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Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 1 Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 2 Próximo destino: a aprovação na OAB! Queridos alunos, cada material da Revisão Turbo foi preparado com muito carinho para que você possa absorver, de forma rápida, conteúdos de qualidade! Lembre-se: estamos aqui para ajudar você a dar asas aos seus sonhos! Preparamos um material incrível para ajudar você a concluir essa viagem acertando 40 questões com segurança e chegar ao seu destino dos sonhos: a aprovação na 1ª fase da OAB! Então embarque nessa com a gente! Com carinho, equipe Ceisc. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 3 Direito Penal Revisão Turbo | 39° Exame da OAB Sumário Aula 06/11/2023 – Turno da noite ................................................................................................ 4 Aula 10/11/2023 – Turno da manhã ........................................................................................... 29 Aula 13/11/2023 – Turno da manhã ........................................................................................... 57 Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 4 Aula 06/11/2023 – Turno da noite 1. Relevância da omissão: crimes omissivos 1.1. Crimes omissivos próprios São aqueles em que há um tipo penal específico descrevendo a conduta omissiva. O verbo nuclear do tipo descreve uma conduta omissiva. Nesse caso, o crime consiste em o sujeito amoldar a sua conduta ao tipo legal que descreve uma conduta omissiva. Em síntese, o agente será responsabilizado por não cumprir o dever de agir contido implicitamente na norma incriminadora. Exemplo: crime de omissão de socorro. Art. 135. Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública: Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa. Parágrafo único. A pena é aumentada de metade, se da omissão resulta lesão corporal de natureza grave, e triplicada, se resulta a morte. 1.2. Crimes omissivos impróprios ou comissivos por omissão (art. 13, § 2o, do CP) Têm a finalidade de impedir a ocorrência de determinado evento, desde que, evidentemente, seja possível agir. Para que alguém responda por crime comissivo por omissão é preciso que tenha o dever jurídico de impedir o resultado, previsto no art. 13, § 2o, do CP: a) Ter por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância: nesse caso, por expressa imposição da lei, o agente estará obrigado a agir para evitar o resultado. Assim, se o agente se Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 5 omitir, ou seja, deixar de agir, quando lhe era possível, responderá pelo resultado gerado. Ex.: mãe que deixa de alimentar o filho, que, por conta da sua negligência, acaba morrendo por inanição. Essa mãe deverá responder pelo resultado gerado, qual seja, homicídio culposo. Se, de outro lado, a mãe desejou a morte do filho ou assumiu o risco de produzi-la, responderá por homicídio doloso. b) De outra forma, assumir a responsabilidade de impedir o resultado: aqui a obrigação de agir para evitar o resultado não decorre de lei, mas do fato de o agente ter assumido a responsabilidade de impedi-lo. Ex.: babá que, por negligência, deixa de cumprir corretamente sua obrigação de cuidar da criança, que acaba caindo na piscina e, por isso, morre afogada. Nesse caso, responderá pelo resultado gerado, qual seja, homicídio culposo. Se, de outro lado, desejou a morte da criança ou assumiu o risco de produzi-la, responderá por homicídio doloso. c) Com o comportamento anterior, criar o risco da ocorrência do resultado: nesta hipótese, o sujeito, com o comportamento anterior, cria situação de perigo para bens jurídicos alheios penalmente tutelados, de sorte que, tendo criado o risco, fica obrigado a evitar que ele se degenere ou desenvolva para o dano ou lesão. Ex.: aluno veterano, por ocasião de um trote acadêmico, sabendo que a vítima não sabe nadar, joga o incauto calouro na piscina. Nesse caso, contrai o dever jurídico de agir para evitar o resultado, sob pena de responder por homicídio. Resolva a questão a seguir: 1) FGV - 2019 - OAB – 28º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase David, em dia de sol, levou sua filha, Vivi, de 03 anos, para a piscina do clube. Enquanto a filha brincava na piscina infantil, David precisou ir ao banheiro, solicitando, então, que sua amiga Carla, que estava no local, ficasse atenta para que nada de mal ocorresse com Vivi. Carla se comprometeu a cuidar da filha de David. Naquele momento, Vitor assumiu o posto de salva-vidas da piscina. Carla, que sempre fora apaixonada por Vitor, começou a conversar com ele e ambos ficam de costas para a piscina, não atentando para as crianças que lá estavam. Vivi começa a brincar com o filtro da piscina e acaba sofrendo uma sucção que a deixa embaixo da água por tempo suficiente para causar seu afogamento. David vê quando o ato acontece através de pequena janela no banheiro do local, mas o fecho da porta fica emperrado e ele não consegue sair. Vitor e Carla não veem o ato de afogamento da criança porque estavam de costas para a piscina conversando. Diante do resultado morte, David, Carla e Vitor ficam preocupados com sua responsabilização penal e procuram um advogado, esclarecendo que nenhum deles adotou comportamento positivo para gerar o resultado. Considerando as informações narradas, o advogado deverá esclarecer que: A) Carla e Vitor, apenas, poderão responder por homicídio culposo, já que podiam atuar e possuíam obrigação de agir na situação. B) David, apenas, poderá responder por homicídio culposo, já que era o único com dever legal de agir por ser pai da criança. C) David, Carla, Vitor poderão responder por homicídio culposo, já que os três tinham o dever de agir. D) Vitor, apenas, poderá responder pelo crime de omissão de socorro. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 6 2. Desistência voluntária e arrependimento eficaz Art. 15, do Código Penal O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados. *Para todos verem: esquema. 2.1. Desistência voluntária • O sujeito inicia a execução do delito, mas interrompe os atos executórios; • Não esgota a sua potencialidade lesiva; • Tomemos como exemplo a conduta do agente que, com a intenção homicida, desfere um disparo de arma de fogo contra a vítima, acertando-a em região não letal. Podendo prosseguir, já que tinha mais cinco balas no revólver, o agente resolve, por vontade própria, não efetuar mais disparos, deixando a vítima sobreviver. 2.2. Arrependimento eficaz • Antes da consumação possui uma postura ativa para impedir o resultado; • Esgota a sua potencialidade lesiva; • Exemplo: agente que, com a intenção homicida, após efetuar disparos de arma de fogo contra a vítima, utilizando todas as balas do revólver, arrepende-se e, adotando postura ativa, leva a vítima até o hospital, que, submetida a intervenção cirúrgica exitosa, acaba sobrevivendo. 2.3. Efeitos • Nos exemplos acima, o agente responderá pelo crime de lesão corporal (leve, grave ou gravíssima, conforme o caso); • Jamais o sujeito responderá por tentativa; Início da execução do delito Não consumação por vontade própria Revisão Turbo | 39º Exame de OrdemDireito Penal 7 • Responde pelos atos até então praticados; • Se não for eficaz o arrependimento, ou seja, se o resultado se produzir, o sujeito responderá pelo delito na modalidade consumada. 3. Arrependimento posterior Art. 16, do Código Penal Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. • Incide depois da consumação do delito; • É causa de diminuição da pena de 1/3 a 2/3. *Para todos verem: esquema. Assim, se o agente subtraiu uma TV do seu local de trabalho e, ao chegar em casa com a coisa subtraída, é convencido pela esposa a devolvê-la, o que efetivamente vem a fazer no dia seguinte, mesmo quando o fato já havia sido registrado na delegacia, haverá arrependimento posterior, com reflexo na dosimetria da pena. Se o crime for praticado com violência ou grave ameaça, ou, se praticado sem violência ou grave ameaça, mas a reparação do dano ou restituição da coisa aconteceu depois do recebimento da denúncia, incidirá a atenuante do artigo 65, III, “b”, do CP. Resolva a questão a seguir: 2) FGV - 2019 - OAB – 29º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Durante a madrugada, Lucas ingressou em uma residência e subtraiu um computador. Quando se preparava para sair da residência, ainda dentro da casa, foi surpreendido pela chegada do proprietário. Assustado, ele o empurrou e conseguiu fugir com a coisa subtraída. Na manhã seguinte, arrependeu-se e resolveu devolver a coisa subtraída ao legítimo dono, o que efetivamente veio a ocorrer. O proprietário, Crimes praticados sem violência ou grave ameaça. Restituição da coisa ou reparação do dano que provocou. Até o recebimento da denúncia ou queixa-crime. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 8 revoltado com a conduta anterior de Lucas, compareceu em sede policial e narrou o ocorrido. Intimado pelo Delegado para comparecer em sede policial, Lucas, preocupado com uma possível responsabilização penal, procura o advogado da família e solicita esclarecimentos sobre a sua situação jurídica, reiterando que já no dia seguinte devolvera o bem subtraído. Na ocasião da assistência jurídica, o(a) advogado(a) deverá informar a Lucas que poderá ser reconhecido(a) A) a desistência voluntária, havendo exclusão da tipicidade de sua conduta. B) o arrependimento eficaz, respondendo o agente apenas pelos atos até então praticados. C) o arrependimento posterior, não sendo afastada a tipicidade da conduta, mas gerando aplicação de causa de diminuição de pena. D) a atenuante da reparação do dano, apenas, não sendo, porém, afastada a tipicidade da conduta. 4. Crime impossível Art. 17, do Código Penal. Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime. *Para todos verem: esquema. O crime impossível por ineficácia absoluta do meio guarda relação com o meio de execução ou instrumento utilizado pelo agente, que, por sua natureza, será incapaz de produzir qualquer resultado, ou seja, jamais alcançará a consumação do delito. É o caso do agente que, pretendendo matar a vítima, usa como meio executório arma completamente defeituosa, que jamais efetuaria qualquer disparo. O crime impossível pela impropriedade absoluta do objeto guarda relação com o objeto material, compreendendo a pessoa ou coisa sobre o qual recai a conduta do agente. Tomemos como exemplo a conduta do agente que, pretendendo matar a vítima, desfere vários disparos de arma de fogo contra o seu corpo, verificando-se, após, que, ao receber os disparos, já se encontrava morta, em decorrência de ter sofrido, momentos antes, fulminante ataque Crime impossível Ineficácia absoluta do meio Instrumento Modo de execução Impropriedade absoluta do objeto Coisa ou pessoa sobre a qual recai a conduta do sujeito Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 9 cardíaco. Evidente, neste caso, a impropriedade absoluta do objeto, diante da impossibilidade de ceifar a vida de pessoa que já estava morta. Neste caso, o fato é atípico. Se a ineficácia ou impropriedade for relativa, o sujeito vai responder pela tentativa. Resolva a questão a seguir: 3) FGV - 2019 - OAB – 30° Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Mário trabalhava como jardineiro na casa de uma família rica, sendo tratado por todos como um funcionário exemplar, com livre acesso a toda a residência, em razão da confiança estabelecida. Certo dia, enfrentando dificuldades financeiras, Mário resolveu utilizar o cartão bancário de seu patrão, Joaquim, e, tendo conhecimento da respectiva senha, promoveu o saque da quantia de R$ 1.000,00 (mil reais). Joaquim, ao ser comunicado pelo sistema eletrônico do banco sobre o saque feito em sua conta, efetuou o bloqueio do cartão e encerrou sua conta. Sem saber que o cartão se encontrava bloqueado e a conta encerrada, Mário tentou novo saque no dia seguinte, não obtendo êxito. De posse das filmagens das câmeras de segurança do banco, Mário foi identificado como o autor dos fatos, tendo admitido a prática delitiva. Preocupado com as consequências jurídicas de seus atos, Mário procurou você, como advogado(a), para esclarecimentos em relação à tipificação de sua conduta. Considerando as informações expostas, sob o ponto de vista técnico, você, como advogado(a) de Mário, deverá esclarecer que sua conduta configura A) os crimes de furto simples consumado e de furto simples tentado, na forma continuada. B) os crimes de furto qualificado pelo abuso de confiança consumado e de furto qualificado pelo abuso de confiança tentado, na forma continuada. C) um crime de furto qualificado pelo abuso de confiança consumado, apenas. D) os crimes de furto qualificado pelo abuso de confiança consumado e de furto qualificado pelo abuso de confiança tentado, em concurso material. 5. Erro de tipo essencial x erro de proibição 5.1. Erro de tipo essencial – art. 20, “caput”, do CP Art. 20, do Código Penal O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. O erro de tipo essencial é aquele que repercute na própria tipificação da conduta do agente, pois, se não tivesse a falsa percepção da realidade, o agente não teria praticado o fato típico, ou, pelo menos, não nas circunstâncias que envolveram o contexto fático. O erro de tipo essencial pode ser: Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 10 a) Invencível, inevitável, escusável: é aquele erro em que qualquer pessoa, nas mesmas circunstâncias, incorreria. É o erro inevitável, desculpável ou escusável, que não poderia ser evitado, mesmo por uma pessoa cautelosa e prudente. Tomemos como exemplo a conduta de uma estudante que deixa seu celular carregando na tomada da sala de aula e sai para comprar café na cantina do local. Quando retorna, retira um celular da tomada que, na verdade, não era o seu aparelho, mas de sua colega, que havia colocado um celular idêntico para carregar em substituição ao da estudante. Nesse caso, há evidente erro de tipo, pois a estudante, por conta da falsa percepção da realidade (supôs ser seu o celular, já que idêntico), errou em relação ao elemento “alheio” do tipo que define o crime de furto. E, trata-se de erro de tipo invencível, porque qualquer pessoa, nas circunstâncias, consideraria que era o seu telefone celular que estava carregando na tomada em que havia deixado. O erro de tipo invencível, inevitável ou escusável exclui o dolo e a culpa. Sendo a conduta elemento do fato típico, a ausência de dolo ou culpa leva à atipicidade da conduta. b) Vencível, evitável ou inescusável: é aquele erro emque uma pessoa mais cautelosa e prudente, nas mesmas circunstâncias, não incorreria. É o erro evitável, indesculpável ou inescusável, que uma pessoa cautelosa e prudente teria evitado. Assim, se o fato for punido sob a forma culposa, o agente responderá por crime culposo. Quando o tipo, entretanto, não admitir essa modalidade, a consequência será inexoravelmente a exclusão do crime, já que configurará fato atípico. No exemplo do caçador que praticava a caça em mata próxima à zona urbana, onde havia circulação de pessoas, o agente responderá pelo crime de homicídio culposo, já que se trata de erro de tipo vencível. 5.2. Erro de proibição Art. 21, do Código Penal O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço. Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. Nesse caso, o erro recai sobre a ilicitude do fato. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 11 O sujeito sabe o que está fazendo, mas falta potencial consciência de que a conduta é ilícita. O erro de proibição escusável, inevitável ou invencível ocorre quando o erro sobre a ilicitude do fato é impossível de ser evitado, valendo-se o ser humano da sua diligência ordinária. Ex.: um telejornal de alcance nacional informa, de forma equivocada, a aprovação da lei que autoriza a eutanásia de doentes em estágio terminal. Não havendo nenhuma razão para duvidar da veracidade da notícia, o agente dirige-se até o hospital e desliga os aparelhos que mantinham vivo um ente querido, que se encontrava sofrendo com a doença que o acometia e em estágio terminal, causando-lhe a morte. Praticou fato típico e ilícito, mas lhe faltou potencial consciência da ilicitude, incidindo o erro de proibição inevitável, cuja consequência será a exclusão da culpabilidade. O erro de proibição inescusável ou evitável ocorre quando o erro sobre a ilicitude do fato que não se justifica, pois, se tivesse havido um mínimo de empenho em se informar, o agente poderia ter tido conhecimento da realidade. O critério de aferição do erro de proibição inescusável, vencível ou evitável encontra-se no parágrafo único do art. 21 do CP, segundo o qual “considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência”. Tratando-se de erro de proibição evitável, permanece hígida a culpabilidade do agente, sendo, no entanto, causa de diminuição da pena de um sexto a um terço. Resolva a questão a seguir: 4) FGV - 2017 - OAB – 22º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Tony, a pedido de um colega, está transportando uma caixa com cápsulas que acredita ser de remédios, sem ter conhecimento que estas, na verdade, continham Cloridrato de Cocaína em seu interior. Por outro lado, José transporta em seu veículo 50g de Cannabis Sativa L. (maconha), pois acreditava que poderia ter pequena quantidade do material em sua posse para fins medicinais. Ambos foram abordados por policiais e, diante da apreensão das drogas, denunciados pela prática do crime de tráfico de entorpecentes. Considerando apenas as informações narradas, o advogado de Tony e José deverá alegar em favor dos clientes, respectivamente, a ocorrência de A) erro de tipo, nos dois casos. B) erro de proibição, nos dois casos. C) erro de tipo e erro de proibição. D) erro de proibição e erro de tipo. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 12 6. Erro sobre a pessoa x erro na execução 6.1. Erro sobre a pessoa Art. 20, § 3º, do Código Penal O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime. *Para todos verem: esquema. • Consideram-se as condições ou qualidades da vítima pretendida. Ignora-se as condições da vítima efetivamente atingida; • Consideremos, por exemplo, a hipótese do filho desalmado que, pretendendo matar seu pai, realiza disparos de arma de fogo contra o homem que estava na varanda da residência do genitor, causando a morte deste. O filho, então, deixa o local satisfeito, por acreditar ter concluído seu intento delitivo, mas vem a descobrir que matara um amigo de seu pai, que contava com 65 anos de idade, que, de costas, era com ele parecido; • Nesse caso, nos termos do art. 20, § 3o, do CP, consideram-se as condições e qualidades da vítima pretendida. Logo, o filho desalmado responderá pelo crime de homicídio, com a incidência da agravante de ter praticado crime contra ascendente, prevista no art. 61, II, e, 1a parte, do CP. 6.2. Erro na execução Art. 73, do Código Penal Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º do art. 20 deste Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. Veja o esquema na página a seguir... Pretende atingir determinada pessoa Erro na identificação Atinge pessoa diversa Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 13 *Para todos verem: esquema. A aberratio ictus pode ocorrer quando, por acidente, o agente, em vez de atingir a pessoa pretendida, atinge pessoa diversa. Suponhamos, nesse caso, que o agente pretende matar Wilson, deixando na sua mesa de trabalho uma xícara de café contendo veneno. Todavia, quem toma o café é Pedro, que acaba falecendo. Pode ocorrer também quando, por erro nos meios de execução, o agente, em vez de atingir a pessoa pretendida, atinge pessoa diversa. Ex.: agente pretendendo matar Wilson, visualiza a vítima, tendo-a como certa, faz a mira e efetua o disparo, mas, no entanto, erra o alvo pretendido, atingindo pessoa diversa, que se encontrava próxima ao local. A consequência jurídica da conduta do agente encontra-se retratada no art. 73, 1a parte, do CP, que faz expressa remissão ao art. 20, § 3o, do CP. Ou seja, na hipótese de erro na execução, deve-se observar o disposto no art. 20, § 3o, segundo o qual, embora tenha atingido pessoa diversa, o agente deve receber tratamento penal considerando-se as condições ou qualidades da pessoa pretendida (vítima virtual), desprezando-se as condições pessoais da vítima efetivamente atingida. Na aberratio ictus com resultado duplo, o agente, além de atingir a vítima pretendida, atinge também pessoa diversa. Nesse caso, com uma única ação, o agente produz mais de um resultado: atinge a pessoa pretendida e também pessoa diversa. Por essa razão, o art. 73, 2a parte, do CP faz expressa remissão ao art. 70 do CP, devendo ser aplicada a regra do concurso formal de crimes. Resolva a questão a seguir: 5) FGV - 2019 - OAB – 30º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Regina dá à luz seu primeiro filho, Davi. Logo após realizado o parto, ela, sob influência do estado puerperal, comparece ao berçário da maternidade, no intuito de matar Davi. No entanto, pensando tratar- se de seu filho, ela, com uma corda, asfixia Bruno, filho recém-nascido do casal Marta e Rogério, causando-lhe a morte. Descobertos os fatos, Regina é denunciada pelo crime de homicídio qualificado pela asfixia com causa de aumento de pena pela idade da vítima. Diante dos fatos acima narrados, o(a) advogado(a) de Regina, em alegações finais da primeira fase do procedimento do Tribunal do Júri, deverá requerer Pretende atingir determinadapessoa Erro nos meios de execução ou acidente Atinge pessoa diversa Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 14 A) o afastamento da qualificadora, devendo Regina responder pelo crime de homicídio simples com causa de aumento, diante do erro de tipo. B) a desclassificação para o crime de infanticídio, diante do erro sobre a pessoa, não podendo ser reconhecida a agravante pelo fato de quem se pretendia atingir ser descendente da agente. C) a desclassificação para o crime de infanticídio, diante do erro na execução (aberratio ictus), podendo ser reconhecida a agravante de o crime ser contra descendente, já que são consideradas as características de quem se pretendia atingir. D) a desclassificação para o crime de infanticídio, diante do erro sobre a pessoa, podendo ser reconhecida a agravante de o crime ser contra descendente, já que são consideradas as características de quem se pretendia atingir. 7. Coação moral irresistível Art. 22, do Código Penal Se o fato é cometido sob coação irresistível ou em estrita obediência a ordem, não manifestamente ilegal, de superior hierárquico, só é punível o autor da coação ou da ordem. Na coação moral, o agente coator, para alcançar o resultado desejado, emprega grave ameaça contra o coagido, que, por medo de suportar um mal grave contra si ou contra outrem, acaba realizando a conduta criminosa exigida. A coação empregada pelo agente vicia a vontade do coagido, retirando-lhe a exigência de se comportar de modo diferente. Nesse caso, em relação ao coagido, incide a causa de exclusão da culpabilidade decorrente da inexigibilidade de conduta diversa. Ex.: se o sujeito é coagido a assinar um documento falso, responde pelo crime de falsidade o autor da coação. O coato não responde pelo crime, uma vez que sobre o fato incide a causa de exclusão da culpabilidade. Assim, quando o sujeito comete o fato típico e antijurídico sob coação moral irresistível, não há culpabilidade em face da inexigibilidade de outra conduta (não é reprovável o comportamento). A culpabilidade desloca-se da figura do coato para a do coator. Convém sinalar que, se o sujeito pratica o fato sob coação física irresistível, não praticará crime por ausência de conduta. Trata-se de causa excludente da tipicidade. 8. Estado de necessidade – art. 24, do CP Art. 24 do Código Penal Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. § 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 15 § 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. *Para todos verem: esquema. Comportamento animal: é considerado estado de necessidade quando o animal ataca por instinto. Quando o animal for instigado por alguém para atacar, será considerada legítima defesa. Quem, por sua vontade, provocou a situação de perigo, não poderá alegar estado de necessidade. A conduta tem que ser inevitável para cessar o perigo. Se existir outro modo menos lesivo de evitar o perigo, não poderá alegar estado de necessidade. Critério de proporcionalidade: o bem protegido deve ser de igual ou maior valor que o bem sacrificado. Aquele que tem o dever legal de enfrentar o perigo, não poderá alegar estado de necessidade. 9. Legítima defesa – art. 25, do CP Art. 25, do Código Penal Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Parágrafo único - Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. *Para todos verem: esquema. Critério de proporcionalidade: • Meio necessário e suficiente para fazer cessar a agressão; Fato típico Se salvar de situação de perigo - Ação humana; - Evento da natureza; - Comportamento animal. Fato típico Repelir uma injusta agressão Atual ou iminente Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 16 • Uso moderado desse meio. Novidade do Pacote Anticrime: legítima defesa do Agente de Segurança Pública. • Observados os requisitos do caput; • Crime com vítima refém. 10. Estrito cumprimento do dever legal x exercício regular do direito *Para todos verem: tabela comparativa. Resolva a questão a seguir: 6) FGV - 2022 - OAB – 36º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Tainá, legalmente autorizada a pilotar barcos, foi realizar um passeio de veleiro com sua amiga Raquel. Devido a uma mudança climática repentina, o veleiro virou e começou a afundar. Tainá e Raquel nadaram, desesperadamente, em direção a um tronco de árvore que flutuava no mar. Apesar de grande, o tronco não era grande o suficiente para suportar as duas amigas ao mesmo tempo. Percebendo isso, Raquel subiu no tronco e deixou Tainá afundar, como único meio de salvar a própria vida. A perícia concluiu que a morte de Tainá se deu por afogamento. A partir do caso relatado, assinale a opção que indica a natureza da conduta praticada por Raquel. A) Raquel deverá responder pelo crime de omissão de socorro. B) Raquel agiu em legítima defesa, causa excludente de ilicitude. C) Raquel deverá responder pelo crime de homicídio consumado. D) Raquel agiu em estado de necessidade, causa excludente de ilicitude. 11. Inimputabilidade pela doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado Art. 26, do Código Penal É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Estrito cumprimento de um dever legal • Agente público; • Fato típico; • Cumprimento de um dever imposto pela lei. Exercício regular de um direito • Cidadão comum; • Fato típico; • Exercício regular de um direito. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 17 • É adotado o critério biopsicológico (desenvolvimento mental incompleto ou retardado + inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito da sua conduta); • Sentença absolutória imprópria, com imposição de medida de segurança. *Para todos verem: esquema. Art. 97, do Código Penal Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua internação (art. 26). Se, todavia, o fato previsto como crime for punível com detenção, poderá o juiz submetê-lo a tratamento ambulatorial. O tempo de duração da medida de segurança será a pena máxima cominada ao delito, segundo se extrai da Súmula 527 do STJ. Resolva a questão a seguir: 7) FGV - 2019 - OAB – 30º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Durante ação penal em que Guilherme figura como denunciado pela prática do crime de abandono de incapaz (Pena: detenção, de 6 meses a 3 anos), foi instaurado incidente de insanidade mental do acusado, constatando o laudo que Guilherme era, na data dos fatos (e permanecia até aquele momento), inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato, em razão de doença mental. Não foi indicado, porém, qual seria o tratamento adequado para Guilherme. Durante a instrução, os fatos imputados na denúncia são confirmados, assim como a autoria e a materialidade delitiva. Considerando apenas as informações expostas, com base nas previsões do Código Penal, no momento das alegações finais, a defesa técnica de Guilherme, sob o ponto de vista técnico, deverárequerer A) a absolvição imprópria, com aplicação de medida de segurança de tratamento ambulatorial, podendo a sentença ser considerada para fins de reincidência no futuro. B) a absolvição própria, sem aplicação de qualquer sanção, considerando a ausência de culpabilidade. C) a absolvição imprópria, com aplicação de medida de segurança de tratamento ambulatorial, não sendo a sentença considerada posteriormente para fins de reincidência. D) a absolvição imprópria, com aplicação de medida de segurança de internação pelo prazo máximo de 02 anos, não sendo a sentença considerada posteriormente para fins de reincidência. Medida de segurança Internação Tratamento ambulatorial Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 18 12. Embriaguez completa e acidental Art. 28, § 1º, do Código Penal É isento de pena o agente que, por embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força maior, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. • Completa: em decorrência da embriaguez, o sujeito será inteiramente incapaz de compreender o caráter ilícito da conduta; • Acidental: caso fortuito ou força maior. No caso fortuito, o sujeito desconhece o efeito inebriante da substância que ingere, ou quando, desconhecendo uma particular condição fisiológica, ingere substância que possui álcool (ou substância análoga), ficando embriagado. É o caso do agente que está tomando determinado medicamento e ingere bebida alcóolica. A conjugação do medicamento e da bebida alcoólica potencializa o metabolismo do agente, a ponto de deixá-lo embriagado. É também o caso do agente que ingere determinada bebida sem saber que nela foi colocada uma substância capaz de lhe retirar os sentidos, deixando-o embriagado, como, por exemplo, o chamado “boa noite cinderela”. Na força maior, o agente é obrigado a ingerir bebida alcoólica. Não desejando se embriagar nem de se exceder culposamente, o agente é forçado a ingerir bebida alcoólica. É o caso, por exemplo, do trote acadêmico de péssimo gosto em que os veteranos obrigam, forçam os calouros a ingerirem bebida alcoólica. Resolva a questão a seguir: 8) FGV - 2021 - OAB – 33º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Após o expediente, Márcio saiu com seus colegas de trabalho para comemorar o sucesso das vendas naquele mês e sua escolha como melhor funcionário do período. Ao chegarem ao bar, Márcio entregou a chave de seu carro aos colegas, alertando-os que iria beber até se embriagar e cair. Após cumprir a promessa feita aos colegas, Márcio, completamente alterado, se dirigiu até o caixa do bar para pagar sua conta. Devido a divergências quanto à quantidade de bebida consumida, Márcio iniciou uma forte discussão com o atendente do estabelecimento e arremessou a garrafa de cerveja que segurava em sua direção, acertando a cabeça do funcionário e causando-lhe ferimentos de natureza grave. Preocupado com as consequências jurídicas de seu ato, Márcio o(a) procura, na condição de advogado(a), para assistência técnica. Considerando apenas as informações expostas, sob o ponto de vista técnico, você, como advogado(a), deverá esclarecer que a conduta praticada por Márcio configura Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 19 A) crime de lesão corporal grave, diante da embriaguez culposa, podendo ser reconhecida causa de diminuição de pena, já que a embriaguez era completa. B) conduta típica e ilícita, mas não culpável, diante da embriaguez culposa, afastando a culpabilidade do agente. C) crime de lesão corporal grave, com reconhecimento de agravante, diante da embriaguez preordenada. D) crime de lesão corporal grave, diante da embriaguez voluntária. 13. Concurso de pessoas Art. 29 do Código Penal Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. 13.1. Requisitos do concurso de pessoas a) Pluralidade de condutas: trata-se de requisito elementar do concurso de pessoas: a concorrência de mais de uma pessoa na execução de uma infração penal. Assim, para que haja concurso de pessoas, exige-se que cada um dos agentes tenha realizado ao menos uma conduta relevante. Pode ser em coautoria, em que há duas condutas principais; ou autoria e participação, em que há uma conduta principal e outra acessória, praticadas, respectivamente, por autor e partícipe. b) Relevância causal das condutas: para justificar a punição de duas ou mais pessoas em concurso, afigura-se necessário que a conduta do agente tenha efetivamente contribuído, ainda que minimamente, para a produção do resultado. Em outras palavras, se a conduta não tem relevância causal, isto é, se não contribuiu em nada para a produção do resultado, não pode ser considerada integrante do concurso de pessoas. Imaginemos que a empregada doméstica de uma residência, profundamente irritada por ter sido ofendida pela patroa, observa que há uma movimentação suspeita no lado externo da casa, concluindo que era alguém observando o local para praticar o delito de furto. Para facilitar o sucesso da subtração, a empregada deixa aberta a porta da frente da residência. Durante a empreitada criminosa, sem saber que a porta da frente se encontrava destrancada, o agente de atitude suspeita arrombou a porta dos fundos, ingressou na residência, e subtraiu diversos objetos. Diante desse quadro fático, a empregada doméstica não deverá responder por qualquer infração penal, uma vez que a sua contribuição foi absolutamente irrelevante para o sucesso da subtração. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 20 c) Do liame subjetivo e normativo (vínculo subjetivo e normativo entre os participantes): exige-se homogeneidade de elemento subjetivo-normativo. Significa que autor e partícipe devem agir com o mesmo elemento subjetivo (dolo + dolo) ou normativo (culpa + culpa). Os agentes devem atuar conscientes de que participam de crime comum, ainda que não tenha havido acordo prévio de vontades. A ausência desse elemento psicológico inviabiliza o concurso de pessoas, ensejando condutas isoladas e autônomas. Ex.: uma empregada doméstica, percebendo a presença de um ladrão, para vingar-se do patrão, deliberadamente deixa a porta aberta, facilitando a prática do furto. Há participação, e, não obstante, o ladrão desconhecia a colaboração da empregada. Por consequência, a empregada também responderá pelo crime de furto. d) Identidade de infração para todos os participantes: nos termos do art. 29 do CP, todos que concorrem para o crime respondem pelo mesmo delito. Ex.: alguém planeja a realização da conduta típica, ao executá-la, enquanto um desvia a atenção da vítima, outro lhe subtrai os pertences e ainda um terceiro encarrega-se de evadir-se do local com o produto do furto. É uma exemplar divisão de trabalho constituída de várias atividades, convergentes, contudo, a um mesmo objetivo típico: subtração de coisa alheia móvel. Respondem todos por um único tipo penal, qual seja, furto. 13.2. Participação de menor importância Art. 29 do Código Penal § 1º - Se a participação for de menor importância, a pena pode ser diminuída de um sexto a um terço. A participação de menor importância caracteriza-se, pois, pela mínima contribuição para a produção do resultado. A conduta do agente efetivamente influencia na causa do resultado, mas com reduzida relevância. 13.3. Cooperação dolosamente distinta Art. 29 do Código Penal § 2º - Se algum dos concorrentes quis participar de crime menos grave, ser-lhe-á aplicada a pena deste; essa pena será aumentada até metade, na hipótese de ter sido previsível o resultado mais grave. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 21 O agente que desejavapraticar um delito, sem a condição de prever a concretização de crime mais grave, deve responder pelo que pretendeu fazer, não se podendo a ele imputar outra conduta indesejada, sob pena de se estar tratando de responsabilidade objetiva. Ex.: “A” determina a “B” que espanque “C”. “B” mata “C”. Segundo o art. 29, § 2o, “A” responde por crime de lesão corporal, cuja pena deve ser aumentada até metade se a morte da vítima lhe era previsível. 13.4. Circunstâncias incomunicáveis Art. 30 do Código Penal Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime. O art. 30 do CP determina que as circunstâncias e as condições de caráter pessoal não se comunicam, salvo quando elementares do crime. Via de regra, as circunstâncias e condições pessoais relacionadas a um dos agentes não se comunica aos outros que contribuíram para a prática delituosa. Todavia, há determinadas circunstâncias ou condições pessoais que compõem, integram o tipo penal, figurando, no caso, como verdadeira elementar no tipo penal. Nesse caso, quando também constituem o tipo penal, ou seja, figuram como elementares do tipo penal, as circunstâncias ou condições pessoais relacionadas a um dos sujeitos se comunicam aos demais coautores ou partícipes. Ex.: “A”, funcionário público, comete um crime de peculato (art. 312), com a participação de “B”, não funcionário público. A condição pessoal (funcionário público) é elementar do crime de peculato, comunicando-se, portanto, ao agente que não é funcionário público. Logo, os dois respondem por crime de peculato. De outro lado, as circunstâncias objetivas alcançam o partícipe ou coautor se, sem haver praticado o fato que as constitui, integraram o dolo ou culpa. Ex.: “A” instiga “B” a praticar homicídio contra “C”. “B”, para a execução do crime, emprega asfixia. O partícipe não responde por homicídio qualificado (art. 121, § 2o, III, 4a figura), a não ser que o meio de execução empregado pelo autor principal tenha ingressado na esfera de seu conhecimento. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 22 Resolva a questão a seguir: 9) FGV - 2022 - OAB – 36º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Túlio e Alfredo combinaram de praticar um roubo contra uma joalheria. Os dois ingressam na loja, e Alfredo, com o emprego de arma de fogo, exige que Fernanda, a vendedora, abra a vitrine e entregue os objetos expostos. Enquanto Alfredo vasculha as gavetas da frente da loja, Túlio ingressa nos fundos do estabelecimento com Fernanda, em busca de joias mais valiosas, momento em que decide levá-la ao banheiro e, então, mantém com Fernanda conjunção carnal. Após, Túlio e Alfredo fogem com as mercadorias. Em relação às condutas praticadas por Túlio e Alfredo, assinale a afirmativa correta. A) Túlio e Alfredo responderão por roubo duplamente circunstanciado, pelo concurso de pessoas e emprego de arma de fogo, e pelo delito de estupro, em concurso material. B) Túlio responderá por roubo circunstanciado pelo concurso de pessoas e estupro; Alfredo responderá por roubo duplamente circunstanciado, pelo concurso de pessoas e emprego de arma de fogo. C) Alfredo e Túlio responderão por roubo circunstanciado pelo concurso de pessoas e emprego de arma de fogo; Túlio também responderá por estupro, em concurso material. D) Túlio e Alfredo responderão por roubo circunstanciado pelo concurso de pessoas e emprego de arma de fogo; Túlio responderá por estupro, ao passo que Alfredo responderá por participação de menor importância no delito de estupro. 14. Regime inicial de cumprimento de pena O regime penitenciário é o meio pelo qual é executado ou efetivado o cumprimento da pena privativa de liberdade. O art. 33, § 1º, do CP prevê três regimes: a) Fechado: a pena privativa de liberdade é executada em estabelecimento de segurança máxima ou média; b) Semiaberto: a pena privativa de liberdade é executada em colônia agrícola, industrial ou estabelecimento similar; c) Aberto: a pena privativa de liberdade é executada em casa de albergado ou em estabelecimento adequado. Após estabelecer a quantidade da pena imposta da sentença, cumpre ao juiz fixar o regime inicial de cumprimento da pena privativa de liberdade, levando em conta: a) a quantidade da pena imposta; b) a reincidência; c) as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP. Nos termos do art. 33, caput, do CP, nos crimes apenados com reclusão, o juiz poderá fixar o regime inicial fechado, semiaberto ou aberto. Aos crimes apenados com detenção, o juiz poderá fixar o regime inicial semiaberto ou aberto. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 23 Logo, nos crimes apenados com detenção, não é possível ao juiz fixar o regime inicial fechado, podendo, no entanto, haver regressão para o regime fechado, no caso, por exemplo, de falta grave. Súm. nº 269 do STJ: “É admissível a adoção do regime prisional semiaberto aos reincidentes condenados à pena igual ou inferior a 4 anos se favoráveis as circunstâncias judiciais”. Além disso, a imposição de regime inicial fechado depende de fundamentação adequada, não se revestindo a gravidade em abstrato do delito motivação idônea para a fixação do regime de cumprimento de pena mais severo do que a pena aplicada exigir. É o que se extrai das Súm. nº 718 e 719 do STF, e Súm. nº 440 do STJ. 15. Penas restritivas de direito 15.1. Conceito São penas alternativas às privativas de liberdade, expressamente previstas em lei, com a finalidade de evitar o encarceramento de determinados criminosos, autores de infrações penais consideradas mais leves, provocando-lhes a recuperação por meio de restrições a certos direitos. Nos termos do art. 43 do CP, as penas restritivas de direitos são: a) prestação pecuniária; b) perda de bens e valores; c) prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas; d) interdição temporária de direitos; e) limitação de fim de semana. As penas restritivas de direitos são substitutivas, uma vez que o juiz, depois de fixar a pena privativa de liberdade, verificando a presença dos requisitos, efetua a substituição por uma ou mais penas restritivas de direitos, conforme o caso. Isso porque não há, no preceito secundário dos tipos penais incriminadores, previsão direta de pena restritiva de direitos, mas tão somente pena privativa de liberdade. 15.2. Requisitos objetivos a) Quantidade da pena aplicada: o legislador estabeleceu como parâmetro para a concessão da pena restritiva de direitos a pena aplicada na sentença, independentemente da pena abstratamente cominada no preceito secundário do tipo penal. Nos crimes dolosos, praticados sem violência ou grave ameaça, apenados com reclusão ou detenção, o limite estabelecido pelo legislador é de 4 (quatro) anos. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 24 Tratando-se de concurso de crimes, deve-se levar em conta o total da pena imposta, por conta da aplicação das regras do cúmulo material ou exasperação da pena. Dessa forma, se aplicadas as regras do concurso material, concurso formal e crime continuado, e o total da pena privativa de liberdade efetivamente imposta não exceder a 4 (quatro) anos, será possível a substituição por pena alternativa. No caso de condenação por crime culposo, a substituição será possível, independentemente da quantidade da pena imposta, não existindo tal requisito, ainda que resulte violência contra a pessoa, por exemplo, no homicídio culposo do Código Penal (art. 121, § 3º, CP) e no homicídio culposo na condução de veículo automotor (art. 302 do CTB). b) Natureza do crime cometido: em relação aos crimes dolosos, as penas restritivas de direitos são aplicáveis aos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa. 15.3. Requisitos subjetivos Os requisitos subjetivos levam emconta as características pessoais do sentenciado. a) Réu não reincidente em crime doloso: nos termos do art. 44, II, do CP, para concessão do benefício, é necessário que o sujeito não seja reincidente em crime doloso. O texto não trata de qualquer reincidente. Refere-se ao não reincidente em crime “doloso”, de modo que não há impedimento à aplicação da pena alternativa quando: a) os dois delitos são culposos; b) o anterior é culposo e o posterior é doloso; c) o anterior é doloso e o posterior culposo. Ainda que o réu seja reincidente em crime doloso, o Código Penal, no seu art. 44, § 3º, prevê uma exceção. Se, em face de condenação anterior, a medida for socialmente recomendável e a reincidência não se tenha operado em virtude da prática do mesmo crime, será possível aplicar a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos. b) A culpabilidade, os antecedentes, a conduta ou a personalidade ou ainda os motivos e circunstâncias recomendarem a substituição: conforme o art. 44, III, do CP, “a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que essa substituição seja suficiente”. Convém notar que esses requisitos praticamente reproduzem as circunstâncias judiciais previstas no art. 59, caput, do CP, com exceção de duas: comportamento da vítima e consequências do crime, coincidentemente as únicas de natureza objetiva. Logo, verifica-se que o art. 44, III, do CP somente levou em conta as circunstâncias subjetivas. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 25 15.4. Penas restritivas de direitos e violência doméstica ou familiar contra a mulher Nos termos do art. 17 da Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, “é vedada a aplicação, nos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, de penas de cesta básica ou outras de prestação pecuniária, bem como a substituição de pena que implique o pagamento isolado de multa”. Conforme a Súm. nº 588 do STJ, a prática de crime ou contravenção penal contra a mulher com violência ou grave ameaça no ambiente doméstico impossibilita a substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos. 16. Concurso de crimes 16.1. Concurso material Art. 69 do Código Penal Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela. Ocorre o concurso material, também chamado de real, quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não (art. 69, caput, do CP). Há, pois, pluralidade de condutas e pluralidade de resultados. Na hipótese de crimes conexos apurados na mesma ação penal, a soma das penas, pelo concurso material, será realizada na própria sentença, após a adoção do critério trifásico para cada um dos delitos. Ex.: o agente pratica o crime de estupro (art. 213 do CP) e, para assegurar a sua impunidade, mata, na sequência, a vítima (art. 121, § 2º, V, do CP). Imaginemos que o juiz fixe, em relação ao delito de estupro, a pena de 8 (oito) anos; e em relação ao crime de homicídio qualificado, a pena de 20 (vinte) anos. Ao final, verificando-se tratar de concurso material de crimes, o Magistrado aplicará o sistema do cúmulo material, somando as penas, alcançando a pena definitiva de 28 anos. 16.2. Concurso formal Art. 70 do Código Penal Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 26 uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior. Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código. Ocorre o concurso formal (ou ideal) quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes (art. 70, caput, do CP). Há unidade de conduta e pluralidade de crimes. O concurso formal perfeito, ou próprio, está previsto na primeira parte do art. 70 do CP. Ocorre quando o agente pratica duas ou mais infrações penais por meio de uma única conduta. Resulta de um único desígnio. O agente, de um só impulso volitivo, dá causa a dois ou mais resultados, sem desígnios autônomos em relação a cada um dos resultados. Desígnio autônomo caracteriza-se pelo fato de o agente pretender, mediante uma única conduta, atingir dois ou mais resultados. Ou seja, o agente, mediante uma ação ou omissão, age com consciência e vontade em relação a cada um deles, considerados isoladamente. Assim, se, por exemplo, o agente, na condução de veículo automotor, atropela e causa a morte de uma pessoa e lesão corporal em outra, pratica crime de homicídio culposo na condução de veículo automotor (art. 302 do CTB), em concurso formal perfeito, já que não tinha desígnios autônomos em relação a cada um dos resultados. Em relação ao concurso formal perfeito, ou próprio, o Código Penal adotou o sistema de exasperação da pena. Aplica-se a pena do crime mais grave ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. No concurso formal imperfeito, ou impróprio, o agente, mediante uma ação ou omissão, pretende, de forma consciente e voluntária, o resultado em relação a cada um dos crimes. Ex.: o agente provoca fogo em uma residência com a intenção de matar todos os moradores. O agente tem desígnios autônomos (intenção de matar) em relação a cada um dos moradores da residência. A expressão “desígnios autônomos” abrange tanto o dolo direto quanto o dolo eventual. Assim, haverá concurso formal imperfeito, por exemplo, entre o delito de homicídio doloso com dolo direto e outro com dolo eventual. No concurso formal imperfeito, ou impróprio, por conta do maior grau de reprovabilidade da conduta do agente, visando a não beneficiar agente que agiu com desígnios autônomos em relação a cada resultado, as penas devem ser somadas, adotando-se o critério do cúmulo material, nos termos do art. 70, caput, 2ª parte, do CP. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 27 *Para todos verem: tabela comparativa. 16.3. Crime continuado Art. 71 do Código Penal Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplicasse-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços. Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes, cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o juiz, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único do art. 70 e do art. 75 deste Código. Ocorre o crime continuado quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie, devendo os subsequentes, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, ser havidos como continuação do primeiro. Para a incidência das regras do crime continuado é preciso verificar a presença de requisitos dispostos no art. 71 do CP, consistentes: a) na pluralidade de condutas; b)na pluralidade de crimes da mesma espécie; c) nas mesmas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes. 16.4. Concurso material benéfico Art. 70 do Código Penal Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior. Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código. Concurso formal perfeito • Sem desígnios autônomos; • Exasperação da pena; • Pena do crime mais grave e aumenta de 1/6 até 1/2. Concurso formal imperfeito • Desígnios autônomos; • Cúmulo material. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 28 Se da aplicação da regra da exasperação da pena, no concurso formal, a pena tornar-se superior à que resultaria se somadas, deve-se adotar o critério do cúmulo material, porque, nesse caso, será mais benéfico (art. 70, par. ún., do CP). Ex.: suponha-se que o agente tenha praticado um homicídio simples (art. 121 do CP – pena de 6 a 20 anos) e uma lesão corporal leve (art. 129, caput, do CP – pena de 3 meses a 1 ano), em concurso formal. Aplicado o critério da exasperação da pena, considerando-se a pena do crime mais agrave, acrescido de 1/6, resultaria na pena de 7 (sete) anos. Se aplicada a pena considerando-se o critério do cúmulo material, considerando-se a pena aplicada para crime de homicídio simples (6 anos) e lesão corporal leve (3 meses), a pena definitiva ficaria em 6 (seis) anos e 3 (três) meses. Essa seria a pena a ser aplicada, já que a aplicação do critério do concurso material é mais benéfico. Em face disso, a pena a ser aplicada não pode ser superior à que seria cominada se fosse caso de concurso material, aplicando-se, nesse caso, o disposto no art. 70, par. ún., do CP. Resolva a questão a seguir: 10) FGV - 2021 - OAB – 33º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Félix, com dolo de matar seus vizinhos Lucas e Mário, detona uma granada na varanda da casa desses, que ali conversavam tranquilamente, obtendo o resultado desejado. Os fatos são descobertos pelo Ministério Público, que denuncia Félix por dois crimes autônomos de homicídio, em concurso material. Após regular procedimento, o Tribunal do Júri condenou o réu pelos dois crimes imputados e o magistrado, ao aplicar a pena, reconheceu o concurso material. Diante da sentença publicada, Félix indaga, reservadamente, se sua conduta efetivamente configuraria concurso material de dois crimes de homicídio dolosos. Na ocasião, o(a) advogado(a) do réu, sob o ponto de vista técnico, deverá esclarecer ao seu cliente que sua conduta configura dois crimes autônomos de homicídio, A) em concurso material, sendo necessária a soma das penas aplicadas para cada um dos delitos. B) devendo ser reconhecida a forma continuada e, consequentemente, aplicada a regra da exasperação de uma das penas e não do cúmulo material. C) devendo ser reconhecido o concurso formal próprio e, consequentemente, aplicada a regra da exasperação de uma das penas e não do cúmulo material. D) devendo ser reconhecido o concurso formal impróprio, o que também imporia a regra da soma das penas aplicadas. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 29 Aula 10/11/2023 – Turno da manhã 1. Crimes contra a vida 1.1. Homicídio Art. 121 do Código Penal Matar alguém. Pena - reclusão, de seis a vinte anos. Observações importantes: a) Homicídio simples (art. 121, caput): o homicídio simples se dá por exclusão, ou seja, quando não presente nenhuma circunstância qualificadora prevista no parágrafo 2º. Via de regra não é considerado crime hediondo, somente se for praticado mediante atividade típica de grupo de extermínio. b) Homicídio privilegiado (art. 121, § 1º do CP): o artigo 121, § 1º, do Código Penal, descreve o homicídio privilegiado como o fato de o sujeito cometer o delito impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima. Neste caso, o juiz pode reduzir a pena de 1/6 a 1/3. c) Homicídio qualificado (art. 121, § 2º CP): é o homicídio praticado com circunstâncias legais que integram o tipo penal incriminador, alterando para mais a faixa de fixação da pena. Dizem respeito aos motivos determinantes do crime e aos meios e modos de execução, reveladores de maior periculosidade ou extraordinário grau de perversidade do agente. Portanto, da pena de reclusão de 06 a 20 anos, prevista para o homicídio simples, passa-se ao mínimo de 12 e ao máximo de 30 para a figura qualificada. Tentado ou consumado, o homicídio doloso qualificado é crime hediondo, nos termos do artigo 1º, inciso I, da Lei nº 8.072/90. d) Feminicídio: a partir da edição da Lei nº 13.104/2015, o crime de homicídio passou a ser qualificado também se praticado contra a mulher por razões da condição de sexo feminino. Nos termos do artigo 121, parágrafo 2º-A, o legislador considera que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve: I - violência doméstica e familiar; II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Para o STJ a qualificadora do feminicídio pode ser cumulada com o motivo torpe ou fútil Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 30 sem que haja bis in idem. e) Lei nº 14.344/2022: com o advento da lei Henry Borel (Lei nº 14.344 de 2022) o homicídio praticado contra menor de 14 anos passou a ser qualificado, nos termos do artigo 121, § 2º, inciso IX do CP. Ademais, o artigo 121, § 2ºB (incluído também pela Lei Henry Borel) elenca causas de aumento de pena específicas, quais sejam: I - 1/3 (um terço) até a metade se a vítima é pessoa com deficiência ou com doença que implique o aumento de sua vulnerabilidade; II - 2/3 (dois terços) se o autor é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tiver autoridade sobre ela. 1.2. Induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio ou automutilação Art. 122, do CP. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou a praticar automutilação ou prestar-lhe auxílio material para que o faça: Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. § 1º Se da automutilação ou da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 129 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. § 2º Se o suicídio se consuma ou se da automutilação resulta morte: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos. § 3º A pena é duplicada: I - se o crime é praticado por motivo egoístico, torpe ou fútil; II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. § 4º A pena é aumentada até o dobro se a conduta é realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real. § 5º Aumenta-se a pena em metade se o agente é líder ou coordenador de grupo ou de rede virtual. § 6º Se o crime de que trata o § 1º deste artigo resulta em lesão corporal de natureza gravíssima e é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime descrito no § 2º do art. 129 deste Código. § 7º Se o crime de que trata o § 2º deste artigo é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem não tem o necessário discernimento para a práticado ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime de homicídio, nos termos do art. 121 deste Código. a) Conceito de suicídio: é a morte voluntária, que resulta, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo, realizado pela própria vítima, a qual sabia dever produzir este resultado. O Código Penal leva em conta o ato da vítima, que vem a destruir a própria vida. Observação especial: se o ato de destruição é praticado pelo próprio agente haverá o crime de homicídio. Da mesma forma se não houver voluntariedade (vítima induzida a erro ou obrigada a se matar) haverá o crime de homicídio. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 31 b) Automutilação: a autolesão não é punida. O que constitui crime é a conduta de induzir, instigar ou auxiliar a vítima a se automutilar, ou seja, de causar lesões em si própria. c) Ação nuclear: trata-se de um tipo misto alternativo (crime de ação múltipla ou de conteúdo variado). Induzir significa dar a ideia a quem não possui, inspirar, incutir. Portanto, nessa primeira conduta, o agente sugere à vítima que dê fim à sua vida ou se automutile. Instigar é fomentar uma ideia já existente. Trata-se, pois, do agente que estimula a ideia que alguém anda manifestando. Já o Auxílio é a forma mais concreta e ativa de agir, pois significa dar apoio material ao ato suicida. Exemplo: o agente fornece a arma utilizada para a vítima dar fim à sua vida ou se automutilar. d) Figuras típicas qualificadas: Art. 122, §1º, do CP. Se da automutilação ou da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 129 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. §2º Se o suicídio se consuma ou se da automutilação resulta morte: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos. e) Formas majoradas (art. 122, § 3º): • Se o crime é praticado por motivo egoístico: motivo egoístico é o excessivo apego a si mesmo, o que evidencia o desprezo pela vida alheia, desde que algum benefício concreto advenha ao agente. Logicamente, merece maior punição. Exemplo: é o caso de o sujeito induzir a vítima a suicidar-se para ficar com a herança; • Se a vítima é menor: em segundo lugar, a pena é majorada quando a vítima é menor. Qual a idade para efeito da majorante? Se a vítima é maior de 18 anos, aplica-se o “caput” do artigo 122. Se a vítima é menor de 14 anos, há crime de HOMICÍDIO. A majorante só é aplicável quando a vítima tem idade entre 14 e 18 anos; • Tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência: a terceira majorante prevê a hipótese de a vítima ter diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência, como enfermidade física ou mental, idade avançada. Ex.: induzir ao suicídio vítima embriagada. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 32 Por fim, é de ressaltar que o suicida com RESISTÊNCIA NULA, pelos abalos ou situações supramencionadas, incluindo-se a idade inferior a 14 anos, haverá o emprego das regras especiais estabelecidas nos parágrafos 6º e 7º do CP. f) Pacto de morte: é possível que duas ou mais pessoas promovam um pacto de morte, deliberando morrer ao mesmo tempo. Se cada uma das pessoas ingerir veneno, de per si, por exemplo, aquela que sobreviver responderá por participação em suicídio, tendo por sujeito passivo a outra. Se uma delas ministrar diretamente o veneno na outra, a que sobreviver responderá por homicídio. Em síntese, os atos executórios contra a própria vida devem partir exclusivamente da vítima. 1.3. Infanticídio Art. 123 do Código Penal Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após. Pena - detenção, de dois a seis anos. Princípio da especialidade: *Para todos verem: esquema. Marco inicial: início do parto (eliminação da vida humana durante o parto ou logo após). Antes do início do parto: aborto. Atenção ao erro sobre a pessoa: art. 20, §3º, do CP. 1.4. Aborto Sujeito passivo Próprio filho Sujeito ativo Mãe Elemento subjetivo Influência do estado puerperal (perícia) Elemento temporal Durante o parto ou logo após Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 33 Art. 124 do Código Penal (gestante) Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lhe provoque: Pena - detenção, de um a três anos. Art. 125 do Código Penal (terceiro) Provocar aborto, sem o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de três a dez anos. Art. 126 do Código Penal (terceiro) Provocar aborto com o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de um a quatro anos. Parágrafo único. Aplica-se a pena do artigo anterior, se a gestante não é maior de quatorze anos, ou é alienada ou debil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência Art. 127 do Código Penal (aborto majorado) As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço, se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte. Art. 128 do Código Penal (aborto legal) I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. Divisão: *Para todos verem: esquema. Eliminação da vida humana intrauterina. Gestante - 124 do CP Autoaborto (1) Aborto consentido (2) Terceiro - 125 do CP Aborto sem consentimento da gestante Terceiro - 126 do CP Aborto com consentimento da gestante Aborto legal - 128 do CP Médico I - necessário/terapêutico: se não há outro meio de salvar a gestante (não precisa de autorização da gestante/rep. legal) Aborto legal - 128 do CP Médico II - sentimental/humanitário: se a gravidez resulta de estupro (precisa de autorização da gestante/rep. legal) Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 34 Marco inicial: nidação. Marco final: antes do início do parto (se for após haverá homicídio ou infanticídio). ADPF 54: aborto do feto anencefálico (dignidade da pessoa humana). Atenção ao crime impossível: art. 17 do CP. 2. Lesão corporal Art. 129 do Código Penal Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem. Pena - detenção, de três meses a um ano. Na lesão corporal o agente atua com animus laedendi, ou seja, age com a intenção de produzir uma lesão corporal na vítima. Assim sendo, o agente não tem intenção de matar nem assume o risco de produzir o resultado morte, pois, em tal caso, responderia pelo crime de homicídio. a) Lesão corporal dolosa lesão corporal dolosa, regra geral, varia de acordo com o grau da lesão corporal, podendo ser simples (exclusão), grave (parágrafo 1º), gravíssima (parágrafo 2º) ou seguida de morte (parágrafo 3º). Atenção: • Lesão corporal grave: Art. 129 do Código Penal § 1º Se resulta: I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias; II - perigo de vida; III - debilidade permanente de membro, sentido ou função; IV - aceleração de parto: Pena - reclusão, de um a cinco anos. • Lesão corporal gravíssima: Art. 129 do Código Penal § 2° Se resulta: I - Incapacidade permanente para o trabalho; II - enfermidade incurável; III - perda ou inutilização do membro, sentido ou função; IV - deformidade permanente; V - aborto: Pena - reclusão, de dois a oito anos. Seguida de morte: • Lesão corporal seguida de morte: Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 35 Art. 129 do Código Penal § 3° Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo: Pena - reclusão, de quatro a doze anos. A lesãocorporal seguida de morte possui natureza preterdolosa, ou seja, deve o agente agir com dolo em relação à conduta inicial (lesão corporal) e culpa em relação ao resultado morte. Trata-se de crime expressamente subsidiário, somente podendo ser reconhecido na impossibilidade do homicídio (se o agente agiu com dolo direto ou dolo eventual em relação ao resultado morte). b) Lesão corporal culposa: a lesão corporal culposa não varia de acordo com a intensidade, sempre será culposa (se agindo com negligência, imprudência ou imperícia). Art. 129 do Código Penal § 6° Se a lesão é culposa: Pena - detenção, de dois meses a um ano. c) Lesão corporal especial (art. 129, § 13): Art. 129 do Código Penal § 13. Se a lesão for praticada contra a mulher, por razões da condição do sexo feminino, nos termos do § 2º-A do art. 121 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro anos). d) Lesão corporal funcional: é crime hediondo em se tratando de lesão corporal gravíssima ou seguida de morte. Art. 129 do Código Penal § 12. Se a lesão for praticada contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição, a pena é aumentada de um a dois terços. 3. Crimes contra a honra *Para todos verem: esquema. Bem jurídico: honra Honra objetiva Reputação social do indivíduo Calúnia e difamação Honra subjetiva Imagem pessoal perante ele mesmo Injúria Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 36 3.1. Calúnia (art. 138 do CP) Imputação falsa de fato definido como crime. Tem certeza de que está imputando um crime a um inocente. O fato precisa ser um CRIME. Via de regra, cabe exceção da verdade. Só não caberá exceção da verdade nos casos previstos no parágrafo 3º do artigo 138. 3.2. Injúria (art. 140 do CP) Imputação de uma qualidade negativa. A injúria, quando cometida por escrito, admite a tentativa; quando por meio verbal, não. Nos termos do artigo 140, parágrafo 2º do CP se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes haverá a injúria real com pena de detenção de três meses a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência. Por sua vez, nos termos do artigo 140, parágrafo 3º CP (já com a redação atualizada pela Lei nº 14.532/2023) se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a religião ou à condição de pessoa idosa ou com deficiência haverá a injúria qualificada com pena de reclusão, de 1 a 3 anos e multa. Quando o agente se dirige a uma pessoa de determinada raça, insultando-a com argumentos ou palavras de conteúdo pejorativo, responderá por injúria racial, nos termos do artigo 2º-A da Lei nº 7716 de 1989, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa não podendo alegar que houve uma injúria simples, tampouco uma mera exposição do pensamento (como dizer que todo “judeu é corrupto” ou que “negros são desonestos”), uma vez que não há limite para tal liberdade. Assim, quem simplesmente dirigir a terceiro palavras referentes à “raça”, “cor”, “etnia” ou “procedência nacional”, com o intuito de ofender, responderá por injúria racial nos termos do dispositivo legal citado. Ademais, vale destacar que, nos termos do parágrafo único do artigo 2º- A da Lei nº 7716/1989 a pena será aumentada de metade se o crime for praticado mediante o concurso de duas ou mais pessoas. 3.3. Difamação (art. 139 do CP) Imputação de um fato ofensivo à reputação do indivíduo (que não é crime). Pode ser contravenção penal. Via de rega, não cabe exceção da verdade. Caberá exceção da verdade se a ofensa for dirigida a funcionário público no exercício das funções. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 37 Causas de aumento de pena: Art. 141 do Código Penal As penas cominadas neste Capítulo aumentam-se de um terço, se qualquer dos crimes é cometido. I - contra o Presidente da República, ou contra chefe de governo estrangeiro; II - contra funcionário público, em razão de suas funções, ou contra os Presidentes do Senado Federal, da Câmara dos Deputados ou do Supremo Tribunal Federal; III - na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria. IV - contra pessoa maior de 60 (sessenta) anos ou portadora de deficiência, exceto no caso de injúria. Retratação: Art. 143 do Código Penal O querelado que, antes da sentença, se retrata cabalmente da calúnia ou da difamação, fica isento de pena. Parágrafo único - Nos casos em que o querelado tenha praticado a calúnia ou a difamação utilizando-se de meios de comunicação, a retratação dar-se-á, se assim desejar o ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa. Ação penal: Art. 145 do Código Penal Nos crimes previstos neste Capítulo somente se procede mediante queixa, salvo quando, no caso do art. 140, § 2º, da violência resulta lesão corporal. Parágrafo único - Procede-se mediante requisição do Ministro da Justiça, no caso do inciso I do caput do art. 141 deste Código, e mediante representação do ofendido, no caso do inciso II do mesmo artigo, bem como no caso do § 3º do art. 140 deste Código. Conforme se extrai do art. 145 do CP, nos crimes contra a honra, a regra é a de ação penal privada da vítima ou do seu representante legal. Todavia, resultando lesão física na vítima (injúria real com lesão corporal), apura-se o crime mediante ação penal pública incondicionada. No entanto, com o advento da Lei no 9.099/1995, alguns autores entendem que se trata de ação penal pública condicionada à representação, já que é a prevista para os crimes de lesão corporal leve. Será penal pública condicionada à representação no caso de o delito ser cometido contra funcionário público, no exercício das funções (art. 141, II), e condicionada à requisição do Ministro da Justiça no caso do inciso I do art. 141 (contra o Presidente da República ou Chefe de Governo Estrangeiro). Convém ressaltar a Súm. no 714 do STF: Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 38 Súmula nº 714 do STF. É concorrente a legitimidade do ofendido, mediante queixa, e do ministério público, condicionada à representação do ofendido, para a ação penal por crime contra a honra de servidor público em razão do exercício de suas funções. Por último, vale destacar que a injúria qualificada do parágrafo 3º do artigo 140 será de ação penal pública condicionada à representação enquanto a injúria racial (art. 2º-A da Lei nº 7.716 de 1989) será de ação penal pública incondicionada. 4. Crimes contra o patrimônio 4.1. Furto • Ação nuclear é subtrair, que significa tirar, retirar de outrem bem móvel, sem a sua permissão com o fim de assenhoreamento definitivo. A subtração implica sempre a retirada do bem sem o consentimento do possuidor ou proprietário; • Agente não tem a posse anterior do bem e inverte a posse; • É indispensável que o agente tenha a intenção de possuir a coisa alheia móvel, submetendo-a ao seu poder, isto é, de não devolver o bem, de forma alguma. É o chamado animus rem sibii habendi; • Não existe na modalidade culposa; • Para os nossos Tribunais Superiores (STF/STJ), para o furto atingir a consumação basta a subtração da coisa, ou seja, a inversão da posse, ainda que por curto espaço de tempo e em seguida a perseguição do agente, sendo prescindível a posse mansa e pacífica ou desvigiada. Neste sentido temos a Súmula 582 do STJ (referente ao roubo mas aplicável por analogia ao crime de furto), o RESP 1524450/RJ, o AgRg no ARESP 1.546.170/SO de 26/11/2019 do STJ e o HC 135674 de 27/09/2016 da 2° turma doSTF. 4.2. Apropriação indébita Art. 168 do Código Penal Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção. Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. § 1º - A pena é aumentada de um terço, quando o agente recebeu a coisa: I - em depósito necessário; II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante, testamenteiro ou depositário judicial; III - em razão de ofício, emprego ou profissão. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 39 O pressuposto do crime de apropriação indébita é a anterior posse lícita da coisa alheia, da qual o agente se apropria indevidamente. A posse, que deve preexistir ao crime, deve ser exercida pelo agente em nome alheio, isto é, em nome de outrem. O núcleo do tipo é o verbo “apropriar-se”, que significa fazer sua a coisa alheia. Tendo o sujeito a posse ou a detenção do objeto material, em dado momento faz mudar o título da posse ou da detenção, comportando-se como se dono fosse. 4.3. Roubo Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência: Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa. § 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro. § 2º A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) até metade: I – (revogado); II - se há o concurso de duas ou mais pessoas; III - se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância. IV - se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior; V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade. VI – se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego. VII - se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma branca; § 2º-A A pena aumenta-se de 2/3 (dois terços): I – se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma de fogo; II – se há destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. § 2º-B. Se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo. § 3º Se da violência resulta: I – lesão corporal grave, a pena é de reclusão de 7 (sete) a 18 (dezoito) anos, e multa; II – morte, a pena é de reclusão de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, e multa. *Para todos verem: esquema. Ação nuclear: a ação nuclear do tipo, identicamente ao furto, consubstancia-se no verbo subtrair, que significa tirar, retirar, de outrem, no caso bem móvel. Agora, contudo, estamos Violência Grave ameaça Redução da capacidade de resistência Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 40 diante de um crime mais grave que o furto, na medida em que a subtração é realizada mediante o emprego de grave ameaça ou violência contra a pessoa, ou por qualquer outro meio que reduza a capacidade de resistência da vítima. 4.3.1. Espécies de roubo *Para todos verem: tabela comparativa. Roubo próprio (artigo 157, caput) Roubo impróprio (artigo 157, § 1°) Admite violência ou grave ameaça (violência própria) ou violência imprópria (diminuição da capacidade de resistência). Somente admite a violência ou grave ameaça (violência própria). A violência ou grave ameaça é empregada antes ou durante a subtração. A violência ou a grave ameaça é empregada após a subtração. A violência ou a grave ameaça é empregada como meio para subtrair o bem para si ou para terceiro. A violência ou grave ameaça é empregada para assegurar a impunidade ou a detenção da coisa para si ou para terceiro. Consumação e tentativa: nos termos da Súmula nº 582 do STJ, “Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem mediante emprego de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em seguida à perseguição imediata ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo prescindível a posse mansa e pacífica ou desvigiada”. 4.4. Estelionato a) Ação nuclear: consiste em induzir ou manter alguém em erro, mediante o emprego de artifício, ardil, ou qualquer meio fraudulento, a fim de obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita em prejuízo alheio. A característica primordial do estelionato é a fraude: engodo empregado pelo sujeito para induzir ou manter a vítima em erro, com o fim de obter um indevido proveito patrimonial. O meio de execução deve ser apto a enganar a vítima. Tratando-se de meio grotesco, que facilmente demonstra a intenção fraudulenta, não há nem tentativa, por atipicidade do fato. b) Consumação e tentativa: trata-se de crime material. Consuma-se com a obtenção da vantagem ilícita indevida, em prejuízo alheio, ou seja, quando o agente aufere o proveito econômico, causando dano à vítima. Via de regra, esses resultados ocorrem simultaneamente. Há, assim, ao mesmo tempo, a obtenção de proveito pelo estelionatário e o prejuízo da vítima. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 41 A tentativa é perfeitamente possível, por exemplo, no caso em que o agente por circunstâncias alheias à sua vontade não consiga obter o prejuízo em detrimento da vítima. Considerações importantes! Falsidade documental como fraude para a prática do estelionato: imagine que o agente pratique uma falsidade documental (falsidade de documento público, particular ou ideológica) como meio para induzir ou manter a vítima em erro e desta forma obter a vantagem ilícita e causar prejuízo alheio. Exemplo: o agente falsifica um cheque para comprar em determinada rede de estabelecimentos comerciais. O STJ, na Súmula nº 17, entende pela absorção do delito de falso pelo estelionato, desde que não haja mais potencialidade lesiva. c) Fraude no pagamento por meio de cheque (art. 171, § 2°, inciso VI do CP): se o indivíduo emite um cheque na certeza de que tem fundos disponíveis para o devido pagamento pelo banco, quando na realidade não há qualquer numerário depositado na agência bancária, não se pode falar em ilícito criminal, ante a ausência de má-fé. O que a lei penal pune é o pagamento fraudulento. Nesse sentido é o teor da Súmula nº 246 do STF: “comprovado não ter havido fraude, não se configura o crime de emissão de cheque sem fundos”. Podemos destacar que diante das alterações promovidas pela Lei nº 14.155 de 2021 essa súmula perdeu o objeto, uma vez que no parágrafo 4º do artigo 70 do CPP o juízo competente será o do domicílio da vítima. Arrependendo-se o agente antes da apresentação do título pelo beneficiário no banco sacado, e depositando o numerário necessário para cobrir a quantia constante do cheque, haverá arrependimento eficaz, não respondendo ele por crime algum. Se, por outro lado, o agente arrepender-se somente após a consumação do crime, ou seja, após a recusa do pagamento pelo banco sacado, incidirá a Súmula nº 554 do STF: “O pagamento de cheque emitido sem provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta ao prosseguimento da ação penal”. Assim, o pagamento do cheque antes do recebimento da denúncia extingue a punibilidade do agente. d) Lei nº 14.155/2021: cumpre ressaltar que a Lei nº 14.155/2021, a qual entrou em vigor em 27 de maio de 2021, acrescentou os parágrafos 2°-A e 2°-B: § 2º-A. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se a fraude é cometida com a utilização de informaçõesfornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 42 meio de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo. § 2º-B. A pena prevista no § 2º-A deste artigo, considerada a relevância do resultado gravoso, aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado mediante a utilização de servidor mantido fora do território nacional. e) Ação penal (art. 171, § 5° do CP): com o advento da Lei nº 13.964/19, a qual incluiu o parágrafo 5° no artigo 171 do CP, o qual dispõe que a regra da ação penal no crime de estelionato será pública condicionada à representação, com exceção nos casos em que a administração pública (direta ou indireta), criança ou adolescente, pessoa com deficiência mental ou maior de 70 anos de idade ou incapaz forem vítimas, hipóteses em que a ação penal será pública e incondicionada. Resolva a questão a seguir: 11) FGV - 2022 - OAB – 36º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Américo é torcedor fanático de um grande clube brasileiro, que disputa todos os principais campeonatos nacionais e internacionais. Américo recebeu a notícia de que seu clube iria jogar uma partida no estádio de sua cidade, porém, ao tentar adquirir os ingressos, descobriu que estes já haviam se esgotado. André, seu vizinho, torcedor do time rival, sempre incomodado com os gritos de comemoração que Américo soltava em dias de jogo, resolveu se vingar, oferecendo ingressos falsos para Américo. Sem saber da falsidade, Américo aceitou a oferta, porém, no momento da concretização do pagamento, percebeu, por sua acurada expertise no tema ingressos de futebol, que os ingressos eram falsos. Com base na situação hipotética, é correto afirmar que a conduta de André corresponde ao crime de A) “cambismo”, do Estatuto do Torcedor, na modalidade tentada. B) falsificação de documento público. C) estelionato, na modalidade tentada. D) uso de documento falso. Resolva a questão a seguir: 12) FGV - 2023 - OAB – 37° Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Eduardo trabalha como porteiro do condomínio, e possui um primo, de nome Ygor, envolvido em vários crimes. A semelhança entre ambos sempre foi notória. Certa noite, após Eduardo se ausentar da portaria para colocar as lixeiras do prédio na rua, Ygor, aproveitando-se dos traços físicos muito parecidos com os do seu primo, também vestido com um uniforme idêntico, ingressa no edifício e subtrai vários pacotes endereçados aos moradores. Alguns moradores viram a movimentação, mas pensaram que se tratava de Eduardo arrumando e conferindo os pacotes. Baseando-se no caso hipotético, Ygor cometeu A) furto qualificado mediante fraude. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 43 B) estelionato. C) falsa identidade. D) furto qualificado por abuso de confiança. Resolva a questão a seguir: 13) FGV - 2023 - OAB – 37° Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Silvio, mediante emprego da ameaça de “esquartejá-la com sua espada”, arrancou o cordão de ouro do pescoço de Ana. Após tal subtração, Silvio foi perseguido por policiais militares, que lograram prendê-lo em flagrante delito e recuperar o bem subtraído da vítima. É correto afirmar que Silvio cometeu crime de A) extorsão tentada. B) roubo tentado. C) roubo impróprio. D) roubo consumado. 5. Crimes contra a dignidade sexual 5.1. Ação penal Art. 225 do Código Penal Nos crimes definidos nos Capítulos I e II deste Título, procede-se mediante ação penal pública incondicionada. 5.2. Causas de aumento de pena Art. 226 do Código Penal A pena é aumentada: I – de quarta parte, se o crime é cometido com o concurso de 2 (duas) ou mais pessoas; II - de metade, se o agente é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tiver autoridade sobre ela; III – revogado; IV - de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado: a) mediante concurso de 2 (dois) ou mais agentes; b) para controlar o comportamento social ou sexual da vítima. 5.3. Estupro Art. 213 do Código Penal Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 44 *Para todos verem: esquema. Tipo penal misto alternativo: desta feita, se o agente no mesmo contexto fático praticar ato libidinoso diverso e conjunção carnal mediante violência ou grave ameaça contra a mesma vítima haverá apenas um crime de estupro e não concurso de crimes. Prescindibilidade do contato físico entre o agente e a vítima: pode-se falar em crime de estupro mesmo que não haja contato físico. Estupro qualificado: Art. 213 do Código Penal § 1º Se da conduta resulta lesão corporal de natureza grave ou se a vítima é menor de 18 (dezoito) ou maior de 14 (catorze) anos: Pena - reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. § 2º Se da conduta resulta morte: Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. 5.4. Estupro de vulnerável Art. 217-A do Código Penal Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. § 5º As penas previstas no caput e nos §§ 1º, 3º e 4º deste artigo aplicam-se independentemente do consentimento da vítima ou do fato de ela ter mantido relações sexuais anteriormente ao crime. Ter conjunção carnal ou praticar ato libidinoso diverso com menor de 14 anos (ainda que não haja violência, ainda que haja o consentimento da vítima). Neste sentido vale destacar que nos termos da súmula 593 do STF e do parágrafo 5 do artigo 217-a do CP a presunção de vulnerabilidade será absoluta. Outras pessoas consideradas vulneráveis: Art. 217-A do Código Penal § 1º Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência. Crime bicomum Sujeito ativo Qualquer pessoa Sujeito passivo Qualquer pessoa Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 45 Atenção especial: deve o agente ter ciência da condição de vulnerabilidade da vítima. caso o agente erra sobre tal condição, como por exemplo, acreditar que está mantendo relação sexual com alguém maior de 18 anos quando na verdade tinha menos de 14 anos poderá alegar o erro de tipo, tornando o fato atípico (erro de tipo). Resolva a questão a seguir: 14) FGV - 2023 - OAB – 37º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Antônio, de 49 anos, manteve numerosas relações sexuais consensuais com Miriam, à época com 13 anos, que tinha experiência sexual anterior, durante o namoro entre eles. Antônio tinha conhecimento da idade de Miriam. Sobre o caso, assinale a afirmativa correta. A) Antônio cometeu conduta típica, ilícita e culpável. B) Antônio cometeu conduta ilícita e culpável, mas não típica. C) Antônio cometeu conduta típica e culpável, mas não ilícita. D) Antônio cometeu conduta típica e ilícita, mas não culpável. Resolva a questão a seguir: 15) FGV - 2022 - OAB – 36º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Robson, diretor-presidente da Sociedade Empresária RX Empreendimentos, telefona para sua secretária Camila e solicita que ela compareça à sua sala. Ao ingressar no recinto, Camila é convidada para sentar ao lado de Robson no sofá, pois ele estaria precisando conversar com ela. Apesar de achar estranho o procedimento, Camila se senta ao lado de seu chefe. Durantea conversa, Robson afirma que estaria interessado nela e a convida para ir a um motel. Camila recusa o convite e, ato contínuo, Robson afirma que se ela não aceitar, nem precisa retornar ao trabalho no dia seguinte, pois estaria demitida. Camila, desesperada, sai da sala de seu chefe, pega sua bolsa e vai até a Delegacia Policial do bairro para registrar o fato. Diante das informações apresentadas, é correto afirmar que a conduta praticada por Robson se amolda ao crime de A) tentativa de assédio sexual (Art. 216-A), não chegando o crime a ser consumado na medida em que se trata de crime material, exigindo a produção do resultado, o que não ocorreu na hipótese; B) assédio sexual consumado, uma vez que o delito é formal, ocorrendo a sua consumação independentemente da obtenção da vantagem sexual pretendida; C) fato atípico, uma vez que a conduta praticada por Robson configura mero ato preparatório do crime de assédio sexual, sendo certo que os atos preparatórios não são puníveis; D) importunação sexual (Art. 215-A), uma vez que Robson praticou, contra a vontade de Camila, ato visando à satisfação de sua lascívia. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 46 Resolva a questão a seguir: 16) FGV - 2022 - OAB – 35º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase No dia 31/12/2020, na casa da genitora da vítima, Fausto, com 39 anos, enquanto conversava com Ana Vitória, de 12 anos de idade, sem violência ou grave ameaça à pessoa, passava as mãos nos seios e nádegas da adolescente, conduta flagrada pela mãe da menor, que imediatamente acionou a polícia, sendo Fausto preso em flagrante. Preocupada com eventual represália e tendo interesse em ver o autor do fato punido, em especial porque sabe que Fausto cumpre pena em livramento condicional por condenação com trânsito em julgado pelo crime de latrocínio, a família de Ana Vitória procura você, na condição de advogado(a), para esclarecimento sobre a conduta praticada. Por ocasião da consulta jurídica, deverá ser esclarecido que o crime em tese praticado por Fausto é o de A) estupro de vulnerável (Art. 217-A do CP), não fazendo jus Fausto, em caso de eventual condenação, a novo livramento condicional. B) importunação sexual (Art. 215-A do CP), não fazendo jus Fausto, em caso de eventual condenação, a novo livramento condicional. C) estupro de vulnerável (Art. 217-A do CP), podendo Fausto, em caso de condenação, após cumprimento de determinado tempo de pena e observados os requisitos subjetivos, obter novo livramento condicional. D) importunação sexual (Art. 215-A do CP), podendo Fausto, em caso de condenação, após cumprimento de determinado tempo de pena e observados os requisitos subjetivos, obter novo livramento condicional. 6. Crimes contra a fé pública 6.1. Conceito de fé pública A Fé Pública que pode ser entendida como a presunção de legitimidade e de veracidade que os documentos e os procedimentos públicos possuem, ou seja, basicamente a crença de que os documentos e procedimentos públicos são verdadeiros e estão em consonância com a lei. 6.2. Inexistência de crimes culposos Os crimes contra a fé pública são exclusivamente dolosos, não havendo previsão de modalidade culposa. Observação especial: há tipos penais contra a fé pública que além do dolo exigem uma finalidade especial do agente, tais como o crime de fraudes em certames de interesse público (art. 311-A), falsidade ideológica (art. 299 do CP) e falsa identidade (art. 307 do CP). 6.3. Incriminação autônoma de atos preparatórios O legislador, no artigo 291 e no artigo 294, incrimina, de forma autônoma, atos preparatórios de outros crimes: Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 47 Petrechos para falsificação de moeda Art. 291 - Fabricar, adquirir, fornecer, a título oneroso ou gratuito, possuir ou guardar maquinismo, aparelho, instrumento ou qualquer objeto destinado à falsificação de moeda: Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa. Petrechos de falsificação (papéis públicos) Art. 294 - Fabricar, adquirir, fornecer, possuir ou guardar objeto especialmente destinado à falsificação de qualquer dos papéis referidos no artigo anterior: Pena - reclusão, de um a três anos, e multa. 6.4. Exigência da imitatio veri É a aptidão do objeto falsificado para enganar, ou seja, é a semelhança com o produto original. Assim sendo se a falsificação for grosseira não haverá lesão à fé pública, podendo subsistir outros crimes como o estelionato por exemplo. Súmula nº 73 do STJ: a utilização de papel-moeda grosseiramente falsificado configura, em tese, o crime de estelionato, da competência da justiça estadual. 6.5. Principais crimes contra a fé pública a) Falsificação de documento público (art. 297): este artigo trata da falsidade material, ou seja, aquela que diz respeito à forma do documento. As ações nucleares se consubstanciam nos verbos: *Para todos verem: esquema. O crime consuma-se com a falsificação ou alteração do documento, sendo prescindível o uso efetivo deste. A tentativa é possível, pois há um iter criminis que pode ser fracionado. A tentativa ocorrerá se, por exemplo, o agente, estando no início do processo de formação da escritura pública falsa, tendo preenchido apenas algumas linhas, é surpreendido por terceiro. Nessa hipótese, não ocorreu ainda a contrafação total do documento, portanto o crime reputa-se tentado. • Significa formar, criar um novo documento.Falsificar • Significa modificar um documento que já existe. O documento é verdadeiro e o agente substitui seu conteúdo. Alterar Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 48 Aplica-se a Súmula nº 17 do STJ: “Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais potencialidade lesiva, é por este absorvido”. Trata-se da aplicação da regra de que o crime-fim absorve o crime-meio. b) Falsificação de documento particular (art. 298): também se trata de falsidade material, ou seja, aquela que diz respeito à forma do documento. A consumação e a tentativa, neste crime, funcionam da mesma forma como no crime de Falsificação de Documento Público. *Para todos verem: esquema. c) Falsidade ideológica: diferentemente dos delitos precedentes, estamos agora diante da chamada falsidade ideológica, aquela em que o documento é formalmente perfeito, sendo, no entanto, FALSA A IDEIA NELE CONTIDA. O sujeito tem legitimidade para emitir o documento, mas acaba por inserir-lhe um conteúdo sem correspondência com a realidade dos fatos. *Para todos verem: esquema. • Significa formar, criar um novo documento. Ex.: o agente se aproveita do espaço em branco entre o conteúdo da carta e a assinatura para inserir confissão de dívida, "criando" um novo documento. Falsificar • Significa modificar o documento. Na hipótese o documento é verdadeiro, e o agente substitui seu conteúdo, isto é, frases, palavras que alterem sua essência, incidindo, portanto, sobre aspectos relevantes do documento. Alterar Falsidade ideológica Omitir: deixar de inserir ou não mencionar. Inserir: colocar ou introduzir. Fazer inserir: proporcionar que se introduza. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 49 Ex.: assim, uma escritura lavrada pelo funcionário do Cartório de Registro de Imóveis é formalmente perfeita, pois a ele incumbe formar o instrumento público. Entretanto, se essa escrita encerrar declarações falsas prestadas pelo particular, haverá o crime de falsidade ideológica. *Para todos verem: esquema. d) Uso de documento falso: Art. 304 do Código Penal Fazer uso de qualquer dos papéis falsificados ou alterados, a que se referem os arts. 297 a 302. Pena - a cominada à falsificação ou à alteração. Súmula nº 546 do STJ: A competência para processar e julgar o crime de uso de documento falso é firmada em razão da entidade ouórgão ao qual foi apresentado o documento público, não importando a qualificação do órgão expedidor. 7. Crimes contra a administração pública 7.1. Súmula nº 599 do STJ A Súmula nº 599 do STJ, diante da especificidade do bem jurídico moralidade administrativa e da dificuldade de se precisar um valor, veda a aplicação do princípio da insignificância aos crimes contra a administração pública. • “Dele deveria constar” é expressão indicativa de um juízo valorativo jurídico, pertinente ao conteúdo esperado do documento. Ex. em uma carteira de habilitação, espera-se que conste, quando for o caso, que o motorista precisa usar óculos para dirigir. Se houver omissão desse dado relevante, trata-se de declaração que dele devia constar. Elementos normativos do tipo • Trata-se de crime comum. Qualquer pessoa pode praticá-lo. Caso seja funcionário público, incidirá a causa de aumento de pena prevista no parágrafo único do artigo. Sujeitos do delito •Consuma-se com a omissão ou a inserção da declaração falsa ou diversa da que deveria constar. Trata-se de crime formal; prescinde-se, portanto, da ocorrência efetiva do dano, bastando a capacidade de lesar terceiro. Consumação e tentativa Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 50 A exceção diz respeito ao crime de descaminho, previsto no artigo 334 do CP, no qual STF e STJ reconhecem a insignificância para valores até R$ 20.000,00. 7.2. Conceito de funcionário público Tendo em vista o fato de o funcionário público ostentar a condição de sujeito ativo nos crimes definidos no Capítulo I, é de suma importância definir o conceito de funcionário público para fins penais. Neste sentido, o legislador, no artigo 327 do CP, definiu o conceito de funcionário público para fins penais, havendo um verdadeiro caso de interpretação autêntica. Assim sendo, para fins penais, adotamos um conceito amplo de funcionário público, podendo ser enquadrado em tal definição todo aquele que exerce cargo, emprego ou função pública, ainda que transitoriamente e sem remuneração, abarcando, por exemplo, os estagiários, trabalhadores voluntários, servidores comissionados, temporários, etc. *Para todos verem: esquema. 7.3. Principais crimes praticados por funcionário público contra a administração pública em geral 7.3.1. Peculato – art. 312, do CP F u n c io n á ri o P ú b li c o Para os efeitos penais, é quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública. Equipara-se a funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função em entidade paraestatal, e quem trabalha para a empresa contratada/conveniada para prestrar serviço público. Aumenta-se a pena do crime quando os autores forem ocupantes de cargos em comissão ou de funação de direção/assessoramento de órgão da administração direta, SEM, empresa pública ou fundação pública. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 51 O peculato próprio, na realidade, constitui uma apropriação indébita, só que praticada por funcionário público com violação do dever funcional. Antes de ser uma ação lesiva aos interesses patrimoniais da Administração Pública, é principalmente uma ação que fere a moralidade administrativa, em virtude de quebra do dever funcional. a) Peculato-apropriação (artigo 312, “caput”, 1ª parte do CP): é o denominado peculato próprio. A ação nuclear típica consubstancia-se no verbo apropriar. Assim como no crime de apropriação indébita, o agente tem a posse (ou detenção) lícita do bem móvel, público ou particular, e inverte esse título, pois passa a comportar-se como se dono fosse, isto é, consome-o, aliena-o. Exemplo: servidor que tem em sua posse um notebook funcional e assina um termo de responsabilidade do aparelho em questão. Após determinado tempo vende esse notebook a terceiro. b) Peculato-desvio (artigo 312, “caput”, 2ª parte do CP): é o denominado peculato próprio. Está previsto na segunda parte do caput do art. 312: “ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio”. O agente tem a posse da coisa e lhe dá destinação diversa da exigida por lei, agindo em proveito próprio ou de terceiro. Exemplo: servidor do Cartório que utiliza de R$ 1.000,00 que estão aprendidos no cofre e empresta essa importância a alguém, devolvendo os mil reais depois mas ficando com os juros. Observação importante: não confundir peculato-desvio com o peculato-uso que é fato atípico, uma vez que no peculato de uso há o ânimo de temporariedade com a intenção de posterior restituição de determinado bem infungível, por exemplo, no caso do policial que se utiliza da viatura para levar o seu filho ao colégio. Sujeitos do delito: trata-se de crime próprio. Somente o funcionário público (art. 327, caput) e as pessoas a ele equiparadas legalmente (art. 327, §§1º e 2º) podem praticar o delito de peculato. A condição especial funcionário público, como elementar do crime de peculato, comunica- se ao particular que eventualmente concorra, na condição de coautor ou partícipe, para a prática do crime, nos termos da previsão do art. 30 do CP. Portanto, é perfeitamente possível o concurso de pessoas, dada a comunicabilidade da elementar do crime (art. 30). Veja o esquema na página a seguir... Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 52 *Para todos verem: esquema. c) Peculato-furto (artigo 312, parágrafo 1º do CP): é o denominado peculato impróprio. Estamos agora diante de um crime de furto, só que praticado por funcionário público, o qual se vale dessa qualidade para cometê-lo. Aqui o agente não tem a posse ou detenção do bem como no peculato-apropriação ou desvio, mas se vale da facilidade que lhe proporciona a qualidade de funcionário público para realizar a subtração. *Para todos verem: esquema. d) Peculato culposo (artigo 312, parágrafo 2° do CP): o funcionário para ser punido insere-se na figura do garante, prevista no art. 13, § 2º. Assim, tem ele o dever de agir, impedindo o resultado de ação delituosa de outrem. Não o fazendo, responde por peculato culposo. Extinção da punibilidade no peculato culposo – art. 312, § 3º: deve ser completa e não exclui eventual sanção administrativa contra o funcionário. A extinção da punibilidade somente aproveita o funcionário, autor do peculato culposo. Consoante a segunda parte do § 3º, no crime culposo, se a reparação do dano é posterior à sentença irrecorrível, isto é, transitada em julgado, haverá a redução de metade da pena imposta. Resolva a questão na página a seguir... Peculato-furto (art. 312, §1º) Não tem a posse anterior Facilidade que cargo lhe proporciona Peculato Apropriação Se comporta como dono Posse legítima Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 53 Resolva a questão a seguir: 17) FGV - 2023 - OAB – 38º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Francisco, funcionário público concursado de uma autarquia federal, recebeu de seu órgão de atuação um notebook funcional, tendo assinado o livro de carga referente ao objeto e assumido o compromisso de zelar pelo bem da administração. Durante suas férias, Francisco viaja para uma pousada no interior do estado de São Paulo e leva o computador na mochila, uma vez que tinha o costume de assistir séries através do aparelho. Durante sua estadia na pousada, Francisco leva o notebook para a piscina e o coloca na mesa onde deixara seus demais pertences. Após se ausentar por cerca de 40 minutos para jogar uma partida de futebol, retorna para a piscina e constata que o notebook fora furtado. Desesperado, procura a administração do local que após analisar as câmeras de segurança não consegue identificar quem teria subtraído o computador. Diante dos fatos, o órgão funcional ao qual Francisco era vinculado instauraprocedimento administrativo e, ato contínuo, encaminha pedido de instauração de Inquérito na Polícia Federal que culmina no oferecimento de denúncia por parte do Ministério Público Federal pela prática do crime de peculato culposo. Francisco procura a repartição pública e se oferece para pagar o valor referente ao notebook, o que é aceito, sendo certo que o ressarcimento ao erário se deu antes do julgamento da ação penal. Diante dos fatos narrados, é correto afirmar que Francisco A) terá direito à redução de metade da pena pelo fato de o ressarcimento ter sido feito após o recebimento da denúncia. B) terá direito à extinção da punibilidade pelo fato de o ressarcimento ter sido feito antes da sentença irrecorrível. C) não terá direito à atenuante referente à reparação do dano, prevista no Art. 65, inciso III, alínea b, do CP, na medida em que esta exige a reparação do dano antes do recebimento da denúncia. D) poderá ser beneficiado pelo arrependimento posterior, previsto no Art. 16 do Código Penal em razão de ter reparado o dano antes da sentença. 7.3.2. Concussão – art. 316, do CP Ação nuclear: a ação nuclear consubstancia-se no verbo exigir, isto é, ordenar, reivindicar, impor como obrigação. A vítima cede às exigências formuladas pelo agente ante o temor de represálias relacionadas ao exercício da função pública por ele exercida. Assim, não é necessária a promessa da causação de um mal determinado; basta o temor que autoridade inspira. Exemplo: carcereiro que exige dinheiro dos presos sob sua custódia. Na hipótese, o simples fato de os presos encontrarem-se sob a guarda daquele gera neles o temor de eventuais represálias. Contudo, não pratica esse delito, mas o de extorsão ou roubo, por exemplo, o policial militar que exige vantagem indevida da vítima utilizando-se de violência, ou ameaçando-a gravemente de sequestrar seu filho. Consumação e tentativa: trata-se de crime formal. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 54 A consumação ocorre com a mera exigência da vantagem indevida, independentemente de sua efetiva obtenção. Se esta sobrevém, há mero exaurimento do crime. É possível a tentativa, tendo em vista em que o crime é plurissubsistente, ou seja, admite o fracionamento em mais de um ato executório. 7.3.3. Excesso de exação – art. 316, parágrafos 1° e 2° do CP Modalidades: são duas as modalidades previstas: • Exigência indevida: aqui a exigência do tributo ou contribuição social é indevida (elemento normativo do tipo), isto é, não há autorização legal para sua cobrança, ou seu valor já foi quitado pela vítima, ou então se refere a quantia excedente à fixada por lei. • Cobrança vexatória ou gravosa não autorizada em lei (excesso no modo de exação ou exação fiscal vexatória): ao contrário da modalidade criminosa precedente, aqui a exigência de tributo ou contribuição social é devida, mas a cobrança se faz com o emprego de meio gravoso ou vexatório para o devedor, o qual não é autorizado por lei. Consumação e tentativa: a) Exigência indevida: aqui o delito se consuma no momento em que é feita a exigência do tributo ou contribuição social. Trata-se de crime formal, portanto a consumação independe do efetivo pagamento do tributo ou contribuição social pela vítima. A tentativa é possível. Ex. carta contendo a exigência de vantagem, a qual é interceptada antes de chegar ao conhecimento da vítima. b) cobrança vexatória ou gravosa: consuma-se com o emprego do meio vexatório ou gravoso na cobrança do tributo ou contribuição social, independentemente de seu efetivo recebimento. A tentativa é possível. Excesso de exação – forma qualificada – art. 316, § 2º: nessa modalidade mais gravosa do crime de excesso de exação, pune-se o funcionário público que, em vez de recolher o tributo ou contribuição social, indevidamente exigido (§1º), para os cofres públicos, desvia-o em proveito próprio ou alheio. 7.3.4. Corrupção passiva – art. 317, do CP Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 55 Ação nuclear: trata-se de crime de ação múltipla. Três são as condutas típicas previstas: • Solicitar: pedir, manifestar que deseja algo. Não há o emprego de qualquer ameaça explícita ou implícita. O funcionário solicita vantagem, e a vítima cede por deliberada vontade; • Receber: aceitar, entrar na posse. Significa obter, direta ou indiretamente, para si ou para outrem, vantagem indevida. Aqui a proposta parte de terceiros e a ela adere o funcionário, ou seja, o agente não só aceita a proposta como recebe a vantagem indevida. Ao contrário da primeira modalidade, é condição essencial para sua existência que haja a anterior configuração do crime de corrupção ativa, isto é, o oferecimento de vantagem indevida (art. 333). Sem essa oferta pelo particular, não há como falar em recebimento de vantagem. • Aceitar a promessa de recebê-la: nessa modalidade típica basta que o funcionário concorde com o recebimento da vantagem. Não há o efetivo recebimento dela. Deve haver necessariamente uma proposta formulada por terceiros, à qual adere o funcionário, mediante a aceitação de receber a vantagem. Classificação: a) Corrupção passiva própria: o funcionário, em troca de alguma vantagem, pratica ou deixa de praticar ato de ofício para beneficiar alguém. O ato a ser praticado pode ser ilegítimo, ilícito ou injusto. É a chamada corrupção própria. Exemplo: o funcionário do cartório criminal solicita indevida vantagem econômica para suprimir documentos do processo judicial. b) Corrupção passiva imprópria: também configura o crime a prática de ato legítimo, lícito, justo. É a chamada corrupção passiva imprópria. Exemplo: Oficial de justiça solicita vantagem econômica ao advogado, a fim de dar prioridade ao cumprimento do mandado judicial expedido em processo em que aquele atua. Sujeitos do delito: trata-se de crime próprio. Portanto, o delito só pode ser cometido por funcionário público em razão da função (ainda que esteja fora dela ou antes de assumi-la). Nada impede, contudo, a participação do particular, ou de outro funcionário, mediante induzimento, instigação ou auxílio. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 56 O particular que oferece ou promete vantagem indevida ao funcionário público responde pelo delito de corrupção ativa (art. 333) e não pela participação no crime em estudo. Trata-se de exceção à regra prevista no artigo 29 do CP. Consumação e tentativa: trata-se de crime formal. Portanto, a consumação ocorre com o ato de solicitar, receber ou aceitar a promessa de vantagem indevida. A corrupção passiva consuma-se instantaneamente, isto é, com a simples solicitação da vantagem indevida, recebimento desta ou com a aceitação da mera promessa daquela. O tipo penal não exige que o funcionário pratique ou se abstenha da prática do ato funcional. Se isso suceder, haverá mero exaurimento do crime, o qual constitui condição de maior punibilidade (causa de aumento de pena prevista no § 1º do art. 317). A tentativa é de difícil ocorrência, mas não é impossível. Basta que haja um iter criminis a ser cindido. Exemplo: solicitação feita por carta, a qual é interceptada pelo chefe de repartição. Causa de aumento de pena – art. 317, § 1º: eleva-se em 1/3 a pena do agente que, em razão da vantagem recebida ou prometida, efetivamente retarda (atrasa ou procrastina) ou deixa de praticar (não leva a efeito) ato de ofício que lhe competia desempenhar ou termina praticando o ato, mas desrespeitando o dever funcional. É o que a doutrina classifica de corrupção exaurida. Figura privilegiada – art. 317, § 2º: trata-se de conduta de menor gravidade, na medida em que o agente pratica, deixa de praticar ou retarda o ato de ofício, não em virtude do recebimento de vantagem indevida, mas cedendo a pedido ou influência de outrem, isto é, parasatisfazer interesse de terceiros ou para agradar ou bajular pessoas influentes. 7.3.5. Prevaricação – art. 319, do CP Elementos do tipo/ação nuclear/objeto material: a) Retardar: é atrasar, adiar, protelar, procrastinar, não praticar o ato de ofício dentro do prazo estabelecido (crime omissivo). Exemplo: Servidor que, devendo expedir alvará de soltura, por não simpatizar com o advogado, deixa de fazê-lo com a brevidade que a medida exige. b) Deixar de praticar: trata-se de mais uma modalidade omissiva do crime em estudo. Aqui, no entanto, ao contrário da conduta precedente, há o ânimo definitivo de não praticar o ato de ofício. c) Praticar (contra disposição expressa de lei): cuida-se aqui de conduta comissiva, em que o agente efetivamente executa o ato, só que de forma contrária à lei. O interesse pessoal é Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 57 qualquer proveito, vantagem, podendo ser patrimonial ou moral. Quanto ao interesse patrimonial, importa distinguir algumas situações: • Se o ato praticado, retardado ou omitido tiver sido objeto de acordo anterior entre o funcionário e o particular, visando aquele indevida vantagem, o crime passará a ser outro: corrupção passiva; • Se houver, anteriormente à prática ou omissão do ato, a exigência de vantagem indevida pelo funcionário público, haverá o crime de concussão. Quanto ao sentimento pessoal podemos destacar que se manifesta em suas mais variadas formas, tais como amor, paixão emoção ou ódio. Resolva a questão a seguir: 18) FGV - 2022 - OAB – 35º Exame de Ordem Unificado - Primeira Fase Para satisfazer sentimento pessoal, já que tinha grande relação de amizade com Joana, Alan, na condição de funcionário público, deixou de praticar ato de ofício em benefício da amiga. O supervisor de Alan, todavia, identificou o ocorrido e praticou o ato que Alan havia omitido, informando os fatos em procedimento administrativo próprio. Após a conclusão do procedimento administrativo, o Ministério Público denunciou Alan pelo crime de corrupção passiva consumado, destacando que a vantagem obtida poderia ser de qualquer natureza para tipificação do delito. Confirmados os fatos durante a instrução, caberá à defesa técnica de Alan pleitear sob o ponto de vista técnico, no momento das alegações finais, A) o reconhecimento da tentativa em relação ao crime de corrupção passiva. B) a desclassificação para o crime de prevaricação, na forma tentada C) a desclassificação para o crime de prevaricação, na forma consumada. D) o reconhecimento da prática do crime de condescendência criminosa, na forma consumada. Aula 13/11/2023 – Turno da manhã 1. Aplicação da lei penal 1.1. Lei penal no tempo (art. 2º, do CP) Pelo princípio tempus regit actum (“o tempo rege o ato”), a lei penal não alcança os fatos ocorridos antes ou depois de sua vigência, de forma que, em regra, a lei aplicável a um crime é aquela vigente ao tempo da execução deste crime. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 58 A regra, pois, é que a atividade da lei penal se dê no período de sua vigência; a extra- atividade, representada pela retroatividade da lei mais benéfica e pela ultratividade, configura exceção a esta regra. Ultratividade quer dizer que se a lei antiga for mais favorável, prevalecerá ao tempo da vigência da lei nova, mesmo estando revogada. A retroatividade da lei mais benéfica significa que a lei mais benigna prevalece sobre a mais severa, prolongando-se além do instante de sua revogação ou retroagindo ao tempo em que não tinha vigência. 1.1.1. Abolitio criminis (art. 2º, caput, do CP) Ocorre a chamada abolitio criminis quando a lei nova deixa de considerar crime fato que anteriormente era considerado ilícito penal. A nova lei, demonstrando não haver mais, por parte do Estado, interesse na punição do autor de determinado fato, retroage para alcançá-lo. A abolitio criminis, além de conduzir à extinção da punibilidade, apaga todos os efeitos penais da sentença condenatória, permanecendo, no entanto, íntegros seus efeitos na esfera extrapenal. É o que se extrai do art. 2º, caput, do CP. 1.1.2. Novatio legis in mellius (art. 2º, par. ún., do CP) Além da abolitio criminis, a lei nova pode favorecer o agente de várias maneiras. A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado (art. 2º, par. ún., do CP). Assim, se uma lei posterior deixar de prever uma circunstância de aumento de pena em relação a determinado crime, retroagirá para beneficiar o réu. O mesmo se pode dizer se a lei posterior passar a prever uma causa de diminuição da pena, por exemplo. Essa lei retroagirá para alcançar fatos praticados antes da sua vigência. 1.1.3. Novatio legis incriminadora A novatio legis incriminadora, ao contrário da abolitio criminis, considera crime fato anteriormente não incriminado, e somente gerará efeitos para fatos praticados após a sua vigência. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 59 Por conferir tratamento severo, a novatio legis incriminadora, por evidente, não retroage para alcançar fatos praticados antes da sua vigência, tendo eficácia, portanto, somente em relação aos fatos praticados a partir da sua vigência. 1.2. Tempo do crime (art. 4º, do CP) Em relação ao tempo do crime, o Código Penal adotou a teoria da atividade, segundo a qual se reputa praticado o delito no momento da conduta, não importando o instante do resultado. Assim, se um adolescente com 17 anos, 11 meses e 29 dias efetuar disparo de arma de fogo contra a vítima, que vem a falecer cinco dias depois (quando já terá adquirido a maioridade), responderá conforme as normas do ECA, diante da teoria da atividade que rege o tempo do crime. *Para todos verem: esquema. 1.3. Da reincidência (art. 63 do CP) 1.3.1. Conceito A reincidência pressupõe uma sentença condenatória transitada em julgado por prática de crime. Há reincidência somente quando o novo crime for cometido após a sentença condenatória de que não cabe mais recurso. É o que se extrai do art. 63 do CP. Exemplo: o agente pratica um crime, sendo processado e condenado. Não recorre, vindo a sentença transitar em julgado. Meses depois, vem a praticar novo crime. É considerado reincidente, uma vez que cometeu novo delito após o trânsito em julgado de sentença que o condenou por prática de crime. A B O L IT IO C R IM IN IS Fato deixa de ser crime Cessam todos os efeitos penais Causa de extinção da punibilidade Permanecem efeitos civis Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 60 Se o agente praticar o novo crime exatamente no dia em que transitar em julgado a sentença penal condenatória pelo crime anterior, não incide a agravante da reincidência, pois a lei é expressa ao mencionar que o novo crime deve ser praticado “depois” do trânsito em julgado. No dia do trânsito, portanto, não se encaixa na hipótese legal. Além disso, complementando os pressupostos da reincidência, o art. 7º da Lei de Contravenções Penais (Decreto-lei n° 3.688/1941) dispõe que: “verifica-se a reincidência quando o agente pratica uma contravenção depois de passar em julgado a sentença que o tenha condenado, no Brasil ou no estrangeiro, por qualquer crime, ou, no Brasil, por motivo de contravenção”. Assim, podem ocorrer várias hipóteses: • O agente, condenado irrecorrivelmente pela prática de um crime, vem a cometer outro delito: é reincidente (art. 63 do CP); • O agente pratica um crime; condenado irrecorrivelmente, vem a cometer uma contravenção: é reincidente (art. 7º da LCP); • O sujeito pratica uma contravenção, vindo a ser condenado por sentença transitada em julgado; comete outracontravenção: é considerado reincidente (art. 7º da LCP); • O sujeito comete uma contravenção; é condenado por sentença irrecorrível; pratica um crime: não é reincidente (art. 63 do CP). Informativo 636 do STF: condenações anteriores pelo delito do art. 28 da Lei nº 11.343/2006 não são aptas a gerar reincidência. 1.3.2. Eficácia temporal da condenação anterior para efeito da reincidência Nos termos do art. 64, I, do CP, não prevalece a condenação anterior se entre a data do cumprimento ou extinção da pena e a infração posterior tiver decorrido período de tempo superior a 5 (cinco) anos, computado o período de prova da suspensão ou do livramento condicional, se não ocorrer revogação. Logo, o prazo de 5 (cinco) anos começa a correr a partir do cumprimento da pena ou a sua extinção por outro modo, por exemplo, incidência de uma causa extintiva da punibilidade, como a prescrição da pretensão executória, graça ou indulto. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 61 O período de prova do livramento condicional e da suspensão condicional da pena será computado para fins de cessar os efeitos da reincidência. Assim, em tese, ao agente condenado a 6 (seis) anos de reclusão, cumprindo 1/3 (ou seja, 2 anos), será concedido o livramento condicional (art. 83, I, do CP), restando outros 4 (quatro) anos para o término da pena, que será o período de prova. Consideremos a hipótese de o agente ter iniciado o cumprimento da pena no dia 10-8- 2010. Após cumprir 1/3 da pena, dois anos, portanto, obteve o livramento condicional em 10-8- 2012, cumprindo integralmente a pena no dia 10-8-2016. Em 10-9-2017, o agente pratica novo crime. Nesse caso, não será considerado reincidente, pois passaram-se mais de 5 (cinco) anos entre a data do cumprimento da pena e a prática do novo crime, computando-se o período de prova do livramento condicional. 1.3.3. Crimes que não induzem reincidência O art. 64, II, do CP dispõe que, para efeito de reincidência, não se consideram os crimes militares próprios ou políticos. Convém ressaltar que, conquanto não gere reincidência, o trânsito em julgado de uma sentença penal condenatória por crime militar próprio ou crime político gera maus antecedentes, já que o art. 64, II, do CP limita-se a afastar a reincidência, nada dispondo sobre maus antecedentes. Resolva a questão a seguir: 19) Questão Autoral Ceisc | Revisão Turbo 39° Exame da OAB Em janeiro de 2020, Ricardo sequestrou Fabíola, com o propósito de postular resgate, sendo que a restrição da liberdade da vítima durou mais de 60 (sessenta) dias. Ocorre que, no mês de fevereiro de 2020, quando o delito já estava consumado, entrou em vigor lei penal que aumentou a pena do crime de extorsão mediante sequestro. A vítima foi resgatada em março de 2020. Após intensa investigação e conclusão do inquérito policial, onde se apurou a autoria, o Ministério Público oferece denúncia em face de Ricardo pela prática do crime de extorsão mediante sequestro e confirmada a autoria em instrução probatória, o Magistrado, no momento da sentença, poderá aplicar a pena com base na: A) lei em vigor em janeiro de 2020, momento em que foi consumado o crime imputado, aplicando-se ao Direito Penal o princípio do tempus regit actum; B) lei em vigor a partir de fevereiro de 2020, ainda que mais gravosa, aplicando-se ao Direito Penal, em relação ao tempo do crime, o princípio da ubiquidade. C) lei em vigor em janeiro de 2020, por ser aplicável ao Direito Penal o princípio da irretroatividade da lei penal mais gravosa; D) lei em vigor a partir de fevereiro de 2020, ainda que mais gravosa, em razão da natureza permanente do crime imputado a Ricardo. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 62 Resolva a questão a seguir: 20) Questão Autoral Ceisc | Revisão Turbo 39° Exame da OAB Ao elaborar uma sentença condenatória em um processo pela prática de determinado crime, na dosimetria da pena, após haver fixado a pena-base, o juiz verifica que o acusado possui uma condenação anterior transitada em julgado por crime de deserção, considerado crime militar próprio, cuja pena aplicada fora cumprida três anos antes da prática do delito objeto do processo em julgamento. Diante da situação narrada, deverá o magistrado: A) reconhecer a agravante da reincidência, diante da sentença condenatória transitada em julgado pelo crime militar anterior. B) Não reconhecer a agravante da reincidência, em razão do decurso do prazo entre o cumprimento da pena e a prática de novo crime. C) Reconhecer a agravante da reincidência, em razão do decurso do prazo entre o cumprimento da pena e a prática de novo crime. D) Não reconhecer a agravante da reincidência, diante da natureza do crime anterior objeto de sentença condenatória transitada em julgado. 2. Suspensão condicional da pena 2.1. Conceito Trata-se de um instituto de política criminal, tendo por fim a suspensão da execução da pena privativa de liberdade, evitando o recolhimento ao cárcere do condenado não reincidente condenado à pena não superior a 2 (dois) anos (ou a 4 anos, na hipótese de sursis etário ou humanitário), mediante o cumprimento de determinadas condições, fixadas pelo juiz, durante o período de prova. Os requisitos da suspensão condicional da execução da pena estão previstos no art. 77 do CP. 2.1.1. Requisitos objetivos a) Pena privativa de liberdade: quanto à qualidade da pena, somente a pena privativa de liberdade, seja reclusão, seja detenção, admite a suspensão condicional da execução da pena. Não cabe sursis em relação à pena restritiva de direitos e à pena de multa. É o que se extrai do art. 80 do CP, segundo o qual “a suspensão não se estende às penas restritivas de direitos nem à multa”. Não se aplica o sursis às medidas de segurança, uma vez que o instituto é voltado a suspender a execução da pena. E medida de segurança não tem natureza jurídica de pena. Além Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 63 disso, verificada a inimputabilidade pela enfermidade mental, a sentença será absolutória imprópria, não havendo, pois, execução da pena a suspender. b) Quantidade da pena privativa de liberdade: como regra, a quantidade da pena imposta na sentença não pode ser superior a 2 (dois) anos, ainda que resulte, no concurso de crimes, de sanções inferiores a ela. Tratando-se, entretanto, de condenado maior de 70 anos de idade, ao tempo da sentença ou do acórdão (sursis etário) ou em razão de saúde (sursis humanitário ou profilático), a pena aplicada pode ser igual ou inferior a 4 (quatro) anos (art. 77, § 2°, do CP). Em relação a concurso de crimes, em qualquer das suas espécies, a pena aplicada, considerando os critérios da exasperação da pena ou cúmulo material, não pode ser superior a 2 (dois) anos (ou 4 anos, na hipótese de sursis etário ou humanitário). c) Impossibilidade de substituição por pena restritiva de direitos: somente se aplica o sursis quando incabível ou não recomendável a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos (art. 77, III, do CP). 2.1.2. Requisitos subjetivos a) Condenado não reincidente em crime doloso: nem toda reincidência impede a concessão do sursis, mas somente a reincidência em crime doloso. Isso quer dizer que a condenação anterior, mesmo definitiva, por crime culposo ou por simples contravenção, por si só, não é causa impeditiva da suspensão condicional da pena. Todavia, a reincidência, ainda que em crime doloso, em decorrência de anterior condenação a pena de multa, não impede a concessão do sursis (art. 77, § 1°, do CP). b) Circunstâncias judiciais favoráveis ao agente: não é indispensável que todas as circunstâncias sejam favoráveis, como ocorre com sursis especial. Basta que, no geral, não sejam desfavoráveis de modo a criardúvidas fundadas sobre a possibilidade de o condenado voltar a delinquir. 2.2. Condições Durante o período do sursis, o condenado deve cumprir determinadas condições, sob pena de ser revogada a medida e ter de cumprir a sanção privativa de liberdade. Essas condições são: a) legais: impostas pela lei (arts. 78, § 1º, e 81 do CP); b) judiciais: impostas pelo juiz na sentença (art. 79 do CP). Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 64 No sursis simples, a condição legal e obrigatória consiste na prestação de serviços à comunidade ou limitação de fim de semana, no primeiro ano do período de suspensão (art. 78, § 1º, 1ª parte, do CP). Tratando-se de sursis especial, satisfeitos os seus requisitos, as condições alternativas da prestação de serviços à comunidade e a limitação de fim de semana são substituídas por: proibição de frequentar determinados lugares; proibição de o condenado ausentar-se da comarca onde reside, sem autorização judicial; e comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas atividades (art. 78, § 2º, a e c, do CP). As condições legais do sursis especial, previstas no art. 78, § 2º, a, b e c, do CP, devem ser impostas cumulativamente. 2.3. Extinção da pena Se o período de prova termina sem que haja ocorrido motivo para a revogação, não mais se executa a pena privativa de liberdade (art. 82 do CP). Assim, expirado o prazo de suspensão ou de prorrogação sem que tenha havido motivo para a revogação, o juiz deve declarar extinta a pena privativa de liberdade. Trata-se de sentença declaratória. Em face disso, considera-se, para fins de extinção da pena, a data do término do período de prova e não a data em que o juiz profere a decisão, ainda que seja em período posterior. 3. Livramento condicional 3.1. Conceito Trata-se de um instituto de política criminal, destinado a antecipar o retorno do condenado ao convívio social, mediante determinadas condições e de forma precária, desde que preenchidos os requisitos legais. 3.2. Requisitos Os requisitos do livramento condicional, de ordem objetiva e subjetiva, encontram-se no art. 83 do CP. Os requisitos objetivos estão previstos no art. 83, I, II, IV e V, do CP, vinculando-se à pena e à reparação do dano. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 65 a) Natureza e quantidade da pena: assim como na suspensão condicional do processo, o livramento condicional somente pode ser concedido em relação à pena privativa de liberdade. Não cabe, pois, à pena restritiva de direitos e multa. Além disso, o benefício somente poderá ser concedido à pena privativa de liberdade igual ou superior a 2 (dois) anos (art. 83 do CP). A soma das penas é permitida para atingir esse limite mínimo, mesmo que tenham sido aplicadas em processos distintos, nos termos do art. 84 do CP. b) Cumprimento de parte da pena: nos termos do art. 83, I, do CP, se o criminoso não for reincidente em crime doloso e ostentar bons antecedentes, deverá cumprir mais de 1/3 da pena privativa de liberdade para obter o benefício. É a hipótese de livramento condicional simples. Se o condenado for reincidente em crime doloso, deverá cumprir mais da metade da pena privativa de liberdade, conforme dispõe o art. 83, II, do CP. Trata-se do livramento condicional qualificado. Nesse particular, há uma omissão do legislador na hipótese de o condenado não ser reincidente em crime doloso, mas portador de maus antecedentes. Isso porque não se enquadra na hipótese do inciso I (que exige bons antecedentes) nem na do inciso II (que trata da hipótese de reincidente em crime doloso) do art. 83 do CP. Nesse caso, prevalece o entendimento de que, por conta da ausência de expressa previsão legal, deve-se conferir ao condenado o tratamento mais benéfico. Ou seja, o condenado não reincidente em crime doloso, mas portador de maus antecedentes, deverá cumprir mais de 1/3 da pena para obtenção do livramento condicional. É a posição do Superior Tribunal de Justiça.1 Tratando-se de condenado por prática de tortura, crime hediondo, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, terrorismo e tráfico de pessoas (introduzido pela Lei nº 13.344/2016), desde que não seja reincidente específico em tais delitos, deve cumprir mais de 2/3 da pena (art. 83, V, do CP). Trata-se do livramento condicional específico. Assim, sendo reincidente específico em crime hediondo ou equiparado, não é admissível o livramento condicional. Há reincidência específica, para efeito desse dispositivo, quando o sujeito, já tendo sido condenado por qualquer dos delitos hediondos por sentença transitada em julgado, vem novamente a cometer crime dessa mesma natureza. Exemplo: após condenação definitiva por crime de homicídio qualificado, o agente pratica e é condenado pelo crime de tráfico 1 HC 102.278/RJ. Superior Tribunal de Justiça. Rel. Min. Jane Silva (Desembargadora Convocada do TJ/MG), 6a Turma, julgado em 03/04/2008. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 66 de drogas. Nesse caso, não terá direito a livramento condicional, por ser reincidente específico por crime de natureza hedionda e equiparado. c) Reparação do dano, salvo efetiva impossibilidade: nos termos do art. 91, I, do CP, a condenação torna certa a obrigação de indenizar o dano resultante do crime. Assim, o condenado não pode obter o livramento condicional enquanto não reparar o dano causado, salvo quando insolvente. Na prática, esse requisito tem limitado alcance, uma vez que, via de regra, os condenados são pessoas pobres, absolutamente insolventes, sem a menor possibilidade de reparar o dano causado. d) Bom comportamento durante a execução da pena: o bom comportamento carcerário, via de regra, é aferido com base no atestado emitido pelo diretor do estabelecimento carcerário, considerando-se a conduta do condenado ao longo da execução da pena. Em outras palavras, para a verificação do requisito subjetivo não se leva em conta o crime praticado pelo condenado, mas seu comportamento durante o cumprimento da pena. Convém sinalar, por pertinente, que a prática de falta grave não interrompe o prazo para a concessão do livramento condicional. É o que se extrai da Súm. nº 441 do STJ, segundo a qual “A falta grave não interrompe o prazo para obtenção de livramento condicional”. De acordo com a Súm. nº 439/STJ, “admite-se o exame criminológico pelas peculiaridades do caso, desde que em decisão motivada”. e) Não cometimento de falta grave nos últimos doze meses: a Lei nº 13.964/2019 acrescentou mais um requisito para a obtenção do livramento condicional, consistente no não cometimento de falta grave nos últimos 12 meses de execução da pena. As hipóteses de falta grave durante a execução da pena estão previstas no art. 50 da Lei nº 7.210/1984. Se o condenado praticou falta grave ao longo dos últimos 12 meses, não terá direito à obtenção do livramento condicional, ainda que preenchidos os demais requisitos. f) Bom desempenho no trabalho que lhe foi atribuído: trata-se de uma exigência salutar para o retorno do condenado ao convívio social, mas, infelizmente, de pouca efetividade prática, por conta da carência ou dificuldade de inserção do apenado no mercado de trabalho. Ao referir-se a “trabalho que lhe foi atribuído”, fica claro que não se trata apenas das atividades laborais desenvolvidas no interior do cárcere, mas também se refere ao trabalho Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 67 efetuado fora da prisão, por exemplo, o serviço externo, tanto na iniciativa privada como na pública. g) Aptidão para prover a própria subsistência mediante trabalho honesto: a lei não determina que o apenado deve ter emprego assegurado no momento da liberação. O que a lei exige é a aptidão, isto é, a disposição, a habilidade,a inclinação do condenado para viver às custas de seu próprio e honesto esforço. h) Constatação de condições pessoais que façam presumir que o liberado não voltará a delinquir na hipótese de condenado por crime doloso, cometido com violência ou grave ameaça: tratando-se de condenado por crime doloso cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, a concessão do livramento fica subordinada, além dos requisitos do art. 83 do CP, à constatação, mediante perícia, de condições pessoais que façam presumir que o liberado não voltará a delinquir (art. 83, par. ún., do CP). 3.3. Livramento condicional vedado A Lei nº 13.964/2019, que altera o art. 112 da Lei nº 7.210/1984 (LEP), passou a prever vedação do livramento condicional a condenados pela prática de determinados crimes. É vedado o livramento condicional: • ao condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, com resultado morte (art. 112, VI, a e c, da LEP); • ao condenado expressamente em sentença, por integrar organização criminosa ou por crime praticado por meio de organização criminosa, não será facultada a progressão de regime de cumprimento de pena ou a obtenção do livramento condicional ou outros benefícios prisionais se houver elementos probatórios que indiquem a manutenção do vínculo associativo (art. 2º, § 9º, da Lei nº 12.850/2013); • ao reincidente em crime hediondo ou equiparado (art. 83, V, do CP). Resolva a questão a seguir: 21) Questão Autoral Ceisc | Revisão Turbo 39° Exame da OAB Ronaldo, primário e com bons antecedentes, em 15 de junho de 2021, abordou Joana que estava no interior de seu veículo, parada no sinal de trânsito. Ao perceber que se tratava de um assalto, Joana, apavorada, arranca o seu veículo, momento em que Ronaldo efetua um disparo de arma de fogo, que atinge a cabeça da vítima, causando-lhe a morte. Ronaldo foi denunciado, e, ao final, condenado pela prática do crime de latrocínio, previsto no artigo 157, § 3º, II, do Código Penal. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 68 Diante do caso narrado, acerca da possibilidade de Ronaldo vir a obter livramento condicional, assinale a opção correta. A) Não poderá obter livramento condicional em razão do não cabimento do instituto para crimes hediondos com resultado morte. B) Poderá obter o livramento condicional após o cumprimento de 2/3 da pena em razão de o latrocínio ser crime hediondo, além de atender aos demais requisitos do art. 83 do Código Penal. C) Poderá obter o livramento condicional após cumprir 1/3 da pena em razão de ser primário e possuir bons antecedentes, além de atender aos demais requisitos do art. 83 do Código Penal. D) Poderá obter o livramento condicional após cumprir 1/2 da pena em razão de o crime por ele praticado ser hediondo, além de atender aos demais requisitos do art. 83 do Código Penal. 4. Perseguição ou stalking (art. 147-A do CP) Art. 147-A do Código Penal Perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade. Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. (Causas de aumento de pena): § 1º A pena é aumentada de metade se o crime é cometido: I – contra criança, adolescente ou idoso; II – contra mulher por razões da condição de sexo feminino, nos termos do § 2º-A do art. 121 deste Código; III – mediante concurso de 2 (duas) ou mais pessoas ou com o emprego de arma. (Concurso de crimes): § 2º As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das correspondentes à violência. (Ação penal): § 3º Somente se procede mediante representação. *Para todos verem: esquema. Características importantes: a) Crime bicomum: no que tange ao sujeito ativo podemos afirmar que o delito em questão possui natureza comum, podendo ser cometido por qualquer pessoa, da mesma forma que qualquer pessoa também poderá figurar como sujeito passivo. Entretanto, se o crime for cometido contra criança, adolescente ou idoso, ou ainda contra mulher por razões da condição de sexo feminino temos a aplicação de causa de aumento de Crime bicomum Sujeito ativo Qualquer pessoa Sujeito passivo Qualquer pessoa Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 69 pena de metade, nos termos do parágrafo 1° do artigo 147-A. b) Crime habitual: podemos afirmar que a característica marcante do delito em questão é que se trata de um crime habitual, uma vez que o tipo penal exige que a perseguição seja reiterada. Desta feita, podemos afirmar que a tentativa não é admitida. c) Ação penal: a ação penal, nos termos do parágrafo 3º do artigo 147-A, é pública e condicionada à representação (inclusive em se tratando de violência doméstica e familiar contra a mulher). 5. Extorsão (art. 158 do CP) Art. 158 do Código Penal Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa: Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa. (Causas de aumento de pena): § 1º Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma, aumenta- se a pena de um terço até metade. (Extorsão qualificada): § 2º Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no § 3º do artigo anterior. (Sequestro-relâmpago): § 3º Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159, §§ 2º e 3º, respectivamente. *Para todos verem: esquema. a) Conduta típica: extorsão é o fato de o sujeito constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa. A diferença em relação ao roubo Roubo X Extorsão Coisa alheia e móvel Súmula 582 do STJ A cooperação da vítima é dispensável Vantagem econômica indevida Súmula 96 do STJ A cooperação da vítima é indispensável Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 70 concentra-se no fato de a extorsão exigir a participação ativa da vítima fazendo alguma coisa, tolerando que se faça ou deixando de fazer algo em virtude da ameaça ou da violência sofrida. b) Consumação: a extorsão atinge a consumação com a conduta típica imediatamente anterior à produção do resultado visado pelo sujeito. Para a consumação, portanto, o agente deve atingir o segundo estágio, isto é, a consumação ocorre quando a vítima cede ao constrangimento imposto e faz ou deixa de fazer algo. Esse é o entendimento que prevalece na doutrina. Nesse sentido, a Súm. n° 96 do STJ: “O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida”. A tentativa é admissível. Ocorre quando o sujeito passivo, não obstante constrangido pelo autor por meio da violência física ou moral, não realiza a conduta positiva ou negativa pretendida, por circunstâncias alheias à sua vontade. c) Extorsão qualificada (art. 158, §2°): as duas hipóteses (lesão corporal grave ou morte) elencadas, como no roubo, caracterizam condições de exasperação da punibilidade em razão da maior gravidade do resultado. Inusitadamente, o legislador deixou de considerar hediondo o crime de extorsão qualificada pelo resultado morte, ao dar nova redação ao art. 1º, III, da Lei nº 8.072/1990, que passou a prever como crime hediondo somente a extorsão qualificada pela restrição da liberdade da vítima, ocorrência de lesão corporal ou morte (art. 158,§ 3º). d) Sequestro-relâmpago (art. 158, §3º): nada mais é do que uma modalidade qualificada do delito de extorsão, na qual a privação da liberdade da vítima é condição indispensável para obtenção da vantagem econômica pretendida pelo agente. Trata-se de crime hediondo, nos termos do artigo 1º, inciso III da Lei nº 8.072/90. 6. Extorsão mediante sequestro (art. 159 do CP) Art. 159 do Código Penal Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate: Pena - reclusão, de oito a quinze anos. (Figura qualificada I): § 1º Se o sequestro dura mais de 24 (vinte e quatro) horas, se o sequestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessenta) anos, ou se o crime é cometido por bando ou quadrilha. Pena - reclusão, de doze a vinte anos. (Figura qualificada II): § 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave. Pena - reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos. (Figura qualificada III): Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 71 §3º - Se resulta a morte: Pena - reclusão, de vinte e quatro a trinta anos (Delação premiada/diminuição de pena): § 4º - Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, terá sua pena reduzida de um a dois terços. a) Conduta típica: o crime consubstancia-se no verbo sequestrar, que significa privar a vítima de sua liberdade de locomoção, ainda que por breve espaço de tempo. Exige a presença de um elemento subjetivo específico, consistente na finalidade de obtenção, para si ou para outrem, de qualquer vantagem como condição ou preço de resgate. É crime hediondo. b) Consumação: a consumação ocorre com a privação de liberdade de locomoção da vítima, exigindo-se tempo juridicamente relevante. Trata-se de crime permanente, cuja consumação se prolonga no tempo. Assim, enquanto a vítima estiver submetida à privação de sua liberdade de locomoção, o crime estará em fase de consumação. Tratando-se de crime formal, pune-se a mera atividade de sequestrar pessoa, tendo a finalidade de obter vantagem. Assim, embora o agente não consiga a vantagem almejada, o delito está consumado quando a liberdade da vítima é cerceada. *Para todos verem: esquema. Resolva a questão a seguir: 22) Questão Autoral Ceisc | Revisão Turbo 39° Exame da OAB Guilherme, inconformado com o término de seu relacionamento, resolve sequestrar a sua amada Joana. Após privá-la da liberdade e, sabedor que a família de Joana possuía recursos financeiros, resolve exigir o pagamento de R$ 200.000,00 a título de resgate. A família de Joana optou por não efetuar o pagamento do resgate, acionando a Polícia Civil, a qual após um belo trabalho de equipe e um prazo de 10 dias, conseguiu localizar o paradeiro de Joana prendendo o sequestrador em flagrante delito. Baseando-se no caso hipotético, Guilherme cometeu A) apenas o crime de sequestro do artigo 148 do CP, uma vez que o resgate não foi pago. B) crime de extorsão qualificada mediante restrição de liberdade (sequestro-relâmpago) previsto no artigo 158, parágrafo 3º do CP. C) crime de extorsão mediante sequestro (art. 159 do CP) na modalidade tentada, considerando a natureza material do delito e que não houve pagamento de resgate. D) crime de extorsão mediante sequestro (art. 159 do CP) na modalidade consumada, considerando a natureza formal do delito e que eventual pagamento não é necessário para fins de consumação. Extorsão mediante sequestro Crime formal Crime permanente Súmula 711 do STF Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 72 7. Dano Art. 163 do Código Penal Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa. (Dano qualificado): Parágrafo único - Se o crime é cometido: I - com violência à pessoa ou grave ameaça; II - com emprego de substância inflamável ou explosiva, se o fato não constitui crime mais grave; III - contra o patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviços públicos; IV - por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima: Pena - detenção, de seis meses a três anos, e multa, além da pena correspondente à violência. (Ação penal): Art. 167 do Código Penal Nos casos do art. 163, do inciso IV do seu parágrafo e do art. 164, somente se procede mediante queixa. Observações importantes: Destruir quer dizer arruinar, extinguir ou eliminar. Inutilizar significa tornar inútil ou imprestável alguma coisa aos fins para os quais se destina. Deteriorar é a conduta de quem estraga ou corrompe alguma coisa parcialmente. O delito de dano somente é punido na forma dolosa, não havendo punição para a forma culposa. De acordo com o art. 167, a ação penal privada é cabível no crime de dano simples (art. 163, caput, do CP) e dano qualificado pelo motivo egoístico ou prejuízo considerável. A ação penal pública incondicionada é cabível nas demais hipóteses. 8. Receptação (art. 180 do CP) Art. 180 do Código Penal Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte: Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa. (Receptação qualificada): § 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve saber ser produto de crime: Pena - reclusão, de três a oito anos, e multa. § 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo anterior, qualquer forma de comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercício em residência. (Receptação culposa): Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 73 § 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso: Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as penas. (Dispositivos importantes): § 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor do crime de que proveio a coisa. § 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa aplica-se o disposto no § 2º do art. 155 § 6º - Tratando-se de bens do patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviços públicos, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo. Observações importantes: Nos termos do art. 180, caput, do CP, a receptação é o fato de adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte. Já a forma qualificada é praticada no exercício de atividade comercial ou industrial e tem como elemento subjetivo o dolo, seja direto ou eventual. É pressuposto do crime de receptação a existência de crime anterior. Trata-se de delito acessório, em que o objeto material deve ser produto de crime antecedente, chamado de delito pressuposto. Para a concretização do crime de receptação não importa se houve a condenação do autor do crime anterior. Porém, é necessário evidenciar-se a existência do crime anterior. A receptação culposa constitui o fato de o sujeito adquirir ou receber coisa que, por suanatureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso (art. 180, § 3º). Nos termos do art. 180, § 5º, 1ª parte, do CP, na hipótese da receptação culposa, se o criminoso é primário, deve o juiz, tendo em consideração determinadas circunstâncias, deixar de aplicar a pena. No caso, fixaram a doutrina e a jurisprudência que, além da primariedade, deve- se exigir o seguinte: a) diminuto valor da coisa objeto da receptação; b) bons antecedentes; c) ter o agente atuado com culpa levíssima. Veja os esquemas na página a seguir... Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 74 *Para todos verem: esquemas. 9. Disposições gerais (art. 181 a 183 do CP) Art. 181 do Código Penal É isento de pena quem comete qualquer dos crimes previstos neste título, em prejuízo: I - do cônjuge, na constância da sociedade conjugal; II - de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou ilegítimo, seja civil ou natural. Art. 182 do Código Penal Somente se procede mediante representação, se o crime previsto neste título é cometido em prejuízo: I - do cônjuge desquitado ou judicialmente separado; II - de irmão, legítimo ou ilegítimo; III - de tio ou sobrinho, com quem o agente coabita Art. 183 do Código Penal Não se aplica o disposto nos dois artigos anteriores: I - se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando haja emprego de grave ameaça ou violência à pessoa; II - ao estranho que participa do crime. III – se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos a) Imunidade absoluta (art. 181 do CP) Trata-se da chamada imunidade penal absoluta, também conhecida como escusa absolutória, incidente sobre os crimes contra o patrimônio, nas seguintes hipóteses: I – do cônjuge, na constância da sociedade conjugal; II – de ascendente ou descendente, seja o parentesco legítimo ou ilegítimo, seja civil ou natural. RECEPTAÇÃO CRIME COMUM QUALQUER PESSOA (exceto o agente que concorreu para o crime anterior) RECEPTAÇÃO (art. 180 do CP) X FAVORECIMENTO REAL (art. 349 do CP) Ocultar coisa que sabe ser produto de crime em proveito próprio ou alheio $$ - proveito econômico Exemplo: agente oculta carro que sabe ser produto de crime, mas quer ficar com as rodas Prestar a criminoso, fora dos casos de co-autoria ou de receptação, auxílio destinado a tornar seguro o proveito do crime Agente não visa proveito econômico próprio ou de terceiro Exemplo: agente oculta carro que sabe ser produto de cirme para auxiliar o ladrão (camaradagem) Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 75 b) Imunidade relativa (art. 182, I, II e III, do CP) Consubstancia-se em imunidade penal relativa ou processual, que não extingue a punibilidade, mas tão somente impõe uma condição objetiva de procedibilidade. Neste caso, ao contrário da imunidade absoluta, o autor do crime não é isento de pena, mas os crimes de ação penal pública incondicionada passam a ser condicionados à representação do ofendido. c) Exclusão de imunidade ou privilégio (art. 183 do CP) Dá-se nas seguintes hipóteses: I – se o crime é de roubo ou de extorsão, ou, em geral, quando haja emprego de grave ameaça ou violência à pessoa; II – ao estranho que participa do crime; III – se o crime é praticado contra pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. Resolva a questão a seguir: 23) Questão Autoral Ceisc | Revisão Turbo 39° Exame da OAB Silvio, dependente químico e para saldar a sua dívida com famoso traficante de drogas, resolve subtrair R$ 10.000,00 de seu pai Mauro, que era aposentado e tinha 70 anos de idade. Cumpre destacar que Sílvio tinha conhecimento que seu pai guardava grande quantidade de dinheiro em um cofre na sua casa, pois não confiava nas instituições financeiras do país. Após descobrir a senha do cofre, que era a data de aniversário de sua mãe Maria, Sílvio subtrai os valores pretendidos. Ao chegar em casa Mauro se dá conta da subtração e aciona a Polícia Civil que inicia as investigações e descobre a autoria do furto. É correto afirmar que Silvio A) será isento de pena, pois cometeu crime patrimonial sem violência ou grave ameaça contra ascendente. B) poderá ser responsabilizado criminalmente pelo delito de furto, desde que Mauro represente criminalmente. C) será responsabilizado criminalmente pelo delito de furto, não fazendo jus a escusa absolutória. D) não cometeu crime, uma vez que o dinheiro subtraído pertencia a sua família. 10. Crimes contra a administração da justiça 10.1. Denunciação caluniosa (art. 339 do CP) Art. 339 do Código Penal Dar causa à instauração de inquérito policial, de procedimento investigatório criminal, de processo judicial, de processo administrativo disciplinar, de inquérito civil ou de ação de improbidade administrativa contra alguém, imputando-lhe crime, infração ético-disciplinar ou ato ímprobo de que o sabe inocente: Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa. (Causa de aumento de pena) Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 76 § 1º - A pena é aumentada de sexta parte, se o agente se serve de anonimato ou de nome suposto. (Causa de diminuição de pena) § 2º - A pena é diminuída de metade, se a imputação é de prática de contravenção. *Para todos verem: esquema. Elemento subjetivo: é o dolo, consistente na vontade livre e consciente de dar causa à instauração de investigação policial, de processo judicial, instauração de investigação administrativa contra alguém, imputando-lhe crime. É imprescindível que o denunciante saiba (dolo direto) que o denunciado é inocente, conforme expressa exigência legal contida na expressão “de que o sabe inocente”. Sem ele, não há crime. A dúvida (dolo eventual) afasta a tipicidade do delito. Conduta nuclear: trata-se da conduta do agente que dá causa à instauração de inquérito policial, de procedimento investigatório criminal, de processo judicial, de processo administrativo disciplinar, de inquérito civil ou de ação de improbidade administrativa contra alguém, imputando- lhe crime, infração ético-disciplinar ou ato ímprobo de que o sabe inocente. O elemento do tipo “alguém” indica, nitidamente, tratar-se de pessoa certa, não se podendo cometer o delito ao indicar para a autoridade policial apenas a materialidade do crime e as várias possibilidades de suspeitos. Resolva a questão a seguir: 24) Questão Autoral Ceisc | Revisão Turbo 39° Exame da OAB Diego, funcionário público do Tribunal de Justiça, ao tomar conhecimento que João, também funcionário público e com menos tempo de carreira, foi designado para atuar em uma função de chefia, faz uma denúncia anônima a Corregedoria do Tribunal imputando falsamente que João exigia vantagem indevida para acelerar o andamento de processos que tramitavam na serventia cartorária. Denunciação caluniosa (art. 339 do CP) O agente imputa um ato ilícito a uma pessoa certa/determinada A imputação pode ser de crime, contravenção penal, ato de improbidade ou infração ético-disciplinar. Dolo direto: o agente sabe que está denunciando uma pessoa inocente Se o agente simplesmente comunicar falsamente um crime ou uma contravenção, mas sem acusar ninguém haverá o crime do artigo 340 do CP (comunicação falsa de crime ou contravenção). Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 77 Diante da gravidade das acusações, a Corregedoria resolve instaurar processo administrativo disciplinar em desfavor de João para melhor apurar os fatos. Após intensa investigação e oitiva de todos os funcionários lotados na unidade judiciária em questão, o processo administrativo disciplinar restou arquivado. Após alguns meses,restou comprovado que a denúncia que pairava sobre João era completamente descabida e que o autor da denúncia anônima era Diego, tendo a Corregedoria de Justiça encaminhado o expediente à Delegacia de Polícia responsável para apurar a conduta de Diego no âmbito criminal. Diante dos fatos narrados, é correto afirmar que Diego A) cometeu o delito de comunicação falsa de crime ou contravenção penal previsto no artigo 340 do CP. B) cometeu o delito de denunciação caluniosa previsto no artigo 339 do CP sem aplicação de causa de aumento de pena. C) cometeu o delito de denunciação caluniosa previsto no artigo 339 do CP com aplicação de causa de aumento de pena em razão do anonimato. D) não cometeu crime contra a administração da justiça pois o processo administrativo restou arquivado, devendo sua conduta ser enquadrada, no máximo, como crime de calúnia previsto no artigo 138 do CP. 10.2. Comunicação falsa de crime ou contravenção penal (art. 340 do CP) Art. 340 do Código Penal Provocar a ação de autoridade, comunicando-lhe a ocorrência de crime ou de contravenção que sabe não se ter verificado: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa. 10.3. Autoacusação falsa (art. 341 do CP) Art. 341 do Código Penal Acusar-se, perante a autoridade, de crime inexistente ou praticado por outrem: Pena - detenção, de três meses a dois anos, ou multa. 10.4. Falso testemunho ou falsa perícia (art. 342 do CP) Art. 342 do Código Penal Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa (Aumento de pena) § 1º As penas aumentam-se de um sexto a um terço, se o crime é praticado mediante suborno ou se cometido com o fim de obter prova destinada a produzir efeito em processo penal, ou em processo civil em que for parte entidade da administração pública direta ou indireta. (Retratação) O fato deixa de ser punível se, antes da sentença no processo em que ocorreu o ilícito, o agente se retrata ou declara a verdade. Conduta nuclear: trata-se de crime de ação múltipla, pois três são as ações típicas: Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 78 a) “Fazer afirmação falsa”. Segundo a doutrina, cuida-se aqui da falsidade positiva, pois o agente declara a ocorrência de fato inverídico. Ex.: testemunha que, para forjar um álibi em favor do acusado, afirma falsamente que, no momento do crime, ele estava em sua companhia. b) “Negar a verdade”. Essa modalidade constitui a chamada falsidade negativa, pois o agente tem ciência da verdade, mas nega o que sabe. Ex.: testemunha de acusação que nega falsamente que a vítima de homicídio tenha anteriormente tentado estuprar a filha do acusado. c) “Calar a verdade”. É, segundo a doutrina, a chamada reticência. Aqui há o silêncio a respeito do que se sabe ou se recusa em manifestar a ciência que se tem dos fatos. Há, assim, resistência por parte do agente em declarar a verdade. Não há, ao contrário das demais modalidades, qualquer afirmação falsa ou negativa. Ex.: perito que omite dados relevantes ao elaborar o laudo pericial, de forma a criar prova benéfica ao acusado. Crime de mão própria: trata-se de crime de mão própria (de atuação pessoal ou de conduta infungível). Nesse passo, somente pode ser cometido pelo sujeito em pessoa. São sujeitos ativos desse delito a testemunha, o perito, o tradutor, o contador ou o intérprete Consumação: é crime formal, não exigindo, portanto, para a sua consumação, resultado naturalístico. Consuma-se o falso testemunho com o encerramento do depoimento. Em tese, o crime consuma-se no momento em que é proferido o falso; contudo, como o depoente pode retificar o que foi declarado até o encerramento do depoimento, entende-se consumado o crime nesse exato instante. Retratação: no caso, o agente, antes da sentença no processo em que ocorreu o falso testemunho, declara a verdade. Na realidade, o crime já se consumou no momento em que o depoimento foi encerrado, contudo, a lei faculta ao agente o direito de arrepender-se antes da prolação da sentença de primeiro grau, possibilitando com isso o esclarecimento da verdade dos fatos e, consequentemente, a extinção da punibilidade. Trata-se, portanto, de condição resolutiva da punibilidade. Embora já consumado o crime, a punição depende, ainda, de o agente não se retratar ou declarar a verdade, oportunamente. 10.5. Exercício arbitrário das próprias razões (art. 345 do CP) Art. 345 do Código Penal Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite: Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena correspondente à violência. Parágrafo único - Se não há emprego de violência, somente se procede mediante queixa. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 79 10.6. Favorecimento pessoal (art. 348 do CP) Art. 348 do Código Penal Auxiliar a subtrair-se à ação de autoridade pública autor de crime a que é cominada pena de reclusão: Pena - detenção, de um a seis meses, e multa. § 1º - Se ao crime não é cominada pena de reclusão: Pena - detenção, de quinze dias a três meses, e multa. § 2º - Se quem presta o auxílio é ascendente, descendente, cônjuge ou irmão do criminoso, fica isento de pena. 10.7. Favorecimento real (art. 349 do CP) Art. 349 do Código Penal Prestar a criminoso, fora dos casos de coautoria ou de receptação, auxílio destinado a tornar seguro o proveito do crime: Pena - detenção, de um a seis meses, e multa. Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 80 Gabaritos das questões: 1 – A 2 – D 3 – C 4 – C 5 – B 6 – D 7 – C 8 – D 9 – C 10 – D 11 – C 12 – A 13 – D 14 – A 15 – B 16 – A 17 – B 18 – C 19 – D 20 – D 21 – A 22 – D 23 – C 24 – C Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 81 https://ceisc.com.br/listagem/8 Revisão Turbo | 39º Exame de Ordem Direito Penal 82