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LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 16 Literatura contemporânea172 (um bruto, sim senhor), acreditara na sua velha Mas pedia desculpa e jurava não cair noutra. O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas, o chapéu varrendo o tijolo Na porta, virando-se, enganchou as ro setas das esporas, afastou-se tropeçando, os sapatões de couro cru batendo no chão como cascos. Foi até a esquina, parou, tomou fôlego. Não deviam tratá-lo assim. Dirigiu-se ao quadro lentamente. Diante da bodega de seu Inácio virou o rosto e fez uma curva larga Depois que acontecera aquela miséria, temia passar ali. Sentou-se numa calçada, tirou do bolso o dinheiro, exa- minou-o, procurando adivinhar quanto lhe tinham furtado Não podia dizer em voz alta que aquilo era um furto, mas era. Tomavam-lhe o gado quase de graça e ainda inventa- vam juro. Que juro! O que havia era safadeza. — Ladroeira. Nem lhe permitiam queixas Porque reclamara, achara a coisa uma exorbitância, o branco se levantara furioso, com quatro pedras na mão. Para que tanto espalhafato? Hum! hum! RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1986. p. 92 4. Texto 2 Heloísa – Dizem tanta coisa de você, Abelardo... Abelardo I – Já sei... Os degraus do crime... que desci corajosamente. Sob o silêncio comprado dos jornais e a cegueira da justiça de minha classe! Os espectros do passado... Os homens que traí e assassinei. As mulheres que deixei. Os suicidados... O contrabando e a pilhagem... Todo o arsenal do teatro moralista dos nossos avós. Nada disso me impressiona nem impressiona mais o público... A chave milagrosa da fortuna, uma chave Yale... Jogo com ela! Heloísa – O pânico... Abelardo I Por que não? O pânico do café Com dinheiro inglês comprei café na porta das fazendas de- sesperadas. De posse de segredos governamentais, joguei duro e certo no café-papel! Amontoei ruínas de um lado e ouro do outro! Mas, há o trabalho construtivo, a indústria... Calculei ante a regressão parcial que a crise provocou... Descobri e incentivei a regressão, a volta à vela sob o signo do capital americano. Heloísa – Ficaste o Rei da Vela! Abelardo I – Com muita honra! O Rei da Vela mise- rável dos agonizantes. O Rei da Vela de sebo. E da vela feudal que nos fez adormecer em criança pensando nas histórias das negras velhas... Da vela pequeno-burguesa dos oratórios e das escritas em casa... As empresas elétri- cas fecharam com a crise Ninguém mais pode pagar o preço da luz... A vela voltou ao mercado pela minha mão previdente. Veja como eu produzo de todos os tamanhos e cores. (Indica o mostruário). Para o Mês de Maria das cidades caipiras, para os armazéns do interior onde se vende e se joga à noite, para a hora de estudo das crianças, para os contrabandistas no mar, mas a grande vela é a vela da agonia, aquela pequena velinha de sebo que espalhei pelo Brasil inteiro Num país medieval como o nosso, quem se atreve a passar os umbrais da eternidade sem uma vela na mão? Herdo um tostão de cada morto nacional! Heloísa (Sonhando) – Meu pai era o Coronel Belar- mino que tinha sete fazendas, aquela casa suntuosa de Higienópolis ações, automóveis Duas filhas viciadas, dois filhos tarados... Ficou morando na nossa casinha da Penha e indo à missa pedir a Deus a solução que os go- vernos não deram... Abelardo I Que não deram aos que não podem viver sem empréstimos. Heloísa – Meus pais... meus tios... meus primos... Abelardo I Os velhos senhores da terra que tinham que dar lugar aos novos senhores da terra! Heloísa – No entanto, todos dizem que acabou a épo- ca dos senhores e dos latifúndios... Abelardo I Você sabe que o meu caso prova o con- trário. Ainda não tenho o número de fazendas que seu pai tinha, mas já possuo uma área cultivada maior que a que ele teve no apogeu. Heloísa Há dez anos A saca de café a duzentos mil-réis! Abelardo I – Estamos de fato num ponto crítico em que podem predominar, aparentemente e em número, as pequenas lavouras. Mas nunca como potência financeira. Dentro do capitalismo, a pequena propriedade seguirá o destino da ação isolada nas sociedades anônimas. O possuidor de uma é um mito econômico. Senhora minha noiva, a concentração do capital é um fenômeno que eu apalpo com as minhas mãos. Sob a lei da concorrência, os fortes comerão sempre os fracos. Desse modo é que desde já os latifúndios paulistas se reconstituem sob novos proprietários. ANDRADE, Oswald de O rei da vela. São Paulo: Abril, 1976. p. 46-9. a) Compare a visão que as personagens Fabiano e Abelardo I têm em relação ao seu lugar na socie- dade, e retire dos textos 1 e 2 uma passagem que comprove a sua resposta. b) Indique o gênero literário predominante no texto 2, justificando com aspectos que o caracterizam. 41 Unicamp 2018 ODORICO Eu sei É um movimento subversivo procurando me intrigar com a opinião pública e criar problemas à minha administração. Sei, sim. É uma conspiração. Eles não que- riam o cemitério. Desde o princípio foram contra. E agora que o cemitério está pronto caem de pau em cima de mim, me chamam de demagogo, de tudo. [...] ODORICO Pois eu quero que depois o senhor soletre esta gazeta de ponta a ponta. Neco Pedreira o senhor conhece? ZECA Conheço não sinhô ODORICO É o dono do jornal. Elemento perigoso. Sua primeira missão como delegado é dar uma batida na redação dessa gazeta subversiva e sacudir a marreta em nome da lei e da democracia... GOMES, Dias O bem amado. 12 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014. p. 40; 68. F R E N T E 2 173 A peça de Dias Gomes é uma crítica a um momento histórico e político da sociedade brasileira Odorico Paraguassu tornou se uma personagem emblemática desse período porque por meio dela A simbolizou-se a defesa da democracia a qualquer custo Essa defesa resultou em uma sociedade cin dida entre o respeito à lei e o seu uso particular, temas políticos comuns aos países latino-america nos nos anos de 1970 B representaram-se o atropelo da lei constitucional, a relativização da liberdade de imprensa e a constru ção de um inimigo interno que justificasse o arbítrio das decisões do Executivo, próprios aos Anos de Chumbo. C explicitaram-se as leis que regiam a vida política e social de uma nação subdesenvolvida da América Latina na década de 1970, marcada pela inércia e pela cumplicidade dos cidadãos com a corrupção sistêmica do país. D fez-se a defesa da democracia e do respeito irres trito à lei constitucional para um projeto de nação brasileira da década 1970, que enfrentava o espírito demagógico dos políticos latino-americanos. 42 Unicamp 2020 No livro A cabra vadia: novas con- fissões, Nelson Rodrigues inicia a crônica “Os dois namorados” com a seguinte afirmação: “há coisas que um grã-fino só confessa num terreno baldio, à luz de archotes, e na presença apenas de uma cabra vadia ” Na crônica “Terreno baldio” ele recorre ao mesmo ani- mal para explicar a ideia que teve de criar “entrevistas imaginárias”: “Não podia ser um gabinete, nem uma sala. Lem- brei-me, então, do terreno baldio. Eu e o entrevistado e, no máximo, uma cabra vadia Além do valor plástico da figura, a cabra não trai. Realmente, nunca se viu uma cabra sair por aí fazendo inconfidências.” (Nelson Rodrigues, A cabra vadia: novas confissões Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016, p. 52 e 160.) O caráter confessional associado à gura da cabra nas crônicas tem relação com A a veracidade dos depoimentos que o cronista tes temunha nas entrevistas. B a impostura dos contemporâneos que são objeto dos comentários do cronista. C a antipatia do jornalista no que diz respeito à busca de identidade dos artistas entrevistados. D a sinceridade dos intelectuais que são objeto das crônicas dos jornalistas. 43 Unicamp 2017 Leia com atenção os excertos a seguir de Lisbela e o prisioneiro. LISBELA: Compre um curió para mim DR. NOÊMIO: Não, Lisbela, eu não gosto de ver ani- mais presos. CITONHO: Por quê, Doutor? DR NOÊMIO: Por que isso é malvadez Os animais foram feitos para viver em liberdade. PARAÍBA: E como que é que o Doutor estáme vendo aqui preso e nem se importa? DR. NOÊMIO: Você é um animal? LINS, Osman. Lisbela e o prisioneiro. São Paulo: Planeta, 2003. p. 25. DR NOÊMIO: Lisbela, vamos Você é minha noiva, não deve opor-se às minhas convicções. As convicções do homem devem ser, optarum causa, as de sua esposa ou noiva Ibidem. a) Nos trechos citados, estão presentes duas atitudes características do Dr. Noêmio com im- plicações morais, que são desmascaradas pelo efeito cômico do texto Quais são essas duas ati- tudes características com implicações morais? b) No segundo excerto, a expressão “minhas convic- ções” é dita de forma solene e expressa um valor social. Que valor é esse e que tipo de sociedade está sendo caracterizado por tal enunciado? 44 UFU 2016 DODÓ: Mas dizer tudo como, meu bem? Não tenho um tostão meu, meu pai é contra a ideia de eu me casar sem estudar, seu pai só deixa você casar com um homem rico... O que é que eu posso fazer contra este inferno? MARGARIDA: Talvez se seu pai soubesse que a noiva sou eu, permitisse o casamento e lhe desse terra para você trabalhar Ele gostou tanto de mim quando estive lá! DODÓ: E eu mais ainda, tanto assim que abandonei meu estudo e vim me meter nesse armazém por sua causa. MARGARIDA: Mas com a chegada de seu pai, tudo se complica! Ele vai descobrir! DODÓ: Talvez você tenha razão, é melhor confessar. Quando ele chegar, descobrimos tudo e ficamos de joelhos diante dos dois, pedindo consentimento para nos casar. CAROBA: O senhor quer um conselho? SUASSUNA, Ariano. O Santo e a Porca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. p. 44. Com base no texto, faça o que se pede. a) Exponha, em um parágrafo, as artimanhas em- preendidas por Dodó para se aproximar de Margarida e se instalar no armazém. b) A personagem Caroba é de suma importância para o desenrolar das ações na peça Justifique, com exemplos da peça O Santo e a Porca, essa afirmação. Para responder à questão 45, leia o excerto do texto dra- mático O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 16 Literatura contemporânea174 MANUEL Sim, é Manuel, o Leão de Judá, o Filho de Davi. Levantem-se todos pois vão ser julgados. JOÃO GRILO – Apesar de ser um sertanejo pobre e amarelo, sinto que estou diante de uma grande figura. Não quero faltar com o respeito a uma pessoa tão importante, mas, se não me engano, aquele sujeito acaba de chamar o senhor de Manuel. MANUEL Foi isso mesmo, João. Esse é um dos meus nomes, mas você pode me chamar também de Jesus, de Senhor, de Deus Ele gosta de me chamar de Manuel ou Emanuel, porque assim quer se persuadir de que sou somente homem Mas você, se quiser, pode me chamar de Jesus. JOÃO GRILO – Jesus? MANUEL – Sim. JOÃO GRILO – Mas espere, o senhor é que é Jesus? MANUEL Sou JOÃO GRILO – Aquele a quem chamavam Cristo? JESUS A quem chamavam, não, que era Cristo Sou, por quê? JOÃO GRILO – Porque... não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito me- nos queimado. [...] A cor pode não ser das melhores, mas o senhor fala bem que faz gosto. [...] MANUEL – Muito obrigado, João, mas agora é sua vez Você é cheio de preconceito de raça Vim hoje assim de propósito, porque sabia que ia despertar comentários. Que vergonha! Eu, Jesus, nasci branco e quis nascer ju deu, como podia ter nascido preto. Para mim tanto faz um branco ou um preto. Você pensa que sou americano para ter preconceito de raça? 45 PUC-RS 2015 Com base no diálogo e na obra literária de Ariano Suassuna, analise as armativas. I. João Grilo mostra-se desrespeitoso diante de um Jesus negro, que não corresponde às suas ex- pectativas. II Na sua fala, Manuel demonstra que o valor das pessoas independe da cor da pele III O companheiro inseparável de João Grilo, Chi có, é um contador de estórias que se caracteriza como uma espécie de mentiroso ingênuo. IV. A obra dramática de Ariano Suassuna mostra-se alinhada a uma tradição literária ibérica que apre- senta obras fundacionais, como o Auto da barca do Inferno, de Gil Vicente. Estão corretas as armativas A I e II, apenas B III e IV, apenas. C I, II e III, apenas. D II, III e IV, apenas. E I, II, III e IV. 46 Enem PPL 2015 Texto I Quem sabe, devido às atividades culinárias da es- posa, nesses idílios Vadinho dizia lhe “Meu manuê de milho verde, meu acarajé cheiroso, minha franguinha gorda”, e tais comparações gastronômicas davam jus ta ideia de certo encanto sensual e caseiro de dona Flor a esconder-se sob uma natureza tranquila e dócil Vadinho conhecia lhe as fraquezas e as expunha ao sol, aquela ânsia controlada de tímida, aquele recatado desejo fazendo-se violência e mesmo incontinência ao libertar-se na cama AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos. São Paulo: Martins, 1966. Texto II As suas mãos trabalham na braguilha das calças do falecido Dulcineusa me confessou mais tarde: era assim que o marido gostava de começar as intimidades Um fazer de conta que era outra coisa, a exemplo do gato que distrai o olhar enquanto segura a presa nas patas Esse o acordo silencioso que tinham: ele chegava em casa e se queixava que tinha um botão a cair Calada, Dulcineusa se armava dos apetrechos da costura e se posicionava a jeito dos prazeres e dos afazeres. COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo: Cia. das Letras, 2002. Tema recorrente na obra de Jorge Amado, a gura feminina aparece, no fragmento, retratada de forma se- melhante à que se vê no texto do moçambicano Mia Couto. Nesses dois textos, com relação ao universo feminino em seu contexto doméstico, observa-se que A o desejo sexual é entendido como uma fraqueza moral, incompatível com a mulher casada. B a mulher tem um comportamento marcado por con- venções de papéis sexuais. C à mulher cabe o poder da sedução, expresso pelos gestos, olhares e silêncios que ensaia. D a mulher incorpora o sentimento de culpa e age com apatia, como no mito bíblico da serpente. E a dissimulação e a malícia fazem parte do repertó- rio feminino nos espaços público e íntimo. Leia o trecho extraído do romance Terra Sonâmbula, de Mia Couto, e responda à questão 47. De imediato, centenas de pessoas se lançaram em todo tipo de embarcações, das pequenas às mais míni mas, para assaltarem o navio malfragado, a fim de se servirem das ditas xicalamidades. [...] Desde então, a situação só piorou pois, consoante o secretário do ad- ministrador, a população não se comporta civilmente na presença da fome. Muita gente insistia agora em voltar ao tal navio pois lá sobrava comida que daria para sal- var filhos, mães e uma africanidade de parentes. [...] Assame foi preso, sujado por mil bocas. Na prisão lhe bateram, chambocado nas costas até que as pernas se exilaram daquele sofrimento que lhe era infligido. Perdeu o sentimento da cintura para baixo. Assane passou as palmas das mãos pelas desempregadas coxas. Tinha sido apenas há dias que lhe abriram a porta da prisão. Ainda nem sabia bem se arrastar de mão pelo chão. Por isso as sacudia, limpando essas mãos que ele sempre aplicara nos documentos.