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PROGRAMA DE EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE DA FAMÍLIA UNIDADE 4 Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Ana Cristina de Azevedo Issa 2 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Vamos iniciar esta unidade com algumas reflexões feitas por Dr. Fábio, da nossa situação- -problema: Será que suspendo esse medicamento? Essa medicação é segura para meu idoso? Qual será a meta de controle da HAS e do DM? Será que devo encaminhar esse idoso para o especialista? Será que estou abordando de maneira correta esse idoso com his- tórico de quedas? Assim como o Dr. Fábio, todos nós já tivemos dúvidas no cuidado com o paciente idoso. Esperamos que, ao final desta unidade, você seja capaz de: identificar quais os medica- mentos de risco e de alta vigilância do idoso; tratar esse idoso de acordo com sua classifi- cação clínico-funcional; definir quando encaminhá-lo ao especialista; e, caso seja médico, praticar a desprescrição medicamentosa. É importante lembrarmos que o foco do atendimento ao idoso será sempre sua funciona- lidade e o potencial de melhora dessa funcionalidade com a intervenção realizada. A prioridade não é estabelecida pela doença, e sim pela forma como ela está afetando os sistemas funcionais e comprometendo a funcionalidade da pessoa idosa. 3 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Aula 1: Metas de controle centradas no idoso: tratamento da HAS e do DM, conforme o estrato clínico-funcional Vamos relembrar a situação-problema... Dona Leopoldina tem 72 anos, DM2, insulino dependente, HAS, com lesão de órgão alvo: IAM em 2002. Então, o ideal para esse caso será manter a glicoHb<7% e a PA <130/80mmHg. Certo? Não... Reveja como o caso da Dona Leopoldina foi descrito... O que está errado? Essa descrição peca pelo fato de ter omitido o principal: a funcionalidade da dona Leopoldina! Veja agora a diferença: Dona Leopoldina, 72 anos, dependente parcial para AIVDs (deixou de fazer compras recentemente, por conta de quedas). Está no estrato 6 na EVF, principalmente pela mobilidade (quedas/uso de bengala/ incontinência) e pela comunicação (visão: catarata). DM2, Insulino-dependente, HAS, com LOA (IAM em 2002). Qual foi a diferença entre as duas descrições? Veja que, no primeiro caso, as comorbidades são mais importantes. Se focarmos nelas, seguiremos o controle estipulado nos protocolos, mas que em relação ao estrato clínico- -funcional da Dona Leopoldina pode não ser adequado. Observe agora que o segundo exemplo traz a funcionalidade como o mais importante. As comorbidades ficam em segundo plano, justamente porque o seu controle dependerá da funcionalidade, ou seja, do estrato clínico- -funcional dessa idosa. Como falamos na Unidade 1, os protocolos precisam ser avaliados criticamente e individualizados no caso dos idosos. 4 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Se pensarmos apenas nas comorbidades, o controle da Dona Leopoldina estava ótimo, pois seguia as metas terapêuticas estabelecidas. Veja que Dr. Fábio até parabenizou a idosa pelo bom controle. A questão é que não podemos ver a Dona Leopoldina como um adulto. No atendimento ao idoso, é preciso focar em funcionalidade antes de pensar na clínica e nas comorbidades. Se Dona Leopoldina fosse uma idosa com funcionalidade preservada, robusta, estrato 1 a 3, poderíamos até pensar em manter o controle como no adulto, seguindo os protocolos clíni- cos. Porém, ela é uma idosa no estrato 6, pois deixou de sair de casa sozinha, principalmente pelas quedas que vem apresentando (mobilidade). Nesse sentido, a hipotensão postural ou mesmo quadros de hipoglicemia podem contribuir para a piora da mobilidade dessa idosa. Assim, ao focarmos na funcionalidade, percebemos que um controle rigoroso das comorbida- des (HAS, DM) não traria ganho funcional, pelo contrário, estaria contribuindo para sua piora. Por isso, para a dona Leopoldina, metas de controle da pressão e da glicemia não-rigorosas, mantendo a PA<160/90 mmHg (veja a ilustração na aula de HAS) e a glicoHb em torno de 7.5% poderiam ser benéficas, pois potencialmente trariam melhora funcional. Veja, a seguir, algumas particularidades do controle da HAS e do DM no idoso. Particularidades da HAS no idoso A HAS é uma condição clínica multifatorial caracterizada por níveis elevados e sustentados de PA (PA ≥140x90mmHg). Na população idosa, é uma doença frequente e sua prevalência varia de 50 a 80% dos pacientes, dependendo da população estudada (MORAES, 2008). Na população idosa, apresenta algumas particularidades que precisam ser levadas em con- ta durante a avaliação e tratamento. A pseudo-hipertensão do idoso É um erro de medida produzido pelo enrijecimento da artéria braquial comumente vista em pacientes idosos. A aferição da PA sistólica (PAS) e diastólica (PAD) pode ser superestimada, pois o enrijecimento da artéria pode exigir maior insuflação do manguito para sua constri- ção, em uma medida acima da pressão real (MORAES; LANNA, 2012). 5 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde A manobra de Osler permite identificar a pseudo-hipertensão e consiste na palpação da artéria radial após a insuflação do manguito pelo menos 30 mmHg acima do desaparecimento do pulso radial. Persistência da palpabilidade sugere rigidez da artéria e indica que o índice obtido pela ausculta não expressa a verdadeira PAS, obtida por medida intra-arterial, podendo superestimar o valor da pressão arterial entre 10 a 60mmHg. Esse diagnóstico também é sugerido em idosos com hipertensão refratária, sem LOA e/ou com sintomas de hipotensão durante o uso de baixas doses de anti-hipertensivo de baixa potência terapêutica. Deitado, sentado e em pé… A pesquisa por hipotensão postural é fundamental durante o exame clínico da pessoa idosa, principalmente se há alteração da mobilidade. Lembra-se da situação-problema? A Dona Leopoldina apresentava relato de quedas e, segundo exame, tinha hipotensão pos- tural. A Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa (2014) enfatiza a necessidade de medida da pressão arterial nestas três posições (deitada, sentada e em pé), pois é a única forma de identificar a presença de hipotensão postural, que está presente em cerca de 40% dos idosos. Quando observamos hipotensão postural, é importante fazermos uma revisão das medi- cações em uso, pois alguns fármacos como diuréticos, antidepressivos, vasodilatadores e betabloqueadores podem causar essa condição. Assim, no caso da Dona Leopoldina, a sus- pensão do Hidroclorotiazida poderia ter melhorado a mobilidade. Lembrando que ainda traria benefícios em relação à incontinência urinária. Vamos relembrar! Definição de hipotensão postural: queda igual ou superior a 20mmHg da PA sistólica e igual ou superior a 10mmHg da PA distólica dentro de 3 minutos após o paciente assumir a posição ortostática. 6 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde O idoso e a pressão diastólica A Pressão sistólica e diastólica tem diferentes abordagens no idoso e no adulto. Idosos frágeis com pressão diastólica baixa, <70mmHg, estão mais sujeitos a eventos adversos. No paciente idoso, o risco de doença coronariana está diretamente proporcional a pressão sistólica e inversamente proporcional à pressão diastólica. Assim, eventos cardiovasculares podem ocorrer quando a pressão diastólica é reduzida abai- xo do nível necessário para manter a perfusão dos órgãos vitais, particularmente o coração. Por isso, ao trataro paciente idoso com hipertensão sistólica isolada, precisamos estar atentos ao valor da pressão diastólica, evitando que com o tratamento esta fique menor que 70 mmHg, sendo 60 mmHg o limite mínimo tolerado. A escolha do anti-hipertensivo Em geral, três classes de drogas são consideradas primeira linha de terapia da hipertensão em idosos: • Diuréticos tiazídicos em baixa dose; • Inibidor de Canal de Cálcio; • IECA ou BRA. Vamos relembrar! É sempre importante avaliar a presença de hipo- tensão postural e, se necessário, ajustar as drogas, uma vez que elas aumentam o risco de quedas em idosos. O controle da HAS O controle da Pressão arterial no idoso deve ser flexível, levando-se em conta seu estrato clínico funcional. Idosos robustos (estratos 1, 2 e 3) podem se beneficiar de metas mais rigorosas (<140/90) caso apresentem lesão de órgão alvo e, principalmente, na ausência de efeitos adversos do uso de anti-hipertensivos. 7 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Metas menos rigorosas são sugeridas para os idosos frágeis, independentemente da idade, na medida em que o efeito protetor da normalização da pressão nesses pacientes ainda é questionável. Além disso, eles são mais suscetíveis às reações adversas dos anti-hipertensivos, como hipotensão ortostática, quedas, incontinência urinária, declínio funcional, distúrbios hidroeletrolíticos, dentre outros. Assim, após o diagnóstico de hipertensão arterial sistólica no idoso, a ação deverá ser cautelosa. Diante de medidas mais elevadas da PA, sugere-se reduzir a pressão sistólica em 20 mmHg (intervenção 1) e avaliar a presença de efeitos colaterais. Esta redução está associada à menor morbimortalidade, independentemente da normalização da pressão arterial. Atingida esta meta, deve-se tentar maior redução da PAS até níveis de160 mmHg, evitando reações adversas, como hipotensão ortostática (intervenção 2). A progressão dos anti-hipertensivos deve ser lenta e gradual, conforme a tolerância do paciente e a meta estabelecida, conforme mostra a figura sobre tratamento da HAS em idosos. As ações deverão ser cautelosas a fim de evitar desfechos negativos, como hipotensão ortostática, quedas, incontinência urinária, etc. Os idosos frágeis deverão ter metas mais conservadoras, pois estão mais suscetíveis a esses desfechos. Veja a figura a seguir: Tratamento da HAS em idosos Figura 1 - Tratamento da HAS em idosos. Fonte: Moraes e Lanna (2014). 8 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde A meta de controle estabelecida deverá ser individualizada, levando-se em conta a funciona- lidade do idoso e o histórico de desfechos cardiovasculares. Vejamos: Figura 2 - Meta de controle sugerida conforme a funcionalidade. Fonte: Moraes (2016). 9 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Figura 3 - Meta de Controle da PA conforme estrato clínico-funcional. Fonte: Moraes (2016). As metas de controle da HAS no idoso estarão diretamente relacionadas ao estrato clínico- -funcional em que esse idoso se encontra. Assim, o principal determinante da meta a ser atingida não é a idade do paciente, mas sim a fragilidade, como pode ser visto na figura. Idosos robustos, com funcionalidade preservada, teriam como meta a PA menor que 150/90. À medida que vai se tornando mais frágil, esse controle também fica menos rigoroso. Em uma idosa como a dona Leopoldina, por exem- plo, já com alteração da mobilidade, podemos sugerir um controle mais grosseiro, abaixo de 160mmHg. Nessa mesma linha de pensamento, vemos que não faz sentido um controle rigoroso da PA de um idoso no estrato 10, em cuidados paliativos. Assim, idosos com dependência funcional avançada, acamados e com baixa expectativa de sobrevida (estrato clínico-funcional de 9 ou 10) podem se beneficiar da ausência de interven- ções anti-hipertensivas (intervenção 0). Lembrando que as orientações de dieta e mudanças no estilo de vida também dependem do estrato funcional. 10 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Particularidades do DM no idoso Pacientes idosos com diabetes estão em risco de desenvolver complicações micro e macro- vasculares decorrentes da doença, assim como os pacientes mais jovens. Porém, na assis- tência ao idoso, como vimos nas outras unidades, o foco sempre será a funcionalidade, não a doença. Dessa maneira, o controle do diabetes dependerá do estrato clínico-funcional e deverá ser sempre individualizado. Ressalta-se que a população idosa também está mais vulnerável à hipoglicemia, que é dire- tamente proporcional ao grau de fragilidade clínico-funcional e inversamente proporcional às metas glicêmicas, como pode ser visto na figura a seguir (Moraes, 2018). Em 2018 o American college of physicians desaconselhou o controle rigoroso da glicemia, evitando-se taxas de glicoHb menores que 6.5% para todo paciente DM tipo 2 independen- temente da idade, pelo aumento da mortalidade global e cardiovascular, além do alto risco de hipoglicemia. 11 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Figura 4 - Metas da glicohemoglobina de acordo com o estrato clínico-funcional. Em pacientes com DM de longa evolução, história de hipoglicemia grave, doença micro ou macrovascular avançada e/ou baixa expectativa de vida, o controle da glicemia deverá ser 12 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde menos rigoroso (ADA-2018), tendo em vista que os potenciais riscos do controle intensivo ultrapassam seus benefícios. Contudo, a flexibilização de metas glicêmicas não é sinônimo de não tratar. Deve-se evitar hiperglicemia sintomática e risco de complicações hiperglicêmi- cas agudas em todos os pacientes. O risco de hipoglicemia é diretamente proporcional ao grau de fragilidade clínico-funcional e inversamente proporcional às metas glicêmicas, como pode ser visto na figura 5. Figura 5 - Metas de glicêmicas individualizadas de acordo com a funcionalidade. Fonte: Adaptada de Moraes e Lanna (2014). 13 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde O controle do DM segue a mesma linha de raciocínio da meta de controle da HAS. Em idosos funcionais, com cognição preservada, o controle pode ser semelhante ao do adulto. À medi- da que a fragilidade aumenta, a meta de controle também fica menos rigorosa, uma vez que os riscos de hipoglicemia se tornam maiores. Veja que a meta da dona Leopoldina (estrato 6) é em torno de 8%. Já a meta de um idoso acamado, com baixa expectativa de vida e alto grau de dependência (por exemplo, nos estratos 9 e 10), é em torno de 9%. Nesse caso, o objetivo é evitar hiperglicemias graves. Lembrando que orientações de dieta e mudanças no estilo de vida seguem essa mesma linha de raciocínio. Medicações Hipoglicemiantes orais Quando a meta para o estrato clínico-funcional não for alcançada e existir indicação de tra- tamento medicamentoso, a Metformina é geralmente a medicação de primeira escolha, devido ao baixo custo e segurança de uso (baixo risco de hipoglicemia). Sua dose deve ser reduzida em caso do ritmo de filtração glomerular (RFG) entre 30 e 60ml/min e não deve ser usada quando RFG <30ml/min e na presença de insuficiência cardíaca grave. Pode também não ser uma boa opção em pacientes muito emagrecidos. Em pacientes nos quais os alvos glicêmicos não são alcançados ou mantidos, um secretago- go de insulina pode ser associado com a Metformina. Essa prescrição também pode ocorrer nos casos de contraindicação ou intolerância à Metformina. Assulfonilureias apresentam risco de hipoglicemia, o que é complicado para o idoso, particularmente a clorpropamida e a glibenclamida (Daonil). A Glicazida é a sulfanilréia mais indicada em idosos, podendo ser administrada em dose única diária (30mg/d), titulando-se a dose até 120mg/d conforme a necessidade. Não deve ser utilizada caso o CL creat esteja < 30ml/min. A Glibenclamida não deve ser usada em idosos, pelo alto risco de hipoglicemia grave. A sulfanilureia de escolha é a Glicazida, padroni- zada na Relação Nacional de Medicamentos (RENAME). Insulinoterapia A insulina é uma medicação de alta vigilância em idosos, pelo risco de hipoglicemia. Deve ser iniciada na presença de glicoHb> 10%, com glicemia superior à 300mg ou com sintomas secun- dários à hiperglicemia grave. Muitas vezes, com a normalização da glicemia e dependendo da meta estabelecida, pode-se tentar o controle com hipoglicemiantes orais. Nos idosos frá- geis que necessitam fazer uso de insulina, geralmente uma dose única matinal é satisfatória, 14 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde pois o pico de NPH coincide com a hiperglicemia após o almoço. A dose pela manhã é mais segura, por reduzir os riscos de hipoglicemia noturna. Pode ser administrada como monote- rapia ou em associação com Sulfonilureia ou Metformina no idoso com DM tipo 2. É importante lembrar que o tratamento deverá ser sempre individualizado. A escolha das medicações, bem como as metas de tratamento devem considerar o estágio clínico-funcional em que o idoso se encontra. 15 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Aula 2: Quando o tratamento se torna um risco: iatrogenia Vamos relembrar nossa situação problema… A Dona Leopoldina chegou ao consultório uti- lizando uma bengala improvisada, feita com um cabo de vassoura. Disse ao Dr. Fábio que estava caindo muito nos últimos dias, o que comprometeu diretamente sua funcionalidade: deixou de fazer compras. Podemos observar que o Dr. Fábio era um médico cuidadoso, preocupado com a Dona Leopoldina. Porém, deixou de tomar medidas importantes porque focou nas comorbidades sem levar em conta a perda funcional para a tomada de decisões. Vamos rever as medicações que dona Leopoldina estava usando? Lembrando de nunca perder de vista seu estrato clínico-funcional: 6. Hidroclorotiazida 25mg 1 comp pela manhã HAS Losartan 50mg 1 comp 12/12h HAS Anlodipina 5mg 1 comp pela manhã HAS Atenolol 25mg 1 comp pela manhã DCV (IAM) Metformina 850 mg 1 comp após café e jantar DM2 Omeprazol 20 mg 1 comp em jejum pela manhã “Proteção” do estômago AAS 100MG 1 comp após almoço Profilaxia secundária Sinvastatina 40 mg 1 comp à noite Profilaxia secundária Insulina NPH 18 UI SC à noite DM2 Outras medicações em uso por conta própria: Vertix (cinarizina) Óleo mineral Polivitamínico Diclofenaco Gingko Biloba Quantas medicações, não é? Dona Leopoldina pontua em polifarmácia no IVCF-20. 16 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Veja que a Dona Leopoldina usava várias medicações por conta própria. Logo, é sempre importante perguntar ao idoso se está usando alguma outra medicação fora da receita. Não raro, ao fazermos visita domiciliar, encontramos a famosa caixinha de remédios, geralmente cheia de outros medicamentos, muitas vezes de risco ao idoso. Será que todas essas medicações são importantes? Quais delas podem ser danosas à dona Leopoldina? Quais delas são de alta vigilância para o idoso? Após esta aula, você será capaz de: • Identificar as medicações inapropriadas, contraindicadas e de alta vigilância para idosos. • Suspender medicações desnecessárias e/ou de risco – desprescrever (no caso do profissional médico). A arte da desprescrição A senescência altera propriedades farmacocinéticas da medicação, aumentando a concen- tração da droga no plasma e também as propriedades farmacodinâmicas, fazendo com que a sensibilidade à droga aumente nos pacientes idosos. Assim, sempre precisamos ter em mente a possibilidade de eventos adversos com o uso de algum medicamento. No idoso, a iatrogenia pode ser muito deletéria, potencializando risco de quedas, tremores, sedação e outros efeitos que contribuem para o prejuízo funcional. Conceito de iatrogenia: qualquer ação realizada por um profissional da saúde que gere dano, bem como a omissão diante da necessidade de uma intervenção, de forma a aumentar o risco de hospitalização, queda do status funcional, eventos adversos e aumento de morbi- mortalidade (MORAES; LANNA, 2016). Conforme Moraes e Azevedo (2016), no idoso, a iatrogenia pode ser considerada uma das principais síndromes geriátricas, capaz de alterar funcionalidade, sendo potencialmente reversível e até curável. A iatrogenia geralmente é resultado de: • Desconhecimento das alterações fisiológicas do envelhecimento e das peculiaridades da abordagem ao idoso; • Dificuldade no estabelecimento de diagnósticos etiológicos e funcionais; • Malefício associado ao uso inadequado de medicamentos; • Intervenção de maior potencial iatrogênico. 17 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Veja o exemplo abaixo: Durante uma ação de saúde na praça, Dona Zélia teve sua medida de pressão arterial um pouco alterada. O enfermeiro que aferiu a pres- são orientou que ela procurasse um posto de saúde para ser avaliada melhor com seu médico. Dona Zélia foi ao posto, mas só tinha consulta para o fim do mês… Preocupada com sua condição, pediu emprestado o anti-hipertensivo da sua irmã até o dia da consulta. Como na verdade se tratava de uma pseudo-hipertensão, Dona Zélia ficou hipotensa e começou a sentir tontura importante com o uso da medicação, mas acreditou estar com labirintite. Foi à farmácia e relatou seus sintomas de tontura. O farmacêutico, que desconhecia a história do anti-hiperten- sivo, ao ouvir Dona Zélia falar da “labirintite”, orientou o uso de Stugeron (R). Dona Zélia começou a usar a medicação, que lhe causou tremores. Como desconhecia esse efeito colateral da medicação, em conversa com seu vizinho foi alertada que os tremores poderiam ser por doença de Parkinson. Preocupada com a possibilidade de estar hipertensa e com Parkinson, passou a apresentar insônias frequentes. Iniciou uso de Clonazepam para dormir. As tonturas pioraram muito, a ponto de dona Zélia já não conseguir sair de casa. Nesse período, Dona Zélia caiu, fraturando o fêmur e a bacia. No dia da consulta marcada para o fim do mês no posto, Dona Zélia não compareceu porque estava internada. A iatrofarmacogenia é o malefício associado ao uso inadequado de medicamentos. Apresenta alta prevalência em pessoas idosas e com polifarmácia. Em idosos acima de 80 anos a frequência aumenta. Nesse contexto, é muito importante que a revisão medicamentosa seja feita em toda con- sulta com atenção a qualquer sintomatologia nova, principalmente se tem relação com a mudança ou início de alguma medicação. Alerta! Devemos ter muito cuidado para não tratar efeito colateral de alguma medicação em uso! Por isso, é sempre importante investigar todos os medicamentos usados (na receita e fora dela!). 18 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Figura 6 - Fatores de risco de iatrofarmacogenia em idosos. O envelhecimento normal gera redução da reserva homeostática, com consequentes altera- ções na absorção, distribuição, metabolismo e excreção dos medicamentos. Somado a esse fator, comorbidades múltiplas, com consequente polifarmácia, além de poliespecialistas, sem uma linha adequada de cuidados, favorecem a iatrogenia. Existem alguns cuidados que devemos tomar ao prescrevermosmedicações para o paciente idoso: • Sempre questionar se a droga é realmente necessária; • Sempre rever diagnóstico; • Atribuir qualquer sintoma ao uso de droga até que se prove o contrário; • Sempre solicitar ao paciente que traga lista de todos medicamentos prescritos e não-prescritos (lembra-se da caixinha de remédios citada na aula anterior?); • Fazer a revisão regular da medicação. É muito importante que o idoso tenha um médico que o avalie como um todo, gerenciando cuidados como esses. Assim, evitamos a hipermedicalização e a medicalização dos efeitos colaterais de medicações em uso. 19 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Conceito de desprescrição: É o processo supervisionado de suspensão ou redução da dose de qualquer medicamento considerado inapropriado, com o obje- tivo de melhorar a saúde do idoso e reduzir os custos assistenciais (MORAES, 2018). O processo de desprescrever envolve as seguintes etapas, conforme Moraes, E.N; Lanna, F.M. Avaliação Multidimensional do Idoso: 5. ed. Belo Horizonte: Editora Follium, 2016: • REVISAR: listar todos os medicamentos utilizados e avaliar o estado físico, comportamental e contexto sociofamiliar do paciente; • ANALISAR: avaliar adesão, interações e reações adversas. Definir metas de atenção e objetivos de tratamento, relacionando expectativa de vida e o tempo até o benefício; • AGIR: iniciar a desprescrição dos fármacos inapropriados, que causam danos mais graves, bem como dos não utilizados, seguindo dos fármacos utilizados para prevenção até os de tratamento específico de enfermidades, de sintomas ou de uso paliativo; • AJUSTAR: pactuar expectativas, crenças e preferências do paciente, adaptando a prescrição às reais possibilidades de cumprimento. • MONITORAR: Verificar as melhorias no tratamento, avaliar a adesão à desprescrição e detectar ressurgimento dos sintomas ou agravamento da doença de base. Medicamentos potencialmente inapropriados em idosos são fármacos que devem sempre ser evitados por esse público, por existirem alternativas terapêuticas mais seguras. Existem critérios explícitos de avaliação da adequação farmacoterapêutica para a pessoa idosa. Os critérios de Beers são os mais amplamente utilizados para acessar drogas ina- propriadas em idosos. Eles trazem uma lista de medicamentos considerados inapropriados para o idoso, por serem ineficazes pelo alto potencial de danos. O protocolo STOPP/START indica as principais situações para as quais está indicada a sus- pensão de medicamentos considerados inapropriados (STOPP), assim como situações em que determinadas medicações devem ser usadas (START). Medicamentos de alta vigilância são aqueles cujo uso está indicado, porém apresentam uma janela terapêutica estreita, de modo que seu uso incorreto pode causar danos. Por isso, preci- sam de cuidados especiais. A família, o cuidador ou o próprio idoso devem ser orientados sobre a importância desses medicamentos no tratamento, mas também sobre seu potencial risco. 20 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Exemplo: Insulina, Varfarina, Digoxina, opióides. Veja os quadros abaixo: Classes terapêuticas Hipoglicemiantes orais. Insulinas, em todas as formulações e tipos de dispositivos de administração. Opioides, em todas as formulações e vias de administração. Medicamentos Específicos Carbamazepina. Metformina. Propiltioracila. Varfarina. Quadro 1 – Medicamentos de alta vigilância. Fonte: Moraes e Azevedo (2016). Baseado na substância química Baseado na dose ou no tempo de uso Alprazolam. Disopiramida. Megestrol. Digoxina > 0,125 mg por dia.Amitriptilina. Escopolamina. Meloxicam. Amiodarona. Estazolam. Meperidina. Espironolactona > 25 mg por dia.Beladona. Estrógeno oral. Metilpoda. Biperideno. Etodolac. Metoclopramida. Omeprazol ou outros bloqueadores da bomba de prótons: duração > 8 semanas, exceto em condições específicas. Carisoprodol. Fenilbutrazona. Naproxen. Ciclobenzaprina. Fenobarbital. Nifedipina. Cimetidina. Flunarizina. Nitrofurantoína. Cinarizina. Funitrazepam. Óleo Mineral. Clomipramina. Fluoxetina. Orfenadrina. Clonazepam. Flurazepam. Oxazepam. Clonidina. Hidroxizine. Paroxetina. Clordiazepóxido. Hiosciamina. Pentoxifilina. Clorpromazina. Ibuprofen. Piroxicam. Clorpropamida. Glibenclamida. Prazosin. Codergocrina. Hormônio do crescimento. Prometazina. 21 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Dexclorfeniramina. Imipramina. Reserpina. Diazepam. Indometacina. Teofilina. Diclofenaco. Levomepromazina. Testosterona. Dimenidrinato. Lorazepam. Ticlopidina. Dipiridamol. Meclizina. Zolpidem. Quadro 2 – Medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Fonte: Moraes e Azevedo (2016). Os critérios de Beers enumeram as drogas potencialmente inapro- priadas a serem evitadas em idosos. Link para acesso ao poket / critérios de Beers: <http://bcbpsd.ca/docs/part-1/PrintableBeersPocketCard.pdf>. O protocolo Stopp/Start enfatiza as principais situações nas quais está indicada a desprescrição de medicamentos considerados ina- propriados (STOPP), associado a situações em que está indicado o uso de determinados medicamentos (START). Leia as páginas 40 e 41 e veja o quadro 4 da página 41 do livro: MORAES, E. N. Atenção à saúde do idoso: aspectos conceituais. Brasília: OPAS, 2012. Link para acesso ao livro: <http://apsredes.org/pdf/Saude-do-Idoso- WEB1.pdf>. Algumas peculiaridades da prescrição de drogas no idoso: • Monitorização rígida das drogas; • Abstenção de polifarmácia sempre que possível; • Abstenção de drogas mais lipofílicas e metabolizadas durante fase I do metabolismo hepático; • Simplificação do regime terapêutico; 22 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde • Início devagar e progressão lenta; • Refreio de prescrição de sintomáticos para tratar reações adversas a outras drogas. O primeiro passo para uma prescrição mais segura em idosos é a suspensão ou substituição de medicamentos inapropriados por outros mais seguros (MORAES; LANNA, 2016). Veja no AVASUS um infográfico que apresenta o algoritmo de boa prática geriátrico-paliativa, por Moraes e Lanna (2016). Ele poderá te ajudar a desprescrever medicações de risco ou fúteis. Infográfico 1 Vamos relembrar mais uma vez a situação-problema... Dona Leopoldina apresentava perda funcional, principalmente pela mobilidade, com relato de quedas e tonturas. Abaixo, a representação da dona Leopoldina na Escala Visual de Fragilidade. Observe que os campos em que se apresenta comprometimento estão contornados de lilás. 23 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Escala Visual de Fragilidade Figura 7 - Escala Visual de Fragilidade. Fonte: Moraes e Lanna (2016). 24 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Atividade 1: relembre as metas da PA e da GlicoHb para dona Leopoldina (se julgar necessário, reveja a aula anterior). Vamos listar as medicações de risco e de alta vigilância que a Dona Leopoldina usa? • PA sistólica menor que 160, sendo a PA mínima 130x70 mmHg. Lembrando que a PA diastó- lica não deve ficar abaixo de 70mmHg. • GlicoHb em torno de 8%. Medicações de risco: 1) Óleo mineral: risco de pneumonia aspirativa. Medicação não deve ser usada em pacientes idosos. Como alternativa, poderíamos indicar Lactulose ou Sorbitol (laxantes osmóticos). 2) Diclofenaco: medicação de risco em idosos, devido ao aumento do risco de sangramen- to gastrintestinal ou doença cloridropéptica, principalmente na Dona Leopoldina, que já usa AAS.Indicar analgésicos comuns. Para dores mais intensas, pode ser indicado um opióide fraco, como Tramadol ou codeína (estes dois últimos são de alta vigilância). 3) Gingko Biloba: não mostrou benefício na prevenção da demência ou dos distúrbios cogniti- vos em idosos. Também não mostrou benefício no tratamento da Demência de Alzheimer. 4) Vertix (Cinarizina): Medicação de alta carga dopaminérgica e risco de Parkinsonismo induzido. Medicações de alta vigilância: • Insulina. • Metformina. O que você acha da pressão arterial da dona Leopoldina? Você sugere alguma mudança? Vamos rever as metas da PA para o estrato clínico-funcional da dona Leopoldina: a meta sugerida é de uma PA <160/90. A PA estava bem mais baixa, com hipotensão postural. Então, é necessário rever as medicações anti-hipertensivas em uso e avaliar suspender algumas delas. 25 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Uma boa opção seria a HCTZ. É uma boa medicação anti-hipertensiva para ido- sos, mas, no caso específico da dona Leopoldina, pode estar contribuindo para hipotensão postural. Além disso, a queixa de incontinência urinária pode melho- rar com a suspensão desta medicação. Assim, vamos suspender a HCTZ e reavaliá-la em cerca de 30 dias para verificar necessidade de suspensão de outras drogas. O que você achou do controle do DM? Está dentro da meta sugerida para esta funcionalidade? O controle atual apresenta algum risco para a idosa? Quais seriam suas sugestões? A meta sugerida da GlicoHb para a funcionalidade da dona Leopoldina é em tor- no de 8%. Sabemos que a Insulina é uma medicação de alta vigilância e que níveis de glicoHb abaixo de 6% em idosos aumentam o risco de hipoglicemia e, conse- quentemente, a morbimortalidade. Dessa forma, a medicação para o DM deverá ser revista considerando a funcionalidade atual da dona Leopoldina. Uma sugestão é suspender a insulina e rever a glicoHb em 3 meses. O uso da Metfor- mina tem um menor risco de causar hipoglicemia em relação à insulina. Como a dona Leopoldina não é muito magra e tem boa função renal, não haveria contraindicação. O Omeprazol está sendo usado para proteger o estômago de outras drogas em uso Haveria mesmo essa necessidade? Uma boa opção é suspender o Omeprazol e reavaliar as queixas dispépticas, que, caso sejam persistentes, devem ser pesquisadas. Abaixo, a sugestão das medicações: Medicamento / Nome comercial Horário de administração e Intervalo Via de uso Dose/ Quantidade Orientações Anlodipina 5mg Manhã VO 1 comp. Avaliar necessidade de suspensão posterior, lem- brando que a sugestão da PA para o estrato atual da dona Leopoldina é menor que 160/90. Losartan 50 mg Manhã VO 1 comp. Atenolol 25 mg Manhã VO 1 comp. Tem indicação de uso pela DAC prévia. 26 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Medicamento / Nome comercial Horário de administração e Intervalo Via de uso Dose/ Quantidade Orientações Metformina 850mg Após o café e o jantar VO 1 comp. Considerar redução da dose visando a meta para o atual estrato clínico funcional da Dona Leopoldina 8% AAS 100mg Após o almoço VO 1 comp. Profilaxia secundária Sinvastatina 40 mg à noite VO 1 comp. Profilaxia secundária Dipirona 1 grama 6/6h VO 1 comp. Pode ser mantido fixo para melhor controle da dor. Lactulose 667mg/ ml 12/12h VO 10 ml. Em caso de constipação intestinal. Atividade 2: suponha que 1 mês após suas intervenções, Dona Leopoldina retorne à sua consulta. Ela relata que a tontura melhorou muito e que já não está mais caindo. Voltou a sair de casa e a fazer compras sozinha. Assim, solicita um relatório médico para começar aulas de hidroginástica. Ademais, a incontinência urinária melhorou e as dores estão bem controladas com a Dipirona fixa. No exame, você nota a PA 155/90 mmHg e em pé 155/90mmHg. Qual a sua avaliação em relação a essa pressão arterial? Você acha que está ade- quada para a dona Leopoldina? Seria necessária alguma intervenção? Veja, a Dona Leopoldina saiu do estrato 6 e subiu para o estrato 3. Está muito mais funcional que antes. Nesse momento, a meta da PA pode ser menor que 150/90. Assim, valeria a pena reavaliar novas medidas e, se a PA se mantivesse persis- tentemente em 155/90, ajustar os anti-hipertensivos. Poderíamos, por exemplo, aumentar a Anlodipina para 10mg/dia ou aumentar o Losartan para 12/12h. Veja que para responder a essa questão foi fundamental avaliar a funcionalidade atual da Dona Leopoldina. Note também que as metas de controle mudam de acordo com o estrato clínico- -funcional. 27 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde 27 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Aula 3: O cuidado centrado no idoso Prezado, vamos começar essa aula com uma proposta reflexiva! Assim, leia atentamente o exemplo abaixo: Dona Maria Izaurina é uma idosa de 75 anos, com diagnóstico de DM tipo 2, HAS com LOA, HP stent em 2003, dislipidemia e osteoartrose. Faz uso de Enalapril 20 BID, Metformina 850mg TID, Diazepam 10mg MID e Para- cetamol se houver dor. Você solicita os exames realizados esse mês: GJ 250mg/dl, GlicoHB: 9%, HDL 52, LDL 190, HB 11.5, HCT 37%, VCM 98, TSH 10. No exame físico, a paciente apresentava PA 170/90mmHg, sem hipotensão postu- ral, dor à movimentação passiva de MMII, crepitações ao longo do movimento e limitação de amplitude. Quais propostas de cuidado você indicaria para Dona Maria Izaurina? ( ) Insulinizar. ( ) Encaminhar para fisioterapia do NASF. ( ) Suspender Diazepam. ( ) Orientar a dieta. ( ) Melhorar analgesia. ( ) Associar novo anti-hipertensivo (nesse caso, a Anlodipinia seria uma boa opção, uma vez que a paciente é diabética). ( ) Iniciar profilaxia secundária com AAS e estatina. ( ) Solicitar T4L e avaliar tratamento de hipotireoidismo. 28 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Agora veja, a seguir, como é Dona Maria Izaurina: Reveja suas respostas… Conhecendo a Dona Maria Izaurina, das alternativas disponíveis, qual você marcaria? O que te fez mudar a resposta? Agora imagine que a Dona Izaurina é assim: Quais opções você marcaria? 29 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Considerando essas duas figuras, o que foi fundamental para guiar suas decisões? A resposta correta é: Funcionalidade. Se você acertou, compreendeu o objetivo deste módulo: fazer seu atendimento ao idoso ser centrado no idoso, ou seja, em sua capacidade funcional. Nesta aula, você terá bases para a tomada de decisões em relação ao cuidado do idoso, que sempre será baseada no estrato clínico-funcional do idoso atendido. Veja agora as seguintes recomendações: Pesquisa de sangue oculto nas fezes: recomendado dos 50 aos 75 anos. Dona Carmem tem 65 anos. Então, ela teria indicação, certo? Depende… Quem é a Dona Carmem? A escolha pelos exames de rastreio deve se basear, no caso do paciente idoso, não apenas na idade, mas em sua funcionalidade. Não pediríamos esse exame para a dona Carmem, por exemplo, se ela apresentasse a funcionalidade muito comprometida e com baixa expectativa de vida, mesmo que estivesse na faixa de idade recomendada. Todas as nossas decisões deverão ser, portanto, individualizadas, centradas no idoso. 30 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Prevenção Quaternária Prevenção quaternária consiste em prevenir o excesso de intervenção médica, que pode gerar mais prejuízos que benefícios. É importante detectar os indivíduos em risco de tratamentoexcessivo para protegê-los de novas intervenções inapropriadas e sugerir-lhes alternativas eticamente aceitáveis. 31 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Cuidado centrado no idoso Figura 8 - Cuidado centrado no idoso. Fonte: Moraes e Lanna (2016). Veja que, conforme o idoso se torna menos funcional, ou seja, à medida que caminha no sentido da fragilidade, mais precisamos estar atentos para protegê-lo de intervenções desnecessárias. 32 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Aula 4: Elaborando um plano de cuidados individualizado: como priorizar ações a fim de se obter ganho funcional e/ou maior qualidade da assistência Você já aprendeu a identificar o idoso de risco, a fazer sua classificação clínico-funcional e a representá-lo em uma escala visual (EVF). Além disso, aprendeu a identificar qual ou quais domí- nios foram responsáveis pela perda funcional, tendo como foco a melhora da funcionalidade do idoso. Aprendeu também como dividir as ações em equipe e fazer a gestão de cuidados. Já nas últimas aulas, você aprendeu a identificar medicações de alta vigilância e de risco para idosos e a selecionar ações de prevenção e promoção em saúde de acordo com o estrato clínico-funcional do idoso. Nesta aula, você aprenderá a organizar todo o seu raciocínio e prioridade de intervenções em um plano de cuidados. O plano de cuidados é uma estratégia que podemos utilizar para organizar nossas ações, priorizando o que é mais importante no cuidado do idoso e definindo quais profissionais serão responsáveis por esse cuidado. 33 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Gestão da Clínica Figura 9 - Gestão da Clínica. Fonte: Moraes e Lanna (2014). Como vimos no exemplo acima, a organização de um plano de cuidados é essencial para evitar ações desnecessárias e iatrogenias. Ela sempre parte da avaliação da funcionalidade (Diagnóstico Funcional Global) e da identi- ficação de qual ou quais domínios são responsáveis por essa perda funcional. 34 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde O plano de cuidados deverá conter todas as informações necessárias para o planejamento e implementação das ações necessárias para a manutenção ou recuperação da saúde do idoso. Acesse o quadro Diagnóstico Funcional Global no link a seguir (página 51): <http://apsredes.org/pdf/Saude-do-Idoso-WEB1.pdf>. Assim, ao construir o plano de cuidados, algumas perguntas podem nos ajudar nessa organização: [O quê?] Quais são os problemas do paciente? [Como?] Quais as intervenções responsáveis pela melhoria da sua saúde? [Por quê?] Quais as justificativas para as mudanças? [Quem?] Quais profissionais serão necessários? [Onde?] Quais equipamentos de saúde são necessários para a imple- mentação das intervenções? Saiba mais! Livro OPAS, Capítulo 3, página 49 - Atenção à Saúde Do Idoso: Aspectos Conceituais: <http://apsredes.org/pdf/Saude-do-Idoso-WEB1.pdf>. Embora o foco não seja a doença, e sim o paciente e sua funcionalidade, é importante ter conhecimento acerca das doenças crônicas presentes e descrevê-las no Plano de Cuidados, bem como realizar a descrição detalhada de intervenções e metas de controle. Nesse caso, 35 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde podemos lançar mão das diretrizes existentes, porém com o cuidado de ter sempre uma visão crítica, levando em conta quem é esse paciente. Vimos, anteriormente, exemplos de intervenções preconizadas e bem estabelecidas que não caberiam para pacientes de estratos mais avançados (por exemplo, a pesquisa de san- gue oculto nas fezes para uma idosa de 62 anos estrato 10). Por isso, precisamos priorizar esse cuidado, com metas a serem estabelecidas a curto, médio e longo prazo, de acordo com o paciente avaliado. Desse modo, o plano de cuidado deverá incluir todas as intervenções preventivas/promocio- nais, paliativas/curativas e reabilitadoras, estabelecidas conforme o estrato clínico do paciente. De fato, a microgestão da saúde tem como meta a elaboração de um plano de cuidados individualizado. Microgestão da saúde Figura 10 - Microgestão da Saúde. Fonte: Moraes e Lanna (2014). 36 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Ações Preventivas e/ou Promocionais: consistem na implementação de cuidados anteci- patórios, capazes de modificar a história natural das doenças e evitar futuros declínios da saúde. As intervenções preventivas utilizam quatro tipos de abordagem: aconselhamento ou mudança de estilo de vida, rastreamento, quimioprevenção (uso de drogas que, compro- vadamente, reduzem o risco de doenças e/ou suas complicações) e imunização. Ações Curativas e/ou Paliativas: consistem nas ações direcionadas a problemas específicos identificados na consulta médica. A ênfase será no diagnóstico correto dos problemas crônicos de saúde e na prescrição correta das intervenções farmacológicas (Quadro 4) e não-farmacológicas. Ações Reabilitadoras: é o conjunto de procedimentos aplicados aos portadores de incapa- cidades (deficiências, limitação de atividades ou restrição da participação), com o objetivo de manter ou restaurar a funcionalidade. É também necessário descrever no plano de cuidados a justificativa para mudanças e ações realizadas, bem como explicitar o motivo da não-intervenção (suspensão ou diminuição das medicações, suspensão ou início de quimioprofilaxia, motivo da não-reabilitação, etc.), para que outros profissionais entendam o nosso raciocínio clínico diante do caso. Por exemplo: Suspensão de AAS e Estatina. Justificativa: idosa 69 anos, em estrato 9, dependente incom- pleta para AVDs Básicas, sem necessidade de profilaxia primária com AAS e Sinvastatina, dados o grau de dependência avançado e a baixa expectativa de vida. Evidências atuais mostram que a atenção à saúde dos idosos, feita com qualidade, resolu- tividade e custo-eficácia deve ser associada a quatro condições essenciais, que superam o simples diagnóstico e tratamento das doenças individuais: 1) Avaliação multidimensional ou abrangente, capaz de reconhecer todas as demandas biopsicossociais do paciente, seus valores, crenças, sentimentos e preferências para o cuidado. 2) Elaboração, implementação e monitoramento do plano de cuidados, composto por todas as interven- ções preventivas, curativas, paliativas e reabilitadoras, definidas de forma compartilhada. 3) Comunicação e coordenação com todos os profissionais e serviços necessários para implementação do plano de cuidados (linha do cuidado ou macrogestão da clínica), com ênfase no cuidado transicional. 4) Promoção do engajamento ativo do paciente e de sua família no cuidado com sua saúde. A família e o paciente também precisam entender as propostas e serem orientados sobre o cuidado que será implementado. Por isso, é muito importante explicar detalhadamente ao familiar e ao paciente (quando possível), o motivo de todas as intervenções realizadas e das que não são indicadas, para que, eventualmente, se for internado ou atendido por outro médico que desconheça esse plano de cuidados, não haja ruídos de comunicação. 37 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde Uma boa alternativa é, além de explicar, deixar uma cópia do plano de cuidados com a família. O cuidado centrado no idoso é o nosso maior desafio ao elaborar um plano de cuidados. É importante que as equipes de saúde sejam capacitadas a implementar as seguintes ações, em ordem de prioridade, segundo Moraes, EN e Lanna, FM(2016): 1) Suspensão de intervenções diagnósticas e/ou terapêuticas inadequadas, com ênfase na desprescrição segura de medicamentos inapropriados. 2) Definição de metas terapêuticas individualizadas e compartilhadas com o idoso e sua família, respei- tando o estrato clínico-funcional do paciente. 3) Tratamento adequado de condições subdiagnosticadas e consequentemente subtratadas. 4) Reabilitação, conforme o prognóstico do paciente. 5) Prevenção secundária, quando a expectativa de vida for suficientemente longa para o benefício espe- rado e não houver contraindicações para as intervenções medicamentosas, dietéticas ou mudança no estilo de vida. 6) Prevenção primária, somente quando o idoso for robusto e a relação custo-benefício for bastante satis- fatória, devido à escassez de estudos de intervenção em idosos muito idosos e, principalmente, em idosos frágeis. Veja o quadro Intervenções Preventivas/Promocionais (página 56), o quadro Intervenções curativas e/ou paliativas (página 57) e o quadro Intervenções reabilitadoras (página 58) no link a seguir: <http://apsredes.org/pdf/Saude-do-Idoso-WEB1.pdf>. 38 Atenção à saúde do idoso na Atenção Primária à Saúde Particularidades do manejo do idoso frágil na Atenção Primária de Saúde FINALIZANDO... A avaliação ao idoso sempre será centrada no idoso, ou seja, em sua funcionalidade. Ater-se às suas comorbidades clínicas pode gerar confusão e dúvida no manejo. As deci- sões clínicas, bem como intervenções, serão sempre baseadas no estrato clínico funcional em que esse idoso se encontra e no potencial ganho funcional que terá com a intervenção desejada. Assim, avaliar os quatro domínios e relacionar qual ou quais estão relacionados à perda funcional é a chave do atendimento adequado, pois norteará nossas ações. É impor- tante lembrar que as ações deverão envolver toda a equipe, de acordo com as competências de cada membro. Dessa forma, podemos gerir a macro e microgestão clínica, garantindo longitudinalidade, integralidade do cuidado, interdisciplinaridade e vinculação.