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202 INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Capítulo 8 Implícitos, ambiguidade e semântica Introdução Este capítulo tem por objetivo trabalhar a ambiguidade, os implícitos e alguns aspectos da semântica. Como afirma Maingueneau, “dizer nem sempre é dizer explicitamente, a atividade discursiva entrelaça constantemente o dito e o não dito” (Pragmática para o discurso literário). É preciso perceber o que foi dito nas entrelinhas; muitas vezes, o autor enuncia o explícito para passar o implícito. Veja, por exemplo, o texto a seguir: EU GOSTO DE VOCÊ O casal inglês, daqueles que conversam pouco mesmo, está na sala, depois do jantar. Ela vidrada na TV e ele lendo seu jornalzinho, quieto, lá num canto da poltrona. De repente, ela volta-se para ele e pergunta: – Meu bem, você gosta mais de mulher bonita ou inteli- gente? E ele, distraído, sem tirar os olhos do jornal: – Nem de uma coisa, nem de outra, querida. Você sabe que gosto mesmo é de você. Almanaque de piadas. Na fala do marido, “Nem de uma coisa, nem de outra, querida. Você sabe que gosto mesmo é de você”, há uma ideia implícita: o fato de ele achar que a mulher não é nem inteligente nem bonita; ou seja, o explícito serve para pas- sar um implícito. Trata-se de uma visão de mundo machista, pois, questionando uma competência feminina, coloca-se em posição de superioridade. No discurso literário, o implícito aparece na relação que se estabelece entre a obra e seu destinatário. Ao ler uma obra de Machado de Assis, um conto ou um romance, pergunta-se: que mensagem o autor quis passar ao escrever essa obra? Procedendo dessa maneira, o destinatário está, na realidade, à procura do implícito; como diz o autor de Pragmática para o discurso literário, “qualquer obra que figura no corpus da Literatura leva seu leitor a perseguir o implícito”. Implícito: pressuposto Segundo Diana Luz Pessoa de Barros, linguista da USP, “o ato de pressupor um conteúdo consiste em situá-lo como já conhecido do enunciatário e em apresentá-lo como fundo comum, no interior do qual o discurso deve prosseguir”. Se afirmo “Maria continua bonita”, parto de um pressuposto de que meu interlocutor concorda com o fato de que Maria era bonita, ao mesmo tempo em que digo que ela é bonita. Se meu interlocutor não aceitar o pressuposto (o fato de que ela era bonita), a conversa não evolui. Por vezes, o empre- go do pressuposto pode ser instrumento de manipulação: – Ontem, vi o professor de História e sua amante no cinema. Ao fazer essa afirmação, o enunciador colocou o fato de o professor ter uma amante como pressuposto, como se o seu interlocutor já soubesse dessa informação. Ou seja, ele não perguntou se o interlocutor sabia que o professor tinha uma relação fora do casamento, mas já assumiu isso como uma informação fato conhecido. Com isso, o enun- ciador livra-se da alcunha de fofoqueiro, tagarela. Observe este outro exemplo: – O progresso da nação deve ser visto com cautela, meu jovem. Nessa fala, o enunciador coloca como pressuposto o fato de que a nação está progredindo, o que pode não estar ocorrendo. Na realidade, o pressuposto “a nação progride” seria garantido por um sujeito indefinido, que não se sabe exatamente quem é. Como diz Diana, “todo ato de pressupor implica presumir e, de alguma forma, im- por a adesão do enunciatário [receptor]”. Ou como afirma Ducrot: “dizer que pressuponho X, é dizer que pretendo obrigar [...] a admitir X, sem por isso dar-lhe o direito de prosseguir o diálogo a propósito de X”. Maingueneau ressalta também a importância do pres- suposto para a construção da coerência textual. Para progredir, diz o linguista, um texto se vale de uma infor- mação posta que se converte depois em pressuposto. Ou seja, as informações iniciais servirão de pressupostos para as informações posteriores. Se o pressuposto não está nas informações iniciais, ele pode aparecer como uma informação já admitida pelo interlocutor (conhecimento de mundo). Dito de outro modo, se, como enunciador, redijo um texto acerca das soluções para a crise energé- tica por que passa o país, estabeleço o pressuposto de que meu leitor já está a par do assunto (o país vive uma crise energética). Maingueneau, em seu livro Pragmática para o discurso literário, enumera alguns recursos linguísticos em que se apoiam os pressupostos: y Verbos factivos (pressupõem a verdade) ou contra- factivos (pressupõem a mentira): João sabe que Lia saiu. pressupõe que seja verdade que Lia saiu. João imagina que Lia saiu. pressupõe que é mentira. y Verbos subjetivos (implicam um julgamento de valor): João confessou que desviara a verba. pressupõe que João é culpado. y Verbos ou marcadores aspectuais (pressupõem que anteriormente havia um processo): João parou de falar. pressupõe que João falava an- teriormente. y Nominalizações (expressões sem verbo): O sofrimento de João abala a família. pressupõe que João sofre. y Descrições definidas (pressupõem a existência de um referente correspondente): O tio de João morreu. pressupõe que João tinha um tio. y Epítetos não restritivos (pressupõem que a qualidade era conhecida): O jornal fez referência à duvidosa honestidade do deputa- do. pressupõe que a honestidade era duvidosa. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP8_LA.INDD / 15-09-2020 (13:24) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP8_LA.INDD / 15-09-2020 (13:24) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL FR EN TE Ú N IC A 203 y Interrogativas parciais: Quando João foi ao teatro? pressupõe que João foi ao teatro. y Construções clivadas (uso de relativos): É João quem dorme na sala? pressupõe que há al- guém na sala. Implícito: subentendido Segundo Diana Luz Pessoa de Barros, em Teoria do discurso, “no caso da pressuposição, o enunciador pode sempre atribuir o conteúdo pressuposto ao ‘senso comum’, a fatos conhecidos de todos e pelos quais ninguém res- ponde; no [caso] do subentendido, a forma implícita de dizer faz a responsabilidade recair sobre o enunciatário [receptor], podendo o enunciador afirmar, em qualquer tempo, que não foi ele quem disse, mas o outro quem assim interpretou”. Veja o exemplo a seguir: – O que você achou do filme? – O final é bom. Quando o interlocutor diz que “o final é bom”, deixa subentendido que o restante não o é. Leia agora o seguinte trecho extraído do livro de Dominique Maingueneau: Em A ilha dos escravos de Marivaux, Iphicrate e seu escra- vo, Arlequim, desembarcam numa região onde são os escravos que dão as ordens a seus senhores. Iphicrate continua, contudo, comportando-se como antes: IPHICRATE: Acompanha-me, vamos! ARLEQUIM (assobio): hu! hu! hu! IPHICRATE: Como! O que queres dizer? ARLEQUIM (distraído, canta): tra-lá-lá-lá-lá! Arlequim quer fazer Iphicrate compreender que ele não é mais seu escravo. Em vez de lhe dizer explicitamente, recorre a uma estratégia de subentendido. Viola abertamente as regras de conversação, pois assobia ou canta em vez de responder, agin- do como se não tivesse ouvido. Iphicrate seria, desse modo, levado a construir uma hipótese capaz de conciliar o postulado de que Arlequim respeita essas máximas e o fato de que aqui ele as transgride. Essa hipótese é que Arlequim quer lhe fazer deduzir um subentendido; “não sou mais teu escravo”. Pragmática para um discurso literário, p. 106. O subentendido é inferido de um contexto singular e sua existência é sempre incerta; já o pressuposto é está- vel; o primeiro está ligado à enunciação (o enunciatário participa da interpretação), o segundo, à frase (inscrito no enunciado). Para ilustrar essa diferença, Maingueneau dá o seguinte exemplo: A: Estou procurando alguém para consertar meu carro. B: Meu irmão está em casa. A: Mas ele está sempre tão ocupado! Pressuposto: B tem um irmão (inscrito no enunciado). Subentendido: B propõe a A empregar seu irmão (con- teúdo inferido a partir de um raciocínio). Para H.P. Grice, filósofo da linguagem, a atividade dis- cursiva supõe uma cooperação de seus participantes,que devem seguir um certo número de regras de conversação. O enunciador do subentendido pode transgredir uma dessas regras para passar um conteúdo implícito, o su- bentendido. Por exemplo: Juliana, o que você vai fazer depois da aula do Renato? Você viu a Carla, Daniel? Fig. 1 Subentendido. Uma das leis da conversação é a de que para toda per- gunta há uma resposta. Juliana não dá a resposta a Daniel, com isso, deixa um subentendido: ela não quer encontrá-lo depois da aula do Renato. Ela quebra uma lei da conversa- ção. Observe agora o exemplo a seguir: O botão da camisa é interessante! Bianca, o que você achou do meu novo visual? Você está dizendo que o resto está ruim? Fig. 2 Avaliação parcial. Bianca transgride uma lei da conversação (lei da exaus- tividade) no momento em que faz uma avaliação parcial; o emissor do primeiro diálogo espera que Bianca esgote as informações acerca do visual, mas Bianca faz uma avaliação parcial, citando apenas o botão, o que gera o subentendido. Para finalizar, eis as palavras de Maingueneau sobre os implícitos: O julgamento sobre o manejo do implícito é, aliás, ambí- guo. Pode-se nele ver tanto uma recusa da franqueza quanto uma marca de delicadeza, tanto uma falta de vontade de con- vívio quanto uma extrema vontade de convívio. Ambiguidade Ambiguidade – latim ambiguu(m), ambíguo, que apre- senta duas faces, dois sentidos. O vocábulo “ambiguidade”, ou anfibologia (Grego amphibologia, discurso ambíguo), emprega-se em Gramática para designar os equívocos de sentido provenientes de construção defeituosa da PV_2021_LU_ITX_FU_CAP8_LA.INDD / 15-09-2020 (13:24) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP8_LA.INDD / 15-09-2020 (13:24) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL 204 INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Capítulo 8 Implícitos, ambiguidade e semântica frase ou do uso de termos impróprios. Em crítica literária, a pa- lavra foi introduzida por William Empson: [em seu livro Seven types of ambiguity, publicado em 1930] a seu ver, ambiguidade consiste em “toda nuança verbal, posto ligeira, que dê lugar a diferentes reações ao mesmo fragmento de linguagem”. [...] Em razão do sentido pejorativo que o vocábulo “ambi- guidade” pode adquirir (“dúbio” e cognatos), seria de preferir ambivalência, polivalência, plurivocidade, multivocidade, ou, conforme sugere Wheelwrigth (1964:61), plurissignificação: “um símbolo expressivo tende, em qualquer circunstância da sua realização, a conter mais de uma referência legítima, de tal forma que seu sentido exato se torna a tensão entre duas ou mais direções de carga semântica”. Em oposição ao “discurso científico”, que se caracteriza pela univalência dos signos, o caráter ambíguo ou múltiplo do texto literário, sobretudo o poético, decorre necessariamente de encerrar uma linguagem por excelência metafórica. De onde a vizinhança da ambiguidade com a metáfora, a conotação, a ironia e termos afins. M. Moisés. Dicionário de termos literários. 12. ed. rev. e ampl. São Paulo: Cultrix, 2004. p. 19. Há mecanismos linguísticos e visuais que desenca- deiam a ambiguidade. É interessante que o usuário da língua os conheça para que não seja levado ao erro. Pronome pessoal No carnaval, no mesmo dia, o vizinho bateu o carro na zona norte e o seu irmão mais velho foi atropelado na zona sul. Por quê? Porque ele não foi prudente. O pronome pessoal ele pode referir-se a vizinho ou a irmão. Pronome relativo A vizinha do chefe, que estava muito doente, ligou para o escritório. O relativo que pode recuperar vizinha ou chefe. Pronome possessivo Os assessores do presidente comunicaram a sua demissão. O pronome sua pode se referir a assessores ou a pre- sidente. Elipse O rapaz foi maltratado pelo pai inúmeras vezes, sempre de maneira muito cruel. O vizinho, um alemão de dois metros de altura e com forte sotaque, sabia do fato, mas não denunciava às autoridades, pois temia uma reação violenta do pai, uma pessoa imprevisível. Certa vez, em pleno carnaval, discutiram de maneira tão violenta, que uma viatura da polícia que pas- sava pelo local chegou a intervir. Dois anos depois, o rapaz, cansado de tanta briga, fugiu de casa. Não se obteve mais notícia do filho. Quem discutiu, o vizinho e o pai ou o pai e o filho? (elipse do sujeito de discutir). Ordem das palavras Encontrei um sapato de menino muito feio. Em outra ordem, teríamos: Encontrei um sapato muito feio de menino. Artigo definido sem o contexto A mulher é pura emoção. Trata-se da classe das mulheres, ou de uma em particular (o artigo como anafórico)? Em “Mulher é pura emoção”, teríamos a classe; em “A mulher do vizinho é pura emoção”, teríamos o indivíduo (com o acréscimo do adjunto adnominal). Léxico (vocabulário se insere em dois campos semânticos) – Tu precisas de um lenço, meu filho! Enfia na testa, cria- tura de Deus! O termo testa pode ser cabeça ou consciência. Ambiguidade verbo-visual Na charge a seguir, a expressão na rua, associada à imagem, pode significar carnaval de rua ou demissão de trabalhadores. A irt on . J or na l A m az ôn ia , 2 3 fe v. 2 0 0 9 Fig. 3 Ambiguidade verbo-visual. Ambiguidade visual Fig. 4 Ambiguidade visual. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP8_LA.INDD / 15-09-2020 (13:24) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP8_LA.INDD / 15-09-2020 (13:24) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL