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BECM - Aula 1 - Indutivismo: teses centrais ● Por que devemos confiar na ciência? Devemos confiar nela? Não se trata de uma confiança cega, é baseada na dúvida e fundamentada em boas razões para que se possa confiar nela. Devemos confiar nela quando se chega a um consenso especializado numa comunidade científica diversificada e caracterizada por amplas oportunidades de revisão pelos pares e abertas à crítica. Qualquer afirmação científica pode ser falsa. No caso de haver 2 teorias competidoras, é razoável que a preferência seja por aquela com maior grau de confirmação. ● Termo epistemologia = teoria da ciência = filosofia da ciência Epistemologia = trata da teoria do conhecimento. Problemas epistemológicos relacionados à ciência. Pensamento = atividade coletiva. Aula 2 - Temas centrais da concepção comum de ciência: ● A ciência é objetiva; ● As teorias científicas são derivadas de maneira rigorosa da obtenção dos dados da experiência adquiridos por observação e experimentação; ● O conhecimento científico é conhecimento confiável porque é conhecimento provado objetivamente. De acordo com o indutivista ingênuo, a ciência começa com a observação, feita por um observador com órgãos sensitivos normais e inalterados. A observação deve ser, portanto, neutra - não depende da vontade, do gosto, da inclinação. É por meio dela que chegamos aos enunciados elementares e, destes, aos universais. Afirmações ou enunciados singulares: referem-se a uma ocorrência específica ou a um estado de coisas num lugar específico, num tempo específico. Exemplo: “hoje, dia 27 de setembro de 2023, choveu em São Bernardo do Campo entre às 19h e às 19h30”. Afirmações ou enunciados universais: referem-se a todos os eventos de um tipo específico em todos os lugares e em todos os tempos. Tem que conter o quantificador “todo”, pois não se refere a um conjunto único de coisas, mas a todo e qualquer objeto daquele tipo. Não é possível observar todos os eventos que aconteceram, acontecem e acontecerão, nós inferimos para todos os outros certas características observadas em um grupo. Indutivismo: qual é o problema da questão? ● O conhecimento começa com a experiência; ● Enunciados singulares devem levar aos enunciados universais. Como realizar esse processo? Como alcançar os enunciados universais a partir dos enunciados singulares? ● Em um raciocínio indutivo, interessa-nos a probabilidade da conclusão, dadas as premissas (probabilidade indutiva do argumento). Argumentos prováveis a partir das premissas = indutivos. Premissa 1: O remédio R curou a gastrite do paciente A; Premissa 2: O remédio R curou a gastrite do paciente B; Premissa 3: O remédio R curou a gastrite do paciente C; Premissa 4: O remédio R curou a gastrite do paciente D; Premissa 5: O remédio R curou a gastrite do paciente E. Conclusão: O remédio R cura gastrite. ● Indução: a partir de informações singulares, chega-se a uma conclusão universal. Por meio da observação das repetições, o hábito nos faz esperar que a observação se concretizará para sempre (Hume). Qual é o estatuto dessa generalização ou da conclusão à qual chegamos? Conclusão provável, mas não necessária. Um único caso é capaz de falsear a conclusão pretendida, ou seja, aumentar o número de premissas aumenta a probabilidade da conclusão ser verdadeira. ● Indução simples ou indução por simples enumeração: caracterizada pela enumeração dos elementos de uma determinada amostra de um conjunto e a constatação de uma propriedade comum a todos estes, seguida da inferência de que todos os elementos do conjunto em questão possuem a dada propriedade. 1) Classe A: a1, a2, a3… a 2) Todos os elementos da classe A pertencem a outra classe B, portanto, supondo que não se conhece nenhum elemento de A que não pertença a B, conclui-se que todo A é B. ● Indução por analogia: as premissas afirmam que duas ou mais coisas são semelhantes sob determinado aspecto, afirma-se, igualmente, que uma - ou mais delas (desde que não a totalidade das coisas comparadas) - possui dada propriedade; conclui-se, então, que todas as coisas em questão possuem a tal propriedade. Premissa 1: Labradores e pastores alemães são cães inteligentes. Premissa 2: Labradores e pastores alemães são cães amáveis. Premissa 3: Labradores e pastores alemães são cães obedientes. Premissa 4: Labradores são excelentes cães de raça. Conclusão: Pastores alemães são excelentes cães de raça. ● Inferência estatística ● Generalização estatística ● Silogismo estatístico As previsões e explicações, obtidas por um raciocínio dedutivo, levam em conta a seguinte estrutura: 1) Leis e teorias; 2) Condições iniciais; 3) Previsões e explicações. Etapas da investigação científica: 1) Observação e registro de todos os fatos - não é possível abarcar a totalidade dos fatos; 2) Análise e classificação desses fatos - a classificação e a análise pressupõem o estabelecimento de um critério prévio; 3) Derivação indutiva de generalização a partir deles - pressupõe um processo mecânico de indução, não existe tal processo mecânico; 4) Verificação adicional das generalizações. *Críticas de Hempel Aula 3 - Crítica ao indutivismo O problema da indução O indutivista ingênuo compromete-se com três suposições fundamentais: 1. A ciência começa com a observação; 2. A observação fornece uma base segura sobre a qual o conhecimento científico pode ser construído; 3. O conhecimento científico é obtido a partir de proposições de observação por indução. A (causa) → B - conjunção. Exemplo: se a rua estiver molhada, pressupomos que choveu. Argumento circular = utiliza como elemento de prova aquilo mesmo que estava em discussão. Crítica ao princípio de indução - David Hume: crítica ao princípio de indução claramente envolvido na terceira suposição, bem como o esclarecimento da relação entre teoria e observação, presente nas duas primeiras suposições. - Problema da indução: saber se e como podemos, a partir do conhecimento de fatos singulares que retiramos diretamente de nossa experiência, adquirir conhecimentos sobre fatos ou coisas situadas fora da área da nossa experiência. Particularmente, será que podemos, baseados naquilo que sabemos sobre o que se passou ou presentemente se passa, obter conhecimentos sobre aquilo que se passará no futuro? - Semelhantes inferências podem ser racionalmente justificadas ou apenas são fundadas numa crença irracional. - Contingência/necessidade: - Chalmers: caminhos de justificação a) pela lógica; b) pela experiência. Justificação pela lógica - Recusa: em razão da comparação com argumentos dedutivos; - Se o argumento é válido e suas premissas são verdadeiras, então a conclusão é necessariamente verdadeira. O mesmo não ocorre com argumentos indutivos, pois eles não são logicamente válidos, pois as premissas podem ser verdadeiras e sua conclusão pode se mostrar falsa. Justificação pela experiência Dificuldades adicionais: ● Necessário fundamentar uma generalização em um grande número de observações. ● Observações devem ser realizadas sob uma ampla variedade de condições? Os principais aspectos da crítica de Chalmers - Visão e observação - Duas suposições comuns sobre a visão: a) “um observador humano tem acesso mais ou menos direto a algumas propriedades do mundo externo à medida que essas propriedades são registradas pelo cérebro no ato da visão”; b) “dois observadores normais vendo o mesmo objeto ou cena do mesmo lugar ‘verão’ a mesma coisa”. Na verdade, nem sempre dois observadores, nas mesmas condições físicas, têm a mesma experiência visual, ou seja, vêem a mesma coisa. BECM - Aula 3 - Na perspectiva apresentada por Chalmers, é possível notar que ele sustenta que nem sempre observamos a mesma coisa. Mas o que ele quer dizer com isso? embora sejamos obrigados a afirmar que há uma forte relação entre os objetos físicos, a imagem em nossas retinas e aquilo que vemos, é importante notar que: 1. Há uma forte relação entre nosso estado interior mentale a formação cultural, o conhecimento, as expectativas etc. 2. Sob diversos aspectos, o que vemos permanece estável, razão pela qual podemos nos comunicar; 3. Há certamente um sentido em que vemos a mesma coisa (estamos diante dos mesmos objetos). Contudo, isso não significa que tenhamos a mesma experiência perceptiva. De tudo isso segue-se uma tese fundamental: “as proposições de observação pressupõe teoria” Como nota Chalmers, é preciso distinguir experiências perceptivas de proposições de observação. São precisamente as segundas que importam ao jogo científico, pois são formuladas em linguagem pública e levam em conta certos compromissos teóricos. Nesse momento encontramos duas passagens importantes do texto: “Proposições de observação, então, são sempre feitas na linguagem de alguma teoria e serão tão precisas quanto a estrutura teórica ou conceitual que utilizam” “Teorias precisas, claramente formuladas, são um pré-requisito para proposições de observação precisas. Nesse sentido, teorias precedem a observação.” BECM - Aula 4 - Hipóteses: invenção e verificação Hipótese: algo que tomamos como explicação em prol de explicar algum determinado fenômeno. Para pensar na hipótese, é necessário ter noção do problema. Quando lançam uma hipótese, ela tem o objetivo de resolver um problema. Apresentação do problema: as mortes ocasionadas por morte cerebral Entre 1844 e 1848, o hospital de Viana registrou índices preocupantes de mortes por febre puerperal no primeiro serviço. Ainda que os óbitos de parturientes também escorre. BECM - Questionário Falsificacionismo Prova: - Clareza nas respostas; - Respostas bem completas; - Construção (redação, clareza, precisão); - Indicar os aspectos mais pertinentes do conceito central requerido. - Ler os textos; - Sem consulta; - Não atrasar; - Características do Falsificacionismo: 1. “A observação é orientada pela teoria e a pressupõe” - É necessário algum conhecimento prévio para observar. Exemplo dos morcegos: não estão somente observando diversos tipos de morcegos, em diferente situações, para concluir alguma coisa, e sim levantar problemas. Como o morcego enxerga tão bem se tem os olhos tão pequenos? Indutivistas e falsificacionistas partem de lugares diferentes. 2. “Abandona com alegria qualquer afirmação que faz supor que as teorias podem ser estabelecidas como verdadeiras ou provavelmente verdadeiras à luz da evidência observativa” - não é porque uma teoria deu certo por vezes e sobreviveu a testes que ela é verdadeira ou provavelmente verdadeira. A conclusão obtida pelos indutivistas é constatada no enunciado universal, porém essa premissa é posta em cheque pelos falsificacionistas, uma vez que entendem que, para generalizar, deveriam conhecer todos os eventos que aconteceram, estão acontecendo e acontecerão. Qualquer que seja o número de evidências observativos, não é possível verificar em um enunciado universal, mas é possível falsificá-lo: basta encontrar 1 caso que não vai de encontro com o enunciado universal 3. “As teorias são interpretadas como conjecturas especulativas ou suposições criadas livremente pelo intelecto humano no sentido de superar problemas encontrados por teorias anteriores e dar uma explicação adequada do comportamento de alguns aspectos do mundo ou universo”. Teorias, para o falsificacionista, nunca são enxergadas como verdadeiras ou provavelmente verdadeiras. Teorias científicas se aproximam da verdade, mas não as detém. Então, por que devemos confiar nelas? Pois possuem adequação empírica e confiabilidade. Falsificacionista recoloca a questão da ciência em muitos termos. Postura antidogmática, não se toma qualquer tipo de conhecimento como uma verdade inabalável. 4. “As teorias especulativas devem ser rigorosa e inexoravelmente testadas por observação e experimento” A resistência aos testes demonstra a força da teoria, ou seja, que ela é a melhor teoria a respeito do assunto que existe. 5. “Teorias que não resistem a testes de observação e experimentais devem ser eliminadas e substituídas por conjecturas especulativas ulteriores” 6. "A ciência progride por tentativa e erro, por conjecturas e refutações. Apenas as teorias mais adaptadas sobrevivem” 7. “Embora nunca se possa dizer legitimamente de uma teoria que ela é verdadeira, pode-se confiantemente dizer que ela é a melhor disponível, que é melhor do que qualquer coisa que veio antes” Mesmo que não completamente verdadeira, a teoria possui um valor, pois foi testada, não foi falsificada e, portanto, resistiu aos testes. Por que o falsificacionismo se opõe ao indutivismo? Sob que condições uma hipótese é falsificável? Qual a diferença entre uma proposição falsificável e uma proposição falsificada? Falsificada = Falsificável = BECM - O problema da confirmação de teorias científicas Conjecturas, refutações e base empírica ● Uso desse tipo de raciocínio lógico para extrair de uma teoria um; ● Embora a ciência admita uma base empírica, isso não significa que a base empírica é intocável; ● Base empírica = aceita por convenção (acordo), aceitamos certos fenômenos; ● Com a base empírica aceita, é possível testar a teoria, pois já temos um conjunto de fenômenos potenciais capazes de falsear a teoria; ● Tese Duhem-Quine = coloca em evidência e dificuldade de determinar, no amplo conjunto de afirmações, hipóteses e teorias envolvidas em um teste, em qual delas está o problema ou qual é responsável pelo sucesso; ● Negação de uma conjunção = disjunção; Falsificacionismo sofisticado, novas previsões e o crescimento da ciência “Uma hipótese deve ser falsificável e quanto mais ela o for, melhor, mas, no entanto, não deve ser falsificada” Condição extra do falsificacionismo sofisticado: “uma hipótese deve ser mais falsificável do que aquela que ela se propõe a substituir” - diz mais coisas sobre o mundo (ampla), é mais testável e mais precisa. Por que escolher a teoria mais falsificável? Porque é mais audaciosa. Diferenças de foco: falsificacionistas ingênuos e sofisticados Falsificacionista ingênuo: toma as teorias isoladamente, e não pressupõe o crescimento ou progresso da ciência; Falsificacionista sofisticado: leva em conta teorias concorrentes e pressupõe o crescimento ou progresso da ciência. Determinação do grau de falsificabilidade é interpretado pelo falsificacionista sofisticado a partir de séries ou conjuntos de teorias. Assim, não é obtida tendo em vista apenas uma teoria, mas teorias rivais ou concorrentes. 1. Teorias devem ter cada vez mais conteúdo; 2. As mais falsificáveis são mais informativas do que as menos falsificáveis; 3. Tais exigências eliminam a manutenção de teorias por meio de estratégias ad hoc, que têm em vista apenas a manutenção da teoria e a sua proteção do falseamento. Teses fundamentais: 1. Teorias audaciosas devem apresentar-se como avanços científicos;