Prévia do material em texto
Aula 5 – Civilização Romana 51 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Neste relevo, que se encontra no Museu do Vaticano, vemos um regimento militar romano. A disciplina, as armas e os equipamentos fizeram das legiões romanas um exército quase invencível. ESCRAVISMO Com as guerras de conquista, milhares de vencidos foram escravizados e enviados para a Itália. Os ricos tinham dezenas e, às vezes, centenas de escravizados a seu serviço. Os escravizados, em Roma, eram de diversas origens: gregos, macedônios, asiáticos etc. Nesta pintura mural, encontrada na cidade de Pompéia, vemos escravos domésticos a serviço da aristocracia romana, durante um banquete. Os escravos eram empregados em minas e pedreiras, no trabalho agrícola e pastoril e em serviços domésticos, como cozinheiros, médicos, músicos, dançarinos, camareiros e professores dos filhos dos ricos. No entanto, no período republicano, a agricultura foi a atividade que mais absorveu mão de obra escrava. A concentração de terras pelos aristocratas e o aumento de escravos, proporcionado pelas guerras, originaram grandes propriedades escravistas que produziam vinho e azeite de oliva, produtos que alcançavam bons preços no mercado. A pequena propriedade camponesa não desapareceu completamente, mas não conseguia competir com a grande propriedade escravista, pois era necessário muito investimento. As pequenas propriedades produziam então apenas produtos de subsistência para mercados locais. Já o vinho e o azeite produzidos nas grandes propriedades escravistas eram vendidos para outras províncias romanas. A grande propriedade escravista possuía uma residência para quando seu proprietário a visitasse. Na sua ausência era um capataz, um escravo, quem cuidava da propriedade e controlava os outros escravos. Apesar de predominar o trabalho escravista, em determinadas épocas, como a da colheita, era usado o trabalho de camponeses livres. Se, por um lado, livres e escravos podiam trabalhar juntos, por outro, também entre os escravos havia diferenças. O escravo que era capataz tinha mais privilégios do que os escravos que comandava. Ele podia se casar e ter uma casa própria, por exemplo. Alguns podiam transportar dinheiro, viajar e negociar para o seu senhor. Mas, como toda pessoa nesta condição, podiam ser vendidos como escravo, a qualquer momento. Podiam também ser torturados até a morte, castigados com surras de varas, queimados com ferro em brasa, presos em jaulas e, se a falta fosse considerada muito grave, crucificados. No entanto, a escravidão romana não se baseava apenas na violência. Os senhores e escravos buscavam alternativas de controle que diminuíssem as possibilidades de revoltas. Por exemplo, um escravo que servisse bem o seu senhor podia ganhar a liberdade como recompensa. ESPÁRTACO: A RESISTÊNCIA À ESCRAVIDÃO No período inicial da expansão romana pelo Mediterrâneo, ocorreram revoltas de escravos na ilha da Sicília. Os escravos revoltados trabalhavam em grandes propriedades como agricultores e pastores, sofrendo maus tratos. Porém, a maior rebelião de escravos foi liderada pelo escravo Espártaco. Espártaco foi capturado no norte da Grécia e trazido para a Itália. Por ser forte e corajoso, foi escolhido por seu dono para ser um gladiador. Segundo as descrições, ele era loiro, musculoso e coberto de cicatrizes, que ganhara nas lutas de que fora obrigado a participar. Em 73 a.C., ele fugiu acompanhado de 74 gladiadores. Com eles iniciou um exército que recebeu a adesão de milhares de escravos e homens livres pobres, e chegou a reunir cerca de 100 mil combatentes. À frente desse exército de ex escravos, Espártaco venceu algumas legiões romanas por diversas vezes e dominou boa parte do sul da Itália. Em 71 a.C., os exército romanos se uniram contra os rebeldes e, finalmente, conseguiram vencê-los. O romano Crasso massacrou mais de 6 mil seguidores de Espártaco, sendo que muitos deles foram crucificados e expostos em vários trechos da via Ápia. Espártaco(ao centro) liderou um exército rebelde que contou com quase mil ex escravos. 52 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE HISTÓRIA GERAL – Prof. Monteiro Jr. Esse problema social agravou-se de tal modo que, a partir do final do século II a.C., alguns políticos tentaram realizar reformas para a distribuição de terras entre os pobres. Os tribunos da plebe Tibério Graco, em 133 a.C., e seu irmão Caio, em 123 a.C., propuseram uma reforma agrária, mas enfrentaram uma forte oposição do Senado, composto em sua maioria por grandes proprietários, e, com isso, acabaram assassinados. A LUTA PELA TERRA Durante as conquistas militares romanas, grandes extensões dos territórios conquistados tornaram-se terra pública. Mas, como vimos, a aristocracia acabou tomando para si essas terras e montando propriedades escravistas de médio e grande porte. Nesse processo, os camponeses saíram prejudicados. Como cidadãos, eles eram obrigados a servir ao exército, abandonando suas terras. Ao retornarem, encontravam-nas devastadas ou incorporadas ilegalmente às terras dos grandes proprietários. Além disso, com a utilização de mão de obra escrava, parte do campesinato ficou sem ocupação e, sem outra opção, teve de mudar-se para as cidades. Júlio César durante a conquista da Britânia, no século I a.C. Além do problema da terra, outro sinal da crise da República provinha do exército. Muitos camponeses empobrecidos alistavam- se como soldados permanentes. Tal alistamento tornou-se possível a partir de 107 a.C., quando o cônsul Mário promoveu uma reforma militar instituindo o pagamento de salário aos soldados. Além disso, os soldados recebiam parte dos saques de guerra e terras como recompensa. A consequência política dessa reforma foi que os soldados ficaram ligados principalmente por laços de lealdade a seus comandantes. Os comandantes, por sua vez, usavam suas tropas para obter poder político, pressionando assim o Senado. A partir de então, teve início um longo período de guerras civis entre os ambiciosos generais romanos e seus milhares de soldados. Assim, ao mesmo tempo em que o Senado, o órgão mais importante da República, foi perdendo força, os generais ganhavam poder e prestígio. O mais destacado desses generais foi Júlio César, que, com seu poderoso exército, conquistou a Gália, como já vimos, depois de vencer as forças do chefe gaulês Vercingetórix. LEITURA COMPLEMENTAR As aventuras de Asterix, o gaulês “Estamos no ano 50 a.C.Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor.” Assim começam todas as aventuras de Asterix, o gaulês, personagem de histórias em quadrinhos cuja primeira aparição se deu em 1959. Foi criado pelos franceses René Goscinny, o roteirista (falecido em 1977), e Albert Uderzo, o desenhista. Mas afinal de contas quem é Asterix? Asterix é um guerreiro gaulês, baixinho, narigudo e muito esperto que, após beber a poção mágica criada pelo druida (sacerdote) Panoramix, ganha, temporariamente, grande força (mais ou menos como o espinafre age no Popeye). Graças à poção mágica, a aldeia onde vive Asterix realizou o que nenhuma outra aldeia gaulesa conseguiu: resistir ao Império Romano. O melhor amigo de Asterix é Obelix, um gaulês gordo e bonachão que, apesar do tamanho, tem o coração de uma criança. Obelix possui grande força permanentemente, pois caiu no caldeirão da poção mágica quando ainda era pequeno. É ele, aliás, quem sempre acaba roubando as cenas. Nas histórias de Asterix, além dos romanos e gauleses, também aparecem outros povos dominados pelos romanos: egípcios, gregos, bretões etc. Também aparecem caricaturas de personagens que realmente existiram, como o general Júlio César, a rainha do Egito, Cleópatra, e outros. Asterix é o tipode história em quadrinhos que agrada tanto crianças quanto adultos. Suas aventuras são movimentadas, engraçadas, inteligentes e, coisa rara, tão bem escritas quanto bem desenhadas. Reprodução da capa do gibi Asterix e a surpresa de César. Mas, cuidado! Asterix é só uma ficção. Seus autores brincam com elementos e situações atuais, apesar de as histórias serem passadas na Antiguidade. O desenhista Albert Uderzo, quando perguntado se ele e Goscinny pesquisavam para criar as histórias, respondeu: “Não, na verdade era muito divertido tratar os povos em função do que eles são hoje em dia. São caricaturas do que nós conhecemos dos belgas, dos ingleses, dos alemães, dos espanhóis. Não tentamos traduzir a verdadeira maneira de viver desses povos naquela época, até porque deveriam ser muito diferentes do que são hoje. Só queremos divertir os outros”. (Wizard, nº 14, setembro de 1997. São Paulo, Globo. p. 37.) Aula 5 – Civilização Romana 53 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Asterix foi sucesso não apenas na França, mas em vários países (inclusive no Brasil), sendo publicado em 77 línguas e dialetos pelo mundo afora. No Brasil, Asterix é publicado atualmente pela Editora Record. Suas aventuras são facilmente encontradas em sebos e livrarias. Depois da conquista da Gália, Júlio César tomou o poder em Roma e promoveu reformas importantes: doou terras a milhares de ex soldados e plebeus empobrecidos, concedeu cidadania a muitos habitantes das províncias e introduziu o calendário juliano, que divide o ano em 365 dias. Os senadores acusaram César de trair a República e desejar a volta da Monarquia e, com base nisso, o assassinaram em 44 a.C. O poder, entretanto, continuou nas mãos de outro militar, o general Otávio, sobrinho de César e seu herdeiro. Otávio disputou o poder com outro poderoso general, Marco Antônio e o acusou de trair Roma ao se casar com Cleópatra, a rainha do Egito, e deixar para ela toda a sua herança, inclusive terras romanas. Otávio venceu as forças de Marco Antônio na Batalha de Ácio, em 31 a.C., e conquistou o Egito. Ao regressar a Roma, Otávio foi acumulando poderes e diminuindo a força do Senado. A República aproximava-se do fim. O IMPÉRIO ROMANO Três anos depois, em 27 a.C., o Senado atribuiu a Otávio o título de Augusto, que significava “consagrado”, “majestoso”, “divino”. Com Augusto terminou a República e começou o Império. O governo de Augusto, que durou até 14 d.C., marcou o início de um longo período de calma e prosperidade, que passou a História com o nome de Paz Romana. Nesse período as atividades agrícolas, comerciais, culturais e artísticas tiveram um extraordinário impulso. Os dois primeiros séculos após a morte de Augusto constituíram o período mais brilhante da História de Roma. Roma tornou-se o centro de um império que se estendia pela Europa, Ásia e África. A ligação entre Roma e suas províncias era facilitada por uma rede de estradas que percorria todo o Império; daí o famoso ditado: “Todos os caminhos levam a Roma”. Sucederam a Augusto, até o fim do século II, quatro dinastias de imperadores: • Dinastia Júlio Claudiana (14-88), com os Imperadores Tibério, Calígula, Cláudio e Nero. Essa dinastia esteve ligada à aristocracia patrícia romana: a principal característica dessa fase foram os constantes conflitos entre o Senado e os Imperadores. • Dinastia Flaviana (68-96), com os Imperadores Vespasiano, Tito e Domiciano. Esteve ligada aos grandes comerciantes. Os Imperadores dessa dinastia, apoiados pelo exército, submeteram totalmente o Senado. Nesse período, os romanos dominaram a Palestina e houve a dispersão (diáspora) do povo judeu. • Dinastia Antonina (96-193), com Nerva, Trajano, Adriano, Antônio Pio, Marco Aurélio e Cômodo que assinalou o apogeu do Império Romano.Os imperadores dessa dinastia, exceto o último, foram excelentes administradores. Adotavam uma atitude conciliatória em relação ao Senado. Roma jamais voltou a conhecer um período de esplendor como este. • Dinastia Severa (193-235), com Sétimo Severo, Caracala, Heliogábalo e Severo Alexandre, caracterizou-se pelo início de crises internas e pressões externas, exercidas pelos bárbaros, prenunciando o declínio do Império romano, a partir do século III da Era Cristã. Calígula Foi Imperador de 37 a 41. No início de seu governo, deu mostras de generosidade para com os pobres, mandou parar as perseguições políticas iniciadas por Tibério e devolveu os poderes da Assembleia, aparentando democracia. Logo, porém, o desequilíbrio mental o transformou totalmente: pretendeu que os senadores lhe beijassem os pés como a um deus, obrigou-os a elegeram cônsul a seu cavalo Incitatus e passou a perseguir senadores mais ricos; introduziu a obrigatoriedade da adoração ao imperador, o que provocou rebeliões entre os judeus, que só admitiam a adoração a Deus. Na terceira conspiração contra sua vida foi assassinado por um oficial de sua guarda. Calígula tinha a cintura alta, tez pálida, corpo desproporcional, pernas e pescoço extremamente finos, olhos e têmporas afundados, testa larga e atormentada, cabelos raros e totalmente inexistentes no alto da cabeça e o resto do corpo peludo. (...) Seu rosto era evidentemente horroroso e repugnante; no entanto, ele ainda se empenhava no sentido de torná-lo mais selvagem, dando-lhe, com o auxílio do espelho, todos os traços capazes de inspirar terror e medo. Ele não tinha saúde de corpo nem de alma. (...) Acredita-se que enlouqueceu por ter tomado um filtro de amor dado por sua mulher Cesônia. Sofria muito de insônia, não dormindo mais de três horas por noite e ainda assim, com um sono agitado, povoado de visões estranhas; uma vez pensou estar conversando com o fantasma do mar. Além disso, durante grande parte da noite, cansado de velar estendido, sentava-se no leito, ou errava ao longo de imensos pórticos, não cessando de chamar e de esperar pela luz do dia. (SUETÔNIO, historiador latino que viveu de 75 a 160. em: JAIME PINSKY. 100 textos de História Antiga. São Paulo, Hucitec, 1 972. p. 134-135). Nero Aclamado imperador aos 17 anos de idade, fez um dos melhores governos do império durante os primeiros anos (54-59), sob a orientação do filósofo Sêneca. Depois tornou-se um tirano perverso. Mandou assassinar seu meio-irmão Britânico, sua mãe Agripina, sua primeira mulher e sua segunda mulher. Quando Sêneca, desgostoso com as atitudes de Nero, se afastou da corte e da vida política, o imperador entregou-se por completo a uma vida de insensatez e de despotismo: matanças humanas no circo, intrigas palacianas, assassinatos de cortesãos e de senadores. Além disso, tinha comportamentos completamente extravagantes, que não estavam de acordo com a dignidade de seu cargo, como se apresentar como ator e cantor em espetáculos de circo. Conta o historiador romano Suetônio que “enquanto Nero cantava, ninguém tinha permissão para deixar o teatro, nem mesmo pela razão mais urgente. E, assim, conta-se que algumas mulheres davam à luz em plena plateia, enquanto outros membros da audiência fingiam morrer e eram carregados para fora como se fossem ser sepultados.” Tudo isso causava profundo descontentamento entre os romanos. Tal descontentamento aumentou quando Nero mandou confiscar ilegalmente os bens dos cidadãos mais ricos. Em 64, Roma foi devastada por um incêndio. Do alto do palácio, Nero contemplou o fogo, recitando versos seus. Suspeitou-se de que o próprio imperador tinha mandado incendiar a cidade. No entanto, ele conseguiu convencer a população de que os responsáveis pela desgraça tinha sido os cristãos, já numerosos em Roma nessa época. Com esse pretexto, mandou persegui-los ferozmente. A situação grave nas províncias, com várias rebeliões, e o descontentamento popular levaram militares e nobres que se opunham ao Imperador a organizar conspirações contra Nero. 54 VestCursos– Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE HISTÓRIA GERAL – Prof. Monteiro Jr. Estas, no entanto, foram descobertas e violentamente sufocadas, com assassinos e condenações à morte. Entre os condenados encontrava-se Sêneca. Com a intenção de conquistar a consagração artística, Nero foi a Grécia e, ao voltar a Roma, encontrou uma situação Insustentável: revoltas por toda parte. Sentindo-se sem apoio até de sua guarda, tentou fugir. Vendo-se perdido, suicidou-se, em 88. O EXÉRCITO ROMANO As vitórias do Império romano deveram-se à firmeza e à disciplina de seus exércitos. A maior unidade do exército era a legião; cada legião contava com 4.800 homens. No apogeu do império, a Paz Romana era defendida por trinta legiões, ou seja, 144.000 homens. Os legionários eram muito hábeis na construção de pontes flutuantes para atravessar os rios. A utilização dessas pontes e a capacidade de manter um ritmo de marcha (cerca de 32 quilômetros por dia) permitiam que as legiões se movimentassem muito depressa. César saiu muitas vezes vitoriosos por conseguir alcançar seus inimigos antes do esperado, pegando-os de surpresa. O legionário protegia-se com um capacete e uma couraça. As pernas e joelhos também tinham proteção. No braço esquerdo usava um escudo de madeira coberta de couro. Nos pés calçava sandálias de couro com pregos de ferro nas solas. As armas ofensivas eram três: o pilo, o gládio e o punhal. O pilo era uma lança com cerca de 2 metros, formada por um cabo de madeira e um ferro fixado ao cabo por dois cravos, um dos quais, também de madeira, se partia com o impacto, impossibilitando o inimigo de utilizar a arma. O gládio era uma espada curta de lâmina pontiaguda com dois gumes; o punhal era usado como arma auxiliar. Faziam parte também do equipamento do legionário os seguintes utensílios e ferramentas: um cantil, uma caçarola de bronze, uma marmita, uma pá-enxada, um cesto para entulho, uma foice pequena, uma corrente, uma mó manual de pedra para moer o grão, uma correia de couro. Cada legionário levava ainda cereal suficiente para quinze dias, as roupas de muda, o indispensável para barbear e um estojo de primeiros socorros. Todo o equipamento do legionário pesava cerca de 40 quilos e era transportado numa espécie de armação de madeira e metal em forma de T. A maioria dos soldados no tempo do império era formada por voluntários, isto é, alistavam-se no exército porque queriam (e não porque fossem obrigados). Para ser legionário era preciso ser cidadão romano e ter pelo menos 1,74 metro de altura. O candidato, quando aceito, ia para um acampamento onde treinava marchar, cavalgar, nadar e combater. A CIDADE ROMANA A urbs (cidade, em latim) romana era bem diferente da pólis grega. A urbs romana já apresentava muitos problemas que se tornaram comuns nos grandes centros urbanos que surgiram muitos séculos depois. Horácio, poeta romano, lamentou, no século I a.C., quanto Roma tinha ficado violenta com o barulho das carruagens que atravessavam as ruas da cidade. Roma foi a cidade que atingiu maior concentração demográfica em toda a Antiguidade. No século III, a cidade de Roma contava com 1 milhão de habitantes, e o Império Romano, em seu conjunto, com uns 54 milhões. Era das regiões ocupadas que constantemente chegavam pessoas à capital do império. Isso passou a provocar um constante aumento dos aluguéis e o crescimento dos materiais de construção, a falta de espaço obrigou à construção de casas de madeira e tijolo cru, em condições muito precárias. Muitas vezes a irresponsabilidade deu origem a grandes catástrofes provocadas por desabamentos ou incêndios. A vida numa cidade como Roma não era como a vida nas pequenas cidades gregas. A falta de contato entre as pessoas e os problemas de sobrevivência próprios da grande cidade levaram o povo a recorrer à bebida e aos espetáculos públicos para aliviar a tensão. Juvenal, escritor romano, afirmou: “Duas coisas desejava ansiosamente o povo de Roma: pão e circo”. De fato, os pobres e desempregados recebiam pão como esmola do governo e todas as grandes cidades romanas tinham um anfiteatro no qual se realizavam grandes e brutais espetáculos. A finalidade desses espetáculos era desviar a atenção do povo e evitar o descontentamento. Nesses espetáculos, às vezes gladiadores profissionais combatiam com adversários de igual valor; a vida do derrotado dependia dos assistentes: se levantassem o polegar, ele viveria, se o virassem para baixo, seria morto. Outras vezes, porém, gladiadores, criminosos ou membros de seitas perseguidas (como os cristãos, que eram lançados às feras esfomeadas). Os prisioneiros de guerra eram brutalmente incitados a lutar entre si a morte. Os espetáculos, nas datas comemorativas, prolongavam-se pelo dia inteiro e mesmo por dias seguidos. E como os Imperadores instituíam um número cada vez maior de datas festivas, mais da metade dos dias do ano eram considerados feriados públicos. Desde o início do século II a.C., apresentavam-se também espetáculos de feras. Neles, não eram homens que combatiam uns contra os outros, mas os animais selvagens: leão contra leão, leão conta pantera ou contra touro, tigres contra panteras, touros contra ursos e assim por diante. Às vezes formavam-se pares inesperados. Promovia-se, por exemplo, o combate entre uma grande serpente e um leão. E certas ocasiões chegavam a ser mortos, num só dia, 5.000 animais. Para atender às exigências constantes de novos animais, os governadores das províncias romanas tinham de organizar frequentes caçadas. Caçadores a pé e a cavalo, armados de dardos, perseguiam animais ferozes, que tentavam encurralar em uma área cercada por uma enorme rede. Em seguida fechava os animais em jaulas, para a longa viagem até Roma e outras cidades do Império. Foram essas caçadas que levaram è extinção completa dos leões da Mesopotâmia. Outra atração das cidades romanas eram os balneários (casas de banhos). Nos maiores centro urbanos havia um para cada zona da cidade. Assim como o fórum era o centro das atividades na parte da manhã, os balneários eram o centro de atração na parte da tarde. Nos balneários os cidadãos se encontravam para tratar de negócios ou, simplesmente, para conversar. O banho dos romanos era uma operação longa. O banhista passava por diversas salas de aquecimento progressivo, para provocar a transpiração. Depois descia para a banheira quente, mas não antes de um ajudante lhe ter esfregado criteriosamente todo o corpo. Finalmente, o banho terminava com um mergulho na piscina fria, para fortalecer os músculos. A pessoa nadava um pouco e, em seguida, saía da água para as mãos de um massagista que, com óleo perfumado, massageava cada um dos músculos do corpo. Nos dias de sol, os frequentadores dos balneários estendiam-se no solarium para um banho de sol. A Vida Cotidiana em Roma: Nem só de pão, circo, banhos e guerras viviam os romanos. Aula 5 – Civilização Romana 55 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência Alguém tinha de trabalhar para que tudo isso pudesse existir. Embora, em Roma, grande parte das pessoas levasse uma vida ociosa, não podemos esquecer que Roma era apenas uma pequena porção do império. Em outros lugares, os espetáculos de circo eram menos frequentes, as distribuições de trigo e de víveres eram mais raras. Lá as pessoas tinham de trabalhar mais para sobreviver. Mesmo em Roma, a ociosidade era apenas relativa. Em volta da cidade estendiam-se grandes hortas, cujos produtos eram vendidos diariamente no mercado. E, em Roma, como nas demais cidades do Império, existiam diferentes tipos de trabalhadores: carpinteiro e marceneiros, que fabricavam os móveis; cesteiros e ceramistas, que fabricavam os utensílios domésticos; os caldeireiros, que fabricavam os caldeirões, braseiros, tripés e frigideiras, conchas e jarros de metal. Todos essesprodutos eram vendidos nas lojas da cidade. O grupo de profissionais que viviam mais ocupados em Roma eram os estucadores, que tinham a tarefa de fazer o acabamento das paredes e forros das casas e, sobretudo, de pintar periodicamente de branco as paredes externas. Tinham bastante trabalho, porque um dos costumes mais frequentes em Roma, como em outras cidades do império, era fazer grafites, inscrições ou desenhos feitos nos muros e paredes. As pessoas escreviam o que queriam, às vezes com a finalidade de dar aos concidadãos as informações que achavam necessárias. LITERATURA, ARTE E CIÊNCIA Costuma-se dizer que Roma conquistou a Grécia pela força de suas armas, e a Grécia conquistou Roma pela força de sua cultura. Realmente, foi muito profunda a influência grega nas letras, nas artes e nas dependências romanas. Durante o reinado de Augusto, Roma viveu a idade de ouro na literatura latina. Atendendo a um pedido do imperador, que desejava uma epopeia literária para glorificar Roma, o poeta Virgílio compôs a Eneida, uma obra prima da literatura mundial. A Eneida é um grande poema que narra a lenda do herói troiano Enéias. Depois da guerra de Tróia, contra Virgílio, Enéias fugiu para a Península Itálica e ali fundou Alba Longa. Rômulo e Remo, seus descendentes, foram os fundadores de Roma, segundo a lenda. Virgílio atribuiu a Roma a missão divina de proporcionar a paz e a vida civilizada ao mundo, e louvou Augusto como governante, como se ele tivesse sido designado pelos deuses para tomar realidade essa missão. Os gregos podem ter sido melhores escultores, oradoras e pensadores, afirmava Virgílio, roas apenas os romanos sabiam como governar um Império. Além de Virgílio, destacaram-se também Horácio e Ovídio. No campo da História, temos Tato Lívio, Tácito, Júlio César, Suetônio e Plutarco. Na oratória, destacou-se Cícero. A arte romana foi influenciada tanto pela arte etrusca quanto pela grega. Na arquitetura, por exemplo, os romanos adotaram dos etruscos o arco e a abóbada, que aperfeiçoaram, além de desenvolver novas técnicas de construção; dos gregos adotaram as colunas. A originalidade maior dos romanos está, sem dúvida, no urbanismo. Roma era uma cidade relativamente organizada para os padrões da época. Além de muralhas, os romanos construíram túneis, templos, termas, anfiteatros, teatros, arcos e fóruns. Ainda hoje existem, não só em Roma, mas em diversas partes da Europa, restos dos aquedutos, sistemas de condução de água construídos pelos romanos. Roma, um Museu a Céu Aberto Com uma população de quase três milhões de habitantes, Roma é hoje a capital da Itália. Nela situa-se o Vaticano, território independente que é sede da Igreja Católica, onde reside o papa. As praças e ruas do centro histórico romano são consideradas o maior museu de arte ao ar livre do mundo. Igrejas, edifícios públicos; estátuas, monumentos formam um inestimável tesouro de arte e cultura. Quase 12.000 pessoas, entre técnicos, funcionários da administração, vigias e operários, têm como única ou principal atividade a proteção e conservação do património artístico e cultural da cidade. Apesar disso, no entanto, os edifícios históricos e as obras de arte estão seriamente ameaçados. O maior inimigo dos monumentos históricos de Roma é a poluição causada pela fumaça lançada pelos canos de descargas dos veículos. Ela provoca uma reação química que esfarinha as pedras, mesmo as mais duras e resistentes. A velocidade da corrosão já foi até calculada: é de 5 milímetros em cada trinta anos. Esse ritmo vem arruinando baixos relevos, colunas, portas e esculturas de valor inestimável. O governo Italiano está investindo muito dinheiro para restaurar esse patrimônio. Mas restaurar não é suficiente: é preciso conservar. Nesse sentido, estão sendo tomadas medidas para que a área do centro histórico romano deixe de ser uma das mais poluídas da Europa. Uma dessas medidas consiste no fechamento do centro da cidade ao tráfego de automóveis e motocicletas, substituindo-os por ônibus elétricos. O povo e o governo italiano estão convencidos de que todos os esforços devem ser feitos para salvar um património histórico e cultural que todo o ouro do mundo jamais conseguiria refazer. A RELIGIÃO ROMANA A religião praticada em Roma abrangia o culto familiar e o culto público. Os deuses protetores da família eram os Lares. Os bens e os alimentos eram protegidos por divindades especiais, os Penates. Esses deuses eram cultuados pelo chefe da família junto à lareira, onde o fogo permanecia continuamente aceso. Durante as refeições, os romanos espalhavam junto ao fogo migalhas e gotas de leite e de vinho, como oferendas às divindades, para obter sua proteção. Nas festas familiares, sacrificava-se aos deuses um animal (boi, carneiro ou porco), que depois era dividido entre todas as pessoas da família. Além dos deuses de cada família, havia os que eram cultuados por todos os cidadãos. O culto público era organizado pelo Senado. Seguindo as cerimonias determinadas, os fiéis esperavam obter dos deuses boas colheitas ou vitórias nas guerras. Os doze grandes deuses de Roma correspondiam aos principais deuses gregos. 56 VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência CURSO ANUAL DE HISTÓRIA GERAL – Prof. Monteiro Jr. PRINCIPAIS DIVINDADES GRECO-ROMANAS NOME ROMANO NOME GREGO ATRIBUIÇÕES Júpiter Zeus Pai dos deuses; Deus do céu. Juno Hera Mãe dos deuses; protetora das mães e esposas. Marte Ares Deus da guerra. Vênus Afrodite Deusa do amor. Ceres Deméter Deusa da vegetação, das colheitas, da fertilidade da terra. Diana Ártemis Deusa da caça. Apolo Apolo Deus da luz, protetor das artes. Mercúrio Hermes Mensageiro dos deuses, deus das estradas, protetor dos comerciantes, dos viajantes e dos ladrões. DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO Costuma-se dizer que o Império Romano durou até 476, quando os invasores hérulos, comandados por Odoacro, depuseram o imperador Rômulo Augusto. Mas esse acontecimento marca apenas o fim do Império Romano no Ocidente. A metade oriental - mais rica, mais populosa, menos castigada pelas guerras civis e menos exposta às invasões bárbaras - sobreviveu como Império Romano do Oriente até a metade do século XV. Além disso, o declínio de Roma não pode ser entendido apenas como um acontecimento isolado. Foi um longo processo, que durou centenas de anos e teve numerosas causas. Para muitos autores, as invasões bárbaras foram a causa decisiva. Mas há várias outras. Eis as principais: • estrutura administrativa e militar muito dispendiosa; • perda do controle sobre diversas regiões, devido ao tamanho do império; • aumento dos impostos dos cidadãos e dos tributos dos vencidos; • surgimento de massas urbanas miseráveis e descontentes; • governos aristocráticos, que excluíam o povo das decisões; • corrupção política; • luta entre as diversas camadas da sociedade. DIFUSÃO E TRIUNFO DO CRISTIANISMO Tão vagarosamente quanto a crise que o destruía, crescia no interior do Império uma nova religião de origem oriental: o cristianismo. Seu triunfo relacionou-se com o declínio do modelo religioso helênico que os romanos haviam abraçado. O cristianismo demonstrou capacidade de comover em meio à crise, oferecendo soluções confortadoras para os problemas da vida e da morte, uma relação profundamente pessoal com Deus, ligação íntima com o mundo superior e a participação numa comunidade de fiéis que ser preocupavam uns com os outros. Os pobres, os marginalizados e os escravos foram atraídos pela personalidade, vida, morte e ressurreição de Jesus, pelo seu amor a todos e sua preocupação com a humanidade sofredora. Mas o êxito do cristianismo deveu-se não apenas ao poder de mudar uma ideia, mas também ao vigor de uma instituição: a Igreja. Aos moradores das cidades, desiludidos com os negócios públicos, a Igreja (do grego eclesia, “comunidade defiéis”), que dava a seus membros o nome de irmãos e irmãs, satisfazia à necessidade elementar que têm os seres humanos de pertencer a um grupo. Tolerante para com as religiões, o governo de Roma a princípio não interferiu de maneira significativa com o cristianismo. Este, na verdade, beneficiou-se da estrutura do Império. Os missionários cristãos, entre eles alguns dos doze apóstolos, seguidores originais do Cristo, viajaram por todo o império, por estradas e mares cuja segurança havia sido garantida pelas armas romanas. O dialeto grego comum, o koine, falado na maior parte do Império, facilitou a tarefa dos missionários. O universalismo do Império Romano, colocando a cidadania ao alcance de pessoas de muitas nacionalidades, preparou o caminho para o universalismo da religião cristã, que recebia igualmente bem os membros de toas as nações. Posteriormente a Igreja organizou o clero com base na administração provincial. O aumento do número de cristãos chamou a atenção das autoridades, que os viam como subversivos, por pregarem fidelidade a Deus, e não a Roma. Para muitos romanos, os cristãos eram inimigos da ordem social, pessoas que não aceitavam os deuses do Estado, participavam das festas, desprezavam as competições dos gladiadores, não frequentavam os banhos públicos, pregavam o pacifismo, recusavam um suposto criminoso que havia sido crucificado. Na tentativa de acabar com a nova religião, os imperadores recorreram à perseguição sistemática. Os cristãos foram detidos, espancados, privados de alimento, queimados vivos, estraçalhados por animais ferozes na arena e crucificados. As perseguições dividiram-se em duas etapas. As primeiras, promovidas pelo imperador Nero no ano 64, foram locais, não provocaram muitas mortes e, sendo demasiado esporádicas, não conseguiram impedir a difusão do cristianismo. Dois séculos depois, porém, no ano 250, começou a segunda etapa de perseguições, com o imperador Décio desencadeando um terror brutal contra os cristãos em quase todo o Império. Seus sucessores, Galo e Valeriano também promulgaram, entre 251 e 260, editos anticristãos e executaram adeptos da nova crença. De 260 e 303 os cristãos gozaram de relativa paz, mas logo em seguida Diocleciano promoveu contra eles a mais vigorosa perseguição que haviam enfrentado até então. Apesar de terem aniquilado muitos feito outros abandonarem a fé, por temor à tortura e à morte, as perseguições não duraram o suficiente para extirpar a nova religião. Na realidade, elas fortaleceram a determinação da maioria dos fiéis e geraram novos conversos, maravilhados com a coragem extraordinária dos mártires. Incapazes de esmagar o cristianismo pela perseguição, os imperadores romanos resolveram conseguir o apoio do número crescente de seus adeptos no Império. No ano 313, Constantino, sinceramente atraído pela fé em Cristo, promulgou o Edito de