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DEFINIÇÃO DE HAS Entender a hipertensão arterial sistêmica como causa da doença renal crônica: A hipertensão arterial (HA) é uma doença crônica não transmissível (DCNT). Trata-se de uma condição multifatorial, que depende de fatores genéticos / epigenéticos, ambientais e sociais, caracterizada por elevação persistente da pressão arterial (PA), ou seja, PA sistólica (PAS) maior ou igual a 140 mmHg e/ou PA diastólica (PAD) maior ou igual a 90 mmHg, medida com técnica correta, em pelo menos duas ocasiões diferentes na ausência de medicação anti- hipertensiva. Por se tratar de condição frequentemente assintomática, a HA costuma evoluir com alterações estruturais e/ou funcionais em órgãos-alvo, como coração, cérebro, rins e vasos. Ela é o principal fator de risco modificável com associação independente, linear e contínua para doenças cardiovasculares (DCV), doença renal crônica (DRC) e morte prematura. Associa-se a fatores de risco metabólicos para as doenças dos sistemas cardiocirculatório e renal, como dislipidemia, obesidade abdominal, intolerância à glicose, e diabetes melito (DM). A avaliação inicial de um paciente com hipertensão arterial (HA) inclui a confirmação do diagnóstico, a suspeita e a identificação de causa secundária, além da avaliação do risco cardiovascular (CV). As lesões de órgão-alvo (LOA) e as doenças associadas também devem ser investigadas. Fazem parte dessa avaliação: a medida da pressão arterial (PA) no consultório e/ou fora dele, utilizando-se técnica adequada e equipamentos validados e calibrados, a obtenção de história médica (pessoal e familiar), a realização de exame físico e a investigação clínica e laboratorial. Propõem-se avaliações gerais a todos os hipertensos e avaliações complementares apenas para grupos específicos. CLASSIFICAÇÃO Os limites de PA considerados normais são arbitrários. São considerados hipertensos os indivíduos com PAS ≥ 140 mmHg e/ou PAD ≥ 90 mmHg. Quando utilizadas as medidas de consultório, o diagnóstico de HA deverá ser sempre validado por medições repetidas, em condições ideais, em duas ou mais visitas médicas em intervalo de dias ou semanas; ou de maneira mais assertiva, realizando-se o diagnóstico com medidas fora do consultório (MAPA ou MRPA), excetuando-se aqueles pacientes que já apresentem LOA ou doença CV. Define-se a classificação de acordo com a PA do consultório e pelo nível mais elevado de PA, sistólica ou diastólica. Geovana Cavalcante - 7ºP - UNIVSF AVALIAÇÃO CLÍNICA DA HAS A avaliação clínica do paciente hipertenso deve ser feita seguindo-se o método tradicional, constituído por anamnese, exame físico e laboratorial. O seguimento de todas as etapas permitirá o diagnóstico correto da hipertensão arterial (HA) e estratificar o risco cardiovascular e renal, contribuindo para estabelecer a estratégia terapêutica mais adequada. As cores expressam o prognóstico renal e a conduta. O verde indica bom prognóstico e baixo risco; o amarelo, risco intermediário, devendo-se monitorizar o paciente; o laranja, alto risco, mau prognóstico, com obrigatoriedade de referenciar para o especialista; e o vermelho, risco muito alto, mau prognóstico e obrigatoriedade de referenciar para o especialista. Com relação à avaliação renal: • Recomenda-se que o laboratório de análises clínicas disponibilize o resultado do exame de dosagem de creatinina acompanhado do resultado do RFG-e; • Não recomendamos a dosagem de clearance de creatinina (urina de 24h), exceto para alteração significativa da massa muscular, superfície corporal de extremos e instabilidade clínica; • Recomenda-se que se investigue a proteinúria/albuminúria utilizando-se pela ordem de importância: razão albuminúria/creatininúria (RAC), razão proteinúria/creatininúria (RPC); urinálise por fita de proteinúria total com leitura automática e urinálise por fita de proteinúria total com leitura manual. Recomenda-se que os laboratórios clínicos relatem RAC e RPC de qualquer amostra de urina e não apenas suas concentrações. Lesões em Órgãos-Alvo A estimativa de risco no paciente hipertenso deve ser complementada pela identificação da presença de LOA, Para a avaliação da função renal, devemos obter o ritmo de filtração glomerular calculado pelas fórmulas do Modification of Diet in Renal Diseases (MDRD) ou, preferencialmente, pelo Chronic Kidney Diseases Epidemiology Collaboration (CKD-EPI), que podem ser obtidas no site http://mdrd.com/. Em faixas etárias mais jovens, a PA é mais elevada entre homens, mas a elevação pressórica por década se apresenta maior nas mulheres. Assim, na sexta década de vida, a PA entre as mulheres costuma ser mais elevada e a prevalência de HA, maior. Em ambos os sexos, a frequência de HA aumenta com a idade, alcançando 61,5% e 68,0% na faixa etária de 65 anos ou mais, em homens e mulheres, respectivamente. que são frequentes, muitas vezes subdiagnosticadas, não estando geralmente incluídas nos escores de estratificação de risco. Elas causam aumento adicional do risco CV, notadamente quando várias coexistem no mesmo indivíduo. Mecanismos de lesão renal pela hipertensão arterial: Considerando que uma parcela dos pacientes com hipertensão pode desenvolver dano renal progressivo, propõem-se dois mecanismos sinérgicos como causa da lesão renal: 1. Isquemia glomerular em decorrência do estreitamento progressivo da luz de arteríolas pré - glomerulares secundário a arteriosclerose hialina e hipertrofia da camada média desses vasos em virtude de lesão mecânica direta da elevação sustentanda da hipertensao arterial, levando a insuficiência renal por isquemia renal. 2. Redução no número de néfrons decorrentes de isquemia glomerular, induzindo, assim, uma adaptação nos néfrons remanescentes com vasodilatação da arteríola aferente e transmissão da hipertensão sistêmica diretamente para os glomérulos ocasionando hipertensão intraglomerular, hiperfiltração glomerular e esclerose glomerular. Outra hipótese é que o aumento da pressão intraglomerular em hipertensos poderia também ocorrer por falha no mecanismo de autorregulação renal, com diminuição da resistência da arteríola aferente e transmissão da hipertensão sistêmica para o glomérulo. Para preservar a função renal em um contexto de perda crônica de néfrons: • A taxa de filtração por néfron aumenta até onde é fisicamente possível; • A função tubular aumenta na medida exata necessária para atender as necessidades do organismo, até atingir o limite permitido pela capacidade funcional de suas células. DOENÇA RENAL CRÔNICA A Doença Renal Crônica (DRC) é definida como lesão do parênquima renal ca- racterizada por alterações estruturais ou funcionais, com ou sem diminuição da taxa de filtração glomerular (TFG), demonstrada por anormalidades histopatológicas ou marcadores de lesão renal (alterações sanguíneas ou urinárias e ainda exames de imagem), presentes por período mínimo de 3 meses. A fisiopatologia da DRC caracteriza-se por dois amplos grupos de mecanismos lesivos: (1) mecanismos iniciais específicos da etiologia subjacente (p. ex., anormalidades do desenvolvimento ou da integridade renal, deposição de imunocomplexos e inflamação em alguns tipos de glomerulonefrite, ou exposição a toxinas em algumas doenças dos túbulos e do interstício renais); e (2) hiperfiltração e hipertrofia dos néfrons viáveis remanescentes, que são uma consequência comum da redução da massa renal a longo prazo, independentemente da etiologia subjacente e que leva ao declínio adicional da função renal. As respostas à redução da quantidade de néfrons são mediadas por hormônios vasoativos, citocinas e fatores de crescimento. Por fim, essas adaptações de curto prazo (hiperfiltração e hipertrofia) para manter a TFG tornam-se mal- adaptativas à medida que a pressão e o fluxo sanguíneo aumentados dentro do néfron predispõem à distorção da arquiteturados glomérulos, função anormal dos podócitos e rompimento da barreira de filtração, levando à esclerose e à destruição dos néfrons remanescentes. O aumento da atividade intrarrenal do sistema renina- angiotensina (SRA) parece contribuir para a hiperfiltração compensatória inicial e para a subsequente hipertrofia e esclerose mal adaptativas. Esse processo explica por que a redução da massa renal secundária a uma agressão isolada pode levar ao declínio progressivo da função renal ao longo de muitos anos. Compreender a apresentação clínica e laboratorial da doença renal crônica (TFG e Função Renal): A uremia causa distúrbios funcionais em quase todos os sistemas do organismo. HOMEOSTASIA DO SÓDIO E DA ÁGUA Na maioria dos pacientes com DRC estável, as quantidades corporais totais de sódio e água mostram-se moderadamente aumentadas, embora isto possa não ser perceptível ao exame clínico. A função renal normal assegura que a reabsorção tubular do sódio e da água filtrados seja ajustada de forma que a excreção urinária fique igual à ingestão total. Alguns tipos de doença renal (p. ex., glomerulonefrite) desvirtuam esse equilíbrio glomerulotubular de tal modo que a ingestão dietética de sódio seja maior que sua excreção urinária, resultando na retenção de sódio e consequente expansão do volume do líquido extracelular (VLEC). Isso pode contribuir para a hipertensão que, por si própria, pode acelerar a lesão dos néfrons. Enquanto a ingestão de água não for maior que sua capacidade de eliminação, a expansão do VLEC será isotônica e o paciente terá concentração plasmática de sódio e osmolalidade efetiva normais. A hiponatremia não é comum nos pacientes com DRC, mas quando presente pode melhorar com a restrição de água. Se o paciente tiver indícios de expansão do VLEC (edema periférico, às vezes com hipertensão pouco responsiva ao tratamento), ele deve ser orientado a fazer restrição de sal. Os diuréticos tiazídicos têm pouca utilidade nos estágios 3 a 5 da DRC, de modo que a administração dos diuréticos de alça (como furosemida, bumetanida ou torasemida) também pode ser necessária. A combinação dos diuréticos de alça com a metolazona, que inibe o cotransportador de sódio-cloreto do túbulo contorcido distal, pode ajudar a aumentar a excreção renal de sal. Com a DRC avançada, a resistência persistente aos diuréticos com edema e hipertensão tratáveis pode ser um indício da necessidade de iniciar a diálise. HOMEOSTASIA DO POTÁSSIO Com a DRC, o declínio da TFG não se acompanha necessariamente da redução correspondente da excreção urinária de potássio, que é mediada predominantemente pelas respostas secretoras aldosterona-dependentes nos segmentos distais dos néfrons. Nesses pacientes, outra defesa contra a retenção de potássio é o aumento da sua excreção pelo trato GI. Apesar dessas duas respostas homeostáticas, a hiperpotassemia pode ser desencadeada em algumas situações, inclusive com o aumento da ingestão dietética de potássio, o catabolismo proteico, a hemólise, a hemorragia, a transfusão de hemácias estocadas e a acidose metabólica. Além disso, diversos fármacos podem inibir a excreção renal do potássio: os inibidores da enzima conversora da angiotensina (ECA), os bloqueadores dos receptores da angiotensina (BRA), a espironolactona e outros diuréticos poupadores de potássio, inclusive amilorida, eplerenona e triantereno. A hipopotassemia não é comum na DRC e geralmente reflete as reduções extremas da ingestão dietética de potássio, principalmente quando associadas ao tratamento diurético excessivo ou às perdas GI concomitantes. A hipopotassemia também pode ser devida à perda renal primária de potássio associada às outras anormalidades do transporte de solutos, como a síndrome de Fanconi, a acidose tubular renal ou outros tipos de doença tubulointersticial hereditária ou adquirida. Entretanto, mesmo com essas doenças, a tendência à hipopotassemia diminui e o paciente pode desenvolver hiperpotassemia à medida que a TFG diminui. Por essa razão, a administração de suplementos de potássio e diuréticos poupadores de potássio deve ser reavaliada constantemente à medida que a TFG declina. ACIDOSE METABÓLICA Acidose metabólica é um distúrbio comum na DRC avançada. A maioria dos pacientes ainda consegue acidificar a urina, mas produz menos amônia e, por esta razão, não é capaz de excretar a quantidade normal de prótons em combinação com esse sistema de tamponamento urinário. Quando presente, a hiperpotassemia suprime ainda mais a produção de amônia. A combinação de hiperpotassemia com acidose metabólica hiperclorêmica é observada comumente, mesmo nos estágios iniciais (estágios 1 a 3), nos pacientes com nefropatia diabética ou nos indivíduos com doença predominantemente tubulointersticial ou uropatia obstrutiva; esta condição é conhecida como acidose metabólica sem ânion gap. A correção da hiperpotassemia pode aumentar a produção renal de amônia, ampliar a síntese renal de bicarbonato e melhorar a acidose metabólica. Com a deterioração da função renal, a excreção urinária total diária de ácidos geralmente fica limitada a 30 a 40 mmol e os ânions dos ácidos orgânicos retidos podem então causar acidose metabólica com ânion gap. DISTÚRBIOS DO METABOLISMO DO CÁLCIO E DO FOSFATO As principais complicações dos distúrbios do metabolismo do cálcio e fosfato associados à DRC ocorrem nos ossos e vasos sanguíneos, com envolvimento ocasionalmente grave dos tecidos moles extra-ósseos. É provável que os distúrbios do turnover ósseo e as calcificações dos vasos sanguíneos e dos tecidos moles estejam interrelacionados. MANIFESTAÇÕES ÓSSEAS DA DRC As principais manifestações da doença óssea podem ser classificadas em dois tipos: alterações associadas ao turnover ósseo acelerado com níveis altos de PTH (como a osteite fibrose cística, uma lesão clássica do hiperparatireoidismo secundário); e anormalidades atribuídas ao turnover ósseo reduzido com níveis normais ou baixos de PTH (doença óssea adinâmica e osteomalácia). A fisiopatologia do hiperparatireoidismo secundário e da doença óssea consequente ao turnover acelerado está relacionada com o metabolismo mineral anormal em razão dos seguintes fatores: (1) a TFG declinante diminui a excreção de fosfato e, deste modo, causa retenção deste elemento; (2) o fosfato retido estimula o aumento da síntese de PTH e o crescimento das paratireoides; e (3) os níveis baixos de cálcio ionizado, resultantes da síntese reduzida de calcitriol pelos rins insuficientes, assim como a retenção de fósforo, também estimulam a produção de PTH. Os níveis baixos de calcitriol contribuem para o hiperparatireoidismo porque causam hipocalcemia e também por um efeito direto na transcrição dos genes do PTH. Essas alterações começam quando a TFG diminui a menos de 60 mL/min. O fator de crescimento fibroblástico 23 (FGF-23) faz parte de uma família de fosfatoninas que promovem a excreção renal do fosfato. Estudos recentes demonstraram que os níveis desse hormônio, que é secretado pelos osteócitos, aumentam nos estágios iniciais da evolução da DRC. O FGF-23 pode manter os níveis séricos normais do fosfato por no mínimo três mecanismos: (1) aumento da excreção renal de fosfato; (2) estimulação do PTH, que também aumenta a excreção renal de fosfato; e (3) supressão da síntese de l,25(OH)2D3, que diminui a absorção do fósforo no trato gastrintestinal. Curiosamente, os níveis altos do FGF-23 também é um dos fatores de risco independentes para hipertrofia do ventrículo esquerdo e mortalidade dos pacientes em diálise. Além disso, os níveis altos desse hormônio podem indicar a necessidade de intervenção terapêutica (p. ex., restrição da ingestão de fosfato), mesmo quando seus níveis séricos estão na faixa normal. CÁLCIO, FÓSFORO E SISTEMA CARDIOVASCULAR A hiperfosfatemia e a hipercalcemia estão associadas aoaumento das calcificações vasculares, mas não está claro se a mortalidade excessiva é mediada por este mecanismo. A gravidade da calcificação é proporcional à idade e à hiperfosfatemia e também está associada a níveis baixos de PTH e ao turnover ósseo reduzido. Nos pacientes com doença renal avançada, é possível que o cálcio ingerido não possa ser depositado nos ossos em vigência do turnover ósseo reduzido e, por esta razão, seja depositado nos tecidos extraósseos como os vasos sanguíneos e os tecidos moles. Nesse sentido, é interessante observar que também existe uma associação entre osteoporose e calcificações vasculares na população em geral. Por fim, evidências recentes indicam que a hiperfosfatemia pode provocar uma alteração na expressão dos genes das células vasculares e estimular a aquisição de um perfil semelhante ao dos osteoblastos, resultando em calcificações vasculares e até ossificação. A existência de DRC em qualquer estágio é um fator de risco importante para doença cardiovascular isquêmica como doenças coronariana, cerebrovascular e vascular periférica obstrutivas. A prevalência mais alta das doenças vasculares entre os pacientes com DRC deve-se aos fatores de risco tradicionais (“clássicos”) e não tradicionais (associados à DRC). Entre os fatores de risco tradicionais, estão a hipertensão, a hipervolemia, a dislipidemia, a hiperatividade simpática e a hiper- homocisteinemia. Os fatores de risco associados à DRC incluem anemia, hiperfosfatemia, hiperparatireoidismo, apneia do sono e inflamação generalizada. O estado inflamatório associado à perda da função renal é refletido pelos elevados níveis circulantes dos reagentes de fase aguda, como as citocinas inflamatórias e a proteína C-reativa, com reduções correspondentes dos “reagentes negativos da fase aguda” como albumina e fetuína séricas. O estado inflamatório parece acelerar a doença vascular obstrutiva e os níveis baixos de fetuína podem predispor às calcificações vasculares mais rápidas, principalmente na vigência de hiperfosfatemia. Outras anormalidades detectadas nos pacientes com DRC podem agravar a isquemia miocárdica, como a hipertrofia ventricular esquerda e doença da microvascular. DOENÇA VASCULAR ISQUÊMICA A reserva coronariana, definida como aumento do fluxo sanguíneo coronariano em resposta às demandas aumentadas, também fica reduzida. Há quantidades reduzidas de óxido nítrico disponível em razão da concentração elevada de dimetil-l-arginina assimétrica e da remoção mais rápida pelas espécies reativas do oxigênio. Além disso, a hemodiálise com seus episódios associados de hipotensão e hipovolemia pode agravar ainda mais a isquemia coronariana. Entretanto, curiosamente, o aumento mais expressivo da taxa de mortalidade cardiovascular dos pacientes em diálise nem sempre está relacionada diretamente com infartos agudos do miocárdio confirmados, mas sim com a insuficiência cardíaca congestiva e todas as suas consequências, inclusive morte súbita. Os níveis da troponina cardíaca frequentemente estão aumentados nos pacientes com DRC, embora sem qualquer indício de isquemia aguda. Isso dificulta o diagnóstico do infarto agudo do miocárdio nessa população. Pode ser necessário realizar várias dosagens e, quando as concentrações não se alteram, é possível que o paciente não tenha isquemia miocárdica aguda. Por outro lado, as elevações em dosagens repetidas sugerem lesão miocárdica. Por essa razão, a tendência dos níveis de troponina ao longo de algumas horas depois da apresentação clínica pode ser mais informativa que uma dosagem isolada indicando concentração alta. Curiosamente, os níveis consistentemente altos são um dos fatores prognósticos independentes para a ocorrência de complicações cardiovasculares nessa população. INSUFICIÊNCIA CARDÍACA A função cardíaca anormal resultante da isquemia miocárdica, da hipertrofia ventricular esquerda e da miocardiopatia avançada, somada à retenção de sal e água que pode ocorrer com a DRC, frequentemente causa insuficiência cardíaca ou até mesmo episódios de edema pulmonar. A insuficiência cardíaca pode ser devida à disfunção sistólica, diastólica ou ambas. Um tipo de edema pulmonar de “baixa pressão” também pode ocorrer na DRC avançada e evidencia-se por dispneia e distribuição do edema alveolar em padrão de “asa de morcego” na radiografia de tórax. Essa anormalidade pode ocorrer mesmo na ausência de sobrecarga de VLEC e está associada às pressões capilares pulmonares normais ou ligeiramente elevadas. Esse processo foi atribuído ao aumento da permeabilidade das membranas alveolocapilares em razão do estado urêmico e melhora com a diálise. Outros fatores de risco associados à DRC, como anemia e apneia do sono, podem contribuir para o risco de desenvolver insuficiência cardíaca. ANEMIA A anemia normocítica e normocrômica começa a partir do estágio 3 da DRC e está presente em quase todos os pacientes do estágio 4. A causa primária nos pacientes com DRC é a produção insuficiente de eritropoietina (EPO) pelos rins afetados. Outros fatores incluem deficiência de ferro, inflamação aguda ou crônica com aumento da demanda de ferro (“anemia da doença crônica”), hiperparatireoidismo grave com fibrose subsequente da medula óssea e abreviação da sobrevida das hemácias em condições urêmicas. Além disso, comorbidades como as hemoglobinopatias podem agravar a anemia. A anemia da DRC está associada a algumas consequências fisiopatológicas adversas, inclusive fornecimento e utilização reduzidos de oxigênio aos tecidos, aumento do débito cardíaco e dilatação e hipertrofia ventriculares. As manifestações clínicas incluem fadiga e diminuição da tolerância aos esforços, angina, insuficiência cardíaca, distúrbios da cognição e acuidade mental, bem como depressão das defesas contra infecção. Além disso, a anemia pode desempenhar um importante papel no atraso do crescimento das crianças com DRC. Embora alguns muitos pacientes portadores de DRC tenham mostrado que a anemia e a resistência à EPO exógena estão associadas a um prognóstico mais desfavorável, ainda não é possível definir as contribuições relativas do hematócrito baixo e da inflamação como causa de anemia. HEMOSTASIA ANORMAL Os pacientes nos estágios mais avançados da DRC podem ter prolongamentos do tempo de sangramento, atividade reduzida do fator III plaquetário, agregação e adesividade plaquetárias anormais, bem como consumo de protrombina alterado. As manifestações clínicas incluem tendência aumentada aos sangramentos e às equimoses, sangramento prolongado das incisões cirúrgicas, menorragia e sangramento GI espontâneo. Curiosamente, os pacientes com DRC também são mais suscetíveis à tromboembolia, principalmente se tiverem doença renal com proteinúria na faixa nefrótica. Essa última condição causa hipoalbuminemia e perda renal dos fatores anticoagulantes, que pode gerar um estado de trombofilia. ANORMALIDADES NEUROMUSCULARES Entre as complicações bem conhecidas da DRC, estão as doenças do sistema nervoso central (SNC), neuropatias periférica e autonômica, assim como as anormalidades da estrutura e função dos músculos. A retenção dos metabólitos nitrogenados e das moléculas intermediárias (como o PTH) contribui para a fisiopatologia dos distúrbios neuromusculares. As manifestações clínicas sutis da doença neuromuscular urêmica geralmente se tornam evidentes no estágio 3 da DRC. As primeiras manifestações das complicações relativas ao SNC incluem distúrbios discretos da memória e da concentração e anormalidades do sono. A irritabilidade neuromuscular evidenciada por soluços, cãibras e fasciculações ou abalos musculares torna-se mais evidente nos estágios mais avançados. Na insuficiência renal avançada sem tratamento, os pacientes podem ter asterixe, mioclonia, convulsões e coma. Em geral, a neuropatia periférica torna-se clinicamentedetectável depois que o paciente chega ao estágio 4 da DRC, embora as anormalidades eletrofisiológicas e histológicas apareçam nas fases mais precoces. Inicialmente, os nervos sensoriais são mais acometidos que os motores, os membros inferiores mais que os superiores e os segmentos distais dos membros mais que os proximais. A “síndrome das pernas inquietas” caracteriza-se por sensações mal definidas de desconforto ocasionalmente incapacitante nas pernas e nos pés, que é aliviado pelos movimentos frequentes. Se a diálise não for instituída logo depois do aparecimento das anormalidades sensoriais, os distúrbios motores começam em seguida, inclusive fraqueza muscular. Indícios de neuropatia periférica sem outra causa (p. ex., diabetes melito) são indicações inequívocas para iniciar o tratamento renal substitutivo. Algumas das complicações descritas antes regridem com a diálise, embora as anormalidades inespecíficas sutis possam persistir. O transplante renal bem-sucedido pode reverter as alterações neurológicas residuais. ANORMALIDADES GASTROINTESTINAIS E NUTRICIONAIS O hálito urêmico (odor de urina no ar exalado) é causado pela decomposição da ureia em amônia na saliva e geralmente está associado a um paladar metálico desagradável (disgeusia). Gastrite, doença péptica e ulceração em mucosas em qualquer nível do trato GI ocorrem nos pacientes urêmicos e podem causar dor abdominal, náuseas e vômitos e sangramento GI. Esses pacientes também são suscetíveis à constipação, que pode ser agravada pela administração dos suplementos de cálcio e ferro. A retenção das toxinas urêmicas também causa anorexia, náuseas e vômitos. A restrição proteica pode ajudar a atenuar as náuseas e os vômitos, mas também pode colocar o paciente sob risco de desnutrição e, se for possível, deve ser implementada em colaboração com um dieticista habilitado e especializado em pacientes com DRC. A desnutrição proteicocalórica secundária à baixa ingestão de proteínas e calorias é comum na DRC avançada e geralmente indica a necessidade de iniciar a terapia renal substitutiva. Além da ingestão reduzida, esses pacientes são resistentes às ações anabólicas da insulina e de outros hormônios e fatores de crescimento. A acidose metabólica e a ativação das citocinas inflamatórias podem predispor ao catabolismo proteico. A avaliação da desnutrição proteicocalórica deve começar no estágio 3 da DRC. Alguns indicadores facilitam essa avaliação, como a história da dieta e a avaliação global subjetiva; o peso corporal sem edema; e determinação do nitrogênio proteico urinário. Hoje, a absortiometria de raios X de energia dupla é amplamente utilizada para estimar a massa corporal magra em contraposição ao VLEC. Outros parâmetros úteis são os sinais clínicos, como a espessura da dobra cutânea, a circunferência muscular do terço médio do braço e outros exames laboratoriais como as dosagens da pré-albumina e do colesterol séricos. DISTÚRBIOS ENDÓCRINO- METABÓLICOS O metabolismo da glicose está alterado na DRC, conforme se evidencia pela redução da taxa com que os níveis da glicemia declinam depois da administração de uma carga de glicose. Entretanto, a glicose plasmática em jejum geralmente está normal ou ligeiramente elevada e a intolerância branda à glicose não requer tratamento específico. Como os rins contribuem para a remoção da insulina da circulação, os níveis plasmáticos deste hormônio ficam ligeira ou moderadamente elevados na maioria dos pacientes urêmicos, tanto em jejum quanto no estado pós-prandial. Em vista dessa redução da degradação renal da insulina, os pacientes tratados com este hormônio podem necessitar de reduções progressivas da dose, à medida que sua função renal deteriora. As doses de alguns agentes hipoglicemiantes devem ser reduzidas na insuficiência renal, enquanto outros (p. ex., metformina) estão contraindicados quando a TFG está abaixo de 50% do normal. Nas mulheres com DRC, os níveis do estrogênio são baixos e é comum observar anormalidades menstruais e incapacidade de levar as gestações ao termo. Quando a TFG cai a cerca de 40 mL/min, a gestação está associada aos índices elevados de abortamento espontâneo e apenas cerca de 20% das gestantes dão à luz a bebês vivos; além disso, a gravidez pode acelerar a progressão da própria doença renal. As mulheres com DRC que pretendem engravidar devem primeiramente consultar um nefrologista e um obstetra especializado em gestação de alto risco. Os homens com DRC têm concentrações plasmáticas baixas de testosterona e podem ter disfunção sexual e oligospermia. A maturação sexual pode ser retardada ou prejudicada nos adolescentes com DRC, mesmo que estejam sendo tratados com diálise. Algumas dessas anormalidades melhoram ou desaparecem com diálise intensiva ou transplante renal bem-sucedido. ANORMALIDADES DERMATOLÓGICAS As anormalidades cutâneas são prevalentes com a DRC progressiva. Prurido é muito comum e uma das queixas mais incômodas associadas à uremia. Com a DRC avançada, mesmo em diálise, os pacientes podem ficar mais pigmentados e isto parece refletir a deposição dos metabólitos pigmentados (ou urocromos). Embora algumas dessas anormalidades cutâneas melhorem com diálise, o prurido geralmente é persistente. As primeiras intervenções terapêuticas são excluir outros distúrbios cutâneos não relacionados, como escabiose, e tratar a hiperfosfatemia, que pode causar prurido. Inicialmente, alguns relatos indicaram que o tratamento com EPO melhorava o prurido cutâneo, mas isto nem sempre ocorre. Os agentes umectantes tópicos, os glicocorticoides tópicos suaves, os anti- histamínicos orais e a radiação ultravioleta mostram-se benéficos nesses casos. Nos pacientes com DRC, um distúrbio cutâneo singular é a dermopatia fibrosante nefrogênica, que consiste em enduração subcutânea progressiva, principalmente nos braços e nas pernas. Essa condição é semelhante ao escleromixedema e ocorre nos pacientes com DRC expostos ao gadolínio, contraste usado na ressonância magnética. As recomendações atuais são de que os pacientes com DRC do estágio 2 (TFG entre 30 e 59 mL/min) devam reduzir a exposição ao gadolínio, enquanto os pacientes dos estágios 3 a 5 (TFG < 30 mL/ min) devam evitar o uso do gadolínio, a menos que haja alguma indicação clínica importante. A coexistência de doença hepática parece aumentar o risco. Contudo, nenhum paciente deve deixar de fazer um exame de imagem considerado fundamental ao tratamento clínico e, nestes casos, a remoção rápida do gadolínio por hemodiálise (mesmo nos pacientes que ainda não fazem tratamento renal substitutivo) logo depois do exame pode atenuar essa complicação devastadora em alguns casos. O EDEMA NA DRC Um excesso de sódio total no organismo expande o volume extracelular e, se a expansão for considerável, poderá manifestar-se clinicamente por edema. Edema significa um acúmulo excessivo de líquido no compartimento intersticial, ou seja, na parte não vascular do compartimento líquido extracelular. Geralmente, isso ocorre em pacientes com cardiopatia, nefropatia, hepatopatia ou hipoproteinemia. A passagem para o interstício de fluido ultrafiltrado do plasma (sem proteínas), decorrente da alteração das forças de Starling, denomina-se transudação. São exemplos desse mecanismo os edemas decorrentes de obstrução venosa, insuficiência cardíaca e edema pulmonar cardiogênico. Outro tipo de edema ocorre por aumento da permeabilidade dos capilares a determinados solutos, como as proteínas, em um mecanismo de exsudação. Esse mecanismo de formação de edema é observado em queimaduras, trauma e abscessos. O edema pode ser bem localizado, como em uma pequena inflamação, ou generalizado, como na insuficiência cardíaca. EXAMES LABORATORIAIS URINÁLISE O exame de urina compreende uma avaliação qualitativa de certos constituintes químicos e o exame microscópico dosedimento urinário. A urina para exame deverá ter sido recém-emitida, preferencialmente sem cateterismo vesical. Essa amostra de urina deve ser avaliada no máximo 60 a 120 min após a coleta, desde que mantida em geladeira a 4°C. Grande parte dos dados em um exame de urina pode ser obtida por meio das fitas reativas, ainda que estas não substituam a realização do exame microscópico da urina. PROTEINÚRIA Normalmente, são filtrados 180 l de plasma a cada dia pelos glomérulos, cada um contendo 70 g de proteína. No entanto, graças a um eficiente mecanismo de reabsorção efetuado CREATININA A creatinina é produzida a partir de catabolismo muscular, é filtrada nos glomérulos e não é reabsorvida, sendo diretamente relacionada com a taxa de filtração glomerular. Apesar de sofrer influências de alguns interferentes, tais como: massa muscular, desnutrição e ingestão excessiva de carnes cozidas, a creatinina é utilizada como um marcador de função renal, apesar de seu nível só aumentar após a TFG decair para cerca de 50% de seu nível normal. UREIA A ureia resulta da metabolização das proteínas e, portanto pode variar com a in- gestão proteica. Além disso, a ureia principalmente pelos túbulos proximais, menos de 150 mg de proteína aparece por dia na urina. A eletroforese de urina normal revela que o restante da proteína se constitui de globulinas e muito pouca albumina (menos que 30 mg/dia). Em geral, o glomérulo normal impede seletivamente a passagem de moléculas do tamanho da albumina plasmática [peso molecular (PM) = 40.000 dáltons] ou maiores. O clearance de proteínas plasmáticas é inversamente proporcional ao seu diâmetro efetivo. A perda da seletividade, com aparecimento de grandes moléculas na urina, reflete a gravidade da lesão. ALBUMINÚRIA As orientações atuais recomendam a determinação da albumina urinária pela necessidade de detectar níveis mais baixos de proteína, por terem mais significância clínica. Vários estudos mostraram que pequenas quantidades de albumina na urina (entre 30 e 300 mg/ dia) têm importância prognóstica: quanto maior a albuminúria, maior o risco de morte e mortalidade cardiovascular, lesão renal aguda e doença renal terminal. filtrada pode ser reabsorvida pelos túbulos renais. Outros fatores que também interferem nos níveis de ureia plasmática são: destruição tecidual, hemorragia gastrointestinal e terapia com corticosteróides. AVALIAÇÃO DA FUNÇÃO RENAL A ureia e a creatinina são substâncias basicamente excretadas pelo rim pela filtração glomerular; desse modo, sua concentração plasmática depende da filtração glomerular. Avalia-se a função de filtração glomerular pela concentração plasmática e a capacidade de depuração renal (clearance) dessas substâncias. A determinação da excreção de proteína na urina é também um importante método de avaliação da função glomerular. Como uma das funções do glomérulo é fornecer um ultrafiltrado do plasma praticamente sem proteína, um excesso de proteína na urina significa uma disfunção glomerular. Entre as funções mais significativas dos rins, encontra-se a de retirar do sangue algumas substâncias, pela filtração glomerular. A taxa de filtração glomerular (TFG) corresponde ao somatório das taxas de filtração de cada néfron. Então, a TFG fornece uma estimativa do número de néfrons funcionantes, o que é de fundamental importância quando se avalia a repercussão de uma doença sobre a função renal. Por exemplo, TFG reduzida demonstra comprometimento da função renal, enquanto TFG aumentando progressivamente demonstra melhora funcional. Essa função renal de limpar, depurar, é conhecida como clearance. Considere-se uma substância livremente filtrada pelos glomérulos, que não se ligue às proteínas plasmáticas e que não seja secretada nem reabsorvida pelos túbulos renais. O clearance dessa substância é igual à filtração glomerular, ou seja, é a quantidade removida do plasma dividida pela concentração plasmática média em determinado período. O clearance é interpretado como o volume de plasma que pode ser depurado (limpo) de certa substância na unidade de tempo. Creatinina plasmática e clearance da creatinina endógena Normalmente, os níveis séricos de creatinina variam no homem de 0,8 a 1,3 mg/100 ml e na mulher de 0,6 a 1,0 mg/ 100 ml. Há pouca variação durante o dia e de um dia para o outro. Após sua liberação pelo músculo, a creatinina é excretada exclusivamente pelo rim. Como essa substância é livremente filtrada (não se liga a proteínas), não é reabsorvida pelos túbulos renais e apenas uma pequena fração é secretada (15%); a quantidade filtrada será praticamente igual à quantidade excretada. O clearance de creatinina reflete, portanto, com bastante aproximação, a filtração glomerular. Observa-se a fórmula utilizada para o cálculo do clearance de creatinina: Em que: • CrUr: creatinina urinária (mg/100 ml) • CrPl: creatinina plasmática ou sérica (mg/100 ml) • V: volume urinário por minuto (ml/ min). No entanto, com o desenvolvimento da doença renal e a consequente elevação da concentração plasmática de creatinina, a fração secretada aumenta muito. Isso acarreta, na avaliação do clearance de creatinina, um resultado mais elevado que o da filtração glomerular renal real. Por exemplo, em um paciente urêmico, o clearance de creatinina pode ser de 20 ml/min e a filtração glomerular efetiva de 15 ml/ min – na verdade, essa discrepância não importa do ponto de vista prático. Qualquer redução na filtração glomerular reduz a excreção de creatinina. Como a liberação da creatinina pelo músculo é constante, quando há queda da TFG, ocorrem um acúmulo dessa substância e elevação de sua concentração sérica. O acúmulo de creatinina é progressivo, até que a quantidade diária produzida seja igual à quantidade excretada (filtrada). A quantidade de creatinina excretada também varia em razão da massa muscular, isto é, quanto maior a massa muscular, maior a excreção. No homem, a excreção de creatinina é de 20 a 26 mg/kg/dia, e, na mulher, de 14 a 22 mg/ kg/dia. No envelhecimento natural do ser humano, nas doenças renais crônicas (DRC) e em pacientes que sofreram amputação ou paralisia de membros, a massa muscular também diminui, e a relação entre a concentração plasmática de creatinina e o clearance de creatinina se altera. O clearance de creatinina então diminui, sem que haja um aumento proporcional de creatinina plasmática. Ureia plasmática e clearance da ureia A ureia é o produto final do metabolismo nitrogenado, cuja concentração plasmática depende de muitos fatores que afetam o metabolismo do nitrogênio: ingesta calórica e proteica; catabolismo proteico aumentado, relacionado com trauma, infecção e febre; uso de corticosteroides; absorção de sangue do trato gastrintestinal; depleção do espaço extracelular; e ingestão de quantidades excessivas de proteínas. Desse modo, ao contrário da creatinina, a concentração plasmática de ureia pode variar muito, sem que haja alteração do clearance da ureia. Aproximadamente metade da ureia filtrada é reabsorvida no túbulo proximal, independentemente da presença ou da ausência do HAD e do fluxo urinário. No entanto, nos segmentos distais do néfron, a reabsorção de ureia acompanha a reabsorção de água. Quando o fluxo urinário é baixo, a reabsorção de água nos segmentos distais do néfron aumenta a concentração intratubular de ureia, o que favorece sua reabsorção. Esta também é favorecida pela presença de HAD nesses segmentos; por esse motivo, verifica-se um aumento desproporcional de ureia em relação à creatinina plasmática em um paciente com depleção do volume extracelular, com débito urinário reduzido. Quando o fluxo urinário é alto, o segmento distal do néfron torna-se relativamente impermeável à ureia, o que aumenta a sua excreção. Portanto, para a determinação precisa do clearance de ureia, deve-se estabelecer inicialmenteum fluxo urinário alto (pelo menos 2 ml/min). TAXA DE FILTRAÇÃO GLOMERULAR Em virtude das dificuldades inerentes à determinação do clearance de creatinina (demorado e sujeito a erros pela perda de amostras de urina) e da necessidade, muitas vezes, de estimar a TFG, tem-se recorrido a fórmulas. Fórmula de Cockcroft-Gault. Estima o clearance de creatinina, mas atualmente é obsoleta em razão de outras estimativas da TFG baseadas em radioisótopos. Em mulheres, pelo fato de a massa muscular ser proporcionalmente menor que nos homens, o resultado dessa fórmula deve ser multiplicado por 0,85. Fórmula CKD-EPI. Aumentou-se novamente o número de indivíduos na validação e o iotalamato foi utilizado para determinar a TFG. A fórmula é menos tendenciosa e tem mais precisão que a MDRD, sobretudo em TFG mais altas. Fórmulas CKD-EPI também foram obtidas para cistatina-C e para a combinação entre cistatina-C e creatinina. Utilizando-se a estimativa da taxa de filtração glomerular (eTFG) com cistatina C e creatinina, tem-se melhor precisão de cada marcador isoladamente. A eTFG que usa apenas cistatina C não é superior à eTFG usando creatinina. Pode- se determinar a eTFG por aplicativos da Apple Store e da Google Play Store: eGFR calculators. Basta fornecer dados como creatinina sérica, idade, sexo e raça para obter a TFG. Revisar o esquema terapêutico da hipertensão arterial sistêmica e os aspectos farmacológicos da hidroclorotiazida: ESQUEMA TERAPÊUTICO O tratamento com medicamentos pode ser iniciado com monoterapia ou com combinação de fármacos. Ênfase deve ser dada ao uso de combinação de fármacos como estratégia preferencial para a maioria dos pacientes hipertensos. Monoterapia A monoterapia pode ser a estratégia anti- hipertensiva inicial para pacientes com HA estágio 1 com risco CV baixo ou com PA 130-139/85-89 mmHg de risco CV alto ou para indivíduos idosos e/ou frágeis. Nesses perfis de pacientes, a redução da PA desejada é pequena ou deve ser feita de maneira gradual, de modo a evitar eventos adversos. O tratamento deve ser individualizado; e a escolha inicial do medicamento, basear-se nas características gerais desejáveis dos medicamentos anti- hipertensivos, nas particularidades individuais, na presença de doenças associadas e lesões de órgãos-alvo (LOA) e nas condições socioeconômicas. As classes de anti-hipertensivos consideradas preferenciais para o controle da PA em monoterapia inicial são: • DIU tiazídicos ou similares; • BBC; • BB; • IECA; • BRA. Os BB podem ser considerados como fármaco inicial em situações específicas e mais frequentemente são usados em associação a outros fármacos. A posologia pode ser ajustada na tentativa de alcançar a meta pressórica recomendada. Combinação de Medicamentos A combinação de fármacos é a estratégia terapêutica preferencial para a maioria dos hipertensos, independentemente do estágio da HA e do risco CV associado. O início do tratamento deve ser feito com combinação dupla de medicamentos que tenham mecanismos de ação distintos, sendo exceção a essa regra a associação de DIU tiazídicos com poupadores de potássio. Caso a meta pressórica não seja alcançada, ajustes de doses e/ ou a combinação tripla de fármacos estarão indicados. Na sequência, mais fármacos deverão ser acrescentados até ser alcançado o controle da PA. O racional para a associação de fármacos baseia-se no incremento do efeito anti-hipertensivo quando se atua em mecanismos fisiopatológicos distintos por ações sinérgicas e pela inibição da ativação dos mecanismos contrarregulatórios. Além disso, a combinação de fármacos pode reduzir potencialmente a ocorrência de efeitos colaterais, pelo uso de menor dose de cada um dos fármacos envolvidos na combinação ou pela capacidade que um dos fármacos pode ter de antagonizar os efeitos adversos do outro. São aspectos de interesse a maior adesão ao tratamento e a redução da inércia terapêutica. As combinações em doses fixas e em comprimido único são preferenciais por se associarem a maior adesão ao tratamento e, por consequência, melhores resultados clínicos. O início do tratamento com combinação de fármacos em doses fixas associa-se à redução do risco de desfechos CV quando comparado com o tradicional início do tratamento com monoterapia, com mais rápido alcance da meta pressórica e com a proteção de órgãos-alvo e desfechos CV a longo prazo. DIURÉTICOS Após quatro a seis semanas, o volume circulante praticamente normaliza-se, e ocorre redução da resistência vascular periférica (RVP). Os DIU reduzem a PA e diminuem a morbidade e a mortalidade CV. O efeito anti-hipertensivo não está diretamente ligado às doses utilizadas, porém os efeitos colaterais guardam relação com a dose e a potência da ação diurética. Deve-se dar preferência aos DIU tiazídicos (hidroclorotiazida) ou similares (clortalidona e indapamida) em doses baixas, pois são mais suaves e com maior tempo de ação, reservando-se os DIU de alça (furosemida e bumetanida) às condições clínicas com retenção de sódio e água, como a insuficiência renal (creatinina > 2,0 mg/ dL ou o ritmo de filtração glomerular estimado ≤ 30 mL/min/1,73m2) e situações de edema (IC, síndrome nefrítica). Os DIU poupadores de potássio (espironolactona e amilorida) costumam ser utilizados em associação aos tiazídicos ou DIU de alça. A espironolactona tem sido habitualmente utilizada como o quarto medicamento a ser associado aos pacientes com HA resistente e refratária. Efeitos Adversos Os principais efeitos adversos dos DIU são fraqueza, cãibras, hipovolemia e disfunção erétil. O mecanismo da ação anti-hipertensiva dos DIU relaciona-se inicialmente a seus efeitos natriuréticos, com a diminuição do volume circulante e do volume extracelular. A hipopotassemia é o efeito metabólico mais comum e, frequentemente acompanhada de hipomagnesemia, que podem provocar arritmias ventriculares, sobretudo a extrassistolia. A hipopotassemia também reduz a liberação de insulina, aumentando a intolerância à glicose e o risco de desenvolver diabetes melito tipo 2. O aumento do ácido úrico é um efeito quase universal dos DIU, podendo precipitar crises de gota nos indivíduos com predisposição. O uso de DIU em doses baixas diminui o risco dos efeitos adversos, sem prejuízo da eficácia anti-hipertensiva, especialmente quando em associação a outras classes de medicamentos. A espironolactona pode causar ginecomastia e hiperpotassemia, sendo este distúrbio eletrolítico mais frequente em pacientes com déficit de função renal. Há relatos de que a indapamida pode ter um melhor perfil metabólico em comparação com a hidroclorotiazida. TIAZÍDICOS Inibem o transporte de NaCl mais do que de NaHCO3 (-), e a sua ação é predominantemente no túbulo contorcido distal. O protótipo dos tiazídicos é a hidroclorotiazida. Os tiazídicos inibem a reabsorção de NaCl do lado luminal das células epiteliais do TCD, bloqueando o transportador de Na (+) / Cl (-) (NCC). Os tiazídicos aumentam a reabsorção de Cá 2(+). Esse aumento resulta de efeitos nos TCD e TCP. No TCP, a depleção de volume induzida pelos tiazídicos leva ao aumento da reabsorção de Na (+) e reabsorção passiva de Ca2(+). No TCD, a redução do Na(+) intracelular pelo bloqueio da entrada de Na(+) induzido pelos tiazídicos aumenta a troca de Na(+) / Cá2(+) na membrana basolateral, bem como a reabsorção global de Ca2(+). A ação dos tiazídicos depende, em parte, da produção renal de prostaglandinas. A HCTZ é consideravelmente mais potente e deve ser usada em doses muito mais baixas. Todos os tiazídicos são se- cretados pelo sistema secretor de ácidos orgânicos no túbulo proximal e competem com a secreção de ácido úrico para esse sistema. Em consequência, o uso de tiazídicos pode reduzir a secreção de ácido úrico e elevar seus níveis séricos. As principais indicações para o uso de diuréticos tiazídicos são as seguintes(1) hipertensão; (2) insuficiência cardíaca; (3) nefrolitíase devido à hipercalciúria idiopática; e (4) diabetes insípido nefro- gênico. Toxicidade A. Alcalose metabólica hipopotassêmica e hiperuricemia. Essas toxicidades assemelham-se àquelas observadas com os diuréticos de alça. B. Comprometimento da tolerância aos carboidratos. Pode ocorrer hiperglicemia em pacientes diabéticos ou que apresentam testes de tolerância à glicose levemente anormais. Surge com doses mais altas de HCTZ (> 50 mg/dia), porém não tem sido observada com doses de 12,5 mg/dia ou menos. Os tiazídicos exercem um efeito fraco dependente de dose e não direcionado para alvo, estimulando os canais de K+ sensíveis ao ATP e causando hiperpolarização das células beta, com consequente inibição da liberação de insulina. Esse efeito é exacerbado pela hipopotassemia, e, portanto, a hiperglicemia induzida por tiazídicos pode ser parcialmente revertida com a correção da hipopotassemia. C. Hiperlipidemia Os tiazídicos produzem um aumento de 5 a 15% nos níveis séricos de colesterol total e lipoproteínas de baixa densidade (LDL). Esses níveis podem retornar aos valores basais após uso prolongado. D. Hiponatremia A hiponatremia representa um importante efeito colateral dos diuréticos tiazídicos. É causada por uma combinação de elevação do ADH induzida pela hipovolemia, redução da capacidade de diluição do rim e aumento da sede. Pode ser evitada com a redução da dose do fármaco ou limitando a ingestão de água. E. Reações alérgicas Os tiazídicos são sulfonamidas que compartilham uma reatividade cruzada com outros membros desse grupo químico. Raramente ocorrem fotossensibilidade ou dermatite generali- zada. As reações alérgicas graves são extremamente raras, porém incluem anemia hemolítica, trombocitopenia e pancreatite necrosante aguda. F. Outras toxicidades Podem ocorrer fraqueza, fatigabilidade e parestesias semelhantes àquelas observadas com os inibidores da anidrase carbônica. Foi relatada a ocorrência de impotência, que provavelmente está relacionada com a depleção de volume. Contraindicações O uso excessivo de qualquer diurético é perigoso em pacientes com cirrose hepática, insuficiência renal limítrofe ou insuficiência cardíaca Uso adulto: Dose inicial; 50 a 100mg/dia, em uma só tomada pela manhã ou em doses fracionadas. Após 1 semana a posologia deve ser ajustada pelo médico até se conseguir a resposta terapêutica desejada sobre a pressão sanguínea. Quando a hidroclorotiazida é usada com outro agente anti-hipertensivo, a dose deste último deve ser reduzida para prevenir a queda excessiva da pressão arterial. Descrever o tratamento anti-hipertensivo de urgência e emergência em paciente com DRC: As urgências hipertensivas (UH) são situações clínicas sintomáticas em que há elevação acentuada da pressão arterial (PA) (definida arbitrariamente como PA sistólica (PAS) ≥ 180 e/ou diastólica (PAD) ≥ 120 mm Hg) sem lesão aguda e progressiva em órgãos-alvo (LOA) e sem risco iminente de morte. Já as emergências hipertensivas (EH) são situações clínicas sintomáticas em que há elevação acentuada da PA (definida arbitrariamente como PAS ≥ 180 e/ou PAD ≥ 120 mm Hg) com LOA aguda e progressiva, com risco iminente de morte. O tratamento dos pacientes com EH visa à redução rápida da PA com a finalidade de impedir a progressão das LOA. Os indivíduos devem ser admitidos preferencialmente em UTI, tratados com anti-hipertensivos intravenosos (IV) e monitorados cuidadosamente durante a terapia para evitar hipotensão. As recomendações gerais de redução da PA para EH devem ser: • PA média ≤ 25% na 1° hora; • PA 160/100-110 mmHg nas próximas 2 a 6 h; • PA 135/85 mmHg em um período de 24-48 h subsequentes. Entretanto, as EH devem ser abordadas considerando o sistema ou o órgão-alvo acometido. Para o tratamento agudo, indicam-se a captoprila e a clonidina. A captoprila, na dose de 25-50mg, tem seu pico máximo de ação em 60 a 90 minutos, enquanto a clonidina apresenta ação rápida, em torno de 30 a 60 minutos, na dose de 0,100 a 0,200mg. Os pacientes com emergências hipertensivas são mais bem-tratados em ambiente rigorosamente monitorado (p. ex., unidade de terapia intensiva), com administração intravenosa de fármaco de curta ação e rapidamente reversível. O nitroprussiato de sódio é um fármaco com mais longo registro de uso, sendo muito barato; todavia, está associado a risco de toxicidade por cianeto ou tiocianato com uso prolongado ou em altas doses. Mantida a PA na faixa-alvo por várias horas (6 a 12), pode-se administrar terapia oral (com antagonista do cálcio de ação intermediária), e o medicamento de administração intravenosa ser reduzido gradualmente ou suspenso. # Nitroglicerina 5mg/ml (tridil): • Usar em emergencia hipertensiva (PAS > 180 ou PAD > 120 mmHg) associada a isquemia cardíaca • Diluição: 1FA (10 ml + 240 ml SG 5% EV em BIC 5ml/h. #Nitroprussiato 25mg/ml (niprid): vasodilatador arterial • Usar em emergencia hipertensiva que nao tenha causa coronariana associada; • Diluição; 1FA (2ml) + 248ml SG 5% EV em BIC 5ml/h. Entender a indicação de diálise: As indicações para iniciar a terapia substitutiva renal podem ser divididas entre urgência e eletiva. É possível determinar esta última pelo nível de função renal, por parâmetros nutricionais, pela presença de sintomas urêmicos ou por uma combinação desses critérios. Urgência As condições clínicas definidas como indicação para iniciar tratamento dialítico em caráter de urgência são bastante consensuais: hiperpotassemia ou hipervolemia refratárias às medidas clínicas prévias ou quando há risco iminente de vida, pericardite e encefalopatia urêmica. Hiperpotassemia A decisão para indicar tratamento dialítico de urgência por hiperpotassemia a um paciente com diagnóstico de insuficiência renal crônica deve apoiar-se não apenas no exame laboratorial, mas também na análise das circunstâncias que propiciaram a elevação do potássio buscando identificar fatores reversíveis - principalmente se, com base nos demais exames laboratoriais e quadro clínico, ainda não houver indicação para diálise. Dois exemplos distintos para isso são: • Um primeiro paciente com DRC recém- diagnosticada, com taxa de filtração glomerular (TFG) de 20 ml/min e K+ 6,8 mEq/l, fazia uso regular de inibidor da enzima conversora da angiotensiva (IECA) e betabloqueador e ainda não recebia orientação nutricional; • Um segundo paciente fazia acompanhamento com nefrologista, teve sua FAV confeccionada em momento adequado, seguia fielmente as orientações nutricionais e para controlar sua pressão arterial usava apenas bloqueador de canal de cálcio e diuréticos, porém, na sua última avaliação laboratorial, apresentava TFG de 6 ml/min e K+ 6,3 mEq/l. Apesar de o K+ sérico estar mais elevado no primeiro paciente, ele seria tratado mais apropriadamente com medidas conservadoras, uma vez que diversas medidas clínicas para tratar a hiperpotassemia ainda podem ser adotadas (beta-agonistas, resina de troca, diuréticos, orientação nutricional etc.) e não haveria, por ora, outra indicação para diálise. Para o segundo paciente, ao contrário, a melhor opção seria iniciar imediatamente o tratamento dialítico, considerando que medidas para evitar a hiperpotassemia já haviam sido adotadas. Ressalta-se ainda que, com acesso vascular confeccionado e TFG em níveis baixos se constituiriam indicação eletiva para entrada em diálise, não haveria justificativa para tentar protelar tal decisão. Hipervolemia O surgimento de hipervolemia em um paciente com DRC caracteriza uma indicação para início imediato de tratamento dialítico. O início da diálise com ultrafiltração reverte prontamente os sintomas decorrentes do problema. Eventualmente, quando os sintomas são incipientes, apenas com desconforto ao decúbito, o aumento da dose de diuréticos e/ou o melhor controleda pressão arterial podem atenuar esse quadro. Destaca-se que não há uma correlação direta entre o quadro de hipervolemia e a percepção clínica de edema. Muitos pacientes apresentam franca anasarca e poucos sintomas respiratórios (acentuada hipoalbuminemia), enquanto outros têm discreto edema periférico e quadro respiratório exuberante (expansão do espaço extracelular). Pericardite urêmica Pelo risco de desenvolvimento de derrame pericárdico e consequente tamponamento cardíaco, a pericardite urêmica é considerada uma indicação de urgência para início do tratamento dialítico. Geralmente, essa complicação surge somente na fase terminal da doença renal, quando já coexistem outras indicações para iniciar a dialise. O paciente queixa-se frequentemente de desconforto precordial, às vezes acompanhado de febre, e o diagnóstico clínico dá-se pela constatação de atrito pericárdico à ausculta. Caracteristicamente não ocorre elevação do segmento ST ao eletrocardiograma, o que é útil no diagnóstico diferencial com outras formas de pericardite. Esse quadro é rapidamente revertido à medida que o tratamento dialítico é iniciado. Pelo risco de precipitar ou agravar efusão hemorrágica no espaço pericárdico, deve- se evitar o uso de heparina durante a HD. 0-12 Sinais e sintomas urêmicos A presença de sinais e sintomas urêmicos, como desorientação, redução do nível de consciência, flapping, soluços persistentes, anorexia, náuseas e vômitos, caracteriza a falência funcional renal, sendo indicação para início imediato do tratamento dialítico. Não apenas esses sinais e sintomas são, por si sós, indicação para dialise, como também, nessa fase, torna-se provável o surgimento de outras complicações potencialmente fatais, como hiperpotassemia, pericardite e complicações hemorrágicas. Eletiva Geralmente três critérios, que muitas vezes se sobrepõem, norteiam a decisão de instituir o tratamento dialítico: • Possibilidade de manejo clínico das alterações metabólicas e da volemia; • Presença de sinais ou sintomas urêmicos; • Estado nutricional. A terapia de hemodiálise crônica é uma opção nos casos em que os pacientes apresentam taxas de filtração glomerular (TFG) estimadas inferiores a 15 ml/min. As quatro variáveis da equação do estudo Modification of Diet in Renal Disease (MDRD) permitem estimar a TFG na maioria dos pacientes. A coleta de urina de 24 h para a realização dos testes de creatinina e ureia deve ser feita em pacientes que tenham massa muscular reduzida devido a condições médicas, como amputação ou limitação de mobilidade resultante de insuficiência cardíaca congestiva, claudicação, doença pulmonar crônica que exija terapia com oxigênio etc. Não há estudo randomizado sugerindo o momento exato para iniciar a terapia de diálise crônica. Por isso, o julgamento clínico é importante para tomar tal decisão em cada caso. 1. Início precoce da diálise - Existem indicações específicas para iniciar a terapia de hemodiálise crônica em níveis superiores à TFG de 15 ml/min. Estas condições consistem em sobrecarga não tratável de fluidos que não responda à ação dos diuréticos, hiperpotassemia que não responda a terapias médicas, acidose metabólica que não tenha sido totalmente corrigida por terapias médicas, má nutrição ou perda de peso não atribuível a outras condições médicas, ou declínio do estado funcional. Às vezes, torna-se necessário iniciar terapias dialíticas domiciliares em níveis mais elevados de TFG para minimizar a dificuldade com treinamento em casos de disfunção neurológica que possam ocorrer em níveis mais baixos de TFG. 2. Início tardio da diálise - A diálise pode ser iniciada mais tarde em pacientes assintomáticos sob o ponto urêmico, pacientes com estado nutricional adequado e pacientes que não apresentam declínio no peso seco ou nos níveis séricos de albumina. Os pacientes devem ser reavaliados regularmente para verificar se houve alguma alteração nesses parâmetros em caso de postergação da terapia de reposição renal. Compreender os sinais e sintomas e alterações eletrocardiográficas da hipercalemia e seu tratamento: A hipercalemia é uma desordem comum e potencialmente ameaçadora à vida, definida por níveis séricos de potássio superiores a 5,5 mEq/L. Sua estratificação é baseada tanto nos valores quanto na presença de manifestações clínicas. Assim; • Hipercalemia leve: [K+] 5,5 - 5,9 mEq/L. • Hipercalemia moderada: [K+] 6 - 6,4 mEq/L; • Hipercalemia grave: -[K+] maior ou igual a 6,5 mEq/L; -Alterações eletrocardiográficas e [K+] maior ou igual a 5,5 mEq/L; -Sintomas de hipercalemia (fraqueza, paralisia flácida, palpitações ou parestesia) e [K+] maior ou igual a 5,5 mEq/L. O potássio é um íon predominantemente intracelular absorvido por via oral ou por infusões endovenosas e eliminado via excreção renal. As principais causas de hipercalemia são efluxo do intracelular e diminuição da excreção renal. Foram considerados fatores de risco independentes para hipercalemia: -Diabetes; -Clearance de creatinina < 40 mL/ minuto; -Uso de espironolactona; -Inibidores da enzima de conversão da angiotensina (ECA). Quanto menor a taxa de filtração glomerular (TFG), maior o risco de hipercalemia em pacientes hipertensos com DRC. A utilização combinada de diuréticos poupadores de potássio e IECA culmina em maior risco de hipercalemia. Fisiopatologia O potássio é um cátion predominamente intracelular, com concentração intracelular de aproximadamente 140 mEq/L, ao oposto do fluido extracelular, com concentrações entre 4 e 5 mEq/L. A diferença de concentração entre ambos compartimentos é mantida graças à bomba Na/K/ATPase na membrana celular, que realiza o efluxo de sódio para o meio extracelular e o influxo de potássio para o meio intracelular. O potencial de repouso celular é determinado predominantemente pela diferença de concentração de potássio entre o meio intra/extracelular, o que se mostra essencial para a geração do potencial de ação e consequente funcionamento neural/muscular. Dessa forma, alterações nas concentrações séricas de potássio (hipocalemia/ hipercalemia) podem ocasionar paralisia muscular e arritmias cardíacas. Os níveis séricos de potássio são regulados pela relação entre ingesta oral, excreção renal e a distribuição intra/extracelular. A excreção urinária de potássio é estimulada por elevações nos seus níveis plasmáticos, assim como quando há maior absorção via oral, no aumento da secreção de aldosterona e aumento de fluxo de água e sódio no néfron distal. Em indivíduos normais, a absorção do potássio via oral leva a um aumento da sua absorção hepática e muscular para o meio intracelular, auxiliado pela insulina e receptores Beta2 adrenérgicos, que irão estimular a bomba Na/K/ATPase. O potássio remanescente no meio extracelular acarreta elevação da sua concentração plasmática. O consequente estímulo à secreção de aldosterona permite maior reabsorção de sódio e secreção de potássio na membrana luminal dos néfrons. Em geral, o aumento da ingestão dietética de potássio não gera hipercalemia, uma vez que é seguido por uma otimização da excreção renal e absorção pelas células musculares e hepáticas. Em casos nos quais o paciente apresenta déficit de excreção urinária de potássio (injúria renal), a absorção pode contribuir para a hipercalemia. Quando ocorre aumento do efluxo celular de potássio ou diminuição da sua absorção celular (trauma, síndrome lise tumoral), os níveis séricos podem se elevar, mas isso é transitório. Hipercalemia persistente requer redução na excreção renal, seja por diminuição à responsividade a aldosterona, por doença renal crônica, por injúria renal aguda ou por redução do fluxo de água e sódio ao néfron distal. Em suma, a hipercalemia é resultado de um desequilíbrio entre a entrada e a capacidade de excreção (renal ou grastrointestinal) de potássio ou do shift do meio intrapara o extracelular. O aumento do [K+] extracelular culmina na diminuição do potencial de membrana de repouso dos miócitos (gradiente menos negativo); redução percentual dos canais de sódio disponíveis; lentificação da velocidade de condução do impulso; prolongamento da despolarização de membrana, o que resulta em maior duração do complexo QRS no miocárdio. Caso o [K+] extracelular continue a subir, a lentificação da condução miocárdica determina prolongamento e redução da onda P, prolongamento do intervalo PR e prolongamento do complexo QRS. O aumento da condutância através das correntes retificadoras tardias (Ikr), que fisiologicamente contribuem para a fase 3 da repolarização do potencial de ação cardíaco, eleva o efluxo de potássio do miócito e, consequentemente, encurta o tempo de repolarização (depressão do segmento ST-T, ondas T apiculadas e redução do intervalo QT). ETIOLOGIA A hipercalemia frequentemente é de origem multifatorial e está associada a lesão renal, disfunção tubular ou shift de potássio do meio intra para o meio extracelular. Uma coorte de 242 episódios consecutivos de hipercalemia identificou as seguintes causas e frequências associadas: • Insuficiência renal: 77%. • Hiperglicemia: 49%. • Suplementação de potássio: 15%. • Relacionada a drogas (imunossupressores como tacrolimus e ciclosporina, lECA, betabloqueadores, digoxina, anti- inflamantórios não esteroidais): 63%. Manifestações Clínicas As principais manifestações clínicas associadas a hipercalemia estão relacionados a transmissão neuromuscular debilitada. As manifestações mais graves são fraqueza/paralisia muscular, defeitos de condução cardíaca e arritmias cardíacas. Fraqueza muscular/paralisia A hipercalemia pode causar fraqueza muscular ascendente, progressiva, que se inicia nas pernas e progride para tronco e braços - pode simular quadro de paralisia flácida aguda (Guillain-Barré); em geral, não há comprometimento da musculatura respiratória. O quadro é reversível com a correção da hipercalemia e pode ser genético na forma de paralisia periódica hipercalêmica ou paralisia secundária hipercalêmica. Alterações cardíacas A hipercalemia pode cursar com alterações no eletrocardiograma (ECG). As primeiras alterações a serem observadas são onda T apiculada associada a diminuição do intervalo QT. A progressão da hipercalemia pode gerar outras alterações, como prolongamento do intervalo PR e do QRS, com desaparecimento da onda P e finalmente o alargamento do QRS no padrão de sinusoide. As alterações do ECG não se correlacionam precisamente com os níveis séricos de potássio. Portanto, o ECG não deve ser utilizado para guiar o tratamento da hipercalemia, uma vez que mesmo graves hipercalemias, raramente, podem ser associadas a ECG normal ou próximo da normalidade. Por outro lado, na suspeita de alterações do potássio, o ECG é o exame mais rápido que pode mostrar alterações compatíveis com hipercalemia, indicando a infusão de cálcio endovenoso. A hipercalemia pode se expressar de múltiplas outras maneiras no ECG. Distúrbios de ritmo (bloqueio de ramo direito, bloqueio de ramo esquerdo, bloqueio bifascicular e bloqueio atrioventricular total), além de arritmias (bradicardia, ritmo idioventricular lento, taquicardia/fibrilação ventricular, assístola) e até mesmo padrão que simula supradesnivelamento ou infradesnivelamento de segmento ST. O tratamento da hipercalemia leva em consideração a presença ou ausência de sinais e sintomas associados, os níveis de potássio e a etiologia da hipercalemia. Urgência hipercalêmica Os pacientes que possuem sinais e sintomas associados à hipercalemia (fraqueza muscular, alterações eletrocardiográficas) são considerados com urgência hipercalêmica e submetidos a terapias de ação imediata. Isoladamente, K+ > 6,5 mEq/L é uma urgência hipercalêmica. Atenção especial deve ser dada a pacientes que possam ter rápidas elevações dos níveis de potássio (hemorragia digestiva, politrauma, rabdomiólise e síndrome de lise tumoral). Os pacientes que apresentem hipercalemia leve a moderada (K+> 5,5 mEq/L) associada a disfunção renal moderada/grave e risco de elevações rápidas dos níveis de potássio - síndrome lise tumoral, rabdomiólise, politraumatizados, hemorragia digestiva e acidose metabólica com ânion-gap normal - apresentam risco de elevação abrupta dos níveis séricos de potássio e devem ser conduzidos como urgência hipercalêmica. TRATAMENTO Os pacientes com urgência hipercalemia necessitam de medidas de ação imediata para antagonizar os efeitos do potássio, diminuir seus níveis séricos e controlar possíveis causas reversíveis da hipercalemia. • Monitorização: a monitorização cardíaca contínua é essencial. Deve-se realizar ECG seriado devido ao alto risco de arritmias cardíacas. Novas dosagens de potássio são necessárias após 2 horas de introdução da terapêutica e, em seguida, conforme a resposta inicial ao tratamento. Nos pacientes que utilizarem insulina como medida terapêutica, recomenda-se monitorizar a glicemia capilar de hora em hora até 6 horas após o término da administração. • Cálcio: o cálcio atua antagonizando diretamente o efeito do potássio no potencial de membrana. Nos pacientes com urgência hipercalêmica, esta deverá ser a primeira medida a ser realizada, principalmente na vigência de alteração eletrocardiográfica. Vale ressaltar que o cálcio não reduz os níveis de potássio e, portanto, nunca deve ser utilizado como terapia única. Os efeitos do cálcio iniciam-se em minutos após sua administração, porém, sua meia-vida é curta (30-60 minutos). As principais formas de administração do cálcio são: - Gluconato de cálcio: dose habitual é de 1.000 mg (10 mL de solução a 10%) diluído em 100 mL de solução glicosada 5% em infusão rápida endovenosa durante 3-5 minutos com monitorização cardíaca contínua. Nos pacientes que persistirem ou recorrerem com alterações eletrocardiográficas, a dose poderá ser repetida após 5 minutos. -Cloreto de cálcio: possui concentração 3x superior ao gluconato (13,6 mEq vs. 4,6 mEq em 10 mL de solução 10%). A forma de administração é a mesma já descrita. O gluconato é a formulação preferida devido ao menor risco de irritação local e necrose tecidual em caso de extravasamento. O cálcio não deve ser administrado concomitantemente a soluções com bicarbonato devido ao risco de precipitação de carbonato de cálcio. • Insulina com glicose: a terapia com insulina visa diminuir os níveis de potássio por aumentar a atividade da bomba Na-K-ATPase e consequentemente carrear o potássio para dentro das células. A administração concomitante de glicose visa evitar hipoglicemia, porém, em pacientes com glicemia superior 250 mg/dL, a insulina pode ser infundida isoladamente. Os regimes mais utilizados são: -10 Ul de insulina regular diluído em 500 mL de solução glicosada 10% (50 g de glicose) ou 10 UI de insulina regular em 100 mL de glicose 50% (50 g de glicose), administrado via endovenosa durante 30-60 minutos. -10 UI de insulina regular endovenosa em bolus seguido por bolus imediato de 50 mL de glicose 50% (25 g de glicose). Esse regime permite decréscimo mais rápido dos níveis de potássio, porém está associado a maiores taxas de hipoglicemia. Pode-se evitar hipoglicemia subsequente com administração de solução glicosada 10% na taxa de 50-75 mL/h. Em todos os pacientes que recebem insulina, a glicemia capilar deve ser verificada de 1/1 hora pelas próximas 6 horas devido ao risco de hipoglicemia. Os esquemas acima podem ser repetidos de 4/4 horas ou até de 2/2 horas caso os níveis de potássio permaneçam elevados. As medidas acima visam diminuir os níveis de potássio transitoriamente, pois não eliminam o excesso de potássio corporal. Seu início de ação se dá em menos de 15 minutos, com pico em 30-60 minutos e duração de efeito de 4-6 horas. Para eliminação do excesso de potássiocorporal, destacam-se três opções (todas elas atuam mais lentamente que as medidas acima - com exceção da diálise): diuréticos, resinas de troca intestinal e diálise. • Diuréticos de alça: os diuréticos de alça promovem aumento da eliminação do potássio na urina. A eficácia do diurético requer que o paciente possua função renal normal ou no máximo disfunção moderada. Em pacientes com hipercalemia persistente, o efeito caliurético dos diuréticos de alça pode não ocorrer. Assim, não se recomenda como terapia isolada nas urgências hipercalêmicas. A principal medicação nessa classe é a furosemida. A dose inicial é de 40 mg endovenosa, com início de atuação em 30 a 60 minutos. Em pacientes hipervolêmicos, doses superiores podem ser utilizadas. • Resinas de troca: atuam como trocadores de cátions que transferem potássio para o interior do trato gastrointestinal e subsequente excreção. A principal resina de troca disponível em nosso meio é o poliestirenosulfonato de cálcio (Sorcal®). A dose é de 30g, via oral, de 8/8 horas ou até 4/4h. Possui início de ação de 1 a 2 horas. Devido ao seu efeito constipante, costuma-se diluir em 100 mL de manitol 10 a 20%. Em pacientes em que a via oral é indisponível, pode-se realizar enema de retenção (30-60 g, via retal, de 6/6 horas). O principal risco associado ao seu uso é a necrose intestinal (obstrução, íleo metabólico, enterocolites). É contraindicado nos pacientes que possuam obstrução intestinal, pós- operatório de TGI, doenças inflamatórias intestinais ou colite pseudomembranosa. • Diálise: a diálise, preferencialmente a hemodiálise, é indicada em pacientes que apresentem disfunção renal grave. Estima-se redução no [K+] de 1 mEq/L na primeira hora e de 2 mEq/L em 2-3 horas de diálise. Nos casos que já possuem acesso vascular para diálise, este é o método de preferência caso seja possível pronta realização. Outras medidas translocacionais de potássio disponíveis são os B2-agonistas e o bicarbonato de sódio, porém com menos evidência de benefício na literatura. REFERÊNCIAS OBJETIVO 1 E 2: • LOPES, Isabella Katarina Pinto; FIGUEIREDO, Samuel Soares; NUNES, Ronaldo Lima. Doença Renal Crônica e o processo de hemodiálise. Revista Ibero- Americana de Humanidades, Ciências e Educação , [s. l.], v. 8, ed. 8, Agosto 2022. Disponível em: chrome://external-file/%5B53%5DXXX- +DOENC%CC%A7A+RENAL+.pdf. Acesso em: 24 fev. 2024. • Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. • RIELLA, Miguel Carlos. Princípios de Nefrologia e Distúrbios hidreletrolíticos. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara KOOGAN, 2018. • JAMESON, J. Larry; LOSCALZO , Joseph. 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