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■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ Os autores deste livro e a LIVRARIA SANTOS EDITORA COM. IMP. LTDA . empenharam seus melhores esforços para assegurar que as informações e os procedimentos apresentados no texto estejam em acordo com os padrões aceitos à época da publicação, e todos os dados foram atualizados pelos autores até a data da entrega dos originais à editora. Entretanto, tendo em conta a evolução das ciências da saúde, as mudanças regulamentares governamentais e o constante fluxo de novas informações sobre terapêutica medicamentosa e reações adversas a fármacos, recomendamos enfaticamente que os leitores consultem sempre outras fontes fidedignas, de modo a se certificarem de que as informações contidas neste livro estão corretas e de que não houve alterações nas dosagens recomendadas ou na legislação regulamentadora. Adicionalmente, os leitores podem buscar por possíveis atualizações da obra em http://genio.grupogen.com.br. Os autores e a editora se empenharam para citar adequadamente e dar o devido crédito a todos os detentores de direitos autorais de qualquer material utilizado neste livro, dispondose a possíveis acertos posteriores caso, inadvertida e involuntariamente, a identificação de algum deles tenha sido omitida. Direitos exclusivos para a língua portuguesa Copyright © 2014 pela LIVRARIA SANTOS EDITORA COM. IMP. LTDA. Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional Rua Dona Brígida, 701 – Vila Mariana São Paulo – SP – CEP 04111081 Tel.: (11) 50800770 www.grupogen.com.br | editorial.saude@grupogen.com.br Reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, em quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição pela Internet ou outros), sem permissão, por escrito, da EDITORA SANTOS COM. IMP. LTDA. Capa: Bruno Sales Produção digital: Geethik Ficha catalográfica M242c Cirurgia da articulação temporomandibular / Luiz Carlos Souza Manganello, Maria Eduina da Silveira, Alexandre Augusto Ferreira da Silva. 1. ed. São Paulo : Santos, 2014. 320 p. : il. ; 28 cm. Inclui bibliografia ISBN 9788527726337 1. Maloclusão. 2. Articulação temporomandibular Doenças. 3. Oclusão (Odontologia). I. Silveira, Maria Eduina da. II. Silva, Alexandre Augusto Ferreira da. III. Título. 1410469 CDD: 617.643 CDU: 616.314 Colaboradores ��������������� Graduado em Odontologia, Universidade Paulista (UNIP). Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pela UNIP. Fellowship em Cirurgia Oral e Maxilofacial, Baylor University Medical Center. Mestre em Ortodontia, Universidade Metodista de São Paulo – São Bernardo do Campo – SP. Membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial. Membro da International Association of Oral and Maxillofacial Surgeons (IAOMS). ����������������� Exresidente do Hospital Municipal do Tatuapé – São Paulo – SP. Especialista em Cirurgia Bucomaxilofacial. Mestre em Cirurgia Bucomaxilofacial, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Professor do curso de Cirurgia Ortognática realizado no Instituto de Ensino e Pesquisa em Cirurgia Bucomaxilofacial – São Paulo – SP. ������������������ Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial. Mestre em Patologia Bucal. Doutor em Diagnóstico Bucal. Assistente do Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Assistente do Serviço de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial do Hospital Regional Sul – São Paulo – SP. Assistente do Serviço de Estomatologia do Hospital A.C. Camargo – São Paulo – SP. ��������������� Doutora pela Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Especialista em Dor Orofacial e Pacientes Portadores de Necessidades Especiais. Assistente da Equipe de Dor Orofacial do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). ������������������������������������� Graduada em Fonoaudiologia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – São Paulo – SP. Fonoaudióloga Clínica: CRFa:1773/SP. Especialista em Motricidade Orofacial: CFFa 018/96. Mestre em Educação: Distúrbios da Comunicação, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – São Paulo – SP. Doutora em Ciências: Fisiopatologia Experimental, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Professora Adjunta do Programa de Pósgraduação. Mestrado em Fonoaudiologia, Universidade Veiga de Almeida. Coordenadora do Setor de Distúrbios da ATM, Cirurgia Ortognática e Traumas de Face da ClínicaEscola do Instituto CEFACSP (20002010). Professora Assistente do curso de Fonoaudiologia, Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) (20032007). Autora de livros e capítulos de livros das áreas fonoaudiológica, médica e odontológica. Autora de artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais especializados. �������������������� Mestre e Doutor em Neurologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. ������������������������� Cirurgiãdentista. Graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora – Juiz de Fora – MG. Especialista em Periodontia e Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Doutora pela Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Professora Adjunta, Universidade Federal de Juiz de Fora – Juiz de Fora – MG. �������������� Graduado em Odontologia, Faculdade de Maringá – Maringá – PR. Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Universidade Luterana do Brasil – Canoas – RS. Cirurgião Bucomaxilofacial do Hospital São Luiz. ������������������������������� Professor Titular de Traumatologia Maxilofacial, Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Mestre, Doutor e Livredocente, Universidade de São Paulo. Professor Visitante, University of Alabama at Birmingham – EUA. Fellow da International Association of Oral and Maxillofacial Surgeons. �������������������������������� Cirurgiãodentista. Coordenador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). ����������������������������� Doutor e Mestre em Diagnóstico BucalRadiologia, Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Especialista em Radiologia e Imaginologia. ������������������ Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial (CTBMF) pelo Colégio Brasileiro de CTBMF e pelo Conselho Regional de Odontologia. Mestre em CTBMF, Universidade Paulista. Fellow em Cirurgia Ortognática e Cirurgia da ATM na Baylor University Medical Center, Baylor College of Dentistry. ����������������������� Cirurgião Bucomaxilofacial. Mestre e Doutor pela Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Especialista em Articulação Temporomandibular e Dor Orofacial. Prática privada em São Paulo. �������������������� Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial. Residência em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial no Hospital de Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo com o Prof. Dr. Luiz Carlos Souza Manganello. Especialista em Anatomia Cirúrgica da Face, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. ������������������������ Especialista e Mestre em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial (CTBMF). Coordenador do Serviço de CTBMF do Centro Médico Vivalle de São José dos Campos/Hospital Vivalle (Rede D’Or – São Luiz). Coordenador do Programa de Especialização em CTBMF do InstitutoEducacional de Ciências da Saúde (IECS) (Grupo CIODONTO). ������������������������������� Cirurgiãodentista. Graduado pela Faculdade de Odontologia, Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Residência em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pelo Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial. Professor do curso de Cirurgia Ortognática realizado no Instituto de Ensino e Pesquisa em Cirurgia Bucomaxilofacial – São Paulo – SP. �������������������� Graduado em Odontologia, Universidade de Santo Amaro – São Paulo – SP. Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pela Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Odontologia (Fundecto) – Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Professor de Aperfeiçoamento de Cirurgia Oral da FundectoUSP. Professor da Especialização de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial da FundectoUSP. Professor responsável pela Liga de Cirurgia Oralmaxilofacial da Universidade de São Paulo – São Paulo – SP. Cirurgião Bucomaxilofacial do Hospital São Luiz e do Hospital Villa Lobos. ����������������������������������� Cirurgiãodentista. Residência em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial (CTBMF) pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Pósgraduado em Odontologia Hospitalar, HCFMUSP. Especialista em CTBMF pelo Conselho Federal de Odontologia. Professor do curso de Cirurgia Ortognática realizado no Instituto de Ensino e Pesquisa em Cirurgia Bucomaxilofacial – São Paulo – SP. �������������������������������� Graduada em Odontologia, Faculdade de Odontologia Júlio de Mesquita Filho, Universidade Estadual Paulista – São José dos Campos – SP. Especialização em Cirurgia Bucomaxilofacial pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Professora do curso de Cirurgia Ortognática realizado no Instituto de Ensino e Pesquisa em Cirurgia Bucomaxilofacial – São Paulo – SP. Apresentação A articulação temporomandibular é sede frequente de distúrbios. Pacientes, geralmente do sexo feminino, procuram os especialistas com queixas que vão desde um “simples” estalido até uma dor intensa que dificulta abrir a boca. Cabe ao profissional, como um verdadeiro detetive, analisar todos os dados clínicos e de imagem para estabelecer um diagnóstico preciso, que muitas vezes só é alcançado após várias etapas serem cumpridas, como anamnese detalhada, exame clínico, pesquisa de antecedentes e, finalmente, ressonância magnética para identificar a posição do disco articular. O grande dilema do profissional é diferenciar se o problema está dentro da articulação temporomandibular ou na musculatura da mastigação. É essencial essa diferenciação, pois isso indicará o primeiro passo no tratamento. Mesmo identificado se o distúrbio é intra ou extraarticular, o profissional deve avaliar sua gravidade, intensidade e seu grau. Não compactuamos com a ideia de que o tratamento cirúrgico deve ser indicado como “último recurso” no tratamento. Alguns pacientes apresentam, na primeira consulta, sinais e sintomas de degeneração grave do disco, comprovada na ressonância magnética, e têm indicação de cirurgia imediata. Esses pacientes compõem uma minoria, mas saber identificálos com precisão dentre a maioria que não apresenta indicação cirúrgica é algo que precisa ser mais bem compreendido entre cirurgiões e clínicos. Em suma, os pacientes que apresentam problemas da articulação temporomandibular estão aumentando e necessitam de um tratamento adequado e eficiente por parte do profissional, seja ele cirurgião ou clínico. O tratamento certo para o paciente é o que vai livrálo dos sintomas e devolver sua saúde articular, propiciando uma articulação livre de barulhos, sem dor e que possibilite ao paciente todas as funções, como a fala, a deglutição e a alimentação. Os autores Apresentação A articulação temporomandibular é sede frequente de distúrbios. Pacientes, geralmente do sexo feminino, procuram os especialistas com queixas que vão desde um “simples” estalido até uma dor intensa que dificulta abrir a boca. Cabe ao profissional, como um verdadeiro detetive, analisar todos os dados clínicos e de imagem para estabelecer um diagnóstico preciso, que muitas vezes só é alcançado após várias etapas serem cumpridas, como anamnese detalhada, exame clínico, pesquisa de antecedentes e, finalmente, ressonância magnética para identificar a posição do disco articular. O grande dilema do profissional é diferenciar se o problema está dentro da articulação temporomandibular ou na musculatura da mastigação. É essencial essa diferenciação, pois isso indicará o primeiro passo no tratamento. Mesmo identificado se o distúrbio é intra ou extraarticular, o profissional deve avaliar sua gravidade, intensidade e seu grau. Não compactuamos com a ideia de que o tratamento cirúrgico deve ser indicado como “último recurso” no tratamento. Alguns pacientes apresentam, na primeira consulta, sinais e sintomas de degeneração grave do disco, comprovada na ressonância magnética, e têm indicação de cirurgia imediata. Esses pacientes compõem uma minoria, mas saber identificálos com precisão dentre a maioria que não apresenta indicação cirúrgica é algo que precisa ser mais bem compreendido entre cirurgiões e clínicos. Em suma, os pacientes que apresentam problemas da articulação temporomandibular estão aumentando e necessitam de um tratamento adequado e eficiente por parte do profissional, seja ele cirurgião ou clínico. O tratamento certo para o paciente é o que vai livrálo dos sintomas e devolver sua saúde articular, propiciando uma articulação livre de barulhos, sem dor e que possibilite ao paciente todas as funções, como a fala, a deglutição e a alimentação. Os autores Prefácio Embora a intervenção cirúrgica apenas seja indicada para cerca de 5% dos pacientes que apresentam distúrbios temporomandibulares, há um grupo de condições que envolvem a articulação temporomandibular (ATM) para o qual a cirurgia é o tratamento de escolha. No entanto, como esses distúrbios e doenças não são as principais condições encontradas, a maioria dos livros dedica apenas uma pequena quantidade do conteúdo para o seu diagnóstico e tratamento. Por essa razão, é gratificante ver um texto inteiramente dedicado aos vários aspectos desse importante assunto ainda negligenciado. O Dr. Luiz Manganello deve ser parabenizado por realizar tal tarefa. Como base para o entendimento do manejo das diferentes condições, o livro inicia com capítulos sobre anatomia cirúrgica e diagnóstico por imagem. Em seguida, descreve várias abordagens cirúrgicas para a ATM, bem como técnicas de artrocentese e artroscopia. Os capítulos seguintes são dedicados ao diagnóstico e manejo das cinco principais condições cirurgicamente tratáveis que afetam a ATM – desarranjos internos, distúrbios de crescimento e de desenvolvimento congênitos, tumores e doenças inflamatórias. Uma vez que a reconstrução da ATM também pode estar envolvida no manejo da maioria dessas condições, um capítulo específico é dedicado a esse assunto. Finalmente, como a fisioterapia pósoperatória adequada é essencial para garantir o sucesso da cirurgia, um capítulo também é dedicado a esse importante assunto. Embora não haja dúvida de que os cirurgiões bucomaxilofaciais estarão interessados nas informações fornecidas neste livro, ele também deveser de interesse para outros especialistas da odontologia e da medicina, que também podem estar envolvidos com alguns aspectos desse manejo do paciente. Além disso, quem está preocupado com o tratamento não cirúrgico de pacientes com distúrbios temporomandibulares também deve se beneficiar da leitura deste livro. Não só por ganhar um entendimento do diagnóstico dessas condições, mas também por estar mais bem informado sobre como elas podem ser gerenciadas. Daniel M. Laskin, DDS, MS Professor e Presidente Emérito Departamento de Cirurgia Oral e Maxilofacial Escolas de Odontologia e Medicina Virginia Commonwealth University Richmond, Virginia, EUA É com grande prazer que escrevo o prefácio de Cirurgia da Articulação Temporomandibular. Nos últimos 30 anos, houve uma evolução no manejo das condições da articulação temporomandibular (ATM), o que, em parte, se deve à evolução na imagem da radiografia bidimensional plana e aos avanços iniciais nos artrogramas, que tornaram possível o exame visual da anatomia intraarticular. Em seguida, a inclusão da ressonância magnética possibilitou um exame de animação do côndilo mandibular, para saber como ele funciona com o disco, acompanhada da tomografia computadorizada tridimensional, a fim de reunir ainda mais informações sobre a relação existente entre o tecido mole e o duro dentro da ATM. Com o conhecimento adquirido pela melhoria dos exames de imagem, os cirurgiões podem entender melhor a anatomia e os problemas associados à disfunção da ATM, e assim são capazes de definir melhor o tratamento. No início dos anos 1990, quando visitei São Paulo, no Brasil, como professor visitante e convidado do Dr. Luiz Manganello, nós introduzimos no país o tratamento de desarranjo interno da ATM, utilizando a redução completa do disco deslocado para sua posição correta dentro da fossa glenoide e prendendo o disco à cabeça da mandíbula para manter essa posição durante a função. Isso tornou possível a mobilidade condilar indolor e a reparação do disco com previsíveis resultados a longo prazo. Finalmente, temos também um tratamento previsível para distúrbio grave e avançado da ATM por osteoartrite, artrite reumatoide e anquilose, bem como dor e disfunção associadas. Sofisticados produtos de substituição total da ATM personalizados e não personalizados estão disponíveis quando há a necessidade, devido ao distúrbio avançado da ATM. Olhar ao longo dos últimos 30 anos de tratamento cirúrgico da ATM possibilita à nossa especialidade, finalmente, ter um tratamento previsível e transparente para o distúrbio da ATM, bem como para sua dor e disfunção, que anteriormente não foi bemsucedido em muitos casos. Por meio de avanços nas imagens, para um diagnóstico mais preciso, os cirurgiões já podem determinar as melhores opções de tratamento disponíveis. “Se alguém está indo pelo caminho errado, ele não precisa de motivação para percorrêlo. O que ele precisa é de educação para retornar.” Douglas P. Sinn, DDS Professor e último Presidente UT Southwestern OMS Parkland Hospital Dallas, TX Sumário Capítulo 1 | Anatomia da Articulação Temporomandibular Onescy Silveira Dias Capítulo 2 | Aspectos Imaginológicos da Articulação Temporomandibular Marcelo Eduardo Pereira Dutra Capítulo 3 | Dores Faciais Getúlio Daré Rabello Capítulo 4 | Tratamento Clínico da Disfunção da Articulação Temporomandibular José Tadeu Tesseroli de Siqueira Capítulo 5 | Artroscopia da Articulação Temporomandibular Paulo Alexandre da Silva Capítulo 6 | Artrocentese da Articulação Temporomandibular Nicolas Tenorio Cabezas Capítulo 7 | Acessos Cirúrgicos para Articulação Temporomandibular Alexandre Augusto Ferreira da Silva, Luiz Carlos Souza Manganello, Romualdo Cardoso Monteiro de Barros, Maria Eduina da Silveira Capítulo 8 | Cirurgia dos Desarranjos Internos da Articulação Temporomandibular Luiz Carlos Souza Manganello, Alexandre Augusto Ferreira da Silva, Maria Eduina da Silveira, Anderson Shigeoka Capítulo 9 | Luxação do Côndilo Mandibular João Gualberto de Cerqueira Luz, Luiz Carlos Souza Manganello Capítulo 10 | Anquilose da Articulação Temporomandibular Maria Eduina da Silveira, Roberto Gil de Alcântara Mallet, Alexandre Augusto Ferreira da Silva, Luiz Carlos Souza Manganello Capítulo 11 | Hiperplasia do Côndilo Mandibular Luiz Carlos Souza Manganello, Alexandre Augusto Ferreira da Silva, Maria Eduina da Silveira, Anderson Shigeoka Capítulo 12 | Malformações Congênitas Faciais que Envolvem a Articulação Temporomandibular Maria Eduina da Silveira, Tamara Nishijima Pupo Massagardi, Luiz Carlos Souza Manganello, Alexandre Augusto Ferreira da Silva Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Capítulo 13 | Reabsorção | Remodelação Condilar da Articulação Temporomandibular Marcos César Pitta, Gustavo Scalon, Roberto Piteri Filho, Aluisio Galiano Capítulo 14 | Doenças Inflamatórias e Degenerativas da Articulação Temporomandibular | Artrite Reumatoide e Artrite Idiopática Juvenil Cynthia Savioli, Gisele Maria Campos Fabri, José Tadeu Tesseroli de Siqueira Capítulo 15 | Tumores e Pseudotumores da Articulação Temporomandibular André Caroli Rocha Capítulo 16 | Reconstrução da Articulação Temporomandibular Luiz Carlos Souza Manganello, Roberto Gil de Alcântara Mallet, Maria Eduina da Silveira, Alexandre Augusto Ferreira da Silva Capítulo 17 | Fonoterapia Relacionada com a Articulação Temporomandibular em Casos Cirúrgicos e Não Cirúrgicos Esther Mandelbaum Gonçalves Bianchini Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ ■ ■ ▶ ▶ Introdução Desenvolvimento da articulação temporomandibular Anatomia da articulação temporomandibular Inervação e vascularização da articulação temporomandibular Agradecimentos Onescy Silveira Dias Introdução A articulação temporomandibular (ATM) é a mais complexa do corpo humano, visto a relação direta e indireta com várias estruturas a ela relacionadas que influenciam o seu desenvolvimento e a sua função. Essa articulação situase entre a cabeça da mandíbula, a fossa mandibular e a eminência articular do osso temporal, intermediada por um disco fibrocartilaginoso denominado “disco articular” (Figura 1.1). É uma articulação sinovial que, como tal, tem componentes intra e extraarticulares, como ligamentos, cápsula, membrana sinovial, disco articular, cartilagem articular revestindo as superfícies ósseas articulares e líquido sinovial (sinóvia). Devido aos movimentos relacionados com a sua função, a ATM é classificada como articulação gínglimo biartrodial, o que nos dá a ideia da sua amplitude de movimento e capacidade de suportar a pressão que incide sobre ela durante a apreensão do alimento e a mastigação. Desenvolvimento da articulação temporomandibular Ao contrário dos ossos longos do corpo humano que, inicialmente, se formam em cartilagem e, depois, ossificam por mecanismos endocondrais, a mandíbula servese dos dois processos (endocondral e intramembranoso), com Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ênfase maior sobre a ossificação intramembranosa da cartilagem secundária. Segundo alguns autores, a cartilagem de Meckel serve como sustentação para o desenvolvimento intramembranoso da mandíbula, mas não contribui diretamente para sua formação e seu crescimento. Essa cartilagem funciona como suporte do 1o arco branquial, até se transformar nos ossículos da orelha e no ligamento esfenomandibular. Pesquisas mostram que vários são os fatores sistêmicos que influenciam o crescimento e a adaptação da mandíbula, bem comodos outros ossos. Hormônio do crescimento, deficiências alimentares e de ácido ascórbico, tratamento com corticosteroides e efeito do ambiente uterino são alguns exemplos citados por determinados autores. As figuras 1.2 e 1.3 apresentam o desenvolvimento da ATM. Para que se possa entender as diferentes doenças e deformidades que ocorrem na mandíbula e afetam o desenvolvimento da ATM, estas serão estudadas a partir da embriologia e do desenvolvimento da criança, seguindo até a fase adulta. Embriologia da articulação temporomandibular Os eventos morfogenéticos importantes no desenvolvimento da ATM ocorrem da 6a até a 20a semana embrionária. O período crítico para o surgimento de alterações que podem originar malformações na ATM é indicado de maneira diversa por vários autores, porém varia da 7a até a 12a semana. As células mesenquimais diferenciamse em vários tipos celulares, os quais servem como precursores para a cartilagem de Meckel e outros tecidos da mandíbula. A mandíbula se desenvolve a partir do 1o arco branquial, e a cartilagem desse arco – cartilagem de Meckel – está relacionada, na extremidade anterior, com o desenvolvimento da região mentual. Na metade do terço anterior da cartilagem de Meckel, o nervo mandibular (nervo do 1o arco branquial) dividese em ramos lingual e alveolar inferior. Anteriormente, na parte lateral da cartilagem de Meckel, o nervo alveolar inferior dividese em ramos incisivo e mentual. Figura 1.1 Articulação temporomandibular – vista lateral. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 1.2 Anatomia da mandíbula. Quando o embrião alcança a 6a semana, um modelo primário de mandíbula aparece em forma de condensação bilateral do mesênquima, lateralmente ao nervo alveolar inferior e seu ramo incisivo. A ossificação intramembranosa que ocorre no mesênquima se expande e forma o corpo e o ramo da mandíbula. Essa ossificação tem, inicialmente, a forma de um bastão, que engloba os nervos alveolar inferior e incisivo em seu interior, e superiormente toma a forma de criptas, para abrigar os germes dos dentes em desenvolvimento. A região entre o forame mentual e a sínfise mandibular se forma a partir de uma pequena porção da cartilagem de Meckel, local esse de ossificação endocondral. Verificase, portanto, que a maior parte da cartilagem de Meckel não está envolvida na formação da mandíbula, porém serve como suporte para a formação intramembranosa desta. A porção média da cartilagem de Meckel se degenera, já sua parte posterior dá origem aos ossículos da orelha média: martelo e bigorna. A cabeça da mandíbula se desenvolve separadamente. Por volta da 8a semana, um blastema endocondral desenvolvese dorsalmente à ossificação intramembranosa da mandíbula. Nessa fase, o osso tem a forma de um bastão e, depois, a de um túnel (Figura 1.3). Próximo à parte côncava da cabeça está a cartilagem condilar, que segue em direção inferior ao ramo da mandíbula. Inicialmente, a cartilagem tem o formato de um cone, depois de um cogumelo, e contribui para o crescimento, em altura, do ramo da mandíbula. Em torno da 10a semana, já se apresentam alguns vasos sanguíneos em volta da articulação, inclusive alguns em redor do disco, mas não o invadem. Os vasos sanguíneos invadem a cartilagem de fora para dentro na 16a semana. Segundo alguns autores, a direção de entrada desses vasos na cartilagem pode estar associada à do crescimento da cabeça da mandíbula (Figura 1.3). Na 20a semana, as terminações nervosas, ramos dos nervos auriculotemporal e trigêmeo, intimamente relacionados com o disco, se retraem drasticamente, definindo que, na fase pósnatal, ele será avascular, e não mais inervado. Aos poucos, a cartilagem primária é substituída por osso, deixando uma área de proliferação de cartilagem hialina abaixo da superfície articular fibrosa do côndilo, que persiste até a terceira década de vida. Até a 16a semana, a apófise coronoide não está desenvolvida, quando então a ossificação se inicia acompanhando o nervo mandibular em direção ao músculo temporal. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce O início de crescimento da cartilagem do processo condilar aparece na 12a semana de vida fetal. Antes disso, são visíveis os primeiros sinais de desenvolvimento de um disco articular, sendo a eminência temporal a última parte a se desenvolver, visto que a parte temporal dessa articulação é achatada ao nascimento e leva alguns anos para aparentar sua morfologia definitiva. Da 19a à 20a semana, o disco já apresenta sua estrutura de fibrocartilagem definida. Figura 1.3 Corte sagital mostrando uma das fases do desenvolvimento ósseo da cabeça da mandíbula de fetos humanos durante a primeira metade do período prénatal. O desenvolvimento da forma primária da fossa mandibular se dá entre a 7a e a 8a semana, inicialmente como um espessamento mesenquimal, que depois se diferenciará como disco e cápsula. Sua ossificação, assim como a da eminência articular, ocorre entre a 10a e a 11a semana, sendo esta mais rápida na fossa que na cabeça da mandíbula. Entre a 9a e a 11a semana, é possível distinguir a cápsula articular, que aparenta uma fina listra em torno do que será a articulação. Na 17a semana, já se pode diferenciar claramente a cápsula e, depois da 26a semana, ela já tem todas as suas partes celulares e sinoviais definidas. ▶ • – ■ ■ ■ – – – • – – – – ■ Os compartimentos superior e inferior surgem entre a 10a e a 12a semana (50 a 70 mm de comprimento cabeça cóccix [CCC]) e formamse a partir de pequenos e finos espessamentos mesenquimais, dos quais vieram a se desenvolver o côndilo, o disco e a fossa mandibular. Quando o embrião chega a aproximadamente 53 mm de CCC, podemse observar os processos coronoide e condilar, e a forma bicôncava do disco articular aparece aos 83 mm de CCC. Nessa fase, algumas fibras do músculo pterigóideo lateral já se relacionam com o disco e o processo condilar. Aos 95 mm de CCC, todas as estruturas da ATM estão definidas, e, a partir daí, ocorre somente o aumento em tamanho. As superfícies articulares das articulações sinoviais estão geralmente revestidas de cartilagem hialina. A ATM é uma exceção, pois suas superfícies articulares são revestidas de tecido conjuntivo denso avascular, sendo o suprimento sanguíneo limitado às estruturas da periferia que não recebem carga direta articular. Cabe à membrana sinovial (parte interna da cápsula) receber o sangue e filtrálo, transformandoo em líquido sinovial. As funções dessa membrana serão nutrir os componentes intraarticulares, absorver os impactos e lubrificar a ATM, possibilitando os movimentos deslizantes e minimizando os atritos. Não há cartilagem hialina na articulação completamente desenvolvida, mas ela é um importante centro de crescimento da cabeça da mandíbula (côndilo) até os 21 anos de idade. Anatomia da articulação temporomandibular Como toda articulação sinovial, a ATM tem componentes intra e extraarticulares (Figura 1.1): Componentes intraarticulares Superfícies articulares Cabeça da mandíbula Fossa articular Eminência articular. Disco articular Membrana sinovial – parte membranosa da cápsula articular Líquido sinovial (sinóvia). Componentes extraarticulares Cápsula articular – parte fibrosa Ligamento lateral (temporomandibular) Ligamento esfenomandibular Ligamento estilomandibular. A seguir, serão descritos os elementos que compõem essa articulação, divididos didaticamente conforme citado anteriormente. Componentes intra-articulares Superfícies articulares Estão representadas por cabeça da mandíbula, fossa mandibular e eminênciaarticular do osso temporal (Figuras 1.1, 1.2 e 1.4 a 1.11). Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 1.4 Relação do disco articular com a articulação temporomandibular. Figura 1.5 A. e B. Relação da articulação temporomandibular e estruturas anatômicas vizinhas. Figura 1.6 Mandíbula – vista lateral. Figura 1.7 Mandíbula – vista medial. Figura 1.8 Mandíbula – vista superomedial. Figura 1.9 Músculos mastigatórios – vista lateral. Figura 1.10 Aspectos anatômicocirúrgicos. Figura 1.11 A. e B. Aspectos anatômicocirúrgicos. ������������������� Até recentemente, essas duas saliências elipsoides, situadas nos ângulos posterossuperiores dos ramos da mandíbula, eram chamadas “côndilo mandibular”. Ainda hoje, em algumas descrições, tornase mais harmonioso manter o nome “côndilo”, ou mesmo quando este complementa uma descrição, tal como “processo condilar”. Sua aparência elipsoide devese ao fato de seu comprimento transversal exceder o anteroposterior. A parte mais estreita abaixo da parte elipsoide é denominada “colo do côndilo”. Abaixo dele está o processo condilar, que é a borda posterior da incisura da mandíbula. A cabeça da mandíbula é a parte que se articula com o crânio. A partir dela, temse uma articulação sinovial. Oblonga ou ovoide, em uma vista frontal, ela apresenta dois polos (medial e lateral), de acordo com a imagem que se vê nessa posição. A extensão mediolateral total da cabeça da mandíbula é de 15 a 20 mm; a dimensão Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce anteroposterior, 8 a 10 mm. A cortical óssea condilar é bem fina, prevalecendo sua parte interna escamosa, sendo a área articular da cabeça da mandíbula maior na parte posterior que na parte anterior. �������������������������������������� Representam as partes do osso temporal que participam da articulação com a cabeça da mandíbula. A fossa mandibular é uma depressão de profundidade variável, que, em sentido anteroposterior, se estende desde a eminência articular até o segmento anterior do meato acústico externo e, em sentido transversal, desde a base do arco zigomático até a espinha do esfenoide. Portanto, ela é côncava nos sentidos anteroposterior e mediolateral. A parte posterior do teto dessa cavidade é bem fina, indicando que essa região não é apropriada para receber grandes cargas ou impactos. Nessa região, há a fissura escamotimpânica, que, à medida que se estende no sentido medial, dividese em fissuras petroescamosa e petrotimpânica. A eminência articular, por sua vez, consiste em um osso espesso e denso, sendo, portanto, mais resistente às forças pesadas. Não obstante achados radiográficos identificarem eminências pneumatizadas em alguns casos, essa situação é exceção à regra. A eminência é a última porção da ATM a se desenvolver e tomar forma, haja vista a morfologia achatada da região temporal da ATM ao nascimento e sua progressiva modelagem depois dele. Ela é um relevo situado anteriormente à fossa mandibular, que se estende desde a sua parte lateral na raiz do arco zigomático, dirigindose à base do crânio na junção esfenotemporoccipital. A profundidade da sua convexidade é bem variável, porém importante, pois sua inclinação determina a trajetória da cabeça da mandíbula durante o movimento de abertura da boca. Esses dois componentes são cobertos por um tecido cartilaginoso, apropriado para resistir aos impactos e aos deslocamentos produzidos durante os movimentos. Esse tecido cartilaginoso tem a função de amortizar as pressões e distribuílas sobre as superfícies ósseas articulares, e sua nutrição é realizada por embebição, favorecida pelos movimentos ativos. ��������������� O disco articular é uma peça fibrocartilaginosa, orientada em plano oblíquo no sentido anteroinferior. Ele pode ser comparado a uma lente bicôncava, tendo em vista que as faces articulares (cabeça da mandíbula e eminência articular) são convexas e, portanto, adequadas para desempenhar a atividade funcional a que estão destinadas (Figuras 1.1, 1.4, 1.11 e 1.12). Alguns autores afirmam que o disco tem firmes inserções laterais e posteriores com a cabeça da mandíbula, e sua porção anterior ultrapassa o tubérculo articular do osso temporal. Pelo lado medial, o disco articular se fusiona com fibras do músculo pterigóideo lateral e se funde com a cápsula nas extremidades medial e lateral. Com as inserções da cápsula articular, os ligamentos discais mediais e laterais que prendem o disco nos polos mediais e laterais da cabeça da mandíbula, respectivamente, constituem parte das paredes que delimitam os compartimentos superior e inferior. Esses ligamentos são inervados, e essa inervação fornece informações sobre a posição da articulação e o movimento. Salvo as partes que constituem as bordas, o disco não tem vasos nem inervação, exceto uma pequena área na periferia, em que a presença de nervos é bem escassa. O disco dividese em três bandas (regiões): anterior, com 2 mm de espessura; posterior, com 3 mm de espessura; e central, que é a mais fina, com aproximadamente 1 mm de espessura. A zona bilaminar apresentase atrás do disco articular, assim chamada porque se divide em duas partes: lâmina superior e lâmina inferior. Essa região é composta de tecido conjuntivo frouxo, rico em inervação e vascularização. Os vasos presentes nessa região suprem a membrana sinovial, para que ela possa dialisar o plasma sanguíneo, produzindo o líquido sinovial. As lâminas superior e inferior têm fibras elásticas e colágenas, porém a superior é formada basicamente por fibras elásticas, com poucas fibras colágenas e tecido adiposo, ao passo que a inferior tem pouquíssimas fibras elásticas e grande quantidade de fibras colágenas. Por sua composição vasculonervosa, a zona bilaminar se torna muito dolorida em casos de doenças que possam levar a sua compressão; por exemplo, na subluxação posterior do disco. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ O disco articular e a cabeça da mandíbula (côndilo) formam uma unidade anatômicofuncional, que mantém suas relações com a superfície temporal à custa de ligamentos e músculos que impedem a luxação em sentido vertical. A região central do disco articular, desprovida de vasos, suporta as pressões mais elevadas, evidenciadas durante a mordida e a mastigação. Membrana e líquido sinovial Composta de células endoteliais especializadas, essa membrana representa a parte interna da cápsula articular, estendendose pelos compartimentos superior e inferior da ATM (Figuras 1.4, 1.8, 1.11 e 1.12). Figura 1.12 Anatomia da articulação temporomandibular. Seu aspecto macroscópico é brilhante, tendo como principal função, com a membrana sinovial, localizada na margem anterior dos tecidos retrodiscais, a filtragem do plasma sanguíneo para transformálo em um líquido viscoso chamado líquido sinovial ou sinóvia. A sinóvia é um importante meio de lubrificação que atenua a fricção das superfícies articulares, especialmente ao começar e finalizar cada movimento. Além dessa importante função, o líquido sinovial nutre as estruturas intraarticulares, uma vez que estas são avasculares, possibilitando uma rápida e eficiente troca metabólica entre os vasos da cápsula, o fluido sinovial e os tecidos articulares. Além de dialisar o plasma sanguíneo, as células da membranasinovial têm certa atividade secretora. Essa secreção é composta de proteoglicanas ricas em ácido hialurônico. Componentes extra-articulares Cápsula articular e ligamentos ���������� Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Os ligamentos articulares da ATM são compostos de tecido conjuntivo e não são capazes de sofrer estiramento sem rompimento de fibras. Desempenham papel importante na limitação dos movimentos, agindo passivamente. Os principais ligamentos da ATM são: capsular (cápsula), colateral e temporomandibular. O ligamento colateral já foi descrito com o disco articular, sendo também chamado ligamento discal. Esses ligamentos, incluindo os acessórios esfenomandibular e estilomandibular, serão descritos a seguir (Figuras 1.1, 1.11 e 1.13). ����������������� É uma estrutura que contorna toda a articulação, vedandoa hermeticamente e impedindo a saída do líquido sinovial. A cápsula apresenta, em suas partes, diferenças teciduais, de acordo com a necessidade. Nas partes anterior e posterior, a cápsula é composta de tecido conjuntivo frouxo. Seu espessamento lateral é comumente classificado como um ligamento separado, chamado ligamento temporomandibular. Internamente, é revestida pela membrana sinovial, responsável pela dialisação do plasma sanguíneo, transformandoo em líquido sinovial. A cápsula articular é um ligamento de notável lassidão que se adere ao disco em suas porções anterior e lateral. Já sua face posterior é menos aderente e se confunde com uma esponja de tecido conjuntivo frouxo, retrodiscal, ricamente inervado e vascularizado. Ela se insere nas margens ósseas das bordas da fossa mandibular, da eminência articular e das superfícies ósseas articulares da cabeça da mandíbula. Suas inserções possibilitam, com a posição do disco, delimitar os compartimentos superior e inferior e os espaços existentes entre o disco e a cavidade articular e entre o disco e a cabeça da mandíbula, respectivamente. Não obstante, os compartimentos não se comunicam, o que quer dizer que o líquido sinovial do compartimento superior não se comunica com o do inferior. Figura 1.13 Aspectos anatômicocirúrgicos. A cápsula articular trabalha no sentido de resistir às forças que agem no sentido medial, lateral ou inferior que poderiam levar a uma separação das estruturas articulares. A cápsula não impede os movimentos da cabeça da mandíbula. ��������������������������� É uma faixa de tecido fibroso que se encontra lateralmente à cápsula articular e se insere superiormente na eminência articular (extremo lateral), no arco zigomático, até o colo da mandíbula lateralmente, e desde a eminência articular até a extremidade medial da cabeça da mandíbula. Ele se divide em duas partes: uma externa (lateral), com fibras oblíquas, e outra interna (medial), com fibras quase horizontais, cujos trajetos já foram descritos anteriormente. Alguns autores acreditam que esse ligamento limita os movimentos de lateralidade da cabeça da mandíbula e o movimento posterior do disco e da cabeça da mandíbula durante o movimento de abertura da boca. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ■ ��������������������� São os ligamentos esfenomandibular e estilomandibular. O ligamento esfenomandibular tem origem na espinha do esfenoide e se insere na espinha da mandíbula. O ligamento estilomandibular originase do processo estiloide e inserese na face interna do ângulo da mandíbula, posteriormente ao ligamento esfenomandibular. Alguns anatomistas não veem utilidade para esses ligamentos que não no sentido global da articulação, limitandose apenas a descrevêlos como sendo o ligamento esfenomandibular um artifício de dissecação da faixa interpterigóidea e o estilomandibular, um resíduo fibroso de um fascículo muscular. Há autores que descrevem o ligamento estilomandibular rígido no movimento de protrusão mandibular, o que os fez concluir que esse ligamento também limita a protrusão excessiva da mandíbula. ������������������ Esse ligamento é inconstante, por isso não foi citado na relação de ligamentos acessórios. É representado por fibras elásticas mal diferenciadas que ligam, por intermédio da fissura petrotimpânica, a borda posterior do disco ao osso martelo na orelha média. Segundo alguns autores, nos casos de deslocamento anterior do disco, em pacientes que têm esse ligamento, ele é responsável pela interferência da movimentação normal dos ossículos da orelha, levando à sensação de orelha tampada ou cheia e à diminuição da acuidade auditiva. Inervação e vascularização da articulação temporomandibular Vascularização Vários vasos são responsáveis pela irrigação sanguínea da ATM, distribuindose da seguinte maneira: posteriormente pela artéria temporal superficial, anteriormente pela artéria meníngea média e inferiormente pela artéria maxilar. Nas partes mediais e mais profundas, a ATM recebe sangue pelas artérias auricular profunda, timpânica anterior e faríngea ascendente. A cabeça da mandíbula é irrigada por vasos menores (nutrícios), que entram diretamente na cabeça, e pela artéria alveolar inferior (Figuras 1.1 e 1.13 a 1.16). Figura 1.14 Nervo facial. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ▶ Inervação A ATM recebe inervação do V par de nervo craniano: trigêmeo. Ramos do nervo mandibular fornecem inervação aferente, porém a maior parte da inervação advém do nervo auriculotemporal, após ele sair do nervo mandibular, seguindo no sentido laterossuperior em direção aos tecidos retrodiscais da ATM. A cápsula e os ligamentos são tecidos muito ricos em fibras nervosas, especialmente de origem simpática (Figuras 1.1, 1.15 e 1.16). Figura 1.15 Artérias e veias da face e anexos. Figura 1.16 Nervo trigêmeo e anexos. Agradecimentos Agradeço ao técnico em anatomia humana, Sr. Pedro Magela, a preciosa colaboração no trabalho realizado nas peças anatômicas, e ao designer gráfico, Daniel Campos, a estilização dos desenhos deste capítulo. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ Bibliogra䊼�a BAUME, L. J. Ontogenesis of the human temporomandibular joint. 1. Development of the condyles. 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No âmbito odontológico, a ATM demanda considerações de interesse específico, em decorrência de inúmeros fatores vinculados à anatomia detalhada, com ênfase aos discos articulares, às cápsulas articulares, à musculatura mastigatória e aos componentes ósseos.13 Considerada uma das mais complexas articulações que compõem o sistema musculoesquelético, a ATM tem as atribuições de movimentação multidirecionais do complexo estomatognático. Por causa da bilateralidade, ocorre interdependência de um lado em relação ao outro, principalmente quanto aos componentes esquelético, muscular, vascular, nervoso e mastigatório. Além desses aspectos, a confinação representada por uma cápsula fibrosa articular e também pela cavidade no osso temporal, representada pela fossa mandibular, impõe dificuldade de acesso e abordagem clínica, tornando os exames imaginológicos de grande importância para a investigação anatomopatológica regional.1,3,4 Classificada como uma das mais diferenciadas articulações sinoviais do corpo humano, a ATM tem constituição denominada bicondilar, pois as cabeças mandibulares se articulam de maneira independente com suas respectivas fossas mandibulares e eminências articulares temporais.2,46 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ■ ■ Notoriamente, a ação mastigatória e o trabalho dos movimentos mandibulares de translação e rotação das cabeças em relação aos discos articulares e às vertentes das eminências temporais determinam a importante participação de músculos mastigatórios (pterigóideos laterais e mediais, masseteres e temporais, entre os de ação efetiva), com ação direta ou indireta, os quais podem, assim como as demais estruturas, agir fisiologicamente dentro dos padrões ou como precursores de hábitos não funcionais.24 Aspectos anatômicos da articulação temporomandibular para diagnóstico por imagem Cabeças mandibulares – Côndilos O desenvolvimento do côndilo e do restante da mandíbula ocorre separadamente. Por volta da 8a semana de vida intrauterina, observase uma condensação ectomesenquimal na região posterior da mandíbula em fase de formação, na qual é originada uma cartilagem hialina com a morfologia arredondada, a qual definirá o côndilo por aposição celular. Concomitantemente, o osso temporal, a fossa mandibular e o tubérculo articular sofrem aposição de células de crescimento para ossificação intramembranosa. Nas adjacências desses núcleos, organizamse células mioblásticas que determinam o início dos diferentes músculos mastigatórios, com particular ênfase ao pterigóideo lateral nas imediações da porção anterior do côndilo.4,6 Por volta da 14a semana de vida intrauterina, iniciase o processo de ossificação endocondral na cartilagem do côndilo; entre a 18a e a 20a semana, são verificados os contornos da fossa mandibular e do tubérculo articular do osso temporal, aparecendo, em seguida, a membrana sinovial. Nesse ponto são verificados os movimentos mandibulares iniciais por atividade muscular, proporcionando o modelamento das estruturas.24 A morfodiferenciação mostra uma estrutura elíptica, constrita no segmento anterior, podendo ainda a vertente superior ter aspecto achatado ou até mesmo convexo. Os polos lateral e medial têm morfologia arredondada, os quais formam transversalmente uma crista que corresponde àquela que delimita a fossa pterigóidea. Entretanto, variações anatômicas ocorrem com frequência, dificultando sobremaneira a interpretação das imagens locais.3,4,7 Disco articular Outra estrutura é o disco articular, que não é envolvido pela membrana sinovial, sendo composto por fibrocartilagem. Dispõese para interpor as superfícies ósseas articulares. Por causa de seu posicionamento na articulação propriamente dita, o disco articular estabelece duas cavidades, supra e infradiscal, e dois segmentos, anterior e posterior. O primeiro vinculase à parte funcional da articulação, tem morfologia do tipo sela e três porções distintas ou bandas: anterior (2 mm de espessura); central (1 mm de espessura); e posterior (3 mm de espessura).1,7 Essas bandas são constituídas por tecido conjuntivo denso, avascular e muito semelhante ao tecido que reveste o côndilo e a cavidade articular do osso temporal. A parte posterior tem constituição menos densa, mas também avascular. O disco fundese com a cápsula articular nas extremidades medial e lateral, as quais, conjuntamente, agregamse ao côndilo.8 A extremidade anterior do disco dividese em duas lâminas (superior e inferior) que se inserem, respectivamente, na borda do tubérculo articular temporal e no processo condilar. A porção posterior do disco é mais espessa, na qual se verifica o contato com uma região vascularizada e inervada denominada zona bilaminar ou retrodiscal por apresentar dois feixes: o mais inferior, que se insere no colo do processo condilar, fundindose com a cápsula articular; e o superior e mais espesso, que se une com a cápsula, inserindose nas fissuras escamotimpânica e petroescamosa do osso temporal. Assim, a forma oval e bicôncava é a configuração mais evidente dos discos articulares.18 Algumas classificações caracterizam o formato dos discos por meio de exames de ressonância magnética, como bicôncavos (superfícies superiores e inferiores côncavas entre si), biplanares (alongamento das superfícies Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ superiores e inferiores), hemiconvexos (superfícies superiores côncavas e superfícies inferiores convexas), biconvexos (ambas as superfícies convexas entresi) e dobrados (superfícies dobradas entre si em direção ao centro do disco). Essas morfologias são vinculadas com padrões de normalidade, bem como nos eventos de artropatias com deslocamentos dos discos.9 Sua presença determina a divisão dos espaços articulares em superior e inferior, sendo o primeiro mais largo (sentido anteroposterior) e o outro, dividido em segmentos anterior e posterior recessos do côndilo.7,8 Dinamicamente, o espaço inferior ocupa as adjacências do côndilo e determina a rotação deste nas superfícies inferiores do disco no início do movimento de abertura bucal; o espaço superior possibilita a translação condilar na abertura máxima da boca e o consequente acompanhamento do disco durante a movimentação. Portanto, em razão da cápsula articular ser identificada pela presença de tecido mole e frouxo e ser revestida pela membrana sinovial, os movimentos aleatórios do disco são possíveis mesmo com a verificação de inserções de fibras musculares em algumas regiões dessa cápsula. Cápsula articular A presença da cápsula articular também identifica esse tipo de articulação, apresentando revestimento pela membrana sinovial, estendendose sobre todas as superfícies intraarticulares, com exceção daquelas envolvidas na compressão durante as atividades articulares. Assim, a ATM é uma articulação do tipo sinovial, dada a existência da cápsula articular e da membrana sinovial que delimitam os espaços articulares. As superfícies ósseas presentes são revestidas pela cartilagem articular, que é nutrida pelo líquido sinovial fabricado pela membrana sinovial. A cartilagem articular é um fino estrato de cartilagem hialina ou, raramente, de fibrocartilagem, sendo que o contato entre as superfícies é de baixo atrito, graças ao viscoso fluido sinovial que age como lubrificante e também como elo de nutrição da porção celular das cartilagens.710 Essa cápsula é o envoltório fibroso que se estende pelas bordas da fossa mandibular, incluindo os segmentos anteriores do tubérculo articular, envolvendo a cabeça mandibular e antecipando sua fusão inferior com o periósteo do processo condilar da mandíbula. Ela delimita a cavidade articular, dividindoa em duas porções interpostas pelo disco articular, que, por sua vez, se adere à cápsula, com exceção da parte posterior. Entretanto, a cápsula pode ou não ser completa anteriormente, tendo em vista que as relações com as bordas anteriores do disco e a banda superior do músculo pterigóideo lateral não se apresentam totalmente definidas.10 A delimitação dos segmentos capsulares é identificada em imagens de ressonância magnética, particularmente no plano coronal ou parcialmente nos espaços articulares superior e inferior, quando empregado o meio de contraste nas artrografias. A membrana sinovial que reveste a cápsula internamente exibe pequenas vilosidades, as quais têm a responsabilidade de possibilitar a movimentação capsular, além de produzir líquido sinovial por meio do plasma sanguíneo, pelo suprimento vascular oriundo do ramo auricular profundo da artéria maxilar interna, sendo o plexo pterigóideo responsável pelo retorno venoso com maior evidência volumétrica na cápsula e na região bilaminar.10 Nos exames imagéticos, as estruturas anatômicas da ATM com embriologia oriunda de vetores que formam tecidos moles e as possíveis alterações degenerativas neles existentes, como nos derrames articulares (capsulites/sinovites/efusões), são devidamente identificadas por meio de imagens de ressonância magnética orientadas por meio de protocolos específicos. Eminências temporais (tubérculos articulares) e fossas mandibulares (glenoides) As eminências temporais são protuberâncias ósseas mais espessas em comparação às fossas mandibulares, de formato arredondado, e podem variar em função do tempo ou da idade do paciente, assim como em função de incidências de forças parafuncionais. Suas vertentes são parcialmente revestidas com tecido fibroso denso que possibilita a ação de forças mastigatórias; entretanto, também podem sofrer remodelações ou erosões em função de degenerações articulares. O segmento mais lateral é denominado tubérculo, no qual são inseridos ligamentos.16 As medulares ósseas e corticais são definidas em radiografias convencionais, porém as alterações incipientes são mais bem identificadas em protocolos de tomografia computadorizada. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ▶ As fossas mandibulares são depressões ósseas nas porções inferiores do segmento escamoso temporal, limitadas anteriormente pelas eminências temporais e posteriormente pelas fissuras petrotimpânicas. O teto faz limite com a cortical da fossa craniana média e, medialmente, com a lâmina do osso esfenoide.18 Espaços retrodiscais Os espaços retrodiscais são uma zona de transição eminentemente formada por tecido frouxo elástico e plexo vasculonervoso, com segmento superior inserido na borda posterior da fossa e segmento inferior inserido em parte da cabeça mandibular. O mecanismo de tensão e relaxamento dessas fibras possibilitam os movimentos dos discos articulares durante as atividades mandibulares, bem como a estimulação para produção de líquido sinovial.8 Essas áreas são passíveis de lesões, particularmente nas alterações topográficas dos discos articulares e nos processos inflamatórios identificados em sequências específicas de pulsos de radiofrequência em exames de ressonância magnética. Alterações e processos degenerativos identi늧攎cáveis por meio de imagens na articulação temporomandibular Em grande parte dos processos degenerativos das articulações em fases adiantadas ou mesmo em osteoartroses efetivas, as cabeças mandibulares sofrem remodelações ou retificações em seus contornos, não sendo raras as formações osteofitárias e as escleroses reacionais intramedulares.11 Nos indivíduos com distúrbios articulares ou temporomandibulares, há evidências de diferentes tipos de deslocamentos e alterações morfológicas dos discos, podendo ocorrer ou não comprometimento ósseo em forma de processos degenerativos. As alterações ósseodegenerativas são, portanto, resultado da relação não harmoniosa do disco com as estruturas ósseas e de sua consequente deformação, situação esta que é observada particularmente em estágios mais avançados do desarranjo interno, em especial nos deslocamentos sem recaptura ou redução. Porém, o real conceito de desarranjo interno deveria ser catalogado como osteoartrose, uma vez que representa uma fase adaptativa e estável dos precursores no processo de osteoartrite.12 Particularmente, essa osteoartrite pode ser definida como o processo de deterioração do envoltório cortical e da exposição do tecido ósseo subjacente. Por meio de imagens, a erosão óssea cortical ou mesmo escleroses e formações osteofitárias são situações que invariavelmente podem ser observadas, além de remodelações, que são formas adaptativas do osso, conferindolhe nova morfologia.1115 Assim, as doenças degenerativas incluem modalidades que se expressam radiograficamente, como redução dos espaços articulares, facetamentos ou irregularidades ósseas, escleroses no osso subcondral, erosões ou perda de revestimento cortical, formações osteofitárias e cistos subcondrais. De maneira especial, a existência de erosões nas estruturas ósseas que compõem as ATM radiograficamente indica supostas formações degenerativas ativas em estágios basais de adaptação ou em processo evolutivo para essaadaptação.13 A osteoartrite representa P++ a degeneração do revestimento articular e a exposição do osso subjacente. Exames imagéticos convencionais e tomografias locais são os mais empregados para a evidenciação de erosões, escleroses reacionais e remodelações ósseas, que representam um conjunto de alterações na forma das superfícies ósseas submetidas a injúrias, em comparação ao tecido ósseo remanescente intacto.1417 Algumas condições consideradas artríticas que afetam as ATM têm diferentes graus de comprometimento e podem ser classificadas de baixo ou alto grau inflamatório. Entre as de baixo grau destacamse a osteoartrite primária, ou doença articular degenerativa, e a artrite póstraumática. Já entre as de alto grau inflamatório encontramse as artrites infecciosas, as artrites reumatoides (juvenil e adulta) e as artrites metabólicas (gotosa, psoriática, lúpus eritematoso, espondilite anquilosante, síndrome de Reiter e artrite associada à colite ulcerativa). Por definição, a osteoartrite (OA) é a condição inflamatória que mais afeta as ATM, sendo também referida como doença articular degenerativa (DAD), com alterações ósseas efetivas. Entretanto, com o passar do tempo, o osso Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ ■ sofre remodelações ou retificações morfológicas de origem não necessariamente inflamatória, caracterizando o processo de osteoartrose.14,15 Grande parte das mudanças verificadas nas ATM no decorrer da vida do indivíduo está relacionada com processos traumáticos ou degenerativos no caso das artrites, artroses e neoplasias que acometem essa região. Condição particular é verificada nos desarranjos internos (DI), que didaticamente identificam as deformações dos discos com alterações topográficas durante os movimentos solicitados em protocolos imagéticos. Essas mudanças incluem especialmente os deslocamentos anteriores e posteriores dos discos, com ou sem recaptura (reposição) na posição anatômica habitual.16 Técnicas de imagem da articulação temporomandibular As modalidades de imagem para a ATM no decorrer dos anos, e particularmente na última década, têm oferecido uma série de possibilidades para a melhor observação dos tecidos, bem como dos processos degenerativos que atingem a região. Embora os distúrbios temporomandibulares sejam considerados e conhecidos como multifatoriais, as pesquisas apresentam relações vinculadas com alterações ou processos de modificação dos padrões ósseos das estruturas articulares, bem como dos discos e das cápsulas, tornandoos relevantes elementos na identificação das degenerações internas articulares.18 A interpretação das diferentes imagens formadas por meio de incidências convencionais, bem como pelas técnicas de alta resolução, como tomografia e ressonância magnética, possibilita a observação detalhada dos aspectos anatômicos e degenerativos ou dos desarranjos internos.19 Técnicas convencionais – Imagens da articulação temporomandibular Exames radiográ늧攎cos convencionais As técnicas ditas convencionais são aquelas em que o registro das imagens é feito por meio de filmes ou sensores digitais, com o paciente devidamente posicionado, o qual recebe os feixes de raios X sem que ocorra movimentação do aparelho ou do próprio indivíduo. Entre as técnicas, a transfacial, a transcraniana e a transorbital são de grande presteza na rotina da clínica ambulatorial. Além delas, a inferossuperior (axial de Hirtz), a posteroanterior ou Towne invertida e a anteroposterior ou Towne convencional são também, por vezes, solicitadas em eventualidades para observação ampla de todos os segmentos mandibulares, não obstante a elevada sobreposição de estruturas ósseas.19 As tomadas bilaterais são sempre indicadas em quaisquer das técnicas, com o intuito de comparação nas posições mandibulares em abertura e fechamento bucal. A associação das técnicas convencionais transcranianas, transfaciais e infracranianas tem sido utilizada em decorrência das limitações inerentes de cada incidência, tendo em vista que exibe o segmento lateral das cabeças mandibulares e da fossa mandibular, permanecendo grande parte das estruturas em sobreposição.20,21 Técnica lateral transcraniana Considerado exame fundamental, possibilita a avaliação e o controle das alterações ósseas efetivas, principalmente nas cabeças mandibulares; entretanto, há limitação em função da angulação vertical oblíqua, resultando em sobreposição inerente dos ossos da base do crânio. Existem diversas técnicas transcranianas com pequenas variações de incidência, porém sempre desviando do rochedo temporal. Todavia, elas apresentam a limitação de exibir apenas os componentes ósseos temporais laterais, assim como das cabeças mandibulares. Os espaços articulares, a cabeça mandibular e o osso temporal, em geral, sofrem sobreposição, ocasionando falta de delimitação plena, em função principalmente da angulação horizontal não padronizada. Entre as técnicas existentes podemos citar as de Updegrave, Gillis, Schüller, Lindblom e Greewcok Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce (Figura 2.1).1922 Técnica lateral transfacial ou transfaringeana A técnica idealizada por McQueen visa ao desvio dos feixes de raios X da apófise mastoide, tendo indicações e limitações semelhantes às das técnicas transcranianas. A observação de áreas erodidas nas vertentes anterior e posterior é efetiva em relação às cabeças mandibulares, diminuindo essa capacidade em relação aos polos medial e lateral (Figura 2.2).1922 Técnica anteroposterior ou transorbital Essa técnica, desenvolvida por Zimmer, fundamentase em imagens para avaliação laterolateral das cabeças mandibulares; porém, a constante exposição da região do globo ocular leva o profissional a questionar o verdadeiro benefício em função dos efeitos biológicos ali produzidos. A observação laterolateral ou dos polos medial e lateral são evidentes, principalmente nos eventos de fraturas no colo da cabeça mandibular (Figura 2.3).22,23 Figura 2.1 A. e B. Técnica transcraniana digital nas posições de fechamento e abertura bucal máxima, respectivamente. Figura 2.2 A. e B. Técnica transfacial digital nas posições de fechamento e abertura bucal. Notase aumento de amplitude além da eminência temporal. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 2.3 Técnica transorbital da cabeça mandibular direita com evidente erosão no polo lateral. Técnica panorâmica ou pantomográ늧攎ca A técnica panorâmica para exame das ATM possibilita uma avaliação global das estruturas ósseas de maneira preliminar a qualquer outro exame específico da região. Existem aparelhos que têm programas específicos para exames no sentido lateral, em posições de abertura e fechamento bucal bilaterais e posteroanteriores, e a chamada planigrafia (três posições para cada lado) em um único filme radiográfico. Erosões, fraturas, neoplasias, hipo e hiperplasia das cabeças mandibulares, assim como aspectos de malformações congênitas, síndromes e anquiloses, são algumas das alterações passíveis de identificação nas radiografias panorâmicas, desde que o paciente esteja devidamente posicionadono fulcro ou na área de corte do aparelho. Por causa das características físicas de formação da imagem panorâmica e particularmente da camada de corte, ocorrem invariavelmente sobreposições que dificultam a plena valorização dos contornos das cabeças e das fossas mandibulares, criando imagens que podem camuflar ou até mesmo produzir situações inexistentes (Figura 2.4).19,21,22 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ Figura 2.4 Técnica panorâmica: osteófito na cabeça mandibular esquerda (A), aumento de volume ósseo da cabeça mandibular direita (B). Técnica panorâmica: hiperplasia da cabeça mandibular direita com osteófito associado (C), fratura junto ao colo da cabeça mandibular esquerda (D). Técnica panorâmica: posicionamento especial para articulação temporomandibular em abertura e fechamento dos lados direito, esquerdo e coronal, respectivamente (E e F). Técnica axial ou de Hirtz A técnica de Hirtz (axial ou mentovértice) tem como objetivo verificar as inclinações das cabeças mandibulares, principalmente em alguns programas de traçados cefalométricos muito empregados em ortodontia e ortopedia dos maxilares (Figura 2.5).19 Exames de alta resolução Ressonância magnética A aquisição de imagens por meio de ressonância magnética (RM) representa um dos avanços mais importantes na área médica do último século. As características dessa tecnologia são extremamente complexas, demandando princípios físicos nucleares que envolvem principalmente os átomos de hidrogênio contidos nos diferentes tecidos do corpo humano ou em áreas acometidas por processos patológicos. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 2.5 Técnica de Hirtz exibindo as características em norma axial das cabeças mandibulares. A possibilidade de resolução dos tecidos moles e a ausência de radiação ionizante representam algumas das maiores vantagens das imagens por RM em relação à tomografia computadorizada (TC) e às radiografias convencionais, principalmente quando são necessários estudos dos reparos anatômicos e/ou dos processos degenerativos que atingem os componentes das articulações. A característica não invasiva na ATM determina o reconhecimento anatômico normal, bem como de acúmulos líquidos, tecido inflamatório intra e extraarticular e anormalidades morfológicas e topográficas do disco articular.24 As sequências do exame de imagens em T1, T2 e em densidade de prótons (DP) são as mais empregadas para o estudo anatomopatológico das ATM em que o disco articular apresentase dentro dos aspectos normais, com formato bicôncavo, sendo seus segmentos anterior e posterior espessos e a parte central afilada.23,24 Além desses aspectos normais, possíveis formações líquidas nos compartimentos intra e extraarticulares (derrames/efusões), que denotam hipersinal, e proliferações inflamatórias de diferentes origens são importantes vantagens desse exame. A diminuição de sinal intramedular, seja na cabeça mandibular ou na eminência temporal, pode representar alterações de longa lesão, ocasionando a esclerose reacional, chegando a casos extremos de necroses avasculares. Os edemas intramedulares, contrariamente, expressam aumento de sinal, caracterizando agentes inflamatórios, e as áreas de formato arredondado internas à medular óssea podem, por vezes, estar vinculadas a cistos subcondrais. É conhecido o potencial degenerativo das doenças reumatológicas ou autoimunes, que, em certas porcentagens, implicam osteoartroses/osteoartrites graves nas estruturas que compõem as ATM, sendo, portanto, fator relevante durante a abordagem do paciente. A caracterização imagética dos músculos mastigatórios é também uma das grandes vantagens dos exames por meio de RM, especialmente o músculo pterigóideo lateral, que tem as relações de suas fibras com a cabeça mandibular e o disco articular (Figura 2.6)25,26. Medicina nuclear – Cintigra늧攎a óssea A infusão de radioisótopos, entre eles o tecnécio99m (Tc99m), possibilita evidenciar locais de alta atividade celular, com metabolismo ósseo efetivo, por meio do emprego de uma câmera Gama. Destarte, mudanças no padrão do crescimento, como nas hiperplasias das cabeças mandibulares ou mesmo nas neoplasias, podem ser diagnosticadas com a utilização dessa técnica, uma vez agregada à matriz de hidroxiapatita, ela se incorpora na zona de osteogênese. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 2.6 A. e B. Ressonância magnética de paciente apresentando retificações e aplainamentos das cabeças mandibulares, compressão e alteração morfológica dos discos. C. e D. Ressonância magnética de paciente apresentando discreto alongamento do disco articular ao fechamento bucal, com boa recaptura na abertura. E. Imagem coronal do mesmo paciente das figuras C. e D. evidenciando a inclinação lateral do disco. F. e G. Paciente apresentando erosão e esclerose intramedular da cabeça mandibular direita e osteófitos bilateralmente. Os discos estão deslocados anteriormente. H. a J. Sequência de imagens do mesmo paciente apresentando deslocamento anterior do disco articular, sem recaptura na abertura bucal e derrame articular associado. K. e L. Ressonância em normas sagital e coronal apresentando alterações decorrentes de artrite psoriática: erosão da cabeça mandibular, rompimento do disco e irregularidades na cortical da eminência temporal. A imagem obtida via radioisótopos possibilita uma avaliação fisiológica, e não necessariamente morfológica, graças a mudanças bioquímicas oriundas de um processo patológico, tornando possível a avaliação em estágios incipientes.27 O conhecimento criterioso das diferenciações em termos de imagem deve ser pleno, pois tecidos em reparação ou regeneração também são tidos como de alta captação pelo radiofármaco, situação essa que exige a plena avaliação clínica. É o método não invasivo que mede o momento biológico ou o estadiamento de uma alteração e seus possíveis focos ou concentrações, bem como quadros metastáticos. Nos tumores epiteliais malignos que invadem o osso, assim como na maioria dos processos inflamatórios associados ou prévios às neoplasias, notase aumento da vascularização e, por consequência, maior concentração do fosfato marcado com o radiofármaco. Nas lesões em que se observa aumento das atividades periostais há também forte concentração do tecnécio. Casos de reabsorções das cabeças mandibulares também são passíveis de acompanhamento por esse método de exame (Figura 2.7).2729 Artrogra늧攎a Embora muito empregada antes do advento da RM, a chamada artroscopia é um exame que apresenta boa definição das mudanças topográficas e morfológicas dos discos articulares. Associada à fluoroscopia, possibilita a observação dinâmica dos discos durante os movimentos mandibulares. Por ser um exame invasivo (injeção de contraste nos espaços articulares) e de delicada execução, que, em geral, exige sedação prévia do paciente, vem sendo substituído gradualmente pelo exame de RM. As principais indicações desse exame estão voltadas para os casos de suspeitas de mau posicionamento do disco articular, bem como anormalidades que incluem deslocamento anterior, perfuração, alterações degenerativas e adesões. Processos alérgicos ao meio de contraste devem ser sempre investigados (Figura 2.8).4,30,31 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura2.7 A. e B. Cintigrafia óssea mostrando pontos de hipercaptação do tecnécio. Paciente com metástase de câncer de próstata afetando vários ossos, inclusive a mandíbula e as respectivas cabeças mandibulares. Figura 2.8 A. e B. Artrografia realizada em tomógrafo convencional apresentando preenchimento completo dos espaços articulares pelo material de contraste no fechamento e na abertura bucal. Figura 2.9 A. e B. Tomografia convencional mostrando, respectivamente, aspectos de normalidade e retificação, com remodelação óssea nas cabeças mandibulares. Tomogra늧攎a computadorizada O advento das imagens de segmentos das ATM tem sido o propósito desde as técnicas tomográficas convencionais até os presentes métodos, como aqueles em tomógrafos espirais, multislice e os volumétricos cone beam. De maneira geral, os métodos tomográficos computadorizados por feixe cônico (cone beam) e por feixe em leque Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce (fan beam) são aqueles que possibilitam melhor identificação dos componentes ósseos das ATM, além de outras estruturas ósseas. Particularmente, os exames pelo método cone beam, por necessitarem de apenas um único giro ao redor da área de interesse, serem de rápida aquisição e diminuírem sobremaneira a dose de radiação em relação à tomografia segmentada, têm sido um método bastante solicitado para verificação das ATM, em especial na odontologia. Durante os últimos anos, os métodos tomográficos vêm substituindo as técnicas radiográficas convencionais, em decorrência do menor índice de sobreposicionamento; da possibilidade de variação de janelas, possibilitando a diferenciação de tecidos de alta e de baixa atenuação aos raios X; do fato de não serem invasivos e de terem ótima colimação e rápida aquisição em tempo real. A reformatação multiplanar é, entre outras, a ferramenta primordial para a observação de desarranjos articulares, como remodelamento da superfície articular, por causa do posicionamento anormal do disco articular durante os movimentos funcionais; remodelação com formação osteofitária; alteração degenerativa das superfícies articulares; alterações dos espaços articulares; assimetrias dos ramos mandibulares; migrações dos processos coronoides; e assimetria do músculo pterigóideo lateral.3234 A tomografia sagital corrigida axialmente tem sido bem vinculada a outras modalidades de imagens das ATM, para a correta identificação de erosões e osteófitos com caracteres incipientes.18 Cabe ressaltar que, em função de inúmeros protocolos de aquisição tomográfica, estes identificam a especificidade e a sensibilidade em relação aos aspectos morfológicos e às alterações ósseas nos componentes das ATM. Os cortes de menor valor (mais finos) são sempre de melhor indicação em determinação à verificação de lesões intramedulares incipientes, uma vez que protocolos ou exames com cortes mais espessos podem camuflar informações importantes do tecido ósseo (Figuras 2.9 e 2.10). 3335 Ultrassonogra늧攎a Os exames ultrassonográficos têm sido empregados em várias situações em que as glândulas salivares e as cadeias ganglionares submandibular e cervical são acometidas por alterações que vão desde calcificações distróficas, como nas sialolitíases, a neoplasias locais e processos inflamatórios de origem diversa. Particularmente, em relação à região das ATM, esse tipo de exame possibilita a observação dos discos e seus possíveis deslocamentos parafuncionais de maneira dinâmica, além de tornar possível a observação dos aspectos morfológicos ósseos das cabeças mandibulares, das fossas mandibulares e das eminências temporais. A musculatura mastigatória também é bem estudada em suas inserções e variações das fibras. O baixo custo e a rapidez de aquisição das imagens fazem esse método ter boa indicação, porém ressaltase que não há a especificidade vista nos exames tomográficos e por ressonância magnética. Não existem fatores que contraindiquem a ultrassonografia ou a ecografia das ATM, sendo pertinente destacar o pouco provável aumento de temperatura local. Dependendo da reflexão das ondas sonoras de cada superfície, as imagens podem ser anaecoicas, ecogênicas, hipoecoicas ou hiperecoicas, variando, assim, a tonalidade da escala de cinza nas imagens ou de coloração mais ou menos intensa quando do emprego do efeito Doppler (Figura 2.11).3638 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 2.10 A. a D. Tomografia computadorizada multislice: condrossarcoma na articulação temporomandibular direita. Notase o aspecto nodular, hiperdenso, expansivo e amorfo da lesão E. e F. Tomografia computadorizada mostrando hipoplasia da cabeça mandibular direita. G. a I. Tomografia computadorizada mostrando anquilose da articulação temporomandibular direita, com importante desvio da linha média J. Tomografia computadorizada cone beam da articulação temporomandibular do lado esquerdo apresentando erosões, osteófito e artefatos cirúrgicos na cabeça mandibular. Há esclerose reacional intramedular. K. a M. Tomografia computadorizada multislice de fratura da cabeça mandibular direita, com migração para o polo medial N. e O. Tomografia computadorizada multislice: condromatose sinovial na articulação temporomandibular direita. Figura 2.11 Ultrassonografia da articulação temporomandibular de aspecto normal ao fechamento bucal. ▶ 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26. 27. 28. 29. 30. 31. 32. Referências bibliográ늧攎cas WARWICK, R.; WILLIAMS, P. L. Gray anatomia. 35. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1979. WHITE, S. C.; PHAROAH, M. J. Oral radiology: principles and interpretation. 5. ed. St. Louis: Mosby, 2007. 724p. MCNEILL, C. Ciência e prática da oclusão. São Paulo: Quintessence, 2000. WHITE, S. C.; PHAROAH, M. J. Oral radiology: principles and interpretation. 5. ed. Oxford: Elsevier, 2007. 724p. FIGUN, M. E.; GARINO, R. R. Anatomia aplicada à odontoestomatologia. In: FIGUN, M. E.; GARINO, R. R. Anatomia odontológica funcional e aplicada. 3. ed. São Paulo: Panamericana, 1994. p. 517668. WHAITES, E. A articulação temporomandibular. In: WHAITES, E. Princípios de radiologia odontológica. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2003. p. 387404. ZARB, G. A. et al. 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São Paulo: Saviel, 1993. ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ▶ Um pouco de anatomia Epidemiologia Avaliação clínica do paciente com dor facial Algoritmo de decisão para diagnóstico em cefaleia Principais diagnósticos diferenciais de dores faciais Cefaleias primárias Cefaleias secundárias Neuralgias cranianas e causas centrais de dor facial Getúlio Daré Rabello “Teólogos, filósofos, médicos, psicólogos diligenciam debalde na tentativa de definir a sensação dolorosa, que é de veemente subjetividade e intimamente relacionada a circunstâncias individuais várias, imponderáveis à análise. Conhecemos os parâmetros físicos e químicos do distúrbio, dispomos até de instrumental apto a quantificar a sensação (algesiômetros ou dolorímetros), ampliamos a cada hora nossas informações sobre a neuroanatomia, a fisiologia, a farmacologia e a terapêutica da dor, mas ainda não se encontrou quem a interpretasse de modo radical ou lhe retratasse em termos definitivos. Na verdade, a dor é uma opinião e, como tal, impregnada de elementos subjetivos, emoções e vivências.” Inicio este capítulo com esta frase do Prof. Álvaro Lima Costa, ícone da neurologia brasileira. Embora suas afirmações sejam aplicáveis a qualquer dor, quando nos deparamos com um paciente com dor facial, elas se tornam extremamente verdadeiras. Um pouco de anatomia Ao atendermos paciente com dor facial, temos de conhecer um pouco das vias sensitivas que são responsáveis pela transmissão dos estímulos até as áreas cerebrais responsáveis por sua percepção. Quando nos referimos à Paulo Kohno Realce • • sensibilidade craniofacial, o elemento mais importante do ponto de vista anatômico é o nervo trigêmeo. Entretanto, os ramos superficiais provenientes de raízes cervicais são também importantes, além dos nervos cranianos facial, glossofaríngeo e vago. Devemos ressaltar que qualquer dor no segmento cefálico indica que os sistemas responsáveis pela captação, condução, controle, integração e percepção dos estímulos dolorosos estão, de alguma maneira, relacionados com a sintomatologia apresentada e sua compreensão é fundamental para correto diagnóstico. Dos ramos dorsais dos nervos espinais, devemos nos lembrar do ramo dorsal de C2, que, emergindo abaixo do arco posterior do atlas, continua como nervo grande occipital ou nervo occipital maior, o qual, acompanhando a artéria occipital, inerva a pele do dorso da cabeça, na sua porção medial, até o vértice. Os ramos ventrais dos nervos espinais cervicais C1C4, com um pequeno componente de C5, logo após sua emergência, determinam a formação do chamado plexo cervical, constituído por várias alças (C1C2, C2C3, C3 C4). Em termos de sensibilidade, a raiz de C1 não vai participar, pois não apresenta raiz dorsal. Este plexo determina a inervação sensitiva do couro cabeludo na sua porção dorsal, pescoço e região supraclavicular. Em relação à sensibilidade cefálica, vários nervos originários deste plexo são importantes: Nervo occipital menor ou nervo pequeno occipital (C2): tem quase que exclusivamente fibras de C2. É recorrente e distribuise às regiões mastóideas, temporal posterior e occipital lateral. Origina um ramo auricular que inerva a pele do terço superior da orelha Nervo grande auricular (C2C3): origina ramos superficiais que inervam a pele do pavilhão auricular. Com relação ao nervo trigêmeo, ele tem sua origem aparente na ponte, entre a porção ventral e o pedúnculo cerebelar médio. Ele tem dois componentes,um motor e um sensitivo, sendo este último o mais importante. A raiz sensitiva logo após sua origem conectase com o gânglio sensitivo trigeminal (gânglio de Gasser, encontrado na fossa média), no qual se encontram os corpos celulares dos neurônios pseudounipolares sensitivos, que originam os prolongamentos periféricos responsáveis pela inervação sensitiva da maior parte da cabeça. Do gânglio sensitivo trigeminal, originamse os três ramos do nervo, ramo oftálmico (que penetra na órbita pela fissura orbitária superior), ramo maxilar (que passa pelo forame redondo) e ramo mandibular (que passa pelo forame oval). Logo após a passagem pelos forames, ele se divide nos seus ramos principais. Próximo aos forames de emergência e antes de sua passagem (com exceção do nervo mandibular), eles emitem pequenos ramos recorrentes, que inervam a maior parte da duramáter, situada anteriormente à tenda do cerebelo. O ramo oftálmico inerva a região da placa cribriforme e a porção anterior da foice do cérebro e, por meio de ramos recorrentes meníngeos, a tenda do cerebelo e a parte posterior da foice do cérebro e do calvário. O ramo maxilar, através de ramo que acompanha o ramo anterior da artéria meníngea média, inerva parte das fossas anterior e média do crânio. O ramo mandibular origina se fora do crânio, ao seu ramo meníngeo, que reentra no crânio pelo forame espinhoso, a fim de ser distribuído com a artéria meníngea média para a fossa craniana média e para o calvário. Em termos de duramáter, a fossa craniana posterior é inervada por ramos do nervo vago, podendo receber inervação adicional de ramos dos nervos cervicais altos, por meio do nervo hipoglosso. O ramo oftálmico passa pelo seio cavernoso, atinge a cavidade orbitária e inerva a região frontal, o dorso do nariz e a pálpebra superior. O ramo maxilar, após passar pelo forame redondo, atinge a fossa pterigopalatina e então passa para a fissura orbitária inferior. Corre pelo assoalho da órbita e se superficializa na face pelo forame orbital inferior, como nervo infraorbital. Inerva a pele da região do nariz, da pálpebra inferior e da região anterior do arco zigomático. O ramo maxilar neste seu trajeto da fossa pterigopalatina até o nervo infraorbital origina vários ramos, chamados alveolares superiores, que penetram por forames próprios da maxila e determinam a formação de uma arcada, que origina ramos terminais para a arcada dentária superior. Após passar pelo forame oval, o ramo mandibular origina o tronco anterior que emite ramos para a musculatura mastigatória e o nervo bucal, que inerva a porção média do arco zigomático. Depois, origina o nervo lingual, que penetra pela base da língua e inerva os dois terços anteriores da língua, com relação à sensibilidade geral (tato, dor, temperatura). Um ramo do nervo facial, chamado corda do tímpano, ligase ao nervo lingual, porém é responsável pela sensitiva gustativa dos dois terços anteriores da língua. Outro ramo é o nervo alveolar inferior, que inerva a arcada dentária inferior. O ramo mandibular é responsável pela inervação sensitiva superficial da região mandibular. Portanto, o nervo trigêmeo é Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce responsável pela inervação sensitiva superficial da maior parte da cabeça (toda região compreendida anteriormente a uma linha que une os dois orifícios auriculares, passando por vértice, córnea, conjuntiva, mucosa dos seios paranasais, mucosa da cavidade nasal, mucosa da cavidade bucal, dois terços anteriores da língua e duramáter craniana, com exceção da fossa posterior). É importante lembrar que os territórios de inervação dos ramos oftálmico, maxilar e mandibular são bem definidos, não havendo sobreposição, como existe no caso dos territórios dos nervos espinais. Próximo de sua emergência no forame estilomastóideo, o nervo facial origina um pequeno ramo, que é responsável por parte da inervação sensitiva do conduto auditivo externo e da membrana timpânica. A membrana timpânica apresenta complexa inervação sensitiva geral. Sua porção externa recebe inervação dos nervos trigêmeo, facial e vago, e sua porção interna é exclusivamente inervada pelo nervo glossofaríngeo. O nervo glossofaríngeo emerge pelo forame jugular e é responsável pela inervação dos músculos da deglutição e pela sensibilidade geral da mucosa bucal posterior (terço posterior da língua, tonsilas e mucosa da faringe). Em seu trajeto, apresenta dois gânglios sensitivos (superior e inferior), nos quais se encontram os corpos celulares dos neurônios sensitivos. Origina ramos para inervação de parte do conduto auditivo externo e da face interna da membrana timpânica. O nervo vago emerge pelo forame jugular. Origina ramos recorrentes que inervam a duramáter da fossa craniana posterior, o conduto auditivo externo e a membrana timpânica. Todos os nervos sensitivos que inervam a cabeça têm uma projeção central para um complexo sensitivo no tronco encefálico, chamado complexo sensitivo trigeminal. Este complexo é constituído por três núcleos: núcleo do trato espinal (extremamente longo, indo da porção média da ponte até o corno posterior da medula espinal, em nível C2), núcleo sensitivo principal e núcleo do trato mesencefálico. Toda a sensibilidade geral da cabeça vai para este complexo nuclear, independentemente do nervo periférico relacionado (V, VII, IX, X). No complexo nuclear trigeminal existe uma divisão funcional. O núcleo do trato espinal está relacionado, principalmente, à dor e à temperatura e menos ao tato, o núcleo sensitivo principal está relacionado ao tato e o núcleo do trato mesencefálico, à propriocepção dos músculos da cabeça (músculos oculares, mímicos ou mastigatórios). No núcleo do trato espinal existe uma somatotopia de cima para baixo. Assim, nas suas porções mais superiores existe a projeção de fibras mais relacionadas à região perioral. Se traçarmos anéis da região anterior para a região posterior a partir deste ponto (nomeados de A a C), teremos as regiões relacionadas sucessivamente de cima para baixo no núcleo do trato espinal do trigêmeo. Este tipo de distribuição sensitiva na face é denominada “casca de cebola”. O último anel de inervação sensitiva cefálica relacionado com o trigêmeo é vizinho ao dermátomo de C2. Por sua vez, o complexo nuclear trigeminal, em sua porção inferior, representada pelo núcleo do trato espinal, é continuado pelo corno posterior da medula espinal, por onde chegam as fibras sensitivas de C2. O complexo nuclear trigeminal recebe também fibras relacionadas à sensibilidade geral veiculada perifericamente pelos nervos facial, glossofaríngeo e vago. No complexo nuclear trigeminal existe uma sinapse do neurônio sensitivo periférico com o segundo neurônio da via sensitiva, que cruza a linha média, subindo para o tálamo, formando o chamado lemnisco trigeminal, próximo ao lemnisco medial(trato trigêminotalâmico ventral). Existe um pequeno contingente de fibras que não cruza a linha média, saindo do núcleo sensitivo principal e dirigindose para o tálamo pela via mais dorsal, próxima da cavidade ventricular (trato trigêminotalâmico dorsal). O núcleo talâmico no qual estas fibras terminam é o núcleo ventral posteromedial. A partir destes núcleos, originase a radiação talâmica, que passa pelo braço posterior da capsula interna e atinge o córtex cerebral na área sensitiva principal (giro póscentral ou áreas 3, 1, 2 de Brodmann). Nesta área existe somatotopia evidente, na qual a região da face tem representação mais inferior, próxima do sulco lateral (exemplificada no chamado homúnculo de Penfield). Existe outra área de representação sensitiva cortical chamada área sensitiva secundária, que está localizada junto à borda superior do sulco lateral, mas que tem projeção sistematicamente bilateral. Sobre esse complexo sistema, estímulos facilitatórios e inibitórios regulam a neurotransmissão da dor. Chamamos a atenção para a substância cinzenta periaquedutal, no mesencéfalo, importante centro supressor de dor. Assim, sobre o complexo trigeminal confluem estímulos de todo o crânio e, em suas porções distais, estímulos da região cervical alta. Daí o fenômeno relativamente frequente na prática clínica de processos na região cervical, Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ sejam osteoarticulares, sejam musculares, apresentarem dor referida na face, notadamente na região de inervação do ramo oftálmico do nervo trigêmeo, que se projeta no complexo trigeminal até porções abaixo do bulbo. É a marca anatômica da dor referida (Figura 3.1). Epidemiologia As dores faciais são mais comuns nos adultos que nas crianças, e as mulheres procuram mais assistência médica por dores faciais que os homens. Tratase de problema comum, com prevalência na comunidade em torno de 13% a 26%. Devido à interface de atendimento dessas dores, normalmente, os pacientes procuram médicos ou odontologistas. Existe necessidade absoluta de que esses dois profissionais tenham noção dos principais diagnósticos diferenciais, para se evitar erros e delongas no diagnóstico etiológico. O grande problema é que a taxonomia desses distúrbios é muito confusa, de modo que uma série de termos é utilizada, causando confusão de conceitos: distúrbios da articulação temporomandibular, cefaleias primárias ou secundárias, dores neuropáticas faciais. Esses diagnósticos são baseados em critérios diagnósticos isolados. Muitas vezes é difícil diferenciar tais diagnósticos, tornando a tarefa do clínico difícil. Além disso, existem termos que aumentam ainda mais a confusão taxonômica: odontalgia atípica, dor dentária fantasma, dor por desaferentação e neuropatia trigeminal. Não é o propósito deste capítulo resolver todas essas confusões, mas alertar o profissional para sua existência. Procuraremos expor nossa maneira de avaliar esses pacientes e, ao final, comentaremos alguns tipos de dor orofacial. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ Figura 3.1 Inervação sensitiva do crânio e da face. Avaliação clínica do paciente com dor facial A dor é um sintoma que demanda uma história adequada. As dores faciais, que são tipos de cefaleia, não são exceção. Devemos procurar detalhar uma história da maneira mais completa possível, procurando analisar os elementos fundamentais de uma síndrome álgica. Muitos pacientes sofrem de mais de um tipo de dor e cada uma necessita de avaliação semiológica isolada. A atuação médica deve procurar um diagnóstico definido para cada um dos tipos de dor facial que o paciente apresenta. De modo geral, existem as cefaleias primárias (cefaleia doença, sem lesão estrutural significativa) e cefaleias secundárias (cefaleia sintoma, quando a dor representa sintoma de dano estrutural). Infelizmente, os médicos normalmente contentamse em afastar causas secundárias de dores faciais, quando, muitas vezes, o paciente apresenta cefaleia primária. Uma vez não se constatando nenhuma patologia estrutural, não existe a preocupação em definir o segundo nível diagnóstico das cefaleias primárias, determinando seu tipo preciso. O objetivo desse diagnóstico é, ao definir o tipo de cefaleia primária (enxaqueca; cefaleia tipo tensão; cefaleia em salvas; hemicrania paroxística; cefaleia de curta duração, unilateral, neuralgiforme com hiperemias conjuntival e lacrimejal [síndrome SUNCT, shortlasting unilateral neuralgiform headaches attacks with conjunctival injection and tearing]; cefaleia hípnica etc.), estabelecer o tratamento adequado para cada tipo. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • – ■ ■ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ■ ♦ Alguns dados da anamnese são importantes para tal objetivo: Idade: a dor facial é mais comum em adultos e rara em crianças Gênero: algumas cefaleias têm predileção pelo gênero feminino (enxaqueca, cefaleia tensional, hemicrania paroxística) ou pelo gênero masculino (cefaleia em salvas), porém as mulheres procuram assistência médica mais frequentemente que os homens por dores faciais Idade cronológica, idade de início e tempo de doença: do ponto de vista prático, qualquer cefaleia com duração maior que 5 anos provavelmente é primária, não estando relacionada com patologia estrutural. Existem cefaleias que se iniciam habitualmente antes dos 20 anos (enxaqueca) ou após os 20 anos (cefaleia tensional, cefaleia em salvas). Por outro lado, existem cefaleias que só ocorrem após os 50 anos (arterite temporal, neuralgia trigeminal, cefaleia hípnica) Profissão: é importante quando a profissão determina contato com substâncias químicas que podem desencadear crises de cefaleia (p.ex., enxaqueca desencadeada por fatores inalatórios) ou posturas viciosas durante tempo prolongado (cefaleia cervicogênica) Semiologia da dor Tipo de dor: temos que procurar definir se a dor tem caráter nociceptivo ou neuropático Dor nociceptiva: é aquela em que o sistema nervoso está íntegro e que sinaliza a ocorrência de lesão tecidual. A dor nociceptiva é o tipo de dor mais comum; nós a sentimos todo dia; ela faz parte de nossa vida e constitui um sistema de defesa contra as agressões do meio ambiente. Um exemplo é a dor bucal que sentimos ao ingerir líquido quente. A dor nociceptiva nos faz sofrer quando temos uma doença que provoque inflamação, infecção, infiltração, tração, distensão Dor neuropática: é aquela na qual a origem da dor é o próprio sistema nervoso. Ou seja, os tecidos estão íntegros e a dor é originada em um sistema nervoso, periférico ou central, defeituoso. A existência da dor neuropática implica sempre em uma lesão ou disfunção de estruturas do sistema nervoso implicadas na transmissão dolorosa ou na sua modulação. Ao discutir o quadro clínico da dor neuropática, fazse necessário um glossário de termos que expressam os sintomas clínicos apresentados pelo paciente Alodinia: dor ocasionada por estímulos que normalmente não provocam dor Analgesia: ausência de dorem resposta a estímulo normalmente doloroso Analgésico: agente que produz analgesia Anestesia: ausência de todas as modalidades sensitivas Anestesia dolorosa: ocorrência de dor em áreas ou regiões anestesiadas Anestésico: agente que produz anestesia Causalgia: ocorrência de dor e queimação constantes, alodinia e hiperpatia, manifestadas após lesões traumáticas de nervos, geralmente associada a anormalidades da vasoatividade, sudorese e alterações tróficas Disestesia: sensação anormal desagradável, espontânea ou provocada Hiperalgesia: resposta aumentada ao estímulo doloroso, traduzindo uma redução do limiar para estímulos dolorosos Hiperestesia: sensibilidade aumentada aos estímulos – térmicos, mecânicos e/ou químicos –, o que indica tanto redução do limiar, como aumento da reação aos estímulos, incluindo hiperalgesia e alodinia Hiperpatia: ocorrência de reações anormais, em geral explosivas, diante de estímulos dolorosos, especialmente repetitivos, em condições de aumento do limiar à dor, podendo se associar à alodinia e disestesia Hipoalgesia: diminuição da sensibilidade aos estímulos dolorosos Hipoestesia: diminuição da sensibilidade aos estímulos, exceto de sentidos especiais, como a visão Panestesia: caracteriza o comprometimento da discriminação espacial de pontos na superfície do corpo submetidos à estimulação tátil, térmica e/ou dolorosa Parestesia: sensação anormal que não causa incômodo, espontânea ou provocada. O quadro clínico relacionado à dor neuropática apresenta aspectos bastante característicos. Entre eles Presença de sensações anormais desagradáveis (disestesias), que frequentemente têm caráter de Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ♦ ♦ ♦ ♦ ■ ♦ ♦ ■ ■ – – – queimação, ardor ou choque, com episódios eventuais paroxísticos, rápidos, lancinantes e em pontadas, sensações muitas vezes mal localizadas e mal definidas Embora o início da maioria dos casos de dor neuropática seja decorrente do evento ofensor, não existe relação temporal absoluta com o trauma do sistema nervoso, já que a dor pode aparecer semanas, meses ou até mesmo anos depois A dor pode aparecer em áreas com déficit sensitivo Estímulos dolorosos podem produzir respostas maiores que as normais (hiperalgesia e hiperpatia) Aumento da intensidade da dor com estímulos repetitivos, e a dor pode persistir mesmo após a retirada do estímulo (aftersensation). Dessa maneira, na dor neuropática, a característica clínica dos sintomas pode ser Espontânea: contínua ou paroxística Induzida: estímulos térmicos e/ou mecânicos inócuos (alodinia térmica e/ou mecânica) ou estímulos térmicos e/ou mecânicos nocivos (hiperalgesia térmica e/ou mecânica, hiperpatia). Dor mista: quando existem componentes da dor nociceptiva e neuropática. Na região facial é, muitas vezes, encontrada em tumores, que, lesando os tecidos, determinam dor nociceptiva e, infiltrando estruturas nervosas, causam dor neuropática associada Dor psicogênica: é de conceito problemático. Embora muitos tratados falem em dor psíquica ou psicológica e dor psicogênica, estes conceitos não estão claros na literatura. É evidente que todo portador de dor notadamente crônica apresenta resposta emocional ao fenômeno. Mas a dor como fenômeno meramente psicogênico, embora possa existir, normalmente é muito rara e faz parte de fenômeno verdadeiramente delusional. Estruturas cerebrais relacionadas à emoção e a afetividade estão completamente imbricadas com as relacionadas à dor. Do ponto de vista da prática médica, a dor é sempre real, pois sua subjetividade como sensação e sua absoluta intimidade com o indivíduo torna profundamente errôneo catalogála como “imaginária”. Isto não quer dizer que a dor sempre expresse lesão tecidual; não há correspondência biunívoca entre lesão tecidual e relato de dor, ou seja, a dor pode aparecer na ausência de qualquer lesão tecidual identificável. A dor é uma experiência perceptual subjetiva, complexa e absolutamente individual, provavelmente atingindo os níveis neurofisiológicos e neuroquímicos da estrutura cerebral de cada ser humano (ou seja, em termos de dor, o cérebro de cada um reage de maneira singular). Fatores genéticos provavelmente se relacionam à percepção dolorosa e sua relação com fatores emocionais. Portanto, atualmente, o mais correto é se falar em aspectos psicológicos ou psicogênicos influenciando a dor. Neste caso, a psiquiatria pode colaborar para o diagnóstico e tratamento, e muitos fatores terão que ser identificados, como depressão, ansiedade, psicose, somatização, conversão (ou dissociação ou histeria), hipocondria, comportamento de dor, ganhos econômicos secundários, ganhos emocionais, transtorno factício, simulação, manipulação e uso abusivo de analgésicos e psicotrópicos. Apesar disso, no Manual de Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSMIV, Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), 4a edição, da American Psychiatric Association, é definido o item diagnóstico Transtorno Doloroso, como um quadro em que a dor se torna o foco predominante da apresentação clínica. É lógico que esta definição se imbrica com outros diagnósticos psiquiátricos e dá margem a controvérsias. Quando o transtorno doloroso se associa a uma condição médica geral que desencadeou o processo álgico, creio não haver problemas. Já quando se define que o transtorno doloroso se associa a fatores puramente psicológicos, aí acredito que deva existir enorme bom senso da equipe médica que atende o paciente para evitar catalogar o problema como puramente emocional. Localização da dor: temos que perguntar ao paciente qual é o local da dor. Neste contexto, temos que verificar se a dor é predominantemente craniana, predominantemente facial, unilateral (com unilateralidade fixa ou variável) ou bilateral Intensidade: temos usado classificação analógica, com escala de 0 a 10, na qual 0 significa sem dor e 10, dor máxima. Outra maneira de quantificar a intensidade é considerar a dor como leve (não interfere na atividade), moderada (interfere na atividade) e forte (incapacita para a atividade) Irradiação: muitas vezes, as dores faciais são resultado do que chamamos dor referida, ou seja, o processo patológico está fora da face, porém o paciente refere a dor nesta localização. Chamamos a atenção para a Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce – – – – – – – – – – – • • • • • • • • • • • • • chamada cefaleia cervicogênica, na qual processos cervicais, muitas vezes de etiologia miofascial, podem acarretar dor referida notadamente nas regiões orbitária e frontal. Assim, existe a chamada cefalalgia cardíaca, na qual fenômenos isquêmicos transitórios cardíacos (angina) podem determinar dores cranianas ou faciais. Neste caso, o desencadeamento pelo esforço físicoé a chave para a suspeita diagnóstica. Por outro lado, processos faciais, notadamente da articulação temporomandibular (ATM), muitas vezes determinam dores referidas em segmento craniano ou mesmo em região cervical Duração: temos que avaliar se a dor é contínua ou descontínua, e, assim sendo, qual o tempo de duração (segundos, minutos, horas), além de procurar avaliar o tempo para a dor atingir seu pico de intensidade Periodicidade: dores faciais podem ser constantes ou podem ocorrer de forma paroxística, com remissões associadas Ritmo Fenômenos acompanhantes, físicos e neurológicos Fatores de melhora, fatores de piora e fatores desencadeantes Variações sazonais Tratamento atual e passado, de caráter efetivo ou não História familiar Relação com padrão de sono Perfil emocional Grau de incapacidade decorrente da dor. Posteriormente, devemos fazer um exame clínico o mais completo possível, com especial atenção à: Pressão arterial Temperatura Palpação de cabeça, à procura de pontos dolorosos e com deformações que possam nos sugerir hematoma, tumor, abscesso Ausculta da cabeça, que deve ser feita em todo o crânio e nos olhos (com a campânula do estetoscópio). A presença de sopro pode sugerir malformações arteriovenosas (MAV), tumor hipervascularizado, fístula arteriovenosa, estenose arterial Percussão de cabeça, que pode mostrar áreas de hipersensibilidade, indicando processo subjacente (p. ex., dor viva à percussão de região dos seios da face) Palpação e ausculta de carótidas e vertebrais Palpação de artérias temporais superficiais, à procura de um espessamento desta artéria, diminuição de pulso e inflamação, sugestivos de arterite temporal Avaliação ocular completa, incluindo palpação dos globos oculares, que pode ser dolorosa em casos de glaucoma Palpação cuidadosa de musculatura: facial, mastigatória (extra e intrabucal), periorbitária, temporal, cervical e do trapézio, já que uma causa importante de cefaleia referese às patologias miofasciais craniana e cervical Avaliação completa de orelhas, nariz, garganta e região cervical, incluindo percussão dos seios da face (dolorosa nas sinusopatias inflamatórias), abertura e fechamento da boca (examinando as cavidades oral e faríngea, analisando a articulação temporomandibular e examinando a musculatura pterigóidea intraoralmente), otoscopia (afastando otites) e percussão da região mastóidea (presente em mastoidites) Avaliação de todos os nervos cranianos, com avaliação das partes sensitiva e motora. Posteriormente, fazemos um exame neurológico minucioso, no qual iremos procurar algum indício de déficit de função neurológica. Obrigatoriamente, devemos realizar no exame neurológico: Análise de fundo de olho Pesquisa de sinais meníngeos. Algumas observações são necessárias nesta avaliação inicial. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ • • • • ■ Dores agudas e crônicas são diferentes? Os acompanhamentos comportamentais da dor aguda (perspiração, choro, agitação), são considerados indicadores “objetivos” da gravidade da dor. Entretanto, o processo de adaptação ocorre com a dor, assim como com outras sensações. Quando a dor dura semanas ou meses, os pacientes adaptamse aos sintomas para poder funcionar dentro dos limites de sua capacidade, tanto por distração, estoicismo ou melhora farmacológica. Às vezes, eles parecem não ter dor ou problemas. Este processo de adaptação torna o desconforto menos visível socialmente e, às vezes, resulta em dúvida por parte do médico da veracidade da dor do paciente. Isto ocorre devido à falta de apreciação de importante diferença entre as dores aguda e crônica. A avaliação da gravidade da dor pode ser obtida conversando com o paciente, além de examinálo: perguntar sobre as limitações funcionais, avaliar a perda do prazer em atividades agradáveis, interferência no sono, grau de melhora obtida com analgésicos. Tudo isto é fundamental para avaliar a intensidade da dor. Pacientes que afirmam ter dor devem ter crédito até que simulação seja verificada. Resposta ao placebo é irrelevante, já que melhora com placebo ocorre em porcentagem importante de pacientes com cefaleia. Também não há evidência que os que respondem ao placebo têm menor nível de dor que os que não respondem. O padrão da cefaleia pode nos dar pistas sobre a etiologia? Como enfatizado por Rothner,1 o padrão temporal é extremamente importante no diagnóstico das cefaleias, mesmo quando se referem a dores faciais. Assim: Cefaleia aguda emergente: nos pacientes que não apresentavam dor e passam, subitamente, a apresentar dor facial, temos que pensar prioritariamente em causas secundárias de dor: primeiro ataque de enxaqueca, sinusite, glaucoma agudo, dissecção arterial aguda (p. ex., carótida interna) e outras síndromes arteriais agudas, trauma craniano, trombose de seio cavernoso, dores de origem odontológica. Existem condições que podem originar dor aguda, porém frequentemente têm um início mais subagudo: enxaqueca (primeira crise de enxaqueca), sinusite e celulite periorbitária, trombose venosa cerebral, neurite óptica, vasculites Cefaleia aguda recorrente: suas causas principais são enxaqueca, cefaleia em salvas (raro em crianças), tique doloroso (raro em crianças), cefalalgia cardíaca. De maneira geral, dores faciais agudas recorrentes têm maior tendência à primariedade que à secundariedade Cefaleia crônica progressiva: geralmente indicam secundariedade. Suas causas são neoplasias, arterites, doenças de coluna cervical e transição occipitocervical, sinusite, infecções do sistema nervoso central, hemicrania contínua (forma de cefaleia primária, descrita por Sjaastad e Spierings,2 indometacinaresponsível. É unilateral, contínua, de moderada a forte, com poucos fenômenos autônomos associados, com caráter em pontadas e, às vezes, relacionadas a exercício físico) Cefaleia crônica não progressiva: pode ser relacionada ao uso crônico de analgésicos, pseudotumor cerebral ou problema psicológico subjacente: neoplasias, distúrbios oromandibulares, problema oftalmológico, espondilose cervical, estados psiquiátricos, cefaleia tipo tensão e dor facial atípica com ou sem uso abusivo de analgésicos. Quando fazer investigação radiológica e laboratorial em pacientes com cefaleia? Tratase de pergunta difícil de responder, já que a cefaleia é um sintoma extremamente comum e investigações radiológicas e laboratoriais rotineiras certamente seriam incompatíveis com a realidade econômica de qualquer país. Nada mais adequado que um seguimento clínico adequado e uma avaliação da resposta terapêutica para podermos optar pela melhor conduta para cada paciente. A opção de investigação deve se basear na impressão diagnóstica inicial, em que classificaremos o paciente como portador de cefaleia primária ou secundária. Se nossa impressão é de cefaleia secundária, evidentemente teremos de realizar exames subsidiários, cuja natureza vai depender do tipo de patologia admitida. Porém, um dos grandes problemas na abordagem dos pacientes com cefaleia é se devemos ou não investigar pacientes com este sintoma e cujo exame clíniconeurológiconada demonstra. No Ambulatório de Cefaleia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, pelo qual fomos responsáveis Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ▶ ■ • • • ■ • • • durante muitos anos, dores em que existe significativo componente facial necessitam investigação, pois temos de afastar secundariedade nessas situações. Há um exame de imagem mais eᱫciente? Evidentemente, a investigação vai depender da correlação dos dados de anamnese, exame clínico e exame neurológico. Na suspeita de uma arterite temporal, exames simples, como hemograma completo, velocidade de hemossedimentação (VHS), proteína C reativa, são mais importantes que custosos exames de imagem. Se existir necessidade de exame de imagem, a ressonância nuclear magnética tem se tornado ferramenta importante de investigação. Realizada a investigação de um tipo de cefaleia, o achado de alterações nos exames subsidiários determina deᱫnitivamente o diagnóstico? Como a cefaleia é um sintoma extremamente comum, temos que fazer uma correlação clínicolaboratorial em todos os pacientes, pois muitas vezes aparecem alterações nos exames subsidiários que não se relacionam ao quadro clínico. Esta situação é extremamente comum. Assim, temos visto muitos pacientes portadores de enxaqueca, pelo fato de apresentarem um espessamento da mucosa dos seios paranasais, serem tratados erroneamente como portadores de sinusopatia. Mesmo pacientes com tomografia cerebral computadorizada mostrando, às vezes, alterações que não se relacionam com o quadro têm sido observadas. Um achado de alteração em articulação temporomandibular na ressonância nuclear magnética não significa necessariamente que esta é a causa do problema. Algoritmo de decisão para diagnóstico em cefaleia Os dados discutidos previamente nos permitem tratar um algoritmo de decisão para chegarmos ao diagnóstico mais preciso possível na área de cefaleia. Qual é o diagnóstico localizatório principal da dor? A cefaleia pode ser: Craniana: a maior parte das cefaleias primárias é craniana Facial: componente facial de dor predominante aponta para cefaleia secundária Dor referida: importante lembrar que dores cefálicas podem ser referidas de outros pontos, tanto próximos (como é o caso da cefaleia cervicogênica), como distantes (quadros semelhantes à dor facial atípica podem ser determinados por patologias torácicas, sejam elas cardíacas, como angina com dor referida em face, ou pulmonares, como tumores pulmonares). Abraham e Capobianco chamam a atenção para realização de raio X de tórax em todo paciente portador de dor facial atípica, pela possibilidade de associação com neoplasia pulmonar.3 Qual é o tipo da dor? A dor pode ser: Nociceptiva: o paciente queixase de dor em aperto, pulsátil, cruciante, em pontada, contínua. Ocorre nas cefaleias primárias e na maior parte das cefaleias secundárias Neuropática: o paciente normalmente se queixa de dor/sensação contínua em queimação ou ardência, geralmente mal localizada e mal definida, dores/sensações súbita(s) de dor em pontada ou lancinante, sensação de choques elétricos e parestesias (“formigamento”). É importante lembrar que alodinia (interpretar um estímulo não nociceptivo como nociceptivo) pode ocorrer em dores nociceptivas. Assim, muitas vezes, em casos de cefaleia do tipo tensional ou de disfunção oromandibular, podemos observar alodinia na musculatura envolvida. A dor neuropática ocorre quando o processo patológico básico envolve o sistema nervoso, seja periférico (herpes zóster, neuropatia diabética, neuralgia trigeminal e outras) ou central (lesões talâmicas) Mista: eventualmente, o paciente pode referir dores de ambos os tipos. Nas cefaleias ligadas às neoplasias, seja Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • ■ ■ • • • – – – – – – ■ ▶ • • • – – – – • – – pelo próprio processo ou pelo tratamento efetuado (radio e/ou quimioterapia), muitas vezes, ocorrem esses dois tipos de cefaleia Psicogênica: embora o envolvimento psíquico na dor seja bastante frequente, considerar a dor como fenômeno delusional é o último diagnóstico que devemos fazer diante do paciente com cefaleia. Há lateralidade na dor? Devemos caracterizar se a dor é bilateral, unilateral variável (enxaqueca) ou unilateral estrita (cefaleia em salvas, cefaleia cervicogênica, hemicrania contínua, neuralgia trigeminal). Caracterizada a cefaleia primária, em qual tipo ela se encaixa no contexto de dores faciais? As cefaleias primárias são representadas principalmente por: Enxaqueca Cefaleia tipo tensão Cefaleia em salvas e outras cefalalgias trigêminoautonômicas Cefaleia em salvas episódica Cefaleia em salvas crônica Hemicrania paroxística crônica Hemicrania paroxística episódica Síndrome SUNCT Hemicrania contínua. Há uso abusivo de analgésicos? O uso de analgésicos na dor é atitude correta. Existem evidências de que nas cefaleias primárias o uso abusivo pode determinar piora da cefaleia básica e instalação de fenômeno de tolerância/dependência. Principais diagnósticos diferenciais de dores faciais Em 1988, com reformulação em 2004, a International Headache Society estabeleceu uma classificação que embora apresente algumas imperfeições, é instrumento muito importante para o diagnóstico diferencial dos vários tipos de cefaleia.4,5 Esta classificação divide as cefaleias em dois grupos principais: Cefaleias primárias, nas quais a dor de cabeça é o problema, não sendo representativas de outras patologias, nas quais a cefaleia é sintoma acompanhante Cefaleias secundárias, que nas quais a cefaleia representa sintoma de patologia estrutural, cujo diagnóstico é necessário para que um tratamento adequado do paciente seja feito. Existem vários tipos de cefaleias primárias e secundárias; a seguir apresentamos os principais diagnósticos diferenciais: Cefaleias primárias Enxaqueca Cefaleia tipo tensão Cefaleia em salvas e outras cefalalgias trigêmino autonômicas Outras cefaleias primárias. Cefaleias secundárias Cefaleia atribuída a trauma craniano/cervical Cefaleia atribuída a distúrbio vascular craniano ou cervical Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce – – – – – – • – – • • ▶ ■ • • • • Cefaleia atribuída a doenças intracranianas não vasculares Cefaleia atribuída a substâncias ou sua retirada Cefaleia atribuída à infecção Cefaleia atribuída a distúrbios da homeostase Cefaleia ou dor facial atribuída a distúrbios de crânio, pescoço, olhos, orelhas, nariz, dentes, boca ou outras estruturas faciais ou cranianas Cefaleia atribuída a transtornos psiquiátricos. Neuralgias cranianas, dores faciais primárias e centrais e outras dores de cabeça Neuralgias cranianas e causas centrais de dor facial Outras cefaleias, neuralgias cranianas, dores faciais centrais ou primárias. Um aspecto importante é que nas cefaleias primárias a dor costuma ter localização craniana e não facial. Deste modo, a diferenciação com cefaleias de origem odontológica é relativamente fácil. Porém, temos de considerar dois aspectos ao tentar estabelecer o diagnósticodiferencial da cefaleia em um determinado paciente: Dores causadas por cefaleias primárias podem apresentar manifestações faciais da dor Dores de origem odontológica, devido ao caráter frequentemente visceral da dor, podem apresentar localização pouco precisa e, por mecanismo de dor referida, apresentar o fenômeno doloroso distante do ponto afetado pelo processo patológico. Isto pode afastar o profissional médico ou odontologista do verdadeiro diagnóstico. Mecanismos associados de dor, frequentemente miofasciais, podem gerar sintomatologia dolorosa diferente das manifestações clássicas de dor odontológica, confundindose com cefaleias primárias, principalmente cefaleia de tipo tensional. Cefaleias primárias Enxaqueca Tratase de complexo sintomatológico caracterizado por várias fases. Estas manifestações apresentam caráter repetitivo (nas formas sem aura há necessidade de cinco crises e nas formas com aura, apenas duas crises). As várias fases de uma crise de enxaqueca completa são: Fase prodrômica: ocorre em 25% dos pacientes, iniciandose até 24 h antes da instalação do quadro doloroso. Malestar geral, sonolência, excitação e alteração do apetite fazem parte desta fase Aura: ocorre em 25% dos casos e caracterizase por fenômeno neurológico transitório, com duração de 5 a 60 min, indicando disfunção de estruturas encefálicas. Os fenômenos mais comuns são visuais (espectro de fortificação, fosfenas), parestesias, alterações de fala, incoordenação, diplopia e hemiparesia Cefaleia: caráter pulsátil, geralmente unilateral (ora de um lado, ora de outro), intensidade moderada a intensa, piorando com atividade física, e acompanhada de náuseas, vômitos, foto e fonofobia Fase de recuperação: com duração de 24 h ou mais. As manifestações clínicas são semelhantes às da fase prodrômica, com progressiva volta do paciente à normalidade. Existem pacientes que apresentam formas com dor irradiandose para a face, podendo simular processos odontológicos. Porém, o quadro clínico complexo, a repetitividade das manifestações e a ausência de sintomas entre as crises facilitam o diagnóstico diferencial. Outra possibilidade é a já aventada por Namazi há muitos anos.6 Ele apresentou o caso de uma mulher de 35 anos, com história de 12 anos de duração de dores de caráter intermitente, em agulhadas, na região do dente canino inferior esquerdo. A dor tinha duração de 7 a 8 h, de intensidade leve a forte, com irradiação para o hemicrânio ipsilateral. O dente foi extraído sem sucesso. Durante os episódios, ela apresentava náuseas e fonofobia. Diminuição dos anticoncepcionais e uso de medicações antienxaquecosas levaram à grande melhora do quadro. Temos acompanhado alguns pacientes com estas características, em que a enxaqueca se expressa por dor na metade inferior da face. A International Headache Society não admite esta entidade. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ • • • • • • • • – ■ ■ ■ ■ ■ – ■ ■ ■ ■ ■ ■ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ ♦ • • Cefaleia de tipo tensional É a forma mais prevalente de cefaleia na população. Pode apresentarse sob a forma episódica (ocorrendo menos de 180 dias por ano) ou crônica (ocorrendo por 180 ou mais dias por ano). A dor tem caráter em pressão, a intensidade costuma ser leve a moderada, não existe piora com a atividade física e tem tendência a ser bilateral. Náuseas, vômitos, foto e fonofobia não costumam ocorrer em associação. Muitos pacientes apresentam hipersensibilidade muscular à palpação. A dor e a hipersensibilidade podem afetar regiões occipitais, parietais, frontais ou temporais. Quando regiões temporais são afetadas, muitas vezes, o diagnóstico diferencial com patologias da articulação temporomandibular deve ser feito. O que encontramos frequentemente é a cefaleia de tipo tensional como fenômeno associado a patologias odontológicas. Assim, paciente com dor de origem odontológica apresenta associadamente dor tipo tensional (p.ex., na nuca). Cefaleia em salvas e outras cefalalgias trigêmino-autonômicas Cefaleia em salvas é predominante no gênero masculino e apresenta várias características clínicas: Dor unilateral muito intensa (“cruciante”) Localização ao redor do olho em 60% dos casos Pode ter irradiação para outros locais, inclusive para arcada dentária e região occipital Dor em ataques paroxísticos de curta duração (15 min a 2 h) Frequência dos ataques (1 a 3, podendo chegar a 8 por dia) São comuns ataques noturnos (mais de 50%) Extrema inquietação Presença de fenômenos autônomos associados Mais comuns Lacrimejamento Congestão conjuntival Congestão nasal Rinorreia Síndrome de Claude BernardHorner parcial. Menos comuns Salivação Náuseas Edema palpebral Congestão da face Hiperidrose frontal Padrões temporais nos ataques Forma episódica (80% dos casos) Com períodos de remissão de 1 a 2 anos Duração média da salva é de 4 a 8 semanas Forma crônica (10% a 20% dos casos) Sem remissões ou remissões < 14 dias Pode evoluir da forma episódica ou já se iniciar primariamente como crônica Formas mistas ou de periodicidade indeterminada. Uma forma relacionada, porém com caráter único pelo fato de ter resposta terapêutica importante à indometacina (uma das assim chamadas cefaleia indometacinaresponsíveis), é a hemicrania paroxística, com duas variedades, crônica e episódica: Descrita por Sjaastad, em 19747 Entidade rara Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • • • ■ • • • • ■ • • • ▶ ■ ■ Padrão semelhante à cefaleia em salvas, porém modificado Dor unilateral de duração mais curta (10 a 15 min) Frequência diária dos ataques mais alta (> 5 crises/dia) Presença de alterações autonômicas Desencadeada por estímulos mecânicos cervicais Resposta absoluta à indometacina – iniciar com 25 mg/dia, com doses até 100 a 150 mg/dia Crises sem (forma crônica) ou com (forma episódica) períodos de acalmia. Esta última forma, às vezes, pode simular dores episódicas encontradas em certos casos de pulpite. Calderaro et al. descreveram caso de pulpite mimetizando clinicamente hemicrania paroxística episódica.8 Síndrome SUNCT Crises de dor de cabeça pulsátil ou em pontada, de localização unilateral, orbitária, supraorbitária ou temporal, durando 5 a 240 s É acompanhada de injeção conjuntival e lacrimejamento ipsilateral Frequência das crises de 3 a 200/dia Não atribuível a outro distúrbio. Miscelânea Existem várias formas de cefaleia primária que se diferenciam das descritas anteriormente. Assim, podemos citar: Cefaleia em pontadas Cefaleia ligada a estímulos frios: assim, a “cefaleia do sorvete” caracterizase por episódios de cefaleia iniciada logo após ingestão de alimentos gelados, durando em torno de 5 min e iniciandose no pilar amigdaliano e irradiandose para a região parietal ipsilateral Cefaleias de esforço: embora as cefaleias em que existe o componente de esforço (tosse, esforço físico, atividade sexual) possam estar relacionadas às patologias intracranianas (malformações da transição occipitocervical, tumores,malformações vasculares), a maior parte delas é primária. Este tipo de cefaleia necessita ser investigada, apesar de a mesma ser negativa na maioria dos pacientes. Além da indometacina, os betabloqueadores (propranolol) podem ser utilizados. Vernay et al. descrevem curioso caso de cefaleia de esforço que aparecia ao caminhar e que demonstrou ser manifestação de doença isquêmica cardíaca.9 Lipton et al., Tomcsanyi et al. fazem relatos semelhantes.10,11 Cefaleias secundárias Cefaleia atribuída a trauma craniano/cervical Todo paciente com antecedente de trauma craniano recente e cefaleia deve ser investigado, no sentido de afastar patologia intracraniana expansiva. Porém, muitas vezes, temos cefaleia sem nenhuma lesão estrutural determinante evidente. Quando a dor ocorre até 15 dias após retorno da consciência após o trauma, podemos estar diante do que chamamos de cefaleia póstraumática. Dores faciais podem ocorrer nesta situação, muitas vezes apresentando manifestações sugestivas do que chamamos de dor facial atípica. Cefaleia atribuída a distúrbio vascular craniano ou cervical Neste grupo de entidades, a patologia que deve ser diferenciada por simular dores de origem odontológica é a arterite temporal. As manifestações clínicas características estão expostas na Tabela 3.1. GonzalesGay et al. e Gur et al. referem um aumento da incidência desta patologia nos últimos anos, além de referirem manifestações atípicas Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ ■ (envolvimento pulmonar em 5% dos pacientes). Lee descreve casos de ulceração de língua na arterite temporal.12,13 Venna et al. descreveram casos de aterosclerose de carótidas interna e externa, com quadro clínico semelhante à arterite temporal, inclusive com claudicação de mandíbula. Houve melhora com endarterectomia.14 Glutz von Blotzheim e Borruat observaram que, nos casos com complicações oftalmológicas, muitos tiveram afecção de vários territórios arteriais, diferentemente da neuropatia óptica isquêmica não arterítica.13 Também orientam que a biopsia da artéria temporal superficial deve ser feita e o uso de corticosteroide deve ser iniciado, mesmo com VHS normal, caso haja isquemia de coroide. O valor normal da VHS pelo método de Westergren pode ser definido pela seguinte regra: nos homens, idade dividida por 2; e nas mulheres, idade + 10 dividida por 2. O diagnóstico é feito basicamente por biopsia (que deve ser feita retirandose fragmentos grandes da artéria, devido ao caráter segmentar da patologia) e achado de alterações em exames laboratoriais (VHS aumentada, anemia normocrômica, proteína C reativa positiva, trombocitose, aumento de fosfatase alcalina). Na arterite temporal (no idoso), VHS normal ou levemente aumentada é vista em 25% dos pacientes. Geralmente, os valores são de 60 a 120 mm Westergren. Para o diagnóstico, utilizase o duplex scan colorido da artéria temporal superficial. Schmidt et al. publicaram há muitos anos artigo demonstrando sinais característicos que podem ser vistos por este exame.15 O sinal mais específico é um halo escuro em torno da artéria, provavelmente causado pelo edema da parede da artéria. Diante desse achado, em paciente com quadro clínico sugestivo, o diagnóstico de arterite temporal deve ser feito e o tratamento deve ser iniciado, mesmo sem biopsia da artéria. O tratamento é feito basicamente pelo uso de corticosteroides (prednisona) por tempo prolongado. Tabela 3.1 Manifestações clínicas da arterite temporal no seu início. Frequentes (> 50% dos casos) Ocasionais (10% a 50% dos casos) Raros (< 10% dos casos) Cefaleia (temporal, frontal, vértice, generalizada, occipital) Sintomas visuais Cegueira Artéria temporal super䎠cial dolorosa à palpação Perda de peso Claudicação de extremidades Febre Claudicação de língua Mialgias proximais Dor de orelha Claudicação de mandíbula Sinovite Dor facial Doença cerebrovascular Couro cabeludo sensível Angina Cefaleia atribuída a doenças intracranianas não vasculares Neste grupo estão incluídos os tumores cerebrais, os distúrbios de pressão liquórica, as meningites, as encefalites, as doenças inflamatórias das meninges e do sistema nervoso central. Devido à ocorrência de manifestações envolvendo o sistema nervoso central, de forma geral, não existe problema no diagnóstico diferencial com patologias odontológicas. Cefaleia atribuída ao uso de substâncias ou à sua suspensão Todo paciente portador de cefaleia deve ser submetido a cuidadoso inquérito sobre as drogas utilizadas, lícitas ou ilícitas. Devemos chamar a atenção para a cafeína e os analgésicos comuns, os quais podem ser fatores que determinam a perpetuação de certas formas de cefaleia e a instalação da chamada cefaleia crônica diária. Cefaleia atribuída à infecção Eventualmente, a cefaleia pode representar manifestação clínica de infecção não situada no segmento cefálico. Na dúvida, investigações adequadas devem ser feitas para afastar tal possibilidade. Cefaleia atribuída a distúrbios da homeostase Doenças metabólicas (hipoglicemia, hipercapnia) podem causar cefaleia, porém não criam problemas para o Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ • • – – – • – – – – • • • • • • • • • • • • • – – – • • – – – • ■ diagnóstico diferencial com dores de origem odontológica. Cefaleia ou dor facial atribuída a distúrbios de crânio, pescoço, olhos, orelhas, nariz, dentes, boca ou outras estruturas faciais ou cranianas Osso craniano Pescoço Cefaleia cervicogênica Tendinite retrofaríngea Distonia craniocervical. Olhos Glaucoma agudo Erros de refração Heteroforia ou heterotropia Distúrbio inflamatório ocular. Orelhas Cefaleia atribuída à rinossinusite Dentes, mandíbula e estruturas relacionadas Doença da articulação temporomandibular. As características principais são: Dolorimento sobre qualquer uma das articulações, que piora com mastigação, fala e ao mascar chicletes Dor não pulsátil, às vezes, em queimação e, muitas vezes, irradiandose para o crânio e a orelha ipsilateral Existem vários fatores associados: mastigação predominantemente de um lado da boca, falha dentária, má oclusão, bruxismo, uso frequente de alimentos de difícil mastigação Tratamento frequentemente é multidisciplinar, envolvendo odontologista, medicações antiinflamatórias não hormonais, compressas quentes e exercícios de relaxamento. Nos casos em que a cefaleia é atribuída a outros distúrbios das estruturas mencionadas anteriormente, chamamos a atenção para: Patologias oculares: eventualmente, dores miofasciais originadas em musculatura mastigatória (pterigóideos internos e externos) podem acarretar dor referida na cavidade orbitária Orelhas: eventualmente, otalgias podem se manifestar como dor na mastigação, simulando patologias da ATM Nariz e seios de face: o quadro de sinusopatia determina quadro de cefaleia quando há agudização do processo. Mesmo nos casos de sinusopatia crônica, só existirá dor na vigência de agudização. Existem vários critérios para o estabelecimento do quadro de sinusopatia aguda. O quadro que mais simula odontalgia é o da sinusopatia maxilar Corrimento nasal purulento espontâneo ou por sucção Achados patológicos em um ou mais dos seguintes testes Exame de raios X Tomografia computadorizadado crânio ou ressonância magnética Transiluminação. Início simultâneo da cefaleia e da sinusite Localização da cefaleia Sinusite frontal aguda: diretamente sobre o seio e pode se irradiar para o vértice ou para trás dos olhos Sinusite maxilar aguda: sobre a área do antro e pode se irradiar para os dentes superiores ou para a fronte Sinusite esfenoidal aguda: região occipital, vértice, região frontal ou atrás dos olhos. Desaparece após tratamento da sinusite aguda. Cefaleia atribuída a transtornos psiquiátricos Já discutimos este grupo na categorização dos tipos de dor. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ • • • • • • • • • • Neuralgias cranianas e causas centrais de dor facial Definimos uma dor como sendo de caráter neurálgico quando ela tem caráter paroxístico, curta duração, geralmente é em forma de choque e se distribui pelo território cutâneo de um determinado nervo. Na face, a mais encontrada é a neuralgia do trigêmeo. Toda dor que não obedece a esses critérios não deve ser considerada como neuralgia. Nas formas ditas essenciais, geralmente, existem o que chamamos de pontosgatilho (trigger points), que são áreas que, quando estimuladas, mesmo por estímulos tão leves como o vento, podem desencadear o fenômeno doloroso. Normalmente, a dor é unilateral, embora, em pacientes jovens, portadores de esclerose múltipla, ela possa ser bilateral. No idoso é geralmente causada por alças vasculares comprimindo o nervo trigêmeo intracraniano. Em pacientes jovens pode ser decorrente de: mieloma, meningioma, colesteatoma, aneurismas. Porém, alguns pacientes portadores de neuralgia trigeminal, com resposta a medicamentos para tal quadro, podem eventualmente apresentar lacrimejamento, que também responde a estas medicações. De tal forma, as relações entre neuralgia do 1o ramo e a síndrome SUNCT não estão claras.16 Há uma série de outras neuralgias com afecção de outros nervos: neuralgia glossofaríngea, neuralgia do nervo intermédio, neuralgia do nervo laríngeo superior, neuralgia nasociliar, neuralgia supraorbitária. Os quadros de neuralgia, principalmente do nervo trigêmeo, são tratados inicialmente com medicações: carbamazepina, difenilhidantoína, clonazepam, oxcarbamazepina, pimozida, baclofeno, gabapentina. Às vezes, usamos associações destas substâncias, no sentido de melhorar a eficácia terapêutica. No caso de insucesso, encaminhamos os pacientes para procedimentos neurocirúrgicos. Porém, um tipo de dor neuropática muito frequente e que, nas fases iniciais, pode confundir muito o odontologista ou o médico é a neuropatia causada pelo vírus da varicelazóster. Muitas vezes a dor, de caráter nociceptivo e neuropático, se inicia, mesmo antes das erupções vesiculares (que eventualmente podem nunca aparecer – zoster sine herpete). Posteriormente, pode ocorrer a chamada neuralgia pósherpética, em que a dor persiste por 1 a 6 meses após a erupção aguda do herpeszóster. O tratamento envolve normalmente medidas clínicas, como antidepressivos, anticonvulsivantes, antivirais e corticosteroides. Dentro deste grupo, chamamos também a atenção para a dor facial persistente idiopática, antigamente denominada dor facial atípica. Afeta basicamente adultos, do gênero feminino, e é sempre um diagnóstico de exclusão. O paciente refere dores em território trigeminal, porém sem obedecer à distribuição metamérica tradicional. A duração da dor é longa, geralmente se prolongando por todo o dia, e pode ser contínua. A dor, muitas vezes, é unilateral. Devemos ressaltar a importância de não deixar de avaliar a possibilidade de patologias torácicas (neoplasias pulmonares), determinando dores com caráter de dor facial persistente idiopática por mecanismo de dor referida. O exame físico é totalmente normal. A International Headache Society define esta entidade da seguinte forma: Está presente diariamente e persiste na maior parte do dia ou o dia todo É confinada, no início, a uma área limitada de uma hemiface. Pode irradiarse para o maxilar superior ou inferior ou para uma área mais ampla da face ou do pescoço. É profunda e mal localizada Não é associada à perda sensitiva ou outros sinais físicos Investigações laboratoriais, incluindo raio X de face e de mandíbula não demonstram anormalidades relevantes. Comentário: a dor pode se iniciar após cirurgia ou trauma de face, dentes ou gengivas, porém persiste sem qualquer causa demonstrável. Outra entidade importante é a síndrome de Eagle. As principais características dessa síndrome são: Alongamento do processo estiloide (> 4 cm, incluindo o processo estiloide e ligamentos) Dor de caráter contínuo ou paroxístico, muitas vezes desencadeada pela deglutição Dores parietal, ocular, facial, cervical e da região auricular Sensação de corpo estranho na garganta, dor durante deglutição, fala, canto e bocejo Diagnóstico: palpações interna e externa Confirmação: radiológica. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. ▶ Referências bibliográᱫcas ROTHNER, A. D. Headaches in children and adolescents. Semin Pediatr Neurol, v. 8, n. 2, p. 26, 2001. SJAASTAD, O.; SPIERINGS, E. L. 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As dores faciais envolvem múltiplas especialidades médicas e odontológicas, e até mesmo o concurso de outros profissionais para diagnóstico e tratamento. O diagnóstico preciso deve identificar não só a doença causal, bem como o tipo e o tempo de dor, além de vários outros aspectos que serão utilizados no planejamento do tratamento. A dor orofacial de origem neuropática tem tratamento diferente da dor articular ou da dor muscular que resulta em disfunção mandibular, e assim por diante. A distinção entre dores aguda e crônica é fundamental. Além disso, alguns tratamentos são puramente sintomáticos e podem ser a melhor ou a única opção para o controle da dor, principalmente da dor crônica. Alguns pacientes têm históricos complexos de saúde; outros têm síndromes álgicas complexas e exigem abordagem multidisciplinar e, em outras ocasiões, procedimentos tecnologicamente avançados, como estimulação magnética transcraniana (TMS) ou toxina botulínica, que nem sempre estão disponíveis em todo serviço de dor. Esclarecimento, placas de mordida, medidas fisioterápicas e, em casos selecionados, medicamentos são comuns no tratamento das disfunções temporomandibulares (DTM) e estão entre as opções terapêuticas mais simples; entretanto, muitas outras podem ser necessárias, pois as DTM têm origem multifatorial e, portanto, diferentes tratamentos. Os medicamentos adjuvantes, como os antidepressivos tricíclicos, constituem a linha de frente do tratamento da dor crônica em geral e, particularmente, das dores neuropáticas. Tratamentos odontológicos e cirurgias Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ■ ■ ■ odontológicas ou neurológicas têm indicações específicas. Orientação dos doentes, esclarecimento e identificação dos fatores perpetuantes, sejam oclusais, posturais, emocionais, psiquiátricos ou médicos, são medidas também indispensáveis para o controle da dor crônica. Na dor crônica é fundamental estabelecer todos os fatores envolvidos, sejam sensitivos, sejam afetivos. A decisão terapêutica deve levar em conta o diagnóstico, mas também outros fatores relevantes para o controle da dor: tempo de dor (aguda ou crônica); tipo de dor (inflamatória, neuropática ou mista); natureza da dor (dentes, músculos, articulações, nervo etc.); distribuição e localização da dor; presença de doenças crônicas ou mórbidas associadas, físicas ou mentais (depressão); fatores contribuintes ou perpetuantes da dor; e o próprio prognóstico do paciente. É necessário também estabelecer os riscos e os benefícios de cada intervenção de modo individualizado, além de estabelecer o risco médico do tratamento odontológico ou da dor orofacial quando o paciente tem doenças sistêmicas crônicas, transtornos psiquiátricos ou mesmo quando sua condição álgica é considerada complexa, como em algumas dores neuropáticas ou cefaleias primárias. A adesão do paciente ao tratamento é indispensável para o sucesso do tratamento e deveria ser avaliada permanentemente. Planejamento do tratamento de pacientes com disfunções temporomandibulares O tratamento de pacientes com dores crônicas na face pode exigir planejamento, de modo semelhante ao que se faz nas especialidades odontológicas. Para isso, diversos fatores devem ser considerados: natureza, tempo, tipo e localização da dor, presença de morbidades associadas e de fatores perpetuantes, prognóstico da dor e adesão do paciente ao tratamento recomendado. Natureza da dor O diagnóstico preciso é o primeiro passo para sua cura ou seu controle. Embora os medicamentos sejam de uso comum no tratamento da dor, a escolha do grupo terapêutico, a dosagem e o tempo de uso dependem do diagnóstico e das características de cada caso. Nas dores dentais, o tratamento é essencialmente operatório ou cirúrgico; já nas dores musculoesqueléticas, como na dor e na disfunção mandibular, geralmente é fisioterápico. Nas dores neuropáticas, o tratamento é essencialmente medicamentoso e, em alguns casos, neurocirúrgico. Tipos de dor O diagnóstico causal ou nosológico da dor torna possível compreender a origem das alterações sensitivo discriminativas da dor, sendo fundamental para a escolha inicial do tratamento. Tempo da dor Nas dores agudas, o tratamento busca encontrar as causas da dor. Pulpites, traumatismos musculoesqueléticos e fraturas são alguns bons exemplos. A inflamação é o principal componente da dor aguda. É mais intensa no início e cessa com a cicatrização dos tecidos. Os medicamentos indicados são os analgésicos e antiinflamatórios, tendo como objetivo dar conforto ao paciente e reduzir a sensibilização central. Outras medidas úteis na dor aguda são repouso ou redução da atividade mandibular e dieta adequada. Nos traumatismos agudos da articulação temporomandibular (ATM) ou dos músculos da mastigação, a placa de mordida reduz a hiperalgesia mecânica intra articular, sendo indicado seu uso no período da inflamação, associado ou não a medicamentos e demais medidas citadas anteriormente. Na dor crônica, o uso de medicamentos pode ser amplo e prolongado, e os analgésicos adjuvantes são os de eleição. Transtornos psiquiátricos ou psicológicos são comuns nesses pacientes e necessitam de tratamento especializado. Monitoramento permanente é uma necessidade nesses pacientes. Sempre que a dor for persistente ou refratária, o paciente deve ser reavaliado minuciosamente, pois, além da doença principal, podem surgir outras causas de dor. Devese ficar atento à possibilidade de recidivas das crises em pacientes com dor crônica controlada, o que pode sinalizar agudização da doença. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ ■ ■ ■ Dor aguda e dor crônica A dor aguda é essencialmente inflamatória ou nociceptiva, e o melhor exemplode dor crônica é a neuropática. É possível que esses tipos de dor ocorram concomitantemente em um mesmo segmento do corpo (p.ex., neuralgia de trigêmeo com dor e disfunção mandibular ou pulpite). Quando coexistem, os tratamentos são diferentes e devem ser individualizados; entretanto, pode haver necessidade de definir prioridade de tratamento. Durante o curso do tempo e da própria doença, como o exemplo da neuralgia do trigêmeo, combinações distintas podem ocorrer, exigindo atenção profissional tanto do neurologista quanto do cirurgiãodentista. Além disso, em paciente com dor crônica controlada podem surgir outras dores agudas, como dor de dente, sinusite ou cefaleia. Em suma, pacientes com dor orofacial crônica, mesmo sob controle, devem ser reavaliados periodicamente e, em especial, nos períodos de crises ou de recidivas da dor. Localização da dor A complexidade, tanto de diagnóstico quanto de tratamento, geralmente é diferente em casos de dor recente localizada exclusivamente na face do que de paciente com histórico de lombalgia ou fibromialgia e que também tem dor na face. Além dos aspectos sensitivos envolvidos, um paciente com histórico de dor crônica pode apresentar alterações afetivocomportamentais ou presença de morbidades associadas na área da saúde mental, como a depressão, as quais deveriam ser consideradas tanto no tratamento quanto no prognóstico do paciente. Morbidades associadas Nos idosos aumenta a frequência de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, cardiopatias, artropatias etc. Esse histórico deve ser considerado tanto para o diagnóstico da dor facial quanto para seu tratamento, pois, dependendo da gravidade da doença sistêmica, também pode variar o risco das intervenções. Outras doenças crônicas, por exemplo, diabetes, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, anemia falciforme e AIDS, podem ter manifestações orofaciais dolorosas, podendo afetar dentes, músculos da mastigação e ATM. Quando isso ocorre, é necessário o controle da doença sistêmica. O tratamento passa a ser multidisciplinar, envolvendo tanto o controle da doença crônica pelo médico quanto o controle de doenças musculoesqueléticas locais pelo cirurgiãodentista. Em geral, o tratamento odontológico desses pacientes seguirá os protocolos para atendimento odontológico de pacientes com necessidades especiais, avaliando riscos e benefícios dos tratamentos tanto médico como odontológico. O controle de morbidades associadas, como a depressão ou outras anormalidades na área da saúde mental, quando disponível, deve ser realizado por profissional especializado. Fatores contribuintes No caso de dor e disfunção mandibular, fatores como oclusão dental, bruxismo, postura, estresse emocional, presença de outras dores no segmento ou no corpo, doenças sistêmicas crônicas, entre outros, podem estar envolvidos. A correção desses fatores, inclusive oclusais, quando seu papel ficar bem estabelecido, é fundamental; atenção odontológica, realçando o conhecimento de oclusão funcional e das interações sensóriomotoras do aparelho mastigatório será importante. A oclusão pode ter papel relevante e deverá ser avaliada pelo cirurgiãodentista no contexto clínico de cada paciente. O bruxismo é outra condição que deve ser avaliada também nesse contexto. Prognóstico da dor Conhecer a epidemiologia de cada condição álgica e de seus tratamentos ajuda na decisão terapêutica e, acima de tudo, possibilita esclarecer o paciente e orientálo sobre sua dor ou doença. A dor de dente irradiada à cabeça poderá causar confusão e demorar a ser identificada, porém seu prognóstico é bom. Entretanto, caso a dor de cabeça decorra de um câncer, há vários fatores que terão influência no prognóstico. Por exemplo, estágio, local, presença de metástases e condição clínica do paciente. Em geral, o grande desafio de conhecer o prognóstico de uma doença é a experiência do profissional nesse tipo de doença, independentemente de seu modo de manifestação ou estágio. Adesão ao tratamento Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ■ ■ ■ Qualquer tratamento depende do modo como o paciente o recebe e o conduz. Existem condutas consideradas simples e para as quais o paciente pode contestar seu papel terapêutico, como um bochecho, e outras complexas, como o uso crônico de medicamentos ou cirurgias para dor, que podem assustar o paciente. Por outro lado, não se pode impor ao paciente nenhum tratamento. Todos exigem explicação, compreensão de riscos e benefícios e a aceitação pelo paciente. As placas de mordidas e as próteses removíveis, incluindo as totais, são exemplos cotidianos que exigem cooperação do paciente. Cada medida deve ser cuidadosamente explicada e justificada e, se possível, determinado seu objetivo e tempo de aplicação. Medidas relativamente simples, como a realização de bochechos periódicos, ajudam o profissional a verificar a adesão do paciente ao tratamento. Pacientes complexos devem ser avaliados por equipe multiprofissional. Terapêutica das dores orofaciais e disfunções temporomandibulares A terapêutica das dores orofaciais e disfunções mandibulares varia desde métodos não invasivos e reversíveis, que são de baixa morbidade e alta eficácia, até levemente invasivos – como medicamentos – a invasivos – como cirurgias. O tratamento de morbidades associadas médicas, em geral, ou odontológicas pode ser necessário. Esclarecimento do paciente É fundamental que o paciente saiba o que tem e qual o prognóstico de sua dor ou doença. Isso deve ser feito de modo realista, mas sem aterrorizálo. Conheça bem a doença ou o problema que você trata e não confunda com a técnica que pratica e domina. O efeito placebo é definido como a mudança que ocorre no corpo como resultado de evento simbólico atribuído a fatos ou objetos no momento da cura. Esse efeito está fortemente relacionado com a atitude profissional, e existem inúmeros estudos a respeito disso em medicina e odontologia. Na ausência de forte relacionamento entre médico e paciente, o uso dos placebos pode ter pouca importância. Nesse sentido, o próprio médico ou dentista, de todos eles, é o mais poderoso placebo. A analgesia por placebo é acompanhada pela redução do ritmo cardíaco; além disso, pacientes com doença de Alzheimer não respondem a esse efeito por causa do comprometimento da área cerebral relacionada à cognição. Na fase do diagnóstico, o esclarecimento pode reduzir a ansiedade do paciente e ajudar no enfrentamento da dor. Expandir essas informações aos parentes dos pacientes com dor crônica na boca também pode ser benéfico. O repouso mandibular é indicado na dor aguda, como no pósoperatório de cirurgias bucais ou maxilares. Pacientes com agudização de doenças crônicas na ATM também necessitam de algum repouso mandibular. Reduzir a fala, evitar movimentos amplos da mandíbula e ingerir alimentos que exijam menor esforço são úteis nesses casos. Bloqueios anestésicos Os bloqueios anestésicos são úteis tanto para o diagnóstico da dor referida ou difusa quanto para o tratamento de dores musculares crônicas. Os bloqueios anestésicos, além de eliminar a dor temporariamente, podem reduzir a sensibilização central. Essas técnicas são conhecidas há muito tempo, principalmente no coto de membros amputados e também em odontologia. Placas de mordidas As placas são aparelhos conhecidos pelos dentistas há longa data. Pela facilidade de confecção e uso, tornaramse comuns em diversas condições álgicas. A despeito das controvérsias sobre sua eficácia, sabese que sãoúteis desde que se sigam alguns critérios de utilização. O uso de placas de mordida depende do tipo específico de DTM. Quanto ao mecanismo de ação, a literatura em geral alerta para a possibilidade do efeito placebo sobre a dor, o que não invalida seu uso, mas realça a influência do profissional. O modelo convencional amplamente conhecido e usado há mais de 30 anos é sem guias caninos. Os tipos, as Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ indicações e os possíveis mecanismos de ação de placas de mordida para o tratamento de DTM, exceto para os deslocamentos do disco articular, ainda são controversos. Em nossa experiência, embora sem estudos controlados a longo prazo, a placa lisa de acrílico não precisa ser usada em tempo integral e tampouco por períodos superiores a 45 dias, exceto no bruxismo idiopático. Nos quadros agudos, é utilizada na fase inflamatória, geralmente com a finalidade de reduzir a sensibilização central. Nesses casos, o uso diurno pode ser incluído e associado a medidas físicas. A placa de mordida na dor e na disfunção mandibular aguda tem a função de (1) dar conforto ao paciente, (2) reduzir os efeitos da mordida sobre a articulação inflamada, (3) reduzir ou evitar a hiperalgesia mecânica na ATM em decorrência do contato oclusal, (4) reduzir a sensibilização central e (5) reduzir os efeitos musculares secundários. Tratamento com métodos 䈌�sioterápicos Métodos fisioterápicos são indispensáveis em cirurgia bucomaxilofacial, tanto no pósoperatório quanto no traumatismo agudo, incluindo os da ATM. O ideal é que cada serviço de cirurgia tenha protocolos para cada situação cirúrgica em particular; entretanto, isso nem sempre ocorre. A participação do profissional especializado – fisioterapeuta ou fonoaudiólogo – é desejável nas equipes de cirurgia bucomaxilofacial. A escolha do método de fisioterapia dependerá do diagnóstico e da própria experiência do profissional. A seguir são elencadas indicações de medidas de fisioterapia. Neuroestimulação elétrica transcutânea Há muitos anos é usada em odontologia. Em geral, segue os mesmos fundamentos daquela utilizada em dor crônica; entretanto, a mandíbula tem características especiais que tornam o método muito apropriado em casos de problemas musculares. Embora a neuroestimulação elétrica transcutânea siga princípios básicos, pode haver diferenças entre aparelhos, e os resultados nem sempre são iguais, embora, a curto prazo, ocorra alívio da dor quando comparado a placebo. Geralmente, as sessões de aplicação duram de 20 a 30 min e são repetidas em intervalos variados. As correntes de baixa ou alta intensidade devem ser sempre menores que o limiar de percepção dolorosa. Não se sabe exatamente as diferenças entre as estimulações de alta ou baixa intensidade, mas acreditase que os efeitos centrais são mais comuns pela alta intensidade. Também não é conhecido se o efeito envolve arcos reflexos simples ou complexos, ou áreas mais centrais do sistema nervoso, e ainda se há efeito seletivo para as lâminas I e V de Rexed no corno posterior da medula espinal e nos núcleos trigeminais. ������������������������������������������������������������������ Em pacientes cardíacos graves e naqueles que usam marcapasso deve existir precaução e absoluta contraindicação ao uso na região torácica, embora sua interferência no ritmo cardíaco seja menor quanto mais distante estiver do coração. O tipo de marcapasso é outro fator limitante ao seu uso. Laser terapêutico Ainda existem controvérsias e falta de estudos controlados que atestem a eficácia do laser em diferentes tipos de dores. Variações nas doses aplicadas, tipos de aparelhos utilizados e falta de uniformidade sobre os locais de aplicação são algumas das possíveis razões de resultados discrepantes na literatura sobre o laser de baixa potência. Medicamentos em dores orofaciais e disfunções mandibulares Os medicamentos para dores orofaciais e disfunções mandibulares são úteis em inúmeras situações álgicas, tanto agudas como crônicas. Na dor orofacial aguda, a escolha inicial é pelos analgésicos e antiinflamatórios não esteroidais, ao passo que na dor orofacial crônica os medicamentos adjuvantes (antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivantes etc.) são os indicados. Seu uso deve ser criterioso, sempre de acordo com o perfil clínico do paciente, a extensão e a natureza da lesão, quando houver, e o tempo previsto de uso. Na dor e disfunção Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ mandibular crônica, principalmente na muscular, podem ser efetivos em casos bem selecionados, embora os estudos atuais de revisão sistemática não sejam conclusivos pela falta de homogeneidade das amostras estudadas. Possivelmente, esse panorama sofrerá mudanças futuras. Na dor neuropática orofacial é indispensável o uso de analgésicos adjuvantes. Os medicamentos de ação tópica em dores orofaciais geralmente não estão disponíveis no mercado, exceto os antiinflamatórios para uso cutâneo, que necessitam de formulação específica. Ainda faltam estudos clínicos controlados sobre esses medicamentos, porém a experiência clínica e a literatura apontam para diversas modalidades com indicações específicas. Principalmente em pacientes crônicos, muitas vezes submetidos a regime intenso de medicação, que limita ou torna intolerante o uso de mais medicação sistêmica, os tópicos podem ser muito efetivos. Entre a medicação tópica para uso na cavidade bucal, destacamse os anestésicos locais (lidocaína e benzocaína) e a capsaicina. Os corticoides têm indicação restrita para dor articular crônica de intensidade leve a moderada, normalmente em injeção intraarticular única. Na osteoartrose avançada, quando há dor ou limitação da abertura bucal, eles também contribuem para a melhora do quadro. Pode ser utilizado um corticoide com meiavida intermediária, como a metilprednisolona. A injeção articular é limitada a casos de osteoartrose avançada da ATM, quando há limitação dolorosa rebelde aos demais tratamentos. Pode ser uma opção em pacientes com doença articular sistêmica, como a artrite reumatoide, quando há limitação e dor localizada na ATM. A injeção de corticoide no periodonto em pacientes com pericementite não infecciosa também é benéfico para tratar a crise. Injeção ou agulhamento muscular As microlesões e alterações da estrutura muscular que contribuem ou causam dor crônica levam à formação de pontos dolorosos no interior do músculo, os pontosgatilho (trigger points). O pontogatilho latente emite dor, quando provocado, normalmente no padrão descrito pelo paciente, enquanto o pontogatilho ativo produz dor espontânea. O agulhamento ou a infiltração anestésica para destruição dessas microáreas fibróticas produz bons resultados longitudinais de controle da dor miofascial. Utilizamse anestésicos sem vasoconstritores para reduzir o risco de isquemia e necrose tecidual. Em odontologia, a injeção pode ser realizada por vias intra e extraoral. Sua escolha dependerá do ponto que se deseja alcançar. Regiões próximas ao músculo pterigóideo lateral, ricamente inervadas, como o plexo pterigóideo, exigem cuidado, pois existe risco de sangramento e formação de hematoma. A preferência pessoal, possivelmentepela longa experiência clínica em anestesia odontológica, é a via intraoral, embora esta não seja possível em todos os casos. Alongamento muscular e exercícios musculares são indicados após a infiltração anestésica nos pontosgatilho. É necessário ter cuidado com pacientes com discrasias sanguíneas ou que fazem uso de anticoagulantes. Acupuntura Essa modalidade terapêutica tem se mostrado muito eficaz em dores musculares em geral. A despeito da escassez de bons estudos clínicos controlados, inúmeras experiências têm sido relatadas sobre seu uso e seus benefícios. No Brasil, é especialidade reconhecida pela medicina, e seu uso é cada vez mais frequente em odontologia. A acupuntura apresenta a vantagem de diminuir o uso de medicamentos, é um meio seguro de tratamento e auxilia no diagnóstico diferencial. Tem efeitos mais gerais, como relaxamento e melhora da qualidade do sono, ao passo que a placa de mordida obtém melhores efeitos relacionados à região orofacial, como aumento ou diminuição da salivação, repousos articular e muscular e diminuição do efeito tensional sobre os dentes. Terapia cognitivo-comportamental A terapia cognitivocomportamental é uma linha de psicoterapia breve que envolve um conjunto de técnicas e estratégias terapêuticas, com a finalidade de mudança dos padrões de pensamento. No tratamento trabalhase a criação de estratégias para lidar com o sofrimento, sendo importante para o enfrentamento da dor pelo paciente. Diversos estudos mostram sua importância em pacientes crônicos, e a associação com medicamentos ou outras modalidades é altamente salutar. Entre as restrições, discutese a escassez de profissionais especializados no Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ ■ tratamento da dor crônica. A terapia cognitivocomportamental é eficiente na melhora da qualidade de vida de pacientes com dor facial crônica, sugerindo que há melhor enfrentamento dessa situação. Embora não haja necessariamente alteração nos níveis de dor, ela pode ser controlada por medicamentos, como antidepressivos tricíclicos. A associação entre eles e a terapia cognitivocomportamental parece reduzir o grau de interferência da dor na vida do paciente crônico e aumentar o controle deste sobre a própria vida, o que contribui para reduzir as visitas desses pacientes aos serviços de tratamento da dor. Hipnose A hipnose é considerada medida eficaz em doentes com dor clínica, desde que responsivos à técnica. Seu uso também é mais frequente em centros multidisciplinares de dor. Em nosso meio, há falta de estudos sobre a hipnose no tratamento de pacientes com dor crônica, incluindo na região orofacial. Técnicas de relaxamento são úteis na odontologia e em cirurgias sob anestesia local, sendo, muitas vezes, utilizadas inconscientemente pelos profissionais. Muitos estudos demonstram a importância das dimensões emocional e cognitiva sobre a manutenção e o controle da dor. Ansiedade, expectativas e antecipação têm papel relevante na dor. Estudos mostram que os mecanismos centrais da hipnose parecem estar desvinculados das endorfinas e ocorrer por meio do córtex cerebral. Cirurgias odontológicas ou neurológicas Estão indicadas em casos específicos, como na osteoartrose avançada de ATM com restrição mandibular. A dor geralmente não é o principal fator indicador de cirurgia, exceto em dores neuropáticas orofaciais, quando as neurocirurgias podem ser necessárias. Como exemplo, podese citar a dor facial atípica e a neuralgia idiopática do trigêmeo. Certamente, pacientes com dor por câncer em estágio avançado podem se beneficiar das técnicas neurocirúrgicas para o controle da dor. Tratamentos odontológicos em pacientes com dor Dores dentais rotineiras causadas por cáries ou doenças periodontais podem agir como morbidades associadas e piorar ou confundir quadros álgicos persistentes. Por isso, é sempre indispensável a avaliação da saúde bucal em pacientes com dor crônica. Entretanto, o benefício desses tratamentos deve ser avaliado perante a experiência atual e os dados da literatura científica, que ainda são escassos, principalmente no que se refere à relação de infecções odontogênicas crônicas, como a doença periodontal, e a dor crônica. Entretanto, não se justifica que pacientes com doenças crônicas, incluindo dores, permaneçam com infecção na boca, como se essa fosse uma situação normal. Pacientes com DTM crônica deveriam receber tratamento dentário caso apresentassem doença periodontal crônica ou focos infecciosos bucais, incluindo as cáries dentais, pois essas doenças podem agir como fatores precipitantes ou perpetuantes. Não se justificam tratamentos oclusais preventivos para disfunção mandibular, seja qual for sua natureza. Por exemplo, a relação da ortodontia com DTM está relativamente bem definida na atualidade. Certamente, a reabilitação oral pode ser útil em paciente com fator oclusal perpetuante para dor facial, bem como em paciente com instabilidade de próteses totais ou falta de dentes posteriores. Estimulação magnética transcraniana e toxina botulínica Pacientes com dores orofaciais complexas ou refratárias aos tratamentos convencionais podem se submeter a protocolos, alguns ainda experimentais, para o tratamento da dor. Entre eles, destacamse a estimulação magnética transcraniana (TMS) e a toxina botulínica. A TMS é uma modalidade moderna de tratamento que visa à estimulação de estruturas corticais do cérebro e parece promissora no tratamento de dores crônicas rebeldes. A indicação e a seleção de pacientes devem ser realizadas por equipes com experiência nessa modalidade terapêutica. Quanto à toxina botulínica, ainda existem controvérsias sobre seu uso em dores neuropáticas e faltam estudos controlados. Sua indicação principal é no caso de distonias ou espasticidade muscular; portanto, em odontologia, pode ser indicada no bruxismo secundário. Seu uso no bruxismo idiopático e principalmente na dor muscular idiopática ainda é controverso. Em DTM muscular, seu uso não se mostrou superior ao placebo nem mesmo a Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ medidas fisioterapêuticas, como massoterapia. Em tais casos, seu uso deve ser pontual e em casos selecionados. Conclusão Nenhuma técnica, ou aparelho, é “milagrosa”, principalmente quando usada de maneira indiscriminada em todos os casos, como “mera tentativa” de acerto e erro. No atual momento, contamos com boas opções terapêuticas para o controle de dores orofaciais e de disfunções mandibulares. Isso não significa que a escolha seja fácil, pois depende do tipo de dor, da duração e de fatores como a saúde geral do paciente e psicossociais. Como essas dores têm origem odontológica e não odontológica, cabe ao cirurgiãodentista diferenciálas antes de aplicar os tratamentos aos quais está mais familiarizado. A escolha do tratamento depende também de compreender, além da doença envolvida, o significado multidimensional da experiência de dor. A conduta clínica decorre dessa junção de dados. Na dor crônica, o que ainda prevalece é a abordagem polimodal, de modo que inclua a dor total. Lembrese: o problema da dor não é apenas uma questão sensitiva ou de nocicepção. Bibliogra䈌�a SIQUEIRA,J. T. T.; TEIXEIRA, M. J. Dores orofaciais. Diagnóstico e tratamento. São Paulo: ArtMed, 2012. Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ▶ Introdução Indicações Possibilidades técnicas Equipamentos e instrumental cirúrgico Anatomia artroscópica Patologia artroscópica Técnica artroscópica básica Lise e lavagem artroscópica Coblação Discopexia artroscópica Tratamento da perfuração discal Eminectomia Gerenciamento de riscos e complicações Paulo Alexandre da Silva Introdução Os desarranjos internos (DI) da articulação temporomandibular (ATM) têm etiologia multifatorial, sendo seu tratamento um desafio para clínicos e cirurgiões. Durante anos, estes desarranjos foram tratados de maneira conservadora, utilizando principalmente splints e antiinflamatórios. O tratamento cirúrgico é indicado em apenas 5% dos casos, e, na maioria das vezes, é realizado por artrotomia, ou seja, cirurgia aberta. Havia necessidade de uma modalidade de terapia para os casos refratários ao tratamento conservador e menos agressiva do que a artrotomia, a qual tivesse um pósoperatório mais previsível e restaurasse a função mais rapidamente. A artroscopia Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • ▶ • • da ATM preencheu a lacuna existente na terapêutica do DI da ATM. Em 1975, Ohnishi 1 foi o primeiro a utilizar um artroscópio na ATM, estudando seus movimentos e a anatomia artroscópica. Na década de 1980, diversos autores, como Murakami e Hoshino2,3, Heffez e Blaustein4 e McCain e De La Rua5, contribuíram para o desenvolvimento da artroscopia da ATM, com a descrição de diversa técnicas e com o entendimento das alterações internas sobre visão artroscópica. Foi criado, assim, o Grupo Internacional de Estudos de Artroscopia da ATM, com a finalidade de unir os esforços dos pesquisadores e clínicos de todo o mundo, racionalizar e normatizar o uso da técnica. Concluiuse que a artroscopia: Constituise em passo à frente no diagnóstico e no tratamento prévio da artrotomia É um procedimento menos invasivo que a cirurgia aberta Possibilita o estudo em detalhes de certas áreas da ATM em melhores condições que a artrotomia Possibilita a inspeção de estruturas articulares em um meio mais natural, e a artropatia pode ser diagnosticada por visão direta, biopsia ou ambos Tem recuperação e cicatrização mais rápida, devido ao menor trauma em comparação da com a artrotomia.5 Figura 5.1 Tratamento dos desarranjos internos da articulação temporomandibular. Da década de 1990 até a presente data, a artroscopia apresentou grande evolução, principalmente devido a melhor qualidade das imagens de ressonância magnética e ao entendimento da fisiopatologia do DI, descrita no estudo de Bronstein e Merrill6, que correlacionou os estágios de Wilkes com achados artroscópicos, e no estudo de Nitzan e Etsion7, que descreveu a interrelação entre o processo de lubrificação articular e o deslocamento discal e, ainda, a introdução da técnica de discopexia artroscópica.811 Atualmente, a artroscopia ocupa um lugar consolidado no fluxograma de tratamento dos DI da ATM (Figura 5.1). Os resultados apresentados na literatura mostram de 63 a 96% de sucesso, o qual está relacionado com o grau de gravidade da lesão intraarticular e da técnica empregada.6 Indicações A artroscopia é dividida em diagnóstica e operatória, tendo indicações precisas:5 Diagnóstica: dor intraarticular persistente; confirmação clínica de hiper/hipomobilidade, estalos e crepitações; artrite sistêmica com envolvimento da ATM; invasão tumoral local Operatória: desarranjos internos da ATM refratários a outras terapias; biopsia; sinovites; doença intraarticular degenerativa; deslocamento discal sem redução, closed lock; hipomobilidade/hipermobilidade que requeiram Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ ■ lise/plastia; desbridamento/plastia articular; trauma (hemartrose, adesões e fibroses); injeção intraarticular ou intraligamentar com visão direta. Possibilidades técnicas Além do diagnóstico por visão direta, é possível realizar o diagnóstico por artroscopia:5 biopsias; coblação de sinovites com radiofrequência (RF), cauterização com mono/bipolar ou ablação a laser; lise mecânica das adesões (lise e lavagem artroscópica [LLA]); desbridamento da fibrocartilagem ou osso com shavers; discopexia; sutura de perfurações discais; eminectomia; tratamento dos traumas articulares com remoção de hemartrose e fibroses; injeção de esteroides, esclerosantes, toxina botulínica, fatores de crescimento e célulastronco por visão direta. Equipamentos e instrumental cirúrgico Equipamentos O equipamento para artroscopia da ATM consiste em um artroscópio (ótico) com diâmetros variando de 1,2 a 2,4 mm e angulações de visão de 0 a 30°, conforme a Figura 5.2. O artroscópio é conectado a uma câmera ligada a um sistema de captura de imagem e gravação e a uma fonte de luz (Figura 5.3). Podem ser utilizados, ainda, equipamento de laser para ablação, radiofrequência (RF) para coblação, cautério mono ou bipolar e motor shaver para desbridamento ósseo. Figura 5.2 Diferentes artroscópios (óticas). 1. OnPoint, 1,2 mm, de uso único (Biomet Microfixation®). 2. Ótica Hopkins II, 0°, 1,9 mm. 3. Ótica Hopkins II, 30°, 2,4 mm. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ Figura 5.3 Equipamento básico para artroscopia – sistema de vídeo, fonte de luz Xenon, cabo de fibra ótica, câmera e monitor. Instrumental cirúrgico Os instrumentais utilizados são as camisas pelas quais passam o artroscópio e os instrumentos cirúrgicos, trocater (sharp e blunt) para acesso à articulação, sonda graduada (probe) para exame, knifes e tesoura para corte, pinça de biopsia, pinças de sutura, eletrodos para mono ou bipolares para corte e cauterização, pontas de RF para corte e coblação ou fibra de laser para corte e ablação, além de pontas de shaver para desbridamento ósseo (Figura 5.4). Figura 5.4 Set de instrumentos para cirurgia artroscópica. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ • • ▶ • • • • • Figura 5.5 Anatomia artroscópica da articulação temporomandibular. Anatomia artroscópica Para o cirurgião, o mais complexo na artroscopia é acostumarse com a visão indireta, ou seja, pelo monitor, e reconhecer a anatomia, que passa de uma visão macroscópica conhecida para uma visão microscópica. A ATM é dividida em dois compartimentos, sendo um superior e outro, inferior:11 Compartimento superior: cortina sinovial medial; sombra pterigóidea ou cápsula medial; recesso posterior, dividido em zonas (zona 1: protuberância oblíqua, zona 2: tecido sinovial retrodiscal ligado à parede posterior da cavidade articular, zona 3: recesso lateral do tecido sinovial retrodiscal); parede posterior, eminência articular; disco articular; zona intermediária, eminência articular; recesso anterior (prega sinovial discal, porção média, porção anteromedial, porção anterolateral) (Figura 5.5) Compartimento inferior: é muito estreito, o que dificulta sua artroscopia, não sendo, assim, rotineiramente acessado, exceto na presença de perfurações discais, podendo ser visto a partir do compartimento superior. Patologia artroscópica As lesões mais comumente observadas durante a artroscopia serão citadas a seguir. No entanto, é importante frisar que doenças, como osteoartrite, artrite reumatoide sistêmica,dependendo do grau de acometimento, podem apresentar várias das lesões descritas a seguir:12 Sinovite: forma aguda de inflamação, consistindo na presença de capilares superficiais dilatados nos estágios iniciais e hiperemia e hiperplasia nos estágios avançados (Figura 5.6) Adesões: os resultados são hemorragia ou diminuição da lubrificação intraarticular, formando redes de fibrina para os fibroblastos, produzindo adesões fibrosas. São divididas em:13 grau I – adesões intersinoviais anteriores ou posteriores; grau II – adesões anterolaterais; grau III – adesões na zona intermediária; e grau IV – múltiplas adesões (Figura 5.7) Pólipos: são protuberâncias sésseis decorrentes de trauma ou inflamação intraarticular constante (Figura 5.8) Condromatose sinovial: doença rara das membranas sinoviais; apresenta vários corpos osteocartilaginosos ligados à membrana sinovial ou flutuando livremente no espaço articular (loose body) (Figura 5.9) Deslocamento discal: durante o exame artroscópico com manipulação condilar, podese ver a relação do disco com a eminência; a presença da banda posterior na região da eminência articular é característica de deslocamento discal (Figura 5.10) Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 5.6 Sinovite com proliferação de vasos com calibre aumentado e área de hiperemia. Figura 5.7 Adesão intersinovial na região do recesso posterior. • Perfuração: decorrente de processos degenerativos articulares e diminuição da lubrificação, aumentando o atrito e o trauma. Geralmente, localizase na região posterior do disco articular, podendo também ocorrer na área central (Figura 5.11) Figura 5.8 Pólipo (seta) associado à área de grande proliferação vascular, hiperemia e fibrilações. Figura 5.9 Lesão calcificada isolada (seta) (loose body) aderida à fibrocartilagem na região da parede posterior da eminência articular, compatível com condromatose sinovial. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • – – – – Condromalácia: é a degeneração da fibrocartilagem da ATM, encontrada nos processos de osteoartrite. Apresentase artroscopicamente em diversos graus: Grau I: amolecimento da cartilagem, causado por degeneração de colagenases de proteoglicanos a partir da lesão dos condrócitos. Clinicamente, a cartilagem tornase brancoopaca, em oposição à sua aparência normal. A diferença é muito sutil, podendo ser sentida pelo tato da palpação da cartilagem articular com o probe, revelando sua friabilidade e discretas ondulações do tecido edematoso, evidente principalmente na inclinação posterior da eminência Grau II: caracterizado pela presença ondulações em forma de “bolhas”, decorrentes do desprendimento da fibrocartilagem do osso Grau III: presença de fibrilações causadas pela ruptura de fibrilas de colágeno Grau IV: fibrilações e exposição óssea subcondral (Figura 5.12). Figura 5.10 Tecido sinovial posterior em contato com a região da eminência articular durante a movimentação do disco, caracterizando deslocamento discal. Notar a presença de sinovite compatível com lesão por carga na região. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ Figura 5.11 Probe indicando perfuração na banda posterior do disco. Figura 5.12 Condromalácia grau IV, com múltiplas fibrilações e exposição óssea compatível com processo de osteoartrite. Técnica artroscópica básica ■ ■ ■ Por meio de um minucioso exame clínico e de ressonância magnética, o correto diagnóstico indicará a melhor técnica artroscópica a ser utilizada. A artroscopia da ATM pode ser realizada tanto sob anestesia geral, quanto sob anestesia local com sedação. Isto dependerá da habilidade do cirurgião e do procedimento a ser executado. Em geral, para maior segurança, os procedimentos são realizados sob anestesia geral. A técnica básica consiste em alguns passos,5 descritos a seguir. Palpação O cirurgião deve palpar a anatomia lateral da ATM antes da punção, enquanto o assistente manipula a mandíbula. A localização da artéria temporal superficial préauricular deve ser confirmada (a punção deve ser anterior à artéria). O assistente realiza movimentos de abertura, fechamento e lateralidade, enquanto o cirurgião palpa o processo zigomático do osso temporal na região da máxima concavidade da cavidade articular (a depressão de tecido mole para a punção portal está localizado nesta área) e da eminência articular. Marcação A linha HolmlundHellsing é desenhada do ápice do trago ao canto da órbita. Um ponto de marcação é feito mais ou menos na porção média do trago externo. A partir deste ponto, 10 mm anterior e 2 mm inferior à linha, a concavidade máxima da fossa está localizada, sendo este o ponto da primeira punção ou ponto A (Figura 5.13). Figura 5.13 Linha de HolmlundHellsing, evidenciando o ponto A, no qual é realizada a punção do primeiro portal para realização da artroscopia. Neste ponto é inserido o artroscópio. Insu궑晿ação O objetivo da distensão da cápsula articular é o de aumentar a áreaalvo; 3 mℓ de lidocaína sem vasoconstritor, utilizando uma seringa com agulha 22 G (0,7 × 30), são utilizados no processo. Anestésicos com vasoconstritor não devem ser usados, pois poderiam dificultar a avaliação diagnóstica de sinovites, devido ao ingurgitamento capilar. Após a localização do ponto A, movese a mandíbula para o lado contralateral e abrese a boca do paciente; com isso, o côndilo se localizará na porção inferior da eminência articular, dando maior espaço na fossa articular. Neste ponto, a agulha é inserida em direção à parede posterior da eminência e, então, realizase a distensão do compartimento superior, com infiltração de 3 a 4 m ℓ . Esta distensão deve ser realizada lentamente, com movimentos de infiltração e aspiração até o volume citado. É importante ressaltar que o volume máximo, em média, da cápsula articular é de 3 mℓ ; no entanto, articulações colabadas e com muita fibrose podem comportar menos fluido, assim como articulações que tenham perfurações discais podem necessitar de maior quantidade de fluido. Quando a cápsula estiver distendida, o cirurgião sentirá uma pressão no êmbolo, impedindo maior infiltração. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ Primeiro portal Com a cavidade distendida, mantendose a boca aberta e lateralizada, realizase uma perfuração com lâmina de bisturi 11 e utilizase o sharp trocater (cânula com sharp) no ponto A, no sentido inferossuperior e posteroanterior, em uma angulação de aproximadamente 10° com a pele, penetrando até sentir a borda inferior do arco zigomático na máxima concavidade da cavidade articular. Após isso, realizamse movimentos rotatórios com o sharp até adentrar o compartimento superior, sentindose um pop neste momento. Removese o sharp e, neste momento, devese ver algum refluxo de fluido pela cânula ou umidade na haste do sharp, confirmando a entrada na cápsula. Introduzse o blunt, penetrando de 20 a 25 mm, a partir da pele, posicionandoo. Removeseo blunt e, com a cânula em posição, conectase ao sistema de irrigação e realizase a primeira lavagem com 50 a 100 mℓ de solução salina. Após isto, introduzse o artroscópio e uma agulha 22G é inserida 5 mm a frente e 5 mm a baixo, fazendo uma artrocentese com aproximadamente 200 m ℓ de solução salina. Após a artrocentese, realizamos então o sweep artroscópico (varredura), seguindo os sete passos, descritos a seguir, para identificar as estruturas (Figuras 5.14 a 5.18). Landmarks anatômicos Existe uma sequência que deve ser seguida durante a artroscopia.5 Ao entrar com o artroscópio através do ponto A, o recesso posterior deve ser examinado primeiramente, o qual é dividido nos itens 1, 2 e 3 (Figura 5.19). Depois, seguese ao exame dos itens 4 a 7, conforme descrito a seguir. 1. Cortina sinovial A primeira área a ser examinada é a cortina sinovial medial, que tem um revestimento brancoacinzentado translúcido e aparência tensa, com estrias superior a inferior distintas (Figura 5.20). Figura 5.14 Realização da primeira punção. Note a manipulação da boca em abertura para o lado contralateral e a correta angulação do sharp trocater. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 5.15 Simulação do correto local de referência óssea (parede posterior da eminência) para punção artroscópica. Figura 5.16 Perfuração inicial da cápsula articular com o sharp trocater. Figura 5.17 Aprofundamento na cápsula realizado com o blunt trocater. Notar que, em média, a profundidade limite (segurança) é de 25 mm a partir da pele. Figura 5.18 Correlação entre cavidade articular, profundidade de perfuração e acidentes anatômicos da base do crânio. Paulo Kohno Realce Figura 5.19 Artroscópio no recesso posterior. Figura 5.20 Visão artroscópica do recesso posterior. CM 5 cápsula medial; CS 5 cortina sinovial; PO 5 protuberância oblíqua; SP 5 sinóvia posterior. 2. Sombra pterigoide ou cápsula medial A segunda área a ser examinada é a sombra pterigoide ou cápsula medial (CM), que está localizada anteriormente à cortina sinovial medial, apresentando, em situações normais, aparência púrpura, por causa do músculo pterigóideo localizado sob o revestimento sinovial (Figura 5.20). 3. Sinóvia retrodiscal A terceira área a ser examinada é a sinóvia retrodiscal. Um pontochave no interior do espaço superior comum é a membrana sinovial, com aparência macia, localizada no recesso sinovial posterior. Partindo em sentido lateral, Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce várias pregas sobre a superfície da membrana sinovial aparecem, e desaparecem quando o disco é deslocado anteriormente. A membrana sinovial cobre a inserção posterior do disco, sendo inserida superiormente à fossa temporal. Enquanto a boca está aberta, a inserção posterior coberta pelo revestimento sinovial aparece como uma crista ou vinco, nomeado de protuberância oblíqua (PO) (Figura 5.20). A localização da protuberância é oblíqua no terço médio da sinóvia retrodiscal. Observase discreta rede vascular ao longo da membrana sinovial posterior (Figura 5.20). 4. Parede posterior da eminência articular A quarta área da articulação é a parede posterior da eminência articular. A fibrocartilagem que a recobre é branca e altamente reflexiva, com estrias anteroposteriores. Neste local, a fibrocartilagem é grossa e vai se afilando e tornandose mais escura no sentido medial da cavidade articular (Figuras 5.21 e 5.22). Figura 5.21 Artroscópio na região da parede posterior da eminência articular. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 5.22 Visão artroscópica da região da parede posterior da eminência articular (PE) e sua relação com o disco (D). 5. Disco A quinta área a ser examinada é o disco (D), que apresenta coloração brancoleitosa, altamente refletiva, sem estrias e em condições normais. Sua superfície é lisa e sem fibrilações. Na banda posterior do disco existe uma linha brancoavermelhada, que é a união com a sinóvia posterior. A partir de uma posição posterolateral do artroscópio, a mobilidade do disco é examinada por movimentos suaves do côndilo para frente e para trás. Normalmente, o disco desliza fluentemente ao longo da eminência articular. O conceito de cobertura avalia a cobertura do disco articular em relação ao côndilo. Este é graduado artroscopicamente, de acordo com a banda posterior do disco articular e sua posição com relação à eminência articular. Quando é medido com o côndilo para frente, o disco se encontra na posição normal se a banda posterior do disco estiver localizada sob a parede posterior da eminência articular. Com o côndilo na fossa, a posição é normal se a banda posterior do disco estiver localizada aproximadamente na porção média da fossa articular (Figura 5.23). Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 5.23 Artroscópio na região da zona intermediária. 6. Zona intermediária A sexta área a ser examinada é a zona intermediária, que apresenta um aspecto branco sobre branco, observando se a concavidade discal (Figura 5.24, letra E). Figura 5.24 Visão artroscópica da zona intermediária e a relação entre a eminência (E) e o disco articular (D). 7. Recesso anterior A sétima área a ser examinada é o recesso anterior. No momento da identificação da imagem branco sobre branco (disco eminência), o assistente move a mandíbula para baixo a para trás, levando o côndilo para a fossa articular, e Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ao mesmo tempo o cirurgião posiciona o artroscópio no recesso anterior. A prega sinovial discal anterior é identificada. Na porção anterolateral, a união entre a cápsula sinovial e a lateral da prega sinovial discal anterior pode ser observada, e é este o local ideal para a inserção da segundo cânula ou cânula de trabalho (Figuras 5.25 e 5.26). Figura 5.25 Artroscópio no recesso anterior. Figura 5.26 Visão artroscópica dos recessos anteriores da zona anterolateral, disco (D), e da zona anteromedial, cápsula medial (CM) e disco articular (D). Segundo portal Com o artroscópio posicionado no recesso anterior na região anterolateral e com o côndilo na fossa articular, outro sharp trocater de mesmo comprimento, medese na pele a profundidade da cânula do artroscópio, e no ponto obtido (ponto B) introduzse a cânula de trabalho, sob visão direta, seguindo os princípios de triangulação. Esta cânula também servirá para a saída de fluido, injetado pela cânula do artroscópio no ponto A. Pelo segundo portal passarão os instrumentos necessários para a técnica a ser empregada. Dependendo da técnica, podem ser necessários outros portais (Figuras 5.27 a 5.30). Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 5.27 Cirurgião realizando a mensuração para a punção do segundo portal. Figura 5.28 Técnica de mensuração e localização do local da punção do segundo portal. ▶ Figura 5.29 Artroscópio no recesso anterior e sua relação com o blunt trocater no segundo portal. Figura 5.30 Visão artroscópica do blunt trocater no recesso anterior. Lise e lavagem artroscópica É o procedimento mais realizado dentro da artroscopia da ATM. Consiste em romper as adesões e fibroses com knifes, probes e shavers, inseridos na cânula de trabalho do portal B. Ao mesmo tempo, mantémse um fluxo contínuo de solução fisiológica a 0,9% oulactato de Ringer, eliminando, assim, o produto da quebra das adesões e também componentes inflamatórios (Figura 5.31). Por meio da LLA, promovese melhor condição anatomofisiológica, possibilitando melhor movimentação da ATM e diminuição da dor. A LLA foi amplamente estudada por diversos autores; entretanto, poucos estudos foram randomizados, apresentando, assim, ampla variedade de resultados, pois estes dependem do grau dos DI. Sanders e Buoncristiani14 descreveram sua experiência clínica com o uso da LLA, mostrando excelentes resultados em 82% de seus pacientes com abertura Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ máxima interincisal (MIO, maximal interincisal opening) igual ou superior a 40 mm, com pouca ou nenhuma dor na ATM. Indresano15 observou uma taxa de sucesso de 73% de uma série de 64 pacientes submetidos à artroscopia. Moses et al.16 recomendaram movimentos com a cânula e trocater contundente no sentido anteroposterior, mostrando redução da dor em 92% dos 237 pacientes submetidos à LLA e, ainda, melhora da abertura da boca com MIO superior a 40 mm em 78%. Perrot et al.17 observaram diminuição da dor e aumento da mobilidade articular em um estudo prospectivo em 76 articulações tratadas com injeção de corticoide. Clark et al.18 observaram redução da dor em 57% dos pacientes e melhora na amplitude de movimento mandibular de 83%. Concluíram também que a posição do disco mudou após o procedimento. Em um estudo de acompanhamento de 63 pacientes durante 4 anos, Moore19 concluiu que a LLA foi benéfica em 87% dos pacientes. Kurita et al.20 relataram uma taxa de sucesso global de 86% ao usar LLA no tratamento de DI da ATM. Dimitroulis 21 relatou bom resultado em 66% dos seus pacientes submetidos à LLA, discreta melhora em 18% e nenhuma melhora em 16%. Gonzalez Garcia et al.22 mostraram que a LLA foi tão eficaz quanto a artroscopia operatória em termos de redução da dor pósoperatória ou no aumento da abertura da boca em qualquer fase do período de acompanhamento. Kondoh et al.23 relataram taxa de sucesso de 80% com a utilização de LLA para tratamento de DI da ATM. Sorel e Piecuch24 apoiaram o efeito benéfico a longo prazo da LLA no tratamento da dor crônica na ATM; 95% dos pacientes acompanhados por 4,4 anos não tinham queixas significativas, apresentando aumento significativo na abertura da bucal. Em nossa experiência, por meio do acompanhamento de 102 pacientes submetidos à LLA, estes apresentaram melhora da quadro álgico de 87,12% e da MIO de 91,37%. Figura 5.31 Visão artroscópica de instrumento tipo knife rompendo as adesões durante a técnica de LLA. Coblação A palavra originase do inglês cold ablation (ablação a frio). Consiste em utilizar a ponteira de RF para eliminar sinovites e pólipos, e realizar incisões e escarificação das superfícies articulares. A coblação também pode ser utilizada na contratura da banda retrodiscal para a redução do disco em casos de DDCR ou em casos DDSR associada à incisão da cápsula medial. Chen et al.25 utilizaram a coblação em 419 ATM, obtendo um índice de sucesso de 92,84% e concluíram que a técnica de coblação provou ser uma alternativa eficiente e minimamente invasiva para o tratamento de DI da ATM, Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ▶ com vantagens como proporcionar elevado grau de precisão e controle com mínimo dano ao tecido circundante, deixando superfícies anatomicamente lisas e promovendo a hemostasia de pequenos vasos sanguíneos. Técnica de coblação Após realizar o sweep da cavidade articular, identificando as estruturas, realizase a punção no ponto B, conforme descrito anteriormente, e através da cânula de trabalho utilizase a ponteira de RF para a coblação das lesões (Figura 5.32). Figura 5.32 Visão artroscópica do uso da radiofrequência durante a técnica de coblação. Discopexia artroscópica Na década de 1990, Ohnishi8 e McCain et al.9 descreveram a técnica de sutura artroscópica para reposicionamento discal. Em 2001, Yang et al.,10 ao observarem que a técnica de sutura descrita anteriormente apresentava uma taxa muito variável de sucesso, idealizaram nova técnica, com o objetivo de maior estabilidade, obtendo um taxa de sucesso de 95,42% de 2.167 pacientes (2.622 ATM). Em 2012, Adame e MuñozGuerra11 apresentaram nova técnica com pequenas alterações da técnica de McCain et al.,9 com o objetivo de aumentar a estabilidade. McCain e Hossameldin26 citam ainda a técnica de fixação rígida do disco com uso de parafusos metálicos ou absorvíveis, mas esta não é, em geral, empregada. No entanto, GoizuetaAdame et al.27 têm utilizado com sucesso pinos reabsorviveis (SmartNail – Linvatec, ConMed Corporation, Florida, USA) para fixação discal, monstrando ser uma técnica alternativa à sutura discal. Independentemente da técnica empregada, todas têm em comum a incisão da cápsula medial na região anteromedial do recesso anterior para liberação do disco (Figura 5.33). Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ Figura 5.33 Visão artroscópica da incisão da cápsula medial na zona anteromedial do recesso anterior para técnicas de discopexia. Note, à esquerda, a incisão realizada e a exposição das fibras do músculo pterigóideo lateral. Técnica de sutura de McCain Após o exame completo da cavidade e a avaliação dinâmica do grau de deslocamento discal, o segundo portal B, conforme a técnica descrita e por visão direta, realizase a incisão da cápsula medial no recesso anterior com eletrodo bipolar, RF ou laser. Após isso, por meio de um blunt, realizase uma divulsão romba das fibras do músculo pterigóideo lateral, tomando cuidado para evitar lesões vasculares. Desta maneira, o disco ficará liberado anteriormente, possibilitando seu reposicionamento. Por meio de um probe, reposicionase o disco, mantendo o côndilo levemente anteriorizado e lateralizado. Através de um portal intermediário entre o A e o B, uma agulha de Luer 20 G é inserida na pele, atravessando a porção posterolateral do disco. Um fio absorvível de polidioxanona 0 ou 1 é inserido através da agulha. Por um novo ponto anterior ao ponto A, uma agulha de sutura com laço tipo retrivier captura o fio, removendoo através da pele. A agulha que inseriu o fio é removida; então, as duas extremidades do fio saem de perfurações na pele. Uma pequena incisão horizontal de 5 mm é realizada entre elas, e as extremidades dos fios são suturadas no subcutâneo. O instrumento do portal B é removido e a movimentação do disco e sua relação anatômica são conferidas. A incisão da pele é fechada com fio de náilon 60 (Figuras 5.34 e 5.35). Com base em nossa observação clínica, ao executar esta técnica, utilizamos uma agulha de Luer 12 G, devido ao menor trauma, e, para sutura discal, utilizamos fio não absorvível de polipropileno 0, devido à maior estabilidade ao longo do tempo, relacionada à força tênsil permanente. Técnica de Yang Esta técnica apresenta os mesmos passos da descrita anteriormente até a incisão da cápsula medial no recesso anterior. Após este passo, o blunt pressiona o disco para trás, deslizando ao longo de sua superfície e chegando até o recesso posterolateral. Então, o tecido retrodiscal é empurrado para baixo. Entre os primeiros portais (A e B), um ponto é marcado sobre a pele, geralmente 10 mm anterior ao local da primeira punção. A agulha de sutura de calibre 12 é introduzida na pele, perfura a cápsula articular e é inserida no espaço articular superior. O artroscópio é movidopara localizar a ponta da agulha. Sob visualização direta, a ponta da agulha é inserida na junção do disco e do tecido retrodiscal. A agulha é empurrada para dentro e sai no tecido retrodiscal mais medialmente. Um terceiro portal é realizado por uma abordagem transmeatal. O ponto de punção é na parede anterior do canal auditivo externo, geralmente localizado a 10 mm de distância do ápice do trago, no qual se realiza uma pequena incisão na pele. Uma agulha de sutura do tipo lasso é inserida através da incisão, penetrando no recesso posterior e virando em direção à ponta da primeira agulha. Um fio não absorvível de polipropileno 0 é passado através da primeira agulha. Uma vez que uma extremidade do fio de sutura fica à vista do artroscópio, ela é capturada pelo laço e puxada através do terceiro portal. A primeira agulha é retirada a partir do tecido retrodiscal, mas permanece na cavidade articular. Outra agulha tipo gancho é inserida através do acesso transmeatal e, então, a outra extremidade do fio é puxada para fora do terceiro portal. A agulha de sutura é removida. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 5.34 Corte coronal da técnica de discopexia de McCain. Figura 5.35 Visão artroscópica da sutura realizada na banda posterolateral do disco pela técnica de McCain. A segunda sutura é geralmente relaizada para a maioria dos pacientes, a fim de manter a estabilidade do disco. O ponto de punção da agulha de sutura na pele normalmente se localiza 5 mm posterior ao primeiro. São seguidos os mesmos passos realizados para o fio de sutura. Após a sutura completa, o artroscópio é movido a partir da posição posterior para anterior, a fim de se verificar se o disco está reposicionado satisfatoriamente. Se não estiver, maior liberação anterior deverá ser realizada, até que o disco possa ser tracionado livremente. As suturas são, então, amarradas, com nós abaixo da cartilagem do conduto auditivo externo. As incisões são fechadas com náilon 60 (Figuras 5.36 a 5.39). Figura 5.36 Técnica de discopexia de Yang. Figura 5.37 Visão artroscópica da sutura realizada entre o limite da banda posterior do disco e o recesso posterior pela técnica de Yang. ■ Figura 5.38 Detalhe da saída dos fios de sutura pelo portal endoaural na técnica de discopexia de Yang. Figura 5.39 Ressonância magnética (A) pré e (B) pósdiscopexia artroscópica. Em nossas observações clínicas, esta técnica se mostrou mais estável; entretanto, ela exige maior habilidade do cirurgião. In禐ĵltração de substâncias intra-articulares Esclerosantes A esclerose do tecido retrodiscal pode ser realizada com substâncias como psiliato sódico, morruato sódico, sulfato sódico de tetradecil e etanolamina, injetados na banda posterior (0,5 a 2 mℓ divididos em vários pontos) sob visão artroscópica. Inicialmente a técnica foi desenvolvida para luxações recidivantes de mandíbula por Ohnishi28 e Merrill,29 com resultados excelentes de aproximadamente 90%. Atualmente tem sido utilizada também para tratamento de DDCR, com excelentes resultados. Corticoides Utilizados em conjunto com a artroscopia para tratamento de sinovites, devendo ser injetado diretamente no tecido inflamado, empregandose uma solução de 3 m ℓ composta de 1 m ℓ de dexametasona 2 mg e 2 m ℓ de betametasona 6 mg.26 Acido hialurônico Polissacarídeo da família dos glucosaminoglicanos, componente de muitos tecidos extracelulares, incluindo o fluido sinovial e a cartilagem, sendo um produto de condrócitos articulares e sinoviócitos. O conceito por trás da injeção de hialuronato (HA) na ATM é a estimulação da síntese endógena de ácido hialurônico por HA exógeno. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ ■ Além disso, tem um efeito antiinflamatório, analgésico, devido à diminuição do atrito decorrente da viscoplemantação.26 Pode ser de origem animal (crista de galo) ou de fermentação bacteriana. A técnica consiste em injetar 1 mℓ de HA por ATM, no fim do procedimento artroscópico, através do portal de irrigação da câmera, após a retirada da cânula do segundo portal. Tratamento da perfuração discal Após a localização da perfuração, se esta estiver na porção posterior, a técnica de discopexia pode ser aplicada tanto para fechamento, no caso de pequenas perfurações, como para reposicionamento da banda posterior, deixando a fora da área de atrito. No caso de perfurações centrais, a discopexia não está indicada. O tecido degenerado ao redor da perfuração é removido por coblação e a superfície óssea exposta é aplainada com shavers ou limas, para possibilitar melhor movimento com menor atrito. Eminectomia Descrita por Undt,30 a eminectomia artroscópica proporciona um tratamento menos invasivo para o deslocamento (luxação) mandibular recorrente. Na descrição da técnica, foi utilizado o sistema de navegação operatória, o que facilita a localização precisa do local a ser desbastado na eminência articular. A técnica por nós empregada é executada sem o auxílio do navegador, sendo descrita a seguir. Após a execução do segundo portal, o shaver é introduzido pela cânula de trabalho e, sob visão direta, é posicionado sob a eminência articular. O assistente repousa os dedos sobre os molares do lado ipsilateral, forçando o côndilo para baixo, a fim de facilitar o posicionamento adequado do shaver. O artroscópio mantém visão direta para a região da eminência articular e para o shaver, que realiza o desbaste necessário. A seguir, o movimento mandibular é conferido, bem como a relação entre disco e eminência. Não havendo nenhuma interferência, é realizada copiosa lavagem e os instrumentos são retirados (Figura 5.40). Controle e seguimento pós-operatório O pósoperatório em artroscopia é de extrema importância para o sucesso do tratamento. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ ■ ■ ▶ ■ ■ ■ Figura 5.40 Visão artroscópica da realização do desbaste com shaver na região da eminência articular durante a técnica de eminectomia. Terapêutica medicamentosa Por ser uma cirurgia de manipulação fechada, dificilmente utilizamos antibióticos, a não ser na indução anestésica. Dependendo do caso, por exemplo, em extravasamentos de fluido para os tecidos subcutâneos e sangramento transoperatório, os antibióticos devem ser prescritos por um período de 3 dias (profilaxia prolongada), dandose preferência às cefalosporinas de primeira geração. Antiinflamatórios não esteroidais são prescritos rotineiramente por um período de 3 dias, dandose preferência ao naproxeno, que tem se mostrado eficaz nos processos inflamatórios da ATM. Relaxantes musculares podem ser prescritos para maior conforto do paciente. Dieta Os pacientes devem ser orientados a manter uma dieta branda (alimentos macios) por 4 semanas, evitando grandes cargas mastigatórias sobre a articulação durante o período pósoperatório. Splints Os splints oclusais são indicados para diminuir a carga sobre a articulação, sendo mantidos até a estabilização do quadro, em média, 6 meses. Fisioterapia e fonoaudiologia O paciente deve ser orientado a iniciar exercícios leves de abertura bucal, lateralidade e protrusão, 1 semana após o procedimento. Entre 15 e 21 dias de pósoperatório, o paciente é encaminhado para reabilitação com fisioterapia e fonoaudiologia. Reavaliação As reavaliações devem ser periódicas, nasquais devemos realizar a escala visual analógica (EVA) e as mensurações dos movimentos mandibulares. Após 6 meses, realizamos uma ressonância magnética de controle. Nos casos de discopexia, esta pode ser realizada dentro dos primeiros 7 dias de pósoperatório.10 Gerenciamento de riscos e complicações Como todo procedimento cirúrgico, a artroscopia também apresenta riscos e complicações. Seu conhecimento é de grande valia para seu gerenciamento. Má oclusão Más oclusões, principalmente mordida aberta posterior, podem ser observadas após a artroscopia e, geralmente, desaparecem espontaneamente em 84,4% dos casos; nos casos persistentes, um tração elástica leve deve ser utilizada.31 Infecções Infecções pósartroscopias são raras e, quando ocorrem, iniciamse após 3 a 5 dias, com eritema local e extravasamento de pus das punções. O tratamento é feito com administração de cefalosporina de primeira geração ou clindamicina, 600 mg, por 5 a 7 dias. Para prevenção, em nosso protocolo, utilizamos cefalosporina na indução anestésica e no pósoperatório por 24 h. Danos ao nervo facial (VII) com paralisia e atonia Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ■ ■ Ao se aproximar da ATM para punção do portal da fossa articular, o ramo frontotemporal do nervo facial (VII) deve estar anterior a ele; ao passo que, para punção do portal de trabalho, deve estar posterior a ele. No entanto, o ramo zigomático do VII pode ser lesionado na punção. Outros mecanismos que podem levar à lesão do VII é o extravasamento de líquido para os tecidos além dos limites da cápsula articular e o mecanismo de compressão durante o procedimento. A paralisia do ramo frontotemporal do VII ocorre em menos de 1% dos casos. O diagnóstico definitivo é feito 24 h no pósoperatório e, geralmente, a duração dos sinais varia entre 1 semana e 6 meses. Se, após 15 dias, a paralisia permanecer, o tratamento fisioterápico com eletroneuromiografia deve ser iniciado. Danos ao nervo V craniano (alveolar inferior auriculotemporal, lingual) com hiperestesia, disestesia, parestesia ou anestesia O nervo auriculotemporal pode ser lesado durante a punção ou ocorrer o extravasamento de fluido para os tecidos. Em geral, a parestesia na região dura em torno de 2 semanas, restabelecendose, após este período, a sensibilidade local. Com relação aos nervos alveolares inferior e lingual, estes, após a divisão do nervo mandibular, passam 3,5 mm mediais ao côndilo, podendo ser lesados se o cirurgião não tiver conhecimento da anatomia intra articular e perfurar a cortina sinovial por meio de punção profunda, de 35 mm a partir da pele. Outra possibilidade é o extravasamento de líquido de irrigação medial secundário à perfuração capsular medial. Se a causa for trauma direto durante a punção, o retorno da sensibilidade dependerá do grau da lesão; se for por extravasamento de fluido, a sensibilidade se restabelecerá após a absorção do líquido. Com relação à hiperestesia do nervo infraorbital, ela está associada a tempo operatório longo e a extravasamento de fluido, sendo também transitória. Perfuração da orelha média e lesão do nervo vestibulococlear (VIII) Erros na angulação de entrada do primeiro portal podem causar a penetração do trocater ou do artroscópio na orelha média, lesando o tímpano, os ossículos e o nervo VIII. No pósoperatório, queixas de diminuição da audição e/ou vertigens são sinais de lesão à orelha média, e o paciente deve ser encaminhado prontamente ao otorrinolaringologista. Para prevenção deste tipo de lesão, basta seguir com atenção os ângulos de entrada e os reparos anatômicos de referência. Danos vasculares, hemorragias e fístulas Lesões à artéria e à veia temporal superficial podem causar hemorragia, que é controlada pela pressão local. No entanto, se isto ocorrer e no pósoperatório houver queixas de sons constantes tipo assobio, poderá haver indício de formação de fístula arteriovenosa, e uma abordagem de embolização e fistulotomia deve ser considerada, caso o diagnóstico seja confirmado. Em algumas variações anatômicas, a artéria maxilar pode passar lateralmente ao músculo pterigóideo lateral e esta pode ser lesionada durante a punção do portal de trabalho, com o aprofundamento excessivo, ou durante a incisão da cápsula medial no recesso anterior, o que pode resultar em hemorragia e fístula. Seu ramo, a artéria meníngea média, também pode ser lesionada com punção profunda. Nos dois casos, devemse retirar os instrumentos, infiltrar anestésico com vasoconstritor, assentar o côndilo na fossa (se a hemorragia for anterior, pressionar o côndilo em protrusão) e realizar pressão sobre o local durante 5 min. Alternativa descrita por McCain e Kim32 é a utilização de um cateter balão vascular n. 4 inserido na cavidade articular via cânula adequada e inflado sobre pressão com solução salina, mantendoo por 5 min. Na grande maioria das vezes, um destes procedimentos controla a hemorragia. Se a hemorragia não parar, devese fazer um acesso cirúrgico para abordagem direta do sangramento. Se houver formação de fístula, o caso deve ser avaliado, considerandose as alternativas (preservação, embolização ou fistulotomia). Perfuração da cavidade articular e penetração na fossa craniana média Isto pode ocorrer durante a punção do primeiro portal. Esta complicação pode ser evitada de maneira consistente, orientando os instrumentos para a parede posterior da eminência articular, evitando, assim, o centro da fossa. A penetração da fossa craniana média resultará em extravasamento de liquor, que geralmente regride espontaneamente. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ ■ ▶ 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. No caso do extravasamento persistir na área da punção, um curativo compressivo deve ser aplicado, o paciente deve ser hospitalizado e sua cabeça deve ser elevada, bem como devese iniciar o uso de antibióticos. Na persistência do extravasamento após 48 h, será necessária a avaliação de um neurocirurgião para determinar a conduta adequada. Danos ao disco e à 禐ĵbrocartilagem Os danos à fibrocartilagem (scuffing) ocorrem durante a penetração de instrumentos ou durante a instrumentação. Devese executar a técnica cuidadosamente para evitar estes danos, que podem ser confundidos com condromalácia, levando a falso diagnóstico (ver Figura 5.36). Da mesma maneira, devese realizar uma instrumentação cuidadosa na superfície do disco articular e no tecido retrodiscal, a fim de evitar lesões. As perfurações acidentais no disco podem ser reparadas em 12 semanas, com a deposição de uma fina membrana fibrótica com mínima quantidade de colágeno. Já o tecido retrodiscal se repara em 4 a 6 semanas.32 Quebra de instrumentos Durante o procedimento cirúrgico artroscópico pode ocorrer quebra de instrumentos, devido a seu desgaste ou ao excesso de força durante a manipulação. Se isto ocorrer, devese manter o fragmento sob visão direta e trocar a cânula de trabalho por uma de maior diâmetro (3 mm) e proceder a retirada. Se isso falhar, nova artroscopia para retirada do fragmentodeve ser realizada, no mínimo, 10 dias e, no máximo, 6 semanas após o incidente. O paciente deve estar ciente das complicações e alternativas na ocorrência de fraturas de instrumentos.32 Para prevenção, instrumentos desgastados devem ser substituídos e a manipulação sempre deve ser feita cuidadosamente. O correto diagnóstico, a indicação, os conhecimentos anatômicos macroscópico e artroscópico, o respeito aos ângulos de entrada e à profundidade de penetração (em torno de 25 mm) e instrumentação precisa e cuidadosa são as melhores maneiras de prevenção. Referências bibliográ禐ĵcas ONISHI, M. Arthroscopy of the temporomandibular joint. Kokubyo Gakkai Zasshi, v. 42, p. 207213, 1975. MURAKAMI, K. I.; HOSHINO, K. Regional anatomic landmarks and arthroscopic terminology in human TMJ. 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Endoscopy oral and maxillofacial surgery. Cur Therapy Oral and Maxillofac Surg, v. 6, p. 3162, 2012. ■ ■ ■ ■ ■ ▶ Introdução Biomecânica normal da articulação temporomandibular Condições clínicas Condições inflamatórias Resumo Nicolas Tenorio Cabezas Introdução A articulação temporomandibular (ATM) participa de um complexo biológico coordenado de ossos, ligamentos, músculos, vasos, nervos e dentes. Como toda articulação sinovial, pode apresentar doenças comuns a outras articulações, bem como distúrbios internos por descoordenação de disco e/ou artrose da ATM; essas alterações também são observadas em outras articulações sinoviais. Os avanços de estudos de imagem, como a tomografia computadorizada e/ou a ressonância magnética, confirmam as avaliações clínicas de deslocamento do disco e/ou as reabsorções do côndilo mandibular. As disfunções temporomandibulares (DTM) produzem alterações musculoesqueléticas que se caracterizam como doença que compromete os músculos da mastigação, a ATM e as estruturas orofaciais associadas e são uma das principais causas de dor de origem não dental na regiãoorofacial.1–3 Os sintomas mais comumente encontrados são dor nos músculos da mastigação, na região préauricular e na ATM, principalmente durante a mastigação de alimentos de consistência dura; pode haver também estalos articulares, dificuldade de abertura bucal e desvio do mento para o lado afetado. O tratamento das DTM exige uma visão multidisciplinar na abordagem de pacientes com dores crônicas que não respondem ao tratamento convencional. Entre as DTM, as descoordenações do complexo côndilo/disco articular decorrem do colapso da função normal do disco sobre a cabeça da mandíbula. Nesse grupo, encontramse os deslocamentos de disco com e sem redução, Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ muitas vezes associados a alterações inflamatórias, como sinovite, retrodiscite e capsulite, e também alterações degenerativas, como osteoartrose e osteoartrite.4 As recomendações de tratamento inicial para o controle das DTM priorizam os tratamentos reversíveis e não invasivos.1 Entretanto, como as disfunções intracapsulares muitas vezes são resultado de doenças das superfícies articulares, ou seja, de alterações estruturais presentes, o tratamento conservador mostrase algumas vezes ineficaz.4,5 Várias formas de tratamento para as disfunções internas da ATM são sustentadas pela literatura: repouso funcional, antiinflamatórios não esteroidais (AINE), dispositivos interoclusais, exercícios fisioterápicos de suporte, injeções intraarticulares de corticosteroide, artrocentese, artroscopia, cirurgia aberta da ATM,1–4 entre outras. Podese afirmar que a cirurgia articular desempenha papel importante no tratamento dessas doenças, em casos em que tratamentos não invasivos falharam e em alguns casos de impossibilidade de tratamento conservador.5–9 Biomecânica normal da articulação temporomandibular A ATM representa a articulação da mandíbula ao osso temporal do crânio; os componentes ósseos da articulação estão separados por uma estrutura composta de tecido conjuntivo fibroso denso, que é o disco articular – lembrando que a integridade deste é mantida pelos ligamentos, que são compostos de fibras colágenas com comprimento específico.3,5 Porém, esses ligamentos não participam ativamente na função da articulação, já que só atuam como guias para restringir certos movimentos (movimentos bordejantes), permitindo outros movimentos (movimentos funcionais). Caso os movimentos da articulação forcem constantemente os ligamentos, o comprimento destes pode ser alterado, mas tem pouca habilidade para esticarse, e, portanto, quando isso ocorre, eles frequentemente se alongam, criando mudanças na biomecânica da ATM que podem levar a mudanças patológicas. A ATM é capaz de movimentos de “dobradiça” e de “deslocamento” e é conhecida como articulação gínglimo artrodial. Para simplificar o mecanismo dessa articulação complexa, ela será separada em duas distintas articulações.3 A articulação inferior é constituída pelo côndilo e pelo disco articular inserido por ligamentos, formando o complexo côndilodisco, em cujas estruturas ocorrem os movimentos de rotação. A articulação superior é formada pelo complexo côndilodisco, que se articula com a fossa mandibular, ocorrendo nela o movimento de translação. O complexo côndilodisco se movimenta fora da fossa durante o movimento de abertura bucal.3 O disco é inserido ao côndilo medial e lateralmente pelos ligamentos colaterais. Esses ligamentos possibilitam a rotação do disco pela superfície articular do côndilo em direção anterior e posterior e a restrição dos movimentos mediais ou laterais. A quantidade do movimento de rotação anterior e posterior do disco também é limitada por ligamentos: a lâmina retrodiscal inferior limita a rotação anterior do disco sobre o côndilo, e o ligamento capsular anterior limita a rotação posterior do disco. A morfologia do disco é extremamente importante, apresentandose muito delgada na zona intermediária, espessa na borda anterior e mais grossa na borda posterior. O côndilo articulase na zona intermediária do disco e é mantido nessa posição pela pressão interarticular constante dada pelos músculos elevadores da mandíbula (masseter, temporal e pterigóideo medial) e pelos ligamentos articulares. Apesar da pressão entre o côndilo, o disco e a fossa mandibular estar de acordo com a atividade dos músculos elevadores, alguma pressão sempre é mantida para prevenir a separação das superfícies articulares, pois, se o contato entre elas for perdido, a possibilidade de deslocamento do disco existirá.1–3,6 Na região posterior ao disco encontramse os tecidos retrodiscais, altamente vascularizados e bastante inervados; anteriormente ao complexo côndilodisco está o músculo pterigóideo lateral, com seus feixes superior e inferior. O feixe inferior se insere no colo do côndilo, ao passo que o feixe superior se insere no colo do côndilo e no disco articular.1,3 Acreditase que o feixe inferior do pterigóideo lateral seja ativado com os músculos depressores da mandíbula (abertura bucal). Já o feixe superior é ativado com os músculos elevadores da mandíbula (fechamento bucal). O feixe superior do músculo pterigóideo parece ser um músculo estabilizador para o complexo côndilo disco, especialmente durante a mastigação unilateral.3,5,10–13 Quando o complexo côndilodisco se translada para baixo da eminência articular (abertura bucal), o disco roda posteriormente ao côndilo. A superfície superior do tecido retrodiscal é diferente de qualquer outro tecido da articulação. A lâmina retrodiscal superior é composta de tecido conjuntivo frouxo e fibras de elastina que Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ■ ■ • • • • • possibilitam ao complexo côndilodisco a translação à frente, sem produzir dano aos tecidos retrodiscais. Fazse notar que, durante a abertura máxima da boca, a lâmina retrodiscal superior é fortemente esticada e produz uma força de retração posterior no disco; sendo assim, ela é a única estrutura da ATM capaz de produzir esse tipo de força.14–16 Durante a abertura e o fechamento da mandíbula, o disco e o côndilo movimentamse juntos não pela inserção dos ligamentos, mas por duas razões fundamentais. A morfologia do disco e a pressão interarticular garantem a manutenção do côndilo na zona intermediária – região mais fina do disco. As margens anteriores e posteriores do disco forçamno a movimentarse junto ao côndilo durante a abertura e o fechamento bucal. Portanto, a morfologia do disco é muito importante para se movimentar com o côndilo. Se existir alguma alteração na pressão interarticular ou uma mudança na morfologia do disco, o movimento côndilodisco poderá ser alterado, e isso, de fato, é o começo de um distúrbio de interferência do disco.17,18 A seguir, apresentamos os principais diagnósticos e recomendações terapêuticas, de acordo com a American Academy of Oral Pain.1,2 Condições clínicas Distúrbios musculares Nos distúrbios musculares estão incluídos tanto os distúrbiosdolorosos como os não dolorosos; as condições incomuns, como espasmo muscular, miosite e contratura, devem ser excluídas. Dor miofascial Dor de origem muscular, incluindo queixa de dor, bem como dor associada a áreas localizadas nos músculos da mastigação com sensibilidade à palpação. O paciente queixase, principalmente, de: dor em mandíbula, têmporas, região préauricular ou “dentro da orelha”, em repouso ou durante função e também em resposta à palpação. Distúrbios internos Deslocamentos do disco ��������������������������������� O disco está deslocado da sua posição original entre o côndilo e a eminência para uma posição anterior e medial ou lateral, mas com redução em abertura total, geralmente resultando em ruído. ���������������������������� Estalo recíproco na ATM (estalo tanto em abertura vertical como em fechamento que ocorre em um ponto a pelo menos 5 mm a mais na distância da abertura interincisal que no fechamento e é eliminado em abertura protrusiva) Estalo na ATM nos movimentos de abertura ou fechamento, reproduzível em duas ou três tentativas consecutivas, e estalo durante excursão lateral ou protrusão, reproduzível em duas a três tentativas consecutivas. �������������������������������������������������������� Uma condição em que o disco é deslocado da posição normal entre o côndilo e a fossa para uma posição anterior e medial ou lateral associada à abertura mandibular limitada. ���������������������������� História de limitação significativa de abertura Distensão passiva aumenta a abertura em até 4 mm ou menos, além da abertura máxima não assistida Excursão contralateral < 7 mm e/ou desvio não corrigido para o lado ipsilateral na abertura Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • • • • • • • • Ausência de ruído articular ou presença de ruído articular não satisfazendo critérios de deslocamento de disco com redução. �������������������������������������������������������� Uma condição na qual o disco está deslocado da posição entre o côndilo e a eminência para uma posição anterior e medial ou lateral não associada à abertura limitada. ���������������������������� História de limitação significativa da abertura mandibular Máxima abertura não assistida > 35 mm Distensão passiva aumenta a abertura em até 5 mm ou mais, além da abertura máxima não assistida Excursão contralateral > 7 mm Presença de ruídos articulares não satisfazendo critérios de deslocamento de disco com redução. ������ Nos casos que permitem exame por imagens, podese utilizar a ressonância magnética, que revela a posição do disco articular sem redução. ���������������������������� ��������� Dor e sensibilidade na cápsula articular e/ou no revestimento sinovial da ATM. Sinais e sintomas principais Dor em uma ou ambas as ATM durante a palpação Dor na região da articulação ou dor dentro da articulação durante os movimentos mandibulares. ��������������������������������������������� Condição inflamatória dentro da articulação resultante de condição degenerativa das estruturas articulares. Sinais e sintomas principais Artralgia, de acordo com o item anterior Crepitação evidente na articulação. Imagem Tomografia mostra uma ou mais das seguintes características: erosão da delineação cortical normal, esclerose de partes ou de todo o côndilo e eminência articular, achatamento de superfícies articulares, formação osteofítica. ��������������������������������������������� Distúrbio degenerativo da articulação em que a forma e a estrutura da articulação são anormais. Sinais e sintomas principais Ausência de todos os sinais da artralgia, ausência de dor na região da ATM, ausência de dor à palpação durante máxima abertura não assistida, abertura assistida e em excursões laterais Crepitação evidente na articulação. Imagem Tomografia mostra uma ou mais das seguintes características: erosão da delineação cortical normal, esclerose de Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • • • • • partes ou de todo o côndilo e eminência articular, achatamento de superfícies articulares, formação osteofítica. ���������� A maioria dos tratamentos recomendados para os distúrbios temporomandibulares visa aliviar os sintomas e envolve uma equipe multiprofissional. Sabemos que o tratamento necessita do auxílio da medicina física e também da ajuda de um psicólogo para modificar o comportamento; é importante identificar as etiologias mais comuns das DTM, como trauma, hábitos parafuncionais e hiperatividade muscular generalizada, sendo que o tratamento deve estar orientado para eliminar esses fatores.1–5 Terapia inicial Descanso articular por redução do uso da mandíbula por dieta macia e limitação de movimentos Aplicação de compressas úmidas mornas ou bolsas de calor ou gelo Medicação analgésica e antiinflamatórios não esteroidais (AINE), quando necessários Explicação detalhada dos distúrbios aos pacientes, com linguagem clara e simples. Concomitantemente, é realizada uma conscientização dos hábitos parafuncionais, a fim de conseguir uma modificação do comportamento: Educar o paciente para evitar hábitos de apertar os dentes e de manter tensão muscular nos músculos orofaciais e da mastigação Ensinar ao paciente exercícios de conscientização de postura de ombros, cabeça, mandíbula e língua Realizar consulta psicológica para detectar e reduzir o estresse Indicar tratamento para conseguir o relaxamento. ��������������������������������� ���������� Não há tratamento atualmente aceito como padrão para a função descoordenada côndilodisco – o estalido progressivamente mais ruidoso é mais preocupante. Os casos mais dolorosos são os que precisam de tratamento, e esses são geralmente tratados com placa oclusal, mas, mesmo assim, o estalido tende a voltar depois de algum tempo. O uso parcial noturno ou diurno da placa oclusal reduz a frequência do estalo sem alteração oclusal permanente. Obter uma articulação sem ruído não é o objetivo, pois normalmente este não progride, e a meta é conseguir ter uma articulação assintomática. Se os objetivos de diminuição da dor, diminuição da intensidade e frequência de estalido não forem alcançados (aproximadamente em 6 semanas), o uso da placa deve ser reavaliado. Uma terceira opção terapêutica seria artrocentese, discoplastia ou disectomia, que estão indicadas em casos de pacientes com sintomas refratários ao tratamento. ��������������������������������� ���������� Travamento agudo (menos de 1 mês): tentativa de redução manual; se for bemsucedido, provavelmente o estalido voltará. Se a manipulação falhar, devese tratar a mialgia e a artralgia por meios físicos e usar placa estabilizadora por 2 a 3 semanas, tentando redução manual a cada semana. Se o travamento persistir, indicase a artrocentese, que é de bom prognóstico, porque favorece maior extensão do movimento articular por desbridamento de adesões e lavagem do compartimento articular superior. O prognóstico é menos favorável se existirem alterações osteoartríticas. Mesmo travamentos não tratados sofrem alterações artríticas e remodelamentointracapsular sem sequelas significantes, e, com o tempo, maior mobilidade mandibular ocorrerá. Intervenções cirúrgicas devem se restringir à Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ■ • • • • • • • • • • • • • • • • dor articular com incapacidade funcional e a disfunções que provaram ser refratárias aos procedimentos clínicos já descritos. Condições in覢amatórias Artralgia Sinovite ���������� Se a origem da dor estiver em dúvida, devese realizar bloqueio anestésico, que será um meio de diagnóstico Dor intracapsular é tratada como osteoartrite, incluindo terapia inicial e placa estabilizadora Se a dor for refratária a esse tratamento e persistente, considerar artrocentese – lesão traumática. Capsulite ���������� Tratar com terapia inicial, incluindo antiinflamatórios não esteroidais Terapia física na fase aguda e também como suporte. Sequelas póstraumáticas são tratadas de acordo com o diagnóstico: Estalido, travamento, alterações oclusais ou até, em alguns casos, de anquilose articular Deslocamento condilar demonstrado por meio de radiografia deve ser reduzido manualmente, às vezes com sedação intravenosa Estiramento traumático de ligamentos e músculos são tratados com terapia inicial e física para aliviar sintomas agudos. Artrites localizadas na articulação temporomandibular ���������� Geralmente, pacientes com osteoartrose e remodelamento são assintomáticos e não requerem tratamento. Se a progressão da artrite é evidente, considerar a placa estabilizadora, particularmente se não existir estabilidade oclusal ou o paciente apresentar hábitos de bruxismo grave ou apertamento dentário Tratar fase aguda com terapia inicial e antiinflamatórios Injeções com esteroides mostraram ser efetivas, particularmente em pacientes com poucas alterações ósseas ou que já foram usadas com sucesso em outras articulações. Recomendase não mais que três aplicações em intervalos não menores que 1 mês Injeções de hialuronato de sódio podem ser alternativas aos corticosteroides Placas oclusais para estabilizar e minimizar o bruxismo e o apertamento são indicadas Sintomas progressivos e dor significativa refratária a tratamento conservador requerem consulta reumatológica ou intervenção cirúrgica. Porém, prognóstico a longo prazo normalmente é favorável sem intervenção cirúrgica. Artrite sistêmica generalizada ���������� Tratar ATM somente após consulta médica; a poliartrite nem sempre é a origem da queixa articular do paciente Terapia inicial para alívio da fase aguda: injeções de esteroides, se necessário Exercícios de extensão de movimentos na fase não aguda Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Placas estabilizadoras, se alterações articulares levarem à instabilidade oclusal Deformidades ou sequelas marcadas podem necessitar de tratamento ortodôntico ou reconstrução oclusal e, às vezes, cirurgia reconstrutiva, porém somente quando a doença está controlada ou em remissão, como os casos de mordida aberta ou micrognatismo, que necessitam de cirurgia ortognática. Luxação recidivante do côndilo mandibular ���������� Se houver autorredução, aconselhar o paciente a evitar movimentos amplos de abertura bucal que provoquem a luxação. Tratar a mialgia e artralgia associadas a antiinflamatórios não esteroidais Se houver bruxismo noturno ou apertamento como fator agravante, usar placa estabilizadora Deslocamento agudo não autorreduzido geralmente pode ser corrigido por manipulação passiva, seguida de terapia de suporte Deslocamentos recorrentes podem necessitar de bloqueio maxilomandibular com elásticos para restringir a abertura mandibular por 4 a 6 semanas Se isso não for suficiente e o paciente continuar com o quadro de luxação, intervenções cirúrgicas podem ser consideradas; atualmente, a eminectomia é o procedimento mais aceito. Distúrbios dos músculos mastigatórios ���������� ����� Redução ou eliminação da dor e restauração da função muscular Restauração do comprimento muscular normal Melhoria da força e coordenação dos músculos após a dor cessar. �������������� Terapia inicial por 14 a 21 dias, no mínimo Medicação antiinflamatória não esteroidal para controlar o edema e a inflamação Assim que a inflamação e a dor cederem, instituir exercícios de mandíbula e língua para obter coordenação, força, comprimento e postura muscular Para hábitos de apertar e ranger dentes, usar placa estabilizadora nas primeiras 6 a 8 semanas (exceto durante a alimentação), a fim de relaxar, estabilizar e proteger estruturas e reduzir atividade muscular noturna Se existirem problemas oclusais extensos, pode ser necessário tratamento ortodôntico, prótese ou cirurgia ortognática; porém, sua indicação não deve ser diferente do que a de pacientes normais Em caso de suspeita de tensão muscular orofacial, dar ênfase ao treinamento de postura correta e relaxamento de mandíbula e língua; se houver travamento reflexo ou trismo, indicamse exercícios de estiramento Se houver dor miofascial generalizada, usar spray de gelo, massagem, injeção anestésica em pontosgatilho seguidos de estiramento dos músculos envolvidos. Concomitantemente, exercícios caseiros e relaxamento devem ser instituídos Se a dor persistir por mais de 3 a 4 semanas, reavaliar o cumprimento dos exercícios caseiros, pois, muitas vezes, não são executados regular ou corretamente Terapia física como ultrassom ou estimulação elétrica (neuroestimulação elética transcutânea [TENS, transcutaneous electical nerve stimulation]), 2 a 3 vezes/semana, por 2 a 3 semanas adicionais, pode ser indicada. ������� ���������� Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • • • • • • • • Terapia inicial com bolsa de gelo Medicação antiinflamatória não esteroidal Terapia física (ultrassom, TENS) É contraproducente a placa oclusal, a não ser em evidente presença de bruxismo. ������� ������������������ Aplicar gelo e estirar o músculo nos limites suportáveis Medicação relaxante muscular Placa estabilizadora Terapia de modificação de comportamento Terapia física de mobilização para restabelecer comprimento muscular e diminuir atividade. Programa de exercícios Bloqueio anestésico e estiramento passivo do músculo, se necessário. ������������������������ Envolve medicamentos administrados por via oral ou aplicados na forma de injeções. Os medicamentos mais comumente usados para DTM quando há dor nas articulações e presença de componentes inflamatórios são os AINE (p.ex., ácido acetilsalicílico, ibuprofeno); porém, o paciente deve ser avisado de que seu uso prolongadopode causar efeitos colaterais. Os relaxantes musculares, como ciclobenzaprina ou benzodiazepina, são indicados quando o paciente tem dor muscular aguda ou trismo grave; as infiltrações na ATM são indicadas como opções de tratamento para pacientes que não responderam ao tratamento com AINE. Recentemente, injeções com hialuronato de sódio têm sido usadas como opção. �������������������� Cirurgia fechada da articulação temporomandibular Apesar de tecnicamente não ser uma cirurgia real, este procedimento inclui a artrocentese8 e a artroscopia.7 O termo é usado para definir uma lavagem articular feita com agulhas ou cânulas que são colocadas na região da ATM e possibilitam fazer a manipulação manual da articulação na hora da lavagem. A principal indicação da artrocentese é quando o paciente tem dificuldade em abrir a boca em casos de deslocamento do disco sem redução, aderências do disco articular e artralgia traumática, incluindo pacientes com artrite reumatoide. Podese também indicar a artroscopia em casos de limitação de abertura bucal crônica, tendo como vantagens a visualização direta das estruturas da ATM ou realização de biopsias. Em ambas as técnicas, a probabilidade de sucesso é bastante boa: Artrocentese: envolve simplesmente a irrigação intraarticular com ou sem corticosteroides e a eliminação das adesões por meio da distensão do compartimento superior da ATM. Durante o procedimento (geralmente feito sob anestesia local mais sedação) é feita a manipulação manual da mandíbula, a fim de conseguir a mobilização do disco e melhor relação disco/côndilo Artroscopia: essa técnica nos permite uma observação direta da ATM, podendo ser utilizada no tratamento de dor articular associada a casos de hipomobilidade e quadros de deslocamento do disco sem redução. Foi sugerido também que a artroscopia pode ajudar no pósoperatório das cirurgias abertas da ATM para aliviar a dor e a fibrose intracapsular. Além das lavagens articulares, podemse também fazer biopsias com o auxílio do artroscópio. Recentes estudos com imagens de ressonância magnética pósartroscópicas demonstraram que, apesar de os pacientes apresentarem melhora da função, continuam com deslocamento anterior do disco. Alguns autores sugerem que a artrocentese é tão efetiva quanto a artroscopia, obtendose em ambas as técnicas resultados bastante efetivos.19–22 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • Cirurgia aberta da articulação temporomandibular Alguns pacientes apresentam problemas de incoordenação discocôndilo refratários à terapia convencional.5,6 Nesses casos, a cirurgia aberta da ATM é uma opção bastante efetiva para esses tipos de patologia; porém, por causa da complexidade da técnica cirúrgica e de eventuais riscos que envolvem qualquer tipo de cirurgia, a cirurgia aberta só deverá ser indicada em casos bastante selecionados. A decisão de tratar um paciente cirurgicamente vai depender do grau de distúrbios que ele apresenta. Entre as opções, as cirurgias mais utilizadas são: Discoplastia: essa cirurgia é indicada quando o disco deslocado causa prejuízo da função. Observase por meio de imagens de ressonância magnética ou artrografia onde o disco se encontra desposicionado. Nesses casos, podese optar por uma discoplastia, ou seja, pelo reposicionamento cirúrgico do disco sobre o côndilo. Nesses tipos de cirurgia, a margem de sucesso é de 80% a 90% Discectomia: consiste na remoção do disco articular, quando este se apresenta degenerado e/ou defeituoso, com ou sem a colocação de um substituto, que pode ser um componente autógeno ou homólogo no local em que o disco foi retirado. A tendência hoje em dia é para que se coloque como substituto do disco um retalho de músculo temporal; algumas vezes, também é necessário fazer uma artroplastia condilar, ou seja, um alisamento no contorno da superfície do côndilo quando este se apresenta irregular, podendo ou não ser acompanhada da remoção do disco. ������������������������ Geralmente, recomendase o uso de antiinflamatórios não esteroidais por 2 ou 3 semanas, fisioterapia térmica, exercícios musculares para provocar movimentos articulares, dieta pastosa, uso de placa oclusal; posteriormente, em casos de êxito cirúrgico, poderá se pensar em uma reabilitação oclusal (ortodontia, prótese), se necessário. Caso o paciente operado não apresente melhora em um prazo de 6 a 8 meses, deverá ser reavaliado pelo cirurgião. ��������������������������������������������� A artrocentese da articulação temporomandibular8,23–27 pode ser considerada a primeira opção de tratamento cirúrgico para pacientes com distúrbios temporomandibulares e que não responderam ao tratamento conservador, como o uso de aparelhos intraorais, medicamentos, exercícios e/ou mudanças comportamentais de estilo de vida.8,28–32 Foi idealizada como modificação da artroscopia da ATM, quando se observou que a lise mecânica da aderência e a lavagem da articulação eram a base fundamental da artroscopia, e ainda melhorou mais quando foi adicionada à técnica a manipulação articular no transoperatório. Foi percebido também que o reposicionamento do disco, em geral, não é essencial para conseguir o alívio da dor e eliminar a restrição da abertura bucal. A artrocentese é um procedimento cirúrgico minimamente invasivo8,32,33, que pode ser feito ambulatorialmente ou com internação hospitalar sob anestesia local, com ou sem sedação, ou inclusive sob anestesia geral, o que muitos autores preferem, porque o paciente está mais relaxado e porque torna possível a manipulação mandibular mais efetiva. A técnica cirúrgica basicamente consiste na lavagem do compartimento superior da ATM com lactato de Ringer. Algumas vezes, pode ser complementada com injeção de solução viscoelástica. Apresenta baixo risco de complicações. A introdução da solução salina a 0,9% é feita por meio de agulhas ou cateter 8,19,22,30, que são inseridos por via transcutânea na região préauricular, podendo, inclusive, haver somente uma agulha de entrada ou uma de entrada e outra de saída8,34–36. ���������� A artrocentese é indicada nos casos de distúrbios internos da ATM que não responderam ao tratamento clínico, como os casos de pacientes com deslocamento anterior do disco com ou sem redução, casos de aderências com ou sem limitação da abertura da boca, casos de sinovite e/ou capsulite, casos agudos de artrite reumatoide e pacientes com ruído articular doloroso durante a abertura e/ou fechamento da boca; nesses casos, como paliativo da dor, e em casos de artralgia decorrente de trauma recente do mento, onde se realizam a aspiração e a lavagem articular.2,8,29,37–39 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce PauloKohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce �������������������������������������������������������� Com o paciente em decúbito dorsal horizontal, após antissepsia da região da ATM e a colocação de tampão no meato acústico externo, é aplicada anestesia local no nervo auriculotemporal com lidocaína com vasoconstritor. As referências anatômicas são as mesmas recomendadas para a inserção das cânulas do artroscópio7; traçase uma linha reta que vai da porção média do trágus da orelha até o canto externo do olho (Figuras 6.1 e 6.2). Figura 6.1 Traçado da linha no trágus da orelha e no canto externo do olho. Pontos de inserção das agulhas. Figura 6.2 Infiltração de lidocaína com vaso constritor. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 6.3 Inserção da agulha no recesso posterior ou portal posterior, após o auxiliar abrir a boca do paciente. Figura 6.4 Inserção da segunda agulha no portal anterior. Figura 6.5 Começo da lavagem intraarticular com soro fisiológico. Figura 6.6 Agulha dupla. Nessa linha são marcados dois pontos para a inserção das agulhas. O primeiro ponto fica mais perto do trágus, a uma distância de 10 mm deste e 2 mm abaixo dessa linha cantotragal; a segunda marcação será realizada 20 mm à frente do trágus e a 10 mm abaixo dessa mesma linha.8,39 Com o paciente acordado, solicitase que abra a boca; essa manobra proporciona o deslocamento do côndilo, a fim de possibilitar a entrada da agulha e ajudar a orientação da inserção desta, que seguirá uma direção discretamente para abaixo e para a frente (Figura 6.3). Eventualmente, em casos de pacientes sob anestesia geral, podese usar um abridor de boca, que deve ser colocado nas arcadas dentais do lado contralateral ao da realização da artrocentese para possibilitar o deslocamento da cabeça da mandíbula para baixo e para a frente, facilitando a abordagem ao recesso posterior do compartimento superior da ATM. Introduzse uma agulha 30 × 0,7 mm no ponto mais posterior, conectada por um extensor a uma seringa, e outra agulha é inserida no ponto marcado a 20 mm e 10 mm abaixo desta. Os extensores facilitam a Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce injeção da solução por meio de seringa, evitam a movimentação das agulhas dos locais puncionados e seu deslocamento, tornando possível a realização do procedimento com maior rapidez (Figuras 6.4 e 6.5). Quando a agulha estiver dentro desse compartimento, a lavagem é realizada com solução salina a 0,9% ou lactato de Ringer, tomando cuidado para não deslocar as agulhas do local da punção enquanto é feita a irrigação, pois isso pode extravasar líquido para os tecidos moles circundantes, produzindo dor e edema local e obrigando a interrupção do procedimento, com a recolocação das agulhas no local previamente demarcado. A quantidade de solução salina a 0,9% para realizar a artrocentese e remover as substâncias presentes no espaço articular varia de 200 mℓ a 500 mℓ40, e o controle de irrigação é feito pelo volume de líquido de entrada e saída. No caso de haver aderências, é recomendado aumentar a pressão no êmbolo da seringa enquanto o paciente e/ou auxiliar realiza movimentos de abertura e lateralidade da mandíbula, com o propósito de romper possíveis aderências intraarticulares, procurando restabelecer a abertura bucal igual ou superior a 35 mm e também de lateralidade e protrusiva.5 No pósoperatório imediato, recomendase não ter restrição de dieta, exercícios de abertura bucal e alongamento dos músculos da mastigação tão amplamente quanto possível, bem como o uso de gelo na região operada. Utilizam se antiinflamatórios não esteroidais e analgésicos para alívio do desconforto.5 ����������������� Ao realizar a artrocentese da ATM, produzse uma ação mecânica de lavagem intraarticular e possibilitase que os mediadores químicos da inflamação41–44 – as aderências do disco articular que estão dentro do compartimento superior e que foram soltas pela manipulação da mandíbula – sejam eliminados pela passagem da solução salina. Também há melhora da dor e, em alguns casos, eliminação desse sintoma por causa da ação direta de alguns medicamentos nos receptores da dor localizados na articulação, nos casos de injeção de corticoides e hialuronato, favorecendo também melhor mobilização mandibular e a relação discocôndilo mandibular por meio da lubrificação das superfícies intraarticulares. A partir da técnica básica da artrocentese da ATM 8 foram idealizadas outras técnicas similares utilizando uma agulha34,36,45, ou mais de duas agulhas,33,39 e/ou dispositivos idealizados para esse propósito.46 Alguns autores observaram que o uso de alguns medicamentos melhoram o prognóstico, quando usados após a lavagem intra articular.28,47–49 Ao revisar a literatura a respeito das variações de técnicas de artrocentese da ATM, observamos que pode ser usada uma combinação de técnicas sem alterar nosso objetivo, que seria melhorar a dor e a abertura bucal do paciente. Por exemplo, a técnica de agulha única para romper as aderências pode ser utilizada perfeitamente no começo da artrocentese, como descrito na literatura, e depois é possível continuar com a técnica original, sem que exista nenhuma contraindicação ou mau uso dos princípios cirúrgicos. Inclusive, nesse mesmo ato operatório, podemse utilizar medicamentos de acordo com o diagnóstico inicial do paciente, como em casos de deslocamento do disco sem redução, em que é interessante injetar hialuronato de sódio para promover mobilidade articular e também melhor relação côndilodisco articular; em casos de artralgia por capsulite e/ou sinovite ou artrite reumatoide, podese lançar mão de injeção de antiinflamatórios para eliminar e/ou melhorar os escores de dor. Em pacientes refratários ao tratamento conservador, uma alternativa de tratamento é a artrocentese da ATM, que pode ser realizada com a execução de uma técnica de agulha única34,45. Essa técnica emprega as mesmas substâncias usadas na artrocentese convencional8 e utiliza como ponto de punção o recesso posterior que se forma quando o paciente abre a boca, ou seja, 10 mm anterior e 2 mm inferior à linha trágus, ao canto externo do olho, para injeção de solução salina a 0,9% e aspiração imediata do conteúdo na mesma punção. Podese mencionar como vantagem à abordagem da técnica da artrocentese original, que é realizada com duas agulhas39, o posicionamento de uma única agulha34,39,46, que possibilita acesso mais seguro e estável para o espaço articular, ao passo que o posicionamento de uma segunda agulha eventualmente poderia interferir na estabilidade da primeira. Essa técnica utiliza a injeção de fluido sob pressão com o paciente de boca aberta, a fim de expandir a fossa mandibular; após a injeção da solução salina, solicitase que o paciente feche a boca, e o líquido é retirado com essa mesma agulha (Figura 6.6). Todo esse processo de injeção e aspiração de líquido deve ser realizado em 10 repetições, com um volume total de aproximadamente 40 mℓ. A injeção sob pressão do fluido é útil para romper aderências, que são as causas da limitação do movimento de translação do côndilo mandibular, o que explica Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo KohnoRealce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce principalmente os fenômenos de adesão do disco à fossa mandibular e ao tubérculo articular, tornando possível a imediata melhoria na abertura da boca. Indicase, portanto, tal técnica em articulações com hipomobilidade, com fortes aderências ou em articulações com alterações degenerativas, que tornam difícil a inserção da segunda agulha. Outra vantagem dessa técnica sobre a artrocentese original8 é o menor risco da injeção do hialuronato de sódio fluir para fora do compartimento superior, uma vez que a segunda agulha está ausente. Também temos a indicação de artrocentese da ATM combinada com medicamentos, como exposto a seguir. �������������������������������������������� Foi avaliado28 o desempenho da artrocentese na ATM com e sem injeção de hialuronato de sódio nos casos de deslocamento do disco com e sem redução. A amostra avaliada foi de 31 pacientes que apresentavam quadro clínico de dor, sensibilidade na ATM, estalos e limitação da abertura bucal. Os pacientes foram divididos aleatoriamente em dois grupos. No primeiro grupo foi realizada artrocentese; no segundo, artrocentese mais injeção de 1 mℓ de hialuronato de sódio. Foi feita uma avaliação clínica antes, logo após a artrocentese e do 1o até o 24o mês de evolução. Os parâmetros avaliados foram: intensidade da dor, que foi avaliada pela escala de dor; função mandibular, avaliada pela presença de ruídos articulares da ATM; abertura máxima da boca; e movimentos laterais da mandíbula. Ambas as técnicas diminuíram a dor e o ruído articular, melhoraram a abertura bucal e a movimentação lateral da mandíbula. ��������������������������������������������������������������������� Nesse estudo foram idealizados dois protocolos de tratamento empregando artrocentese da ATM50 com agulha única, seguida por injeções de ácido hialurônico com dois diferentes pesos moleculares, em cinco sessões, 1 vez/semana, tendo como meta avaliar a eficácia da combinação de injeção de dois tipos de hialuronato de sódio em pacientes com diagnóstico de osteoartrite de ATM. Foram utilizados para avaliação os Critérios Diagnósticos em Pesquisa para DTM (RDC/TMD, Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders). A amostra constou de 40 pacientes divididos em dois grupos de forma aleatória. No primeiro grupo foi realizada artrocentese e injeção de ácido hialurônico de baixo peso molecular, e o outro grupo recebeu ácido hialurônico de peso médio. Foram avaliadas a dor máxima à mastigação, a dor em repouso, a eficácia mastigatória, a limitação funcional, a tolerância ao tratamento, a eficácia percebida e a amplitude da função mandibular e dos movimentos mensurados em milímetros. Todos esses parâmetros foram avaliados e comparados entre os dois grupos no final do tratamento e após 3 meses. Ao final desse período de acompanhamento, todos os parâmetros melhoraram nos dois grupos. A comparação entre os grupos ao longo do tempo mostrou que as diferenças não foram significativas para qualquer uma das variáveis estudadas. ������������������������������������������������������������������������ A viscossuplementação com injeção intraarticular de hialuronato de sódio começou a ser indicada em casos de distúrbios internos das ATM a partir de 1979.37 Desde então, alguns estudos têm procurado avaliar a efetividade dessa técnica, bem como estabelecer um protocolo para sua utilização. Um estudo49 avaliou 22 pacientes com distúrbios da ATM caracterizados por dor e limitação da abertura da boca, diagnosticados clínica e radiologicamente no estágio III ou IV de Wilkes. A amostra foi dividida em dois grupos. Em 10 pacientes foi realizada artrocentese da ATM, seguida de 10 mg de hialuronato de sódio, cinco aplicações, 1 vez/semana; e nos outros 12 pacientes, artrocentese e dexametasona em uma única sessão. A abertura bucal, a avaliação da dor e o grau de satisfação durante a mastigação foram avaliados com a escala da dor antes da artrocentese e após 6 meses de sua realização. A média da abertura bucal máxima antes da artrocentese e depois de 6 meses no grupo de hialuronato foi 24,9 e 39 mm, respectivamente; ao passo que no grupo de dexametasona foi de 25,7 e 41,3 mm, respectivamente. O valor médio da dor no grupo artrocentese/hialuronato antes e após 6 meses foi 6,7 e 1,8, respectivamente; e no grupo artrocentese/dexametasona antes e após 6 meses foi de 7 e 1,8, respectivamente. O resultado de satisfação durante a mastigação com a EAV no grupo artrocentese/hialuronato antes e depois de 6 meses foi de 2,8 e 7,7, respectivamente, e no grupo artrocentese/dexametasona foi de 3,1 e 7,8, respectivamente. Como resultado foi descoberto que houve diferença estatisticamente significativa entre as avaliações antes da artrocentese e após 6 meses, porém não foi encontrada diferença significativa entre todas as Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce medições no grupo hialuronato e dexametasona. Outros estudos utilizaram a artrocentese de ATM combinada com o uso de medicamentos antiinflamatórios não esteroidais e opioides. Foram estudados os efeitos clínicos e radiológicos da artrocentese da ATM com o uso de tenoxicam em 21 pacientes com diagnóstico de deslocamento do disco sem redução, divididos em dois grupos. Após avaliar resultados como intensidade da dor articular, a abertura bucal máxima foi registrada, assim como exame de imagem de ressonância magnética foi realizado antes e 6 meses após o tratamento nos dois grupos, para estudar a forma e a posição do disco com a boca aberta e fechada, presença de efusão articular e alterações osteofíticas no côndilo mandibular. Ambos os tratamentos produziram melhora da dor articular e aumento na abertura bucal. Em outro estudo foi feita a artrocentese com injeção de morfina intraarticular37, que foi realizada em 298 pacientes e 405 artrocenteses durante o período de 10 anos. Avaliouse a dor utilizando a EAV antes da artrocentese e em 1 mês, 6 meses e 1 ano após o procedimento. Os resultados mostram que as dores diminuíram significativamente após o procedimento. A combinação de artrocentese da ATM com injeção de morfina intra articular reduziu a dor em aproximadamente 90% dos pacientes. Complicações Como decorrência da técnica cirúrgica e da movimentação das agulhas ou da injeção da solução salina fora do espaço intraarticular, o que comumente se observa é o edema por infiltração dos tecidos moles adjacentes. Pode ocorrer também paresia do ramo zigomático ou temporal do nervo facial pelo bloqueio anestésico local ou pelo próprio edema, também por traumatismo da agulha, todas em forma transitória; hematoma e sangramento perioperatório por lesão vascular também pode ser visto com menos frequência; há um caso relatado de hematoma extradural.22,51 Essas complicações, todas transitórias e leves, não trazem outras morbidades que contraindiquem ou prejudiquem a indicação cirúrgica. Discussão Se o resultado da terapia conservadora no tratamento das DTM for pobre, podese lançar mão, inicialmente, de tratamentos menos invasivos e de menor complexidade, como a artrocentese. Quando realizada corretamente, a artrocentese da ATM é um procedimento cirúrgico minimamente invasivo, de fácil execução, de tempo operatório bastante curto, de baixo custo e de alta eficácia no tratamento dos distúrbios da ATM, quando bem indicada. Pode serrealizada ambulatorialmente, sob anestesia local, com ou sem sedação. Possibilita a lavagem do espaço articular superior e lises de aderências pela movimentação mandibular durante o ato operatório e pela pressão hidráulica do compartimento superior do disco da ATM. Novas pesquisas mais bem idealizadas metodologicamente são necessárias antes que se possa determinar com precisão qual a melhor técnica de artrocentese. Isolada ou combinada com outras modalidades terapêuticas, pode ser empregada nas disfunções das ATM e em seus respectivos subgrupos. A técnica tradicional utiliza duas agulhas inseridas nesse compartimento. Uma das agulhas para a entrada da solução de lavagem e a outra para a saída.22 O procedimento apresenta poucas dificuldades técnicas, e existem referências anatômicas estabelecidas que facilitam a punção das agulhas e o acesso ao compartimento superior da ATM. Apresenta bons resultados, inclusive quando executada por profissionais com pouca experiência cirúrgica, apesar de que a lavagem é feita às cegas em um compartimento que apresenta um mínimo de espaço. Pode ser utilizado com uma variação de combinações da artrocentese convencional1 com solução salina e opioide ou com uso de antiinflamatórios. A técnica de artrocentese clássica e a artrocentese com agulha única associadas ao ácido hialurônico parecem ser efetivas no tratamento das DTM. A técnica cirúrgica incorreta pode desencadear maior dor por causa das várias punções, causando traumatismo na cápsula articular. A possibilidade de deslocamento das agulhas pode levar à interrupção do ato operatório, produzindo resultados insatisfatórios. Pode ocorrer também bloqueio nervoso de caráter temporário envolvendo ramos do nervo trigêmeo, por causa da própria técnica anestésica e/ou de edema temporal na região do procedimento, quando se emprega o volume da solução salina para irrigação ou quando há disseminação dessa substância para planos mais superficiais e/ou profundos. Pode também haver lesão nervosa de um ou mais ramos Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. motores, envolvendo o facial a partir da própria introdução de uma ou de ambas as agulhas durante o ato operatório. Resumo Podemos afirmar que a técnica original da artrocentese e suas diversas combinações com antiinflamatórios, opioides e substâncias viscoelásticas são um tratamento cirúrgico minimamente invasivo de fácil execução, que pode ser realizado sob anestesia local e produz excelentes resultados nas DTM. Apresenta baixa morbidade e tem como vantagem a possibilidade de repetição, além de produzir pouco desconforto no trans e pósoperatório e ser de baixo custo. O sucesso terapêutico, todavia, depende de inúmeros fatores, que envolvem o adequado diagnóstico, a cronicidade da doença e suas características, a operação do paciente, a técnica empregada e a experiência do profissional. Referências bibliográ䛢ꋜcas OKENSON, J. P. Orofacial pain. Guidelines for assessment, diagnosis and management. The American Academy of Orofacial Pain. Illinois: Quintessence Publishing, 1996. LEEUW, R. Dor orofacial. Guia de avaliação, diagnóstico e tratamento. Academia Americana de Dor Orofacial. 4. ed. 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Na região, encontramos a glândula parótida, os vasos temporais superficiais e os nervos facial (VII par craniano) e auriculotemporal (ramo do V par craniano),1,3 além da proximidade com o conduto auditivo externo. Recomendamos previamente à leitura deste capítulo que se observe atentamente o capítulo referente à anatomia da ATM. Acesso pré-auricular Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ Convencional Para a abordagem da ATM, uma incisão foi proposta, sendo desenhada na junção da pele com a hélice da orelha, em que uma prega natural da pele ao longo de todo o comprimento da orelha pode ser usada como referência1 (Figura 7.1). Após a marcação da incisão da pele é aconselhável a colocação de um tampão auricular para evitar a entrada de sangue no conduto auditivo externo, bem como a infiltração de lidocaína com epinefrina, 1:200.000, no subcutâneo, ao longo de toda a marcação da incisão, a fim de possibilitar um campo operatório com menor sangramento. A incisão é feita através de pele e tecidos subcutâneos (Figura 7.2). Por meio de dissecção com tesoura e/ou com descolador de periósteo, chegamos até a profundidade da camada superficial da fáscia temporal (Figura 7.3). Nesse ponto, uma incisão oblíqua é realizada na fáscia temporal e um elevador de periósteo é inserido abaixo dessa fáscia, a fim de descolar o periósteo da parte lateral do arco zigomático (Figura 7.4). Assim, teremos certeza de que o nervo facial ficará protegido do afastamento pela fáscia temporal4. Seguese com a dissecção romba, em direção inferior, superficialmente à cápsula da ATM. Completamos a incisão da fáscia temporal no sentido inferior à frente do meato acústico externo associado, se necessário, mais a dissecção sob a fáscia e acima da cápsula articular para expor adequadamente esta última (Figura 7.5). Pequenos sangramentos podem ser facilmente controlados com eletrocoagulação. Com a cápsula devidamente exposta, utilizamos um bisturi ou uma tesoura para adentrar a cápsula logo abaixo do arco zigomático (Figura 7.6). Após isso, iniciase a desinserção lateral do disco articular junto à cápsula, penetrando nos espaços articularesinferior e superior por intermédio de descolamento periosteal da fossa articular e do pericôndrio da superfície condilar, tomando muito cuidado para evitar lacerações no disco articular, que pode ser mobilizado nesse momento (Figura 7.7). Figura 7.1 Demarcação da incisão préauricular convencional. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 7.2 Incisão da pele e do tecido subcutâneo. Figura 7.3 A. Exposição da fáscia temporal superficial por dissecção. B. Visão cirúrgica da fáscia temporal superficial. Figura 7.4 A. Incisão da fáscia temporal superficial com bisturi e inserção de descolador de periósteo para desinserir o periósteo externo do arco zigomático até superficialmente a cápsula da articulação temporomandibular. B. Vista coronal do descolamento do periósteo do arco zigomático chegando superficialmente à cápsula da articulação temporomandibular. C. Visão cirúrgica após incisão da fáscia com exposição da gordura. Após a realização do objetivo da cirurgia, devese proceder ao fechamento por sutura por planos da cápsula articular, seguido da fáscia temporal, do tecido subcutâneo e, por fim, da pele, por meio de uma sutura intradérmica Paulo Kohno Realce ■ (Figura 7.8). Para a sutura interna, utilizamos um fio reabsorvível monofilamentar 40 e, para pele, um fio monofilamentar 50, reabsorvível ou não. Figura 7.5 Complementação da incisão da fáscia temporal para possibilitar a exposição da cápsula. O acesso préauricular convencional pode ser indicado principalmente para correções de desarranjos internos da ATM com indicação cirúrgica, como hiperplasia de côndilo mandibular ativa e fratura de côndilo mandibular com grande deslocamento medial, em que não foi possível fazer a redução somente pelo acesso submandibular ou retromandibular.5 Variação do acesso préauricular convencional seria acrescentar a esse uma pequena extensão temporal, com o objetivo de facilitar o afastamento dos tecidos e melhorar a exposição do campo operatório (Figura 7.9). O prolongamento da incisão na região temporal ocorre na região do cabelo, e a cicatriz resultante fica escondida por ele. A vantagem dessa incisão é que, por ser o afastamento dos tecidos menos tensos, temos menos possibilidade de neuropraxia do nervo facial, que, quando ocorre no acesso préauricular, é, na grande maioria das vezes, temporária e geralmente ocasionada por afastamento traumático dos tecidos. Acesso endoaural A abordagem endoaural é iniciada no espaço articular posterior 1 mm a 1,5 mm medial à borda lateral do trágus, pela porção avascular anterior ao meato acústico externo.1 A divulsão é direcionada em sentido anterossuperior e ligeiramente medial até o arco zigomático. Após essa etapa, a divulsão até os espaços articulares é feita como no acesso préauricular convencional (Figuras 7.10 e 7.11). As indicações do acesso endoaural são as mesmas do acesso convencional, sendo que a escolha de um ou outro fica a critério do cirurgião. Os cirurgiões que preferem acesso endoaural alegam que a cicatriz fica menos visível, portanto mais estética. Entretanto, a nosso ver, em pacientes cujo trágus é mais delicado, e a pele que o reveste, muita fina, com a ocorrência da retração cicatricial no pósoperatório, é possível que o formato do trágus seja frequentemente alterado e ocorra assimetria com o lado oposto. A cicatriz produzida pelo acesso préauricular convencional é muito favorável e estética na grande maioria dos pacientes. Portanto, aconselhamos observar bem o trágus para ajudar na escolha do acesso. Em trágus delicados com cobertura de pele fina, sempre optamos pelo Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce acesso préauricular convencional. Quando estamos diante de trágus mais definidos e com pele mais espessa, podemos usar o acesso endoaural com tranquilidade. Figura 7.6 A. Visão cirúrgica da cápsula articular. B. Incisão da cápsula articular abaixo do arco zigomático. C. Vista frontal após incisão da cápsula. Paulo Kohno Realce Figura 7.7 Disco articular isolado. Figura 7.8 Sutura intradérmica da pele. Figura 7.9 A. Demarcação da incisão préauricular com extensão temporal. B. Exposição da fáscia temporal superficial e incisão dela. Após essa etapa, o acesso continua da mesma forma como é feito no acesso convencional. Figura 7.10 Visualização cirúrgica após incisão endoaural. ■ Figura 7.11 Visualização da cartilagem do trágus após rebatimento do retalho. Desse ponto em diante, o acesso segue os mesmos passos do acesso convencional. Extensão de Al-Kayat e Bramley A incisão é iniciada na região temporal, anterossuperiormente à orelha externa, e segue descrevendo um semicírculo até a base da orelha externa, em direção inferoposterior, para evitar os ramos principais dos vasos temporais. Continuase contornando a porção anterior da orelha externa, a cartilagem do trágus, até a inserção do lóbulo (Figura 7.12). Na região temporal, a incisão deve compreender pele e fáscia temporoparietal até a margem superficial da fáscia temporal. A divulsão é feita cuidadosamente, sendo toda a espessura dessa fáscia refletida com o retalho de pele e tecido subcutâneo, uma vez que as fibras nervosas encontramse no interior da fáscia temporoparietal. Até 2 cm da margem superior do arco zigomático, onde a fáscia temporal se bifurca, a dissecção é prosseguida, e, a partir dessa fase, uma incisão em 45° partindo da porção posterior do arco zigomático em direção anterossuperior deverá ser realizada sobre a lâmina lateral da fáscia temporal até a margem posterior do processo frontal do osso zigomático. Seguramente, agora, o periósteo do arco zigomático pode ser incisado, descolado e incisado em um retalho único, rebatendo as estruturas anatômicas nobres. A dissecção prossegue no sentido caudal até o encontro com a cápsula articular e o ligamento lateral da ATM. Então, uma incisão horizontal sobre a inserção superior da cápsula é realizada para ter acesso ao interior da articulação.6 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ Figura 7.12 Demarcação da incisão do acesso de AlKayat e Bramley. O acesso de AlKayat e Bramley6 é bastante utilizado para cirurgias de anquiloses da ATM e de tumores localizados no côndilo mandibular. Quando há necessidade de remover o processo coronoide e/ou de reconstruir o côndilo mandibular com prótese ou enxerto, esse tipo de acesso tornase muito interessante por causa da excelente exposição do campo operatório. Como no acesso convencional, por vezes se faz necessário associálo ao acesso submandibular ou retromandibular para auxiliar na fixação de prótese ou enxerto quando precisamos reconstruir o côndilo mandibular. Acesso submandibular (Risdon) O acesso submandibular é uma das mais úteis abordagens para o ramo mandibular e a região de corpo posterior. Essa abordagem pode ser utilizada também para uma série de osteotomias mandibulares, além de anquilose da ATM. A incisão é realizada de 1,5 cm a 2 cm inferiormente à base da mandíbula (Figura 7.13). A incisão é localizada dentro de uma ruga própria da pele, na posição anteroposterior. A incisão inicial é conduzida por pele e tecidos subcutâneos até o nível do músculo platisma. A pele é divulsionada por meio de tesouras rombas em todasas direções. A porção superior é divulsionada cerca de 3 cm, e a inferior, cerca de 2 cm. Em seguida, realizase a divulsão das fibras do músculo platisma. Com um instrumento internamente ao músculo, este é incisado de uma extremidade a outra. Dissecamse a alça pterigomassetérica e a veia e a artéria faciais, bem como se isola o nervo marginal da mandíbula. Maior retração da mandíbula é conseguida por meio de descolamento do músculo masseter e, assim, expõese satisfatoriamente o ramo, bem como o processo condilar da mandíbula. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ 1. 2. 3. 4. 5. 6. ▶ Figura 7.13 Demarcação da incisão do acesso submandibular. Como dito anteriormente nos outros acessos, no que diz respeito à ATM, o acesso submandibular ou retromandibular é um acesso coadjuvante que auxilia as cirurgias reconstrutivas da ATM. Exceção deve ser feita às fraturas de côndilo mandibular que apresentam indicações cirúrgicas, cuja grande maioria é passível de ser tratada somente pelo acesso submandibular ou retromandibular. Referências bibliográ�cas ELLIS III, E.; ZIDE, M. F. Surgical approaches to the facial skeleton. 1. ed. Media: Williams, 1995. DEVIDES, N. J. et al. Anatomia cirúrgica e morfométrica da região parotídea: bases para os acessos à ATM. Rev Odontol, v. 7, n. 1, p. 444454, 2006. KEITH, D. A. 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J Oral Maxillofac Surg, v. 70, n. 10, p. 22802289, 2012. ■ ■ ■ ■ ■ ■ ■ ▶ Introdução Classificação Etiologia Diagnóstico Tratamento Técnica cirúrgica Considerações Luiz Carlos Souza Manganello, Alexandre Augusto Ferreira da Silva, Maria Eduina da Silveira, Anderson Shigeoka Introdução A articulação temporomandibular (ATM) é formada pelo côndilo mandibular, que se articula na fossa articular do osso temporal. Entre estas duas estruturas, encontrase o disco articular, que impede o contato direto entre ambos. Okeson1 considera a ATM como a articulação mais complexa do corpo humano, podendo realizar movimentos de rotação e translação, enquanto o disco articular possibilita movimentos complexos e absorve parcialmente as forças direcionadas à ATM, agindo como amortecedor de impactos. O disco é formado de tecido conjuntivo fibroso, sendo desprovido de vasos sanguíneos e fibras nervosas. No sentido anteroposterior, ele pode ser dividido em três partes: uma anterior e uma posterior, que são mais espessas, sendo a posterior um pouco mais espessa que a anterior; e a parte intermediária, que é a menos espessa e tem a função de articularse com a zona articular do côndilo mandibular. Na região anterior do disco articular e também no côndilo mandibular ocorre a inserção do músculo pterigóideo lateral; na região posterior há a inserção dos ligamentos retrodiscais. A ATM é revestida pelo ligamento capsular ou cápsula da ATM, na qual se insere também o disco anterior, posterior, medial e lateralmente. Medialmente à cápsula há a membrana sinovial, que produz o líquido sinovial, que tem função de lubrificar a ▶ ▶ ▶ articulação e nutrir o disco articular, que é avascular. A disfunção ou desarranjo interno da ATM é uma condição muito comum, com incidência estimada entre os vários autores de 12% a 87% da população mundial.2 O deslocamento anteromedial do disco articular é o problema mais frequente entre os desarranjos internos da ATM, podendo causar: diminuição do espaço articular, estalos ou crepitação durante a função mandibular, inflamação articular, artrite, reabsorção condilar, má oclusão, deformidade maxilar, compressão dos tecidos retrodiscais (zona bilaminar) com consequente sintomatologia dolorosa, que varia de intensidade entre os pacientes.2,3 Classi鬅弜cação A disfunção da ATM pode ser classificada como intraarticular (deslocamento do disco articular) ou extra articular (dor miofascial). O deslocamento anterior do disco articular é classificado como sem redução ou com redução. No deslocamento com redução, durante a abertura bucal, ocorre a captura do disco pelo côndilo, que é observada por meio de um estalo; a abertura bucal permanece dentro de limites adequados e, durante o fechamento bucal, um novo estalo pode indicar um novo deslocamento anterior do disco, com ou sem sintomatologia dolorosa. O deslocamento sem redução é a evolução de um deslocamento com redução não tratado ou tratado de modo incorreto; normalmente, ocorre limitação de abertura bucal, devido ao fato de, durante o movimento de translação do côndilo, o disco ser forçado cada vez mais anteromedialmente pela hiperatividade do músculo pterigóideo lateral, ocasionando compressão dos tecidos retrodiscais e, geralmente, dor (Figura 8.1). O disco deslocado permanentemente à frente do côndilo age como um obstáculo mecânico para a completa translação protrusiva. Como consequência, acontece uma importante limitação funcional: a incapacidade de abrir plenamente a boca e uma deflexão da mandíbula para o lado afetado. O movimento durante a abertura passa a ser fundamentalmente por rotação infradiscal, com restrição do movimento de translação. A abertura limitase a 25 a 30 mm.4 O deslocamento crônico do disco articular pode resultar em sua deformação, bem como em sua perfuração e degeneração da superfície articular. A compressão da zona bilaminar pode levar ao aparecimento de adesões intracapsulares, o que contribui para a hipomobilidade mandibular e o aumento progressivo da dor.1,2,5 Etiologia A etiologia das disfunções da ATM é ainda bastante discutida entre os profissionais das áreas médica e odontológica. Atualmente, o mais aceito é que existe uma associação de fatores predisponentes, os quais aumentam o risco de disfunção temporomandibular, como os fatores de iniciação, responsáveis por sua instalação, e os fatores perpetuantes, que interferem na cura ou aumentam a progressão da doença.1 O deslocamento de disco articular é considerado a artropatia mais comum da ATM e é caracterizado por uma relação anormal de mau posicionamento do disco articular e do côndilo.2,3 Atualmente, não há concordância sobre as causas do deslocamento de disco; contudo, postulase que, na maioria dos casos, o disco seja deslocado por estiramento e/ou desgastes dos ligamentos. Os desarranjos internos da ATM têm etiologia multifatorial, que pode ser dividida nos grupos de microtraumas causados por problemas oclusais, macrotraumas ocasionados por agentes externos de maior magnitude, como traumas mentuais por queda, agressão, entre outros, e também fator de origem emocional.2,3,6 Há um ciclo contínuo de evolução na disfunção interna da ATM, em que a má oclusão associada ao estresse emocional levaria ao aumento da hiperatividade muscular, e, quando a musculatura supera a tolerância estrutural da ATM, ocorre um colapso caracterizado por dor e sinais dedisfunção que, por sua vez, aumentam ainda mais o estresse emocional e, consequentemente, a hiperatividade muscular.1,2 Diagnóstico O diagnóstico nem sempre é fácil, podendo estar a disfunção interna da ATM frequentemente associada ao Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce componente externo, que é a dor miofascial. Geralmente, a dor da disfunção interna é bem localizada na região articular, enquanto a dor miofascial é difusa e pode irradiarse pelos músculos da mastigação e regiões cervical, occipital e frontal. Ambas podem ser uni ou bilaterais. Para definir um diagnóstico é fundamental correlacionar os achados clínicos com os resultados dos exames por imagens, nos quais a ressonância magnética da ATM vem se consolidando como um dos principais recursos auxiliares.7 Figura 8.1 A. Grau I: fase inicial do desarranjo interno da ATM. B. Grau II: forma clássica do deslocamento anterior do disco. C. Grau III: o disco se encontra deslocado anteriormente e deformado. D. Grau IVA: o disco se encontra localizado anteriormente à cabeça da mandíbula e o feixe posterior tornase bem espesso e localizado à frente da cabeça da mandíbula. E. Grau IVB: o disco se encontra encurtado, degenerado e completamente à frente da cabeça da mandíbula. F. Grau VA: nos estágios mais avançados, o disco ou os tecidos de inserção aparecem perfurados. A queixa do paciente e o exame clínico são fundamentais no diagnóstico preciso das doenças intracapsulares.8 Nos deslocamentos do disco articular com redução, as queixas são normalmente de ruídos na articulação durante abertura e fechamento bucal, que podem variar de estalos ou crepitação, acompanhados ou não por dor. Já no deslocamento sem redução do disco, a queixa é uma limitação de abertura bucal, que ocorre de modo abrupto e não gradual e que, mais uma vez, pode estar acompanhada de dor ou não. O paciente apresenta história pregressa de Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ estalos na articulação durante abertura de boca, os quais não ocorrem mais.1 Clinicamente, podemos notar à palpação uma hipomovimentação do côndilo afetado, principalmente pela falta do movimento de excursão. A abertura bucal fica limitada, podendo haver pequeno desvio para o lado afetado nos casos unilaterais. O exame de ressonância magnética complementa o diagnóstico, dando informações precisas da condição do disco articular, bem como de seu posicionamento durante a abertura e o fechamento bucal (Figura 8.2). Processos degenerativos podem ser observados, como afilamento do disco e até mesmo perfurações, contribuindo, assim, para o planejamento terapêutico. Figura 8.2 A. Ressonância magnética da articulação temporomandibular direita em boca fechada, mostrando o disco articular posicionado anteriormente. B. Ressonância magnética da articulação temporomandibular direita em boca aberta, na qual o disco articular permanece posicionado anteriormente, com hipoexcursão condilar. Tratamento O tratamento das disfunções temporomandibulares é clínico, de acordo com vários autores.1,3,9,10 Isto é verdadeiro, sobretudo, para a dor miofascial e o deslocamento anterior do disco com redução, em que a utilização de placas oclusais específicas para cada caso, associada, quando necessário, à terapia antiestresse emocional, apresenta bons resultados. O deslocamento anterior do disco sem redução em fase inicial pode também ser tratado clinicamente, com o uso de placa oclusal reposicionadora anterior da mandíbula. Entretanto, diante de um deslocamento anterior sem redução em fase avançada, em que já exista aderência intracapsular e degeneração do disco e/ou das superfícies articulares, o tratamento cirúrgico tem sua indicação.11 A ideia de cirurgia da ATM como último recurso para o tratamento das disfunções temporomandibulares (DTM) fatalmente levará o procedimento cirúrgico ao insucesso. A cirurgia tem indicação precisa, ou seja, quando existir comprometimento da função, tendo como causa alteração da morfologia seguida ou não de queixa de dor.12 Sato et al.13 realizaram um estudo com três grupos de pacientes com deslocamento do disco anterior sem redução. O primeiro grupo, com 31 pacientes, se recusou a fazer qualquer tipo de tratamento; o segundo grupo, com 20 pacientes, foi submetido a tratamento com placa de mordida; já o terceiro grupo, com 24 pacientes, foi submetido a tratamento cirúrgico. O índice de sucesso nos pacientes que não receberam qualquer tipo de tratamento foi de 41,9%, os que foram tratados com placa de mordida foi de 55%, já nos pacientes tratados cirurgicamente o índice foi de 76,9%. Estatisticamente, não houve diferença significativa entre os pacientes do grupos tratado com placa de mordida e os que não receberam tratamento nenhum. A artroscopia e a artrocentese podem ser aplicadas no tratamento das disfunções internas de ATM; porém, por serem assuntos amplos, ambas são apresentadas em capítulos próprios nesta obra. A discopexia se enquadra no tratamento cirúrgico aberto da articulação e visa reposicionar os discos articulares e fixálos na posição correta e é indicada principalmente nos casos de deslocamento anterior do disco articular sem redução, situação na qual o próprio disco impede o movimento de translação do côndilo mandibular, ocasionando a limitação de abertura bucal e não raramente dor. Normalmente, este quadro ocorre de maneira abrupta, com a principal queixa sendo a de travamento da boca limitando a abertura bucal, com histórico de estalos crônico em abertura bucal, os quais não ocorrem mais, ou seja, um quadro de deslocamento do disco articular com redução Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ passa a não reduzir.14 Stack et al.15 realizaram um estudo com 60 pacientes portadores de deslocamento crônico de disco submetidos à cirurgia de ATM. Os critérios de inclusão foram: pacientes refratários ao tratamento clínico, instabilidade da ATM, hiperatividade muscular ou previamente ao tratamento ortodôntico ou cirurgia ortognática. Os resultados obtidos em uma análise subjetiva apresentaram melhora em 86% na dor em abertura bucal, 82% em desvio, 80% em dor durante a alimentação, 76% em dores localizadas na articulação e 72% em dores de orelha antes da cirurgia. Os autores concluíram que, para aumentar a previsibilidade das cirurgias da ATM, devese realizar uma combinação de tratamentos associado ao tratamento cirúrgico,como o uso de placas de mordida no pré e pósoperatório, avaliação oclusal e fisioterapia agressiva. Movimentos para redução do disco articular nos momentos iniciais ao quadro podem surtir efeito, juntamente com o uso de placas oclusais com reposicionamento anterior. Porém, a curto ou médio prazo, a disfunção tende a recidivar, devido, principalmente, ao estiramento ou à ruptura dos ligamentos do disco. Técnica cirúrgica Tecnicamente, a discopexia consiste em um acesso préauricular sob anestesia geral, podendo haver variações em relação ao acesso cirúrgico, como do tipo estritamente préauricular, endoaural ou com extensão temporal (ver Capítulo 7). No nosso caso, realizamos, na grande maioria das vezes, o acesso préauricular clássico ou com extensão temporal, o que nos dá uma visão direta, facilidade no afastamento dos tecidos e pósoperatório com pouco edema e dor, além de uma cicatriz praticamente imperceptível a curto prazo (Figura 8.3). É fundamental a identificação do disco articular e a liberação de eventuais aderências na fossa articular ou no próprio côndilo mandibular, para que haja livre movimentação do disco articular. No côndilo é realizado uma incisão e o descolamento periostal com pequena exposição do polo posterior e lateral, no qual é inserido uma âncora. Quando optamos por realizar a discopexia com duas âncoras, ampliamos o descolamento periostal no polo posterior mais próximo à parte medial do côndilo para inserção da segunda âncora. A utilização de duas âncoras possibilita maior controle do posicionamento do disco articular (Figura 8.4). Com o disco articular na posição habitual, cada uma das agulhas na região superior é passada para a região inferior, realizando o nó, de modo que ele fique entre o côndilo mandibular e a região infradiscal. O dispositivo para a realização da discopexia consiste em um parafuso que varia seu diâmetro de 1,2 a 2 mm, dependendo do fabricante, associado a dois fios multifilamentados não absorvíveis, com uma agulha em cada extremidade (Figura 8.5). O fio multifilamento é indicado, pois evita que rasgue o disco e garante que o nó não se solte com facilidade, diferentemente do que poderia ocorrer com fios monofilamentados, como o mononáilon. Há no mercado âncoras absorvíveis, que, a nosso ver, não têm indicação para uso nesta técnica, o que poderia levar a um novo deslocamento após a absorção e, consequentemente, à recidiva do problema. Irregularidades ósseas ou osteófitos são removidos com o uso de brocas complementadas com lima de osso diamantada. Quando o paciente apresenta histórico de luxação recidivante do côndilo mandibular ou temos dificuldade em liberar o disco articular, devido a um deslocamento anterior muito grave, sempre realizamos, com o procedimento de discopexia, a eminectomia simultaneamente, com o objetivo de, além de facilitar a liberação e fixação do disco articular, possibilitar um aumento do espaço articular (ver Capítulo 9). Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 8.3 A. Demarcação do acesso préauricular. B. Após incisão da pele e subcutâneo, fáscia temporal superficial exposta. C. Incisão da fáscia temporal. D. Exposição da cápsula articular. E. Após passarmos pela cápsula articular, entramos na articulação, com liberação do disco articular, que se encontra pinçado. F. Inserção da âncora autoperfurante. G. Transfixação do fio de sutura da âncora no disco articular. Note que foram colocadas duas âncoras na região posterior do côndilo, sendo uma mais posterolateral e outra na região posterior o mais medial possível. Ambas devem estar em superfície não articular do côndilo. H. Disco articular sendo fixado junto ao côndilo. I. Sutura intradérmica da pele. Figura 8.4 A. Perfil mostrando o posicionamento da âncora de titânio no côndilo e a discopexia. B. Visão posterior do côndilo mostrando a relação de duas âncoras e a discopexia. Figura 8.5 A. Dispositivo para inserção manual da âncora de titânio acoplada. B. Detalhe da âncora. C. Âncora, fio de sutura e agulhas removidas do dispositivo de inserção apenas para visualização. Diante de um disco articular em processo degenerativo avançado ou perfurações de grande magnitude, indicamos sua remoção e substituição, sendo o mais comumente utilizado o retalho do músculo temporal. O uso de cartilagem articular também é uma alternativa, bem como uso de uma fossa articular préfabricada. O pósoperatório normalmente apresenta edema préauricular, limitação de abertura bucal e dor, que varia de leve a moderada, controlada com analgésicos comuns, sendo rara a necessidade de analgésicos de ação central. Movimentos fisioterápicos de abertura bucal, lateralidade e protrusão são introduzidos precocemente, em torno do sétimo dia póscirúrgico, evitando, assim, a formação de novas aderências. A restrição alimentar de líquido e Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. pastoso é mínima, sendo indicado o aumento gradual da consistência alimentar, de modo que, por volta da segunda ou terceira semana, a alimentação esteja próxima do normal. Considerações Como em qualquer doença, um diagnóstico preciso é fundamental para o sucesso do tratamento da disfunção de ATM. Por ser o tratamento na maioria dos casos clínico, muitos pacientes com desarranjos internos da ATM com indicação de cirurgia acabam sendo diagnosticados erroneamente. Consequentemente, o tratamento clínico introduzido não resolve o problema, que tende a se agravar cada vez mais. Referências bibliográ鬅弜cas OKESON, J. P. Tratamento das desordens temporomandibulares e oclusão. 4. ed. São Paulo: Artes Médicas, 2000. MANGANELLO, L. C.; SILVA, A. A. F. Desarranjos internos da articulação temporomandibular: cirurgia ou tratamento clínico? Rev Assoc Paul Cir Dent, v. 58, n. 5, p. 379383, 2004. NITZAN, D. W.; SAMSON, B.; BETTER, H. Longterm outcome of arthrocentesis for suddenonset, persistent, severe closed lock of the temporomandibular joint. J Oral Maxillofac Surg, v. 55, n. 2, p. 151157, 1997. OLIVEIRA, W.; DUARTE, M. S. R. Tratamento conservador em disfunção craniomandibular. In: OLIVEIRA, W.; DUARTE, M. S. R. Disfunções temporomandibulares. São Paulo: Artes Médicas, 2002. 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A superfície articular do osso temporal é constituída pela eminência articular e pela face anterior ou articular da fossa mandibular. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 9.1 Componentes ósseos da articulação temporomandibular. 1 = côndilo mandibular; 2 = eminência articular do temporal. O côndilo mandibular apresenta uma forma elíptica, situandose na porção posterossuperior do ramo da mandíbula. Apresenta seu eixo no sentido lateromedial, sendo oblíquo de modo dorsomedial. O côndilo mandibular é convexo nos sentidos sagital e frontal. Essas superfícies articulares são recobertas por fibrocartilagem, uma das características que diferencia a ATM das demais articulações sinoviais (Figura 9.2). Figura 9.2 Conteúdo histológico da articulação temporomandibular. As superfícies articulares são interpostas pelo disco articular. Essa estrutura fibrocartilagínea apresenta forma côncavoconvexa na parte superior e côncava na inferior, adaptandose às superfícies articulares (Figura 9.2). Seu principal papel é possibilitar a manutenção de contato entre as superfícies articulares do côndilo mandibular e a eminência articular do temporal durante sua atividade funcional. Divide a articulação e os compartimentos supra e infradiscais, associados aos movimentos mandibulares. Apresenta uma porção central fibrocartilagínea, que suporta as pressões geradas pela mastigação, e uma parte periférica de tecido conjuntivo, que é vascularizada. O disco articular mantém contato entre o côndilo e a eminência articular do temporal. A cápsula articular inserese na eminência articular e nas margens da fossa mandibular, bem como no colo da mandíbula, logo abaixo da cabeça da mandíbula. A membrana sinovial reveste a cápsula articular internamente e produz a sinóvia, líquido viscoso que propicia a lubrificação das superfícies articulares pela presença de ácido hialurônico. O sistema ligamentar presente nessa articulação limita e restringe os movimentos, bem como apresenta Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce proprioceptores mecânicos. São considerados funcionais os seguintes ligamentos: colaterais do disco, de localização medial e lateral, que restringem os movimentos do próprio disco articular; capsular, com disposição vertical, unido à fossa mandibular, à eminência articular do temporal e ao colo do côndilo, que resiste aos deslocamentos das superfícies articulares; temporomandibular, com disposição oblíqua, anteriormente, e vertical, posteriormente, desde o tubérculo zigomático anterior até a porção posteroinferior do colo do côndilo mandibular, que limita o movimento de rotação, possibilitando o início do movimento de translação (Figura 9.3). Figura 9.3 Topografia do ligamento temporomandibular. São considerados acessórios, sem participação funcional significativa, os ligamentos: esfenomandibular, entre a espinha do esfenoide e a língula da mandíbula; estilomandibular, entre o processo estiloide do temporal e o ângulo da mandíbula, limitando a protrusão excessiva; pterigomandibular, lâmina fibrosa entre o hâmulo pterigóideo do esfenoide e o trígono retromolar, propiciando a inserção aos músculos bucinador e constritor da faringe. A inervação da ATM se dá pelos nervos auriculotemporal, massetérico e temporal posterior profundo, que são ramos do nervo trigêmeo. Essa articulação apresenta quatro tipos de receptores, presentes em cápsula articular, tecidos retrodiscais e ligamento temporomandibular. Três deles são mecanorreceptores, que controlam e coordenam os reflexos musculares e dão a percepção da posição postural da mandíbula, e o último é nociceptor, sendo sensível a estímulos lesivos ou traumáticos e podendo produzir trismo mandibular. Rotação e translação são movimentos básicos da ATM. A rotação ocorre em um eixo horizontal transverso, passando próximo ao centro dos côndilos, sendo executada no espaço infradiscal. A translação ocorre pelo movimento do côndilo nos sentidos anterior e inferior sobre a eminência articular do temporal, com deslizamento do disco articular no espaço supradiscal. Os movimentos fundamentais ocorrem pela combinação dos movimentos básicos, geralmente, de transrotação. O sistema ligamentar limita e restringe os movimentos articulares. O movimento de abertura é simétrico e resultante da ação dos músculos abaixadores e propulsores. Ocorre, inicialmente, uma fase de rotação, seguida de outra de transrotação. O movimento de fechamento também é simétrico e resultante da ação dos músculos levantadores da mandíbula. O movimento de protrusão ocorre no sentido anteroposterior, com base em um movimento de translação com Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ mínima rotação, resultante da ação do músculo pterigóideo lateral. A retrusão é o movimento inverso e ocorre pela ação de feixes posteriores do temporal, músculos abaixadores e feixe posterior do digástrico. O movimento de lateralidade é de componente horizontal, assimétrico e excêntrico. No lado homolateral do movimento, o côndilo executa rotação, utilizando um eixo frontal aliado a um eixo sagital; ao passo que, no lado contralateral, o côndilo faz translação para baixo e para dentro. No lado homolateral, a ação se dá pelo feixe superior do pterigóideo lateral, feixe posterior do temporal, feixe posterior do digástrico e pelo feixe profundo do masseter; ao passoque, no lado contralateral, atua o feixe inferior do pterigóideo lateral. Fisiopatologia Luxação significa deslocamento com perda de contato entre as superfícies articulares. No caso da luxação do côndilo, este ultrapassa a amplitude normal do movimento de abertura máxima, permanecendo deslocado à frente da eminência articular do temporal em decorrência da ação muscular. O disco articular mantém sua relação com o côndilo na vigência da luxação. A luxação tem como fatores predisponentes a laxidão ou frouxidão ligamentar, com consequente perda da função do sistema ligamentar, bem como incoordenações musculares, envolvendo principalmente o músculo pterigóideo lateral. Constituem fatores desencadeantes situações funcionais que, em indivíduos sãos, não provocariam luxação do côndilo, como bocejo, grito, vômito ou apreensão exagerada de alimentos. Na vigência de crises convulsivas também pode ocorrer luxação do côndilo. Ainda podem constituir fatores desencadeantes sessões prolongadas de tratamento dentário. Outro fator etiológico importante é o trauma de face. Aspecto clínico A luxação do côndilo geralmente é bilateral e caracterizase pela impossibilidade de o paciente reverter o quadro, não conseguindo fechar a boca, requerendo o auxílio de um profissional (Figuras 9.4 e 9.5). A ocorrência unilateral é possível, embora muito rara. Figura 9.4 Aspecto facial de paciente com luxação bilateral do côndilo mandibular. Notase a mandíbula projetada para frente e para baixo. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 9.5 Aspecto intraoral de paciente com luxação bilateral do côndilo mandibular. Notase a amplitude, em que há impossibilidade de fechar a boca. A luxação é aguda quando ocorre dor em músculos mastigatórios, em decorrência de espasmo junto às articulações comprometidas, aliada à dificuldade de conter a saliva, de falar e de alimentarse. Nessa situação, o paciente se mostra tenso e ansioso pelas consequências do evento antes da redução. Clinicamente, observase aumento de volume na região jugal, decorrente do deslocamento do côndilo no sentido anterior, com consequente depressão na região préauricular (Figura 9.6). O paciente pode demonstrar falso prognatismo, causado pela tentativa de fechar a boca por rotação com o côndilo anteriorizado. A luxação do côndilo passa a ser recidivante quando o paciente apresenta episódios frequentes, com periodicidade mensal, semanal ou diária. Nessa condição, a sintomatologia dolorosa é menos intensa, e o paciente pode apresentarse mais calmo, pois já conhece a evolução com a redução. Um componente neurológico, representado pela hiperatividade muscular da região, pode aparecer nos casos de luxação recidivante, recomendandose avaliação específica. Figura 9.6 Vista de perfil de paciente com luxação bilateral do côndilo mandibular. Notase depressão na região articular e volume na região jugal. Podese utilizar o exame radiográfico para confirmar que o côndilo está posicionado à frente da eminência Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ■ articular do temporal, normalmente de modo bilateral (Figura 9.7). Alguns tipos de incidências, como transcraniana para ATM, panorâmica e tomografia, podem demonstrar tal condição; porém, esse exame não é essencial para o diagnóstico de luxação, que é obtido clinicamente. Deve ser evitado, considerandose que a maioria dos casos de luxação do côndilo tem que ser resolvida com urgência. O diagnóstico de luxação do côndilo é clínico. Figura 9.7 Tomografia demonstrando côndilo posicionado à frente da eminência articular do temporal em caso de luxação. Tratamento Redução Manual A luxação do côndilo geralmente é reduzida pela manobra clássica, com base em pressão bimanual firme na região de molares. Com isso, a mandíbula é levada para baixo e para trás, obtendose seu posicionamento prévio. Os polegares são utilizados para compressão e os demais dedos englobam a base da mandíbula (Figura 9.8). Para o êxito da manobra, o paciente deve estar sentado e sua cabeça deve estar apoiada. A redução normalmente é obtida com o fechamento brusco da mandíbula, devendo o profissional estar atento a tal fato e guiar o movimento. Isso leva alguns profissionais a protegerem seus polegares com gaze e esparadrapo. Outra possibilidade é manter o paciente deitado na posição supina, com o operador sentado atrás de sua cabeça. Nessa situação, os polegares ficam na base do processo coronoide e os demais, na base da mandíbula. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ Figura 9.8 Manobra clássica de redução de luxação, com os polegares apoiados sobre a superfície oclusal dos molares. Alguns profissionais recomendam, para os casos com maior dificuldade na redução, o emprego de tração elástica com base em amarras ou, ainda, de abaixadores de língua de madeira, comprimindo a região de molares. Em casos de dor intensa ou persistência da luxação com maior tempo de duração, pode ser necessária anestesia local, por meio de infiltrações no músculo pterigóideo lateral – por via percutânea, passando entre o arco zigomático e a incisura sigmoide – e na cápsula articular. Alguns casos podem requerer, ainda, sedação ou anestesia geral. Cirúrgica Quando as manobras citadas anteriormente não obtiverem sucesso na redução, esta pode ser obtida por acesso cirúrgico. Por meio de acesso préauricular, os componentes articulares são expostos e, com emprego de rugina apoiada na raiz do arco zigomático, o côndilo é reduzido. Esse procedimento é pouco utilizado, já que, no caso das luxações persistentes, é indicada uma das técnicas preconizadas para luxação recidivante. Após a redução, manual ou por acesso cirúrgico, recomendase a realização de bandagem ou enfaixe da mandíbula. Isto dá conforto e segurança ao paciente, bem como pode favorecer a reparação dos tecidos moles na luxação aguda. A luxação será recidivante se apresentar mais de dois episódios em um período de 6 meses. Luxação recidivante Uma série de procedimentos é descrita na literatura para o tratamento da luxação recidivante do côndilo, com resultados variáveis a longo prazo. Estes podem ser procedimentos conservadores, como bloqueio intermaxilar e injeção intramuscular ou intracapsular de agentes esclerosantes, apresentando resultados temporários. A injeção intraarticular de sangue autógeno carece de comprovação de sua eficácia. Mais recentemente, o emprego de toxina botulínica do tipo A tem sido descrito como promissor. A injeção intramuscular desta substância no pterigóideo lateral é capaz de diminuir a ocorrência de luxações, sendo válida em casos como demência senil. Procedimentos cirúrgicos trazem resultados mais consistentes. Estes podem ser representados por: limitação do movimento condilar por plastia de tecidos moles, remoção de obstáculos mecânicos que impedem o reposicionamento condilar ou criação de um obstáculo para prevenir o deslocamento condilar. A plastia de tecidos moles pode compreender encurtamento do ligamento capsular, sutura de uma porção da fáscia temporal na cápsula articular, miotomia do músculo pterigóideo interno, escarificação do tendão do músculo temporal, desinserção do músculopterigóideo lateral e, ainda, remoção de porção da mucosa jugal em forma de um Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ losango para promover retração cicatricial. A utilização de ancoragem dupla tem sido descrita, mas a indicação deste procedimento está mais associada a distúrbios do disco articular. A miotomia do músculo pterigóideo lateral, feita por acesso intraoral, promove fibrose local e pode levar à limitação da excursão condilar. A remoção de obstáculos que impedem o reposicionamento condilar é representada por remoção do disco articular, eminectomia e condilectomia ou condilotomia. Destes, o procedimento mais conservador e que traz melhores resultados é a eminectomia, proposta por Myrhaug.1,2 Esse procedimento, ao preservar os demais componentes articulares, previne a ocorrência de aderências e processos degenerativos. Consiste na remoção da eminência articular do temporal, promovendo seu achatamento. Finalmente, a criação de um obstáculo para prevenir o deslocamento condilar compreende osteotomia e fratura do arco zigomático, proposta por Le Clerc e Girard,3 ou aumento da eminência articular do temporal, com emprego de enxerto ósseo ou material aloplástico, como fio de aço ou miniplaca. O emprego do fio de aço pode promover dor local e também não impede a recidiva da luxação, com o agravante de não ser possível a manobra clássica de redução manual. Já a utilização de miniplacas é defendida por muitos profissionais, embora possa acarretar limitação da abertura da boca, além de haver a possibilidade de fratura da miniplaca a longo prazo. A utilização de apenas parafusos nesta modalidade leva à possibilidade de ocorrência de dores, bem como de áreas de erosão nas superfícies articulares. A eminoplastia com interposição de enxerto autógeno entre o arco zigomático e a eminência articular do temporal, obtido do ilíaco, calvária ou mento, ou a osteotomia glenotemporal, tem como desvantagem a necessidade de área doadora e, potencialmente, maior morbidade, bem como menor amplitude da abertura bucal. Técnicas preconizadas A seguir, são descritos dois tipos principais de tratamento cirúrgico: a eminectomia e o aumento da eminência articular com uso de miniplaca. Geralmente, o procedimento é feito de modo bilateral. Em ambos os casos, o acesso é feito por via préauricular, com incisão da fáscia do temporal e divulsão até o arco zigomático e eminência articular. Desse modo, o perigo de dano ao nervo facial é muito reduzido. A eminência articular é exposta pelo deslocamento do periósteo, evitandose a abertura do espaço articular (Figura 9.9, A e B). Na técnica em que se usa remoção da eminência articular do temporal, devese tomar o cuidado de removêla em sua maior parte, principalmente no aspecto medial. A osteotomia é realizada por meio de perfurações com brocas e complementada com uso de cinzéis. A seguir, a superfície óssea é regularizada (Figura 9.9, C a F). Outra possibilidade é a obtenção da eminectomia diretamente com o emprego de fresas cirúrgicas (Figura 9.10). Quando se optar pela colocação de material para aumentar a eminência, este deverá proporcionar aumento de, pelo menos, 1 cm. Uma miniplaca em forma de “T” é inserida e fixada à raiz do arco zigomático. A seguir, o braço vertical da miniplaca é localizado abaixo e levemente anteriorizado à eminência articular, atuando como um anteparo ao côndilo. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 9.9 Eminectomia. A. Incisão préauricular. B. Exposição da eminência articular. C. Osteotomia. D. Esquema da eminectomia. E. Remanescente regularizado. F. Cicatriz favorável. Figura 9.10 Eminectomia com emprego de fresas cirúrgicas. A. Exposição da eminência articular. B. Eminectomia obtida. ▶ 1. 2. 3. ▶ O aumento na região da eminência pode originar dificuldade em abrir a boca ou mesmo recidiva da luxação do côndilo. Apesar de ser tida como fisiológica, por não remover a parte inferior da articulação, envolve o uso de material aloplástico, o que não ocorre com a eminectomia. A eminectomia é a técnica que oferece resultados mais consistentes. Referências bibliográ䑋Ꜿcas MYRHAUG, H. New method of operation for habitual dislocation of mandible. Review of former methods of treatment. Acta Odont Scand, v. 9, p. 247261, 1951. MYRHAUG, H. A surgical technique for treatment of habitual luxation of the temporomandibular joint. Quintessence Int, v. 3, p. 912, 1972. LE CLERC, G. C.; GIRARD, C. Un nouveau procédé de butée dans le traitement chirurgical de la luxation récidivante de la machoire inférieure. Mem Acad Chir, v. 69, p. 457459, 1943. Bibliogra䑋Ꜿa complementar AKINBAMI, B. O. Evaluation of the mechanism and principles of management of temporomandibular joint dislocation. Systematic review of literature and a proposed new classification of temporomandibular joint dislocation. 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Esta fusão é fibrosa em um estágio mais inicial da doença, podendo ser óssea em uma fase mais avançada da doença, em que as características anatômicas da região são perdidas. É uma patologia que prejudica a qualidade de vida do doente e pode acometer uma ou as duas articulações, desencadeando alterações funcionais importantes, como limitação de abertura bucal, disfagia, disfonia; alterações psicológicas; deformidades faciais (assimetrias e/ou micrognatia), principalmente em crianças, nas quais os centros de crescimento ósseo são comprometidos (Figuras 10.2 e 10.3). A abertura bucal reduzida resulta em higiene oral precária, o que possibilita a alta incidência de problemas odontológicos (Figura 10.4), como o desenvolvimento de cáries e doença periodontal, que facilmente evoluem para pulpites e abscessos dentários, os quais são de difícil tratamento pela restrição de abertura bucal, levando a processos álgicos intensos e duradouros.13 Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 10.1 Limitação de abertura de boca em paciente com anquilose da articulação temporomandibular. Observe o músculo platisma bastante tenso. Figura 10.2 Paciente com anquilose de articulação temporomandibular apresentando retrusão mandibular. ▶ Figura 10.3 Deformidade facial apresentando assimetria facial, desvio do mento e alteração da rima bucal em paciente adulto portador de anquilose de articulação temporomandibular. Figura 10.4 Limitação da abertura bucal e desvio da mandíbula para o lado afetado. Etiologia Basicamente, encontramse dois fatores na causa da anquilose: infecção orofacial e trauma. Nas crianças, mais frequentemente, estão envolvidos fatores infecciosos, como infecções de ouvido (otite média) e, algumas vezes, trauma de parto; ao passo que, nos adultos, destacamse as fraturas de côndilo e mesmo intervenções prévias na ATM (para excisão de tumores, discopexia e eminectomia), bem como doenças sistêmicas.4 Traumas faciais com fraturas condilares (concomitantes a fraturas em parassínfise e que passam despercebidas, sem diagnóstico) ou fraturas em outras regiões da mandíbula que exijam períodos prolongados de imobilização Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ • • • • • • • • ▶ podem levar ao desenvolvimento de anquilose. Em crianças, nas quais o potencial osteogênico é alto, as fraturas intracapsulares (em que há formação de hematoma e subsequente organização) apresentam elevado risco de desenvolvimento desta complicação.5 Segundo Erol et al.,6 doenças sistêmicas, como espondilite anquilosante, psoríase, osteoartrite e artrite reumatoide juvenil, podem levar à anquilose da ATM pela degeneração das estruturas articulares, a qual ocorre no curso destas patologias. Crescimento mandibular É de grande importância a compreensão do mecanismo de crescimento mandibular para o entendimento das alterações faciais que ocorrem no desenvolvimento da anquilose de ATM em pacientes jovens. O crescimento vertical do esqueleto facial superior está intimamente relacionado ao crescimento mandibular, já que, com ele, temos a criação do espaço para o crescimento vertical aposicional dos processos alveolares superior e inferior. O crescimento da mandíbula ocorre, principalmente, a partir da cartilagem hialina do côndilo mandibular, que proporciona o aumento da altura do ramo, aumento do comprimento da mandíbula e aumento da distância intercondilar, deslocando a mandíbula para baixo e para frente. Qualquer alteração que ocorra nesta região (ATM) e modifique seu potencial de crescimento resultará em grandes modificações no esqueleto facial. Uma particularidade da cartilagem hialina dos côndilos mandibulares é seu tipo de crescimento. Enquanto todas as cartilagens de outras partes de nosso organismo apresentam crescimento intersticial, a cartilagem condilar apresenta crescimento aposicional com posterior substituição gradativa por tecido ósseo. Por estar envolta em tecido conjuntivo espesso, fibroso na superfície e frouxo na profundidade, isso possibilita seu crescimento em áreas de pressão. Essa diferença no padrão de crescimento explica o comportamento distinto dessas articulações perante doenças sistêmicas que afetam o crescimento cartilaginoso em nosso corpo. Secundariamente, o crescimento do ramo em largura, do corpo em comprimento, do processo coronoide e do osso alveolar ocorrem pelo processo de aposição e remodelação óssea.7 Classi榆啻cação das anquiloses Podemos classificar as anquiloses de acordo com: Tecido envolvido: fibrosas; fibroósseas, ósseas e cartilaginosas2,4,8,9 Extensão: completas e incompletas2,4,8,9 Estruturas envolvidas: verdadeiras (fusão do côndilo com a fossa articular) e falsas (fusão do processo coronoide com o osso temporal, maxila ou zigoma)10,11 Relação com a cápsula: intra e extracapsulares.2,4,8,9 Sawhney12 classificou as anquilose de ATM da seguinte maneira: Tipo I: o côndilo está presente e tem apenas fibroadesões Tipo II: há fusão óssea e o côndilo está remodelado, estando o polo medial intacto Tipo III: presença de bloco anquilótico (ramo mandibular fusionado ao arco zigomático), mas o polo medial permanece intacto Tipo IV: bloco anquilótico com alteração da anatomia da região (fusão de ramo mandibular à base do crânio). Diagnóstico e características clínicas O diagnóstico dessa patologia é feito por exame clínico e exames por imagem. No exame clínico, a anamnese tem papel muito importante para se estabelecer o diagnóstico, em que dados como Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • • • • • história dadoença, tempo de evolução, referência a traumas ou infecções orofaciais e/ou sistêmicas devem ser bem investigados. Nesses pacientes, observase a limitação de abertura bucal, deformidades faciais, higiene oral precária com desenvolvimento de problemas odontológicos, como cáries, doença periodontal e suas evoluções, e dificuldade em mastigar, deglutir e falar. As deformidades faciais são mais pronunciadas quanto mais precocemente a patologia se instala (fase de crescimento). Clinicamente, a anquilose pode desenvolverse uni ou bilateralmente, desencadeando alterações distintas e influenciadas pela idade do paciente. Nas unilaterais, identificamos principalmente: Assimetria de face, com desvio de mento e mandíbula para o lado afetado, já que o lado são apresenta crescimento normal Atresia de maxila com palato ogival (Figura 10.5) Apinhamento dental por falta de espaço, devido ao crescimento diminuído da mandíbula (Figura 10.6) Alteração do eixo Z Pode haver aumento do processo coronoide do lado contralateral Figura 10.5 Maxila atrésica, com inclinação vestibular dos dentes anteriores inferiores. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce • – – – – Figura 10.6 Mudança na forma do arco maxilar, mordida aberta anterior em criança com anquilose de articulação temporomandibular. Figura 10.7 Inclinação excessiva dos incisivos inferiores para a direção vestibular, interposição de língua e mordida aberta anterior em criança com anquilose. Alterações do contorno da borda inferior do corpo/ângulo mandibular: Nas bilaterais, as seguintes alterações são observadas: Falta de crescimento do terço inferior da face Retrusão do mento e micrognatia Excessiva inclinação dos incisivos inferiores para a direção vestibular, provocada pela pressão da língua, que ocupa um espaço bucal pouco desenvolvido, observado principalmente em crianças (Figura 10.7) Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce – – – – • • – – Músculos depressores da mandíbula tensos e hipertrofiados, especialmente o músculo platisma, que provocam o aumento do ângulo mandibular e da convexidade do terço inferior da face Distrofia da musculatura mastigatória por falta de função Alterações degenerativas dos nervos que inervam os músculos temporal e masseter Alterações da faringe que dificultam a intubação. A anquilose congênita pode desenvolverse a partir de trauma ao nascimento pelo uso de fórceps, fratura de côndilo não tratada e infecção intrauterina.5 Para se confirmar a suspeita clínica e delimitar corretamente a doença no préoperatório, são utilizados os exames por imagens. A radiografia panorâmica (Figura 10.8) e a tomografia computadorizada, preferencialmente com reconstrução tridimensional (3D), são fundamentais tanto para o diagnóstico quanto para o planejamento cirúrgico (Figuras 10.9 a 10.12). Na avaliação das imagens, observase nas anquiloses fibrosas a diminuição dos espaços articulares; e nas ósseas, vêse a formação de osso esclerótico denso. Neste último caso, podemos identificar dois tipos: Intracapsular: pode haver uma linha radiolúcida visível na tomografia computadorizada Extracapsular 1a subdivisão: o ramo mandibular e o processo coronoide são identificados, mas há alterações na cabeça do côndilo (alongada e deformada) e na apófise coronoide (alongada) 2a subdivisão: há um bloco anquilótico unindo ramo, processo coronoide e osso temporal. Figura 10.8 Radiografia panorâmica mostrando anquilose de articulação temporomandibular direita. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 10.9 A. e B. Tomografia computadorizada, corte coronal, evidenciando anquilose em articulação temporomandibular esquerda. Figura 10.10 Tomografia computadorizada, corte axial, evidenciando anquilose em articulação temporomandibular esquerda. Figura 10.11 Tomografia computadorizada com reconstrução 3D mostrando as alterações no côndilo em decorrência da anquilose. ■ Figura 10.12 Tomografia computadorizada, corte sagital, mostrando as alterações do côndilo em paciente com anquilose. Diagnóstico diferencial Existem alterações locais que podem desencadear limitação da abertura da boca e que devem ser pesquisadas, como as calcificações de ligamentos (ligamento esfenomandibular [Figura 10.13]; estilomandibular e temporomandibular), alongamento do processo estiloide, osteocondroma em processo coronoide, hipertrofia ou hiperplasia do processo coronoide, trismo por processos infecciosos ou cirúrgicos nos maxilares, tumores, fraturas não tratadas de arco zigomático, miosite ossificante (Figura 10.14), sequelas de radioterapia em face, queimaduras faciais e mesmo desarranjos internos da ATM.4 Figura 10.13 Ossificação do ligamento esfenomandibular à direita. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ • • • • ■ Figura 10.14 Miosite ossificante – ossificação do músculo masseter. Tratamento A anquilose da ATM é uma doença de difícil resolução, podendo ser considerada a cirurgia de maior complexidade em cirurgia bucomaxilofacial, tanto pela proximidade com estruturas anatômicas nobres como pela possibilidade de recidiva, que pode ocorrer principalmente em pacientes jovens, que estão em fase de crescimento e, por isso, necessitarem de abordagem diferente da empregada em adultos. O tratamento da anquilose visa primariamente ao restabelecimento da abertura da boca, com consequente prevenção de recidiva,13 mas é evidente que não podemos deixar de lado a melhoria da aparência facial desses pacientes, a fim de reintegrálos à vida social, já que estão associadas deformidades faciais, às vezes bastante graves, que se desenvolvem no curso da doença. Em nossa vivência, optamos por realizar a correção das deformidades faciais em segundo tempo operatório, pois é necessário o seguimento do caso para avaliar se não haverá recidiva. Afastada esta possibilidade, teremos maior estabilidade dos resultados obtidos nas correções com cirurgias ortognáticas. O tratamento da anquilose é cirúrgico, sob anestesia geral e, no préoperatório, devese discutir, conjuntamente com o médico anestesista, como será realizada a intubação desse paciente (com nasofibroscopia2 ou traqueostomia eletiva), já que apresenta limitação da abertura bucal. Sempre damos preferência à intubação com o auxílio da nasofibroscopia. Na maioria dos casos é utilizado o acesso préauricular com extensão temporal proposto por ÀlKayat e Bramley,14 em 1979, ou o acesso préauricular proposto por Ellis III e Zide.15 Às vezes, é realizado também o acesso submandibular de Risdon, para melhor visualização e fixação de enxertos ou próteses (ver Capítulo 7). Existem, basicamente, três modos de tratamento cirúrgico: Artroplastia simples ou em forma de gap Artroplastia interposicional2,4,8,9 Artroplastia com reconstrução, usando materiais aloplásticos ou enxertos autógenos4,8,9 Artroplastia associada à distratores osteogênicos.4,8,9 Artroplastia simples ou em forma de gap Este modo de tratamento preconiza a ressecção do osso anquilosado, sem a interposição de enxertos ou materiais aloplásticos. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo KohnoRealce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ Segundo a literatura,3 devese deixar um espaço (gap) de, no mínimo, 15 mm, para evitar recidiva. As desvantagens dessa técnica são claras, visto que, ao realizar a exérese de parte da articulação com encurtamento do ramo mandibular, teremos mordida aberta anterior nos casos bilaterais e mordida aberta posterior com desvio da mandíbula para o lado afetado nos casos unilaterais. Além disso, as chances de recidiva são bastante grandes, pois não temos nada que impeça o contato dos segmentos ósseos remanescentes.1,16 Artroplastia interposicional Nesta proposta de tratamento, realizase a ressecção do osso anquilosado, deixando um gap de 15 a 20 mm (Figura 10.15) e interpondo um material autógeno ou aloplástico entre os segmentos ósseos ostectomizados.1,3,8,9 Temse utilizado, mais frequentemente, o retalho miofascial do músculo temporal como tecido de interposição1,9,11,13 (Figura 10.16), mas também podem ser usados os enxertos de derme, de cartilagem auricular, gordura da bola de Bichat1 (Figura 10.17) e o próprio disco articular, se estiver em condições de uso.8 O retalho do músculo temporal deve ser realizado, em média, com um comprimento de 5 a 6 cm e largura de 2 a 3 cm, sempre preservando o suprimento arterial.13 Dentre os materiais aloplásticos mais comumente utilizados, temos: acrílico, aço inoxidável, prótese de silicone (Silastic)13,9,12 e malha de silicone (Figura 10.18). Como critérios para a escolha do material a ser utilizado para a interposição devem ser avaliados: morbidade cirúrgica (no caso de enxertos autógenos), idade do paciente, biocompatibilidade, efetividade na prevenção da recidiva, durabilidade e custo. Figura 10.15 Gap de 15 a 20 mm após ressecção da massa óssea anquilosada. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 10.16 A. e B. Retalho miofascial do músculo temporal para interpor tecido autógeno entre os segmentos ósseos, como modo de evitar a recidiva pósoperatória. Figura 10.17 Enxerto de gordura colocado por interposição entre os segmentos ósseos após a ressecção da massa anquilosada. ■ ■ • • • • • • • Figura 10.18 Lâmina de silicone interposta entre os cotos ósseos para prevenir recidiva. Artroplastia com reconstrução É o modo de tratamento que visa restaurar a função e corrigir, ou iniciar o processo corretivo, da deformidade produzida pela patologia. Após a ressecção da massa anquilosada, reconstróise a articulação com o uso de materiais aloplásticos ou enxerto autógeno (costocondral, fíbula, metatarsal e crista de ilíaco17) (Figura 10.19). Figura 10.19 Enxerto costocondral para reconstrução de articulação temporomandibular em criança. A faixa etária do paciente é o fator determinante na escolha do material para reconstrução,8,18 pois, em crianças, é fundamental a manutenção do crescimento da mandíbula. Tratamento em crianças Por estarem em fase de crescimento, direcionamos o tratamento da anquilose para o restabelecimento da abertura de boca, por meio do ato cirúrgico descrito anteriormente, e para a reconstrução da ATM, de maneira que haja potencial de crescimento mandibular, minimizando a deformidade facial. Frequentemente, utilizamse os enxertos costocondrais com excelentes resultados, devido ao potencial de crescimento e à capacidade de remodelação que apresentam.1,8,9,18 Clinicamente, observase que, quanto maior a porção cartilaginosa do enxerto, maior é o potencial de crescimento que este apresenta. Por isso, alguns autores preconizam que o enxerto costocondral tenha uma faixa de cartilagem de 1 a 2 mm,8 enquanto outros sugerem que seja de no máximo 6 mm.1 No ato cirúrgico, além do acesso préauricular, realizase o acesso submandibular de Risdon, que possibilita boa visualização do campo operatório para a adaptação do enxerto e sua fixação com parafusos (Figura 10.20). Kaban et al.8 estabeleceram sete princípios para a realização da cirurgia de anquilose de ATM em crianças: Remoção ampla da massa anquilótica Coronoidectomia ipsilateral Coronoidectomia contralateral por acesso intraoral, se os passos anteriores não resultarem em abertura de boca passiva de pelo menos 35 mm Interposição de retalho do músculo temporal ou do disco articular, se este estiver em condições de uso Reconstrução da articulação com enxerto autógeno costocondral ou uso de distração osteogênica Mobilização precoce da mandíbula Fisioterapia intensa no pósoperatório.8 Apresentamos um caso clínico de paciente infantil com anquilose de ATM esquerda causada por infecção no ouvido (Figuras 10.21 a 10.28). Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ■ Figura 10.20 Marcação com caneta dermatológica dos acessos préauricular e retromandibular. Figura 10.21 A. e B. Paciente com anquilose unilateral apresentando assimetria de face, com desvio de mento e mandíbula para a esquerda (lado afetado) e retrusão mandibular e mentual. Tratamento em adultos O procedimento cirúrgico segue os mesmos princípios: remoção ampla da massa anquilosada por acesso pré auricular; coronoidectomia ipsilateral2 e contralateral, se necessário, por via intraoral; e interposição de materiais autógenos ou aloplásticos. Em adultos, os materiais aloplásticos são os mais frequentemente utilizados. Dentre os que apresentam melhores resultados, temos: as próteses de silicone em T invertido,9 próteses de côndilo acrílico, próteses de côndilo standard ou personalizadas de aço/titânio, próteses acrílicas de fossa articular e próteses totais com côndilo e fossa. Ilustramos um caso clínico de paciente com anquilose de ATM à esquerda, em que se realizou a interposição de retalho miofascial após a ressecção do bloco ósseo anquilótico (Figuras 10.29 a 10.34). Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Figura 10.22 Limitação de abertura bucal. Há um consenso entre os cirurgiões que tratam anquilose de ATM de que o procedimento cirúrgico deve ser acompanhado, posteriormente e o quanto antes possível, de tratamento fisioterápico intenso, prolongado e muito bem conduzido (Figura 10.35), com o objetivo de minimizar a possibilidade de neoformação óssea, desenvolvimento de fibroses, retrações cicatriciais, trismo e espasmos musculares1,3,4,8,16,18. Figura 10.23 Enxerto costocondral. Paulo Kohno Realce Figura 10.24 Avaliação do tamanho do enxerto ósseo com o remanescente do ramo mandibular. Figura 10.25 Adaptação do enxerto na região da cavidade glenoide, previamente protegida com retalho miofascial do músculo temporal. Figura 10.26 Fixação do enxerto ao ramo mandibular com o uso de parafusos. Figura 10.27 A. e B. Pósoperatório de 3 anos – melhora da assimetria facial durante o crescimento e boa abertura bucal. Figura 10.28 A. e B. Pósoperatório de 3 anos em que se observa hormônio do crescimento facial com uso do enxerto costocondral. Figura 10.29 Vista frontal de paciente com anquilose à esquerda, evidenciando a assimetria facial, com desvio de mento e mandíbula para o lado afetado. Figura 10.30 Perfil apresentando retrusão acentuada de mandíbula e mento. Figura 10.31 A. e B. Tomografia computadorizada em corte axial – massa óssea anquilosada.Figura 10.32 Fusão do côndilo com o osso temporal. ▶ 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. Figura 10.33 Ressecção da massa óssea e interposição de retalho miofascial do músculo temporal. Figura 10.34 Pósoperatório de 2 anos – boa abertura bucal. Observase a presença de cáries. Figura 10.35 Fisioterapia intensa no pósoperatório com o uso do TheraBite®. Referências bibliográ榆啻cas ELGAZZAR, R. F. et al. Treatment modalities of TMJ ankylosis: experience in Delta Nile, Egypt. Int J Oral Maxillofac Surg, v. 39, p. 333342, 2010. ERDEN, E. 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Philadelphia: WB Saunders Company, 1977. p. 15291539. ■ ■ ■ ■ ■ ■ ▶ Introdução Etiologia Características clínicas e histológicas Diagnóstico Classificação Tratamento Luiz Carlos Souza Manganello, Alexandre Augusto Ferreira da Silva, Maria Eduina da Silveira, Anderson Shigeoka Introdução A hiperplasia do côndilo mandibular é uma doença de característica não neoplásica em que ocorre o aumento do tamanho condilar, normalmente unilateral, levando à assimetria facial com desvio do mento para o lado contralateral da lesão. Existem diversas patologias que levam à assimetria facial. De modo geral, podemos dividilas naquelas que promovem crescimento anormal de um lado e nas que se caracterizam por hipodesenvolvimento unilateral. Dessa última existem as de origem congênitas relacionadas a algumas síndromes, por exemplo, a microssomia hemifacial, ou as adquiridas, como sequelas de trauma levando à anquilose da articulação temporomandibular (ATM).1 As assimetrias faciais decorrentes de hiperdesenvolvimento podem afetar outros ossos da face, inclusive o corpo inteiro. No caso da hiperplasia condilar, além do aumento de tamanho do côndilo, podemse observar também alterações do crescimento do ramo e do corpo da mandíbula no lado afetado. Entre os diagnósticos diferenciais, podemse citar os processos neoplásicos mais comuns que acometem o côndilo mandibular, que são os osteocondromas e os osteomas. Essa doença é observada principalmente em adultos jovens, mas também pode ocorrer em crianças, com idades Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ ▶ entre 10 e 30 anos. Etiologia A etiologia é desconhecida, porém há um consenso de que a hiperplasia condilar ocorra devido ao crescimento acelerado ou a persistência de atividade condilar, mesmo após cessar o crescimento do organismo como um todo. Fatores como alterações hormonais, hipervascularização, hereditariedade, infecção ou trauma podem ser responsáveis por esse quadro.2 Características clínicas e histológicas A principal característica clínica é a assimetria facial com desvio mentual para o lado contralateral ao côndilo afetado (Figura 11.1). A oclusão apresenta alterações importantes e variáveis, decorrentes de mudanças compensatórias das estruturas dentoalveolares da maxila e da mandíbula. Normalmente, encontramos mordida cruzada posterior contralateral, podendo haver mordida aberta posterior ipsilateral; e alteração do plano oclusal mandibular no eixo Z, podendo ou não ser acompanhada por alteração do plano oclusal maxilar. Radiograficamente, apresenta côndilo aumentado em relação ao outro lado (Figura 11.2), podendo apresentar um aumento do colo condilar, sem alterações no trabeculado. Em telerradiografia de perfil é apresentado um desnivelamento da borda inferior da mandíbula, enquanto frontalmente podemos notar alteração do plano oclusal mandibular no eixo Z. Figura 11.1 Assimetria facial com desvio do mento acentuado para o lado esquerdo. Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce Paulo Kohno Realce ▶ Figura 11.2 Radiografia anteroposterior de face mostrando côndilo direito aumentado e alteração do plano oclusal no eixo Z. Uma das características importantes dessa patologia é seu comportamento autolimitante, ou seja, há uma fase inicial de proliferação e crescimento, chamada de ativa, e outra em que não há mais crescimento, denominada inativa. Essas duas fases vão definir o plano de tratamento; portanto, o diagnóstico preciso do estágio atual da doença é de suma importância. Avaliações fotográficas pregressas do rosto da paciente podem sugerir atividade ou não, bem como estudos prospectivos de moldagens sucessivas da maxila e da mandíbula e estudos do modelo. Histologicamente, a fase ativa apresenta proliferação da camada cartilaginosa do côndilo mandibular, com aumento da sua espessura.3 Já na fase inativa, não há diferenciação em relação ao osso normal.4 Diagnóstico As assimetrias faciais podem ocorrer por dois motivos: falta de crescimento unilateral ou excesso de crescimento. A falta de crescimento leva a desvio do mento para o lado afetado, podendo ser uma anomalia congênita, como a microssomia hemifacial