais ainda ao meu tio Nivan, que me apresentou ao Direito,
uma novidade que se tornou minha paixão e meu trabalho.
Ao olhar para trás, vejo que fui um jovem de coragem por
abandonar minha família para correr atrás do sonho de fazer uma
faculdade. Nunca tive medo de arriscar e nos negócios sempre fui
até o fim. Errei e aprendi com meus erros. Hoje, com mais
experiência do que aquele jovem de 14 anos que deixou os pais no
Norte do país e veio para o Nordeste em busca de uma
oportunidade de vida, posso dizer que me tornei mais cauteloso. O
fervor e a impulsividade da juventude ficaram no passado e passei
a ser muito mais atento às mudanças do mercado.
Considero-me uma prova viva de que vencer na vida é possível
com muito trabalho, estudo, dedicação, foco e objetividade. Foi
assim que vivi e venci. E é dessa mesma forma que educo meus
filhos, mostrando a eles que para crescer é preciso estudar e se
esforçar bastante.
A educação é capaz de mudar o homem. Ela me mudou, mudou
o meu status. O estudo é capaz de abrir os nossos horizontes e nos
mostrar caminhos antes desconhecidos. Ter podido cursar duas
graduações, pós-graduações, mestrado e doutorado foi algo que
fez de mim um profissional qualificado e me ofereceu
oportunidades de atuar em várias áreas.
Ao escrever este primeiro livro não quero simplesmente contar
o que aconteceu na primeira fase de minha vida, as dificuldades
pelas quais passei, minhas conquistas ou os meus erros. Espero que
as próximas páginas sejam mais que a história de um empresário
que está dando certo. Torço para que a minha trajetória seja um
incentivo a todos que a lerem e que, ao final deste primeiro livro,
eu possa servir de exemplo para algum jovem que não acredita que
é capaz de mudar seu próprio destino.
PARTE I
A pequena Santana dos Garrotes
Nasci no dia 21 de março de 1964, dez dias antes do golpe de Estado
de 31 de março, data em que os militares assumiram o poder no
Brasil, depondo João Goulart. Minha história começa aí. A cidade é
Santana dos Garrotes, um pequeno município distante cerca de
415 km de João Pessoa, capital da Paraíba.
Santana dos Garrotes, que ainda hoje é caracterizada pela
simplicidade das pequenas casas, tinha menos de 5 mil habitantes
e era margeada pelo que chamávamos de Rio das Queimadas. Foi lá
que meus pais, João Diniz e Maria de Lourdes, se conheceram e se
casaram ainda muito jovens. Minha mãe com 14 anos, meu pai com
23 anos.
Meu pai teve nove irmãos e após a morte do meu avô paterno,
Benedito Muniz Diniz, que era o delegado de Santana dos Garrotes
e foi assassinado, ele assumiu o comando da família. Ainda uma
criança, aos catorze anos, ele trabalhava como peão na pequena
fazenda do meu avô materno, Severino Bezerra da Costa. Depois de
trabalhar em várias cidades e em vários estados do país, como
Maranhão, São Paulo, Brasília e Paraná, ele voltou para a cidade
natal. Em 1962, começou a namorar a minha mãe e quando ela
completou 13 anos, ele a pediu em casamento. O combinado era
que o casamento aconteceria somente quando ela chegasse aos 20,
mas eles acabaram se casando no ano seguinte, em 1963.
Quando nasci, em 1964, papai morava em uma pequena casa de
taipa no sítio de meu avô. Posteriormente, depois de muito
trabalho árduo e extenuante, ele conseguiu construir uma pequena
casa na cidade. Em 1966, nasceu meu primeiro irmão, João. Em
1968, veio Jânyo, e em 1969, Jair.
Além de meus pais e meus irmãos, também morava conosco
minha tia Benedita, que foi criada por meu pai devido à morte dos
meus avós paternos.
Papai continuou a trabalhar nas fazendas do pequeno vilarejo
de Santana dos Garrotes. Foi lá onde vivi meus primeiros cinco
anos de vida, até me mudar, em 1969, para Naviraí, no Mato
Grosso do Sul. Contarei os motivos para essa mudança mais
adiante.
1966 - Da esquerda para a direita: prima Irismar, Janguiê,
Avó Maria José, prima Pê, primo Neto e acima o Tio Durval
Sou o mais velho de seis irmãos e uma irmã, que foi adotada.
Além de mim, João, Jânyo e Jair, meus pais tiveram Jonaldo, Joaldo
e Raquel, a única menina e que chegou como um presente para
nós. Em razão da idade, pouco me lembro daquela época, mas
algumas lembranças jamais serão esquecidas.
Papai trabalhava o dia inteiro e, enquanto isso, mamãe cuidava
do lar e dos filhos. Na maioria das vezes, ela cozinhava, limpava e
lavava roupas não apenas para nós, mas também para os homens
que trabalhavam com papai e frequentavam constantemente nossa
casa.
Comecei meus estudos na única escola que havia na cidade, a
Escola Pública de Santana dos Garrotes. Apesar de meus pais não
terem tido a oportunidade de frequentar uma escola na infância,
estudar sempre foi uma exigência deles e eu os agradeço muito por
isso.
A escola ficava bem próxima à casa onde morávamos, e como
Santana dos Garrotes era uma cidade muito pequena, ia a pé todos
os dias. Era lá onde eu passava as manhãs.
Gostava também de ir à fazenda do meu avô e brincar com os
carneiros que ele tinha. Lembro-me de, por várias vezes, quando
ainda nem sabia falar direito, desafiar a fúria de um dos animais e
ter a sorte de não sair machucado daquela aventura.
Fisicamente, fui uma criança bastante magra e alta para minha
idade. Acredito que tenha herdado essas características da minha
família materna. Principalmente do meu avó Severino Bezerra.
Junto com meu irmão João, gostava de ir brincar e tomar banho no
açude. Na volta para casa, sempre ouvíamos as reclamações de
mamãe, que não gostava que brincássemos por lá, pois eu não
sabia nadar. Mas aquela era a nossa diversão.
Desde pequenos, mamãe ensinou todos os irmãos a ajudar em
casa, então aprendemos os afazeres domésticos. Como na
residência sempre havia mais pessoas além de nós, filhos, uma
verdadeira força-tarefa era necessária para dar conta de tudo.
Apesar de vivermos humildemente, nunca faltou comida na nossa
mesa e as dificuldades que apareciam, encarávamos de frente.
Àsvezes, meu pai passava dias trabalhando no mato sem voltar
para casa e eu, o filho mais velho, sempre assumi o papel de cuidar
da minha mãe e dos meus irmãos. Mas a vida em Santana dos
Garrotes não era fácil, e como tantas outras famílias, convivíamos
com a seca contínua que devastava o sertão nordestino.
O trabalho para meu pai na pequena Santana dos Garrotes já
estava ficando escasso, pois já não havia tantas fazendas produtivas
que garantissem emprego e o peso da responsabilidade com a
família fez com que ele tomasse a decisão de mudar com todos nós
para outra cidade. Como ele já conhecia alguns estados devido ao
trabalho de peão e empreiteiro, o destino escolhido foi Naviraí, no
Mato Grosso do Sul. Lá morava meu tio José Bezerra, irmão de
mamãe, e que poderia nos ajudar.
A pequena casa, algumas vacas e jumentos — papai vendeu
tudo. Com o dinheiro, comprou as passagens de ônibus para todos
nós, que seguiríamos juntos para o novo desafio. Lembro-me
como se fosse hoje. Fomos de carro fretado de Santana dos
Garrotes para Patos, ainda no interior da Paraíba. Em Patos,
pegamos um ônibus até São Paulo, e de São Paulo, outro para
Naviraí, no Mato Grosso.
Naviraí, a primeira mudança e os
primeiros empreendimentos
Quando chegamos a Naviraí, em 1969, eu tinha cinco anos. Apesar
de também ficar no interior, era uma cidade bem mais populosa e
ativa, completamente diferente de Santana dos Garrotes. Era difícil
acreditar que, até os anos 1950, Naviraí fora apenas um campo
desabitado. Mas, com a chegada dos colonizadores, a cidade se
desenvolveu e tornou-se um importante acesso às principais
regiões do Brasil através de uma rodovia federal que partia de lá
para os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Mato
Grosso.
Passamos a primeira noite na casa do tio José Bezerra da Silva.
Logo depois, com o dinheiro que havia sobrado da mudança, papai
alugou de um descendente de japonês um pequeno casebre de
madeira com sala, um quarto e cozinha.
Morávamos em sete pessoas lá. Meus pais, tia Benedita, eu e
meus irmãos João, Jânyo e Jair. Mamãe nos matriculou em uma
escola pública e, com o apoio do cunhado José Bezerra, papai
conseguiu um trabalho de peão em uma fazenda. Mais tarde,
passou a trabalhar como “gato”, que era como os empreiteiros que
arregimentavam os peões para fazer as roçadas e derrubadas nas
fazendas eram conhecidos.
Junto com outros trabalhadores, ele deveria derrubar cerca de
200 hectares de mata a fim de preparar o terreno para plantio e, ao
mesmo tempo, fazer a retirada de madeira de lei, que
posteriormente seria comercializada. Tratores ou serras elétricas
não eram comuns naquela época, a derrubada das árvores era feita
manualmente. As ferramentas que os peões utilizavam eram
machados e foices. Com o dinheiro que recebeu quando terminou
a empreitada, papai abriu uma pequena lanchonete na cidade.
Naviraí era quase inteiramente povoada por peões de fazendas.
A estrutura da cidade era bastante interessante e até comum para a
época: foi toda planejada como uma teia de aranha, com ruas
partindo de um centro. Historicamente, ela foi criada a partir de
uma clareira no meio da mata e fazia parte de um plano de
interiorização do Brasil que atraía interesses de capitalistas na
época e contava com apoio do presidente Juscelino Kubitschek,
que idealizou Brasília seguindo os mesmos ideais.
Para papai, a mudança para Naviraí era uma esperança de fugir
da seca que, naquela época, castigava o Nordeste há muitos anos.
Como filho mais velho, me sentia responsável e ajudava meus
pais como podia. Todos os dias, antes de ir para a escola, acordava
cedinho para abrir a lanchonete. Em alguns dias da semana,
acordava ainda de madrugada para ir até uma fazenda buscar leite
para servir o café da manhã dos peões e fabricar sorvete, que
vendíamos na lanchonete. Nesses dias, acordava por volta das
quatro da manhã para pegar o ônibus que me levaria até a fazenda.
Mamãe também já estava de pé naquele horário, preparando o
nosso café da manhã. Lembro-me até hoje, era chá de capim-
santo — uma erva bastante comum no Nordeste e que plantávamos
no nosso quintal — com pão caseiro e manteiga.
Havia apenas uma condução para ir e outra para voltar. Eu não
poderia perdê-las, caso contrário, não teria como levar o leite para
casa. Eram cerca de dezoito quilômetros até a fazenda. Eu descia
do ônibus e ficava na porteira da fazenda esperando o vaqueiro que
trazia os dois galões de leite num cavalo. Eu ia e voltava sozinho,
entrava no ônibus carregando os dois galões de 20 litros de leite
cada.
Lembro-me de uma madrugada em 1972, quando havia
chovido bastante e as estradas estavam alagadas e barrentas. Eu
tinha oito anos e, como de costume, acordei cedo, sai antes de
amanhecer e peguei o ônibus até a fazenda das vacas leiteiras.
Após receber os dois galões do vaqueiro, voltei para o ponto de
ônibus na estrada, dentro do horário previsto para a viagem de
volta, mas o transporte não chegava.
Esperei por cerca de uma hora, mas nada de o ônibus aparecer.
Àquela altura do dia, mamãe já estava preocupada com minha
demora. Naquela época sequer existia telefone para que eu pudesse
avisá-la. O que ninguém poderia imaginar é que, devido às
dificuldades da estrada, o ônibus havia quebrado.
Com apenas oito anos de idade, mas já tendo nas costas a
responsabilidade de levar o leite a tempo de fazer o café para os
peões e o sorvete da lanchonete, só pensava que precisava voltar de
qualquer jeito e então não pensei duas vezes: saí andando pela
estrada, arrastando um galão de cada lado, certo de que a
caminhada iria durar longos 18 quilômetros, e de que eu não
poderia desistir. Minha vida sempre foi assim, cheia de
dificuldades, desde muito cedo. Mas uma característica inerente a
mim e que carrego até hoje é a obstinação e determinação em
superar todas as adversidades que surgem em meu caminho.
Por sorte, após alguns quilômetros de caminhada arrastando os
galões, um conhecido de meu pai passou dirigindo uma
caminhonete e meu deu uma carona até a lanchonete. Papai estava
muito bravo com meu atraso e, sem querer escutar minha
justificativa, quase me deu uma surra, pois achava que eu tinha
perdido o ônibus por negligência. Mas me senti aliviado por ter
conseguido cumprir minha tarefa de levar o leite até a lanchonete,
mesmo chegando atrasado. Depois desse episódio, e de muita
reclamação de mamãe, aquela foi a última vez que fui à fazenda
buscar leite.
Nessa época, eu, João e Jânyo estávamos em idade escolar. Jair
ainda era muito novo e ficava em casa com mamãe e tia Benedita.
João, Jânyo e eu íamos juntos para a escola. Eu acompanhava os
meus irmãos até a entrada da sala de aula para ter certeza de que
eles iam estudar. Jânyo, o mais novo, sempre foi muito estudioso.
Entretanto, sempre foi muito tímido. Quando eu o deixava na sala
de aula precisava ficar esperando até ele se distrair com as
atividades escolares e com os colegas de classe para que eu pudesse
ir embora. Caso contrário, ele chorava e eu tinha que voltar para a
porta da sala de aula para ele me ver.
João, que era mais velho que Jânyo, sempre foi um menino
muito perspicaz e muito ativo, mas também muito peralta.
Gostava muito de brincar e de brigar com os coleguinhas, e quase
nada de estudar. Ele era daqueles garotos que você tinha que ficar
esperando entrar na sala de aula para não correr o risco de ele fugir
para o pátio para brincar.
A mudança de Santana dos Garrotes, na Paraíba, para Naviraí,
no Mato Grosso do Sul, teve vários impactos sobre nós, que éramos
muito pequenos. Mas sem dúvida o maior deles foi a dificuldade de
adaptação ao frio. Na Paraíba, o clima é muito quente, com poucos
períodos de chuva durante todo o ano e, de repente, estávamos em
uma cidade em que, no inverno, a temperatura atingia zero grau e
geava com frequência. Foi difícil aguentar, já que a casa de madeira
que morávamos não absorvia a temperatura como os materiais que
são usados nas construções de hoje. Lembro-me que, nos dias mais
frios, mamãe usava o fogão a lenha para nos aquecere chegamos a
ficar longos períodos sentados lá, próximos ao fogão, tomando chá
de capim-santo.
O frio também dificultava a ida para a escola, mas não nos
permitíamos faltar às aulas por causa disso. Algumas crianças na
cidade, acostumadas ao frio, achavam estranho quando
chegávamos com casacos e luvas na sala de aula, mas para os
sertanejos, habituados com altas temperaturas, estar abaixo de 18°
já é passar bastante frio.
E assim a vida seguia. A responsabilidade de estudar, trabalhar
e ajudar a cuidar dos irmãos menores já me era inerente. Precisei,
desde muito novo, me acostumar ao desafio de administrar o
tempo. Estudar sempre foi para mim um ato prazeroso e eu me
dedicava ao máximo, não repetindo nenhum ano e procurando
estar sempre entre os melhores da sala.
Por volta dos nove anos, percebi que os outros garotos iam
todos os sábados à matinê do cinema, mas eu não podia fazer o
mesmo. A vida era difícil, e o que o meu pai ganhava dava apenas
para sustentar a família, sem nenhum luxo. Foi então que resolvi
sonhar em montar meu primeiro negócio, meu primeiro
empreendimento.
Costumo me definir como empreendedor. Fazedor de coisas. E
digo que o empreendedor é aquele que sonha e busca transformar
os sonhos em realidade. Com base neste primeiro sonho, pedi ao
tio Francisco, irmão da minha mãe, que fizesse uma caixa de
engraxate para mim, pois eu pretendia ganhar dinheiro
engraxando sapatos.
Lembro-me, até hoje, como era a caixa de engraxate: triangular
e feita com uma madeira chamada Pinus. Como sempre fui
autodidata, com uma pequena quantia em dinheiro que mamãe me
deu, comprei as graxas e as escovas e aprendi as técnicas sozinho.
Estudava pela manhã e à tarde ia para as ruas de Naviraí engraxar
sapatos. Foi assim que comecei a ganhar meus primeiros trocados.
O negócio deu certo e, com o dinheiro que eu ganhava como
engraxate, ia todos os sábados para a matinê do cinema e ainda
levava um pouco para ajudar em casa.
Passei pouco mais de um ano engraxando, até perceber que
outros garotos da cidade estavam ganhavam mais dinheiro que eu
vendendo laranjas, chamadas naquela região de poncãs ou
mexericas.
A ambição de ganhar mais me fez decidir mudar de ramo e
partir para o meu segundo empreendimento. Optei por vender a
caixa de engraxate, fui na central de distribuição de frutas e
verduras da cidade, comprei uma caixa de mexericas e comecei a
vender de porta em porta. Aumentei o meu lucro rapidamente. De
cada caixa de poncãs que eu vendia, comprava duas.
No entanto, uma das características do empreendedor de
sucesso é ter informações e profundo conhecimento do negócio, e
eu não tinha conhecimento suficiente na época para saber que as
laranjas são produtos sazonais e que dependem de safra de cultivo.
Logo os produtos se esgotaram e a safra também. Eu não tinha
como comprar e não tinha o que vender. Surgiu um problema: o
que fazer quando não fosse época de mexericas?
Aos leitores, deixo uma lição: quando forem montar ou
participar de qualquer negócio, aprendam tudo o que puderem
sobre ele. Nunca achem que sabem o suficiente ou que é um
negócio perfeito. Vocês precisam estar preparados para as
dificuldades e eu, naquela época, não estava.
Precisava rapidamente pensar em alguma outra atividade que
desse tanto lucro quanto a venda das poncãs. Como na lanchonete
do meu pai vendíamos sorvetes e eu conhecia alguns fornecedores
de picolé, comprei um caixa de picolés e passei a vendê-los de
porta em porta. Eu estava de volta aos negócios, com meu terceiro
empreendimento. Assim, pude continuar ajudando em casa e
ainda sobrava um pouco de dinheiro para mim.
Nesta época, 1973, já havia nascido, em Naviraí, meu irmão
mato-grossense, Jonaldo, meu quarto irmão e o quinto filho dos
meus pais. Por outro lado, a lanchonete não ia bem. Já não dava
mais lucro. Chegava a hora de pensar em uma nova mudança para
algum lugar onde houvesse mais oportunidades.
Em 1974, papai vendeu a lanchonete por menos da metade do
que ela valia, comprou uma Kombi velha, colocou tudo que
tínhamos nela: as roupas e algumas panelas. Iríamos nos mudar
novamente. Iríamos tentar um novo começo, dessa vez em
Pimenta Bueno, Rondônia, região Norte do Brasil.
A mudança para Pimenta Bueno
Pimenta Bueno, distante cerca de 1.500 quilômetros de Naviraí,
não era a primeira opção que meus pais tinham em mente. Com
malas, algumas panelas e tudo o que tínhamos, meus pais, minha
tia Benedita e todos os meus irmãos, a Kombi seguiu lotada de
Naviraí, no Mato Grosso, até Cacoal, em Rondônia.
Durante a viagem, que durou quase nove dias, a Kombi
quebrou duas vezes. As estradas da época eram de barro e o
período de chuvas dificultou ainda mais o trajeto. Inicialmente
fomos para Cacoal porque meu tio Francisco Bezerra morava lá.
Meus pais, com a esperança de receber alguma ajuda do parente,
resolveram bater à sua porta. Mas a situação dele não era muito boa
e em nada podia nos ajudar. Ficamos em Cacoal numa pequena
casa alugada por cerca de uma semana. Em seguida, meus pais
resolveram ir para Pimenta Bueno, uma cidade localizada a cerca
de 30 quilômetros dali.
Pimenta Bueno era uma cidade pequena, situada entre dois
rios, o Barão de Melgaço e o Pimenta, com cerca de 5 mil
habitantes. Pertencente ao então território de Rondônia, em 1974
ainda era uma cidade nova, surgida de um antigo posto telegráfico.
Não havia telefone, muitos porcos-do-mato cruzavam os rios,
além de muitos índios que, nus, eram vistos com frequência pelas
ruas, já que várias aldeias ficavam nos arredores da cidade.
Quando chegamos à cidade, restavam apenas 400 mil cruzeiros
no bolso de meu pai, valor que ele usou para alugar uma casa. Em
seguida, abriu uma conta em um dos bancos de Naviraí. Com um
cheque, mesmo sem fundos, vindo futuramente a pagar a quantia,
ele comprou um pequeno ponto de comércio, onde abriu um
pequeno bar e lanchonete, criando um novo empreendimento.
Dessa vez não seria necessário buscar leite de madrugada nas
fazendas, mas eu, como filho mais velho, continuava ajudando
papai. Todos os dias, acordava ainda de madrugada para abrir o bar
e lanchonete.
No bar do pai - Pimenta Bueno
Papai, apesar de não ter tido a oportunidade de estudar, sempre
tentou criar alguns negócios/empreendimentos. Infelizmente,
nenhum deles deu certo, porque ele não dispunha das principais
características para um empreendedor de sucesso, principalmente
o conhecimento e as habilidades gerenciais.
Em vista disso, tendo a concordar com Fernando Dolabela, que
enfatiza que o empreendedorismo é um fenômeno cultural, pois o
pressuposto básico é que todos nós temos um potencial
empreendedor, que é ou não desenvolvido pelo fenômeno cultural.
Se você tem uma família empreendedora, provavelmente tenderá a
ser empreendedor. Acho que acompanhar papai sempre tentando
criar novos empreendimentos fez o tino empreendedor despertar
em mim.
É importante ressaltar que, com meu pai, aprendi poucas coisas
na vida. Mas as poucas que aprendi foram imprescindíveis para a
formação de meu caráter: ter coragem de tentar e arriscar sempre,
sem nunca desistir; trabalhar muito e não ter medo de enfrentar
qualquer tipo de trabalho, desde que honesto; ser honesto e
sempre cumprir com a palavra. Com meu pai aprendi que palavra
dada é palavra que deve ser rigorosamente cumprida. Pouco
importa se está registrada em papel ou não. Deve-se honrar “o fio
do bigode”. O que é combinado não é caro. E tenho seguido essas
imprescindíveis lições desde que me entendo por gente.
Todas as manhãs, antes da escola, eu ia primeiro até o bar e
lanchonete, varria o chão, fazia o café, colocava todas as cadeiras
nas mesas e organizava o local. Papai chegava mais tarde, pois
trabalhava no bar até cerca de meia noite, de domingo a domingo.
Algumas vezes, meu irmão João ia comigo. E quando
terminávamos de limpar, arrumar as cadeiras e as mesas e fazer o
café, aproveitávamos que ainda não havia clientes e papai não
tinha chegado para jogar uma partidinha na sinuca do bar. Quando
ele chegava, eu seguia para a escola com meus irmãos.Em Naviraí, estudei até a terceira série do ensino infantil em
uma das escolas públicas da cidade. Em Pimenta Bueno, fiz a
quarta série do ensino infantil na Escola Sandoval Meira e depois
estudei da quinta à oitava série do primeiro grau, hoje ensino
fundamental, no Colégio Municipal Anísio Serrão de Carvalho.
Eu não me via como a maioria dos garotos da escola. Ao
contrário, gostava muito de estudar e, apesar da pouca idade, sabia
que aquele era o único caminho para superar meu status quo de
pobreza, para alçar novos voos, melhorar e vencer na vida. Até
hoje, costumo dizer que a única e mais fácil forma de mobilidade
social é através do estudo, da educação. Especialmente na
sociedade em que vivemos, na qual o conhecimento é muito mais
importante que os recursos materiais como fator de
desenvolvimento humano, sendo, inclusive, considerado
instrumento de poder. Nenhum país do mundo pode aspirar sair
do estágio de subdesenvolvimento para o estágio de
desenvolvimento se não investir maciçamente na educação de seu
povo. Logo, ou eu estudava para tentar mudar de vida, vencer na
vida, ou as outras alternativas seriam ganhar na loteria — o que é
quase impossível — ou ser peão de fazenda, como meu pai foi por
muitos e muitos anos.
Morávamos no interior, mas tínhamos parentes em outras
cidades grandes do país que, graças ao estudo, estavam bem de
vida. Eram advogados. Isso me inspirava e, como a maioria das
crianças que moravam no interior, aos dez anos eu sonhava ser
médico.
A vida não era fácil. Era trabalhar muito e estudar mais ainda. O
bar ia se arrastando — além da venda de lanches e bebidas, servia
comida para os peões que trabalhavam nas fazendas. A vida seguia
o mesmo estilo de Naviraí, só que com mais trabalho e
responsabilidades: acordava muito cedo, ajudava minha mãe nas
atividades da casa, ajudava meu pai na lanchonete, ia com meus
irmãos para a escola, estudava e, às vezes, quando sobrava tempo,
brincava.
1972 – Na escola, em Naviraí, Mato Grosso
Mamãe, apesar de ser uma mulher de poucas letras, também
ensinou coisas importantíssimas para minha vida: suportar, com
paciência, as dores e os sofrimento que constantemente a vida
oferece. Nunca vi uma mulher sofrer tanto sem reclamar. Me
ensinou como amar os filhos e a família sem qualquer restrição.
Nunca vi uma mulher amar tanto e incondicionalmente seus
filhos. Ela vive e morre por nós e para nós. Me ensinou a amar o
próximo e ter sempre compaixão.
Eu já não engraxava mais sapatos, nem vendia laranjas
(mexericas) ou picolés, mas trabalhava com meu pai na
lanchonete. Prestes a completar doze anos, fiz um curso que iria
mudar minha vida: o antigo curso de datilografia (ASDFG). E,
ainda aos doze anos, consegui um emprego como office-boy em
um escritório de contabilidade chamado Pajé. A partir dali, eu não
pararia mais.
Em Pimenta Bueno também fui vendedor de roupas num bazar
da cidade do qual não me lembro o nome. Local onde aconteceu
um trágico acidente em minha vida: o dono do bazar era inimigo
de um concorrente. Certo dia, o concorrente, que tinha bebido
além da conta, passou na frente da loja e insultou o meu patrão. Os
dois começaram a discutir e fui à porta para ver o que estava
acontecendo, quando o bêbado arremessou um pedaço de tijolo
que acertou em cheio o meu rosto, provocando o afundamento do
lado esquerdo da minha face. Por muita sorte eu não morri. E
claro, não voltei mais para aquele emprego.
Trabalhei também em outra loja de roupas chamada Casa Três
irmãos. Era um vendedor premiado, pois vendia mais do que
qualquer outro funcionário. Ganhava um salário mínimo mais
comissões. Com o dinheiro comprava minhas coisas, naquela
época meu fascínio eram as roupas, e ajudava com as despesas de
casa.
Ainda em Pimenta Bueno, fui locutor de rádio. Apesar da pouca
idade, apenas catorze anos, já tinha uma voz grossa e durante
vários meses apresentei o programa O ouvinte é quem manda, na
rádio pirata local. Lembro que o slogan do programa, que era
ouvido em toda a cidade, era: “Ligue e ofereça uma música para sua
amada!”. Naquela época, o telefone era uma grande novidade, mas
nem todos tinham acesso a ele.
Foi ainda na época de Pimenta Bueno, mais especificamente na
maternidade de Cacoal, que nasceu meu sexto irmão, Joaldo.
Naquela mesma época, meus pais adotaram Raquel, minha única
irmã. Ela chegou à nossa casa ainda um bebê, sua mãe biológica
havia falecido durante o parto e o pai não sabia como criá-la.
Como éramos seis filhos homens, meus pais a trouxeram e ela
passou a ser a única filha do clã Janguiê.
Em 1979, eu estava prestes a acabar a oitava série, e começava a
me preocupar, pois em Pimenta Bueno não havia escolas com
segundo grau, o atual ensino médio. As cidades mais próximas que
ofereciam esse nível de escolaridade eram Porto Velho, capital do
estado, Ji-Paraná, também em Rondônia, e Cuiabá, capital do Mato
Grosso.
Eu tinha duas opções: parar de estudar e desistir do meu sonho
de ter uma vida melhor, vencer na vida e poder ajudar minha
família, ou sair de Pimenta Bueno, sozinho, em busca de outras
oportunidades de estudo e de vida. Mesmo sendo um adolescente
de catorze anos, já tinha consciência de que toda escolha é feita de
renúncias, então deixei-me guiar pela razão. Eu tinha que abdicar
da vida em família e passar a viver sozinho dali em diante para
poder buscar a realização dos meus sonhos e vencer na vida.
Naquele momento, aprendi mais uma lição: a vida é feita de
escolhas e fazer escolhas implica renúncias. Aprendi também que o
sucesso está intrinsecamente vinculado à dor e ao sofrimento. Sem
dor e sem sofrimento não existe sucesso.
1979 – Com os amigos de trabalho, em Pimenta Bueno,
Rondônia
1980 - Os irmãos: Jair, João, Raquel, Janguiê, Jânyo e
Joaldo (menor à frente).
A volta para a Paraíba
Ainda pensando para onde eu iria em busca de concluir os estudos
do ensino médio e ter oportunidade de cursar um ensino superior,
eu cogitava duas possibilidades: em João Pessoa, Paraíba, morava
Irene Bezerra da Costa, minha tia materna, e no Recife,
Pernambuco, eu tinha outro tio por parte de mãe que era
advogado, Nivan Bezerra da Costa, que eu não conhecia. Achei
melhor voltar para a Paraíba.
Deixei Pimenta Bueno, de ônibus, em dezembro de 1978, aos
catorze anos. A viagem até a Paraíba, mais precisamente até João
Pessoa, durou pouco mais de oito dias. As estradas de Pimenta
Bueno a Cuiabá eram péssimas, de chão de barro e repletas de
atoleiros, e em dezembro é puro inverno em Rondônia. Foram
cinco dias para andar cerca de 900 quilômetros até chegar a
Cuiabá, no Mato Grosso, e de lá foram mais três dias para chegar
até João Pessoa.
Encarei a viagem sozinho, mas com a proteção de Deus,
levando comigo tudo que tinha construído na vida até então. Uma
mala de roupas e um velho tocador de fitas cassete. Passei toda a
viagem escutando as canções melancólicas de um cantor que, na
época, era sucesso entre os jovens de Pimenta Bueno, Fernando
Mendes. Um cantor mineiro que se tornou conhecido no inicio da
década de 1970. “Toda sorte tem quem acredita nela…” dizia uma
das minhas canções favoritas.
Chegando a João Pessoa, segui para a casa da minha tia Irene,
que morava num antigo conjunto habitacional chamado Conjunto
João Agripino.
Eu já tinha estado uma vez em João Pessoa durante uma viagem
que fiz com minha mãe, quando meu avô Severino Bezerra morreu.
Mas para mim foi um grande êxtase chegar na capital do estado da
Paraíba, estado onde eu tinha nascido. A cidade, que era pequena
na época, com menos de um milhão de habitantes e poucos
edifícios, para mim era a maior cidade do mundo, com suas belas
praias e seus encantos.
Morei por um ano em João Pessoa, uma cidade que era
completamente diferente de todas as outras em que havia vivido.
Minha tia Irene foi uma mãe para mim, e foi lá que estudei o
primeiro ano científico, hoje ensino médio, no Colégio Lyceu
Paraibano.
A casa da minha tia parecia mais uma república de estudantes.
Moravam ela e meu padrinho Luiz, seu esposo; minhas três primas,
filhas dela, Lucrécia,Lana e Luna; meu primo, também filho dela,
Maciébe; meu primo Neto, filho de uma irmã dela; além de
Genival, outro primo, filho de outro parente. Todos foram morar
com ela no intuito de estudar e com o mesmo objetivo: vencer na
vida.
O ano que passei em João Pessoa foi um ano quase perdido. Só
consegui fazer o primeiro ano do ensino médio, sem fazer qualquer
outro curso ou trabalhar onde quer que seja. Vi que a cidade não
proporcionava as oportunidades que eu almejava. Decidi então ir
morar no Recife, uma cidade maior, mais estruturada e com mais
opções de cursos, inclusive o de medicina, que até então era o meu
objetivo.
Aquela seria a cidade que me acolheria de braços abertos e me
proporcionaria a oportunidade de fazer e ser o que sou hoje. Era
final de 1979 quando arrumei as malas e segui para o Recife, em
Pernambuco.
A chegada ao Recife
Quando terminei o primeiro ano do científico, me mudei para o
Recife. Foi meu tio Otacílio Bezerra que me ajudou a ir morar lá.
Era 1980 e a única referência que eu tinha era o endereço do
escritório do meu tio Nivan, que ficava no antigo edifício
Seguradora, na Avenida Guararapes, no bairro de Santo Antônio,
centro da cidade. Recife era muito diferente de João Pessoa, pelo
centro circulavam ônibus elétricos e a Avenida Guararapes era o
coração da cidade. Todos os grandes edifícios e escritórios da época
estavam concentrados lá.
Meu tio Nivan não me conhecia e após eu me apresentar como
seu sobrinho, ele perguntou de quem eu era filho. Nunca me
esquecerei de sua expressão ao questionar a resposta daquele rapaz
de quinze anos, bastante alto e magro: se eu dizia ser filho de
Lourdes, que estava em Rondônia, o que eu estava fazendo ali?
Meu tio permitiu que eu explicasse o que fazia ali, sozinho e
longe da minha família. E contei a ele toda a história, desde a
decisão de vir à Paraíba em busca de oportunidades de estudo até o
motivo de estar no Recife, buscando realizar o sonho de estudar e
ser médico. O que eu precisava dele era uma chance para trabalhar
e ter um lugar para morar. Como tio Nivan mantinha um escritório
de advocacia, ele perguntou se eu sabia trabalhar com alguma
coisa que me fizesse útil no escritório. Foi aí que o velho curso de
datilografia (ASDFG) que eu tinha feito em Pimenta Bueno mudou
minha vida.
De fato, eu tinha feito um excelente curso e me tornado um
exímio datilógrafo, batendo centenas de teclas por minuto, sem
olhar para o teclado, algo que me ajuda até hoje quando estou
trabalhando no computador, tudo isso fruto da técnica ensinada
no curso ASDFG que fiz com doze anos de idade.
Contei ao tio Nivan que, ainda em Pimenta Bueno, havia feito
curso de datilografia e ele pediu que eu demonstrasse. Havia várias
secretárias datilografando nas hoje clássicas máquinas de escrever
Remington e Olivetti — não havia computadores naquela época.
Ele me deu uma petição e em menos de meia hora datilografei as
dezenas de páginas que compunham o documento. Menos da
metade do tempo que as secretárias levavam.
Depois do teste ele disse que eu estava contratado como office-
boy do escritório, e que eu iria ganhar um salário mínimo. Era a
chance de que eu precisava naquele momento para mudar a minha
vida. Para construí-la. De fato, o curso ASDFG e aquela
oportunidade de emprego que meu tio me deu mudaram não só a
minha vida, mas a de toda minha família.
Meu tio pediu para eu procurar uma escola pública para estudar
e me ofereceu um pequeno quarto nos fundos de uma gráfica na
antiga Rua Velha, no Bairro da Boa Vista, para morar. Mas, logo em
seguida, me levou para morar em sua própria casa, junto com sua
família.
Tive dois pais na vida: o João Diniz, que me concebeu e me pôs
no mundo, me transmitindo os valores éticos de ser honesto,
trabalhar muito e cumprir com a palavra; e o Nivan Bezerra da
Costa, que me ensinou na prática a arte de advogar, me
transformando num profissional e advogado de sucesso. Devo tudo
a eles. Um complementou o outro.
Meu tio Nivan era um homem muito franzino, com belos
cabelos pretos e lisos. Era muito vaidoso e extremamente
inteligente e perspicaz. Sabia, como poucos, a arte de advogar,
além de ser um estudioso do Direito. Comprava todos os livros
novos que saíam sobre o tema e estudava muito para embasar suas
petições. Morei por cerca de três anos em sua residência, junto
com minha Tia Berenice, meus primos Nivan Júnior, Mércia, Kátia
e Vânia — seus filhos —, e outra prima chamada Irismar Neta, que
também morava com ele para estudar.
Era mês de janeiro e o calendário escolar começaria em
fevereiro. Eu tinha um problema pela frente: não havia mais vagas
nas escolas públicas, estavam todas lotadas. Como recebia um
salário mínimo no escritório do meu tio e não pagava aluguel,
procurei uma escola particular que tivesse uma mensalidade que
eu pudesse pagar. Daí, com parte do salário mínimo que ganhava,
me matriculei num pequeno colégio particular chamado de
Colégio Porto Carreiro, localizado na Rua da Concórdia, no bairro
de São José. Estudei lá o segundo e o terceiro anos do ensino
médio. Era um colégio modesto, que cobrava mensalidade baixa,
em torno de um quinto do salário mínimo que eu recebia. Foi a
única escola privada em que estudei, pois até então só havia
estudado em escolas públicas.
Vivia para trabalhar e estudar, pois a única alternativa que me
restava era passar no vestibular de medicina, na Universidade
Federal de Pernambuco. Entretanto, trabalhando no escritório do
meu tio e tendo como exemplo ele, que era um grande advogado, o
interesse pela medicina foi diminuindo.
Morava no bairro de Candeias, na cidade de Jaboatão dos
Guararapes, região metropolitana de Recife. Diariamente, me
levantava às 5 horas da manhã, me arrumava, tomava café e seguia
para o ponto de ônibus, para pegar o coletivo das 6h00, pois as
aulas começavam às 7h00 da manhã, e o colégio era localizado no
bairro de São José, no Recife, a cerca de 30 quilômetros de
distância. As aulas duravam até as 11h30 no colégio e depois eu
seguia a pé para o escritório de advocacia. Trabalhava até tarde da
noite, datilografando as intermináveis peças jurídicas que meu tio
elaborava à mão, com caneta esferográfica.
Com o salário que ganhava, pagava o colégio, as aulas de inglês
e francês e todas as minhas despesas, e algumas vezes mal sobrava
dinheiro para pagar as refeições diárias no trabalho. Não foram
poucos os dias em que os almoços se resumiram a pão doce com
caldo de cana comprados na padaria próxima ao escritório ou
então a dividir a refeição que minha prima Mércia, advogada que
trabalhava no escritório, trazia de casa e, por gentileza, dividia
comigo.
A rotina que eu mantinha no Recife foi muito diferente das
cidades anteriores. Era muito mais trabalho e muito mais estudo.
Uma das minhas maiores dificuldades foi perceber que, como eu
sempre tinha estudado em escola pública e de cidades pequenas,
havia tido menos acesso aos livros que os outros garotos do
colégio. Assim, eu precisava me empenhar ainda mais. Precisava,
de alguma forma, recuperar o “tempo perdido”.
Apesar do colégio Porto Carreiro ser uma escola modesta, já
tinha ficado bem claro que o nível dos alunos da capital era bem
diferente dos alunos do interior. Eu já sabia que estudar e me
dedicar era a única forma de me destacar, então, abdicava de todas
as diversões de adolescentes. Enquanto os garotos da minha idade
e da minha turma iam para as baladas, eu ficava em casa ou nas
bibliotecas públicas da cidade estudando até altas madrugadas,
sábados, domingos e feriados. Todo o tempo que sobrava da
correria diária, eu aproveitava para estudar. Era nos intervalos
entre as aulas e o trabalho, nas madrugadas e nos finais de semana
e feriados que eu revisava as matérias para entender e acompanhar
os assuntos.
Desde o ensino básico sempre tive facilidade com as matérias
relacionadas à área de humanas — português, história, geografia,
estudos sociais. Por instinto ou por saber que seria um diferencial
se eu dominasse as outras matérias, procurei dar mais importância
para aquelasdisciplinas de que não gostava, ou que não dominava,
como química e física e matemática, que tinham muitas fórmulas.
Preocupei-me em decorar as fórmulas. Eu passava nos exames
porque tinha decorado, mas depois esquecia tudo. Começava a
perceber mais um erro que não poderia cometer: se você só decora,
o assunto serve apenas para uso imediato, depois você esquece…
Era preciso aprender cada um deles se eu quisesse me sair bem no
vestibular.
O trabalho no escritório de tio Nivan me encantava cada dia
mais. Além de limpar todo o escritório e de datilografar
intermináveis peças jurídicas, eu fazia todo o serviço de bancos e
protocolava as petições nas diversas varas dos vários tribunais. Via
na prática o Direito vivo, pois acompanhava os debates jurídicos e
as sentenças que eram prolatadas e que mudavam radicalmente as
vidas das pessoas. Para melhor — no caso dos vencedores dos
processos —, ou para pior — os perdedores. Aprendi que a
profissão de advogado, que luta nos tribunais pelos direitos das
pessoas, é tão importante quanto a de um médico, que usa a
medicina para salvar as vidas das pessoas.
Logo, o interesse pela Medicina deixou de existir. Foi
despertado em mim o fascínio pelo Direito. Mas primeiro eu
precisava ser aprovado no vestibular, para a Faculdade de Direito
do Recife, da Universidade Federal de Pernambuco.
PARTE 2
A primeira grande alegria: o
vestibular de Direito da UFPE
Já naquela época os vestibulares para Direito eram muito
concorridos. Em Pernambuco, nos anos 1980, apenas quatro
faculdades ofereciam o curso: a Universidade Federal de
Pernambuco, instituição pública; a Universidade Católica, a
Faculdade de Olinda e a Faculdade de Caruaru, todas instituições
privadas. Isso para uma demanda baseada em cerca de nove
milhões de habitantes. Mais uma vez, eu tinha três opções: dar o
máximo de mim e passar no vestibular da UFPE, pois eu não podia
pagar uma faculdade particular; continuar como office-boy, sem
registro nem carteira assinada e ganhando salário mínimo; ou
voltava para Rondônia. Meu objetivo era a primeira opção.
Logo, precisei me dedicar profundamente aos estudos para
tentar recuperar os anos de escola pública e poder passar no
vestibular. Era uma rotina de cerca de três horas por dias, durante
a semana, que ia até as madrugadas, e de doze horas por dia nos
sábados, domingos e feriados. Estudava só, pois sempre gostei de
estudar sozinho, e consegui ver todo o programa do vestibular,
principalmente as matérias que eu não dominava, como física,
química, biologia e matemática.
Apesar dos estudos no colégio e por minha própria conta, tive a
oportunidade de, nos últimos seis meses do terceiro ano, fazer um
cursinho intensivo no antigo colégio União de Recife. Foi lá que
aprendi a decorar todas aquelas longas fórmulas de matemática,
física e química, que, assim que passei no vestibular, fiz questão de
esquecer, e nunca mais me lembrei de nenhuma delas.
Eu tinha dezessete anos e o ano era 1983. Fiz a prova do
vestibular no prédio da Universidade Federal Rural de
Pernambuco, que ficava no outro lado da cidade. Sabia que havia
me saído bem em todas as provas, exceto a de física, que achei que
tinha reprovado no ponto de corte. Eu tinha que acertar
determinado número de questões para não ficar no ponto de corte,
e achei que tinha acertado uma a menos. Fiquei desesperado.
Na época, nas noites de finais de semana, eu também ajudava
minha tia Berenice na lanchonete do cinema drive in que ela tinha
no bairro do Pina, servindo sanduíches e refrigerantes para os
clientes. Lembro-me bem quando Júnior, um colega meu, passou
lá na noite de sábado e perguntou se eu tinha sido aprovado.
Respondi que o resultado ia sair naquela noite, mas que eu achava
que tinha ficado no ponto de corte de física.
Quando fui para casa, às 10 horas da noite, o resultado já tinha
saído e resolvi dar uma paradinha no Colégio Elo, no bairro de Boa
Viagem, e ver a lista que estava afixada no muro. Olhei vários
nomes e, tamanha foi a minha surpresa, meu nome estava lá!
Como aprovado entre os primeiros colocados! Não acreditei. Olhei
umas cinquenta vezes e li letra por letra para ver se era mesmo o
meu nome. Era eu mesmo. Tinha sido aprovado no vestibular de
Direito, entre os primeiros colocados, na Universidade Federal de
Pernambuco. O meu sentimento era uma mistura de orgulho com
felicidade. Aquela foi a primeira grande alegria da minha vida. Tive
orgulho de mim mesmo porque vi que meu esforço, minhas noites
de sono, minha renúncia às baladas haviam sido recompensadas.
Aquele foi um grande estímulo e um reforço da consciência que
eu desenvolvia desde pequeno: o sucesso depende de esforço. Não
existe sucesso sem renúncia e sem dor. A aprovação no vestibular
me incentivou a ter sonhos maiores, mas já sabendo que era
preciso esforço para conquistá-los. E isso exigia paciência e
determinação. Ali começava uma nova etapa da minha vida.
Eu me lembro como se fosse hoje o primeiro dia de faculdade lá
no campus da UFPE. As aulas aconteciam em um prédio afastado e
rodeado de árvores que ganhara o apelido de “motel”, tamanho
era o uso que faziam do lugar para encontros sexuais. Estudei no
motel o primeiro período e a partir do segundo fomos para o
clássico e centenário prédio cujas pedras vieram da França, a velha
Faculdade de Direito do Recife.
O curso iria durar cinco anos. Eu era um dos mais jovens de
uma turma em que a maior parte dos alunos era de “filhinhos de
papai” — expressão usada para aqueles garotos ricos, filhos de
desembargadores, juízes, políticos, empresários, que tinham
estudado nas melhoras escolas privadas do Recife. Ou seja, eram
jovens que, além de inteligentes, foram muito bem preparados.
No entanto, eu já vivenciava a área jurídica através do trabalho
no escritório do meu tio Nivan e tinha a prática que a maioria deles
não tinha. Mesmo assim tive que me superar e estudar mais que os
outros, pois não tinha nenhuma base teórica para poder
acompanhar todas as cadeiras do curso. De fato, o curso me trouxe
aprofundamento teórico tanto na parte filosófica do Direito quanto
na teoria geral e na dogmática da área.
Faculdade de Direito do Recife
Ainda no primeiro período da faculdade conheci o professor
João Maurício Adeodato, que ministrou a disciplina de Introdução
ao Direito e se tornou um grande amigo. Adeodato foi de grande
importância em minha vida. Mas esse capítulo contarei mais
adiante.
O trabalho no escritório ia bem, eu estava progredindo e já
trabalhava também com cobranças jurídicas, o que me
proporcionava ganhar comissões extras. Como estudava em
faculdade pública e não pagava mensalidade, aproveitei o dinheiro
que ganhava, inclusive as comissões extras das cobranças que
fazia, para pagar cursos particulares de inglês na Cultura Inglesa e
francês na Aliança Francesa. Ao mesmo tempo, economizava um
pouco para poder visitar minha família, que continuava morando
em Pimenta Bueno, Rondônia. Nas férias anuais de final de ano,
conciliava o recesso do trabalho e da faculdade, e sempre ia visitá-
los.
Tudo o que ganhava com o trabalho era investido na minha
própria educação. Durante a época da faculdade tive um amigo
chamado Alessandro Vales Candeias, que desejava seguir a carreira
diplomática. Em minhas conversas com ele acabei me interessando
também pelo concurso do Itamaraty.
Ser diplomata significava prestar concurso no Itamaraty, ser
aprovado e passar a vida viajando pelo mundo. Precisava de muita
dedicação, já que o concurso era — e ainda é — muito concorrido.
Então, eu encaixava as aulas de idiomas nos horários que podia:
tardes de sábado e domingo, noites durante a semana que podia
correr da faculdade, enfim. Absolutamente todos os horários eram
preenchidos e o foco era a aprovação no concurso para o
Itamaraty.
Eu já estava no terceiro ano da faculdade de Direito. A
facilidade nos cursos de línguas, principalmente o curso First
Certificate in English, certificado pela Universidade de Cambridge,
da Inglaterra, via Cultura Inglesa, me proporcionou ingressar no
cursode Letras da Universidade Católica de Pernambuco, uma
tradicional universidade particular do Recife, sem precisar prestar
vestibular, pois aproveitei o certificado de proficiência em inglês
fornecido pela universidade europeia.
Foi então que tracei uma nova meta: terminar ao mesmo tempo
as duas faculdades, Direito e Letras, e prestar o concurso do
Itamaraty. Só era preciso organizar os horários e diminuir as horas
de sono. A correria se intensificou, agora eu cursava duas
faculdades, trabalhava e ainda tinha as aulas aos sábados, além da
preparação solitária para prestar o concurso para diplomata.
Hábitos nada diferentes daqueles de quando eu me preparava para
fazer o vestibular.
Eu já conhecia toda a rotina do escritório de advocacia do meu
tio. Como estava em um momento avançado do curso de Direito, já
ajudava a redigir as ações, dava entrada nos processos e
acompanhava os trâmites. No escritório, lidávamos com ações
trabalhistas, ações de cobranças e todo tipo de atividade de um
escritório médio de advocacia.
Eram muitas ações e eu conhecia a rotina das execuções, dos
mandados de busca e apreensão. Acabei percebendo que o
escritório já não dava conta das ações de cobrança, recusando
algumas causas, e existiam pessoas e empresas que não as moviam
porque não conheciam advogados ou empresas especializadas.
Comecei a me questionar: por que não sair do escritório e
montar uma empresa de cobranças? Esta seria uma oportunidade
incomparável de crescimento pessoal e profissional. Meu espírito
empreendedor não havia adormecido, estava a cada dia me
pedindo por novos desafios e a ideia de um novo empreendimento,
desta vez com conhecimento de mercado, pensado e estruturado
em uma área que eu tinha domínio, não saía de minha cabeça.
1986 – Janguiê e a mãe, Lourdes, na colação de grau da
formatura de Direito
1987 – Foto para colação de grau da turma de Direito da
UFPE
Um novo empreendimento: a
empresa de cobrança Praxis
Eu tinha apenas vinte anos. Já não morava mais na casa do meu tio,
mas em um pequeno apartamento na Rua Bispo Cardoso Ayres, no
bairro da Boa Vista. Era a casa do zelador que a síndica do prédio
tinha me alugado. Um pequeno quitinete quarto e sala, perto da
casa de máquina dos elevadores. Como não havia telhas, apenas
laje, fazia um calor terrível e um barulho ensurdecedor.
Naquela época já moravam comigo João e Jânyo, que eu trouxe
para estudar no Recife. Eu tinha ousadia, determinação, coragem,
obstinação, conhecimento prático e teórico sobre o Direito,
responsabilidade e, acima de todas essas características, tinha
sonhos, muitos sonhos.
Sabemos que as principais conquistas da humanidade “foram
precedidas pelo estágio do sonho ou pela ambição na mente de
algum visionário”. E eu sou um homem de sonhar muitos sonhos:
é que “o homem de um sonho só, é um pobre de espírito e de
espírito pobre. Eu nasci para sonhar muitos sonhos e venho ao
longo dos meus anos de vida sonhando vários, realizando alguns,
tentando outros e uns poucos restam sepultados na cova do
tempo”. E gosto de sonhar sonhos impossíveis, pois “só o
impossível é digno de ser sonhado. O possível colhe-se facilmente
no solo fértil de cada dia”. Quando eu me refiro a sonhos
impossíveis, quero dizer projetos difíceis, mas nunca irrealizáveis
ou inexequíveis. E tenho convivido muito bem com isso, pois
segundo um provérbio russo, “as cargas que escolhemos não
pesam em nossas costas”.
Ao longo desses meus anos de vida, venho sonhando meus
sonhos seguindo sempre a filosofia de Nietzsche, que em resposta a
um discípulo seu que queria saber o “melhor meio de subir este
monte”, respondeu: “sobes sempre e não penses nisso”. Além
disso, se pararmos para pensar, dentro da palavra impossível, está
o possível, e no Evangelho de Lucas, na Bíblia Sagrada, existe um
versículo que nos dá confiança para sempre tentar uma vez mais:
“Pois para Deus nada é impossível”.
E é pensando assim que venho sonhando e realizando meus
sonhos, carregando meus fardos, subindo meus montes, mas
tendo sempre em mente o verso de Carlos Drummond de Andrade:
“com apenas minhas mãos e o sentimento do mundo”. Às vezes,
para mim, a realização ou concretização de um sonho é muito mais
importante do que uma recompensa financeira.
Eu estava sempre sonhando durante o período de faculdade. Ela
já não era um ambiente novo e eu já estava acostumado com o fato
de ser um dos alunos mais jovens da turma. Um jovem que pensava
grande, que queria ousar. Assim, não me constrangi em chamar
dois colegas e montar uma empresa de cobrança chamada Praxis.
Comuniquei ao meu tio Nivan que sairia do escritório dele para dar
início ao meu próprio negócio. No início, ele ficou um pouco triste,
mas ele me conhecia. Tio Nivan sabia que o escritório dele já estava
pequeno para mim, e então, concordou e apoiou meus planos.
Com alguns recursos que tinha poupado, meus colegas e eu
montamos a empresa, que infelizmente, por diversos motivos,
durou poucos meses. Os empreendimentos não são perenes, e as
sociedades podem ser piores que um casamento. Alguns meses
depois, o negócio foi à falência.
De volta aos negócios: a empresa
Janguiê Cobranças
Mas não desanimei. Como asseverou João Carlos Paes Mendonça,
um dos maiores empreendedores do Brasil, “a história de um
empreendedor de sucesso não é feita só de acertos. Ele valoriza os
erros como aprendizado para fazer mais e melhor”. E eu valorizei.
No mundo dos negócios uma coisa é certa: em algum momento,
algo vai dar errado. Se você decidir parar no primeiro erro, seu
negócio acabou. No entanto, se você optar por recomeçar,
involuntariamente será mais fácil acertar por já ter errado uma vez.
Fugindo de sociedades, sem titubear, montei sozinho uma nova
empresa de cobrança, a Janguiê Cobranças. E sem qualquer
cerimônia contratei alguns advogados com mais idade e
experiência para trabalhar comigo naquela nova empreitada.
A sede do empreendimento já estava escolhida: o edifício
Teresa Cristina, ao lado do Cinema São Luís, no 6º andar, sala 614.
Ficava no centro velho da cidade do Recife, onde tudo acontecia.
Inicialmente comecei com quatro funcionários. Mas, com o
tempo, cheguei a ter cerca de trinta funcionários, entre auxiliares,
advogados e cobradores.
O período que trabalhei no escritório do tio Nivan me fez
adquirir conhecimento de mercado e relacionamentos, e então,
para atrair a clientela, anunciei a empresa em outras áreas da
cidade e logo apareceram vários clientes. Com poucos meses, o
número não parava de crescer.
Eu estava com 21 anos, ainda não tinha terminado o curso de
Direito e já me considerava um empresário bem-sucedido. Era a
primeira vez em que eu realmente estava ganhando dinheiro,
atuando em uma área com mais rentabilidade e que me permitia
investir para expandir meu próprio negócio.
1988 - A empresa Janguiê Cobranças - Recife
E mais uma vez o rumo da minha vida iria mudar. O dinheiro
faz a cabeça da gente. Quando encontramos um ramo lucrativo
não queremos sair dele. E foi por isso que eu desisti de estudar para
o Itamaraty, desisti de ser um diplomata e sepultei o velho sonho
de ser um embaixador do Brasil. Empreender era o que eu mais
queria naquele momento e nem cheguei a prestar o concurso. O
meu amigo da faculdade, o Alessandro Waley Candeas? Ele passou
em primeiro lugar no concurso, foi laureado da sua turma e até
hoje é um diplomata realizado e bem-sucedido.
A vida no Recife estava correndo bem. No entanto, eu já
começava a vislumbrar problemas: como na época a inflação era
alta, os escritórios de cobrança ganhavam dinheiro via honorários
e também parte dos juros que cobravam dos devedores, além de
ganhar pelo dinheiro que ficava parado na burocracia dos bancos e
dos processos. Com a experiência que tinha na área, era de se
esperar que os planos econômicos fariam cair os juros e acabariam
por estancar os lucros dos escritórios.
As graduações
No final de 1987, me formei em Direito pela Universidade Federal
de Pernambuco. Logo em seguida em Letras, pela Universidade
Católica de Pernambuco. A minhacolação de grau ocorreu no
Centro de Convenções de Pernambuco, e o baile de formatura, no
tradicional Clube Internacional do Recife. Foi uma grande festa
inesquecível e com muita alegria. Meus pais, irmãos, primos,
quase todos compareceram, além de duas ex-namoradas. As
poucas que tive, pois minha vida era estudar e trabalhar.
Passado o furor da alegria pela formatura, precisava realizar
mais uma prova para poder ser de fato advogado e trabalhar: o
exame da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB. Não tive
dificuldades na prova e logo fui aprovado, recebendo a minha
carteira com o número 10.573.
O problema de ser um advogado recém-formado, ou um
recém-formado em qualquer outra profissão, é que você não sabe
de nada, apesar de achar que sabe, mas a sociedade pensa que você
sabe de tudo e cobra por isso. Graças a Deus e ao escritório do meu
tio Nivan, eu tinha a prática e estava preparado para conviver no
competitivo mundo da advocacia.
Estava com 22 anos e continuei por mais quatro com a empresa
Janguiê Cobranças. Neste ínterim, comecei a cursar a segunda
turma de pós-graduação na Escola da Magistratura de
Pernambuco, ESMAPE, e foi lá que conheci um professor que se
tornaria um grande amigo, Dorgival Soares de Souza. Ele era
professor da Faculdade de Direito de Olinda e tinha sido aprovado
no concurso para juiz de direito do Estado de Pernambuco.
Dorgival e eu discutíamos muito sobre o Direito. Ele como
professor e eu com um pouco de conhecimento prático, em
virtude do escritório, e teórico, em razão dos estudos. Seus elogios
eram constantes e recebê-los me fazia sentir ainda muito mais
capaz do que já acreditava ser.
Dorgival tinha que tomar posse como juiz do Estado e teria que
se mudar para o interior. Em nossas conversas, cada vez mais
frequentes, ele percebeu que eu havia acumulado muito
conhecimento sobre Direito e Justiça do Trabalho. A verdade é que
eu me sentia muito bem estudando Direito do Trabalho.
Foi assim que ele me convidou para substituí-lo como professor
de Processo Trabalhista (Prática Trabalhista) da Faculdade de
Direito de Olinda. “Você não quer ficar no meu lugar?” Meus olhos
brilharam. Aceitei o convite prontamente. Fui com ele até a
faculdade, fui apresentado à diretoria, participei do processo
seletivo e fui, no final de 1988, contratado para ser professor
daquela instituição, permanecendo lá até meados de 2002.
Entretanto, como no Brasil infelizmente o professor não é
valorizado, minha renda como professor era muito menor que a
renda da Janguiê Cobranças, então, resolvi continuar com a
empresa, na esperança de dias melhores e me preparando para dias
piores.
O encontro com o amor
Musa minha
Um dia conheci alguém com um sorriso
Acanhada tão linda como uma flor
Tão meiga como o orvalho.
Quando vez primeira a vi
Foi num local dançante
Se balançava tão suave como uma pluma errante.
Fiquei parado por horas somente
A lhe contemplar olhava, fitava
E olhava sem vontade de cessar.
Essa diva era tão linda que fiquei a indagar
Como no mundo podia alguém assim se assemelhar.
O seu sorriso era doce que a todos encantava o seu olhar
Vigoroso e o seu bailar deslumbrava.
O seu jeito era inocente e muito tímido então,
Mas o seu coração tinha audácia, amor e paixão.
Por essa deia afervorei-me de um modo singular
Totalmente de encontro à minha maneira de pensar.
Hoje ela é musa dos meus sonhos,
Musa dos meus bisonhos,
Musa, diva, deia minha
A mais bonita rainha.
ESTE FOI UM DOS POEMAS QUE ESCREVI PARA SANDRA, MINHA ESPOSA, E QUE
ANOS DEPOIS PUBLIQUEI JUNTO COM OUTROS TEXTOS EM UM LIVRO QUE ESCREVI
EM SUA HOMENAGEM INTITULADO DESVELO.
Como de costume, fui passar as férias de final de ano em
Pimenta Bueno, na casa dos meus pais. No entanto, aquela vez foi
diferente. Eu estava formado. Era bacharel em Direito e em Letras,
com apenas 22 anos. Em dezembro de 1988, fui para Rondônia
visitar meus familiares e, daquela vez, ficaria por lá um pouco mais
de tempo que o comum.
Eu ainda tinha o mesmo perfil de anos: 1,84 m de altura,
cabelos compridos, corpo magro. Mas nunca esquecerei a noite de
carnaval daquele ano quando eu estava com os amigos em um baile
tradicional da cidade, no Clube Apidiá. Foi lá que a vi pela primeira
vez.
Uma garota dançava à minha frente. Pele branca, corpo esbelto,
olhos claros, cabelos loiros e cacheados, sorriso perfeito.
Lindíssima. Antes de me aproximar, já sabia que ela se tornaria a
mulher de minha vida. Sandra Cristina, minha esposa.
Sandra tinha 16 anos, sua família era da cidade de Colatina, no
Espírito Santo. Quando pequena, ela tinha ido morar em Pimenta
Bueno com seus pais, que tinham comprado um pequeno sítio. Seu
pai fora agricultor, sua mãe, professora. Eles moravam nos
arredores de Pimenta Bueno, e, infelizmente, quando ela tinha
apenas oito anos, perdeu seu pai, que faleceu devido a um câncer.
Após a morte do marido, Dona Orlandina, sua mãe, resolveu
vender o sítio e ir morar na cidade.
Ela é a caçula entre quatro irmãos e desde a terceira série
primária estudava com Jonaldo, que naquela época ainda morava
em Pimenta Bueno. Eles eram muito amigos: Jonaldo, Jair, Raquel e
Célia, irmã de Sandra. Quando adolescentes, por vezes Jonaldo
disse que iria apresentar Sandra ao meu irmão mais novo João.
Tudo sempre em tom de brincadeira.
Mesmo indo todos os anos para Pimenta Bueno, nunca havia
coincidido de encontrá-la, pois no período de férias ela sempre
viajava com a família para o Espírito Santo para visitar a avó e
ficava por lá durante dois meses.
O carnaval de Pimenta Bueno era festa de bailes. As famílias se
reuniam para brincar e dançar ao som das marchinhas tradicionais
da época. Quando me aproximei, ela sequer me olhou. Nunca
havia me visto, para ela eu era um estranho e, assim, ela não me
deu abertura. Até que Jonaldo nos apresentou, dizendo-lhe que eu
era o irmão que morava em Recife.
Nós nos entendemos desde as primeiras conversas e pela
primeira vez pude eleger em quem depositar minhas emoções.
Depois de tantas experiências, eu vivia a mais intensa delas: me
apaixonar.
Apesar da pouca idade de Sandra, sua mãe, que era pai e mãe ao
mesmo tempo, aprovou o namoro. Alguns dos nossos parentes
acharam que aquele relacionamento não iria resistir à distância.
Foram dois meses de férias e embarquei de volta para o Recife.
Sandra ficou em Pimenta Bueno.
1988 - O início do namoro com Sandra, em Pimenta
Bueno.
Naquela época, o percurso já era feito uma parte de ônibus e
outra de avião. A viagem já não durava tantos dias. Ainda assim,
antigos versos de uma canção de peões enamorados que ouvi
quando saí de Pimenta Bueno aos 14 anos voltaram a ecoar no meu
coração: “Você não me ensinou a te esquecer… Você só me ensinou
a te querer”. Sandra não saía do meu pensamento.
O telefone ainda era um meio de comunicação caro e mesmo eu
pedindo que ela me ligasse com chamadas a cobrar, ela se sentia
constrangida e nosso contato foi basicamente através de cartas. Em
julho, retornei a Pimenta Bueno e aquele foi o nosso segundo
encontro.
Nos dois anos seguintes Sandra e eu nos encontramos apenas
quatro vezes, nos períodos de férias, já que a vida era bastante
corrida e de muito trabalho. Eu com a minha empresa de
cobranças, além de ministrar aulas de Prática Trabalhista na
Faculdade de Direito de Olinda. Ela, em Pimenta Bueno fazendo o
ensino médio.
No final do ano voltei a Pimenta Bueno e a pedi em noivado
com a promessa de casarmos apenas quatro anos depois. Ela ainda
tinha 17 anos de idade e estava no segundo ano do ensino médio.
A ela, escrevi inúmeras cartas e poemas de amor. Com o
namoro seguindo por telefone, cartas e viagens semestrais, a
saudade era uma constante. Em julho de 1989, Sandra ficou um
mês no Recife e resolvi dar o ultimato: devíamos morar juntos. Ela
completaria 18 anos em janeiro de 1990. Em março daquele ano eu
completaria 25 anos. Conversamos com dona Orlandina e
informamos nossos planos. Ela nos apoiou e disse a Sandra que as
portas de sua casa em Pimenta Bueno estariam sempre abertas e
que se não desse certo, ela poderiavoltar a qualquer hora. Mas fez
com que Sandra prometesse apenas uma coisa: ser feliz todos os
dias. Em novembro de 1989, Sandra retornou definitivamente para
Recife.
Inicialmente, mamãe achava que eu era muito novo para casar.
Mas eu estava completamente apaixonado por Sandra e era
independente financeiramente, então, não precisava da aprovação
de ninguém. Se o casamento era a minha vontade e a de Sandra,
isso nos bastava.
Claro que em um casamento não se é feliz todos os momentos.
São duas pessoas diferentes, convivendo em uma mesma casa e
dividindo alegrias e tristezas. Mas, à minha Sandra prometi que
faria de tudo para vê-la sempre feliz.
Infelizmente, naquele momento, as condições financeiras não
me permitiam fazer uma festa de casamento, como eu gostaria de
fazer, mas faríamos isso em um outro momento. Eu só queria
poder trazê-la para o meu lado. Começaríamos a nossa vida,
construiríamos a nossa família. O casamento civil veio alguns anos
depois. E o religioso acontecerá em breve, como a realização de um
sonho.
Nesta altura eu já tinha um carro de segunda mão. Era um
Opala Diplomata que constantemente eu reformava para dar uma
cara de novo, e tinha comprado um pequeno apartamento num
prédio caixão no bairro de Jardim Atlântico, em Olinda. Este
apartamento, por sinal, tive que comprar duas vezes, já que o
primeiro vendedor falsificou uma procuração e me vendeu um
imóvel que não era dele. Sandra se mudou para o Recife no final de
1989 e foi morar comigo e meus irmãos. Ela assumiu a casa, se
mostrando uma gestora impecável: organizava horários, fazia as
compras, cuidava de todos os meus irmãos como uma mãe.
Carinho que eles sempre retribuíram a ela.
Eu preciso agradecer e registrar aqui a paciência e tolerância
que ela teve e tem comigo ao longo de todos esses anos em que
estamos juntos. Principalmente a paciência e a tolerância que teve
no início de nossa vida conjugal, quando meus irmãos João, Jânyo,
Jair, Jonaldo e Raquel moravam conosco. Ela sempre acolheu todos
em nossa casa de forma harmoniosa.
2013 – Sandra Janguiê
Sandra terminou o ensino médio e depois se formou em
pedagogia, vindo posteriormente a fazer diversas pós-graduações
na área da psicopedagogia. Acho que por conta de todas essas pós
que ela fez na área de psicologia e terapia é que ela tem me
entendido e vivido comigo durante estes 25 anos.
“O amor sempre foi a razão de nossa cumplicidade. Ao revisitar os nossos 25 anos
de casamento, tenho a convicção de que construímos uma história feliz, alicerçada
pelo respeito e admiração mútuas; pela convicção de termos conseguido criar o
nosso maior patrimônio: a família.
Aos 50 anos, Janguiê já construiu uma história que representa um legado a todos:
uma vida marcada pela perseverança, superação de limites e crença no futuro. Ele
nos mostra a necessidade de renovar os sonhos. Nele, o humano e o gênio se fundem.
Sempre digno de meu amor! Amo ontem, hoje e sempre!”
Sandra Janguiê, esposa
A carreira da magistratura e a
docência
Como disse anteriormente, além da empresa de cobranças, cursei a
segunda turma da Escola de Magistratura de Pernambuco
(ESMAPE). Também fiz a pós-graduação em Direito do Trabalho,
pela Universidade Católica de Pernambuco, e logo me vi dando
aulas de Processo Trabalhista. Mais uma vez, as experiências no
escritório de tio Nivan serviram como abertura de portas para
novos caminhos. Por conhecer a rotina do Direito Trabalhista
através da rotina no escritório e ter ficado amigo de um professor
de Processo Trabalhista da Faculdade de Direito e Olinda, acabei
tendo uma chance para lecionar e descobri uma nova paixão: as
salas de aula.
1988 - Formatura da turma da Escola de Magistratura
Aquele era um novo desafio e eu precisaria de muita coragem.
O perfil dos alunos daquela época era bem diferente do perfil dos
alunos de hoje. Todos eram mais velhos que eu. Logo, eu tinha que
comprovar minha competência diante das turmas.
As aulas eram aos sábados. Inicialmente foram quatro turmas
de cerca de sessenta alunos cada — a grande maioria estava em sua
segunda graduação. Eu me preparei até a medula, sabia que ia ser
cobrado, estudei todos os processualistas da época até saber
absolutamente tudo sobre cada aula que iria ministrar. Além disso,
procurei passar as informações de forma simples. Mesmo que a
terminologia fosse complicada, era preciso saber traduzi-la de
forma que seu significado ficasse claro. Foi o meu acerto. Os alunos
gostaram imediatamente das aulas. E aqui fica uma lição para
aqueles que querem iniciar-se no magistério. Não é preciso saber
de tudo. Mas é preciso saber transmitir para os alunos de forma
simples e didática tudo que sabe. Eu sempre fiz isso.
O conhecimento que adquiri através dos cursos de pós-
graduação que fiz na ESMAPE e na UNICAP, além do estudo
profundo que fazia para ministrar as aulas de Processo Trabalhista
e Direito do Trabalho na Faculdade de Direito de Olinda, aliados ao
fato de que o lucro na empresa de cobrança Janguiê Cobranças
estava diminuindo por questões econômicas que estavam
assolando o país, me fizeram despertar o interesse em ingressar na
magistratura trabalhista. E este desafio era bem maior do que dar
aulas de Processo do Trabalho e Direito do Trabalho ou conduzir
uma empresa de cobranças.
Atuando como juiz, no Recife
Para ser magistrado é preciso saber muito e o concurso era e
ainda é um dos mais rigorosos do país. Para tanto, impus-me um
rigoroso plano de estudos e para finalizá-lo até a data do concurso
era preciso muita dedicação. Foram seis horas por dia, todos os
dias, sábados, domingos e feriados. Me tornar juiz do Trabalho se
tornou um sonho e uma saída para garantir estabilidade financeira.
Entretanto, eu não morava mais sozinho e precisava dedicar um
pouco de tempo a minha esposa, Sandra. Mas dela tive todo o
apoio para estudar para o concurso. A jornada de estudos e
trabalho era árdua, mas eu tinha foco e objetivos. Quando tinha
um compromisso ou ficava doente, “pagava” as horas que perdia
de estudos no dia seguinte ou dividia nos próximos dias. Sempre
fui disciplinado, sempre estabeleci compromissos comigo mesmo.
Aquele era mais um desafio e eu precisava superá-lo. E aqui deixo
uma lição para os mais jovens: a disciplina e a determinação são
armas importantíssimas para o sucesso.
Foi nesta mesma época que Sandra me deu uma alegria
indescritível: estava grávida do nosso primeiro filho, a quem
demos o nome de �ales. O nascimento de �ales foi a segunda
grande alegria da minha vida, e motivou-me ainda mais para que
eu conquistasse a vaga de juiz. Na época não havia cursos
preparatórios para esse tipo de concurso no Recife e eu tive que ser
autodidata, e continuei seguindo à risca o meu próprio plano de
estudo, com base em minhas experiências e no que eu conhecia do
concurso. Comprei toda a bibliografia das principais matérias.
Sabia que estudar uma matéria por dia não daria certo. O
cérebro cansa rápido e acaba não processando todo o conteúdo.
Então, pensei em outra forma: no início, eu estudava cada
disciplina por um determinado tempo até cansar dela. Pegava, por
exemplo, o livro de Direito Administrativo e lia sublinhando as
passagens mais importantes, os principais pontos.
Passado um determinado tempo, percebia que já estava
cansado daquele assunto e o estudo não rendia tanto. Então,
trocava de matéria. Começava novamente, lendo e sublinhando
outra matéria e notava que o interesse pela leitura se renovava só
pelo fato de o assunto ser diferente. Ao final do tempo de estudo
daquele dia, eu conseguia cobrir seis ou sete matérias. Com o
tempo, cerca de dois ou três meses depois, o cérebro já estava
treinado e eu conseguia estudar uma matéria só por horas a fio,
sem me cansar ou ficar desinteressado pelo conteúdo.
Apenas isso seria insuficiente para ser aprovado no concurso,
então o estudo não parava por aí. Depois de ter visto todo o
conteúdo a primeira vez, eu voltei a estudar as mesmas matérias,
reler cada livro. Dessa vez, a estratégia era outra: datilografava
numa pequena máquinaRemington as partes que havia sublinhado
na primeira etapa dos estudos.
É assim que você processa a informação: quando você faz
quadros sinóticos, quando você resume, quando você traduz em
outras palavras. Eu repassei toda a essência das matérias.
Passada a segunda etapa, entrei em uma nova fase de estudos.
Na terceira etapa, passei a estudar os resumos datilografados. E fiz
sínteses das sínteses. Fui sublinhando a essência da essência.
Acredito que, dessa forma, cheguei a estudar todo o programa do
concurso uma, duas, três, quatro vezes… Eu também comprava
livros e revistas que traziam questões de concursos. Quando fui
fazer a prova, já tinha resolvido, no mínimo, umas cinco mil
questões.
Outro aspecto a que precisei me dedicar bastante foi a forma de
escrever. Sempre me preocupei com o escrever bem, com o bom
emprego das palavras. Os termos jurídicos são muito específicos e
é preciso saber seu significado exato para usá-los corretamente.
Por isso eu ia anotando todos os termos jurídicos que apareciam
durante a minha leitura. Cheguei a fazer um dicionário jurídico
para uso pessoal.
Estava tão bem preparado para o concurso que me saí
extraordinariamente bem nas três primeiras provas — a de
questões, a escrita dissertativa e a elaboração de sentença. No
entanto, apesar de todo o conhecimento, pequei da forma mais
ingênua que se podia pecar: a falta de humildade na prova oral.
A maturidade me ensinou várias coisas e uma delas foi deixar a
ousadia da juventude de lado. Hoje, certamente não faria o que fiz.
A prova oral para magistratura implicava um sorteio de tema
para questionamentos. Sorteei “os recursos no processo
trabalhista”. A banca, composta por três grandes nomes do
Direito, me perguntou se eu aceitava o tema e eu disse que sim,
mas que eles poderiam se sentir à vontade para perguntar sobre
qualquer outro ponto do programa que quisessem, pois eu estava
disputando o primeiro lugar do concurso. Pura arrogância e
prepotência justificadas pela sede de vitória próprias da juventude.
Aquela atitude me valeu a perda de valiosos pontos. Ao invés de
tirar 10, a nota máxima, com os três avaliadores, tirei apenas notas
regulares: 8,5 com um avaliador e 9,0 com dois outros. As notas da
prova oral, aliadas à pouca pontuação que obtive na prova de
títulos, me fizeram perder o primeiro lugar no concurso para
magistrado do TRT da 6ª região, mas ainda assim fiquei entre os
dez primeiros, dentre 33 candidatos aprovados.
Porém, apesar da aprovação e boa classificação, aquela lição
ficou guardada na memória como um erro que eu jamais cometeria
novamente. Lembro que estavam na banca profissionais de
renome, como a desembargadora federal do trabalho, Eneida Melo,
e o ilustre advogado Pedro Paulo Pereira Nóbrega, hoje
desembargador do trabalho.
Durante todo o ano de 1991 e parte de 1992 eu tinha estudado e
desenvolvido toda uma técnica para passar no concurso para juiz, o
qual eu poderia aplicar a qualquer outro concurso. Aquelas se
mostraram um conjunto de técnicas didáticas eficientes.
Agradeço por ter aprendido a estudar desde cedo e por gostar
disso. E, em pouco tempo, aprendi a ensinar, descobrindo uma
outra atividade prazerosa. Sabia que também faziam parte do meu
segredo muita determinação, muita disciplina e muito tempo de
estudo, aliados a enfoques objetivos de cada matéria.
A aprovação na magistratura trabalhista para o Tribunal de
Trabalho da 6ª Região foi a terceira grande alegria da minha vida.
Agora, eu era juiz do Trabalho — um cargo público, estável e bem
remunerado. Novos horizontes estavam se abrindo. Somente
quando passei a ser magistrado pude comprar o meu primeiro
carro zero quilômetro: era um Monza vinho, um belo carro.
Na imagem acima, a posse como magistrado TRT 6ª
região, em 1992
O nascimento dos herdeiros
Do meu casamento com Sandra, tenho três filhos: �ales, Elora e
Mel. É impossível mensurar o amor e o orgulho que tenho de cada
um deles.
�ales é o mais velho, nasceu dia 20 de janeiro de 1992. No auge
dos meus estudos para a magistratura trabalhista. Me lembro como
se fosse hoje quando Sandra me disse que estava grávida. Foi uma
alegria enorme. Na época, eu estudava e trabalhava dia e noite.
Como era uma vida muito corrida, não pensava em parar sequer
para comer, foi assim que cheguei a pesar 67 quilos com 1,84m de
altura e contraí tuberculose. Ainda hoje sou uma pessoa magra
(tenho 85 quilos).
Naqueles tempos, a situação na empresa de cobranças já não era
das melhores. De trinta funcionários eu tinha reduzido o quadro
para dez e os lucros continuavam a cair. A situação estava tão ruim
que eu não tinha nenhum plano de saúde. Nem para mim nem para
Sandra. O parto, cesariana, foi realizado em uma pequena clínica
de saúde chamada Clínica do Prado, no bairro do Prado, no Recife.
E para pagar o hospital e a equipe médica eu tive que vender uma
linha telefônica fixa que possuía — vale lembrar que na década de
1980 e 1990 linhas telefônicas ainda valiam algum dinheiro —,
além de vender alguns objetos pessoais. Mesmo assim, alguns
cheques pré-datados que dei para a médica foram devolvidos por
falta de fundos. Só pude pagar os valores posteriormente.
Além dos problemas financeiros, outro fato marcou o
nascimento de �ales. Enquanto deixei Sandra na clínica e fui em
busca de conseguir dinheiro para pagar a cirurgia, minha esposa
entrou em trabalho de parto e a médica a levou para a sala de
cirurgia sem a minha presença. Quando retornei ao hospital,
�ales já tinha nascido, o que foi extremamente marcante e
constrangedor para mim, pois não estive ao lado de Sandra
durante o parto.
Como disse, o nascimento do meu filho �ales foi a segunda
grande alegria da minha vida. O primeiro filho. Até hoje ele é uma
das razões do meu viver, junto com Elora e Mel. Já com 22 anos, é
um jovem inteligente, parecido fisicamente comigo por ser alto, e
também estudante da ciência do Direito, com um futuro brilhante
pela frente. Certa vez, em meu aniversário, ele disse que ficaria
muito feliz se conseguisse ser na vida a metade do que eu fui.
Diante daquela frase e com os olhos marejados de orgulho, eu lhe
respondi que ele não precisa ser nada do que fui, mas apenas ser o
�ales. O verdadeiro �ales. O �ales cheio de sonhos e de utopias,
com muita garra para realizar os seus sonhos e atingir seus
objetivos.
Janguiê Diniz ao lado do filho �ales, em Congresso de
Direito promovido pelo Bureau Jurídico.
Elora foi nossa segunda filha e muito desejada. Hoje com quinze
anos, lindíssima, alta, tímida e tão inteligente quanto �ales. Na
época de seu nascimento a situação financeira da nossa família já
era estável, eu já era procurador no Ministério Público do Trabalho.
Apesar da vida continuar muito corrida com todas as atividades,
pude acompanhar com tranquilidade e muita alegria toda a
gestação de Sandra e o nascimento da nossa primeira princesa.
Elora nasceu em 1º de abril de 1999, no Hospital Santa Joana,
também no Recife.
1999 - O nascimento de Elora
Mel é a nossa caçula, e com certeza é quem tem o gênio mais
parecido com o meu. Ela é daquelas pessoas que não têm medo de
nada, corajosa, ousada, questionadora, ao mesmo tempo que
consegue ser doce e carinhosa.
2002 - Em evento com as filhas Mel e Elora
Uma das coisas que sempre fiz questão com todos eles foi de
conciliar os momentos de trabalho e de família. Apesar de estar
sempre viajando a trabalho e sempre atento a cada uma das
empresas, sempre estive presente nas reuniões e festas escolares,
como dia dos pais, dias das crianças, feiras de ciências, etc.
Eu tive uma infância difícil. E apesar de os meus filhos terem
nascido em situações de vida diferentes, faço questão de transmitir
aos três os valores que recebi dos meus pais: trabalhar e estudar
muito, ter coragem para enfrentar os desafios e dificuldades que
possam surgir no caminho, honestidade, lealdade e ética. Além
disso, quero que eles valorizem o amor pela família e pelo próximo.
Quero que saibam que, na vida, nada é fácil e que nenhum objetivo
é conquistado sem luta. Sonhoque no futuro eles continuem com
saúde para construir suas vidas, que todos sejam pessoas de bem,
batalhadoras, que conquistem seu espaço e tenham a sorte que eu
tive de encontrar uma companheira leal, paciente e incentivadora
ao lado.
“Poderia passar dias e mais dias falando de como ele é um bom pai e pessoa, pois
sou seu filho e sou convicto disso, e isso nunca iria se esgotar. Falar do meu pai
algumas vezes parece fácil, outras não. Para mim, ele sempre será, junto com minha
mãe, a pessoa mais importante de toda a minha vida, pois devo minha existência,
educação, tudo que eu sou a ele. Além disso, ele é uma pessoa maravilhosa, a mais
determinada e corajosa que conheço. Nunca conheci homem mais corajoso que ele.
Pode ser difícil ser filho de uma pessoa tão corajosa, tão determinada, tão admirada,
mas é uma tarefa que carrego de forma apaixonada, de corpo e alma. Às vezes,
lembro-me de sua trajetória, de como já esteve doente, magro, com as preocupações
à flor da pele, mas nunca desistiu, nunca pensou em desistir. Acredito que desistir
não é uma palavra que está em seu dicionário. Ele será sempre o meu maior herói,
minha maior inspiração! Amo você, meu pai, sei que nossos laços são eternos! Espero
que um dia eu seja a metade do homem que o senhor é, pois como disse o poeta
Augusto do Anjos:
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas…”
�ales Janguiê
“Meu pai é uma lição de vida! Lembro-me quando, em 2006, todos da família
estávamos de férias a caminho da Bahia. No caminho para o hotel, ele estava no
telefone, tratando de negócios. Me esforcei para ouvir o que dizia. Com muita
firmeza, ele falou para a pessoa que estava no outro lado da linha: “Nunca podemos
subestimar alguém dizendo que ele é o pior. Devemos, sim, autoestimar e dizer que
ele é o melhor”. Isso ficou como uma lição para mim. Ele sempre me ensinou a me
superar, a buscar ser a melhor que puder ser, por mim e ninguém mais. Tenho muito
orgulho de ser sua filha.”
Elora Janguiê
“Meu amor por ele é tão grande que não conseguiria expressar em poucas palavras.
Mesmo quando ele está longe, sinto sua presença. Sei que posso contar com ele para
tudo o que precisar. E ele sabe que também pode contar comigo. Ele é forte e às vezes
bravo, mas basta um abraço e ele se derrete.”
Mel Janguiê
Janguiê Diniz em evento de inauguração do Bureau
Jurídico, em 1993
O Ministério Público do Trabalho e
os primeiros empreendimentos
educacionais
Eu tinha sido aprovado no concurso para juiz estudando com meus
próprios métodos e técnicas. No entanto, observador que sempre
fui, percebi que vários advogados e estudantes de Direito não
sabiam como estudar para os concursos da área e, aproveitando
que no Recife não havia cursinhos especializados, enxerguei ali
uma nova oportunidade de negócio: resolvi dar aulas de
preparação para concursos da magistratura e do Ministério
Público.
A atividade como juiz do Trabalho não me impedia de exercer a
função de professor e, mais uma vez, eu só precisaria organizar
meu tempo. No dia 11 de agosto de 1993 — data comemorativa da
fundação dos cursos jurídicos no Brasil —, fundei, no Recife, o
Bureau Jurídico. Um curso preparatório para concursos da
Magistratura e do Ministério Público. No início, o Bureau Jurídico
funcionou informalmente, apenas eu ensinava a um grupo de 50 a
60 alunos, a maioria deles ex-alunos meus das faculdades em que
dei aulas. Entretanto, em 1996, o empreendimento ganhou
personalidade jurídica e se transformou em uma empresa
educacional. A minha primeira empresa educacional.
O Bureau, como ficou conhecido, era destinado a alunos da
área jurídica de todas as idades. A sede ficava na Rua do Progresso,
em frente ao Consulado Americano, no bairro da Boa Vista, e eu
comecei como único professor do curso. Com o sucesso inicial,
logo a turma atingiu cerca de cem alunos, ensinando as matérias
que eram minha especialidade, como Direito do Trabalho,
Processo do Trabalho, Processo Civil e Sentença Trabalhista.
1996 - O prédio do Bureau Jurídico, com sede na Rua José
Osório, no Recife.
A ideia do nome do curso foi minha e de Roberto Bitu, um
diretor da secretaria da 14ª Junta de Conciliação e Julgamento da
Comarca do Recife, hoje Vara Trabalhista. Durante certo tempo,
Bitu foi meu sócio, juntamente com Marcílio Florêncio, mas algum
tempo depois, ambos resolveram deixar a sociedade justificando
que não tinham tempo para o negócio e eu decidi continuar
sozinho, pois enxergava ali uma oportunidade de atingir o sucesso.
O Bureau Jurídico era exatamente o que o mercado de educação
no Recife estava precisando naquele momento. O número de
alunos matriculados aprovados nos concursos aumentava e não
demorou para o curso se tornar um sucesso. Não havia espaço nem
horários disponíveis para tantos alunos que queriam se matricular.
Comecei a receber demandas de alunos de outros estados. Eram
centenas de pessoas que vinham de vários lugares do país, como
Rondônia, Pará, entre outros, apenas para estudar no Bureau
Jurídico.
As aulas eram expositivas e teóricas, aliadas à interpretação de
casos práticos, principalmente nas aulas de sentença. Além da
matéria teórica, eu ensinava aos alunos as técnicas de estudo, de
otimização do tempo e de memorização com mais facilidade. Tudo
o que eu tinha feito para ser aprovado no concurso para juiz.
Assim se passaram alguns anos e o Bureau Jurídico foi
crescendo. Foi preciso contratar mais professores. Tudo que eu
ganhava com o Bureau Jurídico era reinvestido no próprio Bureau.
Com o sucesso que estava fazendo no Recife e vislumbrando a
oportunidade, decidi que havia chegado a hora de expandir.
O Bureau passou, então, a operar com franquias em outras
cidades do Nordeste, como Maceió, Caruaru e Goiânia. O sucesso
de público e aprovações acontecia com muita intensidade.
Lembro-me de um determinado concurso para delegado em Recife
em que, dos cerca de 120 aprovados, aproximadamente cem
haviam sido alunos do Bureau Jurídico.
Tudo corria bem, exceto por um detalhe: eu era juiz do Trabalho
no exercício da presidência da 14ª Junta de Conciliação e
Julgamento do Recife, pois o titular da Junta, o dr. Ivan Valença,
ocupava cadeira no Tribunal em substituição ao desembargador,
que era seu pai. Logo, eu só estava lotado no Recife por acaso e
quando ele voltasse para assumir a titularidade da Junta, eu, que
havia sido aprovado para juiz do trabalho substituto, teria que ir
assumir uma junta no interior do Estado, pois, segundo a Lei
Orgânica da Magistratura Nacional (loman), o juiz tem que morar
na comarca onde está lotado, embora muitos não cumpram a
norma.
1997 - As aulas no Bureau Jurídico
Foi por esse motivo, também, que eu já havia adiado um novo
curso de pós-graduação stricto sensu, ou mais especificamente o
mestrado, e, aliado a isso, surgia o receio: como continuar
coordenando o Bureau Jurídico estando em outra cidade?
Para sair desse impasse e continuar com a estabilidade
profissional e financeira que o cargo público me oferecia, eu
precisava fazer um novo concurso, que me permitisse ficar no
Recife e continuar levando adiante meus planos empresariais na
área de educação.
Haveria uma nova oportunidade. Desta vez, o concurso era para
procurador do Trabalho e dispunha de vagas para o Recife. O
conteúdo programático era parecido com o de juiz, eu conhecia as
matérias e lidava diariamente com elas no Bureau Jurídico. Como já
tinha acumulado bagagem suficiente com o estudo para o
concurso da magistratura trabalhista, resolvi me inscrever.
Na época, o Bureau estava “bombando” de alunos, e minha ida
para o interior iria sepultar o meu sonho de empreendedor
educacional, já que teria que deixar o Bureau nas mãos de outras
pessoas e isso fatalmente poderia levá-lo à bancarrota.
Eu continuava sendo professor de Processo Trabalhista e Prática
Trabalhista da Faculdade de Direito de Olinda e já começava a
escrever vários trabalhos jurídicos para diversas revistas
especializadas nacionais, como a Revista Jurídica Consulex, a LTR,
etc.
A minhacarreira jurídica também me deu a oportunidade de
escrever vários livros na área. Enquanto ainda era professor na
Faculdade de Direito de Olinda, pude escrever três livros jurídicos:
Recursos no Processo Trabalhista, Temas de Processo Trabalhista e
Sentença Trabalhista, todos publicados pela Editora Consulex.
Fiz o concurso para procurador de trabalho só com o estudo
feito para o concurso de juiz de trabalho, e confesso que me
surpreendi com o resultado da seleção. Esperava ser aprovado, mas
fiquei com o primeiro lugar do Norte e Nordeste, e o 11º lugar no
Brasil, dentre quase nove mil candidatos. Eu estava com a minha
estabilidade definitiva garantida pelo cargo de procurador lotado
em Recife, sem correr o risco de ter que me mudar.
Foi assim que pude me dedicar mais ativamente ao Bureau
Jurídico, que foi se transformando em um complexo educacional à
medida que a procura dos estudantes crescia.
O nome do Bureau Jurídico se tornou referência no ensino
preparatório para concursos e, em média, sete de cada dez
bacharéis em Direito que almejavam a magistratura ou o Ministério
Público, especialmente do Trabalho, procuravam estudar no
Bureau.
Graças ao bom relacionamento que mantive com os professores
na época de faculdade, e também com os que conheci ao longo da
vida, eu tinha liberdade para convidar os melhores professores dos
cursos e faculdades mais conceituadas para dar aulas. Queria
formar um time de estrelas para o corpo docente do Bureau.
Os resultados eram concretos e notórios. Nosso índice de
aprovação nos concursos era altíssimo, uma prova de que a
concepção do curso, os conteúdos e os métodos de ensino que
trabalhávamos eram eficientes. Minha vida ficava ainda mais
corrida. Trabalhava de dia na Procuradoria e ministrava aulas à
noite no Bureau Jurídico e na Faculdade de Direito de Olinda.
1999 – Participação de Lula no Congresso Mundial de
Direito, promovido pelo Bureau Jurídico
Eu não queria parar por ali. Não queria ficar apenas com o
Bureau Jurídico. A vida já tinha me ensinado muita coisa. Uma
delas foi que a arrogância não leva ninguém a lugar algum. Depois
de apanhar muito, aprendi a não ser arrogante, no entanto, eu
tinha muitos sonhos e muitas ambições.
Depois do erro cometido ainda criança, quando não estudei o
produto antes de me lançar na venda de laranjas e só fui descobrir
que a oferta da fruta era sazonal tarde demais, o que me deixou
sem mercadoria para vender, aprendi a estudar o mercado.
Quando prestei vestibular, na década de 1980, Pernambuco
tinha apenas quatro faculdades de Direito: uma pública e três
particulares, sendo uma delas em Caruaru, cidade no agreste do
estado, a 120 quilômetros do Recife. Quase uma década depois, no
fim dos anos 1990, o cenário não havia mudado: eram apenas
quatro instituições.
Era claro que Pernambuco precisava de mais faculdades. O
Recife precisava de mais faculdades. E não falo apenas pelo curso
de Direito, mas de instituições com vários cursos, que oferecessem
oportunidades à demanda existente e crescente de alunos. Por
experiência própria, tinha certeza de que a educação era a única
maneira de sair da pobreza, de alcançar o sucesso na vida. E
sempre defendi a democratização da educação.
No Recife, o mercado era bastante receptivo. O vestibular se
tornava cada vez mais competitivo e os colégios tradicionais
precisavam de diferenciais para atrair os alunos. Em sua maioria,
eles apostavam nos índices de aprovação nos vestibulares como
mote das campanhas publicitárias. E eu observava a movimentação
desse mercado.
Mais uma vez, sentia a necessidade de expandir os negócios.
Em 1999, fundei o BJ Colégio e Curso. A ideia do BJ seguia os
mesmos padrões do Bureau Jurídico: uma escola particular,
especializada em ensino médio e que aplicava os métodos mais
sofisticados dos cursinhos preparatórios.
O resultado foi melhor que o esperado: sucesso imediato. Logo
no primeiro ano de abertura do colégio as turmas ficaram lotadas e
eu percebia, ainda mais, que a educação era uma área carente e
que, aprimorando meus conhecimentos e cercado de pessoas com
conhecimento na área, de confiança e focadas, como eu, seria
possível investir ainda mais.
“Conheci Janguiê no início de 1996 ao ingressar no MPT como servidor, e com ele
convivi pessoal e profissionalmente até o ano de 2005, quando assumi o cargo de
procurador do trabalho e fui lotado na Procuradoria do Trabalho de São Luís, no
Maranhão. Foi em 1996, logo após meu ingresso, que, coincidentemente, teve início
na Procuradoria do Trabalho em Pernambuco um processo destinado a oferecer uma
melhor estrutura de apoio aos gabinetes dos procuradores, tendo sido lotado,
justamente, no gabinete do então procurador do trabalho, Janguiê Diniz. Desde o
primeiro instante, ele me propiciou as mais amplas oportunidades de aprendizagem
e de crescimento profissional, facultando-me o acesso aos casos concretos
submetidos à sua análise, o que foi muito importante para que, hoje, eu pudesse
estar também na carreira do Ministério Público.
Pois bem! Nesta época, Janguiê era professor da Faculdade de Direito do Recife —
da ufpe — e da Faculdade de Direito de Olinda — da aeso —, além de coordenador do
Bureau Jurídico, que ministrava cursos preparatórios para concursos públicos e
realizava congressos jurídicos nacionais e internacionais. Além disso, estudava para o
mestrado em Direito na ufpe e escrevia artigos para as mais diversas revistas jurídicas
do país. Sua produção foi muito intensa nesse período. É dessa fase o livro Ação
Rescisória dos Julgados, fruto de sua tese de mestrado, e que considero uma de suas
melhores obras jurídicas. Irrequieto, Janguiê desenvolvia várias atividades
simultaneamente, mas sempre demonstrou preocupação com a educação e, creio, já
nutria o sonho de ter sua própria instituição de ensino superior. Paralelamente às
atividades acadêmicas, Janguiê seguia sua carreira no Ministério Público, sendo
promovido a procurador regional do Trabalho e tendo chegado à chefia da
Procuradoria do Trabalho em Pernambuco, permanecendo à frente da instituição de
1999 a 2003. Foi nesse período que, em razão do sucesso do Bureau Jurídico, ele foi
procurado por representantes da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), que,
em sociedade com o Bureau, instalou um campus na cidade do Recife. Mas a parceria
não durou muito tempo e um desentendimento entre os sócios ensejou o
desfazimento do negócio e o Bureau, com Janguiê à frente, se viu forçado a
demandar contra o ex-sócio, buscando o ressarcimento e a indenização por aquilo
que não pôde realizar em razão do fim prematuro dos negócios conjuntos. Neste
momento Janguiê deu, mais uma vez, mostras de seu conhecimento jurídico. Ao
receber do advogado a minuta da petição inicial da ação contra a Universo para
análise, revisou todo o texto, remontando toda a história da sociedade e de seu
desfazimento, demonstrando grande preocupação com a narrativa dos fatos, o seu
enquadramento jurídico e os pedidos a serem formulados. Tive a oportunidade de
participar, também, desse momento, o que contribuiu para minha aprendizagem e
meu desenvolvimento profissional. Os pedidos feitos na ação foram quase que
integralmente concedidos de forma liminar pelo juiz da causa e mantidos em grau de
recurso (agravo de instrumento) pelo Tribunal de Justiça, o que levou a Universo a
assinar os termos de um acordo que satisfez as pretensões do Bureau — e também da
Universo, claro, já que era um acordo. A partir daí, com a imensa capacidade de
trabalho que possui, Janguiê intensificou as ações para concretizar seu sonho,
erguendo o que hoje todos conhecem como o Grupo Ser Educacional.
Quem hoje vê esse império erguido, não pode avaliar o quanto de trabalho, de
suor, de tempo e de dedicação foi despendido. A história de sucesso do grupo é
também de muita dor e de sofrimento, porque não foi fácil chegar até onde ele
chegou. Tive o privilégio de acompanhar, de perto, uma parte dessa história,
momentos cruciais, decisivos, da vida de Janguiê e de seu maior empreendimento.
Se me perguntaremqual traço de sua personalidade mais se destaca, eu diria que é o
destemor. Poucas vezes vi alguém tão destemido. Mas ele alia o destemor à ousadia e
o resultado é que ele se revela como um empreendedor nato. Para além disso, Janguiê
é profundamente ligado à família e, ousaria dizer, o elemento de equilíbrio de seu
núcleo familiar. Sempre demonstrou preocupação com o bem-estar e o
desenvolvimento de toda a família, seus irmãos, seus pais, seus filhos, sua esposa,
procurando fazer com que todos eles crescessem e progredissem juntos. Sua mãe,
Dona Lourdes, por ocasião de seu último aniversário, chegou a dizer que seus irmãos
tinham mais receio dele (Janguiê), caso fossem mal na escola, do que dela mesma.
Tinha um carinho especial por seu tio, já falecido, o advogado Nivam Bezerra da
Costa, que o acolheu em Recife num momento muito difícil de sua vida, quando
ainda era estudante. Claro, todas as suas qualidades, como o destemor, a ousadia, a
coragem, aliadas ao trabalho incansável e diuturno, creio, foram e são determinantes
para o sucesso de seu empreendimento e todas as conquistas que obteve. E não
foram poucas: lembro que antes de ingressar no Ministério Público, Janguiê foi juiz
do Trabalho e que, ao término de seu mandato à frente da Procuradoria, ele
apresentou tese de doutorado, conquistando mais um importante título acadêmico.
Janguiê parece ter vindo ao mundo para empreender, para criar. Destemor,
obstinação, determinação, ousadia e inteligência são traços marcantes em sua
personalidade e, certamente, conferem-lhe o perfil de empreendedor. Tenho grande
admiração por Janguiê e continuo torcendo por ele, para que ele permaneça
crescendo e que com ele possam crescer, também, todos aqueles que, hoje,
colaboram com esse grandioso empreendimento que é o grupo Ser Educacional.
Parabéns, Janguiê.”
José Laízio Pinto Júnior,
procurador-chefe do MPT/PE
O despertar de um escritor
A facilidade com as Ciências Humanas, o curso de Direito, que
exige muita leitura e um extenso vocabulário, e o curso de Letras
me fizeram tomar ainda mais gosto pela escrita.
Incentivado pela vivência profissional, pela docência e
especializações na área trabalhista, escrevi em 1994 meu primeiro
livro: Os recursos no processo trabalhista — Teoria e Prática. A obra
foi publicada pela Editora Consulex, de Brasília, e está com a
quinta edição no prelo.
O livro, direcionado para estudantes e profissionais da área
trabalhista, discursa sobre todo o sistema recursal trabalhista.
Desde a teoria geral dos recursos, passando pelos princípios
recursais à análise dos recursos trabalhistas, de per se. Analiso
desde um simples Embargo de Declaração até um Recurso
Extraordinário perante o STF.
Esta foi a primeira de catorze obras que publiquei desde então.
Em seguida, vieram A sentença no processo trabalhista — Teoria e
Prática, publicada pela Editora Consulex em 1996 e que abordava a
teoria e a prática das sentenças trabalhistas. No livro, ensino
aqueles que querem ser juízes do Trabalho a elaborarem uma
sentença trabalhista.
Ainda em 1996, escrevi o livro Temas de processo trabalhista —
Vol. I, publicado pela mesma editora. Na obra, abordei diversos
temas de Direito Processual, especialmente na área trabalhista. Foi
o volume I porque eu tinha a intenção de escrever outros volumes.
Entretanto, o tempo não me permitiu.
Na mesma época, comecei a me enveredar por outros
caminhos: escrever artigos para publicações nos veículos
impressos. O primeiro desses textos trazia o título “Empregado
doméstico” e foi publicado no jornal Diário de Pernambuco, em 14
de maio de 1996. Depois deste, seguiriam-se outras centenas sobre
os mais diversos temas, não só do Direito, mas também sobre
economia, política e atualidades.
Meu terceiro livro publicado foi Ação rescisória dos julgados,
editado pela LTR Editora, de São Paulo, em 1997, foi fruto da
dissertação de mestrado que defendi perante a Universidade
Federal de Pernambuco, na qual obtive a nota máxima na defesa. A
editora ainda publicaria mais algumas obras minhas: O direito e a
justiça do trabalho diante da globalização, em 1999, e Atuação do
Ministério Público do Trabalho como árbitro nos dissídios individuais de
competência da justiça do trabalho, em 2005, obra esta que consistiu
na minha tese de doutoramento, também defendida perante a
Universidade Federal de Pernambuco.
Além destes, publiquei Manual para pagamento de dívidas com
títulos da dívida pública, em 1998, e Ministério Público do Trabalho —
Ação civil pública, ação anulatória, ação de cumprimento, em 2004.
Ambos pela Editora Consulex.
No entanto, escrever livros jurídicos demanda bastante tempo e
ainda mais atenção. Eu já tinha uma vida bastante movimentada
com a Procuradoria, as aulas nas faculdades, especialmente a
Faculdade de Direito do Recife, mantida pela UFPE, e o Bureau
Jurídico, que em 2003 se tornaria a Faculdade Maurício de Nassau.
Então, era cada vez mais difícil ter tempo para escrever livros sobre
o Direito.
Lembram que comentei, alguns capítulos atrás, que escrevi
para Sandra vários poemas enquanto ainda éramos namorados?
Eles deram origem ao livro Desvelo, publicado pela Editora Bargaço
em 1990 e com reedição em 2011. Nele, constam vários poemas que
escrevi não apenas para Sandra, mas textos em homenagem a
pessoas que foram importantes na minha vida.
Apesar de escrever ter se tornado uma paixão, as demandas
diárias não me permitiram publicar mais nenhum livro na área do
Direito. No entanto, eu continuava escrevendo os artigos e
enviando-os para vários jornais impressos em todo o Brasil, que os
publicavam constantemente. Não havia um tema específico para
eles, mas eu gostava e gosto de abordar temas cotidianos e fatos
relevantes que acontecem no Brasil e no mundo.
Até o fim de 2013, mais de quinhentos artigos meus já foram
publicados por diversos jornais impressos do Brasil e por sites
conceituados. É difícil escolher apenas um texto que tenha me
marcado, entretanto, sempre há aqueles que são mais debatidos e
com temas que sempre estão em pauta nas manchetes, como por
exemplo as eleições.
Meus artigos resultaram na publicação de mais quatro livros:
Educação Superior no Brasil, em 2007; Educação na era Lula, em 2011;
Política e Economia na Contemporaneidade; e O Brasil e o mundo sob o
olhar de um brasileiro, estes dois últimos em 2012. Todos eles pela
Editora Lumen Juris, do Rio de Janeiro.
Educação Superior no Brasil e Educação na era Lula trazem artigos
apenas sobre a área de educação. O primeiro foi lançado em um
período em que o debate sobre educação crescia e se tornou
bastante amplo na busca de alternativas viáveis para garantir o
acesso à educação a todos os brasileiros. Já o segundo traz textos
com reflexões sobre os acertos e erros do então chefe de Estado,
Luís Inácio da Silva, e indicação de ações que precisavam ser
tomadas pela atual presidente Dilma Rousseff.
Política e Economia na Contemporaneidade, como o próprio título
já deixa claro, traz artigos que abordam a estreita relação entre
economia e política, peças da engrenagem social. Os textos
abordam assuntos como democracia, reforma tributária, desafio do
primeiro emprego, responsabilidade social, infraestrutura, etc. O
livro foi uma coletânea com 64 artigos que pretendiam ajudar na
compreensão de temáticas que estiveram presentes na pauta
pública na primeira década do século XXI.
Já o livro O Brasil e o mundo sob o olhar de um brasileiro traz
artigos que levantam inúmeras perspectivas sobre os vários temas
do cotidiano da região Nordeste e do Brasil. Os textos trazem
questionamentos relevantes sobre a economia, política, educação
e atualidades ligadas aos interesses públicos, no momento em que
o Brasil vinha se destacando diante dos outros países como uma
economia forte e resistente em meio à crise econômica mundial.
E foi com a publicação dos artigos que decidi criar meu blog, o
Blog do Janguiê, no qual todos os meus textos são postados e
assim, posso atingir um público ainda maior, compartilhando
minha opinião e recebendo aopinião de centenas de pessoas sobre
os temas.
Além dos livros jurídicos e artigos temáticos, durante meus
vinte e poucos anos de trajetória profissional como advogado,
professor da Faculdade de Direito do Recife (UFPE), magistrado da
Justiça do Trabalho, procurador do Ministério Público do Trabalho,
fundador e acionista majoritário do Grupo Ser Educacional,
presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras das
Faculdades Isoladas e Integradas (Abrafi) e do Sindicato das
Instituições Particulares de Ensino Superior do Estado de
Pernambuco (SIESPE), vice-presidente da Associação Brasileira de
Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), diretor geral da
Faculdade Maurício de Nassau e reitor da UNINASSAU — Centro
Universitário Maurício de Nassau, e em algumas outras funções que
exerci, tive a oportunidade e a honra de discursar em dezenas de
eventos, congressos, cursos, posses de magistrados, inaugurações,
confraternizações, entregas de premiações, etc.
Acredito que discursar é ter a oportunidade de falar ao mundo.
E em cada um dos discursos que escrevi, pude transmitir, através
das palavras, meus pensamentos, minha admiração, gratidão,
incentivo, apoio e homenagem a várias pessoas. Em alguns
discursos que fiz pude reviver a emoção de um momento único na
vida de quem tem oportunidade de cursar o ensino superior: a
colação de grau. Durante os discursos, me enxergava no brilho do
olhar de cada um daqueles alunos que se formava e levava consigo
a esperança de mudar o mundo.
Foi graças a esses textos que, em 2013, lancei o livro Palavras em
Pergaminho. Um livro que reúne todos os discursos que marcaram
minha trajetória e que, sem dúvida, tiveram o poder de mudar as
coisas, a vida das pessoas e as motivações, cada um daqueles textos
mudou a minha história e a minha vida.
Esta autobiografia passa a ser, então, meu 15º livro. E ainda
pretendo escrever vários outros.
Juiz versus procurador: uma
decisão difícil
Quando passei no concurso para juiz do Trabalho, eu morava em
Olinda, no bairro de Jardim Atlântico, no meu primeiro
apartamento próprio. Quando tomei posse do cargo, comecei a
trabalhar na 14ª Vara, antiga Junta de Conciliação e Julgamento, de
segunda a sexta no prédio do Cais do Apolo, onde as Varas eram
instaladas. Trabalhava pela manhã, fazendo audiências — lembro-
me que eram mais de dez por dia —, e no período da tarde e à noite
fazia sentenças em casa.
Eu tinha um prazer inexplicável em trabalhar como magistrado.
Foram quase dois anos em que a rotina de trabalho não me
cansava. Todos os dias da semana eu fazia audiências, atendia os
advogados, as partes, despachava com os escreventes, etc. Se o
sonho de empreender na área de educação não tivesse sido mais
forte, provavelmente nunca teria deixado o cargo.
Alguns podem até achar o contrário, mas naquela época, ser
juiz era ser detentor de um status que outras carreiras jurídicas não
possuíam. O juiz julga, decide a vida das pessoas, dos
jurisdicionados. Os membros de outras carreiras apenas podem
requerer ou opinar. Assim, a decisão final de largar a magistratura
e seguir a carreira de procurador só aconteceu no limite do prazo.
Lembro-me que deixei Sandra bastante nervosa no dia da posse.
Como fui aprovado no concurso para procurador do Ministério
Público do Trabalho, e o concurso é nacional, deveria tomar posse
em Brasília. Na data marcada, viajei para a capital brasileira
munido dos documentos necessários, mas ainda sem a decisão
tomada.
Sandra ficou no Recife, com uma procuração, minha carta de
renúncia do cargo de juiz do Trabalho e com a responsabilidade de,
assim que eu decidisse tomar posse como procurador, ir ao
Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região e dar entrada no meu
pedido de exoneração.
A explicação para o nervosismo de Sandra era simples:
legalmente, eu não poderia acumular os cargos públicos de juiz e
procurador. Caso isso acontecesse, eu poderia ser processado,
correndo o risco de perder ambos. Então, para ser procurador, eu
não poderia ser juiz, ou seja, eu precisava pedir exoneração antes
da posse, ou simultaneamente. Além disso, ela deveria esperar o
meu contato para dar entrada na exoneração do meu cargo de juiz.
Tudo isso para não correr o risco de eu me arrepender e desistir de
tomar posse como procurador e ela já ter dado entrada no pedido
de exoneração.
Naquela tarde, Sandra estaria na faculdade, assistindo aulas.
Celulares não eram tão comuns e outros alunos não viam com bons
olhos os que possuíam telefones móveis. Por isso, Sandra deixava o
aparelho dela sempre desligado durante as aulas. Mas naquele dia,
ela precisava ficar com o telefone ligado e foi exatamente quando
ela saiu da sala que o celular tocou, chamando a atenção dos
demais alunos.
Ao receber minha ligação, Sandra abandonou a sala de aula e foi
para o Tribunal Regional do Trabalho, seguiu os trâmites
necessários e então, eu não era mais juiz do Trabalho e poderia
tomar posse como procurador do Ministério Público do Trabalho.
Passei vinte anos no cargo de procurador. Durante todos os
anos em que atuei como membro do Parquet, sempre cumpri com
as minhas funções com total esmero e dedicação.
Em 1998, com apenas cinco anos na função, fui promovido, por
merecimento, pelo Excelentíssimo Senhor Procurador Geral da
República Dr. Geraldo Brindeiro, a procurador Regional do
Trabalho. Em 1999, fui nomeado, pelo Excelentíssimo Senhor
Procurador Geral do Trabalho Dr. Guilherme Basso, procurador
Regional Chefe da Procuradoria Regional do Trabalho da 6ª Região,
em Pernambuco, permanecendo à frente do cargo até 2003.
O trabalho na Procuradoria fluía sem maiores problemas. E eu
estava feliz assim. Tinha a estabilidade de um cargo público na área
do Direito, poderia continuar com meus planos de empreender na
área de educação e não corria o risco de ser transferido para uma
cidade do interior do estado, já que em Pernambuco só existia
Procuradoria na capital, Recife.
A Procuradoria faz parte de um capítulo especial da minha
vida. Lá, ganhei muito mais que o exercício do Parquet em uma
experiência de aprendizagem recíproca e colaborativa. Construí
amizades que levarei para a vida toda. No entanto, é preciso ter
coragem para fazer escolhas, e, como já disse, algumas escolhas
implicam renúncias.
A partir de 2008, o Grupo Ser Educacional entrou em um
período de expansão contínua. Eu, como sócio majoritário,
participava da tomada de decisões, mas o cargo de procurador me
impedia de estar à frente do grupo. E este empecilho estava
mexendo muito comigo. Eu queria gerir o grupo, participar
ativamente da gestão. Queria ser mais que um conselheiro. Queria
estar à frente.
No início de 2013, após a Faculdade Maurício de Nassau se
tornar UNINASSAU — Centro Universitário Maurício de Nassau, e
obter a autorização do Ministério da Educação para ofertar o curso
de Medicina, além dos primeiros ensaios para abertura de capital
do grupo na Bolsa de Valores, decidi que era hora de me dedicar
exclusivamente ao negócio. A decisão de pedir exoneração da
Procuradoria do Trabalho estava tomada.
No entanto, por motivos que até hoje ainda não são
compreensíveis para mim, antes de dar entrada no processo da
exoneração, fui surpreendido com a instauração perante o
Conselho Nacional do Ministério Público (cnmp) de um inquérito
administrativo por, supostamente, acumular o cargo de
procurador com o exercício de atividade empresarial e sindical.
Após 22 anos de carreira pública, sendo quase dois como juiz do
Trabalho e outros vinte exercendo a função de procurador regional
do Ministério Público do Trabalho, de dedicação e de amor à
justiça, tive que comprovar ao Conselho Nacional do Ministério
Público, com a ajuda de uma das mais inteligentes, competentes e
diligentes advogadas do Brasil, dra. Luciana Browne, que eu estava
protegido pela Constituição Federal (arts. 128 parágrafo 5º, II, “c”)
e pela própria Lei Complementar do Ministério Público da União,
Lei 75/93 (art. 237, III), que faculta a qualquer membro do
Ministério Público ser sócio cotista ou acionista de qualquerempresa, já que a gerência da instituição sempre foi exercida pelo
meu irmão Jânyo Janguiê Bezerra Diniz. Tive que comprovar
também que sempre cumpri corretamente minhas funções, sem
nunca ter faltado a uma sessão ou atrasado sequer um processo. E
provei com certidões expedidas pelo próprio Ministério Público do
Trabalho. Apesar de tudo, foi proferida uma decisão política no
sentido de que o procurador geral da República deveria ajuizar uma
ação para propor a pena de demissão do cargo, caso fosse
comprovada a acumulação e a ação fosse julgada procedente.
Após a decisão, conversei com a dra. Luciana Browne e com
vários outros juristas brasileiros. Todos foram unânimes em afirmar
que a ação, se ajuizada, teria pouca chance de ser julgada
procedente, e que a decisão do cnmp seria facilmente derrubada
no Supremo Tribunal Federal. Por outro lado, em pouco tempo eu
poderia pedir aposentadoria, já que na época do fato eu já tinha
comprovado por certidão quase trinta anos de serviço público,
embora tivesse apenas 49 anos de idade.
Resolvi ir pelo caminho mais difícil e mais doloroso. Para evitar
prolongar as discussões e fornecer mais combustível para os
invejosos, em 22 de agosto de 2013 pedi exoneração do cargo de
procurador regional do Ministério Público do Trabalho, perdendo
meus quase trinta anos de serviço público.
Foi assim que, mais uma vez, o meu lado empreendedor se
mostrou mais forte e a vontade de estar à frente do Grupo Ser
Educacional me fez renunciar a um dos mais importantes cargos da
república.
Apesar da minha inegável tristeza por virar uma página deste
importante capítulo da minha história, deixei a instituição com
uma profunda gratidão por tudo o que ali passei, aprendi e exerci.
O Ministério Público do Trabalho sempre estará em mim, pois
muito me orgulha ter escrito parte da minha história como
membro desta importante e respeitada instituição.
CARTA DE AGRADECIMENTO AO MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
Em 22 de dezembro de 1993, depois de ser aprovado em um difícil concurso público
de âmbito nacional, em que concorreram quase 9 mil candidatos, logrando êxito
entre os primeiros colocados, tomei posse no honroso cargo de procurador do
Trabalho do Ministério Público da União, lotado na Procuradoria Regional do
Trabalho da 6ª Região.
Antes disso, em 1992, também fui aprovado em concurso público para o cargo de
juiz togado do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região, tendo
exercido o cargo até dezembro de 1993, quando pedi exoneração para tomar posse
como procurador do Trabalho.
Em 20 de abril de 1998, fui promovido, por merecimento, pelo Excelentíssimo
Senhor Procurador Geral da República, a procurador Regional do Trabalho. Em 1999,
fui nomeado, pelo Excelentíssimo Senhor Procurador Geral do Trabalho, procurador
Regional Chefe da Procuradoria Regional do Trabalho da 6ª Região, em Pernambuco,
permanecendo à frente do cargo até 2003.
Durante os vinte anos em que estive atuando como membro do Parquet, sempre
cumpri com as minhas funções com esmero e dedicação. E, conforme atesta certidão
expedida pelo MPT, anexa, nunca tive nenhuma falta, jamais atrasei qualquer
processo e nunca faltei a nenhuma sessão.
Registro também que, em conformidade com o art. 128 § 5º, II, “c” da
Constituição Federal/88, bem como com o art. 237, III, da Lei Complementar 75/93
(Lei Orgânica do Ministério Público da União), que faculta aos membros do
Ministério Publico participar de qualquer sociedade ou empresa como cotista ou
acionista, nos últimos anos fui e continuo sendo acionista majoritário do Grupo Ser
Educacional, mantenedor do Centro Universitário Maurício de Nassau — uninassau e
das Faculdades Maurício de Nassau e Joaquim Nabuco, instituições educacionais que
vêm, durante dez anos, graduando, qualificando milhares de brasileiros e
contribuindo imensamente para o desenvolvimento socioeconômico do nosso país.
Ademais, assevero também que, nos termos da lei, presido a Associação Brasileira
das Faculdades Isoladas e Integradas — abrafi.
Ontem, vinte anos depois de assumir o digno cargo de membro do Ministério
Público do Trabalho, tomei uma das mais difíceis decisões de minha vida: pedi
exoneração da função de procurador regional do Trabalho, que conquistei com muito
estudo e dedicação. Protocolizei, em Brasília, o meu pedido de exoneração ao
procurador geral do Trabalho.
A partir de agora concentrarei todos os meus esforços na atividade educacional.
A convite do conselho de administração do Grupo Ser Educacional, oportunamente
assumirei a função de presidente do Conselho de administração do grupo, e também
a de reitor do Centro Universitário Maurício de Nassau — uninassau. Um grupo que,
oferecendo educação de qualidade para o povo brasileiro, não para de crescer,
possuindo 23 unidades em 17 cidades de todos os estados do Nordeste e mais dois do
Norte, contando com mais de 90 mil alunos e oferecendo emprego para 5.500
colaboradores, além de ser o quinto maior pagador de imposto (ISS) em Recife,
Pernambuco.
A vida é assim. É preciso ter coragem para fazer escolhas, e algumas escolhas
implicam renúncias. Entretanto, com isso, abro espaço para a renovação do Parquet
pelos mais jovens. Logo, apesar da minha inegável tristeza por virar uma página
deste importante capítulo da minha história, deixo a instituição com uma profunda
gratidão por tudo o que ali passei, aprendi e exerci.
Meus sinceros agradecimentos a todos os colegas e servidores do Ministério
Público da União e, em especial, aos do Ministério Público do Trabalho, a todos os
juízes, desembargadores e servidores do Tribunal Regional do Trabalho da Sexta
Região, bem como a toda sociedade pernambucana, que transformaram, durante
estes vinte anos, o exercício do Parquet em uma experiência de aprendizagem
recíproca e colaborativa.
Finalizo reafirmando que deixo o Ministério Público do Trabalho, mas ele sempre
estará em mim, pois muito me orgulha ter escrito parte da minha história como
membro desta importante e respeitada instituição.
Recife, 22 de agosto de 2013.
Janguiê Diniz
“Na tarde do dia 21 de agosto de 2013, acompanhei Janguiê à Diretoria de Recursos
Humanos do Ministério Público do Trabalho, em Brasília. O objetivo era
protocolarmos o seu pedido de exoneração ao cargo de procurador regional do
Trabalho, da Procuradoria do Trabalho da 6ª Região. Dias de reflexão antecederam
aquela tomada de decisão de Janguiê.
Por ocasião desta experiência, percebi que Janguiê se recolhe, reflete,
compartilha com algumas pessoas da sua confiança as suas inquietações, colhe
opiniões diversas e recolhe-se novamente. Até que a decisão chega e desta ele
geralmente não reflui e não sofre mais. É como se todo o sofrimento já tivesse sido
experimentado durante o período de maturação, de reflexão. Na hora da decisão, ele
está ali, frio, inabalável.
Naquela tarde, no MPT, fomos recebidos pela diretora do setor, a dra. Izabel
Cristina, que de tão surpreendida com a decisão dele quase se recusou a receber o
requerimento, questionando por várias vezes: “Tem certeza”? A dra. Izabel, na
tentativa de descontrair, ainda disse: “Dr. Janguiê, o senhor é um ‘cabeção’,
referindo-se ao fato de ele ter sido aprovado em dois dos mais difíceis concursos
públicos da área do Direito: juiz do Trabalho e procurador do Trabalho. Janguiê estava
triste, muito triste, mas em nenhum momento desestruturou-se. Naquele momento,
a sua fleuma surpreendeu-me.”
Luciana Browne,
advogada e amiga pessoal de Janguiê Diniz
Alunos e parceiros de vida
Ser docente da Universidade Federal de Pernambuco, na Faculdade
de Direito do Recife, foi a realização de mais um sonho. Enxerguei
em vários alunos os mesmo sonhos que eu tinha quando ocupava
uma daquelas cadeiras.
Comecei ensinando na Faculdade de Direito da ufpe como
professor assistente, pois ainda era aluno do mestrado. Na mesma
época, já era professor efetivo de Prática Trabalhista da Faculdade
de Direito de Olinda. Posteriormente, fiz o concurso para professor
efetivo, concorrendo com cerca de dez ilustres participantese
tendo sido aprovado em segundo lugar, tomando posse em 1994.
Na Faculdade de Direito da ufpe, ministrei as cadeiras de Processo
Civil, Processo Trabalhista e Prática Trabalhista durante quase
vinte anos.
Sempre gostei muito de ensinar. É que para ensinar você
precisa estudar, e quando se estuda você angaria conhecimento, o
capital que considero mais importante na sociedade em que
vivemos. Além do dividendo do conhecimento adquirido, o
relacionamento com os alunos enriquece muito o professor.
Ensinar é também aprender. Principalmente quando você ensina
no grande palco dos debates jurídicos que é a Faculdade de Direito
do Recife da ufpe, onde também tive a honra de cursar o mestrado
e doutorado.
As primeiras faculdades do Brasil foram a velha Faculdade de
Direito do Recife e a Faculdade do Largo de São Francisco; ambas
foram criadas no mesmo decreto pelo imperador Dom Pedro I, em
11 de agosto de 1827. Pernambuco representava as tradições
liberais, o intenso amor da pátria, enquanto São Paulo
representava o espírito de organização política e da atividade
econômica.
Pela Faculdade de Direito do Recife da ufpe passaram grandes
nomes da política e do direito no Brasil como José Bonifácio,
Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Clovis Bevilácqua, Pontes de
Miranda, Silvio Romero, Tobias Barreto, Pinto Ferreira, dentre
outros.
Entretanto, em 2010, com o andamento que o Grupo Ser
Educacional tomava, tornou-se impossível me dedicar como devia
e queria aos alunos da Faculdade de Direito do Recife e pedi
exoneração do honroso cargo de professor.
Mas, em vez de contar sobre este episódio da minha vida,
deixarei que um dos meus alunos que se tornou um grande amigo e
parceiro, André Emmanuel Batista Barreto Campello, hoje um
renomado procurador da Fazenda Nacional, faça um relato daquela
época.
“Fui aluno do Professor Janguiê na Faculdade de Direito do Recife. Um dos
melhores professores que já tive na vida. A aula dele era espetacular! Só quem viu a
sua trajetória profissional, sua dedicação ao trabalho e ao seu sonho de empreender
em educação compreende o quão difícil e árduo foi tal caminho.
Depois comecei a me vincular ao Bureau Jurídico, a partir de 1997, e fui
contratado em 1998. Trabalhei na instituição até agosto de 2001. Muito me orgulho
de ter compartilhado de um pequeno trecho da trajetória profissional de Janguiê. Na
época, eu tinha entre 21 e 24 anos.
Fui coordenador de cursos jurídicos, editor do Jornal do Direito, colaborei na
estruturação da Escola Jurídica do Recife (ejur), na coordenação administrativa de
vários Congressos Jurídicos, e também trabalhei também na implantação das
franquias do bj por outros estados.
Se pudesse utilizar um conceito histórico, muito empregado pelo historiador
inglês Arnold Toynbee, diria que vivi em uma fase heroica do Bureau Jurídico, pois
estávamos na época de desbravamento de inúmeras fronteiras.
Curiosamente, no período em que trabalhei no Bureau Jurídico começaram a se
delinear os caminhos para o futuro da empresa: a transformação em uma instituição
de ensino superior.
Foi uma honra muito grande ter podido aprender e ter trabalhado com o
estimado professor na busca de tantos objetivos: os cursos jurídicos, a promoção dos
congressos, a ejur e a implantação das franquias.
Confesso que, sem dúvida, o trabalho era extenuante. Alguns dias chegávamos
às 8h00 e saíamos às 22h00 e, muitas vezes, a tensão era enorme, mas era,
sobretudo, muito empolgante. Havia muita motivação para fazer tudo acontecer de
forma perfeita. Era ótimo trabalhar com a equipe do Bureau, mesmo quando havia
divergências comuns a qualquer ambiente de trabalho.
Até hoje me pergunto de onde vinha tamanha empolgação… Creio que era uma
conjugação de fatores: a remuneração (que eu considerava satisfatória) e, mais ainda,
sentir-se parte de uma equipe muito competente que percebia que participava de
algo que estava se tornando gigante! A sensação era ótima, sentíamos que o infinito
era possível, bastava apenas o nosso trabalho e a nossa dedicação! E essa sensação era
ainda mais sentida e transmitida pelo Janguiê.
Curioso que as pessoas tinham muito medo da sua liderança, de levar um
“esporro” do Janguiê. No entanto, apesar desse ar intimidador, que eu credito ao
porte corporal alto e forte, quando trabalhava lá, sempre fui tratado de forma muito
profissional e educada e não compartilhei desse suposto “medo”.
Conhecendo o perfil de Janguiê desde a Faculdade de Direito e sabendo que ele
sempre foi um professor exigente com seus alunos, o único receio que eu tinha
enquanto funcionário do Bureau Jurídico era de desapontá-lo pelo trabalho que
realizava, então, por esta razão tentava fazer tudo de forma o mais perfeita possível,
inclusive tentando me antecipar aos problemas.
As experiências profissionais no Bureau Jurídico, bem como os ensinamentos
passados pelo Janguiê em sala de aula, sempre me acompanharam. Hoje,
compartilho muitos dos seus ensinamentos com alunos, ex-alunos e estagiários.
Por fim, uma curiosidade anedótica:
O professor Janguiê tem vários talentos, mas havia um deles que me
impressionava: geralmente, quase todos os dias, ele almoçava no Bureau Jurídico,
degustando o almoço que dona Lúcia preparava na cantina da escola.
Ele vinha da Procuradoria Regional do Trabalho — 6ª Região e almoçava conosco
lá, nas mesas de plástico brancas que ficavam no saguão do refeitório, na parte
interna do Bureau. Ele fazia tal refeição na empresa, porque, no início da tarde,
sempre tinha reuniões com a equipe.
Apesar de morar bem perto da empresa — no bairro da Torre —, eu também
almoçava lá, comendo o almoço de dona Lúcia, pois, como não tinha carro, ficava
complicado voltar sob o sol escaldante de Recife, para a empresa, às 13h00.
Pois bem, como havia dito, o professor Janguiê vinha da prt, portanto, estava
todo engravatado, com paletó, mas mesmo assim, sempre após o almoço, como
sobremesa, ele conseguia chupar manga espada sem macular sua roupa, sua camisa
social! Era incrível! Um talento ímpar! Note que não se tratava de apenas uma
manga, eram várias! Creio que manga era uma das frutas prediletas dele!
E essa habilidade ainda é motivo para muitas gargalhadas em nossas
conversas!”
André Emmanuel Batista Barreto Campello,
Procurador da Fazenda Nacional e ex-aluno e funcionário
CARTA DE AGRADECIMENTO À FACULDADE DE DIREITO DO RECIFE
Em 1983, no imponente prédio da Faculdade de Direito do Recife, finquei a pedra
fundamental para a construção de um sonho, quando me matriculei no curso
jurídico da respeitada instituição. Por aqueles corredores tracei minha trajetória
profissional, ao concluir minha graduação, mestrado e doutorado e, em 1990,
ingressar na docência através de concurso público. Hoje, 27 anos depois, tomo uma
das mais difíceis decisões de minha vida: deixar a Casa de Tobias. Neste dia 5 de
março de 2010 apresentei meu pedido de exoneração do cargo de professor do Centro
de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco ao Magnífico Reitor
Amaro Lins.
Durante um período, através de liminar confirmada por sentença da Justiça
Federal, consegui a licença sem remuneração, na esperança de reorganizar minha
agenda para conciliar as responsabilidades empresariais com o ofício de professor.
Mas optei pelo caminho do empreendedorismo e as escolhas implicam renúncias.
Não pretendo mais manter minha função por meio da judicialização. Com isso, abro
espaço para a renovação da banca pelos mais jovens. Apesar da minha inegável
tristeza por virar a página deste importante capítulo da minha história, deixo a
instituição com uma profunda gratidão por tudo o que ali conquistei, e futuramente
pretendo voltar, por meio de um novo concurso público, para poder retribuir a toda
a bagagem intelectual que a Casa me proporcionou.
Meus agradecimentos aos professores e amigos João Maurício Adeodato, Ivanildo
Figueiredo, George Browne, Alexandre Pimentel, Clóvis Correia, Sérgio Torres, Zélio
Furtado, Raimundo Juliano e Ivo Dantas, aos reitores Efrém Maranhão, Mozart Neves
e Amaro Lins, àsfuncionárias Valéria, Ricarda, Josi e Ana Paula, e especialmente a
todos os meus ex-alunos que transformaram, durante estes vinte anos, o exercício
da docência em uma experiência de aprendizagem recíproca e colaborativa.
Hoje eu deixo a Faculdade, mas ela sempre estará em mim, com seu fervor
cultural, sua capacidade de germinar ideias, sua agitação criadora. Muito me orgulho
de ser filho deste importante marco intelectual da história de nosso Brasil.
Janguiê Diniz
Mestre e doutor em Direito
Além das graduações em Direito, pela Universidade Federal de
Pernambuco (ufpe), e de Letras, pela Universidade Católica de
Pernambuco (unicap), fiz pós-graduações em Direito do Trabalho
pela unicap; em Direito Coletivo, pela oit em Turim, na Itália; e
especialização em Direito Processual Trabalhista, pela Escola da
Magistratura de Pernambuco (esmape); mestrado e doutorado pela
ufpe.
Nenhum desses cursos foi feito com intenção de alavancar o
meu currículo ou com o intuito de me tornar um professor. A
docência surgiu naturalmente para mim e acredito que
desempenhei um bom papel como tal. No entanto, quando
comecei a dar aulas na Faculdade de Direito de Olinda e na
Universidade Federal de Pernambuco, eu ainda não possuía os
cursos de mestrado e doutorado. Na época era possível, mesmo
sem tais cursos, fazer o concurso para professor efetivo da ufpe.
Antes de falar sobre os dois cursos, preciso frisar que acredito
que todo profissional de qualquer área do conhecimento deve fazer
mestrado e doutorado. Além disso, ganha-se muito mais respeito
quando se tem o título de doutor. Logo, como eu já era docente em
universidades, fiz os cursos não apenas para angariar
conhecimento, mas, também, para ser respeitado como
acadêmico.
De fato, após o término da faculdade, alguns formandos
acreditam que já têm conhecimento suficiente. Entretanto,
aqueles que acreditam na educação como diferencial para a vida
geralmente sentem um vazio intelectual, uma sensação de que
nada foi absorvido e até uma indagação sobre como o diploma foi
conquistado.
Ir além do diploma universitário é essencial, principalmente
para o desenvolvimento e inserção do graduado no mercado de
trabalho. Acredito que cursar mestrado e doutorado é ter
consciência da necessidade de constante atualização do
conhecimento da área em que se é profissional, bem como da troca
de experiências entre profissionais para a elaboração de estudos.
Cursar pós-graduação é imprescindível para aqueles que
desejam uma atualização profissional, para promover discussões
ou se aprofundar em determinado tema. Mas o mestrado e o
doutorado vão além disto. Fazer esses cursos significa se tornar um
cientista ou pesquisador e um profundo conhecedor de um tema
restrito. Era isso que eu queria, ser um profundo conhecedor de
certas áreas do Direito Processual Trabalhista.
Iniciei o mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco
em 1994. O curso deveria durar dois anos, mas as minhas
atividades diárias na Procuradoria e como professor no Bureau
Jurídico e na ufpe não me permitiram uma dedicação exclusiva ao
curso e acabei levando quatro anos para concluí-lo, colando grau
como mestre em dezembro de 1998.
Foi no mestrado que me aproximei ainda mais do professor João
Maurício Adeodato, que conheci na graduação e viria a ser
orientador da minha tese. Foi ali que estreitamos nossa parceria,
que perdura até hoje.
João Maurício foi quem elaborou o projeto para a implantação
do curso de Direito da Faculdade Maurício de Nassau e é
coordenador e docente na instituição. Nossa parceria ultrapassou
os limites da universidade e ele se tornou um grande amigo e
conselheiro.
Além dele, um outro professor marcou o curso. Lembro-me
bem do professor Cláudio Souto, que uma vez me disse: “Meu
filho, toda linha escrita tem o seu valor. Nunca deixe de mostrar ao
mundo os seus escritos. Nunca deixe morrer o seu pensamento
traduzido em escritos”. Esta metáfora marcou minha vida e me fez
investir em escrever livros na área do Direito.
Voltar à sala de aula como aluno não foi difícil. Claro que a
turma de mestrado geralmente é composta por alunos mais velhos
e com mais experiência de mercado, o que torna o curso ainda
mais interessante.
Minha dissertação de mestrado teve como tema A Ação
Rescisória dos Julgados, posteriormente publicada pela Editora LTR
com o prefácio da grande jurista Ada Pellegrini Grinover. Não tive
problemas em defendê-la por já ser profundo detentor do
conhecimento sobre o assunto, já que sempre fui apaixonado pelo
tema. Na banca de avaliação estavam grandes mestres do direito
como Ivo Dantas, Paulo Lobo Saraiva e Geraldo Brindeiro, que, em
consenso, me aprovaram com nota 10.
Já o doutorado me tomou um pouco mais de tempo. Em tempo
normal, ele deveria durar quatro anos, mas levei seis anos para
finalizar, iniciando em 1999 e colando grau como doutor em julho
de 2004. Naquela época, eu já havia iniciado o Bureau Jurídico e
posteriormente a Faculdade Maurício de Nassau. Isso, somado ao
trabalho na Procuradoria e às outras atividades, me proporcionava
uma frenética correria diária.
Para minha sorte, no início dos anos 2000, o aluno de
doutorado na ufpe podia pedir prorrogação de até seis anos para
conclusão do curso. Se fosse hoje, com certeza eu teria sido
jubilado na universidade, embora, mesmo tendo pedido
prorrogação, eu tenha defendido a tese dois dias antes do prazo
para o jubilamento.
Para o doutorado, ainda que nunca tenha escondido que a área
processual trabalhista me encantava, escolhi um tema de Direito
Processual comum: a arbitragem. Ou mais especificamente: “a
atuação do Ministério Público do Trabalho como árbitro nos
dissídios individuais de competência da Justiça do Trabalho”.
Desta vez, com o apoio do professor Raimundo Juliano como
meu orientador, discursei sobre a possibilidade de membros do
Ministério Público do Trabalho atuarem como árbitros e
julgadores, julgando processos e dizendo o direito. E na banca de
avaliação estavam quatro grandes nomes do direito: Lucio Grassi,
Alexandre da Maia, Paulo Lobo Saraiva e Zélio Furtado, mais o
professor Francisco Queiroz Cavalcante. Fui aprovado por maioria
por distinção.
Tornar-me mestre e doutor na área do Direito era mais uma
conquista de vida. Foi mais um objetivo conquistado e, mais uma
vez, eu via que a educação mudava a minha vida. Ser um cientista
ou pesquisador em determinada área é um diferencial na atual
sociedade em que vivemos, a sociedade do conhecimento.
“Eu era um jovem professor da Faculdade de Direito do Recife quando conheci
Janguiê Diniz, um aluno poucos anos mais novo do que eu. Ele diferia de seus colegas
nas classes, tinha um olhar muito atento e uma conversa inteligente, um rapaz que
prometia sucesso. Conforme o conheci melhor, constatei seu espírito empreendedor:
criou uma empresa de cobranças que logo fez sucesso. Ao contrário de muitos outros
alunos que comandavam negócios ou trabalhavam em empresas, entretanto, ele não
descuidava dos estudos, estava sempre atualizado nas matérias.
Fiz amizade com Janguiê desde os tempos em que ele foi meu aluno. Logo ele já
estava formado, dava aulas e era juiz do Trabalho. Depois Janguiê se tornou
procurador do Trabalho, continuava professor e o Bureau Jurídico fazia sucesso.
Podia ter parado por aí, mas ele sonhava mais alto. Queria fazer mais na área da
educação. A ideia era criar uma universidade que podia começar como uma
faculdade em crescente expansão, procurando reunir os melhores professores.
Acompanhei sua luta, seus percalços, suas voltas por cima. No início, a parceria com
a Universidade Salgado de Oliveira, do Rio de Janeiro, lhe pareceu conveniente.
Janguiê entrou com o trabalho de estruturação dos cursos de Direito em
Pernambuco.
O professor Janguiê animava colegas e alunos, promovia encontros. Mas o
rompimento foi inevitável. Fui também testemunha ocular de sua capacidade de
recuperação: em pouco tempo fundou a própria faculdade, a Maurício de Nassau, em
instalações simples, tudo muito apertado.
Fui o primeiro professor e Janguiê meencarregou de fazer o projeto do curso de
Direito, o primeiro do grupo. Estabeleci as disciplinas, a carga horária, o programa de
ensino, cuidei de muitos detalhes. Acompanhei também a comissão do Ministério da
Educação e Cultura no reconhecimento do curso. A convite de Janguiê, assumi o
cargo de coordenador dos cursos. Vivo viajando para dar aulas nas unidades da
Faculdade Maurício de Nassau. Pela qualidade do ensino de seus muitos e muitos
cursos hoje em dia, tenho certeza de que o destino da uninassau é se espalhar por
todo o país. É uma confirmação de que é possível realizar um sonho e comprova o
acerto da impressão que tive quando conheci o Janguiê e ele era meu aluno em sala
de aula: uma pessoa diferente das outras, um fazedor.”
João Maurício Adeodato,
ex-professor e amigo pessoal
PARTE 3
O sonho de criar uma instituição de
ensino superior
Em meados de 1999, enquanto ainda coordenávamos os cursos do
Bureau Jurídico e do bj Colégio e Curso, recebi uma proposta de
participar de uma sociedade com uma instituição particular que
estava em plena expansão no Brasil e que se mostrou interessada
pelos métodos que utilizávamos tanto no Bureau Jurídico quanto
no bj.
A Universidade Salgado de Oliveira (Universo) havia sido criada
em 1971, em São Gonçalo (RJ), a partir de uma escola particular de
primeiro e segundo graus surgida em 1959, e foi reconhecida pelo
Ministério da Educação em 1993. Era uma instituição conceituada
e de boa qualidade que ainda não tinha representação em
Pernambuco.
A proposta da Universo poderia viabilizar o grande campus
universitário que eu imaginava para o Recife e resolvi aceitar,
somando esforços como um parceiro local. Forças somadas, no ano
2000 foi inaugurado no Recife o campus da Universidade Salgado
de Oliveira, e fui seu primeiro reitor. Contratamos bons
professores e isso, aliado à excelente reputação da Universo pelo
país e às metodologias de ensino fizeram com que os alunos
buscassem os cursos autorizados na instituição.
Infelizmente, nem toda sociedade dá certo. Mais uma vez, digo
que se formos comparar, eu diria que uma sociedade é como um
casamento: ninguém deveria ficar sócio de alguém com quem não
tenha convivido por pelo menos um ano. Este é o período mínimo
para saber se alguém é compatível com você.
E como pessoas diferentes pensam diferentes, dois anos depois
deixei a parceria com a instituição. Contudo, eu continuava
sonhando em empreender no ramo educacional e construir uma
grande universidade, e tinha certeza que iria realizar meu sonho.
Ao acompanhar os caminhos da educação no país, cada dia eu
entendia esta como sendo a única forma de o Brasil crescer, se
desenvolver e mudar. Mas a realidade era diferente. O número de
instituições de ensino superior era baixo e isso tornava os
vestibulares cada vez mais disputados. Nas seleções para as
universidades públicas as vagas eram preenchidas, em sua maioria,
pelos melhores alunos das escolas particulares da cidade. A
demanda continuava muito grande e a oferta de instituições era
insuficiente.
Era preciso qualificar a mão de obra de uma forma voltada para
o mercado. Não digo deixar as teorias de lado, mas aliar o conceito
teórico à prática, de forma que os estudantes saíssem das
faculdades de fato preparados para o mercado de trabalho. Esse
seria um modelo de ensino superior competitivo e que elevaria a
cultura da população.
O Bureau Jurídico e o bj Colégio e Curso continuavam crescendo
e se expandindo. Em 2000, havíamos inaugurado a franquia do
Bureau Jurídico de Goiânia, em Goiás. Eu sabia que a criação de
uma empresa que se mostrasse sólida ao longo dos anos seria não
apenas uma fonte de renda, mas também a mudança de vida e
destino de muitas pessoas.
Eu tinha planos. E, mais uma vez, precisava de pessoas de
confiança para me ajudar. Meus irmãos já estavam formados, cada
um em uma área diferente. Eles seriam as pessoas ideais para me
ajudar. João, assim como eu, havia se formado em Direito. Eu pela
ufpe e ele pela Universidade Católica. Jânyo tornou-se engenheiro
mecânico pela ufpe, tinha o dom da organização e se mostrava um
grande gestor em uma indústria, a Companhia Industrial de Vidro
(civ). Joaldo se formou em Sistema de Informação pela Universo e
se tornou um grande conhecedor da área.
“Nessa trajetória toda, a coragem sempre marcou a atuação de meu irmão, capaz
de enfrentar interesses contrários com altivez e determinação. Considero-o um
exemplo a ser seguido.”
João Janguiê,
irmã
A abrafi e a abmes
Quando fundei a Faculdade Maurício de Nassau, nós, assim como
outras faculdades, éramos uma instituição pequena. Na época, a
entidade de classe mais representativa que defendia os interesses
das instituições de ensino superior privado era a Associação
Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (abmes), da qual
sou vice-presidente há dois mandatos.
A abmes nasceu do sonho de um grupo de mantenedores de
instituições privadas que no início da década de 1980 percorreu
todo o país com o objetivo de propor a criação de uma associação
para representar nacionalmente a categoria e lutar pelos interesses
legítimos das instituições de ensino superior particulares.
Na época, ainda existia bastante discriminação com as
instituições de ensino privado, a ponto de os mantenedores mais
velhos contarem que antes da criação da abmes, não era raro os
mantenedores passarem horas e horas nas antessalas das
secretarias no Ministério da Educação para tentar ser atendidos e
dar entrada em processos de autorização e reconhecimento de
cursos. A abmes passou a articular e representar os interesses do
setor, criar parcerias e promover seminários para disseminar os
assuntos de interesse das instituições de ensino superior privadas.
A entidade sempre teve um espírito conciliador. Mesmo
quando era necessário judicializar algumas questões para defender
o setor, ela preferia tentar resolver na forma da conciliação. Mas
nem tudo podia ser resolvido sem uma discussão jurídica perante
os Tribunais. No entanto, a abmes, até a fundação da abrafi, não
tinha um DNA beligerante e nunca tinha ajuizado uma ação contra
o mec. Era necessário criar uma associação com esse perfil, sem
desprezar, também, o espírito conciliador.
Sempre fui muito inquieto, sempre queria fazer com que as
coisas acontecessem rápido. Nunca me acomodei diante das
dificuldades e mudanças que o sistema de educação superior vinha
impondo durante os últimos anos. Assim, em meados de 2005,
junto com um grupo de mantenedores de diversas instituições de
ensino superior, que mensalmente compareciam às reuniões da
abmes e do Conselho Nacional de Educação, que se sentiam
desapontados com a falta de atenção e o menosprezo com os
interesses das instituições, fundei a Associação Brasileira das
Mantenedoras das Faculdades Isoladas e Integradas (abrafi).
Diante dos outros mantenedores, eu era um mantenedor
bastante jovem, com uma visão empreendedora e estava
assumindo a presidência de uma associação que visava defender,
inclusive judicialmente, os interesses das faculdades pequenas.
Tratava-se de um segmento até então com pouca
representatividade. Eu não tinha medo de arriscar e de buscar
novos desafios.
Mesmo a abrafi representando o segmento da educação
superior com maior número de instituições — as faculdades —,
nosso número de associados nem sempre foi grande. Mas isso não
fez com que eu deixasse de investir e de acreditar na associação.
O trabalho na presidência da abrafi sempre foi bastante intenso.
Sempre lutei em prol dos interesses das faculdades isoladas, e por
via de consequência, em prol da educação superior do Brasil. É
uma luta constante, árdua e extenuante, em prol da coletividade
das instituições de ensino superior. Sempre fiz questão de separar
o trabalho da abrafi, que fazia e faço junto ao Ministério da
Educação, ao Conselho Nacional de Educação e diversos outros
órgãos públicos, do trabalho que faço pessoalmente em prol do
Grupo Ser Educacional.
Por ter formação jurídica e, modéstia à parte, em virtude do
conhecimento acumuladodos direitos e deveres constitucionais,
em decorrência dos cargos de magistrado, membro do Ministério
Público, além do mestrado e doutorado em Direito e de ter sido
professor da ufpe, nunca tive medo de iniciar embates jurídicos
contra a União, o mec ou qualquer outro órgão público, no intuito
de evitar ilegalidades e até arbitrariedades perpetradas contra as
faculdades privadas. Em alguns momentos fui muito enfático nas
lides contra o mec ao defender os interesses das faculdades, sem
medo de colocar meu nome e de me posicionar contrário a
algumas imposições do Ministério da Educação. Mas, nunca antes
de ter tentado, por via da negociação e da conciliação, chegar a um
consenso.
Hoje, continuo presidindo a abrafi com este mesmo espírito,
sempre com o pensamento em algo grandioso: a expansão da
educação superior brasileira de qualidade, para que daqui a alguns
anos eu ainda possa ler estatísticas que mostrem que todo
brasileiro tem a oportunidade de conquistar um diploma de curso
superior. Como a educação é a base de tudo, penso que quando
chegar a esse patamar o Brasil deixará de ser um país do futuro
para ser um país do presente, respeitado em todo o planeta.
“A travessia de José Janguiê Bezerra Diniz ganhou espaço na grande mídia do país e
seu nome foi parar na seleta lista de bilionários brasileiros da revista Forbes. A
manchete quase sempre é a mesma: “Ex-engraxate brasileiro é o novo bilionário da
Forbes”. Parece-me natural que tal aconteça e que os dois extremos contidos na
expressão usada sejam recorrentes para descrever aquele que desde tenra idade
trabalhou duramente para atingir o “Olimpo” — não o etéreo, mas o real — nos seus
projetos de vida. Em todos os setores encontraremos exemplos semelhantes.
No caso de Janguiê, porém, alguns detalhes também recorrentes em seus
inúmeros depoimentos me chamam a atenção. A figura do pai, o João, desponta
como definitiva ao cravar na mente do menino de apenas oito anos que todo trabalho
é digno e que mesmo na sua simplicidade qualifica o ser humano; que a educação é
fundamental para a pessoa e para o país, e que viver é lutar incessantemente. Mesmo
sendo “homem de poucas letras”, o pai transformou com os seus ensinamentos o
menino em “caminhante”, como se inspirado fosse pelo belíssimo poema
“Caminante” do espanhol Antonio Machado:
Caminhante, são tuas pegadas / o caminho e nada mais; /
Caminhante, não há caminho, /o caminho se faz ao andar. /
Ao andar se faz o caminho, / e ao olhar pra trás
se vê a vereda que nunca voltará a pisar. /
Caminhante não há caminho sem rastro no mar.
E Janguiê caminha em busca de seus sonhos. Vai, no momento certo, ao
encontro do “porto seguro” do tio — um segundo pai — com a sua pequena/grande
bagagem. Sua estrela guia e seu talento nato o conduziram também e daí em diante
ninguém mais o segurou.
Há uma farta documentação conhecida de todos sobre a sua travessia que ainda
está longe de terminar.
Com base na sua estrutura familiar — o seu “berço” —, que ele irá reeditar na
construção de sua própria grande família, situa-se no centro desse universo um
homem generoso, inteligente, digno, ético, determinado, inquieto, empreendedor e
“com grande gosto pelo risco” — como dizia o grande mestre Milton Santos. Com
formação acadêmica sólida, autor de diversos livros, com vasta experiência na área
do Direito e da docência, comanda o seu grupo empresarial — o “Ser Educacional” —
com pulso forte. Janguiê acredita nas possibilidades da educação como o melhor
caminho para transformar o nosso país numa grande nação. Com o seu trabalho, ele
se tornou um dos mais importantes protagonistas da história contemporânea da
educação brasileira.
O “nosso caminhante” e homenageado pela Associação Brasileira de
Mantenedoras de Ensino Superior com o “Prêmio Milton Santos de Educação
Superior” — cuja travessia começa em Santana dos Garrotes (PB), passa por Naviraí
(MS) e Pimenta Bueno (RO), deságua e se transforma num rio caudaloso em Recife
(PE) — carrega com ele as marcas de sua primeira profissão: os famosos e
confortáveis shinning shoes. “Caminhante, não há caminho, /o caminho se faz ao
andar…”
Cecília Horta Professora aposentada da Universidade Federal de Juiz de Fora
(u�f)/MG e diretora acadêmica da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino
Superior (abmes).
“Dr. Janguiê sempre foi um profissional que, através de sua audácia e
empreendedorismo, conseguiu se tornar uma figura emblemática dentro do
segmento da Educação Superior Privada, prova essa temos ao conhecer seu histórico
de vida. Com certeza e sempre demonstrando sua paixão sobre tudo o que faz, ele
será um nome que ainda aparecerá muito dentro da história da Educação
Brasileira.”
Bernadete Maria de Lima de Paula,
Socióloga — Secretária Executiva — abrafi
A marca Ser Educacional e o
crescimento da Maurício de Nassau
Com a abertura da Faculdade Maurício de Nassau em 2003, passei a
manter três empresas na área de educação: o Bureau Jurídico, o
Colégio bj e a faculdade. Então, decidimos criar uma marca que
agregasse todas as outras. Surgiu assim o Grupo Ser Educacional,
que hoje é o mantenedor de todas as unidades da Faculdade
Maurício de Nassau e Joaquim Nabuco.
2003 - Inauguração da Faculdade Mauricio de Nassau, no
Recife
A escolha do nome e da criação da marca para o Grupo veio
com o auxílio de uma empresa especializada. O verbo “ser”
designa existência, instiga aspiração, estar e pertencer. O “ser” de
indivíduo, de ser humano — única criatura dotada de inteligência
reflexiva e inventiva. Ser que cria, produz, empreende, gera
riqueza, ensina, aprende, compartilha e se comunica.
Já a marca foi inspirada na ilustração do homem vitruviano de
Leonardo Da Vinci, sintetizado na estrela de cinco pontas, as quais
lembram os cinco sentidos que estabelecem a comunicação da
alma com o mundo material: tato, audição, visão, olfato e paladar.
Para a escolha das cores, o azul assinala a entrada nos domínios
mais profundos do espírito e uma das suas qualidades mais sutis é
a aspiração. Essa cor faz parte do espectro frio e, por sua quietude e
confiança, promove a devoção e a fé. O azul é uma cor associada ao
dever, à beleza e à habilidade. A serenidade dessa cor traz consigo
paz, confiança e sentimentos agradavelmente relaxantes. Sua
fluidez e força serena são traços atraentes, que provocam
admiração por parte das outras pessoas. Em resumo, tudo que o
Grupo Ser Educacional pretendia ser: forte, confiável, cumpridor
de seu dever com a sociedade e admirado pelo trabalho que realiza.
Junto com o Grupo Ser Educacional surgiu também o Instituto
Ser Educacional. Mas falarei sobre ele em um episódio mais à
frente.
Ao elaborar a missão e os valores do grupo, queríamos que eles
englobassem mais do que os valores da faculdade — eles
precisavam representar a ideia de um grupo com a intenção de
crescer e investir em educação como forma de mudar a sociedade
e, consequentemente, o país.
Assim, determinamos que nossa visão seria figurar entre os cinco
maiores grupos educacionais do país, reconhecido por prestar serviços
de qualidade, com resultados sustentáveis e satisfação dos alunos,
colaboradores, acionistas, das organizações e comunidades.
Tudo isso aliado à missão de produzirmos, proporcionarmos e
socializarmos conhecimento, formando profissionais e seres humanos
éticos, íntegros e competentes, com melhores condições de
empregabilidade. Desde seu surgimento, tanto o Grupo Ser
Educacional quanto a Faculdade Maurício de Nassau prezam pela
qualidade, estimulam a criatividade, o respeito, a honestidade, a
austeridade e a diversidade.
A meta inicial da Faculdade Maurício de Nassau era começar
ofertando os cursos tradicionais, aqueles que todo mundo
conhecia e que atraíam mais alunos. Foi por isso que, apesar de
termos elaborado cerca de vinte projetos de cursos para solicitar
autorização ao mec, demos entrada em apenas seis. Mas logo no
segundo semestre de funcionamento, fomos dando entrada nas
solicitações.
Eu sabia que era importante criar mais cursos, abastecer a
sociedadede novas oportunidades para elevar o nível geral da
cultura local, sem, entretanto, descaracterizá-la. Então,
estávamos sempre pesquisando no mercado quais as áreas que
precisavam de profissionais capacitados e buscávamos oferecer
aqueles cursos.
Gradativamente fomos aumentando o leque de ofertas da
faculdade e os cursos oferecidos iam se destacando por aplicar
métodos em que o enfoque das matérias era mais prático, visando
ao aprendizado, e por ter professores didáticos e bem selecionados.
Toda a dinâmica de ensino da Maurício de Nassau foi
desenvolvida por bem-sucedidos e muito exigidos professores de
cursinhos e de outras faculdades que eu trouxe para trabalhar
comigo, e não demorou para que a nossa estratégia de ensino
contrastasse com a inércia sisuda e acomodada das velhas
academias.
Como eu era procurador do Ministério Público do Trabalho, a
legislação me impedia de gerir qualquer empresa, dessa forma, eu
atuava como conselheiro do grupo, acompanhando todo o
desenvolvimento e deixando a administração e presidência a cargo
do meu irmão Jânyo Diniz. Apesar disso, fazia questão de estar
presente em todas as tomadas de decisões, congressos e eventos.
Naqueles anos, o Bureau Jurídico também era famoso por
produzir grandes congressos. Em alguns eventos chegamos a
reunir cerca de 5 mil pessoas, e aquela também se tornou uma
forma de fortalecer a imagem da faculdade. Os congressos
passaram a ser uma realização do Bureau Jurídico e da Faculdade
Maurício de Nassau.
No ano seguinte, em 2004, tínhamos a Faculdade Maurício de
Nassau e o Bureau Jurídico funcionando no mesmo local. Mas a
verdade é que a Nassau começou a crescer rapidamente e a cada
semestre era preciso mais e mais salas para dar suporte aos novos
cursos e à demanda de alunos.
No mesmo ano, surgiu a oportunidade de adquirir um terreno
na mesma rua em que funcionava a faculdade e minha visão de
empreendedor me fez realizar a compra e construir um novo
prédio, passando então a denominar o primeiro bloco de A e o
segundo de B.
Em 2005, fizemos a transferência da faculdade para o Bloco B.
O prédio possui cinco andares, sendo uma das maiores estruturas
arquitetônicas da instituição, cinco laboratórios de informática
espalhados nos andares da estrutura, além de outros oito
laboratórios e estúdios vinculados a cursos, duas cantinas,
secretaria e a biblioteca da instituição — que posteriormente seria
transferida para um prédio individual.
Conseguimos dar suporte a nossa demanda por mais um
semestre, mas no semestre seguinte precisamos utilizar
novamente as salas do Bloco A para a faculdade. Era hora de pensar
em outra estratégia.
Decidi retirar o Colégio bj do bloco A. De fato, me incomodava
aquela mistura de alunos do colégio saindo no final da tarde e os
alunos da faculdade chegando no início da noite. Comecei a buscar
um espaço para alugar e remanejar o colégio e acabei encontrando
um local na Rua Benfica, onde o colégio funciona até hoje.
Contudo, apesar da retirada do Colégio bj, a cada semestre
precisávamos de mais e mais salas, e nesse processo a faculdade
acabou “engolindo” o Bureau Jurídico. Se pudesse mostrar em
proporções, eu diria que a cada semestre eu tinha duas turmas de
alunos no Bureau para vinte turmas que abriam na Maurício de
Nassau. Acabei decidindo fechar a estrutura física do Bureau — e
recentemente retomei o projeto através de aulas online com o
nome de Bureau de Cursos e Bureau Jurídico.
Eu era grato a tudo que o Bureau me proporcionou e foi ele que
me levou a pensar e construir a Faculdade Maurício de Nassau, mas
o meu sonho era o ensino superior e eu não poderia me privar ou
desistir disso.
Os semestres continuavam e a demanda apenas aumentava. Já
precisávamos de mais estrutura. Em 2006, comecei a negociar com
a Fábrica e Fundição Capunga, uma indústria especialista na
produção de estruturas em aço e metal, que funcionava ao lado da
faculdade, na Rua Joaquim Nabuco, 747. Após meses negociando
com dezesseis herdeiros, realizei a compra do imóvel e
transformamos toda a estrutura em salas de aula.
No projeto, a antiga Fundição Capunga teve a fachada
totalmente restaurada para receber as instalações da Faculdade e
passou a ser chamado de Bloco Capunga ou, por coincidência,
Bloco C. Abrimos o acesso dele para o Bloco A para que os alunos
pudessem usufruir de ambas as estruturas no que diz respeito a
laboratórios e secretaria, além da própria cantina que foi
construída no local.
O Bloco Capunga também recebeu o principal auditório da
instituição, que foi construído em 2009 e recebeu o nome de
Auditório Capiba, em homenagem a Lourenço da Fonseca Barbosa,
o maior compositor de frevos do Brasil, conhecido como Capiba.
CARTOGRAFIA DA FUNDIÇÃO CAPUNGA.
(Artigo assinado pelo diretor-geral, Janguiê Diniz, cujo texto foi
publicado na edição de 5 de outubro de 2006 do Jornal do
Commercio)
Às vezes somos vítimas de um saudosismo que se recusa a entender que o tempo
muda o cenário. Balzac chega de fininho a um sentido meu e lança meus olhos ao
chão. Não ao chão do presente de minha cidade Recife. Mas ao chão azul de um
passado do Recife. E a voz de Balzac continua, insiste, dizendo-me bem baixinho aos
ouvidos: “Tempo muda cenário”.
Com sua insistência, abruptamente meus olhos se renovam. Grito num comício
dentro de minha alma que Balzac me trouxe a jovialidade. Agora, sou um homem
maduro, mas com olhar novo, moderno e em progressão para o pós-moderno. Já não
mais estou cego ao presente. Na Fundição da Capunga, de fato, há uma nova
pulsação: a Faculdade Maurício de Nassau fazendo parte da nossa História. E é
gostoso testemunhar que parte da Veneza Brasileira não está morta, enterrada em
uma fundição que já não mais existe há anos. É prazeroso perceber que não mais
estou preso a uma minúscula fenda de uma caverna: o saudosismo.
Antes, paredes cansadas, fatigadas, entregues pela força natural do tempo.
Pretas, queimadas pelo fogo forjando o ferro a quente e a frio. Antes, o medo de
caminhar por ruas estreitas e estranhas que se recusavam a se entregar à necessidade
de uma população em busca de espaço para investir em seus sonhos. Antes, de fato,
um passado petrificado em um saudosismo estranho à velocidade de nossa época.
Antes, por fim, um lugar sem o relógio de nosso tempo. Eis a antiga Fundição da
Capunga. A Capunga e as Graças surgiram de loteamentos desenvolvidos no século
XIX, primitivo sítio que começava na Camboa do Manguinho (Parque do Amorim) e
se estendia até a margem do Capibaribe. E, conforme nos ensinou Clarice Lispector,
por o tempo urgir, o sítio foi dividido em dois: Capunga Velha e Capunga Nova. Das
mãos do sargento-mor Luís Ferreira Feio e sua mulher, d. Maria Correia Monteiro,
com o tempo, passou para as do comerciante açoriano Guilherme Fischer. Com a
morte deste, passou para as mãos da Irmandade de São Pedro dos Clérigos do Recife.
Com a insistência da filosofia machadiana, em 1878, concluiu-se a construção de um
templo. E a população cresceu. Já havia 4.511 pessoas livres e 922 escravos. E para lá
afluíam as novidades.
E surge, por exemplo, na fundição, o engenheiro e mestre ferreiro Hermínio
Filomeno forjando o ferro a quente. Sua finalidade é dar forma ao ferro. Ofício que
nos remonta aos primeiros momentos da civilização egípcia.
Os passos do mundo parecem andar no ritmo da velocidade da luz. Devemos nos
preocupar com a velocidade de nossos olhos. O bater de nossas pálpebras não pode
estar obedecendo à preguiçosa lentidão de um saudosismo que freia nossa cidade. Já
não é o ferro o único a dar forma ao que nos circunda. Já não temos apenas 4.511
pessoas, ou melhor, 5.433 pessoas no antigo sítio.
Mas o homem não dorme. O homem pulsa. O homem renasce. O homem faz
germinar o aparente chão queimado, infecundo e que repousa em minúsculas fendas
de um passado que já foi o caminho das Índias. Sim, faz germinar!
Faculdade Maurício de Nassau! Como não enxerguei tudo isso antes?! Como ela
estava ilegível àquela primeira vista… àquela vista cansada, velha e míope da qual há
tão pouco tempo medistanciei. Obrigado, Balzac! A realidade de uma cidade é
sempre móvel. A vida de uma cidade obedece à filosofia de Machado de Assis, ou
seja, respeita a filosofia dos humanistas. Isso! É necessário entender a sequência
natural de nosso espaço urbano, assim como é mister compreender que precisamos
morrer para dar vida a quem teima em chegar. E chega!
E assim, enfim, nasce a Faculdade Maurício de Nassau na antiga fundição. Já não
há mais o descompromisso com o local. Já não existe mais umidade naquele chão.
Para lembrar nosso poeta Manoel Bandeira, já estava na hora de “lavar o tédio dos
telhados que envelheciam”. Por que a necessidade de se buscar em espaço onírico
uma Pasárgada para se viver a necessidade de nosso tempo? 
Hoje, com a Faculdade Maurício de Nassau, há um novo ferro dando forma a todo
um coletivo de pessoas não assistidas por um governo carente de recursos, preso a
um déficit público. O ferro nos portões da Faculdade Maurício de Nassau nos lembra
— mas apenas nos lembra — aquelas 4.511 pessoas e aqueles 922 escravos. A fachada
da Maurício de Nassau na fundição é a fronteira entre o chão que dá repouso aos
olhos míopes do saudosista e a nova cartografia urbana.
Existe um espaço onde se encontra o alimento mais substancioso à formação do
recifense, a educação. Milhares de jovens se instrumentalizam com o conhecimento
científico para ter identidade, garantia e desenvolver nossa Veneza Brasileira.
Junto com a antiga fundição, adquirimos também o casarão que
durante alguns anos abrigou o Centro Administrativo do Grupo Ser
Educacional e hoje abriga a direção e reitoria da uninassau. A
estrutura foi totalmente restaurada.
À medida que o Ministério da Educação autorizava a abertura
dos cursos, a demanda da Faculdade Maurício de Nassau
continuava a crescer. Fomos precisando de mais espaço e assim
construímos o bloco do Centro Superior de Tecnologia — CST, um
bloco especialmente construído para os cursos de tecnologia, com
biblioteca própria, uma cantina e seis laboratórios de informática.
Mais recentemente, construímos o Bloco D, que abriga os
laboratórios dos cursos de Saúde e Química, além das clínicas-
escolas; o Bloco E, que foi construído após a mudança de
nomenclatura da Faculdade Maurício de Nassau para Centro
Universitário Maurício de Nassau, é o edifício com maior número
de salas e andares da instituição. Assim como os outros, é equipado
com laboratórios de informática, cantina e área de convivência
projetada para os alunos. O prédio possui sete andares e é uma das
nossas maiores estruturas físicas.
E há pouco construímos o Centro Administrativo do Grupo Ser
Educacional no bairro de Santo Amaro, região central do Recife.
São dois blocos, com estrutura moderna, que passarão a abrigar
toda a mantenedora.
Não pensem que tudo foi alegria e facilidade. Em todos esses
anos, a faculdade passou por vários problemas e alguns deles
poderiam ter acabado com a nossa reputação muito antes de nos
firmarmos.
Toda instituição de ensino passa por constantes avaliações do
Ministério da Educação: para credenciamento, para autorização de
cursos, para reconhecimento de cursos e recredenciamento. E foi
daí que veio um dos nossos maiores e piores problemas iniciais.
Sempre ao término de um curso, os alunos são submetidos a
uma avaliação do mec chamada enade (Exame Nacional de
Desempenho de Estudantes). Em 2008, a faculdade, que tinha
cerca de quatros anos de existência, realizou o primeiro enade de
sua história. Dezoito alunos do curso de Biomedicina, por algum
motivo, decidiram boicotar a prova, resultando em uma nota 1
para o curso (em uma escala de 1 a 5).
Acontece que naquele mesmo ano o mec criou dois outros
indicadores: o cpc (Conceito Preliminar de Curso), que
corresponde à nota obtida pelos alunos no enade (maior
pontuação) somada a uma nota conferida à titulação de doutores
do corpo docente do curso, acrescida de alguns insumos; e o igc
(Índice Geral de Cursos), que corresponde à soma de todos os cpcs
conferidos aos cursos da instituição.
Apesar de já ter 35 cursos autorizados, por ter apenas quatro
anos de funcionamento a instituição realizara naquele ano apenas
o enade do curso de Biomedicina. Por consequência, só tinha o cpc
daquele curso. Como os alunos boicotaram a prova e a nota do
enade foi a mais baixa possível, o cpc do demais cursos teve a
mesma nota. O mec cometeu um erro inadmissível e conferiu igc 1
à instituição, levando em consideração a nota de um único curso
em meio a outros 35.
Com a divulgação dos resultados, a Maurício de Nassau passou
pela sua primeira crise de imagem, quando ainda estava
trabalhando na consolidação da marca. A saída para amenizar a
situação foi cobrar administrativamente e até judicialmente o
reconhecimento do erro por parte do mec.
O erro fez com que a faculdade fosse considerada a pior
faculdade de Pernambuco, o que ia contra qualquer propósito da
instituição e foi um fato inacreditável até para a população, pois
era impossível que uma instituição com a estrutura que era
oferecida pela Nassau e com alunos e corpo docente satisfeitos com
seu ensino e qualidade, tivesse sido avaliada com aquela nota.
O mec reconheceu que o resultado obtido pela Faculdade
Maurício de Nassau no igc calculado com base no conceito
preliminar de curso obtido por uma única graduação não poderia
ser generalizado para todas as outras 35 graduações que a
instituição oferecia na época.
O presidente do Inep, instituto de pesquisa responsável pela
avaliação, considerou o caso atípico e fez a apreciação do pedido
de retificação. A qualidade dos cursos da Faculdade Maurício de
Nassau havia sido reconhecida pelo próprio mec, que nos
concedeu o Triplo cmb, conceito que atribui excelência ao corpo
docente, infraestrutura e projeto pedagógico. Enquanto isso, o
resultado do enade havia sido consequência de um boicote dos
alunos ao exame, o que nos levou a intensificar perante nosso
corpo discente a importância de realizar a prova conscientemente.
Claro que as normas em relação ao enade de 2008 hoje são
diferentes e não se fala mais em boicote, mas este episódio poderia
ter destruído o meu sonho de expandir a faculdade e o sonho de
milhares de alunos que estavam tendo oportunidade de cursar um
ensino superior.
Bloco B - UNINASSAU - Recife - PE
Bloco E - UNINASSAU - Recife - PE
Bloco Capunga - UNINASSAU - Recife - PE
O empreendedor nunca para
Sem dúvida, posso dizer que o caminho dos estudos me levou ao
sucesso. No entanto, é preciso cultivar em cada um de nós a
vontade de fazer, de empreender. Essa vontade nasce conosco, faz
parte da vida e não podemos deixá-la sufocar.
No início desta biografia, comentei sobre o que era ser
empreendedor. Geralmente usamos a palavra empreendedor para
significar o fundador de um novo negócio, onde antes não havia
nenhum, dando o contexto, do inédito. Mas, empreendedorismo
não é só isso: é a força do fazer acontecer, em qualquer área, seja
ela inédita ou não. Pode ser uma simples padaria.
Quase todos querem ser empreendedores. Entretanto, o
sucesso do empreendedorismo depende da apresentação por parte
do empreendedor de determinadas características, requisitos,
condições, habilidades e competências para sonhar, criar, abrir e
gerir um negócio, criando resultados positivos e não
desperdiçando oportunidades.
Segundo Raymond Kao, empreender “é fazer algo novo
(criativo) e/ou diferente (inovador) com o objetivo de criar riqueza
para o indivíduo e adicionar valor para a sociedade”. Eu,
particularmente, defino empreendedor como sendo aquele
indivíduo que transforma pensamentos em ação e sonhos em
realidades.
Muitos alegam que o sucesso do empreendedor depende da
sorte. Costumo dizer que sorte em empreendedorismo é a
conjugação de conhecimento, habilidades, competência,
oportunidade e iluminação divina. Certa vez perguntaram para
Oscar Schmidt, ex-jogador de basquete, porque ele acertava tantas
cestas. Ele respondeu que era sorte e explicou que depois de todo o
treinamento com o time inteiro, ele ficava, todos os dias, pelo
menosmais quatro horas treinando arremessos. Chamou este
momento solitário de sorte. Além disso, ninguém chega onde quer
chegar por um golpe de sorte. A diferença está na atitude e
determinação.
O empreendedor é aquele que transforma a situação mais trivial
em uma oportunidade excepcional. Que além de sonhador é
visionário, inovador e estrategista. Que vive no futuro, nunca no
passado e usa o presente como ferramenta para o amanhã.
Concordo com Fernando Dolabela quando afirma que o
empreendedorismo é um fenômeno cultural, já que o pressuposto
básico é que todos nós tenhamos um potencial empreendedor, que
é ou não desenvolvido pelo fenômeno cultural. Se a pessoa tem
uma família empreendedora, provavelmente ela tenderá a ser
empreendedora. Se a família não é empreendedora, a tendência é
que ela procure um emprego formal e estável, como um concurso
público, por exemplo. Como disse antes, papai, apesar de não ser
um homem letrado, sempre tentou criar seu próprio negócio, pois
tinha o tino empreendedor. Entretanto, como não possuía as
verdadeiras características do empreendedor os negócios não
deram certo. Mas eu cresci vendo-o fazer várias tentativas,
principalmente lanchonetes e bares.
A principal característica do empreendedor é o sonho. Todas as
conquistas da humanidade foram precedidas pelo estágio do sonho
ou pela ambição na mente de algum visionário. Por outro lado,
dizia Abílio Diniz que “enquanto alguns sonham com o sucesso,
nós acordamos cedo para fazê-lo”.
É importante registrar que o empreendedor sonha e luta para
transformar os sonhos em realidade. Imagina ou concebe ideias ou
visões e procura desenvolvê-las, projetando-as no futuro e
tornando-as realidade. Em resumo, ele primeiro constrói um
sonho e depois organiza todas as suas forças para concretizá-lo. A
realização ou concretização de um sonho é, para muitos
empreendedores, uma motivação muito maior do que a esperança
de recompensa financeira. O empreendedor é ousado e propenso a
correr riscos. Sonhar é pensar grande; escrever e reescrever seus
sonhos em guardanapos de papel e blocos ao lado da cama. O não
empreendedor sonha e continua sonhando, e sonhando… Tem
medo de testar seu sonho na realidade dura e concreta do mundo.
Aqueles que têm apenas ideias mirabolantes, ainda que bonitas e
maravilhosas, mas não lutam para que se tornem realidade, pois
têm medo, não são empreendedores. Sonham, mas não agem.
Parece até que sonhar é uma fuga.
Além do Grupo Ser Educacional, passei a ser investidor em
vários segmentos. Em todos eles observando as oportunidades de
mercado. Para gerir esses investimentos criei a JJ Participações,
uma holding imobiliária proprietária da maioria dos imóveis que o
Grupo Ser Educacional utiliza e que concentra a atuação nas
regiões Norte e Nordeste, com expectativa de expansão para todo o
país.
Além da uninassau, das Faculdades Maurício de Nassau, das
Faculdades Joaquim Nabuco e do bj Colégio e Curso, mantenho
investimentos em várias outras empresas como o LeiaJa.com, um
portal de comunicação com mais de 25 milhões de pageviews
mensais; o Bureau Jurídico — Cursos para Concursos, um portal de
cursos para concursos online; o Bureau de Cursos, um portal de
cursos online com mais de quatro mil ofertas de videoaulas; a ibs,
holding de empresas de tecnologia; a Cenário Inteligência, empresa
de ideias e estratégias políticas e de mercado, etc.
E antes que perguntem por que mesmo estando à frente de um
grupo de educação eu mantenho outros investimentos, a resposta
é simples: o investimento é tão importante quanto uma poupança.
Entretanto, investimentos necessitam de mais cuidado para serem
realizados, pois todo o esforço de cortar gastos pode ser
desperdiçado se o dinheiro for mal investido.
É comum o investidor prestar mais atenção à promessa de
rentabilidade do que às chances de perda do que foi aplicado. Mas
acredite: não há investimento sem risco! Se você investe em
empreendimentos, você corre o risco daquela empresa não dar
certo. Por isso, o primeiro passo para ser um bom investidor é
antes de tudo ser um bom poupador.
Não há uma regra especifica para decidir onde e quando
investir. É uma questão de estar atento ao mercado e às demandas.
Muitos investidores baseiam-se em análise técnica e
fundamentalista para decidir onde alocar seu dinheiro. Quem quer
bons rendimentos em um curto espaço de tempo precisa utilizar a
análise técnica, que indica os bons pontos de entrada e saída do
papel. A análise fundamentalista também indica quais empresas
são boas, mas por estudar a empresa, ela aponta companhias que
renderão bons dividendos no futuro.
Vejam o exemplo da Cenário Inteligência, que é uma empresa
especializada em pesquisas de mercado e estratégias políticas e
mercadológicas. Para investir em um empreendimento como este é
preciso, em primeiro lugar, analisar os profissionais envolvidos. Se
há equipe qualificada para executar os trabalhos, o sucesso é uma
questão de tempo. Em 2012, a Cenário foi responsável por
pesquisas de opinião e estratégias políticas para candidatos em
várias cidades de Pernambuco nas eleições daquele ano e, acertou
grande parte dos resultados.
Para ser um bom investidor é preciso avaliar. Acredito que
ainda não seja um grande investidor, mas tenho aprendido todos
os dias com os erros e acertos. Assim como no Grupo Ser
Educacional, continuarei avaliando possíveis áreas de
investimentos.
“Sou um jovem universitário e sonhador. Tenho 23 anos e estou terminando o
curso de Engenharia de Gestão na Universidade Federal do ABC (ufabc), em Santo
André/SP. Em 2012, ingressei como estagiário em uma multinacional no setor de
matriz energética, a Asea Brown Boveri. Após um ano na empresa, fui efetivado,
mesmo antes de concluir a graduação.
Estava criando as condições necessárias para prosperar na minha carreira como
engenheiro, porém frequentemente questionava-me em relação ao dia a dia. O que
eu estava vivendo era o meu verdadeiro sonho? O cargo mais alto que eu atingiria
dentro de alguns anos me deixaria plenamente satisfeito com a minha trajetória?
Quando li pela primeira vez a história de persistência de Janguiê Diniz, fiquei
fascinado ao perceber que um sonho era possível. Entendi que por meio de novas
decisões era possível mudar a minha trajetória. Passei a ler cada vez mais sobre a
história do Janguiê, incluindo os textos do seu blog.
Conhecer a história dele abriu a minha mente para um mundo completamente
diferente. Um mundo onde cada um é responsável pelo seu próprio destino. Mundo
de infinitas possibilidades para os que lutam de verdade pelos seus sonhos, mesmo
que para isso seja necessário renunciar a alguns padrões impostos pela sociedade
como, por exemplo, deixar de ser empregado para empreender no seu próprio
negócio.
Procurando então solucionar minhas indagações diárias, em busca de algo que
tivesse maior relação com o meu perfil, e que me fizesse feliz todos os dias, resgatei
uma antiga paixão, adquirida durante o ensino fundamental e médio: dar aulas
particulares de reforço para os meus amigos. A satisfação de fazer o que se gosta
somada à competência fez com que a procura pelas aulas aumentasse.
Com o objetivo de atender à demanda cada vez maior, eu e alguns amigos
alugamos um prédio em frente à ufabc e passamos a lecionar reforço acadêmico para
alunos do ensino fundamental, médio e universitário. Assim surgiu a Noctuam
Ensino! Pouco tempo depois, pedi demissão para me dedicar integralmente, junto ao
meu sócio, ao nosso empreendimento, que completará um ano no fim de 2014. A
escola já conta com um plano de expansão para suprir, ainda nesse ano, a demanda
de todo ABC e de Higienópolis, um dos bairros mais tradicionais da cidade de São
Paulo.
Gostaria que soubessem que, aqui em São Paulo, tem um jovem que mudou
completamente o rumo da sua carreira, após conhecer o exemplo de talento e
obstinação de Janguiê.
Agradeço-lhe por servir de inspiração a mim, bem como a outros tantos jovens
sonhadores.”
Luis G. Mendes,
Jovem Sonhador e Sócio Diretor da Noctuam Ensino
Em buscade um sonho
O ano era 2002 e meu projeto com a Universo em Recife não havia
dado certo. No entanto, o sonho de ter a minha escola de ensino
superior continuava. Eu conhecia todos os procedimentos para
pedir autorização no Ministério da Educação para abrir uma
instituição. Então, resolvi contratar pessoas especializadas para me
ajudar nesse percurso.
Naquela época, eu já havia trazido meus irmãos para morarem e
estudarem no Recife. Todos se formaram em áreas que eram de seu
interesse e acabariam por me ajudar a expandir o Bureau Jurídico e,
também, na criação da Faculdade Maurício de Nassau, no Recife.
Quando perguntadas quanto à ideia de montar uma faculdade,
muitas pessoas são levadas ou quase forçadas a acreditar que é
preciso ter rios de dinheiro. Essa ideia não deixa de ser verdade, já
que o investimento é de fato expressivo. Mas talvez o mais
importante seja ter um plano real e concreto e saber negociar.
Além deste, inúmeros fatores são importantíssimos, tornando a
tarefa de criar uma instituição de ensino um trabalho de extrema
complexidade.
Eu investia tudo o que ganhava em meus empreendimentos e já
havia decidido a nunca mais fazer sociedade. No entanto, não
conseguiria fazer sozinho todos os processos que envolvem a
abertura de uma instituição de ensino. Assim, contratei bons
profissionais que me ajudariam nos vários requisitos importantes
para alcançar meu objetivo.
Antes de tudo, eu precisava ter em mente que montaria uma
nova empresa. Desta forma, a mesma deveria ser registrada e eu
precisaria escolher a razão social, o nome fantasia da minha
faculdade, a marca… Eu ainda não sabia que nome escolher, mas
sabia que não queria que a minha faculdade fosse chamada por
uma sigla. Eu precisava escolher um nome que fosse forte, tivesse
simpatia do público e homenageasse alguém ou alguma coisa
importante para Pernambuco. Então, fui para às ruas do Recife
realizar pesquisas.
Ao mesmo tempo, contratei o Instituto Latino Americano de
Planejamento Educacional (ilape), para me auxiliar na elaboração
do projeto pedagógico institucional e dos cursos para os quais
pediríamos autorização para funcionamento, além de prestar
consultoria sobre os tramites iniciais da faculdade que, até então,
não tinha nome definido.
Nas ruas, ouvimos centenas de pessoas para descobrir qual seria
ideal para uma faculdade e as sugestões foram surgindo: Faculdade
do Recife, Faculdade Gilberto Freire, Frei Caneca, Faculdade das
Américas, UniAmérica… Em um primeiro momento até cogitei em
registrar “Faculdade do Recife”, mas se eu decidisse levar a
instituição para outros locais, não poderia abrir uma Faculdade do
Recife na cidade de Olinda, por exemplo. Depois de várias
entrevistas, o nome mais aceito era o de Maurício de Nassau, que
tinha sido um grande personagem na história de Pernambuco.
Definido o nome, eu precisava de uma marca. Como minha
ideia inicial era abrir uma faculdade de Direito, eu queria que a
marca tivesse tanta força quanto o nome, então, nada mais justo
do que um brasão. Fui em busca do da família Nassau, na Holanda,
mas a imagem original não me agradou. Não sou um entendido em
marcas, mas via naquele brasão uma imagem pesada, formal
demais para a proposta que eu tinha para a Faculdade Maurício de
Nassau.
Decidi então contratar uma agência de publicidade para
estilizar o brasão original. A missão ficou com a Agência Um
Comunicação, sob os cuidados de Eduardo Nunes, um publicitário
de muito talento que hoje faz carreira na Inglaterra, e que
entendeu minha ideia e soube colocar todos os elementos na
marca da Maurício de Nassau.
As mudanças para chegarmos à marca começaram com a
inclusão da palavra Facvldade (sim, com “V”) e Veritas, tradicional
nas instituições de direito. A palavra Veritas, que vem do latim e
significa “verdade”, é inspirada numa expressão bíblica que diz “e
conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”. Verdade aí tem o
sentido de conhecimento adquirido. A minha ideia era que a
Maurício se tornasse uma grande e tradicional faculdade de direito,
com oportunidade para que os alunos mudassem de vida através
do conhecimento. A partir daí, fizemos um estudo da heráldica ou
parassematografia, para adicionar ao brasão os elementos corretos
e que, de fato, representassem o que eu queria propor com a
Faculdade Maurício de Nassau. Incluímos a coroa mural, o sol, e
definimos as cores e o grifo. Cada um deles com seu significado e
que, juntos, caracterizavam o que eu sonhava para a Faculdade e
para os alunos que viessem a fazer parte dela.
Gostaria de abrir um parêntese técnico para que vocês
compreendam o significado de cada um dos elementos que
compõem a marca da Maurício de Nassau, pois me orgulho muito
de ter participado diretamente da elaboração dela, ajustando e
apontando cada um dos elementos e detalhes que a formam.
A coroa mural é o símbolo universal dos brasões de domínio e
pode constituir uma peça móvel do brasão, mas sua função
essencial na heráldica é indicar uma propriedade, um fortificado.
O número de torres indica a grandeza do domínio, do campo
conquistado. Com quatro torres visíveis que figuram como ornato
exterior do escudo, essa coroa se classifica como sede de
município.
O sol é um símbolo próprio dos soberanos e reis. Significa
eternidade, vitória e as virtudes da magnanimidade, da ousadia e
da magnificência. Faculdades são berços de sabedoria desde
sempre. Contudo, a era da informação tratou de exigir mais
predicados destas instituições.
O brasão demonstra o respeito daqueles que fazem parte da
Faculdade Maurício de Nassau, indicando que através do
conhecimento, as pessoas serão líderes, vitoriosas, fortes, justas e
dominarão as áreas em que atuarem. As instituições de hoje não
podem ser estáticas, tampouco se mostrarem ultrapassadas, senão
estarão fadadas ao insucesso.
Em linhas traçadas na vertical, deixando o escudo partido em
duas metades, as cores apresentadas no brasão são azul e
vermelho. O azul do campo do escudo é o símbolo heráldico da
justiça, nobreza, perseverança e lealdade, predicados de um povo
em prol de sua cidade ou domínio. O detentor de um brasão com
essa cor tem como “obrigação” promover a agricultura e socorrer
os desempregados demitidos injustamente por seus patrões. Já o
vermelho, por sua vez, é representante da nobre condição social e
das virtudes militares dos antepassados, simbolizando o ânimo
intrépido, valoroso, grandioso e forte dos guerreiros. Quem
carrega o vermelho no seu brasão é um homem de decisão e tem a
tarefa de socorrer os oprimidos.
O grifo, sem sombra de dúvida, é o elemento mais chamativo
da composição. Pertencente ao mundo fantástico, o grifo é um
animal que possui a parte superior de águia e o corpo de leão. Essa
figura composta por um mamífero e uma ave é uma busca pela
diferenciação do leão, uma tentativa de sair do comum, pois o leão
é uma das figuras mais empregadas na Heráldica, sendo
encontrado nos brasões de inúmeras famílias e nas armas de
diversos países. A presença do grifo no brasão representa força,
grandeza, coragem, nobreza de condição. Também caracteriza
domínio e proteção, condições que um superior deve ter sobre
aqueles que domina.
“Foi um desafio muito interessante e estimulante trabalhar com Janguiê e Jânyo.
Eles já tinham definido o nome da Faculdade Mauricio de Nassau, e discutimos como
seria a logomarca da instituição. Tinha que passar credibilidade e solidez em ensino,
mesmo sendo uma nova instituição, e a atuação de Janguiê como educador — ele era
professor titular da ufpe, dono do Bureau Jurídico, reitor da Universo, etc. — passava
essa credibilidade. Precisávamos traduzir esses atributos na marca.
Surgiu a ideia do brasão, e o slogan “Fazendo parte da sua história”, que
considero uma solução bastante feliz. O brasão passa solidez e credibilidade como
queríamos, e o slogan a proximidade necessária da instituição com o aluno.”
Luiz Augusto, Sócio Diretor da Agência Um
Assim, tínhamos a marca da Faculdade Maurício de Nassau
definida e anexada ao processo de pedido de credenciamentofeito
ao mec, ainda em 2002.
Enquanto isso, o ilape elaborava os projetos para os cursos
iniciais da Faculdade, que também seriam encaminhados para
autorização do mec. O projeto pedagógico institucional é
obrigatório para a solicitação de credenciamento de qualquer
instituição de ensino junto ao ministério e representa a linha
pedagógica norteia que a instituição para gerenciamento dos
cursos de graduação, pós-graduação e extensão.
Um dos pontos fundamentais do projeto é levantar e apresentar
os mecanismos de inserção regional, demonstrando um estudo
sobre as demandas da região e a justificativa dos cursos oferecidos
pela instituição. Há também que demonstrar sua preocupação com
o mercado de trabalho da região e também um estudo sobre os
egressos da instituição.
Como tinha sido aluno, era professor e empreendedor, eu
conhecia as necessidades da cidade. Sabia que não adiantaria
exaltar apenas que queria abrir uma faculdade para dar mais
oportunidade de ingresso no ensino superior aos estudantes. Ao
contrário. Eu queria que os estudantes saíssem da faculdade
realmente preparados para o mercado de trabalho, por isso, em
cada curso decidi por explorar o máximo da prática profissional
aliada à base teórica. Este seria um dos diferenciais da Faculdade
Maurício de Nassau.
Assim, decidi que a missão da Faculdade Maurício de Nassau
seria ser uma instituição educacional formadora de cidadãos
competentes, qualificados e preparados para o mercado de trabalho,
imbuídos de responsabilidade social e compromissados com a
preservação da cultura nacional e com o desenvolvimento sociocultural
do Brasil.
Junto com o ilape e outros consultores, elaboramos o projeto
pedagógico de vinte cursos. No entanto, inicialmente pedimos
autorização para oferecer apenas seis deles: Administração, com
habilitações Geral, Gestão Hospitalar; Gestão de Sistemas de
Informação; Comunicação Social, com habilitações em Jornalismo
e Publicidade e Propaganda; Turismo; e Direito.
Mas eu ainda tinha outro problema. Onde instalar a estrutura
física da instituição? Eu ainda comandava o Bureau Jurídico, que
continuava crescendo e já tinha adquirido uma casa na Rua José
Osório, onde o cursinho estava instalado. Mantenho este imóvel
até hoje, por motivos sentimentais, afinal, ele foi o primeiro
imóvel que adquiri para meus empreendimentos. Para dar entrada
no credenciamento da Faculdade Maurício de Nassau, eu precisava
ter um lugar para instalar a faculdade. Então, comecei a procurar.
Eu já entendia sobre negócios e sabia que qualidade de ensino
era um quesito obrigatório para todas as instituições. Então, não
poderia investir apenas em um corpo docente qualificado.
Precisava ter um diferencial que atraísse os alunos e esse
diferencial seria a localização. A Faculdade Maurício de Nassau
precisava se instalar em um bairro que fosse de fácil acesso para
qualquer pessoa, independente de onde ela viesse.
Em Recife, os principais corredores de trânsito são a Avenida
Guararapes, no centro da cidade, e a Avenida Agamenon
Magalhães, no Derby. A primeira recebe a grande maioria de linhas
de ônibus e a segunda é por onde passam a maior parte das linhas
que vem das cidades vizinhas, além de ser um importante corredor
de carros.
Entre idas e vindas para o Bureau Jurídico, passei várias vezes
em frente a um terreno onde ficava uma torre de telefonia, da
antiga Telpe Celular. Um dia, pulei o muro do terreno, cheio de
mato, e sentei em uma das calçadas. O espaço era enorme, tinha
início na Rua Guilherme Pinto e ia até a Avenida Beira Rio. Olhava
ao redor e pensava: esse lugar seria perfeito para montar a minha
faculdade.
Pouco tempo depois, descobri que o terreno havia sido
colocado à venda. Os proprietários eram da Fundação Sistel de
Seguridade Social, com sede em Brasília. Sem saber quanto custava
e a forma de pagamento, não pensei duas vezes. Peguei um avião e
fui até Brasília negociar. Fui recebido pelo então presidente do
órgão e durante horas de conversa expliquei minhas motivações e
planos para o terreno.
O valor de venda era pouco mais de 1,5 milhão de reais; e,
claro, eu não tinha esse valor. Depois de horas de negociação,
acredito que consegui ganhar a confiança do presidente da Sistel e
fechamos um compromisso de compra e venda do terreno com o
pagamento de uma entrada no valor de 155.000 reais e quitação do
restante do valor em 18 parcelas. O valor inicial foi pago em 12 de
setembro de 2002 e a última parcela foi quitada em 25 de março de
2004.
Voltei para Recife e agora tinha o lugar para colocar a faculdade
de pé. Com endereço e projetos pedagógicos prontos, dei entrada
no credenciamento da faculdade e autorização dos cursos. Logo
depois, comecei a reformar o terreno e construir as salas de aula.
Seria ali, na Rua Guilherme Pinto, nº 114, no Bairro das Graças,
Recife, Pernambuco, que funcionaria o primeiro bloco da
Faculdade Maurício de Nassau.
A reforma inicial visava à revitalização de um casarão, que já
estava construído no terreno e serviria como parte administrativa
da instituição. As obras incluíram a colocação de uma passarela e a
construção do primeiro andar para acomodação das salas de aula.
O espaço abrigaria também biblioteca, lanchonete, etc. Hoje, esse
espaço é o Bloco A da uninassau e tem, além das salas, um ginásio
de esportes.
Infelizmente, até hoje, quando pedimos autorização para
fornecimento de curso ou credenciamento de uma instituição, não
há um prazo fixo para liberação. A publicação das portarias
depende da visita dos consultores e da avaliação que acontece após
eles conhecerem toda a estrutura e projeto da instituição. Mesmo
depois disso, as portarias podem ser publicadas rapidamente ou
demorar um pouco mais.
Eu havia dado entrada em todo o processo de autorização, tanto
para a faculdade quanto para os cursos. Só me restava preparar
toda a infraestrutura de salas, bibliotecas, laboratório de
informática e todos os requisitos para quando houvesse a visita dos
consultores do mec, que fariam a avaliação e dariam uma nota, de 1
a 5 (sendo 1 e 2 considerado insuficiente e 5 a nota máxima), para o
projeto.
No entanto, eu sabia que o setor educacional estava em
expansão e a política do então presidente Fernando Henrique
Cardoso estava permitindo que o número de instituições
particulares crescesse. Baseado na conjuntura do período e no
trabalho que tínhamos realizado, eu acreditava que não demoraria
a conseguir as legalizações necessárias.
A Faculdade Maurício de Nassau recebeu uma avaliação de nota
4 e foi credenciada em 14 de maio de 2003, através da portaria nº
1.109, publicada no Diário Oficial do dia 15 de março de 2003. No
mesmo dia, foram autorizados os cursos de Administração, Gestão
Hospitalar e Gestão de Sistemas de Informação, através da portaria
nº 1.110, Comunicação Social, com habilitações em Jornalismo e
Publicidade e Propaganda, mediante a portaria nº 1.111 e Turismo,
através da portaria nº 1.112. O curso de Direito seria autorizado
pouco tempo depois, em 18 de agosto de 2003, com publicação no
Diário Oficial do dia seguinte, pela portaria nº 2.241.
Era a concretização do meu sonho de ter uma instituição de
ensino superior. Agora, a campanha de publicidade precisa sair
para a rua.
“Quando eu conheci o Janguiê, a primeira impressão que tive foi realmente a de
um grande empreendedor. Primeiro pela história dele, mas não só isso. Eu vi que ele
tinha uma liderança forte na comunidade e tinha um perfil adequado para começar
um projeto do porte que sonhava. Por outro lado, ele era bem diferenciado dos
mantenedores de então, que geralmente tinham saído da educação básica, do
comércio ou da indústria, e não tinham uma formação acadêmica. O Janguiê era
diferente nesse sentido, ele já entrava com uma faculdade para o credenciamento
com o cabedal acadêmico bem denso, com potencial inclusive para ser reitor e na
realidade poucos tinham isso na época. A impressão que eu tive dele, era de que seria
um grande empreendedor na área da educação superior no Nordeste. Mas, preciso
rever isso porque eletem o perfil de um grande empreendedor na área de
educacional no Brasil. Sem falar em um cara muito educado, que tinha e tem
sensibilidade para conversar, negociar e avaliar projetos.”
Celso Frauches, Fundador do ilape
Campanha na rua
A portaria de credenciamento da Faculdade Maurício de Nassau foi
publicada em maio de 2003, o que significava que poderíamos
começar a funcionar no segundo semestre, em agosto. Mas para
isso acontecer, precisaríamos correr com a campanha de
publicidade para a realização de vestibular e divulgação dos
resultados dos alunos aprovados.
Eu havia feito uma licitação com várias agências de publicidade
para a criação da marca da Maurício de Nassau e a mesma agência
que me ajudou nessa tarefa foi a responsável por elaborar a
primeira campanha publicitária da faculdade.
Porém, como atrair alunos para uma instituição nova? A
primeira campanha da Nassau teve algumas facilidades: o nome e a
marca foram muito bem aceitos pela população. Além disso, como
meu objetivo era uma faculdade de excelência no curso de Direito,
vinculei todas as peças à área jurídica. Eu havia tido uma carreira
de juiz e era procurador, também atuava como professor na
Universidade Federal de Pernambuco e em cursinhos, realizava
muitos congressos jurídicos e tinha vindo de uma outra
instituição. Meu nome era bastante conhecido na área, então, além
de apresentar a faculdade, estrutura, qualidade do corpo docente,
pedi que fosse utilizado o meu nome e o do Bureau Jurídico, que
em 2003 continuava fazendo sucesso em várias cidades.
Acredito que as pessoas buscavam em uma faculdade muito
além da teoria e eu era conhecido por ser um professor
extremamente didático, esse era o segredo do sucesso do Bureau.
Este perfil foi de certa forma herdado pela Maurício de Nassau.
O slogan da primeira campanha, que é o slogan que faz parte da
própria marca, é mantido até hoje. “Fazendo parte da sua história”
não era apenas uma frase de impacto, era a proposta da Faculdade
Maurício de Nassau para cada um de seus alunos. Queríamos
marcar, ser lembrados por proporcionar não apenas a
oportunidade de estudo, mas por ter feito a diferença na vida
daqueles estudantes.
Veiculamos intensamente a campanha em rádio, TV, mídia
impressa, internet, panfletagem na rua e mediante todas as formas
pelas quais pudéssemos chamar atenção. A resposta foi bastante
positiva. Após o primeiro vestibular, matriculamos cerca de 500
alunos e depois, com a entrada do curso de Direito, chegamos a
pouco mais de 600. Para o primeiro semestre de funcionamento,
esse número era excelente.
Há algum tempo, li um artigo na revista Fortune em que
pesquisadores ingleses revelam as virtudes que caracterizam as
pessoas excepcionais: determinação e foco. Ele era intitulado
“What it takes to be great” e defendia que o verdadeiro talento
está na capacidade de trabalhar duro na busca de um objetivo
preciso. Não me considero uma pessoa excepcional, mas os
ingleses estavam certos ao dizer que o talento é resultado de
trabalho duro. Eu estava realizando o meu sonho pondo em prática
essa máxima.
“Após participar da elaboração da marca da Faculdade Maurício de Nassau,
preparamos a campanha, que foi um sucesso, já que o nome de Janguiê já era forte na
educação pernambucana devido ao Bureau Jurídico. Ele sempre acreditou muito no
investimento em comunicação e, desde o início, apostou fortemente na mídia.”
Luiz Augusto, sócio-diretor da Agência Um
A hora de expandir
Talvez um dos sonhos mais comuns entre as pessoas seja o de ter o
seu próprio negócio. Para muitos, essa vontade se manifesta com
ainda mais força em momentos de desemprego ou quando já não
há mais satisfação em trabalhar para um patrão.
O problema é que a maioria das pessoas tem medo de arriscar
abrir seu próprio empreendimento e acaba desistindo antes
mesmo de tentar. O medo muitas vezes vem da inexperiência no
mercado e do receio de perder o investimento feito em um
eventual fiasco. Entretanto, o que se deve ter em mente é que o
retorno nem sempre é na velocidade que esperamos.
Ainda assim, não são poucos os que se arriscam no
empreendedorismo. Aqueles que têm perseverança, acreditam no
seu potencial, fazem um planejamento de seu negócio, conhecem
bem o seu público-alvo e área de atuação, conseguem se destacar
diante daqueles que apenas montam algo à espera de retorno
imediato.
O segredo do sucesso é simples. É preciso planejar, ter os pés no
chão e vencer a insegurança, subindo um degrau de cada vez,
aumentando assim suas chances de alcançar o tão desejado
sucesso.
Foi baseado nesses princípios que construí o Grupo Ser
Educacional. Quando chegou o momento de pensar na expansão
do grupo, depois de anos planejando e calculando cada detalhe do
negócio que mudaria minha vida, não poderia agir de modo
diferente.
Quando abri a Faculdade Maurício de Nassau, no Recife, eu já
sonhava com um grupo educacional, e aquele sonho significava
que, em algum momento, os negócios teriam de se expandir para
outros estados e cidades. Isso começou a se tornar uma realidade
em meados de 2006, quando a Nassau já estava firmada e o número
de cursos e alunos só crescia. Decidi implantar uma unidade da
faculdade em João Pessoa e comecei a pesquisar possibilidades de
aquisição ou de credenciamento para um novo campus, levando a
marca da Maurício de Nassau até lá.
Antes que pudesse continuar meus planos na capital paraibana,
surgiu a oportunidade de adquirir a mantença de uma instituição
em Campina Grande: o Instituto Campinense de Ensino Superior
(ices).
Campina Grande é uma cidade no interior da Paraíba e se
mostrava com grande potencial de crescimento. O ices era uma das
instituições com maior credibilidade da cidade, oferecia quatro
cursos de graduação — Administração, Biomedicina, Enfermagem
e Nutrição — e tinha cerca de 400 alunos. A estrutura física do
instituto não deixava nada a desejar para os padrões da Faculdade
Maurício de Nassau — eram dezoito salas climatizadas e em
formato de anfiteatro, biblioteca com mais de seis mil livros e
periódicos, laboratórios de informática com quarenta máquinas
conectadas à internet, além de área administrativa e praça de
alimentação.
Decidi negociar, era uma oportunidade única para começar o
projeto de expansão do grupo. Meu irmão Jânyo, junto com a nossa
equipe, visitou por várias vezes a instituição e, em 5 de abril de
2007, acertamos todos os detalhes e adquirimos o ices.
Entretanto, antes mesmo de concluirmos a aquisição do ices
outra oportunidade de aquisição surgiu, desta vez em João Pessoa,
capital da Paraíba. A cidade que era a minha primeira opção para
expandir a Faculdade Maurício de Nassau.
Em João Pessoa a proposta era para a aquisição da Faculdade
Metropolitana da Paraíba (famep), mantida pelo Centro Nacional
de Ensino Superior (Cenesup). Era uma negociação diferente da
que ocorreu em Campina Grande. No caso de João Pessoa, ainda
não havia uma unidade em funcionamento, mas já existia um
credenciamento para a faculdade e para oferecer o curso de
Direito, que era o principal objetivo das minhas instituições. Além
do Direito a famep também tinha credenciamento para oferecer o
curso de Administração.
Adquirimos a mantenedora e o primeiro vestibular da
instituição já utilizando o nome da Faculdade Maurício de Nassau
aconteceu em 2006. Para comportar a estrutura da faculdade,
alugamos o turno da noite do Colégio Visão, na Avenida
Governador Argemiro de Figueiredo.
Em 2010, a unidade de João Pessoa foi transferida para um
prédio próprio, localizado na Avenida Epitácio Pessoa, uma das
principais vias da cidade. O prédio conta com onze andares, mais
de 30 mil metros de área construída e oferece mais de vinte cursos
de graduação e tecnólogos de curta duração. No prédio, os mais de
7 mil alunos da instituição têm acesso a mais de cem salas de aulas,
além de um auditório com 400 lugares, áreas cultural e esportiva, e
diversos laboratórios e núcleos práticos.
Já o Colégio Visão tornou-se o campus Almirante Barroso, e o
prédio, que possui 24 salas de aula, abrigaos cursos de pós-
graduação da Maurício de Nassau em João Pessoa. Na mesma
unidade, funcionam diariamente cursos técnicos nas áreas de:
Administração, Comércio, Contabilidade, Informática, RH,
Transações Imobiliária, Segurança no Trabalho e Logística.
Em 2007, lançamos uma nova marca, a Faculdade Joaquim
Nabuco, a respeito da qual discorreremos em um capítulo à parte.
Nesse mesmo ano, com o pensamento bem mais maduro sobre o
negócio e as expansões, decidi buscar aporte de capital para
financiar o crescimento do grupo.
Foi então que conheci o Cartesian Capital Group LLC, através de
um dos diretores da empresa, o Francisco Barreto. O Cartesian
Capital Group é um fundo de private equity americano com
experiência comprovada em ajudar empresas com fins lucrativos a
se expandir internacionalmente. Em 2008, o Cartesian entrou no
grupo com a compra de 11% do Ser Educacional, aportando 48
milhões de reais. A entrada desse recurso nos deu fôlego para
continuar o processo de expansão e, ainda em 2008, adquirimos,
simultaneamente, as unidades de Natal e Maceió.
Em Natal, depois de seis meses estudando o negócio, realizando
auditorias, concluímos a aquisição da Faculdade Casa do Fera (cdf).
A instituição contava com 600 alunos em quatro cursos, e os
nossos planos eram de aumentar a oferta e, em cinco anos, elevar o
número de alunos para 5 mil.
Tínhamos planos de começar do zero, mas tal estratégia
demandaria muito mais tempo. Então, resolvemos partir para uma
aquisição como forma de entrar mais rápido no mercado natalense.
Compramos 100% da faculdade, na época com recursos próprios.
Junto com o aporte financeiro do Cartesian Group, vieram
também os trabalhos para transformar o Grupo Ser em um grande
grupo de educação. O primeiro passo era implantar uma
governança corporativa. Esse processo já tinha sido iniciado
anteriormente, antes da entrada do Cartesian, com a contratação
da Mesa Corporate, do grande, competente e inestimável amigo,
Herbert Steinberg — uma consultoria especializada em governança
corporativa e familiar —, e que foi responsável por criar as bases e
os fundamentos de nossa governança coorporativa.
Durante o processo de expansão, a contratação da Mesa e a
entrada do Cartesian Group foram, sem dúvida, um divisor de
águas. Mesa e Cartesian, juntos ao Grupo Ser, foram responsáveis
por abrir o nosso apetite pelo mercado de capitais e pelo modelo de
crescimento que almejávamos. Do ponto de vista financeiro, foi o
próprio Francisco Barreto, do Cartesian — que depois de algum
tempo se tornou um grande amigo da minha família —, que trouxe
as técnicas e os conhecimentos financeiros para o cotidiano do
Grupo.
“Desde o começo me chamou muito a atenção a determinação do Janguiê e
também o convencimento que ele tinha sobre o futuro do grupo. Por mais que ele
não tivesse um conhecimento muito aprofundado do setor financeiro, ele entendeu
rapidamente o valor que um sócio financeiro poderia trazer para o Ser Educacional.
Apesar do grande sucesso do grupo e das realizações no plano pessoal do
Janguiê, ele não perdeu sua essência como pessoa e sua sensibilidade.
Ele ainda se preocupa muito com sua comunidade, com os problemas do dia a
dia, como por exemplo a pobreza, a falta de infraestrutura, a insegurança, etc., e
sempre está disposto a ajudar o seu entorno.”
Francisco Barreto, Managing Director da Cartesian Capital Group LLC
Foram criados processos e plataformas em que debatíamos
sempre todas as ideias, melhorando assim a qualidade da decisão
de rumos do grupo. Na sequência, foi montado um conselho de
administração que, na sua primeira versão, contou com
conselheiros independentes como Fernando Tigre, Cássio Casseb,
o próprio Herbert Steinberg, da Mesa, ao lado de Francisco Barreto,
representando o Cartesian, e meu irmão, Jânyo Diniz, me
representando. Na segunda fase do conselho, Fernando Tigre e
Cássio Casseb não puderam permanecer e foram substituídos por
Jonaldo Diniz e Flávio Luz, permanecendo o Herbert e Francisco.
Hoje, o conselho de administração do grupo é formado por mim,
como presidente, por Jânyo Diniz, Francisco Barreto, Herbert
Steinberg e Flávio Luz.
“Quando conheci o Janguiê, encontrei um empresário com brilho no olho, com
espírito empreendedor aguçado, com bons resultados e bastante ambição. A
princípio fui reticente quanto aos números e indicadores que me eram apresentados.
Ao longo do tempo, aprendi sobre o negócio, sobre ele, sua gestão, sua família e
descobri uma pessoa que escuta, que aprende e que faz acontecer. Deu no que deu…
o Janguiê e suas instituições são um sucesso.
Pessoalmente, Janguiê é uma pessoa de valores, trabalhadora (muito), visionário
e que respeita seus sócios, seus colaboradores, sua família e seus amigos.”
Herbert Steinberg Fundador e Presidente da Mesa Corporate
Além do conselho de administração, cujo objetivo foi
profissionalizar a empresa, implementamos também sistemas
modernos de gestão, além de práticas contábeis internacionais,
auditorias anuais por uma das big four e controles internos de
padrão internacional. Também implantamos um plano de
remuneração variável baseado na meritocracia.
Nossos planos de expansão não pararam por aí. Em 2008, surgiu
a oportunidade de realizar a aquisição de uma tradicional
instituição com unidades em Salvador e em Lauro de Freitas, na
Bahia, a Faculdade Baiana de Ciências (fabac). A fabac era uma
instituição bem familiar, onde tudo era tratado com o dono, os
alunos negociavam direto com ele, informalmente. Esse foi nosso
primeiro desafio pós-aquisição: acabar com a informalidade que
existia.
Se me perguntarem o que é mais difícil: adquirir ou montar
uma instituição nova, a resposta, sem dúvida, é adquirir. Não pela
negociação até o fechamento de contrato, mas sim porque é muito
mais complicado mudar os hábitos já existentes. A aquisição de
uma instituição acaba trazendo consigo toda a política e costume
dos sócios anteriores e cabe aos novos mantenedores remodelar
toda a política da instituição para adequá-la ao que se deseja.
Todas as instituições adquiridas pelo Grupo Ser Educacional
passam por esse processo. Prezamos por uma única política, por
um sistema uniforme, em todas as unidades do grupo, e a
aquisição da fabac foi bem desafiadora em relação a isso.
Permitam-me explicar.
A fabac foi vendida porque não tinha mais como crescer e
também como se manter. Em meados de 2008, enquanto ainda
negociávamos, começaram a vazar para os funcionários os rumores
da negociação. Eles esperavam que a aquisição fosse feita pela
Estácio, na época muito mais conhecida. Além disso, os baianos
não sabiam da existência do Grupo Ser Educacional e das
Faculdades Maurício de Nassau.
Culturalmente, existe uma “disputa” entre Pernambuco e
Bahia. Sinceramente, não sei explicar os motivos. São dois estados
completamente diferentes, com culturas diferentes. O que
aconteceu é que, para alguns funcionários da fabac, era mais fácil
aceitar a compra da instituição por um grupo do Sudeste do que
por um grupo pernambucano.
Após a finalização da aquisição o primeiro passo seria
transformar a estrutura informal de gestão em uma estrutura
profissional, privilegiando aqueles que aceitassem a cultura do
grupo e que fossem capazes de disseminar essa cultura para os
outros — estes teriam oportunidades de crescimento no grupo. Nós
chegávamos para uma gestão de resultados.
A transição aconteceu de forma muito rápida e as mudanças
foram claras. A fabac tinha alguns problemas de infraestrutura e,
inicialmente, foi feita uma reforma, com a construção de novas
salas de aula e instalação de elevadores. Os alunos começaram a
observar que a Faculdade Maurício de Nassau chegava para
promover melhorias. A biblioteca, por exemplo, tinha déficit de
livros, e além de reformada, recebeu títulos novos. Assim, os
alunos percebiam que chegamos para agregar.
Cada aquisição tem sua história. Em Maceió, adquirimos a
Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação
(esamc), com cerca de mil alunos. Era realmente incrível como os
alunos tinhamorgulho de ser esamc, principalmente porque, na
época, havia pouquíssimos cursos na instituição. No entanto, o
nome esamc era muito forte. Quando fizemos a aquisição da
instituição, não havia organização acadêmica, existiam problemas
de documentação e déficit de investimentos. No entanto, e apesar
de todos os problemas, os alunos sentiram-se incomodados por
serem incorporados por uma instituição ainda nova no mercado e
ainda mais nova na cidade.
Posso afirmar que, no início, sofremos com a desconfiança do
mercado nos processos de aquisição porque ainda não éramos tão
consolidados como os outros grandes grupos, e Maceió foi uma
grande prova disso.
Cada vez mais organizados e trabalhando mais e mais, o nosso
corpo discente não parava de crescer. Ao mesmo tempo,
investíamos cada vez mais em nossas estruturas, no corpo
docente, em publicidade, ações sociais, etc. Eu tinha um objetivo:
estar entre os grandes e para isso eu precisava trabalhar com altos
padrões de qualidade e sempre fazendo igual às instituições de
ponta do país, ou ainda melhor.
O Nordeste é uma região carente, mas ao mesmo tempo, de
inúmeras oportunidades. Eu queria ser líder na minha região,
portanto, precisava ser ousado. Meu modelo de expansão era
norteado pela escolha dos melhores cursos, dos melhores pontos
— e isso incluía ainda ter o curso de Direito em todos eles —,
sempre mantendo o foco no crescimento e nos resultados. Os
resultados? Mantínhamos instituições enxutas nos custos, mas
responsáveis no trato com os acionistas e, especialmente, com os
alunos. Meu sonho começava a se realizar.
A maior prova de que nosso trabalho estava dando certo foi
quando, em 2009, a Faculdade Maurício de Nassau ganhou o
prêmio JC Recall de Marcas na categoria Educação, como a marca
de instituição superior particular mais lembrada, ultrapassando
instituições tradicionais. O feito iria se repetir ainda em 2010, 2011,
2012, 2013 e 2014.
Em 2010, adquirimos a faupe, em Recife, e esta foi uma
incorporação muito difícil. Todos a viam como uma instituição
extremamente organizada e os alunos acreditavam que o fato de
ser uma instituição especializada lhe proporcionava um diferencial
no mercado. Mas, internamente, quando executamos os processos
de auditoria, percebemos que faltava muita coisa — organização
acadêmica, legalização de cursos. Se não tivéssemos realizado a
aquisição, é provável que ela não conseguisse sobreviver por um ou
dois anos mais.
Mas nossos planos de expansão não eram baseados apenas em
aquisições. Também investíamos em crescimento orgânico e isso
era bastante visível no Recife. Em apenas sete anos de
funcionamento, a Faculdade Maurício de Nassau já contava com
mais de quatro prédios e a cada semestre precisávamos de mais
espaço e mais salas para receber os novos alunos. Foi então que
adquirimos um novo imóvel e construímos um bloco
especialmente projetado para os cursos de tecnologia, o Centro
Superior de Tecnologia (cst).
Ainda em 2010, a Faculdade Maurício de Nassau se consolidou
como uma potência esportiva ao vencer os Jogos Universitários
Brasileiros (jubs). Este foi um dos nossos investimentos adicionais.
Oferecemos inúmeras bolsas de estudo para atletas e acreditamos
que o esporte, aliado à educação, é uma forma de incentivar os
jovens a se desenvolver e a adquirir cidadania. A conquista do jubs
também rendeu à instituição o Troféu Eficiência concedido pela
Confederação Brasileira do Desporto Universitário (cbdu). Já em
Campina Grande, após apenas três anos de existência, a Faculdade
Maurício de Nassau recebeu o Top Of Mind, do Sistema Correio de
Comunicação.
Nosso projeto de expansão e consolidação da marca continuou
e, em 2011, adquirimos a Faculdade Tobias Barreto em Aracaju,
Sergipe. Além dela, ultrapassamos a fronteira da região Nordeste e
chegamos à região Norte, na capital no Pará, Belém. As regiões
Norte e Nordeste são parecidas social e culturalmente. Nas duas, a
carência por mão de obra qualificada e de instituições de ensino
superior para atender a estas necessidades é latente.
A nova unidade instalada na região Norte veio através da
aquisição da Faculdade Universo (faune). O interessante dessa
aquisição é que, apesar de ser uma instituição pequena, eram
dezesseis sócios. Então, nós sentamos em uma mesa redonda com
todos eles para negociar. O acordo foi fechado na véspera do Natal,
quando todos os sócios estavam na cidade e poderiam assinar a
documentação.
A Nassau chegou ao mercado de Belém já com dez cursos
aprovados pelo mec, no prédio onde antes funcionava a faune, cuja
marca foi incorporada ao grupo. Com esta aquisição atingimos o
número de 45 mil alunos e 3.500 colaboradores, distribuídos em
treze campi, onze cidades de sete estados das regiões Norte e
Nordeste e uma completa infraestrutura para preparar e produzir
talentos.
Entramos em 2012 com dezenas de projetos em andamento.
Antes da abertura de capital realizada em 2013, aquele certamente
foi o ano mais promissor. Demos o pontapé com o credenciamento
para funcionamento de uma instituição na cidade de Caruaru, no
agreste pernambucano e a 120 km de distância do Recife. A
unidade Caruaru iniciou suas atividades no segundo semestre do
ano, com quatro cursos — Administração, Ciências Contábeis,
Pedagogia e Serviço Social, nove cursos de pós-graduação e mais
oito cursos técnicos.
Além de Caruaru, em 2012 também ampliamos a atuação em
Salvador, com a unidade em Mercês, que funciona num colégio
tradicional da cidade. Neste mesmo ano, investimos 15 milhões de
reais na compra e reforma de todo a estrutura do antigo Colégio
Doroteias para a instalação da Faculdade Maurício de Nassau em
Fortaleza. Reformamos toda a estrutura, preservando e
restaurando todos os prédios históricos do colégio, que é
patrimônio da cidade.
Entre todas as aquisições que já realizamos, o processo de
transição mais fácil foi em Teresina. Isto foi em 2012, quando
adquirimos três instituições no Piauí: Faculdade Aliança,
Faculdade Piauiense de Teresina e Faculdade Piauiense de
Parnaíba, que ficava no interior do estado. As faculdades já
apresentavam uma boa organização interna. Claro que havia
problemas: deficiência de acervo, alguns problemas de
infraestrutura, mas nós conseguimos trabalhar muito bem os
diretores locais — eles aceitaram e souberam entender muito
rápido a cultura do Grupo Ser Educacional e da Faculdade Maurício
de Nassau, e disseminar essa tradição.
Entretanto, esse processo de compra também teve uma
peculiaridade. Apesar de as três faculdades pertencerem ao mesmo
grupo empresarial, essa aquisição foi uma das mais difíceis em
termos de negociação, pois a parte documental correspondia a três
empresas distintas. O que representava três auditorias, três
contratos de locação, etc. Além disso, houve uma resistência por
parte dos estudantes, porque, mais uma vez, eles imaginavam que
a instituição seria adquirida por um grupo do Sudeste. Ao final de
todo o processo, as três unidades do Piauí agregaram cerca de 6 mil
alunos ao grupo, isso representava pouco mais de 10% do volume
que tínhamos antes da negociação.
Ainda em 2012, adquirimos a Faculdade de Tecnologia inesul,
do Maranhão, e em Manaus, a nossa segunda unidade na região
Norte. Com a abertura das novas unidades e a expansão das já
existentes, o grupo cresceu em torno de 25% naquele ano.
Fechamos 2012 com dezoito unidades, distribuídas em onze
estados e com um total de 62 mil alunos.
Posso afirmar que aquele foi um ano maravilhoso.
Completamos nove anos de Grupo Ser Educacional repletos de
muito trabalho e muitas realizações. Pode-se imaginar que nove
anos são pouco tempo se compararmos com outras instituições. É
auspicioso ressaltar, porém, que neste curto período de existência
construímos para uma nova sociedade um novo conceito de
educação superior em Pernambuco e na região Nordeste.
Foi também no âmbito empresarial que veio o reconhecimento
do nosso esforço. Com mais de 3 mil funcionários, o Grupo Ser
Educacional recebeu Prêmio ISS Contribuintes do
Desenvolvimento, parceria entre a Prefeiturado Recife e o Jornal do
Commercio, por ser um dos maiores contribuintes com imposto
sobre serviço (ISS) no Recife.
É claro que essa evolução não aconteceu por um passe de
mágica nem dependeu exclusivamente do esforço individual de
poucos. Chegamos ao ponto em que estamos graças à conjunção de
esforços, graças aos profissionais que integram nosso time: pessoas
que se preocupam em construir o futuro de nossos jovens
estudantes e de nosso país. Pessoas que, por méritos próprios, por
sua elevada formação ética, profissional e moral tornaram-se os
nossos referenciais, os símbolos que orientam as nossas ações.
Iniciamos o ano de 2013 continuando o nosso projeto de
expansão e adquirindo a Faculdade Decisão, localizada em
Paulista, região metropolitana do Recife. A instituição possuía 650
alunos regularmente matriculados nos cursos superiores de
graduação em Administração, Ciências Contábeis, Pedagogia,
Sistema de Informação e Gestão de RH. A marca foi incorporada à
Faculdade Joaquim Nabuco. As mudanças para alunos e
colaboradores foram muito bem recebidas, já que a missão e os
valores do Grupo Ser Educacional e da Faculdade Joaquim Nabuco
trazem diferenciais estratégicos como a criatividade para o
desenvolvimento de cursos que geram oportunidades reais de
empreendedorismo e empregabilidade, uma necessidade local.
Em seguida, adquirimos a Faculdade Juvêncio Terra, em Vitória
da Conquista, interior da Bahia. A instituição possuía um campus
com 33 salas de aula, três laboratórios de informática, biblioteca
com 270m², área de convivência comum, além dos departamentos
administrativos. Toda a estrutura passou por adaptações para
atingir os padrões da Faculdade Maurício de Nassau.
A instituição, que pertencia ao Grupo Educacional Juvêncio
Terra, atendia a 530 alunos nos cursos de Administração,
Secretariado Executivo, Relações Públicas, Ciência da Informação,
Biblioteconomia, Filosofia e Psicologia. Todos os alunos foram
incorporados ao Grupo Ser Educacional. A relevância da aquisição
foi simples: Vitória da Conquista é a terceira maior cidade do
estado da Bahia e do interior do Nordeste.
Mesmo com toda a expansão, Recife ainda é o grande desafio do
Grupo Ser Educacional. Não apenas por ser a nossa maior
instituição, com o maior número de alunos, mas porque, como
temos a imagem extremamente consolidada, não podemos nos dar
ao luxo de nos acomodar. Hoje, existe uma competição acirrada no
mercado de educação do Recife e outros players chegam a todo
momento para buscar a fatia de mercado que nós possuímos.
Então, só continuaremos a crescer se continuarmos investindo.
Ainda em 2013, adquirimos mais um prédio histórico no centro
do Recife. Os oito andares do JK, prédio localizado na esquina de
uma das mais movimentadas avenidas da cidade, passou a abrigar
os alunos do ensino técnico da uninassau. O JK se junta aos outros
prédios históricos que o Grupo Ser possui no centro do Recife. Esse
projeto faz parte da nossa política de revitalização do centro. Por
meio dele, adquirimos e reformamos prédios históricos, mantendo
as características originais, mas dando condições de utilização e
colocando-os de volta à atividade.
Além do JK, finalizamos a construção de uma unidade no bairro
de Boa Viagem, zona sul da cidade. A construção, de onze andares,
vai atender à nossa demanda de alunos da região e contará com
cursos de graduação e pós-graduação, além dos cursos técnicos.
O final de 2013, com a abertura de capital realizada pelo grupo e
o valor arrecadado, nos proporcionou fôlego para novas aquisições
no ano seguinte. Iniciamos 2014 com a aquisição da Faculdade
Anglo Líder (fal), em São Lourenço da Mata, Pernambuco, que foi
incorporada às Faculdades Joaquim Nabuco.
A aquisição de uma nova unidade em São Lourenço da Mata —
uma cidade que apesar de estar na região metropolitana do Recife,
contava com poucas opções de ensino superior — veio para
fortalecer e consolidar ainda mais o Grupo Ser Educacional como
líder de mercado no Norte e Nordeste. A fal era a única instituição
de ensino superior de São Lourenço da Mata. O alto número de
alunos dessa cidade matriculados nas instituições do grupo
localizadas em Recife era um índice claro dessa demanda.
Em seguida, adquirimos a Faculdade Santa Emília (fase), que
agregou pouco mais de 1.500 estudantes ao grupo e tinha sede em
Olinda, cidade vizinha ao Recife. De fato, o crescimento orgânico
do grupo, através de suas aquisições, impulsiona a economia local
e incrementa a mão de obra qualificada. Apesar de ser uma cidade
mais antiga que Recife, Olinda ainda sobrevive de turismo e é
considerada uma cidade-dormitório.
Nossas últimas aquisições, até o lançamento deste livro, foram
a Universidade da Amazônia (unama) e a Faculdade Integrada
Tapajós (fit), ambas no Pará. Sem dúvida, esta foi a nossa maior e
mais difícil aquisição. A negociação foi feita com seis famílias
sócias, cada qual com um pensamento diferente. A quantidade de
sócios e a divergência de pensamentos torna o processo mais lento
porque é preciso chegar a um consenso. Foi a negociação mais
desgastante que realizamos. Um ano e meio depois de seu início,
assumimos as instituições em outubro de 2014.
Com essas negociações, atingimos o número de trinta unidades
e presença em onze estados. Atendemos mais de 120 mil alunos. E
graças ao trabalho desenvolvido e aos números que representamos,
nos tornamos o maior grupo de educação das regiões Norte e
Nordeste.
“Quem conhece o profissional Janguiê Diniz de perto vai concordar comigo. Sua
principal característica, que salta aos olhos de tão evidente, é a sua incrível
capacidade de trabalho. Janguiê é uma máquina de trabalhar. Organiza seu tempo
com precisão britânica. Tudo controla, inclusive suas próprias emoções. Desde cedo
aprendeu a importância do trabalho organizado. Aliada a uma personalidade
determinada a atingir objetivos previamente traçados, Janguiê transpôs as
dificuldades enormes que surgiram na sua trajetória. Hoje, vitorioso, reconhecido
pela sua capacidade empreendedora, não mudou sua maneira de encarar a vida. A
cada dia que passa continua a exercer seu ofício como dantes, criando situações
desafiantes como se por detrás de seu percurso profissional não houvesse um grupo
educacional construído e consolidado pelo seu espírito inquieto. Todo dia é um novo
desafio que ele se propõe a ultrapassar. Mente ágil, raciocínio rápido e objetivo, fino
no trato e no trajar, duro e inflexível quando a situação assim o exige, enxerga
sempre os macro e microambientes de seu negócio como poucos.
Quem conhece o homem Janguiê Diniz de perto também vai concordar comigo.
Uma pessoa determinada. Determinada a conseguir o que deseja. Um homem que
criou entre si e a grande maioria das pessoas uma barreira aparentemente
instransponível e inacessível para acesso à sua intimidade. Inicialmente desconfiado
nos primeiros contatos, barreira içada pelo acúmulo de sofrimentos que carregou da
infância e da juventude de amadurecimento precoce, vai aos poucos revelando quem
realmente é. Carinhoso com seus amigos. Reconhecido e grato a quem lhe ajudou no
passado. Um ser humano solidário, excelente esposo e pai de família exemplar.
É assim que vejo Janguiê Diniz. Profissional multifacetado. Homem
determinado. Nada do que conseguiu veio por acaso. É fruto de muito trabalho e
dedicação Os sucessos profissional e pessoal vieram como consequência natural. Sua
história de vida com certeza faria parte da seção “Meu Tipo Inesquecível”, da antiga
revista Seleções do Reader’s Digest, muito conhecida há anos atrás.”
Antônio Vasques, Primeiro diretor de expansão do Grupo Ser Educacional
Faculdade Mauricio de Nassau - Fortaleza - CE
Faculdade Maurício de Nassau - Lauro de Freitas - BA
Faculdade Maurício de Nassau - Maceió - AL
Unidade Unama - Belém - PA
Faculdade Maurício de Nassau - Campina Grande - PB
Faculdade Maurício de Nassau - Natal - RN
PARTE 4
A Faculdade Joaquim Nabuco
No ano de 2007, o panorama era o seguinte: a Faculdade Maurício
de Nassau continuava crescendo,a cada semestre conseguíamos
autorização para a abertura de novos cursos, mas eu ainda
enxergava em Pernambuco uma demanda de mercado que não era
atendida.
O período era propício para crescer. A educação era um setor
que estava recebendo atenção do governo e o número de
faculdades particulares estava em pleno desenvolvimento. Claro
que, como qualquer empresa, era provável que algumas delas não
resistiriam durante muito tempo e acabariam sendo adquiridas por
outros grupos educacionais.
Acompanhei na Bahia um projeto parecido com o que eu viria a
implantar na Faculdade Joaquim Nabuco. Um amigo meu, que
fundou a Faculdade de Tecnologia e Ciências (ftc), ergueu a
instituição em uma região mais distante, voltada a um público de
maior poder aquisitivo que tinha condições de ir de carro até lá. Ao
mesmo tempo, ele adquiriu um prédio no centro de Salvador e
instalou a Faculdade Cidade, uma instituição para um público com
renda per capita diferenciada, à qual o aluno poderia chegar
facilmente de ônibus. Então, tive a ideia de aplicar o mesmo
conceito aqui em Pernambuco.
Para chegar ao nome Faculdade Joaquim Nabuco, percorri as
mesmas etapas da escolha do nome da Faculdade Maurício de
Nassau. A ideia era não vincular o nome da instituição a uma sigla
e, baseado em uma nova pesquisa, percebemos que o nome de
Joaquim Nabuco era bastante aceito e admirado pelo povo
pernambucano.
Joaquim Nabuco foi um político, diplomata, historiador, jurista
e jornalista brasileiro formado pela Faculdade de Direito do Recife.
Também foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e
um dos grandes diplomatas do Império do Brasil (1822-1889), além
de orador, poeta e memorialista. No entanto, Nabuco ficou mais
conhecido pela sua luta em favor dos escravos, um paradoxo para
quem foi educado por uma família escravocrata. Joaquim Nabuco,
no final do século XIX, participou ativamente da campanha
abolicionista que culminou com a abolição da escravatura em 1888.
Definido o nome, começamos a pensar na marca que
representaria a instituição. Ela deveria representar a união entre as
raças, então, pensamos em duas mãos se unindo, como a
representação de brancos e negros. Junto às mãos, acrescentamos a
frase “Libertas et Veritas” (Liberdade e Verdade) e a tagline, que é a
promessa de marca, “Educação superior ao seu alcance”. A
Nabuco tinha exatamente esta proposta: atingir um público que
não poderia arcar com o custo de outras faculdades particulares,
trabalhadores que precisam estudar próximo ao local de trabalho
para reduzir os custos com deslocamento e que, ao mesmo tempo,
querem investir em um ensino superior que transmita qualidade,
dinamismo e seja voltado para o mercado.
Com o nome escolhido e a marca pronta, elaboramos o projeto
pedagógico e demos entrada em duas unidades da Joaquim Nabuco
— uma para ser instalada na Avenida Guararapes, centro do Recife,
e a outra na cidade de Paulista, na região metropolitana do Recife.
A unidade de Paulista recebeu o credenciamento primeiro, em
30 de abril de 2007, através da Portaria nº 388, e começou a
funcionar com aproximadamente trezentos alunos e três cursos —
Jornalismo e Publicidade e Propaganda, através da Portaria nº 374,
e Turismo, através da Portaria nº 375. No mesmo ano, o curso de
Administração foi autorizado em 25 de maio de 2007, mediante a
Portaria nº 458, e o curso de Direito, em 26 de setembro de 2007,
pela Portaria nº 834.
Já a unidade do Recife teve a portaria de credenciamento
publicada em 23 de outubro de 2007, no Diário Oficial da União,
sob o número 998. No mesmo dia, foram autorizados os cursos de
Administração, através da Portaria nº 893, Jornalismo e
Publicidade e Propaganda, pelo Portaria nº 891, e Sistemas de
Informação e Turismo, por meio da Portaria nº 892.
Com o lema “A educação ao alcance de todos”, a Faculdade
Joaquim Nabuco sociabiliza o conhecimento a fim de propiciar a
valorização do ser humano, a transformação do seu meio social e a
melhoria de sua qualidade de vida.
A Nabuco passou a oferecer cursos superiores a um custo menor
e com maior acessibilidade para as classes C e D, mantendo, no
entanto, o padrão de excelência do Grupo Ser Educacional, com
estrutura completa e docentes bem preparados.
A maioria das pessoas pode questionar esse tipo de
investimento, principalmente pelo risco de os alunos da Nassau
deixarem a instituição e migrarem para a Nabuco, já que ela
oferecia os mesmos cursos por um preço mais baixo, mas este não
era um medo meu.
As duas instituições foram pensadas para um público-alvo
diferente e, apesar de possuírem estrutura física similar de
laboratórios, bibliotecas e todo o resto, elas não são concorrentes
entre si. A Nabuco tem localização estratégica para aqueles que
utilizam preferencialmente o transporte público — a unidade
Recife fica em um dos principais corredores de ônibus da cidade. Já
na Maurício de Nassau, há estrutura poliesportiva que a Nabuco
não comporta.
O sucesso foi imediato, tanto em Paulista quanto no Recife. A
cada semestre abríamos novos cursos e a busca por eles é cada vez
maior. O investimento em estrutura para a instituição, assim como
na Faculdade Maurício de Nassau, foi contínuo, e os resultados
dessas melhorias fizeram com que, em 2013, a marca da Faculdade
Joaquim Nabuco passasse por uma reformulação para traduzir
melhor essa postura de aprimoramento. Apesar da mudança na
marca, foram mantidas as características originais e os princípios e
valores que fundamentam nossa instituição e expressam o nosso
comportamento. A missão da Faculdade Joaquim Nabuco é
democratizar o conhecimento e o ensino, proporcionar ascensão
social e profissional e valorizar o ser humano.
A marca da Joaquim Nabuco passou a ter uma tipografia mais
moderna, formas arredondadas e na cor preta, para possibilitar
maior contraste. Manteve, porém, seus elementos clássicos, ao
mesmo tempo que lançou o olhar para o futuro. A força particular
do dístico “Libertas Et Veritas” passou a integrar o símbolo da
marca, e a tagline “Educação superior ao seu alcance” agora
oferece maior legibilidade e visibilidade à nossa promessa.
Hoje a Faculdade Joaquim Nabuco oferece 24 cursos de
graduação, além dos a distância, de pós-graduação e de tecnólogos
e técnicos, que são o forte da instituição, pois propiciam uma
formação mais rápida (dois anos). A instituição está dando tão
certo que expandimos a marca para mais duas cidades. Além do
Recife e Paulista, ela está presente em Olinda e São Lourenço da
Mata, atendendo mais de 12 mil alunos.
A mudança de faculdade para
centro universitário e o curso de
Medicina
Com o passar dos anos, as Faculdades Maurício de Nassau cresciam
visivelmente a passos largos, principalmente no Recife. Junto com
o crescimento orgânico do Grupo Ser, investíamos cada vez mais
na infraestrutura e no corpo docente da instituição. O resultado
era que o nível de aceitação da faculdade era cada vez maior e o
número de alunos crescia a cada novo semestre.
Provavelmente vocês já ouviram um monte de siglas para os
nomes das instituições de ensino superior, mas a verdade é que só
existem três tipos delas no Brasil. De acordo com o Decreto nº
5.773/06, as instituições de educação superior, de acordo com sua
organização e respectivas prerrogativas acadêmicas, são
credenciadas como faculdades, centros universitários e
universidades.
As instituições são credenciadas originalmente como
faculdades. O credenciamento como universidade ou centro
universitário, com as consequentes prerrogativas de autonomia,
depende do credenciamento específico de instituição já
credenciada, em funcionamento regular e com padrão satisfatório
de qualidade.
Antes de continuar a história, preciso explicar que as
universidades se caracterizam pela indissociabilidade das
atividades de ensino, pesquisa e extensão. São instituições
pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível
superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber
humano, que se caracterizam por produção intelectual
institucionalizada medianteo estudo sistemático dos temas e
problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e
cultural quanto regional e nacional; ao menos um terço do corpo
docente deve possuir titulação acadêmica de mestrado ou
doutorado; e um terço do corpo docente deve trabalhar em regime
de tempo integral.
A criação de universidades federais se dá por iniciativa do Poder
Executivo, mediante projeto de lei encaminhado ao Congresso
Nacional. Já a criação de universidades privadas se dá por
transformação de instituições de ensino superior já existentes e
que atendam ao disposto na legislação pertinente.
São centros universitários as instituições de ensino superior
pluricurriculares, abrangendo uma ou mais áreas do
conhecimento, que se caracterizam pela excelência do ensino
oferecido, comprovada pela qualificação do seu corpo docente e
pelas condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade
escolar. Os centros universitários credenciados têm autonomia
para criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas
de educação superior.
Assim, seguindo a legislação, primeiro nos credenciamos como
faculdade. Contudo, com o passar dos anos, a Faculdade Maurício
de Nassau se tornou uma instituição plurricurricular, com cursos
nas áreas de humanas, exatas, biológicas e saúde, tanto na
graduação como nos cursos tecnólogos e de pós-graduação. E, em
meados de 2008, quando nossa oferta de cursos já passava de 40
opções de graduação e 200 cursos de extensão, e já havíamos
começado o projeto de expansão para outras cidades e estados,
avaliamos que havia chegado a hora de dar um passo adiante.
Queríamos nos tornar centro universitário.
Para tanto, as instituições devem ter condições econômicas,
financeiras e estruturais de manutenção de atividades de ensino de
graduação com nível de razoabilidade profissional e técnica, de
integração institucional com empresas públicas e privadas,
conselhos, sindicatos e outras entidades organizadas em função de
mercados de trabalho e de promoção do exercício profissional,
bem como de programas de acompanhamento e de promoção de
educação continuada para egressos e para atendimento a
demandas sociais de formação, especialização, adaptação e
atualização profissional.
Além disso, devem possuir corpo docente com pelo menos um
terço de professores com titulação acadêmica de mestrado ou
doutorado, pelo menos um quinto de professores em regime de
tempo integral e não ter nenhum pedido de abertura de curso
indeferido durante o processo.
Assim como as universidades, um centro universitário adquire
autonomia para organizar e extinguir, em sua sede, novos
programas educacionais e cursos de graduação e pós-graduação
que atendam as demandas de mercado, implementando
programas de extensão, de pesquisa, maior empregabilidade e
mais oportunidade de intercâmbios nacionais e internacionais,
podendo emitir e registrar os diplomas dos estudantes formados
pelo centro universitário, fazendo com que o processo aconteça
com muito mais agilidade.
A qualidade de ensino sempre foi uma premissa da Faculdade
Maurício de Nassau. Então, atingir a meta de mestres e doutores
em nosso corpo docente não era um empecilho. Investíamos muito
e fortemente em infraestrutura. Os ambientes didático-
acadêmicos e administrativos atendiam aos requisitos de
qualidade, conforto e segurança exigidos pelo mec.
O processo de autorização já durava mais de três anos. Eram
visitas recorrentes do mec para avaliações, e continuávamos
solicitando e recebendo autorização para disponibilizar novos
cursos, sem nenhuma reprovação.
Em 2012, a Faculdade Maurício de Nassau já disponibilizava
mais de seiscentas salas de aula equipadas, na totalidade, com
multimídia de apoio ao ensino. Os laboratórios foram pensados e
construídos com cuidado acadêmico para atender aos projetos
pedagógicos dos cursos. Juntos, os laboratórios de informática
somavam mais de 650 máquinas conectadas à internet, que servem
ao corpo social da Nassau.
Toda essa estrutura estava distribuída em sete blocos que
abrigam as salas de aula, biblioteca, laboratórios e um prédio
destinado a estacionamento (edifício-garagem). Os mais de 18 mil
alunos que estudavam na instituição já dispunham de clínicas-
escola para atendimento às necessidades didáticas dos cursos de
Nutrição, Fisioterapia, Enfermagem e Odontologia, que também
prestam assistência à comunidade, ginásio de esportes, e outros
ambientes esportivos que servem ao curso de Educação Física e à
prática de esportes, bastante incentivada pela instituição. Para os
alunos do curso de Direito, havia sido criado o Núcleo de Práticas
Jurídicas, que se destina ao desenvolvimento de práticas reais e
simuladas aprendidas em sala de aula, e onde atualmente é
oferecido atendimento ao público.
Por reconhecer a importância da prática de intercâmbios,
nacionais e internacionais, a faculdade já buscava parcerias com
instituições no exterior, sempre buscando o aprimoramento dos
estudantes e garantindo o melhor em termos de capacitação.
Em 28 de maio de 2012, o então ministro da Educação Aloízio
Mercadante credenciou a Faculdade Maurício de Nassau como
Centro Universitário Maurício de Nassau, de acordo com a portaria
nº 701, publicada no Diário Oficial do dia seguinte.
Começava ali uma nova etapa, repleta de novos desafios. E o
primeiro passo seria uma reformulação da marca, que passaria a ser
UNINASSAU — Centro Universitário Maurício de Nassau. Além
disso, era preciso mostrar a alunos e funcionários as mudanças que
aconteceriam, e que agora, como centro universitário, teríamos
ainda mais trabalho a fazer.
Alguns podem pensar que a marca não é tão importante, pois a
identidade de uma instituição de ensino se faz com suas ações. De
fato, ao longo do tempo, o conjunto de ações vai construir,
gradualmente, uma imagem pública da instituição. No entanto, a
marca se consolida pelas ações e pela associação simbólica. No
nosso caso, o brasão. No caso da uninassau, foram adicionados ao
brasão detalhes que representam a nossa evolução, crescimento e
modernidade.
A transição para Centro Universitário Maurício de Nassau
aconteceu de forma tranquila. Foi impressionante ver o quanto
essa mudança fez crescer o orgulho que nossos alunos já tinham da
instituição. Termos nos tornado a uninassau foi, além do
reconhecimento de nove anos repletos de muito trabalho e muitas
realizações, um fortalecimento de nossa marca.
Claro que, ao longo daqueles nove anos, promovemos um
refinamento em nossa visão, em nossa missão e em nosso modelo
de atuação, tudo isso buscando refletir, de forma mais atualizada e
moderna, o nosso jeito de ser e de interagir com o mundo
globalizado, mas sempre mantendo nossos valores e tradições
regionais. Mas, muito mais que isso, nós temos orgulho de ser um
grupo educacional genuinamente nordestino e de preservar nossas
características.
Nossa visão se refere a uma sociedade em constante evolução,
enquanto nossa missão visa identificar aquilo que se está
construindo e a forma como o fazemos. Os resultados que
alcançamos nos últimos anos foram fundamentais para confirmar
que nossa visão da sociedade e de ensino estava em sintonia com as
expectativas e com as necessidades da sociedade em que atuamos.
Sem dúvida, 2012 foi um ano histórico para o Grupo Ser
Educacional. Além do credenciamento como Centro Universitário
Maurício de Nassau, tivemos outras duas conquistas importantes: a
autorização para o curso de Medicina e o recebimento da
certificação iso 9000.
A autorização para oferecer esse curso chegou no momento em
que o Recife, assim como o restante do Brasil, apresentava um
déficit no número de médicos. Demos início ao projeto em 2008,
com um investimento de 5 milhões de reais para a construção de
laboratórios, aquisição de livros, contratação de professores e
convênios com unidades hospitalares. Mais uma vez, seriam
inúmeras visitas do mec e avaliações sobre as condições da
instituição.
Além de aprovação do mec, o curso também contou com a
autorização do Conselho Nacional de Medicina (cnm), que aprovoua qualidade dos laboratórios, da matriz curricular e avaliou a
demanda de profissionais da área na região. Os dois órgãos
exigiram convênio com a rede pública de hospitais, que no caso da
uninassau se deu com toda a rede estadual e municipal, além de
alguns hospitais particulares.
Desde o início do projeto aquele era um dos nossos focos. Não
queríamos apenas um hospital. Por isso fechamos parceria com
todos os hospitais públicos e negociamos com alguns da rede
privada: queríamos garantir aos nossos alunos a aprendizagem
prática do projeto pedagógico oferecido em sala de aula.
A certificação iso veio da questão ambiental, que também é
uma preocupação do Grupo Ser Educacional desde a sua fundação.
A uninassau deu início ao processo de certificação em meados de
2010, assegurando que os processos necessários para o Sistema de
Gestão Integrada fossem estabelecidos, implantados e mantidos,
de acordo com os requisitos da norma nbr iso 9001:2008.
O processo de certificação da iso 9000 e 14000, que designam,
respectivamente, o grupo de normas técnicas estabelecendo um
modelo de gestão de qualidade e a série de diretrizes sobre a área
de gestão ambiental dentro da organização, foi finalizado no final
de 2012, colocando a uninassau como a única instituição de ensino
da região já com os processos de certificação concluídos em todos
os cursos de graduação, pós-graduação e extensão.
Receber a recomendação para uma certificação do porte da iso
9001 demonstra nosso compromisso com a qualidade e satisfação
dos nossos alunos e clientes, além de nossa preocupação em
garantir que os serviços prestados atendam efetivamente os
regulamentos, legislação e requisitos aplicáveis. Mas, acima de
tudo, é o reconhecimento de nosso trabalho como referência no
mercado. Ter a certificação é ter um modelo de gestão reconhecido
nacional e internacionalmente. A iso 9001 é aplicação da melhoria
contínua, o que significa dizer que estamos sempre trabalhando
pra amanhã sermos melhores que hoje.
A responsabilidade social
As minhas atividades e as do Grupo Ser Educacional não se
restringem apenas ao ensino superior. Desde que abri a Faculdade
Maurício de Nassau e criei a marca Ser Educacional, só fizemos
crescer. E diante de um crescimento tão significativo, percebi que
poderia fazer muito mais pela sociedade do que apenas contribuir
com a educação e formação de cidadãos qualificados.
Antes de falar sobre o Instituto Ser Educacional, preciso
explicar uma coisa. Ter uma postura socialmente responsável e nos
preocuparmos com a cidadania não significa dizer que uma
empresa atingiu seu máximo em produtividade e deixou de buscar
a excelência na qualidade de seus produtos ou serviços. Ao
contrário, assumindo uma postura de preocupação com ações de
responsabilidade social, todas as empresas estão agregando valor
às suas marcas, e isso gera retornos positivos, como o aumento do
nível de confiança dos consumidores.
As empresas fazem parte de um sistema complexo em que
fazem constantes trocas de recursos e energias. Considero que é
dever das empresas contribuir na tentativa de minimizar as
dificuldades vividas pela população, principalmente porque, se
contribuirmos para a melhora das condições de vida do povo,
estaremos ampliando o mercado consumidor. Foi com o
pensamento de agradecer à sociedade por todo o sucesso que a
Faculdade Maurício de Nassau vinha tendo que fundei o Instituto
Ser Educacional e, posteriormente, o Instituto Janguiê Diniz, e
passei a investir fortemente em ações de responsabilidade social.
Fundado em 2003, o Instituto Ser Educacional tem se
destacado pelas ações de inclusão social, desenvolvimento social e
econômico, defesa do meio ambiente, memória cultural, de
produção artística e do patrimônio cultural, além de fomentar o
desenvolvimento econômico e social da região em que está
inserido, prestando assessoria aos movimentos sociais organizados
e instituições governamentais na elaboração e execução de
projetos sociais efetivos, de modo a torná-los agentes
multiplicadores do bem.
Até o final de 2014, o instituto mantinha 23 projetos, alguns
executados durante todo o ano e outros repetidos anualmente,
como a campanha do “Natal Solidário”. Em todas as ações é
possível ver a participação de alunos e colaboradores, além de
parceiros externos.
Em todas as unidades de instituições do Grupo Ser Educacional
existe atuação do Instituto Ser. Entre os projetos que acontecem
em todas as unidades, poderia destacar o “Faculdade na
Comunidade”, um evento anual destinado a oferecer à
comunidade diversas atividades culturais, sociais,
profissionalizantes e de saúde que possibilitem a melhoria da
qualidade de vida de toda a população atendida; o “Trote Legal”,
realizado semestralmente com os alunos calouros e destinado a
angariar materiais escolares, roupas e alimentos para serem
destinados à população carente e entidades beneficentes; o “Ação
Tropical”, que tem como objetivo envolver a comunidade
acadêmica na conscientização em prol da preservação do meio
ambiente por meio da limpeza das praias e praças da cidade; a
“Páscoa Solidária”, uma campanha de arrecadação de artigos de
chocolate para doação à comunidade carente, visando despertar a
solidariedade na comunidade acadêmica; o “Feirão do Imposto”,
nas unidades que têm o “impostômetro” (um contador que exibe o
valor de impostos pagos pelos brasileiros); a campanha de doação
de sangue, órgãos e tecidos; e vários outros.
Além do “impostômetro”, temos também o “verdômetro”:
uma ação ambiental a fim de informar e sensibilizar a sociedade
sobre a necessidade de atitudes concretas no que se refere à
preservação do meio ambiente, em especial a Mata Atlântica.
Consiste em um contador eletrônico que aponta a quantidade de
mudas destinadas ao reflorestamento da Mata Atlântica, além de
transmitir mensagens ambientais educativas.
Outras iniciativas que merecem destaque são as atividades de
cultura de paz, participação política, ações humanitárias (Haiti e
Mata Sul), trotes universitários, faculdade na comunidade, ações
de sensibilização e conscientização social, bem como a
constituição do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau.
Dentro das ações de cultura de paz destacam-se as caminhadas
pela paz, os programas “Gente que Faz a Paz”, “Empoderamento
Econômico para Jovens Mulheres”, em parceria com a Nike
Foundation, o contador de homicídios, o posto de recolhimento de
armas de fogo, o banco de DNA dos familiares de desaparecidos
políticos, o prêmio Maria da Penha, dentre outros. Dentre as ações
humanitárias, ganharam evidência a Corrente Solidária Haiti e o
Comitê Ecumênico de Apoio às Vítimas das Chuvas em
Pernambuco.
No entanto, uma das ações do Instituto Ser Educacional que me
deixa mais feliz e em que percebo, de fato, o quanto nossa
sociedade precisa de iniciativas como essa é o projeto “Faculdade
na Comunidade”. O programa está em execução há mais de seis
anos e objetiva a comunicação com a comunidade de modo que ela
participe ativamente da vida acadêmica. Da mesma forma, a
instituição também se compromete efetivamente com a melhoria
das condições de vida da comunidade, ao repartir com ela o saber
que produz e as informações que detém. Como isso acontece? É
simples. O Instituto Ser Educacional promove a ação através de
atendimentos na área de saúde, bem como realização de palestras,
debates, cursos, exposições, brincadeiras, jogos, atividades
esportivas, retirada de documentos, dentre outros. Apenas neste
projeto já foram envolvidos mais de 10 mil pessoas, entre
professores, alunos e colaboradores, e mais de 20 mil beneficiados.
Além desses projetos citados, uma de nossas ações mais
conhecidas é a Maratona Internacional Maurício de Nassau. Um
grande evento de atletismo que reúne anualmente atletas
renomados do Brasil e do mundo. Ao longo das cinco edições em
que foi realizada, a maratona vem contribuindo para consolidar o
estado de Pernambuco como uma referência nacional em eventos
para este tipo de esporte.
Já na primeira edição, em 2010, a maratona reuniu 2.500participantes, entre atletas de elite masculinos e femininos
nacionais e internacionais, corredores de rua, atletas amadores,
para-atletas e simpatizantes do esporte, sem discriminação de
gênero e faixa etária. Hoje, a Maratona Internacional Maurício de
Nassau já faz parte do calendário nacional e internacional de
inúmeros atletas e de pessoas que aproveitam o evento para
conhecer ou rever a cidade do Recife.
Além da atuação do Instituto Ser Educacional, fundei em 2012 o
Instituto Janguiê Diniz. A finalidade é prestar assistência social
gratuita nas áreas de educação, saúde, cultura, meio ambiente,
esporte e outras de interesse social, atendendo toda a população,
isoladamente ou em parceria com a União, os estados e os
municípios. Hoje, o Instituto Janguiê Diniz possui representação
nos estados de Pernambuco, Paraíba e Bahia.
Uma das suas principais ações é o “Programa Gente de Futuro”,
cujo objetivo é promover a formação de microempreendedores.
Participam do projeto pequenos empreendedores de comunidades
menos favorecidas. Os participantes realizam aulas de informática
básica, empreendedorismo, técnicas de vendas, qualidade,
comunicação e relações humanas, planejamento financeiro,
oficinas de estímulo à leitura e oficinas temáticas. Ao final do
curso, todos elaboram um plano de negócios para melhoria da
atividade que já é realizada. O plano é submetido à avaliação e os
aprovados são contemplados com a concessão de microcrédito. O
financiamento tem juros sociais, cuja moeda é contabilizada pela
prestação de serviços à comunidade, sempre de acordo com o
perfil e as habilidades do empreendedor. Apenas neste projeto já
foram mais de cem pessoas capacitadas e mais de cinquenta
tiveram os projetos aprovados para o recebimento do
microcrédito.
Os projetos de responsabilidade social realizados por cada
empresa são contribuições imprescindíveis para que possamos
construir um novo mundo menos desigual e reduzir os problemas
existentes e tão evidentes na atual conjuntura social em que
vivemos.
Tenho muito orgulho do trabalho feito pelo Instituto Ser
Educacional e pelo Instituto Janguiê Diniz. Atuar com
responsabilidade social em todas as nossas atividades é um desafio
que vencemos a cada dia e, ao longo dos anos, estamos
aperfeiçoando o nosso jeito de interagir com a sociedade e
incorporando ainda mais o conceito de responsabilidade social às
práticas.
O Instituto de Pesquisa Maurício de
Nassau
Além das instituições de ensino, o Grupo Ser Educacional criou o
Instituto Maurício de Nassau. De 2003 a 2010, o instituto
desenvolvia trabalhos de pesquisas políticas, sociais, econômicas,
de mercado e cientificas, agregando ainda mais valor ao nosso
grupo e divulgando informações relevantes que contribuíssem
para a compreensão da realidade do estado de Pernambuco e do
Brasil. Em 2012, o nome mudou para Instituto de Pesquisa
Maurício de Nassau (ipmn) e o projeto passou a ser uma ong sem
fins lucrativos, conveniada ao Grupo Ser Educacional e com os
mesmos objetivos já estabelecidos.
A proposta do ipmn é gerar conteúdo e informação para
enriquecer o debate sobre os mais diferentes aspectos da economia
e do mercado de Pernambuco. Com isso, estimulamos a prática de
melhores estratégicas para o desenvolvimento da região. As
pesquisas do instituto envolvem questões temáticas e sistemáticas.
Quanto às primeiras, abordamos temas pontuais como o mercado
de veículos, imóveis, planos de saúde, academias, entre outros. Já
em relação às segundas, aborda questões como o valor da cesta
básica, pesquisas sobre mobilidade urbana e índice de confiança do
consumidor — um indicador econômico que funciona como uma
prévia da economia, indicando se o consumidor está propenso ao
consumo ou não. Todos os meses, trazemos novas informações e
isso nos proporcionou uma grande aceitação do público.
Hoje, com centenas de pesquisas realizadas e depois de anos de
atuação, o ipmn fechou parceria com um grande veículo de
comunicação de Pernambuco e passou a ser fonte de pesquisas
eleitorais municipais e estaduais. Enquanto fornecíamos dados de
pesquisas sobre economia, empregos, cesta básica e outros dados
sociais, o trabalho fluía sem problemas. Entretanto, quando a
atuação passa a envolver pesquisas políticas, a visibilidade
aumenta e acabam surgindo algumas polêmicas.
Foi em 2008 que o Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau
começou a realizar pesquisas de intenção de voto para a eleição
municipal do Recife. Naquele ano, realizamos aproximadamente
oito pesquisas sobre a disputa pela prefeitura da cidade e existiam
dois candidatos reconhecidos pela imprensa e pelo universo
político como favoritos: Mendonça Filho e Cadoca. Ambos
apareciam em pesquisas de variados institutos liderando a disputa.
O ipmn divulgou os resultados de sua primeira pesquisa e, ao
contrário dos resultados apresentados pelos outros institutos,
trazíamos João da Costa, candidato do PT apoiado pelo então
prefeito João Paulo, em condições reais de vencer o pleito. Quando
o ipmn divulgou a sua primeira pesquisa mostrando que João da
Costa, Mendonça e Cadoca estavam embolados na preferência dos
eleitores, passamos a ser alvo direto de críticas. Para a população e
para os candidatos, era difícil acreditar que um instituto novo
estava contradizendo as fontes tradicionais de pesquisas eleitorais.
Não posso negar que é difícil competir com empresas
tradicionais, neste caso institutos de pesquisa. O caminho para
qualquer um que seja novo em um mercado, porém, é comprovar
sua qualidade e eficiência e assim conquistar seu público e seus
méritos.
Quando pensei em criar o Instituto, profissionais competentes
e comprometidos eram essenciais. Foi assim com o Grupo Ser
Educacional e não haveria outra forma de dar certo. Eu confiava na
equipe do ipmn e queria que eles confiassem em si mesmos
também. Então, pedi apenas que eles executassem o trabalho que
sabiam fazer e não ligassem para os resultados de outros institutos.
A recomendação valeu a pena. Continuamos divulgando os
nossos resultados e não demorou até que as pesquisas dos outros
institutos mostrassem o que o ipmn já tinha antecipado: João da
Costa estava na disputa e seria eleito prefeito do Recife. As urnas
confirmaram o resultado e nós começamos a aparecer como
referência em pesquisa política.
Em 2010, o ipmn alçou novos voos e realizamos pesquisas para
a disputa pelo governo do estado. Nos dois anos anteriores à
eleição para governador intensificamos os investimentos no
instituto, qualificamos ainda mais a equipe e ofereci as condições
necessárias para a realização de pesquisas maiores. O instituto é
uma parte do Grupo Ser Educacional e, portanto, também queria
que ele se tornasse uma referência nacional.
Na eleição de 2010, o ipmn mostrou, inicialmente, o candidato
Jarbas Vasconcelos em condições de motivar o segundo turno
contra o governador Eduardo Campos, candidato à reeleição.
Porém, as pesquisas seguintes do ipmn mostraram as chances de
sucesso eleitoral de Campos já no primeiro turno.
Na eleição para governo de Pernambuco em 2014, o ipmn
começou a divulgar pesquisas já no ano anterior. Em 2013, a equipe
do ipmn constatou que existia o fenômeno “eduardismo” e que
este seria capaz de proporcionar o sucesso eleitoral do candidato
apoiado pelo então governador Eduardo Campos. Como
corriqueiro, críticas foram feitas ao ipmn. Em agosto, o ipmn foi o
primeiro instituto a mostrar, também, o crescimento eleitoral de
Fernando Bezerra Coelho, candidato do PSB ao Senado. E, mais
uma vez, acertamos.
O trabalho do Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau, assim
como o das outras marcas que compõem o Grupo Ser Educacional,
é feito por profissionais competentes e comprometidos com
resultados, o que nos dá e transmite credibilidade. Ao mesmo
tempo, nossos alunos também podem participar das atividades
desenvolvidas pelo ipmn como pesquisadores, o que traz ainda
mais conhecimento para cada um deles.
Uma empresa na Bolsa de Valores
Muitos acreditam que os empreendedores já nascem prontos, que
eles simplesmentetem o dom para empreender. Existe um pouco
de verdade nessa afirmação. Entretanto, posso afirmar com
conhecimento de causa que a vida de todos os empreendedores
não é fácil. Em vez de noites de sono, são muitas as noites gastas
trabalhando em projetos constantemente planejados, estudados e
avaliados. Isto sem falar em tudo de que é preciso abdicar ou
renunciar em prol dos empreendimentos.
Com todas essas características, espera-se também que o
empreendedor, seja destemido. Errado! Destemidas são aquelas
pessoas que não têm medo, que não têm receio. Não se espera isso
de um empreendedor porque no empreendedorismo não ter medo
é bastante perigoso. Pessoas destemidas se arriscam demais. Não
planejam e nem avaliam seus atos. Por consequência, acabam não
sabendo tomar as melhores decisões. Pessoas destemidas não
calculam os riscos, deixam-se levar pelas circunstâncias e
acreditam que nada vai dar errado.
Então, se não podemos ser destemidos, os empreendedores
devem ser medrosos? Também não. O que diferencia o
empreendedor das outras pessoas é justamente sua capacidade de
ser corajoso, ousado, de encarar riscos, de se expor e de assumir
responsabilidades e as consequências de seus atos. O medo é
importante para que nós, empreendedores, sejamos capazes de
ponderar cada ação tomada.
Porque eu inicio este capítulo tratando das características dos
empreendedores? Explicarei. Quando negociamos com o Cartesian
Capital Group a venda de 11% do Grupo Ser Educacional, havia um
prazo para esse aporte ser retirado: cinco anos. Esse era o tempo
máximo que eles poderiam continuar conosco e, ao final desse
período, existiam algumas opções: comprarmos a porcentagem de
volta ou seguir para uma abertura de capital na Bolsa de Valores.
2013 - Abertura de Capital na Bolsa de Valores -
BM&FBOVESPA
Abrir o capital é uma das decisões mais importantes e
estratégicas para qualquer companhia. Ela altera da forma
definitiva a gestão, os controles internos e a transparência da
organização. A decisão de abrir o capital não é das mais simples,
mas seu impacto é muito grande, tanto nas atividades diárias
quanto em seu futuro. Abrir capital não é para qualquer um. A
entrada no mercado de ações requer muita preparação e acredito
que a maior dúvida é se a companhia é capaz de cumprir as
exigências dos investidores.
O processo de abertura de capital envolve vários requisitos,
sendo três deles os principais: o primeiro é o tamanho da oferta.
Não confundam tamanho com estrutura física. Para a abertura de
capital, tamanho está relacionado à oferta. A empresa precisa fazer
uma oferta inicial de ações de pelo menos 100 milhões de dólares,
o chamado ipo (initial public offering). Economicamente, o valor de
mercado de uma companhia que consegue ofertar tal quantia é, no
mínimo, o triplo.
Há também um outro detalhe sobre as ofertas iniciais. Uma
oferta inicial mais baixa que US$ 100 milhões não consegue atrair
os investidores institucionais, nacionais e estrangeiros. E esses são
os maiores compradores. Não estou dizendo que a compra de ações
por pessoas físicas não seja importante, no entanto, investidores
institucionais colocam pelo menos 1 milhão de dólares em cada
emissão.
O segundo requisito para abrir o capital de uma empresa é a
transparência. As empresas abertas são obrigadas a enviar
informações detalhadas à Bolsa, à Comissão de Valores Mobiliários
(cvm), o órgão regulador e fiscalizador do mercado de capitais
brasileiro, e aos acionistas. Além disso, os bancos de investimento,
as corretoras e as administradoras de recursos também exigem
informações. Trocando em miúdos, abrir capital significa ter de dar
satisfação aos sócios e aos analistas, e por isso, são poucos os
empresários que estão dispostos a realizar o processo. Por último, e
não menos importante, o terceiro pré-requisito para uma empresa
abrir capital com sucesso é mostrar uma história que atraia os
investidores.
Diante de tantos detalhes e tantas restrições, por que abrir
capital? É simples. Ter ações comercializadas com sucesso na Bolsa
de Valores significa ter mais recursos para investir em projetos de
investimentos e tornar-se mais competitivo. Além disso, a imagem
institucional é fortalecida, ganha-se muito mais projeção e
reconhecimento, pois será constantemente avaliada pelos
investidores.
Pois bem, ao final de 2012, aproximava-se o prazo para o
Cartesian Capital Group deixar o Grupo Ser Educacional. Cinco
anos haviam se passado e o grupo cresceu em ritmo acelerado
nesse período. Estávamos na marca das dezoito instituições e
atendíamos mais de 60 mil alunos. Como já comentei, havia duas
opções para a saída do Cartesian. Poderíamos partir para a
realização de um ipo, dando continuidade ao nosso projeto de
expansão e consolidação, ou devolver o aporte financeiro que
recebemos e continuar sendo uma companhia de capital fechado.
Neste cenário, caso quiséssemos expandir, poderíamos usar as
linhas de crédito bancário que tínhamos aprovadas e que, até
então, não haviam sido utilizadas.
Foram dezenas de reuniões e discussões sobre o futuro do Ser
Educacional. Em cada uma delas levantávamos os prós e contras de
uma abertura de capital. Entretanto, o fato era que o trabalho de
governança corporativa realizado pela Mesa Corporate, aliado à
equipe de gestão à frente do grupo e tudo o que havíamos
construído, em todos os pontos de vista, acabaram por nos
qualificar para uma abertura de capital. Nós estávamos prontos e o
momento econômico do ramo educacional era favorável para dar
esse passo. Em abril de 2013, depois de cinco anos de
amadurecimento, decidimos partir para o ipo.
Decisão tomada, o primeiro passo era protocolar um pedido de
registro de companhia na cvm. Depois, é preciso solicitar a
listagem na BM&F Bovespa, pois apenas as empresas que possuem
esse registro podem ter suas ações negociadas na Bolsa.
Não existe um período pré-determinado para a conclusão do
processo de abertura de capital. Contudo, as primeiras avaliações
da cvm do prospecto preliminar levam cerca de trinta dias e
estima-se em torno de três a quatro meses até o pregão. Começava
ali uma corrida contra o tempo.
Em agosto de 2013, quando demos entrada no processo na cvm,
o grupo era composto por 23 unidades, com 76 mil alunos
matriculados, número que subia para 91 mil quando contabilizado
com os alunos do Pronatec, o Programa Nacional de Acesso ao
Ensino Técnico e Emprego.
No prospecto inicial entregue à cvm há várias exigências a
serem cumpridas, como entregar as três últimas demonstrações
financeiras anuais e a do trimestre mais recente. A auditoria mais
recente passa por um auditor autorizado pela própria cvm, para
que não haja manipulação de números.
Começamos realizando várias reuniões para definir quais
auditorias independentes, escritórios de advocacia, bancos de
investimentos, consultores e banco subscritor, ou coordenador de
oferta, nos acompanhariam no processo.
Os bancos de investimento ou consultores de ipo são quem
definem, juntamente conosco, as características do ipo — volume
de recursos a ser captados, composição da oferta, definição da
faixa de preço, etc. Visitamos inúmeras instituições para conhecer,
apresentar o Grupo Ser Educacional e receber propostas.
Decidimos, então, trabalhar com quatro bancos: o BTG Pactual e o
Credit Suisse — Investment Banking Brasil, que seriam os nossos
coordenadores líderes do processo; e o Santander e o Goldman
Sachs, por serem bancos comerciais e nossos parceiros há muitos
anos.
Os bancos nos auxiliariam a definir a oferta de ações — optamos
por ações primárias (novas), secundárias (dos acionistas
vendedores) e com esforços de colocação no exterior. Os
vendedores das ações foram o Cartesian Group (Poah One
Acquisition Holdings VII) e eu, o fundador do grupo, como pessoa
física. Uma vez escolhidos os bancos, houve uma divisão de tarefas
entre eles. O BTG Pactual nos ajudaria a modelar a companhia,
definir o nosso preço, nosso valuation, e o Credit Suisse ficou
responsável por como iríamos pensar a companhia e apresentá-la
ao mercadode capitais.
Em relação aos advogados, era preciso escolher dois: um
nacional e outro que trabalhasse com representação internacional,
já que queríamos capital estrangeiro. Para nos auxiliar com a
documentação no Brasil, decidimos trabalhar com o escritório
Pinheiro Neto Advogados, com sede em São Paulo. Além dessa
função, eles seriam responsáveis pela elaboração dos documentos
das ofertas, pelas reestruturações societárias, como a
transformação de sociedade por ações fechada em sociedade por
ações aberta (S.A.) e pela organização do estatuto social.
Para a auditoria, continuamos com a PricewaterhouseCoopers
Auditores Independentes na prestação de serviços de auditoria
externa para as demonstrações contábeis. Esse já era um trabalho
que vinha sendo realizado desde 2009 de forma bastante
satisfatória e preferimos manter a equipe no processo.
Começamos uma sequência de, sem exagero, centenas de
reuniões com os advogados e bancos para a preparação da
documentação exigida pela cvm. Precisávamos também definir o
valuation da companhia. Valuation é o processo de estimar o valor
de uma empresa de forma sistematizada, usando um modelo
quantitativo. O valor é calculado através de planilhas financeiras
de balanços, demonstração de resultados entre os últimos cinco e
dez anos para estimar um valor futuro e recalculá-lo para o valor
do presente. É essa análise, junto com as características da
empresa, que define o valor das ações que serão comercializadas ao
mercado.
Mesmo assim, esse cálculo ainda envolve certa dose de
subjetividade no julgamento porque, durante a apresentação da
empresa para os possíveis investidores, é preciso transmitir
segurança, conhecimento de mercado no setor, percepção da
lógica que vem embutida nas negociações de ações e, o que eu
considero principal, confiança. Ninguém vai investir em seu
negócio se não adquirir confiança em você.
Durante o processo de abertura de capital, optamos por entrar
no Novo Mercado da Bovespa, que é um segmento criado em 2000
e que exige padrões de governança corporativa altamente
diferenciados. A partir da primeira listagem, em 2002, ele se
tornou o padrão de transparência e governança exigido pelos
investidores para as novas aberturas de capital.
Em paralelo a todos esses detalhes, tivemos que entender todos
os procedimentos de sigilo de informação, especulações de
mercado e agregar novos membros à nossa equipe, como o diretor
de mercado e o de relações com investidores. Assim, estavam
definidos todos os passos para a realização do ipo. A faixa de preço
indicativa para as ações foi definida entre 19,50 e 23,50 reais por
papel.
Como queríamos investimentos estrangeiros, teríamos que nos
preparar para um roadshow pela Europa e Estados Unidos. Mais
uma vez, precisávamos nos preparar. Toda a equipe que
participaria do roadshow passou por aulas de reciclagem da língua
inglesa.
Até então, o Grupo Ser Educacional era conhecido apenas nas
regiões Norte e Nordeste. Entretanto, quando realizamos o
depósito da intenção de abrir capital na cvm, viramos notícia no
país inteiro. Claro que havia peculiaridades para tais publicações.
O fato de sermos uma empresa genuinamente nordestina era uma
delas. A outra era porque, com base no lote inicial de papéis a ser
vendido, o ipo poderia movimentar até 723,3 milhões de reais,
considerando o preço máximo da faixa indicativa, o que seria um
dos maiores ipo da história do setor educacional.
No final de setembro de 2013, preparamos a equipe para mais
de um mês fora do Recife e fora do Brasil. Começaria o nosso
roadshow em busca de investidores. Jânyo, Joaldo, Francisco
Barreto, Habib Bichara, nosso diretor financeiro, e eu seguiríamos
para o Rio de Janeiro e São Paulo para reuniões com dezenas de
investidores que haviam sido contatados pelos bancos e
demonstraram interesse em nos conhecer e, possivelmente,
investir no Grupo Ser Educacional.
No Rio de Janeiro foram cerca de trinta reuniões. Foram sete a
oito reuniões diárias. Em São Paulo, o mesmo número. De lá,
seguimos para o circuito internacional. Nos acompanharam nas
viagens e reuniões representantes dos bancos e, no roadshow
internacional, duas tradutoras.
No circuito internacional, a primeira parada foi na Holanda, em
Amsterdã. Poucas horas após nossa chegada ao país, começariam
as reuniões. Não posso esconder que a primeira reunião foi a pior
de todas. Nervos à flor da pele, tínhamos dormido apenas três
horas e o fuso horário ainda era uma dificuldade para a nossa
equipe. Além disso, não tínhamos tido tempo de repassar com os
tradutores os assuntos das reuniões, o que resultou em uma
dificuldade em fluir os conteúdos — eram pausas para que elas
fizessem as traduções. Apesar de todos nós falarmos inglês, a
utilização de tradutores para esses tipos de reuniões é comum
devido ao grande número de termos técnicos que são utilizados
por nós e pelos possíveis investidores.
A reunião durou cerca de uma hora e saímos de lá
decepcionados com o nosso desempenho. Mas, ainda haveria
outras dezenas de reuniões e precisávamos continuar. Como
teríamos que viajar para a próxima reunião, aproveitamos o
intervalo para ajustar todos os detalhes e estarmos bem preparados
para o que viria.
O funcionamento das apresentações era basicamente com o
pessoal do banco fazendo a introdução e, se não pudessem,
Francisco fazia. Eu iniciava, falando da história da fundação do
grupo e o que eu esperava dele, depois Jânyo explicava nosso
sistema de gestão, Habib relatava o funcionamento financeiro e
Joaldo fazia as colocações complementares.
No primeiro dia na Europa, fizemos reuniões em Amsterdã,
Rotterdã, duas reuniões em Paris. Em seguida, tínhamos que pegar
o trem para seguir para Londres. Ao seguir para a estação para
embarcar no trem, conhecemos a pontualidade do horário
britânico. Éramos um grupo com nove pessoas e, na espera para
embarcarmos juntos, chegamos com 1 minuto de atraso — e já
haviam fechado o portão.
Nos dias seguintes, passaríamos por inúmeras cidades e alguns
países da Europa. As reuniões começavam às 7h00 e seguiam até às
20h00. Sempre com duração de 60 a 90 minutos. Muitas vezes, até
os horários de almoço eram utilizados. Quando isso acontecia,
Jânyo assumia as apresentações e nós almoçávamos. Sempre nos
lembrávamos de levar um sanduíche para que ele comesse no
carro.
O mais difícil dessas reuniões era não saber se, ao final delas,
poderíamos contar com o capital do investidor ou não. Apenas
falávamos, respondíamos as perguntas e a reunião se encerrava.
Depois é que os investidores faziam as ofertas diretamente aos
bancos, que só nos passaria a informação dos books ao final do
roadshow.
Tivemos oportunidade de conhecer investidores de muitos
países. Estrangeiros que moraram no Brasil por anos e acabaram
por falar português conosco. Outros que investiam em várias
empresas de segmentos diferentes. Cada um com sua história e
peculiaridade.
Quando saímos da Europa e fomos para os Estados Unidos, já
estávamos experientes nas reuniões. O conteúdo fluía facilmente e
os encontros eram cada vez mais produtivos. A pior parte do
roadshow é o cansaço, físico e mental. Como são reuniões seguidas,
nós falávamos sempre a mesma coisa e as perguntas que eram
feitas a nós também eram, em geral, as mesmas. Chegou um ponto
da viagem em que as reuniões se tornaram mecânicas.
Claro que não só de seriedade se faz um roadshow. Houve
episódios engraçados, como a reunião com o fundo de
investimentos William Blair. O encontro seguia tão bem e eu
estava tão empolgado com a conversa com o John, analista do
fundo, que quando Jânyo deveria começar a falar, eu continuei:
“William! Como eu estava dizendo…”. Jânyo tentava me
interromper, mas eu prosseguia: “William!”. Isso se repetiu não
apenas uma, mas duas, três vezes… Jânyo tentava me corrigir
apontando para o cartão de visitas do rapaz. E eu continuava:
“William!”. Quando me dei conta do cartão de visitas, que Jânyo
insistia em apontar, acabei falando: “William! Phillip! George!”. E
todos na sala começaram a rir e nós ganhamos oinvestimento.
Houve algumas barreiras no roadshow. A principal delas foi a
língua. Não porque não soubéssemos falar ou entender inglês, mas
porque era muito mais difícil achar os termos corretos para
explicar programas como o Fies e ProUni para quem não tinha
conhecimento deles.
Nos últimos dias, as reuniões já funcionavam de modo
automático e não era incomum achar que tínhamos respondido
determinadas perguntas que eram feitas em uma reunião porque já
tínhamos respondido à mesma em encontros passados.
No final do roadshow, enfrentamos um perigoso desvio de
percurso. Perto do fechamento do nosso segundo book de
investidores, houve a publicação de um relatório de instrução
normativa da Receita Federal sobre um possível imposto e isso fez
com que o mercado caísse quase 10% aqui no Brasil.
Nesse momento, nós nos preparávamos para entrar em mais
uma reunião e decidimos que Joaldo, o representante do banco, e
eu voltaríamos para a sede do BTG em Nova York para acompanhar
o que acontecia. Enquanto isso, os outros continuariam na
reunião. Ao fim da reunião, Jânyo, Habib e Francisco nos
encontraram no banco.
Lembro-me bem que ao chegar ao banco, questionaram o Jânyo
sobre o que fazer. Para ele, se não foi possível segurar o mercado,
deveríamos arrumar as malas, encerrar o ipo, cancelar tudo e
voltar para o Brasil. Depois disso, seguimos para uma sala de
reuniões e seguiram-se mais de três horas de discussão, entre mais
de trinta pessoas, sobre qual decisão tomar.
Foi então que decidi perguntar para cada um deles a opinião
sobre o que fazer. Ouvimos cada um dos representantes de bancos
presentes, pesamos o momento econômico mundial, o que estava
acontecendo, as possibilidades já no fim do ano de uma nova janela
de mercado, a expectativa de que o cenário macroeconômico se
deteriorasse ainda mais não conseguíssemos realizar um ipo no
ano de 2014. Batemos o martelo, nosso pregão foi marcado para o
dia 18 de outubro de 2013.
Nós tínhamos uma expectativa de valor arrecadado um pouco
acima do que foi captado, entretanto, devido a essas informações
do mercado, tínhamos que optar por arrecadar um pouco menos
ou desistir do processo. Diante da situação, o consenso foi que a
abertura de capital não seria tão boa quanto o programado e que,
do ponto de vista do valor de ações, nós iríamos perder dinheiro.
No entanto, se não fizéssemos naquele momento, perderíamos
tudo que já tínhamos investido e mais, havia o risco de não
conseguirmos realizar o ipo pelos próximos seis meses. Então, a
consciência que tivemos é que esse valor poderia ser recuperado
depois da operação.
Contudo, teríamos ainda mais um susto no nosso caminho. A
instrução normativa da Receita Federal teria outras consequências,
além da queda do mercado. Em 12 de setembro de 2013, a Receita
Federal publicou a Instrução Normativa nº 1.394, que revogou a
Instrução Normativa nº 456, de 5 de outubro de 2004, que
regulamenta a Lei nº 11.096/05. A nova instrução trouxe novas
disposições em relação às isenções fiscais instituídas pelo ProUni,
em especial ao cálculo de referidas isenções.
Como esse dado foi posterior à entrega do nosso prospecto, a
informação não estava relatada no material. A cvm determinou,
então, a suspensão da realização do nosso ipo por um prazo de até
trinta dias, justificando que o prospecto da distribuição não
contemplava informações completas, precisas e atuais para uma
tomada de decisão consciente por parte dos investidores.
Começou uma nova corrida contra o tempo. Precisávamos
tomar as medidas necessárias e revogar a decisão da cvm a tempo
de realizar o pregão. Além disso, a demora em reverter a situação
poderia significar a perda de mais investimentos. Alteramos o
prospecto inicial na seção de fatores de risco da oferta para
inclusão dos efeitos de possível perda ou redução das políticas de
financiamento e/ou benefícios fiscais.
A cvm revogou a suspensão três dias depois e nosso pregão foi
marcado para o dia 29 de outubro de 2013. Captamos R$ 619,428
milhões com a oferta pública inicial e nossas ações foram
precificadas em R$ 17,50. Esse valor já valorizou mais de 30%.
Fomos a segunda empresa do Nordeste brasileiro a abrir capital e o
maior ipo do setor de educação na América Latina.
Para nós, as coisas nunca foram fáceis. Mas sempre
conseguimos vencer no final. A verdade é que pensar em não fazer
o ipo pelos próximos seis meses era um cálculo demasiadamente
otimista. Fomos o último ipo realizado em 2013 e, até agora, final
de 2014, houve mais um.
Me orgulho do trabalho que fizemos e do resultado que
conseguimos com a operação de abertura de capital. Para nós, o
que mudou não foram os processos internos, porque já
trabalhávamos com toda a estrutura de uma empresa de gestão
profissional mesmo com o capital fechado.
A vida da empresa foi, sim, transformada pela exposição ao
mercado. A entrada na Bovespa nos trouxe, também, mais
visibilidade. Passamos a ser mais procurados por veículos de
comunicação para entrevistas e nos tornamos referência no setor
de educação das regiões em que atuamos. Tivemos que aprender a
falar com o mercado e para o mercado. Pessoalmente, a abertura
de capital fez com que meu nome se tornasse mais conhecido
nacionalmente e, por consequência, o número de pedidos de
entrevistas para grandes veículos se intensificasse. Fui capa de
editoriais de grandes jornais como o Estado de São Paulo e de
revistas como a IstoÉ Dinheiro, além de ter participado de
programas de veiculação nacional, como o programa de
entrevistas Show Business, apresentado por João Doria e veiculado
pela Rede Bandeirantes.
A IstoÉ Dinheiro se tornou um capítulo a parte em 2014. Em
outubro, fomos o grande vencedor do prêmio “As melhores do
Middle Market”, destinado a empresas brasileiras de médio porte
em expansão. Além da premiação principal como a “Empresa do
Ano”, o Ser Educacional foi agraciado com o prêmio especial de
“Melhor Gestão Financeira” e também foi vencedora na categoria
“Educação”. Ter sido considerada a melhor empresa entre as 1.352
concorrentes foi a certeza de que estamos no caminho certo.
“O Janguiê, apesar de tudo aquilo que construiu na vida, é uma pessoa que não
escuta somente sua própria voz. Ele é um empreendedor que consegue escutar e
ponderar as vozes das pessoas que o rodeiam. Um dos grandes diferenciais que ele
tem é não se limitar a escutar o seu próprio eu, sua própria consciência. Janguiê sabe
que nem sempre ele tem as respostas certas e sabe avaliar o que outras pessoas
falam.”
Habib Bichara, Diretor financeiro do Grupo Ser Educacional
DISCURSO DA ABERTURA DE CAPITAL DO GRUPO SER EDUCACIONAL
No empreendedorismo a ética é um preceito fundamental, porque o
empreendedorismo constrói ou destrói; subtrai ou soma. Quando não há o conteúdo
ético no empreendedorismo você pode estar legalmente criando uma empresa, mas
que destrói, que subtrai valor da sociedade. Com efeito, ser empreendedor, portanto,
é investir em ações que ajudem a formar uma sociedade justa e compromissada com
o bem estar econômico e social de um país.
Com efeito, foi com base no preceito ético que eu criei o Grupo Ser Educacional.
A criação do Grupo, cujo embrião foi o Bureau Jurídico — Cursos para Concursos,
partiu de um sonho de preparar profissionais para o mercado de trabalho,
especialmente no setor público, ajudando a resgatar a história do estado
abolicionista de Pernambuco, berço de personalidades luminares como Joaquim
Nabuco, Frei Caneca, Gilberto Freyre, dentre muitos outros. A criação da Faculdade
Maurício de Nassau em Recife, primeira unidade do Grupo, não foi senão o
prolongamento desse eterno sonho.
Faço questão de registrar que sou homem de sonhar muitos sonhos. É que “o
homem de um sonho só é um pobre de espírito e de um espírito pobre. Nasci para
sonhar muitos sonhos e venho ao longo desses meus anos de vida sonhando vários,
realizando alguns, tentando outros e uns poucos restam sepultados na cova do
tempo…”. E sonhando sonhos impossíveis. Pois, só o impossível é digno de ser
sonhado. O possível colhe-se facilmenteno solo fértil de cada dia.
E tenho convivido muito bem com isso, pois segundo um provérbio russo: “Os
fardos que escolhemos não pesam em nossas costas”.
E, ao longo desses meus anos de vida, venho seguindo a filosofia de Nietzsche,
que respondendo a uma pergunta de um discípulo seu, que indagou: “Mestre, qual o
melhor modo de subir aquele monte?”, respondeu: “sobes sempre, e não penses
nisso”.
Venho sonhando e realizando meus sonhos, carregando minhas cargas, subindo
meus montes, mas tendo sempre em mente o pensamento de Carlos Drummond de
Andrade: “Com apenas minhas mãos, mas com o sentimento do mundo todo”.
Nessa perspectiva, quando criamos o Bureau Jurídico — Cursos para Concursos, a
intenção inicial era apenas a de qualificar os estudantes para ingressarem nas
carreiras jurídicas, principalmente na magistratura e no Ministério Público. O
sucesso do empreendimento foi tamanho que fui impulsionado a sonhar um sonho
maior. O de ajudar o estado de Pernambuco, a região Nordeste e o Brasil a ingressar
mais rapidamente em níveis de desenvolvimento das economias globais oferecendo
educação superior de qualidade para o povo brasileiro.
É que estamos vivendo na era da globalização. Na sociedade do conhecimento.
Nesta nova era, nenhum país do mundo pode aspirar ser desenvolvido, soberano e
independente sem um sistema educacional forte. Do básico ao superior. Num mundo
em que o conhecimento é muito mais importante que os recursos materiais como
fator de desenvolvimento humano, a importância da educação é cada vez maior,
sendo, inclusive, instrumento de poder.
Fundamos há dez anos em Recife a Faculdade Maurício de Nassau. A primeira das
23 unidades que hoje fazem parte do Grupo Ser Educacional. Quando começamos,
eram apenas pouco mais de 600 alunos nos cursos de Direito, Administração,
Comunicação Social, Turismo, Sistema de Informação e Biomedicina.
Em pouco mais de três anos de existência, a Faculdade Maurício de Nassau se
consolidou como uma instituição de ensino focada em ministrar educação de
qualidade, e, ampliando e aperfeiçoando sua estrutura de gestão e governança
corporativa, implementou e consolidou o seu projeto de expansão, direcionando
suas ações para os principais municípios do Norte e Nordeste do Brasil.
E assim começamos a crescer, expandindo nossas atividades para todas as
capitais do Nordeste. Hoje possuímos unidades em todos os estados do Nordeste e
em dois do Norte, acompanhando o crescimento destas regiões e visualizando um
público que busca, cada vez mais, a educação como única oportunidade de
mobilidade social e de mudança.
A inspiração do Grupo Ser Educacional é congregar e manter algumas das
melhores instituições de ensino superior em atuação no Nordeste e Norte do Brasil.
Durante esses dez anos de trabalho árduo e extenuante, mantivemos o nosso objetivo
inicial de oferecer educação de qualidade com foco no mercado regional, e assim tem
sido durante todo esse período. Todas as instituições do Grupo que foram criadas
organicamente, ou adquiridas há mais de três anos, estão ranqueadas entre as
melhores instituições de ensino superior da região, com indicador satisfatório de
qualidade criado pelo Ministério da Educação.
Por outro lado, passados dez anos de atuação, mantivemos nossos vetores de
liderança para decidir, inovar e reinventar; competência de articular e mobilizar
conhecimento, experiências, habilidades e atitudes; ousadia para empreender,
construir e gerar riquezas com responsabilidade; e a solidez de um grupo que se
tornou firme e estável. E não pensamos em parar.
Quando digo que não pensamos em parar, é porque enxergamos que ainda
podemos crescer muito mais. A realização do ipo do Grupo Ser, com o início das
negociações de nossas ações no novo mercado da BM&F Bovespa, é um marco
importante de nossa história, e contribuirá, sobremaneira, para que possamos
implementar nossas estratégias de crescimento e aumentar nossa capacidade de
ajudar o país a educar e qualificar a mão de obra de seu povo.
Em paralelo, ampliaremos nossas atividades sociais. O Grupo Ser sempre atuou
fortemente com projetos sociais nas comunidades onde suas unidades estão
inseridas, um trabalho realizado, com louvor, através do Instituto Ser Educacional.
São inúmeros projetos e parcerias junto à população carente, desde atendimento
jurídico, fisioterápico e odontológico gratuitos até campanhas de doação de órgãos e
tecidos, alimentos, livros e brinquedos para os menos assistidos.
De maneira que quero, em primeiro lugar, agradecer a Deus e aos meus
familiares por este momento singular de estar aqui, hoje, dia 29 de outubro de 2013,
colocando o Grupo Ser Educacional no mercado de capitais perante a BM&F Bovespa.
Momento esse que representará um divisor de águas na história do grupo e por que
não dizer na história da educação do Norte e Nordeste do Brasil. Em segundo lugar,
agradecer a todos os nossos colaboradores, professores e alunos. Em terceiro lugar,
aos advogados que participaram do processo, em especial ao escritório Pinheiro
Neto. E em quarto lugar a todos os bancos, BTG Pactual, Credit Swisse, Santander e
Goldman Sachs.
Muito obrigado a todos que acompanham e acompanharão a nossa trajetória. A
todos que acreditaram e acreditam no grupo, reafirmo aqui o compromisso de que, a
partir de hoje, iniciaremos uma nova fase de crescimento sustentável na promoção
de educação de qualidade no afã de colaborar com o desenvolvimento
socioeconômico de nosso Brasil.
Muito obrigado e que Deus abençoe a todos.
Janguiê Diniz,
Fundador do Grupo Ser Educacional
2013 – Durante discurso na BM&FBOVESPA
Cidadão do Brasil
Talvez por conta das minhas errâncias, nomadismos, persistências
profissionais, acadêmicas e empreendedoras, as minhas carreiras,
a jurídica e a educacional, me permitiram ser agraciado com vários
prêmios. Entre eles, recebi, com muito orgulho e gratidão, os
títulos de cidadão de cidades como Recife, João Pessoa, Natal,
Campina Grande, Salvador e também do estado de Pernambuco.
Aprendi a amar cada uma dessas cidades, como amava a minha
Santana dos Garrotes, minha Naviraí e minha Pimenta Bueno. E
todas elas me deram a oportunidade de crescer e ser quem sou
hoje. Seguindo aquele sol nordestino da minha infância; porque o
sol que nos alumia é também o mesmo sol visto e comparado com
a ideia do bem, da luz, do alumbramento, na alegoria filosófica de
Platão; talvez porque, humildemente, pus os pés, cravei n’alma,
meu coração no céu, no sol e no chão de cada uma destas cidades,
os meus sonhos.
Tornei-me um filho do Recife em 2000. Uma cidade
monumental, de tantos sonhos, de tantos heróis, de tantas
batalhas, a cidade de tantos encantos. Onde a cultura transcreve a
multiplicidade de gestos criados no folclore de Ariano Suassuna,
na pessoa de Capiba, nas figuras contagiantes do frevo e do
maracatu carnavalesco.
No ano seguinte, 2001, fui declarado cidadão pernambucano. E
para recordar o passado, devo parafrasear Brandão, que, ao
escrever o hino do estado, compôs a história na frase que aqui
reproduzo: “De um povo que altivo descansa, como atleta depois
de lutar, no passado o teu nome era um mito, era o sol a brilhar no
infinito, era a glória na terra a brilhar”. Como uma valsa, essas
linhas assentam no meu coração o nome que eternizo de um
imortal estado, do meu imortal Pernambuco!
A capital da minha Paraíba me declarou cidadão em 2011. Aos
catorze anos, quando parti e voltei para o Nordeste, ouvia ao longe
uma canção de Caetano Veloso que ficou martelando na minha
cabeça e que, vez por outra, aparece para me jogar na cena chorosa
da minha primeira “triste partida”; que me faz lembrar o dia em
que deixei, pequenino, a minha cidade natal: “Eu não estou indo-
me embora. Estou preparando a hora de voltar”. Voltei para meu
estado natal e lá fui muito feliz.
Em 2012, recebi o título de cidadão soteropolitano. São
Salvador da Bahia de Todos os Santos, centro da cultura afro-
brasileira, que se destaca pela sua arte, a sua cultura, a
gastronomia, a música, a arquitetura, a contagiantealegria e
solidariedade do seu povo, tão bem retratadas nas belíssimas
canções compostas por Dorival Caymmi.
O título de cidadão natalense veio em 2013. Natal, a cidade do
sol, das grandes dunas de areia. Natal de Augusto Severo, o mártir
da tecnologia aeronáutica, abolicionista, líder político, deputado
federal e inventor dos balões semidirigidos. Natal é muito mais que
suas belas praias e paisagens, seus monumentos históricos que
entretêm e deslumbram seus turistas e moradores.
Recebi com orgulho e gratidão cada um desses títulos. Seja pela
dedicação, seja pelo trabalho realizado através das instituições de
ensino ou por qualquer outro motivo, sinto-me imensamente
gratificado principalmente por saber que venho cumprindo com
meu propósito de vida ao difundir a educação e melhorar o país.
Sou cidadão pernambucano, recifense, natalense,
soteropolitano, pessoense com muito orgulho e satisfação. E que
venham muitos outros. Mas, acima de tudo, sou cidadão do Brasil.
Acima: Recebimento do Prêmio ISS, com o prefeito do
Recife, Geraldo Júlio, e o empresário João Carlos Paes
Mendonça. À esquerda: recebimento dos títulos de
Cidadão Natalense e Pernambucano, respectivamente. À
direita: recebimento do título de Cidadão de Salvador
A lista da Forbes
Encerro este livro falando sobre a inclusão do meu nome na famosa
lista de bilionários da revista Forbes.
Foi com grande surpresa que, em meados de junho de 2014,
recebi a ligação de um repórter informando que, na edição
seguinte da revista, meu nome seria incluído no ranking de
bilionários daquela publicação, e fui questionado se concordaria
em dar uma entrevista. Perguntei a ele se caso eu não concedesse a
entrevista a matéria seria ainda publicada. A resposta foi enfática:
falando ou não, a matéria sairia, pois o dado havia sido coletado
nas informações públicas da Bovespa. Diante dessa informação,
decidi falar e contar um pouco de como foi a minha luta e minha
trajetória até chegar à Forbes.
Conheço a revista há anos, não apenas pelas listas que ela
costuma publicar, mas também porque é uma publicação sobre
negócios e a economia americana que traz artigos e reportagens
originais sobre finanças, indústria, investimento e marketing.
Também sei que eles elaboram o ranking de bilionários de acordo
com o patrimônio pessoal conquistado por cada pessoa,
principalmente daquelas que detêm ações nas bolsas de valores do
mundo inteiro. É comum que empresários acompanhem as
edições. Na semana anterior ao primeiro contato do repórter, os
papéis do Grupo Ser Educacional, do qual sou dono de pouco mais
de 70% das ações, tinham ultrapassado a marca de 1,5 bilhão de
dólares, chamando a atenção dos editores da Forbes.
Sempre quis construir um grande grupo educacional, mas
nunca almejei ser rico, muito menos bilionário. Tudo que
conquistei na vida foi fruto dos estudos e desde pequeno entendi
que estudar era a única forma de mudar a minha vida e a de minha
família. E venho difundindo esta filosofia por onde ando. Entendo
que a única forma de mobilidade social é através da educação. Nas
condições em que eu vivia, não poderia pagar uma faculdade
particular; então precisei me dedicar e traçar metas para entrar em
uma faculdade pública. Foi estudando que consegui me formar em
Direito e Letras, fazer pós-graduação, mestrado e doutorado, e,
por fim, construir o Grupo Ser Educacional.
Esse é meu principal conselho: estudar sempre e cada vez mais.
Além disso, é preciso determinação, persistência e um pouco de
sorte. O que eu almejava quando criei a empresa Bureau Jurídico,
embrião da Faculdade Maurício de Nassau, era ajudar outros alunos
e profissionais do Direito a passar nos concursos da magistratura e
do Ministério Público. Depois, com a criação da Faculdade
Maurício de Nassau, eu desejava dar mais oportunidades aos jovens
de cursar o ensino superior. Mas tendo sempre em mente que a
empresa tinha que ter sustentabilidade financeira.
Se tivesse que me definir, diria que sou um “superador” de
adversidades. Acredito que minhas maiores virtudes são a
determinação, a persistência e a obstinação. Traço uma meta e
trabalho para atingi-la, custe o que custar. Nunca pensei em
desistir em nenhum de meus empreendimentos. Cada erro
cometido se tornou uma experiência e aprendizado para não errar
novamente.
Acredito que a inclusão do meu nome na lista de bilionários da
Forbes seja o resultado de muito trabalho e esforço. Minha infância
e adolescência foram assim. Por sinal, eu ainda trabalho cerca de
quinze horas por dia. Costumo dizer que é agora, aos cinquenta
anos, que estou começando o projeto do empreendedorismo
educacional.
Para aqueles que desejam ser empreendedores, deixo alguns
conselhos: em primeiro lugar, é preciso sonhar e lutar para tornar
seu sonho realidade. Ser ousado e corajoso. Ter determinação,
obstinação e persistência. E procurar munir-se de profundo
conhecimento sobre a atividade em que pretende atuar. Muita
gente acredita que o empreendedorismo é algo intrínseco às
pessoas e acaba colocando o conhecimento em segundo lugar. Erro
crasso. Muitos têm vontade de abrir o próprio negócio, mas
acabam desistindo por medo de fracassar, em virtude da falta de
conhecimento sobre a atividade. Para que o leitor nunca mais se
esqueça deste conselho, conto aqui uma piada que considero
muito engraçada e ilustrativa. Um padre está dirigindo numa
estrada, quando vê uma freira no acostamento. Para e oferece
carona. A freira aceita. Ao entrar no carro, ela revela suas lindas
pernas ao cruzá-las. O padre não resiste e coloca a mão nas pernas
dela. Ela olha para o padre e diz: “Padre, lembre-se do Salmo 129”.
O padre, sem graça, responde “Desculpe-me irmã, é que a carne é
fraca”, e retira a mão. Novamente a freira diz: “Padre, lembre-se
do Salmo 129”. Chegando ao destino, a freira agradece a carona e o
padre corre para a Igreja, pega a Bíblia e procura o Salmo 129 para
ler. Lá é dito o seguinte: “Não desista, siga em frente, seja
persistente, mais acima encontrarás a glória do paraíso”. A
conclusão que se extrai é que se você não está bem informado nem
tem profundo conhecimento sobre o seu trabalho, sua atividade ou
seu empreendimento pode perder excelentes oportunidades.
Por fim, além disso, para empreender é preciso ter foco,
manter-se determinado em sua meta, esquivando-se de erros, que
podem ser fatais. Entretanto, caso venha a cometê-los, é essencial
tirar lições desses momentos para recomeçar mais forte, porque
devemos ter em mente que um erro cometido, bem como a
determinação e a persistência em evitá-lo, são a garantia de que
não o cometeremos novamente, e o acerto fica mais fácil de ser
atingido. Esta é uma lição que aprendi com um grande amigo e um
dos maiores empreendedores do Brasil, João Carlos Paes
Mendonça, fundador do Grupo Bompreço, que foi adquirido pelo
grupo Wallmart. João Carlos hoje está no ramo de shopping centers
e já construiu o terceiro maior grupo de shopping centers do Brasil.
JCPM, como é conhecido, me ensinou que o que caracteriza um
bom empreendedor é a vocação e o foco no que faz. Deve ser ético,
ter vontade de trabalhar, ser austero nos gastos, persistente,
assumir riscos, ter paixão pelo que faz, respeitar as pessoas e gostar
delas. Segundo ele, a história de um empreendedor de sucesso não
é feita só de acertos. Ele valoriza os erros como aprendizado para
fazer mais e melhor. Ele mesmo afirma que errou quando
diversificou os investimentos e perdeu o foco. Errou ao entrar em
outros estados sem conhecer a cultura local e devido à dificuldade
de logística.
Nessa perspectiva, ouso afirmar que, aos cinquenta anos, estou
entrando na segunda fase da minha vida. E graças ao estudo e ao
trabalho diuturno, árduo e extenuante, construí uma trajetória de
conquistas e sucesso. Muitos dizem que já está na hora de eu parar
de trabalhar ou pelo menos diminuir o ritmo. Entretanto, não
tenho a intenção de parar. Muito pelo contrário, agora é que vou
começar a trabalhar de verdade. Trabalhar e criar coisas e
empreendimentos são algumas das minhas paixões.Ainda sou
jovem, tenho metade da vida pela frente e muito para fazer pelo
desenvolvimento do Brasil. E se Deus quiser, permitir e me der
forças, continuarei fazendo. Continuarei lutando, com muita ética
e honestidade, para ampliar o número de instituições de ensino no
Brasil e o número de vagas nas universidades brasileiras; para
educar e qualificar mais e mais o povo de nosso país. E nos
próximos quatro volumes da minha biografia, contarei a vocês o
restante da minha trajetória, que espero ser uma trajetória de
contribuição para o Brasil.
Nunca sonhei em entrar na lista da Forbes. A minha entrada foi
apenas a consequência de um trabalho. Por fim, para aqueles que
sonham em construir um império, seja ele qual for, deixo aqui
quatro mensagens que sempre nortearam minha vida:
“Haverá um momento em que a porta se abrirá e deixará o futuro
entrar! Aproveite.”
Graham Greene
“O cavalo só passa selado uma vez. Quando ele passar, devagar ou
correndo, pule em cima dele, pois não terá uma segunda chance.”
Provérbio popular
“Toda manhã na África uma gazela acorda. Ela sabe que deverá correr
mais do que o leão ou morrerá, pois será comida por ele. Toda manhã na
África um leão acorda. Ele sabe que deverá correr mais do que a gazela
ou morrerá de fome. Conclusão: quando o sol nascer, não importa se
você é um leão ou uma gazela. É melhor começar a correr.”
(Autor desconhecido)
“Hoje levantei cedo pensando no que tenho a fazer antes que o relógio
marque meia-noite. É minha função escolher que tipo de dia vou ter
hoje.
Posso reclamar porque está chovendo… Ou agradecer às águas por
lavarem a poluição.
Posso ficar triste por não ter dinheiro… Ou me sentir encorajado
para administrar minhas finanças, evitando o desperdício.
Posso reclamar sobre minha saúde… Ou dar graças a Deus por estar
vivo.
Posso me queixar dos meus pais por não terem me dado tudo o que
eu queria… ou posso ser grato por ter nascido.
Posso reclamar por ter que ir trabalhar… ou agradecer por ter
trabalho.
Posso sentir tédio com as tarefas da casa… ou agradecer a Deus por
ter um teto para morar.
Posso lamentar decepções com amigos… ou me entusiasmar com a
possibilidade de fazer novas amizades.
Se as coisas não saíram como planejei, posso ficar feliz por ter hoje para
recomeçar. O dia está na minha frente esperando para ser o que eu
quiser. E aqui estou eu, o escultor que pode dar forma. Tudo depende só
de mim.”
Charles Chaplin
Janguiê por Janguiê
Durante todo o livro contei minha história e como cheguei onde
cheguei nesta vida. Mas, como Janguiê definiria o Janguiê?
Não concebo uma vida sem trabalhar e acho que não me
acostumaria a viver sem trabalho. Ainda me considero muito
jovem, tenho muito para fazer pelo desenvolvimento do Brasil e,
em especial, pela educação.
Há anos minha rotina de trabalho é a mesma. Acordo todos os
dias por volta das 6h00 e começo cuidando do corpo e da mente,
faço musculação e, quando posso, costumo jogar vôlei. Além disso,
leio muito, sobre tudo. A informação é um diferencial para
qualquer profissional.
A minha rotina de trabalho tem início aos domingos à noite,
quando faço o cronograma da semana, escrevo alguns textos que
publico no meu blog, delego as atividades para a minha equipe e
cobro o resultado das atividades já delegadas. Aliás, devo abrir um
parêntese para falar que se não fosse pelo profissionalismo e
dedicação de toda a equipe de executivos e colaboradores do Ser
Educacional, o grupo não estaria onde está hoje.
Claro que quando estamos à frente de um grande grupo, como
o Ser Educacional, a rotina não é exatamente previsível. Sempre
acontece uma viagem inesperada ou algum evento não
programado. No entanto, tento, ao máximo, seguir um
cronograma.
Na minha vida, seja pessoal ou profissional, tenho alguns
princípios que me guiam e que foram absorvidos pelo Grupo Ser
Educacional: Gandhi, há mais de sessenta anos, enunciou os sete
maiores males do mundo, que, se não forem combatidos, levam à
destruição dos seres humanos: política sem princípios; riqueza
sem trabalho; comércio sem moralidade; prazer sem consciência;
educação sem formação de caráter; ciência sem humanidade; e
veneração sem sacrifício.
Aprendi com Gandhi e fiz de seus enunciados os princípios e
valores que orientam minha vida e minhas ações: política com
princípios; riqueza com trabalho; comércio com moralidade;
prazer com consciência; educação com formação de caráter;
ciência com humanidade; e veneração com sacrifício.
Me defino como um obstinado, determinado e “superador” de
adversidades. Ao mesmo tempo, valorizo imensamente minha
família. Levo minha mãe como exemplo de superação, pois,
durante mais de quinze anos, ela foi portadora do vírus da Hepatite
C e passou por vários tratamentos, que sempre causaram fortes
efeitos colaterais, mas nunca fizeram efeito contra o vírus. No
entanto, em 2014, tivemos a possibilidade de trocar o
acompanhamento médico e conhecer novos tratamentos, com
medicações importadas que prometiam menos efeitos colaterais
durante a manipulação. Foram longos meses aguardando até a
finalização de todo o tratamento e a realização de novos testes,
que, para alegria de toda a nossa família, deram negativo para o
vírus. Mesmo sendo necessário repetir o exame daqui a alguns
meses, é maravilhosa a sensação de alívio e de saber que ela está
curada e poderá ter mais qualidade de vida.
Acredito que minhas maiores virtudes são persistência,
determinação e obstinação. Traço uma meta e trabalho para atingi-
la, custe o que custar. Se me perguntarem pelos meus defeitos, eu
diria que são trabalhar demais, ser muito otimista e ser um
sonhador. Mas, sem essas três características, eu não seria eu.
Aos cinquenta anos escrevo uma biografia com histórias que
começaram na minha infância. Espero, daqui há dez anos, poder
escrever uma continuação deste livro, contando o crescimento do
Ser Educacional, a origem de outros empreendimentos que
pretendo criar, bem como falar sobre o fortalecimento da educação
brasileira e do próprio Brasil. Aos setenta e aos oitenta, se Deus me
der vida, escreverei a conclusão desta história. E, quem sabe,
pensarei em me aposentar aos noventa anos…
“Falar de meu irmão mais velho é ao mesmo tempo fácil e também muito difícil.
Difícil porque para explicar em poucas linhas a trajetória de um homem de sucesso,
um espelho para mim e para meus familiares, é deveras complicado, e fácil porque
falar da pessoa Janguiê é um prazer.
Aqui irei pular a parte difícil, isto é, não vou falar de sua trajetória, ou dos
últimos vinte anos em que estou ao seu lado na área profissional, participando de
seus projetos, empreendimentos e acima de tudo de seus sonhos. Falo apenas o que
vem do coração e deixo as letras me levarem.
Aqueles que não o conhecem dizem que ele é uma pessoa exigente, difícil e até
mesmo autoritária, mas o que dizer de um homem que lutou e luta todos os dias com
perseverança, criando dezenas de negócios? Errou em vários deles (e em sua
biografia ele conta esses episódios), mas quem nunca errou jamais irá acertar. Mas,
acima de tudo, alguns dizem que ele tem “o dom”, o dom de empreender, de criar e
de conquistar.
O que dizer de um homem que estudava mais de oito horas por dia sonhando em
passar em um concurso e acabou passando em vários? Um homem que até hoje
trabalha até quinze horas por dia. O que dizer de um homem que além de cuidar de
seus filhos e esposa sempre esteve ao lado da família, não deixando que nenhum
problema nos separasse? Aquele que sempre foi um segundo pai, cuidando de seus
irmãos e até mesmo de vários amigos aos quais ajuda, mas não gosta de que falem
sobre isso.
Eu sei o que dizer, e digo: obrigado. Obrigado pelo amigo que sempre foi,
obrigado pela pessoa que você é, obrigado por ter me ensinado a ser quem eu sou
hoje (e ai já se vão vinte anos trabalhando juntos), obrigado por poder lhe chamar de
irmão, e, acima de tudo, obrigado por ser um pai quando precisamos.
Te amo, maninho…”
Joaldo Diniz, irmão
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Falta da educação gera corrupção
Diniz, Janguiê
9788542814842
256 páginas
Compre agora e leia
Sabe-se que a corrupção é parte da natureza humana e sempre
existiu em todos os tempos e culturas, tanto nos países
desenvolvidos como nos países em desenvolvimento, afetando
negativamente a efetividade das políticas públicas e o crescimento
econômico. O que varia são as consequências – para o corrupto e
para a sociedade em que ele vive.Segundo análise do projeto da
ONG Transparência Internacional, sobre o Índice de Percepção da
Corrupção, que classi¬fica os países e territórios com base em quão
corrupto seu setor público é percebido, o Brasil ¬ficou em 69º lugar,
empatado com a África do Sul e a Macedônia, dentre 176 países
avaliados.Não dá para desassociar a educação da corrupção. Os
dados do Índice de Percepção de Corrupção Mundial são claros em
a¬firmar que os países com menores índices de educação e
igualdade tendem a ter as maiores taxas de corrupção.
Especi¬ficamente no setor de educação, a corrupção é capaz de
limitar a acumulação de capital humanoe, em longo prazo, afetar
toda a estrutura de desenvolvimento da sociedade.O único meio
conhecido de vencer defeitos e falhas humanas é a educação.
Educar para que haja respeito; para que nos encaremos com
igualdade, fraternidade e solidariedade.
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	Rosto
	Sumário
	Irmão, parceiro e amigo, por Jânyo Diniz
	Prefácio, por André Esteves
	Apresentação
	PARTE I
	A pequena Santana dos Garrotes
	Naviraí, a primeira mudança e os primeiros empreendimentos
	A mudança para Pimenta Bueno
	A volta para a Paraíba
	A chegada ao Recife
	PARTE 2
	A primeira grande alegria: o vestibular de Direito da UFPE
	Um novo empreendimento: a empresa de cobrança Praxis
	De volta aos negócios: a empresa Janguiê Cobranças
	As graduações
	O encontro com o amor
	A carreira da magistratura e a docência
	O nascimento dos herdeiros
	O Ministério Público do Trabalho e os primeiros empreendimentos educacionais
	O despertar de um escritor
	Juiz versus procurador: uma decisão difícil
	Alunos e parceiros de vida
	Mestre e doutor em Direito
	PARTE 3
	O sonho de criar uma instituição de ensino superior
	A abrafi e a abmes
	A marca Ser Educacional e o crescimento da Maurício de Nassau
	O empreendedor nunca para
	Em busca de um sonho
	Campanha na rua
	A hora de expandir
	PARTE 4
	A Faculdade Joaquim Nabuco
	A mudança de faculdade para centro universitário e o curso de Medicina
	A responsabilidade social
	O Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau
	Uma empresa na Bolsa de Valores
	Cidadão do Brasil
	A lista da Forbes
	Janguiê por Janguiê

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