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Prévia do material em texto

Presidência da República 
Jair Messias Bolsonaro 
Ministério da Justiça e Segurança Pública 
Anderson Gustavo Torres 
Secretaria de Gestão e Ensino em Segurança Pública 
Ana Cristina Melo Santiago 
Diretoria de Ensino e Pesquisa 
Coordenação-Geral de Ensino 
Coordenação de Ensino a Distância 
Juliana Antunes Barros Amorim 
Coordenação-Geral de Gerenciamento de Projetos Pedagógicos e Inovação 
Coordenação de Inovação e Tecnologia Aplicada 
Alessandra Verissimo Lima Santos 
Coordenação Pedagógica 
Gisele Matos Gervásio 
Conteudistas 
Adriana Romana Dolis Bierings 
Karina Duarte Rocha da Silva 
Gerente de Curso 
Maria de Fátima de Souza Moreno 
Revisão Pedagógica 
Joyce Cristine da Silva Carvalho 
Programação e Edição / Designer 
Renato Antunes dos Santos 
Designer Instrucional 
Luana Manuella de Sales Mendes 
 
 
 
 
 
SEGURANÇA DE GRUPOS VULNERÁVEIS: PRINCÍPIOS DE 
ATENDIMENTO ÀS MULHERES EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA 
 
Sumário 
Apresentação do Curso .................................................................................................................... 4 
Objetivos do Curso ............................................................................................................................ 4 
Objetivo Geral ................................................................................................................................. 4 
Objetivos Específicos ................................................................................................................... 5 
Estrutura do Curso ........................................................................................................................ 6 
Módulo 1 – O QUE É A VIOLÊNCIA DE GÊNERO? BREVES APONTAMENTOS DA 
HISTÓRIA DOS DIREITOS DA MULHER NO BRASIL ................................................................ 8 
Apresentação do módulo ............................................................................................................. 8 
Objetivos do módulo ..................................................................................................................... 8 
Estrutura do módulo...................................................................................................................... 9 
1. Conceito, origem e características da violência de gênero ......................................... 10 
1.1 Características da violência de gênero: .......................................................................... 11 
2. Linha histórica dos direitos da mulher no Brasil ............................................................ 14 
3. Causas e fatores de risco para a violência ................................................................... 17 
3.1 Violência contra mulheres baseada na raça/cor ...................................................... 18 
3.2 Vulnerabilidade social e econômica ........................................................................... 18 
3.3 Violência contra mulheres com deficiência .............................................................. 20 
3.4 Violência contra mulheres homossexuais, bissexuais e transgêneros ............ 25 
Finalizando ..................................................................................................................................... 27 
Módulo 2 - OS TIPOS DE VIOLÊNCIA E O CICLO DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO ............. 28 
Apresentação do módulo ........................................................................................................... 28 
Objetivos do módulo ................................................................................................................... 28 
Estrutura do módulo.................................................................................................................... 28 
1. A violência contra as mulheres ........................................................................................ 30 
2. A Lei nº 11.340/2006 - Lei Maria da Penha ......................................................................... 31 
3. Tipos de violência contra a mulher ..................................................................................... 32 
3.1. Violência física .................................................................................................................. 33 
3.2 Violência psicológica............................................................................................................ 33 
3.3 Violência sexual ..................................................................................................................... 38 
3.4 Violência patrimonial ............................................................................................................ 40 
3.5 Violência moral ....................................................................................................................... 42 
3.6. Violência institucional ......................................................................................................... 42 
4. O ciclo da violência.............................................................................................................. 44 
 
 
4.1 Fases do ciclo da violência ................................................................................................. 44 
4.2. Fatores que contribuem para o ciclo da violência ...................................................... 46 
Finalizando ..................................................................................................................................... 49 
Módulo 3 - VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER E OS 
MECANISMOS DE PROTEÇÃO ..................................................................................................... 51 
Apresentação do módulo ........................................................................................................... 51 
Objetivos do módulo ................................................................................................................... 51 
Estrutura do módulo.................................................................................................................... 52 
1. Medidas Protetivas de Urgência .......................................................................................... 53 
1.1 Em relação ao agressor ....................................................................................................... 54 
1.2 Em relação à mulher e a seu patrimônio ........................................................................ 56 
1.3 Outras Medidas Protetivas possíveis ............................................................................. 57 
2. Necessidade da devida informação à vítima ................................................................ 58 
3. Do Formulário Nacional de Avaliação de Risco .............................................................. 59 
4. Da possibilidade de afastamento do agressor do lar pela Autoridade Policial ...... 60 
5. Do Banco Nacional de Medidas Protetivas de Urgência ............................................... 60 
6. Consequências do descumprimento de medida protetiva de urgência ................... 61 
Finalizando ..................................................................................................................................... 62 
Módulo 4 - O PLANO NACIONAL DE ENFRENTAMENTO AO FEMINICÍDIO. REDE DE 
ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER. ..... 64 
Apresentação do módulo ........................................................................................................... 64 
Objetivos do módulo ................................................................................................................... 64 
Estrutura do módulo.................................................................................................................... 65 
1. Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio ..........................................................66 
2. Redes de atendimento e de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra 
a mulher .......................................................................................................................................... 69 
3. A importância da capacitação continuada dos profissionais que compõem a rede 
de proteção às mulheres ............................................................................................................ 81 
Finalizando ..................................................................................................................................... 83 
Referências Bibliográficas ............................................................................................................. 84 
 
 
 
 
4 
Apresentação do Curso 
 
Caro(a) aluno(a), 
 
 Seja bem-vindo(a) ao Curso Segurança de Grupos Vulneráveis: Princípios de 
Atendimento às Mulheres em Situação de Violência! 
Trabalhar com o atendimento às mulheres em situação de violência 
requer o prévio conhecimento acerca de várias questões, para que o 
profissional de segurança pública tenha condições de compreender o 
fenômeno da violência de gênero em toda sua complexidade. 
O profissional, com o olhar superficial sobre o tema, é capaz de achar que as 
situações de violência contra as mulheres são questões menores, de pouca 
importância, e reproduzir em seu atendimento diversas violências, desestimulando 
que a vítima busque o Estado ou impedindo que meios lhe sejam oferecidos para que 
consiga romper com o ciclo de violência a que está submetida. 
Assim, faz-se necessário a capacitação dos agentes públicos que trabalham 
com a temática, apresentando-lhes conceitos basilares e essenciais no tocante à 
violência de gênero, para que eles tenham plenas condições de oferecer atendimento 
digno às mulheres em situação de violência. 
Público-alvo: Profissionais do Sistema Único de Segurança Pública. 
 
Objetivos do Curso 
Objetivo Geral 
Apresentar conceitos principiológicos e basilares acerca da violência de 
gênero, de modo a garantir que o profissional de Segurança Pública compreenda essa 
violência em sua complexidade, conheça os principais marcos legislativos sobre o 
tema e os mecanismos vigentes no Brasil que estão à disposição mulher em situação 
de violência. 
 
 
 
 5 
Objetivos Específicos 
• Introduzir o conceito de gênero, as origens e as características da 
violência de gênero; 
• Apresentar a evolução histórica acerca dos direitos da mulher no 
Brasil; 
• Refletir sobre as principais causas e os principais fatores de risco 
para a violência contra a mulher; 
• Apontar os tipos de violência de gêneros, em todas as suas 
formas; 
• Apresentar o ciclo da violência e suas fases 
• Discorrer sobre a Lei nº 11.340/2006 – Lei Maria da Penha 
• Aprofundar sobre o estudo das Medidas Protetivas de Urgência 
• Trazer linhas gerais sobre o Plano Nacional de Enfrentamento ao 
Feminicídio; 
• Apresentar as redes de enfrentamento e de atendimento à 
violência doméstica e familiar contra a mulher; 
• Discorrer sobre a importância de se instituir protocolos de 
atendimento à mulher vítima de violência e a capacitação dos agentes públicos 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 6 
Estrutura do Curso 
Este curso possui 30 horas e compreende os seguintes módulos: 
 
Módulo 1 - O QUE É A VIOLÊNCIA DE GÊNERO? BREVES 
APONTAMENTOS DA HISTÓRIA DOS DIREITOS DA MULHER NO 
BRASIL 
1. Conceito, origem e características da violência de gênero 
1.2 Características da violência de gênero 
2 Linha histórica dos direitos da mulher no Brasil 
3 Causas e fatores de risco para a violência 
3.1 Violência contra mulheres baseada na raça/cor 
3.2 Vulnerabilidade social e econômica 
3.3 Violência contra mulheres com deficiência 
3.4 Violência contra mulheres homossexuais, bissexuais e 
transgêneros 
 
Módulo 2 – OS TIPOS DE VIOLÊNCIA DE GÊNERO E O CICLO DA 
VIOLÊNCIA 
1. A violência contra as mulheres 
2. A Lei nº 11.340/2006 - Lei Maria da Penha 
3. Tipos de violência contra a mulher 
3.1 Violência física 
3.2 Violência psicológica 
3.3 Violência sexual 
3.4 Violência patrimonial 
3.5 Violência moral 
3.6. Violência institucional 
4. O ciclo da violência 
4.1 Fases do ciclo da violência 
4.2 Fatores que contribuem para o ciclo da violência 
 
 
 7 
Módulo 3 – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A 
MULHER E OS MECANISMOS DE PROTEÇÃO 
1. Medidas Protetivas de Urgência 
1.1 Em relação ao agressor 
1.2 Em relação à mulher e a seu patrimônio 
1.3 Outras Medidas Protetivas possíveis 
2. Necessidade da devida informação à vítima 
3. Do Formulário Nacional de Avaliação de Risco 
4. Da possibilidade de afastamento do lar do agressor pela 
Autoridade Policial 
5. Do Banco Nacional de Medidas Protetivas de Urgência 
6. Consequências do descumprimento de medida protetiva de 
urgência 
 
Módulo 4 – O PLANO NACIONAL DE ENFRENTAMENTO AO 
FEMINICÍDIO. REDE DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA 
DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER 
1. Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio 
2. Redes de enfrentamento e de atendimento à violência doméstica 
e familiar contra a mulher 
3. A importância da capacitação dos profissionais que compõem a 
rede de proteção às mulheres 
 
Referências Bibliográficas 
 
 
 
 
 
 
 8 
Módulo 1 – O QUE É A VIOLÊNCIA DE GÊNERO? BREVES 
APONTAMENTOS DA HISTÓRIA DOS DIREITOS DA MULHER NO 
BRASIL 
 
Apresentação do módulo 
 
Neste módulo, você vai estudar o que é a violência de gênero, sua origem e 
características. Para compreender esse panorama, é importante entender o contexto 
histórico-social e a breve evolução legislativa que acompanhou a garantia de direitos 
e proteção especial às mulheres em situação de violência, nas suas mais diversas 
formas, seja no setor público ou privado. 
Compreender a violência de gênero não é simples, pois, muitas 
vezes, essa violência se revela por meio de comportamentos que 
foram socialmente aceitáveis durante décadas, pelos mais diversos 
núcleos sociais. A violência, por não ser física, é invisível e, por isso, 
a própria vítima tem dificuldade em compreender que está sendo 
vítima nessa situação. 
Assim, aqui você irá compreender esse fenômeno e conseguirá identificar a 
violência de gênero, por mais sutil que seja, mas que precisa ser repelida, pois sua 
continuidade e permanência podem resultar em crimes mais graves, que se pretende 
com este estudo prevenir. 
 
Objetivos do módulo 
 
Este módulo tem por objetivos: 
• Apresentar o conceito de gênero, discorrer sobre a origem e as 
características da violência de gênero, oportunizando o conhecimento 
necessário para a compreensão da existência de leis especiais para proteção 
das mulheres; 
• Demonstrar um breve panorama histórico, bem como a evolução 
legislativa dos direitos das mulheres no Brasil, para melhor entendimento do 
fenômeno da violência de gênero; 
 
 9 
• Apontar as principais causas e os principais fatores de risco que 
potencializam a violência de gênero. 
 
Estrutura do módulo 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
 
1. Conceito, origem e características da violência de gênero 
1.1 Características da violência de gênero 
2. Linha histórica dos direitos da mulher no Brasil 
3. Causas e fatores de risco para a violência 
3.1 Violência contra mulheres baseada na raça/cor 
3.2 Vulnerabilidade social e econômica 
3.3 Violência contra mulheres com deficiência 
3.4 Violência contra mulheres homossexuais, bissexuais e transgêneros 
 
 
 
 
 
 10 
1. Conceito, origem e características da violência de gênero 
 
O que é o gênero? 
São os atributos socialmente construídos e atribuídos aos gêneros, 
seja feminino ou masculino. É aquilo que, historicamente, foi 
identificado pela sociedade como sendo o papel do feminino e do 
masculino. O gênero é uma criaçãosocial e qualquer pessoa, seja ela 
do sexo biológico feminino ou masculino, se identifica com um gênero. 
Existem pessoas que não se identificam com nenhum dos dois 
gêneros: são as não binárias. 
Histórica e culturalmente, os papéis designados para o masculino se referiam 
ao forte, laborativo, provedor, portador da virilidade sexual, impositivo etc. O feminino, 
por sua vez, era vinculado aos papéis da submissão, compreensão, docilidade. 
O masculino assumiu papéis do universo público, de provedor, claramente de 
poder de mando no núcleo familiar, enquanto o feminino se limitou social e 
culturalmente às tarefas privadas de cuidados com a família, do ambiente privado, 
submissa ao modelo denominado patriarcal. 
A submissão do feminino ao masculino, que permeia gerações e está 
estruturada em nossa sociedade, é o fundamento dos mais diversos tipos de violência 
praticados contra as mulheres, não somente os que ocorrem no ambiente doméstico 
e familiar, mas também os que ocorrem nas ruas, em ambientes públicos. 
As mulheres, pelo simples fato de seu gênero, estão em situação de 
vulnerabilidade e são vítimas de crimes específicos. Aqui exemplificamos os mais 
comuns: importunação sexual, estupro, estupro de vulnerável. 
A violência de gênero é qualquer tipo de agressão contra alguém em situação 
de vulnerabilidade devido à sua identidade de gênero ou orientação sexual. 
 
 
 
 11 
1.1 Características da violência de gênero1: 
 
Agora você irá estudar quais são as características da violência de gênero, 
aprofundando a violência opressora do feminino. 
- Invisibilidade2 – Muitos comportamentos decorrentes de diferenças 
biológicas resultam na repetição de condutas opressoras, que são socialmente 
naturalizadas. Ações violentas e abusivas, aceitas pelos núcleos sociais, 
principalmente familiares e os mais íntimos, em que os comportamentos são 
reforçados e repetidos por gerações. 
Exemplos: 
1. Durante o namoro, a adolescente aceita ser ofendida moralmente, pois na 
sua casa presenciava seu pai ofender sua genitora. Para essa adolescente, a ofensa 
é natural, pois é aquilo que ela vivenciou e aprendeu como aceitável. 
2. No núcleo familiar, é natural que a mulher e os filhos não opinem sobre as 
decisões familiares, pois esse é o papel do masculino, do líder, do pai da família. 
- Transversal/Estrutural3 – Está em todas as relações sociais, em diversos 
níveis, independentemente da classe social. Está enraizada nos estereótipos, 
modelos socialmente criados para papéis do feminino e do masculino. 
Assim, está presente na casa dos mais e menos favorecidos socialmente e 
também não distingue nível educacional. Quase que cotidianamente os noticiários nos 
informam sobre casos de feminicídios que atingem mulheres de todas as classes 
sociais e nível educacional. 
- Legitima privilégios4 – a estrutura da violência de gênero, pautada na 
submissão do feminino ao masculino, legitima a conduta sexista, em que o homem é 
autoritário e a mulher dócil e compreensiva, como se houvesse o papel do protetor e 
da protegida, legitimando qualquer conduta que justifique a manutenção desse 
modelo. 
 
1 PIEROBOM, Thiago. Violência Psicológica: Aspectos Protetivos e de Tipicidade Criminal. Youtube, 
14 fev. 2022. Disponível em: <youtu.be/xSpmGb4dskQ>. Acesso em: 02, mai. 2022. 
2 Idem 
3 Idem 
4 Idem 
 
 12 
Quando há uma ruptura ou uma subversão desse modelo, a mulher pode 
perder o caráter de vítima nessa relação e se tornar a culpada, mesmo que ela seja a 
pessoa que sofra a violência. 
Exemplos: 
1. A mulher que comete traição conjugal pode sofrer consequência violentas, 
pois o papel de “traição” não está atribuído ao feminino, uma vez que a virilidade é um 
papel masculino. Nesse caso, houve uma inversão de papéis, por isso é legitimado 
que ela sofra consequências negativas de seu ato. Quando o homem trai, ele pode 
ser perdoado, pois faz parte do seu papel social na relação extraconjugal. 
2. Às mulheres são definidas determinadas tarefas domésticas, ainda que elas 
também trabalhem fora de casa e contribuam financeiramente com as despesas da 
casa, o que desencadeia em exaustiva dupla ou tripla jornada de trabalho. Muitos 
homens, nessas condições, não assumem qualquer serviço doméstico, simplesmente 
por argumentar que é “trabalho de mulher”, sobrecarregando suas parceiras. O 
questionamento desse modelo pode resultar em atos de violência no ambiente 
doméstico. 
Figura 1 - A legitimação de privilégios 
 
Fonte: Reprodução/Internet, 2022. 
 
 
 13 
- Psicologicamente interiorizada5 – os papéis do feminino e masculino são 
internalizados na mulher no desempenho do papel amoroso e materno, dócil, 
compreensivo, submisso e, no homem, a virilidade sexual e laborativa, de provedor. 
Socialmente, homens e mulheres permanecem replicando papéis que resultam numa 
sociedade sexista. E, nesse aspecto, é perceptível a invisibilidade, pois o cumprimento 
desses papéis é tão definido, que, diante de um ato de violência, ainda que grave, ele 
é aceitável por determinado núcleo social. 
Quantas mulheres são agredidas em seus lares, na frente dos familiares, sem 
que nenhuma providência punitiva seja tomada, ainda que pela denúncia? Por que 
aceitamos esse comportamento de violência? 
- Violência disciplinar6 – na sociedade com modelo patriarcal historicamente 
instituído, o homem precisa provar entre os seus iguais o poder da masculinidade, 
isso quer dizer que é necessário constantemente reafirmar suas qualidades 
masculinas para ser aceito como um homem de verdade. 
E isso se faz por meio da virilidade, de ser o provedor, entre outros papéis 
atribuídos ao masculino. Se o homem não consegue desempenhar essa função, ele 
é julgado pelos pares, diminuído, humilhado e enfraquecido. Legitima-se até o uso da 
força física, para que o modelo sexista seja normalizado. 
Nesse modelo, se a mulher não cumpre seu papel predeterminado, ainda que 
ela seja vítima de violência, a sua condição de vítima passa a ser questionada. 
Exemplos: 
1.“Ela revidou a agressão”. Não é papel da mulher submissa a própria defesa. 
2. “Ela não limpou a casa e foi ofendida”. A violência passa a ser legítima? 
O resultado que se obtém é o jogo de desigualdade de poder entre homens e 
mulheres. 
- Transgeracional7: o legado da violência fundada no gênero ultrapassa 
gerações, é historicamente enraizado na sociedade e esse aprendizado não está 
apenas nos homens, mas também nas mulheres. O pensamento sexista, machista, 
 
5 PIEROBOM, Thiago. Violência Psicológica: Aspectos Protetivos e de Tipicidade Criminal. Youtube, 
14 fev. 2022. Disponível em: <youtu.be/xSpmGb4dskQ>. Acesso em: 02, mai.2022. 
6 Idem. 
7 PIEROBOM, Thiago. Violência Psicológica: Aspectos Protetivos e de Tipicidade Criminal. Youtube, 
14 fev. 2022. Disponível em: <youtu.be/xSpmGb4dskQ>. Acesso em: 02, mai.2022. 
 
 14 
está presente na sociedade em geral e precisa ser descontruído, para que tenhamos 
uma sociedade igualitária, com mais respeito e sem violência. 
Exemplo: O marido que agride a mulher durante discussões domésticas, que 
repete a conduta de seu pai, que também agredia a companheira em casa durante 
qualquer discussão. Este, por sua vez, também reproduziu a conduta do próprio pai, 
na mesma circunstância. Vemos uma conduta geracional na resolução de conflitos. 
 
Figura 2 - O patriarcado 
 
Fonte: Revista Miga, 2022. 
 
2. Linha histórica dos direitos da mulher no Brasil 
 
Quando se pensa em violência de gênero, precisamos entender o contexto 
histórico em que a sociedade brasileira evoluiu e quais foram as batalhas travadas no 
tempo, para compreender o papel da mulher na sociedade, que a retrata como um ser 
de menor importância, com menos direitos do que os homens. 
Veja a realidade destacada por período e a evolução legislativa citada: 
1. No período em que o Brasil foi colônia de Portugal,do ano de 1532 a 
1822, quando vigorou o Código Filipino, o marido tinha o direito de matar a esposa 
adúltera ou suspeita. “E toda mulher que fizer adúltera a seu marido, morra por isso” 
(Portugal, Ordenações Filipinas, livro 5, título 5). 
https://areademulher.r7.com/curiosidades/patriarcado-significado/
 
 15 
2. Durante o Brasil Império, 1830, pelo Código Penal Brasileiro, a pena era 
atenuada quando houvesse adultério da mulher (justificado pela desonra, artigo 18, 
4º). 
3. O direito ao voto das mulheres foi reconhecido somente em 1932, pelo 
Decreto nº 21.076, que instituiu o Código Eleitoral Brasileiro. 
4. O Código Civil de 1916 retrata de forma significativa o modelo patriarcal. 
Veja alguns exemplos, que vigoraram até o advento da Constituição Federal de 1988: 
- o homem era o chefe de família e administrador dos 
bens comuns e particulares (artigos 233 e seguintes); 
- a mulher era tutelada pelo marido, passando a ser 
relativamente capaz após o casamento (artigos 240 e 
seguintes); 
- o fato de a mulher não ser virgem e isso ser descoberto 
após o casamento, poderia causar a anulação do casamento, 
pois era considerado erro essencial sobre a pessoa do cônjuge 
(artigo 219, IV). 
5. Em 1985, é criado o Conselho Nacional de Direitos das Mulheres e a 1ª 
DEAM – Delegacia Especial de Atendimento à Mulher no Brasil, em São Paulo. 
6. Em 1988, é promulgada a Constituição Federal, em que estão previstos 
vários direitos fundamentais e cláusulas pétreas, que impõem ao Estado a criação e 
implementação de políticas públicas para promover a igualdade de direitos entre 
homens e mulheres. 
7. O Código Penal Brasileiro, em vários artigos, utilizava a expressão 
“MULHER HONESTA”, que significava o recato e sexualidade controlada e restrita à 
convivência conjugal, determinando um padrão de comportamento socialmente 
aceito, para que a mulher pudesse estar na condição de “vítima”. Somente com a Lei 
nº 11.106, promulgada em 2005, tal expressão pré-julgadora foi retirada do Código 
Penal. 
8. Até o ano de 2005, o casamento era excludente da culpabilidade nos 
crimes contra os costumes, atualmente denominados crimes contra a dignidade 
sexual. O artigo 107 do Código Penal assim previa: 
“VII – pelo casamento do agente com a vítima nos crimes contra os costumes, 
definidos nos Capítulos I, II e III do Título VI da Parte Especial deste código”, 
e, 
VIII - pelo casamento da vítima com terceiro, nos crimes referidos no inciso 
anterior, se cometidos sem violência real ou grave ameaça e de que a 
 
 16 
ofendida não requeira o prosseguimento do inquérito policial ou da ação penal 
no prazo de sessenta dias a contar da celebração;”. 
 
 
9. Apenas em 2009, com Lei nº 12.015, os crimes que atingem a liberdade 
sexual deixaram de serem nominados de “Crimes Contra os Costumes” para “Crimes 
Contra a Dignidade Sexual”. 
10. Em 1994, foi concluída a Convenção Interamericana de Belém do Pará, 
em que foi definido o que é violência contra a mulher e suas formas, promulgada no 
Brasil em 1996 através do Decreto nº 1973 de 1º de agosto. 
11. Em 29 de maio de 1983, Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica, 
na cidade Fortaleza/CE, foi vítima de feminicídio tentado, mediante disparo de arma 
de fogo realizado por seu marido, o economista Marco Antônio Heredia Viveros, 
colombiano, naturalizado brasileiro. Na ação, ele simulou um assalto que deixou a 
esposa paraplégica. Após uma semana do retorno da vítima para casa, ela, ao tomar 
banho, foi novamente vítima de seu marido, quando recebeu uma descarga elétrica, 
numa nova tentativa de feminicídio. Marco Antônio foi denunciado pelo Ministério 
Público em 28 de setembro de 1984 e condenado pelo júri em 04 de maio de 1991. 
Ele recorreu da decisão, tendo o julgamento ocorrido em 15 de março de 1996, sendo 
condenado a 10 anos e 6 meses de prisão. Após novos recursos, somente em 
setembro de 2002 ele foi preso, iniciando o cumprimento da pena. 
O caso de Maria da Penha foi denunciado à Comissão Interamericana de 
Direitos Humanos, órgão da Organização dos Estados Americanos - OEA. A própria 
Maria da Penha, o Centro pela Justiça e o Direito Internacional e o Comitê Latino-
Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher recorreram à Corte em 
20 de agosto de 1998. Em 16 de abril de 2001, a Comissão publicou o Relatório 
54/2001 declarando em relação ao Brasil “a ineficácia judicial, a impunidade e a 
impossibilidade de a vítima obter uma reparação mostra a falta de cumprimento do 
compromisso de reagir adequadamente ante a violência doméstica”. 
Veja um vídeo em que a Maria da Penha conta a sua história 
(Disponível em: youtu.be/TRSfTdaBbvs). 
12. O Brasil promulga em 2002 a Convenção sobre a Eliminação de Todas 
as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), de 1979-ONU, através do 
Decreto nº 4.377 de 13 de setembro de 2002. 
13. Criação do Ligue 180 – Central de Atendimento em âmbito nacional para 
receber denúncias de violência contra a mulher em 13 de agosto de 2002 através da 
 
 17 
Lei nº 10.714/2002. Importante instrumento de recebimento de denúncias das mais 
diversas violações de direitos das mulheres. 
14. No dia 08 de agosto 2006, é promulgada a Lei nº 11.340/2006, 
conhecida por Lei Maria da Penha, cuja vigência se iniciou no dia 22 de setembro de 
2006 em todo território nacional. Essa lei foi um divisor de águas na instituição de 
direitos, proteção, e direcionamento para a aplicação da própria lei, pautado no olhar 
diferenciado e acolhedor, com o reconhecimento explícito da vulnerabilidade e 
subjugação da mulher na relação de violência gênero. 
15. A Lei do Feminicídio, Lei nº 13.104, promulgada em 9 de março de 2015, 
tecnicamente, criou uma qualificadora do homicídio (artigo 121, § 2º, inciso VI, do 
Código Penal Brasileiro). Aplica-se a duas circunstâncias em proteção à mulher por 
razões da condição do gênero feminino, assim consideradas: 
- quando envolverem violência doméstica e familiar (Lei nº 11.340/2006); 
- e/ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher, assim definidos 
no § 2º-A do art. 121 do Código Penal. Aqui deve ser feita a pergunta: essa 
mulher morreu pela sua condição de ser mulher? 
 
 
16. A Lei nº 14.132, promulgada em de 31 de março de 2021, inseriu o artigo 
147-A no Código Penal Brasileiro, denominado crime da perseguição, do qual nos 
aprofundaremos ainda nesse curso. 
17. A Lei nº 14.188 de 28 de julho de 2021 foi outro avanço da legislação, 
pois previu o crime específico de violência psicológica, sobre o qual também nos 
aprofundaremos no curso. 
Para ampliar seus conhecimentos, estude no Código Penal o 
Capítulo “Dos Crimes Contra a Dignidade Sexual”, 
especialmente a evolução legislativa, através do link: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-
lei/del2848compilado.htm 
 
3. Causas e fatores de risco para a violência 
 
Causas e fatores de risco para a violência são circunstâncias que podem 
justificar a violência ou trazer elementos que potencializam e aumentam o risco da 
mulher se tornar uma vítima em potencial, a colocando em maior vulnerabilidade, 
como viver em determinado local, em determinadas condições e circunstâncias, 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm
 
 18 
pertencer a grupos étnicos e sociais específicos. São os recortes sociais que tornam 
determinados grupos mais vulneráveis a serem vítimas de determinados crimes. 
Neste caso, os fatores podem, além de aumentar o risco, causar a própria 
violência ou contribuir para uma maior frequência dela. 
 
3.1 Violência contra mulheres baseada na raça/cor 
 
A raça e a cor tem sido fator preponderante para justificar e potencializar o risco 
da violência contra mulheres, principalmente, as mulheres negras sofrem por 
pertencerem a esse grupo, devido à desigualdade racial existentedecorrente da 
histórico sociocultural brasileiro. As mulheres negras e suas descendentes sofrem 
com muito mais frequência e intensidade de atos de violências, como “feminicídio, 
racismo, importunação sexual, violência física, injúria qualificada pela raça/cor, etc.”. 
Os dados do último mapa da violência de 2021 mostram que 67% das vítimas 
de homicídio em 2019 eram mulheres negras. Do total de 3.737 mulheres 
assassinadas, 2.468 eram negras. 
Cumpre ressalvar que, na análise e coleta dos dados do mapa da violência, é 
considerado o total de mulheres vítimas da violência letal, em que se inclui os crimes 
de feminicídio e de outros crimes letais, tais como latrocínio e homicídio (quando não 
há questão de gênero como causa da morte). 
Chama a atenção, em relação ao recorte específico relativo à raça/cor, no 
referido relatório, o estado de Alagoas, onde todas as vítimas eram negras, 
alcançando a cifra assustadora de 100%. 
Enriqueça seus estudos e conheça o Atlas a Violência 2021 na 
íntegra através do link: 
https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/1375-
atlasdaviolencia2021completo.pdf 
 
 
3.2 Vulnerabilidade social e econômica 
 
https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/1375-atlasdaviolencia2021completo.pdf
https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/1375-atlasdaviolencia2021completo.pdf
 
 19 
A vulnerabilidade social e econômica é outro fator que potencializa a ocorrência 
de violência contra mulheres, principalmente a intrafamiliar e doméstica, é a falta de 
recursos financeiros, de trabalho e renda, da mulher que depende financeiramente do 
autor da agressão. A dependência financeira é fator de risco e motivador da 
permanência da vítima no ciclo da violência, que será estudado durante o curso. 
Mulheres em vulnerabilidade social, especialmente as que dependem de 
transporte público, também são vítimas de importunação sexual, especialmente em 
transportes públicos (ônibus, trens e metrôs). As mulheres que vivem nas periferias 
são a maioria das usuárias de transporte público no país, que, em geral, sofrem esse 
tipo de violência. 
Para reflexão: Assista ao vídeo “Vida de Maria”: 
➢ https://www.youtube.com/watch?v=T9d7g8TdwQs 
O uso abusivo de álcool e drogas também tem sido fator que potencializa o 
cenário de violência doméstica e intrafamiliar, em que as mulheres e crianças têm sido 
os maiores alvos das condutas violentas por parte do autor que usa essas 
substâncias. 
Ainda, notícias que tratam de questões relacionadas à segurança 
das mulheres no transporte público: 
 
➢ https://expresso.estadao.com.br/naperifa/transporte-publico-e-
espaco-em-que-as-mulheres-mais-temem-sofrer-assedio/ 
➢ https://noticias.r7.com/sao-paulo/sp-pelo-4-ano-seguido-
transporte-publico-e-o-espaco-de-maior-risco-de-assedio-para-
mulheres-29062022 
➢ https://g1.globo.com/mg/minas-
gerais/noticia/2022/09/28/homem-e-preso-suspeito-de-
importunacao-sexual-dentro-de-onibus-em-belo-horizonte.ghtml 
➢ https://noticias.r7.com/jr-na-tv/videos/mais-de-30-das-mulheres-
ja-sofreram-assedio-no-transporte-publico-diz-pesquisa-12092022 
➢ https://summitmobilidade.estadao.com.br/guia-do-transporte-
urbano/mulher-no-transporte-publico-dificuldades-e-solucoes/ 
➢ ASSÉDIO NO TRANSPORTE PÚBLICO: O que as experiências 
com o vagão rosa nos ensinaram até agora. Disponível em 
http://files.antp.org.br/2019/4/10/rtp151-3.pdf 
https://expresso.estadao.com.br/naperifa/transporte-publico-e-espaco-em-que-as-mulheres-mais-temem-sofrer-assedio/
https://expresso.estadao.com.br/naperifa/transporte-publico-e-espaco-em-que-as-mulheres-mais-temem-sofrer-assedio/
https://noticias.r7.com/sao-paulo/sp-pelo-4-ano-seguido-transporte-publico-e-o-espaco-de-maior-risco-de-assedio-para-mulheres-29062022
https://noticias.r7.com/sao-paulo/sp-pelo-4-ano-seguido-transporte-publico-e-o-espaco-de-maior-risco-de-assedio-para-mulheres-29062022
https://noticias.r7.com/sao-paulo/sp-pelo-4-ano-seguido-transporte-publico-e-o-espaco-de-maior-risco-de-assedio-para-mulheres-29062022
https://noticias.r7.com/jr-na-tv/videos/mais-de-30-das-mulheres-ja-sofreram-assedio-no-transporte-publico-diz-pesquisa-12092022
https://noticias.r7.com/jr-na-tv/videos/mais-de-30-das-mulheres-ja-sofreram-assedio-no-transporte-publico-diz-pesquisa-12092022
https://summitmobilidade.estadao.com.br/guia-do-transporte-urbano/mulher-no-transporte-publico-dificuldades-e-solucoes/
https://summitmobilidade.estadao.com.br/guia-do-transporte-urbano/mulher-no-transporte-publico-dificuldades-e-solucoes/
 
 20 
 
3.3 Violência contra mulheres com deficiência 
 
No Brasil temos a Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, que 
instituiu a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa 
com Deficiência). 
E em seu artigo 2º há a tipificação das deficiências: 
Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo 
prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação 
com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na 
sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. 
 
No caso de violência contra as mulheres um dos problemas enfrentados é a 
subnotificação e pulverização de dado. E quando se trata de ataques a mulheres com 
deficiência: 
Registros de 2019 sobre violência contra pessoas com deficiência apontam 
que, a cada grupo de 10 mil pessoas, houve 56,9 notificações contra 
mulheres com deficiência intelectual, 17,8 com deficiência física, 5 com 
deficiência auditiva e 1,6 com deficiência visual. Os números são bem 
superiores aos de homens com deficiência, que apresentam índices, 
respectivamente, de 21,9; 7,3; 2,3; e 1,2. 
A maioria das pessoas que sofrem com a violência doméstica são as que 
possuem deficiência intelectual, seguidas das que possuem deficiência física, 
múltipla, visual e auditiva. As que possuem deficiência intelectual sofrem em 
maior proporção a violência física, psicológica e sexual. (Fonte: Agência 
Senado, 2021). 
A deficiência é um fator de risco para potencializar a violência de gênero. Os 
mais diversos tipos de deficiência trazem para mulheres, meninas e adolescentes, 
especial situação de alerta sobre a sua vulnerabilidade para serem destinatárias de 
qualquer ato de violência. Motivos que despertam para ações afirmativas de 
prevenção e segurança. 
 
 
 
 
Figura 3 - Mensagem em Libras para Mulheres Surdas 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm#:~:text=Art.%202%C2%BA%20Considera%2Dse%20pessoa,condi%C3%A7%C3%B5es%20com%20as%20demais%20pessoas.
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/12/07/debate-cobra-acoes-mais-efetivas-no-combate-a-violencia-contra-mulheres-com-deficiencia
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/12/07/debate-cobra-acoes-mais-efetivas-no-combate-a-violencia-contra-mulheres-com-deficiencia
 
 21 
 
Fonte: Não se cale MS, 2019. 
 
 
O autor da agressão se aproveita da vulnerabilidade decorrente da deficiência 
para praticar os mais diversos crimes contra essa mulher, que está, por vezes, 
impossibilitada de falar, ouvir, ver, se locomover, e, portanto, oferecer resistência e se 
defender. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 4 - Violência sexual contra mulheres com deficiência 
https://www.naosecale.ms.gov.br/violencia-contra-mulheres-com-deficiencia/
 
 22 
 
Fonte: Sistema de Informação de Agravos de Notificação - Sinam, generonumero.media, 2021. 
Serão citados dois exemplos reais para ilustrar essa circunstância: 
https://www.generonumero.media/reportagens/violencia-sexual-mulheres-deficiencia/
 
 23 
Uma mulher de classe social de média alta, estava muito feliz em seus trinta e 
pouco anos, pois tinha se casado, então, com o “príncipe encantado”, quando passou 
a desenvolver Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença que causa degeneração 
progressiva de neurônios motores. Assim que o fato foi levado ao conhecimento dapolícia por intermédio de seus familiares, a vítima já não tinha mais nenhum 
movimento motor, se comunicava com auxílio de um programa de computador, 
apenas com o movimento dos olhos. A vítima era assistida por serviço médico de 
“home care”. Nesse contexto, seu marido, aproveitava de quando estava sozinho com 
vítima para praticar os mais diversos atos de violência, dentre eles a tortura, e a vítima 
não tinha como se defender. 
Em outro caso, o autor da agressão mantinha amizade há mais de 30 anos com 
o pai da vítima, a qual era deficiente intelectual. Em razão da confiança, o agressor 
tinha livre acesso à casa da família e se aproveitava dos momentos em que a vítima 
estava em casa sozinha para ir ao local e praticava atos libidinosos com ela. A vítima 
passou a apresentar comportamento agressivo, diminuição de sua autoestima e 
revelou os abusos sexuais aos pais. 
 
Conheça um pouco mais do assunto: 
Acesse aqui o link 
O site “pcdlegal.com.br” disponibiliza, em LIBRAS com áudio e legendas, todo o 
conteúdo da Lei Maria da Penha. 
Acesse: http://www.pcdlegal.com.br/leimariadapenha/libras-mobile/ 
 
Alteração na Lei Maria da Penha amplia proteção de mulheres com deficiência – A 
juíza Adriana Ramos de Mello, em reportagem concedida ao programa Fantástico 
(Rede Globo, junho/2019), fala sobre a inovação trazida pela Lei nº 13.836, que 
determina constar no boletim de ocorrência se a vítima tinha ou ficou com alguma 
deficiência por causa da agressão. Assista ao programa na 
íntegra: https://globoplay.globo.com/v/7835516/ 
 
Precisamos falar sobre violência contra mulheres com deficiência. 
Leia a matéria no link http://www.justificando.com/2016/11/21/precisamos-falar-
sobre-violencia-contra-mulheres-com-deficiencia/ 
https://www.youtube.com/watch?v=_d2KXcOAwTo
http://www.pcdlegal.com.br/leimariadapenha/libras-mobile/
https://globoplay.globo.com/v/7835516/
http://www.justificando.com/2016/11/21/precisamos-falar-sobre-violencia-contra-mulheres-com-deficiencia/
http://www.justificando.com/2016/11/21/precisamos-falar-sobre-violencia-contra-mulheres-com-deficiencia/
 
 24 
 
"Vozes de mulheres com deficiência e a violência de gênero: análise discursiva 
de narrativas de vida em Campo Grande" - dissertação de mestrado apresentado 
ao Programa de Pós-Graduação em Letras, na UEMS - Universidade Estadual de Mato 
Grosso do Sul, por Flávia Pieretti 
Cardoso: http://www.uems.br/assets/uploads/cursos_pos/edc4fb6d0115090bccaa916
7bb1cda17/teses_dissertacoes/1_edc4fb6d0115090bccaa9167bb1cda17_2019-11-
26_10-58-52.pdf 
 Assista ao documentário “Silenciadas: em busca de uma voz” (33 min). Um 
documentário que tem como propósito "dar voz" e visibilidade às mulheres com 
deficiência sobreviventes de violência de gênero. 
https://m.youtube.com/watch?v=xa9moW4WawY&feature=youtu.be 
 
O quadro seguinte demonstra as violências a que estão sujeitas as mulheres, 
meninas e adolescentes, motivadas pelo fato de serem portadoras de alguma 
deficiência, seja ela visível ou não. 
Quadro 1 - Violências sofridas por mulheres deficientes 
 
 
Fonte: CITA/Segen, 2022. 
 
 
Para saber mais, veja ainda: 
O trabalho publicado nos anais do Pesquisasus: Coletânea de Trabalhos e 
Experiências da Mostra da Escola de Governo Fiocruz-Brasília - “AQUI NÓS SOMOS 
https://m.youtube.com/watch?v=xa9moW4WawY&feature=youtu.be
file:///C:/Users/Angelica/Downloads/https/www.even3.com.br/anais/mostraescolafiocruzbsb/471505-AQUI-NOS-SOMOS-ASSIM--UMA-LEVANTA-E-PUXA-A-OUTRA--O-APOIO-SOCIAL-COMO-FERRAMENTA-DE-PROMOCAO-DA-SAUDE-EM-UM-GR
file:///C:/Users/Angelica/Downloads/https/www.even3.com.br/anais/mostraescolafiocruzbsb/471505-AQUI-NOS-SOMOS-ASSIM--UMA-LEVANTA-E-PUXA-A-OUTRA--O-APOIO-SOCIAL-COMO-FERRAMENTA-DE-PROMOCAO-DA-SAUDE-EM-UM-GR
 
 25 
ASSIM: UMA LEVANTA E PUXA A OUTRA” – O APOIO SOCIAL COMO FERRAMENTA DE 
PROMOÇÃO DA SAÚDE EM UM GRUPO DE MULHERES COM DEFICIÊNCIA NO 
DISTRITO FEDERAL. 
 
3.4 Violência contra mulheres homossexuais, 
bissexuais e transgêneros 
 
Como já vimos, a violência de gênero é desencadeada pela não aceitação de 
que mulheres não desempenhem papéis que lhes são socialmente designados 
(submissão, cuidado, docilidade, beleza, entre outros). Esses papéis se constroem 
com base na visão heteronormativa e biológica do sexo, ou seja, reconhece como 
“normal” e adequada a mulher que nasce com sexo feminino e se relaciona sexual e 
afetivamente com homens. 
A violência se agrava quando as mulheres têm orientação sexual ou identidade 
de gênero diferentes daquela designada no momento do seu nascimento e imposta 
socialmente. 
Uma pessoa que nasceu biologicamente masculina, mas que se identifica com 
o gênero feminino, ou que nasceu biologicamente feminina, mas se identifica com o 
gênero masculino é chamada de transgênero. 
É importante ressalvar que o respeito à identidade de gênero não 
impõe a necessidade de qualquer intervenção cirúrgica ou hormonal 
para modificação das características físicas desse indivíduo que se 
identifica com gênero diverso a do seu sexo biológico. Basta a sua 
própria identificação para que o respeito a essa escolha tenha que 
acontecer. 
No entanto, não é o ocorre na prática. Nossa sociedade, preconceituosa, 
marcada pelo modelo patriarcal, não aceita que as pessoas, homens e mulheres, 
possam ter escolhas diferentes do padrão heteronormativo, e a reação são atos de 
violência dos mais diversos tipos, sendo os crimes praticados motivados pelo ódio, 
pelo desamor, pela intolerância, pelo desrespeito, sendo as violências mais 
recorrentes as agressões físicas, torturas, injúrias qualificadas, estupros corretivos, 
feminicídios, homicídios, ameaças etc. 
 
 26 
Fazer parte do grupo LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, trans, 
queers, pansexuais, agêneros, pessoas não binárias e intersexo) é causa e fator de 
risco potencializador da violência contra mulheres. 
Veja a seguir a Tabela 1, publicada no Relatório da Pesquisa: Discriminação e 
Violência contra a População LGBTQIA+, pelo Conselho Nacional de Justiça, 2022, 
que aponta os tipos de crimes e a identidade das vítimas: 
 
Tabela 1 - Distribuição em percentual de cada crime sofrido entre as identidades LGBTQIA+ 
das vítimas 
 
Fonte: CNJ, 2022. 
 
Recentemente, a Sexta Turma do STJ estabeleceu que a Lei Maria da Penha 
se aplica aos casos de violência doméstica ou familiar contra mulheres transexuais. 
 
Veja a notícia sobre o julgado, cujo número do processo segue 
em segredo judicial, no site do STJ, através do link: 
https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Notici
as/05042022-Lei-Maria-da-Penha-e-aplicavel-a-violencia-
contra-mulher-trans--decide-Sexta-Turma.aspx 
 
Assim, você estudou que essas são as principais causas e fatores que 
potencializam a violência contra as mulheres, seja no ambiente público ou privado. 
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2022/08/relatorio-pesquisa-discriminacao-e-violencia-contra-lgbtqia.pdf
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2022/08/relatorio-pesquisa-discriminacao-e-violencia-contra-lgbtqia.pdf
https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/05042022-Lei-Maria-da-Penha-e-aplicavel-a-violencia-contra-mulher-trans--decide-Sexta-Turma.aspx
https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/05042022-Lei-Maria-da-Penha-e-aplicavel-a-violencia-contra-mulher-trans--decide-Sexta-Turma.aspx
https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/05042022-Lei-Maria-da-Penha-e-aplicavel-a-violencia-contra-mulher-trans--decide-Sexta-Turma.aspx
 
 27 
No módulo a seguir, você vai prosseguir nos seus estudos, e os fundamentos 
obtidos até momento o ajudará a compreender os tipos da violência e o ciclo da 
violência. 
 
Finalizando 
 
Nesse módulo você aprendeu que: 
• o conceito de gênero, de violência de gênero e suas 
características, com o foco para a violência praticada em desfavor dasmulheres em razão do gênero feminino. Discutimos a complexidade do tema e 
a importância do conhecimento desses conceitos pelos profissionais que irão 
atuar na rede de enfrentamento, principalmente os profissionais de segurança 
pública, 
• que a violência de gênero está enraizada em nossa sociedade, é 
mascarada pela invisibilidade, transpassa gerações e está presente na mente 
de homens e mulheres, indistintamente. Para melhor compreensão do tema, 
você estudou um breve panorama histórico social e a evolução legislativa, no 
que diz respeitos as batalhas travadas no tempo, as conquistas e os direitos 
adquiridos pelas mulheres desde os tempos do Brasil Império até os dias 
atuais; 
• em continuação, você estudou as principais causas e os principais 
fatores risco que potencializam a violência contra as mulheres, seja ela 
praticada nos espaços públicos ou nos ambientes mais íntimos, privados, 
intrafamiliar e/ou doméstico. 
 
 
 
 28 
Módulo 2 - OS TIPOS DE VIOLÊNCIA E O CICLO DA VIOLÊNCIA DE 
GÊNERO 
 
Apresentação do módulo 
 
Neste módulo, você estudará os diversos tipos e as definições de violências 
contra as mulheres, que ocorrem no âmbito privado e público. 
Será abordado que a violência doméstica e familiar não significa apenas a 
violência física, mas se manifesta por diversos outros tipos de violência. 
Por fim, entenderemos que a violência contra as mulheres é um fenômeno 
complexo, estando presente nos tipos de violência as características da invisibilidade, 
transgeracionalidade e autorizativa de privilégios. 
 
Objetivos do módulo 
Este módulo tem por objetivos: 
• Diferenciar os diversos tipos de violência contra as mulheres; 
• definir violência doméstica e familiar contra a mulher e seu âmbito de 
aplicabilidade; 
• reconhecer e identificar a existência do ciclo da violência contra as mulheres; 
• identificar as dependências e outras causas que alimentam e mantém o ciclo 
da violência. 
 
Estrutura do módulo 
1. A violência contra as mulheres 
2. A Lei nº 11.340/2006 - Lei Maria da Penha 
3. Tipos de violência contra a mulher 
3.1 Violência física 
3.2 Violência psicológica 
3.3 Violência sexual 
3.4 Violência patrimonial 
3.5 Violência moral 
 
 29 
3.6 Violência Institucional 
4. O ciclo da violência 
4.1 Fases do ciclo da violência 
4.2 Fatores que contribuem para o ciclo da violência 
 
 
 
 30 
1. A violência contra as mulheres 
 
A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra 
a Mulher prevê em seu artigo 1º que a violência contra a mulher é entendida como: 
“qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que Ihe cause morte, dano 
ou sofrimento físico, sexual ou psicológico a mulher, tanto na esfera pública 
quanto na privada.” 
 
A conceituação legal é ampla e alcança todas as esferas sociais que a mulher 
possa ser vítima, em razão do gênero. A violência contra a mulher independe de sua 
natureza, pode acontecer em vários contextos, tais como no âmbito familiar, na 
comunidade ou perpetrada ou tolerada pelo Estado e seus agentes. 
Além das violências praticadas no âmbito doméstico e familiar, em 
contextos diversas, a violência contra a mulher é suportada, 
silenciada, e, por vezes, tida como “normal” nos ambientes sociais. 
Exemplo são os assédios sexuais, praticados, na grande maioria, no ambiente 
de trabalho, onde a mulher é exposta às mais diversas situações constrangedoras. 
Ainda temos em nosso sistema penal uma penalização branda e a cultura de 
aceitação desse tipo de ato nos ambientes de trabalho. 
É comum piadinhas de cunho sexual, elogios constrangedores e, se há repulsa 
imediata e enérgica da vítima, a mulher ainda é chamada de nervosa, destemperada, 
que não aceita descontração no ambiente de trabalho. 
Outro questionamento que temos a obrigação de fazer nesse curso: Por que 
alguém se sente no direito de tocar uma mulher em partes íntimas ou de roçar o corpo 
contra ela, quando estão em um ônibus, trem ou transporte similar? Por que não há o 
respeito pelo corpo da mulher, pela sua intimidade, individualidade e escolhas, pela 
sua sexualidade? 
Neste tópico, é importante ressalvar a evolução legislativa ao prever a 
importunação sexual como crime, passível de prisão em flagrante, conforme será 
estudado no tópico violência sexual. Antes do advento da Lei nº 13.718/2018, o ato 
era tido como mera contravenção penal, submetido ao rito do Juizado Especial 
Criminal, com penalização mais branda. 
 
 31 
2. A Lei nº 11.340/2006 - Lei Maria da Penha 
 
A Lei nº 11.340/2006, popularmente chamada de Lei Maria da Penha, é o maior 
marco legislativo de combate à violência doméstica e/ou familiar contra a mulher no 
Brasil. 
Em seu artigo art. 5º, esta lei previu a violência doméstica e familiar contra a 
mulher como sendo qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause 
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial, que 
ocorra em uma dessas circunstâncias, individual ou concomitantemente: 
I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de 
convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as 
esporadicamente agregadas. 
 
O espaço doméstico é entendido como residência, ponto focal de identificação 
da violência praticada. Aqui são incluídos todos os tipos de residências, das mais 
simples às mais sofisticadas. Uma barraca pode ser uma residência, no caso de 
pessoas que vivem em situação de rua. 
Também se inclui os esporadicamente agregados, que são as pessoas 
autorizadas a permanecer na casa da família. Exemplo: empregada doméstica que 
dorme da residência e sofre agressão física do patrão. 
II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por 
indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, 
por afinidade ou por vontade expressa; 
 
A identificação da violência ocorre pelo vínculo familiar existente entre a vítima 
e o autor da agressão, seja ele decorrente de algum ato legalmente constituído ou por 
consideração. 
Aqui se incluem os familiares com vínculos consanguíneos (irmãos, pais, tios, 
sobrinhos etc.), afins (cunhados, sogros etc.), por afinidade ou por vontade expressa 
(casamento, união estável). 
III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor 
conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente 
de coabitação. 
Incluem-se todas as relações afetivas que fundamentam um ato de violência 
contra a mulher, independentemente de ter ocorrido durante ou depois do término do 
 
 32 
relacionamento. Também não necessita da convivência sob o mesmo teto entre os 
envolvidos. 
A exemplo, podemos citar os companheiros, ex-companheiros, namorados, ex-
namorados, amantes, ex-amantes e até mesmo “ficantes”, ou seja, pessoas com 
quem se tem envolvimento afetivo ou sexual sem vínculo de compromisso. 
A lei não exige tempo mínimo de relacionamento para reconhecimento da 
relação íntima de afeto. Assim, caberá ao Poder Judiciário fazer a análise de cada 
caso concreto sobre a aplicação da lei, que sempre deverá se pautar nos seus 
princípios norteadores, de proteção da mulher em situação de vulnerabilidade e 
submissão, em razão do gênero. 
Nos dias atuais, não é incomum os relacionamentos afetivos se iniciarem e se 
manterem durante muito tempo e, às vezes, até exclusivamente pela rede mundial de 
computadores. Muitos e diversos são os aplicativos que conectam pessoas por todo 
o mundo. Em caso de violência, ainda que praticado pela internet, a aplicação da Lei 
Maria da Penha também é devida. 
A Lei nº 11.340/2006 ainda ressalva que as relações pessoais enunciadas os 
nessa norma independem de orientação sexual. Assim, a lei protege da mesma forma 
as mulheres heterossexuais, homossexuais, bissexuais, pansexuais etc., 
pertencentes ao grupo LGBTQIA+. 
Reforçando os tratados internacionais ratificadospelo Brasil, o artigo 6º da Lei 
Maria da Penha explicita que esse tipo de violência, contra o grupo LGBTQI+, 
constitui uma das formas de violação dos direitos humanos. 
 
3. Tipos de violência contra a mulher 
 
Agora, vamos nos aprofundar sobre os tipos de violências contra a mulher. 
A Lei Maria da Penha, em seu art. 7º, enumera algumas formas de violência 
doméstica e/ou familiar contra a mulher. 
Contudo, consideremos que a violência de gênero é mais ampla do que a 
violência doméstica e/ou familiar. Assim, há situações em que nos deparamos com 
casos de violência contra a mulher, mas não serão em todos eles que incidirão a Lei 
Maria da Penha. 
 
 33 
PARA REFLETIR! 
 
Veja a lista de filmes que tratam de violência contra a mulher: 
 
➢ https://ibdfam.org.br/index.php/noticias/7590/10+filmes+para+refl
etir+sobre+a+viol%C3%AAncia+contra+a+mulher 
 
➢ https://educacaointegral.org.br/reportagens/16-filmes-para-
debater-os-direitos-das-mulheres/ 
 
Debruçar-nos emos sobre os tipos de violências: 
 
3.1. Violência física 
A violência física ocorre quando há qualquer conduta por parte do autor da 
violência que ofenda a integridade ou a saúde corporal da vítima. 
Esse tipo de violência é de fácil identificação e compreensão por parte da vítima 
ou de terceiros. A mulher consegue se enxergar na condição de vítima, pois são atos 
que, geralmente, deixam marcas, vestígios. 
Exemplos clássicos são os crimes de feminicídio, tortura, lesão corporal e a 
contravenção de vias de fato. Os atos em si se referem a espancamentos, atirar 
objetos, apertões de braços, estrangulamentos, sufocamentos, golpes com objetos 
cortantes ou perfurantes, queimaduras, disparo de armas de fogo etc. 
 
 
 
 
3.2 Violência psicológica 
Figura 5 - Violência psicológica 
https://ibdfam.org.br/index.php/noticias/7590/10+filmes+para+refletir+sobre+a+viol%C3%AAncia+contra+a+mulher
https://ibdfam.org.br/index.php/noticias/7590/10+filmes+para+refletir+sobre+a+viol%C3%AAncia+contra+a+mulher
 
 34 
 
Fonte: Diário do Nordeste, 2020. 
 
A violência psicológica é entendida como qualquer conduta que cause 
dano emocional, que diminua a autoestima ou que prejudique e 
perturbe o pleno desenvolvimento da mulher ou que vise degradar ou 
controlar as ações, os comportamentos, as crenças e decisões, 
mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, 
isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, 
chantagem, violação de sua intimidade, ridicularizarão, exploração e 
limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause 
prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação. 
A violência psicológica estava prevista desde a promulgação da Lei Maria da 
Penha como um tipo de violência que a mulher poderia estar sujeita, na subjugação 
de gênero nas relações domésticas e familiares. 
No entanto, os operadores do direito e demais profissionais que trabalham na 
rede de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres 
comumente encontravam entraves quando se deparam com essa situação, não 
havendo, muitas vezes, consequências penais para os atos de violência psicológica, 
mas apenas de natureza extrapenal. 
Com o a advento da Lei nº 14.188, de 28 de julho de 2021, passou a haver um 
tipo criminal específico para a violência psicológica (art. 147-B do Código Penal), 
sendo facilitado um atendimento ininterrupto em rede, em que a vítima receberá 
acolhimento e lhe serão ofertadas e garantidas, por exemplo, as Medidas Protetivas 
de Urgência. 
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/metro/pesquisa-revela-predominio-de-violencia-psicologica-contra-mulheres-1.2201894
 
 35 
O conceito amplo de violência psicológica compreende também os 
demais tipos penais de ameaça, o constrangimento ilegal, a 
perseguição, outra inovação trazida pela Lei nº 14.132 de 31 de março 
de 2021, todos previstos no Código Penal Brasileiro, e toda e qualquer 
conduta que cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação 
da mulher vítima. 
 
Vamos falar um pouco sobre um tipo específico de violência psicológica: os 
relacionamentos abusivos. 
- Relacionamentos abusivos 
Figura 6 - Relacionamento abusivo 
 
Fonte: Rede Sina, 2018. 
 
Os relacionamentos baseados no sentimento de posse e/ou propriedade do de 
um dos envolvidos na relação sobre o outro, de controle sobre a sua vida. 
Embora tanto o homem quanto mulher possam exercer o papel de abusador na 
relação abusiva, tendo em vista o contexto do presente curso, vamos considerar 
situações em que os homens figurem no papel de abusador. 
 
Os atos exercidos na relação abusiva podem ou não ser configurados 
como ilícito penal, a depender do caso concreto. A exemplo: a 
proibição de falar com os familiares e/ou amigos; proibição de sair de 
casa; proibição da mulher de usar determinadas roupas, por julgá-las 
https://redesina.com.br/vamosfalarsobre-relacionamento-abusivo-por-nikelenwitter/
 
 36 
inadequadas; proibição de usar o aparelho celular; de participar de 
redes sociais; ridicularização perante terceiros; etc... 
 
Nesses exemplos citados, em geral, a mulher não percebe que está sendo 
vítima, pois confunde tais atos com demonstração de carinho, cuidado, proteção, e 
tais atos de controle passam a ser aceitos e justificados. 
A violência é sutil e romantizada, e podemos notar as características de 
invisibilidade, legitimação de privilégios e autorização social do modelo patriarcal de 
sociedade. 
O relacionamento abusivo pode ocorrer desde o início do relacionamento, em 
todas as faixas etárias, inclusive entre adolescentes. 
Quando a vítima, enfim, percebe estar numa situação abusiva, os atos de 
controle aumentam e outros tipos de violência passam a existir. 
- Crime de perseguição ou stalking 
 
Art. 147-A. Perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, 
ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a 
capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando 
sua esfera de liberdade ou privacidade. 
Pena – reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. 
A Lei nº 14.132/2021 tipificou o crime de perseguição ou stalking. A partir de 
então, passou-se a ser consideradas crime condutas que até então não eram. 
Por exemplo, podemos citar a situação em que o ex-companheiro, 
inconformado com o término do relacionamento, passa diversas vezes em frente à 
casa da ex-companheira, para vigiá-la; instala sorrateiramente rastreador no carro 
dela para acompanhar seus horários e trajetos; entra em contato com os amigos 
íntimos da ex-companheira para saber detalhes da vida privada dela. 
Esses comportamentos, muitas vezes, trazem grandes abalos psicológicos à 
mulher. Embora seja uma evidente situação de violência psicológica, até a vigência 
dessa lei, não havia tipo penal específico aplicável às condutas citadas no exemplo 
acima. 
O termo stalking vem do inglês stalk, que significa perseguir. Refere-
se à situação da perseguição incessante, contínua, reiterada, em que 
o autor invade a esfera de privacidade da vítima, causando-lhe medo, 
abalo e restringindo ou tolhindo sua liberdade de locomoção. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art147a
 
 37 
É uma forma de violência psicológica, que, sem dúvida, pode trazer severos 
danos à vítima. 
A perseguição não precisa ser física. Hoje em dia, com a sociedade cada vez 
mais hiperconectada, é possível perseguir alguém também virtualmente, pela internet. 
É muito comum que o crime no ambiente virtual ocorra em contexto de violência 
doméstica e/ou familiar contra a mulher, mas não esteja restrito a ele. Pode acontecer 
também em situações em que autor e vítima não têm qualquer relação íntima ou 
sequer se conheçam pessoalmente. 
Pode-se citar o exemplo cada dia mais comum na atualidade em que pessoas 
criam uma obsessão por alguém que conhece apenas pela internet, e passam apersegui-la virtualmente, enviando e-mails e mensagens nas redes sociais, criando 
perfis fakes para evitar de serem bloqueadas, tentando acompanhá-las em locais 
públicos, dentre outros comportamentos perseguidores. 
Por fim, destacamos que, embora homens e mulheres possam ser vítimas do 
crime de perseguição, o legislador previu uma causa de aumento de pena quando o 
crime for cometido contra mulher por razões de sexo feminino. 
 
- Crime de violência psicológica contra a mulher 
 
Os estudos sobre a violência de gênero tem sido cada vez mais focados para 
as situações de violência psicológica. 
Nesse contexto, recentemente, o legislador trouxe diversas inovações para 
punir situações relacionadas à violência psicológica. 
Assim, a Lei nº 14.132/2021 previu este tipo penal: 
Violência psicológica contra a mulher 
Art. 147-B. Causar dano emocional à mulher que a prejudique e perturbe seu 
pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou a controlar suas ações, 
comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, 
humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização, limitação 
do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause prejuízo à sua saúde 
psicológica e autodeterminação: 
Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa, se a 
conduta não constitui crime mais grave. 
 
Como percebemos, o legislador trouxe um tipo penal abrangente, que protege 
as mulheres contra ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, 
chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir ou quaisquer outras 
condutas que visem controlá-la ou lhe causem danos emocionais e perturbem seu 
pleno desenvolvimento. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del2848.htm#art147b
 
 38 
A doutrina tem lançado questionamentos acerca da constitucionalidade do tipo 
penal, diante de sua abrangência. Também se tem questionado sobre a necessidade 
ou não de laudo pericial que comprove o dano psicológico da vítima. 
Tendo em vista o tipo penal ser ainda muito recente, para os dois 
questionamentos acima, ainda não temos posicionamentos dos tribunais superiores. 
Em todo caso, o que nós, enquanto profissionais de segurança pública, temos 
que considerar é que o legislador está cada vez mais preocupado em trazer proteção 
para mulheres vítimas de violência psicológica. 
Assim, ao atender mulheres que narram situações relacionadas no tipo penal, 
os profissionais de segurança pública devem acolhê-las, assisti-las e tomar todas as 
medidas que estiverem à sua disposição para protegê-las. 
Assista à palestra do Dr. Ben-Hur, Juiz de Direito do Tribunal de 
Justiça do Distrito Federal e dos Territórios sobre violência 
psicológica - https://www.youtube.com/watch?v=qD6N-
F3XFzc&t=145s 
 
3.3 Violência sexual 
A violência sexual compreende qualquer conduta que constranja a mulher a 
presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada, mediante 
intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a 
utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade; que a impeça de usar qualquer método 
contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, 
mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o 
exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos. 
Se busca a ampla proteção da liberdade, intimidade e privacidade da mulher. 
Destaca-se que qualquer ato de natureza sexual praticado contra criança ou 
adolescente menor de 14 anos é considerado estupro de vulnerável, previsto no artigo 
217-A do Código Penal Brasileiro. Nesse caso, o direito à liberdade sexual é 
indisponível e inegociável. 
Ainda, para menores de 18 anos, há proteções penais específicas 
previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, no 
que se refere à produção e divulgação de cenas de pornografia ou 
cenas de sexo que envolva criança ou adolescente (artigos 240 e 241, 
https://www.youtube.com/watch?v=qD6N-F3XFzc&t=145s
https://www.youtube.com/watch?v=qD6N-F3XFzc&t=145s
 
 39 
241-A, 241-B, 241-C, 241-D, 241-E, todos do Estatuto da Criança e 
do Adolescente). 
 
O Código Penal Brasileiro, desde 2005, vem sofrendo inúmeras reformas no 
que diz respeito à proteção à dignidade sexual. 
Alguns crimes que tratavam a mulher de forma discriminatória, como o termo 
“mulher honesta”, sobre o qual já falamos, foram abolidos e substituídos por outros 
que ampliaram sua esfera de proteção. 
Antes desta reforma legal de 2009, tais crimes eram nominados crimes contra 
os costumes. Nos crimes de violar a intimidade sexual de alguém, que podem trazer 
traumas para toda uma vida toda, o bem protegido era o “costume”, ou seja, a maneira 
de agir da sociedade em uma determinada época e não a liberdade e dignidade sexual 
da vítima que fora violada, ferida, desalmada. 
Também foi incluída como violência sexual a gravidez forçada, o matrimônio 
forçado, o aborto forçado. Igualmente, o induzimento ou qualquer tipo de exploração 
sexual, qualquer ato que limite ou anule os direitos à liberdade sexual ou reprodutivos 
(como os casos de esterilizações forçadas). 
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública publicou nota técnica sobre Violência 
Contra as Mulheres em 20218: 
“O ano de 2021 marca a retomada do crescimento de registros de estupros e 
estupros de vulnerável contra meninas e mulheres no Brasil, que 
apresentaram redução após a chegada da pandemia de Covid-19 no país. 
Foram registrados 56.098 boletins de ocorrência de estupros, incluindo 
vulneráveis, apenas do gênero feminino. Isso significa dizer que, no ano 
passado, uma menina ou mulher foi vítima de estupro a cada 10 minutos, 
considerando apenas os casos que chegaram até as autoridades policiais.” 
Nesse cenário, precisamos atuar veementemente na proteção de mulheres, 
meninas e adolescentes vítimas de crimes contra a dignidade sexual, pois o não 
registro de tais crimes, a subnotificação (cifras negras) e a não apuração dos fatos é 
fator que não contribui para a manutenção da ordem atual, não mais aceitável. 
 
Para complementar seus conhecimentos acesse a publicação 
do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: violencia-contra-mulher-
2021-v5.pdf (forumseguranca.org.br) 
 
8 FORUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PUBLICA. Violência contra mulheres em 2021. 2022. 
Disponível em: <violencia-contra-mulher-2021-v5.pdf (forumseguranca.org.br) >. Acesso em: 14, mai. 
2022. 
 
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/03/violencia-contra-mulher-2021-v5.pdf
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/03/violencia-contra-mulher-2021-v5.pdf
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/03/violencia-contra-mulher-2021-v5.pdf
 
 40 
 
3.4 Violência patrimonial 
Figura 7 - Violência patrimonial 
 
Fonte: Jusbrasil, 2019. 
A violência patrimonial é entendida como qualquer conduta que configure 
retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de 
trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, 
incluindo os destinados a satisfazer as necessidades do agressor. 
O dispositivo da lei visa à proteção dos bens patrimoniais das mulheres. 
Engloba os crimes patrimoniais propriamente ditos, tais como furto, apropriação 
indébita, estelionato, dentre outros, previstos no Código Penal Brasileiro. 
Também inclui os atos de dano e destruição de objetos pessoais, que, às vezes, 
não tem valor econômico, mas sentimental. 
 
 
 
- Violência patrimonial contra idosa 
A realidade nos mostra que a mulher idosa, no momento de sua vida em que 
deveria descansar, sendo cuidada pelos familiares e estar cuidando de si mesma, não 
https://leobinoneto.jusbrasil.com.br/noticias/654304892/violencia-patrimonial-contra-a-mulher
 
 41 
raro, com seus parcos rendimentos sustenta toda sua família e é vítima dos mais 
diversos tipos de violência, como ofensas morais, ameaças, agressões físicase a 
apropriação de seu patrimônio. 
Deparamo-nos com muitas situações em que os proventos das idosas são 
utilizados por seus familiares para interesses pessoais, enquanto a idosa é 
negligenciada em seus cuidados básicos. É comum, nesses casos, a vítima proteger 
seus algozes e, por isso, a intervenção necessária é complexa, sendo importante a 
atuação em rede, muito cuidadosa, para se ter sucesso. 
- Estelionato sentimental ou amoroso 
O estelionato sentimental ou amoroso é uma classificação doutrinária de uma 
modalidade de estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal. 
Nessa modalidade, o autor se vale da confiança conquistada em um suposto 
relacionamento amoroso, para obter vantagem econômica, financeira e patrimonial às 
custas da vítima. A vítima acredita estar vivenciando uma história de amor, que não 
é verdadeira. 
No geral o perfil das vítimas são mulheres carentes emocionalmente, que 
transparecem o desejo de ter uma companhia. Os criminosos costumam procurar 
mulheres de meia idade, que têm recursos financeiros, independência e 
disponibilidade afetiva. 
Embora se dê, comumente, em relações pela internet, não é somente nesse 
contexto que esse crime ocorre, podendo haver também em relacionamentos com 
encontros presenciais. 
O resultado, muitas vezes, é devastador, pois a vítima pode ter todo o seu 
patrimônio dilapidado. Quando a vítima não tem patrimônio, ele a convence a fazer 
empréstimos e lhe entregar o dinheiro e desaparece, deixando a dívida com a vítima. 
Durante investigações policiais, já foram descobertas organizações criminosas 
que procuram as vítimas em redes sociais. Essas organizações, muitas vezes, 
praticam esse crime estando fora do Brasil, para dificultar ou impossibilitar as 
investigações no âmbito nacional e a recuperação dos prejuízos causados. 
O autor é sempre muito convincente, conquistador e direciona os atos das 
vítimas para os seus interesses particulares. Uma das artimanhas é criar histórias 
envolventes para justificar os pedidos de dinheiro ou compras com o cartão de crédito 
da vítima. Os depósitos, em geral, são em contas de terceiros ou para o exterior. 
 
 42 
Um sinal de alerta para identificar esse golpe é quando o homem coloca 
dificuldades para realizar videochamadas, sempre inventando uma desculpa. 
A vítima procura ajuda quando já está em uma situação financeira difícil, 
quando perdeu parte ou todo o seu patrimônio ou está com dívidas insolúveis. Diante 
desse cenário, os danos psicológicos são imensuráveis. 
Leia a notícia de estelionato sentimental aplicado por 
organizações criminosas através do link: 
https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2021/04/4919658-
nigerianos-sao-suspeitos-de-aplicar-o-golpe-do-amor-on-line.html 
 
3.5 Violência moral 
A violência moral é entendida como qualquer conduta que configure 
calúnia, difamação ou injúria. 
 
A injúria (artigo 140, caput, do CP) é ofender a honra subjetiva, sendo o 
exemplo clássico as ofensas morais e os xingamentos. 
Calúnia é imputar à vítima fato definido como crime, que se sabe não 
verdadeiro. Exemplo: falar que a mulher furtou um aparelho celular, que ela comete 
maus tratos contra o filho em comum. 
A difamação é ofender a honra objetiva da mulher; é imputar fato ofensivo à 
honra da vítima; desmoralizá-la socialmente, contando a terceiros fatos ofensivos à 
sua reputação. Exemplo: divulgar nas redes sociais que a mulher não cuida direito 
dos filhos e que teve um amante durante um casamento. Não interessa se o fato é 
verdadeiro ou não, a intenção é a desmoralização social. 
 
3.6. Violência institucional 
Infelizmente, a mulher, a menina, a adolescente e a idosa, além de serem 
vítimas dos mais diversos crimes, seja no ambiente privado ou público, quando 
procuram ajuda nos órgãos públicos que deveriam assisti-la, não encontram o 
atendimento devido. 
O atendimento a ser realizado precisa ser feito com acolhimento, sem 
preconceito, proporcionando conforto e o mínimo dano, pois, quando a vítima procura 
https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2021/04/4919658-nigerianos-sao-suspeitos-de-aplicar-o-golpe-do-amor-on-line.html
https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2021/04/4919658-nigerianos-sao-suspeitos-de-aplicar-o-golpe-do-amor-on-line.html
 
 43 
a rede de enfrentamento para pedir ajuda, ela terá que contar a história que vivenciou, 
que nunca gostaria que tivesse ocorrido, ou seja, o acolhimento deve buscar ao 
máximo evitar a revitimização. 
Os profissionais de segurança pública, da rede de enfrentamento e que atuam 
no sistema de justiça, como um todo, necessitam de capacitação constante para 
compreender o fenômeno e a complexidade da violência de gênero e estarem 
preparados para, de fato, realizar uma oitiva empática, sem julgamentos e estarem 
predispostos para essa função de ajudar a mulher a romper o ciclo da violência. 
A capacitação e a adoção de protocolos de atendimento são muito importantes, 
pois traz a uniformidade de atendimento em determinadas circunstâncias e segurança 
para o profissional, fluidez e eficiência ao trabalho. 
Pode-se citar o caso midiático da jovem Mariana Ferrer, vítima de possível 
estupro, a qual foi humilhada, durante audiência de instrução e julgamento pelo 
advogado de defesa, sem que houvesse qualquer interferência do Ministério Público 
ou do Poder Judiciário para resguardá-la. 
Nesse cenário, foi promulgada a Lei nº 14.245/2021, criada para coibir a prática 
de atos atentatórios à dignidade da vítima e de testemunhas. Referido dispositivo legal 
alterou o Código de Processo Penal, que passou a proibir durante audiências 
questionamentos e manifestações sobre circunstâncias ou elementos alheios aos 
fatos objeto de apuração no processo e a utilização de linguagem, de informações ou 
de material que ofendam a dignidade da vítima ou de testemunhas. 
Para ampliar seus conhecimentos, estude a Lei nº 14.245/2021 
através do link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-
2022/2021/lei/L14245.htm 
 
Com vistas à coibição da violência institucional, o legislador, ainda, previu o 
crime específico de violência institucional na Lei de Abuso de Autoridade. 
Violência Institucional 
Art. 15-A. Submeter a vítima de infração penal ou a testemunha de crimes 
violentos a procedimentos desnecessários, repetitivos ou invasivos, que a 
leve a reviver, sem estrita necessidade: 
I - a situação de violência; ou 
II - outras situações potencialmente geradoras de sofrimento ou 
estigmatização: 
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. 
§ 1º Se o agente público permitir que terceiro intimide a vítima de crimes 
violentos, gerando indevida revitimização, aplica-se a pena aumentada de 2/3 
(dois terços). 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/L14245.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/L14245.htm
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Lei/L13869.htm#art15a
 
 44 
§ 2º Se o agente público intimidar a vítima de crimes violentos, gerando 
indevida revitimização, aplica-se a pena em dobro. 
 
4. O ciclo da violência 
 
4.1 Fases do ciclo da violência 
São consideradas fases do ciclo da violência, conforme pode ser observada na 
Figura 8: Fase 1: Evolução de tensão; Fase 2: Explosão (incidente de agressão) e 
Fase 3: Lua de mel (comportamento gentil e amoroso). 
 
Figura 8 - Fases do ciclo da violência 
 
Fonte: Ministério Público de São Paulo, 2022. 
 
 
 
 
Fase 1 – Evolução da Tensão 
A primeira fase é marcada pelo aumento da tensão, quando acontece a 
mudança de comportamento do autor da agressão. 
 
 45 
Ocorre a transformação daquele homem que a mulher escolheu para ser seu 
companheiro para a vida. Antes carinhoso, atencioso e prestativo, ele passa a ser 
crítico, controlador e apresentar atos de violência, ainda que implícitos. 
É nesse momento que se iniciam as agressões invisíveis, dedifícil 
identificação, pois não deixam vestígios. Cita-se como exemplos, quando a mulher é 
extremamente controlada pelo seu namorado, que não a deixa ir sozinha à academia, 
ter vida social com amigos, participar de redes sociais; usar determinadas roupas por 
julgá-las inadequadas. 
Muitas vezes o autor justifica seus atos de “controle” como cuidado, zelo, amor, 
mas, na verdade, é o início de uma vida sem liberdade, de desrespeito, que culminará 
em atos mais gravosos no futuro. 
É nessa fase que surgem as violências psicológicas e morais, em que as 
mulheres suportam humilhações das mais diversas ordens, que diminuem sua 
autoestima e as fazem adoecer. 
 
Fase 2 – Explosão 
É o momento mais extremo do ciclo. Na fase de explosão o autor pratica atos 
que se tornam insuportáveis para vítima, que a farão buscar ajuda na rede de apoio. 
Esse ato pode ser uma agressão física ou sexual ou outro ato de violência que 
se torne insuportável para a mulher, que a faça pedir socorro aos amigos, familiares 
ou à polícia, para o registro da ocorrência policial ou outro órgão vinculado à Rede de 
Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. 
Nessa fase, a vítima toma a decisão de não querer mais viver naquele 
relacionamento; pois quer viver sem violência. Está certa de que esse é o caminho e 
toma uma atitude no sentido de tentar mudar a sua realidade. 
 
Fase 3 – Lua de Mel 
Na fase conhecida como Lua de Mel, a mulher vítima está decidida e se 
movimentando para mudar a realidade, que, muitas vezes, significa tirar o agressor 
de sua vida. 
O abusador, então, passa a demonstrar arrependimento pelos atos praticados, 
por mais violentos e devastadores que tenham sido. Passa a apresentar o 
comportamento conquistador do início do relacionamento, de docilidade e 
 
 46 
amorosidade; compra presentes; faz promessas de mudanças, que, provavelmente 
nunca vão ocorrer se não houver um investimento verdadeiro nesse sentido. 
A mulher revive os momentos de alegria com o abusador e acredita que ele irá 
mudar. 
Especialistas também chamam esse ciclo de “calmaria” e, por vezes, é nessa 
fase que podem ocorrer as renúncias junto ao Poder Judiciário das representações 
criminais já oferecidas anteriormente. 
No entanto, algum tempo depois, por não ter ocorrido mudança e intervenção 
substancial naquela relação, os atos de violência se repetem, saindo da lua de mel e 
voltando para a fase de tensão, em um movimento cíclico. 
Por isso, é comum, nas delegacias de polícia, ser verificado o registro de várias 
ocorrências policiais envolvendo as mesmas partes, no mesmo contexto de violência. 
Nesse ponto, é importante lembrar que a renúncia formal somente pode ser 
convalidada na Justiça (artigo 16 da Lei nº 11.340/2006). 
Assim, a partir da compreensão desses fenômenos, é tão importante a 
capacitação de todos os profissionais que atuam na Rede de Enfrentamento de 
Violência Doméstica e Familiar contra as Mulheres, para se evitar o pré-julgamento 
da mulher nessas condições e não a revitimizar. Deve-se saber ouvi-la com empatia 
e ajudá-la naquilo que estiver ao alcance dos profissionais de segurança pública. 
 
4.2. Fatores que contribuem para o ciclo da violência 
 
A mulher, diante do contexto social, cultural e histórico já estudado, ainda tem 
dificuldade de compreender que é detentora de direitos individuais, de lidar com a sua 
liberdade, lutar por ela, se enxergar como um alguém que tem direitos iguais e pode 
exercê-los nessa igualdade. 
Os direitos individuais são estabelecidos constitucionalmente, podendo e 
devendo ser exigido o seu cumprimento, no entanto, verifica-se que a 
transgeracionalidade imperativa do masculino sobre o feminino dificulta a 
concretização deles. 
As dependências da mulher com relação ao homem são situações de 
aprisionamento que dificultam a compreensão e são fatores impeditivos para que a 
mulher saia do ciclo da violência. 
 
 47 
Os fatores a seguir apresentados podem ser a motivação única ou conjugada 
com vários outros para justificar ou impedir o rompimento do ciclo. 
 
- Dependência emocional: fator psicológico que gera vínculo de dependência 
e necessidade da presença do autor da agressão. A mulher se sente culpada pelas 
ações agressivas do autor. Ela inverte os papéis e se responsabiliza pelas ações do 
outro. 
Exemplos: 
1. A mulher apanhou do marido, mas ela não tinha feito a comida no horário 
certo, não tinha limpado a casa. Era o papel de esposa fazer. A vítima justifica a 
agressão, por não ter feito as tarefas domésticas. 
2. O agressor chega em casa embriagado, agressivo, xinga e empurra a 
mulher. A vítima justifica “Eu provoquei também, briguei com ele, questionei por que 
ele chegou tarde em casa. Quando ele não ingere bebidas alcoólicas, é uma pessoa 
maravilhosa.” A mulher vítima aceita essa justificativa, interioriza e se culpabiliza pela 
violência. 
Muitas mulheres têm dificuldade de recomeçar, de interromper um ciclo e iniciar 
outro. O agressor tem domínio sobre as ações da mulher, desde as mais simples até 
as mais complexas. Muitas têm dificuldades de escolher o próprio caminho, pois, 
talvez, nunca tenham feito isso, e a busca pela liberdade é algo que precisa ser 
superada, se necessário, com ajuda de profissionais capacitados. 
Para ajudar a vítima a resolver questões que envolvam a dependência 
emocional, é importante a articulação e a disponibilização de serviços de psicologia e 
assistência social na Rede de Enfrentamento. 
- Dependência econômica: Muitas mulheres não têm autonomia financeira e 
condições materiais mínimas para viver sozinha e/ou com seus filhos, e 
consequentemente, dependem financeiramente do parceiro. Esse fato dificulta que a 
mulher saia do ciclo da violência. 
A ausência de profissionalização para o mercado de trabalho potencializa a 
dependência econômica. A mulher, muitas vezes, foi preparada apenas para cuidar 
da casa e dos filhos e fez isso a vida toda. 
 
Figura 9 - Dependência econômica 
 
 48 
 
Fonte: Dimitri Soares, 2014. 
- Falta de rede de apoio: o distanciamento da família e dos amigos faz com a 
mulher não se sinta segura para sair de um relacionamento por falta de apoio e acaba 
se tornando prisioneira do relacionamento abusivo. 
- Filhos menores e/ou adolescentes: não podemos ignorar que o autor da 
agressão é, muitas das vezes, o pai dos filhos da vítima. Pode ser muito difícil para 
ela romper a relação violenta, pois ela não tem condições de educar os filhos sozinha, 
por falta de condições emocionais, financeiras, rede de apoio, tempo para todas as 
tarefas diárias. 
- Baixa autoestima: dificuldade de se ver como uma pessoa que mereça ser 
amada e que tem valor. Ela está intimamente relacionado com a dependência 
emocional, sendo, em muitos casos, resultado de uma relação violenta marcada pela 
violência psicológica. 
- Medo do novo: medo de encarar uma vida nova é um dos obstáculos que 
precisa ser vencido para a mulher retomar sua identidade e se reencontrar com sua 
essência. É uma das facetas da dependência emocional, que precisa ser trabalhada 
internamente. 
Além dos principais fatores citados, muitos outros justificam e mantêm as 
mulheres vítimas aprisionadas no ciclo da violência. Romper o ciclo não significa que 
todas as mulheres devam se separar de seus parceiros, mas que o respeito deve ser 
exigido e cultivado nas relações afetivas e em qualquer relação familiar, seja qual a 
for a orientação sexual. Lembramos que, quando uma mulher sofre violência 
doméstica, seus filhos também sofrem. Todos sofrem. 
http://www.dimitresoares.com.br/2014/09/violencia-patrimonial-contra-mulher.html
 
 49 
É importante lembrar que é responsabilidade de TODOS o enfrentamento da 
violência doméstica e familiar contra a mulher, pois a Lei Maria da Penha, em seu 
artigo 3º, §2º, assim dispõe: “Cabe à família, à sociedade e ao poder público criaras 
condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos enunciados no caput.” 
E os direitos enunciados: 
“Serão asseguradas às mulheres as condições para o exercício efetivo 
dos direitos à vida, à segurança, à saúde, à alimentação, à educação, 
à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao lazer, ao 
trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à 
convivência familiar e comunitária.” 
Todos esses direitos juntos, se respeitados, significam uma vida sem violência. 
 
Finalizando 
 
Neste módulo, você aprendeu que: 
• a violência contra as mulheres é um tema complexo e, em defesa 
dos direitos das mulheres, houve uma evolução legislativa para proteção deles. 
Neste tópico você estudou uma breve apresentação da Lei Maria da Penha, 
principal instrumento legal de proteção às mulheres, meninas, adolescentes em 
situação de violência doméstica e familiar, e as hipóteses de sua aplicação. 
• em continuidade, você aprendeu os tipos de violência previstos 
no artigo 7º da Lei nº 11.340/2006, com a ressalva de que os conceitos 
apresentados na referida lei também são utilizados para a compreensão das 
demais infrações penais e violências praticadas em circunstâncias em que não 
é aplicada a Lei Maria da Penha. Você também estudou, em destaque, as 
recentes previsões legais dos crimes de perseguição, violência psicológica e 
institucional. 
• foi abordado que o ciclo da violência é um fenômeno complexo, 
composto por três fases distintas, e que a mulher vítima pode permanecer 
aprisionada em um relacionamento abusivo por muitos anos. Além disso, 
existem fatores, e que existem fatores que individualmente ou 
concomitantemente contribuem para a permanência da vítima nesse ciclo. 
• por fim, estudou que a violência contra as mulheres é uma 
violação dos direitos humanos e que é responsabilidade de todos participar do 
 
 50 
enfrentamento da violência contra às mulheres, meninas, adolescentes e 
idosas. 
 
 
 
 51 
Módulo 3 - VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A 
MULHER E OS MECANISMOS DE PROTEÇÃO 
 
Apresentação do módulo 
Agora que você já estudou sobre o que é gênero e em que consiste a violência 
de gênero, além de ter sido apresentado à Lei nº 11.340/2006 – Lei Maria da Penha, 
vamos nos aprofundar um pouco sobre um poderoso mecanismo de proteção às 
mulheres vítimas de violência doméstica e familiar: as medidas protetivas de urgência. 
Esse instrumento de proteção foi uma importante inovação em nosso 
ordenamento jurídico. Mas, para que ele, de fato, proteja a vítima em 
sua plenitude, é importante que os agentes que trabalham na rede de 
atendimento à violência, conheçam em profundidade as medidas 
protetivas de urgência e utilizem todas as possibilidades da 
decretação delas. 
 
Objetivos do módulo 
Este módulo tem por objetivos, no que refere às medidas protetivas de 
urgência: 
• Apresentar as previsões legais trazidas pela Lei Maria da Penha; 
• Aprofundar o estudo com considerações críticas e da prática 
cotidiana no que toca às medidas protetivas de urgência; 
• Informar sobre as inovações legais, a fim de que se tenha maior 
efetividade e eficiência, tais como o Formulário Nacional de Avaliação de Risco, 
o Banco Nacional de Medidas Protetivas de Urgência, dentre outros; 
• Analisar as possibilidades jurídicas decorrentes do 
descumprimento, para se ter maior efetividade na adoção das providências 
cabíveis. 
 
 
 
 
 
 52 
Estrutura do módulo 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 - Medidas Protetivas de Urgência; 
Aula 2 - Necessidade da devida informação à vítima; 
Aula 3 - Do Formulário Nacional de Avaliação de Risco; 
Aula 4 - Da possibilidade de afastamento do lar do agressor pela Autoridade 
Policial; 
Aula 5 - Do Banco Nacional de Medidas Protetivas de Urgência; 
Aula 6 - Consequências do descumprimento de medida protetiva de urgência. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 53 
1. Medidas Protetivas de Urgência 
 
Como vimos no curso, a Lei Maria da Penha não se aplica para todos os casos 
de violência de gênero. Para os que se aplica, ela traz um instrumento poderoso de 
proteção: as Medidas Protetivas de Urgência. 
Essa lei traz um rol de medidas que podem ser decretadas, em regra, pelo juiz 
a pedido da mulher, por intermédio do delegado de polícia, por meio de requerimento 
do Ministério Público. 
Desde 2019, existe a possibilidade legal de, na ausência de juiz na comarca, a 
autoridade determinar o afastamento do agressor do lar, como veremos em mais 
detalhes ainda neste módulo. 
O afastamento do agressor do lar visa garantir maior efetividade à lei e proteger 
a mulher em situação de violência, resguardando sua integridade física e psicológica, 
além de proteger seus bens. 
A fim de conferir uma proteção plena à vítima, é possível, inclusive, que seus 
familiares e testemunhas também sejam abrangidos pelas medidas protetivas. 
Além disso, diante da urgência para que a mulher tenha um 
instrumento jurídico de proteção, a lei impõe que o requerimento de 
medida protetiva seja encaminhado ao Poder Judiciário no prazo 
máximo de 48 horas (conforme inciso Il do artigo 12 da Lei Maria da 
Penha). 
Esse prazo é impositivo (48h) e deve ser fielmente observado. 
Tendo em vista as peculiaridades do Brasil sabe-se que nem todos os 
municípios são sede de Comarca ou que, fora do horário ordinário de expediente 
forense, o juiz de plantão é sediado em municípios distantes. 
Nesses casos, deve-se dar especial atenção para que o prazo legal não seja 
extrapolado. 
Hoje em dia, com a expansão dos processos judiciais eletrônicos, muitos juízes 
ou plantões judiciários já recebem o requerimento de medidas protetivas 
eletronicamente, o que é um grande facilitador para a celeridade da tramitação e 
contribui para a maior eficiência do sistema de proteção às mulheres. 
E, mesmos nas Comarcas onde os processos ainda não tramitam 
eletronicamente com sistema próprio, pode ser feito o ajuste direto entre as 
Delegacias de Polícia e os Juízos, para que seja disponibilizado meio eletrônico 
 
 54 
idôneo, tal como e-mail institucional, e os requerimento de medidas protetivas sejam 
encaminhados digitalmente, sem ser necessário o deslocamento físico dos policiais 
para tanto. 
 
1.1 Em relação ao agressor 
 
O juiz pode aplicar ao agressor as medidas protetivas de urgência, conforme o 
disposto no art. 22 da Lei, que traz um rol exemplificativo. 
Convém nos aprofundarmos em alguns desses pedidos: 
Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra 
a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao 
agressor, em conjunto ou separadamente, as seguintes medidas 
protetivas de urgência, entre outras: 
I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com 
comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei nº 10.826, de 
22 de dezembro de 2003; 
Quando do atendimento, o policial deve sempre ficar muito atento: assim que 
se deparar com situações em que o ofensor possui acesso legal à arma de fogo. 
Devemos lembrar que os atos de violência doméstica têm uma progressão em 
suas formas, o que é potenciado, muitas vezes, pelo uso abusivo de álcool e drogas. 
Um contexto que se inicia com atos de violência moral pode, em pouco tempo, passar 
para violência física e chegar a um feminicídio. 
Por isso, mesmo nas situações concretas em que não se vislumbra um risco 
imediato à vida da vítima, deve ser considerado que, em pouco tempo, aquela situação 
pode se agravar e o acesso à arma de fogo facilita que tragédias aconteçam. 
Nos casos em que o agressor, em razão de seu ofício (profissionais de 
segurança pública, integrantes das Forças Armadas, dentre outros) ou por motivos 
particulares, tem acesso a armas de fogo é importante que a vítima seja informada 
sobre a possibilidade de ela requerer a suspensão da posse ou restrição do porte, nos 
termosdo item I do art. 22. 
Lembramos que a legislação prevê várias hipóteses para que 
particulares tenham acesso legal à arma de fogo, como é o caso dos 
Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CAC) ou dos cidadãos em 
geral, para a mera posse da arma (Lei nº 10.826/2003). 
Assim, quando do atendimento à vítima, ela sempre deve ser questionada se o 
ofensor tem acesso à arma de fogo e, caso positivo, ser orientada sobre a 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2003/L10.826.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2003/L10.826.htm
 
 55 
possibilidade prevista no inciso II: afastamento do lar, domicílio ou local de convivência 
com a ofendida. 
Considere-se que, para ser decidido pelo afastamento do agressor, de seu lar 
verifica-se apenas se tal medida é necessária para fazer cessar os atos de violência 
contra a mulher, vulnerável naquela relação. 
Assim, mesmo que o imóvel onde o casal resida seja de propriedade exclusiva 
do agressor ou de terceira pessoa, ainda assim, pode ser determinado o afastamento 
do agressor. 
Esse afastamento, contudo, tem natureza cautelar e, como tal, é provisório e 
não faz com que o agressor perca eventuais direitos cíveis sobre o imóvel. 
Assim, no caso de vítima e agressor serem casados ou viver em união estável, 
a vítima deve ser orientada a procurar advogado ou a Defensoria Pública, para tomar 
as medidas necessárias, com base no Direito de Família. 
III - proibição de determinadas condutas, entre as quais: 
a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, 
fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; 
b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer 
meio de comunicação; 
c) frequentação de determinados lugares a fim de preservar a 
integridade física e psicológica da ofendida; 
 
A prática nos mostra que as medidas previstas nesse inciso são as mais 
comuns de serem deferidas. 
Destaca-se que as proibições em questão abrangem não apenas a vítima, mas 
também seus familiares e testemunhas dos atos de violência, para que a proteção à 
vítima seja realmente efetiva. 
Em relação à proibição de contato, ela inclui também os meios digitais, como 
mensagens por redes sociais, e-mails ou quaisquer outros meios. 
A proibição delineada no item “c” se aplica, por exemplo, às situações em que 
a vítima e o agressor frequentem, ordinariamente, algum lugar em comum, como 
clubes, Igrejas, faculdade. Assim, nesses casos, é importante que, no requerimento, 
seja especificado o lugar (nome e endereço) que se pretende que o agressor seja 
proibido de frequentar. 
 
IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a 
equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar; 
V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios. 
 
 
 
 56 
O inciso IV visa preservar a vida e integridade física e psicológica tanto dos 
dependentes menores, quanto da vítima, quando elas estão colocadas em risco pelas 
visitas do agressor. 
De modo similar, o inciso V visa dar amparo material à vítima de violência 
doméstica, em especial quando existe a situação de dependência econômica. 
Contudo, por tais medidas terem natureza cautelar e provisória, a vítima deve 
ser orientada a procurar advogado ou a Defensoria Pública, para tomar as medidas 
cíveis necessárias quanto à guarda dos filhos, pensão alimentícia e demais direitos 
cíveis, conforme o caso. 
VI – comparecimento do agressor a programas de recuperação e 
reeducação; 
VII – acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento 
individual e/ou em grupo de apoio. 
 
Essas hipóteses visam conscientizar o agressor acerca violência doméstica e, 
a partir disso, diminuir a reincidência e romper com o ciclo de violência. 
Contudo, sabemos que, na prática, existem poucos programas à disposição 
que oferecem esse atendimento. 
Nesse sentido, destacamos a importância de iniciativas do próprio Poder 
Judiciário, Ministério Público, Defensorias Públicas, outros órgãos público e da própria 
sociedade civil organizada, na criação de grupos reflexivos para autores de violência 
doméstica. 
 
1.2 Em relação à mulher e a seu patrimônio 
 
Em relação à mulher, o juiz poderá, segundo o art. 23 da Lei: 
 
I - encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou 
comunitário de proteção ou de atendimento; 
II - determinar a recondução da ofendida e a de seus dependentes ao 
respectivo domicílio, após afastamento do agressor; 
III - determinar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo dos 
direitos relativos a bens, guarda dos filhos e alimentos; 
IV - determinar a separação de corpos. 
V - determinar a matrícula dos dependentes da ofendida em instituição 
de educação básica mais próxima do seu domicílio, ou a transferência 
deles para essa instituição, independentemente da existência de vaga. 
 
Destacamos que a vítima de violência doméstica que, para se proteger, deixa 
o lar conjugal não pode sofrer qualquer prejuízo tipo de prejuízo, no que toca a seus 
direitos cíveis. 
 
 57 
Para a proteção patrimonial da vítima, tenham sido eles adquiridos na 
constância na sociedade conjugal ou particulares da ofendida, a Lei nº 11.340/2006 
também prevê a possibilidade de se requerer algumas medidas: 
 
I - restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor à 
ofendida; 
II - proibição temporária para a celebração de atos e contratos 
de compra, venda e locação de propriedade em comum, salvo 
expressa autorização judicial; 
III - suspensão das procurações conferidas pela ofendida ao 
agressor; 
IV - prestação de caução provisória, mediante depósito judicial, 
por perdas e danos materiais decorrentes da prática de violência 
doméstica e familiar contra a ofendida. 
 
1.3 Outras Medidas Protetivas possíveis 
 
Deve-se destacar que o rol de medidas trazidas pela Lei Maria da Penha não é 
taxativo, mas exemplificativo. Ou seja, não existe restrição aos representantes legais 
ou do próprio Ministério Público em solicitar e nem mesmo ao juiz em conceder 
somente as medidas elencadas na lei. 
A partir de avaliações, pode-se adotar outras medidas como forma de 
assegurar a eficiência daquelas previstas expressamente pelo legislador. 
Nesse sentido, destacamos o projeto VIVA FLOR, programa da 
Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal em parceria com 
outros órgãos, que consiste em um sistema de segurança preventiva 
para mulheres que estejam em risco extremo. 
As mulheres abrangidas no programa recebem um dispositivo eletrônico, 
similar a um smartphone, que lhe possibilita fazer ligações para números pré-
cadastrados, enviar mensagens de texto prontas, gravar imagens, vídeos e som 
ambiente, que podem ser usados como prova em juízo. 
Em situações de emergência, com apenas um clique, a vítima aciona a Polícia 
Militar e é atendida com absoluta prioridade, tendo sua localização rastreada em 
tempo real. 
 
 
 
 58 
2. Necessidade da devida informação à vítima 
 
Como se viu, a Lei nº 11.340/2006 traz um rol extenso de medidas 
que podem ser decretadas, liminarmente, para proteção das mulheres 
em situação de violência doméstica e/ou familiar. 
Contudo, de nada adianta a Lei conferir tantas formas de proteções à vítima, 
se ela não tiver conhecimento de cada um desses direitos. 
Por isso, é muito importante que o policial, ao atender a vítima, lhe explique em 
que consiste a medida protetiva, para que serve cada uma dessas proteções, para 
que, assim, a vítima tenha condições de saber quais dessas medidas tem interesse 
em requerer ao Juízo. 
Reforço que é a própria vítima que faz o requerimento de medida protetiva de 
urgência e não a Autoridade Policial, que apenas encaminha o termo ao juízo. Assim, 
é a vítima que deve ser devidamente esclarecida durante seu atendimento sobre as 
várias possibilidades de proteção, para que ela tenha condições de decidir quais 
pedidos ela tem interesse. 
Nesse atendimento,a vítima deve ser orientada também, especialmente, sobre 
como proceder caso haja o descumprimento da medida protetiva ou como ela deverá 
proceder caso ela já não mais tenha interesse na proteção. 
Na prática policial, é muito comum nos depararmos com situações de mulheres 
que dizem que “as medidas protetivas não servem para nada”, pois sabem de 
situações em que houve o seu descumprimento e, segundo elas, “nada aconteceu”. 
O que ocorre é que, em muitos casos, quando há o descumprimento da medida 
protetiva, a ofendida não comunica essa situação à polícia. E, muitas vezes, isso se 
dá por desinformação. 
Assim, sempre que a vítima requerer a medida protetiva de urgência, ela deve 
ser devidamente orientada a, caso ela seja decretada e descumprida, procurar a 
Polícia para comunicar esse fato, para que as providências possam ser tomadas pela 
Autoridade Policial de modo a resguardar a efetiva segurança dessa mulher. 
Por fim, a vítima também deve ser esclarecida sobre o que deve fazer, caso já 
não mais tenha interesse na proteção conferida pela medida protetiva vigente. 
Em razão do ciclo da violência, é comum a vítima se reconciliar com o agressor 
e voltarem a morar juntos. Nesses casos, não faz sentido estar vigente, por exemplo, 
 
 59 
uma decisão judicial que determine que o autor não se aproxime fisicamente da 
ofendida ou que não mantenha qualquer tipo de contato com ela. 
E, ainda, essas situações contribuem para que, na percepção dos envolvidos, 
a medida protetiva “não sirva para nada”. 
Por isso, a vítima também deve ser cuidadosamente orientada em seu 
atendimento sobre o ciclo da violência e que, mesmo assim, caso, por alguma 
circunstância ela não tenha mais interesse na proteção, ela deve procurar o Poder 
Judiciário e pedir a revogação das medidas. E, ainda, que, caso ela volte a sofrer 
qualquer violência, ela poderá procurar novamente a Polícia e formular novo pedido 
de medida protetiva de urgência. 
 
3. Do Formulário Nacional de Avaliação de Risco 
 
Para decidir acerca do requerimento de Medidas Protetivas de Urgência, o Juiz 
considera as provas que já tenham sido produzidas. 
Assim, como esse requerimento, em regra, é feito no primeiro atendimento à 
vítima, não é raro que a única prova que se tenha, naquele momento, sejam as 
declarações da ofendida. 
Assim, para que o julgador tenha maiores elementos para verificar a 
gravidade da situação de risco dessa vítima, em 2020, o Conselho 
Nacional de Justiça e o Conselho Nacional do Ministério Público 
instituíram o Formulário Nacional de Avaliação de Risco, o qual se 
tornou de aplicação obrigatória em 05.05.2021, com a Lei Federal nº 
14.149. 
O Formulário visa colher maiores detalhes acerca das situações de violência, 
de circunstâncias que a potencializem e de indícios de maior vulnerabilidade da vítima, 
a fim de subsidiar a atuação dos órgãos de segurança pública, do Ministério Público, 
do Poder Judiciário e da rede de proteção para gerenciar o risco do aumento das 
agressões. 
Ele é composto de duas partes. A primeira parte possui 27 perguntas objetivas, 
que deve ser preenchido pela vítima, e a segunda parte, de natureza subjetiva, deve 
ser preenchido por profissional capacitado. 
O Formulário deve ser aplicado pela Polícia Civil, no momento do registro da 
Ocorrência. 
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2020/03/Resolu%C3%A7%C3%A3o-Conjunta-n%C2%BA-5-2020-CNJ-CNMP.pdf
 
 60 
Clique aqui para acessar o Formulário e a Resolução Conjunta nº 5 
do CNJ: 
https://atos.cnj.jus.br/files/original215815202003045e6024773b7dc.pdf 
 
4. Da possibilidade de afastamento do agressor do lar pela 
Autoridade Policial 
 
Em 13 de maio de 2019, foi incluído o art. 12-C à Lei Maria da Penha que 
possibilitou o imediato afastamento do agressor do lar, domicílio ou local de 
convivência com a ofendida por outras autoridades, que não apenas a judicial. 
Isso se dá quando houver risco atual ou iminente à vida ou à integridade física 
ou psicológica da mulher em situação de violência doméstica e familiar, ou de seus 
dependentes, e o local não for sede de comarca. 
Nesse caso, a atribuição para determinar o afastamento será do Delegado de 
Polícia. Caso também não haja Delegado disponível, qualquer policial poderá fazê-lo. 
Na hipótese abordada, o Juiz deverá ser comunicado em 24 horas sobre o 
afastamento do agressor e decidirá sobre a manutenção ou revogação da medida. 
O Supremo Tribunal Federal, em decisão unânime, na Ação Direta de 
Inconstitucionalidade nº 6138, de 23.03.2022, decidiu pela constitucionalidade dessa 
previsão legal. 
Segundo dados consolidados pelo Conselho Nacional de Justiça, 
desde a vigência da lei (maio de 2019) até abril de 2022, em todo o 
Brasil, houve a homologação pelo Poder Judiciário de 434 
afastamentos dos agressores de seus lares determinados por 
Autoridade Policial. 
 
5. Do Banco Nacional de Medidas Protetivas de Urgência 
 
Uma das dificuldades que os profissionais de segurança pública se deparam é 
no tocante à verificação da vigência ou não de medidas protetivas de urgência em 
favor da vítima. 
É de grande importância que os profissionais de segurança pública tenham fácil 
e rápido acesso a essa informação, até mesmo porque ela é imprescindível para que 
https://atos.cnj.jus.br/files/original215815202003045e6024773b7dc.pdf
 
 61 
decisões urgentes sejam tomadas, como, por exemplo, a prisão em flagrante do 
ofensor, a representação por sua prisão preventiva ou por outra medida cautelar. 
Para resolver essa questão, o art. 38-A da Lei Maria da Penha previu o registro 
das medidas protetivas em banco de dados. 
Assim, o Conselho Nacional de Justiça instituiu o Banco Nacional de Medidas 
Penais e Prisões (BNMP 3.0), que consiste em um sistema eletrônico de consulta 
pública, em que, dentre outros documentos, serão cadastrados mandados de medidas 
protetivas e de revogação. 
O BNMP 3.0 está ainda em fase de implantação e será essencial para fins de 
fiscalização, acompanhamento e efetividade pelos órgãos de segurança pública e da 
rede de proteção. 
Ainda sobre a temática, destacamos o Painel de Monitoramento das Medidas 
Protetivas de Urgência, criado pelo Conselho Nacional de Justiça, que apresenta 
dados estatísticos referentes às decisões de medidas protetivas de todo o Brasil, por 
cada Tribunal. 
Tais dados são importantes para analisarmos a realidade social de cada 
unidade da federação e planejarmos políticas públicas de combate à violência 
doméstica. 
Acesse o Painel de Monitoramento das Medidas Protetivas de 
Urgência, do Conselho Nacional de Justiça - https://medida-
protetiva.cnj.jus.br/s/violencia-domestica/app/dashboards#/view/5ff5ddea-
55e6-42a6-83fa-710d40507c3f?_g=h@2463b39 
Leia a Resolução nº 417 de 20/09/2021, do Conselho Nacional de 
Justiça, que instituiu o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões 
(BNMP 3.0): 
https://atos.cnj.jus.br/files/original15570020210921614a00ccb7cfb.pdf 
 
 
6. Consequências do descumprimento de medida protetiva de 
urgência 
 
O descumprimento das medidas protetivas de urgência traz diversas 
consequências jurídicas. 
A primeira delas é que constitui crime autônomo, previsto no art. 24-A da Lei 
Maria da Penha. 
https://medida-protetiva.cnj.jus.br/s/violencia-domestica/app/dashboards#/view/5ff5ddea-55e6-42a6-83fa-710d40507c3f?_g=h@2463b39
https://medida-protetiva.cnj.jus.br/s/violencia-domestica/app/dashboards#/view/5ff5ddea-55e6-42a6-83fa-710d40507c3f?_g=h@2463b39
https://medida-protetiva.cnj.jus.br/s/violencia-domestica/app/dashboards#/view/5ff5ddea-55e6-42a6-83fa-710d40507c3f?_g=h@2463b39
https://atos.cnj.jus.br/files/original15570020210921614a00ccb7cfb.pdf
 
 62 
Assim, caso o agressor desobedeça à ordem imposta, ele poderá ser preso em 
flagrante e, em tal hipótese, apenas a autoridade judicial poderá conceder fiança. 
Outra consequência é a possibilidade de imposição de medidas cautelaresdiversas de prisão, em especial, a monitoração eletrônica do agressor, a qual tem se 
mostrado bastante eficiente para assegurar o distanciamento entre agressor e 
ofendida. 
Sobre o assunto, citamos o programa Dispositivo de Monitoramento 
de Pessoas Protegidas (DMPP), da Secretaria de Segurança Pública 
do Distrito Federal. Nele, agressores e vítimas são monitorados 
diariamente, 24 horas por dia, por tecnologia de georreferenciamento; 
os agressores, por meio de tornozeleira eletrônica e as vítimas, por 
um dispositivo de segurança que recebem. 
O programa monitora, assim, se o agressor está adentrando zonas de exclusão 
ou se aproximando fisicamente da vítima, considerando a localização instantânea 
dela. Caso isso seja detectado, o agressor é alertado, via SMS ou ligação, a deixar o 
espaço e, caso descumpra, a viatura policial mais próxima é imediatamente acionada. 
O mesmo ocorre se a vítima, em caso de emergência, acionar o dispositivo. 
Por fim, o descumprimento das medidas também enseja a decretação da prisão 
preventiva do agressor, nos termos do art. 312 e seguintes, do Código de Processo 
Penal. 
Essas consequências demonstram que o nosso ordenamento jurídico prevê 
diversos meios para fazer com que as medidas protetivas sejam efetivas, e a vítima 
tenha sua integridade física e psicológica resguardada. 
Mas, para tanto, é fundamental que a vítima seja orientada a procurar a polícia 
para comunicar o descumprimento da medida. 
Os policiais que a atendem, em tais casos, deve considerar que está diante de 
uma situação de risco mais elevado e tomar as providências para que medidas de 
proteção mais drásticas sejam efetivadas, como as listadas acima, de modo a evitar 
a escalada criminosa e, até mesmo, o feminicídio. 
 
 
 
Finalizando 
 
 
 63 
Neste módulo, você aprendeu que: 
 
• A Lei Maria da Penha traz um rol exemplificativo com várias 
medidas que podem ser judicialmente decretadas para proteger a mulher vítima 
de violência doméstica; 
• As medidas protetivas de urgência, determinadas judicialmente, 
podem trazer ações relacionadas ao agressor ou à própria vítima; 
• É necessário que a vítima seja devidamente orientada sobre seus 
direitos, sobre em que consiste as medidas protetivas de urgência e como deve 
proceder, no caso de haver seu descumprimento, para que sua segurança seja 
resguardada; 
• Conhecer o Formulário Nacional de Avaliação de Risco, instituído 
pelo Conselho Nacional de Justiça e, hoje, de aplicação obrigatória, por força 
de lei, que deve ser preenchido por todas as mulheres quando fazem o 
requerimento por medidas protetivas de urgência; 
• Conhecer o Banco Nacional de Medidas Protetivas de Urgência; 
• Saber quais consequências jurídicas decorrentes do 
descumprimento das medidas protetivas de urgências e quais medidas devem 
ser adotadas pelos atores que compõem a rede de atendimento à mulher vítima 
de violência nesses casos, para proteger a vítima. 
 
 
 
 
 
 64 
Módulo 4 - O PLANO NACIONAL DE ENFRENTAMENTO AO 
FEMINICÍDIO. REDE DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA 
DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER. 
 
Apresentação do módulo 
 
Diante da necessidade pungente de se adotar ações governamentais 
para se enfrentar a violência contra as mulheres, em dezembro de 
2020, foi instituído, pelo Executivo Federal, o Plano Nacional de 
Enfrentamento ao Feminicídio. Nas próximas páginas, você para que 
o plano criado e conhecerá suas linhas gerais. 
Nesse cenário, de necessidade de ações de toda a sociedade para mudar a 
situação de violência de gênero, você conhecerá as redes de enfrentamento e de 
atendimento à violência doméstica e familiar contra a mulher, as quais se propõem a 
trazer medidas articuladas e interdisciplinares, para assistir a mulher vítima de 
violência. 
E, para que o atendimento dos órgãos públicos possa, efetivamente, 
transformar a realidade da mulher vítima de violência e lhe apresentar uma nova 
possibilidade de vida, é imprescindível que cada órgão tenha protocolos de 
atendimento, para que os agentes públicos saibam como atendê-la e quais serviços 
lhe colocar à disposição. Nesse sentido, é importante a capacitação dos servidores 
públicos que atuam na área da segurança pública para que estejam atualizados 
acerca dos protocolos exigidos. 
 
Objetivos do módulo 
 
Este módulo tem por objetivos: 
• Apresentar, em linhas gerais, o Plano Nacional de Enfrentamento 
ao Feminicídio, tais como seus objetivos, diretrizes e princípios. 
• Apresentar o conceito de redes de atendimento e de 
enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher, discriminando 
a que se destina e quais órgãos que as compõem. 
 
 65 
• Fazer com que o aluno saiba identificar o seu papel de órgão 
público na rede de atendimento à violência doméstica e familiar contra a 
mulher. 
• Refletir sobre a importância e necessidade de se adotar 
protocolos padronizados de atendimento à mulher em situação de violência, 
bem como de se capacitar os agentes públicos para atuar em observância a 
esses protocolos. 
 
Estrutura do módulo 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 - Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio 
Aula 2 - Redes de atendimento e enfrentamento à violência doméstica e 
familiar contra a mulher; 
Aula 3 - A importância da capacitação dos profissionais que compõem a rede 
de atendimento e enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. 
 
 
 
 
 66 
1. Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio 
 
No ano de 2019, 3.737 mulheres foram mortas no Brasil, segundo o Atlas da 
Violência 2021. 
Figura 10: Taxa de homicídios por 100 mil mulheres nas unidades da federação (2019) 
 
Fonte: Atlas da Violência, 2021. 
 
Pelo gráfico acima, percebemos a grande diferença da quantidade de mortes 
em cada estado. Assim, é importante que as peculiaridades e realidades sociais de 
cada unidade federativa sejam consideradas quando da elaboração de políticas 
públicas para combater a morte por feminicídio. 
A fim de garantir os direitos e a assistência às mulheres e a seus 
familiares em situação de violência, bem como a prevenir o 
feminicídio, foi instituído pelo Governo Federal, com a publicação do 
Decreto Federal nº 10.906, de 20 de dezembro de 2021, o Plano 
Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, com previsão de 
vigência até 31.12.2023. 
O feminicídio é a última e mais drástica violência contra a mulher. Para reprimi-
lo, é imprescindível ações voltadas ao combate à violência contra a mulher em todas 
as suas formas, seja moral, psicológica, sexual, patrimonial. 
 
 67 
Por isso, as medidas previstas no Plano Nacional de Enfrentamento ao 
Feminicídio não são voltadas exclusivamente ao fenômeno do feminicídio, mas a 
todas as formas de violência contra a mulher. 
Esse documento prevê uma série de ações governamentais com os seguintes 
objetivos: 
- implementar medidas de ampliação, articulação e integração entre os atores 
da rede de enfrentamento à violência contra as mulheres; 
- promover ações de conscientização da sociedade sobre a violência contra as 
mulheres, produzir e gerir dados sobre o tema; 
- fomentar ações de monitoramento de autores de violência contra as mulheres; 
- garantir direitos e assistência integral, humanizada e não revitimizadora às 
mulheres em situação de violência e às vítimas indiretas de tais crimes. 
Nele, são previstas diretrizes a serem seguidas pelas políticas públicas a serem 
implementadas, as quais elencamos: 
I - o reconhecimento da violência contra as mulheres como um 
fenômeno multidimensional e multifacetado relacionado a fatores individuais, 
comunitários e socioculturais; 
II - o uso de abordagem integrada no enfrentamento à violência 
contra as mulheres, a fim de possibilitar-lhes o desenvolvimento de um 
projeto de vida autônomo e livre de qualquer tipo de violência; 
III - o incentivo à denúncia de todas as formasde violência e ao 
ingresso na rede de atendimento às mulheres em situação de violência; 
IV - a assistência intersetorial, integrada, humanizada e não 
revitimizadora prestada pela rede de atendimento às mulheres em situação 
de violência; 
V - a construção de modelos de gestão integrados entre a União, os 
Estados, o Distrito Federal e os Municípios; 
VI - a integração com as políticas e os planos que atendem aos 
princípios do Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio; 
VII - a capacitação dos agentes públicos que atuam no enfrentamento 
à violência contra as mulheres e 
VIII - a existência e a interação de potenciais fatores de agravamento 
de situações de violência e vulnerabilidade como raça, etnia, idade, inserção 
social, situação econômica e regional, e condição de pessoa com deficiência. 
 
 
 68 
Citamos, ainda, os princípios elencados pelo Plano Nacional de Enfrentamento 
ao Feminicídio: 
Art. 4º São princípios do Plano Nacional de Enfrentamento ao 
Feminicídio: 
I - primazia dos direitos humanos e reconhecimento da violência 
contra as mulheres como violação a esses direitos; 
II - assistência integral; 
III - atendimento humanizado e não revitimizador; 
IV - acesso à justiça; 
V - segurança das mulheres; 
VI - respeito às mulheres em situação de violência; 
VII - confidencialidade; 
VIII - cooperação ou abordagem em rede; 
IX - interdisciplinaridade; 
X - transversalidade; e 
XI - transparência. 
 
As diversas ações governamentais previstas no Plano Nacional de 
Enfrentamento ao Feminicídio seguem cinco eixos estruturantes: articulação, 
prevenção, dados e informações, combate e garantia de direitos e assistência. 
Para assegurar a articulação, o monitoramento e a avalição das ações 
governamentais previstas no citado plano, foi criado o Comitê Gestor 
do Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, o qual funciona 
no âmbito do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos 
Humanos. 
Esse Comitê, por sua vez, é composto por representantes de diversos órgãos, 
como Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, Secretaria Nacional de 
Segurança Pública, Secretaria Nacional de Justiça, Secretaria Nacional de 
Assistência Social do Ministério da Cidadania, Ministério da Saúde e Ministério da 
Educação. 
A pluralidade de órgãos representados no Comitê decorre da complexidade do 
tema e da necessidade de se adotar medidas transversais e interdisciplinares e a 
atuação em rede dos diversos atores que trabalham no combate a esse fenômeno 
social. 
E o que significa atuação em rede? 
É sobre isso que falaremos no próximo tópico. 
Para conhecer as ações governamentais previstas, leia a íntegra 
do Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio. Decreto nº 
10.906, de 20 de dezembro de 2021: 
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/decreto-n-10.906-de-20-de-dezembro-de-2021-368988173
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/decreto-n-10.906-de-20-de-dezembro-de-2021-368988173
 
 69 
https://www.in.gov.br/web/dou/-/decreto-n-10.906-de-20-de-
dezembro-de-2021-368988173 
 
 
2. Redes de atendimento e de enfrentamento à violência doméstica 
e familiar contra a mulher 
 
O enfrentamento da violência contra as mulheres exige o envolvimento da 
sociedade em seu conjunto: os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), todos 
os entes federativos (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), os movimentos 
sociais e as comunidades. Isso significa construir uma rede, a que chamamos de Rede 
de Enfrentamento a Mulher em Situação de Violência: uma ação que reúne 
recursos públicos e comunitários em um esforço comum para enfrentar a violência 
doméstica e contra a mulher em nosso país. 
Por sua vez, a Rede de Atendimento à Mulher em Situação de Violência faz 
referência ao conjunto de ações e serviços de diferentes setores (em especial, da 
assistência social, do sistema de justiça, da segurança pública e da saúde), que visam 
à ampliação e à melhoria da qualidade do atendimento, à identificação e ao 
encaminhamento adequado das mulheres em situação de violência e à integralidade 
e humanização do atendimento. 
Acesse esta série de vídeos produzidos pelo Observatório da Mulher 
contra a Violência, vinculado ao Instituto de Pesquisa Data Senado, 
do Senado Federal, para conhecer alguns órgãos que compõem a 
rede de enfrentamento à violência contra as mulheres: 
INTRODUÇÃO https://www.youtube.com/watch?v=-4CEMeskIxI 
SEGURANÇA PÚBLICA 
https://www.youtube.com/watch?v=t9gXbY9vk1Y 
JUSTIÇA https://www.youtube.com/watch?v=UHlQyBdGCgw 
SAÚDE https://www.youtube.com/watch?v=qlj_fXhmy7g 
ASSISTÊNCIA SOCIAL https://www.youtube.com/watch?v=f-
UCrQweZEo 
GESTÃO PÚBLICA https://www.youtube.com/watch?v=fHZetAmxJJE 
MONITORAMENTO 
https://www.youtube.com/watch?v=KcjhZsPGXBE 
https://www.in.gov.br/web/dou/-/decreto-n-10.906-de-20-de-dezembro-de-2021-368988173
https://www.in.gov.br/web/dou/-/decreto-n-10.906-de-20-de-dezembro-de-2021-368988173
https://www.youtube.com/watch?v=-4CEMeskIxI
https://www.youtube.com/watch?v=t9gXbY9vk1Y
https://www.youtube.com/watch?v=UHlQyBdGCgw
https://www.youtube.com/watch?v=qlj_fXhmy7g
https://www.youtube.com/watch?v=f-UCrQweZEo
https://www.youtube.com/watch?v=f-UCrQweZEo
https://www.youtube.com/watch?v=fHZetAmxJJE
https://www.youtube.com/watch?v=KcjhZsPGXBE
 
 70 
Ilustrando iniciativas da rede de enfrentamento à violência doméstica, 
destacamentos a campanha Sinal Vermelho Contra a Violência 
Doméstica, lançado em junho de 2020, pela Associação dos 
Magistrados Brasileiros em parceria com o Conselho Nacional de 
Justiça. 
A campanha foi lançada durante a pandemia do Coronavírus (Covid 19), ao se 
perceber a necessidade de se ampliar os canais de denúncia para mulheres em 
situação de violência doméstica, haja vista as restrições de isolamento e 
distanciamento social impostas pela pandemia, que dificultavam o acesso das 
mulheres à rede de atendimento à mulher vítima de violência. 
Assim, um X desenhado em vermelho na palma da mão da mulher passou a 
ser um símbolo não verbal para um pedido de socorro decorrente de violência 
doméstica. Estabelecimentos comerciais que aderiram à campanha, tais como 
farmácias, foram orientadas a chamar a polícia para atender a mulher, quando 
percebessem o pedido de ajuda. 
Em 2021, a campanha tornou-se lei (Lei nº 14.188/2021) e repartições públicas 
passaram a ser um dos locais onde as mulheres podiam mostrar o sinal em X na 
palma da mão e pedir socorro, devendo as providências serem tomadas para viabilizar 
assistência e segurança à vítima. 
Figura 11 - Campanha Sinal Vermelho 
 
Fonte: Reprodução/Internet. 
 
 
 71 
Agora que você já sabe o que é a Rede de Atendimento à Mulher em 
Situação de Violência e conheceu vários de seus atores, vamos conhecer mais um 
pouco alguns desses órgãos. 
 
- Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) 
As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher – DEAMs são unidades 
especializadas da Polícia Civil, voltadas a prestar atendimento e serviço qualificados 
de polícia judiciária, às mulheres vítimas de crimes relacionados à violência de gênero. 
Assim, investigam crimes cometidos contra as mulheres pelo simples fato de serem 
mulheres, tais como feminicídios, violência doméstica e familiar e crimes contra a 
dignidade sexual. 
É um importante instrumento de política pública voltado à proteção da mulher. 
A Lei nº 11.340/2006 destaca a importância das DEAMs, nesse sentido ao prever que 
os Estados e o Distrito Federal priorizarão, na formulação de suas políticas públicas, 
a criação de DEAM (art. 12-A). 
Nas Delegacias Especializadas, é possível que a vítima faça o registro de 
ocorrências policiais e, no caso de violência doméstica e/ou familiar contra a mulher, 
solicite medidas protetivas de urgência, nos termos da Lei nº 11.340/2006, cujo 
requerimento será enviado ao Poder Judiciário em até 48 horas. 
As DEAMs realizam a investigação dos crimesde sua atribuição, que 
é documentada e materializada no inquérito policial (art. 4º e 
seguintes, do Código de Processo Penal), o qual, ao final, é 
encaminhado ao Ministério Público e ao Judiciário, com o relatório 
final do Delegado de Polícia. A partir de então, com base nos 
elementos de convicção que são produzidos no inquérito policial, o 
autor poderá ser responsabilizado criminalmente por seus atos 
perante a Justiça. 
Considerando seu lugar de atendimento especializado, os policiais que atuam 
na rede de enfrentamento à violência contra as mulheres devem ter qualificação 
diferenciada e receber capacitação continuada – em formato EaD ou presencial – para 
poderem atuar frente à complexidade do fenômeno da violência de gênero. 
A primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher no Brasil foi 
inaugurada em 1985, em São Paulo. Como consequência da política pública de 
 
 72 
incentivo de criação de novas Delegacias Especializadas, atualmente, existe cerca de 
500 DEAMs em todo o Brasil. 
Naturalmente, cada estado tem autonomia para disciplinar o funcionamento de 
suas delegacias conforme suas peculiaridades e necessidades. Assim, em alguns 
Estados, as DEAMs funcionam ininterruptamente, 24 horas por dia, enquanto em 
outras unidades, elas funcionam no horário ordinário de expediente. 
Em todo caso, é importante que essas delegacias sejam um espaço de 
atendimento diferenciado, onde a mulher seja e se sinta acolhida e encorajada a 
procurar ajuda da polícia para mudar sua realidade de violência. 
PARA REFLETIR! 
Existem quantas Delegacias Especializadas de Atendimento à 
Mulher no seu estado? E o município? Ele é sede de Delegacia 
Especializada de Atendimento à Mulher? 
 
- Delegacias Eletrônicas 
Com a expansão e democratização da internet, impõe-se que as polícias civis 
se modernizem e ofereçam à população a possibilidade de fazerem o registro de 
ocorrência pela rede mundial de computadores. 
Há alguns anos, essa possibilidade já era uma realidade em muitos estados, 
no que diz respeito, especialmente, ao registro de crimes de menor complexidade, 
como os de menor potencial ofensivo (Lei nº 9.099/1995) ou de fatos extrapenais, 
como extravio de documentos e acidentes de trânsito sem vítima. 
Contudo, desde 2020, com a pandemia Covid 19, a sociedade se deparou com 
uma realidade muito específica de medidas restritivas, como distanciamento e 
isolamento social. Considerando as peculiaridades do fenômeno da violência 
doméstica, que ocorre, na maior parte das vezes, na intimidade do lar, se impôs a 
necessidade se ampliar os canais à disposição da mulher vítima de violência 
doméstica, para registro dos crimes. Assim, as Delegacias Eletrônicas passaram a ser 
um importante aliado no combate aos crimes contra a mulher. 
Nesse sentido, destacamos o trabalho pioneiro da Polícia Civil do Distrito 
Federal, que possibilita que a mulher, pela internet, não apenas registre a ocorrência 
para comunicar crime relacionado à violência doméstica, mas também requeira as 
 
 73 
medidas protetivas de emergência, sem ser necessário o deslocamento a uma 
unidade policial. 
Pela própria Delegacia Eletrônica, no Distrito Federal, a vítima registra a 
ocorrência, assinala as medidas protetivas que tem interesse em requerer e preenche 
o Formulário de Avaliação de Risco. A Polícia Civil do Distrito Federal é imediatamente 
comunicada desse registro e faz o encaminhamento do requerimento ao Poder 
Judiciário, também de maneira online. Se for necessário, a Polícia Civil contata a 
vítima, para obter informações complementares que serão úteis à investigação. 
Destacamos também a iniciativa do Governo Federal, que, por intermédio do 
Ministério da Justiça e Segurança Pública, desenvolveu e disponibilizou plataforma 
própria para funcionamento da Delegacia Virtual aos Estados interessados. 
Atualmente, os Estados do Acre, Alagoas, Amazonas, Amapá, Bahia, Piauí, Rio 
Grande do Norte, Roraima, Sergipe e Tocantins se valem desse serviço. 
As Delegacias Virtuais desses estados podem ser acessadas pelo 
endereço eletrônico https://delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal/, 
onde se pode registrar, inclusive, crimes relacionados à violência 
doméstica e/ou familiar contra a mulher. 
 
- Casa da Mulher Brasileira 
A Casa da Mulher Brasileira é um projeto do Governo Federal, que, em parceria 
com os estados, reúne, em um só lugar, diversos serviços públicos de atendimento 
especializado às mulheres em situação de violência. Nela, há serviços de 
acolhimento, atendimento psicossocial, alojamento de passagem, e serviços 
oferecidos por órgãos públicos, como Polícia Civil, Defensoria Pública, dentre outros. 
Também são oferecidos cursos profissionalizantes, para que a mulher seja 
capacitada para o mercado de trabalho e consiga meios de alcançar autonomia 
financeira. 
Busca-se, em um só lugar, disponibilizar um espaço seguro, de atendimento 
multidisciplinar e integrado, onde a mulher seja atendida de maneira não fragmentada, 
evitando sua revitimização. Assim, visa ao resgate da autoestima e empoderamento 
da mulher. 
Atualmente, existem unidades da Casa da Mulher Brasileira em Brasília/DF, 
Curitiba/PR, São Luís/MA, Campo Grande/MS, Fortaleza/CE, São Paulo/SP e Boa 
Vista/RR. 
https://delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal/
 
 74 
- Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180 
A Central de Atendimento à Mulher funciona por atendimento 
telefônico (número 180) e presta escuta e acolhida qualificadas às 
mulheres em situação de violência e qualquer violação de direitos. 
O serviço registra as denúncias e presta informações sobre os direitos da 
mulher, como o fornecimento dos locais de atendimento mais próximos e apropriados 
para cada caso, e as legislações especializadas. 
O Ligue 180 registra e encaminha denúncias dos seguintes grupo e subgrupos 
de violações de direitos humanos das mulheres: violência doméstica e familiar, 
assédio, feminicídio, importunação sexual, tráfico de mulheres, cárcere privado, 
violência contra diversidade religiosa, violência no esporte, homicídio, violência 
institucional, violência física, violência moral, violência patrimonial, violência policial, 
violência psicológica, violência obstétrica, violência sexual, violência virtual, trabalho 
escravo, atendimento internacional, violência contra mulheres negras - discriminação 
racial ou étnico-racial, violência contra mulheres idosas, violência contra mulheres 
lésbicas, bissexuais e transexuais, violência contra mulheres com deficiência, 
violência contra mulheres em restrição de liberdade, violência contra mulheres em 
situação de rua, violência contra mulheres comunicadoras e jornalistas, violência 
contra mulheres imigrantes, emigrantes e refugiadas, violência contra mulheres de 
comunidades: das águas, árabes, do campo, ciganas, da floresta, indígenas, judaicas, 
quilombolas, rurais, tradicionais entre outras. 
Pelo Ligue 180, uma terceira pessoa, que não a própria vítima, 
também pode fazer a denúncia, bastando informar os fatos e 
elementos mínimos que possam levar à identificação dos envolvidos. 
Após o registro, a denúncia é devidamente encaminhada aos órgãos 
competentes, como Conselho Tutelar, Polícia Civil e Ministério Público. 
Nenhum dado do denunciante é divulgado, sendo, portanto, um serviço 
confidencial. 
A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas, todos os dias, inclusive 
feriados. Funciona em todo território nacional e pode ser acionado também de outros 
16 países (Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco e Boston), França, 
Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, 
Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela). 
 
 75 
- Casas-Abrigo 
Como vimos, grande parte das violências cometidas contra as mulheres são 
praticadas no ambiente em que deveria ser o mais seguro e sagrado: o próprio lar. 
Assim, quando a mulher toma providências paracessar com o ciclo de violência, 
muitas vezes, ela se vê materialmente desamparada, desassistida, literalmente sem 
ter para onde ir e levar seus filhos. 
Ainda, é comum situações em que a mulher vítima de violência doméstica 
esteja isolada, morando em cidade diferente de seus familiares e não tem rede de 
apoio de amigos, que possa acolhê-la materialmente. 
Em outros casos, a violência é tamanha que os familiares e amigos da vítima 
não querem “se envolver”, por medo de se colocarem também em risco e virem a 
sofrer retaliação pelo agressor. 
Diante desse cenário, muitas mulheres que pedem ajuda do Estado para 
romper com a violência a que estão submetidas precisam de um local seguro, para 
onde elas possam ir, provisoriamente, junto com sua prole. 
Nesse contexto, surgem as casas-abrigo: locais seguros que oferecem moradia 
protegida e atendimento integral e especializado a mulheres em risco de vida iminente 
em razão da violência doméstica. 
Assim, as casas-abrigo são sediadas em local sigiloso, acessível somente a 
pessoas e órgãos autorizadas. O abrigamento se dá em caráter temporário, no qual 
as usuárias permanecem por um período determinado, durante o qual deverão reunir 
condições necessárias para retomar o curso de suas vidas. 
A Lei nº 11.340/2006 prevê que as casas-abrigo podem ser criadas 
tanto pela União, Distrito Federal, Estados e Municípios (art. 35, II), 
ante a importância do tema. 
Contudo, o Brasil ainda tem muito a avançar no que se refere à criação desse 
serviço. Conforme pesquisa feita pelo IBGE, em 2018, somente 2,4% dos municípios 
possuíam casas-abrigo de gestão municipal para mulheres em situação de violência 
doméstica. No nível estadual, naquele ano, existiam 43 casas-abrigo em todo o Brasil. 
Assim, nós, enquanto profissionais de segurança pública, temos que estar 
atentos à necessidade de implementação desse serviço, que é direito de todas as 
mulheres. 
 
 
 76 
PARA REFLETIR! 
Existe Casa-Abrigo no seu município? Para onde são 
encaminhadas as mulheres em situação de violência doméstica 
que não têm local seguro para ir? 
Caso não exista Casa-Abrigo, a necessidade de implementação 
desse serviço já foi discutido no Conselho de Segurança do seu 
município? 
 
- Casas de Acolhimento Provisório 
Casas de Acolhimento Provisório são casas de abrigamento temporário de 
curta duração (até 15 dias), não sigilosas, para mulheres em situação de violência que 
não correm risco iminente de morte (acompanhadas ou não de seus filhos). 
Vale destacar que as Casas de Acolhimento Provisório não se restringem ao 
atendimento de mulheres em situação de violência doméstica e familiar, devendo 
acolher também mulheres que sofrem outros tipos de violência. 
O abrigamento provisório deve garantir a integridade física e emocional das 
mulheres, bem como realizar diagnóstico da situação da mulher para 
encaminhamentos necessários. 
 
- Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher 
Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher são órgãos da 
Justiça Comum, cuja previsão de criação foi trazida em nosso ordenamento jurídico 
pela Lei nº 11.340/2006, com competência para o processo e julgamento das causas 
decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher (art. 14). 
Isso porque a complexidade do fenômeno da violência doméstica impõe que 
inclusive o Poder Judiciário tenha olhar especializado para lidar com as demandas 
que lhe são postas. 
Destaca-se a previsão legal de que os Juizados tenham competência híbrida, ou 
seja, cível e criminal. 
Contudo, nesse ponto já surge a primeira controvérsia entre o que é 
normatizado e a realidade prática. Conforme projeto de pesquisa feita pelo CNJ, 
apesar da previsão legal, dentre as varas que foram visitadas no projeto, apenas uma 
 
 77 
exercia a competência nos termos previsto na Lei nº 11.340/2006. Nas demais, a 
competência cível se restringia às medidas protetivas de urgência9. 
Segundo a Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), os Juizado poderão contar 
com equipe de atendimento multidisciplinar a ser integrada por profissionais 
especializados nas áreas psicossocial, jurídica e da saúde. 
Nesse campo, destaca-se a possibilidade de que esses atendimentos sejam 
feitos por servidores do próprio Poder Judiciário ou por convênios com núcleos 
universitários ou de parceria com o Poder Executivo. 
Além disso, é importante que se observe que, no âmbito judicial, a mulher tenha 
oportunidade ser devidamente informada, orientada e escutada. Por não se tratar de 
vítimas de crimes comuns, é comum que as mulheres tenham necessidade de falar 
mais do que sobre simples questões técnicas relacionadas à materialidade do crime, 
e o Poder Judiciário também deve ser local para essa escuta. 
No tocante à importância dos Juizados Especiais de Violência Doméstica, 
destacamos o trecho do Projeto de Pesquisa do Conselho Nacional de Justiça10: 
A pesquisa mostrou que a especialização na matéria tende a garantir 
que os ritos previstos na Lei Maria da Penha, como a realização de 
audiências de retratação, sejam observados com mais atenção; que os 
espaços físicos estejam mais adequados ao atendimento das mulheres 
em situação de violência, garantindo-lhes privacidade e escuta 
sensível; e que as equipes multiprofissionais estejam disponíveis e 
sejam acionadas pelo juízo em diferentes momentos do processo. 
Contudo, embora não haja dúvidas de que a especialização das 
unidades na matéria é um ganho para o tratamento dos casos, a 
pesquisa evidenciou o fato de que o perfil do/a magistrado/a que 
responde pela vara/juizado é fator decisivo na qualidade do 
atendimento prestado às mulheres. 
 
Para se aprofundar sobre o papel do Judiciário na rede de apoio, 
leia o projeto de pesquisa O Poder Judiciário no Enfrentamento 
à Violência Doméstica e Familiar Contra as Mulheres, do 
Conselho Nacional de Justiça: 
<https://www.cnj.jus.br/wp-
content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84
449e36d3374.pdf>. 
 
9 Conselho Nacional de Justiça, 2019. O Poder Judiciário no Enfrentamento à Violência 
Doméstica e Familiar Contra as Mulheres. p. 18 Disponível em: <https://www.cnj.jus.br/wp-
content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf>. Acesso em 
03.05.2022 
10 Conselho Nacional de Justiça, 2019. O Poder Judiciário no Enfrentamento à Violência 
Doméstica e Familiar Contra as Mulheres. p. 18 Disponível em: <https://www.cnj.jus.br/wp-
content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf>. Acesso em 
03.05.2022 
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/conteudo/arquivo/2019/08/7918e2dc8e59bde2bba84449e36d3374.pdf
 
 78 
- Ministério Público 
O Ministério Público tem por função, dentre outros, de promover a ação penal 
pública e zelar pelos direitos assegurados pela Constituição Federal. 
Ante a complexidade da violência doméstica, a fim de poderem desempenhar 
essas funções com excelência, assim como é importante a criação de Juizados 
Especializados de Violência Doméstica, da mesma forma, é importante a criação de 
Promotorias de Justiça Especializadas para lidar com a matéria. 
Ressalta-se que, no dia a dia, é comum nos depararmos com situações de 
grande complexidade, cujas demandas superam o poder de atuação imediata dapolícia. Nesses casos, é sempre salutar o contato com o Ministério Público que, como 
fiscal da lei, pode intermediar para que as providências multidisciplinares ou judiciais 
sejam tomadas. 
Como exemplos, citamos situações em que a vítima está incapacitada por 
alguma enfermidade, e os familiares não adotaram as medidas cíveis relacionadas à 
curatela; quando os filhos menores da vítima estão tendo seus direitos de filiação 
negligenciados e nenhuma providência judicial foi tomada; quando a vítima não 
consegue ter acesso a atendimento médico. Nessas situações, é possível que o 
Ministério Público adote providências em defesa dos direitos dessa mulher e, por isso, 
é importante que ela seja orientada a procurar o Ministério Público ou, até mesmo, a 
própria polícia poderá intermediar essa provocação. 
Além disso, destacamos, também, ações de iniciativa dos Ministérios Públicos 
dos Estados no combate à violência doméstica ou familiar contra a mulher, como a 
criação de grupos reflexivos de homens, autores de violência, tal como os promovidos 
pelo Ministério Público do Paraná. 
 
PARA REFLETIR! 
Na sua comarca, existe Promotoria de Justiça Especializada em 
Violência Doméstica ou Familiar Contra a Mulher? O Ministério 
Público é integrado aos outros órgãos da rede de enfrentamento 
à violência doméstica? 
 
 
 
 
 79 
 
Tem interesse em saber diretrizes para implementação de 
grupos reflexivos destinados a homens autores de violência? 
Conheça o Manual de Orientação para Integrantes do Ministério 
Público: 
<https://direito.mppr.mp.br/arquivos/File/NUPIGE/manual_orientacao
_Nupige.pdf>. 
 
- Defensoria Pública 
As questões relacionadas à violência doméstica e familiar contra a mulher 
transbordam a esfera meramente criminal. A maior parte dos conflitos tangenciam 
também a questões de natureza cível, principalmente relacionadas ao direito de 
família, como divórcio, guarda de filhos em comum, alimentos, dentre outros. 
Assim, a resposta meramente criminal é insuficiente para o apaziguamento 
social que a Lei Maria da Penha se propõe. Por isso, deve ser colocado à serviço da 
mulher meios de acesso à Justiça para solucionar os outros conflitos relacionados e, 
para tanto, é fundamental a atuação da Defensoria Pública (art. 28 da Lei nº 
11.340/2006). 
Contudo, sabemos que o funcionamento da Defensoria Pública ainda não está 
plenamente estabelecido em muitas comarcas do país. Para contornar esse entrave, 
uma alternativa é o estabelecimento de convênios entre o Poder Executivo e 
Universidades para prestação de assistência judiciária gratuita às mulheres, a fim de 
que os conflitos de natureza civil possam ser solucionados por meio do ajuizamento 
de ações próprias. 
Além disso, também no âmbito criminal, é importante que a vítima tenha a 
devida assistência de um defensor. Isso porque o defensor zelará para que a vítima 
seja devidamente esclarecida sobre as fases do processo criminal e suas 
repercussões. Do contrário, é possível que a persecução penal tenha todo o seu 
desenrolar e a vítima não compreenda se houve ou não responsabilização criminal do 
agressor e tenha a sensação de que sua denúncia “não deu em nada nada”. 
Ademais, lembramos também que os crimes contra a honra – onde se 
enquadram a maior parte dos casos de violência moral – em regra, se procedem 
mediante ação penal privada, ou seja, é necessário que um defensor ajuíze queixa-
crime, no prazo decadencial de seis meses, para que o autor seja criminalmente 
responsabilizado. Logo, também por esse motivo, destaca-se a importância de que o 
https://direito.mppr.mp.br/arquivos/File/NUPIGE/manual_orientacao_Nupige.pdf
https://direito.mppr.mp.br/arquivos/File/NUPIGE/manual_orientacao_Nupige.pdf
 
 80 
serviço da Defensorias Públicas seja colocado à disposição das vítimas de violência 
doméstica ou familiar contra a mulher. 
Assim, diante da importância de que a vítima de violência doméstica ou familiar 
tenha a devida assistência jurídica, nas comarcas maiores onde a Defensoria Pública 
é mais bem estruturada, existem Núcleos Especializados para a prestação desse 
serviço. 
PARA REFLETIR! 
Por quem é desempenhado o serviço de assistência judiciária 
gratuita na comarca onde você trabalha? Onde esse serviço funciona e 
como a vítima pode ter acesso a ele? 
É muito importante que nós, enquanto agentes de segurança 
pública, tenhamos essas informações em mãos para orientarmos as 
vítimas quando elas precisarem. 
 
- Centro de Referência de Assistência Social 
A dependência econômica em relação ao agressor e a vulnerabilidade social 
estão intimamente ligadas a muitos casos de violência de gênero. Por isso, ao lidar 
com tais crimes, os agentes públicos devem estar atentos para reconhecer se a vítima 
e seus familiares necessitam da oferta e disponibilização dos serviços públicos de 
assistência social. 
O CRAS – Centro de Referência de Assistência Social é a porta de entrada 
para os serviços de assistência social no Brasil. Nele, o cidadão realiza seu Cadastro 
Único e pode ter orientação e acesso a serviços, benefícios – como o Auxílio Brasil – 
e projetos de assistência social. 
Assim, ao se deparar com situações em que se perceba a vulnerabilidade social 
dos envolvidos, os agentes de segurança pública podem orientá-los a procurar o 
CRAS do Município ou, se for o caso, entrar em contato com o próprio órgão e solicitar 
a busca ativa da família. 
 
PARA REFLETIR! 
Onde funciona o CRAS no seu município? Você conhece alguma 
família em situação de vulnerabilidade social que não seja 
atendida pelo CRAS? 
 
 81 
 
PARA REFLETIR! 
Onde você está situado na rede de atendimento à mulher em 
situação de violência doméstica? 
No seu município, quais organismos que compõem as redes de 
atendimento e de enfrentamento você conhece? 
Existe integração entre o órgão em que você trabalha e os 
demais que compõem a rede? 
 
 
3. A importância da capacitação continuada dos profissionais que 
compõem a rede de proteção às mulheres 
 
As mais conceituadas polícias brasileiras passaram a adotar as 
regulamentações das principais atividades de suas corporações, reunindo em um 
documento único, protocolos, roteiros padronizados, com o objetivo de amparar a 
atuação do policial e buscar a excelência nos serviços prestados. 
A normatização desse procedimento possibilita um atendimento de excelência, 
que contribua para que a mulher vítima de violência tenha meios de romper com o 
ciclo de violência. 
Além disso, permite um atendimento mais profissional e uniforme dos atores 
públicos, diminuindo as chances de que situações iguais ou semelhantes sejam 
direcionadas de maneiras diferentes pelo mesmo órgão, contribuindo para que a 
vítima se sinta devidamente atendida e com seus direitos respeitados. 
Nesse sentido, o atendimento da vítima à margem do que é previsto legal e 
protocolarmente poderá implicar o processo de revitimização ou até mesmo de 
violência institucional. Assim, é fundamental que o agente público esteja devidamente 
capacitado, para que tenha condições e segurança de atuar respeitando todas as 
diretrizes impostas. 
Ainda sobre o tema, destaca-se a autonomia de cada órgão e corporação para 
instituir protocolos próprios, que estejam em sintonia com suas próprias 
peculiaridades e com a realidade de cada estado. É sempre importante e saudável o 
intercâmbio de informações entre os diversos órgãos, inclusive de diferentes unidades 
 
 82 
da federação, para que cada qual tenha acesso a outras experiências e, a partir disso, 
se construa normatizações mais adequadas a cada realidade. 
Diante da importância de se estabelecer padronizações, em nível federal, 
temos o Protocolo Nacional de Investigação e Perícias nos Crimes de Feminicídio, 
lançado no ano de 2020, pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, que visa 
harmonizar procedimentos investigativos entre os profissionais desegurança pública 
de todo o país (polícias civis, polícias militares, órgãos de perícias criminais e de 
medicina legal). 
Por sua vez, para ajudar na implementação desse Protocolo Nacional, 
destacamos a publicação do documento “Diretrizes para investigar, processar e julgar 
com perspectiva de gênero as mortes violentas de mulheres”, pela ONU Mulheres em 
parceria com a Secretaria de Polícias para Mulheres, cujo objetivos citamos11: 
 
Promover a inclusão da perspectiva de gênero na investigação 
criminal e processo judicial em casos de mortes violentas de 
mulheres para seu correto enquadramento penal e decisão judicial 
isenta de estereótipos e preconceitos de gênero que sustentam a 
impunidade, criam obstáculos ao acesso à justiça e limitam as ações 
preventivas nos casos de violência contra as mulheres. 
Oferecer orientações gerais e linhas de atuação para aprimorar a 
prática de profissionais da segurança pública, da justiça e qualquer 
pessoal especializado que intervenha durante a investigação, o 
processo e o julgamento das mortes violentas de mulheres por 
razões de gênero, com vistas a punir adequadamente os 
responsáveis e garantir reparações para as vítimas e seus familiares. 
Proporcionar elementos, técnicas e instrumentos práticos com uma 
abordagem intersetorial e multidisciplinar para ampliar as respostas 
necessárias durante a investigação policial, o processo e o 
julgamento e as reparações às vítimas diretas, indiretas e seus 
familiares. 
 
Assim, ressaltamos a importância da capacitação continuada não apenas dos 
profissionais de segurança pública, mas de todos os atores que compõem a rede, para 
que eles tenham a sensibilidade necessária para socorrer a mulher vítima de violência, 
bem como estejam atualizados sobre as normas e protocolos operacionais vigentes 
em sua instituição. 
 
 
11 Diretrizes Nacionais para investigar, processar e julgar com perspectiva de gênero as mortes 
violentas de mulheres (feminicídios). Brasília-DF, 2016, Disponível em: 
<https://oig.cepal.org/sites/default/files/diretrizes_para_investigar_processar_e_julgar_com_perspectiv
a_de_genero_as_mortes_violentas_de_mulheres.pdf>. Acesso em: 14, mai. de 2022. 
https://oig.cepal.org/sites/default/files/diretrizes_para_investigar_processar_e_julgar_com_perspectiva_de_genero_as_mortes_violentas_de_mulheres.pdf
https://oig.cepal.org/sites/default/files/diretrizes_para_investigar_processar_e_julgar_com_perspectiva_de_genero_as_mortes_violentas_de_mulheres.pdf
 
 83 
PARA REFLETIR! 
Na sua instituição, há protocolos específicos de atendimento 
para crimes relacionados à violência contra a mulher. Caso 
exista, você os conhece e os aplica? 
 
 
Finalizando 
Neste módulo, você aprendeu que: 
 
• O Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio implementa, 
pelo Executivo Federal, políticas públicas no que se refere ao combate à 
violência contra a mulher; 
• O referido plano traz medidas que visam implementar medidas de 
ampliação e articulação entre os atores da rede de enfretamento à violência 
contra as mulheres; promover a conscientização da sociedade acerca do tema; 
produzir e gerir dados estatísticos; fomentar ações de monitoramentos de 
autores de violência e garantir direitos às vítimas e seus dependentes; 
• A atuação em rede no atendimento e enfrentamento à violência 
doméstica e familiar contra a mulher possibilita que diferentes serviços 
(relacionados à saúde, assistência social, justiça, educação, dentre outros) 
sejam oferecidos à mulher, para que ela tenha condições de superar a situação 
de violência; 
• Os agentes públicos que atendem a mulher em situação de 
violência devem conhecer os protocolos de atendimento do órgão em que atua, 
para que tenham condições de oferecer atendimento digno e de excelência a 
essa mulher. 
 
 84 
Referências Bibliográficas 
 
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2021. Disponível em: <https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/2021/03/08/secretaria-
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fundacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2016/decreto/d8727.htm >. Acesso em: 14, mai. 2022. 
 
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Doméstica. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2018/decreto/D9586.htm>. Acesso em: 16, mai. 2022. 
https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/2021/03/08/secretaria-de-seguranca-lanca-mulher-mais-segura/
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/decreto/d8727.htm
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de Enfrentamento ao Feminicídio. Disponível em: <https://www.in.gov.br/web/dou/-
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