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Fidel e a Religiao 
Conversas com Frei Betto 
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TTURA: 
BINS 
e Cuba — Mudanca Econémica e Reforma Educacional — 1955- 
1974 — J. Werthein/Martin Carnoy 
e Economia e Movimentos Sociais na América Latina — 
Diversos Autores 
e A lgreja dos Pobres na América Latina — Fund. SP/PUC 
e Os Juros Subversivos — Joe/mir Beting 
Cole¢gao Primeiros Passos 
e O que é Benzecdo — E/da Rizzo de Oliveira 
e O que 6 Comunidade Eclesial de Base — Frei Betto 
e O que é Igreja — Paulo Evaristo, Cardeal Arns 
e O que é Pastoral — Jodo Batista Libanio 
e O que é Religido — Rubem Alves 
Colecao Tudo é Historia 
e A Igreja no Brasil Coldnia (1550-1800) — Eduardo Hoornaert 
e A Inquisic¢ado — Anita Novinsky 
e Os Jesuitas — José Carlos Sebe 
e Juventude Operaria Catdlica — Va/mir F. Muraro 
e Revolucdo Cubana: de José Marti a Fidel Castro (1968-1959) — 
Abelardo Blanco e Carlos A. Doria 
Cole¢gao Primeiros Véos 
e Os Cavaleiros do Bom Jesus — Uma Introducdo as Religides 
Populares — Rubem César Fernandes 
Fidel e a Religiao 
Conversas com Frei Betto 
12 edicdo 1985 
122 edicdo 
brasiliense 
et Oo fos) oO 
Copyright © Frei Betto, 1985. 
Tradu¢ao: 
Frei Betto 
Reviséo da transcrigao das fitas: 
Fidel Castro Ruz 
Capa: 
Tomaz Borbonet 
Foto de capa: 
Chomy Miyar 
Reviséo: 
Suely Bastos 
Elvira da Rocha 
brasiliense 
Editora Brasiliense S.A. 
R. General Jardim, 160 
01223 — Sdo Paulo — SP 
Fone (011) 231-1422 
A 
Leonardo Boff, 
sacerdote, doutor e, sobretudo, 
profeta. 
Em memoria de frei Mateus Rocha, que me ensi- 
nou a dimensdo libertadora da fé crista e, como 
Provincial dos dominicanos brasileiros, estimulou 
esta missGo. 
A todos os crist@os latino-americanos que, entre 
incompreens6ées e na bem-aventuranga da sede de 
justi¢a, preparam, a exemplo de Joao Batista, os 
caminhos do Senhor no socialismo. 
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Indice 
Prefacio: CAMINHOS DE UM ENCONTRO — 
Peed DALIT 0h ee ATR Ee pL el a tie 11 
Com os cristaos no Chile, 12 @ O cristianismo em 
Cuba, 15 © Com os cristéos na Jamaica, 16 © Com 
Os cristéos na Nicaragua, 18 
1a 5G © LW be call a8 eg ned Mame ai oy ga aa re) 
A atual realidade cubana, 30 © Encontro com Fidel, 
33 © O sistema eleitoral, 39 © As maes-enfermeiras, 
39 © O novo Plano Qiiingtienal, 40 ¢ Transporte 
e propriedade rural, 42 © O sistema escolar, 44 
© O aproveitamento da cana, 48 @ A divida exter- 
na, 51 © A situacdo social do Brasil, 56 ¢ A espera 
da entrevista, 59 © A espiritualidade de Jesus, 60 
e O projeto da Vida em Jesus, 71 © A radio José 
Marti, 77 
PARTE DOIS>.. « c:ccscueeeecere eae eee ee 
Os pais de Fidel, 86 © A casa paterna, 89 ® O bati- 
zado, 99 @ A infancia em Santiago de Cuba, 107 
© O antigo sistema eleitoral, 110 © As festas dos 
Reis Magos, 114 © A escola primaria, 116 ® As 
férias e as festas, 121 © O colégio dos jesuitas, 125 
e A formacio religiosa, 131 @ O sistema escolar, 
135 © O curso secundario, 141 © Os retiros espi- 
rituais, 148 ¢ O compromisso com os pobres, 153 
e Marx e Marti, 158 © A preparacao politica da 
Revolucao, 163 ® O ataque ao quartel Moncada, 
173 @ A prisao, 182 © O padre Sardifias, 189 @ As 
primeiras leis revolucionarias, 193 ¢ A discrimi- 
nacao racial, 197 © A rendncia de Fidel, 202 © Os 
conflitos com a Igreja, 205 @ A religiosidade do 
povo, 209 @ A Igreja e os processos revolucionarios, 
216 © O carfter socialista da Revolucao, 224 © O 
combate ao sectarismo, 231 @ A invasao da baia dos 
Porcos, 238 @ Os cristaos e o Partido Comunista, 
242 © A discriminacao aos cristaos, 247 ¢ Encontro 
dos estudantes cristaos, 250 @ A visita dos bispos 
norte-americanos, 253 ® Missionarios ou interna- 
cionalistas, 259 © As feligiosas cubanas, 264 © Os 
pfesos contra-revolucionarios, 268 © Os cristaos 
latino-americanos, 271 @ As relacdes Igreja-Estado, 
276 ® Os cristaos e a esquetda na América Latina, 
281 @ A religiao como dominacao, 284 @ A Teolo- 
gia da Libertagaéo, 290 © O papa Joao XXIII, 292 
¢ A relacdo entre cristianismo e mafxismo, 296 © A 
Igreja e o controle da natalidade, 304 © A visita 
do papa, 312 © A figura de Jesus, 320 © Martires 
83 
cfistaos € comunistas, 326 @ A religiao € 0 Opio 
do povo?, 330 © O amor como exigéncia revolu- 
cionaria, 333 @ O 6édio de classe, 336 © A 
democracia cubana, 345 @ As eleicdes em Cuba, 
350 © Cuba exporta revolucio?, 353 ¢ A divida 
externa, 356 ® As relacdes com o Brasil, 365 © Ernes- 
to Che Guevara, 370 © Camilo Cienfuegos, 375 
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Caminhos de um encontto 
O projeto desta obra brotou, em mim, em 
1979. Havia proposto ao meu querido compadre e editor 
Enio Silveira a idéia de um livro que teria como titulo A 
Fé no Soctalismo. Realiza-la exigiria que eu viajasse aos 
paises socialistas para entrar em contato com as comuni- 
dades crists sob um regime qualificado de materialista e 
ateu. Maltiplas tarefas acabaram distanciando-me da 
idéia, acrescido o fato de sua consecucao ser demasiado 
cara. 
Logo apés o triunfo da Revolucao Sandinista, os 
centros pastorais que atuam na Nicaragua convidaram- 
me pafa assessorar encontros e treinamentos, especial- 
mente com camponeses. Passei a viajar aquele pais duas 
ou trés vezes ao ano, para animar retiros espirituais, dar 
cursos de iniciacgao biblica e ajudar as comunidades cris- 
tas na articulacdo entre a vida de fé e o compromisso 
politico. Patrocinado pelo Centro de Educagcao e Promo- 
cio Agraria (CEPA), cumpri um programa de sete encon- 
12 CONVERSAS COM FREI BETTO 
tros pastorais com camponeses, na montanha de Diriam- 
ba, em El Crucero. Essas viagens aproximaram-me dos 
sacerdotes que servem ao regime popular da Nicaragua. 
A 19 de julho de 1980, participei como convidado ofi- 
cial nas comemoracGes do primeiro aniversario da Revo- 
lucio. Na noite daquela data, o padre Miguel D’Escoto, 
ministro das Relacdes Exteriores, levou-me 4 casa de 
Sérgio Ramirez, atual vice-presidente da Repablica. Foi 
entdo que, pela primeira vez, conversei com Fidel Cas- 
tro, a quem vira na concentragao popular daquela ma- 
nha, onde ele discursara. 
Com os cristaos no Chile 
Recordei a Fidel o impacto que causara em mim, ao 
ler num c4rcere politico de Sao Paulo, onde me encon- 
trava cumprindo sentenca de quatro anos ‘‘por razGes de 
seguranca nacional’’, suas declaracgGes aos sacerdotes que 
visitara no Chile, em novembro de 1971. Naquela oca- 
sido, ele dissera que ‘‘numa revolucdo ha uma série de 
fatores morais que sao decisivos, nossos paises so muito 
pobres para poder dar ao homem riquezas materiais, 
mas nao para lhe dar um sentido de igualdade, lhe dar 
um sentido de dignidade humana’’. Contara que na 
visita protocolar que fizera ao cardeal Silva Henriquez, 
de Santiago do Chile, dissera a ele ‘‘das necessidades 
que nossos povos tinham de objetivamente libertar-se, 
da necessidade de unir os cristdos e os revolucion4rios 
nesses propdsitos. Isso nao era um interesse especifico de 
Cuba, pois nao tinhamos problemas desta indole em 
nosso pais, mas, considerando o contexto da América 
Latina, era dever e interesse de revoluciondrios € cristaos, 
muitos deles homens e mulheres humildes do povo, 
FIDEL E A RELIGIAO i} 
estreitar lagos num processo de libertagdo que era inevi- 
tavel’’. 
O cardeal présenteou o dirigente cubano com um 
exemplar da Biblia, dizendo ‘‘se nao lhe incomoda’’. 
‘Por que me incomodaria?’’, respondeu Fidel. ‘‘Se este 
€ um grande livro que li, que estudei quando crianga, 
agora vou relembrar muitas coisas que me interessam.”’ 
Um dos padres lhe indagara o que pensava da presenca 
de sacerdotes na politica. ‘‘Nenhum guia espiritual de 
uma coletividade humana’’,respondera ele, ‘‘pode 
ignorar seus problemas materiais, seus problemas huma- 
nos, seus problemas vitais. Por acaso esses problemas 
materiais, humanos, sao independentes do processo his- 
torico? Sao independentes dos fenémenos sociais? Temos 
vivido tudo isso. Sempre me recordo da escravidao pri- 
mitiva. Inclusive o cristianismo surge naquela época.’’ 
Observara que os cristéos ‘‘passaram de uma fase em 
que foram os perseguidos a outras fases em que foram 
perseguidores’’ e que ‘‘a Inquisigéo foi uma fase de 
obscurantismo, quando se chegou a queimar homens’’. 
Agora, o cfistianismo poderia ser ‘‘uma doutrina nao- 
ut6pica, mas real, e nado um consolo espiritual para o 
homem que sofre. Pode produzir-se o desaparecimento 
das classes e surgir a sociedade comunista. Onde esta a 
contradic4o com o cristianismo? Ao contrario, se produ- 
zitia um feencontro com o cristianismo dos primeiros 
tempos, em seus aspectos mais justos, mais humanos, 
mais morais’’. 
Junto ao clero chileno, Fidel relembrara seus tem- 
pos de aluno de colégios catélicos: ‘‘O que ocorria com a 
religido catolica? Um relaxamento muito grande. Era 
meramente formal. Nao tinha nenhum contetdo. E 
quase toda a educacdo estava petmeada disso. Eu estudei 
com os jesuitas. Eram homens retos, disciplinados, rigo- 
14 CONVERSAS COM FREI BETTO 
rosos, inteligentes e de carater. Sempre afirmo isso. 
Porém, conheci também a irracionalidade daquela edu- 
cacao. Mas, para vocés, aqui entre nds, digo-lhes que ha 
um grande ponto de contato entre os objetivos que o 
cristianismo preconiza e os objetivos que nés, comunis- 
tas, buscamos; entre a pregacdo crista da humildade, da 
austeridade, do espirito de sacrificio, do amor ao proxi- 
mo e tudo o que se pode chamar contefido da vida e 
conduta de um revolucion4rio. Afinal, o que estamos 
pregando ao povo? Que mate? Que roube? Que seja 
egoista? Que explore aos demais? E exatamente o con- 
trario. Ainda que por motivacées diferentes, as atitudes 
e a conduta que propugnamos frente 4 vida sao muito 
semelhantes. Vivemos numa época em que a politica 
entrou num terreno quase religioso em relagao ao ho- 
mem e 4 sua conduta. Acredito que talvez tenhamos 
chegado a uma época em que a feligiao pode entrar no 
terreno politico em relagéo ao homem e 4s suas necessi- 
dades materiais. Poderiamos subscrecer quase todos os 
preceitos do catecismo: nao mataras, nao roubaras...’’. 
Apés criticar o capitalismo, Fidel afirmara que ha 
‘‘dez mil vezes mais coincidéncias do cristianismo com o 
comunismo do que as que pode haver com o capitalis- 
mo... Nao vamos criar divis6es entre os homens. Vamos 
respeitar as convicgdes, as crengas, as explicagdes. Cada 
um que tenha sua posigao, que tenha sua crenca. Contu- 
do, no terreno dos problemas humanos, que interessam 
a todos e é dever de todos, é precisamente neste terreno 
que temos de trabalhar’’. Ao referir-se as religiosas 
cubanas que trabalham em hospitais, acentuara que ‘‘as 
coisas que fazem, s&o as coisas que se espera que faca um 
comunista. Cuidando de leprosos, de tuberculosos e de 
outros tipos de doentes contagiosos, fazem o que quere- 
mos que faga um comunista. Uma pessoa que se consa- 
FIDEL E A RELIGIAO 15 
gta a uma idéia, ao trabalho, que é capaz de sacrificar-se 
pelos demais, faz o que queremos que faca um comunis- 
ta. Afirmo isso francamente’’. 
O cristianismo em Cuba 
Ali na biblioteca de Sérgio Ramirez, toda essa con- 
versa entre o revolucionario de Sierra Maestra € os sacer- 
dotes chilenos, cujo registro agora consulto, estava pre- 
sente em minha memiéria e servia de base 4 nossa troca 
de idéias sobre a quest4o religiosa em Cuba e na Améri- 
ca Latina. Naquela ocasiao, no Chile, um dos presentes 
lhe perguntara se sua crise de fé fora antes ou durante a 
Revolugao. Ele respondera que nunca lhe haviam incul- 
cado a fé, ‘‘poderia dizer que nunca a tive. Foi mec4ni- 
co, nao foi racional’’. Evocando sua experiéncia na guer- 
rilha, comentara que ‘‘nunca se construira uma igreja na 
montanha. Mas chegou um mission4rio presbiteriano e 
outros de algumas chamadas seitas e conquistaram 
alguns adeptos. Essas pessoas nos diziam: nao se pode 
comer gordura animal. Ougam-me, nao comiam gordu- 
ta, nao comiam! E nfo havia éleo vegetal e o més inteiro 
nao comiam banha de porco. Era seu preceito e o cum- 
ptiam. Todos esses pequenos grupos eram muito mais 
conseqtientes. Penso que o catélico americano é também 
um pouco mais pratico em matéria de religiao. Social- 
mente nao. Porque quando eles te organizam a invasado 
de Girdn e as guerras do Vietnam e coisas do género, 
nao podem ser conseqiientes. Entao eu diria que as clas- 
ses ricas mistificaram a religido, puseram-na a seu servi- 
co. Entretanto, o que € um sacerdote? E por acaso um 
latifundiario? E por acaso um industrial? Sempre li 
aquelas polémicas entre o comunista e o sacetdote que 
16 CONVERSAS COM FREI BETTO 
eta Dom Camilo, aquele padre famoso da literatura ita- 
liana. Diria que foi um dos primeiros passos para rom- 
per esse clima...’’. A respeito de Cuba, um padre lhe 
perguntara em que medida os cristaos foram freio ou 
motor na Revolucdo. ‘‘Ninguém pode dizer que os cris- 
taos foram freio’’, dissera ele. ‘“Houve alguma partict- 
pacdo cristé na luta, ao final, como cristaos; houve, 
inclusive, alguns m4rtires. Do Colégio Belém assassina- 
ram trés ou quatro rapazes, ao norte de Pinar del Rio. 
Houve sacerdotes que, por iniciativa propria, se soma- 
ram a nds, como ocorreu no caso do padre Sardifias. 
Como freio, o que surgiu nos primeiros momentos foi 
um problema de classes. Nao tinha nada a ver com reli- 
giao. Foi a religiao dos latifundiarios e dos ricos. E quan- 
do se produz o conflito sécio-econémico, procuram usar 
a religido contra a revolucdo. Foi o fenédmeno que ocor- 
reu, a causa dos conflitos. Havia um clero espanhol bas- 
tante reacionario’’. Ao final da longa conversa com os 
sacerdotes chilenos, Fidel Castro sublinhara que a alian- 
¢a entre cristaos e marxistas nado era meramente tAtica. 
‘‘Gostariamos de ser aliados estratégicos, ou seja, aliados 
definitivos.’’ 
Com os cristéos na Jamaica 
Quase seis anos apés a viagem ao Chile de Allende, 
0 primeiro secretario do Partido Comunista de Cuba vol- 
tara ao tema religioso, desta vez no decorrer de sua visita 
a Jamaica, em outubro de 1977. A diferenca € que, na- 
quela ocasiao, ele falara perante um auditério majorita- 
fiamente protestante. Reafirmara que ‘‘em nenhum 
momento a Revolucéo Cubana estava inspirada em sen- 
timentos anti-religiosos. Partiamos da mais profunda 
FIDEL E A RELIGIAO 17 
conviccao de que nao tinha que existir contradicdo entre 
a tevolucao social e as idéias religiosas da populacio. 
Inclusive em nossd luta houve uma ampla participacao 
de todo o povo, e também participaram homens religio- 
sos’. Revelara que a Revolug&o havia tomado especial 
cuidado para nao aparecer, perante o povo e perante os 
povos, como inimiga da religiao. ‘‘Pois, se isso ocorres- 
se’’, acrescentara, ‘‘estatiamos realmente prestando um 
servicgo 4 reagdo, um servico aos exploradores, nao sé em 
Cuba, mas sobretudo na América Latina.’’ Dissera que 
muitas vezes se perguntara ‘‘por que as idéias de justica 
social tém que se chocar com as conviccées religiosas? 
Por que tém que se chocar com 0 cfistianismo? Conhego 
bastante os principios cristaos e as pregacGes de Cristo. 
Tenho minha convicgao de que Cristo foi um grande re- 
volucionario. Esta € minha conviccao! Era um homem 
cuja doutrina esté toda consagtada aos humildes, aos po- 
bres, a combater os abusos, a combater a injustica, a 
combater a humilhacao do ser humano. Eu diria que ha 
muito de comum entre o espirito, a esséncia de sua pre- 
gacdo e o socialismo’’. Voltara também ao tema da 
alianca entre cristaos e revolucionarios, declarando que 
‘‘ndo existem contradigdes entre os propésitos da reli- 
gido e os propésitos do socialismo. Nao existem. E lhes 
dizia que deviamos fazer uma alianca, mas naouma 
alianca tatica’’, afirmara, relembrando sua viagem ao 
Chile. ‘‘Eles me perguntaram se era uma alianga tatica 
ou estratégica. Eu falo: uma alianca estratégica entre a 
religido e o socialismo, entre a teligiao ¢ a revolucao.”’ 
Com base na memoria desses pronunciamentos, 
falei a Fidel da evolucéo das Comunidades Eclesiais de 
Base e de como o povo sofrido e crente agora encontrava 
em sua propria fé, na meditacdo da Palavra de Deus, na 
participacdo nos sactamentos, a enefgia necessatia 4 sua 
18 CONVERSAS COM FREI BETTO 
luta por uma vida melhor. A meu ver, a América Latina 
nao estava dividida entre cristfos e marxistas, mas entre 
revolucionarios e aliados das forgas da opressdo. Muitos 
partidos comunistas haviam falhado por professarem um 
ateismo academicista que os afastava dos pobres impreg- 
nados de fé. Nenhuma alianca dar-se-ia se estabelecida 
em torno de principios tedricos ou de discussées livres- 
cas. Era a pratica libertadora o terreno no qual haveria 
ou nao o encontro entre militantes cristaos e militantes 
marxistas, pois assim como ha, entre os cristéos, muitos 
que defendem os interesses do capital, também entre os 
que se dizem comunistas ha muitos que jamais se divor- 
ciam da burguesia. Por outro lado, como homem de 
Igreja, eu estava particularmente interessado na Igreja 
cat6lica em Cuba. O que de especifico falamos sobre isso 
esta repetido na entrevista que aqui se reproduz. 
Com os cristaos na Nicaragua 
Da conversa em Managua, muitos temas s4o feto- 
mados nessa entrevista. Desde ent&o, ficara em mim a 
impresséo de que o homem Fidel € uma pessoa aberta, 
sensivel, a quem se pode fazer qualquer tipo de pergun- 
tae, inclusive, questionar. Ainda que assegurasse jamais 
ter tido uma f€ religiosa auténtica, ele nao ficara de todo 
imune a formacgao em colégios catélicos, precedida por 
sua ofigem numa familia cristé. Cinco dias apds esse 
nosso didlogo em casa de Sérgio Ramirez, ele repetiria, 
num encontro com varios padres e religiosas da Nicara- 
gua, ao qual compareci, as idéias basicas que defendera 
no Chile e tornara a sublinhar na Jamaica. Aquele grupo 
de cristaos expressava um avanco que o préprio Fidel nao 
previra. A Revoluc&o Sandinista fora obra de um povo 
FIDEL E A RELIGIAO 19 
tradicionalmente religioso € contara com as béncaos do 
episcopado. Era a primeira vez na hist6ria que os cristZos 
patticipavam ativamente de um processo insurrecional, 
motivados por sua prépria f€, apoiados por seus pasto- 
res. Ali nao se tratara de alianca estratégica, frisavam os 
religiosos nicaragtienses. Houvera uma unidade entre 
cfistfos € marxistas, entre todo o povo. Por sua vez, 0 
comandante da Revolucdo Cubana confessava ter a ‘‘im- 
pressao de que o contetdo da Biblia € um contetido alta- 
mente revolucion4rio; acredito que os ensinamentos de 
Cristo sao altamente revolucion4rios e coincidem total- 
mente com o objetivo de um socialista, de um marxista- 
leninista’’. Em atitude autocritica, reconhecia que ‘‘ha 
muitos marxistas que s4o doutrin4rios. E acredito que 
set doutrinario neste problema dificulta esta questdo. 
Creio que devemos pensar no reino deste mundo, vocés 
e nés, e devemos evitar precisamente os conflitos nas 
questdes que se referem ao reino do outro mundo. Vejo 
que ainda ha doutrin4rios, para nds nao é facil, porém 
nossas relacdes com a Igreja sao de progressiva melhoria, 
apesar de tantos fatores, como aquele principio de anta- 
gonismo. Estamos passando de uma situaco de antago- 
nismo a telacdes absolutamente normais. Em Cuba nao 
ha uma s6 igreja fechada. Em Cuba, inclusive, coloca- 
mos a idéia de colaborar com as Igrejas, colaboragao 
material, de construc4o, de recursos, ou seja, de uma 
ajuda material as Igrejas, como se faz com outras insti- 
tuicdes sociais. Mas nao somos o pais que devemos nos 
converter em modelo disso mesmo que eu colocava. 
Porém, actedito que se est4 produzindo essa condicio. 
Se est produzindo essa condicéo muito mais ainda na 
Nicaragua, se est4 produzindo essa condigéo muito me- 
lhor em El Salvador. De modo que essas mesmas coisas 
que temos colocado estao comegando a levar-se a pratica 
20 CONVERSAS COM FREI BETTO 
na vida e na fealidade da hist6ria. Acredito que as Igre- 
jas terao muito mais influéncia nesses paises do que tive- 
ram em Cuba, porque as Igrejas tém sido fatores impor- 
tantissimos na luta pela libertagao do povo, pela inde- 
pendéncia da nacao, pela justiga social’. 
Antes de despedir-nos, 0 dirigente cubano convi- 
dou-me a visitar seu pais. $6 0 fiz, pela primeira vez, em 
setembro de 1981, integrando a numerosa delegacao 
brasileira ao Primeiro Encontro de Intelectuais pela 
Soberania dos Povos de nossa América. A margem do 
evento, o Centro de Estudos sobre a América (CEA) € a 
atual Oficina de Assuntos Religiosos, dirigida pelo dou- 
tor Carneado, convidaram-me para uma série de conver- 
sas a respeito de religido e Igreja na América Latina. 
Antes que eu deixasse Cuba, propuseram-me regressar 
em outtas oportunidades, a fim de dar continuidade ao 
didlogo iniciado. Ficara em mim a impress4o de que, em 
questOes teol6gicas e pastorais, tanto o Partido Comu- 
nista Cubano, quanto a Igreja cat6lica, ainda eram tri- 
butdrios dos conflitos surgidos, entre eles, ao inicio da 
Revolugao, o que dificultava uma viséo mais aberta e em 
consonancia com os significativos avancos ocorridos, des- 
de o Concilio Vaticano II (1963-1965), na Igreja latino- 
americana. Apresentei uma condicéo ao convite que 
recebera: poder também estar a servico da comunidade 
cat6lica cubana. Nao houve resisténcia e, em fevereiro 
de 1983, compareci como convidado especial 4 reuniZo 
da conferéncia episcopal de Cuba, em El Cobre, no san- 
tuario da Virgem da Caridade, padroeira nacional. Os 
bispos apoiaram, entaéo, minha atividade pastoral neste 
pais. 
Desde que eu entregata ao editor Caio Graco Prado 
os originais de meu livro O Que E Comunidade Ecle- 
stal de Base, editado na colecdo ‘‘Primeiros Passos’, e 
FIDEL E A RELIGIAO 21 
lhe falara das viagens a Cuba, ele propés a idéia de uma 
entrevista com o Comandante Fidel Castro, sobre ques- 
toes religiosas. De setembro de 1981 ao momento desta 
entrevista, retornei doze vezes a esta ilha, gracas ao 
apoio de catélicos do Canadé e, posteriormente, da Ale- 
manha, que me ofertaram as passagens, exceto quando 
se tratou de algum evento cultural patrocinado pelo 
governo cubano. Numa dessas viagens, encaminhei por 
escrito 0 projeto da entrevista e do livro, sem que hou- 
vesse fesposta. 
Em fevereiro de 1985, voltei como jurado do pré- 
mio literario da Casa de las Americas. Fui, entao, convi- 
dado a uma audiéncia privada com Fidel Castro. Era a 
pfimeira vez que conversévamos em Cuba. Retomamos 
o tema abordado em Manégua, acrescido pela polémica 
em torno da Teologia da LibertagZo. O interesse desper- 
tado no dirigente cubano permitiu que o dialogo prosse- 
guisse nos dias seguintes. Foram nove horas de conversas 
dedicadas 4 questdo religiosa em Cuba e na América 
Latina. Retomei o projeto desta entrevista, aceito por 
ele, para data posterior. O editor Caio Graco Prado nao 
mediu esforcos e recursos pata efetiva-lo. Em maio, re- 
tornei a ilha. Sobre o tema da religiao, foram 23 horas 
de conversas entre o autor e o Comandante Fidel Castro, 
cuja transcricio oferecemos, agora, aos leitores. De modo 
especial deixo aqui meus agradecimentos 4 preciosa cola- 
boracéo de Chomy Miyar, que cuidou da gravacao e da 
transcticao das fitas, e ao ministro da Cultura, Armando 
Hart, que estimulou o didlogo. 
Fret Betto 
Havana, 29 de maio de 1985 
PARTE UM 
Secucfei 10 de maio de 1985. Chega em 
visita a Cuba o presidente da Argélia, Chadli Bendje- 
did. Fidel Castro oferece-lhe, na mesma noite, uma fe- 
cepcao no Palacio da Revolucao. Entre os convidados, 
uma pequena comitiva brasileira que chegara 4 ilha no 
dia anterior: o jornalista Joelmir Beting, Anténio Carlos 
Vieira Christo, meu pai, MariaStella Libanio Christo, 
minha mae, e eu. Os trés primeiros pisam, pela primeira 
vez, 0 tefrit6rio cubano. Eu, que ja estivera 14 outras 
vezes, a setvico da Igreja ou como participante de even- 
tos culturais, agora retornara com um tnico propésito: 
entrevistar Fidel. 
Nosso anfitrido, Sérgio Cervantes, um negro com 
jeito de brasileiro, avisa que € preciso gravata na fecep- 
cao. Ha dezessete anos meu pescocgo nao fora mais 
enrolado numa gravata. Nem terno possuo. Em Porto 
26 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Alegre, quando visitei Mafalda e Erico Verissimo, em 
1975, o autor de O Tempo e o Vento disse-me que, ha 
anos, queimara todas as suas gravatas. Eu fizera o mes- 
mo imaginariamente. De repente, em Havana, vacilo! 
Devo quebrar o protocolo e comparecer com uma das 
duas calcas jeans que trouxe? Em protesto as formalida- 
des socialistas, devo declinar do convite? Que diabo de 
costume € este que, tanto no Congresso Nacional, em 
Brasilia, quanto no Palacio da Revolucéo, em Cuba, 
considera que um trapo de pano estampado, dobrado 
em volta do pescoco, é sinal de bem vestir? Apesar de 
minhas elucubrac6es, de mil protestos imaginarios em 
concorrida passeata em minha cabega, vacilo e aceito, 
emprestados, a gravata e o terno de Jorge Ferreira, um 
amigo cubano. Caem-me sob medida. La vou eu todo 
empacotado, sob gozacao de Joelmir. 
O Palacio da Revolucdo, situado a praca do mesmo 
nome, atras do monumento a José Marti, € uma solene 
construgao da época de Batista, que lembra a arquite- 
tura fascista do primeiro governo de Vargas, no Brasil. A 
escadaria infindavel se parece as afquibancadas do Mara- 
cana. 
A porta, protegida por guardas de honra, apresen- 
tamos nossos convites. Paramos logo ao entrar, até que 
terminassem os hinos nacionais de Cuba e da Argélia. 
No imenso saléo, todo em m4rmore e pedra, adornado 
de plantas naturais, de vitrais coloridos e de murais 
abstratos, os convidados escutam os discursos em espa- 
nhol e arabe, que precedem o momento em que Fidel 
condecora Chadli Bendjedid com a medalha ‘‘José Mar- 
ti’’, a mais importante do pais. Presentes, além da dele- 
gacio visitante, o corpo diplomitico e dirigentes cuba- 
nos — membros do Biré Politico, do Comité Central e 
ministros. 
FIDEL E A RELIGIAO 27 
Encerradas as laudat6rias formalidades, entre rodas 
informais citculam bandejas com moyitos, daiquitis 
e sucos. Aproximo-me de Armando Hart, ministro da 
Cultura, um homem que nfo sabe separar raciocinio e 
emogao, qualidade rara. Lamentamos a morte em com- 
bate de Ali G6mez Garcia, 33 anos, venezuelano, que 
caira no dia anterior defendendo a Nicaragua dos merce- 
narios de Reagan: Em fevereiro passado, eu participara 
do jGri que premiara, como o melhor testemunho em 
lingua espanhola, o texto que Ali enviara ao concurso 
literario da Casa de las Americas, Falsas, Malictosas y 
Escandalosas Reflexiones de un Nangara. Raul Castro, 
irmao mais jovem de Fidel e ministro da Defesa, cami- 
nha em nossa direcio e Hart nos apresenta a ele. Ao 
saber que sou religioso, comenta: 
— Passei tantos anos em colégios internos que assis- 
ti a Missas por toda a minha vida. Fui aluno dos lassalis- 
tas e dos jesuitas. Imagina que eu havia estudado em 
Santiago de Cuba e, ao participar do ataque ao quartel 
Moncada, em 1953, me dei conta de que nao conhecia a 
cidade... Nao fiquei na Igreja, mas fiquei com os princi- 
pios de Cristo. Nao abro mio desses principios. Eles me 
dao a esperanca de salvacio, pois a Revolugio realiza-os 
na medida em que despede os ricos com as mos vazias e 
da pao aos famintos. Aqui todos podem se salvar, pois 
nao h4 ricos e Cristo disse que € mais facil um camelo 
passat na fundo de uma agulha... 
Raul diz isso com muito bom humor. Ali esta um 
set afavel e que, no entanto, tem fama de duro, fora de 
Cuba. Caprichos do imperialismo. Através de seus po- 
derosos meios de comunicacao este desenha, em nossas 
cabecas, a caricatura de seus inimigos. Pinta Raul de sec- 
tario e John Kennedy de bom mocinho. Mas quem pla- 
nejou, ofganizou, patrocinou e financiou a invasio da 
28 CONVERSAS COM FREI BETTO 
baia dos Porcos, em 1961, em flagrante desrespeito a 
soberania do povo cubano, foi o jovem, sorridente, de- 
mocrata e cat6lico marido de Jacqueline. No contato 
pessoal, Raul Castro é descontraido e sabe falar sorrindo, 
0 que € raro nos politicos capitalistas, sempre sisudos. E 
como pode ser duro o companheiro de uma mulher tao 
doce como Vilma Espin? 
Penso que ser4 impossivel cumprimentar Fidel, tao 
cercado anda de convivas, cinegrafistas e fot6grafos. 
Logo nos convidam a um pequeno salao, mais familiar. 
Estamos a entrada, quando o Comandante, em uniforme 
de gala, passa com Chadli Bendjedid. Ao ver-nos, apro- 
xima-se. Marca-lhe a timidez. Sim, um homem daquele 
tamanho, que vocifera o diabo as barbas do Tio Sam e 
faz discursos de quatro horas, quase pede licenga por ser 
quem é. Apresento-lhe Joelmir Beting e meus pais. 
— O senhor conseguiu fazer duas revolugdes. A 
primeira foi a cubana e, a segunda, conseguir que meu 
pai saisse pela primeira vez do Brasil e em aviao! 
— Nao se preocupe, faco-o regressar de trem — diz 
Fidel. 
Em fevereiro, eu estivera com ele em casa de 
Chomy Miyar, seu secret4rio particular, médico e fot6- 
gtafo. Passara-lhe minha receita de bob6 de camario. 
Porém, falta em Cuba 0 azeite-de-dendé, no qual devem 
ser cozidos os temperos. S6 em marco tive portador para 
fazer chegar-lhe o dendé. 
— Fiz sua receita de camatdes — diz ele. — Fica- 
tam bons, nao direi que 6timos, pois nado havia o dendé. 
Depois me chegou o famoso azeite. Todavia, introduzi 
algumas modificagdes e quero discuti-las com vocé. 
Dona Stella aproveita-se para comentar que, entre 
ela e eu, ha discordancia quanto ao bob6 de camario. 
Embora eu a considere, também edipianamente, a me- 
FIDEL E A RELIGIAO 29 
lhor cozinheira do mundo, gracas a qual estou vivo e 
com satide, sua receita de bob6, no Quentes e Frios,* nao 
coincide com a qué aprendi em Vit6ria. O segredo dos 
capixabas € bater a mandioca cozida na 4gua que cozi- 
nhou os camardes. Assim, reduz-se 0 gosto da mandioca . 
em favor do sabor dos camarées. 
Estamos envolvidos em plena polémica culinaria, 
quando cortesmente Fidel pede licenca para acompa- 
nhar o presidente da Argélia que o espera. Ficamos a 
um canto e, logo que o mandatfrio argelino se acomo- 
da, o Comandante torna a aproximar-se de nés. Quer 
saber quanto tempo vamos estar em Cuba. Lamenta que 
Joelmir tenha que embarcar na proéxima quarta-feira, 
chegar ao Brasil na quinta e tomar o véo para a Alema- 
nha Federal na sexta. Fidel estaria ocupado com Chadli 
Bendjedid até segunda e, na terca, participaria das co- 
memoracdes do 40° aniversario da vit6ria dos aliados na 
Segunda Guerra. Pensativo, pequeno charuto entre os 
dedos, o polegar direito rogando os labios quase sumidos 
entre fios grisalhos de barba, a cabega oscilando como 
quem diz nao, logo decide-se: 
— Darei um jeito. Nao é o Joelmir que quer falar 
comigo, eu € que quero falar com ele. Podemos nos ver 
na segunda 4 noite e certamente em outra hora na terga. 
Tenho que dividir e subdividir meu tempo. 
Apés posar pata uma foto, cercado por meus pais, 
pergunta a eles: 
— Que acham da recepc4o? Recepcao € sempre um 
lugar de boa comida onde, no entanto, nunca provo 
nada pata poder atender os visitantes e, mais tarde, fazer 
um pouco de gindstica. 
Vita-se para Cervantes e indaga de nossa progtama- 
* Petr6polis, Vozes, 1981. 
30 CONVERSAS COM FREI BETTO 
cao na ilha. Nosso amigo da-lhe uma panoramica: visita 
ao Museu Hemingway, ao Hospital Centro-Havana, ao 
bairro de Alamar, etc. Fidel reage: 
— Coisas de turistas. O hospital € importante, 
mas eles precisam conhecer melhor este pais. Ir a ilha da 
Juventude, ver como estudam ali mais de dez mil bolsis- 
tas estrangeiros, procedentes da Africa e de outros conti- 
nentes. Ir a Cienfuegos, ver a construcao da central ele- 
tronuclear. Visitar uma pequena comunidadecampone- 
sa e saber como ela est4 preparada, inclusive, para a de- 
fesa militar. Porei meu avido a disposigao de vocés. Nao 
é confortavel, mas é seguro. 
A atual realidade cubana 
Chama seu secretario, Chomy, e pede-lhe que ano- 
te toda a programacao que propde. Contamos que, na- 
quela manhi, visitamos a Junta Central de Planificacdo, 
onde fomos recebidos pelo companheiro Alfredo Ham. 
Este explicou-nos que a Junta elabora planos anuais, 
qliinqtienais e prospectivas até o ano 2000. Assim, bem 
planificada, a inverséo de Cuba nos planos social e eco- 
némico conta com poucas surpresas pela frente. Hoje, o 
pais produz, na fabrica de Holguin, mais de seiscentas 
colhedeiras de cana por ano, responsaveis pela colheita 
de mais de 55% da produg&o cubana. Joelmir indaga se 
o planejamento € feito de cima para baixo. Alfredo diz 
que nada é€ definitivo sem a aprovacdo final do Conselho 
de Ministros e da Assembléia Nacional do Poder Popu- 
lar, integrada por deputados eleitos a cada cinco anos. 
Por outro lado, Cuba pode planejar com certa margem 
de seguranga seu processo de desenvolvimento, porque 
esta livre da especulacdo do mercado capitalista. 85% de 
FIDEL E A RELIGIAO 31 
suas felacgSes comerciais sio com os paises socialistas e 
estao protegidas pelos acordos do Conselho para Assis- 
téncia Econémica ‘MGtua (CAME), do qual Cuba se 
tornou membro e no qual conta com as mesmas me- 
didas de protecdo também asseguradas ao Vietnam e a 
Mongolia. . 
Em 1986, comeca a funcionar o Terceiro ‘Plano 
Qiuingiienal cubano. Nos primeiros anos da Revolu- 
¢ao, expoftavam-se acticar, tabaco, rum e café. Agora, 
ocupam os primeiros lugares, na lista de exportacdes, 0 
acGcar, os citricos, o niquel e a pesca. No decorrer de dez 
anos, de 1971 a 1981, nao houve nenhuma mudanga, 
nem nos precos dos produtos b4sicos disponiveis no mer- 
cado interno, nem no salario minimo dos trabalhadores 
cubanos. 
A reforma efetuada em 1981 estabelece em 85 
pesos o salario minimo; um peso cubano equivale a 1.13 
délar americano. A média salarial é de 185 pesos. O sa- 
lario maximo € de seiscentos pesos, ou seja, nao chega a 
dez salarios minimos. O aluguel da casa — pago ao Esta- 
do — nao chega a equivaler a 10% do salario, indepen- 
dente do tamanho do imével. O consumo basico € con- 
trolado pela Abreta, uma caderneta que regula o racio- 
namento, de modo a que os 10 milhdes de habitantes de 
Cuba nao conhecam mais esta tragédia que assola a 
maioria da populacao do mundo e da América Latina: a 
fome. O excedente da producao € vendido, a um prego 
mais alto, no mercado paralelo, que € oficial. Na Abreva, 
um quilo de carne bovina custa 1 peso e 35 centavos. 
Um litro de leite, 25 centavos. 
Em 1981, ano do Gltimo censo, 52% da populagdo 
tinha menos de trinta anos. Nos primeiros anos da Revo- 
lucdo, a taxa de crescimento demografico era de mais de 
2% ao ano, considerada muito alta no pais. Hoje, € de 
32 CONVERSAS COM FREI BETTO 
0,9%. Em 1959, menos de 2 mil estudantes diploma- 
ram-se em universidades. Em 1984, graduaram-se 28 
mil estudantes. Cuba dispde atualmente de 20 500 mé- 
dicos, um médico para cada 488 cubanos! A progressiva 
falta de doentes permite ao pais prestar assisténcia médi- 
ca a 28 nacoes. 
Alfredo Ham disse ainda que o aumento anual, per 
capita, de consumo e setvicos da populacao esta em tor- 
no de 2,5 23%. A inflacéo — que nao pode ser calculada 
por critérios capitalistas, pois nao ha especulacao finan- 
ceira, e que € administrada pelo Estado, de modo a nao 
onerar o valor real do salario dos trabalhadores — esté em 
torno de 3% ao ano. O salario real é elevado a cada ano 
acima da inflacdo. O pais esta em condicgdes de absorver 
toda a forga de trabalho e 0 pequeno indice de desem- 
prego existente, em torno de 6% da populacdo econo- 
micamente ativa, deve-se ao fato de 0 orcamento fami- 
liar, relativamente alto, permitir que ceftas pessoas 
fiquem desocupadas enquanto nao ingtessam no traba- 
lho que desejam, como € 0 caso de um jovem universita- 
rio ou técnico médio formado, que preferem procurar 
um emprego que lhes agrade e nao querem aceitar outro 
trabalho (ainda que recebendo o mesmo saldrio de um 
engenheiro). O consumo médio diario de calorias é de 
3000 a 3500, bem acima da média minima de 2 240 
estabelecida pela FAO. O PIB € superior a 24 bilhdes 
de d6lares. A indistria participa em cincoenta por 
cento, 
FIDEL E A RELIGIAO 33 
2 
sf 
Encontro com Fidel 
Na noite de segunda-feira, 13 de maio de 1985, a 
pequena comitiva brasileira € recebida por Fidel Castro 
em seu gabinete de trabalho, no Palacio da Revolucio. 
Em torno da mesa de trabalho, estantes repletas de livros, 
fitas cassetes, um radio transistor. Sobre a mesa, papéis, 
um vidro cheio de balas, uma caixa redonda com chatu- 
tos curtos e pequenos, os preferidos do Comandante. 
Sob uma enorme tela, com o rosto de Camilo Cienfue- 
gos pintado em tracos suaves, poltronas de couro e uma 
mesa de marmore da ilha da Juventude. Ao fundo, uma 
comprida mesa de reunides, com quatro cadeiras de cada 
lado e duas em cada ponta. Outro dleo, enorme, registra 
o trabalho agricola de jovens estudantes. O gabinete é 
amplo, confortavel, refrigerado, sem luxo. Fidel nos 
recebe em seu uniforme verde-oliva e convida-nos a sen- 
tar a longa mesa. Esta interessado em conversar especial- 
mente com Joelmir Beting, que deve regressar antes ao 
Brasil. Indaga do trabalho de Joelmir, como divide seu 
dia, que tempo disp6e para estudar, o que faz para regis- 
trar, em sua cabeca, tantas informacdes econémicas. Per- 
gunta também da viagem que fizemos 4 ilha da Juven- 
tude e a Cienfuegos e comenta: 
—A central nuclear de Cienfuegos esta sendo 
construida dentro de exigéncias de seguranca absoluta, 
pafa fesistir a mafemotos, a tefremotos, até mesmo 4 
queda de um aviao de passageiros. 
Minha mie elogia a culinaria cubana, especialmen- 
te os frutos do mar. O cozinheiro que reside em Fidel 
acorda: 
34 CONVERSAS COM FREI BETTO 
— O melhor € nao cozinhar camardes e lagostas, 
pois a fervura da 4gua reduz substancia e sabor e endu- 
rece um pouco a carne. Prefiro assa-los ao forno ou no 
espeto. Para o camarao, bastam cinco minutos ao espe- 
to. A lagosta, onze minutos se é ao forno ou seis ao 
espeto, sobre brasas. De tempero, s6 manteiga, alho 
e limao. A boa comida deve ser simples. Considero os 
cozinheiros internacionais esbanjadores de recursos. 
Um consomé desperdica a maior parte dos subprodutos 
ao incluir\a casca do ovo; deve-se usaf apenas a clara, 
para poder aproveitar depois numa torta, ou em outra 
coisa, O que restar de carnes e vegetais. Um dos cozinhei- 
ros mais famosos é cubano. Outro dia, por ocasiao da 
visita de uma delegacao, ele esteve preparando pescado 
ao rum e outros ingredientes. S6 apreciei o consomé de 
tartaruga, mas com os despetdicios assinalados. 
Volta-se para Joelmir Beting: 
— Como € seu ritmo diario de trabalho? 
— Uma hora e meia de programa de radio todas as 
manhias. Meia hora de televisdo 4 noite. E redijo uma 
coluna de comentario econémico editada, diariamente, 
em 28 jornais brasileiros. 
Fidel retoma: 
— E como vocé ainda encontra tempo para ler e se 
informar? Eu todos os dias dedico uma hora e meia 4 
leitura dos telegramas internacionais, de quase todas as: 
agéncias. Chegam-me datilografados numa pasta, com 
um indice do contetido. Os telegramas séo agrupados de 
acordo com uma ordem temiatica: tudo que diz respeito 
a Cuba, em seguida a questdo do acicar, fundamental 
em nossas exportagdes, a politica norte-americana, etc. 
Se leio que se descobriu em algum pais um novo medi- 
camento ou equipamento médico inovador, de grande 
utilidade, solicito uma rapida informacSo sobre os mes- 
FIDEL E A RELIGIAO 35 
mos. Nao aguardo as revistas médicas especializadas, 
que demoram de seis meses a um ano para saif com a 
informacZo pertinente. Essa semana eu soube que se 
aperfeigoou na Franca um novo equipamento para des- 
truir as pedras dos rins comultra-som, e muito mais eco- 
nédmico do que o produzido na Alemanha Ocidental. 
Dois dias depois um companheiro embarcou pata Paris 
para colher informagdes. Também pedimos informagoes 
sobre um novo medicamento que interrompe o infarto e 
acaba de ser descoberto nos Estados Unidos. A satide 
pablica € um dos setores que acompanho com muito 
interesse. As pesquisas cientificas dentro e fora de Cuba, 
os problemas econémicos nacionais e internacionais, 
também. Infelizmente, nao ha tempo para obter e ana- 
lisar todas as informacdes interessantes. Queria atuali- 
zat-me melhor para esta conversa com vocé e mandei 
buscar todas as noticias econédmicas internacionais impor- 
tantes dos tiltimos dois meses. Chegaram-me quatro vo- 
lumes de duzentas paginas cada um! Nao € facil seguir o 
ritmo dos acontecimentos, as oscilagdes do dolar e as 
conseqtiéncias, na economia mundial, da nefasta politi- 
ca econdémica dos Estados Unidos. 
Joelmir Beting reage: 
— Dolar é hoje moeda de intervengio e nao de 
referéncia. Intervencéo armada em nossos paises. A su- 
bida do délar reflete o descalabro da economia dos Esta- 
dos Unidos. A referéncia do rublo € 0 ouro. O rublo tem 
lastro, o délar nao. Por isso a Unido Soviética € preju- 
dicada pela valorizacao do délar, desde que Nixon cor- 
tou, por telefone, o lastro em ouro da moeda norte- 
americana. De certa maneira, essa moeda que hoje com- 
pra o mundo é uma moeda falsa. E um mist€rio o volu- 
me de.d6lar que existe, atualmente, fora dos Estados 
Unidos. 
36 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Fidel folheia a pasta com a transcricao dos telegra- 
mas internacionais da segunda-feira. Observa que € uma 
pasta mais fina, j4 que politicos e jornalistas nao costu- 
mam trabalhar nos fins de semana. 
— Ninguém sabe 0 computador que o homem tem 
na cabeca — diz ele. — Muitas vezes me pergunto por 
que tanta gente se dedica 4 politica. E uma tarefa 4rdua. 
Ela s6 vale a pena se voltada para algo dtil, se pode real- 
mente resolver algum problema. Em conversas como 
esta, com visitantes, trato de aprender. Procuro conhecer 
© que se passa no mundo e especialmente na América 
Latina. 
—O senhor, como Comandante-em-chefe, tem 
sob sua responsabilidade a administragéo de Cuba e as 
‘relacdes internacionais — observa Joelmir Beting. — 
Seriam precisos dois comandantes? 
— Tudo aqui esta descentralizado e obedece a pla- 
nejamentos bem feitos. E hé um grupo central que faci- 
lita a administracdo. Outrora era uma verdadeira luta 
romana, cada organismo, cada Ministério, em luta com 
a Junta de Planificacao, disputando verbas. Agora tudo 
€ responsabilidade de todos. O ministro da Educagado 
também patticipa das decisdes fundamentais concernen- 
tes ao planejamento, como o da Satide Paiblica e os de- 
mais ofganismos de servicos, mesmo os econédmicos. E as 
decisdes sao rapidas, sem burocracia. Para tom4-las, nao 
precisam falar comigo, s6 mesmo algo muito importante 
ou quando se trata de alguma 4rea que pessoalmente 
acompanho, como € 0 caso da Satide. 
— Ou uma obra de impacto como a central nu- 
clear? — indaga o jornalista brasileiro. 
— Me dei conta de que esta obra se atrasava. Uma 
questZo de método de controle. A equipe responsavel 
tinha suas reunides trimestrais de avaliacdo. Fiquei sa- 
FIDEL E A RELIGIAO 37 
bendo, por exemplo, que a alimentacdo, o transporte e 
outras condi¢des de vida material dos operarios nao me- 
reciam toda a atencao necessaria. Fiz uma visita, acom- 
panhado de uma equipe de colaboradores. Perguntei 
pelas condicoes de vida na obra, pela qualidade da toupa 
e do calgado de trabalho, do transporte que os levava 
pata visitar seus familiares, do fornecimento de mate- 
tiais 4 obra, do que faltava as equipes de trabalho e 
Outros aspectos. O que me interessa € 0 cuidado do ho- 
mem. Um trabalhador sente mais amor por sua obra se 
dispde de condigdes dignas, se sente 0 nosso apreco por 
seu trabalho e a constante preocupacdo por seus proble- 
mas materiais e humanos. Vi que etam transportados 
em caminhdes as suas regides de origem. Perguntei: 
quantos é6nibus sao precisos, trinta? Faremos um esforco 
para obté-los. Utilizaremos 0 que temos de reserva. Fiz 
sugestdes, dei inclusive a idéia de se organizar uma base 
de campismo, de modo que os familiares pudessem 
visita-los e descansar com eles nas proximidades do pro- 
prio local de trabalho. Os organismos que cuidam desta 
obra necessitavam, imediatamente, de recursos e apoio 
mais direto; e os receberam. 
Fidel acende seu pequeno charuto com um isqueiro 
a gas, ptateado. Corre os dedos finos pelos fios grisalhos 
da barba e prossegue: 
— Trabalho diretamente com uma equipe de vinte 
companheiros, dos quais dez sao mulheres. Formam um 
grupo de coordenacao e apoio. Cada um deles procura 
saber 0 que se passa nos principais centros de trabalho e 
de servicos do pais. Sem choque com os Ministérios, essa 
equipe facilita a agilizagaéo das decisdes. Sao pessoas e 
nao departamentos. Quando visitei a central nuclear e 
soube das reunides trimestrais, acentuei que o anda- 
mento da obra nao podia esperar nem um més, quanto 
38 CONVERSAS COM FREI BETTO 
mais trés! Reunides que eram um inventario de dificul- 
dades que exigiam urgéncia. Agora, diariamente, a obra 
tem que informar do andamento dos trabalhos ao escri- 
torio da equipe, que problemas tem, etc. Sistematica- 
mente recebe visitas de um membro da equipe especia- 
lizada nesta tarefa. Os problemas nao podem esperar, 
devem ser solucionados de imediato. Assim fazemos 
com outras obras importantes e decisivas. 
— Senti em Cienfuegos que, para o pessoal da 
obra, € uma grande motivacdo saber que o Comandante 
segue cada passo — intervém Joelmir Beting. 
— Nao ha nenhum escrit6rio no mundo com 
menos gente do que o meu. Com quantos funcion4rios 
vocé trabalha? — pergunta Fidel a Chomy, secretario do 
Conselho de Estado e seu colaborador direto. 
— Com seis pessoas — fesponde o ex-feitor da 
Universidade de Havana. 
O jornalista brasileiro indaga: 
— Quem € a forca arbitral na demanda de re- 
cursos? 
— Antes era a Junta de Planificagéo. Agora est4 
mais descentralizada. O Poder Popular, por exemplo, 
administra escolas, hospitais, transporte, cométcio, 
praticamente todos os setvicos locias. E o Poder Popular 
de uma provincia, como Santiago de Cuba, que elege o 
diretor do hospital. E claro que ele consulta o Ministério 
da Satide, que lhe fornece quadros profissionais e meto- 
dologia de trabalho. 
— Essa descentralizacéo é um fato novo? 
— Nao, aqui sempre dividimos funcdes e atti- 
buicdes. 
— Esse € 0 modelo cubano? 
FIDEL E A RELIGIAO 39 
O sistema eleitoral 
— Nesse modelo ha muito de cubano. O sistema 
eleitoral, por exemplo, é totalmente cubano. Cada 
circunscrica4o eleitoral, com cetca de 1500 habitantes, 
elege seu delegado ao Poder Popular. Os vizinhos 
indicam e votam em candidatos, sem intervencio do 
Partido. Sao eles que propdem os candidatos, um maxi- 
mo de oito e um minimo de dois. O Partido nao se imis- 
cui nisso, apenas assegura o cumprimento das normas e 
os procedimentos estabelecidos. No dia das eleicgdes, a 
cada dois anos e meio, quem obtém mais de 50% dos 
votos esta eleito, caso contrario ha novas eleicdes. Esses 
delegados eleitos formam a Assembléia Municipal e 
elegem o Poder Executivo municipal. Em seguida, esses 
delegados municipais, junto com o Partido e as organi- 
zacOes de massa, pafticipam na campanha de candidatu- 
tas pata a escolha dos delegados 4 Assembléia Provincial 
e dos deputados 4 Assembléia Nacional, integrada por 
quinhentos parlamentares. Mais da metade dos deputa- 
dos da Assembléia Nacional vém do Poder Popular, 
saem da base. E na circunscricfo ha reunides periddicas 
em que os vizinhos discutem, com a presenga dos dele- 
gados que elegeram, como esta a atuacdo desses dele- 
gados e, inclusive, podem cass4-los. 
As mdes-enfermeiras 
— Visitando um hospital, notei que as maes tém o 
‘direito de acompanhar seus filhos doentes — obsetvaJoelmir Beting. 
— Para uma crianca doente — explica Fidel Castro 
— a melhor enfermeira do mundo € a sua mZe. Antes 
40 CONVERSAS COM FREI BETTO 
elas nao podiam entrar e ficavam a porta do hospital, 
ansiosas, aguatdando noticias de seus filhos. Se supunha 
que as mZes, como nfo tinham conhecimentos especia- 
lizados, dificultavam o tratamento médico. Ha anos 
adotamos outro sistema, com éxito. Em qualquer hosp1- 
tal pediatrico a mae tem direito de acompanhar o filho 
internado, recebe a roupa adequada para ficar no hospi- 
tal e também a alimentacao, gratuitamente. No dltimo 
congresso das mulheres cubanas, celebrado em marco 
deste ano, as mies solicitaram que fosse concedido 
aos pais 0 mesmo direito. Muitas vezes uma mulher, 
ocupada com outros filhos, nao pode estar fora de casa 
acompanhando aquele que esta enfermo. Ja esta em 
estudos esta solicitacéo. Inclusive estamos analisando 
outra solicitacdo das mulheres, a possibilidade de que 
filhos, irm&Zos ou pais acompanhem um familiar hos- 
pitalizado. Antes s6 se permitiam mulheres. Alegam 
que tal pratica faz recair sobre elas quase todo o trabalho 
doméstico, limitando suas possibilidades no desempe- 
nho das tarefas de trabalho e dificultando sua promogao 
social. Atualmente as mulheres constituem 53% da 
mao-de-obra especializada do pais. 
O novo Plano Qiingiienal 
— O novo Plano Qiiingiienal, de 1986-1990, traz 
inovagdes em sua metodologia? 
— Sim, ha mais racionalidade. Prioriza-se o econé- 
mico, sobretudo os produtos de exportacio. Pode ser 
que uma Provincia* queira construir um novo estadio de 
esportes ou um teatro. Contudo, a construcao de uma 
* Em Cuba, os Estados sao chamados de Provincias. 
FIDEL E A RELIGIAO 41 
fabrica que ajudaraé a aumentar as exportacdes tem 
prioridade. Constrgem-se 0 est4dio e 0 teatro quando 
for possivel, mas nunca em detrimento de uma obra 
econdmica priorizada. Assim, nenhum aspecto do Plano 
resulta da disputa entre organismos do Estado. Segue-se 
uma politica global, racionalizada, assumida por todos 
Os organismos. Evita-se a briga do Ministério da Educa- 
cao, por exemplo, com a Junta de Planificacao. O Plano 
estabelece o planejamento, priorizando setores e, assim, 
organiza a distribuicéo dos recursos. O fato de que 
_ tenhamos construido nesses 26 anos quase todas as obras 
sociais necessarias nas areas de educacdo, de satide, de 
cultura e de esportes, permite-nos agora investir mais 
em projetos econdmicos, sem sacrificar o desenvolvi- 
mento social. Os servigos sociais crescerao sobretudo em 
qualidade e nao tanto em novas instalacdes, embora se 
continue a construir um certo nimero. 
Com voz pausada, clara, indaga Joelmir Beting: 
— O projeto social esta realizado em Cuba? 
— Sim, essencialmente — diz o presidente do 
Conselho de Ministros. 
— Ha capacidade ociosa na Area da satide? 
— Estamos investindo, como demonstrava, na 
melhora da qualidade, como € 0 caso da construgao de 
hospitais pediatricos. Criamos o médico-familia, que 
acompanha diretamente um grupo de familias em sua 
tea de residéncia. Este nao € 0 médico que cuida da 
doenca, € 0 médico que cuida da satide, pois orienta a 
familia nas medidas preventivas. Na ilha da Juventude, 
que vocés visitaram, ha escolas secundarias abrigando 
estudantes de 22 diferentes nacionalidades. No inicio, 
tinhamos receio de que introduzissem enfermidades ja 
erradicadas aqui ou mesmo desconhecidas. Obtivemos 
completo éxito nisso e ficou demonstrado que qualquer 
42 CONVERSAS COM FREI BETTO 
uma das enfermidades consideradas endémicas na Africa 
€ em outtos continentes sdo absolutamente controlaveis 
pela ciéncia médica e pelos modernos medicamentos. 
Embora submetidos a exame médico antes de vir de seu 
pais, se algum dos estudantes chegou aqui enfermo, 
jamais foi devolvido a sua pAtria. Foi atendido e curado 
em Cuba. Felizmente, em nosso pais nZo existem sinto- 
mas da maior parte daquelas enfermidades. Nosso Insti- 
tuto de Medicina Tropical avancou muito nesse campo, 
© que ajuda também a proteger os cubanos que traba- 
Ilham no Terceiro Mundo. Na ilha da Juventude os 
recursos nutritivos dos alunos sao superiores 4 média 
nacional nas demais escolas. Gracas a essas medidas, 
como eu disse, nunca tivemos que devolver um estudan- 
te ao seu pais de origem, por questdes de satide. Eles 
gozam realmente de uma espléndida satide e estao bem 
fortes. 
— Obtida a quantidade, vocés investem na quali- 
dade. 
— A base material esta criada pela Revolucdo. Ha 
setores que ainda sao deficitétios, carentes e exigem 
grandes investimentos, como € o caso da moradia, se 
bem que haja melhoras. Mais de 70 mil moradias sido, 
agora, construidas por ano. 
Transporte e propriedade rural 
— E como esta o transporte? 
— Nao importamos automéveis nos dez primeiros 
anos da Revolucgao. O bloqueio econémico e comercial a 
que fomos submetidos, e nossas préprias prioridades, 
dirigiram os recursos para outras 4reas, como a Satide ea 
Educagéo. O automével que aqui se importa nao pode 
FIDEL E A RELIGIAO 43 
estar em detrimento de exigéncias sociais. Atualmente 
chegam cerca de 10,mil por ano e a prioridade de com- 
pra é dada a especialistas, técnicos e trabalhadores mais 
destacados. 
— Eo transporte coletivo? 
— Importamos os motores, uma ou outta peca, e 
construimos aqui o resto dos énibus. Estamos aprimo- 
rando a produgao de motores. E de cada trés autom6veis 
que chegam, dois sdo reservados pata serem vendidos a 
trabalhadores diretamente vinculados 4 producio e aos 
setvicos. Eles pagam quase o preco de custo, num prazo 
de até sete anos, com juros minimos. A assembléia dos 
trabalhadores de cada centro de trabalho decide quem 
Os merece. Uma parte dos carros importados é destinada 
aos setvicos de aluguel e 4 administracdo do Estado. 
— Ha propriedade privada no campo? | 
— Sim, temos ainda quase 100 mil agricultores 
independentes. Plantam café, batata, tabaco, verduras, 
um pouco de cana e outros produtos. Atualmente, mais 
da metade dos produtores independentes, que eram 200 
mil, j4 est4 organizada em cooperativas de produgio, 
com excelentes resultados. Seus lucros sao altos. Sua 
incorporacdo as cooperativas € absolutamente volunta- 
tia. Esse movimento se processa sobre bases muito s6li- 
das. Isso evita, ao Estado, ter de mobilizar mao-de-obra 
pata ajud4-los nas colheitas, como ocorria antes. Por 
outro lado, a cooperativa introduz melhorias na qualida- 
de de vida dos agricultores. Facilita a construgao de esco- 
las, de novas moradias com 4gua potavel, eletrificacao, 
etc. Mais de 85% das moradias do pais esto eletrifica- 
das. Os créditos e os precos sao fixados pelo governo, a 
niveis estimulantes pata os produtores. O excedente da 
producao recebe um pteco ainda mais alto e se destina 
ao mercado livre. Nao cobramos impostos dos campone- 
44 CONVERSAS COM FREI BETTO 
ses e, como todo cubano, suas familias tém direito 4 
satide e 4 educacdo gratuitas. As cooperativas obtém 
lucros anuais equivalentes a 3 a 6 mil délares, superiores 
aos dos produtores individuais, cujo custo de produgao 
em parcelas isoladas € maior, e suas atividades produtt- 
vas mais dificeis de se mecanizar. Desde 0 inicio da 
Revolucdo ctiamos aqui cooperativas de crédito e servigo. 
Servico € tudo que se refere a instrumentos de trabalho, 
como tratores, silos, caminhdes, colhedeiras, etc. Mas as 
cooperativas de produc4o sao proprietarias desses equi- 
pamentos. 
— Um agricultor pode normalmente contratar 
m4o-de-obra? 
— Pode, de acordo com as leis do pais, que prote- 
gem os trabalhadores. Para colher mais de 70 milhdes de 
toneladas de cana ao ano, necessitamos atualmente de 
apenas 70 mil cortadores, gracas 4 progressiva mecaniza- 
cao. Ha quinze anos se empregava 350 mil. A maior 
parte dessa mao-de-obra é fornecida pelos préprios 
trabalhadores agricolas. Quase nao ha necessidade de 
mobilizar voluntarios, e ha anos nao precisamos mais 
mobilizar soldados ou estudantes de nivel médio supe- 
riorpata essas tarefas. Nosso problema em Cuba nfo é 0 
desemprego. Ao contrario, na maioria das provincias 
temos escassez de mao-de-obra. 
O sistema escolar 
— Os estudantes nao participam mais da atividade 
produtiva? — indago. 
— Nas escolas do campo, sim. Temos cerca de seis- 
centas escolas desse tipo, com mais de 300 mil alunos. 
S4o um sucesso extraordinario. Nas cidades, os alunos de 
FIDEL E A RELIGIAO 45 
nivel secund4rio podem ir voluntariamente, a cada ano, 
trinta dias ao campg. Mais de 95% 0 fazem. Ajudam na 
colheita de vegetais, de citricos, de tabaco e de produtos 
congéneres. Se uma sociedade universaliza o direito ao 
estudo, deve universalizar o direito ao trabalho, caso 
contrario cfiat-se-ia um povo intelectualizado completa- 
mente indiferente ao trabalho fisico e 4 producgio mate- 
rial. Um exemplo dessa conjugacdo ensino-trabalho sao 
as escolas da ilha da Juventude. Muito do que est feito 
ali € baseado em minha pr6pria experiéncia. Estive doze 
anos em colégio interno. S6 podia it em casa a cada trés 
meses. Eramos proibidos de sair do colégio, mesmo aos 
domingos. Nao havia educacao mista. Agora, na ilha da 
Juventude, na mesma escola encontram-se garotos e 
gatotas. O espaco é aberto, nado ha muros, podem sair 
diariamente para suas atividades produtivas, esportivas 
ou culturais. Nao se dedicam s6 aos estudos, como na 
minha €poca, o que provocava um tédio as vezes insu- 
portavel, e o rendimento académico era muito inferior. 
Porém, 0 objetivo principal do trabalho dos estudantes é 
pedagogico e nao produtivo. Temos atualmente no pais 
um milhao de estudantes no curso secund4rio. 92% dos 
jovens de 6 a 16 anos estdo na escola. A matricula do 
nivel médio j4 se compara a do primfrio, onde se 
encontram praticamente 100% das criangas de 6 a 12 
anos. 
Faco uma breve intervengao: 
— O socialismo, com a ertadicacdo dos antagonis- 
mos econdmicos, acaba com as diferentes classes sociais, 
o que é um fendmeno objetivo. Mas nao reduz necessa- 
riamente a diferenca social, vista pelo seu Angulo subje- 
tivo. Quem s6 se dedica ao trabalho intelectual pode se 
sentir superior aos trabalhadores diretos. 
Fidel retoma a palavra: 
46 CONVERSAS COM FREI BETTO 
— Sim, por isso € importante que o trabalho 
manual seja também tarefa de todos. Além de pensar, 
as pessoas precisam saber fazer as coisas. ‘‘A melhor 
maneira de dizer é fazer’, afirmava Marti. Por isso os 
estudantes da cidade vado trinta dias ao campo. Antes 
iam 42 dias, agora ha muitos estudantes sem que haja 
suficientes lugares onde envid-los. Os que vao, o fazem 
voluntariamente. Nao obstante, o indice chega, como ja 
disse, a 95%. Os servicos de educacao e satiide empre- 
gam atualmente mais de 600 mil trabalhadores, numa 
populacdo de 10 milhdes de habitantes. E como se no 
Brasil houvesse 8 milhdes de pessoas nessas atividades. A 
maioria € constituida de mulheres. Ou seja, em cada 
cem cidad4os, seis pessoas ocupam-se da educac4o ou da 
satide. 
— HA superoferta de médicos em Cuba ou escassez 
de doentes? — quer saber Joelmir Beting. 
— Antes de responder quero acrescentar que temos 
3 milhdes de trabalhadores em todo o pais. Um profes- 
sor para cada doze estudantes aproximadamente. Trinta 
mil alunos nas escolas que formam exclusivamente 
professores primarios. Ha quinze anos, 70% dos profes- 
sofes primarios nao eram formados. Hoje, todos sao 
diplomados. Criamos uma reserva de professores primé- 
trios. Dez mil deles estéo sem dar aulas, recebendo seus 
salarios para melhor se aperfeicoarem em cursos univer- 
sitarios. Um professor primario cubano j4 passou nove 
anos no curso prim4rio, quatro no secundfrio e tem a 
possibilidade de fazer mais seis no universitario, quando 
comega a trabalhar na escola, mediante cursos dirigidos 
em meio periodo ou em periodo integral, recebendo seu 
salario, durante dois anos, até obter a licenciatura de 
professor primario. Temos o projeto de, futuramente, 
graduar na universidade todos os professores primArios. 
FIDEL E A RELIGIAO 47 
Ja temos vinte mil e quinhentos médicos e diploma- 
femos cincoenta mil nos proximos quinze anos. Ja 
sabemos onde cada um deles itd trabalhar. Pensamos 
também em introduzir 0 ano sabatico para os médicos: 
a cada sete anos de trabalho, um ano de estudo em 
tempo integral. Nunca sobrarao médicos se existe um 
programa de satide ambicioso e um planejamento 
adequado dos servicos e da formacao de quadrfos téc- 
nicos. 
—A burocracia € a enfermidade congénita do 
socialismo? — pergunta com sua ponta de ironia o 
jornalista brasileiro. . 
— A burocracia € um mal dos dois sistemas, tanto 
do socialismo quanto do capitalismo. Como podemos 
utilizar melhor os recursos humanos, creio que vamos 
ganhar esta batalha. A meu ver, o mais irracional do 
capitalismo é a existéncia do desemprego. O capitalismo 
desenvolve a tecnologia e subutiliza os recursos huma- 
nos. Pode ser que 0 socialismo ainda nfo utilize os recur- 
sos humanos de modo exemplar, contudo nao submete 
o set humano 4 humilhacdo do desemprego, e temos 
avancado cada vez mais em eficiéncia e produtividade no 
trabalho. 
Passa’ de uma da madrugada. Fidel levanta-se e 
comeca a caminhar de um lado para 0 outro, pensando 
alto como organizara seu dia seguinte — o Gltimo de 
Joelmir Beting em Cuba — para conversar mais com 0 
visitante brasileiro. Acerta com ele uma audiéncia 4 
tarde e outta a noite. 
48 CONVERSAS COM FREI BETTO 
3 
O aproveitamento da cana 
Terca-feira, 14 de maio de 1985. As 16 horas, Joel- 
mir Beting e eu somos recebidos por Fidel Castro no seu 
gabinete de trabalho, no terceiro andar do Palacio da 
Revolucao. Por corredores, o presidente do Conselho de 
Estado conduz-nos a um conjunto de salas, onde traba- 
lha a sua equipe de coordenagao e apoio. Apresenta-nos 
a quase todo o grupo, sublinhando a responsabilidade 
de cada um. O jornalista brasileiro pergunta sobre as 
importacdeés de petr6leo, matéria-prima b4sica ao siste- 
ma energético da ilha. 
— Ja estamos produzindo parte da energia elétrica 
com o bagaco da cana na época da safra — responde Fi- 
del. — Todas as usinas acucareiras funcionam com baga- 
co de cana. Em nosso pais sio produzidos 20 milhGes de 
toneladas de bagaco, equivalente a mais de 4 milhGes de 
toneladas de petréleo. Aproveitamos 100% do bagaco. 
Temos cinco fabricas produzindo madeira com bagaco. 
Em varias fabricas, o papel é feito a partir do bagaco. 
Aqui nao vamos produzir Alcool para alimentar carros de 
passeio. Utilizamos o melado como racao animal e para 
a produgao de proteinas; além disso, serve de maté€ria- 
prima para a producdo de rum e de Alcool de uso domés- 
tico ou industrial. 
— Eo vinhoto? — indaga o entdo comentarista da 
TV Bandeirantes. 
— E muito usada na racdo animal. Lavam o vinho- 
to, deixam secar ao sol e dao ao animal. Dez fabricas 
produzem racao a partir do vinhoto. Por um processo 
FIDEL E A RELIGIAO 49 
especial de fermentacao, obtém-se até 50% de protei- 
nas. Serve 4 alimentacdo de aves, de porcos e de gado. 
Trocamos uma tonelada dessa racdo por uma tonelada 
de leite em p6 da Rep&blica Democratica da Alemanha. 
— Por forga de uma lei de protecdo ao meio 
ambiente — diz Joelmir Beting —, a partir de 1986 
todo automével que trafega nos Estados Unidos vai 
consumir mandioca como combustivel, que custara 45 
centavos de dé6lar por litro. O Brasil estaria em condicdes 
de colocar Alcool nos portos norte-americanos, a 30 
centavos de délar 0 litro, mas a legislacéo daquele pais o 
impede, para defender a indistria local. O Brasil produz 
atualmente 2 500 litros de alcool por hectare, o que cor- 
responde ao consumo de um carro por ano. 
Fidel retoma a palavra: 
— Imagino quantos hectares nao s4o precisos para 
tantos carros! E triste pensar que tanta terra serve para 
alimentar carros e nao gente. 
Meu companheiro de viagem explica: 
— Sao 4 milhdes de hectares de cana, para se 
produzir 10 bilhdes de litros de alcool por ano, o que 
representa, pafa o pais,uma economia de 600 milhdes 
de délares ao ano. 
— Cuba produz mais de 8 milhdes de toneladas 
de acicar por ano, numa 4rea de 1 milhao e 800 mil 
hectares. Queremos expandir essa 4rea em mais 200 mil 
hectares. 
—O Brasil importa trigo — conta Joelmir. — 
Gasta nisso o dobro do que economiza com a produgao 
de alcool, ou seja, 1 bilhao e 200 milhdes de d6lares por 
ano. Se o Brasil destinasse 1 milhdo de hectares ao trigo, 
poupariamos mais do que poupamos com os 4 milhdes 
de hectares de cana pata 4lcool. O Pr6-Trigo, que nao 
existe, setia mais lucrativo que o Pr6-Alcool. Infeliz- 
50 CONVERSAS COM FREI BETTO 
mente, a energia da m4quina € mais importante, para o 
governo brasileiro, que a energia do homem. 
— FE nessa energia humana que primeiro investi- 
mos aqui em Cuba. Quero acrescentar que atualmente 
estamos construindo 157 novas obras na 4rea de satide. 
Temos 20 mil estudantes de medicina. A cada ano 
ingressam, nesta carreira, mais de 5 500 jovens, motiva- 
dos por vocacao. 
O Comandante-em-chefe convida-nos a passar a 
uma pequena sala ao lado de seu gabinete. Um casal 
trabalha cercado por mictocomputadores IBM. Ali esta o 
cérebro do governo cubano. Todos os dados devidamen- 
te computados, até mesmo o nome, por especialidade, 
dos melhores quinhentos médicos do pais. A pedido de 
Fidel, a companheira que opera as mAquinas toca as 
teclas com seus dedos finos e longos. Os dados aparecem 
em cores vatiadas: Havana tem hoje 1 902 173 habitan- 
tes. A capital de Cuba dispde de 7 856 médicos, 10481 
enfermeiros e 11 136 técnicos em satide. 242 habitantes 
por um médico. 181 habitantes por um enfermeiro. Em 
todo o pais ha 20403 médicos, para uma populacao 
exata de 9952699 habitantes. S6 pediatras, ha 1 880, 
um para cada 1500 criangas. ) 
A saida do setor de computadores, Fidel Castro 
convida-nos pafa comparecer, brevemente, ao saldo 
onde est4o reunidos todos os ministros da 4rea econdmi- 
ca. Apresenta-nos e troca algumas informacOes sobre a 
preparacao do Terceiro Plano Qiiinqiienal. Sdo quase 18 
horas quando deixamos o Palacio da Revoluca4o. Dentro 
de poucos minutos o Comandante deve comparecer 4 
solenidade de comemoragdo dos quarenta anos da vit6- 
ria dos aliados na Segunda Guerra Mundial, a realizar-se 
no prédio novo da embaixada da Unido Soviética. 
FIDEL E A RELIGIAO 51 
4 
A divida externa 
As dez e meia da noite do mesmo dia, somos nova- 
mente tecebidos no gabinete de trabalho de Fidel 
Castro. Joelmir Beting deve deixar Cuba na manha 
seguinte e € a Gltima oportunidade de, nessa viagem, 
conversatem. No gabinete estao também oito ministros 
da area econémica e Carlos Rafael Rodriguez, vice- 
presidente do Conselho de Estado. Junto a parede, em 
frente 4 mesa retangular de reunides, uma lousa e giz, 
que o anfitriao pde a disposicado do jornalista brasileiro. 
Em preparacao a esta conversa, Joelmir Beting lera as 
mais recentes entrevistas de Fidel sobre a questao da 
divida externa do Terceiro Mundo e, em especial, da 
América Latina, inclusive a que fora dada ao jornal 
Excelsior, do México, onde o dirigente cubano ressalta 
que a divida é impagiavel. 
— A solucao politica da divida externa — diz o 
jornalista especializado em questdes econdmicas — 
exige mudancas na legislacio bancaria dos Estados 
Unidos e da Europa. Mudangas no bloco credor. A parti- 
cipacao do parlamento é fundamental. Por isso, Fidel 
deve enviar suas sugestdes aos parlamentos. Cuba deve 
lancar um documento sobre a questao da divida externa. 
Esta nZo sera equacionada se nao houver negociac4o de 
governo a governo e nao de governo pata banqueiro 
credor. Atualmente, 0 entendimento nfo se faz entre 
Brasilia e Washington, mas entre Brasilia e Wall Street. 
Assim, o governo norte-americano lava as m4os e partici- 
pa apenas através do FMI, que é um fiscal dos bancos. 
O FMI deveria ser um f6rum de governo a governo. O 
52 CONVERSAS COM FREI BETTO 
délar, hoje, nado € mais uma divisa de referéncia, € um 
instrumento de intervencéo nas telagdes econémicas 
mundiais. O délar é, na verdade, uma moeda falsa, 
porque nfo tem lastro na economia americana. Nao tem 
respaldo no PIB dos Estados Unidos. E como se os Esta- 
dos Unidos estivessem comprando o mundo com moeda 
falsa. E um fendmeno que o préprio capitalismo nao 
registrava. A Gltima contestaca4o desse processo foi com o 
general De Gaulle e nao obteve resultado. 
Fidel repde no pires sua xicara de cha: 
— A América Latina tomou emprestado délares 
em baixa cotacdo e, agora, deve pagar com délares em 
alta cotacao. 
— Isso € pirataria financeira, para dizer o minimo 
— reage Joelmir. — A proposta de uma nova ordem 
econémica deve vincular comércio e divida, o que nao 
foi admitido pelos sete grandes do mundo capitalista, 
reunidos agora em Bonn. E preciso proteger o Terceiro 
Mundo do monopélio tecnol6gico dos paises ricos. Na 
area da informatica, o Brasil acaba de aprovar uma legis- 
lacéo de reserva de mercado. 
— O que significa isso? — indaga Fidel. 
— Significa que nenhuma indistria estrangeira 
pode montar uma fabrica de microcomputadores e de 
computadores pessoais no Brasil. Tem que ser capital 
nacional. 
— Quando foi isso? 
— Em setembro Gltimo. 
— Com que objetivo? 
— Proteger a criagdo tecnol6gica e o mercado inter- 
no pata indfistrias nacionais. 
O convidado brasileiro escteve na lousa o nGmero 
12 e€ prossegue: 
— O Brasil necessita, neste ano de 1985, pagar, de 
FIDEL E A RELIGIAO 53 
juros, 12 bilhdes de délares. Metade poderia ser capitali- 
zado na divida comg ‘‘dinheiro novo’’ e s6 remeter o 
festante. Ao invés de pagar tudo, dever-se-ia transfor- 
mat essa capitalizagao em capital de risco das multina- 
cionais. Exemplo: vao abrir fabrica de carro no Brasil. 
Ao invés de fazerem investimento direto, usam uma 
frac4o dos juros capitalizados. Assim, transfere-se a divi- 
da do Brasil para a General Motors, desde que faca uma 
fabrica de automéveis no Brasil. 
— Odinheiro que o Brasil deve pagar, nao se paga. 
Aplica-o no Brasil como investimento das multinacio- 
nais. E isso? — pergunta Fidel. 
— Vocé viu o que disse Alfonsin em Chicago? Que 
deveriam ser reinvestidos na Argentina os juros que esta 
nacao deve pagar pela divida. E isso mesmo? 
— Sim. Mas ha um problema fisico: os Estados 
Unidos fixam a taxa de juros. Os bancos estabelecem a 
taxa de juros, que € a taxa de retorno do capital. Feita a 
conversao disso para capital de risco, quem fixa a taxa de 
remessa de lucros € o Brasil e nao os bancos. 
— Quanto de remessa de lucros o Brasil permite 
atualmente? 
— Vamos supor que a Fiat italiana tenha feito um 
investimento no Brasil de 680 milhdes de délares. Nao 
como investimento direto e sim como empréstimo da 
matriz italiana a filial brasileira, através de um banco. 
Uma operacio triangular. Sobre essa divida, a Fiat reme- 
te juros da filial para a matriz e paga, ao Brasil, apenas 
12,6% de imposto de renda. 
— Paga 12,6% na remessa de juros? — petgunta o 
dirigente cubano. 
— Sim. Se ela fizesse a remessa de lucro, e nao de 
juros, ela teria que pagar 35,7% de imposto ao Brasil. 
54 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Remessa de lucro e capital de risco direto pagam 35% de 
imposto. Juros sobre a divida pagam apenas 12%. 
Portanto, a Fiat s6 fara conversao da divida em capital se 
o Brasil mudar sua legislacao fiscal em favor do capital e 
nao da divida. 
— Trata-se de se livrar do imposto e pagar o menos 
possivel — comenta Fidel. 
— Certo. $6 haver4 capitalizacZo de juros se ocorrer 
teducdo da carga fiscal sobre o capital direto, pois o 
retorno do investimento direto € taxado em 35% de 
imposto. E 0 retorno do empréstimo, em 12%. 
— O Brasil nao pée limites ao capital que retorna, 
imp6e-lhe um imposto? 
— Certo. 
— Qual pode ser o lucro desses 680 milhdes de 
délares? 
— Pode ser de 5 a 8% ao ano. 
— E baixo — observa Fidel Castro. — Isso nao 
estimula investimentos. 
— E baixo porque o custo financeiro da filial para a 
matriz € alto. A Fiat tem que pagarjuros para a mattfiz. 
E lanca esse custo na contabilidade do Brasil. 
— Quanto de lucro isso gera, nas atuais condicgdes? 
Com 0 investimento de cerca de 600 milhdes de délares, 
que retorno traz 4 matriz? Vamos supor um investimen- 
to direto, sem o banco. 
— No caso da Fiat, 8% sobre as vendas totais. 
— Sobre as vendas totais! — reage o anfitrido. — 
Quanto sera em proporcao dos 680 milhdes de d6lares? 
Menos de 10%? 
— Menos de 10%. 8% liquido. 
— Com tao baixo retorno pelo capital investido, 
que estimulo podem ter as multinacionais de investir no 
Brasil? 
FIDEL E A RELIGIAO 55 
— Oestimulo é a ocupacdo de metcado, na primei- 
fa etapa. Ha uma capacidade ociosa mundial e, no Brasil, 
Ocupa-se um mercado importante da América Latina, 
que pode ser um mercado-trampolim para o resto do 
Continente. O Brasil tem uma legislagao de capital 
estrangeiro muito liberal. O custo financeiro € um lucro 
camuflado, clandestino, porque o retorno do capital é 
feito como divida. Para a matriz, € o mesmo capital que 
retorna. A matriz é a credora da filial. Isso € uma recente 
invengao do capitalismo internacional no Brasil. Todas 
as multinacionais, no Brasil, devem pata suas mattizes, 
através dos bancos, 18 bilhdes de délares. 
— Isso nao esté computado na divida externa? — 
indaga Fidel enquanto acende um pequeno charuto. 
— Sim, representa 1/5 da divida. 
— Por se supor que esse dinheiro foi emprestado? 
— Sim, da matriz a filial. Através dos bancos. 
— Na Coréia do Sul, quanto lucrariam esses 600 
milhdes de d6lares? 
— Trés vezes mais. 
— Por que investiram tanto 14, por isso? Por que as 
multinacionais investiram tanto em Taiwan e na Coréia 
do Sul? 
— Porque sao uma espécie de zona franca fiscal. 
— Devem ganhar 14 mais de 20% do que inves- 
tiram? 
— Mais — afirma Joelmir Beting. 
— Mais de 20%? 
— Sim, apés um periodo de maturagcao. 
—E no Brasil, muito menos? 
— Muito menos. 
— Ent&o, por que investiram tanto no Brasil nesses 
Gltimos anos? Qual foi a motivacao? 
56 CONVERSAS COM FREI BETTO 
A situacdo social do Brasil 
— A motivacao € 0 potencial de mercado. E a esca- 
la de mercado. O Brasil € uma Be/india. Bélgica com 
India. E uma ilha de contrastes. Dentro do Brasil temos 
32 milhdes de consumidores com a tenda per capita da 
Bélgica. Este € um grande mercado. Fabrica-se 1 milhao 
de automéveis por ano. E 0 sétimo mercado em autom6- 
veis do mundo. 
— Automédveis de luxo — sublinho. 
— Fabricam-se televisores e eletrodomésticos. Sao 
32 milhdes de consumidores numa populacao de 133 
milhdes. 
— Os consumidores nao chegam a 25% da popula- 
cdo — observa o Comandante. — Me disseram que 10% 
da populacao detinha mais de 50% da renda nacional. 
Ou seja, uma quarta parte dos brasileiros constitui um 
importante mercado de massa. Quantos est4o fora desse 
mercado? 
— O resto. 
— Cem milhdes? 
—E, 100 milhdes literalmente fora. 
— E, nesses 100 milhdes, quantos estdo na esfera 
da miséria? 
— Trinta milhdes em estado de miséria absoluta. 
Em pobreza relativa, 40 milhdes. Jé somam 70 milhGes. 
Os 32 milhdes que estZo no topo formam um mercado 
de padrao internacional. Entre os 70 milhdes de pobres 
e os 32 milhdes de consumidores, ha uma classe traba- 
lhadora que sobrevive do essencial. Os 70 milhdes de 
pobres sao 70 milhdes de prisioneiros politicos do siste- 
ma. Este estado de miséria absoluta equivale ao que ha 
de pior na India: fome, doenca, desemprego permanen- 
te. Ha 18 milhdes de criancas, com menos de dez anos, 
sem casa e sem familia. Criancas abandonadas, como 
c4es de rua, espalhadas por todo o Brasil. 
FIDEL E A RELIGIAO 57 
Acrescento um dado: 
— Sessenta e quatro milhdes de brasileiros tém 
menos de dezenove anos. 
— Essas criangas abandonadas vém também das 
familias dos 30 milhdes de trabalhadores? — pergunta 
Fidel intrigado. 
— N&o, vém apenas dos 70 milhdes de pobres — 
explica 0 jornalista econdémico. 
— E dai que saem as 18 milhdes de criancas aban- 
donadas? 
— Sim, dessa India. Mas na Bélgica de 32 milhdes 
ha um mercado de massa maior que o da Argentina, do 
Uruguai e do México. E o maior mercado latino- 
americano. 
— Onde estéo os médicos e engenheiros brasi- 
leiros? 
— Entre os 32 milhdes. 
— E os professores? 
— Também entre os 32 milhdes. 
— Quanto ganha um professor primario? 
— Cerca de oitenta délares. 
— E possivel que haja também professores prima- 
rios entre os 40 milhdes em pobreza relativa — comenta 
o mandat4rio cubano. 
— Nos dltimos cinco anos da grande crise da divida 
externa, nessa classe dos 32 milhdes de brasileiros houve 
uma petda de 27% do poder aquisitivo. 
— Entre os 32 milhdes? E entre os 30 milhdes de 
trabalhadores? 
— Perda de 12%. 
Dou mais uma estatistica: 
— Hi no Brasil, atualmente, 12 milhdes de desem- 
ptegados. 
Fidel parece concluir: 
— Nao se pode dizer que ha grandes estimulos, 
agora, pata investimentos de multinacionais no Brasil. 
58 CONVERSAS COM FREI BETTO 
— Sim, por conta do impasse da divida externa, da 
transicéo do governo e da possibilidade de uma grande 
confusdo internacional. 
— Vocé tem o dado dos investimentos das multi- 
nacionais no mundo? Parece-me que est4o por volta de 
600 bilhdes de délares. 
— Nao, sao 930 bilhdes de délares. 
— Chegam a 930? 
— Sim, essa é a divida externa do Terceiro Mundo. 
Fidel esclarece: 
— Ah, nao. Nao pergunto pela divida, mas pelos 
investimentos diretos. 
— Chegavam a 640 bilhdes de délares, em 1982. 
— 75% disso estao nos paises industrializados. 
— Sim — concorda Joelmir Beting. 
— Uns 150 bilhdes no Terceiro Mundo. 
— Aproximadamente. 
Ha um intervalo para o café e, logo em seguida, 
Fidel Castro concede aos jornalista brasileiro uma longa 
entrevista exclusiva a tespeito da andlise e da proposta 
cubanas na questao da divida externa dos paises pobres. 
Assisto, sem tomar notas. A divulgacdo desse material 
fica por conta do entrevistador, que me permite trans- 
crever aqui a pfimeira parte de sua conversa com o diri- 
gente cubano. 
Sao cinco e meia da manha. O anfitrido levanta-se: 
— Ainda tenho que fazer exercicios fisicos e comer 
algo. Estou ha mais de quinze horas sem provar nada. 
Entra por uma porta e convida-nos a segui-lo. 
Ingressamos juntos no elevador privativo que nos deixa 
na gafagem, no subsolo do Palacio da Revolucdo. Entra- 
mos no Mercedes-Benz que serve ao Comandante e 
saimos pelas ruas de Havana, ainda escuras nesses dias 
que precedem o verao. Attas do carro que nos leva, 
FIDEL E A RELIGIAO 59 
outro Mercedes com segurangas. Pouco depois, o carro 
estaciona bem 4 porta da casa em que nos hospedamos. 
Fidel Castro desce, despede-se calorosamente de Joelmir 
Beting que, dentro de duas horas, deve estar no aero- 
porto, e também me estende a mao. Na copa da casa, 
sob a emogao do longo encontro, Joelmir e eu tomamos 
um gole de uisque e comemos queijos cubanos. Lé fora, 
a noite, enrubescida, afasta-se 4 chegada discreta do dia. 
A espera da entrevista 
Apos o regresso de Joeimir ao Brasil, passo a esperar 
Oo momento de ser chamado pata entrevistar o Coman- 
dante. Uma longa e demorada espera, e, como toda 
espera, ansiosa. Meus pais e eu ocupamos os dias com 
visitas por Havana: Federacdo das Mulheres, onde somos 
carinhosamente recebidos por Vilma Espin; Circulo 
Infantil; coordenacdo nacional dos Comités de Defesa 
da Revolucdo. Passeamos pelo centro, tomamos sorvete 
na Coppelia, a melhor sorveteria do mundo, onde se 
utilizam apenas produtos naturais; fazemos compfas nas 
lojas dos hotéis internacionais, nas quais s6 ingressa 
turista e se paga em délar. Na visita ao arcebispo de 
Havana, Jaime Ortega, minha mae ganha uma belissima 
estampa colorida da imagem da Virgem da Caridade, a 
padroeira de Cuba — morena como tantas Marias 
latino-americanas e também encontrada, como Nossa 
Senhora Aparecida, nas 4guas por pobres pescadores, 
em 1607. 
60 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Descarto a possibilidade de entrevistar Fidel Castro 
no fim de semana. Na tarde de sabado, meus paispaftem pata a praia de Varadero, considerada a mais 
bela de Cuba. Nao posso acompanha-los porque, 4 
noite, faco conferéncia no convento dos dominicanos, 
aberta ao pGblico, sobre ‘‘A espiritualidade de Jesus’’. 
Umas setenta pessoas no salao, entre as quais alguns 
amigos comunistas: o brasileiro Hélio Dutra-e sua 
esposa, Ella; a chilena Marta Harnecker, autora de varias 
obras sobre os fundamentos do marxismo; Jorge Timos- 
si, da Casa de las Americas. Estao também dois amigos 
queridos, Fina e Cintio Vitier, um dos melhores poetas 
cubanos. Entre os sacerdotes presentes, destaca-se a figu- 
ra simpatica do padre Carlos Manuel de Céspedes, 
vig4tio-geral de Havana e secretario da conferéncia epis- 
copal cubana. Estéo também leigos, jovens e adultos, 
religiosas e seminaristas. Abordo o tema no salao de 
conferéncias do convento que recorda a memor4vel pre- 
senca dos frades dominicanos em Cuba: de Bartolomeu 
de las Casas, defensor dos indios, aos que fundaram a 
Universidade de Havana, em 1728. Agora, em toda ilha 
séo apenas cinco frades, dois no convento do Vedado. 
A espiritualidade de Jesus 
— Quando ouvimos falar em espiritualidade, o 
termo nos evoca retiros espirituats, lugares afastados e 
tranqiitlos, santinhos com fotos de crepisculos no mar 
ou de lagoas que parecem espelhos a’agua. Vida espir- 
tual é algo que soa em oposi¢ao &@ vida carnal, material, 
€ que supoe um afastamento do mundo, da rotina dta- 
ria, um privilégio raro para os pobres mortais que nao 
desfrutam do recolhimento oferecido por mosteiros con- 
FIDEL E A RELIGIAO 61 
templativos. Ha, na Igreja, intimeras ‘‘espirttualida- 
des’’: a dominicana, @ franciscana, a tnaciana, a moaria- 
na, a dos curstlhos de cristandade, etc. O que significa, 
teologicamente, adotar uma espiritualidade? Significa 
adotar um modo de seguir a Jesus. Podemos segui-lo @ 
manetra de Francisco de Assis ou de Teresa de Avila de 
Tomas de Kempis ou de Tetlhard de Chardin. Embora 
se tenham desenvolvido, entre as classes populares latt- 
no-americanas, inimeras espiritualidades nativas, devo- 
cltonats, rometras, em torno de Marias negras e morenas, 
como Caridade, Guadalupe e Aparecida, o que predo- 
minou a nivel de Igreja institucional foram as esptritua- 
lidades tmportadas da Europa, como também se impor- 
tou a teologia. Ensinava-se nos colégios religtosos um 
modo europeu, burgués, de seguir a Jesus, em contradt- 
¢40 nao apenas com a nossa realidade, marcada por fla- 
grantes contradigées sociais, mas também com as pro- 
Drias exigéncias do Evangelho. A dificuldade que Roma 
demonstra em comprender melhor a Teologia da Liber- 
tagéo & resultado de sua incapacidade de admuitir, na 
Igreja, outra teologia senao a que se elabora na Europa. 
Pode haver, numa mesma Igreja, diferentes abordagens 
teolégicas? Quando eu morava no morro de Santa Ma- 
71a, em Vit6ria, um operario, meu vizinho, pediu-me 
um livro que contasse ‘‘a vida de Jesus’’. Det-lhe um 
exemplar do Novo Testamento. Quando o encontrava, 
indagava: ‘‘Como é, seu Antonio, ja leu a vida de Je- 
sus?’’ Certo dia, ele me disse: ‘‘Betto, li todos aqueles 
evangelhos e aprenat muito. Mas vou te confessar uma 
coisa: achei as historinhas de Jesus muito repetidas’’. 
Esse é um bom exemplo de como, s6 nos evangelhos, ha 
quatro diferentes teologtas: de Mateus, de Marcos, de 
Lucas e de Jodo. Teologta é a reflexao da fé dentro de 
uma determinada realidade. Lucas escreve seu relato 
62 CONVERSAS COM FREI BETTO 
evangélico pensando nos pagaos, enquanto Mateus dir- 
ge-se aos judeus. Quem faz teologia na Igreja? Séo todos 
os cristaos, ela é fruto da reflexao que a comunidade 
crista, inserida numa realidade, faz de sua fé. Assim, 
todo cristao faz teologia como toda dona-de-casa, na 
feira, faz economia. Mas nem toda dona-de-casa é eco- 
nomsta, como nem todo cristao é tedlogo. Sao tedlogos 
aqueles que dominam as bases ctentificas da teologta e, 
ao mesmo tempo, captam a reflexto da fé da comunida- 
de e dio a ela uma elaboragao sistemiatica. 
— Apés o Concilio Vaticano II, a Igreja da América 
Latina passou a produzir sua propria teologia. Detxou 
de importa-la da Europa. Antes, todo seminarista devia 
saber um pouco de francés para estudar teologia nas 
obras do padre Congar, De Lubac, Guardini ou Rahner. 
Essa teologia nascida no interior das Comunidades Ecle- 
stais de Base do Continente, fruto dos desafios que o 
processo de libertagao dos oprimidos lanca a fé cristé, 
tem sido sistematizada por homens como Gustavo Gu- 
tierrez e Leonardo Boff. Ela aifere da Teologia Liberal 
da Europa na propria metodologia. Se a teologia é uma 
resposta da fé aos desafios da realidade, quats foram os 
fatos mats importantes ocorridos na Europa neste sécu- 
lo? Sem duvida, as duas guerras mundiais. Esses aconte- 
cimentos levantaram, na cultura européta, uma angus- 
tiante pergunta a respeito do ser, do valor da pessoa hu- 
mana, do sentido da vida. Toda a filosofia de Husserl e 
de Heidegger, de Sartre e de Karl Jaspers, a literatura de 
Albert Camus e de Thomas Mann, 0 cinema de Bunuel 
e de Fellini, séo uma tentativa de responder aquela 
indagacao. A teologta nao se faz excecao. Em sua articu- 
lacao com a realidade européta, ela busca a mediacao da 
Silosofia personalista, cujo eixo é a pessoa humana. Ora, 
qual € 0 acontecimento marcante da América Latina 
FIDEL E A RELIGIAO 63 
neste século? E a existéncia coletiva, majoritéria, de mt- 
lhées de famintos. E a nao-pessoa. E, para se compreen- 
der as razOes politicas. é estruturats da existéncta massiva 
da nio- pessoa, nao basta, a teologta, a me diacao aa filo- 
sofia. E preciso lang¢ar mao das cténcias soctats, inclustve 
da contribuigao do marxismo. E essa articulagao que 
institut a metodologia da Teologia da Libertagao, ade- 
quada & vivéncia libertadora, evangélica, da fé crista na 
América Latina. Temer 0 marxismo € 0 mesmo que 
temer a matematica por suspeita da influéncia pitago- 
rica... Ninguém hose pode falar honestamente das con- 
tradigoes sociats sem pagar algum tributo aos concettos 
sistematizados por Marx. Nao importa se séo ou nao séo 
concettos marxtstas, importa é que traduzam cientifica- 
mente a realidade que exprimem. Mesmo o papa Joéo 
Paulo Il, ao falar das tensdes de classes e das desigualda- 
des soctats, na enciclica Laborem Exercens, sobre o 
trabalho humano, esta assumindo a contribuigao de 
Marx. Antes de temer o marxismo, porque ele se declara 
ateu, devemos nos perguntar sempre que tipo de socte- 
dade justa temos construido no mundo que se confessa 
cristao. 
— A espiritualidade nao diz respetto apenas a nossa 
vida espiritual. Diz respetto ao homem todo, em sua 
unidade espirito-corpo. Para o hebreu nao ha essa divt- 
séo entre matéria e espirito. Séo Paulo chega a falar em 
“corpo espiritual’’, 0 que nos soa como contraditono. 
O conhecimento espiritual é, na Biblia, um conhect- 
mento experimental. S6 se conhece, de fato, 0 que se 
experimenta. Essa diviséo espirito-corpo nos chega atra- 
vés da filosofia grega, que penetra na teologia crista a 
partir do século IV. Para os gregos, somos tanto mats 
espirituais, quanto mais negamos a realidade fisica, cor- 
pérea, material. No Evangelho, é a totalidade do ser 
64 CONVERSAS COM FREI BETTO 
humano que é chamada a vida no Espirito. Portanto, 
espiritualidade nio é um modo de sentit a presenca de 
Deus. Nem uma manetra de cet. ‘‘Nao é aquele que 
diz ‘Senhor, Senhor’, que entraré no Reino dos Céus, 
mas aquele que faz a vontade de meu Pat que esta nos 
céus’’, diz Jesus. A espiritualidade é, pots, um modo de 
viver, € a vida segundo o Espirito. José Marti, o grande 
herét e precursor da libertagao de Cuba, dizta que ‘‘a 
melhor manetra de dizer é fazer’’. Para o cristao, a me- 
lhor manetra de crer é€ viver. De nada vale a fé sem 
obras, como afirma Sao Tiago: ‘‘Irmaos, que adianta 
alguém dizer que tem fé se nao 0 demonstra com sua 
manetra de agir? Por acaso, sua fé pode salva-lo? Se a 
um irmao ou aumairma faltamo pao de cada dia, eum 
de vocés diz: ‘Passem bem, nao sintam frio, nem fome’, 
sem dar o que necessitam, 0 que adtanta? Assim ocorre 
com a fé, se nao é comprovada pela maneira de viver, 
esta completamente morta’’ (2, 14 a 17). 
— Nosso modo de vida é resultado do que cremos. 
Nossa manetra de ser Igreja é reflexo de nossa concep¢ao 
de Deus. Para se conhecer uma Igreja, a melhor pergunta 
é: que pensam seus fiéis de Deus? E um equivoco ima- 
ginar que todos os crentes acreditam no mesmo Deus. 
Muttas vezes me pergunte que semelhanca ha entre o 
Deus no qual creto e aquele no qual Reagan cré. Esque- 
cemos que, no Antigo Testamento, o que preocupa os 
profetas é a tdolatria, esses deuses criados segundo os 
interesses humanos. Ainda hoje ha mutta idolatria por 
ai. Em nome de Deus, os espanhois e portugueses inva- 
diram a América Latina e tructdaram milhées de indios. 
Em nome de Deus, multidées de escravos foram trazt- 
das da Africa para trabalhar em nossas terras. Em nome 
de Deus, estabeleceu-se o projeto de dominagao bur- 
guesa no Continente. Sera que esse nome invocado por 
FIDEL E A RELIGIAO 65 
conquistadores, senhores de escravos e opressores captta- 
Listas, € 0 mesmo Deus dos pobres invocado por Jesus? 
Recordo o drama de Albert Schweitzer, que era mitsico, 
médico e tedlogo. Influenciado pelas pesquisas protes- 
tantes sobre a historicidade de Jesus, chegou a conclusao 
que o jovem de Nazaré na&o esperava morrer tio cedo e, 
portanto, fora surpreendido pela conspiracéo em torno 
de sua pessoa. Ora, um Deus jamais se equtvoca. Se 
Jesus nao fora capaz de prever 0 momento de sua morte 
é porque ele nao era Deus, concluiu Schweitzer. Ha 
alguns anos, um pastor inglés, Robinson, publicou um 
hiro que virou best-seller, Honest to God, Aonesto com 
Deus, traduzido no Brasil por Um Deus Diferente. O 
autor dizia que precisamos ser honestos com Deus e 
confessar que nao O conhecemos. O que conhecemos 
sa@0 caricaturas, como o deus invocado nos protocolos 
oficiats, nos momentos atficets da vida, nos adiscursos 
politicos. Como se conhece uma pessoa, por aquilo que 
dela se pensa ou por aquilo que ela revela? Se o verda- 
detro conhecitmento deriva da revelagao, é em Jesus 
Cristo, presenca historica de Deus, que melhor pode- 
mos conhecé-Lo. Embora a teologia medieval defina 
Deus como onisciente, onipresente, onipotente, etc., ao 
abrir os Evangelhos o que encontramos é um ser fragtl, 
que vive entre os pobres, que chora a morte do amigo, 
sente fome, discute com seus apostolos, manifesta raiva 
dos fariseus, xinga Herodes, conhece a tentagao e, na 
agontia, passa pela crise de fé ao experimentar o abando- 
no ado Pat. Talvez Albert Schweitzer nao tivesse perdido 
a fé na divindade de Jesus se admitisse que a dtvindade 
nao se expressa pelo fato de Jesus possutr, na cabega, 
uma espécie de computador que the permitisse prever 
tudo. Para o Novo Testamento, o principal atributo de 
Deus é 0 amor. Em sua primeira carta, o apostolo Joao é 
66 CONVERSAS COM FREI BETTO 
bastante claro: ‘‘Queridos irmdaos, amemo-nos uns aos 
outros, porque o amor vem de Deus. Quem ama, nas- 
ceu de Deus e conheceu a Deus. Quem nao ama, nao 
conheceu a Deus, porque Deus é amor’’ (4, 7 e 8). Para 
os gregos, que influiram na definigao medieval de 
Deus, 0 amor jamais pode ser atributo de um deus; ao 
contrario, é uma caréncia, a medida que supe uma re- 
lagéo com o objeto amado. Nesse sentido, Jesus é Deus 
porque amou assim como s6 Deus ama e, por tsso, nao 
teve pecado. Era um homem descentrado de si mesmo, 
centrado no Pai e no povo. Essa concepgao de Deus- 
amor funda uma Igreja baseada na fraternidade, na co- 
legialidade, e nao no autorttarismo. E uma concep¢ao 
que permite aos cristéos desvelar a presenca de Deus em 
todos aqueles que, nao tendo fé, sao capazes de atitudes 
de amor. Deus esta presente mesmo em quem nao tem 
fé. E Ele se identifica historicamente com todos esses 
que mais necessitam do nosso amor, os oprimidos: 
“‘Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste 
de beber..."’, diz Jesus no capitulo 25 de Mateus. O 
amor & necessariamente libertador. 
— Esclarecida essa questao de Deus-amor, um 
Deus que exige justic¢a e defende os direitos dos pobres, 
fica mats facil falar da espiritualidade de Jesus. Se const- 
deramos os relatos evangélicos, vemos com clareza que a 
espiritualidade de Jesus nao era a da separacao do mun- 
do, de quem se afasta do cotidiano para melhor servir a 
Deus, de quem nega as realidades terrestres. Em Jodo 
17, 15, ele pede ao Pat que preserve seus discipulos do 
mat, sem tira-los do mundo. Toda a existéncia de Jesus 
é um mergulho na confltividade ideolégica, no terreno 
onde se batiam diferentes concepcoes e opcoes a favor 
ou contra os oprimidos. A espiritualidade de Jesus tam- 
bém nao era a do moralismo. Esta é a espiritualidade 
FIDEL E A RELIGIAO 67 
dos fariseus, que fazem de suas virtudes morats uma 
espécie de conquista da santidade. Muitos cristaos fo- 
ram formados nessa linha e perdem vigor em sua fé por- 
que nao conseguem corresponder ao moralismo farisaico 
a que se propéem. Deus parece habitar 0 cimo de uma 
montanha e a espiritualidade é ensinada como um ma- 
nual de alpinismo a ser utilizado pelo cristao interessado 
em galgar as dificets escarpas. Como somos de natureza 
fragil, recomecamos a cada vex a escalada... E a repeti- 
¢ao incessante do mito de Sistfo, carregando a pedra 
montanha acima. Ora, um dos melhores exemplos do 
nao-moralismo de Jesus é 0 relato de seu encontro coma 
mulher samaritana. Do ponto de vista da moral entéo 
vigente, tratava-se de uma marginalizada, por ser mt- 
lher, samaritana e amasiada. No entanto, é a esta mu- 
ther que Jesus, primetro, revela o carater messianico de 
sua missao. Ha entre eles um didlogo interessante: 
“A mulher lhe disse: — Senhor, dé-me desta 
agua para que eu nao sofra mats sede, nem tenha 
que vir aqui para busca-la. 
Jesus the disse: 
— Va chamar seu marido e volte aqui. 
A mulher respondeu: 
— Nao tenho marido. 
Jesus the disse: 
— E verdade 0 que dizes, que nao tens mart- 
do. Tiveste cinco maridos e o que tens agora nao é 
seu marido. 
— Senhor — respondeu a mulher —, veyo 
gue és profeta. Nossos pais sempre vieram a esta 
montanha para adorar a Deus e v6s, os judeus, nao 
dizem que Jerusalém é o tinico lugar para adorar a 
Deus? 
68 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Jesus the disse: 
— Cré-me, mulher, chegou a hora de adora- 
res o Pat. Mas nao sera nesta montanha, nem tam- 
pouco em Jerusalém. (...) Chega a hora, e ja esta- 
mos nela, em que os verdadetros adoradores adora- 
rao o Pai em espirito e em verdade’’ (Joao 4, 15 
423), 
Em nenhum momento Jesus a recrimina por ter 
tido sets homens em sua vida. O que interessa a ele é 
constatar que ela é verdadetra. Nao mente, nao adota 
uma postura farisaica e, portanto, esta em condigoes de 
adorar ‘‘em espirito e verdade’’, na abertura subjetiva a 
Deus e no compromusso objetivo com a verdade. Assim, 
Jesus demonstra que a vida crista nao é um movimento 
do homem para Deus; antes, € 0 amor de Deus que se 
dirige ao homem. Deus nos ama irremediavelmente. 
Resta saber se nos abrimos mats ou menos a esse amor, 
pots toda relagao de amor exige reciprocidade e supde 
intetra liberdade. A moralidade crista nao decorre, pots, 
de nossa farisaica intencao de nao ter nenhum pecado. 
Ela é uma conseqiiéncia de nossa relacgaéo de amor com 
Deus. Como entre um casal, o amorimpée a fidelidade. 
A parabola do Filho Prédigo é um bom exemplo da gra- 
tuidade do amor do Pat. ‘‘Quando ainda estava longe, 
Seu pat c viu, sentiu compaixao, correu e o abracou’’ 
(Lucas 15, 20). O perdao e a alegria do pat se manifes- 
tam no simples fato de o filho retornar a ele, antes mes- 
mo que se explique e se desculpe. Assim é€ 0 amor de 
Deus para conosco. 
— Vemos, pots, que a espiritualidade de Jesus era 
a vida no Espirito, dentro da conflitividade histérica, 
em comunhao de amor com o Pai e com 0 povo. Uma 
espiritualidadeque decorria de sua abertura ao dom do 
FIDEL E A RELIGIAO 69 
Pat e de seu compromisso libertador com as aspiragoes 
de vida dos oprimidos, Para Jesus, o mundo nao se divi- 
de entre puros e impuros, como queriam os fariseus. 
Divide-se entre os que estao a favor do partido da Vida e 
os que apotam o partido da Morte. Tudo que gera mais 
vida, do gesto de amor @ revolucao soctal, esta na linha 
do projeto de Deus, da construcao do Reino, pots a vida 
€ 0 dom maior que Deus nos da. Quem nasce, fa nasce 
em Deus por ingressar na esfera da vida. Ao mesmo 
tempo, a espiritualidade de Jesus contradiz a dos fart- 
seus, feita de ritos, de obrigacées, de asceses, de obser- 
vanctas disciplinares. Na dos fariseus, o centro da vida 
espiritual é o fiel; na de Jesus, € 0 Pat. Na dos fariseus, a 
espiritualidade se mede pela pratica ae normas cultu- 
rats; na de Jesus, pela abertura filial ao amor e a misert- 
cordia de Deus. Na dos fariseus, a santidade é uma con- 
quista 5umana; na de Jesus, um dom do Pai aos que se 
abrem a Sua graca. Esse vigor espiritual de Jesus advinha 
de sua intimidade com Deus, a quem chamava famibltar- 
mente de Abba, papat (Marcos 14, 36). Jesus, como to- 
dos nos, crentes, tinha fé. E, para alimentar essa fé, pas- 
sava longas horas em oragaéo. Lucas registra esses mo- 
mentos em que o espirito de Jesus se detxava inundar 
pelo Espirito do Pat: ‘‘ele sempre buscava lugares tran- 
giitlos e aise punha a rezar’’ (5, 16), ‘‘fot rezar em um 
monte e passou toda a noite em oragao com Deus’’ (6, 
12), ‘‘Jesus havia tdo a um lugar afastado para rezar’’ 
(9, 18). Nessa comunhao com o Pat, ele encontrava for- 
¢as para lutar pelo projeto da Vida, enfrentando as for- 
¢as da Morte representadas, especialmente, pelos fan- 
seus, contra os quats os evangelhos apresentam dots vio- 
lentos manifestos (Mateus 23 e Lucas 11, 37 a4 57). E, 
nesse sentido, todos que lutam pela Vida incluem-se no 
projeto de Deus, ainda que nao tenham fé. ‘'Entao os 
70 CONVERSAS COM FREI BETTO 
bons perguntarao: ‘Senhor, quando te vimos faminto e 
te demos de comer; sedento e te demos de beber?’... O 
Rei respondera: ‘Em verdade vos digo que, quando o 
fizeram a um desses mais pequenos, que sao meus 
irmaos, a mim o fizeram’’’ (Mateus 25, 37 a 40). E no 
proximo, espectalmente no proximo carente de vida, 
necessitado de justig¢a, que Deus quer ser servido e ama- 
do. E com eles que Jesus se identifica. Nao ha, portan- 
to, contradicao entre aluta pela sustica e a realizagao da 
vontade de Deus. Esta exige aquela. Sao considerados 
irmios de Jesus todos os que atuam nessa linha do pro- 
jeto de Deus pela Vida (Marcos 3, 31 a 35). Esse é, por 
exceléncia, o modo de seguir a Jesus, sobretudo na realt- 
dade atual da América Latina. Prefiro dizer que Jesus tt- 
nha uma espititualidade do conflito, ow seja, um vigor 
no compromisso com os pobres e com o Pai que the dava 
uma imensa paz interior. A verdadeira paz nao se 
obtém com muros, decorre da confianca em Deus. O 
contrario do medo nao é a coragem, é a fé. Essa fé dava 
a Jesus a disposigdo necessaria @ realizagao do projeto da 
Vida, ainda que sacrificando sua prépria vida, em con- 
fronto com as forgas da Morte, como a opressdo, a injus- 
tiga, a religido esclerosada em normas e ritos. 
Terminada a palestra, poucas perguntas sao feitas. 
O auditorio parece inibido. E tarde da noite e vou com 
Jorge Timossi e Marcela tomar um pouco de rum em 
casa de Marta Harnecker. 
FIDEL E A RELIGIAO 71 
6 
tA 
O projeto da Vida em Jesus 
Na tarde do domingo, 19 de maio de 1985, faco a 
segunda palestra, em nosso convento cubano. H4 menos 
gente, umas cinqiienta pessoas. O tema é ‘‘O projeto da 
Vida em Jesus’’. 
— O modo de Jesus realizar a vontade de Deus é 
no compromusso com o proseto da Vida. Isso fica bem 
claro neste relato de Sao Marcos: 
‘Num sabado, Jesus caminhava pelos campos com 
seus discipulos. Ao passar, eles comegaram a colher espt- 
gas. Entao, os fariseus thes disseram: ‘Vejam o que estéo 
Jazendo! Isso néo se pode fazer no sabado’. Ele thes dis- 
se: ‘Nunca leram o que fez Davi, quando eles e seus 
companhetros passaram necessidade e sentiram fome? 
Ele entrou na Casa de Deus, na época do sumo sacerdo- 
te Abtatar, e comeu os paes da oferenda que 56 os sacer- 
dotes podiam comer e os deu também aos que estavam 
com ele’. E thes disse: ‘O sébado fot feito para o homem 
e nao o homem para o sébado. Por isso o Filho do Ho- 
mem € também Senhor do sabado’’’ (2, 23 a 28). 
— O relato mostra um conflito entre o grupo de 
Jesus e 0 grupo dos fariseus. Jesus e seus discipulos co- 
lhiam espigas, o que a lei de Deus proibia fazer em dia 
de sabado, considerado sagrado, 0 que impedia qual- 
quer espécie de trabalho. Jesus sabia disso e, como era 
seu costume, nao procurou sustificar-se. Preferiu apelar 
para o testemunho de uma outra pessoa, por quem os 
72 CONVERSAS COM FREI BETTO 
fariseus tinham muito respeito, Davi. Este procedeu de 
modo, aparentemente, muito pior do que Jesus e seus 
discipulos. Nao desrespettou apenas o sabado, mas a 
propria Casa de Deus, o templo. Nao colheu simples 
espigas de trigo, mas apanhou os paes da oferenda — as 
hostias, diriamos hoje —, comeu-os e deu-os também a 
seus companhetros. Jesus sabia que o procedimento de 
Davi estava igualmente em desacordo com as normas re- 
ligiosas. No entanto, que razéo mutto forte levava Jesus, 
nao somente a justificar 0 proceder de Davi, mas tam- . 
bém a agir de modo semelhante? A resposta esta no ver- 
siculo 25: ‘‘Nunca leram o que fez Davi, quando ele e 
seus companhetros passaram necessidade e sentiram 
fome?’’ Ou seja, a necessidade material do homem, 
base fundamental da vida, é 0 que ha de mats sagrado 
para Jesus. A tdolatria destitui o ser humano de sacralt- 
dade, transferindo-a para as observéncias liturgicas e o 
material do culto, como o templo. Para Jesus, nao se 
pode falar em vida espiritual separada das condigées 
materiais de existéncia. Nao ha nada de mais sagrado 
que o homem, imagem e semelhanga de Deus. A fome 
de um homem é uma ofensa ao proprio Criador. De 
nada vale uma religiao que cuida da suposta sacralidade 
de seus objetos e da as costas aqueles que sao os verda- 
deiros templos do Espirito. Na cidade onde trabalho 
com operarios, Séo Bernardo do Campo, a cada vez que 
hi greves e intervencao do governo no sinadtcato, os pa- 
dres da igreja-matriz abrem as portas para que os meta- 
lirgicos possam realizar suas assembléias. Outros padres 
escandalizam-se, consideram isso uma profanacao do 
templo. Nao compreendem que, na linha de Jesus, 
nada ha de mais sagrado que o dtreito @ vida. E uma 
greve, uma assembléta sindical, é um esforco coletivo 
pela conquista de melhores condigoes de vida. Dai a 
FIDEL E A RELIGIAO 73 
concluséo de Jesus no relato de Marcos: ‘‘O sabado Hee 
fetto para o homem e nao o homem para o sabado’”’. 
que hi de mais sagrado — como 0 sébado — deve she 
a servigo das exigénctas da vida humana, e nao o contra- 
rio. Uma Igreja que coloca seus interesses patrimoniats 
acima das exigéncias de justica, de vida, do povo na 
qual ela se insere, é certamente uma Igreja que poe o 
homem abaixo do sabado e, como os fariseus, inverte as 
prioridades evangélicas. 
— Em sua pratica, Jesus nao separa as necessidades 
espirituats das exigéncias matertats da vida humana. Isso 
aparece de modo muito claro na parabola da multiplica- 
¢Go dos paes (Marcos 6, 34 a 44). Uma multidao, ‘‘cinco 
mil homens’’, acabara de ouvir a pregacao de Jesus. Os 
aiscipulos aproximam-se do Mestre e sugerem: ‘‘O lu- 
gar é despovoado e sa é tarde. Despede-os para que pos- 
Sam tr as aldetas e cidades mats proximas comprar algo 
para comer’’. A fome do povo néo sera problema de 
quem prega a vida espiritual. Porém, Jesus reage: ‘‘Vo- 
cés déem a eles de comer’’. Nao se despede uma multt- 
dio faminta. Isso é também um problema para vocés 
assumirem. Interessante observar que os ascipulos 
empregam o verbo comprar e, o Mestre, dar. Atnda osdiscipulos nao captam a proposta de Jesus: ‘‘Teremos 
nos de comprar duzentos dendarios de pao para dar-lhes 
de comer?’’ Ha quem pense que 0 dinheiro é suficiente 
para resolver as caréncias do povo. E a teoria do bolo, 
primetro faxé-lo crescer, acumular muito capital, para 
depois reparti-lo com todos. Jesus thes responde: 
“‘OQuantos paes tém voces? Verifiquem’’. Ele nao indaga 
quanto de dinheiro tém os discipulos, e sim quanto tém 
de bens, de paes. E muito diferente querer resolver as 
exigéncias de vida da coletividade pela aistribuigao da 
renda, como pretendem os paises da soctal-democracta, 
74 ~CONVERSAS COM FREI BETTO 
ou pela distribuigao de bens, como o faz Cuba. Para 
acumular tantos recursos, paises como a Suécia, onde 
mesmo os trabalhadores dispoem de elevado nivel de 
vida, precisam manter empresas multinacionats explo- 
rando os paises do Tercetro Mundo. Cuba, para socialt- 
zar os poucos bens de que aispée e erradicar a m1sérita, 
nao necesstta de explorar nenhum outro povo. Marcos 
prossegue dizendo que os apostolos vertficaram que ha- 
via cinco paes e dots peixes. ‘‘Todos se acomodaram em 
grupos de cem e de cingiienta.’’ Para resolver seus pro- 
blemas, 0 povo se organiza. Jesus toma os paes e os pet- 
xes, ‘‘levanta os olhos ao céu, pronuncia a béncao e parte 
os paes’’ para que os ascipulos fagam a distribuigao. 
Em todo o Evangelho, a partilha do pao é sinal da bon- 
dade do Pai e da instauragao da fraternidade. O alimen- 
to esta assoctado &@ plenitude da vida. E assim no relato 
das Bodas de Canaé e no encontro do Ressuscitado com 
os aiscipulos de Emais. ‘'Todos comeram até sactar-se. 
Recolheram-se doze cestos chetos de restos de paes e de 
peixes.’’ Se ao final sobram doze cestos com os restos, 
quantos cestos nao haveria a mais naquela multidio? E 
que continham? Ora, em qualquer lugar em que se ret- 
ne um grande numero de gente, logo aparecem os ven- 
dedores de sanduiche, de refrigerantes, de doces. No 
tempo de Jesus, o alimento era carregado em cestos. Por 
outro lado, cinco paes e dots peixes dao sete. E sete, na 
Biblia, significa ‘‘muitos’’, como o nosso otto dettado 
significa ‘‘infinito’’. Por isso se diz que os nossos peca- 
dos serao perdoados, nao apenas sete, mas 77 vexes. 
Portanto, havia muitos petixes e muitos paes. Quer dizer 
que nao houve milagre? Milagre sim, e nado magica. Mé- 
gica seria o espetacular recurso de tomar cinco paes de 
um lado, dois peixes de outro, cobri-los com um pano, 
dizer ‘‘abracadabra’’ e dispor, de um lado, de uma pa- 
FIDEL E A RELIGIAO 75 
daria e, de outro, de uma petxaria. O que é 0 milagre? E 
o poder de Deus de alterar 0 rumo natural das coisas. 
Esse poder age sobretudo no coragao humano. Naquele 
dia, os que tinham bens partilharam com os que néo tt- 
nham, deu para sactar a todos e sobrou. Ao mesmo tem- 
po, todo esse relato é a prefiguracao da reserva escatolé- 
gica. Os doze cestos que sobram com alimento relacio- 
nam-se com as doze tribos de Israel, protagontstas do 
projeto de Deus na historia, e com o grupo dos doze 
apostolos, pilares da Igreza. 
— A fonte da espinitualidade de Jesus, da forca 
que o impelia a lutar decididamente pelo proseto da 
Vida, era a sua intimidade com o Pat, nutrida na ora- 
¢ao. O Evangetho refere-se as oracées de Jesus e transmute 
seus ensinamentos a respetto. Ele nos ensina o Pat-Nosso 
é incentiva oracdes de peticao e de louvor. Contudo, os 
textos falam dos longos momentos que Jesus passava em 
oragao. A meu ver, aqui esta um dos pontos criticos da 
espiritualidade crista no Ocidente e da superficialidade 
de nossa fé. Nao sabemos rezar em profundidade. Sabe- 
mos peatr, louvar, meditar. Porém, isso é apenas a porta 
de entrada da vida de oracgéo. S6 mats adiante é possivel 
alcancgar o vigor mistico que animava Jesus. Nesse 
aprendizado, o melhor é recorrer as experténcias dos 
cristdos que viveram intensamente a intimidade com 
Deus e nos transmuitiram seu ttinerario. 
— Deus é mats intimo anos do que nos a nos mes- 
mos — diz Santo Agostinho. — Assim, a ora¢ao mats 
profunda é aquela que brota do siléncio dos sentidos e 
da mente e dilata o coracao para que o Espirito se mant- 
feste. ‘‘O Espirito vem socorrer-nos em nossa debilida- 
de, porque ndo sabemos o que pedir, nem como peatr 
em nossas oracées. Mas o proprio Espirito reza por nos, 
com gemidos e suplicas que nado se podem expressar. E 
76 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Deus, que penetra os segredos do coragdo, escuta as 
aspiracoes do Espirito porque, quando o Espinto roga 
pelos santos, o fax segundo a manetra de Deus’’, aiz 
Sao Paulo na carta aos Romanos (8, 26 e 27). Esse deixar 
o Espirito rezar em nos requer gratuidade na relagao 
com Deus, assim como se da na relacao de um casal. 
Momentos de siléncio interior em que experimentamos 
essa Presenca indizivel que fertiliza a nossa fé. Dai brota 
a vida crista enraizada na experténcia teologal. A esse 
nivel, superamos a vida crista como mero condiciona- 
mento soctol6gico, como uma espécie de ideologta con- 
fessional que, em principio, se oporia a uma ideologia 
atéta. Ora, ateus todos nés nascemos. Como diz o Con- 
cilio Vaticano II, na Gaudium et Spes, o ateismo mo- 
derno decorre também na falta de testemunho dos crs- 
taos. Nao penso que ele deva nos inquietar tanto como 
a idolatnia vigente em varias expressées de fé que nada 
tém aver com o Deus anunciado e encarnado por Jesus, 
como é o caso dos que professam o nome de Deus em 
defesa do capital, do colonialismo, da discriminagao so- 
cial e racial, da repressao sobre os trabalhadores. E nao é 
ao nivel das verdades de fé que se deve estabelecer o dié- 
logo entre cristéos e marxtstas, mas sim ao nivel da pra- 
tica libertadora, das exigéncias de justica, do servico de- 
sinteressado & vida da coletividade. Esse é o nivel do 
amor, critério fundamental de nossa realizagao humana 
e de nossa salvacéo. Séo Paulo chega a dizer que ainda 
que tivéssemos a fé capaz de transportar montanhas e 
nao tivéssemos 0 amor, isto de nada serviria, seria como 
o cimbalo que retine ou como o bronze que soa (1 Co- 
rintios 13, 1a 13). Ena pratica libertadora que se daria 
separacao entre os que, em nome de Deus, lutam pelo 
projeto da Vida e os que se imscrevem no partido da 
Morte. Essa mesma pratica aproxima cristéos e ateus 
FIDEL E A RELIGIAO Tin 
comprometidos com a construgao de uma sociedade fra- 
terna, onde os bens da vida sejam igualmente repartt- 
dos. Entretanto, a possivel abertura desses ateus ao apelo 
da fé vai depender, sem divida, do testemunho e da 
coeréncia dos cristéos, para que o dom de Deus encon- 
tre, como a semente, o terreno preparado. 
Houve poucas perguntas. Um jovem queixou-se de 
que nfo se fizera melhor propaganda da palestra. Um 
senhor reagiu, dizendo que foram dados muitos avisos. 
Talvez essa abordagem do cristianismo fosse inusitada 
para um auditério como aquele. O bloqueio imposto a 
Cuba pelos Estados Unidos também isolou, de certa for- 
ma, os cristaos da ilha. Muitos ficaram ao lado do impe- 
tialismo, contra o socialismo e 0 comunismo que se 
implantaram professando o ateismo. No entanto, nos 
Gltimos anos ventos novos sopram nessa Igreja cubana. Ao 
mobilizar todas as suas forcas para rever sua pratica pas- 
toral e estabelecer novas linhas 4 sua acdo evangelizado- 
ta, a Igreja de Cuba vive, agora, um novo Pentecostes. 
A radio José Marti 
Na segunda-feira, 20 de maio de 1985, a ilha acor- 
da sobressaltada, sob o impacto de nova agressdo impe- 
rialista: comeca a funcionar nos Estados Unidos, com ca- 
pacidade de transmissio em ondas médias, a radio José 
Marti. O fato de a transmissora anticubana ostentar o 
nome do mais venerado herdéi nacional e inspirador da 
78 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Revolucao fere os sentimentos do povo. A cada dia, 
durante quatorze horas, a emissora divulga noticias e 
coment4rios da Voz da América, misicas e discursos exal- 
tando a politica de Reagan e agredindo o governo cubano. 
Areacio do governo de Cuba € imediata. Na ma- 
nha do mesmo dia, 0 Granma, Orgio oficial do Comité 
Central do Partido Comunista, traz, 4 primeira pagina, 
uma ‘‘InformacZo ao Povo’’, assinada pelo governo, 
constando a suspensao do acordo sobre quest6es migra- 
torias, estabelecido por delegacdes de ambos os paises, a 
14 de dezembro passado, em Nova Iorque; o cancela- 
mento de viagens, a Cuba, de cidadaos cubanos residen- 
tes nos Estados Unidos, ‘‘salvo as que sejam autorizadas 
por razGes estritamente humanitarias’’; a adogao de me- 
didas relacionadas com as comunicacdes entre os dois 
paises; e, entre outras, a deciséo de que ‘‘o governo de 
Cuba reserva-se o direito de emitir transmiss6es radiof6- 
nicas para os Estados Unidos, em ondas médias, a fim de 
informar cabalmente os pontos de vista de Cuba sobre os 
problemas daquele pais e de sua politica internacional’’. 
Chego a me perguntar se sera possivel entrevistar o 
homem que, mais uma vez, por seu destemor frente as 
agressdes do governo norte-americano, ocupa o centro 
das atencdes. Por via das dtividas, nao saio de casa, 4 
espera do telefonema de sua assessoria. O aparelho nao 
toca, O dia se arrasta na lenta e 4spera ampulheta de mi- 
nha silenciosa ansiedade, os sinais graficos dos livros que 
tento ler ndo conseguem furar o bloqueio das fantasias 
que me inundam a mente. 
As dez e meia da noite de terca-feita, 21 de maio de 
1985, o telefone toca. E a assessoria do Comandante que 
me avisa pata nfo sair de casa. A meia-noite, um Alfa- 
Romeo pequeno, dirigido por um soldado do Ministério 
do Interior, apanha-me e sai em dispatada, primeiro 
FIDEL E A RELIGIAO 79 
pela Quinta Avenida, depois por Paseo, como se dispu- 
tasse o desafio de atravessar cada semAforo verde antes 
que se acendesse a liz vermelha. 
Sou recebido pelo Comandante Fidel Castro em seu 
gabinete de trabalho. Com ele, Jestis Montane Oropesa, 
membro do Comité Central e um dos mais antigos com- 
panheiros de Fidel na luta do Movimento 26 de Julho 
contra a ditadura de Batista. O odor suave, quase adoci- 
cado, dos charutos, impregna a sala. Sento-me numa 
poltrona revestida de pele de boi e ougo, enquanto um 
travo me apefta a garganta, o Comandante explicar que, 
devido 4 inauguracao da radio norte-americana que, 
injuriosamente, leva o nome de José Marti e a outros 
tantos trabalhos, talvez nao seja possivel realizarmos, 
neste momento, a entrevista. Devo estender minha esta- 
da em Cuba ou retornar dentro de poucas semanas. Por 
minha mente, corre a agenda apertada, sufocante, que 
me aguarda no Brasil. Nenhuma possibilidade de ficar 
mais tempo na ilha ou de retornar nos proximos meses, 
em razao de sérios compromissos de trabalho. Insisto em 
aproveitarmos esta ocasido. Ele resiste, argumenta que 
deseja preparar-se melhor para a entrevista em torno de 
um tema tZo delicado e importante como o da religiao. 
Quer ler, antes, Jesus Cristo Libertador e Igreja, Carisma 
e Poder, de Leonardo Boff, e os textos do Vaticano I e 
de Medellin, que se encontram, em espanhol, sobre sua 
mesa. Quer estudar, também, as obras de Gustavo Gu- 
tierrez. Necessita de um pouco mais de tempo para ler a 
integra dos discursos da altima viagem do papa Joao 
Paulo II a América Latina, em fevereiro de 1985. Indago 
a mim mesmo como o dirigente cubano consegue com- 
binar, dentro de uma apertada agenda de trabalho, as 
inGmeras tarefas de governo, a votacidade intelectual 
pelos mais variados temas e o prazer de conversar. Nao 
80 CONVERSAS COM FREI BETTO 
me lembro de ter encontrado, pela vida afora, outra pes- 
soa com tao agucada inteligéncia e tanta predisposicao 
ao didlogo pessoal. Joelmir observara bem ao comentar 
comigo que Fidel magnifica tudo, imprime a qualquer 
assunto que se converse, da culinaria 4 divida externa do 
Terceiro Mundo, uma importancia transcendental. 
Frente 4 minha silenciosa resisténcia, ele pede para 
que eu leia as perguntas que desejo fazer-lhe. Ouve as 
cinco primeiras e, imediatamente, anima-se. S4o justa- 
mente as perguntas que dizem respeito a sua historia 
pessoal e 4 formacdo cristé que recebera. Talvez ele ima- 
ginasse um roteiro de questdes teoldgicas ou que reque- 
resse preparacao bibliografica. Solicita que, ao menos, 
eu permaneca mais dois dias em Cuba, para trabalhar- 
mos melhor. Sua dificuldade reside, especialmente, em 
receber uma delegacao de visitantes latino-americanos, 
que chegaria ao pais na pr6xima quinta-feira. Mesmo 
assim, mostra-se disposto a encontrar brechas para ini- 
ciarmos a entrevista. 
Na quarta-feira, 22 de maio de 1985, fico sabendo 
que a delegacdo esperada suspendera a viagem. A noti- 
cia me alivia. Apds o jantar, recebo o aviso de que serei 
chamado, ainda naquela noite, para avistar-me com o 
Comandante. Sado quinze para meia-noite quando a 
limusine Mercedes-Benz do Comandante estaciona 
porta. 
— Onde estado os velhos? — pergunta Fidel por 
meus pais. 
Informo que foram dormir ha pouco, mas que vou 
acorda-los. Ele nao deixa e me convida a dar uma volta 
pela cidade. Acabara de sair de um jantar na Nuncia- 
tura apostolica, em homenagem ao monsenhor Cor- 
dero Lanza de Montezemolo, nancio em Nicaragua 
e Honduras, que se encontra de visita a convite pes- 
py 
FIDEL E A RELIGIAO 81 
soal de Fidel. Conversamos sobre a situacao da Igreja 
na Nicaragua e manifesto-lhe minha opinido de que 
a falta de uma condenacdo explicita e direta, por 
parte dos bispos, 4 agressdo promovida pelo governo 
norte-americano, esta prejudicando a vida de fé de mui- 
tos cristaos nicaragiienses que no se sentem apoiados 
por seus pastores, especialmente entre a juventude. Pre- 
conceitos anticomunistas fazem o episcopado calar-se 
diante das tropas mercen4rias que, acampadas em Hon- 
duras, ingressam em territ6rio nicaragtiense para assassi- 
nar camponeses e, inclusive, criancas. Entre as vitimas, o 
casal Barreda, dirigente do cursilho de cristandade, que 
eu conhecera em Esteli, num encontro pastoral, em 
1981. Ao longo da histéria, homens de Igreja comete- 
ram o grave erro de silenciarem frente 4 criminosa elimi- 
nacao de vidas humanas, em nome da suposta defesa de 
principios ortodoxos. No entanto, meu contato com as 
comunidades cristés populares da patria de Sandino, 
mostra-me que nem tudo esta perdido. A fé renasce for- 
talecida inclusive por essas provas e na consciéncia de 
que a Igreja nao sao exclusivamente os bispos ou os pa- 
dres, € todo o povo de Deus em comunhio com seus 
pastores € os pastores a servico deste povo. O Coman- 
dante escutou-me e, antes que passasse a falar de Cuba, 
fez apenas um comentario: 
— Prefiro nio me meter nas questdes internas da 
Igreja. 
Na volta, tarde da noite, insisto em acordar meus 
pais. Surpresos, de camisola e pijama, eles cumprimen- 
tam Fidel na copa da casa. Ao saber que passaremos pelo 
México, de regresso ao Brasil, pde-se a recordar os tem- 
pos em que viveu na capital daquele pais e a comentar, 
com minha mie, o pfeparfo, os temperos e o sabor da 
comida mexicana. 
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shes 7 9) 
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Bk] 
PARTE DOIS 
N, quinta-feira, 23 de maio de 1985, chego 
ao Palacio da Revolucao pouco depois de nove da noite. 
Uma forte chuva cai sobre Havana, amenizando o clima 
seco dos Gltimos dias. No gabinete do Comandante 
encontra-se, também, Vilma Espin, presidente da Fede- 
tacao das Mulheres Cubanas, que acaba de se reunir com 
Fidel. 
Tomamos assento 4 mesa retangular de reuniées. 
Fidel 4 minha frente, do outro lado. Veste seu uniforme 
verde-oliva, com o emblema losangular, vermelho e pre- 
to, com a estrela branca ao centro, cercado por duas pal- 
mas, sobre os ombros. A sua esquerda, uma caixa de 
charutos e, 4 direita, uma pequena xicara branca, de cha, - 
com as bordas douradas. Iniciamos a entrevista e, 
enquanto fala, ele rabisca as folhas de um bloco, como 
se isso 0 ajudasse a sistematizar as idéias. E a primeira 
86 CONVERSAS COM FREI BETTOvez na hist6ria que um chefe de Estado concede uma 
entrevista exclusiva sobre religiao. Especialmente um 
chefe de Estado revolucionério, marxista-leninista, de 
um pais socialista. 
Frei Betto — Comandante, estou seguro de que 
esta € a primeira vez que um chefe de Estado de um pais 
socialista concede uma entrevista exclusiva sobre o tema 
da religiao. O Gnico precedente que ha, neste sentido, é 
o documento divulgado pela Direcao Nacional da Frente 
Sandinista de Libertagdo Nacional, em 1980, sobre a re- 
ligido. Foi a primeira vez que um partido revolucionario 
no poder produziu um documento sobre este tema, pois 
nunca houve uma palavra mais contundente e aprofun- 
dada, inclusive do ponto de vista hist6rico, sobre o te- 
ma. E considerando este momento em que, na América 
Latina, a problemAtica da religiao joga um papel ideolé- 
gico fundamental, considerando a existéncia de nume- 
rosas Comunidades Eclesiais de Base: de indigenas da 
Guatemala, de camponeses da Nicaragua, de operarios 
do Brasil e de tantos outros paises; considerando também 
a ofensiva do imperialismo que, a partir do Documento 
de Santa Fé, procura combater diretamente a expressao 
mais tedrica dessa Igreja comprometida com os pobres, 
que € a Teologia da Libertacéo, encaro como muito 
importante esta entrevista e a sua posicdo a respeito 
dessa tematica. 
Iniciemos pela parte histérica. O senhor vem de 
uma familia crista. 
Os pais de Fidel 
Fidel Castro — Bem, antes de comecar a respon- 
der, j4 que vocé fez uma introducdo, eu gostaria de 
FIDEL E A RELIGIAO 87 
explicar que, sabendo de seu interesse em fazer uma 
entrevista sobre este tema complexo e delicado, para 
mim teria sido melhor dispor de mais tempo para rever 
alguns documentos e meditar um pouco mais sobre a 
questao; porém, como coincidiu com um periodo de 
muito trabalho de minha parte, também com muito tra- 
balho de sua parte e a necessidade que vocé tem de te- 
gressar logo a seu pais, aceitei falar quase de improviso, 
o que me lembra a situacdo de um estudante que deve 
fazer um exame sem ter tido tempo de estudar a maté- 
tia, de um orador obrigado a fazer um discurso sem tet 
tido oportunidade de familiarizar-se melhor com os temas 
e aprofunda-los, ou de um professor que tivesse que dar 
uma aula sem dispor de um minuto para repassar a maté- 
ria. Em tais circunstancias, me submeto a esta conversa. 
Sei que se trata de um tema que vocé domina muito 
bem, com uma vantagem sobre mim: vocé estudou teo- 
logia e também marxismo. Conheco alguma coisa de 
marxismo e realmente muito pouco de teologia. Por isso 
sei que as suas perguntas € os seus questionamentos se- 
rao profundos, sérios, e eu, que nao sou tedlogo, mas 
politico — creio que também sou um politico revolucio- 
nario, que sempre se manifestou com muita franqueza 
sobre as coisas —, procurafei responder, com toda ho- 
nestidade, 4s perguntas que me forem feitas. 
Vocé afirma que venho de uma familia religiosa. 
Como responder a esta afirmaca4o? Poderia dizer, em 
primeiro lugar, que venho de uma nacio religiosa e, de- 
pois, que venho também de uma familia religiosa. Pelo 
menos minha m&e, muito mais do que meu pal, era 
uma mulher muito religiosa, profundamente religiosa. 
Frei Betto — Sua mie eta de origem camponesa? 
Fidel Castro — Sim. 
Fret Betto — Cubana? 
88 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Fidel Castro — Cubana, de origem camponesa. 
Fret Betto — E seu pai? 
Fidel Castro — Meu pai era também de origem™ 
camponesa, camponés muito pobre da Galicia, na 
Espanha. Mas nao poderiamos afirmar que minha mae 
fosse uma pessoa religiosa, no sentido de que tivesse re- 
cebido instrucdo religiosa. 
Fret Betto — Tinha fé. 
Fidel Castro — Indiscutivelmente que tinha muita 
fé, e quero acrescentar que minha mi4e praticamente 
aprendeu a ler e a esctever quando ja era adulta. 
Frei Betto — Como se chamava? 
Fidel Castro — Lina. 
Frei Betto — E seu pai? 
Fidel Castro — Angelo. Minha mie era pratica- 
mente analfabeta, aprendeu a ler e a escrever sozinha, 
nao me lembro que tenha tido professor, nunca a escutei 
falar disso, e sim que ela mesma, com grande esforco, 
procurou aprender. De fato, tampouco ouvi dizer que 
ela tivesse ido a escola. Foi autodidata. Portanto, nao 
pode ir a uma escola, nao péde ir a uma igreja, nao 
pode receber uma formac4o religiosa. Penso que sua re- 
ligiosidade provinha de certa tradicao familiar, dos pais 
dela, sobretudo da mae, minha av6, que também era 
muito religiosa. 
Fret Betto — Era uma religiosidade doméstica ou 
ela freqiientava a igreja? 
Fidel Castro — Bem, nao podia ser de freqiiéncia 4 
igreja, pois onde nasci, em plena zona rural, nao havia 
igreja. 
Fret Betto — Em que parte de Cuba? 
Fidel Castro — Nasci na antiga Provincia de Orien- 
te, no centro-norte da provincia, nao muito longe da 
baia de Nipe. 
FIDEL E A RELIGIAO 89 
Fret Betto — Como se chamava o lugar? 
Fidel Castro — Bem, nao era uma cidade, nem 
havia igreja. 
A casa paterna 
Fret Betto — Era uma fazenda? 
Fidel Castro — Era uma fazenda. 
Fret Betto — Que se chamava... 
Fidel Castro — Biran, e tinha algumas construcoes. 
Ali morava a familia e havia também pequenos escritd- 
fios num prédio construido junto 4 casa. Era uma casa 
de estilo espanhol. Por que um estilo espanhol adapta- 
do a Cuba? Porque meu pai era espanhol da Galicia, em 
cujas aldeias havia o costume de se cultivar um pedaco 
de tetra e, no inverno, ou quase sempre, os animais 
abrigavam-se debaixo da casa. Ali ctiavam potrcos, va- 
cas. Minha casa tinha o estilo da Galicia porque estava 
construida sobre pilotis. 
Frei Betto — Por qué? Por causa da agua? 
Fidel Castro — Precisamente nao havia aquela ne- 
cessidade, pois nao existia problema de agua. Curio- 
samente, muitos anos depois, nos projetos criados em 
Cuba para as escolas secundarias basicas no campo, de 
construgGes muito modernas, muito sélidas, usaram 
também pequenos pilotis, mas por outtas razdes, a fim 
de evitar movimento de terra para nivelar o terreno. 
Portanto, com uma série de colunas na base, se o terre- 
no tinha algum declive ou inclinagéo, poupavam o mo- 
vimento de terra ao estabelecet 0 nivel adequado sobre 
pilotis de concreto de diferentes alturas. 
Sempre me perguntei por que minha casa tinha 
pilotis altos, tao altos que alpuns tinham mais de um 
90 CONVERSAS COM FREI BETTO 
metro e meio. O terreno nao era plano e onde ficava a 
cozinha, por exemplo, ao fundo, numa parte ampla 
anexa 4 casa, os pilotis eram mais curtos; numa outra 
parte, onde havia pequeno declive, eram mais altos. Mas 
nado pela razdo que expliquei antes, de evitar movimen- 
to de terra. Estou certo disso, embora na €poca, quando 
crianca, ndo me ocorresse pensar na razao daquelas coi- 
sas, de que era estilo da Galicia. Por qué? Recordo que, 
quando pequeno, tinha trés, quatro, cinco ou seis anos, 
as vacas dormiam debaixo da casa, recolhiam-se ao anoi- 
tecer — um rebanho de vinte ou trinta vacas — e, ali, 
descansavam. Ali eram ordenhadas as vacas, amarradas 
aos pilotis. 
Me esquecia de dizer que a casa nao era de con- 
creto, nem de cimento ou de tijolo, era de madeira. Os 
pilotis eram de madeira muito dura e acima deles se 
estendia o assoalho. Um primeiro cOmodo da casa, que 
imagino ofiginariamente quadrado, foi depois alargado 
com um corredor que iniciava em um dos lados e dava 
acessO aos pequenos quartos. O primeiro tinha estantes 
onde se guardavam os medicamentos, chamavam-no o 
quarto dos remédios; depois outro, que servia de ba- 
nheiro; em seguida, uma pequena despensa. O corredor 
desembocava na copa, ao lado da cozinha. Entre a copa 
e a cozinha havia escadas que davam no quintal. Poste- 
riormente a casa recebeu outra construcdo adicional: um 
comodo que servia de escritério. Era pois uma casa sobre 
pilotis, quadrada, com essas construgdes adicionais. 
Quando cheguei 4 idade da razao, j4 havia a cozinha. 
Sobre o corpo da casa havia um segundo andar, menor, 
chamado o miradouro, onde dormiam meus paise os 
trés primeiros filhos, até que eu completasse quatro ou 
cinco anos. 
Fret Betto — Sua mae tinha imagens religiosas? 
FIDEL E A RELIGIAO 91 
Fidel Castro — Sim, vou falar disso. Antes, vou 
terminar o tema anterior, sobre a arquitetura campone- 
sa espanhola. Aqueld casa foi construida por meu pai se- 
gundo os costumes de sua regiao; ele era também de 
origem camponesa e n4o pudera estudar. Meu pai tam- 
bém aprendeu, por si mesmo e com grandes esforcos, a 
ler e a escrever, como minha mie. 
Meu pai era filho de um camponés extremamente 
pobre, da Galicia. Por ocasiao da Guerra de Inde- 
pendéncia de Cuba, o enviam como soldado espanhol 
para lutar aqui, em fins do século passado, na segunda 
guerra de libertacdo, iniciada em 1895. Aqui chegou 
muito jovem, recrutado pelo setvico militar como solda- 
do do Exército espanhol. Apds a guerra, regressou a 
Espanha. Porém, havia gostado de Cuba e, como tantos 
imigrantes, veio pata c4 nos primeifos anos deste sé- 
culo e, sem um centavo e nenhuma referéncia, comecou 
a trabalhar. Era época de grandes investimentos. Os 
norte-americanos haviam-se apoderado das melhores 
terras e comecaram a destruir bosques, a construir usinas 
acucafeifas, a semear cana — investimentos importantes 
para a época —, e meu pai trabalhou numa daquelas 
usinas. 
Fret Betto — Em que data foi a Guerra de Indepen- 
déncia? 
Fidel Castro — A Ultima Guerra de Indepen- 
déncia comecou em 1895 e terminou em 1898. Quando 
a Espanha estava virtualmente derrotada, ocorreu a 
intervenc4o oportunista dos Estados Unidos na guetta, 
que enviam seus soldados, apoderam-se de Porto Rico, 
das Filipinas e de outras ilhas do Pacifico, e ocupam 
Cuba. Nao puderam apoderar-se definitivamente, por- 
que em Cuba havia tradicao de luta; embora fosse uma 
populacao pequena, reduzida, havia lutado heroicamente 
92 CONVERSAS COM FREI BETTO 
durante muito tempo. Entao nfo se imbuiram da idéia 
de apoderar-se abertamente de Cuba, era uma causa que 
contava com muita simpatia na América Latina e no 
mundo, pois nds fomos — como eu ja disse de outras 
vezes — o Vietnam do século passado. 
Disse-lhe que meu pai fegressara a Cuba, comecara 
a ttabalhar. Organizou um grupo de trabalhadores, co- 
mecou a chefia-lo e a fazer contratos entre a empresa 
ianque e os homens subordinados a ele; organizou uma 
espécie de pequena empresa que, segundo me lembro, 
derrubava florestas para semear cana ou produzia lenha 
para as usinas. Assim, comegou a obter alguma mais- 
valia, j4 como organizador daquela empresa com o 
grupo de trabalhadores. Indiscutivelmente, era um ho- 
mem muito ativo, movimentava-se muito, era em- 
preendedor e tinha capacidade natural de organizagao. 
Nao conhecgo muito de sua infancia, pois, quando 
tive oportunidade de perguntar, nao sentia a cufio- 
sidade que tenho hoje em saber como foram todos. os 
seus passos, desde que teve uso da razao. O que vocé 
agota faz comigo, nao pude fazer com ele. 
Fret Betto — Em que ano ele morreu? 
Fidel Castro — Morteu bem depois, quando eu 
tinha 32 anos. Morreu em 1956, pouco antes de regres- 
satmos do México para Cuba, na expedicdo do Granma. 
Antes de prosseguit na ré8posta a esta pergunta, 
deixe eu terminar minha primeira conclusao. 
Fret Betto — Eu supunha que, por ocasiao da vit6- 
tia da Revolucdo, em janeiro de 1959, o senhor tinha 
menos de 32 anos, nao? 
Fidel Castro — Bem, eu tinha 32, nao comple- 
tara ainda 33; faria 33 em agosto de 1959. 
Fret Betto — Se ele morreu em 1956, entdo o 
senhor tinha menos, tinha trinta anos. 
FIDEL E A RELIGIAO 93 
Fidel Castro — Tem razao, tem toda razdo, de 
fato me esqueci de contar os dois anos de guerra. Os 
anos de guerra foram dois, 25 meses, para set mais exa- 
to. Meu pai morreu a 21 de outubro de 1956, dois meses 
apds eu completar trinta anos. Quando venho do México 
com a nossa pequena expedicdo, em dezembro de 1956, 
tenho aquela idade. Na época do ataque do quartel 
Moncada, tinha 26 anos; fiz 27 na prisdo. 
Fret Betto — E a dona Lina, em que ano morreu? 
Fidel Castro — Morreu a 6 de agosto de 1963, trés 
anos e€ meio apés o triunfo da Revolucdo. 
Vou terminar 0 ponto anterior, suas perguntas me 
afastaram um pouco do tema. Falévamos do campo, 
onde viviamos, como era, quem eram meus pais, o nivel 
cultural que haviam alcancado, apesar da origem muito 
pobre. Ja falei da casa e do estilo espanhol. 
De fato, nado me lembro de muitas manifestacdes 
religiosas de meu pai, talvez de umas poucas. Sequer eu 
poderia responder 4 pergunta se ele tinha realmente 
uma fé religiosa. Recordo que minha mae, muita; mi- 
nha av6, muita. 
Frei Betto — Por acaso ele ia 4 missa aos domingos? 
Fidel Castro — Ja lhe disse que nao havia igreja 
onde viviamos. 
Frei Betto — Como etam os natais em sua casa? 
Fidel Castro — Celebravam-se os natais de modo 
tradicional, a Nochebuena, como diziam, o dia 24, era 
sempre de festa. Depois o Ano Novo: no dia 31 havia 
festa até depois da meia-noite. Creio que havia também 
uma festividade religiosa no dia dos Santos Inocentes, a 
28 de dezembro. Faziam-se brincadeiras com as pessoas, 
levando-as a acreditar em algo para depois dizer-lhes: 
‘‘Bem feito, te peguei inocente!’’ 
Frei Betto — No Brasil, isso se faz no 1° de abril. 
94 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Fidel Castro — Aqui era no fim do ano. Celebra- 
vam-se os natais, a Semana Santa também. Mas ainda 
ndo respondi a pergunta inicial que vocé me fez, se era 
uma familia religiosa. Devo lembrar que onde viviamos 
nao havia cidade, apenas algumas construgdes. Quando 
eu era bem novo, embaixo da casa ficava a leiteria; de- 
pois, tiraram a leiteria. Também embaixo da casa havia 
um pequeno curral com porcos e aves, como na Galicia. 
Misturavam-se galinhas, patos, galinhas-d’angola, 
perus e alguns gansos — todos animais domésticos que 
ficavam por ali — e porcos. Depois mudaram a leiteria, 
fizeram uma outta, a trinta ou quarenta metros da casa. 
Bem préximo a ela havia um pequeno matadouro. Em 
frente, havia uma oficina, onde se consertavam instru- 
mentos de trabalho, arados, etc. Também a trinta ou 
quarenta metros da casa, em outra direcdo, ficava a 
padaria. Proxima a padaria, estava a escola priméaria, 
uma pequena escola piblica. Do lado oposto a padaria, 
junto ao caminho real — como chamavam o caminho 
de terra e lama que vinha da capital do municipio, que 
continuava para o sul, com uma frondosa 4rvore defron- 
te — ficava o armazém, que era também propriedade 
da familia. Diante do armazém ficavam os corfeios e 
telégrafos. Eram as principais instalagdes que havia ali. 
Fret Betto — O armazém era propriedade de sua 
familia. 
Fidel Castro — Sim, exceto os corteios e a escoli- 
nha, que eram pdblicos. O resto era propriedade da 
familia. Quando nasci, meu pai ja havia acumulado te- 
cursos, possuia certa riqueza. 
Fret Betto — Em que ano o senhor nasceu? 
Fidel Castro — Bem, nasci em 1926, no més de 
agosto, a 13 de agosto. Se quer saber a hora, penso que 
as duas da madrugada. Parece que a noite influiu depois 
FIDEL E A RELIGIAO 95 
em meu espirito guerrilheiro, na atividade revoluciona- 
ria. A influéncia da natureza e da hora do nascimento. 
Haveria agota que verificar mais coisas, nao? Como foi 
aqueie dia e se a natureza tem alguma influéncia tam- 
bém na vida dos homens. Mas creio que nasci de madru- 
gada — disseram-me uma vez, se nio me equivoco. Ja 
nasci guerrilheiro, porque nasci de noite. 
Fret Betto — Sim, na conspiracao. 
Fidel Castro — Um pouco na conspiracao. 
Fret Betto — Pelo menos 0 nimero 26 tem algu- 
mas coincidéncias em sua vida. 
Fidel Castro — Bem, nasci em 1926, é verdade. 
Também tinha 26 anos quando comecei a luta arma- 
da, e havia nascido num dia 13, que € a metade de 26. 
Batista deu seu golpe de Estado em 52, 1952, que € 0 
dobro de 26. Pode ser que haja algum mistério em torno 
do 26. 
Fret Betto — Tinha 26 anos quando comecgou a 
luta. Moncada foi 26, o que deu origem ao Movimento 
26 de Julho. 
Fidel Castro— E desembarcamos em 1956 que, 
em numeros redondos, sao 30 anos depois de 26. Bem, 
deixe-me prosseguir, Betto, para responder a sua per- 
gunta, que ainda nao tespondi. 
Aquilo era o que havia por 1a. Falta algo. A cem 
metros da casa, 4 matgem do caminho real, ficava a 
tinha de galos, onde todos os domingos, no tempo da 
safra, se promoviam brigas de galos, nao de touros. Na 
Espanha seriam de touros e galos, mas ali o que conhect 
foram brigas de galos aos domingos. Também no 25 de 
dezembro e nos dias de Ano Novo. Nesses dias festivos, 
reunia-se ali o pessoal interessado, alguns levavam seus 
proprios galos, outros apenas apostavam. Muita gente 
humilde punha naquilo sua minguada renda, se perdia 
96 CONVERSAS COM FREI BETTO 
ficava sem nada e, se ganhava, gastava logo em rum e 
festas. 
Nao longe dali havia algumas casas muito pobres, 
de folhas de palmeira e chao de terra, onde viviam espe- 
cialmente imigrantes haitianos, que trabalhavam na 
lavoura e nos cortes de cana. Gente que vivia pobre- 
mente, imigrantes que chegaram a Cuba também nas 
ptimeiras décadas do século. Desde aquela época, havia 
migracao de haitianos. Como a forga de trabalho em 
Cuba aparentemente no era suficiente naqueles tem- 
pos, ent&o eles vinham. Em diferentes lugares, ao longo 
do caminho real e de outros caminhos, como o que se 
dirigia 4 estrada de ferro que transportava a cana, e ao 
longo da propria ferrovia, ficavam as cabanas onde vi- 
viam os trabalhadores e suas familias. 
Naquela fazenda, a principal lavoura era de cana- 
de-acticar e, em seguida, o gado; depois, produtos me- 
nores. Havia bananas, tubérculos, pequeno cultivo de 
gtaos, alguns vegetais, plantacgdes de coco, de diversas 
frutas e de citricos. Nas proximidades da casa, havia uns 
dez ou doze hectares de citricos; depois vinham as 4reas 
de cana, mais préximas 4 estrada de ferro, que a trans- 
poftava a usina acucareira. 
Na €poca em que comecei a ter uso da raz4ao, meu 
pai tinha terras proprias e terras atrrendadas. Quantos 
hectares proprios? Vou falar em hectares, embora em 
Cuba se medisse a terta por caballerias, que equivalema 
13,4 hectares cada uma. Eram em torno de oitocentos 
hectares as terras proprias de meu pai. 
Frei Betto — O hectare cubano é€ o mesmo do 
Brasil? 
Fidel Castro — O hectare € um quadrado cujos 
lados séo de cem metros, equivale a 10 mil metros qua- 
drados de superficie. 
FIDEL E A RELIGIAO 97 
Fret Betto — Dez mil metros quadrados, exato. 
Fidel Castro — Esse € 0 hectare. Além disso, meu 
pai tinha atrendado’ uma quantidade de terra, ndo 
da mesma qualidade, mas uma 4rea muito maior, em 
torno de 10 mil hectares. 
Fret Betto — Mesmo no Brasil isso é muita terra, 
Comandante... 
Fidel Castro — Mas veja, aquelas terras ele as ti- 
nha arrendado. Na maior parte, eram Areas de barran- 
cos, algumas montanhas, extensas 4reas de pinheiros 
numa grande meseta, situada a setecentos ou oitocentos 
metros de altura, de terra vermelha, onde a Revolucdo 
de novo plantou 4rvores, e cujo subsolo esta constituido 
por grandes jazidas de niquel e de outros metais. Eu 
gostava muito daquela meseta porque era bem fresca e 
14 chegava a cavalo, quando tinha dez, doze anos. Os ca- 
valos, que se esforcavam muito ao subir as ladeiras ingre- 
mes, ao atingirem a meseta deixavam de suar e o pélo, 
em poucos minutos, ficava seco. O clima era refrescan- 
te, maravilhoso, a brisa soprava constantemente entre 
pinheiros altos e densos, cujas copas se cruzavam acima, 
formando um teto. A 4gua dos cérregos parecia refrige- 
rada, efa purissima e agradavel. Aquela area nao era 
terta propria, estava arrendada. 
Alguns anos mais tarde, surgiu um recurso novo na 
economia da familia: a exploracdo de madeira. Parte das 
terras arrendadas a meu pai eram florestas, explorava-se 
a madeira; outras eram lombadas, nao muito férteis, 
onde se criava gado, e€ o festante eram terras agricolas 
onde também se cultivava cana. 
Frei Betto — De pobre camponés, converteu-se 
num latifundiario. . 
Fidel Castro — Tenho uma foto da casa onde 
nasceu meu pai, na Galicia. Era uma casa pequena, 
98 CONVERSAS COM FREI BETTO 
quase do tamanho deste lugar em que estamos con- 
versando, seriam dez ou doze metros de comprimento 
por seis ou oito de largura, laje de pedras, que é 
um material abundante na regiao, usado pelos cam- 
poneses pafa construir suas risticas moradias. Assim 
era a casa em que vivia a familia, estava tudo ali em 
uma s6 peca: dormit6rio e cozinha. Suponho que tam- 
bém os animais. Terras nao tinham absolutamente 
nenhuma, nem um pedacinho, nem um metro qua- 
drado. 
Em Cuba, ele havia comprado aquelas terras, uns 
Oitocentos hectares, que eram propriedade particular 
dele, e dispunha, além disso, das que lhe haviam arren- 
dado antigos veteranos da Guerra de Independéncia. 
Haveria que averiguar bem, fazer uma pesquisa hist6rica 
de como aqueles veteranos da Guerra de Independéncia 
adquiriram aqueles 10 mil hectares de terra — claro, 
eram dois chefes da Guerra de Independéncia e de certa 
importancia. Nunca me ocorreu fazer uma pesquisa so- 
bre isso, mas imagino que nao houve dificuldade, havia 
muita terra naquela época e, de um modo ou de outro, 
puderam adquiri-las a um prego muito barato. Mesmo 
Os norte-americanos comprafam enormes quantidades 
de terra a precos infimos. Porém, aqueles oficiais da 
Guerra de Independéncia, nao sei com que dinheiro, 
nem gtacas a que recursos tinham aquelas terras. Claro, 
recebiam uma porceftagem do valor da cana que se cul- 
tivava ali e uma porcentagem do valor da madeira que 
se extraia de suas florestas. Portanto, eram grandes pro- 
pfietarios que viviam em Havana e tinham, além disso, 
outros negocios. Em verdade, nao posso assegurar a for- 
ma como aquela gente adquiriu tais recursos, se foi legal 
ou nao. 
Naquela enorme extensao havia, pois, duas catego- 
FIDEL E A RELIGIAO 99 
tias de terra: as que eram proptiedade de meu pai e as 
que estavam arrendadas a ele. 
Naquele imenso latiftindio, quantas pessoas vi- 
viam? Bem, centenas de familias de trabalhadores; mui- 
tas tinham uma pequena 4rea de terra cedida por meu 
pai, fundamentalmente como meio de subsisténcia. 
Havia camponeses que plantavam lotes de cana por sua 
conta, chamados szbcolonos. Esses tinham uma situa- 
cao econdmica menos dificil que os trabalhadores. Ao 
todo, quantas familias viviam ali? Duzentas, talvez tre- 
zentas. Quando eu tinha dez ou doze anos, é possivel 
que cerca de mil pessoas morassem em toda aquela 
extensao. 
Pareceu-me conveniente explicar tudo isso para que 
conhega o ambiente em que nasci e vivi. Ali nao havia 
nenhuma igreja, nem sequer uma pequena capela. 
Frei Betto — E nunca aparecia um padre? 
Fidel Castro — Sim, uma vez ao ano aparecia um 
padre, por ocasiao dos batismos. Vinha um padre de 
Mayari, que ficava, por aquele caminho real, a 36 quilé- 
metros de distancia. Havia um padre na capital do mu- 
nicipio. O lugar onde eu vivia pertencia ao municipio 
de Mayari. 
O batizado 
Frei Betto — Onde o senhor foi batizado? 
Fidel Castro — Nao fui batizado ali. Fut batizado 
anos depois, em Santiago de Cuba. 
Frei Betto — Que idade tinha? 
Fidel Castro — Creio que tinha cinco ou seis anos. 
De fato, fui dos dltimos a ser batizado. 
Tenho que lhe explicar o seguinte: naquele lugar 
100 CONVERSAS COM FREI BETTO 
nado havia igreja, nem sacerdotes ou qualquer ensino 
religioso. 
Vocé me pergunta se aquelas centenas de familias 
eram cristas. Eu diria que, em geral, eram cristas. Como 
regta geral, todo mundo estava batizado. Quem nao 
estava batizado era chamado de judeu — estou falando 
de quando eu tinha quatro ou cinco anos. Sabia que 
judeu era um p4ssaro escuro, muito esperto, e quando 
me diziam ‘‘vocé € judeu’’ eu pensava tratar-se daquela 
ave, era minha primeira idéia. 
A escola era leiga. Ali iam quinze ou vinte crian- 
cas, Mais ou menos. Enviaram-me porque nfo havia cre- 
che, eu era o terceiro dos irmaos e minha crechefoi a 
escola. Entrei nela muito criancga, nao tinham onde pér- 
me e me mandaram para 14 com meus irm4os maiores. 
Nem eu mesmo me recordo bem quando aprendi a 
ler e a escrever, s6 sei que me sentavam numa pequena 
carteira, na primeira fila, e dali eu via a lousa e escutava 
tudo que se dizia. Ali aprendi a ler, a escrever e a fazer 
as pfimeiras contas. Que idade teria? Quatro anos, tal- 
vez cinco. 
Nao havia ensino religioso na escola, ali se ensinava 
o hino, a bandeira, o emblema da patria, essas coisas. 
Era uma escola piablica. 
Aquelas familias tinham diferentes credos. Lem- 
bro-me bem como era 0 ambiente no campo. Acredita- 
vam em Deus, e em diversos santos. Alguns daqueles 
santos estavam na liturgia, eram oficiais, outros ndo. 
-Todos tinhamos também um santo, pois o nome de 
cada um de nds coincidia com o dia do santo: Sao Fidel 
coincidia com o dia do meu santo. Diziam a nés que 
esse dia era muito importante, e a gente se alegrava 
quando ele chegava. 24 de abril era o dia do meu santo, 
pois ha um santo que se chama Sao Fide/ (Fidélis, em 
FIDEL E A RELIGIAO 101 
portugues). Quero que vocé saiba que, antes de mim, 
houve outro santo... | 
Fret Betto — Eu supunha que Fidel derivasse de 
‘‘aquele que tem fé’’, o que origina também a palavra 
fidelidade. 
Fidel Castro — Nesse sentido, estou completa- 
mente de acordo com meu nome, pela fidelidade e pela 
fé, pois uns tém f€ religiosa e outros, de tipo diferente. 
Tenho sido um homem de fé, de confianca, de oti- 
mismo. 
Fret Betto — Se o senhor nio tivesse f€, possivel- 
mente a Revolucdo nfo teria triunfado neste pais. 
Fidel Castro — Entretanto, conto a vocé por que 
me chamo Fidel e vocé ri. Vera que a origem desse 
nome nao € tao idilica. Pois eu nao tinha nem nome 
proprio. Puseram-me o nome de Fidel porque alguém ia 
set meu padrinho. Mas, antes de voltarmos ao batismo, 
devo acabar de explicar-lhe o ambiente. 
Fret Betto — E temos que tegressar 4 sua m4e, nao 
se esqueca. 
Fidel Castro — Sim, vamos regressar, mas que- 
ro explicar-Ihe o ambiente religioso. Naquela época, os 
camponeses tinham todo tipo de crenga: em Deus e nos 
santos. 
Frei Betto — E em Nossa Senhora. 
Fidel Castro — Inclusive em Nossa Senhora, era 
muito comum. Na Caridade do Cobre, que € a pa- 
droeita de Cuba. Todos tinham muita fé na Caridade. E 
também em alguns santos que nao estavam na liturgia, 
como Sao Lazaro. Praticamente nao havia quem nao 
acreditasse em Sao Lazaro. Além disso, muita gente 
acreditava em espititos e em fantasmas. Me recordo que, 
quando crianca, eu ouvia historias de espiritos, de fan- 
tasmas, de apaticdes. Todo mundo contava hist6rias. 
102 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Acreditava-se inclusive em superstigdes. Lembro-me de 
algumas: se um galo cantava trés vezes e ninguém lhe 
respondia, era sinal de desgraca; se uma coruja passava 
de noite e se escutava seu vdo e seu piado — parece-me 
que o chamavam ‘‘o canto da coruja’” —, entio isso po- 
dia trazer desgracas; se o saleiro caia e quebrava, era mau 
sinal, devia-se pegar do chao um pouco do sal e joga-lo 
pata tras, por cima do ombro esquerdo. Existia toda 
uma série de supersticdes bem tipicas e muito comuns. 
De modo que nasci num mundo bastante primitivo nes- 
se sentido, onde havia todo tipo de crendices e de supers- 
ticdes: espiritos, fantasmas, animais agourentos, etc. Era 
esse o ambiente do qual me recordo. 
Esse ambiente existia em todas as familias e, em par- 
te, também em minha casa. Por isso digo a vocé que 
eram, sim, pessoas muito religiosas. Posso dizer que, na 
familia, sobretudo minha mie era crista, cat6lica. Suas 
convicgdes, sua f€, se associavam fundamentalmente 4 
Igreja catdlica. 
Frei Betto — Sua mae ensinava os filhos a rezar? 
Fidel Castro — Bem, eta ela quem rezava. Nao 
posso afirmar que houvesse me ensinado a trezar, pois 
cedo me mandaram para uma escola em Santiago de 
Cuba. Eu tinha quatro anos e meio. Mas via-se que ela 
rezava. 
Fret Betto — O rosario? 
Fidel Castro — O rosario, a Ave-Maria, o Pai-Nosso. 
Fret Betto — Havia imagens da Virgem da. Cari- 
dade? 
Fidel Castro — Muitas imagens: dos santos, da Vir- 
gem da Caridade, a padroeira de Cuba; de Sao José, de 
Cristo, de outras virgens. Em minha casa havia também 
um Sao Lazaro, que nao estava entre os santos oficiais da 
Igreja. 
FIDEL E A RELIGIAO 103 
Minha mie era ctista fervorosa, tezava todos os 
dias, sempre acendia velas 4 Virgem e aos santos, fazia- 
lhes pedidos, implorava-lhes em todas as citcunstancias, 
fazia promessas por qualquer pessoa doente da familia, 
por qualquer situacdo dificil. E nao apenas fazia promes- 
sas, Mas as cumpria. A promessa podia ser visitar o San- 
tuario da Caridade e acender uma vela ou prestar uma 
determinada ajuda. Isso era muito freqtiente. Minhas 
tias e minha avo também eram muito religiosas. Minha 
avo e meu avo — falo dos avés maternos — naquela 
época moravam a cerca de um quilémetro de nossa 
casa. 
Lembro-me da ocasiao em que morreu de parto uma 
tia minha. Lembro-me daquele enterro. Se pudesse pre- 
cisat a data exata, poderia dizer o momento em que tive 
a primeira idéia de morte. Sei que havia muita tristeza, 
muito choro, e recordo que me levaram 14, bem peque- 
no, aum quilémetro de minha casa, onde morava outra 
tia que estava casada com um trabalhador espanhol. 
Fret Betto — Morteram a mie e 0 filho ou s6 a 
mae? 
Fidel Castro — Morreu a mie; a filha — era uma 
menina — foi criada conosco. A primeira lembranga 
que tenho da morte me vem daquela tia. 
Meus avos maternos eram também de familia muito 
pobre. Meu avé era cafreteiro, transportava cana em car- 
ro de boi. Ele e minha mae nasceram no Ocidente, na 
Provincia de Pinar del Rio. Nos primeiros anos do sécu- 
lo, mudou-se com toda a familia para a antiga Provincia 
de Oriente, a mil quilémetros, numa carreta, e foi parar 
naquela regiao. 
Frei Betto — Quem se mudou? 
Fidel Castro — Meu avo com a familia, com minha 
mie, meus tios e tias. Outros irmaos de minha mae 
104 CONVERSAS COM FREI BETTO 
também trabalharam como carreteiros, dois irmaos 
eram cafreteifos. 
Eu diria que a formagao religiosa de minha mie, 
de minha avo, provinha da tradicgéo da familia. Eram 
realmente muito cristas. 
Recordo-me inclusive que, apds o triunfo da Revo- 
lucdo, em 1959, um dia fui visita-las aqui em Havana, 
onde se encontravam as duas. Minha avé tinha alguns 
problemas de satide e 0 quarto estava cheio de santos e 
de promessas, pois em todo o periodo da luta, com enor- 
mes riscos, tanto minha m4e quanto minha av6 fizeram 
todo tipo de promessas, pela nossa vida e pela nossa 
seguranca. O fato de terminarmos toda aquela luta com 
vida, sem diivida deve ter multiplicado nelas a fé. 
Pois bem, fui visita-las onde estavam. Eu tinha 
muito respeito as suas crencas, elas me falavam das pro- 
messas que haviam feito, de sua profunda fé. Isso depois 
da vit6ria da Revolugdo, em 1959. Sempre as escutava 
com muito interesse, com muito fespeito e, apesar de ter 
outra concepcéo do mundo, nunca discutia nenhum 
desses problemas com elas, pois via a forga que isso lhes 
dava, o 4nimo que lhes infundia, o consolo que obti- 
nham de seus sentimentos teligiosos e convicc6es. Claro, 
nao era uma coisa estfita nem ortodoxa, mas efa uma 
coisa propria, de tradicao familiar, algo muito sentido e 
profundo. Eram esses os sentimentos delas. 
Quanto a meu pal, eu o sentia mais preocupado 
com outfos assuntos, com a politica, com a labuta difria, 
ofganizando tarefas, atividades, comentando outros 
tipos de problemas. Raras vezes ou quase nunca o perce- 
bi em manifestacdes religiosas. Talvez fosse cético em 
matéria religiosa. Portanto, € esse o ambiente de que 
me lembro, as primeiras nogdes sobre a questio religiosa 
e, nesse sentido, posso dizer que venho de uma familia 
FIDEL E A RELIGIAO 105 
crista, sobretudo por parte de minha mie e da minha 
av6. Creio que meus avés da Espanha eram também 
muito religiosos, mas nao os conheci. Conheciespecial- 
mente o sentimento religioso de minha mie e da fami- 
lia dela. 
Fret Betto — O senhor falava da historia de seu 
nome, do batismo. 
Fidel Castro — Sim, € curioso pot que me cha- 
maram Fidel. O batismo era uma ceriménia muito 
importante também entre os camponeses, mesmo pata 
quem nao tinha nenhuma formacio religiosa; o batismo 
efa uma instituigaéo popular. Como naquela €época os 
riscos de morte etam bem maiores, e no campo as pets- 
pectivas de vida eram pequenas, toda familia campone- 
sa considerava o padrinho o segundo pai do filho, o que 
devia ajuda-lo, pois, se o pai morresse, o filho teria 
quem o ajudasse, o apoiasse. Esse era um sentimento 
muito atraigado. Buscavam os amigos mais intimos, as 
vezes era um tio quem batizava. Eu teria que perguntar 
a minha irm4d mais velha e a Ramon, o segundo, quem 
eram seus padrinhos, mas cfeio que eram alguns tios. 
Devo dizer a vocé que éramos filhos de um segundo 
casamento, houvera um primeiro casamento. Lembro- 
me que tinhamos relacdes com os irmaos do primeiro 
casamento; eu efa 0 terceiro do segundo casamento, que 
teve sete filhos, quatro mulheres e trés homens. 
Pois bem, me destinaram a ser afilhado de um 
amigo de meu pai que era um senhor muito rico, inclu- 
sive tinha alguma relacdo de negécios com meu pai, 
emprestava-lhe dinheiro em certas ocasides, para inves- 
timentos em minha casa ou outros gastos necessarios. 
Emprestava com um juro determinado; era uma espécie 
de banqueiro da familia. Aquele homem era muito 
rico, muito mais do que meu pai; dizia-se que era mi- 
106 CONVERSAS COM FREI BETTO 
lionario e nunca ninguém disse que meu pai era milio- 
nario. Naquela €poca, milion4rio era algo assombroso, 
alguém que tinha muito dinheiro, num tempo em que 
uma pessoa ganhava por dia um délar ou um peso; por- 
tanto, milionario era aquele que possuia um milhao de 
vezes 0 que um individuo ganhava num dia. 
Naquela época, as propriedades de meu pai nao 
podiam ser avaliadas, digamos, a um prego muito alto, 
nao se podia afirmar que meu pai era milionario, embo- 
fa tivesse boa posicéo. Destinaram-me aquele senhor 
como meu padrinho. Um senhor muito rico, atarefado, 
que vivia em Santiago de Cuba e tinha inGmeros neg6- 
cios em muitas regides da Provincia. Parece que nao se 
deram as citcunstancias propicias de coincidirem uma 
visita do rico senhor que ia ser meu padrinho com a visita 
do padre em Biran, resultando que, 4 espera dessa coin- 
cidéncia, fiquei sem ser batizado e sendo chamado de 
judeu, Diziam: ‘‘Este é judeu’’. Eu tinha quatro ou 
cinco anos, ja me criticavam dizendo que era sudeu. Eu 
nao sabia o que significava, mas indiscutivelmente aquilo 
era dito com conotacdo pejorativa, como uma condigao 
vergonhosa, pelo fato de eu nao estar batizado. E eu nao 
tinha nenhuma culpa disso. Antes mesmo de me batiza- 
rem, enviaram-me a Santiago de Cuba. A professora 
convenceu minha familia de que eu era um aluno muito 
aplicado, atento, que tinha capacidade de estudar e, 
com essa hist6ria, realmente me mandaram pata Santia- 
go de Cuba, quando tinha cerca de cinco anos. Tiraram- 
me de 14, do mundo onde eu vivia sem nenhuma difi- 
culdade material, e me levaram a uma cidade na qual 
vivi como pobre, passando fome. 
Fret Betto — Com cinco anos? 
Fidel Castro — Sim, com cinco anos, sem saber o 
que era fome. : 
FIDEL E A RELIGIAO 107 
A infancia em Santiago de Cuba 
Fret Betto — E por que viveu como pobre? 
Fidel Castro — Vivi como pobre porque, de fato, 
a familia daquela professora era pobre, tinham somente 
seus salarios. Era o periodo da crise econédmica dos anos 
30, 1931 ou 1932. Eram duas irm4s e o pai. Uma traba- 
lhava pelos trés e nem sempre lhe pagavam o salario, 
que invariavelmente atrasava. Por ocasido da grande 
crise econdmica, muitas vezes os salarios nado eram pagos 
€ se vivia miseravelmente. 
Fui para Santiago, para uma pequena casa de ma- 
deira que, quando chovia, ficava toda inundada. Ainda 
esta 14, conserva-se aquela casa. A professora continuou 
dando aulas em Biran no periodo escolar. Para minha 
manutenc4o, minha familia enviava quafenta pesos, 
que teriam hoje o poder aquisitivo equivalente a trezen- 
tos ou quatrocentos délares. Eramos dois, minha irma 
mais velha e eu, e, de fato, em meio aquela pobreza, na 
qual nao recebiam salario e ainda queriam economizar, 
pouca coisa havia para nos alimentar, considerando que 
ali tinham que comer cinco pessoas e, mais tarde, seis, 
pois além de minha irma mais velha, meses depois che- 
gou meu irm4o Ramén. Recebia-se uma pequena mar- 
mita com um pouco de arroz, de feijao, de batata, de 
banana ou algo assim. Ao meio-dia chegava a marmita 
e, dessa Gnica, tinham que comer cinco e, depois, sets 
pessoas, de manhi e 4 tarde. Entdo, eu me considerava 
com um enorme apetite, a comida me parecia de um sa- 
bor maravilhoso quando, de fato, o que eu tinha era 
fome. Comi 0 pao que o diabo amassou. 
Pois bem, depois a irma da professora casou-se com 
o consul do Haiti em Santiago de Cuba e, como eu mo- 
rava 14, e meu padrinho rico jamais aparecia, nem se fea- 
108 CONVERSAS COM FREI BETTO 
lizava a ceriménia do batismo, e eu ja tinha cinco anos e 
eta, como diziam — judeu, havia que encontrar uma 
solucéo para o problema. Penso que o qualificativo de 
judeu esta relacionado também com certos preconceitos 
religiosos, dos quais podemos falar depois. Entao fut 
batizado e meu padrinho foi o cénsul do Haiti, casado 
com Belém, a irma da professora, uma pessoa boa e dig- 
na que ensinava piano, embora nao tivesse emprego, 
nem alunos. 
Fret Betto — Nao foi o amigo rico de seu pai. 
Fidel Castro — Nao, nao foi o rico, foi o cénsul 
do pais mais pobre da América Latina, que vivia em 
Santiago de Cuba. A professora era mestica, minha ma- 
drinha também era mestica. 
Frei Betto — Ainda vivem? 
Fidel Castro — Nao, morreram ha tempos. Deles 
nao guardo nenhum rancor, embora a professora bus- 
casse proveito material, pois minha familia remetia, por 
cada um de nés, quarenta pesos mensais. Aquele foi um 
petiodo dificil de minha vida. 
Uma tarde, levaram-me 4 catedral de Santiago de 
Cuba, nao posso lhe dizer agora a hora exata, talvez ja 
tivesse seis anos quando me batizaram, pois j4 havia pas- 
sado por um periodo de vicissitudes e trabalho quando 
fui levado a catedral, onde me jogaram 4gua-benta e me 
batizaram. Tornei-me entéo um cidadao normal, igual 
aos outros, pois enfim estava batizado, tinha padrinho e 
madrinha. Mas nao foi o rico miliondrio que me haviam 
destinado e que se chamava senhor Fidel Pino Santos. 
Ha um sobrinho dele que € nosso companheiro na 
Revolugéo, economista de valor, trabalhador muito 
competente. E economista e comunista; curioso, desde 
muito jovem foi comunista, apesar de ser sobrinho da- 
quele que seria o meu padrinho, o homem muito rico, _ 
FIDEL E A RELIGIAO 109 
que afinal nao me batizou, embora tenha me deixado 
seu nome, entende? Me chamaram de Fidel em conside- 
racdo a ele. Veja como so as casualidades, que nos aju- 
dam a receber um nome adequado. Foi a Gnica coisa 
justa que recebi em todo aquele periodo. 
Fret Betto — Como se chamava o cénsul? 
Fidel Castro — Seu nome era Luis Hibbert. 
Fret Betto — O senhor hoje poderia se chamar Luis 
Castro. 
Fidel Castro — Poderia me chamar Luis Castro se 
desde o principio me houvessem destinado o consul 
como padrinho. Se bem que ha Luises de grande valor 
na histéria da humanidade. 
Fret Betto — Sim, muitos. 
Fidel Castro — Muitos Luises, inclusive reis e san- 
tos. Por acaso algum papa nao teve o nome de Luis? 
Frei Betto — Nao me lembro. Nao sou muito versa- 
do em hist6ria dos papas. Mas tenho um irmao que se 
chama Luiz. 
Fidel Castro — Podiam esperar seis anos pata ba- 
tizat-me, mas nao podiam esperar seis anos para dar- 
me um nome. Essa é a origem de meu nome, que devo 
de fato a um homem muito rico, nao precisamente o 
rico epuldo da Biblia, pois vou ser franco, é triste falar de 
pessoas que ja morreram,porém a fama que tinha meu 
provavel padrinho efa de que se tratava de um homem 
muito pao-duro, excessivamente pao-duro. Nao creio 
que tenha algo a ver com seu predecessor biblico. 
Frei Betto — Também nfo. 
110 CONVERSAS COM FREI BETTO 
O antigo sistema eleitoral 
Fidel Castro — Nao me deu muitos presentes, 
nao me lembro de nenhum. Fez empréstimos a meu 
pai, com os respectivos juros, que a €poca eram mais bai- 
xos do que agora. Parece-me que eta de 6% 0 juro hist6- 
rico que pagava meu pai. Mais tarde ele se tornou politi- 
co, inclusive se candidatou e se vocé me pergunta por 
que partido, ora, pelo partido do governo, pois sempre 
estava com o partido do governo, entende? Depois um 
filho candidatou-se pelo partido da oposigéo. Assim 
ficou tudo resolvido. Recordo-me que, quando chega- 
vam as campanhas eleitorais, meu pai o apoiava. Da 
para vocé entender que ligdes de democracia recebi desde 
cedo! Nos periodos eleitorais, por minha casa citculava 
muito dinheiro, inclusive minha familia dava dinheiro 
para ajudar o amigo do meu pai. Meu pai gastava de seu 
proprio bolso para ajudar o candidato. Naquela época a 
politica era assim. 
E evidente que meu pai, como proprietdrio da 
terra, controlava a maioria dos votos, j4 que muita gente 
nao sabia sequer ler ou escrever. Trabalhar na terra de 
alguém era, naquele tempo, considerado um grande 
favor que se obtinha. Viver na fazenda de alguém era 
considerado um grande favor e, portanto, aquele cam- 
ponés, aquele trabalhador e sua familia, tinham que 
estar agtadecidos a seu patrao e votar no candidato que 
ele indicava. Além disso, existiam os chamados cabos 
eleitorais. Quem eram eles? Eram especialistas em poli- 
tica, nao direi a vocé um assessor entendido em sociolo- 
gia, direito ou economia, mas um camponés esperto da 
regiao, que conseguia um determinado emprego no go- 
verno e que, quando chegavam as campanhas eleitorais, 
recebia uma quantia em dinheiro para conseguir votos 
FIDEL E A RELIGIAO 111 
pata um candidato a vereador, a prefeito ou a governa- 
dor da Provincia. E também para obter votos para o de- 
putado, o senador € 0 presidente. Naquela época, nao 
havia campanhas por radio ou televisio, que acredito se- 
jam ainda mais caras. 
Fret Betto — Assim se faz ainda no Brasil. 
Fidel Castro — Lembro-me que eta assim na 
época das eleigdes. Falo a vocé de quando eu ja tinha 
dez anos e quase era versado em politica, pois havia 
visto tantas coisas! Recordo-me inclusive que, ao pas- 
sat as férias em casa — j4 que desde os cinco anos me 
mandaram estudar fora — quando as férias coinci- 
diam com uma campanha politica, era um problema 
o bati que ficava no quarto onde eu dormia. Vocé 
sabe que Os meninos gostam de dormir pela manha, 
mas eu nao podia fazé-lo, pois bem cedo, antes das 
cinco e meia da manhi, ja havia movimento. Abria-se 
e fechava-se o bai constantemente, com seu inevi- 
tavel ruido metdlico, pois os cabos eleitorais chega- 
vam e efa preciso dar-lhes grana. Veja, tudo isso do 
modo mais altruista do mundo. Meu pai o fazia por 
meta amizade com aquela pessoa. Nao me lembro de, 
além dos empréstimos, aquele senhor resolver um s6 
problema de meu pai, que fazia aqueles gastos por sua 
conta. Era assim que se fazia politica e foi o que vi quan- 
do crianca. 
Havia um namero de pessoas que controlava certa 
quantidade de votos, especialmente em lugares mais 
distantes, porque o pessoal mais pr6ximo era direta- 
mente controlado pelos empregados de confianga da fa- 
zenda. De longe, de trinta ou quarenta quilémettos, 
vinham cabos eleitorais que controlavam oitenta ou cem 
votos. Tais votos deviam aparecer depois na zona eleito- 
ral correspondente, do contr4rio o cabo eleitoral cafa em 
112 CONVERSAS COM FREI BETTO 
desgraca, perdia sua propina e o emprego. Assim se 
faziam as campanhas eleitorais no pais. 
Aquele que ia ser meu padrinho foi deputado. Mas 
meu pobre padrinho verdadeiro, o cénsul do Haiti, 
enfrentou dificuldades. Num dia de 1933, vence em 
Cuba uma revolucdo contra a tirania machadista — 
bem, eu ja tinha sete anos em 1933 —, e aquela revolu- 
cao se traduziu, nos primeiros tempos, em leis de carater 
nacionalista. Era uma época em que havia muita gente 
sem emprego, passando fome, enquanto, por exemplo, 
em Havana, muitos comerciantes espanh6is s6 emprega- 
vam espanhdis. Surgiu uma campanha de carater nacio- 
nalista, exigindo uma proporcdo de empregos para os 
cubanos, o que em principio pode ser justo, mas € cruel 
em ceftas citcunstancias, ao deixar desempregadas pes- 
soas que, sendo estrangeiras, eram pobres e nao tinham 
outro meio de vida. 
Lembro-me com dor, com muita dor, como l4 em 
Santiago de Cuba e na Provincia do Oriente, comecaram 
a expulsar os imigrantes haitianos que ha anos residiam 
em Cuba. Aqueles haitianos que vieram de seu pais, fu- 
gindo da fome, que plantavam cana e produziam a safra 
acucareira com muito sacrificio mesmo, e recebiam sala- 
ros miseraveis, eram quase escravos. Penso que os escra- 
vos do século passado, estou seguro, tinham melhores 
niveis de vida e mais cuidados que aqueles haitianos. 
Fret Betto — Comida e satide. 
Fidel Castro — Os esctavos eram tratados como 
animais, mas lhes davam comida e cuidavam para que 
vivessem, trabalhassem, produzissem e, assim, fossem 
conservados como capital nas lavouras. 
Ao contrario, aqueles imigrantes, que eram deze- 
nas de milhares, s6 comiam quando trabalhavam e nin- 
guém se preocupava se viviam ou morriam de fome. 
FIDEL E A RELIGIAO 113 
Aquela gente sofria todo tipo de miséria. Por ocasiao da 
chamada revolucdo de 1933 que, efetivamente, se cons- 
tituiu num movimento de luta, de rebeldia, contra as 
injusticas e os abusos, exigiam-se a nacionalizacao de 
uma empresa elétrica ou de outro investimento estran- 
geiro, e também a nacionalizacdo do trabalho. E, em 
nome da nacionalizacdo do trabalho, dezenas de milha- 
res de haitianos foram impiedosamente expulsos para o 
Haiti, algo verdadeiramente inumano 4 luz de nossas 
concepgées revolucionarias. O que tera ocorrido com 
eles, quantos sobreviveram? Lembro-me que meu pa- 
drinho era ainda cénsul em Santiago de Cuba, quando 
chegou um imenso batco chamado La Sa//e, com duas 
chaminés — a entrada em Santiago de Cuba de um bar- 
co de duas chaminés era um acontecimento extraordin4- 
tio. Levaram-me para ver o barco repleto de haitianos 
que haviam sido expulsos de Cuba para o Haiti. 
Posteriormente meu padrinho ficou sem emprego, 
sem consulado, creio que sem salario e sem nada, e tam- 
bém foi parar no Haiti. Entéo minha madrinha ficou s6, 
durante muitos anos. Tempos depois ele regressou a 
Cuba — eu ja estava crescido — e esteve em Biran, onde 
buscou acolhida e viveu um periodo. Nao tinha meios 
para sustentar-se. 
Frei Betto — Quando o senhor ingressou no colégio 
religioso? 
Fidel Castro — Ingtessei no ptimeiro primario. 
Frei Betto — Com que idade? 
Fidel Castro — Bem, teria que averiguar. Devia ter 
cerca de seis anos e meio a sete. 
Frei Betto — No colégio dos Irmaos de La Salle? 
Fidel Castro — Sim. Esta € uma comprida historia, 
da qual vou contar algo a vocé. Disse-lhe que me envia- 
ram ainda crianca a Santiago de Cuba, onde passei 
114 CONVERSAS COM FREI BETTO 
muita necessidade e muitos problemas, sendo que um 
ano depois a coisa melhorou um pouco. Um dia minha 
familia se deu conta daquelas dificuldades, ficou indig- 
nada, me levou de volta a Biran, mas, frente aos protes- 
tos, as explicacdes da professora e 4 conseqtiente conci- 
liacao, fui novamente remetido 4 casa dela em Santiago 
de Cuba, onde alias a situacdo, apds aquele escandalo, 
nao eta tao dificil. Quanto tempo fiquei ali ao todo? 
Nao menos de dois anos. Porém, no inicio nio me man- 
daram a nenhuma escola, era a madrinha quem me 
dava aulas. Estas consistiam em me fazer estudar as 
tabuadas de somar, de subtrair, de multiplicar e de divi- 
dir, que havia na capa de um caderno. Guardei-as na 
mem6ria, creio que aprenditao bem, que nunca mais 
me esqueci. As vezes faco contas com a mesma rapidez 
de uma calculadora. 
Fret Betto — Sim, eu percebi ontem 4 noite. 
As festas dos Reis Magos 
Fidel Castro — Nio havia livro de texto, s6 o cader- 
no e alguns ditados. E lembro-me dos Reis Magos. Veja, 
uma das manifestagdes de crenca, que se inculcava em 
alguém na idade de cinco, seis ou sete anos, era o Dia de 
Reis, Aprendi, é claro, a somar, a ler, a seguir um dita- 
do, a escrever. Devo ter melhorado um pouco minha 
ortografia e, também, a caligrafia. Mas o fato € que pas- 
sei ali dois anos perdendo tempo. A Gnica coisa Gtil foi 
o saldo de um periodo de vida duro, dificil, de traba- 
lhos e sacrificios. Creio que fui vitima de uma certa 
exploracao, considerando a tenda que representava, 
para aquela familia, a pens&éo que meus pais pagavam 
por estarmos ali. 
FIDEL E A RELIGIAO 115 
Ja que estamos falando de conviccdes religiosas, 
uma das pfrimeiras coisas nas quais nos ensinaram a 
crer foi nos Reis Magos. Talvez eu tivesse trés ou quatro 
anos a pfimeifa vez que apareceu um Rei Mago... 
Recordo-me dos primeiros presentes que recebi dos Reis, 
umas macs, um carrinho, umas balas e outras miu- 
dezas. 
Frei Betto — E diferente do Brasil, onde se da pre- 
sentes no Natal, enquanto que aqui € a 6 de janeiro. 
Fidel Castro — Seis de janeiro era o Dia dos Reis e 
aprendiamos que os trés Reis Magos, que foram saudar o 
Cristo por ocasiao de seu nascimento, vinham todos os 
anos trazer brinquedos para as criancas. Lembro-me 
que, com aquela familia, passei trés Reis, portanto devo 
ter morado ali nao menos de dois anos e meio. 
Fret Betto — Em Cuba nfo entrou a figura capita- 
lista de Papai Noel? 
Fidel Castro — Nao, nao chegou a Cuba, aqui 
eram os Reis Magos que viajavam em camelos. E as 
cfiancas deviam escrever uma carta aos reis Gaspar, 
Melquior e Baltazar. Recordo-me de minhas primeiras 
cartas aos Reis Magos, quando tinha cinco anos, e nas 
quais pedia tudo: carros, locomotivas, maquina de 
cinema, etc. No dia 5, escreviam-se longas cartas aos 
Reis Magos e, debaixo da cama, elas eram deixadas 
junto com capim e Agua e, no dia seguinte, vinha a 
desilusao. 
Fret Betto — Por que o capim? 
Fidel Castro — Como os Reis vinham em camelos, 
colocavam-se 4gua e capim para os animais, numa vasi- 
iha embaixo da cama. 
Fret Betto — Tudo misturado? 
Fidel Castro —- Sim, o capim e a 4gua misturados, 
ou um ao lado do outto. 
116 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Frei Betto — Mas que interessante, eu nao conhe- 
cia isso! 
Fidel Castro — Tinhamos que dar 4gua e comida 
aos camelos, especialmente se havia esperanca de que 
eles trouxessem bons presentes, tudo que fora pedido na 
carta. 
Frei Betto — E os Reis, 0 que comiam? 
Fidel Castro — Os Reis... nao sei. Ninguém se 
lembrava de dar comida aos Reis, talvez por isso nao 
foram muito generosos comigo. Os camelos comiam o 
capim e bebiam a 4gua e, em troca, deixavam algum 
brinquedo. Recordo-me que o primeiro presente foi 
uma corneta de papelao, s6 a ponta era de metal, como 
se fosse aluminio. Uma corneta do tamanho de um 
lapis, foi meu primeiro presente. 
Trés anos seguidos, trés vezes me deram uma corne- 
ta. Eu devia ter sido mfasico, pois realmente... No 
segundo ano, me deram outra corneta, metade de alu- 
minio, metade de papelao. No terceiro ano, a terceira 
corneta, com trés teclas e toda de aluminio. 
Bem, apés trés anos ali, enviaram-me 4 escola, vou 
como aluno externo. Ai comegam as coisas. 
A escola primaria 
Fret Betto — A que escola? 
Fidel Castro — A escola La Salle. Apés estar ali 
uns dois anos, ou um ano e meio — nao me € possivel 
precisar bem, tefia que pesquisar —, me mandaram 
ao Colégio La Salle, que ficava a uns seis ou sete quartei- 
toes. Bem cedo, pela manhi, eu ia 4s aulas, voltava, 
almocgava — entdo ja havia almoco, nao havia fome — e 
retornava a escola. Ah, ainda o cénsul do Haiti, o padri- 
nho, morava na casa quando que me enviaram 4 escola. 
FIDEL E A RELIGIAO 117 
Foi um enorme progtesso, pois, a0 menos, eu freqiien- 
tava uma escola. 
Bem, ali ensinavam sistematicamente o catecismo, 
coisas de religido, passagens da hist6ria sagrada. Isso no 
pfimeiro ano, quando eu tinha seis anos e meio ou sete, 
pois ja entrara atrasado. Aprendi desde muito cedo a ler 
€ a escrever, mas me fizeram perder quase dois anos, ja 
poderia estar no terceito. Quando entro na escola como 
externo, havia um ensino sistematico, mas sobretudo 
foi notavel a melhora material e ambiental, pois eu 
tinha professores, aulas, companheiros com quem brin- 
caf € muitas outras atividades, das quais nao desfrutara 
quando era um solitario aluno estudando aritmética na 
contracapa de um caderno. Essa nova situacdo durou até 
que eu mesmo tive de enfrentar, precocemente, minha 
primeira revolta. 
Fret Betto — Por que motivos? 
Fidel Castro — Simplesmente porque me cansei 
daquela situacgéo. De vez em quando, se eu nao me 
comportava bem, me reprimiam com uma palmada, 
ameacavam mandar-me ao internato. Até que um dia 
achei que o melhor era ir interno, pois no internato eu 
estaria melhor que naquela casa. 
Fret Betto — Quem o ameagava, os irmaos? 
Fidel Castro — A madrinha, o padrinho, a profes- 
sora, quando chegava de férias, todo mundo. 
Frei Betto — Ah, a madrinha e os outros adultos! 
Fidel Castro — Sim, sim. 
Frei Betto — Entao, como foi a revolta? 
Fidel Castro — Bem, aquela gente tinha uma edu- 
cacao francesa, pois de fato falavam perfeitamente o 
francés. Percebo que dai vinham também as relacdes 
com o consul. Nao me lembro bem por que razio elas 
haviam recebido uma educacdo francesa, nem sei se esti- 
118 CONVERSAS COM FREI BETTO 
veram na Franca ou num colégio do Haiti. Tinham uma 
esmerada educacdo formal. E claro que, desde o inicio, 
me ensinaram todas aquelas formalidades. Entre outras, 
cu nao podia pedir. Recordo-me de garotos que, apesar 
de bem pobres, tinham um centavo para comprar um 
pirulito ou um refrigerante, ou mesmo um picolé, e eu 
nao podia pedir nada, estava proibido segundo as nor- 
mas da educacao francesa e, se me ocorria dizer a um 
garoto: ‘‘dé-me um pedaco’’, logo os garotos, devido 
ao egoismo proprio da idade e 4 desesperada pobreza 
em que viviam, e por saberem das ordens que eu deve- 
ria obedecer, diziam: ‘‘ah, vou contar em sua casa que 
vocé esta pedindo!”’ 
Aquela familia tinha todas essas formalidades de 
que nfo se pode achar isso ruim, deve-se fazer aquilo, 
aquilo e mais aquilo, tudo de modo muito disciplinado, 
falar com muita educac4o, nao levantar a voz, jamais 
dizer uma palavra indevida e, quando surgem as amea- 
cas de if para o internato, j4 me sinto cansado, ha tem- 
pos tomara consciéncia do que sofrera, inclusive do pe- 
tiodo em que passei fome e fui vitima de injustica. Nao 
contei a vocé todos os detalhes porque o objetivo nao 
€ descrever aqui uma autobiografia e sim abordar um 
pouco os temas que vocé propde. Portanto, um dia 
chego da escola e deliberadamente desobedeco tudo, 
desacato todas as ordens, todos os regulamentos, toda 
disciplina, falo em voz alta, digo todas as palavras que 
me pareciam proibidas de dizer, num gesto consciente 
de rebeldia, com o objetivo de que me mandassem inter- 
no. Assim foi minha primeira revolta. Nao foi a Gnica, 
mas comegou no primeiro prim4rio. Eu tinha no ma- 
ximo sete anos, haveria que conferir com precisio em 
algum arquivo. 
Fret Betto — Entéo o mandaram interno? 
FIDELE A RELIGIAO 119 
Fidel Castro — Me mandaram interno 4 escola. 
Comecei a ser feliz quando me fizeram isso. Ou seja, 
para mim, entrar no internato foi uma libertagao. 
Fret Betto — Quanto anos esteve interno no La 
Salle? 
Fidel Castro — Quase quatto anos. 
Fret Betto — O nome era Colégio Dolores. 
Fidel Castro — Nao, Colégio La Salle. Ai estive a 
segunda metade do primeiro primfrio, o segundo e ter- 
ceifo prim4rio e, deste, por boas notas, passei ao quinto 
€, assim, recuperei um ano dos que havia perdido. 
Fret Betto— Como eta 0 ensino teligioso, uma coisa 
boa, feliz, ou falava-se muito em inferno e castigos de 
Deus? Como se tratava o tema? Insistia-se na freqiiéncia 
a missa, em fazer sacrificios e peniténcia ou as coisas 
iam por uma linha mais positiva? O que o senhor lem- 
bra disso? 
Fidel Castro — Guatdo lembrangas de varios perio- 
dos, pois estive em trés escolas, em diferentes idades. 
Era muito dificil que, naquele primeiro periodo, eu 
tivesse uma avaliacdo sobre isso. Devo agora me recordar 
como efa. 
Lembro-me, em primeiro lugar, que naquele mo- 
mento eu estava separado da familia. Enviaram-me pata 
Santiago e isso traz certos problemas. Estava distante da 
familia, da casa, da regiao de que tanto gostava, onde eu 
cofria, passeava, sentia-me livre e, de repente, enviaram- 
me para uma cidade, onde passei dificuldades. Tinha 
problemas materiais pois, longe da familia, submetido 
ali a um tratarento por parte de pessoas que nao eram 
minhas parentes, havia alguns problemas materiais em 
minha vida. Meu interesse maior era resolver esses pro- 
blemas. Sim, estava cansado daquela vida, daquela casa, 
daquela familia e daquelas normas, meus problemas 
120 CONVERSAS COM FREI BETTO 
etam outros, nado eram problemas religiosos, mas sim de 
vida, problemas materiais, uma situag’o pessoal que 
precisava ser resolvida, intuitivamente, que efa como 
a gente reagia, chegando ao completo desacato da- 
quela autoridade. Porém, a situacgéo melhora quando 
entro no internato; ali eu podia brincar apds as aulas com 
outros garfotos, j4 nZo me sentia s6, e todas as semanas, 
duas vezes por semana, nos levavam ao campo e a praia, 
famos a uma pequena peninsula da baia de Santiago de 
Cuba, onde hoje ha uma refinaria de petrdleo e outros 
investimentos industriais. Os irmaos de La Salle tinham 
arrendado uma 4rea préxima ao mar, onde havia um 
balnedrio e praca de esportes. Iamos as quintas-feiras, 
pois nesse dia nao havia aulas, nem aos domingos. A 
semana era dividida em duas partes, uma de trés dias de 
aulas e outra de dois. Para mim o internato foi uma 
experiéncia de imensa felicidade: ir 4 praia todas as 
quintas-feiras, ficar livre, pescar, nadar, caminhar, pra- 
ticar esportes, fazer tudo isso, inclusive aos domingos. 
Era isso 0 que mais me interessava e preocupava. 
A formacio religiosa, o catecismo, as missas e de- 
mais obrigacées faziam parte do dia-a-dia, como as aulas 
e as horas de estudo, Entretanto, o que mais me agta- 
dava, como agora que tenho tantas reunides, eram os 
momentos de lazer. Naquela época a formagio religiosa 
efa uma coisa natural e eu ainda nao tinha condicées de 
avalia-la. 
Fret Betto — Nao lhe imprimia nenhuma marca de 
medo, de temor, de problemas de pecado? Isso nao era 
uma coisa acentuada? 
Fidel Castro — Comecei a desconfiar dessas coisas 
mais tatde e nao naquela primeira fase, quando se 
estudava a hist6ria sagrada do mesmo modo que se estu- 
dava a historia de Cuba, como foi a criagéo do mundo e 
FIDEL E A RELIGIAO 121 
tudo aquilo, que aceitavamos como fatos naturais. Con- 
tavam-nos o que havia no mundo sem nos fazer refletir 
sobre isso, se bem que meu interesse maior eta pelo 
esporte, pela praia, pela natureza, pelo estudo das diver- 
sas mat€rias e coisas no género. A verdade é que eu nao 
tinha nenhuma especial tendéncia ou vocacio teligiosa. 
As férias e as festas 
Em geral, a cada trés meses tinhamos f€rias, quando 
retornavamos a fazenda. O campo era a liberdade. Por 
exemplo, a Nochebuena eta uma maravilha, pois signi- 
ficava quinze dias de férias e, mais do que isso, quinze 
dias de clima de festa e guloseimas, ou seja, salgados, 
doces, quitandas, sorromes que traziam e que, 14 em 
casa, havia 4 vontade, pois nas compras de Natal se 
adquiriam certos produtos espanhdis, conforme a tradi- 
¢40. Quando chegavam aqueles dias, a gente ja ficava 
alegre ao tomar o trem e, depois, o cavalo. Para chegar 
a fazenda era preciso pegar o trem e, no final da linha, 
cavalos. Os caminhos eram imensos lamagais, nos pri- 
meiros anos a fazenda nao possuia veiculos motorizados, 
nem sequer havia luz elétrica! Mais tarde € que minha 
casa recebeu luz elétrica. La no campo a iluminagao era 
com velas. 
Ora, pata nds que tinhamos conhecido a fome e os 
muros na cidade, aquele espaco livre, a comida farta, 
o clima de festa que se criava em torno do Natal, da 
Nochebuena, do Ano Novo e do Dia de Reis, era tudo 
fascinante. Todavia, logo a gente desconfiava que os 
Reis nao existiam e isso eta uma das primeifas coisas que 
geravam cefto ceticismo. A gente comega a descobrir 
que nao hd Reis, que so os pais que pdem os brinque- 
122 CONVERSAS COM FREI BETTO 
dos, mesmo porque os proprios adultos nos tiravam pre- 
cocemente da inocéncia. Nao que eu esteja contra esse 
costume, de modo algum estou fazendo uma critica a 
isso, mas logo a gente desconfiava que havia nisso certa 
mentifa. 
As férias de Natal eram momentos felizes. A Sema- 
na Santa era outra ocasiaZo fant4stica, pois de novo pas- 
savamos uma semana em casa. As férias de verao tam- 
bém eram 6timas: nadar nos rios, correr pelas florestas, 
cacar com estilingue, andar a cavalo. Viviamos em total 
liberdade e em contato com a natureza. Assim foram os 
pfimeiros anos. | 
Como lhe disse, eu havia nascido no campo e ali 
vivera a etapa anterior as vicissitudes que j4 contei a 
vocé. Mas quando a gente chega ao tefceiro prim4rio, ao 
quinto, a gente comega a saber muito mais e a observar 
as coisas. 
A Semana Santa no campo — lembro-me desde 
que efa muito novo — eram dias de recolhimento, ou 
seja, havia muita compung4o. Diziam que Deus morrera 
na Sexta-Feira Santa: nao se podia falar, brincar, nem 
expressar a menor alegria, porque Deus estava morto e 
os judeus o matavam todos os anos. Afloram novamente 
acusag6es ou crengas populares que, sem davida, foram 
causas de tragédia e de preconceitos hist6ricos. E digo a 
vocé, como nao conhecia o significado daquele termo, 
eu no inicio acreditava que aquelas aves que tinham o 
nome de judeu haviam matado Deus... 
Fret Betto — Devia-se comer muito pouco. 
Fidel Castro — Comer peixes, principalmente. 
Nao se podia comer carne. Em seguida vinha o Saébado 
de Aleluia, que era de festa, embora eu soubesse que a 
Ressurteigao nao se dera no Sabado de Aleluia. Porém, o 
povo dizia: ‘‘Sabado de Aleluia, dia de festa; Sexta- 
FIDEL E A RELIGIAO 123 
Feira Santa, dia de siléncio e luto’’. La no campo, no 
Sabado de Aleluia, havia muito movimento no arma- 
zém, muitas comemozacées, tinhas de galo que prosse- 
guiam no Domingo da Ressurreicdo, etc. 
Eu diria que, naquele periodo, eram outras as ques- 
t6es que me absorviam, de modo que nao me encon- 
trava em condigdes de avaliar a formacido teligiosa. Nao 
obstante, ela se dava assim como aprender a fazer uma 
conta: 5 vezes 5 é igual a 25. Assim era o ensino de re- 
ligiao. 
Fret Betto — Os irmaos lhe pareciam mais professo- 
res que religiosos ou eram bons teligiosos também? 
Fidel Castro — De fato, os itmios de La Salle nao 
eram sacerdotes, nao tinham a formacdo de um sacer- 
dote, era uma ordem muito menos exigente e rigida 
que a dos jesuitas. Percebi isso mais tarde, quando me 
transferi para o colégio dos jesuitas. 
Frei Betto — Com que idade? 
Fidel Castro — Bem, me transferi para o colégio 
dos jesuitas em... 
Fre: Betto — No cutso secundario? 
Fidel Castro — Nao, no quinto ano, foi no quin- 
to que passei para outro colégio, desta vez de jesui- 
tas. Naquele que eu me encontrava, dos irmaos de La 
Salle, surgiram conflitos. Ali houve uma segunda revol- 
ta de minha parte. Mas 0 ensino n4o era ruim, a discipli- 
na de vida dos estudantes também nfo era ruim, éramos 
uns trinta alunos internos e, como ja lhe disse, as quin- 
tas e domingos saiamos a passear. A comida nao eta 
ruim, nem a vida em geral. 
Frei Betto — O senhor se refete aos jesuitas? 
Fidel Castro — Nao, nao estou falando dos jesuitas. 
Fret Betto — Nao, do La Salle. 
Fidel Castro — Refiro-meao Colégio La Salle. 
124 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Aquele pessoal nao tinha o preparo dos jesuitas. Além 
disso, adotavam 4s vezes um método muito censura- 
vel. Alguns professores ou diretores do colégio tinham 
o costume de, eventualmente, bater no aluno. Meu con- 
flito ali foi por isso, devido a um incidente com outro 
aluno, uma pequena desavenca, como € normal entre 
estudantes daquela idade. Pude perceber 0 que hoje se 
chamaria os maus métodos pedagégicos, como este de 
usar de violéncia contra um aluno. Aquela foi a primeira 
vez que o itm4o-inspetor, responsavel pelos alunos, me 
bateu com muita violéncia, esbofeteando-me brusca- 
mente nos dois lados da cara. Foi algo indigno e abusi- 
vo. Eu devia estar no terceiro primario. Aquilo me moeu 
por dentro. Mais tarde, quando ja estava no quinto pri- 
mario, em duas diferentes ocasides me deram um cascu- 
do. Na Gltima, eu nao estava mais a fim de agtientar ea 
coisa acabou numa violenta briga pessoal entre o inspe- 
tor e eu. Depois disso, decidi nao regressar mais aquele 
colégio. 
Notei ainda naquela instituicgao certos métodos de 
favoritismo aplicados, as vezes, a alguns alunos. Per- 
cebi também interesse por dinheiro. Vi claramente que, 
como minha familia possuia muitas terras e era tida 
como rica, alguns irm&os mostravam muito interesse por 
nds e pela familia. Observei esse interesse material, essa 
deferéncia associada ao dinheiro. Captei perfeitamente 
isso. 
Nao eram homens da disciplina dos jesuitas, eu 
diria que eram menos rigorosos, menos s6lidos etica- 
mente que os jesuitas. E o que posso dizer como critica 
e, também, reconhecer as coisas positivas: o contato do 
aluno com o campo, a organizacdo de sua vida, um bom 
ensino e uma série de outras coisas; contudo, os métodos 
FIDEL E A RELIGIAO 125 
de bater num aluno sao infames e inaceitaveis. Havia 
disciplina, nao sou contra a disciplina que nos impu- 
nham, tinham que impor-nos. Mas quando a gente 
chega a certa idade, no quinto prim4rio, j4 com senso 
de dignidade pessoal, o método da violéncia, do castigo 
fisico, parece-me inconcebivel. 
O colégio dos jesuitas 
Fret Betto — Passemos aos jesuitas. Como se cha- 
mava o colégio? 
Fidel Castro — Colégio Dolores, de Santiago de 
Cuba, uma escola de maior renome e de mais categoria. 
Fret Betto — Quando se interna ali? 
Fidel Castro — Bem, inicialmente volto a passar 
um periodo de provas, porque nao me internam. 
Fret Betto — E onde vivia o senhor? 
Fidel Castro — Me mandam 4 casa de um co- 
mefciante, amigo de meu pai. Ali tenho que viver outra 
vez uma nova experiéncia, a mudanga de escola. Era 
uma escola mais rigorosa e, sobretudo, muitas vezes 
me deparei com a incompreensao dos adultos a cujos 
cuidados estava. Era uma daquelas familias que, por 
amizade, recebiam alguém que nfo era seu parente. De 
fato, nado chegavam a ser um exemplo de generosidade, 
atras disso havia interesse econdmico e, evidentemente, 
era diferente a relacdo, pois nao éramos seus filhos, nao 
podiam tratar-nos como filhos. 
E melhor ficar interno num colégio, estou conven- 
cido, do que o remeterem 4 casa de um amigo, de uma 
familia amiga, pois, a nZo ser que seja gente muito gene- 
rosa — como ha por ai —, nao convém. Aquela socie- 
dade na qual vivi tudo isso, era uma sociedade de muitas 
126 CONVERSAS COM FREI BETTO 
dificuldades e de muitos sacrificios para o povo. Ela 
engendrava um enorme egoismo — afirmo e penso isso, 
quando reflito sobre aquilo. Aquela sociedade geral- 
mente convettia as pessoas em gente egoista, interes- 
seita, que buscava tirar proveito de qualquer situacao. 
Ela nZo se.caracterizava por gefar nas pessoas senti- 
mentos de bondade e de generosidade. 
Fret Betto — E aquela sociedade se considerava 
crista? 
Fidel Castro — HA muitas pessoas neste mun- 
do que se consideram cristas e fazem coisas terriveis. 
Pinochet, Reagan e Botha, para citar alguns exemplos, 
se consideram cfistaos. 
Pois bem, aquela familia na qual eu estava eta cris- 
ta, cumpria suas obrigacdes religiosas, freqiientava a 
missa. Eu poderia ressaltar algo especialmente negativo 
naquela familia? Nao poderia fazé-lo. De minha madri- 
nha também nfo posso dizer que efa uma pessoa m4, 
pois ela passava fome conosco e, de fato, nao era ela 
quem dirigia a casa naquela €poca. Quem mandava era 
a irma, a que recebia o salario e as pensGdes. Era ela quem 
administrava. Ela era realmente uma boa pessoa, digna; e 
eu nfo era um filho, com quem se pode ter outro tipo de 
relag4o, mas sim um estranho que habitava aquela casa. 
Quando chego ao quinto prim4rio, vou entdo para 
a casa da familia de um comerciante. Nao posso afirmar 
que efam ruins, nao posso dizer isso. Mas nao era a nossa 
familia, nado podiam ter a mesma atencdo e, inclu- 
sive, aplicavam certas normas rigidas, arbitrarias. Por 
exemplo, nao se importavam se eu tivera problemas no 
outro colégio, como ja falei, e se passara a uma escola 
mais rigorosa; n&o consideravam os fatores psicol6gicos, 
a adaptacéo de uma escola a outta, a ttoca de profes- 
sores, o fato de estar numa instituigéo mais exigente que 
FIDEL E A RELIGIAO 127 
a anterior, e queriam que eu tirasse as melhores notas, 
pfaticamente o exigiam. Se eu no tirava a melhor nota, 
nao recebia nem o minimo da semana, que eram dez 
centavos pafa if ao cinema, cinco para ccmprar sorvete 
no fim de semana, depois do cinema, e cinco as quintas- 
feiras, para comprar umas figurinhas — disso me lembro 
bem —, figurinhas que vinham da Argentina numa 
revista semanal chamada E/ Gorrtén. Aili algumas nove- 
las, De tal Palo, tal Astila foi uma delas. Cinco cen- 
tavos! O gasto era de 25 centavos por semana, o que 
normalmente eu deveria receber. Mas se no tirasse as 
melhores notas, nao davam. Completamente arbitraria e 
injusta essa medida, pois nao consideravam as novas 
cifcunstancias, nao tinham nenhuma psicologia para 
tratar uma pessoa de onze anos. 
E por que exigiam boas notas? Havia orgulho nisso, 
inclusive vaidade, pois entravam outros fatores. Tratava- 
se agora de um colégio de certa categoria. Quem tivesse 
filhos internos ou externos naquele colégio podia envai- 
decer-se, numa espécie de orgulho social. E quando a 
gente nado tem quem nos oriente desde crianga, € obri- 
gado a supottar todas essas coisas. 
Comecei externo no colégio, apés as férias de Natal 
e, também, depois de uma acirrada discussdo em casa. 
Tive que exigir que me mandassem de volta 4 escola. 
Batalhei para estudar, porque no outro colégio informa- 
ram a meus pais que nao nos comportamos bem, e tats 
informacoes arbitrarias influiram na decisao da familia. 
Fiquei firme: nao aceito que me deixem sen estudar. 
Eu sabia qual era o problema, o motivo do conflito, ori- 
ginado por um gesto de abuso, um ato de violéncia, de 
castigo fisico contra um aluno. Penso que ja tinha idéias 
bem claras sobre a quest4o, seja por instinto ou por 
algumas nocées de justica e de dignidade que 1a adqui- 
128 CONVERSAS COM FREI BETTO 
rindo, talvez porque desde crianga comecei a ver as col- 
sas malfeitas que eram injustas, e das quais fui vitima. 
Comecei a adquirir determinados valores. E como tinha 
aqueles valores muito presentes, tive que exigir em casa 
que me mandassem estudar, talvez nao tanto por amor 
ao estudo e sim pela conviccao de que cometiam comigo 
uma injustica. Afinal, me mandaram estudar, com o 
apoio de minha mie; primeiro convenci a ela e, depois, 
meu pai. Me enviaram de novo a Santiago, mas me pu- 
seram externo. Ao chegar 14, enfrentei as dificuldades 
que lhe falei. 
Enfim, vem o verdo. Durante o vero, me deixaram 
l4, porque minha irma mais velha continuava estudan- 
do. Conheci uma professora que dava aulas 4 minha 
irm4, uma professora negra de Santiago de Cuba, muito 
bem preparada. Chamava-se Danger. Ela se entusias- 
mou, pois, como eu nfo tinha o que fazer naquele 
petiodo de férias, ia as aulas com minha irma que se 
pfeparava pafa ingressar no curso secundario e respon-dia a todas as perguntas das matérias ensinadas pela 
professora. Isso provocou nela um sincero entusiasmo. 
Eu nao tinha idade para entrar no curso secundArio, 
mas ela comecou a fazer um plano para que eu estudas- 
se a admissao e 0 primeiro ano do secund4rio ao mes- 
mo tempo e, quando atingisse a idade, fizesse os exa- 
mes. Das pessoas que conheci, foi a primeira que me 
estimulou, que me propés uma meta, um objetivo, e 
despertou em mim uma garra. Conseguiu, desde cedo, 
entusiasmar-me com os estudos, pois estou certo de que, 
naquela idade, se pode entusiasmar as pessoas por um 
determinado objetivo. Quantos anos eu tinha? Teria 
dez, talvez onze anos. 
Depois veio outta fase. Naquelas férias estudamos 
com a professora, mas ao iniciat 0 novo curso tive que ser 
FIDEL E A RELIGIAO 129 
internado numa clinica, onde me operaram do apéndice. 
Era costume todo mundo se operar do apéndice. Eu sen- 
tira apenas pequenas dores. Porém, o cotte se infeccio- 
nou € passei trés meses no hospital. O plano da profes- 
sora foi esquecido e tive que comecat 0 sexto primario 
quase no fim do primeiro trimestre. 
Depois disso € que decido ficar internado, ja estava 
cansado daquele ambiente. No fim do primeiro trimes- 
tre, aviso que entrarei no internato, ou melhor, exijo 
com insisténcia que me coloquem interno. Eu ja era 
perito nessas coisas. Decidi criar uma situacgéo em que 
nao tivessem outra alternativa sendo mandar-me ao 
internato. De modo que, entte o primeiro e o sexto pri- 
méArios, tive que enfrentar trés lutas para resolver trés 
problemas. 
Quando vou interno, no sexto prim4rio, obtenho 
excelentes notas e, no sétimo, fico entre os primeiros 
alunos da classe. Eu gostava muito dali, participava do 
mundo dos esportes e das excursdes no campo e nas 
montanhas. Os esportes me intefessavam muito: eu 
jogava especialmente basquete, futebol e beisebol. 
Fret Betto — Havia futebol? 
Fidel Castro — Futebol também, e eu gostava 
muito. 
Frei Betto — Mais do que de volei? 
Fidel Castro — Bem, eu gostava muito de futebol, 
embora preferisse o basquete. Jogava também véle1, 
praticava todos os esportes. Sempre gostei muito de 
esporte. Era essa a minha distragao, na qual investia as 
minhas energias. 
Encontrava-me numa escola de gente mais rigorosa, 
bem mais preparada e com muito mais vocagio teligiosa, 
ou seja, com muito mais consagracéo, capacidade e 
disciplina do que os da outra escola. A meu ver, uma 
130 CONVERSAS COM FREI BETTO 
escolha incomparavelmente superior, na qual me convi- 
nha ingressar. Encontro-me com gente de outro quilate, 
com homens e professores que tém interesse em formar 
o carater dos alunos. Além disso, espanhdis. Penso que, 
nessas coisas de que estamos falando, se combinam as 
tradicdes dos jesuitas, seu espitito e sua organizaca4o mi- 
litar, com o carater espanhol. Era gente que se interes- 
sava pelos alunos, por nosso carater e compofrtamento, 
com forte senso de rigor e de disciplina. 
De modo que fui recebendo certa ética, certas nor- 
mas, nao s6 religiosas. Fui recebendo influéncia de tipo 
humano, da autoridade dos professores, do valor que eles 
davam a ceftas coisas. Eles estimulavam o esporte, as 
excursdes 4s montanhas, e eu gostava de esportes, das 
excursdes, das caminhadas, de escalar montanhas, tudo 
isso exefcia enorme fascinio sobre mim. Inclusive, certa 
ocasiao fiz todo o grupo me esperar duas horas, enquan- 
to escalava uma montanha. Nao me crfiticavam quando 
meu atraso resultava de um grande esforco; encaravam- 
no como prova de espirito empreendedor e tenaz. Se as 
atividades eram arriscadas e dificeis, nao desestimu- 
lavam. 
Fret Betto — Nao imaginavam que estavam prepa- 
rando um guerrilheiro. 
Fidel Castro — Nem eu mesmo supunha que esta- 
va me autopreparando como guerrilheiro, mas, quando 
encarava uma montanha, aquilo me parecia quase um 
desafio, a idéia de escala-la, de chegar 14 em cima, se 
apoderava de mim. De que forma me estimularam? 
Creio que, nessas coisas, nunca me puseram obstaculos. 
Houve ocasiao em que o 6nibus, com os outros alunos, 
ficou esperando duas horas, enquanto nao regressei. De 
outfa vez, caiu uma tempestade, os rios encheram e tive 
que atravessar a nado, arriscando-me. Esperavam-me e 
FIDEL E A RELIGIAO 131 
nunca me cfiticavam por isso. Ou seja, se observavam 
nos alunos caracteristicas com as quais simpatizavam, 
como espirito de risco, de sacrificio, de esforco, procura- 
vam estimular, nao faziam do aluno um maricas. Tam- 
bém agiam assim os lassalistas, porém os jesuitas preo- 
cupavam-se muito mais com a témpera de seus alunos. 
_ Comecei a entrar em discordancia com as idéias 
politicas da €poca, as que predominavam, e com o modo 
de pregarem a religiao. 
Do que contei a vocé, € possivel tirar algumas con- 
clusdes de como se formou meu carater, diante de 
problemas e dificuldades que tive de vencer, diante de 
provas, de conflitos, de revoltas, sem ter um preceptor 
Ou uM guia que me ajudasse. De fato, nunca tive um 
preceptor. Com certeza, quem esteve mais préxima de 
ser minha preceptora foi aquela professora negra de 
Santiago de Cuba, a que dava aulas particulares e prepa- 
rava alunos para ingressar no curso secundario. Foi ela 
quem tracou uma meta, forjou um entusiasmo, embora 
tudo se frustrasse pelo fato de que, ao inicio do curso, 
cai doente, tive que passar trés meses hospitalizado e 
perdi um longo periodo de aulas do sexto primario. 
Depois, decidi ficar no colégio como interno. Foi mesmo 
uma deciséo tomada por mim. 
Como vé, esses reveses de minha vida nao eram 
ptopicios ao esforgo de uma forte influéncia religiosa 
sobre mim, nado obstante exercessem muita influéncia 
em minha vocacio politica e revolucionaria. 
A formacdo religiosa 
Frei Betto — Compreendo. Quais as suas lembran- 
cas da atividade religiosa dos jesuitas? Parecia-the posi- 
132 CONVERSAS COM FREI BETTO 
tiva, Negativa, era mais voltada para a vida ou para as 
coisas do céu, para a salvacéo da alma? Como era? 
Fidel Castro — Posso agora avaliar melhor. Fiz 
também o curso secundario no colégio dos jesuitas. Ana- 
lisando retrospectivamente que coisas influiam de um 
modo nao muito positivo, reconhego que tudo era 
bastante dogmiatico: isto € assim porque tem que ser 
assim, devemos crer mesmo sem entender, se nao 
cremos, ainda que sem entender, isso € uma falta, um 
pecado, um ato digno de castigo. Ou seja, 0 nao-uso da 
reflexdo, um nao-desenvolvimento da reflexao e do sen- 
timento. 
Me parece que uma f€ religiosa, como uma f€ poli- 
tica, deve ter por base o raciocinio, pois o desenvolvi- 
mento do pensamento e do sentimento sao duas coisas 
inseparaveis. 
Fret Betto — Sem querer aprofundar uma secular 
disputa entre jesuitas e dominicanos, n6és dominicanos 
nos cafacterizamos por valorizar mais a inteligéncia da 
fé, e os jesuitas, a determinacdo da vontade. 
Fidel Castro — Admito que algumas pessoas pos- 
sam ter uma predisposicao especial, uma alma mistica, 
uma grande vocagao religiosa, maior inclinacdo a fé que 
outras. Eu era aberto a reflex4o e creio que também a 
aprimorar o sentimento.:\Portanto, nao era possivel 
incutir em mim uma fé religiosa sdlida se eram dogmé- 
ticos no modo de explicar as coisas: tinha que crer nisto 
porque tinha que crer, nao crer consistia numa grande 
falta, num grande pecado merecedor do mais terrivel 
castigo. 
Se realmente vocé tem que aceitar as coisas porque 
lhe dizem que sao desse jeito, sem poder sequer discuti- 
las ou refleti-las, e se, além disso, o argumento principal 
que empregam € o prémio ou 0 castigo, inclusive mais 0 
FIDEL E A RELIGIAO 1133 
castigo do que o prémio, entdo é impossivel desenvolver 
em certas pessoas a reflexao e o sentimento que pos- 
sam servir de base a uma sincera conviccdo religiosa. E o 
que penso, visto assim retrospectivamente. 
Fret Betto — Qual era 0 castigo e qual era o prémio? 
Fidel Castro — Bem, o prémio era muito abstra- 
to. Ora, para uma crianca, os prémios abstratos,basea- 
dos na contemplacgao, num estado de felicidade que 
se deveria imaginar para toda a eternidade, era mais 
dificil de entender do que o castigo. O castigo era mais 
facil de explicar, 0 garoto estava mais propenso a com- 
preender o castigo, o inferno, a dor, o sofrimento e o 
fogo eternos, e tudo aquilo. Inclusive, dava-se muito 
mais énfase ao castigo. Penso mesmo que essa € uma 
forma negativa e um método incorreto de desenvolver 
qualquer tipo de convicc4éo profunda no ser humano. 
Realmente, mais tarde, quando tive que desenvolver 
uma conviccaéo e uma f€, precisamente no terreno da 
politica, e me apeguei firmemente a determinados valo- 
res, Nunca imaginei que pudesse me basear em algo que 
nZo se compreenda ou que estivesse inspirado no temor 
ou no prémio. 
Creio mesmo que a fé€ religiosa das pessoas devia 
fundar-se em razOes compreensiveis e no valor inttinseco 
do que se faz. 
Frei Betto — Sem dependéncia do prémio ou do 
castigo. 
Fidel Castro — Sem prémio e sem castigo. Por- 
que, a meu ver, nao € inteiramente genetoso, nem total- 
mente digno, nem metece elogio, admiracao ou estima 
o que € feito por medo ao castigo ou em busca de um 
prémio. Mesmo em nossa vida revolucionaria, quando 
tivemos de designar homens pata tarefas muito dificeis e 
pata provas muito duras, e que foram capazes de supor- 
134 CONVERSAS COM FREI BETTO 
tar com enorme desinteresse e altruismo, o mais admira- 
vel € que n4o estavam motivados pela idéia de prémio 
ou castigo. A Igreja também viveu essas provas durante 
muitos séculos, viveu o martirio e soube enfrenta-lo. A 
meu ver, isso s6 se explica por uma profunda conviccao. 
Frei Betto — Que € 0 contrario ao medo. 
Fidel Castro — Creio que € a conviccgao que pro- 
duz martires. Nao acredito que ninguém se torne mar- 
tir simplesmente porque espera um prémio ou tema 
um castigo. Nao creio que ninguém se comporte heroi- 
camente por isso. 
Fret Betto — Sempre digo que o contrario do medo 
nao € a coragem, € a fé. 
Fidel Castro — Penso que todos os martires da 
Igreja o foram certamente por um sentimento de leal- 
dade, por algo em que acreditavam firmemente. Pode 
té-los ajudado a idéia de uma outta vida na qual sua 
atitude seria premiada, mas n@o creio que esta fosse a 
motivacao principal. Em geral, quem faz alguma coisa 
por medo, teme tanto o fogo, o martirio e a tortura, que 
nao se atreve a desafid-los. As pessoas que se preocupam 
em obter bens materiais, prazeres, prémios, tratam de 
preservar a vida e nao de sacrificd-la. Penso que os mar- 
tires que a Igreja teve, ao longo de sua histé6ria, foram 
motivados por coisa mais inspitadora do que o temor ou 
o castigo. Entender isso era muito mais facil para qual- 
quer um de nds. 
Nos, sim, pedimos sacrificios e, em certas ocasides, 
oO martirio, o heroismo, a entrega da vida. Reconheco 
que ha grande mérito quando um homem entrega sua 
vida por uma idéia revolucionaria e luta sabendo que 
pode encontrar a morte e, mesmo acteditando que apés 
a motte nao haja nada, tem em tdo alta estima esse 
ideal, esse valor moral, que o defende ds custas de tudo 
FIDEL E A RELIGIAO 135 
que possui — que é a vida —, sem esperar prémio ou 
castigo. 
Eu diria que, em suma, esses aspectos eram extre- 
mamente fracos na formacdo religiosa que nos davam. E 
ndo creio que se produziram muitos santos entre nés. 
Naquele colégio nao havia muitos internos, apenas 
trinta, e tinha ao todo uns duzentos alunos. Quando 
passei ao principal col€gio dos jesuitas, este abrigava uns 
mil alunos, dos quais duzentos internos. Dali nao 
devem ter saido muitos sacerdotes. Eu ficaria espantado 
se soubesse que, daqueles mil, ao menos dez se torna- 
ram sacerdotes! 
O sistema escolar 
Fret Betto — Havia discriminacdo social e racial? 
Fidel Castro — Claro, sem dtvida. A institui- 
cdo era paga. Nao posso afirmar que houvesse espirito 
mercantilista nos jesuitas, nem nos irmaos de La Salle. 
Embora eu notasse nesses Gltimos interesse pelo presti- 
gio social do dinheiro, o preco da escola nao era elevado. 
Lembro-me que, para ficar interno nos jesuitas de San- 
tiago de Cuba, custava trinta pesos. Naquela época o 
peso equivalia ao délar. Falo de 1937, quando eu tinha 
dez anos e meio ou onze. 
Fret Betto — Trinta pesos por més. 
Fidel Castro — O equivalente a trinta dolares por 
més. Incluindo a comida — que nfo era ruim —, a 
moradia e os passeios. Além disso, ofereciam assisténcia 
médica. Por sua prépria iniciativa os alunos podiam se 
filiar a uma sociedade médica cooperativa. Como eram 
chamados? 
Fret Betto — Mutualistas. 
136 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Fidel Castro — Mutualistas. Pertenciamos a esta 
sociedade. Se o problema era mais grave, nos reme- 
tiam ao hospital. Tinhamos também a 4gua. Claro, a 
lavanderia era cobrada 4 parte, bem como os livros dida- 
ticos. As aulas, a alimentacdo, as atividades esportivas, 
tudo o que faziamos ali, por trinta pesos, nao era caro. 
Nao € muito trinta pesos quando se leva em conta a 
necessidade de gente para cozinhar, dirigir os énibus e 
assegufar a manutencdo da escola. 
Isso de fato era facilitado porque aqueles padres 
nao recebiam salarios, ou seja, nao era preciso remu- 
nera-los. Bastava dar-lhes alimentacéo. Levavam vida 
muito austera. Havia alguns professores leigos que, 
naturalmente, recebiam um salario que n4o era alto, e 
havia também uma administragdo rigorosa. Enfim, 
naqueles jesuitas nao havia nenhum espirito mercanti- 
lista. Tampouco havia no Colégio La Salle, mas nos 
jesuitas havia menos. Eram austeros, rigorosos, sacrifica- 
dos, trabalhadores. Nao mediam esforcos e, assim, redu- 
ziam Os custos. Se fossem homens que recebessem sala- 
rios, n&o se poderia estar ali por trinta pesos, haveria que 
paga-los o dobro ou o triplo, se bem que naquela época 
0 poder aquisitivo do dinheiro era muito maior. Se 
todos aqueles padres exigissem remuneracdo, o estudo 
nao seria tao barato. Mas mesmo considerando os trinta 
pesos, aquilo estava ao alcance de apenas algumas fami- 
lias, e os alunos externos pagavam oito ou dez pesos. E 
nds, por mais vinte pesos, recebiamos o que necessitava- 
mos: moravamos no colégio, tinhamos alimentacio, 
roupa de cama, 4gua, energia elétrica. Sem dtvida, 
tudo isso gracas 4 abnegaco e austeridade daqueles ho- 
mens, embora ao alcance de poucos. 
Fret Betto — Entre seus colegas havia negros? 
Fidel Castro — Vou explicar. A instituicdo era par- 
FIDEL E A RELIGIAO 137 
ticular, privilégio de poucas familias da zona rural, de 
onde eu vinha, ou de pequenas cidades do interior da 
provincia, que tinham condicées de pagar. De Santiago 
de Cuba havia uns duzentos externos e trinta internos. 
N&o eram muitas as familias que podiam pagar o colé- 
gio, pois deviam assumir também os gastos com passa- 
gens e a roupa dos filhos. A uma familia nao safa por 
menos de quarenta pesos mensais, pois 0 garoto necessi- 
tava também de algum dinheiro para comprar, de vez 
em quando, um sotvete ou umas balas. A manutencio 
de um garoto podia custar até cingtienta délares, e eram 
poucas as familias que tinham condicées de arcar com 
isso. 
A instituigéo, como escola privada, era privilégio de 
uma exigua minoria, e quem estava ali interno eram 
filhos de comerciantes, de latifundiarios, de gente de 
dinheiro. Ali nao podia estar o filho de um operario ou 
mesmo de um profissional liberal. Talvez como externo, 
se fosse filho de um profissional liberal que vivesse em 
Santiago, mas um professor nao tinha como mandar seu 
filho aquela escola, j4 que ganhava uns 75 dolares. 
Muitos médicos e advogados nao tinham como mandar 
seus filhos, a menos que fosse um advogado famoso, ou 
um médico de renome, muito conhecido! Quem tinha 
condicdes de pdr seu filho numa daquelas escolas era a 
familia que tivesse uma fazenda ou uma fabrica, uma 
empresa de café ou uma indtstria de calcados, um ne- 
gocio de bebidas ou um comércio de certa importancia. 
Posso me lembrar das origens sociais de quase todos 
Os meuscolegas, externos e internos. E claro que, se uma 
familia rica morava em Santiago, nao tinha por que 
internar o filho. Este ficava semi-interno, fegressava 4 
sua’ casa todos os dias; um Onibus o apanhava pela 
manhi e o levava a tarde. Uma familia mais modesta 
138 CONVERSAS COM FREI BETTO 
podia coloc4-lo como externo, pois oito ou dez délares 
até um profissional liberal nao muito conhecido podia 
desembolsar. Mas interno, s6 mesmo um médico de 
prestigio, um advogado famoso ou uma familia abasta- 
da podiam cobrir os custos. 
Aquelas escolas eram privilegiadas, de classe. Mes- 
mo em nossa classe, havia duas categorias: a dos comer- 
ciantes, industriais e profissionais liberais que viviam 
em Santiago e a dos que moravam em Vista Alegre, um 
bairro rico. Havia a categoria dos que pertenciam 4 
média burguesia e a da burguesia muito rica. Nesta, 
sentia-se um certo espirito aristocratico, diferente dos 
outros, superior aos demais. Portanto, naquela escola de 
privilegiados havia dois grupos, nao tanto em razao da 
riqueza, embora a base fosse a riqueza, e sim pelo status 
social, as casas onde moravam, as tradicées. 
Talvez minha familia tivesse os mesmos recursos 
dessa Gltima categoria, mas felizmente eu nao me situa- 
va nela. Por qué? Porque minha familia morava na zona 
rural. La viviamos entre o povo, junto aos trabalhadores, 
todos muito simples. Viviamos, como ja contei a vocé, 
inclusive entre animais, no tempo em que debaixo da 
casa havia vacas, porcos, galinhas, etc. 
Eu nao era neto de latifundiario, nem bisneto, 
porque em geral o bisneto do latifundiario, embora ja 
nao tivesse fortuna, conservava toda uma cultura oligar- 
quica, de classe aristocratica ou rica. Como minha mie 
fora uma camponesa bem pobre, assim como meu pai, e 
depois obtiveram alguns bens, acumularam certa rique- 
za, todavia em minha familia ndo se respirava a cultura 
dos ricos, dos latifundidrios: eram pessoas que todos os 
dias davam duro no trabalho, nao tinham nenhuma 
vida social e s6 se relacionavam com gente do mesmo 
nivel. 
FIDEL E A RELIGIAO 139 
Imagino que, se eu fosse neto ou bisneto de lati- 
fundiario, possivelmente teria tido a desgraca de receber 
aquela cultura, aquele éspirito e aquela consciéncia de 
classe, € nao teria o privilégio de escapar da ideologia 
burguesa. Recordo-me que, naquele colégio, havia todo 
um grupo que tinha esse espirito burgués e aristocratico, 
outros efram ricos mais modestos e, portanto, vistos com 
desprezo pelos primeiros. Eu repatava, nao dava muita 
importancia, mas repatava; via a rivalidade que havia 
entre os colegas. 
Mesmo entre os ricos ha certas categorias que geram 
alguns antagonismos, e isso eu percebia muito bem. 
Para estar naquele colégio, vocé tinha que ser de uma 
classe relativamente rica, onde se respirava 0 espirito de 
classe da instituicéo burguesa, o privilégio. Nao era uma 
escola para operarios, proletaérios ou camponeses pobres, 
nem mesmo para filhos de profissionais liberais, exceto 
dos que gozavam de grande prtestigio. 
Devo dizer que, no Colégio La Salle, havia alguns 
alunos negros. Nisso ele era mais democratico. No Co- 
légio Dolores nao, todos éramos supostamente bran- 
cos. Eu estranhava aquilo e, mais de uma vez, tanto em 
Santiago como no colégio de Havana, para onde me 
transfert depois, indaguei por que nao havia alunos 
negros. Lembro-me que a Gnica explicacao, a Gnica res- 
posta que me deram foi: ‘‘Bem, como sao poucos, um 
garoto negro aqui, entre tantos brancos, nao se sentira 4 
vontade’’. Portanto, para evitar que se sentissem mal, 
nao era conveniente ter um ou dois garotos negros entre 
vinte, trinta, cem brancos. Era essa a argumentacado que 
me davam, me explicavam que essa efa a faz4o, pergun- 
tei mais de uma vez e me deram essa resposta. Eu nao 
me importava. Como podia, ainda no sexto primério, 
me importar com isso, sobretudo se a gente nao vem de 
140 CONVERSAS COM FREI BETTO 
uma familia operaria ou de uma familia capaz de expli- 
cat o problema da discriminacao racial? Eu nao sabia 
que existia, nem me dava conta da discriminagao racial, 
era por mera curiosidade que eu perguntava a razao pela 
qual nao havia negros. Davam-me uma explicacgZo e eu 
ficava mais ou menos satisfeito com ela. Diziam-me 
assim: coitados dos meninos que s4o negros, aqui se sen- 
tiriam mal por n4o serem da cor da maioria dos alunos. 
Nao me lembro de ter visto, nos anos em que estive 
naquela escola, um aluno negro. Talvez nao aceitassem 
nem mulato. E claro que nao submetiam o sujeito que 
chegava a escola a uma prova de sangue, como se fazia 
nas SS de Adolf Hitler, mas, sem dtvida, se ele nao era 
aparentemente branco, nao ingressava no colégio. Nao 
sel quantos casos houve, se alguma familia tentou. Eu 
no estava em condicGes de saber se recusaram um aluno 
por nao ser branco. 
Bem, isso era outro problema, ja da esfera do poli- 
tico-social. Em sintese, eram colégios de privilegiados. 
E, sem amargura, falo do que havia de negativo e de 
positivo, pois pessoalmente conservo um sentimento de 
gratidao para com aqueles professores, para com aquelas 
instituicdes, porque, pelo menos, algumas coisas posi- 
tivas que havia em mim nfo se perderam, foram apri- 
moradas naquelas escolas. Acho que também influiram 
muito certos fatores pessoais, de carater e de circunstan- 
clas pessoais. Creio que o homem € também filho de 
uma luta, das dificuldades, dos problemas que o vio 
lapidando nisso que ele tem de material e de espiritual, 
como um torno prepara um pedaco de ferro. 
FIDEL E A RELIGIAO 141 
O curso secunda4rio 
Fret Betto — Fale m pouco dos retiros espirituais, 
dos... 
Fidel Castro — Bem, os tetitos espirituais per- 
tencem a uma etapa posterior. Daquele colégio trans- 
firo-me para o colégio dos jesuitas em Havana. La eu 
nao tivera conflitos, alcangara completo éxito nos estu- 
dos € nos esportes, nao sentita dificuldades no sexto pri- 
mario, nem no sétimo, nem no primeiro e no segundo 
anos do curso secundario. Fiquei 14 até terminar este 
curso. De modo consciente, decido procurar novos hori- 
zontes. Pode ser que o prestigio do colégio de Havana 
tenha influido, os albuns e os livros sobre 0 colégio, os 
edificios, talvez isso me motivata a mudar de colégio. 
Decidi, falei em casa e aceitaram minha transferéncia. 
Fret Betto — Para Havana? 
Fidel Castro — Para Havana. 
Fret Betto — Como era o nome do colégio? 
Fidel Castro — O Colégio Belém, dos jesuitas 
de Havana, que era a melhor escola que os jesuitas 
tinham no pais, e possivelmente a melhor escola de todo 
o pais, devido a infra-estrutura, as instalagdes. Uma 
gtande construcéo, um centro de enorme prestigio, 
onde estudavam a flor e a nata da aristocracia e da bur- 
guesia cubanas. 
Fret Betto — Ainda existe este colégio? 
Fidel Castro — Sim, apés a vitdria da Revolucao 
este colégio se converteu num instituto tecnoldgico. 
Hoje é um instituto superior de tecnologia militar, o 
Instituto Técnico Militar, de nivel universitario. E agora 
uma grande construcgdo, que foi ampliada. Houve um 
tempo em que setviu de escola técnica. Depois, por ne- 
cessidade de se aprimorar as Forgas Armadas, decidimos 
142 CONVERSAS COM FREI BETTO 
usat o local para fazer funcionar ali o ITM, como € 
conhecido. No meu tempo, havia ali cerca de duzentos 
internos e, ao todo, uns mil alunos, entre internos e 
semi-internos. Cobrava um pouco mais caro, uns cin- 
qiienta délares mensais. Evidentemente havia mais fun- 
cionarios leigos, muito mais espaco, mais gastos, a qua- 
lidade de alimentacZo era bem melhor e contava com 
areas espottivas excelentes. Mesmo assim, a meu ver era 
muito barato tudo aquilo por cinqtienta délares. Digo 
délares porque, atualmente na América Latina, devido 
4 inflacdo, ninguém sabe o que significa um peso. De 
novo, o espirito de sacrificio e a austeridade dos jesuitas 
tornavam possivel um custo relativamente moderado. 
Fret Betto — Cinqiienta délares por més. 
Fidel Castro — Sim,por més. O espirito de sa- 
crificio e a austeridade dos jesuitas, a vida que leva- 
vam, seu trabalho e esforco tornavam viavel uma escola 
daquela categoria a este preco. Uma escola dessas custa- 
tia hoje, nos Estados Unidos, mais de quinhentos déla- 
res mensais. Havia varias quadras de basquete, campos 
de beisebol, pistas de corrida, quadras de vélei; tinha 
até uma piscina. Era de fato uma grande escola. Eu era 
um pouco mais velho, ja estava no terceiro ano do curso 
secundario. 
Nunca eu havia visitado a capital da Repdblica. 
Estive em Buiran nas férias, deram-me dinheiro para 
compfat roupas e outtas coisas. Tinha que pagar tam- 
bém a matricula, os livros e fazer outros gastos. Arrumei 
a mala e vim pela primeira vez a Havana. 
Fret Betto — Quantos anos tinha? 
Fidel Castro — Acabava de completar dezesseis 
anos. Nasci em agosto e, portanto, em setembro ja tinha 
dezesseis anos. 
Fret Betto — Aqui as aulas comecam em setembro. 
FIDEL E A RELIGIAO 143 
Fidel Castro — Em setembro. Eu fizera aniversa- 
tio a 13 de agosto. Entao, entro no time de basquete e 
em outtas modalidades esportivas, na categoria de de- 
zesseis anos. Comeco a participar ativamente dos espor- 
tes e consigo sobressair-me no basquete, no futebol, no 
beisebol, no atletismo, em quase todos. Encontrei 
amplo leque de atividades, no qual as principais eram os 
esportes e as excursdes. Eu conservava minha antiga pre- 
dilecéo pelas montanhas, pelo campismo, por todas 
essas coisas que, por iniciativa propria, eu continuava 
fazendo. Havia 14 um grupo de exploradores; parece 
que, nas primeiras excurses que fizemos, os professores 
perceberam que eu me saira bem e me promoveram, me 
fizeram chefe dos exploradores do colégio, general dos 
exploradores, como chamavam., 
Fret Betto — O que significa exploradores? 
Fidel Castro — Era um grupo que se parecia com 
os escoteiros, tinham seu uniforme, curtiam a vida 
livre no campo, faziam um ou dois dias de acampa- 
mento, montavam guarda, todas essas coisas, 4s quais 
eu, por minha pr6pria conta, acrescia outras, como 
escalar montanhas e aventuras semelhantes. Quando eu 
me encontrava naquele colégio, escalei a montanha mais 
alta do Ocidente. Tivemos trés dias seguidos de férias e 
eu mesmo organizei uma excursdo 4 Provincia de Pinar 
del Rio, com mais trés companheiros. S6 que, em vez de 
trés dias, a expedico demorou cinco, porque a monta- 
nha ficava ao norte e eu nao conseguia localiz4-la com 
exatiddo e tivemos que procura-la. Viajamos pela ferro- 
via tumo ao sul e a montanha estava ao norte. Iniciamos 
a busca de noite e caminhamos trés dias até encontrar o 
pico de Guajaibon, bastante dificil de subir, mas subi- 
mos, sO que regressamos dois dias mais tarde, quando as 
aulas haviam recomecado. Houve preocupagoes porque 
144 CONVERSAS COM FREI BETTO 
nao sabiam se havia acontecido alguma coisa, se esta- 
vamos perfdidos. 
Naquela época eu desenvolvia intensa atividade, 
sobretudo na esfera do esporte, das excursdes e do alpi- 
nismo. Eu nao tinha consciéncia de que me prepatava 
para a luta revolucionaria — era impossivel imagina-lo 
naquele momento — e, além disso, estudava. Isso sem- 
pre foi uma questo de honra. Nao que eu fosse um 
aluno-modelo, nao era um 6timo aluno, justamente 
porque meu maior interesse era com 0 esporte e ativida- 
des afins. A isso eu dedicava uma parte consideravel de 
meu tempo, sempre pensando nisso. Entretanto, assistia 
pontualmente as aulas, era disciplinado, mais ou menos 
prestava atencd4o, pois sempre tive muita imaginacao e, 
em ceftas ocasides, gracas 4 imaginacao, eu voava da 
classe para percorrer o mundo, sem a menor idéia do 
que disseta o professor durante 45 minutos. Acho que 
também os professores tinham sua parcela de culpa 
nisso. 
Acontecia 0 seguinte: como eu era atleta e de certo 
modo me sobressaia, durante as competicdes nao eram 
muito exigentes comigo. Depois sim, quando ja haviam 
passado as glorias do campeonato, das medalhas e das 
competicdes. Colégios como aquele tinham suas concor- 
réncias e rivalidades, isso fazia parte da histdria, do pres- 
tigio e do nome da escola. 
Refiro-me aqui a esfera do estudo, porque em geral 
efam exigentes com o procedimento dos alunos. Havia 
uns tantos padres bem-preparados, cientistas, entendi- 
dos em fisica, em quimica, em matemi§tica, em litera- 
tura, embora politicamente muito ruins. Esse periodo a 
que me refiro vai de 1942 a 1945. Termino o curso 
secundario em 1945, quando acaba a Segunda Guerra 
Mundial. 
FIDEL E A RELIGIAO 145 
Poucos anos antes daquele periodo, terminara a 
Guerra Civil Espanhola e todos aqueles sacerdotes, 
inclusive os que ainda nao estavam ordenados, mas que 
também davam aulas, eram politicamente nacionalistas. 
Falando mais claro, eram todos franquistas, sem exce- 
¢40, quase todos de origem espanhola, se bem que havia 
alguns cubanos, mas poucos. Terminara a Guerra Civil 
Espanhola, comentava-se muito os horrores da guerra; 
falava-se dos nacionalistas fuzilados, inclusive dos reli- 
giosos fuzilados. Mas quase no se falava dos republi- 
canos e dos comunistas fuzilados, pois tudo indica que a 
Guerra Civil Espanhola foi sangrenta e de ambas as 
partes houve intransigéncias. 
Fret Betto — Foi ent&o a primeira vez que o senhor 
ouviu falar de comunismo? 
Fidel Castro — Bem, j4 ha algum tempo eu ouvira 
falar de comunismo, como uma coisa horrivel. Assim se 
referiam sempre ao comunismo. Posso falar a vocé sobre 
isso € cfeio que em outro momento falaremos disso, no 
terreno politico. Mas lhe afirmo que aqueles jesuitas 
eram todos gente de direita. Sem diivida que entre eles 
havia gente generosa, gente com sentimento de solida- 
riedade para com os outtfos, incontestaveis em muitos 
aspectos. Porém, a ideologia era direitista, franquista, 
reacionaria. Nao havia uma s6 excecao, lhe asseguro. 
Portanto, nao tem sentido dizer que, naquela época, 
havia em Cuba um jesuita de esquerda. Hoje sei que ha 
muitos de esquerda, e acredito que houve na hist6ria, 
mais de uma vez, jesuitas de esquerda. Todavia, na 
escola em que estudei, terminada a Guerra Civil Espa- 
nhola nao havia um s6 jesuita de esquerda. Deste ponto 
de vista, foi o pior periodo de todos. Como falei a vocé, 
eu ‘me dedicava ao esporte e no me importava muito 
com isso, mas observava. E procurava levar adiante os 
146 CONVERSAS COM FREI BETTO 
estudos. Apesar de nao ser um modelo de estudante, 
sentia o dever moral de passar nas provas, isso era para 
mim uma questdo de honra e, em geral, minhas notas 
eram boas, embora eu nao prestasse muita atengao nas 
aulas e tivesse o mau habito de estudar sobretudo em 
época de exames. Hoje, em nosso pais, criticamos isso € 
com toda a razdo. 
Eu tinha algumas responsabilidades no colégio, 
porque incumbiam os alunos de determinadas tarefas: 
vocé se encarrega de tal classe ou de tal salao de estudos; 
ele, de apagar as luzes, fechar as janelas e as portas. Era 
eu o respons4vel pelo salao central de estudos, onde fica- 
vamos algum tempo apos o jantar, antes de ir dormir. 
Quando chegavam os periodos de exames, eu, que devia 
ser o Gltimo a sair, ficava naquele salao duas, trés, ou 
quatro horas, repassando as matérias. Embora nao fosse 
inteiramente correto, eles me toleravam, talvez porque 
isso nado prejudicasse a ninguém. No periodo de provas, 
estudava 0 tempo todo: antes e depois do almoco e nos 
recreios. Entéo, tudo o que eu nfo havia aprendido de 
matematica, nem de fisica, de quimica e de biologia, eu 
estudava nos livros. Em todas essas matérias fui autodi- 
data. E de algum modo dei um jeito de entendé-las — 
parece que desenvolvi certa habilidade para destrinchar 
Os mist€érios da fisica, da geometria, da matem§atica, da 
botanica e da quimica, s6 com os textos. E nos exames 
eu conseguia obter excelentes notas, muitas vezes acima 
da média, pois vinham professores dos educandarios 
oficiais examinat-nos e suas avaliacSes eram muito 
importantes para o colégio. 
FretBetto — Quem eram? 
Fidel Castro — Existiam os educandarios oficiais 
de curso secund4rio e, segundo as leis do pais, esco- 
las privadas que, sem diivida, serviam aos setores mais 
FIDEL E A RELIGIAO 147 
privilegiados da populacéo, também eram obriga- 
das a observar as leis e os programas oficiais. Alias, nado 
se esqueca que, naquela €poca, aconteciam certas coisas: 
efa 0 momento da guerra mundial, das frentes popu- 
lares e, em alguns paises, surgiram leis reguladoras do 
sistema educacional. E nossa Constituicio, aprovada em 
1940, continha algumas coisas avancadas sobre o ensino 
ea escola leiga. Havia um programa tinico e, por ocasiao 
dos exames, os professores da rede oficial, gente um 
tanto ou quanto convencida, vinham examinar-nos, 
verificar como andavam os privilegiados alunos dos 
jesuitas e de outras escolas similares. Em geral, aplica- 
vam provas dificeis. Uns mais, outros menos. Penso que 
uns com mais simpatia e outros, com menos. Era a 
€poca, repito, das frentes populares e da alianca anti- 
fascista, inclusive o Partido Comunista, que havia parti- 
cipado da Constituinte, teve depois certa influéncia no 
governo e contribuiu para 2 aprovacao de algumas 
daquelas disposicées legais. 
Bem, entao vinham os exames, chegavam os profes- 
sores e, via de regta, davam provas apertadas. Minha 
especialidade era enfrentar aquelas provas dos professo- 
res da rede oficial, nas quais muitas vezes os melhores 
alunos se atrapalhavam e nao respondiam de maneira 
adequada. Diversas vezes tirei o maximo de pontos em 
matérias consideradas dificeis. Lembro-me que, num 
exame de Geografia de Cuba, a Gnica nota maxima foi a 
minha, com noventa pontos. Quando o colégio pro- 
testava contra aqueles professores e indagava por que 
notas tao baixas, eles diziam: ‘‘Porque 0 texto que vocés 
usam nao é bom’’. Mas nossos professores argumen- 
tavam: ‘‘Tudo bem, mas ha um aluno que, com este 
mesmo texto, fez noventa pontos’’. E que eu usava um 
pouco de imaginacao, fazia esforco para explicai a ques- 
148 CONVERSAS COM FREI BETTO 
tao. Passar nos exames era pafa mim uma quest4o de 
honra. 
Aquele foi um periodo em que pratiquei muito 
esporte, exploracdo e coisas afins, s6 estudando na hora 
das provas, contudo tirando boas notas. 
Também me felacionei muito com os colegas, fiz 
muitas amizades, e sem que eu notasse e nem preten- 
desse, fui adquirindo certa popularidade entre eles, 
como esportista, como atleta, como explorador, como 
alpinista e como o sujeito que, no fim das contas, tirava 
boas notas. E possivel que naquele perfodo se manifes- 
tassem algumas qualidades politicas inconscientes. 
Os retiros espirituais 
Fret Betto — O senhor ia falar dos retiros espi- 
rituais. 
Fidel Castro — Ja nesse petiodo tinhamos reti- 
ros espirituais. Nao preciso dizer que, em toda essa 
etapa, a formacdo religiosa continuou a mesma, igual 
aquela do Colégio Dolores, pois mesmo naquela idade, 
quando ja estudévamos légica e elementos de filoso- 
fia, o sistema aplicado era o mesmo. Ja havia a insti- 
tuigao dos retiros espirituais. Eram trés dias de retiro 
por ano, as vezes la mesmo no colégio, outras em algum 
lugar fora. Consistiam em enclausurar os alunos durante 
trés dias, para conferéncias religiosas, meditacdo, reco- 
lhimento e siléncio, que era de certo modo a parte mais 
cruel dos fetiros, porque de repente a gente tinha que 
ficat em mudez absoluta. Entretanto, aquela quietude 
tinha também aspectos agradaveis. Lembro-me que, de 
tanto filosofar, se nos despertava um tremendo apetite; 
portanto, hora de almogo e de jantar eram horas magni- 
FIDEL E A RELIGIAO 149 
ficas, bem atrativas e de grande satisfacao. Comecavam 
cedo os exercicios. 
Um momento, devo acrescentar que naquelas esco- 
las tinhamos que ir 4 missa todos os dias. 
Fret Betto — Todos os dias? 
Fidel Castro — Sim. Volto a sublinhar outro fator 
que me parece negativo, obrigar o aluno a ir 4 missa 
todos os dias. 
Fret Betto — Tanto no Dolores como no Belém? 
Fidel Castro — Tanto no Dolores como no Belém. 
Nao me lembro como era no La Salle, mas do Dolores 
e do Belém me lembro bem, era obrigado a ir 4 missa 
todos os dias. | 
Fret Betto — Pela manha? 
Fidel Castro — Sim, pela manha, em jejum. Le- 
vantava-se pafa ir 4 missa e s6 depois tomava-se o café. 
O mesmo ritual todos os dias, cbrigatoriamente. Era 
uma coisa mecanica, um abuso, e ndo creio que esse tipo 
-de coisa, de obrigar 0 jovem a ir 4 missa, o ajudasse. 
Junto com a missa havia as oragdes. Bem, meu 
modo de ver: o melhor que posso dizer € que nao pro- 
voca um efeito positivo o fato de se repetir uma oracao 
cem vezes, pronunciando mecanicamente Aves-Marias e 
Pai-Nossos. Quantos rezei em minha vida, todos os anos! 
Sera que alguma vez parei pata pensar o que significava 
aquela oracao? Por exemplo, notei depois em outras 
religides o habito de se fazer oragéo como quem fala com 
outra pessoa, espontaneamente, com as préprias pala- 
vras e idéias, pata fazer uma sdplica, ou um pedido, 
para expfessar uma vontade ou um sentimento. Isso 
nunca nos ensinatam, mas somente o fepetir o que 
estava escrito, e a fepeti-lo uma, dez, cinqtienta, cem 
vezes, de uma forma absolutamente mecanica. Me pa- 
rece que realmente isso nao é uma otac4o, pode ser um 
150 CONVERSAS COM FREI BETTO 
exercicio das cordas vocais, da voz, do que quiser, até 
mesmo da paciéncia, mas nao € uma ofracdo. 
Frei Betto — E uma coisa mecAnica. 
Fidel Castro — E muitas vezes tinhamos que fe- 
zat também a ladainha em latim e grego, e eu nao sa- 
bia o que significava Kye eletson, Christe eletson. 
Um rezava a ladainha e outros respondiam: Ora pro 
nobis. Coisas assim. Ainda me lembro da ladainha. Nao 
sabiamos o que queria dizer, nem o que estavamos 
dizendo, repetiamos mecanicamente. Ao longo de 
muitos anos, nos acostumamos a isso. Creio, e digo isso 
francamente aqui nesta conversa, que me parece uma 
grande falha da educaco religiosa que conheci. 
Fret Betto — A nés também. 
Fidel Castro — Os exetcicios espirituais nos indu- 
ziam a meditar, naquela idade de dezesseis, dezes- 
sete e dezoito anos. Naqueles trés dias de meditacdo, 
havia alguma meditacdo filos6fica, alguma meditacao 
teol6gica, mas a argumentacado fundamental girava em 
torno do castigo, que efa o mais provavel, segundo todas 
aS aparéncias e circunstancias; e em torno da recom- 
pensa. Uma recompensa que despertava a nossa fantasia 
€ uM castigo que instigava nossa imaginac4o ao infinito. 
Recordo-me de longos sermdes de meditacao sobre 
o inferno, o calor do inferno, os sofrimentos do inferno, 
o tédio do inferno, o desespero do inferno. Ora, nao sei 
como foi possivel inventar um inferno tao cruel como o 
que nos descreviam, pois nZo se concebe tanta dureza 
com: uma pessoa, por maiores que tenham sido seus 
pecados. Além disso, nao havia proporc4o com os pe- 
quenos pecados. Até duvidar de algo que nfo ficara 
claro sobre determinado dogma era pecado. Tinha-se 
que crer, € quem nfo acreditasse podia ser condenado 
ao inferno. Se vocé morresse, sofresse um acidente nesse 
FIDEL E A RELIGIAO 151 
estado de falta, devia arcar com as conseqtiéncias. De 
fato, nao havia propor¢ao entre aquele castigo eterno ea 
falta do individuo. 4 
Portanto, exaltava-se a imaginacdo. Lembro-me 
ainda de um exemplo que contavam naqueles exercicios 
espirituais. Havia sempre algum material escrito, disser- 
tagdes ou comentarios, mas nos diziam: ‘‘Para que 
tenham uma idéia do que é a eternidade, meus filhos, 
imaginem uma bola de aco do tamanho do mundo (e eu 
tratava de imaginar uma bola de aco do tamanho do 
mundo, 40 mil quilémetros de circunferéncia). Entio 
uma mosca, uma pequena mosca, a cada mil anos apro- 
xima-se da bola, rocando-a com as suas ventas. Pois 
bem, primeiro se acabar4 aquela bola de aco do tama- 
nho do mundo, devido ao rogar das ventas da mosca a 
cada mil anos, antes que o inferno acabe. E, mesmo 
depois, ele continuar4 existindo eternamente’’. Era esse 
otipo de reflex4o; eu diria que era uma espécie de terror 
mental, aquelas pregagSes muitas vezes viravam terro- 
rismo mental. 
Ora, estamos no fim do século XX, nao passou 
muito tempo, quase me espanto que tenha sido ha rela- 
tivamente pouco tempo, quarenta anos! E em nosso 
pais, num dos melhores colégios que freqtientavamos, 
era esse 0 tipo de formacio religiosa que nos davam. 
Nao acho que tenha sido uma forma eficaz de cultivar o 
sentimento religioso. 
Frei Betto — Falava-se muito da Biblia? _ 
Fidel Castro — Falava-se, mas nao muito. As vezes 
se explicava uma parabola ou algum trecho do Evange- 
lho. Na verdade, durante todo aquele periodo estuda- 
mos hist6ria sagrada e, a cada ano, num volume maior. 
Comegava-se pot um pequeno texto e a cada etapa do 
curso ampliava-se o contetido. A histéria sagrada sempre 
152 CONVERSAS COM FREI BETTO 
me interessou, por seu contefido fabuloso. Para a mente 
de uma ctianca ou de um adolescente, era uma coisa ma- 
ravilhosa conhecer tudo o que ocorrera, desde a criacao 
do mundo até o dilGvio universal. 
Ah, ha uma coisa da hist6ria sagrada que nao me 
esqueco, nao sei se consta realmente da Biblia e, se 
consta, me parece necess4rio analisar melhor. E o se- 
guinte: apds o diltivio universal, um dos filhos de Noé 
— seriam os filhos de No€é? — zombou de seu pai. Noé 
cultivou a vinha, embriagou-se, um filho zombou dele 
e, em conseqiiéncia, ele condenou seus descendentes a 
serem negros. Esta na hist6ria sagrada, foi um dos filhos 
de Noé, ndo sei se Canaa. Quais eram os filhos de Noé? 
Frei Betto — Eram Sem, Cam e Jafé. No texto bibli- 
co, no livro do Génesis, Cana& aparece como filho de 
Cam e, logo em seguida, figura como sendo o filho mais 
jovem de Noé. De fato, a maldicdéo de Noé sobre Canaa 
foi para que ele se tornasse o Gltimo dos escravos. E 
como na América Latina os escravos eram negros, algu- 
mas tradug6es antigas colocam negro como sinénimo de 
escravo. Além disso, os descendentes de Canaa seriam os 
povos do Egito, da Etiépia e da Arabia, que tém a pele 
mais escura. Mas no texto biblico essa descendéncia nao 
figura como parte da maldicgZo, a nao ser que se faca 
uma interpretacgéo tendenciosa como a que procuta jus- 
tificar religiosamente o apartheid. 
Fidel Castro — Bem, me ensinaram que um dos 
filhos de Noé foi condenado a ter descendentes negros. 
E preciso ver se ainda se ensina isto, se uma religiao 
pode ensinar que ser negro € um castigo de Deus. Lem- 
bro-me desta questao naquela histéria sagrada. Nao 
obstante, tudo aquilo nos maravilhava: a construcado da 
atca, a chuva, os animais, quando a arca encalhara, 
como era a vida, a hist6ria de Moisés, a travessia do mar 
FIDEL E A RELIGIAO 153 
Vermelho, a Terra Prometida, todas as guerras e bata- 
lhas que ha na Biblia. Acho que foi na historia sagrada 
que, pela primeira vez, ouvi falar em guertas. Se poste- 
riormente adquiri certo interesse pelas artes matciais, 
devo reconhecer que, desde ent4o, eu nutria uma espan- 
tosa curiosidade pela derrubada das torres de Jericé por 
Josué, os cercos, as trombetas, inclusive Sansdo e sua 
forca herctilea, capaz de derrubar um templo com as 
proprias maos. Tudo aquilo era, para nés, verdadeira- 
mente fascinante. 
Todo esse periodo do Antigo Testamento — Jonas, 
a baleia que o devorou, o castigo de Babilénia, o profeta 
Daniel — consistia, para nés, em maravilhosas hist6rias. 
Contavam-se também histérias de outros povos, mas 
nenhuma to fascinante como a hist6ria sagrada do 
Antigo Testamento. 
Frei Betto — Havia também um livro chamado 
Imitagao de Cristo? 
Fidel Castro — Parece que havia algo assim. Na 
histéria sagrada, vinha posteriormente o estudo do 
Novo Testamento e de suas diversas parabolas. Eram 
explicadas na linguagem biblica e despertavam muito o 
nosso interesse. Indiscutivelmente, o processo da morte 
e da crucificacao de Cristo e as explicagdes que davam 
produziam impacto na crianga e no jovem. 
O compromisso com os pobres 
Frei Betto — Como o senhor comecou a set sensivel 
a causa dos pobres? 
Fidel Castro — Devo buscar essas raizes em minha 
experiéncia desde crianga. Onde nasci, tinhamos uma 
vida em comum com gente mais humilde, com ga- 
154 CONVERSAS COM FREI BETTO 
rotos que andavam descalcgos. Hoje me dou conta que 
eles deviam passar todo tipo de necessidades. Fico pen- 
sando agora como aquela gente sofria e como devia ter 
doencas! Naquela época eu nao tinha consciéncia disso e 
mantinha lacos muito estreitos com aqueles companhei- 
ros e amigos, com os quais ia aos fios, as florestas, as 
arvores, aOs cuffais ou cacar e brincar. Eram eles os 
nossos amigos e companheiros de férias. Nao nos sentia- 
mos em outta classe social. Era com essa gente que anda- 
vamos e tinhamos amizade, desfrutando a liberdade que 
havia naquela regiao. Em Biran, nao existia uma socie- 
dade burguesa ou feudal, com vinte ou trinta fazendeiros 
cujas familias se reunissem formando um s6 grupo. 
Meu pai era um fazendeiro isolado. De vez em 
quando aparecia um amigo por 14 e raramente uma 
visita. Meus pais nao tinham o costume de sair dali para 
visitarem outras familias. Dedicavam todo 0 tempo ao 
trabalho e nossa unica relacgdo era com os que viviam ali. 
Freqtientavamos os barracdes dos haitianos e, as vezes, 
nos chamavam a atenc4o, mas nao por estarmos ali, e 
sim por razdes de satide, pois comiamos com eles milho 
assado. La em casa jamais nos advertiram para nao andar 
com esta ou aquela pessoa. Portanto, nossa cultura nao 
era a de uma familia de classe rica ou fazendeira. 
E claro que a gente nao ignorava o privilégio de 
possuir muitas coisas, de ter de tudo e de ser tratado com 
certa consideragéo. Mas € um fato que nos criamos e 
crescemos entre aquele pessoal, sem nenhum precon- 
ceito ou-algo que se parecesse 4 cultura e a ideologia 
burguesas. Esse fator certamente teve sua influéncia. 
Da formacéo que recebemos na escola, do que 
aprendemos com os professores, e inclusive da prépria 
familia, adquitimos muitos princfpios éticos. Desde 
pequeno aprendi que nfo se deve mentir. Havia uma 
FIDEL E A RELIGIAO 155 
figorosa ética na educacéo dada por meu pai e minha 
mae. Nao era uma ética filoséfica ou marxista, era uma 
ética religiosa. Ensinavam-nos a noc3o do bem e do mal, 
do que € certo ou errado. Em nossa sociedade, a pri- 
meira nogdo de um principio ético pode ter tido como 
fundamento a religiao. Naquela atmosfera religiosa, 
embora houvesse coisas itracionais, como acreditar que 
se uma coruja voasse e cantasse ou se um galo fizesse tal 
coisa podiam atrair desgracas, por tradic¢ao respirava-se 
um conjunto de normas éticas. 
Além disso, a vida que contei a vocé vai nos dando 
a percepcao do que significa fazer coisas erradas, violar 
uma ێtica, cometer uma injustica, um abuso ou falar 
mentira. Portanto, a gente ndo apenas aprende uma 
ética, mas também entra em contato com o que significa 
a violacéo de uma ética, com gente que n4o tem ética. 
Comega a ter idéia do que € justo e injusto e a assumir 
um conceito de dignidade pessoal. Nao creio que eu 
possa dar uma explicacZo cabal sobre em que se baseou 
esse senso de dignidade pessoal. H4 homens mais sensi- 
veis a isso, outros menos sensiveis. Influi o carater das 
pessoas. Por que uma pessoa € mais inconformada que a 
outra? Acho que as condig6es nas quais uma pessoa é 
educada podem torn4-la mais ou menos inconformada. 
Também influem o temperamento e o carater das pes- 
soas; algumas sao mais déceis, outras menos, umas tém 
mais tendéncia 4 disciplina e a obediéncia, outras 
menos. O fato € que, na vida, a gente comega a tef 
nocao do que € justo ou injusto. Pelo que vi e sofri em 
toda a minha vida, desde cedo tive clareza do que € justo 
ou injusto. Educaram-me também o exercicio fisico e 0 
espotte: o rigor, a capacidade de suportar um grande 
esforco, a vontade de alcangar um objetivo, a disciplina 
que a gente se impée a si mesmo. 
156 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Influiram tambémos professores, sobretudo 0 je- 
suita espanhol, que souberam imbuir-me de um forte 
senso de dignidade pessoal, nado obstante suas idéias 
politicas. O jesuita, como quase todo espanhol, tinha 
um acentuado grau de honra pessoal. Sabia valorizar a 
estima pelo carater e pela retidao, pela franqueza, pela 
coragem pessoal, pela capacidade de suportar sacrificios. 
Indiscutivelmente os jesuitas influiram na formacao da 
gente com seus valores, com o rigor de sua organizacao e 
disciplina, inclusive no senso de justica, talyez bastante 
elementar, mas que significou um ponto de partida. 
Nessa perspectiva, torna-se inconcebivel um abuso, 
uma injustica, a simples humilhacgao de outro homem. 
Sao valores que se formam na consciéncia de um homem 
e o acompanham. Portanto, vejo que fui formado por 
um conjunto de coisas. Primeiro, adquiri certos princi- 
plos éticos e, em seguida, a vida me impediu de assumir 
uma cultura de classe, uma consciéncia de classe dife- 
rente e superior a outra. Penso que esta foi a base com a 
qual posteriormente desenvolvi uma consciéncia politica. 
Se vocé combina principios éticos, espirito de rebel- 
dia, recusa a injustica e toda uma série de coisas que vocé 
comega a apreciar ea valorizar profundamente, ainda 
que outros nao valorizem, inclusive o senso de digni- 
dade pessoal, de honra e de dever, penso que essa € a 
base fundamental para que um homem adquira uma 
consciéncia politica. Sobretudo em meu caso, pois nao a 
adquiri porque vinha de uma classe pobre, proletaria, 
camponesa, humilde, nem por minhas condicGes so- 
ciais. Adquiri minha consciéncia através do pensamento, 
da reflexdo, do desenvolvimento de um sentimento e de 
uma conviccao profundos. 
E o mesmo que eu lhe dizia da f€: a capacidade de 
refletir, de pensar, de analisar, de meditar e de aprimo- 
FIDEL E A RELIGIAO 157 
fat O sentimento € que tornou possivel que eu adquirisse 
idéias revolucionarias. E com uma circunstancia especial: 
ninguém me incutiw idéias politicas, nao tive o privilé- 
gio de ter um mentor. Quase todos os homens de nossa 
hist6ria tiveram um mentor, um guia ou um professor, 
alguém que fosse o preceptor. Infelizmente, tive que ser 
meu pr6prio preceptor ao longo da vida. Quanto eu 
agtadeceria a alguém que houvesse me ajudado quando 
tinha doze, catorze, quinze anos! Quanto eu agradeceria 
que me houvessem instruido politicamente ou me incu- 
tido idéias revolucion4rias! 
Nao conseguiram incutir-me a fé religiosa porque 
tentaram fazé-lo por métodos mecAnicos, dogmaticos e 
ittacionais. Se alguém me pergunta: quando vocé teve 
uma conviccao religiosa? Digo: realmente nunca a tive, 
nunca cheguei a ter uma verdadeira conviccao e fé reli- 
giosas. Na escola nao foram capazes de incutiz-me esses 
valores. Posteriormente adquiri outros valores: uma con- 
viccdo politica, uma fé politica que tive de forjar por 
minha conta, através de minhas experiéncias, de minhas 
teflexdes e de meus pr6prios sentimentos. 
E claro que de nada valem as idéias politicas se nao 
ha um sentimento nobre e desinteressado. As vezes, de 
nada valem os sentimentos nobres se nao se apdiam 
numa idéia justa e corteta. Estou convencido de que 
sobre os mesmos pilares em que se apdia hoje o sacrificio 
de um revolucionario, se apoiou ontem o sacrificio de 
um miéartir por sua fé religiosa. Em suma, a meu ver, a 
matéria-prima do martir religioso era a mesma do heréi 
_revolucionario e consistia no homem desinteressado e 
altruista. Sem essas condig6es nao existem e nem podem 
_existir o herdéi religioso ou politico. 
Tive que percorrer meu caminho, um longo cami- 
nho pata desenvolver minhas idéias revolucionarias. 
158 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Tém para mim o grande valor das conclusdes a que se 
chega por si mesmo. 
Marx e Marti 
Frei Betto — Havia cristéos no grupo que atacou o 
quartel Moncada em 1953? 
Fidel Castro — Sem dtvida havia, mas nds nao 
perguntavamos pelas concepcées religiosas de ninguém. 
Sim, havia cristaos. Embora eu, quando atacamos o 
Moncada, ja tivesse uma formac4o marxista. 
Frei Betto — Ja tinha uma formacgao marxista? 
' Fidel Castro —Sim, ja tinha uma formacdo mar- 
xista-leninista e uma concepcao revolucionaria bem 
clara. 
Frei Betto — Adquitidas na universidade? 
Fidel Castro — Sim, realmente as adquiri quando 
efa estudante universitario. 
Fret Betto — Na luta politica na universidade? 
Fidel Castro — Sim, na universidade, em meus 
contatos com a literatura revolucionaria. Mas veja, ocor- 
reu-me uma coisa curiosa. Antes de deparar-me com a 
literatura marxista, enquanto estudava exclusivamente 
economia politica capitalista, comecei a tirar conclusdes 
socialistas e a imaginar uma sociedade cuja economia 
funcionasse de modo mais racional. Comecei a ser um 
comunista utdpico. Foi no terceiro ano do curso que 
passei a ter contato com as concepcoes e teorias revolu- 
cionarias, o Manifesto Comunista, as ptimeiras obras de 
Marx, de Engels e de Lénin. E confesso a vocé que me 
provocou um forte impacto a simplicidade, a clareza, a 
forma direta como o Manifesto Comunista explica o 
nosso mundo e a nossa sociedade. 
FIDEL E A RELIGIAO 159 
Mas antes de ser comunista ut6pico ou marxista, eu 
efa maftiano, n&o posso ignorar isso. Desde o curso 
secundatio o pensamento de Marti exercia atracdo sobre 
todos nés e o admiravamos. Também fui sempre um 
profundo e devoto admirador das herdicas lutas do nosso 
povo por sua independéncia, no século passado. 
Falei a vocé da Biblia e poderia falar também da 
hist6ria de nosso pais, que € maravilhosamente interes- 
sante, cheia de exemplos de valor, de dignidade e de 
heroismo. Assim como a Igreja sempre teve seus martires 
e heréis, também a hist6ria de qualquer pais tem seus 
mrtires e herdis, que formam uma espécie de religiao. 
Sentiamos veneracao ao escutar a histéria do Tita de 
Bronze, o general Maceo, que venceu tantas batalhas e 
fez tantas coisas, ou quando nos falavam de Agramonte 
ou daquele grande internacionalista dominicano e bri- 
Ihante chefe militar, Maximo Gémez, que desde 0 inicio 
lutou junto aos cubanos, ou daqueles inocentes estudan- 
tes de medicina que foram fuzilados em 1871, porque 
teriam profanado o tamulo de um espanhol. Portanto, 
ouvia-se falar de Marti, de Céspedes, o Pai da Patria, 
pois havia em nossa formagio, ao lado da histéria sagra- 
da de que falavamos antes, outra historia sagrada, a his- 
t6ria do pais e de seus herdis. Isso me chegou pela escola 
e pelos livros e nao pela familia, que nao tinha suficiente 
nivel cultural para isso. Assim fui tendo outros modelos 
de pessoas e de atitudes. 
Antes de ser marxista, fui martiano e grande admi- 
rador da hist6ria de nosso pais. Os dois nornes comecgam 
por M € acho que os dois se parecem muito. Estou abso- 
lutamente convencido de que, se Marti houvesse vivido 
na situacdo em que Marx viveu, teria as mesmas concep- 
des € mais ou menos a mesma atuagao. Marti tinha 
muito respeito por Marx, de quem disse uma vez: 
160 CONVERSAS COM FREI BETTO 
‘‘Como se colocou ao lado dos fracos, merece respeito’’. 
Quando Marx morreu, escreveu belas paginas sobre ele. 
HA coisas tao estupendas e belas no pensamento 
maftiano que, a partir dele, a gente pode converter-se 
em marxista. Embora Marti nao explicasse a divisao da 
sociedade em classes, foi um homem que esteve sempre 
ao lado dos pobres e um critico permanente dos piores 
vicios de uma sociedade de exploradores. 
Portanto, quando leio o Manifesto Comunista pela 
primeira vez, encontro uma explicagaéo. No meio da- 
quele cipoal de acontecimentos era muito dificil enten- 
der o porqué dos fenédmenos, pois tudo parecia resultar 
da maldade, dos defeitos, da perversidade e da imorali- 
dade dos homens. Comecei a ver outros fatores que nao 
se reduzem a moral do homem ou 4 sua atitude indi- 
vidual. Comecei a compreender a sociedade humana, o 
processo histérico, a diviséo que se via todos os dias, pois 
n4o efa preciso um mapa, um microscépio ou um teles- 
cépiopara ver a divisao de classes, o pobre sofrendo de 
fome, enquanto o outro possui de sobra. E quem 
melhor do que eu podia sabé-lo, j4 que vivi as duas 
coisas e, de certo modo, suportei-as? Como nao com- 
preender a experiéncia que eu mesmo vivera, a situacdo 
do proprietario e do camponés descalco sem terra? 
Ha uma coisa que me faltou acrescentar quan- 
do fale: de meu pai e de Biran. Embora ele tivesse 
muitas terras, eta um homem profundamente digno. 
Suas idéias politicas correspondiam as de um fazendeiro 
ou de um proprietario, pois adquirira consciéncia de 
proprietario no conflito entre seus interesses e os inte- 
resses dos assalariados. Porém, foi um homem que ja- 
mais deu uma fesposta negativa a quem fosse pedir-lhe 
algo ou solicitar-lhe uma ajuda. Isso € bem interessante. 
As extensas terras de meu pai estavam cercadas por 
FIDEL E A RELIGIAO 161 
grandes latifGndios norte-americanos, trés grandes usi- 
Mas acucareiras, cada qual com milhares de hectares. 
Uma delas tinha mais de 120 mil hectares e, outra, mais 
ou menos 200 mil hectares de terra. Era uma cadeia de 
usinas acucareitas. Os donos moravam em Nova Iorque e 
haviam deixado normas muito rigidas para a adminis- 
tragao de seus bens. O administrador dispunha de um 
ofgamento e nao podia empregar um centavo a mais. Na 
entressafra, muita gente dirigia-se para onde vivia 
minha familia. Falavam com meu pai: ‘‘Tenho tal pro- 
blema, temos fome, necessitamos algo, uma ajuda, um 
crédito para o armazém’’. Habitualmente n4o trabalha- 
vam ali, mas chegavam pedindo: ‘‘Precisamos de traba- 
Iho, dé-nos trabalho’’. As canas mais limpas da Rept- 
blica eram as do meu pai, pois ele dava aquele pessoal o 
trabalho de limp4-las. Nao me lembro de alguém ter ido 
pedir alguma coisa a meu pai sem que ele procurasse 
uma solucao. As vezes protestava, resmungava, se quei- 
xava, mas sempre demonsttava generosidade. Era uma 
caracteristica dele. 
Faziam com que eu trabalhasse nas férias. Quando 
adolescente, punham-me no escrit6rio ou para trabalhar 
no armazém. Eu gastava parte de minhas férias num tra- 
balho que n4o era muito voluntario, mas nao me restava 
outro remédio. Jamais se apagarao de minha mente as 
imagens de tantas pessoas humildes, descalcgas, maltra- 
pilhas e famintas, que ali chegavam pata conseguir um 
vale para comprar no armazém. Apesar de tudo, ali era 
um odsis comparado com a vida dos trabalhadores dos 
latifandios ianques, no periodo da entressafra. 
Quando comecei a ter idéias revolucionarias e a 
conhecer a literatura marxista, j4 havia visto bem de 
perto os contrastes entre riqueza e pobreza, entre uma 
familia que possuia muitas terras e os que nao tinham 
162 CONVERSAS COM FREI BETTO 
nada. Quem deveria explicar-me a diviséo da sociedade 
em classes, a exploraciéo do homem pelo homem, se eu 
vira com os préprios olhos e, de certa forma, a sofrera 
também? Quando se tem certas caracteristicas inconfor- 
mistas, ceftos principios éticos e se depara com uma 
idéia que traz enorme clareza, como as que me ajuda- 
ram a entender o mundo e a sociedade em que vivia, 
que eu via por toda parte, como nfo sentir o efeito de 
uma verdadeira revelacdo politica? Aquela literatura me 
atraiu profundamente, senti-me realmente conquistado 
por ela. Se a Ulisses lhe seduziram os cantos das sereias, 
a mim me seduziram as verdades incontestaveis da lite- 
ratura marxista. Comecei a ver, a compreender. Tive 
essa mesma experiéncia com outros compatriotas, pois 
muitos companheiros que nao tinham nenhuma idéia 
desses temas, mas que eram homens honrados e ansiosos 
para acabar com as injustigas em nosso pais, bastava 
apontar-lhes alguns elementos da teofia marxista e 0 
efeito neles era exatamente igual. 
Fret Betto — Essa consciéncia marxista nao lhe 
infundiu preconceitos na relacdo com os cristaos revolu- 
cionarios que ingressaram no 26 de Julho, como Frank 
Pais? O que ocorreu? 
Fidel Castro — Devo dizer-lhe que, de fato, nunca 
houve — em mim ou em outros companheiros, que eu 
me lembre — qualquer contradigéo com alguém por 
questo religiosa. Como lhe disse, naquele momento eu 
ja tinha uma formacao marxista-leninista. Quando ter- 
minei a universidade, em 1950, havia adquirido, em 
pouco tempo, uma completa concepcao revolucionaria, 
nao sé nas idéias, mas também nos propésitos e na for- 
ma de leva-las 4 pratica, de como aplicd-las nas condi- 
gdes de nosso pais. Creio que isso foi muito importante. 
Quando ingressei na universidade, j4 nos primeiros 
FIDEL E A RELIGIAO 163 
anos me vinculei a um partido de oposicgao que tinha 
Pposig6es bem criticas contra a corrupcdo, o roubo e a 
fraude politica. / 
Fre: Betto — O Partido Ortodoxo. 
A preparacdo politica da Revolucdo 
Fidel Castro — O Partido Ortodoxo, cujo nome 
oficial era Partido do Povo Cubano, que chegou a ter 
grande apoio de massas. Muita gente boa encontrava- 
se nesse partido. O acento principal era o combate 4 
corrupcao, ao roubo, aos abusos, a injustica, e as cons- 
tantes deniincias dos abusos de Batista, em seu periodo 
anterior. Na universidade, isso estava unido a toda uma 
tradicdo de luta, aos mArtires da escola de medicina, em 
1871; as lutas contta Machado e Batista. Naquele mo- 
mento, a universidade assumiu também posicao contra 
o governo de San Martin, devido a fraude, 4 malversacio 
e a frusttacio que significou para o pais. 
Antes de ter contato com a literatura da qual fala- 
va, tive vinculos com esse partido, como muitos jovens 
universitarios. Quando terminei 0 curso, eu estava forte- 
mente ligado ao partido, nao obstante minhas idétas 
tivessem avancado bem mais. 
Naquela época, eu pretendia fazer pés-graduacao, 
sabia que me faltava ainda uma melhor preparacdo antes 
de dedicar-me inteiramente 4 politica. Queria estudar 
economia politica. Para obter uma bolsa, fiz enorme 
esforco na universidade para assumir as matérias que me 
dariam, além do titulo de Doutor em Leis, o de Licen- 
ciatura em Direito Diplomatico e o de Doutor em Cién- 
cias Sociais. Eu ja nao dependia mais de minha familia. 
Ajudaram-me nos pfimeiros anos, mas ao terminar o 
164 CONVERSAS COM FREI BETTO 
curso inclusive me casei e j4 nao podia continuar rece- 
bendo ajuda deles. Como queria estudar, o jeito era 
conseguir uma bolsa no exterior. Para obter a bolsa, 
eram precisos os trés titulos. Ela j4 estava praticamente 
ganha, pois s6 me faltavam algumas matérias, das quais 
‘prestaria exames em dois anos.. Nenhum outro aluno do 
meu curso havia alcancado esses objetivos. Entretanto, a 
impaciéncia e 0 contato com os fatos me impeliram a 
atuar. De modo que me faltaram trés anos para apro- 
fundar os estudos, isso que vocé fez 14 no seu convento, 
como monge da Ordem dos Dominicanos. Os anos que 
vocé dedicou ao estudo da teologia me faltaram para 
dedica-los ao estudo da economia e pata aperfeicoar e 
aprofundar meus conhecimentos teéricos. 
Bem equipado de idéias fundamentais, basicas, e ja 
com uma concep¢ao revolucionaria, decido coloca-las 
em pratica. Desde antes do golpe de Estado de 10 de 
marco de 1952, eu tinha uma concep¢4o revolucionaria e 
a idéia de como lev4-la 4 pratica. Quando ingressei na 
universidade, ainda nao tinha uma cultura revoluciona- 
tia. Transcorreram menos de oito anos entre a elabora- 
¢ao dessa concepcao e o triunfo da Revolugao em Cuba. 
Ja disse que nao tive um mentor. Portanto, para 
elaborar e pér em pratica essas idéias, em t%0o pouco 
tempo, foi preciso um grande esforco de reflexao. Nisso 
teve papel decisivo o que aprendi do marxismo-leninis- 
mo. Creio que minha contribuicao 4 Revolucao Cubana 
consiste em ter realizado uma sintese entre as idéias de 
Marti e o marxismo-leninismo e té-la aplicado conse- 
qlientemente em nossa luta. 
Os comunistas cubanos encontravam-se isolados 
devido ao cerco que lhes faziam o imperialismo, o ma- 
carthismo e a reacao. Estou convencido de que qualquer 
coisa que fizessem nao romperia o isolamento. Haviam 
FIDEL E A RELIGIAO 165 
obtidoforca no movimento operario, tinham um bom 
namero de militantes que trabalharam com a classe. 
operaria cubana, que se consagraram e muito fizeram 
pelos trabalhadores, e que gozavam de muito prestigio 
entre eles. Mas, naquelas circunstancias, nao havia 
nenhuma possibilidade politica para eles. 
Foi ent&o que concebi uma estratégia revolucion4- 
tia pata levar a pratica uma revolucio social profunda, 
mas por fases, por etapas. Fundamentalmente o que 
concebi foi fazé-la com aquela grande massa rebelde, 
inconformada, que nao tinha uma consciéncia madura 
para a revolucdo, mas que constituia a imensa maioria 
do povo. Afirmo: ‘‘essa massa rebelde, saudavel e mo- 
desta do povo é a forca que pode fazer a revolucdo, é 0 
fator decisivo da revolucdo; € preciso levar essa massa 4 
revolucao e leva-la por etapas’’. Pois essa consciéncia nao 
setia formada por palavras e de um dia para o outro. Vi 
claro que a grande massa eta o fator fundamental, ape- 
sar de confusa por vezes, com preconceitos em relacao ao 
socialismo, ao comunismo, pois nao pudera alcangar 
uma verdadeira cultura politica e sofrera toda sorte de 
influéncias, através de todos os meios de comunicagao: o 
radio, a TV, 0 cinema, os livros, as revistas, os jornais 
didrios e a pregacdo anti-socialista e reacionaria que sur- 
gia de todos os lados. Entre outras coisas, apresentava-se 
o socialismo e 0 comunismo como inimigos da humani- 
dade. Esse era um dos recursos arbitratios e injustos de 
que se serviam os meios de comunicacgéo em nosso pais. 
Como em toda parte, era um dos métodos utilizados 
pela sociedade reacionaria de Cuba. Desde crianga se 
ouvia dizer que o socialismo negava a patria, tomava a 
terra dos camponeses e os bens pessoais do povo, sepa- 
rava as familias, etc. Ja Marx em seu tempo fora acusado 
de querer socializar as mulheres, o que mereceu uma 
166 CONVERSAS COM FREI BETTO 
contundente réplica do grande pensador. As coisas mais 
horriveis e absurdas foram inventadas para envenenar o 
povo contra as idéias revolucionarias. Entre a massa, 
havia mendigos, desempregados e famintos que eram 
anticomunistas. Nao sabiam o que efa comunismo ou 
socialismo. No entanto, a gente via aquela massa que 
softia pobreza, injustica, humilhacdo, desigualdade, 
pois o sofrimento do povo nao se mede apenas em 
termos materiais, mas também em termos morais. Nao 
se softe por comer 1500 calorias quando se necessita de 
3000. Ha um sofrimento adicional a este, que € a desi- 
gualdade social, o sentir-se constantemente rebaixado e 
humilhado na sua condicgéo de homem, porque nin- 
guém o tespeita, olham-no como um zefo 4a esquerda, 
como insignificante: aquele 14 é tudo, vocé nao é nada. 
Tomei consciéncia de que essa massa, sumamente 
itritada e descontente, era decisiva, embora nao com- 
preendesse a esséncia social do problema. Estava mal 
informada e atribuia sua situagéo ao desemprego, 4 
pobreza, a falta de escolas, de hospitais, de trabalho, de 
moradia; tudo era atribuido a corrupcao administrativa, 
as malversagdes, 4 perversidade dos politicos. 
O Partido do Povo Cubano, ao qual me referi, 
encarnava bastante esse descontentamento. Quase nao 
se culpava o imperialismo e o sistema capitalista. Pois eu 
diria que nos formavam também numa terceira religiao: 
a religido do respeito e da gratidao aos Estados Unidos. 
Este € outro aspecto. 
Fret Betto — Por sua proximidade e presenca cons- 
tantes. 
Fidel Castro — ‘‘Foram os Estados Unidos que 
nos deram a independéncia. Sdo nossos amigos, nos 
ajudaram e nos ajudam.”’ Isso se dizia muito nos textos 
oficiais. 
FIDEL E A RELIGIAO 167 
Fret Betto — E aqui vinham muitos turistas norte- 
americanos. 
Fidel Castro — Vinham sempre; mas quero lhe 
explicar um contexto hist6rico. Nos ensinavam: ‘‘A 
independéncia se iniciou a 20 de maio de 1902’’, data 
em que Os ianques entregaram a RepGblica, mediante 
uma clausula constitucional que lhes dava direito de 
intervir em Cuba. Data que agora escolheram para inau- 
gurar sua ‘‘Radio Goebbels’, ‘‘Radio Reagan’’ ou 
‘*Radio Hitler’’, nado chamarei de ‘‘Radio Marti’’ a esta- 
¢do subversiva inaugurada num 20 de maio. Lembro-me 
que, quando impuseram a emenda Platt 4 Repdblica, ja 
tinham ocupado o nosso territ6rio durante quatro anos. 
Ocuparam o pais durante quatro anos e, depois, impu- 
seram o infame direito de intervir em nossa patria. Inter- 
vieram mais de uma vez e, com tais métodos, apodera- 
ram-se de nossas melhores terras e minas, de nosso 
comércio, de nossas financas e de nossa economia. 
Frei Betto — Em que ano foi isso? 
Fidel Castro — Tem inicio em 1898 e culmina 
em 20 de maio de 1902, com uma caricatura de Rept- 
blica, que era a expressdo politica da colénia tanque 
estabelecida em Cuba. Nesta data, inicia-se 0 processo 
de apropriacdo massiva dos recursos naturais e das rique- 
zas de Cuba. Falei a vocé de meu pai, que trabalhou 
numa das empresas ianques, a United Fruit Company, 
famosa, que se estabeleceu ao norte de Oriente. Meu pai 
comecou a ttabalhar em Cuba como operario da United 
Fruit. 
Os textos escolares faziam a apologia do modo de 
vida dos Estados Unidos e se complementavam com 
toda a literatura. Hoje, até as criangas sabem que tudo 
aquilo era uma enorme e gigantesca mentifa. 
Como destruir todo esse complexo de mentiras e de 
168 CONVERSAS COM FREI BETTO 
mitos? Recordo-me que aquela massa nao sabia, mas 
softia; estava confusa, mas também desesperada; era 
capaz de lutar, de movimentar-se numa direcdo. Era 
preciso lev4-la ao caminho da revolugZo por etapas, 
passo a passo, até alcancar plena consciéncia politica e 
confianca em seu destino. 
Pois bem, toda essa concepcdo sobre a histéria de 
Cuba, o carater e a idiossincrasia de nosso povo, e sobre 
© marxismo, eu tirei de minhas leituras e meditacées. 
Frei Betto — O senhor estava na esquerda do Par- 
tido Ortodoxo? 
Fidel Castro — Bem, alguns sabiam como eu pen- 
sava, pois a todos eu dizia as coisas com muita fran- 
queza, e comecaram a me isolar e a me chamar de comu- 
nista. Mas, na época, eu nao pregava o socialismo como 
“meta imediata e sim fazia campanhas contra a injustica, 
a pobreza, o desemprego, os aluguéis exorbitantes, a 
expulsao de camponeses de suas tertas, os baixos sala- 
rios, a corrupcao politica e a descarada exploracao que se 
via por toda parte. Para mobilizar o povo numa direcdo 
verdadeiramente revolucion4ria, comecamos a agir atra- 
vés da dentincia, da pregacdo e de um programa, para os 
quais 0 nosso povo estava mais preparado. 
O que mais devo dizer? Percebo que o Partido Co- 
munista esta isolado, embora tivesse forca e influéncia 
entre Os operarios, que considero como aliados poten- 
ciais. Evidentemente eu nao pretendia convencer a um 
militante comunista de que as minhas teorias eram cor- 
fetas, € pfaticamente nem tentei. J4 tendo uma concep- 
¢4o marxista-leninista, fui adiante. Eram boas minhas 
relagdes com eles, pois quase todos os livros nos quais 
estudei foram comprados a prazo na livraria do Partido 
Comunista, na rua Carlos II]. Tinha também boas rela- 
gdes com os dirigentes comunistas na universidade, éra- 
FIDEL E A RELIGIAO 169 
mos aliados em quase todas as lutas. Eu disse a eles: 
‘‘Existe a possibilidade de lutar com o apoio da grande 
massa potencialmente revolucion4ria’’. Ja antes do gol- 
pe de Batista, a 10 de marco, fui levando a pratica essas 
concepcoes. 
Fret Betto — O grupo que ataca o Moncada saiu da 
esquetda do Partido Ortodoxo? 
Fidel Castro — Saiu das fileiras jovens do Par- 
tido Ortodoxo, que eu conhecia e sabia como pensavam. 
Quando ocorte o golpe, comeco a organiz4-los. 
Fret Betto — Com que nome? 
Fidel Castro — Naquele momento estavamos orga- 
nizando células de combate. 
Fret Betto — Se chamavam assim, células? 
Fidel Castro — Propriamente estavamos ofga- 
nizando um aparato militar. Eram os meses seguintes ao 
golpe militar de 1952 e nao tinhamos ainda um plano 
revolucionario proprio. Desde 1951 eu elaborara um 
plano revolucion4rio,mas que exigia ainda uma etapa 
politica prévia. 
Como eu tinha certa forca politica, comego a orga- 
nizar um movimento revolucionario. O Partido Orto- 
doxo ia ganhar as eleicdes e eu sabia que a sua direcao 
em quase todas as Provincias, exceto a de Havana, estava 
caindo em mios de latifundiarios e burgueses, como 
sempre. Aquele partido popular encontrava-se virtual- 
mente em miaos de elementos reacionarios e de ma- 
quinas eleitoreiras, exceto na Provincia de Havana, na 
qual prevalecia um respeitavel grupo de politicos ho- 
nestos, de intelectuais e de professores universitarios. 
Nao havia esquema eleitoreiro, embora alguns ficos 
comecassem a tet influéncia e a querer controlar o 
partido na Provincia, através dos tais esquemas e de 
dinheiro. 
170 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Aqui em Havana o partido era bastante forte. 
Tinha 80 mil filiados espontaneos, o que eta uma cifra 
consideravel. Cresceu especialmente ap6s a morte de seu 
fundador, um homem combativo, com grande ascen- 
déncia sobre a massa, € que se privou da vida em conse- 
qtiéncia de uma polémica com um ministro do governo, 
que 0 acusava, sem provas, de possuir negécios de terras 
na Guatemala. Armaram-lhe a armadilha, impeliram- 
no a polémica em torno da questo e, embora houvesse 
muita cofrupcdo no pais, aquilo especificamente nao 
ficou provado. Ele se desespera e se mata e o partido fica 
virtualmente sem direcdo, mas com muita forca. 
Bem, eu j4 me acostumava 4 idéia de que o partido 
ganharia as eleicdes presidenciais de junho de 1952. 
Previa que 0 novo governo resultaria também em com- 
pleta frustracZo e, por isso, j4 planejava a passagem da 
primeira etapa politica, de preparacgéo do movimento, a 
segunda etapa, de tomada do poder através da via revo- 
lucionaria. Creio que uma das coisas fundamentais que 
© Marxismo me ensinou, e que a intuigao também me 
dizia, era a necessidade de tomar o poder para fazer a 
revolucgao e que, pelos caminhos tradicionais da politica 
que se fizera até ent&o, nao se chegaria a nada. 
Pensei em adotar como tribuna determinadas posi- 
gdes, a partir das quais pudesse lancar um programa 
revolucionario inicialmente na forma de propostas de 
leis — o que depois se transformou no programa de 
Moncada. Veja que nao se tratava ainda de um progra- 
ma socialista e sim de um programa capaz de conquistar 
0 apoio das grandes massas da populacdo. Era a ante-sala 
do socialismo em Cuba. As idéias contidas no programa 
de Moncada eu ja elaborara muito antes do golpe de 
Batista, ao organizar uma base s6lida nos bairros de 
Havana e em outros setores humildes da cidade e da Pro- 
FIDEL E A RELIGIAO 171 
vincia. Além disso, eu trabalhava ativamente a massa do 
partido. 
Como ja sou advogado, permaneco em estreito con- 
tato com esses setores através de uma luta ativa, dind- 
mica, enétgica, gracas ao apoio de um pequeno grupo 
de companheiros. Nao ocupo cargos de direcao, mas ja 
conto com apoio da massa do partido e com toda uma 
concep¢4o revolucionaria. Vem o golpe de Estado e tudo 
muda; j4 nao se podia levar adiante aquele programa. 
No programa inicial incluf até os soldados, pois eram 
também vitimas da exploracdo, forcados a trabalhar nas 
propriedades particulares dos magnatas, do presidente, 
dos coronéis. Descubro tudo isso, denuncio e, aos 
poucos, ganho ascendéncia entre suas fileiras. Ao menos 
pfestavam atencao nas dentncias. Meu plano era unir 
neste movimento também os soldados, unir num pro- 
grama amplo soldados, operarios, camponeses, estudan- 
tes, professores, profissionais liberais e setores médios da 
populacdo. 
Quando ocorre o golpe, muda todo o quadro. 
Antes eu pensava fetornar 4 etapa constitucional ante- 
rior; agora, era preciso derrubar a ditadura militar. 
Fret Betto — Em que data ocorre 0 golpe? 
Fidel Castro — A 10 de marco de 1952. Comego 
a pensar em festaurar a situac4o anterior e unir todos 
para liquidar aquela coisa infame e reacionaria que era o 
golpe de Estado de Batista. Por minha prdpria conta, 
organizo os militantes pobres e combativos da juventude 
ortodoxa e entro em contato com alguns lideres desse 
partido que se diziam favoraveis 4 luta armada. Estava 
claro para mim que Batista deveria ser derrotado pelas 
armas pafa retornarmos 4 situacao anterior, ao regime 
constitucional. Com certeza esse objetivo uniria todos os 
partidos. A primeira estratégia revolucionaria fora con- 
172 CONVERSAS COM FREI BETTO 
cebida como um grande movimento de massas inicial- 
mente mobilizado por bandeiras constitucionais. Em 
torno delas todos se uniriam para derrubar o regime de 
Batista, os partidos que estavam no governo e€ os que 
estavam na oposicdo. Em poucas semanas, organizo os 
ptimeiros combatentes e as primeiras células. Instalamos 
estacdes de radio clandestinas e divulgamos um pequeno 
jornal mimeografado. Tivemos alguns tropecos com a 
policia que, posteriormente, nos serviram de experién- 
cia. Sim, porque depois adotamos métodos extrema- 
mente cuidadosos na selecio e compartimentacgao dos 
companheiros. Tornamo-nos verdadeiros conspiradores 
€ ofganizamos os primeiros nficleos do que seria a luta 
conjunta de todos os partidos e de todas as forcas. Assim 
comecei a trabalhar dentro do partido, onde conheci 
muita gente boa e jovem que encontrei nos setores mais 
humildes, 14 em Artemisa e nos bairros mais populares 
de Havana. Eram todos trabalhadores. Um pequeno 
grupo de companheiros me apoiou desde o inicio: Abel, 
Montané, Nico L6pez e outros. 
No inicio, eu era o Gnico quadro profissionalizado 
do movimento. Para dizer a verdade, até Moncada eu 
era o nico, sendo que Abel ficou também liberado no 
Gltimo més. Organizamos todo o movimento em catorze 
meses. Chegamos a ter 1 200 homens, com os quais falei 
um por um, organizando cada célula. Sabe quantos qui- 
I6metros eu percorri em automével antes de Moncada? 
Quatro mil quilémetros. Num carro que ainda nao 
estava inteiramente pago. Tanto ele como eu éramos 
sustentados pot Abel e Montané. As viagens eram dedi- 
cadas a organizar, treinar e equipar o movimento. 
Através das reunides com os futuros combatentes, 
com quem eu partilhava idéias e instrucdes, fomos crian- 
do uma organizacao disciplinada e decidida, com gente 
FIDEL E A RELIGIAO 173 
jovem e saudavel e com idéias patridticas e progressistas. 
Organizavamo-nos para lutar contra a ditadura. Nao era 
nosso propésito encabegar a luta e sim cooperar com as 
demais forgas. Ja havia de sobra inGmeras personalida- 
des e dirigentes politicos. Porém, depois concluimos que 
eram todos falsos, incapazes e mentirosos e decidimos 
tracar O nosso préprio plano. Isso comecou a mudar as 
coisas. 
Terminamos a primeira parte da entrevista. Sinto 
que ja nao guardo a suposta neutralidade de sentimen- 
tos dos meus tempos de reporter. Estou inteiramente 
comovido diante do que acabo de ouvir. Sao quase trés 
da madrugada quando nos despedimos. 
O ataque ao quartel Moncada 
Quinze para cinco da tarde de sexta-feira, 24 de 
maio de 1985. 
Frei Betto — Vamos iniciar a segunda parte de nossa 
entrevista. Falavamos de Moncada. Eu gostaria que o se- 
nhor se referisse especificamente aos revolucionarios que 
eram reconhecidamente cristaos, como Frank Pais, e de 
outro que nZo esteve em Moncada, pois atuava em 
Havana, José Antonio Echeverria. Que tipo de relacao 
havia entre eles e os que j4 tinham uma visdo marxista? 
Fidel Castro — Veja, quando ocorre Moncada, 
realmente havia um grupo reduzido, de mais responsa- 
174 CONVERSAS COM FREI BETTO 
bilidade e autoridade, que j4 tinha uma formag4o mar- 
xista. Eu mesmo trabalhara, nesse sentido, com um nt- 
cleo de militantes mais responsdveis. Mas as qualidades 
que exigiamos daqueles companheiros eram, em primet- 
ro lugar, o patriotismo, o espirito revolucion4rio, a serie- 
dade, a honradez, a disposicdo de luta, de acordo com os 
objetivos e os riscos da luta armada contra Batista. Eram 
essas as exigéncias fundamentais. Ninguém era questio- 
nadose tinha ou nZo uma conviccao religiosa. Este pro- 
blema nunca se colocou. Nao me Iembro de uma sé 
excecdo. Isso era uma questdo de foro intimo de cada 
pessoa. E embora nao haja dados ou estatisticas — por- 
que ninguém pesquisou sobre essa questéo —, é indis- 
cutivel que muitos dos participantes de Moncada eram 
cristaos. 
Vocé mencionou alguns exemplos. Por ocasiao de 
Moncada, Frank Pais ainda nao tinha contato conosco, 
efa muito jovem e sO se incorpora propriamente ao Mo- 
vimento, onde se destaca, meses depois daquela acdo. 
Pelo que sei, Frank Pais tinha formacdo religiosa, através 
da familia. 
Fret Betto — O pat era pastor. 
Fidel Castro — O pai era pastor. Mas nunca con- 
versamos sobre a quest4o religiosa. 
Fret Betto — Nem tampouco havia proselitismo 
anti-religioso? 
Fidel Castro — Nao podia havé-lo, nao tinha sen- 
tido. Buscévamos era gente com disposicao de luta. 
Nunca se colocou esse problema. 
Pelo que sei, também Echeverria tinha uma forma- 
cao religiosa. Tampouco convetsei com ele sobre isso, 
falavamos da luta contra Batista. O certo € que num dia 
de aniversdrio de sua morte, fiz uma critica dura, muito 
dura — isto deve estar publicado, foi num 13 de marco 
FIDEL E A RELIGIAO SUE 
—, porque alguém omitiu uma invocacao a Deus que 
Echeverria fizera em seu testamento politico. 
Fret Betto — O que fizera ele? 
Fidel Castro — Um manifesto que ele redigira 
antes da agZo que causou a sua morte. Anos depois, eu 
me preparava para falar na comemoracdo do aniversatio 
de seu falecimento, quando percebo que, na leitura do 
testamento, fora omitida a invocacdo religiosa que ele 
fizera. Fiquei muito irritado com aquilo. Quando falei, 
fiz uma critica — deve estar nos jornais — perguntando 
como era possivel omitirem aquela invocacao, sabotando 
o documento, e por que tanta preocupacdo com a invo- 
cagéo que em nada diminuia o mérito de Echeverria. 
Nao deviam fazer isso. Fiz uma critica tanto do ponto de 
vista de verdade hist6rica, que deve ser respeitada, 
quanto do preconceito de se pensar que aquela invoca- 
co nao deveria ser lembrada porque, talvez, nZo fosse 
_ bem entendida e poderia diminuir ou tirar o mérito do 
homenageado. Isso me levou a fazer um forte questiona- 
mento publico sobre a questao. Com certeza esta publica- 
do nos jornais. Nao sei se alguma vez ja lhe falaram disso. 
Fret Betto — Sim, me falaram uma vez. Bem, de- 
pois vocés foram presos. Como foi a interveng’o do 
bispo de Santiago de Cuba em favor dos assaltantes do 
quartel Moncada? 
Fidel Castro — Veja, para entender bem isso é 
preciso considerar que na impossibilidade de tomar o 
quartel Moncada — por razdes meramente acidentais, 
mas com conseqtiéncias decisivas — houve uma retirada 
dos combatentes que ocupavam diferentes posigdes. Ao 
ser dada a ordem de retirada, uma parte regressou a casa 
em Siboney, de onde haviamos saido. 
Eu estava preocupado com os companheiros que se 
encontravam em Bayamo e imaginava que eles tinham 
176 CONVERSAS COM FREI BETTO 
cumprido seu objetivo e tomado o quartel local. Se ti- 
vesse dado tudo certo, eles iriam ficar isolados e, por- 
tanto, pensei em reagrupar alguns companheiros e reali- 
zat outra acdo contra um quartel menor, a fim de apoiar 
os que haviam ido para Bayamo. 
Frei Betto — Uma curiosidade histérica. Visitei 
aquela pequena chacara em Siboney. Suponho que, 
entre os companheiros que nao regressaram a chacara, 
alguns j4 tinham sido presos. 
Fidel Castro — Nao foi bem assim. 
Frei Betto — Nao? Porque eu me perguntava se o 
senhor nao teve medo de que eles falassem e que toda... 
Fidel Castro — Nao, naquele momento nem se- 
quer me coloquei esse problema, pois imaginava que o 
inimigo n4o teria tempo de reagir frente a uma ac4o tao 
surpreendente e ceftamente traumatizante para ele, 
como foi o ataque a seu principal quartel. 
Retornamos 4 casa de onde haviamos saido, como 
também o fizeram outros companheiros. Procurei orga- 
nizar o grupo, pegamos munic&o e algumas armas mais 
adequadas e distribuimos aos que estavam decididos a 
subir a montanha. Com mais preciséo: minha idéia era 
dirigir-nos até Caney, que ficava ao norte, a quiléme- 
tros de Santiago, e, com um grupo de vinte ou trinta 
companheiros, tomar de surpresa um quartel menor. 
Mas obsetvo que os nossos carros — naquela época nao 
tinhamos comunicagdes — tomavam o rumo da chacara 
de onde haviamos partido. Fomos também para 14, para 
onde os comanheiros se dirigiam. E nao foi possivel reu- 
nif o nimero minimo de gente para realizar a acdo sobre 
o quartel de Caney, que era o que eu havia planejado 
para ajudar o grupo de Bayamo. 
Fret Betto — Quantos assaltaram o quartel Mon- 
cada? 
FIDEL E A RELIGIAO 177 
Fidel Castro — Eram cerca de 120 homens. 
Fret Betto — Dos quais morreram...? 
Fidel Castro — Depois lhe explico. 
Uns ocuparam alguns prédios, como o da Audién- 
cia, que dominava o quartel por um Angulo; outros 
ocuparam as casas diante da parte de tras do quartel e 0 
nosso grupo se dirigiu 4 porta principal para entrar pela 
frente. Eu ia no segundo carro. O tiroteio inicia-se ao 
meu lado, ao passarmos por uma patrulha de ronda. 
Nosso grupo tinha cerca de noventa homens. Mas sé 
chegaram 4 porta principal uns sessenta ou setenta, 
porque alguns nao conheciam bem as ruas e, em vez de 
dobrar da avenida para o quartel, seguiram adiante em 
seus catros. Esse era o grupo que estava comigo. Os pla- 
nos eram conhecidos pelos que estavam em outras Areas, 
no prédio da Audiéncia e no hospital. Supunha-se que o 
nosso grupo tomaria o posto de comando e obrigaria os 
soldados a recuarem até o fundo, onde cairiam prisionei- 
ros entre os que haviam entrado pela frente e os que, de 
suas posicdes, dominavam o patio traseiro onde ficava o 
alojamento. 
Ao dar-se o enfrentamento com a patrulha, o com- 
bate comecou fora do quartel e nao dentro, como fora 
previsto. Os soldados se mobilizaram, eram mais de mil 
homens, perdeu-se o fator surpresa e tornou-se impossi- 
vel cumprir o plano. O primeiro carro conseguira, apesat 
de tudo, ocupar e dominar a entrada do quartel. Quan- 
do nos retiravamos, fiz parar o Gltimo carro, no qual me 
encontrava, e cedi meu lugar a um companheiro que 
andava perdido por ali. Um companheiro de Artemisa 
retornou e me apanhou. 
Por isso, ao sair pela mesma avenida pela qual ha- 
viamos entrado, nao pude contar com ntimero suficiente 
de companheiros para ir até o quartel de Caney, pois 
178 CONVERSAS COM FREI BETTO 
mais ou menos a metade dos sessenta ou setenta homens 
ja tinha regressado, na frente, 4 casa de Siboney. Apds o 
fracasso da acd4o — ndo se esqueca que, embora organi- 
zados, etam civis e realizavam sua pfimeira agao —, 
alguns desanimam e tiram a roupa militar. Mas ainda 
havia um grupo decidido a continuar a luta. Ent4o esse 
grupo dirige-se comigo as montanhas que estado em frente 
4 chacara, a Sierra Maestra, nas proximidades de Santia- 
go. Nao a conheciamos. Armados, nos embrenhamos 
pelas matas. Nao eram armas apropriadas para luta em 
campo aberto, mas era o que tinhamos, alguns fuzis 
automaticos calibre 22 e escopetas automaticas calibre 12, 
adequadas para o enfrentamento corpo a corpo, como o 
que haviamos planejado. Com aquelas armas, subimos 
as montanhas. Como nao conheciamos o terreno, ao 
anoitecer ainda nao haviamos chegado ao cume e, aquela 
hora, o inimigo ja havia distribuido soldados por todas 
as areas e todos os pontos-chave daquela regio estavam 
tomados. Mesmo assim, se ja tivéssemos a experiéncia 
que adquirimos depois, teriamos furado o bloqueio. Po- 
rém, a falta de experiéncia, o desconhecimento do lugar, 
faziam com que nés, ao nao encontrarmos os caminhos, 
regtessadssemos sempre ao meio’ da montanha. Nosso 
plano era chegar ao outro lado da Sierra Maestra, onde 
fica a baia de Santiago de Cuba, a parte oeste da cidade. 
Nosso plano original era tomar o quartel Moncada 
€, gfacas ao apoio da populacao de Santiago, decretar a 
greve getal a fim de paralisar o pais.Se o inimigo atacas- 
se com uma forca superior 4 nossa capacidade de defen- 
der a cidade, recuariamos para a Sierra Maestra com 2 ou 
3 mil homens armados. Digo a vocé que, com os conhe- 
cimentos que posteriormente adquirimos, nao teriamos 
menosptezado aquelas posigdes e aqueles soldados. 
Contudo, naquele momento, nossa ignorancia nos fez 
FIDEL E A RELIGIAO 179 
imaginar n4o set possivel atravessar para o outro lado da 
Sierra Maestra, a fim de nos distanciarmos dos soldados 
que nos cagavam. Plariejamos cruzar a baia de Santiago 
de Cuba rumo a oeste e, assim, penetrar na zona mais 
abrupta e estratégica da Sierra Maestra. 
No nosso pequeno grupo havia inclusive alguns fe- 
ridos, mas sem gravidade. Ocorreu entretanto um aci- 
dente, a arma de um companheiro disparou, provocan- 
do-lhe uma ferida grave. Tivemos que procurar uma 
maneira de salva-lo, o que reduziu ainda mais o grupo. 
Outros companheiros encontravam-se muito esgotados, 
no estavam em condicées fisicas de suportar a dureza da 
luta nas montanhas. Devido 4 pouca capacidade de mo- 
bilidade deles, decidimos fazé-los retornar a Santiago. 
Por que naquele momento ja podiam regressar? Pelo se- 
guinte: imediatamente apés o ataque, nas horas e nos 
dias seguintes, 0 exército comecou a capturar muitos 
companheiros, uns que se haviam perdido quando nos 
dirigimos ao Moncada, outros que ocupavam posicdes 
do outro lado do quartel e, aparentemente, tardaram 
em pefceber que a operacdo principal havia fracassado. 
Desses, alguns sairam a tempo, e os demais foram cerca- 
dos. Foram presos também companheiros ja em roupas 
de civil, tentando hospedar-se num hotel, buscar reft- 
gio ou sair de Santiago de Cuba. Por fim, outros foram 
apanhados no campo. 
Fret Betto — Vocés estavam com roupa militar? 
Fidel Castro — Sim. Felizmente, foram pouquis- 
simas as baixas em combate. Eles sim tiveram um ni- 
mero elevado; se bem me lembro, uns onze mortos e 22 
feridos. 
Frei Betto — E vocés tiveram quantos mortos? 
Fidel Castro — Soubemos que, em combate, mor- 
reram dois ou trés companheiros e alguns ficaram fe. 
180 CONVERSAS COM FREI BETTO 
ridos. Todavia, na segunda-feira Batista noticia a morte 
de setenta revolucionarios. E possivel que naquela 
segunda-feira eles ainda nao houvessem assassinado se- 
tenta companheiros do total de 160 que haviam partici- 
pado das acdes de Santiago e Bayamo. Porém, divulga- 
ram a motte de setenta rebeldes. Jé na tarde de domin- 
go, dezenas de companheiros foram presos e assassina- 
dos. E durante quase toda a semana, os prisioneiros fo- 
ram submetidos a horriveis torturas-e mottos. 
Tudo isso provoca, na populac&o de Santiago de 
Cuba, uma enorme reacdo de profundo repidio e, tam- 
bém, uma comoc4o nacional. A cidade fica sabendo que 
estéo matando cada prisioneiro que apanham. A socie- 
dade civil se organiza, se mobiliza e visita o arcebispo de 
Santiago de Cuba, monsenhor Pérez Serantes, de ori- 
gem espanhola. Por razdes humanit4rias, ele intervém 
para salvar os sobreviventes. E preciso lembrar que os 
quarenta companheiros que estavam em Bayamo tam- 
bém tiveram dificuldades para cumprir a misséo e um 
bom namero deles foi capturado em diferentes lugares. 
A regra geral adotada pelo exército de Batista foi a 
de levantar uma série de calGnias, procurando instigar o 
ddio dos militares contra nés, através da infame acusa¢Zo 
de que haviamos degolado soldados enfermos no hospi- 
tal de Santiago de Cuba. O que ocorreu de fato, como 
lhe contei, foi que o combate teve inicio fora e nZo den- 
tro, como estava planejado, devido ao encontro aciden- 
tal com uma patrulha de ronda que habitualmente nao 
ficava ali, mas por ser domingo de carnaval a puseram ali 
e entdo... 
Fret Betto — Uma patrulha do quartel? 
Fidel Castro — Sim. Puseram ali a patrulha de 
ronda porque era dia de carnaval e, embora 0 primeiro 
carro conseguisse chegar 4 porta, houve o enfrentamento 
FIDEL E A RELIGIAO 181 
entre ela € 0 nosso catto, que era o segundo. Ao parar o 
nosso cafro, como todas aquelas instalacdes tinham o 
mesmo estilo militar, desce o pessoal dos carros que esta- 
vam atras e avancga em direcdo 4 esquerda. Inclusive um 
grupo entrou no hospital pensando que estava entrando 
no quartel e eu, pessoalmente, percebi o equivoco, 
entrei no hospital e, depressa, o retirei dali. Como desa- 
pareceram o fator surpresa e o nosso impeto inicial, 0 
ataque cessou e fiquei tentando reorganizar o grupo 
outra vez. Procuramos repetir o ataque sobre o quartel, 
mas ja nao foi possivel, a guarnicao estava em pé e havia 
tomado posicées defensivas. Isso impedia que se alcan- 
Gasse um éxito que dependia, exclusivamente, do fator 
surpresa. Por nado contarmos com armas apropriadas e 
nem com um nimero de homens suficiente para enfren- 
tar os soldados, fracassamos quando eles despertaram e 
tomaram posicées. 
Bem préximo a mim, alguém disparou, quase me 
deixando surdo, contra um homem em traje militar que 
apareceu na janela do hospital. Por isso, uma pessoa do 
corpo de satide foi morta ou ferida. E 0 fato de termos 
entrado no hospital, embora sé no térreo, na entrada, 
serviu de pretexto pata se promover uma enorme campa- 
nha de caltnias de que haviamos degolado soldados 
doentes. Pura mentira, mas na qual muitos soldados 
acreditaram. Com isso Batista tinha o propésito de des- 
pertar e excitar o 6dio dos soldados. Actescia-se a isso a 
tradicao, digamos, de brutalidade do exército, a digni- 
dade ofendida pelo ataque de civis que se atreveram a 
enfrenta-los. 
Os prisioneitos eram sistematicaniente assassina- 
dos. Uns eram levados, interrogados, barbaramente tor- 
turados e, depois, mortos. 
Tais circunstancias produziram force reagdo na opi- 
182 CONVERSAS COM FREI BETTO 
niZo piblica e o arcebispo de Santiago de Cuba, como 
autoridade eclesiastica e junto com outras personali- 
dades da cidade, comecou a agir para salvar a vida dos 
sobreviventes. Efetivamente, alguns sobreviventes fo- 
ram salvos gracas as gest6es do arcebispo e do grupo de 
personalidades, ajudados pela atmosfera de profunda 
indignacdéo da populac4o. Frente a esta nova situacao, 
decidimos que um grupo de companheiros que estavam 
comigo e que se encontravam em péssimas condigdes 
fisicas, se apresentassem as autoridades através do arce- 
bispo. Eram seis ou sete companheiros. 
Fiquei com mais dois dirigentes e o propésito de 
atravessarmos a baia para chegar 4 Sierra Maestra e orga- 
nizar de novo a luta. O resto encontrava-se extremamente 
esgotado e era preciso preservar-lhe a vida. 
A prisao 
Frei Betto — Eram mais ou menos quantos compa- 
nheiros? 
Fidel Castro — Seis ou sete. Aproximamo-nos 
de uma casa, falamos com um cidad4o e foi ele quem 
afranjou o encontro daquele grupo com 0 arcebispo. Ao 
amanhecer, aqueles companheiros seriam apanhados 
pelo arcebispo. Eu e os dois que estavam comigo nos se- 
paramos deles, nos afastamos uns dois quilémetros da- 
quele lugar, no propdésito de, a noite, pegar a estrada 
que conduzia a baia de Santiago de Cuba. Porém, o 
exército soube, talvez tenha interceptado a ligacdo tele- 
fonica entre aquela familia e o arcebispo, e bem cedo, 
antes de amanhecer, patrulhas ocuparam toda aquela te- 
giao, inclusive as proximidades da estrada. Estavamos a 
dois quilémetros e cometemos um erro que, até entio, 
FIDEL E A RELIGIAO 183 
nao haviamos cometido em todos aqueles dias. Um pou- 
co cansados, tinhamos que dormir nas piores condicées, 
nas ladeiras da montanha, sem saco de dormir ou coisa 
parecida e, justamente naquela noite, encontramos uma 
pequena cabana, de quatro metros de comprimento por 
trés de largura, o que aqui chamam vara en tierra, lugar 
onde se guarda material de trabalho. Para proteger-nos 
da neblina, da umidade e do frio, decidimos ficar ali até 
amanhecer. De manha, antes de despertarmos, uma pa- 
‘trulha de soldados entra na cabana e nos acorda com os 
fuzis sobre 0 peito. Ser despertado pelos fuzis do ini- 
migo foi conseqtiéncia de um erroque jamais deveria- 
mos ter cometido. 
Frei Betto — Nenhum de vocés montou guarda? 
Fidel Castro — Nao, ninguém montou guarda, 
os trés dormiam, entende? Estavamos um pouco con- 
fiantes, pois havia uma semana que, apesar de rastrea- 
rem toda a regiao, continuavamos furando o cerco. Su- 
bestimamos o inimigo, cometemos um erro e caimos em 
suas maos. Certamente interceptaram o telefonema, nao 
posso admitir que as pessoas com as quais fizemos conta- 
to nos tivessem delatado. E certo que cometeram indis- 
cricdes, como a de falar ao telefone, o que alertou o exér- 
cito que, imediatamente, enviou as patrulhas que nos 
capturaram. Do jeito que aqueles individuos andavam 
sedentos de sangue, teriam nos assassinado de cara. Po- 
rém, ocorreu uma incrivel casualidade: havia um tenente 
negto, chamado Sarria, que nao era assassino e tinha 
certa autoridade. Os soldados estavam excitados, nos 
amafraram, apontaram os fuzis contra nds e quefiam 
matar-nos. Pediram a nossa identidade e demos outro 
nome. Vi logo que nao me reconheceram. 
Frei Betto — O senhor j4 era muito conhecido em 
Cuba? 
184 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Fidel Castro — Relativamente, mas por alguma 
razio aqueles soldados nao me reconheceram. Nao 
obstante, queriam matar-nos e, se tivéssemos nos identi- 
ficado, teriam disparado. Comegamos a discutir com 
eles. Diziam que éramos assassinos, que queriamos ma- 
tat soldados e que eles eram os continuadores do Exérct- 
to Libertador. Perco um pouco a calma e retruco que eles 
sio os continuadores do exército espanhol e que somos 
nos os verdadeiros continuadores do Exército Libertador. 
Eles ficaram ainda mais furiosos. 
A gente ja se dava por morto; eu nao imaginava a 
mais remota possibilidade de sobreviver. Durante a dis- 
cussdo com eles, o tenente interveio e disse: ‘“Ndo dispa- 
rem, nao disparem’’. Impdés-se aos soldados, enquanto 
repetia em voz baixa: ‘‘Nao disparem, as idéias nao se 
matam’’. Trés vezes aquele homem repetiu: ‘‘As idéias 
nao se matam’’. 
Por acaso, um dos dois companheiros era macom. 
Trata-se de Oscar Alcalde, que esta vivo e hoje preside o 
Banco da Poupanga. Financista, era ele quem controlava 
os fundos do Movimento. Resolve dizer ao tenente que 
era macom. Isso surte efeito, pois havia muitos militares 
macgons. Bem amartados, nos levantam e nos levam. 
Impressionara-me a atitude daquele tenente e, apds 
caminharmos um pouco, chamei-o e disse: ‘‘Vi como o 
senhor procedeu e nao quero engan4-lo, eu sou Fidel 
Castro’’. Ele me adverte: ‘‘Nao diga nada a ninguém’’. 
Avangamos um pouco mais e logo, a uns setecentos ou 
oitocentos metros dali, se ouvem tiros. Os soldados, 
muito netvosos, estendem-se sobre o chio. 
Fret Betto — Eram mais ou menos quantos sol- 
dados? 
Fidel Castro — A patrulha teria uns doze soldados. 
Fret Betto — E 0 tenente, quantos anos tinha? 
FIDEL E A RELIGIAO 185 
Fidel Castro — Quarenta ou quarenta e dois, mais 
ou menos. 
Quando vejo eles se deitarem, pensei que tudo era 
uma aftimanha para atirarem em nos e permaneco em 
pé, parado. O tenente se aproximou e eu lhe disse: 
‘"Ndo me deito, se querem atirar tem que matar-nos de 
pé’’. O tenente comenta: ‘‘Vocés séo muito corajosos, 
fapazes’’. Creio que aquela foi uma possibilidade em 
mil. Nem por isso estavamos salvos ou tinhamos garan- 
tia de sobreviver. No entanto, o tenente nos salvou pela 
segunda vez. 
Fret Betto — Pela segunda vez? 
Fidel Castro — Sim, pela segunda vez, porque 
antes que aparecesse o arcebispo, o outro grupo que 
estava proximo 4 estrada foi localizado e preso — fora 
isso que pfovocara o tiroteio a que me referi. Fomos 
todos reunidos e colocados num caminhi4o. O tenente 
me pds na frente, entre ele e o motorista. Mais adiante 
surgiu um comandante, que se chamava Pérez Chau- 
mont, um dos principais assassinos e responsavel pela 
morte de muita gente. Ordenou que nos levassem ao 
quartel. O tenente discutiu com ele e nao obedeceu. 
Levou-nos 4 Casa de Detencao de Santiago de Cuba, 
onde ficamos a disposic&o da justica civil. Se tivéssemos 
chegado ao quartel, teriam feito picadinho de todos 
nos. 
Toda a populacao de Santiago de Cuba fica saben- 
do que fomos presos e que nos encontramos ali. Comega 
uma forte pressao para salvar-nos a vida. O comandante 
do regimento aparece para interrogat-nos. Sentia-se que 
os proprios militares estavam impressionados com tudo 
aquilo, olhavam-nos com certo respeito e até admiraco, 
além da satisfacao de o invencivel exército ter frustrado o 
ataque e capturado os rebeldes. Somava-se a isso um fa- 
186 CONVERSAS COM FREI BETTO 
tor psicolégico: j4 tinham a consciéncia pesada, pois ha- 
viam assassinado setenta ou oitenta prisioneiros e toda a 
populacdo sabia disso. 
Frei Betto — Seus companheiros? 
Fidel Castro — Sim, que foram presos em dife- 
rentes circunstancias. Mataram setenta ou oitenta, pou- 
cos escapatam e ficaram presos, entre eles o grupo que 
estava comigo e alguns que foram presos em outros luga- 
res e sO nao foram mottos gracas aos protestos da opiniao 
publica e as gestdes das personalidades e do arcebispo. 
Alguns foram salvos porque se apresentaram através do 
arcebispo. Mas, no caso de nosso grupo, o fator determi- 
nante foi o tenente. 
Fret Betto — O que ocorreu com ele apés a vitéria 
da Revolucao? | 
Fidel Castro — Bem, antes do triunfo o denun- 
ciatam como responsavel pela nossa sobrevivéncia. Cul- 
pavam-no de nao nos ter assassinado. Posteriormente, 
houve tentativas fracassadas para eliminar-me. De- 
pois veio a prisao, a saida da pris4o, o exilio, a expedicao 
do Granma, a \uta nas montanhas e a organizacao de 
nosso exército guerrilheiro. No principio, tivemos novos 
reveses e eles acreditaram que haviam liquidado o nosso 
exército; contudo, ele renasce das cinzas, converte-se 
numa forca real e luta com perspectivas de vitéria. 
Naquele momento, o tenente foi afastado do exér- 
cito. Quando triunfou a Revolug4o, o incorporamos ao 
novo exército, com o grau de capitado. Ele foi chefe da 
escolta do primeiro presidente escolhido pela Revolucio. 
Trabalhava no palacio presidencial. Infelizmente — e 
por isso suponho que ele tivesse pouco mais de quarenta 
anos —, depois de oito ou nove anos, Pedro Sarria con- 
tralu um cancer e veio a morrer, j4 como oficial por 
quem todos tinham muito respeito e consideracao, a 29 
FIDEL E A RELIGIAO 187 
de setembro de 1972. Era um autodidata e as vezes apa- 
recia na universidade, onde certamente me vira antes. 
Era um homem honrado, com acentuada predisposicao 
a justica. O curioso € que, como reflexo de seu pensa- 
mento, nos momentos mais criticos o ouco repetir, em 
voz baixa, as instrugdes aos soldados para que nfo dispa- 
rem, as idéias nZo se matam. De onde tirou esta frase? 
Nunca tive a curiosidade de perguntar-lhe, talvez sai- 
bam os jornalistas que o entrevistaram depois. Esperava 
que ele vivesse muito tempo. Nos primeiros anos da Re- 
volucgdo, sempre se imagina que ha bastante tempo pela 
frente para fazer, pesquisar e esclarecer as coisas. De 
onde tirou aquela frase? ‘‘Nao disparem, as idéias nao se 
matam!’’ Aquele honrado oficial repetiu isso varias ve- 
zes. E quando digo a ele quem sou, me adverte: ‘‘Nao 
diga nada a ninguém’’. E ainda a outta frase, quando 
ocofreu o tiroteio: ‘‘Vocés s&o muito corajosos, 
tapazes’’. Repetiu isso umas duas vezes. Aquele ho- 
mem, um entre mil, indiscutivelmente simpatizava de 
algum modo ou tinha certa afinidade moral com a nossa 
causa. Foi ele quem determinou a nossa sobrevivéncia 
naquele momento. 
Fret Betto — Depois o senhor foi para a prisao, 
onde ficou 22 meses, na ilha da Juventude? 
Fidel Castro — Sim, foi isso mais ou menos, desde 
o 1° de agosto. 
Frei Betto — E saiu gtacas 4 campanha nacional de 
anistia aos prisioneiros. O senhor se lembra se a Igreja 
pafticipou da campanha pela anistia? 
Fidel Castro — Realmente a anistia consisttu num 
movimento de opiniao muito amplo: muita gente par- 
ticipou da campanha, os partidos politicosde oposi- 
cao, as forcas civicas, as organizac6es sociais, personali- 
dades, intelectuais e jornalistas. Com certeza a Igreja 
188 CONVERSAS COM FREI BETTO 
apoiou, embora ela nao fosse o centro da campanha, se 
bem que ganhou prestigio gracas 4 conduta de Pérez Se- 
rantes, em Santiago de Cuba, pelos esforgos que fez e 
pelas vidas que salvou por ocasiao do ataque ao Monca- 
da. Toda a opiniao publica nacional o reconheceu. 
Além da forte pressao ptiblica, o que em definitivo 
determinou a anistia foram diferentes fatores: os crimes 
cometidos, que deixaram no povo um enorme saldo de 
indignacao. No principio, eram conhecidos em Santiago 
de Cuba, mas nico no resto do pais. Por ocasiao do julga- 
mento, denunciamos todos aqueles crimes, apesar da to- 
tal censura 4 imprensa. Nos primeiros dias do julgamen- 
to, me levaram a duas ou trés sessGes e, depois, me tifa- 
ram de 14 arbitrariamente, porque eu era meu prdprio 
advogado de defesa e denunciava todos os crimes. Ado- 
tamos a atitude de assumir toda a responsabilidade e de 
justificar moral, legal e constitucionalmente a ac4o de 
rebeldia. Foi a nossa posig¢éo e ninguém se esquivou da 
honrosa responsabilidade. De acordo com a politica que 
adotamos, todos disseram que se sentiam orgulhosos do 
que haviam feito. E todos os documentos circularam 
clandestinamente, de modo que o povo soube da mons- 
truosidade dos crimes, os maiores cometidos na histéria 
de Cuba. Havia uma ma consciéncia por parte do gover- 
no que, por outro lado, ja se considerava consolidado. 
Todas as forcas politicas supostamente favoraveis 4 
luta armada nada fizeram. Foram se desativando, mui- 
tas entraram no jogo eleitoral enquanto estavamos pre- 
sos. Batista j4 se sentia consolidado e queria legalizar seu 
poder, transformar o governo de fato, de transicdo, num 
governo constitucional, eleito. Convocou eleicgées para 
as quais ele era o principal candidato, seguro de que le- 
galizaria seu governo, pois muitas forcas politicas iriam 
se abster, a oposicao andava muito desprestigiada e ele, 
FIDEL E A RELIGIAO 189 
além dos recursos do governo, contava com o apoio de 
um grupo de partidos. Assim, daria uma cobertura legal 
ao regime. / 
Esse fator influiu consideravelmente, pois, por tra- 
dicao de nossa hist6ria, em Cuba nao se concebiam elei- 
ges sem anistia. Portanto, esta nZo resultou apenas das 
pressdes da opiniao piblica, mas também de outros fa- 
tores: a consciéncia dos crimes que foram cometidos, a 
campanha de denincia e de orientacio do povo que de- 
sencadeamos de dentro da prisdo e, além disso, o desejo 
- e€ a necessidade que tinha Batista de dar uma cobertura 
legal a seu governo e que o levara a convocar eleices. 
Por subestimar aquele pequeno grupo que restara, uns 
vinte e poucos companheiros, e considerar que a luta 
armada fora vencida e que ja nao tinhamos recursos nem 
forcas, € que ele aprovou a lei de anistia. 
O padre Sardifias 
Fret Betto — Quando o senhor se encontrava preso, 
o lugar se chamava ilha de Pinos? 
Fidel Castro — Sim. 
Frei Betto — Foi 14 que, pela primeira vez, vocés 
tiveram contatos com o padre Sardifias, que depois par- 
ticipou da luta na Sierra Maestra? 
Fidel Castro — E possivel, pois quando estava- 
mos na prisao algumas freiras nos visitaram uma ou duas 
vezes. Porém, fiquei pouco tempo junto aos demais 
companheiros. 
Frei Betto — Estava isolado. 
Fidel Castro — Mais ou menos trés meses de- 
pois de estarmos ali, Batista visitou o presidio, na atual 
ilha da Juventude. Foi por um motivo ridiculo, ou seja, 
190 CONVERSAS COM FREI BETTO 
inaugurar um gerador de algumas dezenas de quilo- 
watts. Quando penso que depois construimos aqui int- 
meras unidades de milhares de quilowatts sem inau- 
gura-las, porque nao sobrava tempo para inaugurar tan- 
tas obras! Naturalmente as autoridades da prisdo prepa- 
raram homenagens a Batista.e nds, em reacao, decidi- 
mos nao comer naquele dia e nem sair parao patio. Fica- 
mos trancados. Porém, como o gerador ficava nas proxi- 
midades do pavilhZo onde nos encontravamos, o compa- 
nheiro Juan Almeida observou pela grade quando Batis- 
ta chegou ao local. Ficamos esperando que ele saisse e, 
quando ele passou rente ao nosso pavilhao, cantamos o 
hino do 26 de Julho. A principio Batista pensou que 
aquilo fazia parte das homenagens que lhe prestavam e 
que se tratava de um coro entoando loas. Contente, faz 
calar os que o acompanham, mas logo se irrita quando a 
letra de nosso hino fala ‘‘dos tiranos insaciaveis que 
afundaram Cuba no mal’’. Almeida viu tudo pela gra- 
de. Veio a policia 4 cela e continuamos cantando, apesar 
da presencga de um temivel torturador conhecido como 
Pistolita. Permanecemos trancados e, depois disso, me 
isolaram até o final da priséo. Ja em Santiago eu ficara 
isolado até o julgamento. De modo que, dos 22 meses 
em que estive no carcere, fiquei 19 isolado, sendo que, 
ao final, meses antes da anistia, o isolamento foi aliviado 
porque mandaram Raul me fazer companhia. Nao posso 
portanto lhe afirmar que, naquela ocasio, o padre Sar- 
difias tenha mantido contato com os prisioneiros de 
Moncada. Haveria que perguntar a Montané, que era da 
ilha da Juventude. 
Frei Betto — Como foi a integracZo do padre Sardi- 
fias ao grupo de Sierra Maestra e que lembrancas tem 
dele? 
Fidel Castro — Nao me lembro exatamente como 
FIDEL E A RELIGIAO 191 
foi. Nao nos despertava especial atencdo, j4 que conta- 
vamos com um crescente apoio de toda a populacio. 
Ocorreu quando a guerrilha se consolidava na Sierra 
Maestra. Chegavam v4rias pessoas, as vezes um médico, 
outras, um técnico. Os médicos eram especialmente 
apreciados pelos servicos que prestavam a tropa e 4 po- 
pulacdo. Um dia, na metade da guerra, chegou fe) padre 
Sardifias, um sacerdote tevolucionatio que simpatizava 
com a causa, e se incorporou 4 guerrilha. Ficou muito 
tempo conosco. 
Fret Betto — Nao sei se o senhor conhece este dado 
interessante: ele nado se incorporou como um gesto pes- 
soal, isolado, e sim com 0 apoio de seu bispo. E isso num 
momento da vida da Igreja em que ainda n4o havia sa- 
cerdotes pelo socialismo ou coisas no género. 
Fidel Castro — Nao foi como soldado, manteve- 
se em sua condicao de sacerdote. Convivia conosco na 
tropa e conservava todo o necessario pata o exercicio 
de seu ministério, inclusive para celebrar missas. Como 
nos deslocavamos muito, designou-se um ajudante para 
auxilia-lo. E, quando j4 domindvamos a 4rea, ele ficava 
dez dias num lugar ou quinze noutro. Nossa tropa o fe- 
cebeu com muita simpatia. E como aqui o batismo era 
uma instituic¢ao social, conforme ja lhe falei, o camponés 
dava muita importancia e muitas familias queriam que 
eu fosse o padrinho de seus filhos. O padre Sardifias ba- 
tizou centenas de criancas camponesas. As familias vi- 
nham com seus filhos e pediam que eu fosse padrinho, 
que em Cuba € considerado o segundo pai. Tenho uma 
porcdo de afilhados na Sierra Maestra, talvez muitos j4 
sejam oficiais do Exército ou tenham concluido a univer- 
sidade. O vinculo que os camponeses estabeleceram co- 
nosco foi nao apenas de amizade, mas também de cara- 
ter familiar. 
192 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Frei Betto — Ele pregava aos camponeses, expli- 
cava-lhes a luta a partir da fé? 
Fidel Castro — Ele se manifestava politicamente 
simpatico 4 Revolug&o e passou a apoia-la, o que se 
comprovou com a sua propria disposicao de incorporar- 
se. Conosco, passou muitas dificuldades. Mas nao che- 
gava a fazer uma pregacao como se faz hoje ou que pu- 
desse ser feita por um padre que tenha aderido a movi- 
mento guerrilheiros porque, quando chegou o padre 
Sardifias, os camponeses ja tinham ligagdes com o nosso 
pessoal, os que ficaram, j4 que outros se retiraram da 
Sierra Maestra, por medo dos bombardeios e da repres- 
sio do Ex€rcito que queimava casas e assassinava. Que 
eu me lembre, ele nao fazia esse tipo de pregacao. Mui- 
tas vezes ficava em alguma regiao de camponese e supo- 
nho que lhespregasse especificamente a fé. O trabalho 
que ele fazia entre os camponeses nao era de carater 
politico e sim religioso. E como ali nunca chegava um sa- 
cerdote, como ja lhe contei antes, os camponeses pro- 
curavam com muito interesse o batismo, uma ceriménia 
social de grande importancia e transcendéncia. 
A presenga dele e o fato de atuar como sacerdote, 
batizando muitas criancas, era um modo de vincular 
ainda mais aquelas familias 4 Revolucao, a guerrilha, 
estreitando os lagos entre a populacdo e o comando guer- 
rilheiro. Eu diria que a sua pregacdo, ou o seu trabalho 
politico favoravel 4 Revolucdo, foi de modo indireto. 
Todos eram muito atenciosos com ele, gostavam dele, 
pois era um homem simpatico. 
Fret Betto — E posteriormente chegou a ser consi- 
derado comandante? 
Fidel Castro — Sim, foi-lhe concedido este grau, 
pelo tempo em que esteve na guerra e€ por seu com- 
portamento digno. Aqui n&o existia propriamente a 
FIDEL E A RELIGIAO 193 
instituicao de capelao. Outorgou-se a ele o titulo de co- 
mandante, em reconhecimento 4 sua hierarquia e a seus 
mé€ritos. f 
Fret Betto — O senhotr trazia uma pequena cruz em 
seu uniforme de guerrilheiro? 
Fidel Castro — Bem, eu recebia muitas lembran- 
cas do pessoal de Santiago, de criancas e de adultos. 
E uma menina de Santiago me mandou aquela correnti- 
nha com a cruz e uma carinhosa mensagem. Sim, eu a 
usei. Mas se vocé me pergunta se o fiz por uma questo 
de fé, honestamente eu diria que nao e sim por um gesto 
de consideragao aquela menina. Por outro lado, nao ha- 
via nenhum preconceito em relacdo a essas coisas, pois 
tinhamos conosco um sacetdote e eu era padrinho de 
intimeras ctiangas camponesas. 
Fret Betto — Era sua amiga? 
Fidel Castro — Sim, uma simpatizante, uma me- 
nina de Santiago de Cuba. 
Frei Betto — Eu pensava que havia sido sua mie. 
Fidel Castro — Nao, porque nao tinhamos con- 
tato. Era muito dificil, porque ela tinha todos os seus 
passos vigiados. 
As primeiras leis revolucion4rias 
Frei Betto — Entremos agota um pouco mais na 
questao das relagdes da Revolucao com a Igreja, a partir 
da vit6ria. Como reagiram os crist4os e a Igreja perante o 
triunfo da Revolucio? Como foram as relag6es iniciais, 
em que momento surgiu uma crise nessas telacdes € por 
que fazao? 
Fidel Castro — No principio, eram excelentes as 
relacdes com todos os setores sociais. A queda de Batista 
194 CONVERSAS COM FREI BETTO 
foi recebida com alegria por todas as camadas sociais sem 
excecio, incluindo os elementos comprometidos com o 
regime de Batista, os que tinham enriquecido, desviado 
e roubado dinheiro, e alguns setores da alta burguesia 
que estiveram associados ao regime de Batista. Ao me- 
nos 95% da populacao recebeu o triunfo com muito ale- 
gria e satisfacio — segundo pesquisas feitas 4 Epoca —, 
pois o regime de Batista era bastante odiado pelos crimes 
e abusos que cometera. O povo encarou a vit6ria com 
muita esperanca e, sobretudo, com a enorme satisfacao 
de ter ficado livre daquele regime de terror que durara 
sete anos. Especialmente os Gltimos anos foram os mais 
sangrentos. As dificuldades comegaram com as primeiras 
leis revolucionarias. 
Fret Betto — Por exemplo. 
Fidel Castro — Bem, uma das primeiras leis — 
que nao afetou tanto — foi a de confisco de todos os 
bens ilicitamente adquiridos. Foram confiscados todos 
os bens das pessoas que roubaram durante a tirania: 
fazendas, comércios, indtstrias. Tudo que nao puderam 
levar daqui foi confiscado. Nao se quis estender o limite 
dessa medida além da data do golpe de Estado, porque 
durante a luta contra Batista varios partidos que ante- 
rlormente estiveram no governo deram alguma forma de 
apoio ou colaboragao. Se tivéssemos estendido o alcance 
da lei mais atras, teria sido muito maior o nGmero de 
pessoas a serem confiscadas. Porém, concedemos uma 
espécie de anistia as malversacdes anteriores a Batista, 
justamente para nao criar divisdes e nao desgastar a 
Revolucdo, para manter a unidade possivel entre todas 
as forcas politicas que se opuseram ao regime. Por isso sé 
confiscamos as malversagdes feitas a partir de 10 de 
marco de 1952. Se tivéssemos ido mais atras, desde o 
inicio da Repdiblica, terfamos que confiscar até os netos 
FIDEL E A RELIGIAO 195 
dos ladrdes deste pais, j4 que houve ladrées em quan- 
tidade. 
A segunda coisa que fizemos e que também contou 
com amplo apoio foi levar aos tribunais de Justica todos 
OS fesponsaveis por tortutas e crimes, pois milhares de 
pessoas morreram torturadas e assassinadas. Se bem que 
naquela €poca a repressaéo n4o tinha o refinamento que, 
depois, demonstrou em outtos paises da América Lati- 
na, como no Chile, na Argentina e no Uruguai. O que 
ocorreu aqui foi nos anos 50 e, naqueles paises, vinte 
anos depois, quando os norte-americanos j4 tinham pas- 
sado pela experiéncia do Vietnam e a CIA ja adquirira 
farta tecnologia em matéria de repressdo e de tortura, 
transmitida as forcas repressivas da América Latina, poli- 
ciais e militares. No Vietnam, o imperialismo aperfei- 
goou suas técnicas de crime e de terror, de modo que 
aqueles paises, na década de 70, puderam contar com 
sistemas repressivos bem mais refinados e aparelhados. 
Devemos reconhecer a verdade: embora a repressao 
de Batista tivesse sido sangrenta, a que ocorreu em 
alguns daqueles paises foi indiscutivelmente pior. Res- 
ponsaveis por isso séo os Estados Unidos e a CIA, que 
instruiram todo aquele pessoal na arte de matar, de 
torturar, de assassinar e de seqtiestrar. Esse diabdlico 
fendmeno dos desaparecidos ja existia aqui na época de 
Batista, mas foram bem poucos os casos de pessoas assas- 
sinadas cujos cadaveres desapareceram. 
Frei Betto — Na cidade em que nasci, no Brasil, 
Dan Mitrione torturava mendigos para ensinar as forcas 
militares como aplicar torturas. 
Fidel Castro — Da Gltima vez em que esteve aqui, 
vocé me contou isso. Lamentavelmente aconteceu. 
Batista também matou muita gente: estudantes, cam- 
poneses, operarios; praticou toda espécie de crimes. Por 
196 CONVERSAS COM FREI BETTO 
exemplo, uma ocasido, numa aldeia da Sierra Maestra, 
as tropas de Batista assassinaram 62 pessoas, todos os 
homens do lugar. Ignoro se quiseram imitar o exemplo 
de Lidice, na Tchecoslovaquia, ou os nazistas. Foi depois 
de um combate em que uma coluna do Exército caiu 
numa emboscada. Nem chegava a ser uma aldeia, os 
camponeses viviam isolados, cada um em sua casa, € nao 
tinham nada a ver com o que ocorrera. Mataram todos os 
homens. De uma familia, assassinaram o pai e cinco dos 
seis filhos. Uma atrocidade. 
Antes do triunfo da Revolucéo, ainda na Sierra 
Maestra, quando éramos um embriao de Estado, elabo- 
ramos leis penais prévias para julgar os crimes de guerra. 
Nem sequer foi como em Nuremberg, onde nfo exis- 
tiam leis prévias para julgar os ctiminosos de guerra. As 
poténcias aliadas entraram em acordo e julgaram. Eu 
nao diria que as sentengas foram injustas, pois nao ha 
diividas de que os condenados mereciam as penas. Mas 
juridicamente nao é muito defens4vel a forma como 
procederam, devido ao principio juridico de que as leis 
devem ser prévias ao delito. Em base a este critério, 
desde a Sierra Maestra decretamos as leis de punic4o aos 
cfiminosos de guerra. Quando venceu a Revolucdo, os 
tribunais do pais aceitaram a vigéncia daquelas leis, 
legitimadas pela Revolucao vitoriosa. Em virtude delas e 
através dos tribunais, muitos criminosos de guerra que 
nao puderam escapar foram julgados e receberam penas 
severas. Alguns foram condenados 4 pena capital e, 
outros, a prisao. 
Ora, isso serviu para suscitar, no exterior, as pri- 
meifas campanhas contra Cuba, especialmente nos Esta- 
dos Unidos, que logo constatou que aqui havia um 
governo diferente e nio muito décil. Desencadearam 
violentas campanhas contra a Revolucao. Mas isso ainda 
FIDEL E A RELIGIAO 197 
nao nos criou problemas com nenhum setor em Cuba, 
nem com a classe rica, nem com a Igreja.Ao contrario, 
pesquisas feitas 4 €pocd comprovaram que todos 0s seto- 
res estavam de acordo com estas duas leis: o confisco dos 
bens ilegitimamente adquiridos, desde 0 golpe, e a con- 
denacao exemplar dos que haviam torturado e cometido 
crimes de guerra. 
Em seguida, promulgaram-se leis de carater econd- 
mico, como a redugao quase a metade das tarifas de 
energia elétrica, antiga reivindicagéo do povo, que 
nutria muito édio e muita repulsa contra os precos 
abusivos. Foram anuladas também medidas e leis de 
Batista que beneficiavam empresas multinacionais, 
como a Companhia Telefénica. Surgiram pois conflitos 
com as empresas estrangeiras em nosso pais. Depois veio 
a Reforma Urbana, uma lei de carater social e econdmico 
muito importante. Todos os aluguéis foram reduzidos 
em 50%. Foi uma lei recebida com satisfacio por milha- 
tes de pessoas. Decretou-se ainda que os inquilinos, por 
forca do aluguel que pagavam, podiam adquirir a mo- 
radia. 
A discriminacdo racial 
Junto aquelas leis, outra série de medidas: cessaram 
todas as demissées de trabalhadores e foram reintegra- 
dos ao trabalho todos que haviam sido demitidos du- 
rante a tirania, como medidas elementares de retificagao 
e de justica. Construiram-se pragas de esporte e areas de 
recreacdo nas pfaias; todas as ptaias e lugares publicos 
foram abertos 4 populacdo, eliminando-se as medidas 
discriminatérias em clubes e praias. Muitas das melhores 
praias do pais eram privadas. Os negros eram proibidos 
198 CONVERSAS COM FRE] BETTO 
de entrar em muitos hotéis, bares e locais de diversao. 
Com a vitoria da Revolucdo, tudo aquilo acabou..Em 
alguns lugares nao foi facil, como num parque de Santa 
Clara onde o costume era os brancos passarem por um 
caminho e os negros, por outro. Alguns companheiros 
tomaram medidas imediatas contra isso. Recomendamos 
a eles que fossem prudentes e nao agissem precipitada- 
mente, pois muita coisa dependia, em grande parte, da 
conscientizacao. Ou seja, nao misturamos todos no par- 
que, porque de fato havia preconceitos criados pela 
sociedade burguesa e pela propria influéncia dos Estados 
Unidos, que os introduzira aqui. Nao se podia elimina- 
los num dia. Exclusivismos irritantes foram desapare- 
cendo e os privilegiados comegaram a reclamar a partir 
do momento em que nao mais se toleravam clubes 
exclusivos para brancos ou praias particulares. Nao se fez 
isso de forma drdastica; para essas situagGes, nao convém 
adotar medidas de forca porque, longe de resolvé-las, 
podem agravat-se. Como os preconceitos eram muito 
atraigados, as medidas legais fizeram-se acompanhar de 
conscientizacao, de persuasao e de trabalho politico. 
Eu mesmo me surpreendi ao constatar até que 
ponto os pfeconceitos faciais existiam em nosso pais. 
Logo surgiram as pfimeiras campanhas insidiosas: que a 
Revolugao arbitrariamente iria misturar brancos e 
negros, propondo que casassem entre si. Mais de uma 
vez tive que ir 4 televisao para explicar que isso era falso, 
que fespeitavamos a liberdade de cada pessoa no que 
concerne a essa questaéo, mas que jamais permitiriamos 
injustigas de discriminacdo no trabalho, na escola, na 
fabrica, nos locais de diversao. E claro que os setotes pri- 
vilegiados comecgaram a se sentir atingidos pela Revo- 
lucdo. 
Depois veio a Reforma Agraria. Foi esta a primeira 
FIDEL E A RELIGIAO 199 
lei que verdadeiramente estabeleceu a ruptura entre a 
Revolugco e€ os setores mais ricos e privilegiados do pais. 
Inclusive o rompimenrtto com os Estados Unidos e com as 
empresas multinacionais, porque desde o inicio da 
Repiblica as melhores tetras eram propriedade de 
companhias norte-ameticanas, que delas se haviam 
apropriado ou comprado a preco de banana. A lei nao 
nos parecia radical, pois estabelecia um limite maximo 
de quatrocentos hectares, exceto em unidades de agri- 
cultura intensiva muito bem organizadas, com alta pro- 
dutividade, onde se admitia até 1200 hectares. Duvido 
que apds a Revolucao Chinesa algum proprietario de 
terra tenha ficado com quatrocentos ou 1200 hectares. 
No entanto, aqui esta lei foi considerada muito radical, 
ja que havia empresas norte-americanas que possuiam 
até 200 mil hectares de terra. 
Com esta lei, as terras de minha prépria familia 
foram atingidas e limitadas a quatrocentos hectares. 
Perdeu a metade das terras que possuia e todas as terras 
arrendadas. Foram atingidos pela lei umas cem empresas 
e uns mil proprietarios. O naimero s6 nao foi maior por- 
que havia grandes latifGndios. Os setores privilegiados 
comecaram a desconfiar que havia uma revolucao de 
verdade e, os norte-americanos, que havia um governo 
diferente. O que fizemos inicialmente foi pér em pratica 
© programa de Moncada, do qual lhe falei, e que eu ja 
tinha na cabeca desde 1951, tendo-o divulgado em 
1953, por ocasido do ataque ao quartel. Ele falava da 
Reforma Agraria e de uma série de medidas sociais, as 
mesmas que aplicamos na primeira fase da Revolucio. 
Talvez muita gente estivesse convencida de que nenhum 
daqueles programas setiam cumpridos, porque muitas 
vezes, em Cuba, se falou de programas e, quando os 
governos chegavam ao poder, nao eram aplicados. 
200 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Certos setores mais acomodados sequer admitiam a idéia 
de uma revolucéo em nosso pais, a noventa milhas dos 
Estados Unidos. Imaginavam que os Estados Unidos nao 
permitiriam uma revolugao aqui. Julgavam que se tra- 
tava de entusiasmo revolucion4rio da juventude, como 
houve tantos na hist6ria de Cuba e que nunca se con- 
cretizaram. 
De repente, todos aqueles setores, acostumados a 
administrar 0 governo, se dao conta de que ha um go- 
verno diferente que eles nao conseguem administrar, 
que comega a agit com retidao e justicga e que, também, 
nao admite ser controlado pelos Estados Unidos. O povo 
comeca a perceber que ha um governo que o defende e 
que realmente se identifica com seus interesses. De fato, 
embora todos apoiassem e aplaudissem, o que havia de 
inicio era uma simpatia generalizada e nao uma militan- 
cia revolucionaria de todo o povo. Com as primeiras leis 
revolucionarias, a Revolugao perde um pouco de forga 
em quantidade, ou seja, o apoio de 95 ou 96% da popu- 
lagio reduz-se a 92% ou 90%. Contudo, comeca a 
ganhar em profundidade. Esses 90% tornam-se mais 
militantemente revolucion4rios e se comprometem cada 
vez mais com a Revolucio. 
Portanto, tomou-se a série de medidas a que me 
teferi: fim da discriminagao racial, reintegracdo ao tra- 
balho dos que foram demitidos no tempo de Batista, 
reducao dos aluguéis, protecado dos trabalhadores, refor- 
ma agraria. Tudo isso foi surtindo efeito. Com o triunfo 
da Revolugao, os operatios que haviam sido reprimidos 
comecaram a reivindicar e muitos industriais, inclusive 
para ficarem bem conosco, passatam a atendé-los em 
muitos pontos. Mais do que nés que est4vamos no go- 
verno, foram de fato os préprios empresarios que cede- 
tam a diversas reivindicagdes dos operarios. Naqueles 
FIDEL E A RELIGIAO 201 
Pfimeiros momentos, os sindicatos, por iniciativa pr6- 
ptia, obtiveram inGmeras conquistas trabalhistas. 
Inclusive eu tive que me reunir com os trabalhado- 
res das usinas acucateiras, que reclamavam o quarto 
turno de trabalho, pois, como s6 havia trés e eram 
muitos os desempregados, esta reivindicacio tornou-se 
acentuada. Estavam todos os representantes reunidos 
num teatro e defendiam insistentemente essa exigéncia, 
apoiados pelo pessoal da nossa organizacaéo. Uma noite, 
conversei longamente com eles, explicando a razao pela 
qual aquele nao era o caminho para a soluc4o do desem- 
prego. Nao foi facil, as empresas ainda eram privadas e 
tinha-se a impresséo de serem contraditérios os inte- 
tresses da empresa com os dos trabalhadores. Explicamos 
que os recursos poupados e os lucros ganhos tinham que 
set investidos no desenvolvimento do pais e que nao 
permitiriamos que saissem daqui. Embora eu ja tivesse 
uma concep¢io socialista, aquele nao era o momentode 
se comecar a aplicar um programa socialista. 
E mais facil dar ao trabalhador uma explicacao pela 
6tica socialista, pedindo-lhe compreensdo e sacrificio, 
que numa circunstancia em que ele vé seus interesses em 
contradicao com os da empresa e dos proprietarios e 
imagina que cada peso a menos que recebe € um peso a 
mais que ganha o proprietério. Nao era nada facil, 
naquele contexto, explicar os problemas aos operarios, 
com clareza e objetividade, pois sempre nos esforcamos 
ao maximo pata nao cair em demagogia. Outras medi- 
das, como a reducdo dos aluguéis, eram economica- 
mente antiinflacionarias, pois liberavam muito dinheiro. 
Uma antiga reivindicac4o, pois a populacao era real- 
mente vitima de uma terrivel extorséo através dos 
aluguéis. 
202 CONVERSAS COM FREI BETTO 
A renancia de Fidel 
Frei Betto — E como foram as tensdes com a Igreja 
naquele momento? 
Fidel Castro — Bem, as tensdes com a Igreja co- 
mecatam quando a Revolugao se chocou com 0s setores 
privilegiados. Esta € a verdade histérica. Inclusive o 
atcebispo de Havana, depois nomeado cardeal — creio 
que o nomearam antes da Revolugao — tinha excelentes 
telacdes formais com a ditadura de Batista. 
Fret Betto — Como se chamava ele? 
Fidel Castro — Manuel Arteaga. As relagdes com 
Batista era uma das coisas que se lhe criticava. Lem- 
bro-me que, nos primeiros dias da Revolucéo, cum- 
ptimentamos todas as autoridades. Muitos me solicita- 
vam audiéncia e, por amabilidade e cortesia, procurava 
atender a todos. Comecei a receber a chamada elite: o 
presidente da federacao das indistrias, o presidente da 
associacao comercial ou de outra qualquer, a alta hierar- 
quia eclesiastica e instituigdes afins. Trés ou quatro 
semanas depois, quando j4 haviamos conseguido pdr 
certa ordem na casa, constatei em minha agenda uma 
série infindavel de audiéncias. Tomei consciéncia de que 
minha vida era a mais estéril do mundo, pois, do jeito 
que as coisas iam, eu teria que me dedicar exclusiva- 
mente a receber autoridades, embora eu nado tivesse 
nenhum cargo executivo no governo que ja funcionava. 
Meu catgo era de Comandante-em-chefe do Exétcito 
Rebelde. Fui muito cauteloso em nao me imiscuir nos 
assuntos do governo. 
Fre: Betto — Urrutia era o presidente. 
Fidel Castro — Sim, havia um presidente pro- 
visOrio, uM juiz cujos méritos e prestigio decorriam de 
sua conduta plausivel em Santiago de Cuba, onde absol- 
FIDEL E A RELIGIAO 203 
veu alguns revolucionarios. Apesar de nao ter tido 
nenhuma participac4o no processo revolucionario, deci- 
dimos promové-lo a este cargo, queriamos deixar bem 
claro que nao lutaévamos por cargos ptblicos. Efetiva- 
mente, a Revolucdo triunfou e entregamos o governo a 
ele. O diabo € que aquele individuo vivia com a cabeca 
nas nuvens. Desde o primeiro dia, comegou a criar pro- 
blemas, inclusive adotando medidas contra os operarios. 
Colocou-nos em situagées dificeis, tive que me reunir 
com os operarios para aclarar as coisas e pedir-lhes pa- 
ciéncia. Me reuni também com o Conselho de Ministros 
para advertir que ele criava problemas politicos. 
Embora nao houvessem dificuldades com as pri- 
meiras leis da Revoluc&o, aquele juiz era o que poderia- 
mos considerar um presidente de direita que, em certo 
momento, criou um sério conflito. Aos setores e jornais 
mais reacionarios comecou a fazer declaragdes anticomu- 
nistas, fazendo o jogo dos Estados Unidos e, mais tarde, 
provocando divisdes entre as forgas revolucionarias. Me 
perguntei: que faremos? O povo estava conosco, a Revo- 
lucdo tinha, naquele momento, 90% ou mais de apoio 
popular. Apoiavam a Revolugio, o Exército Rebelde, a 
direcdo revolucionaria, mas nao apoiavam Urrutia. Se 
por um segundo Urrutia imaginou que aquele apoio era 
para ele, estranho muito. Porém, passou a agir como se 
assim fosse e acabou criando um conflito. Fiquei pen- 
sando em como resolver aquela situacado. Sabiamos que 
nao poderia ser solucionada pela forga. Que fazer se a 
contradicao entre a forca revolucionaria e o presidente 
nos obrigasse a destitui-lo? Ficaria parecendo um novo 
golpe de Estado. Meditei muito sobre o caso. Ja havia 
alguns meses, antes da aplicacao das leis revolucionarias, 
eu ja tinha sido nomeado primeiro-ministro, a pedido 
do proprio Ministério. Foi uma solicitagéo de quem 
204 CONVERSAS COM FREI BETTO 
antes ocupava aquele cargo, apds encaminha-la com 
Urrutia e com a assembléia do Conselho de Ministros. S6 
pus uma condicdo: para aceitar ser pfimeiro-ministro 
quero assumir a responsabilidade pela politica e pelas 
leis revolucionarias que serao implantadas. A condigao 
foi aceita, sem problemas. Como primeiro-ministro, era 
eu o responsavel pela emissdo dos decretos revoluciona- 
rios. Houve ent4o, em seguida, uma série de leis revolu- 
cionarias e s6 depois criou-se o impasse institucional 
entre o primeiro-ministro e o presidente da Repdblica. 
Refleti muito, evitando todo tipo de provocagao, e 
decidi renunciar. Disse aos companheiros: prefiro 
renunciar ao cargo do que permitir que ocorra algo 
semelhante a um golpe de Estado. Diante da TV e dos 
jornais, expliquei as razGes de minha rentincia. Enquan- 
to Urrutia ocupava o Palacio, eu me encontrava na emis- 
sora de televisao. 
Fret Betto — Em que data isso ocorreu, quanto 
tempo apos a vit6ria? 
Fidel Castro — Se nao me engano, uns cinco meses 
depois. 
Frei Betto — Ainda em 1959? 
Fidel Castro — Ainda em 1959, meses depois. 
Quando Urrutia, no Palacio, me viu na televisao, 
convocou os jornalistas para emitir uma declaracéo. Ao 
ser informado disso, ainda no ar, propus: ‘‘Levem a TV 
ao Palacio, vamos discutir publicamente, diante do 
povo’’. Ele nao aceitou e, horas depois, devido 4 pressao 
da opiniao publica, renunciou. O Conselho de Ministros 
nomeou presidente a um companheiro de muito presti- 
gio que participara da Revolucéo. Como eu nfo queria 
aceitar de novo o cargo de primeiro-ministro, transcor- 
reu um petiodo sem que eu patticipasse do governo. De 
nenhum modo eu queria dar a impressdo de que a 
FIDEL E A RELIGIAO 205 
renaincia havia sido uma meta tatica para resolver o 
problema. Minha decisao foi simples: ‘‘Para nao sermos 
obrigados a usar a fora, renuncio’’. Evidentemente eu 
n4o ifia renunciar a Revolucdo. Renunciei ao cargo que, 
naquelas condigées, nao tinha como exercé-lo. Pois est4- 
vamos decididos a nao usar a forca para resolver aquela 
contradigao. Ela foi resolvida pelo povo, que é capaz de 
resolver muitos problemas. Fiquei com resisténcia a 
ocupar o cargo mas, frente as pressdes dos companheiros 
e do povo, vi que nao tinha sentido. Reassumi como 
pfimeiro-ministto, respons4vel pelo governo. 
Os conflitos com a Igreja 
Fret Betto — O senhor ia falar dos contatos com o 
cardeal? 
Fidel Castro — Bem, eu lhe contava que percebi, 
nos pfimeiros dias — creio que ja em fevereiro —, 
que dedicar-me a tarefas protocolares e a receber petso- 
nalidades tornaria a minha vida inteiramente inttil, a 
mais estéril do mundo. Entre aquelas figuras, mais de 
uma vez apareceram, para pedir audiéncias, dois sujeitos 
gorduchos. Eu indagava: ‘‘Quem sao?’’ ‘‘Sdo os sobri- 
nhos do cardeal.”’ Depois de duas ou trés audiéncias que 
lhes concedi, pensei: ‘‘Desse jeito terei que me dedicar 
exclusivamente a receber os sobrinhos do cardeal”’ 
Queriam tratar de negdécios que tinham e estavam tam- 
bém interessados em sair nos jornais e angariar prestigio 
social. Os jornais noticiavam no dia seguinte: ‘‘Foram 
recebidos Fulano e Beltrano’’. Era o tipo de trabalho 
que sO me abortecia e, felizmente, logo fiquei livre 
daquilo. Decidi: ‘‘Verei as pessoas que realmente me 
interessam, irei aos lugares que me interessa ir e ndo me 
206 CONVERSAS COM FREI BETTO 
escravizarei a receber figurdes que nada produzem ou 
resolvem e, no entanto, querem ver-me’’. Mudei de 
método. Mas me lembro bem daqueles gorduchos, 
gente bem nutrida que, vira e mexe, solicitava uma 
audiéncia. Eu tinha a impress4o de n4o fazer outra coisa.O cardeal mantinha também muito boas relacées 
formais com o governo revolucionario. Por ai nao houve 
nenhum problema. Eles surgiram com as leis revolucio- 
narias de Reforma Urbana e de Reforma Agraria. 
Frei Betto — A questao das escolas. Quando 
surgem as leis de intervencao nas escolas? 
Fidel Castro — De inicio, nada se fez. N&o havia 
um programa de imediata estatizacdo das escolas par- 
ticulares. Isso nao figurava entre as primeiras medidas. 
Nosso programa era realizar a campanha de alfabe- 
tizacdo e levar os professores a todos os recantos do pais. 
Simultaneamente, comecamos a construir estradas, 
hospitais e policlinicas nas montanhas, e muitas escolas. 
Criamos 10 mil novas vagas para professores. Eles foram 
mobilizados em todo o pais. Essas leis revolucion4rias 
getaram conflitos, os setores burgueses e os latifundia- 
rios mudaram de atitude e decidiram fazer oposicao 4 
Revolucdo. E as instituigdes que serviam a seus interesses 
também comecaram a fazer campanhas contra a Revolu- 
¢ao. Produziram-se ent4o os primeiros conflitos com a 
Igreja, porque aqueles setores procuraram instrumenta- 
lizar a Igreja contra a Revolucdo. 
Por que procuraram fazer isso? Por uma razao bem 
particular de Cuba, que nao € a mesma do Brasil ou da 
Colémbia, do México e do Peru, nem de muitos paises 
latino-americanos: € que a Igreja de Cuba n4o era popu- 
lar, nao era propriamente uma Igreja do povo, nao era a 
Igreja dos trabalhadores, dos camponeses, dos favelados, 
dos setores humildes da populagZo. Aqui nunca houve 
FIDEL E A RELIGIAO 207 
sacetdotes trabalhando com os favelados, os operarios ou 
no campo, como ja ocortia em certos paises e, depois, 
tornou-se freqiiente na América Latina. Neste pais, 
onde 70% da populacao era camponesa, nao havia uma 
sO igteja no campo. Este é um dado importante: ne- 
nhum padre onde vivia 70% da populacao! Em todos os 
lugares era como o lugar em que nasci, como lhe contei 
ontem. Nao havia nenhum trabalho evangélico, aposté- 
lico, digamos — nao sei como vocés chamam —, de 
educagao religiosa da populacdo. 
Fret Betto — Evangelizacao. 
Fidel Castro — Evangelizacao. Como lhe dizia, a 
sociedade se considerava catdlica, existia o costume do 
batismo e de tudo aquilo que lhe expliquei ontem, mas 
realmente nao havia instruco e pratica da religiao. A 
religiao em Cuba era propagada principalmente através 
das escolas particulares dirigidas por religiosos e reli- 
giosas, freqiientadas pelos filhos das familias mais ricas 
do pais, pela nata da aristocracia ou que se julgava aris- 
tocrata, pelas classes médias altas ou por uma parte da 
classe média em geral. Como ja lhe disse, talvez um mé- 
dico pudesse mandar um filho como aluno externo, pa- 
gando o equivalente a dez délares. Aquele era 0 veiculo 
principal de propagacao da religido em nosso pais e, 
portanto, eram eles que recebiam uma educagio religio- 
sa € pafticipavam das atividades religiosas, embora de 
modo nao muito metddico ou rigoroso. Talvez porque 
aquelas classes tivessem, como uma de suas caractefisti- 
cas, costumes bem relaxados e falta de disciplina na vi- 
véncia da religiao. Alguns nem iam 4 missa, por exem- 
plo. Um auténtico catélico militante nao detxa de ir a 
missa domingo. Outros iam 4 missa domingo como 
mero costume social, algo assim de bom gosto e, depois, 
iam desfrutar de seu bem-estar e de sua riqueza. Nao 
208 CONVERSAS COM FREI BETTO 
era gente que se caracterizasse pela fidelidade 4 pratica 
dos principios de sua religiao. 
O nicleo principal da Igreja catélica em nosso pais 
estava integrado por esses setores. Eram os que tinham 
mais ligagdes com as patéquias que, em geral, se encon- 
travam nos bairros ricos. Ha tempos havia algumas 
igtejas nas areas urbanas comuns. Porém, excelentes 
igrejas foram construidas na nova area onde se implan- 
taram os bairros residenciais da alta burguesia e do 
pessoal muito rico. Para esses, 0 servigo estava garantido, 
ao contrario dos bairros de indigentes, de pobres, de 
camponeses e de operarios. Em geral, as classes ricas 
tinham relacdes de familia com os bispos e a alta hie- 
rarquia. 
Além disso, como contei quando falavamos dos 
jesuitas, a maior parte do clero era estrangeira, sobre- 
tudo espanhéis imbuidos de idéias reacionarias, de 
direita, nacionalistas espanholas e, inclusive, franquis- 
tas. Os primeiros conflitos com a Igreja surgiram quando 
aquele pessoal comecou a instrumentalizar a Igreja como 
um partido contrario 4 Revolugao. Claro, nao apenas a 
Igreja catdlica tinha colégios particulares, também as 
Igrejas protestantes tinham algumas escolas de conside- 
ravel prestigio. Lembro-me, por exemplo, de uma em El 
Cristo, na Provincia de Oriente, onde estudou minha 
irma cagula. Era uma escola protestante, afamada. Nao 
efa muito cara, era barata, talvez recebesse alguma ajuda 
da Igreja. Em Cardenas havia a Escola Progressiva, tam- 
bém protestante e de renome, e muitos de seus ex-alu- 
nos estéo com a Revoluca4o, como o companheiro Pepin 
Naranjo. Ainda vive o mais famoso diretor daquela 
escola, Emilio Rodriguez Busto, que sempre apoiou a 
Revolucéo. Era um setor mais humilde e nao houve 
problemas. Em Havana havia também escolas protes- 
FIDEL E A RELIGIAO 209 
tantes, algumas com nome em inglés. Se nao me equi- 
voco, uma delas, bem luxuosa, chamava-se Candler 
College. Lembro-me porque era nossa rival nos jogos de 
basquete e de beisebol, quando eu me encontrava no 
Colégio Belém. Havia ainda escolas particulares leigas. 
Portanto, com poucas excecdes, a maioria das escolas 
eram catdlicas, como a em que eu estudei, a maior do 
pais, com mil alunos! Hoje temos v4rias escolas com 
4500 alunos internos cada uma. Daqueles mil alunos 
do mais famoso colégio do pais, uns 150 a duzentos 
efam internos. ’ 
A Igreja nutria-se fundamentalmente daqueles 
colégios. Sem considerar 0 que poderiamos chamar de 
crencgas populares: o fervor pela Virgem da Caridade, 
por Sado Lazaro, a quem acendiam vela, e o costume que 
a maioria da populacao tinha de batizar-se. 
A religiosidade do povo 
Frei Betto — Entao o senhor nao nega que ha uma 
teligiosidade difusa na cultura do povo cubano? Por 
exemplo, isso se nota nas obras de Marti. Apesar de o 
povo daqui ter sido sempre laico, ha quem queira dar a: 
impressao de que nao houve nenhuma ttadigao reli- 
giosa. Pelo pouco que conhego deste pais, penso que 
tiveram influéncia as religides de origem africana e a 
devocao aos santos e que existe uma teligiosidade difusa 
na cultura. O senhor confirma isso? Como é? 
Fidel Castro — Eta disso que eu lhe falava: do 
culto a Virgem da Caridade, a Sao Lazaro, a diversas di- 
vindades. Havia crencas de todo tipo. Difundia-se tam- 
bém o espiritismo. Recebemos ainda a heranga da Afri- 
ca, das religides animistas que, depois, se misturaram 
210 CONVERSAS COM FREI BETTO 
com acatélica. Vocé se refere a uma religiosidade difusa. 
Bem, creio que, na hist6ria humana, nao ha nenhum 
povo que nao tenha tido uma religiosidade difusa. 
Quando Colombo aqui chegou com a sua Igreja, que era 
a catélica, trazendo a espada e a cruz, com a espada ele 
consagrou o direito 4 conquista e, com a cruz, o aben- 
coou. Inclusive os indios que aqui viviam tinham suas 
convicc6es religiosas. 
Quando Cortez chegou ao México, a cultura e a 
religiosidade estavam amplamente difundidas, mais do 
que na Espanha. Estou convencido de que os astecas 
eram mais religiosos que os espanhdis, de tal modo que 
ainda nos surpreende ver até que ponto os sacerdotes se 
consagravam 4 teligiao, na qual havia sacrificios huma- 
nos. Os governos eram teocraticos. Ha uma vasta litera- 
tura sobre aqueles métodos. Bem, chegaram os crist&os 
com a sua moral e os consideraram cruéis. Imagina se 
um asteca chega a Espanha e considera muito cruel que, 
no calor do verdo, um sacerdote vista batina. Ha muitas 
coisas que eles poderiam qualificar de cruéis, pois, se 
tivessem sido os juizes, teriam queimado vivo aqueles 
hereges espanhdisque, como barbaros, nao ofereciam 
sacrificios aos deuses. E preciso analisar quanto ha de 
barbarie ou de crueldade num e noutro. Todavia, os 
astecas nao sacrificavam uma vida humana como um 
gesto de crueldade contra a pessoa e sim como um privi- 
légio especial para a vitima. Como em certas religides 
asiaticas a mulher considera um privilégio ser incinerada 
junto ao marido morto. Serem sacrificados a seus deuses 
de pedra era, para eles, uma enorme felicidade, uma 
sorte grande digna dos maiores prémios. 
E dificil se encontrar um povo mais religioso que o 
asteca € o mata. Encheram o México de piramides, de 
construg6es religiosas. De modo que quando se per- 
FIDEL E A RELIGIAO 211 
gunta: esta piramide ou esta obra, pata que serviam? 
Tudo tinha uma finalidade religiosa. Os astecas tinham 
uma teligiosidade mais profunda que os espanhédis. 
Também os incas do Peru tinham uma religiosidade 
maior que Pizarro e todo aquele pessoal. Pizarro pensava 
muito mais no ouro do que na Biblia. Os conquistadores 
pensavam principalmente no ouro. Criticavam os indios 
que adoravam as pedras e, no entanto, eles adoravam o 
ouro. Criticavam os que faziam sacrificios humanos aos 
deuses de pedra, enquanto eles promoviam milhares de 
sacrificios humanos ao deus da riqueza e do ouro, ma- 
tando milhdes de indios no trabalho nas minas, inclu- 
sive espanhdis. Prenderam Atahualpa e, depois, o enga- 
Maram, porque, apds cobrarem dele o resgate de um 
salao repleto de objetos de ouro, o assassinaram. Nem 
sequer se pode afirmar que os conquistadores deste 
hemisfério tinham muita religiosidade. A meu ver, nao 
creio que a tivessem. 
. Quando se estuda a histéria da India, da China, da 
Africa e de todos os povos, o que primeiro se encontra é 
a religiosidade. E com uma pureza enorme, mesmo que 
nao se compreenda ou parecam barbaros e absurdos seus 
métodos e suas catacteristicas. Muitas vezes se ouve: ‘‘E 
uma gente barbara, cré na lua, num animal ou num 
objeto’’. Portanto, o que primeiro se destaca na histéria 
humana, em todo o mundo, € a teligiosidade difusa. 
Nao é um principio aplicavel a um povo em particular 
mas, de uma forma ou de outra, a todos os povos. E 
indiscutivel que ela existia também em Cuba. O que lhe 
posso afirmar € que nao havia a tradic¢ao da religiao orga- 
nizada, sistemAtica, metédica, ou seja, pratica e militan- 
cia de uma teligiao. Mas sim uma grande mistura de 
religides e, além disso, um espirito geralmente influen- 
ciado por idéias e conviccées religiosas. Acredito que 
m2 CONVERSAS COM FREI BETTO 
nenhuma sociedade foi excecéo, embora no México, 
para citar um exemplo, a coisa tenha sido mais forte do 
que aqui. Tenho a impressdo de que também em outros 
paises latino-americanos. Na propria Espanha, foi mais 
profunda essa religiosidade difusa a qual vocé se refere e 
que, aqui, se manifestava de mil formas diferentes e nao 
através da pratica sistematica da religiao. 
Frei Betto — Perfeito. Eu gostaria entao de retomar 
a quest4o das tensGes iniciais. Por exemplo, a situagao 
do ensino das escolas. Imagino que este deve ter sido um 
dos pontos mais conflitantes nas relagdes da Revolucao 
com a Igreja. 
Fidel Castro — O que houve foram conflitos de 
classe. Expliquei-lhe que a classe rica monopolizava 
as igrejas e procurou instrumentaliza-las, induzindo 
bispos, padres e fiéis a posigdes contra-revolucionarias. 
Isso provocou uma feacgao oposta em setores catdlicos, 
tanto da classe média como do meio popular, que nao 
aceitaram aquela linha contra-revolucionaria. Um grupo 
ativo de catdélicos, na maior parte constituido por mu- 
lheres — setor que sempre teve muita sensibilidade a 
obra revolucionaria —, criou uma organizacao chamada 
Com a Cruz e com a Patria, que apoiou decididamente a 
Revolugao. Muitas delas foram fundadoras da Federacao 
de Mulheres Cubanas. Por outro lado, via-se uma dife- 
renga no comportamento das Igrejas evangélicas. Pelo 
que sempre observei, as Igrejas evangélicas propagaram- 
se Mais nos setores mais humildes da populacao. Tinham 
uma vivéncia mais militante da religiao, ou seja, mais 
disciplina no que concerne a suas concepcées, a seu 
modo de ser, a seus métodos, a sua maneira de rezar. 
Fret Betto — Mais coeréncia. 
Fidel Castro — Sim, eram mais conseqiientes em 
sua pfratica crista. Nao etam muitos, mas quem per- 
FIDEL E A RELIGIAO NS} 
tencia a tal Igreja evangélica ou freqtientava tal escola — 
entre as inGmeras que havia — era, em geral, mais disci- 
plinado, muito mais conseqtiente em seus sentimentos e 
em suas conviccées religiosas que os catédlicos. De modo 
que nao houve problemas com os setores evangélicos; ao 
contrario, de modo geral sempre foram boas e faceis as 
telagdes com eles. Tampouco houve problemas com as 
crengas animistas ou com quaisquer outras. Nem mesmo 
houve problemas com a f€ catélica, mas sim com as insti- 
tuigdes catdlicas, o que nao € o mesmo. 
Dentro da Igreja evangélica, a Revolucdo teve pro- 
blemas com certas Igrejas por suas caracteristicas 
especiais, como foi o caso das Testemunhas de Jeova. Ja 
li que essa gente ctia problemas em todas as partes. 
Fret Betto — Em todas, inclusive com os militares 
‘brasileiros. 
* Fidel Castro — Entram em conflito com os sim- 
bolos patridticos, com a escola, a satide, a defesa do pais 
€ com muitas outras coisas. Ao nos deparar com uma 
pfegacdo que se opunha ao servico militar, nos sen- 
timos especialmente atingidos, devido 4 ameaca dos 
Estados Unidos e a necessidade de se organizar uma 
forte defesa. Os conflitos néo foram com as convicgées 
religiosas e sim com certas concepgdes mais politicas que 
religiosas, considerando as condigées especiais de Cuba. 
Deram-se dois ou trés casos de Igrejas evangélicas. Com 
as instituicdes catélicas houve sim conflitos e enfrenta- 
mentos politicos. De fato, nenhum deles foi violento. 
No inicio nao se planejara e nem se falava em estatizar as 
escolas particulares. E claro que, por principio revolucio- 
nario, deseja4vamos aprimorar as escolas piblicas, tao 
boas ou melhores que as escolas particulares. E penso 
que realizamos este principio, porque agora temos mi- 
lhares de escolas. Entre creches, alunos semi-internos e 
214 CONVERSAS COM FREI BETTO 
internos, o pais conta atualmente com mais de um 
milhao de novas vagas que foram criadas. Como eu lhe 
dizia, uma s6 de nossas escolas vocacionais, das maiores, 
de 4500 alunos, tem mais internos que todos os alunos 
internos que havia neste pais. Os que tinham mais 
alunos eram o Colégio Belém, com uns duzentos, e o 
Dolores, em Santiago de Cuba, com uns trinta. Falo dos 
que conheci. Duvido que alunos propriamente internos, 
© que aqui chamamos de aluno Jecado, houvessem 2 
mil no passado, e hoje temos 600 mil alunos internos, 
que recebem no apenas a instrucdo, a moradia e a ali- 
mentacdo, mas também a roupa, os livros, a assisténcia 
médica e o transporte. Isto significa que devemos ter 
trezentas vezes mais alunos internos do que os alunos 
internos filhos dos burgueses e dos latifundiarios daqui. 
De modo que agora um simples camponés de uma 
humilde familia das montanhas ou da Sierra tem educa- 
cao assegurada a seu filho ou 4 sua filha, em melhores 
condicgdes que a dos filhos da minoria privilegiada do 
pais. 
Hoje temos a instituigéo da creche, aqui chamada 
circulo infantil, que nao existia antes da Revolucdo. Dis- 
pomos de cerca de mil creches. Com capacidade para 
42 mil alunos, temos escolas especiais para alunos com 
problemas de surdez, de viséo, de fala ou de qualquer 
outro tipo de deficiéncia. Contamos com muitos centros 
pré-escolares. Nas universidades, ha milhares de alunos 
em regime de internato. Isto significa que, em 26 anos 
de Revoluc3o, conseguimos realizar o principio de pér 
ao alcance das familias mais humildes melhores escolas 
que aquelas das familias privilegiadas. E isso € dado pela 
sociedade, proporcionado pelo Estado socialista. 
Pois bem, sem aqueles conflitos, nao teria sido 
necessatioestatizar as escolas. E provavel que muita 
FIDEL E A RELIGIAO 215 
gente, em vez de pagar uma escola particular, preferisse 
uma escola publica. Talvez houvesse uma emulacao 
entre aquelas escolas e as nossas. Nao estava prevista a 
estatizacao das escolas particulares. Os conflitos daquele 
petiodo, quando ainda nfo havia as novas escolas, susci- 
taram a necessidade de estatizacao das escolas particula- 
res, sobretudo catdélicas, freqiientadas pelos filhos das 
familias que se opunham 4 Revolucio e que transforma- 
vam aquelas instituicgdes em centros de atividades contra- 
revolucionarias. Isso impés a necessidade de estatizacaio 
de todas as escolas particulares, cat6licas, protestantes ou 
leigas, sem distincao. Todas foram cstatizadas. 
Do que me lembro — considerando que estamos 
convetsando improvisadamente — foi esse o fator que 
desencadeou aquele processo. Poder-se-ia analisa-lo me- 
lhor. Se vocé me perguntasse: ‘‘E agora, 26 anos depois, 
poderiam existir tais escolas?’’ Talvez sim. Nao defendo 
€ nao exijo que as escolas particulares tenham que neces- 
safiamente ser estatizadas, se nao ha conflitos entre as 
familias que enviam seus filhos aquelas escolas e a Revo- 
luc&o, se as escolas nao se transformam em ninhos de 
atividades contra-revolucionarias, especialmente quan- 
do ha violéncia. Porém, quando sido associadas 4s agtes- 
sdes dos Estados Unidos, as acgdes de sabotagens e de 
bombas da CIA e ao bloqueio econédmico, que obrigam 
o pais a defender-se, nao ha outra alternativa. Se ha rela- 
¢des harmoniosas dentro da sociedade, do ponto de vista 
econémico se poderia considerar: de 300 milhdes de 
pesos destinados 4 educaca4o, poder-se-ia destinar 200 
milhdes aos setores que nao podem pagar escola e os 
restantes 100 milhdes nao precisariam ser empregados 
com quem pode pagar escola, seriam destinados 4 satide 
publica, 4 construgao de moradias e ao desenvolvimento 
econémico. Ainda hoje ha familias em Cuba que pode- 
216 CONVERSAS COM FREI BETTO 
riam pagaf uma escola particular, ndo porque sejam 
empresfrias ou latifundiarias, e sim porque tém renda 
mensal acima de mil pesos. Sao familias de médicos, de 
engenheiros ou de oper4rios. Varias familias tém renda 
mensal acima de mil pesos porque muitos de seus mem- 
bros trabalham e, portanto, poderiam pagar cinqiienta 
ou cem pesos para que um filho freqiientasse a escola. 
Inclusive o Estado socialista poderia ter escolas pagas, 
desde que fosse conveniente, nao fossem piores que as 
demais e nem significassem falta de escolas para as 
demais criancas. Se ha escolas particulares, religiosas, 
num pais que inicia sua revolucao, € preciso considerar o 
servigo que prestam a educacao do pais e em que medida 
ajudam a reduzir os gastos nesse setor. Os paises do 
Terceiro Mundo, que tém muitas necessidades e pouco 
dinheiro para o seu desenvolvimento, poderiam estabe- 
lecer: esses 100 milhGes serao destinados a outros fins. 
De modo que, longe de encarar a estatizacao da 
escola particular como uma dogmiatica exigéncia, vejo-a 
inclusive como uma contribuicao de certos setores 4 
economia do pais e a possibilidade de se destinarem 
verbas a outras necessidades igualmente importantes. 
Nao a considero um dogma da Revolucio. Falo de nossa 
necessidade particular, que foi diferente. Conseguimos 
realizar o que se considera ideal: dar a todas as criangas 
do pais a mesma possibilidade de educag4o e com qua- 
lidade. 
A Igreja e os processos revolucionarios 
Fret Betto — Comandante, em minha infAancia, eu 
ouvia ceftos padres dizerem que precisavamos lutar con- 
tra 0 comunismo e o socialismo, pois quando o socia- 
FIDEL E A RELIGIAO 217 
lismo chega as igrejas sio fechadas, os padres assassina- 
dos, as freitas violentadas e os bispos enforcados. Per- 
gunto-lhe: em Cuba as igrejas foram fechadas, os padres 
fuzilados, os bispos torturados, como ocorreu no Brasil 
durante o regime militar? Como foi? 
Fidel Castro — Vou explicar a vocé. Penso que 
nas revolucoes hist6ricas classicas existiram sérios confli- 
tos entre os movimentos politicos e a Igreja. Algumas 
vezes, com a Igreja catélica. No antigo império dos 
czares, ocorreu com a Igreja ortodoxa. 
Frei Betto — E na revolucdo mexicana. 
Fidel Castro — Sim, eu ia cita-la, mas antes me 
remetia a épocas ainda mais remotas. Inclusive na Re- 
forma, quando surgiu o movimento de Lutero, de Cal- 
vino e as diferentes Igrejas, houve violentos conflitos, 
até derramamento de sangue. Desde criancga eu ouvia 
falar da Noite de Sao Bartolomeu, na Franca. Isto é 
hist6rico, por causa de conflitos religiosos milhares de 
pessoas foram assassinadas. De modo que a violéncia 
nao é especifica dos conflitos politicos e sociais, mas 
também ela existiu, em grande escala e intensidade, nos 
pt6prios movimentos teligiosos. Nao sei se alguém cal- 
culou quantas pessoas foram sdcrificadas por causa disso. 
Frei Betto — Pela Inquisicao. 
Fidel Castro — Sim, desde a Inquisigéo, tanto um 
lado, como o outro, adotaram a violéncia. As vezes 
foi o Estado, outras, a Igreja. Assim, nao s6 nos conflitos 
politicos houve violéncia entre a Igreja e 0 movimento 
politico, mas também nos proprios movimentos religio- 
sos. Basta dizer que, quando surgiu o cristianismo, mi- 
Ihares de cristaos foram sacrificados pela velha Igreja 
paga de Roma. Nao se sabe quantos cristaos foram sacti- 
ficados em trezentos anos de Império Romano, desde 
Cristo, que foi o primeiro, até o Gltimo, antes que a 
218 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Igreja se tornasse religiao oficial do império. Portanto, 
houve violéncia e muito sacrificio nas préprias lutas da 
Igreja. Nao s6 contra ela, mas a propria Igreja aplicou a 
violéncia em grau consideravel. Sendo assim, nao € uma 
coisa absurda que haja violéncia entre o movimento 
politico revolucionario e a Igreja. 
Nas revolucées classicas, comecgando pela francesa 
— um acontecimento de muito interesse hist6rico —, 
houve violéncia com uma parte da Igreja. Nao se deve 
esquecer como surgiu a Revolucdéo Francesa, numa 
assembléia onde havia trés estamentos sociais: a nobre- 
za, oclero e a sociedade civil, ou seja, comerciantes, pro- 
fissionais liberais, artesdos, o que poderiamos considerar 
a classe média. E foram precisamente o clero e o baixo 
clero, embora nao faltassem alguns bispos, que determi- 
naram a maioria da sociedade civil. Essa foi a assembléia 
que convocou o rei. Inclusive alguns nobres apoiaram os 
setores médios da populacéo. Mas quem garantiu a 
maioria foram o clero e o baixo clero, alguns arcebispos e 
também alguns nobres. Nao se pode esquecer que 
Lafayette e outros apoiaram a Revolucio. Esta foi a pri- 
meira revolucao classica da era moderna, e foi violenta. 
De um lado e de outro, teve padres e bispos sacrificados. 
Nao se pode esquecer que os padres tiveram um papel 
decisivo na ecloséo da Revolucdo Francesa. 
De certa forma esses conflitos se repetem na segun- 
da grande revolucao social de nossa era, a Revolucao 
Bolchevista. Nao tenho muitos dados, mas imagino 
que, como em toda revoluc4o, houve conflitos com a 
Igreja, pode ter havido sacerdotes fuzilados. Nao me 
consta, porque de fato a gente nao presta muita atencdo 
nesses dados nos grandes processos histéricos. Conheco 
mais 0 que ocorreu na Revolucdo Francesa, sobre a qual 
se escreveram muitos livros. 
FIDEL E A RELIGIAO 219 
No nosso hemisfério, a mexicana foi também uma 
revolucao social. Nao uma revolucio socialista, e sim 
social, na qual houve de tudo, uma parte da Igreja a 
favor, outra, contra. Houve conflitos sangrentos. Como 
também na Guerra Civil Espanhola, houve violéncia de 
ambos os lados. Fuzilaram-se padres e, possivelmente, 
bispos. 
Quanto a nossa Revolucdo, € uma revolugio social 
ptofunda e, no entanto, nao houve um s6 caso de bispo 
ou de padre fuzilado, nem um sé caso de sacerdote mal- 
tratado fisicamente ou torturado. Bem, com relacao a 
isto, 0 mais admiravel € que nao se deu nenhum caso 
com sacerdote nem com leigo, porque desdea Sierra 
Maestra, quando fizemos as leis das quais lhe falei, 
contra os torturadores e os assassinos, cfiamos em nossos 
combatentes uma profunda consciéncia de respeito a 
vida humana, 4 pessoa humana e de rejeicao a arbitra- 
riedade, a injusticga, a violéncia fisica contra 0 prisioneiro 
e€ as pessoas. 
Nao ganhamos a guerra apenas combatendo, mas 
também por causa da politica adotada em relagZo aos 
prisioneiros. Nao houve um s6 caso de soldado inimigo 
que, preso, tenha sido fuzilado; um s6 caso de prisio- 
neiro torturado, ainda que fosse para arrancar uma 
informacao importante. Tinhamos nossas leis e, ao des- 
cobrir um espiao, podiamos julga-lo, sentencia-lo e, 
inclusive, fuzila-lo. Ah, mas jamais torturavamos para 
atrancar-lhe qualquer coisa! Em geral, esse tipo de gente 
se desmoraliza e sujatiamos nossas proprias m4os se o 
fizéssemos. Se precisamente o nosso pessoal se inspirava 
no odio 4 tortura e ao ctime, nos desmoralizariamos se 
déssemos aos nossos soldados o exemplo da tortura e do 
crime. E quem nao compreende que, numa revolucao, a 
moral € o fator fundamental, esta perdido e fracassado. 
220 CONVERSAS COM FREI BETTO 
So os valores e a moral o que espiritualmente arma um 
homem. Vocé entender4 que, independentemente da 
conviccéo religiosa, nao motivamos um combatente 
revolucion4rio com a idéia de uma recompensa no outro 
mundo ou de que, se morre, ganhara eternamente uma 
enorme felicidade. Aqueles homens, mesmo os que nao 
eram cfistaos, estavam dispostos a morrer por valores 
pelos quais consideravam que valia a pena sacrificar a 
vida, apesar de nZo terem nada além da vida. Portan- 
to, s6 se consegue que um homem aja assim a base de 
determinados valores, que nao se pode contradizer ou 
destruir. 
| Em nossa guerra nao se deu nenhum caso de um 
soldado que, preso, tenha sido fuzilado. Isso ajudou 
muito, pois inspirou respeito, autoridade e moral nas 
forcas revolucion4rias, frente a um inimigo que, ao con- 
trario, torturava, matava e cometia toda espécie de 
crimes. Mantemos essa tradicao ao longo de mais de 26 
anos, em todos esses anos de Revolugao, como uma poli- 
tica firme e decidida. Jamais toleramos o contrario. Nao 
impofta 0 que os inimigos dizem por ai! Dizem barbari- 
dades e nao ligamos. Quando se lé os telegramas inter- 
nacionais se os percebe irritados e furiosos porque, real- 
mente, ndo podem apresentar uma s6 prova de que a 
Revolugaéo cometera um assassinato, torturata um 
homem ou o fizera desaparecer. Em 26 anos, nao ha 
uma sO prova. Esta tem sido uma Revolucgdo que se pro- 
cessa com muita ordem. 
Fomos muito radicais, mas sem excessos. Jamais 
aceitamos violar um de nossos valores, sobre os quais se 
sustenta a Revolucdo. Portanto, ninguém aqui foi vitima 
de tais métodos, nem um sé padre ou bispo, nem 0 pior 
inimigo ou os que organizaram dezenas de atentados 
contra os dirigentes da Revolucdo, planejados pela CIA. 
FIDEL E A RELIGIAO 221 
Houve um momento em que havia aqui trezentas orga- 
nizag6es contra-revolucionarias. Cada cinco ou seis que 
se reuniam, eram uma fova organizacao. Nelas, encon- 
trava-se todo tipo de oportunistas. Estavam convencidos 
de que a Revoluc4o nfo tesistiria ao apoio, ao estimulo e 
A inspiragéo que recebiam dos Estados Unidos. Pois 
bem, qualquer um daqueles tipos, responsavel por um 
fato de muita gravidade, podia ser fuzilado, em virtude 
de leis prévias, de julgamentos e de provas irrefutaveis 
de seus atos. Refiro-me a trezentas organizac6es. Sabia- 
mos o que faziam mais do que eles, precisamente por- 
que, como nossos Orgaos de seguranca nao torturam, 
apfimoraram sua eficiéncia, buscando outros meios de se 
infiltrarem para cohhecer e saber o que fazia o inimigo. 
Basta dizer que, a certo momento, quase todos os chefes 
daquelas organizacGes contra-revolucion4rias eram gente 
nossa, revolucionérios que desenvolveram um trabalho 
primoroso, perfeito, uma forma de luta que excluia a 
violéncia fisica contra as pessoas pata se obter infor- 
mac6es. Sabiamos o que um contra-revolucionario fizera 
em cada dia do més de janeiro de 1961, onde e com 
quem se reunira. Tinhamos todas as informagdes. Se ao 
set preso em 1962, quando ja era um elemento perigoso, 
ele nao se lembrava com exatidao o que fizera em tal dia 
de janeiro, nem com quem se reunifa, os arquivos ja 
registravam tudo. Essa gente em geral se desmoralizava, 
tinha uma mentalidade egoista, movia-se por interesses 
e ambicdes materiais e nao por uma moral. Ao se depa- 
rarem com uma Revolucdo que tinha uma altissima 
moral, eles nao se agtientavam, desmoralizavam-se tao 
logo iam presos e, quando se mostrava a eles que tudo ja 
era conhecido, espontaneamente confessavam. Mediante 
violéncia fisica jamais se afrancou uma declaracZo ou 
uma informacao de ninguém. 
222 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Poder-se-ia indagar: houve algum padre fuzilado 
por delitos contra-revolucionarios? Respondo: nao. 
Legalmente era possivel? Sim, desde que tivessem come- 
tido delitos graves. 
Frei Betto — Havia trés padres na invasao da baia 
dos Porcos. : 
Fidel Castro — Tenho que verificar isso com exati- 
dao, mas estou quase certo de que eram trés. 
Tecnicamente todos os invasores incorreram em 
delito de traicdo 4 patria, porque se vocé vai para um 
pais estrangeiro inimigo de seu pais e, sob as ordens 
daquele pais, invade sua prépria patria, as custas de 
sangue e da vida de seus concidad4os, tecnicamente isso 
€ traicao. Quase todos os cédigos a condenam com a 
pena capital. 
Houve também casos de cumplicidade com ativida- 
des contra-revolucionarias graves, que poderiam ter 
resultado em severas penalidades, como o fuzilamento. 
Entretanto, nao houve um s6 caso, porque procuramos 
evita-lo, sob nenhuma justificativa queriamos fazer o 
jogo da reacao e do imperialismo, dando uma imagem 
da Revolug4o fuzilando padre. Sempre se teve esse cui- 
dado. Delitos graves foram cometidos por padres e, no 
entanto, nunca se lhes aplicou a sentenca maior. Nao 
foram muitos, porque uma coisa € a oposicdo politica, a 
cobertura politica e ideol6gica que se da 4 contra-revolu- 
¢ao e, outra, a realizagao de sabotagens ou de graves 
delitos contra-revolucionarios. De fato, nao ocorreram 
muitos, mas mesmo naqueles que justificariam a pena 
capital, procurou-se evita-la. Os sacerdotes sempre 
foram tratados com especial consideracdo. Houve casos 
em que foram condenados 4 prisao por acdes contra- 
revolucionarias; mesmo assim, nunca cumpfiram a sen- 
tenga, tinhamos interesse em que saissem e estiveram | 
FIDEL E A RELIGIAO 223 
presos 0 minimo de tempo. Nao nos interessava a ima- 
gem de um padre preso ou da Revolucao que prende 
sacerdotes, ainda que 4 penalidade se justificasse. 
Nisso influiu muito um nincio muito inteligente e 
capacitado que tivemos aqui, monsenhor Zacchi, uma 
pessoa construtiva, extraordinaria, que percebeu a 
inconveniéncia de conflitos entre a Igreja e a Revolucdo e 
ajudou a evita-los. Creio que deu importante contribui- 
cao para evitar que tais conflitos se aprofundassem. 
Através dele, pusemos em liberdade os sacerdotes dos 
poucos casos mencionados. 
Fret Betto — Porém, igrejas foram feces e sacer- 
dotes expulsos? 
Fidel Castro — Nao, nunca uma sé igreja foi fe- 
chada no pais. Em determinado momento, houve sim 
casos de forte enfrentamento politico e, por causa da 
atitude militantemente politica de certos padres, espe- 
cialmente de origem espanhola, solicitamos que deixas- 
sem 0 pais e suspendemos o visto de permanéncia aqui. 
Casos assim se deram. Contudo, autorizou-se que vies- 
sem outros sacerdotes para substituir os que sairam. Esta 
foi a Gnica atitude que se precisou tomar. Depois, as 
telacdes se normalizaram. 
Frei Betto — E 0 caso do cardeal que se refugiou na 
embaixada atgentina, no momento da invaséo de 
Giron? 
Fidel Castro — Sim, isso ocorreu por ocasiao de 
Giron. Na segunda quinzena de abril de 1961, durante 
a invasdo, o cardeal parece que se assustou. Ignoramos as 
raz6es pelasquais ficou amedrontado e, enquanto ocor- 
ria Gir6n, passou a morar na casa do embaixador da 
Argentina. Ja era uma pessoa de idade avangada. Em 
fevereiro de 1962, quando a Argentina rompeu relagées 
conosco, o encarregado de negocios da Santa Sé o con- 
224 CONVERSAS COM FREI BETTO 
venceu a ficar em Cuba. Conduzido a um asilo no bairro 
de Marianao, viveu ali até 4 morte. Foi o que aconteceu. 
Vou dar a vocé alguns exemplos do que ocorreu 
aqui. Um parente do cardeal organiza um levante arma- 
do na Provincia de Oriente. Hospeda-se no Semina- 
rio del Cobre, em Santiago de Cuba e, dali vai para as 
montanhas, onde desencadeia uma guerrilha contra- 
revolucionaria. Localizado, é cercado e preso. Apesar 
da gravidade do delito, € condenado somente 4 prisao. 
Calcule 0 que se passou: um parente do cardeal, com 
posicéo contra-revolucionaria, utiliza um seminario 
catélico, organiza uma guerrilha, consegue armas e 
levanta-as contra a Revolucdo, em dias dificeis, de 
ameacas e de agressGes norte-americanas. Nem neste 
caso fomos muito severos. E o que sei e, de fato, nao 
saberia lhe dizer por que raz4o o cardeal se refugiou 
numa embaixada. N&o havia justificativa. Ainda que 
tivesse sido cimplice de seu patente, por motivos poli- 
ticos nao prenderiamos o cardeal. Falariamos com ele eo 
advertitiamos. Mesmo que tivesse cumplicidade com os 
invasores de Git6n, nao deveria asilar-se ou buscar pro- 
te¢4o, pois nao tomariamos medidas drdsticas contra ele. 
O carater socialista-da Revolucao 
Fret Betto — Foi apés a praia Girén, em 1961, que 
se declarou o carater socialista da Revolucao? 
Fidel Castro — Nao ptecisamente depois e sim no 
mesmo dia em que se iniciou a invasado. 
Frei Betto — Muito bem. No inicio, havia as Orga- 
nizagdes Revolucionarias Integradas, que congregavam 
Os trés movimentos revolucion4rios: o Movimento 26 de 
Julho, o Diretério Revolucionfrio e o Partido Socialista 
FIDEL E A RELIGIAO DS: 
Popular, que era o nome do partido comunista de Cuba. 
Em 1965, a Organizacdes Revolucion4rias Integradas da 
origem ao Partido Comunista de Cuba. 
Fidel Castro — Sim. 
Fret Betto — Porém, no Partido Comunista cubano 
nao se admite a presenca de cristaos? 
Fidel Castro — E verdade, nao se admite. 
Fret Betto — Correto. Trata-se de um partido con- 
fessional, na medida em que é um partido ateu, que 
proclama a nao-existéncia de Deus. Pergunto-lhe: ha 
possibilidades de que venha a ser um partido laico? E 
segundo: ha possibilidade de que, no futuro, um cuba- 
no cfistao revolucionario possa pertencer 4s fileiras do 
Partido? 
Fidel Castro — Bem, creio que esta é uma das per- 
guntas mais interessantes e mais importantes que vocé 
fez em relac4o ao tema da religiao e da Revolucdo. 
Contei-lhe que, j4 antes de 1951, eu tinha nao 
apenas uma formagio revolucion4ria, mas também uma 
concepc4o marxista-leninista e socialista da luta politica. 
E, ha tempos, tinha uma concepgio estratégica de como 
realiz4-la. Contei-lhe também que ja tinha a mesma 
formacao o reduzido nicleo dos que organizamos o 
Movimento 26 de Julho. Expliquei ainda que tinhamos 
uma estratégia e um programa que obedecia a etapas. 
Uma primeira etapa, de acordo com um programa que 
tecnicamente poderiamos chamar de libertagdo nacio- 
nal, ou de independéncia nacional, consistindo numa 
série de reformas sociais avancadas que, no futuro, a- 
partir de um determinado momento, seriam comple- 
mentadas por novas medidas ja de carater socialista. 
Claro, estamos conversando agora em 1985. Ima- 
gine como éramos em 1956, 1958, 1959 e 1960, quando 
ainda nao tinhamos este atual nivel de experiéncia, 
226 CONVERSAS COM FREI BETTO 
embora tivéssemos idéias basicas corretas: como fazer as 
coisas, o que se podia fazer e em que momento. Se vocé 
me pergunta se ja tinhamos programado o dia, o ano eo 
periodo exato em que fariamos cada coisa, eu lhe res- 
pondo: nao. Tinhamos a idéia basica de como realizar 
uma revolucio social nas condigdes do nosso pais, como 
conduzi-la por diferentes etapas, complementada pela 
educacao do povo, das massas, pela difusdo das idéias, 
de modo que o povo fosse tirando suas préprias con- 
clus6es, como de fato ocorreu. 
Aqui, o que contribuiu extraordinariamente para o 
avanco politico e a educacao politica de nosso povo 
foram as leis revolucionarias, porque desde o primeiro 
momento o povo viu que havia um governo que, afinal, 
era seu governo. Ao longo da histéria — desde a con- 
quista de Cuba pelos espanhéis — 0 povo nfo tivera um 
governo que fora seu governo, porque aqui o governo de 
Diego Velazquez, de Panfilo de Narvaez e de outros, 
que conquistaram Cuba e fundaram cidades e adminis- 
traram regides do pais, nao era o governo dos indios. Os 
indios eram os trabalhadores, os escravos que procura- 
vam pepitas de ouro nos rios; os indios trabalhavam nas 
minas e sob o sol ardente, de tal modo que extermina- 
ram 90% da populac&o indigena. Quase exterminados 
os indios, milhares de africanos foram arrancados de suas 
terras e convertidos em escravos para servir nas minas e 
nas lavouras de cana e de café, sob os rigores do sol, do 
calor e da umidade tropicais. Da mistura de espanhdis 
com indios e negros, surgiram os mestigos que, quando 
eram filhos de escravas, continuavam escravos. 
Depois, ao longo dos séculos, a nacionalidade se 
apfimorou e surgiu o conceito de cubano entre os mes- 
tigos, descendentes de espanhdis brancos, e entre os 
descendentes livres de negtos e de indios, mas 0 governo 
FIDEL E A RELIGIAO 227 
continuava sendo dos espanhdéis. Em 1898, no final da 
Gltima Guerra de Independéncia, ocorreu a intervencao 
e 2 ocupacao do pais per tropas dos Estados Unidos, até 
1902, quando se impdés aqui um governo dos Estados 
Unidos, ou seja, de um homem que se tornara cidaddo 
norte-americano e que foi o candidato apoiado pelos 
Estados Unidos. A partir dai, até 1959, todos os seus 
sucessores constituiram o governo dos latifundidrios, dos 
ricos, dos privilegiados, das empresas estrangeiras e dos 
Estados Unidos. Pela primeira vez na hist6ria — e isso, 
na histéria de qualquer povo, sempre produz efeitos 
extraordinarios —, em 1959 ha um governo do povo. 
Era uma coisa nova, porque antes Estado e povo ou go- 
verno e povo eram coisas diferentes. 
Desde 0 momento em que surgem as ameacas dos 
Estados Unidos, 0 povo se organiza, se arma e comeca a 
perceber que a autoridade é ele. Antes havia um Exér- 
cito divorciado do povo, totalmente profissional e com o 
qual o povo nao se identificava. Nas maos de um 
homem o fuzil servia para reprimir greves, manifesta- 
cdes de estudantes ou movimentos camponeses, ao lado 
daquele poder. 
Com a Revolucg4o, 0 povo comecou a ser soldado, 
funcionario, administrador, parte da ordem social, do 
Estado e da autoridade. De modo que, se em principios 
do século XVIII um rei absolutista da Franca péde dizer: 
‘‘O Estado sou eu’’, em 1959, quando triunfou a Revo- 
lucdo e o povo chegou ao poder, se armou e defendeu o 
pais, entdo o cidadao comum deste pais pdde dizer: ‘‘O 
Estado sou eu’’. As leis revolucion4rias e as medidas de 
justica social conquistaram a populaca’o. Contribuiram 
para aprofundar a consciéncia de nosso povo e desen- 
volver uma consciéncia politica socialista. 
Pois bem, a fundacdo do Movimento 26 de Julho, 
228 CONVERSAS COM FREI BETTO 
tendo em vista a luta contra Batista, partiu de um 
nacleo de direcdo. Criei o nicleo com o grupo de com- 
panheiros mais valiosos e capazes. Deste nucleo mais 
amplo se selecionou um pequeno niicleo executivo de 
trés companheiros, para executar as tarefas mais secretas 
e delicadas. Ai estavam Abel Santamaria, um outro 
companheiro que se chamava Ratl Martinez e eu. 
Frei Betto — Onde se encontra o senhor Martinez? 
Fidel Castro — Era ele quem estava na acado de 
Bayamo. Apés Moncada, desligou-se do Movimento. 
Sem diivida, era um fapaz ativo, organizado, cheio de 
iNiciativas e que gostava especialmente da aco, embora 
nado tivesse muito nivelideolégico. Ao contrario, Abel 
efa muito ativo, capacitado e, além disso, tinha concep- 
des revolucionarias avancadas. Dentro daquela organi- 
zacao, eu tinha minhas responsabilidades e tarefas bem 
definidas. Desde que decidi criar uma organizaco para 
a luta, minha primeira iniciativa foi estabelecer uma 
direcdo coletiva. 
Depois veio a guerra. Eu era o Comandante-em- 
chefe das forcgas rebeldes, apesar de que, em certos mo- 
mentos, fui o Comandante-em-chefe de mim mesmo e 
de mais dois companheiros, até que organizassemos a 
coisa melhor. Depois fui Comandante-em-chefe de um 
gtupo de sete ou oito companheiros e o primeiro 
combate vitorioso se realizou com dezessete compa- 
nheiros em armas, em 17 de janeiro de 1957, se nao me 
equivoco. Ou seja, més e meio depois que haviam 
dispersado completamente o grupo original, enfrenta- 
mos 0 nosso primeiro combate vitorioso. Eu era chefe 
daquela tropa e num exétcito o principio é, quando ha 
combates, mandar as unidades, pois ha subordinacdo a 
um comando. Mas nés pertenciamos a um Movimento, 
ao 26 de Julho, cuja direcdo nacional funcionava inte- 
FIDEL E A RELIGIAO 229 
gtalmente. Ela detinha toda a responsabilidade pelo 
Movimento na cidade e no campo. Quando est4vamos 
no México organizand6 a expedicao, ela detinha toda a 
responsabilidade pelo Movimento em Cuba. Quando 
nos encontravamos nas montanhas, ela dirigia o Movi- 
mento no resto do pais. Quando havia algum assunto de 
muita importancia, éramos consultados, discutiamos e 
tomavamos as decisdes fundamentais, pois sempre 
houve uma direc4o nacional que funcionava, que tinha 
atribuigdes, as vezes demasiadas atribuicgdes, 0 que, 
antes de ser um defeito, era uma qualidade, porque se 
ela tinha a aprovacéo da maioria, entao acatavamos 
totalmente e cumpriamos, no havia saida. As vezes 
avalio historicamente e verifico que nem sempre era 
justo o critério decidido pela maioria. Mesmo assim, o 
nosso embriao de exército acatava. 
Desde que se fundou nossa organizacao, antes de 
Moncada, perdurou o consenso de uma direcao coletiva 
e reduzida, de muita confianca, capaz de dividir respon- 
sabilidades. Nao ha outra forma de se desencadear um 
movimento politico. Quando triunfou a Revolucio, em 
1° de janeiro de 1959, o Exército Rebelde, que tivera 
um papel consideravel, tinha 3 mil homens em armas. 
Com aqueles 3 mil homens cercamos, na Provincia de 
Oriente, 17 mil soldados, e dividimos a ilha em duas. O 
regime estava liquidado, o exército de Batista j4 nao 
tinha como resistir. Portanto, as unidades de combate 
do Exército Rebelde tiveram papel fundamental na vitd- 
ria da guerra. 
Sem diivida, 0 apoio do povo foi um fator decisivo. 
Ficou demonstrado quando a alta oficialidade do exér- 
cito de Batista tentou dar um golpe de Estado, rompen- 
do um acordo que fizera conosco. O chefe das operagées 
inimigas havia me solicitado um encontro, admitira que 
230 CONVERSAS COM FREI BETTO 
perdera a guerra e chegara a um acordo conosco. Eu 
mesmo lhe sugeri: ‘‘Vamos buscar uma saida elegante e 
salvar muitos oficiais’’, porque nem todos eram assassi- 
nos, ainda que os principais chefes das Forcas Armadas 
fossem cruéis. Foi aquele chefe das operagdes que pro- 
moveu a Gltima ofensiva na- Sierra Maestra: 10 mil 
homens contra trezentos. Um fato not4vel, pois 10 mil 
homens, em setenta dias de combate, nao conseguiram 
detrotar trezentos. Ao final, os trezentos se converteram 
em 805 homens armados e haviamos produzido mais de 
mil baixas, derrotado a ofensiva ¢ as melhores tropas do 
inimigo, apropriando-nos de grande quantidade de 
armas, triplicando nossa forga. O homem que dirigiu 
aquelas tropas era um oficial de respeito, capacitado, e 
nao um criminoso. 
Levamos em conta a sua figura, embora ele coman- 
dasse todas as forcas que lutavam contra nds. Quase no 
fim da guerra, reuniu-se comigo e disse: ‘‘Perdemos a 
guerra’’. Sugeri-lhe proclamarmos um cessar-fogo con- 
junto: ‘‘Podemos salvar muitos oficiais bem preparados 
e de valor e que nao estado envolvidos em crimes’’. Con- 
cordou, mas insistiu em ir a Havana. Recomendei-lhe 
que nao o fizesse: ‘Ha riscos’’. Ele replicou que tinha 
bons contatos e, portanto, nao tocariam nele. Ent4o, lhe 
fiz trés exigéncias: ‘‘Ndo queremos contato com a 
embaixada norte-americana, nem golpe de Estado na 
capital e nem que deixem Batista escapar’’. Apdés con- 
cordar com esses tetmos, em virtude dos quais se daria o 
cessar-fogo das tropas, no dia 31 de dezembro, alguém 
pelo caminho virou a cabega daquele homem que, por 
infelicidade, acabou fazendo exatamente as trés coisas 
que se comprometera a nao fazer: pds-se em contato 
com a embaixada norte-ameticana, deu um golpe de 
Estado e despediu-se de Batista no aeropotto. 
FIDEL E A RELIGIAO 231 
No dia seguinte, lancamos a palavra de ordem de 
greve geral e instruimos todas as tropas para nao cessar 
fogo. Em 72 horas, estava desarmado o resto do Exét- 
cito. Portanto, o Exército Rebelde teve um papel deci- 
sivo naquele momento em que o Movimento se expres- 
sava fundamentalmente através do exército guerrilheiro, 
um rio de povo. Eu dizia esta frase: ‘‘Um Amazonas de 
povo num pequeno leito, sem poder organizar e abarcar 
tanta massa de gente’’. O que havia atras da Revolucao 
era um Amazonas de povo e uma organizacao politica 
relativamente pequena, com suas tendéncias e contra- 
digdes internas, um pouco 4 direita ou a esquerda. Eu 
compreendia perfeitamente, a massa que apolava a 
Revolugao era muito maior e mais ampla que o nosso 
Movimento e nao podiamos ser sectarios. Tinhamos 
0 apoio total devido ao desempenho de nosso Movi- 
mento. Ah, mas descartavamos as idéias de tipo hege- 
ménico! E o faziamos quando estavamos em condigées 
de exercer completa hegemonia. Eu me _ pergunto 
quantas pessoas, quantos dirigentes politicos, nas condi- 
¢des que nos encontravamos em Cuba, teriam renuncia- 
do a idéia de hegemonia! 
O combate ao sectarismo 
Frei Betto — Quando o senhor fala em nfo ser 
sectario, me pergunto se fazia parte dessa posi¢4o evitar 
a utilizacao freqiiente de palavras de ordens classicas do 
marxismo-leninismo. Quero acrescentar a esta pergunta 
uma impresséo. Quando se vem pela primeira vez a 
Cuba, é surpreendente constatar que, ao contrario da 
impressdo que nos passa o imperialismo, quase no se vé 
pelas ruas imagens de Marx ou de Lénin e se encontra 
232 CONVERSAS COM FREI BETTO 
sempre a figura de Marti. Entao pergunto se essa posi¢ao 
nao-sectaria inclui também o resgate dos valores nacio- 
nais e dos simbolos que tém significado na cultura do 
povo, tendo cuidado com coisas que sao importantes e€ 
que, muitas vezes, as pessoas nao captam com facili- 
dade. 
Fidel Castro — Nao relaciono precisamente com 
isso, que j4 depende de outros fatores, ¢ritérios e idé1as. 
Falo de sectarismo em relacéo ao nosso Movimento, 
que desempenhara um papel fundamental na luta e 
na vit6ria, tinha todo o apoio do povo e, portanto, 
poderia ter prevalecido sobre as demais organizag6es e se 
tornado o centro principal da Revolucaéo. Poderiamos 
dizer: bem, somos mais fortes que as outras organizac6es 
€ vamos assumir sozinhos as responsabilidades, sem 
dividi-las com ninguém. Isso ocorreu uma infinidade de 
vezes na hist6ria, quase sem excegao. No entanto, nao 
optamos por esse caminho. Creio que os éxitos da Revo- 
lucdo estao realmente precedidos, em muitos casos, por 
solucGes corretas, sérias e sabias. 
O primeiro sectarismo que combati foi o dos que 
lutaram nas montanhas, pois comecaram a olhar de 
modo diferente os que tinham lutado na cidade ou que 
atuaram na clandestinidade. Digo: ‘‘Nao, eles também 
lutaram e, inclusive, muitas vezes correram mais riscos 
do que nés’’. Talvez nao caminharam o que caminha- 
mos e nem subiram as montanhas que subimos. Porém, 
corriam riscos todos os dias. Quando j4 dominavamos o 
territ6rio, os avides podiam aparecer e nos localizar ao 
amanhecer, ao entardecer ou ao meio-dia; eram riscos 
que sabiamos prever.Mas os companheiros na clandesti- 
nidade correram inGmeros riscos e muitos morreram. E 
provavel que haja mais mortos na clandestinidade do 
que na guerrilha. Porque o guerrilheiro ou combatente 
FIDEL E A RELIGIAO 233 
adquire, numa unidade militar, mais disciplina e espi- 
rito coletivo. Na clandestinidade, o homem é um pouco 
mais individualista, ern geral esta mais s6 e mais isolado. 
Eu diria que a luta aberta ajuda mais na formacio de um 
espirito de fraternidade, de disciplina e de coletividade, 
do que a luta clandestina. 
A segunda tendéncia sectaria a combater era a de 
nossa ofganizacéo, em telac&o as outras que tinham 
menos forga e eram menores. Sobretudo em relacdo ao 
Partido Socialista Popular que, depois do Movimento 26 
de Julho, era a que tinha mais forcas organizadas e 
influéncia nos setores operarios, embora o nosso Movi- 
mento e o exército guerrilheiro tivessem enorme presti- 
gio entre os trabalhadores do pais. As direg6es sindicais 
estavam todas em mi§os de Batista. 
No dia 1° de janeiro de 1959, quando ocorreu 
o golpe de Estado na capital, lancamos a palavra de 
ordem de greve geral revolucionaria, a mesma que de- 
fendiamos ha cinco anos e meio, quando atacamos 
Moncada. Ordenamos as tropas que seguissem avangan- 
do e, aos trabalhadores do pais, ao povo, que paralisas- 
sem todas as atividades. Com impressionante disciplina, 
pararam completamente tudo. Nada se movia no pais. 
Por sua vez, os trabalhadores das estagdes de radio e TV 
puseram a Radio Rebelde — a radio do Comando Geral 
— em sintonia com todas as radios e televisdes do pais. 
S6 nao houve greve neste setor, de modo que podiamos 
falar a todo o povo. 
Tinhamos uma ascendéncia moral muito grande 
sobre os trabalhadores. Ja o Partido Socialista Popular 
efa a organizacao que tinha mais experiéncia partidaria, 
mais organizacao politica e velhos militantes. Nés que 
tinhamos realizado aquela luta éramos um grupo mais 
reduzido de novos militantes, nao obstante tivéssemos 
234 CONVERSAS COM FREI BETTO 
muitos companheiros jovens com grandes méritos 
acumulados naquela etapa. Depois vinha o Diretério 
Revolucionario, organizacdo surgida dos estudantes e 
cujo lider era precisamente José Antonio Echeverria que, 
apés a morte, foi substituido pelo companheiro Faure 
Chomon. Foram trés as organizacdes que lutaram. Con- 
tudo, convocamos também todos os outros partidos e 
organizagdes que se posicionaram contra Batista, 
embora ndo tivessem participado da lute armada. Fale 
com todos eles, inclusive com os velhos e desacreditados 
partidos que haviam sido destituidos do poder. Nem 
com esses quisemos ser sect4rios, quando levantamos a 
bandeira da uniao de todas as forgas. 
Digamos, se 95% do povo estava com a Revolugio, 
eo 26 de Julho podia contar com 85 a 90% do povo, 
fora 10 ou 15% que tivessem com as demais organiza- 
des, ainda assim faltavam 5% 4 unidade. Porque numa 
revolucdo, a unidade nfo é s6 uma quest4o quantitativa, 
é também qualitativa. Nao medi se os outros partidos 
equivaliam a 10 ou 15% da forga. O que importava 
era que davam a Revolucao a qualidade do principio da 
unidade. Se nao prevalecesse o principio da unidade, 
nao s6 se dividiriam os demais partidos, mas também se 
produziriam divisdes no seio de nossa prépria organiza- 
¢40, quando comecariam a surgir tendéncias, critérios, 
antagonismos e, as vezes, até classes. Nosso Movimento 
era mais heterogéneo, era o Amazonas do povo num pe- 
queno rio. Naquele Amazonas havia gente de todos os 
setores. 
Aplicamos o principio da unidade a todas as orga- 
nizagdes. Pode estar certo de que s6 nao ficou com a 
Revolugio quem nao quis e nao por falta de oportuni- 
dade de permanecer nela. A todos foi dada essa oportu- 
nidade. Porém, comegaram a influir a inconformidade, 
FIDEL E A RELIGIAO 235 
as ambicGes, as frustracdes, a politica divisionista e sub- 
versiva dos Estados Unidos, os conflitos de interesses e, 
logicamente, muitos daqueles partidos comecaram a se 
inclinar a favor dos interesses dos Estados Unidos e da 
reagao. Restaram basicamente as trés organizacdes que 
obtiveram mais prestigio na luta, o Movimento 26 de 
Julho, o Partido Socialista Popular, antigo Partido 
Comunista, e o Diretério Revolucionério, a organizacio 
politica dos estudantes. Comecamos, pois, a atuar coor- 
denadamente. Nao foi facil, houve sectarismos que 
deram lugar a discusses e criticas, tendo sido necessario 
efradica-lo em certo momento. Haviamos lutado contra 
O nosso sectarismo, mas o PSP nfo lutara de fato contra o 
seu. No Diretério sé houve manifestacdes de sectarismo 
nos primeiros dias. Criou-se assim, entre essas forcas, 
uma cooperacdo, tanto ao nivel da base, como entre os 
dirigentes, de modo que, poucos meses apés a Revolu- 
¢4o, constituimos uma direcao coletiva, na qual estavam 
tepresentadas as diferentes forcas. Nesta organizacio 
estavam os pfincipais quadros, como o Che, Rail, eu, 
um grupo proveniente do Exército Rebelde e do 26 de 
Julho, e companheiros de outras organizacées. 
O principio da direcao coletiva, seguindo a tradi- 
cao, estabeleceu-se também imediatamente apés a vité- 
tia da Revolucao, de forma que, quando ainda as orga- 
nizagdes nZo estavam organicamente integradas, ja 
tinhamos uma direcdo coletiva desde os primeiros 
tempos da Revolucgio. Quase todas as medidas eram 
analisadas e discutidas nessa direcdo. Assim, fomos 
criando o 6rgao de dires4o desde o inicio da Revolucio e 
até hoje se mantém este principio. Em seguida, veio o 
momento da integracZo de todas as forgas, de extingZo 
das diferentes organizacdes e de constituigéo de uma s6, 
a ORI, Organizacdes Revolucionarias Integradas. Nesse 
236 CONVERSAS COM FREI BETTO 
petiodo, houve sintomas de sectarismo. O que os pro- 
vocou? O Partido Socialista Popular tinha uma organiza- 
co mais homogénea que a nossa, porque era de origem 
operaria e com mais educagao politica. Nossa organiza- 
cio era mais heterogénea e com certas dificuldades e 
tendéncias em seu seio. Foi quando se iniciou a ofensiva 
do imperialismo. Como tinhamos um nimero relativa- 
mente reduzido de quadros e, as vezes, era preciso 
nomear alguém para uma determinada tarefa politica 
que requeria muita confiancga, procuravamos um velho 
militante comunista, o que nos dava mais segurancga do 
que selecionar um companheiro mais novo e com menos 
formacio. Eles nos trouxeram quadfos muito Gteis e 
muita massa, mas nao comparavel com o volume de 
massa que tinha o nosso Movimento. Entretanto, 
deram-nos uma grande ajuda em quadros. Lembre-se 
que o nosso Movimento percorreu, da fundagao 4 vité- 
fia, apenas seis anos. Nao poderiamos dizer que tinha- 
mos velhos militantes de quinze, vinte ou 25 anos... 
O Partido Socialista estava organizado ha dezenas de 
anos e tinha militantes bem formados ideologicamente. 
Claro que o nosso Movimento contribuiu com a maioria 
dos quadros, mas eles vieram também do PSP e do Dire- 
t6rio, que nos deram gente de muito valor. 
Partidarios de outras organizac6es ficaram também 
com a Revolucao. Os chefes se foram, mas o pessoal de 
base ficou. Do reduzidissimo nimero de simpatizantes 
que tinham, uma parte continuou com a Revolucio. 
Digo reduzidissimo porque o processo tevolucionario, 
com o mar de povo que arrastou atras de si, pratica- 
mente vatreu com todos os partidos tradicionais. Alguns 
podiam dizer: tenho cem ou duzentos que me seguem. 
A Revolugao tinha milhdes. Mesmo assim, aplicamos os 
principios basicos da unidade e da direcdo coletiva. 
FIDEL E A RELIGIAO 237 
Houve problemas, como lhe contei. Em certo mo- 
mento, surgiu algum sectarismo por parte do velho Par- 
tido Comunista, o Pagtido Socialista Popular, que nos 
trouxera quadros confiaveis. Nao foi um problema que 
se ofiginou com a unidade e sim muito antes, no perio- 
do da luta clandestina contra Batista. Foram problemas 
suscitados por gente com ambigGes e métodos incorretos 
€ que, aproveitando-se das condicdes de clandestini- 
dade, comegara a assumiratribuicdes excessivas. Quan- 
do se produziu a integracao, aqueles elementos estavam 
presentes. Mas foram corrigidos sem problemas ou difi- 
culdades, porque sempre combati os sectarismos: pri- 
meiro, dos guerrilheitos; em seguida, do nosso Movi- 
mento; depois, de outras organizacdes ou qualquer 
outra manifestacZo que pudesse surgir. Se houve secta- 
rismo da parte do Partido Socialista Popular foi porque 
Os outros também haviam sido sectarios. Foi uma luta 
incansavel para manter a unidade e combater toda 
forma de sectarismo. Assim avancamos até que funda- 
mos o Partido, em 1965. 
Como dissemos, o socialismo foi proclamado em 
1961, por ocasido da invasao da baia dos Porcos. Quan- 
do ela ocorreu, haviamos feito muitas leis devido as me- 
didas norte-americanas de embargo e de bloqueios eco- 
ndmicos. Respondemos nacionalizando indastrias norte- 
americanas. Cortavam a cota de agiicar, nacionalizava- 
mos todas as usinas e algumas indtstrias. Eram medidas 
contra medidas. Isso acelerou o processo de naciona- 
lizacao. 
Comecou entao a campanha anticomunista. Este 
foi o primeiro recurso ao qual apelaram, a fim de explo- 
ratem a ignorancia politica de uma grande parte do 
povo, sua falta de preparacdo e de cultura politicas e, 
assim, capitalizarem todos os preconceitos que haviam 
238 CONVERSAS COM FREI BETTO 
semeado em dezenas de anos. Fizeram coisas infames. 
Por exemplo, entre as campanhas visando promover o 
éxodo do pais, inventaram um falso decreto — dizendo 
que alguém o encontrara num Ministério — que estabe- 
lecia privar a familia do patrio poder. Veja que coisa 
absurda! Porém, como se sabe, muitas dessas coisas 
absurdas infundem medo, pois n4o constituem apelo 4 
razio e sim ao instinto. Alguém que raciocinasse jamais 
admitiria que isso pudesse ser verdade. Contudo, uma 
mae que escuta: olha, vao lhe tirar a crianga... E di- 
ziam que setiam enviadas para a Unido Soviética ou 
coisas do género. Eu me perguntava: essas coisas foram 
inventadas contra nds? Mais tarde, quando li O Don 
Silencioso e toda uma série de obras de Sholokov, que 
ganhou o Nobel de Literatura, descobri que aquilo era 
tao velho como a Revolugao Bolchevista. Naquela época, 
inventaram as mesmas coisas que utilizaram contra nds 
quarenta e tantos anos depois. Nem sequer eram frutos 
de uma imaginacgao mais fresca. Assim foram feitas 
muitas campanhas contra Cuba. 
A invasao da baia dos Porcos 
Fret Betto — Muitas dessas coisas ja diziam dos 
cristéos nos primeiros séculos. Por exemplo, que comiam 
carne humana. 
Fidel Castro — E verdade, vocé citou um bom 
exemplo. As vezes me recordo das campanhas caluniosas 
que se fazia contra os cristaos daquela época. Imagino 
que inventaram as mesmas coisas na Revolucdo Francesa. 
E em muitos outros lugares. Aqui, entre outros objeti- 
vos, pata incentivar o éxodo. Os Estados Unidos comega- 
tam a chamar, ao abrir as portas para quem quisesse ir 
FIDEL E A RELIGIAO 239 
para 1a, a fim de privar-nos de professores, de catedra- 
ticos, de médicos, de engenheiros e de técnicos. Eles 
nunca haviam feito isso antes. Comegou o éxodo de pro- 
fissionais qualificados, a quem ofereceram altos salarios. 
Aceitamos o desafio, ndo proibimos a saida daquele 
pessoal. Decidimos: formaremos novas geracdes de 
técnicos e de profissionais liberais melhor do que os que 
se foram. Com os que ficaram, comecamos a aprimorat 
nossas universidades. 
Fret Betto — Quantos sairam naquela época? 
Fidel Castro — Para lhe dar um exemplo, havia 
6 mil médicos em nosso pais e se foram 3 mil. Hoje, 
ocupamos o pfimeiro lugar em nivel de satide entre 
todos os paises do Terceiro Mundo e nos encontramos 
acima de muitos paises desenvolvidos. Iniciamos nosso 
programa de satide com a metade dos médicos que ha- 
via no pais. Hoje temos 20500 e, dentro de meses, di- 
plomaremos mais 2436. O nimero aumentara nos pro- 
ximos cursos, de modo que, em 1988, diplomaremos 3 
mil médicos e, a partir de 1990, 3 500 por ano. Nos pro- 
ximos quinze anos, teremos mais 50 mil novos médicos. 
Quando !evaram a metade dos médicos do pais, aceita- 
mos o desafio e justamente porque aceitamos muitos 
desafios € que continuamos aqul. 
O inimigo apelou para preconceitos, mentiras e 
campanhas, a fim de desorientar, confundir, ferir. 
Ainda 0 povo nao tinha uma sélida cultura politica, mas 
estava com a Revolucdo, confiava nela e sabia que ela 
significava governo ao lado do povo. O programa que 
pretendiamos cumprir pouco a pouco foi acelerado pelas 
agress6es ao processo revolucionario. Foram a causa? 
Nao, seria um erro admitir isso. Nao admito que as 
agressdes tenham sido a causa do socialismo em Cuba. 
Isso é falso. Aqui, o socialismo seria ordenadamente 
240 CONVERSAS COM FREI BETTO 
construido, num razo4vel periodo de tempo, com a 
menor quantidade de traumas e de problemas. Porém, 
as agressOes do imperialismo aceleraram o processo revo- 
lucionario. 
Espalharam também a tese de que esta era uma 
revolucdo traida, que falavamos ao povo uma coisa e 
faziamos outra. Quem ler meu discurso de defesa no 
julgamento de Moncada, publicado com o titulo A 
Histéria me Absolveré, vera que ali consta o programa 
que assumimos. O que indiscutivelmente nao calcula- 
mos, ao estabelecer aquele programa, € que nos tirariam 
a cota de acticar, tomariam medidas agressivas, procura- 
riam liquidar a Revolugao pelas armas e, inclusive, inva- 
diriam o pais. Talvez naquela época sofréssemos ainda 
da idealista convicgdéo de que, por ser este um pais sobe- 
rano, onde se faziam coisas justas, seriamos respeitados 
por todo o mundo. Tivemos uma licao pratica e clara de 
que o imperialismo nao admite mudangas sociais e pro- 
cura destrui-las pela forca. A deciséo que tivemos 
naquele momento também foi fundamental. Se tivésse- 
mos vacilado, nos atemorizado, retrocedido, estariamos 
perdidos. 
Veio ent&o a invasdo: a 15 de abril de 1961, ao 
amanhecer, ocorreu um surpreendente bombardeio 
aéreo sobre todas as nossas bases aéreas, para destruir os 
poucos avides que tinhamos. Eu havia passado toda a 
noite acordado no posto de comando, porque chegaram 
noticias de que, por Oriente, desembarcaria uma forca 
inimiga que fora localizada junto 4 costa. RaGl estava em 
Oriente. Sempre, em tais situacdes, dividiamos entre 
nds as regides. Almeida ficava no centro do pais, Che no 
Ocidente e eu, em Havana. Isso ocorria cada vez que se 
falava em invasao dos Estados Unidos. E claro que nao 
dispinhamos da organizacdo que temos hoje. Recebi a 
FIDEL E A RELIGIAO 241 
noticia do provavel desembarque, permaneci de plantao 
e€, ao amanhecer, vi uns avides passarem bem préximos 
ao posto de comando, que eta numa casa no bairro 
Vedado. Em poucos segundos, atiraram foguetes contra 
a base aérea de Ciudad Libertad. Atacaram varias bases 
€ mataram alguns combatentes. 
Ocorreu ali algo impressionante. Um homem foi 
ferido e, todo ensangiientado, escreveu com seu sangue, 
antes de morrer, meu nome numa parede, num qua- 
drado. Isto ainda se conserva, deve estar no museu. 
Aquilo refletia a atitude do pessoal; um jovem miliciano 
que estava morrendo e, em protesto, escreveu meu 
nome com seu sangue. 
Ha uma terrivel indignacao. No dia 16, enterramos 
os mortos, milhares de milicianos armados e unidades 
do Exército Rebelde participaram no ato. O exército era 
ainda pequeno e a maior patte dos combatentes era 
constituida pelo povo armado: operarios, camponeses, 
estudantes. Foi nesse dia que dei a resposta, nao apenas 
militar, mas também politica: proclamo o carater socia- 
lista da Revolucdo, antes dos combates na praia Girdén. 
No mesmo dia, por volta da meia-noite, comega- 
ram os desembarques. Eles procuraram destruir nossa 
forca aérea para ter completo dominio do ar, mas nos 
restatam ainda mais aviGes que pilotos. Uns oito avides e 
uns sete pilotos. Com esses poucos avides, ao amanhecer 
do dia 17 todos os barcos estavam afundados ou em 
fuga. A frota toda. Ao amanhecer, voavam rumo a 
Gir6én, quandoentdo percebemos que esta era a direcado 
ptincipal do ataque. La se deram os combates, nZo vou 
lhe falar disso. Mas foi naquele dia que se proclamou o 
carater socialista da Revolucio. De modo que, perante a 
invasdo organizada pelos ianques, nosso povo j4 comba- 
tia pelo socialismo. Se desde 1956, combatia pela Cons- 
242 CONVERSAS COM FREI BETTO 
tituinte, pela queda de Batista e por um programa social 
avancado, embora ainda nfo socialista, naquele mo- 
mento combatia pelo socialismo. E isso tem um grande 
simbolismo, porque milhares de homens se dispuseram 
a enfrentar o que viesse. E preciso nZo esquecer que os 
combates de Girén ocorreram na presenga da esquadra 
Nnorte-americana que se encontrava a trés milhas da 
costa, com seus navios de guerra: cruzadores e potta- 
avides. Enquanto isso, milhares de homens lutavam 
decididamente e mais de cem morreram nos combates. 
Nao € tao elevado o nimero dos que morreram, com- 
parado ao dos que estavam dispostos a morrer seas 
tropas dos Estados Unidos tivessem desembarcado em 
nossa patria. O fulminante e vitorioso contra-ataque nao 
hes deu tempo para criar as minimas condic6es politicas 
previstas para justificar a intervenc4o. Portanto, ja a 
partir do dia 16 — como se disse ao povo na véspeta dos 
combates decisivos — se lutou pelo socialismo em nosso 
pais. 
Os cristaos e o Partido Comunista 
Quanto a pergunta a respeito dos que ingressam no 
Partido. Esse processo é precedido por todos os conflitos 
gue lhe expliquei anteriormente. O que acontecia? 
Todas aquelas classes sociais privilegiadas, que tinham o 
monopélio da Igreja, estavam contra a Revolucdo, de 
modo que, quando organizamos o Partido, nao queria- 
mos propriamente excluir um catélico e sim um contra- 
revolucionario em potencial — isto muito menos signi- 
fica que todos o fossem. Tivemos que ser muito rigo- 
fosos na exigéncia ideolégica e na doutrina, muito 
estritos. Nao exigiamos propriamente que tivesse de ser 
FIDEL E A RELIGIAO 243 
ateu, Ou seja, No se inspirava esta postura num propo- 
sito anti-religioso. O que exigiamos era a adesio integral 
e cabal ao marxismo,leninismo. Tal rigor foi determi- 
mado por aquelas citcunstancias, nas quais nao nos 
restou outro remédio sendo velar pela pureza ideologica 
do Partido. Esta claro que, em nossas condicGes, era 
politicamente possivel, porque a maior parte da popu- 
lacéo, do povo, os trabalhadotes e os camponeses, os que 
nos apoiavam, nao eram militantes catélicos. Nao sei se 
era exigido do individuo: bem, para entrar no Partido 
vocé tem que renegar sua convic¢ao teligiosa. Supunha- 
se que, ao aceitar o Partido, ele aceitava a politica e a 
doutrina do Partido, em todos os seus aspectos. 
Teria isso ocorrido em outto pais? Nao. Se em nosso 
pais a grande massa tivesse sido cristé, a maior parte dos 
operarios, dos camponeses, dos estudantes universit4rios 
tivesse sido crista militante, nao se poderia construir um 
partido revolucionario com aquelas premissas. Talvez 
nem mesmo uma revolucdo, se essa massa humilde 
tivesse sido contra-revolucionaria, o que, seguramente, 
nunca se poderia esperar dela. Mas como a maioria dos 
militantes cat6licos era fundamentalmente da classe rica 
que apoiava a contra-revolugdo e, em grande parte, 
deixou o pais, entao podiamos e deviamos fazer isto, ou 
seja, estabelecer uma norma figorosa e ortodoxa: deve-se 
aceitar o marxismo-leninismo em todos os seus aspectos, 
nao so politicos e programaticos, mas também filosé- 
ficos. Determinada por aquelas circunstancias, estabele- 
ceu-se tal norma. 
Vocé pode me perguntar: tem que ser assim? Res- 
pondo-lhe: nao tem que ser assim, n4o tenho a menor 
davida de que nao tem que ser assim e, inclusive, nao 
foi assim historicamente. HA paises onde o catolicismo, 
como € 0 caso da Poldénia, € imensamente majoritario na 
244 CONVERSAS COM FREI BETTO 
populacdo, e o Partido Comunista polonés tem muitos 
catélicos em suas fileiras. Portanto, isso nao esta nas 
tradicdes do movimento revolucionério, nem mesmo do 
movimento comunista e nem deve existir na América 
Latina. 
Fret Betto — Como militante do Partido Comu- 
nista Cubano, o senhor vé a possibilidade de que no 
Terceiro Congresso, agora em fevereiro de 1986, se deci- 
da proclamar o carfter laico do Partido e a possibilidade 
de que cristaos revolucionarios cubanos possam, no fu- 
turo, ingressar no Partido? 
Fidel Castro — Creio que ainda — estamos bem 
proximos do Congresso — nfo estao criadas as condi- 
cOes para isso em nosso pais. Devo dizé-lo franca- 
mente. Vocé me fala de uma data téo pr6xima como 
fevereiro! Vocé e eu temos conversado muito sobre esses 
temas e falamos, inclusive, disso. 
A etapa em que nos encontramos atualmente é de 
coexisténcia e de fespeito mituo entre o Partido e as 
Igrejas. Com a Igreja catélica ha anos tivemos dificulda- 
des, que foram superadas. Desapareceram todos aqueles 
problemas que existiram em certo momento. Nao houve 
tais problemas com as Igrejas protestantes, com as quais 
nossas relag6es sempre foram e s4o excelentes. Nao s6 os 
catdlicos, mas também muitos desses militantes de 
Igrejas protestantes que sempre nos apoiaram, podem 
dizer: nao é€ justa essa claéusula que nos discrimina. 
Claro, em nosso pais os catélicos sio mais numerosos 
que os fiéis das Igrejas protestantes, mas estes consti- 
tuem um nGmero importante de pessoas que, aqui, 
sempre teve excelentes relagdes com a Revolucdo. 
Em nossas conversas vimos que € preciso fazer algo 
mais do que coexistir em paz. Deveria haver relacdes 
mais estreitas, melhores, inclusive de colaboracao entre a 
FIDEL E A RELIGIAO 245 
Revolugao e as Igrejas. Porque j4 nao sao Igrejas dos lati- 
fundiarios, dos burgueses e dos ricos. Com aquela 
Igreja, era impossivel se desenvolver uma aproximacio e 
uma colaboracdo. 
Poderiamos nos autoctiticar nesse sentido, tanto 
nds como as proprias instituicgdes eclesiasticas, de nesses 
anos nao haver trabalhado nessa direcdo, de ter-nos con- 
formado em coexistir e respeitar-nos mutuamente. 
Como vocé conhece perfeitamente, esta estabelecido e 
assegurado na Constituigao de nossa Repablica o mais 
estfito respeito as convicgées religiosas dos cidad4os. 
E correto o principio politico de respeito aos cristaos 
e nado uma meta tatica politica, considerando que vive- 
mos num mundo de muitos crist@os e nao € conveniente 
o enfrentamento das revolucgdes com as crengas religio- 
sas. Nem que o imperialismo possa manipula-las como 
armas contra as revolucdes. Por que manipular a con- 
vicgao teligiosa de um operario, de um camponés, de 
um favelado ou de um humilde homem do povo, con- 
tra a revolucdo? Poderiamos dizer que, politicamente, 
isso nao € correto. Porém, nao o encaramos somente 
como um ponto de vista politico, mas também como 
um principio. N4o se trata de uma tatica politica e sim 
porque consideramos que se deve respeitar o direito dos 
cidad4os a sua conviccao religiosa, como se deve respei- 
tar sua satide, sua vida, sua liberdade e todos os demais 
direitos. Como muitos outros, este € um direito inalie- 
navel do individuo, de ter ou n4o seu pensamento filo- 
sdfico e sua conviccao religiosa. Portanto, nao € uma 
mera questao de tatica politica. 
Agora, vocé me pergunta se estado criadas as condi- 
cdes. Creio que nao, porque nao temos trabalhado para 
isso; deveriamos trabalhar mais nessa direcao. 
Se vocé me pergunta: para a Revolucdo, isso € vital? 
246 CONVERSAS COM FREI BETTO 
Eu lhe digo: nao é vital, na medida em que nossa Revo- 
lucdo possui uma enorme forga politica e ideoldgica. 
Entretanto, se nao conseguimos esse clima, nao 
podemos ent&o afirmar que a nossa Revolugéo € uma 
obra perfeita, porque enquanto existirem circunstancias 
nas quais haja individuos que, por determinadas con- 
vicgdes religiosas, nao tenham as mesmas prerrogativas 
que temos, cumprindo seus deveres sociais exatamente 
igual aos demais, nao esta completa nossa obra revolu- 
cionaria. 
Frei Betto — Claro, mas

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