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FR EN TE Ú N IC A 169 na foto anterior, sofreu um processo especial de polimento; esse processo deu à obra uma suavidade muito grande. O brilho, o efeito do liso, a desfigurativização do rosto e o fato de ser uma cabeça solta do corpo criam uma figura estra- nha, tétrica e ao mesmo tempo suave. O cabelo rugoso e áspero sugere o primitivo, o antigo. O rugoso e o liso, nesta escultura, convivem em harmonia, dando equilíbrio à peça. As formas moles e as formas duras Ek at er in a St ar sh ay a/ 12 3r f.c om Fig. 12 Formas moles. © S ek S oo n A nn | D re am st im e. co m Fig. 13 Formas duras. As formas moles transmitem suavidade, lentidão e movimento; parecem adaptáveis a qualquer superfície e podem sugerir certa subjetividade. As formas duras dão ao texto uma ideia de solidez, racionalidade e materialidade. O reto e o curvo Pa ul _H ou le /F lic kr Fig. 14 O reto. Ro m an B on ne fo y/ C C -b y- sa 3 .0 /W ik ip ed ia Fig. 15 O curvo. As formas retas podem imprimir ao texto modernidade, rigidez, virilidade. As formas curvas podem estar ligadas àquilo que é antigo (arquitetura barroca, rococó), suave e feminino. As formas curvas também estão associadas ao re- ligioso e àquilo que é pomposo, com muita ornamentação. Compare a imagem dos prédios e da igreja. No primeiro, retas, simplicidade, racionalidade nas formas; no segundo, curvas, ornamentos, detalhes. O aberto e o fechado N ic ol as R ay m on d/ st oc k. xc hn g Fig. 16 O aberto. © J os e A nt on io S án ch ez R ey es | D re am st im e. co m Fig. 17 O fechado. As formas abertas sugerem um espaço não delimitado, um contínuo efeito de sentido de liberdade, de espaço a ser percorrido, de possibilidade de movimento. As formas fechadas remetem a um espaço descontínuo, mais con- centrado. O fechado pode estar ligado à intimidade, ao secreto, ao oculto ou até mesmo à falta de liberdade. Na foto da estrada, o vazio criado pelo espaço aberto significa, no plano do conteúdo, sensação de liberdade, um caminho a ser percorrido. Na foto do quarto, o espaço é fechado, sem saída. Há a sensação de confinamento. Desfigurativização e o figural Im m an ue l G ie l/W ik im ed ia C om m on s/ Jo an M iró Fig. 18 A desfigurativização. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP7_LA.INDD / 15-09-2020 (12:58) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL INTERPRETAÇÃO DE TEXTO Capítulo 7 Nível da expressão – relações entre linguagens 170 A desfigurativização pode ser entendida como uma procura da essência, de um estado em que a significação ainda não seja possível, um estado anterior ao signo. Por esse motivo, a desfigurativização é difícil de interpretar. A natureza está repleta de formas que consideramos abstra- tas e sem sentido em uma pintura moderna. O leitor teria dificuldade em discernir uma foto de explosão de estrelas de um quadro abstracionista. As formas que habitam o uni- verso também habitam as telas, a distância que separa a ciência da arte é pequena. O abstracionista está compro- metido com o figural, com aquilo que particulariza cada ser neste mundo, ou seja, sua essência. Teremos uma essência da cadeira, do sol, do amor. O traço mínimo, observado nas telas de Picasso, traduz essa procura; a tela final é o último touro, o qual possui o mínimo de desenho, apenas algumas linhas. Picasso foi ao encontro de uma essência da forma. Compôs para decompor. Pa bl o Pi ca ss o Fig. 19 Pablo Picasso. El Toro, 1945. Litografia. O estranhamento O estranhamento ocorre na arte quando a enuncia- ção resolve dar outra função ao ser, diferente daquela por que é conhecida. Provoca-se um efeito de sentido. Na tela de Hieronymus Bosch (reprodução a seguir), temos um aparente caos, em que os seres se misturam, criando uma combinação e uma funcionalidade inusitada. Como no sonho, os objetos se relacionam de forma incoerente e estranha (para muitos, referência ao inconsciente). Ao dar outra função ao objeto, a enunciação esvazia-o de sua significação usual, dando-lhe outro sentido. Esse novo sen- tido pode obrigar o enunciatário a ver o objeto sob um novo ângulo. Vemos sempre uma cadeira com uma ideia preconcebida, é preciso tirar essa ideia e olhar a cadeira como se fosse a primeira vez, como se ela fosse a única. H ie ro ny m us B os ch /W eb G al le ry o f A rt Fig. 20 Hieronymus Bosch. O jardim das delícias terrenas, 1504. Óleo sobre ma- deira. Museo del Prado, Madrid. Relações entre linguagens Barroco Re m br an dt v an R ijn /W eb G al le ry o f A rt Fig. 21 Rembrandt. Mulher banhando-se num córrego, 1654. Óleo sobre madeira. The National Gallery, Londres, Inglaterra. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP7_LA.INDD / 15-09-2020 (12:58) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL PV_2021_LU_ITX_FU_CAP7_LA.INDD / 15-09-2020 (12:58) / VIVIAN.SANTOS / PROVA FINAL FR EN TE Ú N IC A 171 A cultura barroca (1580 a 1756), segundo o historiador José Antônio Maravall, foi uma resposta à crise do século XVII, que foi econômica, social, política, moral e religiosa. No campo econômico, a produção estava em decadência nas minas de prata na América; no campo político-religioso, a Guerra dos Trinta Anos, opondo católicos a protestantes, deixou quatro milhões de mortos na Europa; no campo moral, os padres de toda a Europa queixavam-se do “afrouxamento” dos valores europeus e do aumento da sodomia. A decadência do poder nobiliárquico, em face do aumento do poder real no século XVI, foi responsável por uma reação aristocrática no século XVII, com uma demanda da nobreza por recuperar antigos privilégios e recuperar o poder que tinha nos tempos medie- vais (Miguel de Cervantes satirizou esse fato em Dom Quixote); no campo social, somente na França, entre o fim do século XVII e o começo do XVIII, ocorreram cerca de 8 500 revoltas no campo, em geral, contra o aumento de impostos causado pelo crescente fortalecimento do poder real. Na Inglaterra, a Revolução Gloriosa inaugurava uma nova forma de governo e abria caminho para a construção do Capitalismo; na Península Ibérica, onde a crise se manifestou com maior intensidade, a contrarreforma e a volta da Inquisição foi particularmente importante na cultura barroca. Diante de todos esses conflitos na maior parte da Europa, o Estado aumentou ainda mais suas prerrogativas, de modo que, na França, ascendeu Luís XIV, o mais absoluto dos monarcas. Uma sensação de profunda opressão e abatimento tomou conta da Europa, consciente de que algo não andava bem. O termo “Barroco” advém da palavra portuguesa homônima que significa “pérola imper- feita”, ou, por extensão, joia falsa. A palavra foi rapidamente introduzida nas línguas francesa e italiana. nobiliárquico: referente à classe dos nobres, à nobreza. Re m br an dt v an R ijn /W eb G al le ry o f A rt Fig. 22 Rembrandt. Ronda noturna, 1642. Óleo sobre tela. Rijksmuseum, Amsterdã, Holanda. No Barroco, tanto na literatura como na pintura, ex- plora-se a emoção, em oposição ao racionalismo da arte renascentista; conciliam-se forças antagônicas, como o bem e o mal; Deus e diabo; céu e terra; pureza e pecado; paganismo e cristianismo; espírito e matéria. Nos quadros, emprega-se estilo grandioso, acentuado contraste de cla- ro-escuro e a expressão dos sentimentos; vide os quadros de Rembrandt. A temática é realista, abrangendo todas as camadas sociais. O pintor tenta captar cenas de maior in- tensidade dramática. Rembrandt é considerado um dos maiores nomes da pintura barroca. Re m br an dt v an R ijn /W eb G al le ry o f A rt Fig. 23 Rembrandt. Lição de anatomia do Dr. Tulp, 1632. Óleo sobre tela. Royal Picture Gallery Mauritshuis, Haia, Países Baixos. Na literatura, dois nomes foram importantes para a es- cola barroca: Gregório de Matos e Padre Antônio Vieira. Gregório de Matos é co nhe- cido pela crítica à corrupção da época, pela irreverência de suas palavras e pelo erotismo de al- gumaspoesias. Uma das figuras de linguagem mais presente em Gregório é a antítese, a figura que emprega a oposição como recurso expressivo. Triste Bahia! Oh quão dessemelhante Estás, e estou do nosso antigo estado! Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, Rica te vi eu já, tu a mi abundante. A ti trocou-te a máquina mercante, Que em tua larga barra tem entrado, A mim foi-me trocando, e tem trocado Tanto negócio, e tanto negociante. Deste em dar tanto açúcar excelente Pelas drogas inúteis, que abelhuda Simples aceitas do sangaz Brichote. Oh se quisera Deus, que de repente Um dia amanheceras tão sisuda Que fora de algodão o teu capote! Gregório de Matos. “Pondo os olhos primeiramente na sua cidade conhece, que os mercadores são o primeiro móvel da ruína, em que arde pelas mercadorias inúteis e enganosas.” In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. Fig. 24 Gregório de Matos. PV_2021_LU_ITX_FU_CAP7_LA.INDD / 16-09-2020 (20:45) / LEONEL.MANESKUL / PROVA FINAL