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ROTEIRO DE AULA O PENSAMENTO E SUAS ALTERAÇÕES DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2008. _______________________________________________________________ O pensamento e suas alterações Será que chegamos a parar de pensar completamente em algum momento? O que exatamente são nossos pensamentos e sobre o que pensamos? Os pensamentos são formados a partir de elementos sensoriais, ou seja, começamos a pensar quando percebemos e representamos aquilo que percebemos. Desde os tempos de Aristóteles, os elementos intelectuais básicos do pensamento foram divididos em três operações: conceitos, juízos e raciocínio. Os elementos intelectuais que compõem o pensamento são os conceitos, os juízos e o raciocínio. Enquanto os conceitos são formados a partir das representações, que são cognitivas e não sensoriais, os juízos são a relação entre dois conceitos, expressos em frases ou proposições. O raciocínio é a função que relaciona os juízos, permitindo a conclusão de ideias. O processo de pensar pode ser caracterizado pelo curso do pensamento, que diz respeito à sua fluidez, velocidade e ritmo. Já a forma ou estrutura do pensamento se refere à sua arquitetura, que é preenchida por diversos conteúdos e desejos. O conteúdo do pensamento, por sua vez, é o que dá substância às ideias, sendo o conteúdo predominante em cada caso específico. Alterações dos elementos constitutivos do pensamento. Alterações dos conceitos: A desintegração dos conceitos ocorre quando há perda do significado original de uma palavra, por exemplo, a palavra "ateu" pode perder seu sentido original de descrença e passar a ter um significado de ação como "a teu comando". Já a condensação ocorre quando dois conceitos são fundidos, como a junção de palavras para criar novas palavras (neologismo). Alterações do juízo: Juízo deficiente ou prejudicado ocorre quando a elaboração do juízo é prejudicada por deficiência intelectual, pensamentos concretos ou influência do meio social. Já a alteração do juízo de realidade ou delírio é caracterizado por alterações graves de juízo, que podem ser consideradas como uma perda do senso comum da realidade. Conceito de raciocínio e do estilo de pensar: O pensamento normal é aquele que segue a lógica formal e é orientado pela realidade e pelos princípios de racionalidade da cultura em que o indivíduo está inserido. De acordo com Aristóteles, os princípios básicos do pensamento lógico formal que guiam o pensamento considerado normal são: 1. Princípio da identidade: o princípio básico de não-contradição. Por exemplo, se A é igual a A e B é igual a B, então A não pode ser igual a B. 2. Princípio da causalidade: se A é a causa de B, então B não pode ser a causa de A ao mesmo tempo. 3. Lei da parte e do todo: essa lei distingue claramente a parte do todo. Se A é parte de B, então B não pode ser parte de A. Alterações do processo de pensar: As principais alterações do curso do pensamento incluem a aceleração, que se refere a um fluxo rápido de ideias, a lentificação, que se refere a um fluxo lento de ideias, o bloqueio, que é a interrupção súbita do pensamento, e o roubo do pensamento, que é a sensação de que os pensamentos estão sendo retirados da mente por uma força externa. Essas alterações podem ser sintomas de transtornos mentais, como a esquizofrenia. A aceleração do pensamento ou taquipsiquismo é caracterizada pela fluidez acelerada de ideias, comum em quadros de transtorno bipolar em fase maníaca, esquizofrenia, ansiedade intensa e intoxicação patológica. A lentificação do pensamento ou bradipsiquismo é a progressão de pensamento dificultosa, comum em quadros depressivos graves, em casos de rebaixamento da consciência, em determinados quadros psicóticos e intoxicações. O bloqueio do pensamento é o bloqueio de pensamento brusco, comum em quadros de esquizofrenia e outros transtornos psicóticos. O roubo do pensamento é uma vivência na qual o sujeito tem a sensação de que seu pensamento foi roubado de sua mente, por força de entidades, máquinas ou antenas. Geralmente está associado ao bloqueio de pensamento em quadros psicóticos. Alteração das formas de pensamento: A fuga de ideias é uma alteração na estrutura do pensamento que ocorre em conjunto com a aceleração do pensamento, na qual as ideias se sucedem rapidamente e as associações entre as palavras deixam de seguir uma lógica coerente, sendo comum em quadros maníacos. A dissociação do pensamento é a desorganização do pensamento encontrada em casos de esquizofrenia, na qual os pensamentos não seguem uma sequência lógica e organizada, e os juízos não se articulam de forma coerente com os demais. O afrouxamento do pensamento refere-se a uma diminuição na coesão entre as ideias, ainda havendo uma concatenação lógica entre elas. O Descarrilhamento do pensamento ocorre quando o pensamento extravia-se do seu curso normal, tomando desvios supérfluos e retornando ao curso original. A Desagregação do pensamento é uma profunda e radical perda dos enlaces associativos, resultando na total perda de coerência do pensamento. Tipos alterados de pensamentos: Distinguir entre pensamento normal e patológico pode ser uma tarefa desafiadora, pois as pessoas tendem a basear-se em estereótipos e formas de pensamento aprendidas para avaliar a normalidade ou anormalidade do pensamento. Isso pode levar a uma percepção equivocada, na qual comportamentos e pensamentos diferentes são rotulados como patológicos, mesmo que possam ser considerados normais dentro de um determinado contexto cultural ou individual. Pensamento Mágico: Caracteriza-se por seguir os desejos e fantasias do indivíduo. James Frazer (1911-1982) propôs algumas leis do ato e pensamento mágico, como a lei da contiguidade, que é a base da magia de contágio, na qual o indivíduo usa um objeto ou adorno de alguém importante para incorporar sua influência, e a lei da similaridade, que é a base da magia imitativa, na qual o indivíduo acredita que o semelhante produz o semelhante, como no exemplo de queimar um boneco imaginando que o inimigo está sendo queimado. Pensamento Derreístico: É aquele que se opõe à realidade e se submete aos interesses e desejos internos do indivíduo. Pensamento Concreto: Refere-se a um tipo de pensamento no qual não há distinção entre a dimensão abstrata e simbólica e a dimensão concreta e imediata dos fatos. O indivíduo não consegue usar metáforas. Pensamento Inibido: É a inibição do raciocínio, com diminuição da velocidade e do número de conceitos, comum em quadros demenciais e depressivos. Pensamento Vago: É um pensamento impreciso e ambíguo, comum em quadros iniciais de esquizofrenia, demência e neuroses graves. Pensamento Prolixo: É um pensamento sem conclusão, com um fluxo amplo e excessivo de informações, caracterizado pela tangencialidade e circunstancialidade. Pensamento Deficitário/Oligofrênico: É um pensamento pobre e rudimentar, no qual não há uma distinção precisa de categorias como essencial e supérfluo, necessário ou acidental, causa e efeito, o todo e as partes, o real e o imaginário, o concreto e o simbólico. A extensa memorização mecânica é chamada de "ilhotas de memória" e é comum em deficientes mentais e autistas, que, em função de tal habilidade, eram chamados de idiotas-sábios. Pensamento Demencial: É um pensamento pobre, imperfeito e irregular, sem unidade ou congruência, com dificuldade em encontrar as palavras, comum no início de quadros demenciais. Pensamento Confusional: Caracteriza-se pela turvação da consciência, prejudicando a atenção e a memória. Pensamento Desagregado: Refere-se a pensamentos incoerentes, sem articulação e sem lógica. Pensamento Obsessivo: São ideias que, apesar de parecerem absurdas para o sujeito (ego-distônicas), voltam à consciência de forma persistente. Conteúdo do pensamento: O conteúdo do pensamento é aquilo que preenche a estrutura do processo cognitivo. Na observação clínica, os principais conteúdos que preenchem os sintomas psicopatológicos incluem: ideias persecutórias, depreciativas,religiosas, sexuais, de poder e riqueza, ruína ou culpa, e hipocondríacas. Esses conteúdos são importantes para a constituição social e histórica do indivíduo humano, incluindo temas como perseguição, sexualidade, assuntos místicos-religiosos e hipocondria. O juízo de realidade suas alterações (o delírio) Delírio é um fenômeno psicopatológico que se caracteriza por uma crença falsa, persistente e inabalável em algo que não possui fundamento na realidade. O delírio é diferente da crença comum, pois é mantido com extrema convicção, mesmo que a evidência em contrário seja clara. O delírio pode estar presente em uma ampla variedade de transtornos psiquiátricos, como esquizofrenia, transtornos delirantes, transtornos bipolares, demência e transtornos de ansiedade. Os delírios podem se manifestar em diferentes temas, como delírios persecutórios, delírios de grandeza, delírios religiosos, delírios somáticos, delírios de ciúme, entre outros. O tratamento do delírio geralmente envolve medicamentos antipsicóticos e psicoterapia, além do tratamento da doença subjacente que pode estar causando os sintomas delirantes. O delírio é um erro do juízo que tem origem na doença mental e é motivado por fatores patológicos. Karl Jaspers descreveu três características importantes para a identificação clínica do delírio: a convicção extraordinária do doente, a impossibilidade de modificar o delírio pela experiência objetiva e a falsidade quase sempre presente no seu conteúdo, o seu conteúdo é sempre impossível. Alguns exemplos de ideias delirantes incluem crenças de perseguição, megalomania, hipocondria e controle mental. O delírio é uma produção associal e individual que se afasta das crenças culturais do paciente. Kendler e colaboradores propuseram sete dimensões do delírio que ajudam a avaliar sua gravidade: grau de convicção, extensão, bizarrice ou implausibilidade, desorganização, pressão ou preocupação, resposta afetiva ou afeto negativo e comportamento desviante. A esquizofrenia é frequentemente associada a delírios mais intensos e organizados, enquanto a depressão psicótica e os transtornos delirantes tendem a ter delírios menos intensos e organizados. A bizarrice ou implausibilidade do delírio é um indicador importante para o diagnóstico da esquizofrenia. Delírio primário ou ideias delirantes verdadeiras: De acordo com Jaspers (1979), o verdadeiro delírio é um fenômeno primário, o que significa que é psicologicamente incompreensível e não tem raízes na experiência psíquica de uma pessoa normal. Por essa razão, é impenetrável e incapaz de ser alcançado por meio da relação intersubjetiva ou do contato empático entre o entrevistador e o entrevistado. O verdadeiro delírio representa algo totalmente novo que surge em um determinado momento na vida do indivíduo. Ele expressa uma quebra radical na biografia do sujeito e uma transformação qualitativa de sua existência. A pessoa sofre uma verdadeira transmutação de personalidade. Estrutura dos delírios De acordo com a estrutura classificatória, os delírios podem ser divididos em simples (monotemáticos) ou complexos (pluritemáticos) e em não-sistematizados ou sistematizados: *Delírios simples (monotemáticos): são ideias que se concentram em torno de um único tema, geralmente do mesmo tipo, como um tema religioso ou persecutório. *Delírios complexos (pluritemáticos): englobam múltiplos temas simultaneamente, com várias facetas e envolvendo conteúdos de perseguição, místico-religiosos, ciúmes, reivindicações, entre outros. *Delírios não-sistematizados: são delírios sem uma coerência lógica consistente. Os conteúdos e detalhes dos delírios não-sistematizados variam constantemente e costumam ser encontrados em indivíduos com baixo nível intelectual, deficiência mental ou em pacientes com quadros demenciais. *Delírios sistematizados: são delírios bem-organizados, com histórias ricas e consistentes que mantêm, ao longo do tempo, os mesmos conteúdos e detalhes. Ocorrem mais em indivíduos intelectualmente desenvolvidos e nos chamados transtornos delirantes (paranoia, segundo o termo clássico de Kraepelin). Nesses casos, a inteligência do paciente é empregada para sustentar o delírio em vez de questioná-lo, o que Jaspers chamou de "inteligência a serviço do delírio". Tipos de delírio segundo seus conteúdos: Segue abaixo a descrição dos tipos de delírio com base no seu conteúdo. Inicialmente, são listados os delírios mais comuns, seguidos pelos menos frequentes na prática clínica. Entre os delírios comumente encontrados, destacam-se aqueles que giram em torno do tema de perseguição, incluindo conspirações, ameaças, difamação e ações planejadas ou realizadas contra o indivíduo. Dentro deste grupo, encontram-se o delírio de perseguição propriamente dito, o delírio de autorreferência, o delírio de relação e os delírios de influência ou controle (também conhecidos como "vivências"). Os delírios de perseguição, também conhecidos como delírios persecutórios, envolvem a crença de que o indivíduo é vítima de um complô e está sendo perseguido por pessoas conhecidas ou desconhecidas, como máfias, vizinhos, polícia, pais, esposa ou marido, chefe ou colegas de trabalho. O indivíduo acredita que querem envenená-lo, prendê-lo, matá-lo, prejudicá-lo no trabalho ou na escola, desmoralizá-lo, expô-lo ao ridículo ou até mesmo enlouquecê-lo. É importante destacar que a perseguição é o tema mais comum dos delírios. O delírio de referência, também chamado de delírio de alusão ou auto-referência, é quando o indivíduo tende a interpretar fatos cotidianos fortuitos, que não têm maiores implicações objetivas, como referentes à sua pessoa. Ele acredita que é frequentemente alvo de referências depreciativas ou caluniosas. Por exemplo, ao passar por um bar e observar pessoas conversando e rindo, o indivíduo acredita que estão falando dele, rindo dele, dizendo que ele é ladrão ou homossexual. Às vezes, o indivíduo ouve seu nome sendo xingado (mecanismo alucinatório associado ao delírio de referência) ou simplesmente deduz que a conversa das pessoas em um bar diz respeito a ele (mecanismo interpretativo associado ao delírio de referência). Esse tipo de delírio geralmente ocorre em associação com a temática de perseguição e pode estar presente em psicoses em geral, sobretudo na esquizofrenia paranoide e nos transtornos delirantes. O delírio de relação ocorre quando o indivíduo delirante constrói conexões significativas (delirantes) entre fatos normalmente percebidos, que surgem geralmente sem motivação compreensível. Por exemplo, o paciente pode acreditar que tudo faz sentido agora, os fatos se relacionam (as chuvas do verão passado, o inverno atual mais frio etc.), indicando que a guerra dos seres alienígenas realmente irá começar. Esse tipo de delírio também pode apresentar características persecutórias. O delírio de influência ou controle, também chamado de vivências de influência, é quando o indivíduo vivencia intensamente o fato de estar sendo controlado, comandado ou influenciado por uma força, pessoa ou entidade externa. Esse tipo de delírio é frequentemente acompanhado de conteúdo persecutório, como a crença de que uma máquina (antena, computador, aparelho eletrônico) envia raios que controlam seus pensamentos e sentimentos, ou que um ser extraterrestre, um demônio ou entidade paranormal controla seus sentimentos e funções corporais. O indivíduo afirma ter perdido a capacidade de resistir a essa força externa e passa a submeter-se inteiramente a ela. As vivências de influência incluem experiências de “pensamentos feitos” e “sentimentos feitos”, além de influências sobre o corpo. O delírio de grandeza ou enormidade é caracterizado pelo indivíduo acreditar que é excepcionalmente especial, dotado de habilidades e poderes extraordinários. Ele acredita que tem um destino grandioso e que sua origem e antecedentes indicam que ele é um ser superior. Esse delírio é dominado por ideias de poder e riqueza, e o indivíduo pode pensar que possui poderes mentais, místicos ou religiosos, bem como conhecimentos superioresou especiais. A autoestima pode estar excessivamente elevada. Esse tipo de delírio é típico em quadros maníacos e, no passado, era observado com frequência em psicoses associadas à sífilis terciária parenquimatosa cerebral, como a paralisia geral progressiva (PGP) da neurossífilis. O delírio místico ou religioso ocorre quando o indivíduo acredita ser (ou estar em comunhão permanente com) um novo messias, um Deus, Jesus, um santo poderoso ou até mesmo um demônio. É uma temática delirante frequente, e o paciente pode sentir que possui poderes místicos ou ter entrado em contato com Nossa Senhora, o Espírito Santo ou o demônio. Ele pode acreditar que tem uma missão religiosa importante neste mundo e que é portador de uma mensagem religiosa fundamental. Esse tipo de delírio frequentemente apresenta um aspecto grandioso, enfatizando a própria importância do sujeito que delira. Os delírios místico-religiosos podem ocorrer em quase todas as formas de psicose, predominando na mania delirante e na esquizofrenia. Delírio de infidelidade ou ciúmes, o indivíduo acredita que está sendo traído pelo cônjuge de forma vil e cruel, afirmando que este possui centenas de amantes, inclusive parentes do indivíduo. Esse tipo de delírio pode ocorrer em todas as psicoses, mas é mais característico do alcoolismo crônico e do transtorno delirante crônico. Em indivíduos muito possessivos e inseguros, o ciúme intenso pode ser confundido com um delírio de ciúmes. O ciúme patológico pode ser tanto um verdadeiro delírio quanto uma ideia prevalente (superestimação afetiva) com temática de ciúmes. Pacientes com delírios intensos de ciúmes frequentemente cometem violência física ou homicídio contra o suposto "traidor". No delírio erótico ou erotomania, o indivíduo acredita que uma pessoa de destaque social, como um artista ou cantor famoso, um milionário, ou mesmo o médico ou a médica do paciente, está completamente apaixonada por ele e irá abandonar tudo para se casar. A erotomania é mais frequente entre as O delírio de ciúmes e o delírio de infidelidade ocorrem quando o indivíduo se percebe traído pelo cônjuge de forma vil e cruel, afirmando que ele(a) tem centenas de amantes ou que o(a) trai com parentes, por exemplo. A erotomania, também conhecida como delírio erótico, é um transtorno em que o indivíduo acredita que uma pessoa, geralmente alguém de destaque social como um artista, cantor famoso ou milionário, está profundamente apaixonada por ele e pronta para deixar tudo para se casar. Essa condição, descrita por Clerambault em 1921 e atualmente considerada uma variante de transtornos delirantes, é mais comum entre as mulheres. É frequente que a pessoa amada seja mais velha, mais rica e de status social mais elevado do que o indivíduo afetado. Em muitos casos, o objeto de desejo pode ser o próprio médico ou médica que atende o paciente. A erotomania geralmente se manifesta como um sintoma isolado em transtornos delirantes. Delírios de conteúdo depressivo Os delírios de conteúdo depressivo têm um tema notavelmente triste, como a ruína, miséria, culpa, autoacusação, doenças ou a negação de partes do corpo. Eles estão estreitamente ligados a estados depressivos profundos e são o oposto dos delírios de grandeza, onde o indivíduo acredita ser alguém muito especial. Em transtornos do humor que envolvem ideias delirantes, o conteúdo do delírio pode ser "congruente com o humor", o que significa que o delírio está relacionado com o humor atual do indivíduo, como ocorre em episódios de depressão psicótica, onde os delírios podem envolver temas como ruína, culpa, negação de órgãos ou hipocondria. Em contraste, quando o conteúdo dos delírios não está relacionado ao humor do indivíduo, é chamado de "incongruente com o humor" ou humor-incongruentes, como um delírio persecutório em um episódio depressivo sem a ideia de "merecer" ser perseguido, ou um delírio de controle em um episódio de mania. Os principais delírios de conteúdo depressivo são os de ruína, culpa e autoacusação, negação de órgãos e hipocondríacos. Delírio de ruína ou niilista Neste caso, o indivíduo vive em um mundo repleto de desgraças, está condenado à miséria, ele e sua família irão passar fome, o futuro lhe reserva apenas sofrimentos e fracassos. Em alguns casos, o paciente acredita estar morto ou que o mundo inteiro está destruído e todos estão mortos. Delírio de Culpa e de auto-acusação: Aqui o indivíduo afirma, sem base real para isso, ser culpado por tudo de ruim que acontece no mundo e na vida das pessoas que o cercam, ter cometido um grave crime, ser uma pessoa indigna, pecaminosa, suja, irresponsável, que deve ser punida por seus pecados. O delírio de culpa ou autoacusação é bastante característico das formas graves de depressão. Delírio de negação de órgãos: O indivíduo experimenta profundas alterações corporais. Relata que seu corpo está destruído ou morto, que não tem mais um ou vários órgãos, como o coração, o fígado ou o cérebro, suas veias “estão secas”, não tem mais nem uma gota de sangue, seu corpo secou ou apodreceu, seus braços e pernas estão se “esfarelando”. Denomina-se síndrome ou delírio de Cottard quando o delírio de negação de órgãos vem acompanhado de delírio de imortalidade e de enormidade (“Não vou morrer nunca mais, vou sofrer para o resto da eternidade”) e, mais raramente, de delírio de enormidade (o paciente vivencia o corpo se expandindo, tomando conta de todo o quarto, crescendo até proporções gigantescas). Na literatura científica de língua inglesa, muitas vezes denomina-se o delírio de Cottard como delírio niilista, o que expressa certa imprecisão conceitual. O delírio de negação de órgãos e a síndrome de Cottard são típicos das depressões graves com marcante componente ansioso. Podem ocorrer também em quadros psico-orgânicos crônicos e na esquizofrenia. Delírio Hipocondríaco: O indivíduo crê com convicção extrema que tem uma doença grave, incurável, que está contaminado pelo vírus da AIDS, que irá morrer brevemente em decorrência do câncer. É um tipo de delírio muitas vezes difícil de ser diferenciado das ideias hipocondríacas não-delirantes. Os exames laboratoriais negativos, as avaliações de diferentes especialistas, os exames de imagem (tomografia, ressonância etc.), nenhuma dessas constatações o demovem da crença de que sofre de uma doença terrível. O que diferencia o delírio hipocondríaco da ideia hipocondríaca é a intensidade da crença, assim como a total ausência de crítica do paciente e seu envolvimento com as preocupações hipocondríacas. O delírio hipocondríaco ocorre em pacientes com depressões graves, em casos de transtorno delirante (paranoia) e na esquizofrenia. Outros tipos de delírio menos frequentes Delírio de reivindicação ou querelância: Neste caso, o indivíduo, de forma completamente desproporcional em relação à realidade, afirma ser vítima de terríveis injustiças e discriminações e, em consequência disso, envolve-se em intermináveis disputas legais, querelas familiares, processos trabalhistas etc. São frequentes os delírios de reivindicação associados a questões de herança e trabalhistas (aposentadorias, direitos não-recebidos etc.). O indivíduo considera-se o representante dos injustiçados, dos perseguidos, e engaja-se tenazmente contra as injustiças, das quais julga ser a principal vítima. Ocorre mais comumente em transtornos delirantes (paranoia). Delírio de Invenção ou Descoberta: Aqui o indivíduo, mesmo completamente leigo na ciência ou na área tecnológica em questão, revela ter descoberto a cura de uma doença grave (da AIDS, do câncer etc.), ou ter desenvolvido um aparelho moderno fantástico; enfim, descobertas ou invenções que irão mudar o mundo. Verifica-se principalmente nos transtornos delirantes (antiga paranoia), na esquizofrenia e na mania. Delírio de reforma ou salvacionismo: Ocorre entre indivíduos que se sentem destinados a salvar, reformar, revolucionar ou redimir o mundo ou a sua sociedade. Tal plano revolucionário ou salvacionista está muitas vezes fundamentado em dogma ou sistema religiosoou político, desenvolvido pelo próprio delírio. Esses delirantes têm convicção plena de que seu sistema religioso ou político é absolutamente o único capaz de salvar de fato a humanidade. Delírio cenestopático: O indivíduo afirma que existem animais (cobra, rato etc.) ou objetos dentro de seu corpo. Esse tipo de delírio baseia-se na interpretação delirante de sensações corporais vivenciadas pelo paciente, mas sem a temática de doença. Em determinado caso, o paciente afirmava que tinha uma laranja podre dentro de seu crânio; em outro, a paciente acreditava ter uma cobra em seu abdome e um peixe dentro da vagina. Pode ocorrer principalmente na esquizofrenia e nos transtornos delirantes. Delírio de infestação (Síndrome de Ekbom) O indivíduo acredita que seu corpo (principalmente sua pele e/ou seus cabelos) está infestado por pequenos organismos. Relata, no mais das vezes, que há “bichinhos sob a pele”, insetos nos cabelos, vermezinhos, aranhas, etc. Acompanhando o delírio, podem ocorrer alucinações táteis (correspondentes aos “pequenos insetos”). Esse tipo de delírio ocorre em pacientes esquizofrênicos, deprimidos, no delirium tremens, em intoxicações por cocaína ou alucinógenos e em indivíduos obcecados pela higiene corporal (Sims, 1995). Delírio Fantástico ou Mitomaníaco O indivíduo descreve histórias fantásticas com convicção plena, sem qualquer crítica. Esse tipo de delírio é notável pelas histórias e narrativas fabulosas, totalmente irreais, descrições que se assemelham a contos fantásticos, ricos em detalhes e francamente inverossímeis. O delírio fantástico ocorre tipicamente na parafrenia (por isso, denominada por Kraepelin de parafrenia fantástica). Frequência dos delírios segundo seus conteúdos: Os delírios mais frequentes são os que têm conteúdo de perseguição, que incluem não apenas os delírios propriamente persecutórios, mas também os de referência, de relação e de influência (todos eles quase sempre com colorido persecutório). Outros tipos são mais raros (como o de invenção, o de infestação, o cenestopático e o fantástico), embora possam ser eventualmente observados.