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2018 Cooperativismo e assoCiativismo Prof. Marcelo Borghezan Copyright © UNIASSELVI 2018 Elaboração: Prof. Marcelo Borghezan Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: B732c Borghezan, Marcelo Cooperativismo e associativismo. / Marcelo Borghezan. – Indaial: UNIASSELVI, 2018. 274 p.; il. ISBN 978-85-515-0230-3 1.Cooperativismo e Associativismo Rural. – Brasil. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 334 III apresentação Olá, acadêmico! Seja bem-vindo à disciplina de Cooperativismo e Associativismo. Este é um tema de grande utilidade para muitas atividades do setor do agronegócio. O associativismo é uma forma de cooperação entre os membros da sociedade civil, atuando sem fins lucrativos, onde os indivíduos se organizam de forma democrática em defesa de interesses comuns. O cooperativismo é uma associação de pessoas que se unem em cooperação mútua, em busca de interesses e necessidades econômicas, sociais e culturais, com organização e administração de forma democrática e coletiva. Com o objetivo de melhorar a compreensão e facilitar o aprendizado sobre o associativismo e o cooperativismo, os temas estão distribuídos em três unidades. Inicialmente, serão apresentados os aspectos que contextualizam o setor agropecuário no Brasil, fornecendo uma base teórica para compreender como o associativismo e o cooperativismo podem contribuir para o desenvolvimento do agronegócio. Na primeira unidade, serão analisados os temas relacionados com a formação e distribuição da propriedade agrária, a estrutura fundiária e o tamanho das propriedades rurais, além das características que originaram a desigualdade entre as regiões agrícolas brasileiras. Abordaremos a importância das políticas públicas para o setor do agronegócio, identificando as principais políticas públicas voltadas às atividades agropecuárias, destacando aquelas direcionadas para a atuação de associações e cooperativas rurais. Na segunda unidade, estudaremos o associativismo de forma mais aprofundada, destacando a organização social rural, as formas de trabalho no campo, a importância do trabalho coletivo e da cooperação. Fazem parte desta unidade, os princípios e valores do trabalho coletivo, as vantagens e desvantagens de se estabelecer uma associação, a legislação sobre o associativismo e o cooperativismo, sua relação com o desenvolvimento sustentável e as condições e características que possibilitam a constituição e o funcionamento da associação rural. A terceira unidade abordará o cooperativismo, discutindo os aspectos históricos, a simbologia adotada pelo movimento cooperativista no mundo, as formas de atuação e de representação. Vamos aprender sobre a estrutura de uma cooperativa, a importância do estatuto, os direitos e deveres dos cooperados. Esses conhecimentos ajudarão na compreensão dos procedimentos para a implementação e administração de uma cooperativa. IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. 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Desejamos que os conhecimentos contribuam com seu aprendizado e possibilitem melhorar a sua formação profissional. Agradecemos e desejamos uma boa leitura. Bons estudos! Prof. Marcelo Borghezan NOTA V Olá acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você e dinamizar ainda mais os seus estudos, a Uniasselvi disponibiliza materiais que possuem o código QR Code, que é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só aproveitar mais essa facilidade para aprimorar seus estudos! UNI VI VII UNIDADE 1 – DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO ................................................ 1 TÓPICO 1 – HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA ..................................................................... 3 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3 2 DESEMPENHO ECONÔMICO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO ..................................... 3 3 CONCEITUAÇÃO DE QUESTÃO AGRÁRIA .............................................................................. 8 4 ORIGEM E FORMAÇÃO DA PROPRIEDADE AGRÁRIA ....................................................... 13 5 QUESTÃO AGRÁRIA NA ATUALIDADE ..................................................................................... 19 5.1 O CAMPESINATO........................................................................................................................... 20 5.2 A EXPANSÃO DAS FRONTEIRAS AGROPECUÁRIAS ........................................................... 22 5.3 O PROCESSO MIGRATÓRIO ........................................................................................................ 22 5.4 A PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA ............................................................................................... 23 5.5 O SETOR DO AGRONEGÓCIO .................................................................................................... 23 5.6 AS OCUPAÇÕES E AS FORMAÇÕES DE ASSENTAMENTOS RURAIS .............................. 23 5.7 A VIOLÊNCIA NO CAMPO .......................................................................................................... 24 6 O BRASIL AGRÁRIO .......................................................................................................................... 25 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 28 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 29 TÓPICO 2 – ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO REGIONAL ............................... 31 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................31 2 ESTRUTURA FUNDIÁRIA BRASILEIRA ...................................................................................... 31 3 TAMANHO DAS PROPRIEDADES RURAIS ................................................................................ 38 3.1 MÓDULO FISCAL ........................................................................................................................... 40 4 DESEQUILÍBRIO REGIONAL .......................................................................................................... 42 4.1 DENSIDADE POPULACIONAL E SUA RELAÇÃO COM A DESIGUALDADE REGIONAL ....................................................................................................................................... 43 4.2 PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) E SUA RELAÇÃO COM A DESIGUALDADE REGIONAL ....................................................................................................................................... 46 5 CICLOS ECONÔMICOS BRASILEIROS ........................................................................................ 47 5.1 CICLO DO PAU-BRASIL ................................................................................................................ 48 5.2 CICLO DA CANA-DE-AÇÚCAR ................................................................................................. 49 5.3 CICLO DA PECUÁRIA ................................................................................................................... 50 5.4 CICLO DO OURO E DA MINERAÇÃO ...................................................................................... 52 5.5 CICLO DA BORRACHA ................................................................................................................ 53 5.6 CICLO DO CAFÉ ............................................................................................................................. 55 5.7 CICLO DA INDUSTRIALIZAÇÃO E DA DIVERSIFICAÇÃO DA ECONOMIA ................. 57 6 CONDIÇÕES ESTRUTURAIS DO BRASIL ATUAL .................................................................... 58 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 60 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 61 TÓPICO 3 – POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL ................................ 63 1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 63 2 CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO RURAL BRASILEIRO .............................................. 63 sumário VIII 3 POLÍTICAS PÚBLICAS E SEUS ESTÁGIOS DE FORMAÇÃO ...............................................67 4 TIPOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS ................................................................................................69 4.1 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O ASSOCIATIVISMO E COOPERATIVISMO ....................74 4.1.1 Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE .....................................................75 4.1.2 Programa de Aquisição de Alimentos – PAA ...................................................................76 4.1.3 Direitos relativos à propriedade industrial .......................................................................76 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................78 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................81 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................82 UNIDADE 2 – ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO ..............85 TÓPICO 1 – TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL ................................................87 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................87 2 ORGANIZAÇÃO SOCIAL RURAL NO BRASIL ........................................................................87 3 O TRABALHO RURAL .....................................................................................................................90 3.1 FORMAS DE TRABALHO RURAL ............................................................................................93 4 RELAÇÕES DE ORGANIZAÇÃO E COOPERAÇÃO ................................................................96 4.1 ORGANIZAÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO NA NATUREZA .....................................98 4.2 ORGANIZAÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO NA HISTÓRIA HUMANA ....................100 4.3 ORGANIZAÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO NA ATUALIDADE .................................106 4.3.1 Ponto de vista socialista .......................................................................................................106 4.3.2 Ponto de vista capitalista .....................................................................................................109 5 CAPITAL SOCIAL ..............................................................................................................................111 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................114 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................115 TÓPICO 2 – ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO .....................................................................117 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................117 2 A CULTURA DA COOPERAÇÃO ..................................................................................................117 2.1 PRINCÍPIOS E VALORES DA COOPERAÇÃO ........................................................................120 3 O ASSOCIATIVISMO .......................................................................................................................120 3.1 COMPORTAMENTOS QUE FAVORECEM E QUE DIFICULTAM O ASSOCIATIVISMO ....................................................................................................................121 3.2 PRINCÍPIOS DO ASSOCIATIVISMO .........................................................................................123 3.3 TIPOS DE ASSOCIAÇÕES ...........................................................................................................124 4 ASSOCIAÇÕES RURAIS ..................................................................................................................126 4.1 VANTAGENS E LIMITAÇÕES DO ASSOCIATIVISMO RURAL ..........................................127 4.2 ASSOCIATIVISMO RURAL: CONDOMÍNIOS E CONSÓRCIOS AGRÍCOLAS .................129 5 LEGISLAÇÃO PARA O ASSOCIATIVISMO E PARA O COOPERATIVISMO NO BRASIL ..........................................................................................................................................131 6 O ASSOCIATIVISMO E O COOPERATIVISMO NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.......................................................................................133 6.1 O ASSOCIATIVISMO NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL, DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E DE AÇÕES INTERINSTITUCIONAIS ................................135 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................139 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................140 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................141TÓPICO 3 – CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS .......143 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................143 2 A CRIAÇÃO DE UMA ASSOCIAÇÃO ..........................................................................................144 IX 2.1 IDENTIFICAÇÃO DE INTERESSES E NECESSIDADES COMUNS .....................................144 2.2 O QUE FAZER PARA CRIAR UMA ASSOCIAÇÃO ...............................................................145 2.3 FASE 1: SENSIBILIZAÇÃO ..........................................................................................................146 2.3.1 O estatuto social da associação ...........................................................................................148 2.4 FASE 2: CONSTITUIÇÃO .............................................................................................................150 2.4.1 Registros da associação ........................................................................................................152 2.4.1.1 Registro no cartório civil ...................................................................................................152 2.4.1.2 Registro no órgão da Receita Federal .............................................................................154 2.4.1.3 Registro na Secretaria Estadual da Fazenda ..................................................................154 2.4.1.4 Registro no Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS ......................................154 2.4.1.5 Registro na Prefeitura Municipal ....................................................................................154 2.5 FASE 3: PRÉ-OPERACIONAL .....................................................................................................155 2.6 FASE 4: OPERACIONAL ..............................................................................................................155 3 A ADMINISTRAÇÃO DE UMA ASSOCIAÇÃO ........................................................................156 3.1 ASSEMBLEIAS ...............................................................................................................................156 3.1.1 Assembleia geral de fundação ou de constituição ...........................................................157 3.1.2 Assembleia Geral Ordinária (AGO) ...................................................................................157 3.1.3 Assembleia Geral Extraordinária (AGE) ...........................................................................158 3.2 ATRIBUIÇÕES DOS MEMBROS DA DIRETORIA E DO CONSELHO FISCAL .................158 3.2.1 Atribuições da diretoria .......................................................................................................159 3.2.1.1 Atribuições do presidente .................................................................................................160 3.2.1.2 Atribuições do vice-presidente ........................................................................................160 3.2.1.3 Atribuições do secretário ..................................................................................................160 3.2.1.4 Atribuições do tesoureiro ..................................................................................................161 3.2.2 Atribuições do conselho fiscal .............................................................................................161 3.3 CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES LEGAIS ..........................................................................162 3.4 PLANEJAMENTO E AÇÕES DO DIA A DIA DA ASSOCIAÇÃO ........................................163 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................165 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................166 UNIDADE 3 – COOPERATIVISMO ..................................................................................................169 TÓPICO 1 – HISTÓRICO E IMPORTÂNCIA DO COOPERATIVISMO ..................................171 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................171 2 CONTEXTO HISTÓRICO DO SURGIMENTO DO COOPERATIVISMO ...........................172 3 HISTÓRICO DO COOPERATIVISMO MODERNO ..................................................................175 3.1 PRECURSORES DO COOPERATIVISMO .................................................................................175 3.2 A PRIMEIRA COOPERATIVA MODERNA: A SOCIEDADE DOS PROBOS DE ROCHDALE .............................................................................................................................178 3.3 HISTÓRICO DO COOPERATIVISMO NO BRASIL .................................................................182 4 ECONOMIA SOLIDÁRIA E A RELAÇÃO COM O ASSOCIATIVISMO E O COOPERATIVISMO ..................................................................................................................186 5 CLASSIFICAÇÃO E REPRESENTAÇÕES DO SISTEMA COOPERATIVO .........................188 5.1 REPRESENTAÇÕES DO SISTEMA COOPERATIVO ..............................................................190 5.1.1 Aliança Cooperativa Internacional (ACI) ..........................................................................190 5.1.2 Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) ............................................................191 5.1.3 Confederação Nacional das Cooperativas (CNCOOP) ...................................................193 5.1.4 Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (SESCOOP) ..........................194 5.1.5 Frente Parlamentar do Cooperativismo (FRENCOOP) ..................................................197 5.1.6 Departamento de Cooperativismo e Associativismo Rural (DENACOOP) ................197 5.1.7 Conselho Nacional de Cooperativismo (CNC) ................................................................197 X 5.1.8 União Nacional das Organizações Cooperativas Solidárias (Unicopas) ......................198 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................200 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................202 TÓPICO 2 – ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO COOPERATIVISMO ...............................203 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................203 2 VALORES E PRINCÍPIOS DO COOPERATIVISMO .................................................................204 2.1 VALORES DO COOPERATIVISMO ...........................................................................................205 2.2 PRINCÍPIOS DO COOPERATIVISMO .......................................................................................205 3 SÍMBOLOS DO COOPERATIVISMO ...........................................................................................207 4 DATAS E COMEMORAÇÕES DO COOPERATIVISMO ..........................................................208 5 RAMOS DO COOPERATIVISMO .................................................................................................210 6 DADOS ESTATÍSTICOS DO COOPERATIVISMO NO MUNDO E NO BRASIL ..............213 6.1 DADOS DO COOPERATIVISMO NO MUNDO ......................................................................213 6.2 DADOS DO COOPERATIVISMO NO BRASIL.........................................................................215 7 CARACTERÍSTICAS E DIFERENÇAS ENTRE ASSOCIAÇÕES E COOPERATIVAS........219 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................228 AUTOATIVIDADE...............................................................................................................................229 TÓPICO 3 – CONSTITUIÇÃO E ADMINISTRAÇÃO DAS COOPERATIVAS ......................231 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................231 2 A CRIAÇÃO DE UMA COOPERATIVA ........................................................................................231 2.1 UMA COOPERATIVA OU UMA ASSOCIAÇÃO? ...................................................................233 2.2 O QUE FAZER PARA CRIAR UMA COOPERATIVA .............................................................234 2.2.1 Fase de sensibilização ...........................................................................................................235 2.2.2 Fase de constituição ..............................................................................................................237 2.2.3 Fase operacional ou de início das atividades ...................................................................238 3 COMO FUNCIONA UMA COOPERATIVA .................................................................................239 3.1 ASSEMBLEIA GERAL...................................................................................................................241 3.2 DIRETORIA OU CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO ..........................................................243 3.2.1 Distribuição das sobras ou dos prejuízos ..........................................................................248 3.2.2 Impostos e tributos ...............................................................................................................250 3.3 CONSELHO FISCAL .....................................................................................................................252 3.4 AUDITORIA INTERNA E AUDITORIA EXTERNA INDEPENDENTE ...............................253 4 PARTICIPAÇÃO E FUNÇÕES DOS COOPERADOS ................................................................255 4.1 DIREITOS E DEVERES DOS COOPERADOS ...........................................................................256 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................257 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................261 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................262 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................263 1 UNIDADE 1 DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • apresentar os conceitos relacionados à questão agrária, estrutura fundiária e desenvolvimento rural; • compreender como ocorreu a formação da propriedade agrária no Brasil e como esse processo resultou na estrutura fundiária e na desigualdade regional na atualidade; • identificar os principais aspectos relacionados às iniciativas de estímulo ao desenvolvimento rural e as principais políticas públicas direcionadas ao agronegócio e à agricultura familiar; • possibilitar uma análise crítica do processo histórico de posse da terra, como base para a adoção de ações que visem minimizar os problemas relacionados à questão agrária e estimular o desenvolvimento rural de forma mais sustentável; • identificar e conhecer as principais políticas públicas voltadas ao associativismo e ao cooperativismo, compreendendo a importância da cooperação e as suas oportunidades; • identificar os benefícios do trabalho associativo para a viabilização da propriedade, para a cadeia de produção e para o desenvolvimento territorial. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA TÓPICO 2 – ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO REGIONAL TÓPICO 3 – POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 1 INTRODUÇÃO Neste primeiro tópico serão abordados os temas relacionados à economia do setor de agronegócios, a questão agrária brasileira, apresentando explicações conceituais e um breve comentário histórico para a compreensão das características que estruturaram a distribuição das terras no Brasil. Esses conhecimentos têm o objetivo de promover a identificação das dificuldades e da realidade do agronegócio brasileiro na atualidade. Espera-se que os temas apresentados proporcionem condições para uma compreensão das origens socioeconômicas e dos desafios relacionados ao meio rural e à estrutura fundiária, servindo de estímulo ao pensamento crítico e ao aproveitamento de novas oportunidades de desenvolvimento rural, principalmente através do associativismo e do cooperativismo. 2 DESEMPENHO ECONÔMICO DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO O Brasil apresenta um modelo de desenvolvimento econômico onde o setor agropecuário apresenta grande importância. Na análise da composição dos setores da economia, observa-se que o setor terciário (serviços e comércio) representa a maior parcela de participação no PIB, com 71% (Figura 1). O setor primário, que está relacionado apenas com a produção agropecuária, participou com 5,6% da economia brasileira. O setor industrial (secundário) representou pouco mais de 23% do somatório total de riquezas produzidas no Brasil em 2014. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 4 FIGURA 1 – SETORES E PIB 2014 INDÚSTRIA 23,4% AGROPECUÁRIA 5,6% SERVIÇOS 71% FONTE: Disponível em: <http://economia.estadao.com.br/blogs/celso-ming/o-ajuste- refugado/>. Acesso em: 17 jun. 2018. Embora essa participação com valor pouco acima de 5% pareça baixa, veremos que as atividades agropecuárias apresentam maior impacto na economia e na composição do PIB. O setor econômico que está relacionado ao PIB do Agronegócio envolve de forma direta, não apenas o setor primário de produção agropecuário, mas outros segmentos (CEPEA, 2017), como: • insumos: setor relacionado com o fornecimento de produtos e condições para a produção agropecuária, como a pesquisa, produção, industrialização e comercialização de itens utilizados na produção (fertilizantes, medicamentos, sementes, maquinários, equipamentos, embalagens etc.); • produção primária: envolve de forma direta as atividades de produção agrícola e criação pecuária, ou seja, aquele setor relacionado às atividades realizadas pelos agricultores “dentro da propriedade”; • indústria: participação dos segmentos de processamento, transformação, entre outras atividades industriais relacionadas às atividades agropecuárias. Podem ser citados os abatedouros (bovinos, aves, suínos, peixes etc.), as agroindústrias de transformação de produtos alimentícios (embutidos, laticínios, farinhas, óleos vegetais, conservas, doces, couro etc.), setor têxtil (couro, fibras naturais), biocombustíveis, processamento de madeira, papel e celulose, entre outros; • serviços: correspondem às atividades envolvidas com a comercialização, entre outros agrosserviços. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 5 Conforme esta metodologia de avaliação, o PIB do Agronegócio em 2017 participou com 21,6% do PIB brasileiro (CEPEA, 2017). Embora a metodologia de cálculo do PIB utilizada pelo CEPEA (balanço dos preços reais entre os anos avaliados) difira daquela utilizada pelo IBGE (utiliza os preços constantes do primeiro ano para a comparação entre os anos avaliados), esses dados demonstram a grande importância do agronegócio para a economia nacional. Utilizando dados do IBGE (período de 1995-2005), Ghilhoto et al. (2007, p. 23) apresentaram uma análise mais detalhada da importância da atividadepatronal e familiar na participação do PIB do Agronegócio (figura 2A). Esses autores também separaram as atividades relacionadas com a produção agrícola daquelas relativas ao segmento pecuário (figura 2B). FIGURA 2 – AGRONEGÓCIO E SEGMENTO AGRÍCOLA a) b) 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 69,9% 20,4% 9,7% 1995 71,2% 19,6% 9,3% 1996 71,1% 19,6% 9,3% 2002 69,4% 20,5% 10,1% 2003 70,1% 20,3% 9,6% 2004 72,1% 10,9% 9,0% 2005 72,9% 18,2% 8,8% 2001 73,1% 18,0% 9,0% 2000 71,9% 18,6% 9,4% 1999 72,2% 18,7% 9,1% 1998 72,4% 18,6% 9,0% 1997 Participação do PIB dos outros setores Participação do PIB Agronegócio Patronal Participação do PIB Agronegócio Familiar 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% 1995 1996 2002 2003 2004 200520012000199919981997 Participação do PIB do Complexo Familiar Agrícola Participação do PIB do Complexo Patronal Pecuário Participação do PIB do Complexo Patronal Agrícola Participação do PIB do Complexo Familiar Pecuário 21% 21% 20% 21% 20% 19%20%20%21%21%22% 19% 49% 11% 18% 49% 11% 19% 49% 13% 18% 49% 12% 18% 50% 12% 18% 50% 13% 19% 48% 13% 19% 47% 13% 19% 48% 12% 18% 50% 12% 18% 50% 11% FONTE: Ghilhoto et al. (2007, p. 23) UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 6 Observa-se que o PIB do agronegócio foi responsável por quase 30% do PIB nacional, participando no ano de 2005 com 27,9%. Em relação à participação dos segmentos agropecuários, o agronegócio patronal representou aproximadamente 2/3 do PIB do agronegócio. Já as atividades econômicas da agricultura familiar representaram aproximadamente 1/3 do PIB do agronegócio e, aproximadamente, 10% do PIB total brasileiro neste período (Figura 2A). Esses dados demonstram o desempenho expressivo da agropecuária na economia nacional, evidenciando a participação da propriedade familiar nas atividades agropecuárias e na geração de riqueza do país. Levando em consideração apenas o PIB do agronegócio, observa-se, ao longo do período de 1995 a 2005, uma proporção com poucas variações entre os quatro complexos relacionados à atividade agropecuária. A produção agrícola representou a maior parte da riqueza gerada pelo agronegócio, com cerca de 70% do PIB do agronegócio, enquanto as atividades pecuárias são responsáveis por aproximadamente 30%. O complexo patronal agrícola foi o que apresentou a maior importância na composição do agronegócio brasileiro, participando com cerca de 50%. O complexo familiar pecuário possui a menor fatia na soma de riquezas, variando entre 11% e 13% do PIB do agronegócio (Figura 2 B). A participação das regiões do Brasil no PIB demonstra que o Sudeste concentra a maior parte da riqueza produzida no país, com quase 55%. As regiões menos expressivas na composição do PIB nacional são o Norte e o Centro- Oeste, que participam com menos de 10% cada (Figura 3). Em relação ao PIB do agronegócio, o Sudeste permanece como a principal região (39,2%), seguido de uma participação mais importante da região Sul (29,8%). Na análise do PIB das atividades realizadas pela agricultura familiar, evidencia-se que a região Sul possui uma grande importância, sendo que 43,7% da riqueza gerada pelo agronegócio da região têm origem nas propriedades familiares. As regiões com o menor predomínio da agricultura familiar em relação à agricultura patronal são as do Centro-Oeste e do Norte, que possuem participação menor que 10% cada (Figuras 3 e 4). FIGURA 3 – PIB DO AGRONEGÓCIO POR REGIÃO 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% PIB Total PIB Agronegócio PIB Agronegócio Familiar Sul Centro-OesteNorte Nordeste Sudeste 5,3% 5,9% 9,0% 14,1% 54,9% 18,2% 7,5% 13,7% 39,2% 29,8% 11,4% 16,1% 24,0% 43,7% 7,1% FONTE: Ghilhoto et al. (2007, p. 38) TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 7 FIGURA 4 – PIB DO AGRONEGÓCIO POR ESTADOS FONTE: Ghilhoto et al. (2007, p. 59) A Figura 4 ilustra a expressão econômica do Estado de São Paulo, que alicerça o domínio da região Sudeste na composição do PIB do agronegócio. Os três estados do Sul do Brasil também apresentaram uma significativa importância, destacando-se o equilíbrio entre a participação patronal e familiar. Esse equilíbrio também ficou evidente nos estados da região Norte e da região Nordeste, com exceção da Bahia e de Pernambuco. Segundo os dados apresentados por Ghilhoto et al. (2007), o Rio Grande do Sul foi o único estado da federação em que o PIB da agricultura familiar predomina sobre o PIB da agricultura patronal. Nos estados UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 8 da região Centro-Oeste, observa-se um quadro semelhante à região Sudeste, onde há um predomínio da participação patronal sobre a agropecuária familiar na composição do PIB do agronegócio. A maior parte dos estados das regiões Norte e Nordeste apresenta pequena expressão do PIB do agronegócio, demonstrando as desigualdades econômicas regionais na geração de riqueza. Apresentadas algumas características relacionadas ao desempenho econômico do agronegócio brasileiro, veremos agora como este tema se relaciona a outro de grande importância no setor agropecuário do Brasil, a questão agrária. A Questão Agrária e suas implicações, relacionadas com a concentração de terras, com o exercício do direito jurídico no campo e com as dificuldades de manutenção e crescimento da população rural, favorecem as desigualdades nas relações econômicas e de produção, o aparecimento de movimentos sociais de luta pela terra, o surgimento de outras formas de promoção do desenvolvimento territorial e a formação de organizações sociais na busca por melhores condições de vida (MIRALHA, 2006). Assim, estudaremos um pouco mais sobre o que é a questão agrária, qual a sua origem e como essa discussão se insere na formação da agropecuária brasileira. 3 CONCEITUAÇÃO DE QUESTÃO AGRÁRIA A questão agrária não apresenta uma conceituação simples e direta. Sua conceituação pode ser explicada de diferentes formas, de acordo com a ênfase direcionada ao estudo. Stédile (2012) trata a questão agrária como o conjunto de interpretações e análises da realidade agrária, que busca explicar como se organizou e como ocorre a posse, a propriedade e a utilização das terras na sociedade brasileira. Este autor também sugere que o conceito de questão agrária pode ser interpretado segundo os diferentes campos de conhecimento: • literatura política: compreende o estudo dos problemas que a concentração da propriedade de terra ocasiona sobre o desenvolvimento das possibilidades produtivas de uma sociedade em particular e como exerce influência no poder político; • sociologia: retrata as formas como se desenvolvem as relações sociais, na organização da produção agropecuária de uma sociedade; • geografia: se relaciona com a forma como a sociedade, ou seja, as pessoas se apropriam da utilização do recurso natural terra, resultando na ocupação humana do território; • história: contribui para explicar a evolução da luta política e de classes para o controle e domínio dos territórios, além da posse da terra. Outros autores descrevem a questão agrária como a relação entre o problema da concentração fundiária, que ocasiona as injustiças no campo e a miséria da população rural, e a reforma dessa desigualdade (MIRALHA, 2006). Neto (2006) descreve que a questão agrária, conceituada do ponto de vista econômico, refere-se às transformações nas relações de produção. Do ponto de TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 9 vista jurídico, a questão agrária se aplica ao direito de propriedade imobiliária rural (NETO, 2006). Em uma análise mais voltada ao campo socioeconômico, a questão agrária é entendida como “o conjunto dos problemas inerentes ao desenvolvimento do capitalismo no campo” (GIRARDI, 2017). Já Delgado e Pereira (2017, p. 15) sugerem que para o entendimento da questão agrária, o conceito chave refere-se à Estrutura Agrária, ou seja, os direitosde propriedade, posse e uso da terra, compreendendo todos os recursos naturais associados a ela. Nessa visão, “a questão agrária refere-se a uma inadequação da estrutura agrária vigente”, baseada em dois aspectos: 1 – às condições de vida e de trabalho das populações rurais; e 2 – à presumida incapacidade dessa estrutura agrária em prover os excedentes produtivos necessários para atender à urbanização da sociedade e a industrialização da economia (DELGADO; PEREIRA, 2017). Para esse autor, a questão agrária e a reforma agrária estão diretamente ligadas, sendo interdependentes, pois ambas são geradas a partir da estrutura agrária configurada durante um longo período histórico. IMPORTANT E Conforme o Artigo 1°, §1°, da Lei Federal n° 4.504, de 30 de novembro de 1964, que dispõe sobre o Estatuto da Terra, “a Reforma Agrária é o conjunto de medidas que visam promover melhor distribuição da terra, mediante modificações no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento de produtividade”. O INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária é uma autarquia federal responsável pelas ações relacionadas à reforma agrária no Brasil. A reforma agrária busca a implantação de um modelo de assentamento rural baseado na viabilidade econômica, na sustentabilidade ambiental e no desenvolvimento territorial. Segundo o INCRA, do ponto de vista prático, a reforma agrária deveria proporcionar: desconcentração e democratização da estrutura fundiária; produção de alimentos básicos; geração de ocupação e renda; combate à miséria e à fome; interiorização dos serviços públicos básicos; redução da migração campo-cidade (êxodo rural); promoção da cidadania e da justiça social; diversificação do comércio e dos serviços no meio rural; e democratização das estruturas de poder. Para obter mais informações, acesse: <http:// www.incra.gov.br/reformaagraria>. Como verificamos, todos os autores discutem este tema considerando o domínio temporário de uma área física de terra, destinada à produção agropecuária. Outro aspecto comum entre eles, ao tratar da questão agrária, é a divisão entre duas categorias distintas, que consistem em: UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 10 • agricultura patronal (GHILHOTO et al., 2007), capitalista ou empresarial (STÉDILE, 2012; GIRARDI, 2017), dos grandes proprietários (MIRALHA, 2006), de latifúndios ou da classe latifundiária (NETO, 2006; GIRARDI, 2017) ou do agronegócio (GIRARDI, 2017); • agricultura familiar (STÉDILE, 2012; DELGADO; PEREIRA, 2017), de pequenas propriedades ou pequenos produtores (NETO, 2006; MIRALHA, 2006; STÉDILE, 2012), do lavrador através do trabalho familiar (NETO, 2006), da agricultura camponesa (STÉDILE, 2012), do agronegócio familiar (GHILHOTO et al., 2007) ou do campesinato (GIRARDI, 2017). Vamos analisar o quadro comparativo entre as principais características das atividades agropecuárias do agronegócio e do campesinato (Quadro 1). Essa separação pressupõe que o território do agronegócio e o do latifúndio compreendem os proprietários de grandes áreas, grandes empresas capitalistas e grileiros de terra. Como implicações, evidenciam-se a exploração do trabalho, crimes ambientais, mecanização, agropecuária intensa, superprodução, especulação imobiliária, violência e concentração de poder econômico e político. No lado oposto, o território do campesinato, relacionado aos pequenos produtores ou produtores familiares, compreende um quadro de luta pela terra (ocupações e assentamentos rurais), com estímulo à organização socioeconômica (associações, cooperativas, sindicatos, entre outras organizações coletivas), menor impacto ambiental, menor acesso a políticas públicas (crédito agrícola e assistência técnica) e baseado na diversificação das formas de produção e de produtos (GIRARDI, 2017). Esses dois extremos não representam a totalidade dos produtores rurais brasileiros, mas oferecem uma análise comparativa das diferenças entre a agricultura de grande escala e a produção agropecuária familiar. NOTA Grileiro de terras é um termo que se refere àqueles que realizam a usurpação de terras, a partir da falsificação de documentos de propriedade, com o objetivo de tomar posse de propriedades de terceiros ou de terras públicas. QUADRO 1 – COMPARAÇÃO AGRONEGÓCIO E CAMPESINATO AGRONEGÓCIO* (Patronal) CAMPESINATO** (Familiar) Centralização Descentralização • controle centralizado da produção, processamento e mercado; • produção concentrada, estabelecimentos agrícolas maiores e em menor número, o que acarreta um menor número de agricultores e de comunidades rurais. • maior ênfase na produção, processamento e mercado locais/regionais; • produção pulverizada (maior número de estabelecimentos e agricultores), controle da terra, recursos e capital. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 11 Dependência Independência • abordagem científica e tecnológica para produção; • dependência de experts; • dependência de fontes externas de energia, insumos e crédito; • dependência de mercados muito distantes. • unidades de produção menores, menor dependência de insumos, fontes externas de conhecimento, energia e crédito; • maior autossuficiência individual e da comunidade; • ênfase prioritária em valores, conhecimentos e habilidades pessoais. Competitivo Comunitário • competitividade e interesse próprio; • agricultura é considerada um negócio; • ênfase na eficiência, flexibilidade, quantidade e crescimento da margem de lucro. • maior cooperação; • agricultura é considerada um modo de vida e um negócio; • ênfase em uma abordagem holística da produção, otimizando todas as partes do agroecossistema. Domínio da natureza Harmonia com a natureza • o ser humano é separado e superior à natureza; • a natureza consiste principalmente em recursos a serem utilizados para o crescimento econômico; • imposição das estruturas e sistemas do tempo humano aos ciclos naturais; • produtividade maximizada através de insumos industrializados e modificações científicas; • apropriação de processos naturais por meios científicos e substituição de produtos naturais pelos industriais. • o ser humano é parte e dependente da natureza; • a natureza provê recursos e também é valorizada para o próprio bem; • trabalha com uma abordagem ecológica/ de ambiente fechado – desenvolvendo um sistema diferenciado e balanceado; • incorpora mais produtos e processos naturais; • usa métodos culturais para cuidar do solo. Especialização Diversidade • base genética limitada utilizada na produção; • predominância da monocultura; • separação entre agricultura e pecuária; • sistemas de produção padronizados; • predominância de uma abordagem científica especializada. • ampla base genética; incorporação da policultura; rotações complexas; • integração entre agricultura e pecuária; • heterogeneidade de sistemas agrícolas; • interdisciplinaridade (ciências naturais e sociais), sistema participativo (inclusão de agricultores). Exploração Abdicação • ênfase nos resultados de curto prazo em detrimento a consequências ambiental e social de longo prazo; • dependência de recursos não renováveis; • consumismo impulsiona o crescimento econômico; • hegemonia do conhecimento científico e da abordagem industrial sobre conhecimento e cultura indígenas, tradicionais e/ou locais. • custo total contabilizado; • resultados de curto e longo prazo igualmente importantes; • amplo uso de recursos renováveis e conservação de recursos não renováveis; • consumo sustentável, estilo de vida mais simples; • acesso equitativo a necessidades básicas; • reconhecimento e incorporação de outros conhecimentos e práticas, permitindo uma base de conhecimento mais homogênea. * No original “Paradigma Agrícola Convencional/Dominante”. ** No original “Paradigma Agrícola Alternativo”. FONTE: Adaptado de Girardi (2017). Disponível em: <http://www.atlasbrasilagrario.com.br/con_ subcat/a-questao-agraria>.Acesso em: 18 jun. 2018. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 12 As diferenças ideológicas e de interesses econômicos geram os enfrentamentos nas áreas rurais, verificadas atualmente. O confronto entre ideias e ações a respeito da posse da terra e dos meios de produção são problemas recorrentes na política agrária brasileira e que não são facilmente resolvidos. O impasse sobre a questão agrária resulta da oposição entre o regime fundiário constitucional e aquele da autonomia do mercado (DELGADO; PEREIRA, 2017). Esse quadro se reflete em uma crescente instabilidade social, aumento do número de conflitos entre trabalhadores e latifundiários, além da insustentabilidade ambiental, apresentando repercussões gerais para toda a sociedade brasileira. Agora veremos como ocorreu este processo de formação agrária no Brasil, analisando, a partir dos aspectos históricos, os fatores que conduziram ao atual panorama de distribuição das propriedades e ao surgimento das diversas organizações sociais, identificadas com a luta pela terra e pela implementação da reforma agrária. NOTA A agricultura familiar é responsável por uma grande parte da alimentação nacional. A FAO chamou a atenção para este aspecto ao identificar o ano de 2014 como o Ano Internacional da Agricultura Familiar. Verifique alguns aspectos sobre a agricultura familiar na imagem a seguir. Disponível em: <http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2014/03/04_ infografico_ANO-DA-AGRICULTURA-FAMILIAR.jpg>. Acesso em: 30 jul. 2018. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 13 4 ORIGEM E FORMAÇÃO DA PROPRIEDADE AGRÁRIA A partir da chegada dos portugueses e a ocupação do espaço territorial brasileiro em 1500, foi originada a formação histórica da propriedade agrária que verificamos na atualidade (NETO, 2006). Porém, antes da chegada dos europeus ao continente americano, diversas etnias indígenas ocupavam o território e, instigadas por diferentes interesses e necessidades, alteravam sua distribuição na área geográfica. Até 1500, as populações indígenas nativas viviam em agrupamentos sociais, desde níveis mais simples (famílias e tribos) até sociedades formadas por complexas estruturas sociais. Possuíam hábitos de vida que variavam do nômade, dedicando-se à caça, pesca e extrativismo de produtos da natureza, até a produção agrícola diversificada e o domínio de técnicas que possibilitaram a domesticação de diversas espécies de plantas. Recentemente diversos pesquisadores têm se dedicado ao estudo das populações nativas americanas, na distribuição e ocupação do espaço geográfico ao longo do tempo e sua importância na contribuição para a agricultura e a alimentação mundial (CLEMENT et al., 2015). Como o propósito deste texto é apresentar os aspectos que resultaram no quadro atual da propriedade agrária brasileira, serão abordados alguns eventos que estão relacionados à posse da terra a partir do contato com os europeus. Para facilitar a interpretação e as características relacionadas com a formação da propriedade agrária no Brasil, Neto (2006) identificou o processo histórico de posse da terra, separando nas seguintes fases: Período pré-sesmarial, de 1501 a 1530: Na primeira fase, a Coroa portuguesa adotou um sistema de concessão de propriedades a particulares portugueses, já a partir de 1501, com a finalidade de exploração extrativista da “nova terra” e como forma de estabelecer o domínio do território. Neste período, a ocupação do território continuava sendo pelos indígenas, sem a presença física de forma importante dos colonizadores portugueses. Entretanto, a atividade extrativa de forma desorganizada e as frequentes incursões francesas, espanholas e holandesas fizeram com que a Coroa portuguesa, entre 1530-1532, implementasse uma nova forma de domínio e distribuição das terras: a sesmaria (NETO, 2006). Período sesmarial, de 1530 a 1822: Com a implementação da política de sesmarias, a manutenção da concessão a proprietários privados buscava promover a colonização, a exploração econômica de outras atividades e a vigilância do litoral brasileiro contra invasores. As terras eram concedidas aos membros da nobreza e mercadores pertencentes à classe emergente, desde que tivessem disponibilidade de capital e firmassem o compromisso de produzir, na colônia, mercadorias a serem exportadas à Europa (STÉDILE, 2012). Segundo Neto (2006), o processo mercantilista português do século XVI buscava acumular riquezas nas mãos do rei, que posteriormente redistribuía às classes mais beneficiadas. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 14 O regime de sesmarias era uma medida adotada para o aproveitamento das terras improdutivas ou, no caso do Brasil, ainda inexploradas. No regime de sesmarias, o titular da propriedade possuía um prazo para iniciar a produção agrícola, que se não fosse cumprido, seu direito de posse era cassado. Como legado, a implementação dos latifúndios, inicialmente de exploração da cana-de- açúcar, produziu uma economia baseada na monocultura destinada à exportação, estabelecida a partir do trabalho escravo, principalmente no Nordeste brasileiro. O avanço da importância da criação de gado contribuiu para a expansão dos domínios em direção ao interior do país, principalmente no Norte e Nordeste (NETO, 2006). Miralha (2006) destaca que a forma familiar de produção de itens de subsistência e para atender pequenos mercados locais esteve presente desde o início do período colonial, porém sempre de forma subordinada à grande propriedade. Entre o final de 1600 e início de 1700, as ordens reais que buscavam maior produtividade tornavam mais complexas a demarcação e a concessão de terras, ficando estabelecido em 1785 que o cultivo da terra era a condição essencial à posse da propriedade. Regime de Posses, de 1822-1850: No sistema de sesmaria, as terras eram concedidas pelo rei de Portugal, que exercia o domínio do território brasileiro. A partir do final do século XVIII, parte da população brasileira passou a apoderar-se fisicamente de áreas mais distantes e ainda não ocupadas. Em diversas partes do Brasil colonial, os lavradores brasileiros passaram a ocupar pequenas áreas, suficientes para possibilitar o cultivo utilizando a mão de obra da família. A chegada de imigrantes europeus no Sul e no Sudeste também contribuiu para intensificar a posse de pequenas propriedades. A partir de uma Resolução Imperial em 17 de julho de 1822, a concessão de sesmarias ficou suspensa e o pequeno produtor, que jamais havia tido acesso à terra, obteve o direito a partir do poder público. No período entre a suspensão do regime de sesmarias (1822) e a edição da Lei nº 601 (1850), o acesso à terra era feito através da posse, reconhecendo o costume de produção como procedimento de consolidação do direito à terra. Neto (2006) destaca que a posse, diferentemente das sesmarias latifundiárias, originou a pequena propriedade familiar no Brasil. Regime da Lei das Terras de 1850: Em meados do século XIX, o Império brasileiro era pressionado por outros países, que pretendiam expandir seus mercados, a acabar com a escravidão. Porém, os grandes fazendeiros de café, principal atividade econômica da época, dependiam do trabalho escravo. Como estratégia para minimizar os efeitos dos movimentos abolicionistas, a elite cafeeira pressionou o Império na adoção de medidas que dificultassem o acesso à terra (MIRALHA, 2006). A Lei de Terras nº 601, de 18 de setembro de 1850, que dispõe sobre as terras devolutas do Império, instituiu, no artigo 1º, como único meio de acesso à terra, a compra, que na época só podia ser realizada em dinheiro, proibindo a posse de terras. Na mesma legislação, ficavam guardadas a autorização para que o governo realizasse a TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 15 venda de terras públicas da forma que julgasse mais conveniente (art. 14º). Essa lei autorizava a vinda, às custas do Tesouro, de imigrantes agricultores para o trabalho nos estabelecimentosagrícolas predeterminados ou para a formação de colônias nos locais de interesse do Império (art. 18º). Também ficou estabelecida a Repartição Geral das Terras Públicas, que seria encarregada das medições, divisão, fiscalização da venda e da distribuição das terras, bem como promover a colonização (ou seja, a distribuição dos escravos livres e dos imigrantes) (art. 21º) (BRASIL, 1850). Com essa medida, o governo imperial conseguiu agradar os grandes cafeicultores, criando condições para que o excedente populacional de escravos libertos ou de imigrantes europeus que estavam chegando não tivesse um acesso livre à propriedade, garantindo o monopólio da terra (NETO, 2006). Ao dificultar, ou mesmo impedir, o acesso à propriedade rural, a Lei de Terras tinha a finalidade de manter inalterada uma estrutura fundiária baseada em grandes propriedades, originando assim a questão agrária (MIRALHA, 2006; STÉDILE, 2012). Sistema jurídico do Código Civil de 1916: Passada a abolição da escravatura (1888) e a proclamação da República (1889), a estrutura fundiária brasileira foi mantida, baseada no monopólio dos latifúndios onde os “coronéis” e os “barões do café” controlavam o poder político e a situação social e econômica do Estado brasileiro. A partir do Código Civil de 1916, o direito sucessório (ou seja, a transferência de direitos e de titularidade) partilhava o imóvel rural em tantas partes quanto fosse o número de herdeiros. Juntamente com a questão jurídica relacionada à divisão dos bens entre os herdeiros, as subdivisões das grandes propriedades cafeeiras ocorreram também em função da decadência do mercado internacional do café. Foi apenas durante o século XX que a propriedade latifundiária perdeu sua hegemonia, havendo grande expansão de pequenas propriedades, principalmente no Sul e Centro-Sul do Brasil. Outros fatores que também contribuíram para essa alteração fundiária foram o processo de industrialização e a divisão de propriedades agrícolas comerciais, resultando em pequenas propriedades familiares, que produziam basicamente gêneros para subsistência (NETO, 2006). A reorganização da economia brasileira a partir de 1930, o desenvolvimento de novos centros de produção agrícola e a industrialização, principalmente no Sudeste e no Sul, promoveram diversos movimentos migratórios, tanto entre regiões rurais quanto no sentido rural-urbano (MIRALHA, 2006). Esses movimentos migratórios reduziram significativamente a população do sertão do Nordeste em direção ao Estado de São Paulo, principalmente. Este autor também descreve que em meados do século XX, a agricultura brasileira iniciou um processo de “modernização”, incentivada por políticas de financiamento para a adoção de inovações tecnológicas (tratores e máquinas agrícolas, fertilizantes, agroquímicos etc.). UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 16 A Constituição Federal de 1946 apresentou, de forma inovadora, a possibilidade de desapropriação por interesse social (art. 141º, §16), abordando questões relacionadas à melhoria na estrutura fundiária e a reforma agrária, a partir de uma maior distribuição da propriedade (art. 147º). Esse tema ganhou mais força em nível nacional, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos publicada em 1948, afirmando que “todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar, a si e à sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis...” (art. XXV) (ONU, 2009, p. 13). Neste contexto histórico, começam a ser organizadas muitas associações de produtores, cooperativas agropecuárias e sindicatos de trabalhadores rurais (MIRALHA, 2006). A partir da década de 1950, diversos movimentos sociais ligados à luta pela terra, que contestavam a desigualdade social e a concentração fundiária no Brasil, são estruturados e passam a ter representatividade nacional. NOTA A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi um documento marco, proclamado pela ONU em Paris, em 10 de dezembro de 1948, que estabeleceu as condições mínimas a serem alcançadas por todos os povos e nações. Este tratado internacional foi traduzido para mais de 500 idiomas e serviu de inspiração para muitas constituições. Se você deseja conhecer o conteúdo completo, acesse: <https://nacoesunidas.org/ direitoshumanos/declaracao/>. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 17 Desde o início do século XX, surgem diversas formas de organização de produtores rurais e cooperativas de produção agropecuária no Brasil. Um destes exemplos é a fundação da Cooperativa Vinícola Aurora, em Bento Gonçalves/RS, iniciando as atividades em 14 de fevereiro de 1931. Inicialmente formada por 16 famílias de descendentes e de imigrantes italianos, é atualmente a maior cooperativa vinícola do Brasil. O trabalho e a união de pequenos produtores familiares, que cultivavam a uva na Serra Gaúcha, possibilitaram o crescimento e uma posição de destaque em nível nacional e reconhecimento internacional. Atualmente, esta cooperativa possui mais de 1.100 famílias associadas, contribuindo com a geração de renda, oportunidades diversificadas de negócios e o desenvolvimento econômico regional. Hoje, a Serra Gaúcha/RS é considerada um dos principais roteiros turísticos do Brasil e uma das regiões com os maiores índices de qualidade de vida. ATENCAO Sistema legal do Estatuto da Terra de 1964: A Lei nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, também conhecida como Estatuto da Terra, foi decretada no início do período da ditadura militar. O Estatuto da Terra modificou de forma muito importante os aspectos relacionados ao acesso à terra e à função social da propriedade. Segundo esta legislação, foram consideradas as medidas para promover a melhor distribuição da terra, a partir da reforma agrária e da promoção da política agrícola (art. 1º), e no seu artigo 2º, “fica assegurada a todos a oportunidade de acesso à propriedade da terra, condicionada pela sua função social” (BRASIL, 1964). O Estatuto da Terra trazia inovações não apenas de estímulo à produção agrícola, mas também referentes às relações sociais no campo, no acesso à terra, nas medidas para assegurar a conservação dos recursos naturais e na promoção de políticas agrícolas de incentivo à economia, à geração de emprego e renda, e na harmonização com o processo de industrialização. Embora a redistribuição da terra e uma reorganização da estrutura fundiária pudessem ter sido realizadas a partir do Estatuto da Terra, a aplicação dos critérios técnicos para promover uma reforma agrária e o desenvolvimento rural não se mostrou satisfatória (NETO, 2006; MIRALHA, 2006; STÉDILE, 2012). Foi a partir da década de 1960 que se intensificaram os processos de modernização tecnológica da agricultura brasileira, a expansão das aplicações práticas da Revolução Verde e a organização do complexo agroindustrial, formado pelas indústrias produtoras de insumos agrícolas e as agroindústrias de transformação dos produtos. Ao mesmo tempo, entre as décadas de 1960 e 1970, intensificou-se o êxodo rural e observou-se a inversão da distribuição da população brasileira, que passou a se concentrar nos centros urbanos. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 18 NOTA A Revolução Verde teve sua origem com as pesquisas do americano Norman Borlaug na década de 1930. Passou a ter aplicação prática após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com o propósito ideológico de aumentar a produção agrícola, na busca de resolver o problema da fome no mundo, principalmente nos países mais pobres. A expressão “revolução verde” foi conhecida em 1966, pronunciada por William S. Gaud, então administrador da Agência para o Desenvolvimento Internacional/EUA. Este programa teve início em 1946, financiado pela fundação americana Rockfeller em parceria com o governo do México, a partir da obtenção de cultivares melhoradas de milho e trigo. Sabe-se hoje que, entre os objetivos, estavam a destinaçãodos insumos gerados pelas indústrias químicas, a partir de uma aplicação agrícola, além do incentivo à produção industrial, à recuperação da economia e a expansão comercial americana no período pós-guerra. Durante as décadas de 1960 e 1970, verificou-se a implementação em vários países deste “pacote tecnológico”, baseado na intensa atividade de mecanização, utilização de sementes melhoradas, de fertilizantes industrializados e na aplicação de agroquímicos para controle fitossanitário. A produtividade por área e a produção total de alimentos aumentaram, razão que justificou o Prêmio Nobel da Paz de 1970 a Norman Borlaug. Entretanto, diversos problemas sociais (ampliação das desigualdades no campo, não resultou em redução da fome etc.), econômicos (êxodo rural, concentração fundiária, desigualdade regional etc.), de saúde (contaminação, mortalidade humana, alteração nos hábitos alimentares etc.) e de ordem ambiental (degradação, poluição, uso intensivo dos recursos naturais, perda de biodiversidade etc.) foram algumas das consequências negativas. Um dos primeiros relatos sobre esses efeitos e que apresentou impacto em nível mundial foi a partir do livro “Primavera Silenciosa” (1962), da bióloga e autora Rachel Louise Carson. A partir deste relato, movimentos e políticas ambientalistas ganharam importância, sendo que os debates entre defensores e críticos da Revolução Verde continuam até os dias atuais. Regime fundiário a partir da Constituição Federal de 1988 A partir do processo de redemocratização e o fim do período militar, a nova Constituição Federal, editada em 5 de outubro de 1988, atualizou as ações relativas à política agrícola e fundiária e aquelas relacionadas à reforma agrária (art. 184º a 191º). Especificamente, no art. 186 (BRASIL, 1988), a Constituição Federal descreve que a “função social é cumprida quando a propriedade rural atende, simultaneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei, aos seguintes requisitos”: I - aproveitamento racional e adequado da propriedade; II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente; III - observância das disposições que regulam as relações de trabalho; IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalhadores. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 19 Atualmente, a legislação que trata da reforma agrária está descrita na Lei Federal nº 8.692, de 25 de fevereiro de 1993 (Lei Agrária), sendo complementada pela Lei Federal nº 13.465, de 11 de julho de 2017, que dispõe sobre a regularização fundiária rural e urbana, no âmbito da Amazônia Legal. Esses instrumentos legais conceituam, classificam e normatizam as propriedades rurais no Brasil, disciplinando o funcionamento das políticas fundiárias brasileiras. Também a reforma agrária teve dois planos de ação governamental, como o I (1985) e o II Plano Nacional de Reforma Agrária (2003), ambos com resultados pouco expressivos em relação à importância e necessidade (DELGADO; PEREIRA, 2017). Segundo Neto (2006), dentre as condições que paralisam o andamento da reforma agrária, estão as ações do órgão executor (no caso, o INCRA), que necessita compatibilizar os programas de trabalho e as necessidades orçamentárias, além de buscar atuações integradas entre vários ministérios. Nesta barganha de poder, os embates políticos acabam por não privilegiar a classe dos não proprietários interessados na implementação da reforma agrária (NETO, 2006). Concluída uma breve análise do processo histórico de formação da propriedade rural brasileira, vamos compreender agora como as discussões e ações sobre a questão agrária têm sido enfrentadas na atualidade. 5 QUESTÃO AGRÁRIA NA ATUALIDADE Ao estudar como surgiu a questão agrária, fica mais fácil entender as razões que moldam as particularidades de desenvolvimento entre as regiões brasileiras. Estas informações ajudam a compreender como está caracterizada e quais os motivos que configuram a realidade agrícola no Brasil atual. Em relação à estrutura agrária atual, Delgado e Pereira (2017) destacam duas mudanças significativas e contrastantes, desde a Constituição de 1988: 1 a mudança conceitual do direito à propriedade rural, pelos critérios expressos na função social e ambiental (art. 5 e art. 186), acrescidos dos direitos territoriais aos povos indígenas (art. 231) e das comunidades quilombolas (art. 68). Essas mudanças na política institucional dependem de normas regulamentares e práticas de governo, sendo assim, dependentes de vontade política. De modo geral, avanços no reconhecimento de áreas de proteção ambiental e de comunidades tradicionais têm ocorrido, porém muitas situações de conflitos ainda se apresentam; 2 reestruturação da economia do agronegócio, baseada na captura da renda e na ampliação da riqueza fundiária nacional, expressando uma completa “mercadorização” dos espaços territoriais. Neste caso, segundo Delgado e Pereira (2017), as ações públicas e de interesse privado estão combinadas. Essas ações integradas, além de propiciar forte valorização da renda fundiária, ganham força na não adoção de restrições do direito público ao território, relacionadas à demarcação e implantação de áreas com função social ou ambiental. Na prática, a importância do mercado ainda se mantém como fundamento da política agrária brasileira. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 20 As mudanças descritas favoreceram, a partir dos anos 2000, um processo de intensa valorização dos preços das terras agrícolas do Brasil, em parte favorecida pelo mercado de commodities, e em parte ocasionada por fatores internos, como a reestruturação do sistema de crédito e o direcionamento do sistema de regulação fundiária (DELGADO; PEREIRA, 2017). Estes autores descrevem ainda que o projeto de modernização conservadora se reestrutura, articulado por ações que priorizam o comércio exterior, associadas à pressão do mercado e das cadeias agroindustriais, das decisões políticas e com apoio dos meios de comunicação. Vamos agora analisar um mapa, elaborado por Girardi (2017), que apresenta uma proposição bem organizada sobre a configuração da questão agrária brasileira (Figura 5). Para facilitar sua compreensão, este mapa foi dividido em diferentes estruturas elementares: (1) o campesinato, (2) a expansão da fronteira agropecuária, (3) o processo migratório, (4) a produção agropecuária, (5) o setor do agronegócio, (6) as ocupações e as formações de assentamentos rurais e, finalmente (7), a violência no campo (GIRARDI, 2017). 5.1 O CAMPESINATO Como primeira estrutura, vamos identificar o campesinato ou agricultura familiar que apresenta importância demográfica e econômica em três regiões: Sul, Nordeste e Norte. Na região Sul, a formação e colonização a partir de imigrantes europeus caracterizou uma agropecuária dinâmica e diversificada, com elevada produtividade e com grande importância econômica, gerando indicadores de qualidade de vida e renda acima da média nacional. A luta pela terra também tem grande representatividade, sendo uma das origens de organizações de luta pela terra, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), com diversos eventos de ocupações e assentamentos estabelecidos (GIRARDI, 2017). Nesta parte do Brasil, a agricultura familiar apresenta-se organizada em várias associações e cooperativas de produção atuantes em diversas áreas, além de sistemas de integração entre produtores e agroindústrias que possibilitam a produção agropecuária. Nesta região, também se observa um setor pecuário bem estabelecido, com produção leiteira, de bovinos e ovinos, apresentando destaque na estruturação dos setores de avicultura e de suinocultura (GUILHOTO et al., 2007). Um outro aspecto que se destaca na região Sul é que a base produtiva diversificada foi adotada tanto por agricultores patronais quanto pela agricultura familiar. E em relação aos agricultores familiares, encontram-se diversascategorias sociais, formadas por agricultores capitalizados, em transição e aqueles sem condições de acompanhar o ritmo de mudanças nos sistemas produtivos implementados (MATTEI, 2016). Esse autor ainda identifica quatro grupos de agricultores familiares na região Sul do Brasil: o primeiro com produção exclusiva para o autoconsumo; o segundo grupo com produção voltada tanto ao autoconsumo como para o mercado; um terceiro, formado por produtores integrados a grandes agroindústrias; e o quarto grupo de agricultores que se dedicam à produção de commodities destinadas ao mercado nacional e à exportação. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 21 No Nordeste, a agropecuária familiar é caracterizada por perdas em decorrência de fatores climáticos (seca), baixa produtividade e uso de meios de produção precários, gerando baixos níveis de desenvolvimento. A principal causa das dificuldades de desenvolvimento rural nesta região se relaciona com a disponibilidade de água, tanto para o cultivo quanto para o consumo humano. Em relação à luta pela terra, destacam-se os movimentos das Ligas Camponesas, reunindo na região grande parte das ocupações de terras do país (GIRARDI, 2017). Na região Nordeste, a atividade agrícola apresenta grandes níveis de desigualdade. De um lado, atividades agropecuárias familiares de subsistência do agricultor sertanejo, com limitações produtivas ocasionadas pela restrita disponibilidade de água, apresentando produção pecuária baseada na caprinocultura e ovinocultura. Em outro extremo, há diversos polos de produção agrícola bem desenvolvidos, direcionados a atender os mercados nacionais do Centro-Sul do Brasil e o comércio internacional, com destaque para a fruticultura irrigada (GUILHOTO et al., 2007). FIGURA 5 – CONFIGURAÇÃO AGRÁRIA ATUAL FONTE: Adaptado de Girardi (2017). Disponível em: <http://www.atlasbrasilagrario.com.br/con_ subcat/configuracao-da-questao-agraria>. Acesso em: 19 jun. 2018. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 22 Na região Amazônica, o campesinato é formado por populações ribeirinhas e por massas migratórias nordestinas e do Sul. As atividades extrativistas e a produção agropecuária em pequena escala, direcionadas ao abastecimento regional, são características marcantes, resultando em baixos índices produtivos e de desenvolvimento socioeconômico. Atualmente a região Amazônica concentra grande parte dos projetos de colonização e de assentamentos rurais e pequenas posses vêm sofrendo violência do avanço do latifúndio em busca de expansão econômica (GIRARDI, 2017). A região Norte é caracterizada pela atual área de expansão das fronteiras agrícolas do agronegócio e da pecuária extensiva, pelo extrativismo de recursos florestais e pela pesca. Nesta região, se concentram muitos conflitos agrários associados à posse da terra e à demarcação de áreas indígenas (que também ocorrem em outras regiões do país, porém em menores níveis de violência). Identifica-se também uma produção familiar baseada na agricultura de subsistência, ligada a uma particular estrutura social e demográfica (GUILHOTO et al., 2007). 5.2 A EXPANSÃO DAS FRONTEIRAS AGROPECUÁRIAS A expansão das fronteiras agropecuárias caracteriza a segunda estrutura elementar da questão agrária no Brasil, baseada em políticas públicas, ocupando regiões do Cerrado e da Amazônia, a partir do final da década de 1960 e início dos anos 1970. Embora expressivo crescimento econômico esteja sendo verificado, o governo mantém incentivo à ocupação da região, mesmo identificando graves problemas de devastação da floresta, violência contra ocupantes e trabalhadores rurais e crimes de grilagem de terras públicas. Esse quadro resulta em crescimento demográfico desordenado, desflorestamento e expansão de atividades extrativas e pouco sustentáveis de utilização da terra (GIRARDI, 2017). 5.3 O PROCESSO MIGRATÓRIO O processo migratório, que está ligado à expansão agropecuária, é apontado por Girardi (2017) como uma consequência da modernização da agricultura e do êxodo rural. São apontadas duas frentes migratórias majoritárias, uma que vem do Sudeste e, principalmente, do Sul na busca de novas oportunidades econômicas e como estratégia para minimizar os efeitos do extremo parcelamento das propriedades familiares. Essas correntes migrantes, que se encontram em menor intensidade atualmente, se estabeleceram principalmente em Rondônia, Mato Grosso e Bahia. A segunda corrente de migrantes tem origem do Nordeste, ocupando a região central da Amazônia, parte do Estado do Maranhão e o Sudeste do Pará, sendo atraídos pela posse de terras e na busca por trabalho, como exemplo, nas áreas de seringais. Atualmente, essa segunda frente apresenta-se mais ativa, e muitas vezes, se encontra com os produtores que partem agora do Centro-Oeste em direção ao Norte. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 23 5.4 A PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA Em relação à produção agropecuária, os estados do Sul e partes das regiões Sudeste e Centro-Oeste apresentam uma atividade agropecuária diversificada, composta por intensa mecanização e uso de novas tecnologias, possibilitando uma atividade produtiva expressiva. Nessas áreas de intensa atividade agropecuária, predominam relações de produção familiar (principalmente na região Sul) e trabalho assalariado, formando a principal região agropecuária do país (Figura 5). Ainda na parte norte da região Sudeste e Centro-Oeste, as áreas ainda ociosas e subutilizadas têm sido ocupadas pelo avanço de lavouras do agronegócio (cana, soja etc.) (GIRARDI, 2017). Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, verifica-se uma atividade intensiva do agronegócio, estruturada na produção de commodities agrícolas, com expressiva atividade pecuária de produção leiteira e de carne bovina. As atividades agropecuárias diversificadas e com elevado nível de tecnologia fazem, destas regiões, importantes produtoras de alimentos e de produtos destinados à exportação. Em relação às organizações associativas, as entidades apresentam expressiva importância, principalmente para o setor agrícola empresarial (GUILHOTO et al., 2007). 5.5 O SETOR DO AGRONEGÓCIO A expansão do agronegócio, baseada na produção intensiva de grãos, principalmente nas áreas de Cerrado, localizadas na região Centro-Oeste, e mais recentemente no oeste da Bahia, no sul do Maranhão e Piauí, também constitui um fator de influência sobre a questão agrária. A ocupação do território, associada à derrubada da floresta nas áreas da Amazônia, amplia a desigualdade na realidade fundiária brasileira. As características do agronegócio voltado à exportação de grãos e sob a demanda do mercado internacional de commodities é que constituem as forças dessa desigualdade na região e no restante do país (GIRARDI, 2017). 5.6 AS OCUPAÇÕES E AS FORMAÇÕES DE ASSENTAMENTOS RURAIS Os movimentos sociais de luta pela terra, requerendo o estabelecimento de assentamentos rurais, têm como forma de ação a ocupação de territórios para denunciar os problemas relacionados à desigualdade na distribuição fundiária no Brasil e a possibilidade de reivindicar soluções. Os locais de maior atividade de luta pela terra ocorrem em áreas de ocupação consolidada, localizadas desde o Centro-Sul até parte do litoral do Nordeste (Figura 5). Estas áreas são mais demandadas, segundo Girardi (2017), pois as atividades produtivas em pequena escala apresentam maiores chances de sucesso, devido à proximidade com o mercado consumidor, melhor infraestrutura e acesso mais facilitado aos serviços básicos. Atualmente, a partir das ações de ocupação e formação de assentamentos UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 24 rurais, os movimentos sociais de luta pela terra têm promovido a forma mais eficiente de pressão política, que tem resultado no avanço, embora lento, da reforma agrária. Porém, o estabelecimento de muitos assentamentos rurais nas áreas de fronteiras agrícolas é uma das dificuldades para a resolução dosproblemas agrários de forma definitiva (GIRARDI, 2017). 5.7 A VIOLÊNCIA NO CAMPO Nas regiões de maior conflito, a violência nos confrontos pela posse da terra, entre trabalhadores rurais e fazendeiros ou grileiros, causa alguns dos graves problemas que visualizamos frequentemente na mídia. Conforme Girardi (2017) afirma, a violência física, caracterizada por assassinatos, ameaças e agressões, é a forma mais grave de ação. Também a expulsão e o despejo resultam em apropriação do território com finalidades especulativas, além de uma outra forma de violência que ainda se constata, aquela a partir da exploração de trabalho escravo. Esse quadro de violência no campo pode ser observado em diferentes partes do Brasil, entretanto, na região da atual fronteira agropecuária, principalmente entre o sudeste do Pará e o leste do Maranhão, esses conflitos têm se concentrado. NOTA Os movimentos sociais de trabalhadores rurais que lutam pela distribuição da terra e pela reforma agrária no Brasil foram se estruturando a partir da década de 1940. As Ligas Camponesas, movimento de trabalhadores rurais organizado pelo Partido Comunista Brasileiro, teve importância até o início do período militar. Os governos militares implantaram um modelo de desenvolvimento agrário que estimulou a modernização agrícola e teve como consequência a exclusão de pequenos produtores. A partir da segunda metade da década de 1970, a Comissão Pastoral da Terra (CPC), ligada inicialmente à Igreja Católica e posteriormente incorporando membros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, ofereceu um suporte para a organização dos trabalhadores rurais. Outros movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), entre outros, também atuam com objetivos semelhantes. A Via Campesina é uma organização internacional composta por diversos movimentos de pequenos agricultores e busca organizar e articular as mobilizações desses movimentos sociais, participando de discussões e incentivando a implantação de políticas públicas ligadas à reforma agrária. TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 25 6 O BRASIL AGRÁRIO As ações do governo são coordenadas pelo INCRA, através do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA), que organiza os projetos de reforma agrária em dois grupos: um criado por meio de obtenção de terras pelo INCRA, com a criação de assentamentos rurais sob a forma tradicional, e outro criado por instituições governamentais (INCRA, 2018c). Esses projetos, desenvolvidos por órgãos governamentais, estavam ligados ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, extinto em maio de 2016, e agora de competência da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (SEAD, 2018). Com a apresentação de todos esses elementos, foi apresentada uma configuração da questão agrária brasileira na atualidade. De um lado, o poder econômico gerado pela dominação da produção de commodities e estimulado pelas políticas de governo que buscam a exportação de matérias-primas como forma de desenvolvimento do país. De outro, a lenta ação do governo, os conflitos pela posse da terra e a sempre presente discussão sobre o modelo de reforma agrária a ser adotada. Enquanto isso, a sociedade brasileira convive com estas situações no meio rural e as consequências desse contexto, tanto nos aspectos do desenvolvimento econômico, organização social e distribuição demográfica quanto no uso dos recursos naturais e todas as questões ambientais associadas. Na prática, a questão agrária brasileira se agrava, tornando-se mais complexa, gerando insatisfação e violência nas áreas rurais, sem atender às necessidades dos trabalhadores. Assim, se organiza a dinâmica do agronegócio atual, estruturada nas mudanças de comportamento e nas demandas dos consumidores, na produção de matérias-primas agrícolas destinadas à exportação, no avanço de tecnologias associadas à produção e na necessidade de utilização racional dos recursos naturais, mantendo a estrutura de concentração de poder econômico e político. Ao mesmo tempo, as oportunidades geradas pela produção de alimentos mais saudáveis e sem resíduos de agroquímicos, utilizando distintas formas de agregação de valor, o papel da organização social através de cooperativas e associações de produção e de agroindustrialização, além de novos negócios no campo, associados ao turismo rural, são algumas das condições que podem favorecer a agricultura familiar e o avanço da reforma agrária. Para concluirmos este tópico, vamos examinar as discussões de Mattei (2016), que apresenta um confronto interessante entre os argumentos contrários e favoráveis à reforma agrária no Brasil. Este autor descreve que, por sua natureza política, o tema da reforma agrária apresenta distintas interpretações e concepções sobre os programas de reforma da estrutura agrária. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 26 Entre os argumentos dos defensores, há diferentes explicações, baseadas na abrangência e no caráter das ações de reforma agrária. Partimos da indagação essencial a esse tema: a reforma agrária é ainda necessária no Brasil? Ao responder essa pergunta, uma das visões propõe que “a reforma agrária não é essencialmente agrícola”. Essa visão defende uma ação de caráter mais relacionado com a inclusão social do que baseado em questões econômicas, justificando as funções de geração de empregos, de contenção de fluxos migratórios e para evitar a degradação das condições de vida no campo. A segunda visão sugere “uma reforma agrária de abrangência regional”. Essa proposta está baseada na ideia de zonas prioritárias para a reforma agrária, realizada a partir de programas regionalizados no país. Esse argumento ainda engloba a possibilidade de diferentes formas de acesso à terra, através de relações de trabalho, como a parceria e o arrendamento agropecuário, principalmente em regiões onde o custo unitário da terra é elevado. Essas duas visões são apresentadas por José Graziano da Silva, que estuda o tema e trabalha com políticas públicas nacionais e internacionais para a agricultura, segurança alimentar e desenvolvimento rural (MATTEI, 2016). Uma terceira visão destaca “a reforma agrária apresentando um caráter geral”, com objetivo de promover a distribuição das terras e da renda, ao mesmo tempo que possibilite justiça e equilíbrio social. Esse argumento se estrutura na argumentação de que o fortalecimento da expansão do agronegócio brasileiro representa um obstáculo ao desenvolvimento da agricultura familiar e dos assentamentos rurais. Nesse contexto, aponta-se uma incompatibilidade entre o projeto de desenvolvimento proposto e uma estratégia que mantém a estrutura agrária intocada, favorecendo a expansão agropecuária tradicional em detrimento do campesinato, não possibilitando o crescimento sustentável e nem mudanças significativas no meio rural. Esse argumento é defendido pelo cientista econômico Guilherme Costa Delgado (MATTEI, 2016). A quarta visão apresentada no contexto favorável registra “a reforma agrária como um instrumento de combate ao latifúndio e de promoção de reformas gerais no Brasil”. Essa tese é sustentada por diversos movimentos sociais de luta pela terra, que pressupõem a reforma agrária com papel de inclusão social, com abrangência em mudanças de caráter econômico e político. De forma geral, este argumento faz uma crítica ao modelo capitalista de produção agropecuária, associado à expansão da produção e do lucro, às custas da desigualdade e exclusão, apresentando dependência externa e com exploração predatória dos recursos naturais (MATTEI, 2016). Em relação aos argumentos contrários à reforma agrária, Mattei (2016) destaca a primeira visão, apontando que “o tempo histórico da reforma agrária acabou”. Esse argumento se ampara nas mudanças ocorridas no campo nas últimas décadas, que restringiram a dominação social e econômica da grande propriedadeterritorial. Nessa visão, essas modificações estruturais produziram uma liquidação definitiva da reivindicação nacional para a reforma agrária. A TÓPICO 1 | HISTÓRICO DA QUESTÃO AGRÁRIA 27 segunda visão contrária à reforma agrária interpreta que “o problema agrário foi rebaixado e os pressupostos que o fundamentaram deixaram de existir”. Esta interpretação sugere que, de um lado, se fortaleceu a formação de uma geração de agricultores com maior sensibilidade capitalista e, de outro, os produtores de menor porte foram atendidos por políticas públicas de inclusão, como o Pronaf e outros programas assistenciais. Como contexto desta posição, o processo de mudanças no meio rural levou a um aumento expressivo da produção e da produtividade agropecuária, a partir da incorporação das inovações tecnológicas, gerando uma nova realidade no campo. Essas são as razões que levam à consideração de que a questão agrária brasileira deixou de existir. As duas visões contrárias à reforma agrária são apresentadas por Zander Navarro, sociólogo e cientista político (MATTEI, 2016). Como terceira visão contrária, formula-se que “a influência da terra é pequena em relação ao valor da produção”. Essa forma de interpretação tem sua base na ciência econômica, no campo do pensamento econômico neoclássico. A realidade agrária é analisada a partir da importância da produtividade e da tecnologia, sendo mais presente nos estudiosos conhecidos por “grupo dos produtivistas”. Os dados do Censo agropecuário de 2006 exemplificam essa interpretação, onde do total de estabelecimentos rurais no Brasil (5,175 milhões), 3,775 milhões atingem renda bruta inferior a dois salários mínimos e respondem por menos de 5% da produção total. Em outro extremo, os estabelecimentos que possuem renda bruta acima de dez salários mínimos participam de cerca de 85% do valor da produção total agropecuária. Os defensores desta visão sugerem que os produtores sejam divididos em dois grupos: os bem-sucedidos e os malsucedidos, sendo que os do segundo grupo se caracterizam por escolhas errôneas de tecnologias ou por má administração da propriedade. Nesta análise, a capacitação técnica é a chave para o sucesso ou insucesso da atividade de produção agropecuária. Essa análise é defendida por pesquisadores, como Eliseu Alves e Geraldo da Silva e Souza (MATTEI, 2016). Como considerações a respeito dessas duas visões, ainda se identifica a existência de uma grande área de terra improdutiva e/ou disponível no Brasil e a existência de um número muito significativo de produtores familiares sem acesso à terra ou, se possuem acesso, se encontram em condições limitantes de capacitação, nas atividades de produção e na geração de renda. 28 Neste tópico, você aprendeu que: • O setor agropecuário apresenta grande importância na economia brasileira, com expressiva participação na composição do Produto Interno Bruto (PIB). • A questão agrária brasileira apresenta-se como um problema conceitual, social, econômico e histórico, e como este tema se insere nas ações da política agropecuária brasileira. • O processo histórico de formação da propriedade de terras no Brasil, desde a chegada dos portugueses, teve um efeito determinante sobre a estrutura agrária na atualidade. • Os reflexos deste contexto de distribuição das terras e sobre a formação da propriedade agrícola resultaram em grandes desigualdades no campo e entre as regiões. • A questão agrária pode ser analisada a partir de diferentes estruturas elementares e que as organizações sociais de luta pela terra apresentam importância na criação de condições mais igualitárias de produção. • Existem abordagens favoráveis e contrárias à reforma agrária e como essas interpretações direcionam as ações públicas, favorecendo ou não o desenvolvimento socioeconômico nas áreas rurais. RESUMO DO TÓPICO 1 29 Caro acadêmico, para fixar melhor os conteúdos apresentados, sugere- se alguns exercícios sobre esta unidade. Leia as questões, relembre sobre o que foi estudado e responda aos exercícios propostos. Em caso de dúvida, volte a pesquisar e refaça os exercícios. 1 A questão agrária envolve um grande número de interpretações, dependen- do da área de estudo e da forma como se pretende explicar esse tema. Em uma análise direta, a questão agrária considera o domínio de uma área de terras com destinação ou potencial de uso para a produção agropecuária. Segundo Delgado e Pereira (2017, p. 15), “a questão agrária refere-se a uma inadequação da estrutura agrária vigente”. Sobre as interpretações conceitu- ais da reforma agrária, associe os itens, utilizando o código apresentado: I- Geografia II- Política III- Econômica IV- Sociologia ( ) Reflete as formas de organização da produção agropecuária ligadas às relações entre as pessoas. ( ) Reflete na forma da ocupação humana de um determinado território. ( ) Retrata os problemas associados à posse desigual da terra e qual sua influência sobre as decisões do governo. ( ) Retrata um contexto que se caracteriza pelas transformações nas relações de produção e geração de renda das propriedades agrícolas. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) IV – I – II – III. b) ( ) III – II – IV – I. c) ( ) I – IV – III – II. d) ( ) II – III – I – IV. 2 A configuração da questão agrária proposta por Girardi (2017) é apresentada com base na análise de diferentes estruturas ele- mentares. Esse mapeamento estrutural permite uma melhor compreensão da forma como o setor agropecuário está orga- nizado no Brasil e qual o perfil agrário atual. Com base no contexto dos elementos estruturais associados à questão agrária, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: ( ) O campesinato refere-se aos agricultores familiares, com maior impor- tância, principalmente, nos estados do Sul, Norte e Nordeste, embora apresente características distintas entre essas regiões. AUTOATIVIDADE 30 ( ) O processo migratório está associado à expansão das fronteiras agrope- cuárias, sendo que atualmente essa ocupação tem sido mais importante na região Sudeste, caracterizada por problemas como a exploração ilegal de madeira, violência no campo e grilagem de terras. ( ) A produção agropecuária diversificada, com uso intenso de tecnologias e mecanização, é mais presente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, apresen- tando maiores níveis de organizações associativas entre os produtores. ( ) Os movimentos sociais de luta pela terra, ao adotarem ações de ocupa- ção e formação de assentamentos rurais, têm ocasionado dificuldades à sociedade, sem resultar em uma forma de pressão política para o avanço da reforma agrária. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – V – F. b) ( ) F – F – F – V. c) ( ) F – F – V – V. d) ( ) V – V – F – V. 31 TÓPICO 2 ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO REGIONAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste segundo tópico serão abordados os temas relacionados à estrutura fundiária brasileira, apresentando as características das propriedades rurais e os aspectos que ocasionaram a grande desigualdade na distribuição da terra. Serão abordados alguns fatos históricos, relacionados aos ciclos dos produtos agrícolas no Brasil, para auxiliar na compreensão de como essa diversidade ocorreu e como isso se reflete nas condições de vida dos produtores rurais e no modelo de desenvolvimento agrícola do Brasil atual. Vamos continuar os estudos! 2 ESTRUTURA FUNDIÁRIA BRASILEIRA O Brasil possui grande extensão territorial, com dimensões continentais, onde as regiões apresentam características geográficas, climáticas, econômicas, sociais e culturais muito distintas. Essas particularidades interferem na organização e estrutura das propriedades rurais, sendo consideradas, dentre outros aspectos, para a definição de políticas públicas de desenvolvimento. O INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) é o órgão do GovernoFederal responsável pelo gerenciamento e ordenamento da estrutura fundiária nacional. Para a realização deste controle, realiza estudos que buscam definir os critérios para fixar a fração mínima de parcelamento de terras e do módulo fiscal das propriedades rurais (INCRA, 2018a). UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 32 NOTA NOTA O SISTEMA DE GESTÃO FUNDIÁRIA (SIGEF) é uma ferramenta eletrônica que realiza o controle e executa a certificação dos imóveis rurais, utilizando técnicas de georreferenciamento, impedindo assim a superposição do registro imobiliário. Através deste sistema são efetuadas a recepção, validação, organização e disponibilização das informações dos limites de imóveis rurais, públicos e privados. Acesse e conheça o sistema: <https://sigef.incra.gov.br/>. O CERTIFICADO DE CADASTRO DE IMÓVEL RURAL (CCIR) é um documento declaratório que constitui prova do cadastro do imóvel rural, sendo indispensável para a realização de qualquer atividade relacionada à regularização da propriedade, como desmembramento, arrendamento, hipoteca e venda do imóvel rural, além de possibilitar a homologação de partilha em casos de sucessão familiar. Acesse: <http://www. cadastrorural.gov.br/servicos/ccir-certificado-de-cadastro-do-imovel-rural>. DICAS Anualmente, todo proprietário de imóvel rural deve realizar a DECLARAÇÃO DO IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL (DITR). Essa declaração é realizada no sistema da Receita Federal e gera um imposto, o IMPOSTO TERRITORIAL Este órgão também é responsável pelos diagnósticos sobre a estrutura fundiária brasileira, além de outras importantes atividades relacionadas ao Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR), que organiza e atualiza as informações sobre o cadastro nacional de imóveis rurais, de proprietários e detentores de imóveis rurais, de terras públicas, e de arrendatários e parceiros. O INCRA realiza o gerenciamento da certificação dos imóveis rurais através do Sistema de Gestão Fundiária (SIGEF) e disponibiliza a emissão do Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR). Recentemente, o INCRA lançou um novo portal (<http://acervofundiario.incra.gov.br/acervo/acv.php>), que disponibiliza informações do acervo fundiário, além de possibilitar o acesso aos outros sistemas descritos (INCRA, 2018a). TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 33 RURAL (ITR), que incide sobre os imóveis localizados fora das áreas urbanas brasileiras. Este imposto está estabelecido pela Lei Federal nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, e pela Lei nº 9.393, de 19 de dezembro de 1996. Mas, afinal, o que é a estrutura fundiária? E qual a sua importância para o desenvolvimento das propriedades rurais no Brasil? A compreensão destas questões é de grande importância para reconhecer como as políticas públicas de desenvolvimento rural são planejadas e executadas, bem como para propor ações que busquem melhorar a renda e possibilitar uma melhor condição de vida às diferentes categorias de agricultores. A Estrutura Fundiária é a forma como as propriedades agrícolas estão organizadas e distribuídas, levando-se em consideração o número (quantidade), o tamanho e a distribuição das terras entre as propriedades rurais. A Figura 6 apresenta a variação da estrutura fundiária brasileira entre os anos de 1992 e 2003. Mais de 30% dos imóveis rurais brasileiros apresentavam menos de 10 hectares (ha) e, somados, ocupavam área inferior a 2% da área agrícola total. No outro extremo, as propriedades com área superior a 1.000 hectares representavam menos de 2% do número de imóveis rurais no Brasil, ocupando mais de 45% da área agrícola nacional. Quase 75% das propriedades rurais brasileiras apresentavam menos de 50 hectares. O somatório destas pequenas propriedades ocupava apenas 11,7% da área total dos imóveis rurais brasileiros. Atualmente, os estabelecimentos rurais com área de até 50 hectares representam 81,5% do total de propriedade no Brasil, enquanto as áreas maiores que 500 hectares somam cerca de 3,5% (Figura 7). FIGURA 6 – ESTRUTURA FUNDIÁRIA BRASILEIRA CLASSE DE ÁREA TOTAL (HA) 1992 % NÚMERO DE IMÓVEIS 1998 % 2003 % Menos de 10 907.764 31,04 1.144.642 31,90 1.409.752 32,86 10 menos de 25 804.376 27,51 939.862 26,19 1.109.841 25,87 25 menos de 50 477.439 16,33 573.474 15,98 693.217 16,16 50 menos de 100 319.256 10,92 403.474 11,25 485.956 11,33 100 menos de 200 191.539 6,55 239.232 6,67 272.444 6,35 200 menos de 500 133.506 4,57 166.686 4,65 181.919 4,24 500 menos de 1.000 48.873 1,67 62.643 1,75 68.972 1,61 1.000 menos de 10.000 39.546 1,35 55.203 1,54 67.402 1,57 10.000 e mais 1.905 0,07 2.678 0,07 979 0,02 TOTAL 2.924.204 100 3.587.967 100 4.290.482 100 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 34 De acordo com as estatísticas cadastrais do INCRA, organizadas por Filho e Fontes (2009), em 2003 haviam sido registrados 4,29 milhões de propriedades rurais no Brasil, ocupando uma área de 418 milhões de hectares (Figura 6). Em dezembro de 2014, segundo os dados do SNCR, o número de imóveis rurais de titularidade particular no Brasil foi de 5,76 milhões de propriedades, ocupando área de 521,8 milhões de hectares. Somando aos imóveis de titularidade pública, totalizam 5.775.864 propriedades rurais no Brasil, ocupando área de 681.900.090,85 hectares (SNRC/INCRA, 2018). Segundo os dados do Censo Agropecuário 2017, o número de propriedades rurais foi de 5.072.152 estabelecimentos agropecuários, ocupando 350.253.329 hectares (equivalente a quase 41,13% da área do território nacional) (IBGE, 2018). Esses dados estatísticos contrastantes se devem à forma distinta de obtenção das informações, sendo para o INCRA através da declaração dos produtores (SNCR), e no caso do IBGE, através de pesquisa censitária (Figura 7). Entretanto, ambas as informações são utilizadas para a análise das tendências do setor, bem como para a formulação de políticas públicas de desenvolvimento. FONTE: Filho e Fontes (2009) CLASSE DE ÁREA TOTAL (HA) ÁREA TOTAL (HA) 1992 % 1998 % 2003 % Menos de 10 4.429.542,7 1,43 5.422.109,1 1,30 6.638.598,6 1,59 10 menos de 25 13.081.255,3 4,22 15.276.103,2 3,68 18.034.512,2 4,31 25 menos de 50 16.679.065,9 5,38 20.070.262,8 4,83 24.266.354,6 5,80 50 menos de 100 22.205.515,7 7,16 27.906.162,9 6,72 33.481.543,2 8,00 100 menos de 200 26.032.300,2 8,40 32.262.001,2 7,76 36.516.857,8 8,73 200 menos de 500 41.147.556,9 13,27 51.491.978,6 12,39 56.037.443,2 13,39 500 menos de 1.000 33.812.939,4 10,91 43.317.666,4 10,42 47.807.934,8 11,43 1.000 menos de 10.000 94.404.621,8 30,45 134.988.573,1 32,48 168.101.029,4 40,17 10.000 e mais 58.237.954,3 18,78 84.835.954,7 20,41 27.572.367.0 6,59 TOTAL 310.030.752,2 100 415.570.812,0 100 418.456.640,8 100 TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 35 FIGURA 7 – CENSO AGROPECUÁRIO 2017 FONTE: Disponível em:<https://censos.ibge.gov.br/agro/2017/templates/censo_agro/ resultadosagro/pdf/estabelecimentos.pdf>. Acesso em: 26 jul. 2018 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 36 NOTA O censo é uma metodologia de pesquisa estatística que avalia todos os membros de uma população, diferindo da amostragem que analisa apenas uma parcela representativa do total. Atualmente, os censos demográficos (características da população) e agropecuário (características das propriedades rurais) são realizados através de visitas de milhares de agentes que colaboram para a coleta das informações (recenseadores). Já existem estudos prévios para a realização de censos on-line no futuro. O Censo Agropecuário Brasileiro iniciou em 1920, sendo que, com a criação do IBGE em 1936, passou a ser realizado por este órgão. Os censos agropecuários são realizados em intervalos de tempo que possibilitem avaliar a evolução dos dados pesquisados, variando entre 5 e 10 anos. O último Censo agropecuário (9º edição) foi realizado em 2006. Entre 2017 e 2018 foi elaborado o Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola 2017, não deixe de acompanhara divulgação dos dados. A distribuição desigual das propriedades no Brasil também pode ser identificada a partir da área média das propriedades rurais em cada estado da federação. Na Figura 8, vemos a evolução das áreas no período de 1975 a 2006. Atualmente, o Mato Grosso do Sul é o estado que apresenta a maior área média das propriedades rurais, com 465,6 hectares. Já os estados de Sergipe, Alagoas e Pernambuco apresentam as propriedades com menor área, sendo em média inferior a 20 hectares. Observa-se ainda, em alguns estados (Pará, Amapá, Maranhão, Paraná e Mato Grosso), o aumento da área média das propriedades, indicando concentração das propriedades rurais. Verifique o contraste entre a presença dos latifúndios no Centro-Oeste (MS – 465,6 ha e MT – 427,0 ha) e das pequenas propriedades no Nordeste (SE – 15,1 ha e AL – 17,9 ha). FIGURA 8 – EVOLUÇÃO DA ÁREA MÉDIA RURAL FONTE: Hoffmann e Ney (2010, p. 23) TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 37 A distribuição da área das propriedades rurais pode ser visualizada nos mapas apresentados por Girardi (2017) (Figura 9). As regiões Sul, Sudeste, Nordeste e parte norte da região Norte apresentam estrutura fundiária predominante formada por pequenas propriedades. Destacam-se, nos estados do Sul e no sudeste de Minas Gerais, as propriedades com menos de 100 hectares. No outro extremo, a região Centro-Oeste, a parte sul da região Norte e o oeste da região Nordeste compreendem predominância de grandes imóveis rurais (área superior a 1.000 ha) (GIRARDI, 2017). Fica evidente a distribuição desigual das terras agrícolas no Brasil, a partir da observação das figuras apresentadas (Figura 9). Essa diferença gera muitas desigualdades socioeconômicas, servindo como um indicativo de que as políticas públicas adotadas até o momento não foram eficientes para minimizar essa concentração de terras no Brasil (FILHO; FONTES, 2009). Esses autores sugerem que um programa estruturado de reforma agrária poderia contribuir para alterar essa situação, bem como possibilitar maiores níveis de produção, gerando melhoria na qualidade de vida aos agricultores e efeitos positivos à economia brasileira. FIGURA 9 – IMÓVEIS RURAIS FONTE: Adaptado de Girardi (2017). Disponível em: <http://www.atlasbrasilagrario.com.br/con_ subcat/estrutura-fundiaria>. Acesso em: 9 maio 2018. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 38 A estrutura fundiária, extremamente concentrada do ponto de vista da abrangência nacional, se apresenta muito diferenciada quando analisada geograficamente em cada estado ou no contexto regional. As diferenças têm origem tanto na forma quanto no período de ocupação e colonização dos territórios ao longo dos últimos 500 anos (CARDIN; VIEIRA; VIÉGAS, 2018). 3 TAMANHO DAS PROPRIEDADES RURAIS Embora a distribuição desigual das propriedades rurais no Brasil esteja presente desde o período colonial, o Estatuto da Terra estabeleceu os conceitos que ainda são utilizados para a definição do tamanho das propriedades (BRASIL, 1964). Essa legislação conceitua o imóvel rural como: “o prédio rústico, de área contínua qualquer que seja a sua localização que se destina à exploração extrativa agrícola, pecuária ou agroindustrial, quer através de planos públicos de valorização, quer através de iniciativa privada”. A Lei Federal nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, também conhecida como Estatuto da Terra, regula os direitos e obrigações relacionados aos imóveis rurais, para os fins de execução da Reforma Agrária e promoção da Política Agrícola. A Lei no 11.326, de 24 de julho de 2006 (Lei da Agricultura Familiar), define “o agricultor familiar e o empreendedor familiar rural como aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo aos seguintes requisitos (art. 3º): I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II - utilize predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; III - tenha percentual mínimo de renda familiar originada de atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; IV - dirija seu estabelecimento ou empreendimento com sua família”. ATENCAO Também são conceitos estabelecidos no Estatuto da Terra, a Propriedade Familiar, que representa “o imóvel rural que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhes absorva toda a força de trabalho, garantindo- lhes a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração, e eventualmente trabalho com a ajuda de terceiros”. O Módulo Rural, que representa “a área fixada nos termos de uma propriedade familiar”. Em outras palavras, um módulo rural é uma área agrária mínima que possibilita a subsistência e o desenvolvimento social e econômico de uma propriedade familiar. Os termos Imóvel Rural, como sendo a área contínua que se destina à exploração extrativa agrícola, pecuária ou agroindústria; o Minifúndio, como o imóvel rural com área inferior à da propriedade familiar; e o Latifúndio, como o imóvel rural que exceda a dimensão de 600 (seiscentas) vezes TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 39 A classificação dos imóveis no Brasil considera o número de módulos fiscais. Segundo o INCRA, módulo fiscal e módulo rural não se referem à mesma definição. MÓDULO RURAL é calculado para cada imóvel rural em separado e sua área reflete o tipo de exploração predominante no imóvel rural, segundo a sua região de localização. MÓDULO FISCAL é estabelecido para cada município e procura refletir a área mediana dos módulos rurais dos imóveis rurais do município. O Código Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012) indica que o valor do módulo fiscal é utilizado como parâmetro legal para utilização em diversos contextos, como na definição de benefícios atribuídos à pequena propriedade ou posse rural familiar, na definição de faixas mínimas para recomposição de Áreas de Preservação Permanente (APP) e na manutenção ou recomposição de Reserva Legal (RL). A Política Nacional da Agricultura Familiar (Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006) estabelece que o número de módulos fiscais é um dos requisitos analisados para considerar o enquadramento como agricultor familiar ou empreendedor familiar rural. ATENCAO o módulo rural médio das propriedades da região, tendo-se em vista as condições ecológicas, sistemas agrícolas regionais e o fim a que se destina (BRASIL, 1964). O INCRA utiliza como parâmetro para a classificação dos imóveis rurais o tamanho da área das propriedades. Essa classificação também leva em consideração o número de módulos fiscais, e não apenas a metragem de área em hectares (INCRA, 2018b). Segundo estes critérios, os imóveis rurais são agrupados em: • minifúndio: corresponde ao imóvel rural com área inferior a 1 (um) módulo fiscal; • pequena propriedade: corresponde ao imóvel rural com área compreendida entre 1 (um) e 4 (quatro) módulos fiscais; • média propriedade: corresponde ao imóvel rural com área superior a 4 (quatro) até 15 (quinze) módulos fiscais; • grande propriedade: corresponde ao imóvel rural com área superior a 15 (quinze) módulos fiscais. Esta classificação é definida pela Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, a partir do módulo fiscal, que varia de acordo com cada município (BRASIL, 1993). O conceito de módulo fiscal foi introduzido pela Lei nº 6.746, de 10 de dezembro de 1979, que estabeleceu normas para a fixação e cálculo do ITR. O Módulo Fiscal expressa a área mínima necessária para que uma unidade produtiva seja economicamente viável. O número de módulos fiscais de um imóvel é utilizado na aplicação da alíquota no cálculo do ITR (Imposto Territorial Rural) (EMBRAPA, 2018). UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 40 3.1 MÓDULO FISCAL O módulo fiscal de cada município é determinado, segundo a legislação (BRASIL, 1979), de acordo com: • tipo de exploração predominante (hortigranjeira,cultura permanente, cultura temporária, pecuária ou atividade florestal); • a renda obtida a partir do tipo de exploração predominante; • outras atividades de exploração existentes no município, que embora não predominantes, sejam expressivas em função da renda ou da área utilizada; • o conceito de propriedade familiar. As dimensões de um módulo fiscal apresentam variações de acordo com o município onde a propriedade está localizada. O tamanho dos módulos fiscais é expresso na unidade de área hectare (ha), apresentando variação entre 5 e 110 hectares por módulo fiscal (Figura 10). Observa-se que a determinação dos módulos fiscais apresenta um padrão regional, sendo menor nas regiões Sul, Sudeste e parte do Nordeste e do Centro-Oeste. Os módulos fiscais maiores se encontram basicamente nas regiões Norte e Centro-Oeste, estando em sua maioria dentro da área conhecida como Amazônia Legal (EMBRAPA, 2018). IMPORTANT E A Amazônia Legal é uma área (com mais de 5,2 milhões de hectares) que engloba nove (9) estados do Brasil, sendo instituída pelo governo federal em 1953. A diferenciação desta área teve como objetivos o planejamento e a promoção do desenvolvimento social e econômico de regiões que compartilham desafios sociais, econômicos e políticos semelhantes, não sendo fixada assim pela área ocupada pelo bioma Amazônia. TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 41 FIGURA 10 – CLASSES DE MÓDULOS FISCAIS FONTE: EMBRAPA (2018) DICAS Se você tem interesse em saber qual o tamanho unitário do módulo fiscal de seu município, acesse os seguintes endereços: <http://www.incra.gov.br/tabela-modulo-fiscal> ou <https://www.embrapa.br/codigo-florestal/area-de-reserva-legal-arl/modulo-fiscal>. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 42 4 DESEQUILÍBRIO REGIONAL A desigualdade da estrutura fundiária brasileira vista anteriormente é um reflexo do desequilíbrio regional ao longo da história de desenvolvimento do Brasil. Esse desequilíbrio já existia desde antes da ocupação portuguesa em 1500. Pela grande extensão territorial, as variações de clima, geografia e aspectos étnicos, sociais e culturais já moldavam diferenças entre as regiões do atual território brasileiro, ainda durante os povoamentos indígenas. Estudos mostraram que no Brasil, antes do contato com os europeus, havia cerca de 1.400 grupos indígenas habitando todas as regiões (OLIVEIRA; FREIRE, 2006) (Figura 11). Essas variações entre os povos indígenas se refletiam em vários aspectos, destacando-se alguns, como: • formas de comunicação (tipos e raízes linguísticas); • hábitos alimentares (culturas agrícolas e extrativistas preferenciais); • tradições, expressões artísticas e crenças religiosas; • conhecimentos transmitidos entre gerações, além de outras expressões culturais; • organização social (formas e níveis de hierarquia social nos povoados, aldeias e tribos); • padrões de deslocamento, trocas comerciais e convivência entre as etnias; • estilos de vida e de comportamento (passividade e agressividade). FIGURA 11 – GRUPOS INDÍGENAS NO BRASIL EM 1500 FONTE: Disponível em: <http://quartetogeografico709.blogspot.com.br/2016/04/pindorama. html>. Acesso em: 16 maio 2018. TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 43 Com a chegada dos europeus e a colonização a partir de 1500, uma outra variável foi incorporada na sociedade brasileira, e que resultaria no aumento ainda mais acentuado do desequilíbrio regional. Essa variável foi a formação econômica, baseada nos diferentes ciclos de matérias-primas, alternando atividades extrativistas e de produção. Essas divisões econômicas foram acentuadas durante o século XX, resultando nos níveis de desigualdade observados nas diferentes regiões na atualidade (NUNES; GUEDES, 2013). Um dos grandes efeitos relacionados com a expansão, auge e declínio das atividades econômicas em uma região é a migração, ou seja, o deslocamento de grupos populacionais entre diferentes regiões do país. Esse fluxo de mão de obra altera o arranjo social e econômico existente, e de maneira geral, tende a aumentar a concentração de capital e a formação de regiões ricas em detrimento de outras menos favorecidas. Todas essas movimentações migratórias possuem relação direta com ciclos de desenvolvimento econômico. Para relembrarmos, citamos alguns exemplos, como: o deslocamento em direção às regiões de mineração no Sudeste e no Centro-Oeste, a interiorização com o desenvolvimento da atividade cafeeira no Sudeste, a migração para o Norte durante o ciclo da borracha e depois com a instalação da Zona Franca de Manaus, a instalação da capital federal em Brasília, o desenvolvimento industrial nas regiões Sul e Sudeste e a expansão das fronteiras agropecuárias em direção ao interior do país (Centro-Oeste e Norte). De maneira geral, todas essas migrações estão relacionadas à busca por melhores condições de vida e a “fuga” de locais com opções limitadas de desenvolvimento e renda. Para facilitar a compreensão deste efeito migratório sobre as diferenças regionais, vamos analisar com um pouco mais de detalhe a distribuição populacional do Brasil. 4.1 DENSIDADE POPULACIONAL E SUA RELAÇÃO COM A DESIGUALDADE REGIONAL Os dados mais recentes, do Censo demográfico 2010 (IBGE, 2011), demonstram a diferença na concentração da população brasileira entre as regiões. De maneira geral, as áreas litorâneas apresentam maior densidade demográfica em relação às regiões do interior do país. A densidade demográfica representa a quantidade de habitantes por unidade de área. Outro aspecto importante a ser destacado neste sentido é a maior concentração nos estados do Sudeste e Sul, em relação às regiões Centro-Oeste e Norte (Figura 12). Verifica-se ainda que a maior parte da população está concentrada nas capitais ou em grandes regiões metropolitanas de cada estado. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 44 FIGURA 12 - DENSIDADE DE POPULAÇÃO BRASILEIRA FONTE: Disponível em: <http://mapasinterativos.ibge.gov.br/atlas_ge/brasil1por1.html>. Acesso em: 9 maio 2018. A região Sudeste é a mais populosa do Brasil, com mais de 80 milhões de pessoas, seguida pela região Nordeste, que possui mais de 53 milhões de habitantes. Na região Sul vivem pouco mais de 27 milhões de pessoas. As regiões Centro-Oeste e Norte apresentaram o menor número de habitantes por região, com aproximadamente 15 milhões de pessoas vivendo em cada uma. São Paulo é o estado mais populoso, com mais de 41 milhões de habitantes, e Roraima é o oposto, com a menor população, onde vivem aproximadamente 451 mil pessoas (IBGE, 2011). Esse quadro relacionado com a migração pode ser melhor expresso ao analisarmos a relação entre a população urbana x população rural (Figura 13). No Censo 2010, a população brasileira atingiu um total de 190.755.799 habitantes. Comparativamente, a população urbana foi superior a 160 milhões de habitantes, representando 84,4% do total, enquanto quase 30 milhões de pessoas residiam em áreas rurais (IBGE, 2011). Ao acompanhar os dados desde 1950, observa-se uma inversão na frequência do local de residência da população, entre as décadas de 60 e 70, seguida de uma crescente urbanização e expansão dos grandes centros. TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 45 FIGURA 13 – PROPORÇÃO DA POPULAÇÃO FONTE: IBGE (2011, p. 44) Segundo o relatório do Censo demográfico 2010, o processo de industrialização e urbanização no Brasil foi iniciado a partir da Segunda Guerra Mundial, acentuando os movimentos migratórios de áreas rurais com destino às áreas urbanas (IBGE, 2011). No entanto, essa movimentação aos grandes centros não resultou em melhoria das condições de vida da população, ampliando-se ainda mais a desigualdade entre as classes sociais. De forma geral, podemos verificar duas questões importantes de motivação da movimentação populacional. Uma delas está relacionada à ocupação do espaço territorial, destacando-se os movimentos para o interiordo país estimulados pelo governo, principalmente durante o período colonial. A segunda está relacionada com a motivação socioeconômica, podendo ser exemplificada a partir do êxodo rural, como ilustrado. Com raras exceções, a falta de planejamento e o crescimento descontrolado resultaram na formação de grandes metrópoles, que oferecem condições precárias de vida, resultando em problemas sociais e econômicos. Observa-se em muitas regiões rurais, o envelhecimento da força de trabalho, o abandono das atividades agrícolas e a alteração dos padrões fundiários. Segundo Zago (2016), esses movimentos de êxodo rural se tornam especialmente importantes em regiões com predomínio de propriedades familiares, como no Sul do Brasil. Esta autora descreve que a saída dos jovens em direção à cidade está relacionada com a busca por melhores condições de renda, demandas por educação e formação, e com motivação profissional. Recentemente observa-se, por diferentes razões, uma movimentação em sentido contrário, “da cidade para o campo”, que pode ser um novo fator gerador de oportunidades e desenvolvimento. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 46 IMPORTANT E O ÊXODO RURAL refere-se aos eventos de migração das áreas rurais em direção às áreas urbanas. O ÊXODO URBANO refere-se aos eventos de migração contrários, das áreas urbanas em direção às áreas menos povoadas. Esse padrão tem se intensificado recentemente, na busca de melhores condições de vida, como tranquilidade, segurança, disponibilidade de recursos naturais (água limpa, ar menos poluído, cultivo do próprio alimento etc.), bem-estar e opções de renda. 4.2 PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) E SUA RELAÇÃO COM A DESIGUALDADE REGIONAL O Produto Interno Bruto (PIB) representa a soma dos valores monetários de todos os bens e serviços produzidos por uma região em um determinado período. Este índice é um dos mais utilizados para avaliar tendências econômicas e níveis de desenvolvimento. A análise do PIB permite uma boa identificação da variação da atividade econômica de cada uma das diferentes regiões do Brasil (Figura 14). A região Sudeste apresenta uma grande concentração da atividade econômica brasileira, representando mais de 50% do PIB nacional. O Centro-Oeste e o Norte possuem a menor parcela do PIB nacional, sendo que cada região participa com menos de 10% deste índice. Queda mais acentuada no PIB entre 2005 e 2015 foi observada nos estados do Rio Grande do Sul, Amapá e Amazonas. FIGURA 14 – PIB DAS REGIÕES E ESTADOS BRASILEIROS FONTE: IBGE, adaptado de Folha de São Paulo (2017). Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/11/1936019-crise-do-rio-faz-sudeste-perder- mais-participacao-no-pib-nacional.shtml>. Acesso em: 18 maio 2018. TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 47 NOTA Segundo dados do IBGE, órgão que calcula o PIB no Brasil, o índice alcançou R$ 6,6 trilhões em 2017. O setor de serviços foi o que mais contribuiu, com R$ 4,1 trilhões, seguido pela indústria com R$ 1,2 trilhão. O setor agropecuário foi responsável por R$ 300 bilhões, apresentando aumento de 13% em relação a 2016. O PIB per capita, que é a divisão do PIB pela população residente no Brasil, chegou a R$ 31.587 em 2017. Disponível em: <https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia- de-noticias/releases/20166-pib-avanca-1-0-em-2017-e-fecha-ano-em-r-6-6-trilhoes. html>. Acesso em: 18 maio 2018. A análise do PIB demonstra, como vínhamos discutindo, as grandes diferenças regionais e como elas se refletem no nível de desenvolvimento e bem- estar da população. A situação econômica, a distribuição geográfica da população, a capacidade de geração de renda das atividades econômicas principais e a participação do governo, através de políticas públicas, influenciam nos níveis de desenvolvimento regionais. Analisaremos a seguir como os principais ciclos econômicos, ocorridos no Brasil desde o período colonial, moldaram a forma de vida das pessoas e as relações entre as diferentes regiões. 5 CICLOS ECONÔMICOS BRASILEIROS As situações que levaram tanto à expansão quanto ao declínio das atividades econômicas resultaram em profundas transformações sociais, que justificam a composição atual do desenvolvimento regional brasileiro. Nosso propósito neste item é o de fazer uma análise mais geral de como os ciclos de algumas atividades comerciais, desenvolvidas ao longo dos 500 anos de história do Brasil, moldaram a sociedade e a economia. Essas transformações, que estão em sucessiva adaptação, formaram e continuam a aprimorar a situação em cada região do Brasil. Serão discutidos alguns aspectos relacionados aos principais ciclos econômicos ocorridos no Brasil (Figura 15): UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 48 FIGURA 15 – CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL FONTE: Elaborado pelo autor 5.1 CICLO DO PAU-BRASIL Foi o primeiro ciclo econômico importante após a chegada dos portugueses. Ocorreu no período pré-colonial (1500 a 1530), realizado a partir do extrativismo, utilizando a mão de obra indígena, nas áreas de Mata Atlântica do litoral do Nordeste e Sudeste (Figura 16). A exploração do Pau-Brasil foi extremamente predatória, quase levando à extinção da espécie. Do ponto de vista socioeconômico, os índios realizavam o corte e transporte da madeira, motivados pelo escambo (troca por produtos manufaturados de pouco valor), enquanto os portugueses faziam o transporte e comercialização da madeira e de subprodutos (tinta) na Europa. Embora curto, este ciclo registrou a primeira etapa de uma ligação comercial entre o Brasil Colônia e Portugal. O principal objetivo neste período foi o de não deixar o território abandonado, sem estímulo à ocupação, com exceção de poucos pontos estratégicos e fortificados, instalados no litoral. IMPORTANT E O pau-brasil (atual Paubrasilia echinata (Lam.)) é também conhecido como: "pau- de-pernambuco", "ibirapitanga", "orabutã", "ibirapiranga", "ibirapita", "muirapiranga", "pau rosado", ou "pau vermelho". O Brasil é o único país do mundo com o nome de uma planta. Porém, a exploração extrativista quase levou à sua extinção em um curto espaço de tempo. A Lei Federal n° 6.607, de 7 de dezembro de 1978, declarou o pau-brasil como a árvore nacional. Dada a sua importância, no dia 3 de maio é comemorado o Dia do pau-brasil. Brasil Colônia 1500 Brasil Império 1800 Ciclo do ouro e da mineração Ciclo da industrialização e da diversificação de economia Ciclo do café Ciclo da borracha Ciclo da pecuária Ciclo da cana-de-açúcar Ciclo do pau-Brasil Brasil República 1900 Brasil Contemporâneo 2000 17001600 TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 49 FIGURA 16 – DISTRIBUIÇÃO DO PAU-BRASIL. TRONCO E COPA. FONTE: Adaptado de IBF – Instituto Brasileiro de Florestas (2018). Disponível em: <https://www. ibflorestas.org.br/pau-brasil.html>. Acesso em: 16 maio. 2018. 5.2 CICLO DA CANA-DE-AÇÚCAR Com o esgotamento da oferta de pau-brasil, a Coroa portuguesa iniciou a implantação de pequenas unidades de colonização, baseadas no cultivo da cana e na instalação de engenhos de açúcar. Os portugueses conheciam a cultura da cana, que era cultivada nas ilhas do Atlântico. Na Europa do século XVI, o açúcar era uma mercadoria muito valiosa e de acesso apenas às sociedades mais favorecidas, sendo inclusive comercializado em troca de ouro. Ao longo do litoral do Nordeste, grandes canaviais foram implantados após a retirada da floresta, deixando como marca um intenso desmatamento. As características que possibilitaram a expansão da atividade açucareira foram o solo favorável, o clima quente e úmido, a disponibilidade de grandes áreas para o cultivo e a utilização da mão de obra escrava (indígena inicialmente e, posteriormente, de africanos). No atual Estado de Pernambuco foi instalada a maioria dos engenhos de açúcar, pela facilidade de acesso à Europa, por via marítima. Os proprietários dos engenhos de cana eram conhecidos como os “senhoresde engenho” (NUNES; GUEDES, 2013). Neste período, a monocultura da cana foi implantada em grandes áreas (latifúndios) controladas por proprietários portugueses, que obtinham enormes lucros. O ciclo da cana também favoreceu a exploração de outros recursos naturais (principalmente minerais), a partir de expedições ao interior do país; além da expansão da atividade de tráfico de escravos e a expulsão dos povoamentos indígenas para a ocupação dos colonizadores. A população brasileira aumentou significativamente neste período, principalmente no Nordeste. A sociedade brasileira era formada por três camadas sociais: os proprietários (senhores de engenho), os homens livres e os escravos. O ciclo da cana teve longa duração (séculos XVI e XVII) e apresentou um grande impacto na geografia, na economia UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 50 e no contexto social do Brasil. A sociedade açucareira do período colonial apresentava como características a pouca mobilidade populacional, sendo que as áreas das grandes propriedades concentravam o local de vivência dos trabalhadores, a estrutura física para o cultivo e produção e a casa dos proprietários. Uma representação desta condição pode ser visualizada na pintura “Engenho de Itamaracá” (Figura 17), de Frans Post (1612-1680), um dos primeiros artistas a retratar imagens do Brasil colonial, realizada durante a ocupação holandesa no Nordeste (1630-1654). A cultura da cana-de-açúcar também possibilitou a formação e o estabelecimento das primeiras vilas e pequenas cidades, localizadas basicamente no litoral do Nordeste (NUNES; GUEDES, 2013). FIGURA 17 – OBRA “ENGENHO DE ITAMARACÁ” (1647) FONTE: Disponível em: <http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/para_colorir_engenho_ frans_post/>. Acesso em: 18 maio 2018. 5.3 CICLO DA PECUÁRIA A pecuária pode ser compreendida não como um ciclo econômico singular, mas sim como uma atividade complementar, com importância para o abastecimento do mercado interno e para impulsionar a ocupação territorial. Inicialmente (no século XVII) a expansão alcançou o sertão nordestino e os campos do Sul do Brasil. No final do século XVIII, a região de Pelotas/RS teve papel de destaque no comércio nacional da carne bovina. Os produtores do Sul também comercializavam o couro e animais de carga, resultando em uma economia fortemente ligada à pecuária. Com a decadência da mineração, a pecuária tornou- se atividade importante em Minas Gerais e no Centro-Oeste. A partir da segunda metade do século XIX, a pecuária mineira obteve grande expansão e os produtores possuíam enorme prestígio político. Esse fato ficou evidente na “política do café com leite”, um acordo que envolvia interesses políticos e econômicos durante o início do período republicano (de 1889 a 1930). Nesta época, a economia paulista TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 51 era baseada na produção de café e a mineira apresentava grande importância na produção de leite e derivados. Esse acordo envolvia os dois grupos de grandes proprietários de terra no Brasil, paulistas e mineiros, com o objetivo de manter o poder sob o controle das elites (NUNES; GUEDES, 2013). As figuras conhecidas como vaqueiros (no Nordeste), tropeiros (no Sul) e boiadeiros (Centro-Oeste) correspondiam aos comerciantes de gado que realizavam a intermediação entre os criadores e o mercado. Um típico exemplo pode ser compreendido a partir da Rota dos Tropeiros (Figura 18), que transportavam o charque (carne bovina cortada em mantas, salgada e seca ao Sol) da região Sul até os mercados do Sudeste. Ao longo deste trajeto, os diversos pontos de parada para descanso originaram povoamentos e após resultaram em muitas cidades. A pecuária extensiva foi a atividade econômica que estabeleceu um elo de ligação entre o interior e o litoral, durante o período colonial, contribuindo para a interiorização dos domínios portugueses. FIGURA 18 – ROTA DOS TROPEIROS FONTE: Adaptado de Gazeta do Povo (2018). Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com. br/vida-e-cidadania/legado-construido-no-lombo-do-cavalo-47tpgoeb139yfap24ktkwpkcu>. Acesso em: 16 maio 2018. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 52 FONTE: Adaptado de Gazeta do Povo (2018). Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com. br/vida-e-cidadania/legado-construido-no-lombo-do-cavalo-47tpgoeb139yfap24ktkwpkcu>. Acesso em: 16 maio 2018. FIGURA 19 – MONUMENTO AO TROPEIRO (LAGES/SC) 5.4 CICLO DO OURO E DA MINERAÇÃO As grandes reservas de mineração estavam localizadas no interior da colônia, onde o acesso era difícil e a ocupação por diferentes tribos indígenas ainda era frequente. A atividade de mineração e extração de ouro e pedras preciosas passou a ser importante do ponto de vista econômico após o declínio da cultura da cana-de-açúcar. A exploração iniciou na Capitania de São Paulo, que correspondia aos atuais estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. A atividade de mineração avançou da atual cidade de Mariana/MG, passando por Ouro Preto/MG e São João Del Rei/MG, seguindo até a Chapada Diamantina/BA. Este ciclo teve início no final do século XVII e seu declínio deu-se no final do século XVIII, com a exaustão dos recursos naturais. Neste ciclo fica clara a intervenção do governo português sobre a colônia, que alterou a capital de Salvador para o Rio de Janeiro em função da maior proximidade com a região das minas e o estabelecimento do principal porto de escoamento de ouro e diamantes. Outro aspecto importante eram os altos impostos cobrados da Coroa, incidindo sobre a produção, sobre a operação de mineração e sobre a atividade dos trabalhadores. Com o início do ciclo da mineração, foi retomado o modelo de exploração extrativista, semelhante ao adotado no ciclo do pau-brasil. A riqueza retirada das terras brasileiras era levada e utilizada para a construção de obras e possibilitar o desenvolvimento do território em Portugal. Os eventos de migração foram intensamente fortes, principalmente do Nordeste TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 53 em direção às regiões de mineração (NUNES; GUEDES, 2013). A situação da Europa, que passava por grandes transformações em um período pré-Revolução Industrial, provocou grande instabilidade política e econômica em Portugal, o que levou muitos portugueses a se instalarem definitivamente no Brasil. Embora um crescimento econômico e populacional tenha sido verificado neste período, o desenvolvimento regional não foi verificado em função das características exploratórias e da forma como a riqueza era distribuída. A força de trabalho ainda era constituída pela atividade escrava. Com a decadência do ciclo de mineração pelo esgotamento das reservas de pedras e metais precisos, as regiões mineradoras passaram por profunda crise, pois o abastecimento de alimentos e de produtos manufaturados vinha de outras regiões do Sudeste, do Sul e do Nordeste. ATENCAO Imagem atual da cidade de Ouro Preto/MG que, pela importância histórica e pela conservação dos monumentos coloniais, foi considerada Patrimônio Nacional (1933), tombada pelo IPHAN como Patrimônio Material (1938) e, reconhecida mundialmente, após a declaração pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade (1981). FONTE: Disponível em: <http://www.ouropreto.mg.gov.br/historia>. Acesso em: 10 ago. 2018. 5.5 CICLO DA BORRACHA O ciclo da borracha na Amazônia teve como origem a demanda pela matéria-prima no período pós-Revolução Industrial, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Os interesses comerciais apareceram a partir da metade do século XVIII, com o desenvolvimento do processo de extração e fabricação da UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 54 goma de látex. Com o desenvolvimento do processo de vulcanização em 1839, o látex tornou-se um material viável para uso industrial. A grande demanda pelo produto no mercado internacional impulsionou o aumento da produção nos seringais da Amazônia. Novamente foiestabelecida uma rota intensa de migração da população do Nordeste, que sofria com crises de seca, miséria e conflitos sociais. Esses migrantes, chamados de seringueiros, formavam a força de trabalho nos seringais (NUNES; GUEDES, 2013). A atividade ganhou tamanha importância que, próximo de 1900, o volume de borracha comercializado representava 1/3 do total das exportações brasileiras. A renda gerada movimentou a economia na região Norte, porém não resultou no desenvolvimento de uma estrutura industrial que possibilitasse outras atividades comerciais. Embora muitos recursos tenham sido aplicados em cidades como Manaus e Belém, na implantação de uma ferrovia e na ampliação dos portos, uma parte significativa dos lucros era usada para trocas comerciais com produtos industrializados do exterior. Além desse fato, os trabalhadores, originários da região Nordeste, apresentavam altas taxas de mortalidade em razão da pouca resistência às doenças locais, de confrontos com indígenas e pelo tipo de trabalho realizado. Somando a isso, a exploração das áreas de seringais gerava grandes conflitos com grupos indígenas que, muitas vezes, foram completamente dizimados. Muitas vezes, esses trabalhadores, devido ao isolamento e às condições de trabalho, viviam em um sistema de semiescravidão, como retratado na pintura A cena do seringal (1940), da artista paraense Antonieta Santos Feio (1897-1980), retratando o trabalho de produção das bolas de borracha (Figura 20). A decadência do ciclo da borracha na Amazônia está associada ao contrabando de milhares de sementes de seringueiras para a Inglaterra, em 1877. O cultivo da seringueira nas colônias inglesas na Ásia possibilitou a produção de látex a custos muito inferiores aos das condições brasileiras. Como resultando, a brusca queda no preço internacional tornou a produção inviável e a exploração da borracha da Amazônia entrou em crise no início do século XX. FIGURA 20 – SERINGAL (ESQUERDA), COLETA DO LÁTEX (CENTRO) E PINTURA (DIREITA) FONTE: Adaptado de IPEF – Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (2018). Disponível em: <http://www.ipef.br/identificacao/hevea.brasiliensis.asp>. Acesso em: 18 maio 2018. TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 55 IMPORTANT E A seringueira (Hevea brasiliensis L.) é uma planta nativa da região Amazônica, da qual é extraída a seiva, sob a forma de um líquido branco e viscoso, chamado látex. Esse látex coagula espontaneamente em contato com o ar, originando a goma de borracha. Das onze espécies, a Hevea brasiliensis é a que possui maior capacidade de produção de látex. 5.6 CICLO DO CAFÉ A crise na mineração impulsionou novamente a economia de exportação de matérias-primas agrícolas, produzidas em diversos locais das regiões do Sudeste e Nordeste. Um exemplo foi a atividade de produção de algodão e café em alguns estados da região Nordeste, com destaque para as regiões que compõem o atual Estado do Maranhão. Porém, devido às dificuldades de adaptação e aos métodos rudimentares de produção, o cultivo do café não se expandiu nesta região. Um pouco mais tarde, além destes motivos, a ocorrência de pragas (bicudo do algodão) e a competição com o algodão de outros locais (Estados Unidos) fizeram com que o cultivo também perdesse importância. Apesar de inicialmente desenvolvida nas regiões Norte e Nordeste (em 1720), foi no Sudeste, na região do Vale do Rio Paraíba, que a cultura do café passou a ter um grande impulso (NUNES; GUEDES, 2013). As condições de solo (terra roxa) e clima favoráveis possibilitaram uma rápida expansão do cultivo de café em direção ao interior de São Paulo, se espalhando também para Minas Gerais e Espírito Santo. Entre os anos de 1830 e 1840, o café foi o produto que liderou as exportações no Brasil. O país tinha como destaque a grande produção, que poderia atender à demanda mundial, além do controle dos preços e a decisão da forma de atuação no mercado internacional. A importância econômica impulsionou a modernização da estrutura de transporte, principalmente ferroviária, que trazia os grãos das áreas de produção até o litoral; e a portuária, que realizava o escoamento nos portos de Santos e do Rio de Janeiro (NUNES; GUEDES, 2013). Durante a segunda metade do século XIX, uma série de mudanças sociais ocorreu no Brasil, com os eventos que resultaram na abolição da escravidão e na chegada de imigrantes europeus, principalmente de origem italiana. Esses imigrantes substituíram a mão de obra escrava e possibilitaram a continuidade das atividades até o fim do ciclo de progresso econômico cafeeiro. Nesta época também chegaram à região Sul do país imigrantes europeus de diversas nacionalidades, principalmente alemães, poloneses, ucranianos e italianos, que se estabeleceram e iniciaram a ocupação das terras do interior. Os imigrantes orientais, vindos do Japão, principalmente, chegaram durante o início do século XX, tendo como destino também as regiões Sul e Sudeste do Brasil. Esses imigrantes europeus e asiáticos contribuíram de forma significativa com a introdução de uma cultura cooperativa gerando oportunidades às pequenas propriedades rurais. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 56 ESTUDOS FU TUROS Os imigrantes japoneses foram responsáveis pela organização de uma das maiores cooperativas agrícolas do Brasil, a Cooperativa Agrícola de Cotia, fundada em 1927. Os cooperados possuíam diversos segmentos, desde a produção de grãos, hortaliças e frutas até a comercialização de produtos animais, exercendo atividades em 15 estados brasileiros. Após chegar a quase 15 mil sócios, as atividades foram encerradas no final de 1994, em função de dívidas e cenários econômicos desfavoráveis. Os ganhos econômicos, propiciados com a exportação do café para a Europa e para os Estados Unidos, possibilitaram aos grandes fazendeiros, conhecidos como “barões do café”, um grande enriquecimento. Esse acúmulo de capital teve forte influência no desenvolvimento industrial e econômico da região Sudeste, principalmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A crise no setor cafeeiro iniciou por um descontrole entre a oferta e a demanda de café no mercado internacional e devido à competição com o café produzido em outras regiões, reduzindo drasticamente os preços. O governo brasileiro comprava grandes volumes de café dos produtores e realizava a sua destruição (milhões de sacas foram queimadas), porém essa medida não foi suficiente para absorver os estoques, estabilizar os preços internacionais e evitar a quebra da oligarquia cafeeira (NUNES; GUEDES, 2013). ATENCAO Obra “Café” (1935), do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962) retratando a colheita, o ensacamento e o carregamento de sacos de café por escravos negros. FONTE: Disponível em: <http://www.museus.gov.br/obras-de-portinari-no-mnba-integram- exposicao-inedita-em-roma/>. Acesso em: 10 ago. 2018. TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 57 5.7 CICLO DA INDUSTRIALIZAÇÃO E DA DIVERSIFICAÇÃO DA ECONOMIA Até o início do século XX, a economia brasileira estava baseada na produção agrícola, com o desenvolvimento de pequenos polos industriais, localizados principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro. A partir de 1930, com o governo de Getúlio Vargas, a industrialização se intensificou no Brasil. Os fluxos de migração aumentam, principalmente do Nordeste em direção ao Sudeste, acelerando a formação de grandes centros urbanos. Ao longo do século XX, a formação de regiões metropolitanas e de importantes áreas industriais, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, passou a dominar a economia e o desenvolvimento da sociedade brasileira. Nunes e Guedes (2013) descrevem que ocorreu uma estagnação das demais regiões brasileiras em relação à prosperidade econômica da região Sudeste, particularmente representada pela concentração industrial no Estado de São Paulo. Estes autores destacam que, uma vez iniciada essa direção de concentração, ela não pôde ser revertida.A partir da década de 1960, a região Sul do Brasil apresentou desenvolvimento de um setor industrial diversificado e com crescimento expressivo, baseado nas atividades têxtil e a de transformação de alimentos. Atualmente, essa é a segunda região industrial mais importante do país. Outras regiões apresentaram impulso econômico, principalmente após a década de 50, destacando-se a região Norte, com a criação da Zona Franca de Manaus, e a região Centro-Oeste, a partir das obras de construção de Brasília e a transferência da capital federal. A construção de Brasília impulsionou um grande contingente de migração para possibilitar a execução das obras que permitiram a transferência da capital federal do Rio de Janeiro para o Distrito Federal. Da mesma forma que em outras situações, a falta de planejamento e a infraestrutura precária originaram as desigualdades sociais entre a região administrativa e as cidades do seu entorno, conhecidas como cidades satélites. IMPORTANT E A Zona Franca de Manaus foi criada através da Lei federal n° 3.173, de 6 de junho de 1957, estabelecendo incentivos fiscais para a implantação de um polo industrial, comercial e agropecuário na Amazônia. O objetivo era promover o desenvolvimento socioeconômico dos municípios, além de possibilitar uma maior integração com o restante do país. Atualmente, a SUFRAMA – Superintendência da Zona Franca de Manaus realiza a administração e gestão deste modelo. UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO 58 A região Nordeste permaneceu em uma estagnação da atividade econômica, sendo que somente a partir do início dos anos 80 desenvolveu- se a indústria do turismo com um objetivo de aproveitar as características das paisagens, principalmente no litoral. O período de estabilização monetária ajudou a impulsionar a atividade, trazendo turistas de diferentes partes do país e de diversos países do mundo. Porém, as necessidades sociais e a distribuição de renda ainda estão muito distantes de possibilitar uma situação de melhoria das condições de vida da população (NUNES; GUEDES, 2013). Projetos agropecuários em torno do Rio São Francisco e na região Sul da Bahia, com a produção de frutas irrigadas e de cacau, exemplificam as atividades econômicas que se estabeleceram na região. 6 CONDIÇÕES ESTRUTURAIS DO BRASIL ATUAL A expansão agropecuária, a diversificação da produção, a organização social em cooperativas de produção e associações contribuíram para o crescimento da economia na cadeia de agronegócios. Porém, a urbanização, o êxodo rural, a redução nos preços de comercialização dos produtos agrícolas e a intensa mecanização agrícola geraram o aumento da concentração de terras (ALVES; SOUZA; MARRA, 2011). Nos últimos 30 anos, as alternativas de agregação de valor, adoção de sistemas alternativos de produção, valorização da agricultura familiar e turismo rural têm possibilitado uma nova opção de melhoria das condições de vida, podendo reverter a saída dos jovens do meio rural e oferecer uma possibilidade de renda digna e permanência no campo. Podemos destacar das discussões de Nunes e Guedes (2013) as principais causas que levaram às disparidades observadas entre as regiões brasileiras. Essas causas estão relacionadas com: • características econômicas das atividades desenvolvidas ao longo dos ciclos econômicos; • escassez de recursos naturais nas regiões menos favorecidas; • incapacidade de acumulação de capital financeiro, capaz de gerar investimento em atividades geradoras de renda, como a agroindústria e a indústria de transformação; • condições geográficas naturais (clima, solo etc.) não propícias ao desenvolvimento das atividades econômicas; • direcionamento político e econômico dos interesses voltados à produção e distribuição dos recursos financeiros obtidos; • fluxos migratórios de mão de obra, direcionando a acumulação do capital entre as regiões; • ausência de instrumentos públicos eficientes para a correção das disparidades regionais. Para concluirmos este tópico, Neto, Brandão e Castro (2017, p. 436) destacam que o processo de globalização econômica atuou com grande intensidade sobre o desenvolvimento regional brasileiro a partir dos anos 2000. Os autores descrevem que o processo de desindustrialização, caracterizado pela TÓPICO 2 | ESTRUTURA FUNDIÁRIA E DESEQUILÍBRIO 59 perda de dinamismo e competitividade do parque industrial, e a expansão das atividades do agronegócio, direcionadas ao aumento da produção e à exportação de matérias-primas, apresentaram os maiores reflexos na economia neste período. No período 2000-2015, maiores taxas de crescimento do PIB foram verificadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, em comparação com o Sul e Sudeste. No entanto, as condições estruturais que poderiam favorecer o estabelecimento de um novo padrão de integração das atividades econômicas nacionais continuam fragilizadas. Entre os motivos levantados por Neto et al. (2017) estão a atração exercida pela demanda internacional de commodities agrícolas e minerais. Esse quadro de incentivo à exportação de produtos primários não manufaturados continua a reprimir a expansão da estrutura produtiva nacional e o desenvolvimento tecnológico, que poderiam oferecer melhores condições de crescimento ao país. 60 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A estrutura fundiária é a forma como as propriedades agrícolas estão organizadas e distribuídas. • A forma e as características dos imóveis rurais se encontram distribuídos de maneira desigual entre as regiões do país. • Os critérios e os conceitos que regulam a classificação do tamanho dos imóveis rurais no Brasil são definidos pela legislação. • O tamanho dos imóveis rurais é classificado em: minifúndio, pequenas, médias e grandes propriedades. • Existem diferenças entre módulos rurais e módulos fiscais. • Um módulo rural é uma área agrária mínima que possibilita a subsistência e o desenvolvimento social e econômico de uma propriedade familiar. • O módulo fiscal expressa a área mínima necessária para que uma unidade produtiva seja economicamente viável, variando de tamanho dependendo da localização geográfica. • Há diversas condições que caracterizam o quadro de desequilíbrio entre as diferentes regiões brasileiras. • O processo histórico relacionado aos principais ciclos econômicos do Brasil apresentou reflexos sobre os aspectos sociais e econômicos regionais na atualidade. • As condições estruturais do Brasil atual e os elementos que configuram a geração de oportunidades para o setor agropecuário podem ser aproveitadas para estimular o desenvolvimento rural. 61 Caro acadêmico, vamos fazer alguns exercícios sobre este tópico para ajudar na compreensão do que foi estudado. Leia as questões e responda aos exercícios apresentados. Em caso de dúvida, busque as informações no livro de estudos para tirar suas dúvidas. 1 Neste tópico, você aprendeu sobre os ciclos econômicos que influenciaram no desenvolvimento econômico regional e na distribuição da densidade demográfica no Brasil atual. Em relação aos principais ciclos econômicos, nas diferentes fases da história brasileira, analise as seguintes sentenças: ( ) Os ciclos econômicos do pau-brasil e da mineração de ouro e de pedras preciosas apresentaram como características comuns o extrativismo predatório dos recursos naturais e a ausência de uma condição favorável de desenvolvimento social após o esgotamento das reservas. ( ) O ciclo da cana-de-açúcar apresentou importância durante um longo período, possibilitando o estabelecimento dos povoamentos e de pequenas cidades no Brasil, sendo caracterizado pela utilização da mão de obra escrava, de indígenas e africanos, para a realização dos trabalhos. ( ) A importância econômica da cultura do café possibilitou o desenvolvimento de uma infraestrutura de transporte fluvial e aéreo, não sendo responsável pela chegada de imigrantes europeus que complementaram o trabalhojuntamente com a mão de obra escrava. ( ) Com a crise do setor cafeeiro e a distribuição de imigrantes europeus e asiáticos nas áreas rurais do Brasil, modificações importantes na estruturação das organizações sociais entre produtores foram sendo implementadas, como a criação de diversas cooperativas de produção. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – V – V – V. b) ( ) V – F – V – V. c) ( ) V – V – F – V. d) ( ) V – V – V – F. 2 A estrutura fundiária apresenta grandes diferenças no Brasil. Ao analisar a importância econômica e social do setor agrope- cuário, verificamos condições distintas, quando se considera o tamanho das propriedades. Neste contexto, descreva o que é estrutura fundiária e quais características em relação ao tamanho e à ocupa- ção das propriedades rurais no Brasil. Relacione esta informação, conside- rando a estrutura fundiária em nível nacional, regional e/ou estadual. AUTOATIVIDADE 62 63 TÓPICO 3 POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO RURAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste terceiro tópico serão abordados os temas relacionados às políticas públicas direcionadas ao setor agropecuário. Uma abordagem sobre o desenvolvimento rural será feita para embasar as discussões sobre a importância das políticas públicas, o processo de formação das agendas e implementação de ações. Vamos também direcionar a apresentação de temas relacionados às organizações sociais no campo, principalmente com o associativismo e o cooperativismo. Deseja-se que você possa ter um bom aprendizado neste tópico e que as informações apresentadas possibilitem a condição necessária para o aproveitamento das unidades seguintes deste Livro de Estudos. Vamos aprender! 2 CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO RURAL BRASILEIRO Vimos, nos tópicos anteriores, a evolução histórica que resultou no enorme desequilíbrio econômico entre as regiões brasileiras e, principalmente, os elementos relacionados com a questão agrária e a desigualdade na distribuição da terra. Associado a estes fatores, as estratégias de políticas públicas no Brasil têm valorizado a produção de commodities agrícolas destinadas ao mercado internacional, servindo como eixo direcionador econômico e que tem se mostrado ao longo do tempo causador de problemas sociais (excludente) e de utilização dos recursos naturais (poluição e perda de biodiversidade). Este viés econômico- produtivista segue o mesmo parâmetro para analisar a “eficiência” das diferentes categorias de agricultores familiares, comparando, a partir dos dados do Censo, produtores com graus diferentes de adoção de novas tecnologias de produção (VILELA, 2017). Desde o período após a Segunda Guerra Mundial, as políticas públicas voltadas ao setor agropecuário foram direcionadas para estimular o aumento de produtividade, baseadas no uso de novas tecnologias de produção e da mecanização agrícola. Esse processo de homogeneização dos sistemas 64 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO produtivos foi fundamentado nos princípios da “Revolução Verde”, e fortemente implementado no Brasil com o estímulo à ampliação das fronteiras agrícolas, à exportação de commodities, formação de complexos agroindustriais e através das linhas de crédito público destinadas à modernização agrícola (DELGADO; PEREIRA, 2017). Nessa lógica, o desenvolvimento rural era associado às intervenções, do governo e de outras instituições, nas áreas rurais mais pobres e que não estavam integradas ao processo de modernização. As políticas públicas até 1990 eram excessivamente normativas, sendo que essas intervenções buscavam a substituição das condições de produção, por serem consideradas atrasadas (SCHNEIDER, 2010). Diversos autores (SCHNEIDER, 2010; GRISA; SCHNEIDER, 2015; CAZELLA et al., 2016; DELGADO; PEREIRA, 2017) descrevem que somente após a Constituição de 1988 é que houve uma mudança no enfoque e no entendimento sobre o desenvolvimento rural, sendo adotadas, a partir de então, novas abordagens e concepções. NOTA Um exemplo a respeito das práticas de produção e comercialização feitas por pequenos agricultores pode ser verificado no Decreto nº 66.183, de 5 de fevereiro de 1970. Este decreto regulamenta outra norma, o Decreto-Lei nº 923, de 10 de outubro de 1969, determinando que “é proibida a venda de leite cru para consumo direto da população, em todo o território nacional” (art. 1º). Verifica-se como a influência governamental, buscando a substituição de condições de produção consideradas inapropriadas, disciplinou uma atividade econômica de grande importância e que viabilizava muitas propriedades familiares na época. Embora em seu artigo 2º exista uma possibilidade de comercialização direta sob condições restritas, na prática, esta legislação determinou de forma expressa a comercialização de leite beneficiado, segundo as seguintes especificações (art. 4º): “ser pasteurizado por processos aprovados em aparelhagem adequada [...]”, “ser padronizado e filtrado por processos centrífugos”, “atender a padrões físico-químicos e biológicos [...]”, ser, após a pasteurização, engarrafado ou empacotado mecanicamente [...]”, “ser controlado em laboratório devidamente aparelhado”, e “ser envasado em embalagens invioláveis de vidro, plástico, cartonado ou similares”. Essas restrições demonstram o favorecimento da comercialização de laticínios às agroindústrias de transformação, embora não se pode ignorar a sua importância, em relação à qualidade e segurança alimentar. Outro exemplo que dificultou a adequação de pequenas unidades produtivas foi a Lei nº 1.283, de 18 de dezembro de 1950, regulamentada pelo Decreto no 9.013, de 29 de março de 2017, que dispõem sobre a inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal para o comércio interestadual e internacional (art. 2º), e municipal e intermunicipal (art. 3º). A constituição de cooperativas é uma estratégia que tem possibilitado atender estas normas e viabilizar a produção de grupos de agricultores familiares. Recentemente, verificam-se algumas legislações estaduais que dispõem sobre a produção e comercialização de produtos artesanais (Lei Estadual nº 10.610, de 1/12/1997 – Elaboração artesanal de produtos comestíveis de origem animal e vegetal de Santa Catarina; Lei Estadual nº 10.507, de 1/3/2000 – Elaboração artesanal de produtos comestíveis de origem animal em São Paulo; Lei Estadual nº 20.549, de 18/12/2012 – Queijos artesanais de Minas Gerais; Lei Estadual nº 17.486, de 16/1/2018 – Queijos artesanais de leite cru TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 65 de Santa Catarina). No âmbito federal, regulamentações diferenciadas para os produtos artesanais começam a ser publicadas, como a Lei nº 13.648, de 11 de abril de 2018, que trata da produção artesanal, caseira ou colonial de polpa e de suco de frutas em estabelecimentos familiares, e a Lei nº 13.680, de 14 de junho de 2018, que possibilita a inspeção e a fiscalização da elaboração de produtos artesanais de origem animal por órgãos estaduais, que devem atuar prioritariamente em caráter de orientação. A agropecuária brasileira apresenta-se com uma estrutura produtiva heterogênea, embora seja caracterizada como uma atividade dinâmica e moderna nas diversas cadeias produtivas. Observa-se que, no Brasil, a agricultura familiar apresenta grande diversidade cultural, social e econômica, com variações em todos os níveis, desde a agricultura de subsistência até a produção familiar que utiliza técnicas e máquinas modernas. Há estabelecimentos identificados pela alta eficiência na gestão da propriedade, intensa adoção de inovações e tecnologias recentes e obtenção de significativas taxas de rendimento, enquanto existe, em outro extremo, um conjunto de propriedades familiares que sequer possuem acesso a tecnologias básicas de produção, resultando em eficiência restrita na gestão das atividades (GARCIA; FILHO, 2014). Devido a estas condições tão diferentes, torna-se inviável umaanálise competitiva e comparativa. Schneider (2010) destaca que o aumento dos debates sobre o desenvolvimento rural no Brasil, a partir da década de 1990, está associado a quatro fatores: • o reconhecimento do papel social, econômico e produtivo associado à agricultura familiar; • a adoção de políticas públicas para a agricultura familiar pelo Governo Federal; • mudanças político-ideológicas no entendimento entre a agricultura familiar e a patronal; • importância crescente da abordagem produtiva com enfoque na sustentabilidade. O reconhecimento político da importância da agricultura familiar passou a ser valorizado e utilizado por pesquisadores e por governantes como contexto de referência em oposição aos modelos do agronegócio adotados nas décadas anteriores. Além disso, a recomposição dos movimentos sindicais dos trabalhadores rurais passou a adotar posturas mais críticas, particularmente nas lutas por crédito, por melhoria dos preços, por formas diferenciadas de comercialização, pela implementação da regulamentação constitucional sobre a previdência social e aposentadoria rural e pela proteção contra a abertura comercial promovida por acordos internacionais (SCHNEIDER, 2010). Um exemplo de conquistas nessa época foi a readequação na classificação dos imóveis rurais segundo a forma de uso (tipologia que separava a agricultura familiar daquela patronal, que adotava trabalhadores contratados ou assalariados). Essa norma federal (Lei no 8.629/1993), que também apresentava inovações para as 66 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO políticas fundiárias e agrícolas, e os dados do Censo Agropecuário 1995/96, serviram de referência para ações mais direcionadas de desenvolvimento rural para a agricultura familiar, como o PRONAF, entre outras. De forma a legitimar as reivindicações dos movimentos sociais, durante a década de 1990, o Governo Federal passou a promover várias medidas inéditas no espaço rural, acelerando a reforma agrária, criando órgãos de suporte (MDA, SDR etc.) e programas de crédito diferenciados (PRONAF). Ao longo dos últimos 30 anos, o Estado brasileiro também foi implementando outras ações voltadas à segurança alimentar, combate à exploração do trabalho rural, regularização fundiária e apoio a comunidades tradicionais (quilombolas, ribeirinhos, entre outros). Muitos autores apresentam críticas sobre a efetividade, sobre a abrangência e sobre a dimensão destas ações (SCHNEIDER, 2010; CAZELLA et al., 2016). As mudanças político-ideológicas na compreensão da importância entre a agricultura familiar e a forma patronal/empresarial de produção têm resultado em uma forma diferente de tratar o desenvolvimento rural (SCHNEIDER, 2010). Essa visão entre duas realidades distintas se justificava a partir de uma questão econômica em que a produção agrícola familiar se destinava a atender ao consumo local ou o mercado interno, enquanto a produção do agronegócio empresarial se destinava à exportação de commodities. Essa visão de duas realidades opostas e conflitantes possibilitou a ampliação do espaço para as discussões sobre o desenvolvimento rural, principalmente direcionado à agricultura familiar, como uma alternativa a esta polarização. A importância da utilização equilibrada dos recursos naturais e a minimização da contaminação ambiental, dos produtores e dos alimentos têm sido a base para este quarto fator de mudanças nas discussões sobre desenvolvimento rural. A questão ambiental passou a ser compreendida, não mais como um impedimento à produção agropecuária, mas sim como geradora de novas alternativas de viabilidade econômica e de opções de renda e oportunidades no campo (SCHNEIDER, 2010). As críticas ao modelo implementado pela “Revolução Verde” e a realização de diversos eventos internacionais para a discussão de temas como o desenvolvimento sustentável, a preservação da natureza, o uso sustentável dos recursos naturais e a segurança alimentar expandiram a pressão dos consumidores sobre os governos para a adoção de políticas diferentes daquelas adotadas. Assim, as discussões se ampliam, não observando apenas o desenvolvimento rural, a partir de estratégias voltadas à agricultura ou a grupos sociais mais vulneráveis residentes no campo e baseadas em ações setoriais de estímulo à produção. Nessa visão, as políticas agrárias deixam de ser entendidas como práticas de governo voltadas ao setor agrário e de pobreza social (PERICO; PERAFÉN; PINILLAM, 2011), mas evoluem para políticas públicas que possam viabilizar as melhorias do território, em todas as suas dimensões (econômicas, sociais, culturais, ambientais e políticas), e que passam a reconhecer uma nova relação entre o ambiente rural e o urbano, baseadas agora em ações de integração TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 67 e interdependência para o desenvolvimento territorial (PERICO; PERAFÉN; PINILLAM, 2011). Embora essas discussões tenham surgido na Europa, nos anos de 1950, no Brasil, essas abordagens e visões passaram a ser melhor entendidas e expressadas a partir da década de 1990. Existem projetos em diversas partes do país que já têm adotado políticas de desenvolvimento territorial, porém, ainda há muito que se avançar para que os resultados possam atingir a escala nacional. Assim, Medeiros e Dias (2011) destacam que uma das principais dificuldades para a implementação de ações de desenvolvimento territorial, que resultem em condições mais equilibradas e sustentáveis, é a imensa desigualdade no meio rural derivada de uma forte concentração da riqueza, especialmente em relação à propriedade da terra. Veremos agora como as políticas públicas são estruturadas e, após isso, faremos uma breve análise das principais ações realizadas para o desenvolvimento rural brasileiro na atualidade. 3 POLÍTICAS PÚBLICAS E SEUS ESTÁGIOS DE FORMAÇÃO As políticas públicas são estratégias de ação, baseadas em diretrizes e princípios estabelecidos pelo poder público, capazes de regular e definir procedimentos entre a sociedade e o governo, para alcançar a resolução de uma dificuldade. Segundo o Sebrae/MG (2008, p. 5-6), as “políticas públicas são um conjunto de ações e decisões do governo, voltadas para a solução (ou não) de problemas da sociedade”. De maneira mais direta, elas referem-se “à totalidade de ações, metas e planos que os governos (nacional, estadual ou municipal) traçam para alcançar o bem-estar da sociedade e o interesse público” (SEBRAE/ MG, 2008, p. 5-6). Assim, as políticas públicas se constituem em um processo dinâmico, envolvendo demandas da sociedade, apresentadas através dos representantes (senadores, deputados, vereadores) ou por meio de audiências com a sociedade civil organizada (associações, sindicatos, entidades representativas, grupos de gestão participativa, cooperativas, ONGs, entre outras) e o poder público. Essas demandas são discutidas, negociadas e formalizadas de acordo com os interesses públicos e a capacidade de mobilização, organização e articulação dos interessados que apresentam as demandas. Muitas vezes, as políticas públicas podem ou não expressar os interesses de grupos ou setores majoritários da sociedade ou com maior capacidade de pressão política. Essa situação reflete o nível de convencimento dos agentes tomadores de decisão e as prioridades selecionadas pelos dirigentes públicos que são responsáveis pela definição das demandas ou expectativas preferenciais da sociedade (SEBRAE/MG, 2008). Assim, as demandas apresentadas, após serem discutidas, são formalizadas sob a forma de documentos públicos (leis, normas, instruções, programas, linhas de financiamento, diretrizes, entre outros), com o objetivo de orientar a adoção de ações ou a aplicação de recursos financeiros para o atendimento das metas estabelecidas. 68 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO A definição das políticas exige uma série de etapas de organização, planejamento, discussões, até que sua adoção possaser definida e acompanhada (Figura 21). Na fase 1, a partir do surgimento, identificação e apresentação dos problemas feita por documentos elaborados por entidades de classe ou em audiências públicas, são selecionadas as prioridades a serem atendidas. Este processo de definição da lista de problemas é chamado de Formação da Agenda. Na fase 2, essas discussões avançam a partir de propostas de soluções ou alternativas de ações a serem adotadas para a resolução dos problemas priorizados. Aqui são definidas as linhas de ação, os objetivos e as metas a serem alcançadas, considerando as diferentes interpretações e interesses, tanto da sociedade como de profissionais técnicos. Na terceira fase, há um seguinte processo decisório, com a escolha das alternativas de ações mais adequadas e de acordo com as possibilidades e interesses. Essas escolhas serão publicadas a partir de leis, decretos, normas, resoluções, entre outras formas de divulgação pública. A quarta fase envolve a adoção das ações definidas e planejadas, que podem ser de duas formas: de forma centralizada (implementação das ações do governo para a sociedade); ou de forma descentralizada (supõe a participação dos beneficiários das políticas públicas no processo decisório). A quinta fase é de grande importância, pois compreende uma ferramenta de análise, acompanhamento, aprendizagem e ajustes para a melhoria dos resultados da política pública. Nesta etapa são considerados os impactos, o cumprimento de metas e os efeitos posteriores a partir das ações adotadas (SEBRAE/MG, 2008). FIGURA 21 - ESTÁGIOS DE ELABORAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS FONTE: Adaptado de Sebrae/MG (2008, p. 10) FASE 5: Avaliação dos resultados FASE 4: Implementação das ações FASE 3: Processo de tomada de decisões FASE 2: Formação da política de ação FASE 1: Formação da agenda TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 69 Do ponto de vista prático, durante os processos decisórios, as fases se ligam entre si, sendo essa separação apresentada apenas como forma didática de compreender o andamento de adoção de uma determinada política pública. Verifica-se que esse processo não acontece de forma instantânea, sendo que esse tempo também deve possibilitar a análise das variações em relação às demandas e às ações adotadas, bem como contemplar as diferentes visões e possibilidades, por exemplo, magnitude das ações, prazo de tempo, orçamento etc. Ao analisarmos as diferentes fases de elaboração das políticas públicas, verifica-se a importância da organização social para possibilitar que os interesses coletivos possam ser atendidos. Como estudamos, as políticas públicas são definidas pela interação entre a sociedade e o governo, na busca de resolução de problemas comuns. Assim, as associações, cooperativas ou outras formas de arranjo social podem e devem atuar tanto na apresentação dos problemas e na discussão de soluções, quanto nas etapas de implementação e avaliação dos resultados. Verifica-se assim que a participação da sociedade, através de associações ou de outras formas de organização, é uma das maneiras mais eficientes para que as necessidades sejam identificadas e atendidas, tanto pela capacidade de mobilização quanto pelo alcance na negociação. Veremos agora quais as principais políticas públicas relacionadas ao desenvolvimento rural adotadas atualmente. 4 TIPOS DE POLÍTICAS PÚBLICAS De maneira geral, até a década de 1970, as políticas públicas brasileiras eram direcionadas a promover a industrialização e a modernização agrícola, privilegiando grandes produtores e incentivando, através da oferta de crédito, a adoção de novas tecnologias e a mecanização agrícola. Historicamente, a agricultura familiar sempre foi deixada à margem das ações governamentais (GRISA; SCHNEIDER, 2015). Com a redemocratização do Estado brasileiro e a promulgação da Constituição de 1988, mudanças importantes, principalmente associadas à formação e à mobilização de organizações sociais rurais, passaram a ganhar importância. Essas organizações sociais passaram a demonstrar e a ganhar visibilidade perante os órgãos do governo e perante a população brasileira. As condições precárias de desenvolvimento e as necessidades dos pequenos agricultores passaram a ser apresentadas de forma mais ativa, principalmente associadas à reforma agrária e nas questões ligadas ao acesso e liberação ao crédito rural (GRISA; SCHNEIDER, 2015, p. 20; CAZELLA et al., 2016). Essa foi a primeira geração das políticas públicas voltadas a atender à agricultura familiar. Grisa e Schneider (2015, p. 30) indicam esta fase como “a construção de um referencial agrícola e agrário”, caracterizada pelas expressivas mobilizações sociais em busca de melhores condições de produção, acesso à terra e reconhecimento da importância econômica da agricultura familiar. O Pronaf – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar se constituiu na principal política pública de incentivo adotada nesta fase, através da disponibilização de recursos financeiros. 70 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO NOTA O PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar foi criado pelo Decreto federal nº 1.946, de 28 de junho de 1996, com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável da agricultura familiar, possibilitando o aumento da capacidade produtiva, a geração de emprego e renda. O programa de crédito contempla uma grande amplitude, tanto pelo número de beneficiários quanto pelo tipo de atividade e disponibilidade de recursos aplicados, difundido em projetos individuais ou coletivos. O crédito agrícola disponibilizado pode ser aplicado no custeio da safra e em operações de investimento, visando o acesso à terra, aumento da produção, melhorias na infraestrutura produtiva e a atividade agroindustrial, como forma de agregação de valor. As condições de acesso ao crédito, as formas de pagamento, as taxas de juros e as linhas de atuação são definidas anualmente com a divulgação do Plano Safra, entre os meses de junho e julho. A segunda geração das políticas públicas voltadas à agricultura familiar tem como referência a correção, por parte do Estado, da incapacidade do mercado de economia liberal em atender à pobreza no meio rural. A adoção de políticas assistenciais foi estimulada e implementada para minimizar a redução da mortalidade infantil, combate à fome, educação básica, condições de habitação e saneamento, geração de renda e qualificação profissional (GRISA; SCHNEIDER, 2015; CAZELLA et al., 2016). Embora não tenha sido um programa de assistência social, a criação do PRONAF e, posteriormente, de outros programas assistenciais possibilitou muitos avanços no apoio à infraestrutura básica das famílias rurais, diminuindo a pobreza e as diferenças no campo (GRISA; SCHNEIDER, 2015). Grisa e Schneider (2015, p. 32) indicam esta fase como “a construção de um referencial social e assistencial”, marcada por melhorias importantes nos indicadores de desenvolvimento. A terceira geração se caracteriza pela construção de um referencial pautado na formação de novos mercados para os produtos e serviços das propriedades rurais, com direcionamento para questões de segurança alimentar e sustentabilidade (GRISA; SCHNEIDER, 2015; CAZELLA et al., 2016). Uma das políticas públicas direcionadas às ações de segurança alimentar foi o PAA – Programa de Aquisição de Alimentos, que articulava a compra dos produtos da agricultura familiar. Nesta mesma linha, o PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar – ampliou a participação no mercado dos produtos da agricultura familiar, além de incentivar e fortalecer as organizações e associações de produtores. Nesta fase, mais presente a partir dos anos 2000, foram desenvolvidas as ações públicas de valorização da produção local, da agregação de valor através da agroindustrialização, do aprimoramento dos instrumentos de fiscalização e sanidade agropecuária e do estímulo à identificaçãode produtos diferenciados (certificação de sistemas de produção, selos informativos de produção local e artesanal, reconhecimento territorial a partir de indicações geográficas) (GRISA; SCHNEIDER, 2015). TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 71 Nesta última geração de políticas públicas, Grisa e Schneider (2015) destacam a maior importância e proximidade entre o Estado e as organizações sociais, buscando uma melhor relação entre a formação da agenda de necessidades e de soluções, e a implementação das ações por parte do governo. Essa observação mostra a importância da organização social e o papel das associações e cooperativas de produtores para a definição de políticas públicas de estímulo à produção, ao fortalecimento das atividades agrícolas e à conquista de novos mercados. As três gerações de políticas públicas apresentadas não se constituem em três períodos independentes, onde uma geração precede a seguinte, em uma sequência de eventos (GRISA; SCHNEIDER, 2015). Essa divisão tem a intenção de ajudar na compreensão de como as demandas por novas ações do governo foram sendo apresentadas e contempladas ao longo do tempo e de acordo com a evolução do desenvolvimento rural. Esses autores também destacam que as diferentes gerações de políticas públicas continuam a ser apresentadas, discutidas e alteradas, buscando atender diversos interesses e novas oportunidades originadas pela dinâmica do setor do agronegócio. O Quadro 2 apresenta uma listagem de algumas das principiais políticas públicas relacionadas ao agronegócio no Brasil. QUADRO 2 – POLÍTICAS PÚBLICAS AO AGRONEGÓCIO Objetivos Caracterização geral Exemplos Valorização dos produtos agrícolas através de signos distintivos e de direito de propriedade industrial. Indicações geográficas. Indicação de procedência, Denominação de origem. Distinção de produtos ou serviços provenientes de representações coletivas. Marcas coletivas. Sistemas de produção diferenciados. Produção orgânica, Produção integrada agropecuária. Crédito rural. Crédito de custeio e de investimento, distribuído em diversas linhas e programas. PRONAF, PRONAMP, Programas com recursos do BNDES, Programas especiais. Minimização de perdas e gestão de riscos. Exonerar o cumprimento de operações financeiras de crédito e indenizar a frustração de safra por perdas devidas a adversidades climáticas. Seguro agrícola, Proagro (Programa de Garantia de Atividade Agropecuária), Garantia-Safra, Política de combate à seca. Adaptação edafoclimática e apoio às condições de produção e sanidade. Zoneamento agrícola de risco climático, Monitoramento agroclimático, Recomendação de cultivares. Mitigação de danos ambientais e adaptação às mudanças climáticas. Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), Rural sustentável. Recuperação de pastagens degradadas, Integração lavoura- pecuária-floresta (ILPF), Sistemas agroflorestais (SAFs), Plantio Direto (SPD), Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), Florestas plantadas, Tratamento de dejetos animais, Conservação do solo e água. 72 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO Proteção da natureza. Serviços ambientais. Pagamentos por serviços de conservação dos recursos naturais ou por compensação de danos ambientais, Unidades de conservação e áreas protegidas. Produção sustentável. Produção agropecuária minimizando impactos aos recursos naturais. Produção orgânica e agroecológica, Agroenergia ou Bioenergia (Etanol, Biodiesel), Plano ABC, boas práticas e bem-estar animal. Manejo sustentável de recursos naturais Sistemas agroflorestais (SAFs). Capacitação e acompanhamento à produção. Assistência técnica e Extensão rural (ATER). Programas nacionais, estaduais e municipais de acompanhamento técnico e treinamento, Programas de formação e divulgação de informações. Desenvolvimento, ciência e inovação tecnológica. Pesquisa agropecuária, Ciência e tecnologia. Instituições de pesquisa e desenvolvimento agropecuário (Embrapa etc.), programas nacionais, estaduais e municipais de fomento à pesquisa e inovação. Segurança alimentar e nutricional. Produção de alimentos seguros e saudáveis. Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Produção orgânica e agroecológica. Controle de qualidade, SI – Serviço de Inspeção. Inspeção de produtos de origem animal nas esferas federal, estadual e municipal, Controle de resíduos de agrotóxicos (ANVISA). Regularização agrária. Demarcação de terras, crédito fundiário, reforma agrária, ATER. Regularização de assentamentos rurais, comunidades tradicionais e quilombolas, reservas indígenas, áreas de proteção ambiental. Garantias de produção e comercialização. Regulação de preços agrícolas e abastecimento. PGPM - Programa de garantia de preços mínimos e PGPAF - Programa de garantia de preços mínimos para a agricultura familiar (ambos da CONAB). Compras institucionais. Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Subvenção setorial, Leilões eletrônicos de compra e venda. Infraestrutura e logística de abastecimento. Armazenagem e estoques reguladores. Desenvolvimento social. Políticas sociais e de desenvolvimento regional. Previdência rural, Combate à pobreza, Habitação rural, Auxílios diversos (Bolsa família etc.). TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 73 Controle sanitário, Vigilância sanitária, Sistema de mitigação de risco sanitário, Controle de importação e de exportação. Produção e trânsito animal. Sistema de informação em saúde animal, Serviço de inspeção nas esferas federal, estadual e municipal, Registros sanitários diversos. Produção e trânsito vegetal. Registro e fiscalização de alimentos e bebidas, Controle de sementes e mudas, Registros sanitários diversos. Fórum de debates e de formação de agendas políticas. Câmaras setorial e Câmaras temáticas. As Câmaras setoriais representam diversas cadeias produtivas do agronegócio. As Câmaras temáticas tratam de serviços, temas e áreas de conhecimento multissetoriais. Promoção e divulgação. Formação, promoção e divulgação de informações sobre o agronegócio. Programas nacionais, estaduais e municipais de acompanhamento, formação, estruturação e divulgação de informações sobre o setor agropecuário. Desenvolvimento territorial e rural. Indicações geográficas. Indicação de procedência, denominação de origem. Turismo rural e agroturismo. Turismo rural e agroturismo. Organização social. Cooperativismo e Associativismo. Cooperativas e associações, nas mais diversas atividades de produção, agroindustrialização e comercialização. FONTE: Elaborado pelo autor De forma geral, observa-se que as políticas públicas adotadas atualmente possuem objetivos relacionados não apenas com o estímulo à produção agropecuária e à estruturação da propriedade (Quadro 2). A importância da organização social para as atividades produtivas, a necessidade de uso equilibrado dos recursos naturais e as distintas opções de desenvolvimento rural, baseadas na agregação de valor e na valorização das características dos produtos e do território, têm gerado novas oportunidades econômicas às propriedades rurais. Embora as condições no campo tenham avançado significativamente nos últimos anos, Cazella et al. (2016) descrevem que uma parte importante das propriedades familiares brasileiras ainda se encontra à margem das ações governamentais, pouco se beneficiando de condições para sua inserção no mercado. 74 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO NOTA As câmaras setoriais e as câmaras temáticas foram criadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para oportunizar uma interlocução mais próxima entre os representantes dos diferentes segmentos do agronegócio. Essas reuniões, entre membros do setor privado e do governo, possibilitamuma forma democrática de participação para a identificação e a definição de ações de interesse das atividades agropecuárias brasileiras, bem como daquelas relacionadas ao mercado externo. As câmaras setoriais representam as principais cadeias produtivas, enquanto as câmaras setoriais abordam diversas cadeias produtivas, tratando de temas comuns e de maior relevância. Atualmente, há 32 câmaras setoriais e seis câmaras temáticas que discutem e assessoram a implementação de políticas públicas para o setor do agronegócio. 4.1 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA O ASSOCIATIVISMO E COOPERATIVISMO Diversas políticas públicas estimulam as atividades de organização social, como forma de favorecer o desenvolvimento territorial. Dentre elas, podemos destacar aquelas relacionadas: • à propriedade industrial, caracterizadas pelas marcas coletivas e pelas indicações geográficas; • às compras institucionais, caracterizadas pelos programas, como o PAA e o PNAE; • às parcerias internacionais, caracterizadas pela cooperação com o IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), entre outras instituições; • à profissionalização e capacitação, caracterizadas pela articulação do MAPA (Proficoop) com o SESCOOP (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo), o SEBRAE, entre outros; • às linhas de crédito de investimento (Prodecoop), de capitalização (Procap- Agro) e as linhas de apoio à agricultura familiar via Pronaf (Agroindústria, Industrialização e Cota-parte), estabelecidas pelos Plano Safra e Plano Safra da Agricultura Familiar; • ao desenvolvimento rural sustentável, definidas durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20); • à integração de debates e de formação de agendas voltadas ao cooperativismo, estabelecidas a partir da instalação da Câmara Temática de Cooperativismo Agropecuário em 22/11/2012; • ao estímulo à organização através do cooperativismo e/ou associativismo, a partir de programas de incentivo (InterAgro), de integração agrícola (PisaCoop), de gênero (CooperGênero) e idade (ProcoopJovem) e informação e divulgação (PromoCoop); TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 75 NOTA A Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (DAP) é o documento de identificação da agricultura familiar. Pode ser realizada sob duas modalidades, tanto pelo agricultor familiar (DAP Pessoa Física) ou por empreendimentos familiares rurais, como associações, cooperativas e agroindústrias (DAP Pessoa Jurídica). A DAP é um documento de ordem declaratória, sendo necessários para a sua emissão os documentos de identificação e, eventualmente, documentos de comprovação de atividade agrícola, de renda e de residência. Para consultas a respeito da DAP ou das entidades emissoras, acesse: <http://www.mda.gov.br/sitemda/dap/ • ao estímulo do desenvolvimento territorial e rural, baseadas nas atividades relacionadas à promoção do turismo rural e do agroturismo, preservação e exploração organizada dos recursos e belezas naturais, além da valorização cultural e histórica do local. Vamos conhecer mais detalhes de algumas dessas políticas públicas, que apresentam direcionamento para a organização da produção e/ou comercialização de forma associativa e/ou cooperativa. 4.1.1 Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE Este programa foi criado através da Lei Federal no 11.947, de 16 de junho de 2009, dispondo sobre a alimentação escolar. No âmbito do PNAE, ficou previsto que no mínimo 30% dos recursos utilizados para a compra de alimentos, destinados à oferta escolar pública, devem ser direcionados à agricultura familiar, priorizando os assentamentos de reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas (SAF, 2018a). Essa lei estabelece diversas diretrizes, dentre elas o desenvolvimento sustentável, baseado no incentivo à aquisição de gêneros alimentícios diversificados, produzidos em âmbito local e preferencialmente pela agricultura familiar. A gestão do PNAE é executada pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), que repassa os recursos para a compra dos alimentos (SAF, 2018a). Dentro da categoria dos agricultores familiares, podem participar as modalidades de fornecedores no PNAE: • fornecedores individuais: agricultores familiares detentores de DAP Física (Declaração de Aptidão ao Pronaf) que tenham interesse em realizar a venda; • grupos informais: grupos de agricultores familiares detentores de DAP Física, que se articulam para apresentar o projeto de venda; • grupos formais: organizações de produtores detentores de DAP Jurídica, incluindo cooperativas e associações de agricultores familiares devidamente formalizadas. 76 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO sistemas>. A emissão da DAP é gratuita! Para acessar o sistema de emissão da DAP, visite: <http://dap.mda.gov.br/dapweb/login/default.aspx>. Para a maior parte dos agricultores familiares, a DAP pode ser obtida junto a instituições autorizadas, entre elas, as entidades oficiais de Assistência Técnica e Extensão Rural ou as Federações e Confederações de Agricultores, por meio de seus sindicatos. Para públicos específicos, a DAP também pode ser fornecida por outras organizações, segundo a Portaria do MDA nº 17, de 23 de março de 2010, tais como: a FUNAI, a Fundação Cultural Palmares, as Federações de Pescadores e suas colônias filiadas, ou o INCRA. Também podem obter a DAP os assentados da reforma agrária, artesãos com atividade vinculada ao turismo rural, aquicultores e maricultores, silvicultores e extrativistas, conforme Lei Federal no 11.326, de 24 de julho de 2006. 4.1.2 Programa de Aquisição de Alimentos – PAA O programa foi instituído pela Lei Federal nº 10.696, de 2 de julho de 2003, e regulamentado pelo Decreto federal nº 7.775, de 4 de julho de 2012. No âmbito do PAA, estão previstas duas finalidades básicas: promover o acesso à alimentação, como estratégia de ação do governo no enfrentamento da fome e da pobreza, e incentivar a agricultura familiar, utilizando mecanismos de comercialização que favoreçam a aquisição direta dos produtos de agricultores ou das suas organizações (SAF, 2018b). O programa é desenvolvido em cinco modalidades diferentes: Doação Simultânea, Compra Direta, Formação de Estoques, PAA Leite e Compra Institucional, sendo o orçamento composto por recursos da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (SEAD) e do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), em parceria com estados, municípios e com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) (SAF, 2018b). Como beneficiários fornecedores do PAA podem participar as seguintes modalidades de agricultores familiares: • fornecedores individuais: agricultores familiares detentores de DAP familiar; • grupos formais: organizações de produtores detentores de DAP Jurídica, incluindo cooperativas e associações de agricultores familiares devidamente formalizadas. 4.1.3 Direitos relativos à propriedade industrial Os agricultores possuem instrumentos de valiosa importância para a proteção, diferenciação e promoção de seus produtos, empreendimentos e regiões, caracterizados dentro das normas de propriedade industrial. Esses mecanismos são adotados em muitos países e têm sido utilizados recentemente em diversas áreas agropecuárias. A organização coletiva é requisito fundamental TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 77 para usufruir destes mecanismos, desde a busca pelo registro até a obtenção dos benefícios sociais, culturais, ambientais e econômicos associados. A proteção dos direitos relativos à propriedade industrial foi estabelecida pela Lei Federal nº 9.279, de 14 de maio de 1996. Segundo essa legislação, compete ao INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), autarquia federal, “executar as normas que regulam a propriedade industrial”, bem como “pronunciar- se quanto à conveniência de assinatura,ratificação e denúncia de convenções, tratados, convênios e acordos” (art. 240). No artigo 2º, ficam estabelecidas as cinco categorias de proteção, sendo (BRASIL, 1996): a concessão de patentes de invenção e de modelo de utilidade; a concessão de registro de desenho industrial; a concessão de registro de marca; a repressão às falsas indicações geográficas; e a repressão à concorrência desleal. De acordo com esta legislação, marca refere-se aos “sinais distintivos visualmente perceptíveis” (art. 122), podendo ser consideradas a marca de produto ou de serviço, a marca de certificação e a marca coletiva (BRASIL, 1996). As marcas coletivas compreendem uma forma de proteção dos direitos relativos à propriedade industrial, “usada para identificar produtos ou serviços provindos de membros de uma determinada entidade” (art. 123, III) (BRASIL, 1996). Esse tipo de signo distintivo indica ao consumidor que aquele produto ou serviço procede de uma determinada entidade, qualificada como pessoa jurídica representativa de coletividade (associação, cooperativa, sindicato, consórcio, entre outras) (INPI, 2018a). Isso indica que, após o seu registro, todos os membros desta representação coletiva podem utilizar a marca coletiva, desde que sigam as normas do regulamento de uso. As indicações geográficas (IG) compreendem uma outra forma de signos distintivos de uso coletivo, que identificam um produto como originário de um determinado território. As indicações geográficas podem ser a indicação de procedência ou a denominação de origem (art. 176). A indicação de procedência (IP) refere-se ao “nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço” (art. 177). A denominação de origem (DO) refere-se ao “nome geográfico de país, cidade, região ou localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos” (art. 178) (BRASIL, 1996). Assim, a IP se relaciona ao nome do local que se tornou conhecido por produzir um determinado produto ou prestar algum tipo de serviço, enquanto a DO é instituída ao nome do local cujos produtos ou serviços possuam características próprias e identificáveis, atribuídas ao território. Até novembro de 2018, no INPI foram registradas 50 IPs e 19 DOs no Brasil, e entre as denominações de origem, oito são estrangeiras e 11 são nacionais, e destas, oito referem-se à agropecuária. A cachaça foi reconhecida como IG pelo Decreto Federal no 4.062, de 21/12/2001, assim totalizando 60 IGs nacionais, sendo 43 relacionadas ao setor agropecuário (INPI, 2018b). 78 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO LEITURA COMPLEMENTAR ACOLHIDA NA COLÔNIA ENCOSTAS DA SERRA GERAL Fundada em 1999, é conhecida como projeto piloto, pois foi a experiência pioneira em Santa Catarina. Atualmente é formada pelos municípios de Rancho Queimado; Anitápolis; Santa Rosa de Lima; Gravatal, Grão-Pará e Imbituba. Nos roteiros da Acolhida você será hospedado por famílias de agricultores orgânicos e vai se sentir em casa. Roteiros para fim de semana, feriados ou férias de todos os tamanhos. No ritmo das estações, convidamos você para compartilhar conosco a felicidade de fazer parte desta “Acolhida”. Sobre nós A Acolhida na Colônia foi criada no Brasil em 1999. Somos uma associação composta por 180 famílias de agricultores. Temos como proposta valorizar o modo de vida no campo através do agroturismo ecológico. Seguindo essa proposta, nós, agricultores familiares de Santa Catarina, abrimos nossas casas para o convívio do nosso dia a dia. O objetivo é compartilhar com você nosso saber fazer, nossas histórias e cultura, nossas paisagens… oferecemos hospedagens simples e aconchegantes com direito a conversas na beira do fogão a lenha, a tradicional fartura de nossas mesas e passeios pelo campo. Cientes de nossa responsabilidade para com a natureza, praticamos e promovemos a agricultura orgânica como base do nosso trabalho, garantindo com isso uma alimentação saudável para nossas famílias e para você, visitante. Princípios 1 O agroturismo é parte integrante das atividades do estabelecimento rural e se constitui num fator de desenvolvimento local. 2 Os agricultores desejam compartilhar com os turistas o ambiente onde vivem, sendo que a recepção e convívio dos mesmos deve ocorrer num clima de troca de experiência e respeito mútuo. 3 O agroturismo deve praticar preços acessíveis. 4 Os serviços agroturísticos são planejados e organizados pelos agricultores familiares, que garantem a qualidade dos produtos e serviços que oferecem. Receitas A culinária de Santa Catarina está intimamente ligada ao fogão a lenha, que por sinal é o coração da casa, aquece no inverno, garante a água quente nas torneiras e o aroma da cozinha. Marca um tempo diferente, um tempo sem pressa… um prazer cotidiano. TÓPICO 3 | POLÍTICAS PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO 79 Desde sua fundação, a Acolhida iniciou um longo trabalho de resgate de receitas antigas da colônia. São verdadeiras joias culinárias que ao longo do tempo foram preservadas nas regiões rurais de Santa Catarina por onde atuamos. Cada receita é carregada de história, identidade e “saber-fazer” próprio de cada família e lugar. A gastronomia rural se diversifica pela riqueza dos locais e pela forma como é preparada a sua culinária. Gastronomia é cultura, reflete a história das pessoas e dos territórios, e a partir disto acaba transformando-se em atrativo turístico. Artesanato Os produtores, alguns com técnicas artesanais, utilizando recursos próprios e dominando o conhecimento, demonstraram ter confiança naquilo que é seu, possibilitando uma reflexão, um encontro com o autêntico para libertar-se da imitação e assim dar continuidade à obra de seus antepassados e contribuir com o resgate e permanência de formas originais da cultura catarinense. Cicloturismo Em 2009, com o objetivo de ampliar e qualificar a oferta turística na área de abrangência da Acolhida na Colônia, foi iniciado o processo de roteirização para cicloturismo. Somando-se à tendência nacional para a prática desta modalidade em Santa Catarina, que já possui dois circuitos oficiais registrados e um considerável fluxo de cicloturistas, os Circuitos da Acolhida na Colônia trazem o diferencial do vínculo direto com o Agroturismo, valendo-se da estrutura já existente de pousadas, quartos coloniais, serviços de refeições e agroindústrias de pequeno porte, ao longo de caminhos bucólicos e recheados de atrativos naturais. Turismo pedagógico Através da observação do ambiente, crianças e adultos podem compreender melhor o mundo em que vivem. É com este objetivo de compartilhar conhecimentos que a Acolhida na Colônia recebe alunos para observar, aprender e se divertir com a agricultura familiar. Conheça nossos programas para visitas escolares e colônia de férias. FONTE: Acolhida na colônia. Disponível em: <http://acolhida.com.br/>. Acesso em: 25 jun. 2018. 80 UNIDADE 1 | DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO BRASILEIRO ATENCAO Atividades do projeto Acolhida na Colônia, desenvolvido por diversas Associações de Agricultores Familiares de Santa Catarina. FONTE: Adaptado de Acolhida na Colônia. Disponível em: <http://acolhida.com.br/>. Acesso em: 10 ago. 2018. 81 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A agropecuária brasileira apresenta-se com uma estrutura produtiva heterogênea, caracterizada como uma atividade dinâmica e moderna nas diversas cadeias produtivas. • A agricultura familiar com características diversificadas e distintas apresenta grande importância para o setor agropecuário brasileiro. • Houve grandes mudanças nas discussões e na interpretação sobre o desenvolvimento rural após a Constituição de 1988, como reconhecimento da participaçãoda agricultura familiar na formação da sociedade brasileira. • A adoção de políticas públicas de estímulo ao desenvolvimento e à produção proporciona melhorias nas condições econômicas e de vida dos produtores rurais. • As organizações sociais de agricultores devem participar dos estágios de formação das políticas públicas para a discussão dos temas prioritários e para definir ações voltadas ao interesse comum. • Existem diversas políticas públicas voltadas ao desenvolvimento rural e direcionadas à agricultura familiar. • Há relação entre algumas políticas públicas e o estímulo ao associativismo e ao cooperativismo como formas de possibilitar melhores condições de competitividade ao agronegócio. • É fundamental a participação das organizações sociais de agricultores em ações de aquisição de produtos agrícolas pelo governo, como o PNAE e o PAA. • Os signos distintivos relacionados às marcas coletivas e às indicações geográficas podem contribuir para o desenvolvimento territorial e para a melhoria das condições de vida no campo. • O turismo rural, ou agroturismo, gera oportunidades de valorização sociocultural e de desenvolvimento econômico, tanto para os produtores, quanto para a comunidade do entorno. 82 1 As políticas públicas de apoio ao agronegócio podem influen- ciar o desenvolvimento regional e a inclusão social dos diver- sos grupos de produtores. Existem políticas públicas com dife- rentes objetivos e que apresentam importância distinta entre os produtores. Neste contexto de políticas públicas, analise as alternativas: I- As políticas de crédito rural, associadas ao financiamento de custeio e in- vestimentos, são estratégias de viabilização das condições para a produ- ção agropecuária. II- O zoneamento agrícola utiliza as informações meteorológicas predomi- nantes na região para o mapeamento das condições que possibilitam o desenvolvimento das plantas, objetivando minimizar as possibilidades de perdas nas atividades produtivas. III- Os programas relacionados à diminuição de danos ambientais e à produção sustentável agropecuária se relacionam apenas com a criação de unidades de conservação e para diminuir o desmatamento das florestas brasileiras. IV- A organização social, em associações ou cooperativas, pode beneficiar os produtores ao atuarem em discussões de projetos através das câmaras se- torial e temáticas, bem como obter a valorização de seus produtos através de diferentes categorias de direito de propriedade industrial. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. b) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas. c) ( ) As afirmativas I, II e IV estão corretas. d) ( ) As afirmativas I, III e IV estão corretas. 2 A agricultura familiar representa uma parcela importante do agronegócio. Segundo Schneider (2010), o aumento dos debates sobre o desenvolvimento rural no Brasil, a partir da década de 1990, está associado a: a) ( ) O conhecimento do papel social, econômico e produtivo associado à agricultura familiar no Brasil. b) ( ) A adoção de políticas públicas para a agricultura familiar apenas pelos governos municipais. c) ( ) Identificação de que a agricultura familiar e a patronal possuem as mesmas oportunidades e condições de competitividade; d) ( ) Falta de importância da abordagem produtiva com enfoque na sustentabilidade. AUTOATIVIDADE 83 3 O turismo rural é o conjunto de atividades turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometidas com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade. Neste contexto, disserte sobre a política pública de estímulo ao turismo rural ou agroturismo, relacionando-a com o associativismo e com a valorização dos recursos naturais e culturais. 84 85 UNIDADE 2 ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • conhecer a importância da organização social, as características e as formas do trabalho rural no Brasil; • identificar as relações de organização e cooperação na natureza, na história humana e na atualidade, analisando o contexto histórico em que começou a ser estruturado o associativismo e o cooperativismo moderno; • verificar os conceitos de capital social e relacioná-los com a importância para o associativismo e para o cooperativismo; • conhecer os tipos de associações existentes no Brasil, a legislação vigente, as vantagens e os princípios e valores do trabalho em cooperação e do associativismo; • abordar os procedimentos para a criação, registro e funcionamento de uma associação de produtores rurais; • compreender as temáticas das assembleias gerais, as atribuições dos membros da diretoria e do conselho fiscal, e as ações de planejamento do dia a dia de uma associação. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você en- contrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL TÓPICO 2 – ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO TÓPICO 3 – CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 86 87 TÓPICO 1 TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Estudamos na unidade anterior as condições que resultaram na distribuição de terras, nas características estruturais da agricultura brasileira e na organização das políticas públicas, distribuídas em dois grupos de produtores, os agricultores familiares e os não familiares. Nesta unidade, vamos aprender sobre a importância da organização social como forma de promoção do desenvolvimento territorial e para o fortalecimento das atividades produtivas e econômicas. Abordaremos a importância do trabalho rural e quais as formas do trabalho existentes no campo. Será apresentado como as relações de cooperação influenciam o comportamento e a vida de diferentes espécies de animais na natureza. Na história da humanidade, identificam-se diversos exemplos onde o trabalho cooperativo possibilitou a produção de alimentos, o desenvolvimento artístico, a ocupação geográfica e a formação cultural em diversas civilizações na antiguidade. Na atualidade, será analisada a importância da cooperação sob as perspectivas socialista e capitalista, com a finalidade de compreender como essas visões moldaram os modelos associativos e cooperativos atuais. Para concluir este tópico, será discutida a relação do capital social com as organizações associativas. Pretende-se que os conteúdos abordados possam facilitar a compreensão das oportunidades e os desafios relacionados ao associativismo para as atividades agropecuárias no Brasil. 2 ORGANIZAÇÃO SOCIAL RURAL NO BRASIL Para o MAPA (2018), o associativismo estabelece uma oportunidade de viabilizar as atividades produtivas no meio rural, constituindo-se em uma forma alternativa para que os produtores rurais possam participar e ampliar sua participação no mercado, com melhores condições de concorrência. O associativismo pode ser adotado em diversas atividades agropecuárias, em todas as regiões produtoras do Brasil, sendo especialmente importante para os pequenos produtores, pois permite um mecanismo mais favorável para melhorar o desempenho econômico e produtivo das propriedades. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 88 Ao constituir uma associação, os produtores, que antes realizavam suas atividades individualmente, podem melhorar sua condição produtiva, tendo diversos benefícios, como a troca de experiências e melhor acesso à capacitação técnica, o compartilhamento de custos com assistência técnica ou com outras necessidades coletivas, a aquisição de insumos e equipamentos por preços menores e/ou com prazos mais flexíveis de pagamento (MAPA, 2018), a construção e utilização de benfeitorias de uso comum, a agregação de valor à produção através do processamento e industrialização,e a ampliação da escala de oferta e acesso a determinados mercados consumidores (MAPA, 2009, p. 7). Como objetivos de uma organização associativa no meio rural, o MAPA (2018) destaca: • desenvolvimento de projetos coletivos de trabalho rural; • defesa de interesses comuns dos associados; • atividades agropecuárias de produção e/ou comercialização de forma cooperada; • organização social para reivindicar melhorias para a atividade e/ou para a comunidade; • melhoria da qualidade de vida e maior participação no desenvolvimento territorial. Uma associação de produtores rurais é caracterizada como um tipo de organização civil, que é constituída por agricultores e por suas famílias, com o objetivo de dinamizar o processo produtivo a partir do desenvolvimento de ações em benefício dos associados (MAPA, 2009, p. 7). Segundo Cardoso, Carneiro e Rodrigues (2014a, p. 18), as organizações associativas apresentam como principal objetivo a defesa de interesses comuns de um grupo de pessoas, que verificam, na união dos esforços, uma forma eficiente de resolução de problemas. Assim, o associativismo é uma estratégia importante para a transformação da realidade dos associados e para originar meios de adaptação às mudanças ao longo do tempo. Identifica-se assim que a necessidade de enfrentar e superar desafios, possibilitando o crescimento e desenvolvimento dos produtores, é a motivação para a organização social rural. Estudamos na unidade anterior que a luta pela TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 89 terra se caracterizou como um desafio importante para a organização social no meio rural, resultando em diversos movimentos sociais ao longo da formação histórica do Brasil. Esses movimentos sociais contribuíram e ainda contribuem como referências para a organização de associações, sindicatos, cooperativas, entre outras formas associativas no meio rural. Conforme discutido por Lüchmann (2014), as associações e os movimentos sociais atuam de forma a atender diferentes objetivos, dependendo do contexto, do período histórico, dos recursos e das condições em que estão inseridos. As associações referem-se a grupos ou organizações mais estruturadas de representação, enquanto os movimentos sociais apresentam-se de forma mais informal, unindo pessoas com identidade comum e com atuação mais direcionada em conflitos, principalmente questões políticas ou culturais. Outro aspecto importante a ser contextualizado em relação à organização social rural se baseia nos padrões de vida no campo. Brandemburg (2010) analisou que ocorreram grandes mudanças na história recente das organizações sociais no meio rural. Esse autor descreve que as atividades das propriedades agropecuárias estavam inseridas em relações tipicamente comunitárias, mediante formas diversas de trabalho, como o mutirão, o trabalho cooperativo de vizinhança e aqueles baseados na confiança entre as pessoas da comunidade, da proximidade ou de relações familiares. A modernização dos sistemas de produção alterou essas formas de vida social, substituindo as relações comunitárias por outras formas de trabalho e por relações societárias baseadas no rendimento econômico (BRANDEMBURG, 2010). Neste sentido, mudanças profundas no espaço rural foram implementadas, buscando atender às necessidades de acompanhamento tecnológico, aumento da produção e redução de custos, minimizando as interações pessoais no meio rural. A organização social rural apresenta muitas vantagens. Na produção agroecológica vemos muitos exemplos de sua importância. Verifique alguns aspectos ligados ao associativismo na imagem abaixo (Figura 1). ATENCAO UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 90 FIGURA 1 – AGRICULTURA FAMILIAR FONTE: Disponível em: <http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2014/03/05_infografico_A- FOR%C3%87A-DA-AF-ESTA-NO-ENCONTRO.jpg>. Acesso em: 30 jul. 2018. 3 O TRABALHO RURAL As transformações nos sistemas de produção originadas pela modernização agropecuária, caracterizadas pela adoção da mecanização agrícola e elevação da escala de produção, modificaram o funcionamento do mercado de trabalho no meio rural (Figuras 2 e 3), particularmente aquele relacionado às atividades sazonais, que asseguram oferta sequencial de mão de obra às atividades agropecuárias (GARCIA, 2014, p. 577). Garcia (2014, p. 584-585) considera que a redução da população rural e a diminuição da demanda de mão de obra menos qualificada são uma realidade do trabalho rural atual. Um dos fatores importantes é a movimentação dos trabalhadores mais jovens, que ao ocuparem postos nas áreas urbanas, contribuem para o envelhecimento da população rural e geram escassez de mão de obra para as atividades agropecuárias, tanto para o setor patronal quanto para a agricultura familiar. TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 91 DICAS Para compreender um pouco melhor a evolução da ocupação do trabalho agrícola em comparação com a ocupação total da população, sugere-se analisar as imagens a seguir (Figuras 2 e 3): FIGURA 2 – OCUPAÇÃO (%) DOS TRABALHADORES RURAIS ENTRE 1820 E 1992 1820 1870 1913 1950 1992 Estados Unidos 70,0 50,0 27,5 12,9 2,8 França ... 49,2 41,2 28,3 5,1 Alemanha ... 49,5 34,6 22,2 3,1 Holanda ... 37,0 26,5 13,9 3,9 Reino Unido 37,6 22,1 11,7 5,1 2,2 FONTE: Buainain e Dedecca (2008, p. 22) FIGURA 3 – OCUPAÇÃO (%) DE TRABALHADORES NOS 3 SETORES NO BRASIL ENTRE 1872 E 2020 FONTE: Pochmann (2008, p. 68) Esse comportamento pode ser exemplificado a partir da análise da população ocupada (PO) no meio rural (Figura 4). Observa-se a partir de 2005 uma expressiva redução do número de trabalhadores rurais em todas as regiões do Brasil (MAIA; SAKAMOTO, 2014). Esses autores informam que em 2005, o número de pessoas ocupadas no meio rural era de cerca de 18 milhões, representando cerca de 21% da PO total do Brasil. Já em 2012, a PO em atividades agropecuárias reduziu para 13,8 milhões, sendo equivalente a 15% do pessoal ocupado no Brasil. 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 202020001980196019401920 75 14 1872 Primário Secundário Terciário 11 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 92 FIGURA 4 – POPULAÇÃO OCUPADA AGRÍCOLA POR REGIÃO DO BRASIL, DADOS DE 1992 A 2012 FONTE: Maia e Sakamoto (2014, p. 597) Nota: Os anos entre 1992 a 2003 não consideram os residentes rurais dos estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. Em relação ao comportamento regional, observa-se que a região Nordeste apresenta o maior número de pessoas ocupadas nas áreas rurais (6,1 milhões em 2012), e a região Centro-Oeste, o menor contingente de pessoal ocupado nas atividades agropecuárias (0,9 milhão em 2012) (Figura 2). Na região Nordeste, Maia e Sakamoto (2014, p. 596-597) justificam o esvaziamento das áreas rurais por dificuldades na viabilização econômica das pequenas propriedades (minifúndios), menor qualidade de vida e restritas oportunidades de trabalho. Já nas demais regiões, explica-se como fatores de redução da PO rural a intensificação da produção com o aumento da concentração em muitas cadeias produtivas e a atração por melhores oportunidades de emprego e renda nos centros urbanos. Além disso, o avanço tecnológico das atividades agropecuárias e a menor necessidade de mão de obra em algumas cadeias produtivas (produção de grãos e de cana) também ocasionam essa condição (MAIA; SAKAMOTO, 2014, p. 598). Segundo Garcia (2013, p. 17), o trabalho rural pode ser classificado em três tipos: • Exploração rural típica: caracterizadas pelas atividades que compreendem a produção agrícola (lavouras, pomares, hortas e reflorestamentos), a atividade pecuária (criação de diversas espécies animais), o extrativismo (tanto de origem vegetal, quanto animal), além de outras atividades produtivas; TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 93 • Exploração rural não típica: atividades que estão relacionadas ao setor agropecuário, mas não se relacionam com aprodução propriamente dita, como a agroindustrialização, o beneficiamento, a classificação e higienização, a embalagem, entre outras atividades ainda sob os domínios da propriedade rural; • Atividades complementares: compreendem outras atividades relacionadas aos produtos agrícolas, como o transporte, a comercialização, entre outros procedimentos “fora da porteira” da propriedade. NOTA Temos diversas datas comemorativas em relação ao trabalho rural no Brasil. O Decreto Federal nº 48.630, de 27 de julho de 1960, institui “o Dia do Agricultor, a ser comemorado em todo o país em 28 de julho”. A escolha dessa data está relacionada à comemoração do aniversário de criação do Ministério da Agricultura, em 28 de julho de 1860. A Lei Federal nº 4.338, de 1º de junho de 1960, “fixa o dia 25 de maio como a data comemorativa do trabalhador rural”. O Dia do Trabalhador Rural homenageia a data de falecimento do deputado federal Fernando Ferrari (1921-1963), político engajado na luta dos direitos e questões sociais vinculadas aos trabalhadores rurais. Em 25 de julho, comemora-se o Dia Internacional do Agricultor Familiar. Nesta data foi publicada no Brasil a Lei Federal nº 11.326, de 24 de julho de 2006, que “estabelece as diretrizes para a formulação da política nacional da agricultura familiar e empreendimentos familiares rurais”. Também há um projeto de lei que pretende criar a Semana Nacional da Agricultura Familiar, que deveria ocorrer na semana do dia 24 de julho. O Dia Nacional da Agricultura é comemorado em 17 de outubro, enquanto o Dia Internacional da Agricultura é comemorado em 20 de março. O Dia do Campo é comemorado em 5 de maio. 3.1 FORMAS DE TRABALHO RURAL O trabalho no meio rural envolve as atividades em diversos processos ao longo da cadeia de produção agropecuária, abarcando os setores agrícola, pecuário, florestal, de extrativismo e da aquicultura (continental e marinha). As relações de trabalho no meio rural apresentam influência da formação histórica brasileira, sendo estruturadas sob diferentes formas de prestação de serviços. Siqueira (2009) apresenta como estas formas de trabalho estão organizadas, caracterizando as atividades rurais em: • Proprietários rurais: caracterizam os produtores que realizam as atividades agropecuárias em sua própria terra, geralmente utilizando a mão de obra familiar, sendo a produção destinada tanto ao próprio consumo quanto à comercialização; • Parceiros rurais: caracterizam-se por produtores que estabelecem contratos com o proprietário de terras, onde a produção é repartida entre as partes, de acordo com os critérios e condições preestabelecidos; UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 94 • Arrendatários rurais: caracterizam-se por produtores que estabelecem contratos com o proprietário de terras, onde o valor pago pela concessão da terra pode ser feito a partir de valores monetários ou com parte da produção, de acordo com os critérios e condições preestabelecidos; • Assalariados permanentes: caracterizam-se por trabalhadores contratados por período indeterminado para a realização das atividades nas propriedades rurais, gerando vínculo empregatício e estando de acordo com a legislação vigente; • Assalariados temporários: caracterizam-se por trabalhadores contratados por período determinado para a realização das atividades específicas nas propriedades rurais, não gerando vínculo empregatício, de acordo com a legislação vigente. Podendo ser exemplificado pelas atividades de trabalho de diaristas, empreitadas de serviço, trabalhos de colheita ou outras práticas de manejo concentradas; • Posseiros: caracterizam os trabalhadores rurais que realizam atividades agropecuárias em terras, geralmente do governo, que não são de sua propriedade. NOTA Nos contratos de parceria, as partes compartilham os benefícios e os riscos da atividade produtiva, sendo uma situação particular de associativismo e trabalho em cooperação. Na parceria agrícola, ambos os parceiros permanecem na condição de produtores rurais. Esta condição se fundamenta por compartilharem necessidades mútuas e desenvolver um empreendimento com objetivos comuns, onde a utilização dos meios de produção (terra, máquinas e equipamentos, trabalho etc.) é estabelecida de forma que possam gerar resultados que serão partilhados de forma equilibrada. Nos contratos de arrendamento, a relação entre as partes está baseada pela cessão dos meios de produção (geralmente a terra), mediante uma participação não compartilhada e equitativa das atividades produtivas e dos riscos inerentes à produção agropecuária. No arrendamento agrícola, o proprietário de terras recebe um valor fixo, independentemente dos resultados obtidos com a produção. Complementando a relação listada anteriormente, ainda podem ser incluídas outras duas formas de trabalho no meio rural: • Meeiros: caracteriza o trabalhador rural que estabelece relações societárias não formais com o proprietário das terras. Nessa relação, chamada de meação, o meeiro participa com a força de trabalho, enquanto o dono da terra oferece a propriedade, a casa, os maquinários e equipamentos para o cultivo ou criação, sendo a produção repartida entre os “sócios”; TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 95 NOTA Embora seja proibida por lei, a existência de trabalho análogo ao escravo não pode ser negligenciada no Brasil, que ainda registra essa triste realidade em algumas regiões rurais. Fazendo uma análise dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Maia e Sakamoto (2014, p. 600) observaram algumas alterações na dinâmica do trabalho rural entre 1992 e 2012. Em relação à estrutura das ocupações rurais, estes autores apontam o crescimento do número de empregados com carteira assinada entre 1992 e 2012, o que sugere maior qualificação e profissionalização da força de trabalho rural. Esses autores também destacam a importância da informalidade do trabalho, representado por 18,5% (9,7 + 8,8) dos empregados sem carteira em 2012 (Figura 5). O avanço do trabalho com carteira foi impulsionado principalmente pela dinâmica de trabalho formalizado, estabelecida nas regiões Sudeste e Centro- Oeste. Uma redução expressiva na participação do trabalho não remunerado, entre 1992 e 2012, é apontada pela mudança na estrutura familiar, resultado da migração para os centros urbanos dos jovens que auxiliavam os pais nas atividades rurais (Figura 5). Outro item de destaque é o aumento dos trabalhadores rurais com atividade voltada para o autoconsumo, sendo mais expressivo o comportamento na região Nordeste, possivelmente associado aos esforços do governo no estímulo à agricultura familiar (MAIA; SAKAMOTO, 2014, p. 602-603). Estes autores também evidenciam a redução no número de trabalhadores rurais por conta própria (proprietários rurais), sendo de 3,469 milhões em 2012, além da redução no número de empregadores (296 mil em 2012). Maia e Sakamoto (2014, p. 603) informam que dentre as regiões, a maior participação dos trabalhadores por conta própria é observada na região Sul do Brasil (35,5%). • Trabalhadores não remunerados: caracteriza uma forma de prestação de serviços no meio rural através do trabalho sem remuneração oficial, baseado principalmente na mão de obra familiar, para o auxílio nas atividades rurais, principalmente nas pequenas propriedades. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 96 FIGURA 5 – POPULAÇÃO AGRÍCOLA OCUPADA DE ACORDO COM A FORMA DE OCUPAÇÃO FONTE: Maia e Sakamoto (2014, p. 600) Nota: O ano de 1992 não contém informações sobre os residentes rurais dos estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá. Avanços importantes em relação ao ganho de produtividade, ao rendimento dos trabalhadores ocupados no meio rural e em relação à formalização das atividades foram verificados nos últimos anos. Porém, estas condiçõesnão foram distribuídas de forma homogênea entre as regiões brasileiras, sendo que uma grande parcela de produtores rurais ainda depende de ações do governo, como financiamento e assistência técnica para viabilizar a produção (MAIA; SAKAMOTO, 2014, p. 618). Assim, políticas públicas de apoio à produção e de estímulo ao associativismo podem contribuir para a melhoria das condições de vida no campo e para a melhor organização dos produtores rurais, aumentando as oportunidades de trabalho e renda no campo. 4 RELAÇÕES DE ORGANIZAÇÃO E COOPERAÇÃO Uma das grandes vantagens da organização e da cooperação em um grupo é a possibilidade de união para a obtenção de um benefício comum. Podemos exemplificar a importância da associação em nossa vida cotidiana, desde situações muito simples em que nem percebemos, até condições mais complexas, onde participamos ou em que somos influenciados. Por exemplo, a estruturação e organização de delicados fios de algodão ou de lã de animais torna possível a constituição de tecidos que depois são transformados em roupas ou outros materiais pela manufatura têxtil (Figura 6). A composição estruturada de fibras, individualmente frágeis, permite a obtenção de materiais de elevada resistência, como tecidos, cordas ou cabos, muito mais rígidos. TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 97 FIGURA 6 – FIBRAS DE ALGODÃO FONTE: Disponível em: <http://www.olhardireto.com.br/agro/noticias/exibir. asp?id=17035¬icia=algodao-nao-pode-mais-perder-espaco-na-industria-para-fibras- sinteticas-ressalta-frangiotti>. Acesso em: 9 jul. 2018. NOTA Vamos lembrar de uma parábola tradicional que trata sobre lições de cooperação: Um senhor idoso e muito doente, ao ver que os filhos se encontravam reunidos junto ao seu leito, pede para que cada um tente partir um feixe de varetas. Embora empregassem muita força, nenhum deles conseguiu atender ao pedido do pai. Ao separar o feixe, o doente senhor partiu cada uma das varetas com facilidade. O pai então explicou a mensagem que gostaria que os filhos lembrassem após a sua morte: o que ele e a família haviam construído durante toda a vida estava representado naquele feixe de varetas. Se elas fossem mantidas unidas poderiam suportar muitas adversidades e permanecer fortes, porém, se fossem divididas, cada uma delas poderia ter sua resistência facilmente superada. Foram analisados alguns exemplos sobre a importância da constituição estrutural no estabelecimento de propriedades físicas e nas características mais complexas de objetos de nosso dia a dia. Vamos agora reconhecer outros padrões de organização e cooperação, identificados entre diversos grupos de seres vivos que convivem em sociedade, além de verificar como essas relações interferem na sobrevivência e na adaptação destas espécies às condições do meio onde vivem. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 98 4.1 ORGANIZAÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO NA NATUREZA As abelhas são insetos sociais, ou seja, vivem em agrupamentos extremamente bem estruturados, com organização de funções bem estabelecidas. Assim como as abelhas, as formigas e os cupins são outros insetos que apresentam estrutura social bem definida e que exibem exemplos de relações de cooperação na natureza. Todos esses insetos apresentam níveis de hierarquia e a composição de indivíduos com funções específicas para que a população possa sobreviver (VENTURIERI, 2004). Nas colmeias de abelhas, a rainha é responsável pela multiplicação dos indivíduos, fazendo a postura dos ovos, os machos são responsáveis pela fecundação da rainha durante o voo nupcial, enquanto as operárias realizam a construção dos favos de cera, a limpeza e cuidados das abelhas jovens, a proteção contra inimigos e a coleta de recursos (néctar, pólen, entre outros.) (Figura 7). FIGURA 7 – VISTA SUPERIOR DE UM NINHO DE ABELHAS NATIVAS DO BRASIL FONTE: Venturieri (2004, p. 30) potes de mel depósito de cerume células de cria em construção alimento larval invólucro depósito de resina batume TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 99 Outro exemplo muito didático de cooperação entre os animais que vivem na natureza pode ser verificado no caso dos golfinhos. Esses animais vivem em sociedades gregárias, organizados em grupos que podem ser desde poucas dezenas de indivíduos até grupos com centenas de membros, dependendo das condições onde vivem (Figura 8). A vida social desses mamíferos se estabelece para possibilitar proteção e para obter mais êxito na busca de alimentos. Estes animais desenvolveram uma complexa capacidade de comunicação e reconhecimento dos sinais sonoros, bem como possuem longa capacidade de reconhecimento de indivíduos e de memorização (BARRETO, 2018). Essas características possibilitam aos golfinhos estabelecer relações sociais duradouras e que lhes permitiram grandes vantagens evolutivas. FIGURA 8 – GRUPO DE GOLFINHOS NADANDO NO OCEANO PACÍFICO FONTE: Disponível em: <http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2013/08/golfinhos-tem- memoria-social-mais-longa-ja-registrada-em-animais.html>. Acesso em: 9 jul. 2018. De forma geral, os principais benefícios associados ao convívio social de animais na natureza se relacionam com a possibilidade de proteção e alimentação. Diversas espécies de aves também apresentam estrutura de organização social que lhes possibilita melhores condições em eventos de migração, além das outras duas informadas acima. Outro exemplo importante de animais que estabelecem relações sociais são os macacos, que vivem em bandos para proteção, alimentação, higiene, entre outras formas de interação entre os indivíduos (Figura 9). UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 100 FIGURA 9 – GRUPO DE CHIMPANZÉS REALIZANDO A COLETA DE PARASITAS FONTE: Disponível em: <https://arqueologiaeprehistoria.com/2015/04/19/cultura-e- comunicacao-entre-os-macacos/>. Acesso em: 9 jul. 2018. Todos esses exemplos de animais apresentam estrutura social organizada, que permite a sobrevivência do grupo, a partir da ajuda mútua e da cooperação entre os indivíduos. Este tipo de comportamento social também é compartilhado em relação aos humanos, como será exposto a seguir. 4.2 ORGANIZAÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO NA HISTÓRIA HUMANA Os cientistas descrevem que, desde os primeiros registros da evolução humana, nossos ancestrais desenvolviam atividades socialmente cooperativas. A vida social em cooperação possibilitou, aos grupos de diversas espécies de hominídeos, criar condições para a sua sobrevivência. Nos períodos pré-históricos, a organização social e a cooperação entre os indivíduos tinham como objetivos, dentre outras condições, a construção de abrigos (Figura 10), a proteção contra predadores e a obtenção de alimentos, a partir da caça (Figura 11), pesca e extrativismo. TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 101 FIGURA 10 – CONSTRUÇÃO DE ABRIGOS FONTE: Disponível em: <https://thehumanevolutionblog.com/2015/01/27/the-moral-codes-of- other-human-species/>. Acesso em: 11 jul. 2018. FIGURA 11 – A CAÇA DE GRANDES ANIMAIS, COMO OS MAMUTES, JÁ EXTINTOS FONTE: Disponível em: <https://universe-review.ca/I10-74-coop.jpg>. Acesso em: 11 jul. 2018. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 102 A cooperação social ao longo da história humana também possibilitou os eventos de migração e a ocupação das terras em diferentes regiões do planeta (Figura 12), além de permitir a formação de grandes sociedades organizadas e o desenvolvimento da agricultura. A “saída da África” ocorreu possivelmente há 100 mil anos e a América do Sul foi a última grande região terrestre ocupada pelos humanos, que chegaram caminhando lentamente e em pequenos grupos, há aproximadamente 13 mil anos. O trabalho cooperativo também possibilitou a produção de alimentos, o desenvolvimento artístico, a ocupação geográfica, a atividade militar e a formação cultural em diversas civilizações na antiguidade. FIGURA 12– DESLOCAMENTOS PROVÁVEIS E MIGRAÇÃO DOS HUMANOS MODERNOS FONTE: Disponível em: <https://prismacientifico.files.wordpress.com/2013/04/human- migration2.jpg>. Acesso em: 19 jul. 2018. Temos muitos exemplos de atividades de cooperação nas culturas suméria, assíria, babilônia, egípcia, grega, romana, persa, chinesa, entre outras. Na China antiga, os mercadores realizavam viagens através do Rio Yang-Tsé. Porém, os naufrágios eram frequentes em razão das condições de navegação. Como forma de minimizar os problemas com a perda de mercadorias, os mercadores organizaram-se em grupos para o transporte, compartilhando e minimizando os prejuízos quando as embarcações afundavam (OCESC, 2013, p. 11). Na antiguidade e mesmo em períodos mais recentes, existiam diversas formas de organização social, em associações ou outras formas de cooperação entre os indivíduos (RECH, 2000, p. 9). Dentre estas e com base nas descrições de Rech (2000, p. 9-10); de Bialoskorski Neto (2006, p. 21) e Damázio e Castro (2012, p. 55), destacam-se: • Grêmios: formas de organização social de agricultores no Egito antigo (Figura 13). • Orglonas e Tiasas: formas de organização associativa entre cidadãos livres e escravos, na Grécia antiga, para possibilitar o sepultamento decente dos mortos. TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 103 • Ginásios: espaços associativos destinados à cultura física, na Grécia antiga. • Sodalistas: formas de organização associativa com caráter beneficente, com o objetivo de garantir enterros religiosos aos cidadãos comuns, na Roma antiga. • Colégios: formas de associações de operários, principalmente formadas por carpinteiros, serralheiros e outros tipos de artesãos, na Roma antiga. • Ágapes: termo utilizado por escritores cristãos na Bíblia, para referir-se às refeições de confraternização, realizadas entre os membros da comunidade. • Irmandades ou Fraternidades ou Ordem Terceira: associações ligadas à Igreja Católica, que surgiram na Idade Média, reunindo grupos sociais ou de determinados ofícios. • Confrarias: grupos de pessoas que se associavam em torno de interesses comuns, sendo formadas na Idade Média, com finalidades espiritual e assistencial (como pequenos hospitais, albergues para peregrinos, entre outros). • Guildas Medievais: eram formadas por grupos de profissionais durante a Idade Média (principalmente sapateiros, alfaiates, ferreiros, marceneiros, carpinteiros e artesãos), apresentando hierarquia bem definida (mestres e aprendizes) e que mantinham seu funcionamento a partir do pagamento regular de uma determinada quantia. • Hansas: representavam associações de comerciantes no período da Idade Média, caracterizadas pelo domínio de determinados segmentos de mercado, sendo um exemplo muito conhecido a Liga Hanseática, estruturada por várias cidades mercantis do Norte da Europa. • Mir ou Obshchina: formada por comunidades rurais de camponeses, constituída no Império Russo, sendo organizadas a partir de assembleias para discutir a distribuição das terras, apresentando estrutura formada por laços familiares. • Zadrugas: formas de cooperação rural, tradicional entre os povos eslavos que habitavam a região dos Bálcãs, sendo baseada no sistema patriarcal, formando comunidades coletivas de produção agrícola e de pescadores, sendo similar à Mir russa. • Artel: formas de associações no Império Russo e na União Soviética, baseadas na colaboração e na atividade coletiva em diversas áreas, como agricultura, comércio, construção e arte. • Ayllus: formas de unidade social da civilização inca pré-colombiana, estruturada através do trabalho coletivo em um território de propriedade comum, sendo baseada em vínculos de sangue (ascendência familiar). • Calpulli: formas de associação residencial da civilização asteca pré- colombiana, onde o trabalho coletivo em batalhas, na produção agrícola e para o desenvolvimento de construções públicas era realizado. • Oka ou Oca: grandes cabanas comunitárias onde os índios de várias famílias moravam. Diversas etnias indígenas do Brasil apresentam este tipo de estrutura de organização social, embora havendo suas respectivas particularidades. Essas construções eram erguidas em sistema de mutirão entre os homens, palavra de origem tupi (moti’rõ). As okas poderiam estar dispostas ao redor de uma grande praça central (okara), constituindo a aldeia (taba ou maloca). Os tipos e formatos das construções variam de acordo com os grupos étnicos. Nas diversas etnias indígenas, muitas outras atividades também eram realizadas em regime cooperativo e para o bem-estar coletivo, como o cultivo agrícola, os eventos festivos e religiosos, a caça e pesca. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 104 FIGURA 13 – ORGANIZAÇÃO E COOPERAÇÃO NOS CAMPOS DE TRIGO DO EGITO ANTIGO FONTE: Disponível em: <http://kateteka.hu/wp-content/uploads/2016/11/12_gabona.jpg>. Acesso em: 11 jul. 2018. NOTA Vamos acompanhar esta lenda africana sobre cooperação, baseada nos valores de igualdade, harmonia, consciência, empatia e respeito: Ao visitar um povoado africano, um antropólogo queria conhecer a sua cultura e compreender seus valores fundamentais. Ele fez uma brincadeira com as crianças, colocando um cesto de frutas próximo a uma árvore. Então disse que a primeira criança a chegar na árvore poderia ficar com as frutas. Ao dar o sinal para as crianças, uma situação inesperada ocorreu. As crianças deram as mãos e correram juntas para chegar ao mesmo tempo na árvore, repartindo assim as frutas. Ao perguntar o motivo daquele comportamento, as crianças responderam: Ubuntu! E depois questionaram, como um poderia ficar feliz se todos os demais estivessem tristes? A resposta sensata traz a mensagem filosófica da palavra Ubuntu, termo da cultura Zulu e Xhosa, que significa “sou quem sou, porque somos todos nós”. Essa mensagem expressa que, ao acreditar na cooperação, se consegue harmonia e humanidade, proporcionando felicidade a todos. Disponível em: <https://br.guiainfantil.com/materias/educacao/valores/ubuntu-lenda-africa na-sobre-a-cooperacao/>. Acesso em: 12 jul. 2018. TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 105 Nas civilizações americanas pré-colombianas (maias, astecas e incas) e nas sociedades indígenas brasileiras também há muitos exemplos registrados de cooperação (OCESC, 2013, p. 11). O Império Inca se estendia desde a Floresta Amazônica até a costa do Oceano Pacífico, ocupando um grande território com diversos tipos de solos e climas. Essas condições possibilitavam aos diversos povos que faziam parte do império a produção de alimentos, minerais ou outros recursos em abundância. O intercâmbio de recursos entre os povos ocorria principalmente durante a Intip Raymin, a Festa do Sol, realizada em Cuzco, no Peru (Figura 14). Os camponeses levavam para a capital seus excedentes, e em um regime de ajuda mútua, o império organizava a divisão dos recursos entre as diversas regiões, de forma que todas recebessem os recursos que necessitassem (SCHMIDT; SANTOS, 2017). A forma de cooperação da produção agrícola no ayllu, estruturado no trabalho coletivo em um território de propriedade comum, formava a base da economia da sociedade inca (RECH, 2000, p. 9). Na figura a seguir, vemos as ruínas de Machu Picchu, próxima a Cuzco, antiga capital do Império Inca, onde observam-se as construções em pedra perfeitamente encaixadas e os terraços, artificialmente construídos para a irrigação e produção agrícola (Figura 14). FIGURA 14 – VISTA PARCIAL DAS RUÍNAS DE MACHU PICCHU FONTE: Disponível em: <https://www.todoestudo.com.br/historia/incas>. Acesso em: 12 jul. 2018. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 106 4.3 ORGANIZAÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO NA ATUALIDADE Lembrando o que estudamos anteriormente, a organização social para a cooperação sempre existiu e possibilitou o desenvolvimento das sociedades humanas. Vimos muitos exemplos de organização associativa e modelosde cooperação, tanto para o trabalho quanto para outras finalidades, entre as diversas civilizações, culturas e períodos históricos. A partir da Revolução Industrial na Europa, todo o sistema de desenvolvimento foi alterado, resultando em um grande impacto sobre a estrutura da sociedade. A troca das ferramentas manuais pela utilização de máquinas, a adoção e utilização de energia a partir de motores e a implementação de um modelo de produção fabril ou industrial em substituição ao padrão de manufatura manual e doméstico resultaram em avanços tecnológicos de grande expressão. Esse modelo industrial alterou as relações humanas, necessitando de um grande contingente de pessoas para o trabalho. As condições exaustivas e precárias de trabalho nas indústrias e a falta de segurança e de higiene resultaram em péssimas condições de vida, dificuldades econômicas e insatisfação social entre os trabalhadores. O sistema econômico capitalista estimulou a competição, individualizando as relações nos negócios e na sobrevivência (SINGER, 2001). O objetivo incessante de acumulação de benefícios e de riquezas passou a se tornar presente nas relações humanas. (RECH, 2000, p. 7). Foi neste contexto histórico que as organizações coletivas baseadas na sociedade contemporânea ganharam importância e começaram a ser estruturados o associativismo e o cooperativismo moderno. Assim, as primeiras expressões do cooperativismo, desenvolvidas principalmente na Alemanha e Inglaterra no final do século XIX, refletiam o embate entre duas posições ideológicas sobre o desenvolvimento econômico: a perspectiva socialista e a perspectiva capitalista (RECH, 2000, p. 10). 4.3.1 Ponto de vista socialista Em relação ao ponto de vista socialista, a perspectiva da atividade cooperativa se configurava na formação de uma nova ordem econômica e social, onde a nova sociedade estaria livre do controle de capital sobre a vida das pessoas, que poderiam trabalhar coletivamente para suprir suas necessidades e interesses individuais. Esta ideologia foi defendida por Robert Owen, como estudaremos mais adiante (RECH, 2000, p. 10). A forma socialista também se dividiu em duas vertentes de pensamento. Uma defendida por Robert Owen (Inglaterra, 1771 a 1858), Charles Fourier (França, 1772-1837) e Ferdinand Lasalle (Alemanha, 1825-1864), que assumia a cooperação como um instrumento de superação do capitalismo em direção à implementação de um sistema socialista. A segunda vertente, representada por Charles Guide (França, 1847-1932), interpretava a TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 107 possibilidade de substituição do modo capitalista por um modelo de república cooperativa. Nesta visão da república, os setores da economia seriam organizados de forma cooperativista, onde as relações de mercado beneficiariam a todos (RECH, 2000, p. 10-11). IMPORTANT E Muitas foram as contribuições de diversos autores para a concepção do modelo de cooperação sob o ponto de vista socialista. Robert Owen (Inglaterra) buscava conciliar melhores condições de trabalho com a atividade econômica, possibilitando qualidade de vida mais igualitária para os trabalhadores. Friedrich Raiffeisen (Alemanha) direcionava sua visão de cooperação para uma sociedade mais humanista, com possibilidade de auxílio mútuo, principalmente relacionada ao acesso a crédito. Ferdinand Lasalle (Alemanha) apresentou uma proposta de cooperação de trabalho relacionada às classes trabalhadoras. Louis Blanc (França) e Philippe Buchez (Bélgica) tinham uma proposta mais direcionada à cooperação comunitária, enquanto Charles Fourier (França) buscava a formação e implantação de organizações comunitárias mais complexas. Maiores detalhamentos podem ser encontrados em Rech (2000, p. 19). Como exemplos destes modelos de cooperativas socialistas, citam-se: • Kolkhozes: cooperativas de produção agrícola adotadas pela antiga União Soviética, após a Revolução de 1917. Havia três formas de cooperação: as Comunas, caracterizadas pelos meios de produção e bens de consumo de uso comum, sendo um sistema também adotado na China; os Artéis, caracterizados pela associação do trabalho e dos meios de produção, mas com os bens e resultados do trabalho pertencente à família; e as Tozes, cooperativas de trabalho em que apenas os instrumentos eram compartilhados (RECH, 2000, p. 13). • Falanstérios: correspondentes a pequenas unidades sociais, com população de aproximadamente 1.500 habitantes, que viviam em um edifício de uso comum. Porém, este modelo cooperativo fracassou rapidamente, principalmente na França e nos EUA (BARROS, 2011). • Cooperativas socialistas de Israel: mesmo sendo um país capitalista, Israel implementou em algumas regiões o modelo socialista de desenvolvimento. Neste modelo, a propriedade da terra é do Estado e a cooperativa é estruturada sob a forma de uma aldeia, apresentando relações próprias e consolidadas. Há três formas de cooperação: o Kibbutz, caracterizado por uma forma de cooperativa comunitária de produção agrícola, onde tudo é partilhado, inclusive a habitação e a alimentação; o Moschav, formado por uma comunidade de agricultores, onde cada um gerencia sua produção, sendo o cooperativismo praticado nas operações de compra de insumos e comercialização (Figura 15); e o Moschav Shituf, onde apenas uma empresa agrícola é explorada de forma comum entre todos os habitantes da região, no qual a renda é distribuída às famílias de acordo UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 108 com as necessidades individuais (RECH, 2000, p. 14). Atualmente existem mais de 270 destas formas de cooperação em Israel (MFA, 2018). • Caixas de crédito Raiffeisen: surgiram como sociedades para atender às necessidades de agricultores na Alemanha, e foram substituídas por cooperativas de crédito que funcionam como bancos rurais, baseadas nos princípios cristãos de ajuda mútua. Atualmente essa forma cooperativa ainda é importante na Alemanha e teve influência na constituição das cooperativas de crédito rural brasileiras (PORTAL DO COOPERATIVISMO FINANCEIRO, 2018). Na figura a seguir, vemos o Nahalal, localizado na região Norte de Israel, sendo o primeiro Moshav formado em Israel, em 1921. Observa-se o formato circular, com as construções e residências na parte central e as áreas de produção agrícola divididas em faixas (Figura 15). FIGURA 15 – VISTA AÉREA DO NAHALAL, EM ISRAEL FONTE: Google Earth. (32º41’24” N e 35º11’46”L). Acesso em: 16 jul. 2018. IMPORTANT E Embora não sejam considerados como modelos de cooperativas socialistas, sob a forma originária da Europa, dois exemplos importantes de vida comunitária sob a perspectiva socialista podem ser identificados em aldeias indígenas sul-americanas de muitas etnias e nas comunidades quilombolas, formadas pela resistência dos africanos ao sistema de escravidão. TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 109 Como exemplo de cooperação, vamos analisar o sistema econômico dos índios da etnia Guarani. Os Guarani eram grupos horticultores, que dominavam grandes parcelas de florestas tropicais e subtropicais, capazes de manter um equilíbrio singular entre a exploração dos recursos naturais e a conservação do meio natural. A organização social guarani se baseava na casa comunal (teýi-óga), abrigando dezenas de famílias nucleares. Nesse agregado familiar se desenvolviam as atividades de produção e as relações sociais e religiosas, caracterizando um sistema econômico doméstico de produção. Em situações mais favoráveis, com produção acima das necessidades do núcleo familiar, aparece uma condição de consumo e com circulação de bens em um vínculo social maior, na organização aldeã. Nas aldeias (tekoha), formadas por várias grandes famílias, havia a possibilidade de um complexo sistema de cooperação, baseado na reciprocidade (SOUZA, 2002). Nas comunidades quilombolas, evidencia-se a existência de uma territorialidade específica, expressa através daschamadas “terras de uso comum”. Esse vínculo de uso comum dos recursos naturais, exercido através do controle coletivo da terra, apresentava a unidade familiar como elemento essencial. O caráter privado, baseado no trabalho familiar, se combinava ao uso e benefícios em comum, incorporando formas de cooperação e coparticipação entre membros dos quilombos. Entre os benefícios em comum se destacam a proteção, a produção de alimentos, a manutenção de tradições e práticas culturais, além da afirmação étnica (CARVALHO; LIMA, 2013). 4.3.2 Ponto de vista capitalista Em relação ao ponto de vista capitalista, a perspectiva da atividade cooperativa se configurava na correção das falhas e na atenuação das contradições do sistema econômico capitalista, onde a cooperativa possibilitasse atenuar o individualismo egoísta e a concentração de capital. Esse modelo foi adotado pelos precursores do cooperativismo, na cidade de Rochdale/ Inglaterra, e que posteriormente se difundiu para diversas partes do mundo, sendo também adotado no Brasil (RECH, 2000, p. 15). Mais adiante, estudaremos um pouco mais sobre a história do cooperativismo no mundo e no Brasil. A aproximação evidente entre o associativismo e o cooperativismo se reflete nos princípios comuns entre essas duas formas de organização. A associação é uma forma onde as pessoas podem participar da sociedade a partir da reunião para alcançar objetivos em comum, dificilmente atingidos individualmente. Nesta mesma ótica, o associativismo também pode viabilizar atividades econômicas, possibilitando a participação no mercado sob melhores condições de concorrência. Desta forma, a cooperação formal, através de associações ou de cooperativas, possibilita a construção de uma estrutura coletiva na qual todos os membros são beneficiados (MAPA, 2012, p. 23). Ao discutir as condições e os impactos das associações na vida social das pessoas, Lüchmann (2014) considera que a complexidade de tipos e de combinações entre as associações e seus interesses democráticos pode resultar em certa confusão de entendimento e generalizações. Esses impactos das associações podem ser analisados de diferentes maneiras, avaliando os seus objetivos, como: UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 110 • a influência das organizações nos processos de socialização dos indivíduos; • o potencial de promover a integração entre os membros e a sua transformação social; • a capacidade de gerar desenvolvimento econômico; • a condição de participação e a ligação de pertencimento e identidade dos associados. As relações entre o associativismo e a democracia podem ser reconhecidas a partir de características comuns, como a liberdade, a capacidade de defender interesses comuns, a promoção de ações baseadas na confiança, na cooperação, na comunicação e na igualdade (LÜCHMANN, 2014). Essa autora relata a dificuldade para uma definição precisa do termo associação, justificada pela grande diversidade de práticas associativas que podem resultar em simplificações. Destaca-se o papel importante das associações para o desenvolvimento das virtudes democráticas, como: cooperação, confiança, comunicação e interesse público. Como proposição, Lüchmann (2014) sistematizou as associações e seus impactos democráticos nos seguintes grupos (Quadro 1). QUADRO 1 – GRUPOS ASSOCIATIVOS E SEUS EFEITOS DEMOCRÁTICOS FONTE: Lüchmann (2014, p. 169) Neste sentido, como capital social refere-se às associações formalmente organizadas, cujos objetivos sejam atender aos interesses dos sócios ou benefícios comuns (Quadro 1). Este grupo associativo é aquele em que tratamos neste item e que faremos mais adiante uma análise quanto aos tipos de associações existentes no Brasil e sobre a estrutura de organização. As associações ocupam papel central no conceito de capital social, constituindo relações e conexões de solidariedade, confiança e reciprocidade, elementos importantes para atitudes de organização coletiva e cooperação social (LÜCHMANN, 2014). Capital social Movimentos sociais Sociedade civil As associações são organizações voluntárias, autônomas e sem fins lucrativos, que promovem a coordenação e a cooperação para o benefício mútuo. Ênfase nas associações face a face. As associações fazem parte de redes de interações engajadas em conflitos políticos, sociais ou culturais, com base em uma identidade coletiva compartilhada. Ênfase nas associações que contestam a ordem social. As associações atuam pela lógica da ação comunicativa e são autônomas do mundo político e econômico. Pretendem, sobretudo, influenciar as decisões políticas institucionais. Ênfase nas associações de defesa de direitos e movimentos sociais Impactos democráticos: promoção de virtudes democráticas no plano individual e social; confiança, solidariedade e espírito cívico; ênfase na cooperação. Impactos democráticos: promoção de mudanças nas relações de poder, tanto no plano político- institucional como no plano cultural; ênfase na contestação e no conflito. Impactos democráticos: inclusão de atores e temas no mundo político através da tematização pública de problemas sociais; ênfase na mediação das esferas públicas. TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 111 Os movimentos sociais são grupos associativos relacionados com questionamentos de interesse social mais amplos, muitas vezes ligados a questões políticas e de poder (Quadro 1). Assim, as associações são partes que constituem os movimentos sociais, embora não devem ser confundidas com as suas ações. Os movimentos sociais têm um papel importante na sociedade, a partir da construção coletiva de novos significados e argumentos em relação a uma determinada situação. As ONGs (Organizações Não Governamentais), sindicatos, partidos políticos, instituições religiosas, entre outros, são exemplos de atuação em diversas situações para promover maior justiça social. A sua principal função está na capacidade de alterar a realidade social, a partir da exposição de novas visões, da contestação de padrões e conceitos estabelecidos e do debate entre as relações de poder que estão em conflito (LÜCHMANN, 2014). Já os grupos da sociedade civil estão vinculados ou inseridos mais diretamente com os campos políticos e econômicos (Quadro 1). O papel da sociedade civil está ligado aos debates e ações públicas, apoiados nas bases da democracia, permitindo maior integração social. A sociedade civil é formada por uma organização de pessoas ou instituições que procura compatibilizar a ordem normativa (legislação, políticas públicas etc.) com as complexas relações envolvidas em situações particulares na sociedade (desigualdades, entre outros). Elas se distinguem dos partidos políticos por não buscarem a conquista do poder, e se distinguem dos agentes e instituições econômicas por não estarem diretamente vinculadas à dinâmica competitiva do mercado. As ONGs (Organizações Não Governamentais) e outros tipos de associações são exemplos que atuam, através da organização da sociedade civil, apresentando um caráter de mediação entre os problemas nos diversos setores do cotidiano das pessoas e os espaços institucionais de tomada de decisões políticas (LÜCHMANN, 2014). 5 CAPITAL SOCIAL O conceito de capital social apresenta diversas perspectivas, sendo comumente associado a duas visões: uma ligada à sociologia e outra na perspectiva econômica. Na perspectiva direcionada à sociologia, o conceito de capital social apresenta múltiplas formas de compreensão (BALDANZA; ABREU, 2013; FIALHO, 2016). Para Fialho (2016), o capital social, na visão da sociologia, é um componente que possibilita a cooperação. Assim, o capital social pressupõe uma dinâmica de relações entre um conjunto de pessoas ou de grupos, que se fundamentam na colaboração e na geração de oportunidades para a ação coletiva e para o bem-estar dos envolvidos. Como resultado, o capital social enfatiza as estratégias de interaçãoentre as pessoas e a construção e manutenção de relações sociais duradouras, constituindo um processo social em constante transformação. Para a sociologia, existem três componentes identificados no capital social: a confiança mútua, as normas e as redes sociais. As normas e as redes sociais promovem as condições que favorecem a confiança, a cooperação e a ação coletiva (FIALHO, 2016). UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 112 De forma complementar, a cooperação é uma relação de soma e de agregação, onde os envolvidos colaboram, ajudam e participam, com objetivos comuns. É nessa prática que as relações sociais se fortalecem e podem se ampliar, formando um ciclo virtuoso, onde a cooperação implica a formação de mais capital social e este, por consequência, induz maior agregação e participação, gerando um processo contínuo de confiança e reciprocidade (DAMÁZIO; CASTRO, 2012, p. 37). Neste sentido, Pires et al. (2011, p. 47-48) fornecem uma compreensão interessante, indicando que: O capital social diz respeito a características da organização social, como confiança, normas, organização, instituições e sistemas que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas. Trata-se de um conjunto de elementos que fazem parte da estrutura social e da cultura, por exemplo, as normas de reciprocidade, os padrões de associativismo, os hábitos de confiança entre as pessoas, as redes que ligam segmentos variados da comunidade. A influência do capital acumulado em práticas sociais sobre a produtividade e a competitividade econômica tem relação com as práticas colaborativas entre indústrias e dessas com universidades e entidades governamentais e da sociedade civil que impulsionam inovações viabilizando o dinamismo econômico de pequenas e médias empresas que alavancam a renda e o emprego local. Pires et al. (2011, p. 48) também relatam a ligação entre a noção de desenvolvimento territorial e esta visão de capital social, sugerindo que a valorização do complexo de instituições locais, costumes e tradições, e as relações de confiança e cooperação formam atitudes culturais e de empreendedorismo. Estes autores também destacam que: Mais importante que vantagens competitivas dadas por atributos naturais, de localização ou setoriais é o fenômeno da proximidade social que permite uma forma de coordenação entre os atores, capaz de valorizar o conjunto do ambiente em que atuam e, portanto, de convertê-lo em base para empreendimentos inovadores. Considera-se assim que o capital social é um componente importante na relação social e como forma de promoção do desenvolvimento territorial (PIRES et al., 2011, p. 47). Identifica-se um fator reconhecido historicamente, onde as regiões mais desenvolvidas ou com aceleração na taxa de desenvolvimento econômico de forma sustentável, possuem um forte capital social formado ou em formação, tornando-se um grande diferencial competitivo para o empreendedorismo regional (DAMÁZIO; CASTRO, 2012, p. 38). TÓPICO 1 | TRABALHO RURAL E ORGANIZAÇÃO SOCIAL 113 DICAS As discussões sobre os conceitos de capital social e os seus desdobramentos têm sido aprofundadas a partir das influências de autores como: Bourdieu, Coleman, Putnam, Fukuyama, Portes, Lin, entre outros sociólogos. Inicialmente, em 1980, Pierre Bourdieu buscou argumentar a importância do capital social no campo de estudo da sociologia. A partir dele, diversos estudos e compreensões sobre o tema foram apresentados. Para uma leitura mais aprofundada sobre este contexto, sugere-se os textos de Baldanza e Abreu (2013) e Fialho (2016). Estes autores apresentam uma análise detalhada sobre as teorias, conceitos e interpretações para o capital social, segundo os principais pesquisadores listados. Na visão econômica, adotada na legislação, o capital social refere-se aos valores dos bens ou em moeda corrente, em que os sócios contribuem para a formação de uma organização societária. Para as cooperativas, o capital social para a formação do patrimônio é constituído pelos aportes dos associados (quotas ou cotas) e/ou por outras formas, como doações, empréstimos, entre outros. A forma de participação dos cooperados no capital social é através das “quotas parte” ou das “cotas de capital”. Esta participação dos sócios possibilita a estruturação e a manutenção da cooperativa ao longo das suas atividades (RECH, 2000, p. 83). Segundo o SEBRAE/SC, o “capital social é o investimento inicial efetuado na empresa pelos sócios ou acionistas, declarado no ato constitutivo, podendo ser feito em dinheiro ou em bens patrimoniais” (SEBRAE/SC, 2018). Para o MAPA (2012, p. 15), “o capital social é formado por quotas partes ou pode ser substituído por doações, empréstimos e processos de capitalização”. Conforme o SESCOOP, o “capital social é o valor, em moeda corrente, que cada pessoa investe ao associar-se e que serve para o desenvolvimento da cooperativa” (GAWLAK; RATSKE, 2007, p. 65). Desta forma, o capital social representa os associados, que integralizam sua participação através de quotas partes ou cotas de capital. A Lei Federal nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, que dispõe sobre as sociedades por ações, estabelece no Art. 7º que “o capital social poderá ser formado com contribuições em dinheiro ou em qualquer espécie de bens suscetíveis de avaliação em dinheiro” (BRASIL, 1976). 114 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • A organização social e o associativismo estabelecem oportunidades de viabilizar as atividades produtivas no meio rural. • As transformações nos sistemas de produção modificaram o funcionamento do mercado de trabalho no meio rural. • Existem muitos exemplos de organização e cooperação na natureza e ao longo da história de evolução e de desenvolvimento da sociedade humana. • Houve muitas formas de organização social nas civilizações da antiguidade e nas sociedades humanas modernas. • O contexto histórico da Revolução Industrial forneceu as bases para a estruturação do cooperativismo moderno, sob os pontos de vista socialista e capitalista. • Há uma relação próxima entre o associativismo e o cooperativismo e entre o associativismo e a democracia. • O capital social é compreendido sob a perspectiva sociológica, que leva em consideração as relações sociais de cooperação e confiança, promovendo o desenvolvimento territorial. • O capital social é compreendido sob a perspectiva econômica, que representa a integralização dos associados sob a forma de quotas partes ou cotas de capital. 115 AUTOATIVIDADE Caro acadêmico, são propostos alguns exercícios sobre esta unidade para fixar melhor os conteúdos apresentados. Leia as questões, relembre sobre o que foi estudado e responda aos exercícios. Em caso de dúvida, volte a pesquisar e refaça os exercícios. 1 Existem diversas formas como o trabalho rural está organizado no Brasil, sendo que cada uma delas apresenta características e condições particulares. Sobre as formas de trabalho no meio rural, associe os itens, utilizando o código apresentado: I- Proprietários rurais. II- Parceiros rurais. III- Arrendatários rurais. IV- Assalariados permanentes. ( ) Forma de trabalho rural, caracterizada pela relação com o proprietário das terras, onde o produtor paga pela concessão da utilização da área de produção. ( ) Forma de trabalho rural, onde o produtor realiza as atividade de produ- ção agropecuária em áreas de sua propriedade. ( ) Forma de trabalho rural associada à prestação de serviços, com geração de vínculo empregatício formal. ( ) Forma de trabalho rural, onde o produtor e o proprietário da terra esta- belecem uma relação de compartilhamento dos riscos e dos benefícios da atividade produtiva. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) IV – I – II – III. b) ( ) III – I – IV – II. c) ( ) I – IV – III – II. d) ( ) II – III – I – IV. 2 A organização coletiva e a cooperaçãoforam fundamentais desde o início da história humana, possibilitando o desenvolvimento de civilizações e a ocupação de todas as regiões da Terra. A cooperação também foi e ainda é importante na formação e estrutura das sociedades mais recentes. Com base neste contexto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as sentenças falsas: 116 ( ) O estabelecimento de relações de cooperação possibilitou, ao homem primitivo, construir e utilizar abrigos, proteger-se do ataque de predadores e a obtenção de alimentos. ( ) O trabalho cooperativo apresenta uma grande importância, baseada na ajuda mútua e no compartilhamento de objetivos comuns, com muitos exemplos desde a antiguidade. ( ) O surgimento de modos de cooperação modernos, como o cooperativismo e o associativismo, está relacionado à modernização da agricultura, na década de 1970. ( ) Uma relação muito próxima pode ser identificada entre o cooperativismo e o associativismo, sendo reflexo dos princípios e dos valores comuns entre essas duas formas de organização coletiva. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – V – V – F. b) ( ) V – V – F – V. c) ( ) V – F – V – V. d) ( ) F – V – V – V. 117 TÓPICO 2 ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Estudamos no tópico anterior as condições relacionadas ao trabalho rural. Também foi apresentada a importância da organização coletiva e da cooperação, com exemplos da vida selvagem na natureza e das atividades humanas na antiguidade e na atualidade. Neste tópico, vamos aprender um pouco mais sobre a cooperação e o associativismo, seus princípios e valores. Serão destacadas as formas de atuação do associativismo, os principais tipos de associações, as vantagens e desvantagens de participar de uma associação rural e as atitudes que favorecem a formação associativa e o trabalho coletivo. Abordaremos alguns exemplos de atividades ligadas às associações rurais e como essa participação pode promover melhorias, tanto em nível local e regional, como de forma mais ampla, com repercussão nacional e internacional. O associativismo também está presente em temas relacionados com o desenvolvimento sustentável e com a promoção de desenvolvimento territorial. Para finalizar, apresentamos um breve relato sobre as comunidades que sustentam a agricultura, também conhecidas como CSAs, como forma de demonstrar um outro exemplo de organização social para a promoção da vida no meio rural e da comunidade. 2 A CULTURA DA COOPERAÇÃO A vida das pessoas em sociedade está cheia de exemplos de práticas associativas, como: na família, na escola, na igreja, nos grupos de amigos, nos clubes, entre outros. Nestas situações, a cooperação se manifesta através de mutirões, na organização de festas, nas atividades esportivas, na formação de grupos de comércio, entre outras formas de interação social. As motivações para as pessoas se associarem podem ser: por afeto, por união, por confiança, por laços familiares, por relações de amizade, por circunstâncias de solidariedade, por necessidade e até por instinto de sobrevivência (Figura 16) (SENAR, 2011, p. 9). Também pode-se afirmar que as motivações estão relacionadas a situações econômicas, sociais, culturais, étnicas, políticas, regionais, entre muitas outras. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 118 A figura a seguir mostra um exemplo de trabalho de cooperação para atingir um objetivo comum, no caso, formando uma estrutura que possibilite chegar à fonte de alimento (Figura 16). FIGURA 16 – FORMIGAS EM COOPERAÇÃO FONTE: Disponível: <https://www.the-scientist.com/features/the-evolution-of- cooperation-34284>. Acesso em: 11 jul. 2018. O termo cooperar, de origem latina, significa trabalhar em conjunto. Assim, a cooperação representa o trabalho coletivo para alcançar objetivos em comum. Esse esforço conjunto está estruturado em três componentes: convivência, confiança e cooperação. Estes componentes se relacionam da seguinte forma: conviver para conhecer, conhecer para confiar e confiar para cooperar (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014b, p. 9). A compreensão e o aprendizado desta situação são o resultado de um processo continuamente desenvolvido e que está em constante aperfeiçoamento. Ao pensar e agir de forma coletiva, adotam-se posturas de cooperação, seguindo algumas características (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014b, p. 24): • Abandonar o individualismo. • Aprender a tolerar e a ceder. • Fazer a gestão dos conflitos. • Desenvolver visão estratégica. • Analisar os problemas e as soluções de forma conjunta. • Promover a união em benefício de um objetivo comum. Assim, atitudes de cooperação resultam na mediação e conciliação de discordâncias, na busca pela resolução coletiva dos problemas, no planejamento e na visão de futuro, identificando oportunidades e buscando minimizar TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 119 as dificuldades. Esses aspectos podem ser identificados na figura, onde os companheiros de ninho sobem uns sobre os outros, formando uma estrutura de formigas, possibilitando que o grupo tenha acesso às folhas, que servirão de fonte de alimentação para o formigueiro (Figura 16). Segundo Cardoso, Carneiro e Rodrigues (2014b, p. 13-16), a cooperação possibilita: • O compartilhamento de recursos: entendidos como os meios para viabilizar um empreendimento, como dinheiro, máquinas, estrutura física, entre outros. Ao compartilhar o uso de recursos de produção, minimiza-se a sua ociosidade, otimizando a utilização e a depreciação. • A combinação de competências: relacionada com a oportunidade de trocar experiências, conhecimentos e habilidades, favorecendo a capacitação e melhorando o sistema de produção. • O fortalecimento do poder de compra e venda: oportunizando melhores condições de barganha, formas e prazos de pagamento de insumos, além de organizar a escala e as condições de comercialização da produção. • O exercício da mobilização e de pressão no mercado: favorecendo o relacionamento com fornecedores ou com o mercado consumidor. Além destes, favorece atuações direcionadas ao setor público, como o ajuste na legislação e nas normas de produção e de comercialização, ou ainda as adequações na infraestrutura, através de melhorias nas estradas, no fornecimento de energia, acesso à telefonia e/ou à internet, entre outros. • A distribuição dos custos com pesquisas e inovações: ao repartir os custos com investimentos em tecnologias, viabiliza-se a resolução de problemas técnicos, além de resultar no favorecimento do acesso a todos. Também pode-se partilhar os riscos e custos relacionados à exploração de novas opções de produtos. • A oferta de produtos diversificados e com qualidade diferenciada: a criação de novas opções ao mercado é uma estratégia que permite aumentar a capacidade competitiva, a ampliação dos mercados compradores e a maior oportunidade de renda. • A obtenção de certificações coletivas: a diferenciação é uma das grandes opções de competição, neste caso, caracterizada pelo registro e proteção, através da propriedade industrial (marcas coletivas, indicações geográficas) ou de outras formas de certificação (comércio justo, produção orgânica, selos internacionais, entre outros). • Melhores condições de acesso a serviços financeiros: facilitando a obtenção de crédito em condições mais vantajosas, acesso a linhas financeiras especiais, entre outras opções. Além das oportunidades listadas acima, a cooperação também é um importante fator de aceleração do desenvolvimento territorial ou desenvolvimento regional. A expansão econômica de uma atividade produtiva gera novas oportunidades de negócios, formando um ambiente inovador e dinâmico, ampliando as opções de geração de renda e os postos de trabalho, promovendo assim o desenvolvimento do território de forma mais equilibrada (DAMÁZIO; CASTRO, 2012, p. 26). UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO120 2.1 PRINCÍPIOS E VALORES DA COOPERAÇÃO Quando se apresenta uma oportunidade de cooperação ou atividade associativa, há diversos princípios de valores que fundamentam as ações, fornecendo as bases para a organização social e para o sucesso do trabalho coletivo. Esses instrumentos éticos servem de orientação para a conduta dos membros que desejam trabalhar de forma coletiva (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014b, p. 19). Segundo o SEBRAE, os princípios da cooperação podem ser organizados nos seguintes itens (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014b, p. 19-20): • Objetivos comuns e coesos: onde os membros possuem os mesmos interesses. • Visão comum: baseada na discussão e no consenso sobre as finalidades. • Articulação: capacidade de organização e planejamento. • Confiança: valor ético de importância fundamental para o trabalho coletivo. • Valores compartilhados: princípios e ações para o bem coletivo. • Interdependência: relações de reciprocidade e de auxílio mútuo para o atendimento das finalidades. • Autonomia: expressa na capacidade de tomar decisões e de expor determinação nas ações. • Ações comuns: direcionamento do trabalho coletivo para o bem-estar de todos. • Consenso: oportunidade de manifestação livre, respeito às opiniões diferentes e processo de tomada de decisão democrático, em comum acordo. • Integração: representa a participação efetiva nas atividades do grupo. Em uma organização ou no trabalho, alguns valores da cooperação são fundamentais para que os membros possam atuar de forma coletiva e ter êxito nas discussões e atividades, destacando (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014b, p. 20): • Participação. • Respeito. • Transparência. • Honestidade. • Complementaridade. • Igualdade. • Aprendizagem. • Solidariedade. 3 O ASSOCIATIVISMO A associação é uma forma de sociedade civil sem fins lucrativos, onde os indivíduos se organizam de forma democrática em defesa de interesses comuns (MAPA, 2012, p. 23). É uma forma de participação na sociedade, podendo existir em vários segmentos da atividade humana, com diversas motivações e funções, atendendo a propósitos locais, regionais, nacionais ou mesmo em escala mundial. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 121 Podem ser formadas por afinidades de atividade econômica ou social, para atender problemas específicos e para construir uma estrutura coletiva na qual todos são beneficiários. Existe uma grande diversidade de interesses nas atividades que realizamos e diante das realidades com as quais convivemos, sendo que estas necessidades vão se modificando ao longo do tempo. Isso sugere que as prioridades são muito diferentes e vão se alterando, dependendo dos indivíduos envolvidos, da realidade na qual estas pessoas estão inseridas, do período temporal e das características do meio ou do espaço territorial. As associações possibilitam aos associados a organização em grupos, que podem discutir e propor ações de forma a atender as prioridades em comum. A forma como as pessoas se associam pode ser através de: associações, cooperativas, câmaras, comitês, conselhos, consórcios, clubes, grêmios, grupos, ordens, organizações da sociedade civil, redes de cooperação, sindicatos, entre outras. NOTA A expressão Organização Não Governamental (ONG) foi utilizada pela ONU em 1950, para designar as instituições da sociedade que não estivessem vinculadas à estrutura do governo. No Brasil, as ONGs surgiram durante o período militar, na década de 1960, porém passaram a ter maior importância a partir da Rio 92. O termo ONG não é definido e não está previsto na legislação brasileira. A Lei Federal nº 13.019, de 31 de julho de 2014, estabelece o regime jurídico e define as diretrizes das parcerias entre a administração pública e a atuação das organizações da sociedade civil. Essa legislação, conhecida como Marco Regulatório do Terceiro Setor, considera o uso da definição de Organizações da Sociedade Civil (OSC) para designar esses tipos de instituições. Segundo o SEBRAE, as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Privado (OSCIP) são as formas de reconhecimento oficial e legal mais próximas do entendimento de uma ONG. 3.1 COMPORTAMENTOS QUE FAVORECEM E QUE DIFICULTAM O ASSOCIATIVISMO Quando participamos de um grupo, uma reunião ou uma associação, agimos de forma organizada para alcançar algum objetivo, para resolver um problema ou para atender uma dificuldade. Para isso, o comportamento e o comprometimento de cada membro fazem uma grande diferença e algumas atitudes podem favorecer ou mesmo dificultar a exposição dos problemas, o processo de tomada de decisões e a adoção de ações práticas. Uma associação necessita de pessoas com iniciativa, capacidade de compreensão, comprometimento e espírito de grupo, pois o objetivo da organização é o trabalho cooperativo, o atendimento das necessidades coletivas e o bem-estar de todos. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 122 Essas questões podem ser verificadas no quadro que apresenta um comparativo entre as atitudes que favorecem uma boa relação social e aquelas atitudes que dificultam a organização e a cooperação (Quadro 2). Verifique que, dependendo da forma como cada membro participa, há uma grande diferença no desenvolvimento e na evolução dos temas a serem discutidos pelo grupo, bem como na mobilização social e na adoção de ações em benefício comum. QUADRO 2 – COMPARATIVO ENTRE AS ATITUDES PRÓ E CONTRA O ASSOCIATIVISMO Atitudes que favorecem o associativismo Atitudes que dificultam o associativismo Comparecer sempre às reuniões e às atividades da associação. Faltar às reuniões e às atividades da associação. Expor suas ideias e sugestões sempre que achar necessário. Deixar a timidez de lado. Permanecer calado, manter-se apático ou ter vergonha de dizer algo que pensa, sem dar a sua opinião sobre os assuntos discutidos. Ouvir os outros e trocar ideias. Impor a sua opinião de forma enérgica e recusar-se a debater as ideias dos outros. Defender a decisão da maioria, ainda que não seja a sua. Compreensão e companheirismo são importantes atitudes nas associações. Reclamar do que foi deliberado pelo grupo e não acatar a decisão da maioria. Participar, assumir responsabilidades, cargos e tarefas. Em uma associação a distribuição das atividades é importante para não sobrecarregar apenas a diretoria. Deixar o peso das obrigações para os outros! Recusar-se a assumir tarefas e obrigações em prol da coletividade. Estar disposto a contribuir e a doar-se, antes mesmo de beneficiar-se com os resultados. Perguntar sempre: o que é que eu “ganho” com isto? Valorizar e contribuir com o planejamento das ações a serem realizadas pela associação. Perseguir metas claras e realizáveis que representem as reais necessidades de cada associado e do grupo como um todo. Dizer que o planejamento é perda de tempo, pois acaba sempre nas gavetas. Estimular a confiança entre os associados a partir do respeito demonstrado por você em relação às decisões da associação. Ter o exemplo como a melhor forma de alcançar os resultados e de conviver. Desconfiar de tudo e de todos e desrespeitar as decisões estabelecidas. Reconhecer que as pessoas têm talentos, habilidades, conhecimentos e pensamentos diferentes. Buscar compreender a importância que as diferenças têm para o desenvolvimento da associação. Julgar a todos por você. Aqueles que não estão alinhados com os seus pensamentos e posições desconsidere-os, ignore-os, implique com eles. Participar da associação como uma opção consciente, fruto de sua escolha, por entender que esta decisão irá acrescentar algo importante em sua vida. Entrar na associação sem sentir-se parte dela, mas por uma conveniência ou influência de alguém. “Entrei nesse negócio porque me chamaram. Não me sinto parte disto”. Desenvolver o senso de pertencimento. Veja a associação como sua. Como um empreendimento que faz parte da sua vida. Olhar para a associação comindiferença, como algo que não lhe diz respeito, que não lhe pertence. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 123 Perceber que a prática do associativismo, bem como os resultados obtidos trazem satisfação e realização pessoal, além de benefícios que se expandem para a sociedade. Ter uma atitude individualista e utilitária de só enxergar o que lhe traz ganho pessoal. “Só me interesso por aquilo que está relacionado com os meus interesses particulares. Não me importo com o resto”. Acreditar nas possibilidades de melhorar as condições de vida de cada um e de todos, a partir da organização das pessoas. Adotar uma atitude fatalista, de quem acredita que não adianta fazer nada mesmo! “Por que isto é assim? Não sei não, só sei que é assim! Não adianta fazer nada!” Fazer parcerias entre sua associação e outras entidades. A soma de esforços amplia as possibilidades de alcançar os resultados esperados. Atuar sempre isoladamente, sem acreditar na força das parcerias. “Não vem com esta de juntar com outras entidades não! Esse povo aí quer é tirar vantagem da gente! Não dá certo! Cada um no seu quadrado!” Organizar-se para buscar as melhorias para a sua vida. Seja autor e ator da sua vida. Esperar! Pode ser que façam por você ou que caia do céu. Esperar sempre por políticas governamentais assistencialistas. Não se esforce para conquistas próprias que dependem de você. FONTE: SENAR (2011, p. 14-20) 3.2 PRINCÍPIOS DO ASSOCIATIVISMO A doutrina do associativismo, ou seja, o conjunto de ideias fundamentais e princípios básicos contidos em um sistema expressam a essência de que o trabalho coletivo possibilita encontrar soluções melhores para os conflitos que a vida em sociedade apresenta (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 8). Esses autores descrevem que esses princípios do associativismo são reconhecidos em todo o mundo e embasam as várias formas que o associativismo pode assumir, como: associações, cooperativas, sindicatos, fundações, organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIP), redes, clubes, entre outros. A diferença entre essas formas jurídicas de organização associativa será, basicamente, a partir dos objetivos que cada uma delas deseja alcançar. Os princípios do associativismo são organizados em sete itens (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 8-9): • Adesão voluntária e livre. • Gestão democrática pelos sócios. • Participação econômica dos membros. • Autonomia e independência. • Educação, formação e informação. • Interação ou intercooperação. • Interesse pela comunidade. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 124 Primeiro princípio: A adesão voluntária e livre demonstra que as associações são organizações voluntárias e abertas à participação de todas as pessoas aptas a utilizar de seus serviços e dispostas a aceitar as responsabilidades de ser membro, independentemente da condição social, econômica, racial, política, religiosa e de gênero. Segundo princípio: A gestão democrática indica que as associações são controladas por seus sócios ou membros, através da participação ativa nos processos de tomada de decisões e de escolha de representantes para a gestão administrativa da organização. Terceiro princípio: A participação econômica indica que os membros contribuem de forma equitativa e controlam democraticamente as ações da organização associativa, deliberando sobre a destinação dos recursos, bens e demais itens do capital social. Quarto princípio: A autonomia e a independência destacam que associações são organizações autônomas de ajuda mútua, sendo o controle realizado pelos seus sócios, através de gestão e decisões democráticas. Quinto princípio: O incentivo à educação, formação e informação é preceito que visa estimular e proporcionar condições para a capacitação, para a melhoria do aprendizado e para o desenvolvimento dos membros, buscando ampliar os conhecimentos sobre a importância da cooperação, além de seus benefícios. Sexto princípio: A interação ou intercooperação está relacionada ao fortalecimento das relações associativas em níveis estruturais locais, regionais, nacionais e internacionais, através do trabalho em conjunto para ampliar as ações e obter resultados mais expressivos. Sétimo princípio: O interesse pela comunidade está ligado ao desenvolvimento sustentável e ao desenvolvimento territorial, possibilitando condições mais propícias para a vida das pessoas que habitam a região onde as associações atuam. Esses princípios são estruturados de acordo com os interesses e necessidades de cada tipo de organização associativa. 3.3 TIPOS DE ASSOCIAÇÕES Compreendidos alguns conceitos e objetivos sobre a organização social, cooperação e associativismo, vamos estudar agora alguns dos principais tipos de associações existentes no Brasil. As associações podem agregar diversas formas de organização social, que compartilham características semelhantes, embora tenham finalidades distintas. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 125 Com base nas classificações de Cardoso, Carneiro e Rodrigues (2014a, p. 19-20) e do MAPA (2012, p. 23-25), apresentamos alguns tipos de associações mais comumente encontradas no Brasil, sendo agrupados como: • Filantrópicas e de Defesa à Vida: tipos de associações que reúnem voluntários com objetivos de prestar assistência social a grupos carentes, como crianças, idosos ou portadores de necessidades, também podendo atuar junto a instituições religiosas. São exemplos: APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, AACD – Associação de Assistência à Criança Deficiente, entre outras. • Comunitárias ou de Moradores: associações que realizam atividades de mobilização mais em nível municipal, para melhorias de infraestrutura e resolução de problemas locais. Exemplos: associações de bairros, associações distritais, entre outras. • Educacionais: associações que participam das atividades de organização escolar, com objetivo de melhorar as condições de ensino e integração entre as escolas e a comunidade. Como exemplos estão: Associações de pais e professores. • Culturais, Desportivas e Sociais: associações organizadas com interesses na promoção de temas relacionados à arte, ao esporte e ao lazer. Exemplos podem ser verificados em: clubes de esportes, associações culturais, entre outras. • de Consumidores: associações com objetivos de representação, defesa e fortalecimento dos direitos dos consumidores em relação ao comércio, à indústria e aos órgãos do governo. São exemplos: associações de defesa do consumidor. • Governamentais: associações governamentais para o fortalecimento da gestão e de organização das unidades da administração pública, além de possibilitar interações de comércio. Como exemplos: associações regionais, associações de municípios, associações de nações, como União Europeia, Organização das Nações Unidas – ONU, G 20, BRICS, entre outras. • Comerciais, Empresariais ou de Classe: associações de representação de empresários, indústrias ou comerciantes. Como exemplos estão: associações comerciais, associações de indústrias, associações empresariais, CDL – Câmaras de Dirigentes Lojistas, entre outros. • Profissionais ou de Trabalho: associações que representam determinadas categorias profissionais e seus interesses perante a sociedade e aos órgãos do governo. São exemplos: associações de engenheiros agrônomos, associações de caminhoneiros, associações de professores, associações de aposentados e pensionistas, entre outras. • Científicas, de Pesquisa ou de Inovação: associações de pesquisa científica, inovação e tecnologia. Exemplos são as associações ligadas ao desenvolvimento e empreendedorismo, associações científicas, entre outras. • de Agricultores ou de Produtores Rurais: formadas por associações de agricultores de diversos segmentos agropecuários, em busca de interesses para o desenvolvimento e interesses das cadeias produtivas. Como exemplos: associações de produtores ruraisde determinada cadeia produtiva (frutas, milho, figo etc.), associação de produtores de uma determinada região (municipal, regional, estadual ou nacional), associação de uma forma específica de produção agropecuária (produtores orgânicos etc.), entre outras formas. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 126 4 ASSOCIAÇÕES RURAIS Vamos estudar agora como as associações rurais podem contribuir para melhorar as condições dos agricultores e para possibilitar melhorias nas atividades agropecuárias. Uma associação de produtores rurais compreende uma organização civil, constituída por agricultores, seus familiares e outros membros que apresentem os mesmos interesses. Essas associações têm o objetivo de dinamizar os processos na cadeia de produção rural, discutindo e desenvolvendo ações em benefício dos associados (MAPA, 2009, p. 7). Como características gerais, as associações de produtores rurais podem ser formadas por grupos de vizinhos, que se unem para discutir e resolver problemas em comum. Essas discussões são, inicialmente, a partir de reuniões informais, aperfeiçoando-se para uma estrutura mais organizada, com participação democrática mais atuante, resultando em maiores oportunidades de sucesso (MAPA, 2012, p. 30). As associações de produtores rurais podem compreender estruturas e dimensões formadas por um pequeno grupo de pessoas, em nível local (Figura 17) ou municipal, ou até atuar de forma maior e mais organizada, através da participação em escalas maiores, como em nível regional (Figura 18), estadual ou nacional (Figura 19). FIGURA 17 – ASSOCIAÇÃO DE PRODUTORES RURAIS EM NÍVEL LOCAL NO BRASIL FONTE: Disponível em: <http://www.valedosvinhedos.com.br/vale/index.php>. Acesso em: 20 jul. 2018. FIGURA 18 – ASSOCIAÇÕES DE PRODUTORES RURAIS EM NÍVEL REGIONAL NO BRASIL FONTE: Disponível em: <https://www.flickr.com/photos/26580516@N05/6153740062> e <http://www.agreco.com.br/>. Acesso em: 20 jul. 2018. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 127 FIGURA 19 – ASSOCIAÇÃO DE PRODUTORES RURAIS EM NÍVEL NACIONAL NO BRASIL FONTE: Disponível em: <http://www.abpm.org.br/>. Acesso em: 20 jul. 2018. Vamos compreender um pouco mais sobre a importância de alguns exemplos de associações de produtores rurais. A APROVALE – Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos foi pioneira na obtenção das indicações geográficas (IG) no Brasil, a partir da Indicação de Procedência (IP) para os vinhos finos. Essa associação de produtores da Serra Gaúcha também obteve o registro de outra forma de IG, a Denominação de Origem (DO), além de uma marca coletiva, “Vinhateiros do Vale”, valorizando e estimulando a economia e o patrimônio cultural local (Figura 17). A APROARROZ – Associação dos Produtores de Arroz do Litoral Norte Gaúcho obteve o registro da primeira Denominação de Origem no Brasil (Figura 18 à esquerda). A AGRECO – Associação dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral, em Santa Catarina, atua na produção orgânica e no turismo ecológico rural (Figura 18 à direita). A ABPM – Associação Brasileira de Produtores de Maçã estimulou a discussão sobre a adoção da rastreabilidade e de manejo integrado de pragas no Brasil, ações estas que resultaram na estruturação do sistema de produção integrada (PI) agropecuária pelo MAPA (Figura 19). Estas associações contribuíram para o desenvolvimento agropecuário brasileiro e são bons exemplos de como a organização social, por meio da cooperação, pode gerar a valorização cultural e econômica, além de proporcionar inovações às atividades rurais. 4.1 VANTAGENS E LIMITAÇÕES DO ASSOCIATIVISMO RURAL As associações de produtores rurais podem contribuir em diversas etapas da cadeia produtiva agropecuária. Vejamos algumas vantagens da organização através de associações rurais (MAPA, 2009, p. 9-10; SENAR, 2015, p. 34): • aumentar o poder de barganha e a possibilidade de negociação do grupo de produtores associados, através da compra e venda coletivas; UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 128 • facilitar o acesso à assistência técnica e à capacitação técnica, oportunizando a redução de custos e a melhoria das condições de produção; • possibilitar a diversificação da produção agropecuária, melhorando a viabilidade econômica das atividades nas propriedades; • permitir a aquisição e/ou utilização de insumos, bens e equipamentos a preços mais vantajosos, possibilitando maior acesso a inovações tecnológicas; • proporcionar melhor distribuição dos resultados gerados pelas atividades agropecuárias, além de atender as demandas e oportunizar a expansão de novos mercados; • contribuir para a melhoria na distribuição de alimentos e bens de consumo, principalmente pela interiorização do desenvolvimento socioeconômico; • possibilitar a geração de novas oportunidades de emprego e o aumento da renda das propriedades rurais; • possibilitar a participação em fóruns, seminários e eventos de decisão pública, com oportunidade de expressar opiniões e colaborar para ações mais democráticas; • permitir a realização de convênios e contratos com órgãos do governo ou entidades privadas, viabilizando projetos de desenvolvimento territorial; • acessar recursos físicos e financeiros ou linhas de crédito e programas governamentais direcionados a produtores organizados em grupos; • incentivar o desenvolvimento de novas oportunidades, possibilitando a manutenção da família na propriedade e a redução do êxodo rural. Complementando essas vantagens, ainda podemos citar: • compartilhamento de recursos de produção, como estrutura física de galpões ou máquinas e implementos agrícolas, reduzindo a subutilização e melhorando a eficiência produtiva. • organização social e mecanismo de pressão para a adoção de políticas públicas de interesse para o setor ou para a implementação de serviços públicos mais adequados; • implementação de signos distintivos, baseados na participação coletiva, como a marca coletiva e as indicações geográficas; • estímulo ao desenvolvimento econômico individual, dos sócios e das demais atividades na região, favorecendo a cadeia de produção e o fortalecimento das relações pessoais; • exemplo para a mobilização de outras atitudes de cooperação, bem como para estimular a formação associativa em outras atividade e em outros locais; • implementação de sistemas participativos de certificação ou novas opções de atividades econômicas, como através do agroturismo e da produção agroecológica. Como limitações para as atividades ligadas ao associativismo, o MAPA (2009, p. 10) destaca, como principal restrição, a impossibilidade de obtenção de fins lucrativos. Nesse sentido, como a associação não pode exercer atividades comerciais, assim como outras instituições (empresas, cooperativas etc.), a sua manutenção pode apresentar algumas dificuldades em função da forma de TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 129 obtenção de recursos financeiros ao longo do tempo. Outro ponto importante é indicado por Brandemburg (2010), ao sugerir que nem sempre os interesses dos associados são confluentes, podendo resultar em conflitos e desentendimentos, principalmente em função de visões diferentes em relação à forma de ação frente a determinadas situações. No entanto, fica evidente que o associativismo rural é uma estratégia que proporciona muitas vantagens para os produtores rurais. 4.2 ASSOCIATIVISMO RURAL: CONDOMÍNIOS E CONSÓRCIOS AGRÍCOLAS Estudamos que o propósito associativo está baseado na possibilidade de ajuda mútua e na cooperação, alcançando objetivos comuns. Dessa forma, uma organização social no campo, através de uma associação de produtores rurais, pode gerar oportunidades de ganho econômico. Uma forma de atuação pode ser através da formação de condomínios rurais ou agrícolas, como uma forma de sociedade sem fins empresariais, com potencial de conferir maior eficiência e capacidade produtiva e comercial (SENAR, 2011, p. 28).O condomínio agrícola possibilita redução nos custos e a possibilidade de aumento dos ganhos, a partir da integração das habilidades e condições de cada membro participante (SENAR, 2011, p. 29). Essa oportunidade de conjugar as atividades produtivas pode trazer muitos benefícios, desde que essa relação entre os condôminos se estabeleça com confiança e trabalho em equipe. À medida que já se incorporaram os princípios e valores do associativismo, com grau mais avançado de cooperação, possibilitando ampliar os ganhos econômicos, os produtores do condomínio rural podem formalizar uma outra forma de sociedade mercantil, através da constituição de uma cooperativa, por exemplo. Os condomínios agrícolas e os consórcios rurais são modalidades de sociedades rurais, estabelecidas no art. 14º, § 1º do Estatuto da Terra (BRASIL, 1964), pela Medida Provisória nº 2.183-56, de 24 de agosto de 2001. A legislação diferencia os consórcios e condomínios agrícolas (BRASIL, 2001), onde o condomínio (art. 2º, § 1º, I) refere-se ao: agrupamento de pessoas físicas ou jurídicas constituído em sociedade por cotas, mediante fundo patrimonial preexistente, com o objetivo de produzir bens, comprar e vender, prestar serviços, que envolvam atividades agropecuárias, extrativistas vegetal, silviculturais, artesanais, pesqueiras e agroindústrias, cuja duração é por tempo indeterminado. (grifo nosso) Enquanto o consórcio (art. 2º, § 1º, II) refere-se ao: agrupamento de pessoas físicas ou jurídicas constituído em sociedade por cotas, com o objetivo de produzir, prestar serviços, comprar e vender, quando envolver atividades agropecuárias, extrativistas vegetal, silviculturais, artesanais, pesqueiras e agroindústrias, cuja duração é por tempo indeterminado. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 130 Assim, a principal diferença entre as duas modalidades de sociedades rurais é que no consórcio agrícola não há compartilhamento de bens patrimoniais, onde o agrupamento de pessoas tem o objetivo de juntar esforços para a produção em conjunto. Já no condomínio agrícola há o compartilhamento de estrutura patrimonial, como terras, máquinas, instalações etc. Agora vamos analisar os dois exemplos de arranjos societários entre produtores rurais, a seguir. Na formação de um Consórcio Agrícola de produtores de leite, um dos sócios pode participar com os animais, o outro membro pode disponibilizar a estrutura física, como instalações e equipamentos, um terceiro sócio pode contribuir com as pastagens e os itens de alimentação. Nesta proposta, o trabalho em conjunto é uma forma de atividade coletiva, onde cada sócio possui recursos disponíveis e o trabalho em comum possibilita a ampliação da produção, o aproveitamento melhor dos recursos disponíveis, a redução de custos, a utilização racional dos itens de produção e a minimização de riscos de produção. Na formação de um Condomínio Agrícola de produtores de grãos, ambos os produtores possuem suas terras e maquinários para a produção de forma independente. Nesta proposta, o trabalho em conjunto caracteriza-se pelo investimento coletivo na construção de silos ou armazéns para o armazenamento dos grãos de cada sócio. O trabalho em comum possibilita, neste caso, a redução de custos com o processo de armazenamento dos grãos e a oportunidade de escolha do melhor momento de comercialização. Por exemplo, a venda dos grãos durante a entressafra, quando geralmente os preços estão mais elevados. Essas duas formas de constituição societária possuem formalização e gerenciamento totalmente desburocratizado, permitindo a livre entrada e saída do empreendimento, além de não se constituir personalidade jurídica. Não há um limite mínimo de consorciados ou condôminos, bem como a formalização pode ser realizada através de estatuto ou de contrato social, podendo as assembleias serem convocadas diretamente, sem necessidade de publicação de editais (CASTRO; RODRIGUES, 2014, p. 18; PORTAL NIPPO-BRASIL, 2018). DICAS Para saber um pouco mais sobre as características e a forma de funcionamento dos consórcios, além de uma sugestão de roteiro para a sua criação, recomenda-se buscar a publicação do SEBRAE que trata de Consórcio de Empresas, na Série Empreendimentos Coletivos (CASTRO; RODRIGUES, 2014). Disponível em: <http://www.sebrae.com.br/sites/ PortalSebrae/artigos/serie-empreendimentos-coletivos-cooperar-para-competir,2fa5438af1 c92410VgnVCM100000b272010aRCRD>. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 131 5 LEGISLAÇÃO PARA O ASSOCIATIVISMO E PARA O COOPERATIVISMO NO BRASIL No início do período republicano, a Constituição Brasileira de 1891 determinava, no artigo 72, §8º: “A todos é lícito associarem-se e reunirem-se livremente e sem armas; não podendo intervir a polícia, senão para manter a ordem pública” (BRASIL, 1891). Em relação à legislação sobre as cooperativas, o Decreto Federal nº 1.637, de 5 de janeiro de 1907, determinava a criação de sindicatos profissionais (Capítulo I, art. 1º ao 9º) e de sociedades cooperativas (Capítulo II, art. 10º ao 26º), estabelecendo as características e as condições para o seu estabelecimento e funcionamento (BRASIL, 1907). NOTA A legislação brasileira que trata de associativismo possui registros desde o período do Brasil Império, exemplificada pela Lei nº 1.083 e pelo Decreto nº 2.711, ambos publicados em 1860, e que orientavam a criação e organização de bancos, companhias e sociedades, dentre elas as associações. O Estatuto da Terra, Lei Federal nº 4.504, de 30 de novembro de 1964, estabeleceu que (art. 3º): “O Poder Público reconhece às entidades privadas, nacionais ou estrangeiras, o direito à propriedade da terra em condomínio, quer sob a forma de cooperativas quer como sociedades abertas constituídas na forma da legislação em vigor” (BRASIL, 1964). Além disso, define-se que (art. 14º): O Poder Público facilitará e prestigiará a criação e a expansão de associações de pessoas físicas e jurídicas que tenham por finalidade o racional desenvolvimento extrativo agrícola, pecuário ou agroindustrial, e promoverá a ampliação do sistema cooperativo, bem como de outras modalidades associativas e societárias que objetivem a democratização do capital (BRASIL, 1964). (grifo nosso) Neste mesmo artigo, § 1º, indica-se que: “Para a implementação, os agricultores e trabalhadores rurais poderão constituir entidades societárias por cotas, em forma consorcial ou condominial, com a denominação de "consórcio" ou "condomínio", nos termos dos arts. 3º e 6º” (BRASIL, 1964). A Política Nacional de Cooperativismo, definida pela Lei Federal nº 5.764, de 16 de dezembro de 1971, estabeleceu as características das sociedades cooperativas, as condições para sua implantação, estruturação, funcionamento, UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 132 fusão e dissolução, além das estruturas de organização regional e nacional (BRASIL, 1971), ficando conhecida como a Lei Geral do Cooperativismo. Nesta lei, o art. 3º descreve que: “Celebram contrato de sociedade cooperativa as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício de uma atividade econômica, de proveito comum, sem objetivo de lucro” (BRASIL, 1971) (grifo nosso). Além disso, “as cooperativas são sociedades de pessoas, com forma e natureza jurídica próprias, de natureza civil, não sujeitas a falência, constituídas para prestar serviços aos associados” (art. 4º) (BRASIL, 1971) (grifo nosso). A legislação brasileira, organizada através da Constituição Federal de 1988, garante “plena liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar” (art. 5º, XVII), “a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento” (art. 5º, XVIII) e estabelece que “a lei apoiará e estimulará o cooperativismo e outras formas de associativismo” (art. 174º, §2º) e que “a políticaagrícola nacional será planejada e executada, levando em conta”, dentre outras condições, o cooperativismo (art. 187º, V) (BRASIL, 1988) (grifo nosso). IMPORTANT E A Constituição Federal de 1967 tratava dos direitos e garantias individuais, sendo que no art. 150, § 28 afirmava que: “...é garantida a liberdade de associação. Nenhuma associação poderá ser dissolvida, senão em virtude de decisão judicial” (BRASIL, 1967). No entanto, houve momentos na história política do Brasil onde a liberdade de associação foi restrita, principalmente durante o período militar, a partir de 1964. No instrumento legal que dispõe sobre a Política Agrícola no Brasil, a Lei Federal nº 8.171, de 17 de janeiro de 1991, o capítulo XI, que trata de associativismo e cooperativismo, indica que “o poder público apoiará e estimulará os produtores rurais a se organizarem nas suas diferentes formas de associações, cooperativas, sindicatos, condomínios e outras” (grifo nosso) (art. 45º), informando que esse apoio se estende “aos grupos indígenas, pescadores artesanais e àqueles que se dedicam às atividades de extrativismo vegetal não predatório” (art. 45º, parágrafo único) (BRASIL, 1991). Também o Código Civil de 2002, definido pela Lei Federal nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, estabelece que “são pessoas jurídicas de direito privado”, dentre outras, “as associações” (art. 44º, I) e “as sociedades” (art. 44º, II). O artigo 53 declara que “constituem-se as associações pela união de pessoas que se organizem para fins não econômicos” (grifo nosso). As condições que disciplinam a atuação das associações estão previstas entre os artigos 53 a 61 do Código Civil. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 133 Também no Código Civil verifica-se que “celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados” (art. 981º). Assim, as características para o estabelecimento de uma sociedade cooperativa são definidas no art. 1.094 (BRASIL, 2002). ESTUDOS FU TUROS Verifica-se que uma associação se caracteriza pela organização de pessoas, com objetivos diversos e sem fins econômicos diretos, enquanto que uma cooperativa distingue- se pela organização social buscando estruturar uma atividade econômica, viabilizando um negócio produtivo. 6 O ASSOCIATIVISMO E O COOPERATIVISMO NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL O Brasil, sendo país-membro da Organização das Nações Unidas (ONU), se comprometeu a seguir as condições estabelecidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 10 de dezembro de 1948. O artigo 20 descreve que: (1) “Todo ser humano tem direito à liberdade de reunião e associação pacífica”; e que (2) “Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação” (ONU, 2009). Assim, ficou resguardado o direito à participação de qualquer pessoa, de forma livre e voluntária, em organizações associativas para diversas finalidades. NOTA O termo Desenvolvimento Sustentável foi utilizado pela primeira vez em 1987, no Relatório Brundtland, também conhecido como Nosso Futuro Comum, sendo definido como “o desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”. Em junho de 1992 foi realizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como RIO-92, ECO-92 ou Cúpula da Terra. Neste evento, foi reconhecido o conceito de desenvolvimento sustentável, além das discussões sobre as ações para a proteção da natureza que resultaram na divulgação de diversos documentos: a Carta da Terra, a Convenção sobre a Diversidade Biológica, a Convenção-Quadro ou Tratado sobre Mudanças Climáticas, a Declaração sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Agenda 21, entre outros. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 134 Em junho de 2012 foi realizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, conhecida como RIO+20. Esse evento teve o objetivo de renovar os esforços e compromissos sobre o desenvolvimento sustentável, assumidos 20 anos antes, na RIO-92 (Figura 20). Como um dos documentos finais da RIO+20, foram divulgados os resultados alcançados e os compromissos assumidos pelos chefes de Estado, através do texto “O futuro que queremos” (RIO+20, 2018). Nesta declaração, no item que trata sobre Segurança Alimentar, Nutrição e Agricultura Sustentável, afirma-se a importância do associativismo, através da implantação de cooperativas (RIO+20, 2012, p. 23-24): 110. Observando a diversidade de condições agrícolas e de sistemas, resolvemos aumentar a produção e a produtividade agrícola sustentável em nível mundial, nomeadamente através da melhoria do funcionamento dos mercados, dos sistemas de negociação, e do fortalecimento da cooperação internacional, particularmente para países em desenvolvimento, aumentando o investimento público e privado na agricultura, gestão da terra e desenvolvimento rural sustentável. As principais áreas de investimento e de apoio incluem: práticas agrícolas sustentáveis, infraestrutura rural, capacidade e tecnologias de armazenamento, investigação e desenvolvimento de tecnologias sustentáveis de desenvolvimento agrícola, implantação de cooperativas e de cadeias de valor agrícolas sustentáveis, e fortalecimento das ligações urbano-rurais. Reconhecemos também a necessidade de reduzir significativamente as perdas e o desperdício pós-colheita e as perdas e o desperdício de alimentos em toda a cadeia de abastecimento alimentar (RIO+20, 2012, p. 23-24). (grifo do autor) FIGURA 20 – RIO-92 E A RIO+20, CONFERÊNCIAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL FONTE: Disponível em: <http://www.senado.gov.br/noticias/Jornal/emdiscussao/rio20/a-rio20/ conferencia-rio-92-sobre-o-meio-ambiente-do-planeta-desenvolvimento-sustentavel-dos-paises. aspx>. Acesso em: 6 jul. 2018. DICAS A Agenda 2030 (Transformando nosso mundo) apresenta o plano de ações mais recente adotado pela ONU, com metas e objetivos para o equilíbrio entre as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/>. Acesso em: 13 set. 2018. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 135 6.1 O ASSOCIATIVISMO NO CONTEXTO DO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL, DAS POLÍTICAS PÚBLICAS E DE AÇÕES INTERINSTITUCIONAIS As ações de governança passaram a ter maior importância a partir da década de 1990, com o avanço da descentralização político-administrativa e como nova postura frente às dificuldades econômicas e sociais (PIRES et al., 2011, p. 26). Esses autores afirmam que a governança é uma modalidade inovadora de gestão de atividades variadas, mobilizando agentes públicos, empresas, associações entre outros, que manifestam diversas formas de interação e de cooperação para a resolução de conflitos ou interesses comuns, direcionando o processo de desenvolvimento territorial. Sob essa forma de governança, os representantes têm direito de opinar, sugerir e direcionar as ações que recebem recursos públicos, constituindo-se um grande avanço no processo democrático de tomada de decisões (SENAR, 2015, p. 26). UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 136 Pires et al. (2011, p. 83-84) citam as várias formas e modalidades de governança territorial presentes no Brasil, como: os Arranjos Produtivos Locais, as Câmaras Regionais, as Câmaras Setoriais, os Circuitos Setoriais Intermunicipais, os Conselhos Regionais de Desenvolvimento – COREDES, os Consórcios Municipais, os Comitês de Bacia, dentre outras. No entanto, os arranjos produtivos locais (APLs), os circuitos turísticos (CTs) e os comitês de bacias hidrográficas (CBs) têm recebido maior atenção de grupos acadêmicos, de instituições de fomento ao desenvolvimento e de micro e pequenas empresas,apresentando relevância e importância no cenário econômico nacional (PIRES et al., 2011, p. 84). Destacam-se também os conselhos de desenvolvimento (CD), principalmente na esfera municipal (SENAR, 2015, p. 26) e as câmaras setoriais (CS), nas esferas estadual e federal (PIRES et al., 2011, p. 108). NOTA Os arranjos produtivos locais (APLs) são, segundo o SEBRAE, aglomerações de empresas, localizadas em um mesmo território, que apresentam especialização produtiva e mantêm algum vínculo de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais como: governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa (PIRES et al., 2011, p. 101). Os circuitos turísticos (CTs) são compostos por municípios próximos entre si, que se associam em função de interesses e possibilidades de explorarem turisticamente seus respectivos patrimônios históricos, culturais e naturais. Os CTs levam em conta os atributos físico-geográficos, econômicos e socioculturais de uma região, em um panorama integrado e sistêmico (PIRES et al., 2011, p. 119). Ainda estão associados diretamente a um tipo de planejamento turístico específico que se pauta no aproveitamento dos atrativos regionais associados à oferta de determinados serviços e de infraestrutura (atividades de lazer e recreação, rede hoteleira, atividades comerciais etc.) (PIRES et al., 2011, p. 125). Os comitês de bacias hidrográficas (CBs) funcionam como órgãos colegiados com poderes consultivos e deliberativos para gestão de recursos hídricos por meio da implementação dos instrumentos técnicos e negociação de conflitos; promoção dos usos múltiplos da água; respeito aos diversos ecossistemas naturais; promoção da conservação e recuperação dos corpos d’água e garantia da utilização racional e sustentável (PIRES et al., 2011, p. 102). As câmaras setoriais (CS) têm suas ações direcionadas com caráter de autorregulação e cogestão, a partir da articulação da cadeia produtiva com a participação do Estado, na proposição de ações e planos de desenvolvimento para cada setor (PIRES et al., 2011, p. 109). A importância destas modalidades de governança territorial está no fortalecimento da participação da sociedade na formulação e na implementação de políticas públicas, com a aplicação dos recursos financeiros e a realização de ações em benefício de todos. Outro aspecto de destaque é que o seu funcionamento pressupõe a ausência de atividades políticas, eleitorais ou de interesse ideológico e partidário (SENAR, 2015, p. 26). TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 137 Há duas formas de atuação da governança territorial, podendo ser através de conselhos consultivos e de conselhos deliberativos (SENAR, 2015, p. 26). O conselho consultivo tem a finalidade de aconselhar e opinar sobre as questões relacionadas à atividade de interesse, sendo que a decisão passa pelo Poder Legislativo e/ou Executivo nas diversas esferas públicas (municipal, estadual e federal). O conselho deliberativo participa, além da oportunidade de expressar opiniões e sugestões, do poder de decisão, desde o planejamento e aprovação do projeto até o acompanhamento da execução e da prestação de contas. Estes últimos podem ser exemplificados pelos Conselhos Municipais de Saúde, Conselhos Municipais de Educação, entre outros, que participam e colaboram nas etapas para a melhoria das condições de atendimento ou de formação das pessoas (SENAR, 2015, p. 26). ATENCAO A Comunidade que Sustenta Agricultura (CSA) nada mais é que uma parceria entre agricultores e consumidores, onde as responsabilidades, riscos e benefícios da agricultura passam a ser compartilhados. Por meio de uma cota fixa mensal, os coagricultores recebem uma cesta semanal ou quinzenal com os produtos agrícolas, contendo frutas, verduras, legumes, ovos, leite ou o que mais estiver combinado com o agricultor. Essa entrega fica de acordo com a estação do ano e com a safra do período, respeitando os tempos da natureza e também as condições do produtor. Informações sobre CSAs podem ser obtidas no endereço eletrônico: <http://www.csabrasil. org/csa/>. UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 138 FONTE: Adaptado de WWF Brasil. Disponível em: <https://www.wwf.org.br/?65282/CSA- Comunidade-que-Sustenta-a-Agricultura>. Acesso em: 23 ago. 2018. TÓPICO 2 | ASSOCIATIVISMO E COOPERAÇÃO 139 LEITURA COMPLEMENTAR COMUNIDADES QUE SUSTENTAM A AGRICULTURA – CSAS As comunidades que sustentam a agricultura (CSA) melhoram a vida de quem planta e levam alimentos saudáveis para quem compra. O modelo gera renda, valoriza a produção e respeita o meio ambiente. De um lado, quem planta. De outro, quem consome os alimentos. Isso é o que acontece quando essas duas pontas se unem. Funciona assim: um grupo de pessoas se reúne para financiar o produtor rural. Em troca, recebe os produtos da roça (propriedade). Quem está na cidade não é chamado de consumidor, mas de coagricultor. Afinal, são pessoas ativas no processo, que participam do processo. Neste modelo de produção, o agricultor calcula o quanto vai gastar durante o ano: mudas, sementes, adubos, energia, entre outros. Nessa conta também entra uma porcentagem de lucro. O valor é dividido entre os coagricultores que fazem parte da CSA. Em troca, os financiadores levam para casa, toda semana, uma cesta de alimentos frescos e aprendem a conviver com os riscos da agricultura. Graças a esse modelo, resolve-se um grande problema que se enfrenta no sítio, o desperdício. Agora a produção tem destino certo e o produtor pode aumentar e diversificar o que é produzido na propriedade. As comunidades podem se formar por iniciativa do agricultor ou dos consumidores. Não existe nenhuma entidade de certificação ou de controle. O funcionamento da parceria é definido pelos membros do grupo. As CSAs são uma iniciativa da sociedade civil, onde não existe um organismo jurídico. Porém, algumas CSAs criam seus próprios contratos. Mas não são documentos com valor jurídico, são contratos com base na confiança. As comunidades que sustentam a agricultura começaram a ganhar importância no Brasil na última década. Hoje são mais de 100 em todo o país. Melhoria de vida para quem planta. Alimentos saudáveis para quem compra. Um modelo que aproxima produtores e consumidores e que gera renda, valoriza a produção local e respeita o meio ambiente. FONTE: Globo rural. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/agronegocios/globo-rural/ noticia/2018/07/22/csa-modelo-de-producao-aproxima-agricultores-e-consumidores-entenda- como-funciona.ghtml>. Acesso em: 23 ago. 2018. 140 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A vida das pessoas em sociedade está cheia de exemplos de práticas associativas e que, ao se pensar e agir de forma coletiva, adotam-se posturas de cooperação. • Existem princípios e valores da cooperação que são fundamentais para o trabalho coletivo. • Uma associação é uma forma de sociedade civil sem fins lucrativos, onde os indivíduos se organizam de forma democrática em defesa de interesses comuns. • Há comportamentos que favorecem e que dificultam o associativismo. • Os princípios do associativismo estão organizados em sete itens. • Existem diversos tipos de associações no Brasil, dentre eles, as associações de produtores rurais. • As associações podem ser organizadas em nível local, municipal, regional, estadual ou nacional, contribuindo para as atividades nas propriedades rurais, para o desenvolvimento territorial e para a cadeia de produção. • O associativismo rural é uma estratégia de organização que proporciona muitas vantagens para os produtores rurais. • A legislação brasileira estimula a organização coletiva de produtores rurais através de associações, cooperativas ou de outras formas de cooperação. 141 AUTOATIVIDADE Olá, acadêmico! Para verificar a compreensão dos conteúdos apresentados, sugerem-se alguns exercícios sobre esta unidade. Leia asquestões e responda aos exercícios propostos. Em caso de dúvida, volte a pesquisar no livro de estudos e refaça os exercícios. 1 O associativismo envolve a organização, o planejamento e a par- ticipação coletiva para a obtenção de benefícios comuns. Existem comportamentos que favorecem e que dificultam o associativismo. Sobre o comportamento dos associados, é CORRETO afirmar que: a) ( ) A imposição de opiniões, recusando-se a debater ou não ouvindo as sugestões dos demais associados favorece o processo de tomada de de- cisões em uma reunião. b) ( ) Estar disposto a contribuir, antes mesmo de beneficiar-se com os resul- tados, é uma atitude que colabora para a motivação e participação para o bem coletivo. c) ( ) Entrar em uma associação apenas pela influência de outras pessoas ou para tirar benefício próprio possibilita que a associação se fortaleça. d) ( ) Esperar pela atuação dos outros e não assumir responsabilidades, bem como restringir a participação de interessados e de novas parcerias, é atitude que ajuda na cooperação coletiva. 2 O associativismo possui alguns princípios reconhecidos e utilizados para embasar as relações entre os associados. Considerando esse contexto, analise as seguintes asserções e a relação entre elas: I- São alguns dos princípios fundamentais do associativismo a adesão livre e voluntária e a gestão democrática dos sócios. PORQUE II- O primeiro princípio demonstra que as associações são organizações abertas à participação de todos os interessados e o segundo princípio indica que a administração e o processo de tomada de decisões são controlados pelos associados, através da participação nas votações e/ou na escolha dos representantes. a) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras. b) ( ) As asserções I e II são proposições falsas. c) ( ) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa. d) ( ) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira. 142 3 A organização em associações pode contribuir com muitas oportunidades para os produtores rurais. Sobre as vantagens do associativismo rural, é CORRETO afirmar que: a) ( ) Não possibilita maior poder de barganha ou de negociação, mesmo com o maior volume negociado, através da compra e venda coletiva. b) ( ) O compartilhamento de recursos de produção é um problema, gera discordâncias, pois todos querem utilizar os itens ao mesmo tempo. c) ( ) O associativismo não favorece o acesso a inovações tecnológicas e à capacitação técnica, já que as empresas governamentais fornecem a assistência técnica necessária. d) ( ) Possibilita diversificar a produção na propriedade, viabilizando as atividades rurais, estimulando a permanência no campo e o desenvolvimento territorial. 143 TÓPICO 3 CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Estudamos no tópico anterior a importância da cooperação e do associativismo. Agora vamos compreender como se identifica, como se organiza e quais os procedimentos de implementação e de funcionamento de uma associação de produtores rurais. Até 40 ou 50 anos atrás, o produtor rural orgulhava-se das poucas necessidades de compra, sendo muitas vezes representadas por poucos produtos, como sal, combustível, tecidos, entre outros bens de consumo. Naquela época, os produtores rurais tinham independência e autonomia sobre as condições que envolviam a produção e comercialização, realizando a troca de produtos da propriedade (leite, queijos, ovos, frutas e verduras etc.) por produtos “da cidade”. A forma de compreender a relação com a terra baseava-se no entendimento da cadeia produtiva “apenas dentro da porteira”. Com o passar do tempo e as inovações e tecnologias, a agricultura tornou-se mais especializada e dinâmica, sendo que o produtor rural tradicional teve que se tornar o administrador de um empreendimento rural. Nessa nova realidade, a cadeia produtiva é vista em toda a sua amplitude e as condições que influenciam a produção não estão mais limitadas às atividades dentro da propriedade. As atitudes dos fornecedores, dos mercados e dos consumidores têm influência sobre as tomadas de decisões dos produtores nas propriedades. Neste contexto, o associativismo apresenta uma importante oportunidade de aumento da capacidade produtiva, melhorando a eficiência de produção e a rentabilidade. Essa oportunidade está relacionada à organização coletiva, ao trabalho em cooperação e à possibilidade maior de competitividade em todas as atividades, tanto na compra de insumos quanto na produção e comercialização dos produtos agropecuários. 144 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 2 A CRIAÇÃO DE UMA ASSOCIAÇÃO Uma associação tem origem a partir de uma necessidade ou de uma oportunidade, compartilhada por um grupo de pessoas com os mesmos interesses (SENAR, 2011, p. 26). A organização tem como objetivo resolver os problemas em comum acordo, potencializar as ações individuais, além de servir de motivação para o enfrentamento de desafios futuros. A soma de vontades, recursos, equipamentos e instalações, anseios e necessidades possibilita a adoção de ações mais eficientes para identificar e resolver os problemas ou para obter outras oportunidades de interesse comum (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 29). Uma associação de produtores rurais é uma sociedade de pessoas sem fins lucrativos e econômicos, cujo funcionamento é regido pelo estatuto (MAPA, 2009, p. 11). Compreendido isso, já sabemos as motivações e o por que criar uma associação. Agora vamos entender o que deve ser feito ou como fazer para criar uma associação. IMPORTANT E Uma associação é uma sociedade civil sem fins lucrativos e sem fins econômicos, assim, esta pessoa jurídica não realiza operações comerciais como compra e venda. Pode, sim, possibilitar a compra e/ou a venda coletivas, através da organização dos produtores, intermediando a relação entre os associados e os fornecedores dos demais elos da cadeia de produção. As operações financeiras de uma associação caracterizam-se pela movimentação de recursos, em dinheiro ou em bens, obtidos através de taxas, mensalidades ou anuidades, doações, subvenções, entre outras formas de obtenção de recursos. 2.1 IDENTIFICAÇÃO DE INTERESSES E NECESSIDADES COMUNS O primeiro passo para a criação de uma associação é reunir pessoas com interesses e afinidades comuns para discutir o(s) assunto(s) (EMBRAPA, 2006, p. 8). Ao identificar os interesses, necessidades ou problemas que estimulem a união de um grupo de pessoas, há uma oportunidade de ações conjuntas para atender essas demandas coletivas (SENAR, 2011, p. 30). Essas conversas podem surgir nos encontros do dia a dia, em eventos festivos, em encontros familiares ou de vizinhança ou mesmo a partir de uma reunião organizada para esta finalidade. TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 145 IMPORTANT E Quando se identifica uma dificuldade ou problema em que não é possível atuar de forma isolada ou individual, a organização coletiva pode ser a melhor opção para encontrar os meios de resolver, mesmo que haja opiniões divergentes. Lembre-se: A união faz a força! Se você sozinho não consegue resolver uma situação, reúnam-se e discutam sobre a importância de fundar uma associação. Assim, de forma conjunta, os esforços têm mais chances de êxito. Neste momento, questões importantes podem ser levantadas, como: Quais problemas estão sendo importantes agora? Como podemos resolver e quais as formas de ação? Podemos trabalhar em equipe para resolver essa necessidade? Quem tem interesse de participar? Há custos para atender essa necessidade? Como serão pagos e/ou divididos? Qual a melhor forma de organização? Como e por que criar uma associação ou uma cooperativa? Precisamos conhecer ou aprender mais sobre o assunto? Onde e como buscar conhecimento? Há possibilidade de parceiros externos? Quem pode ajudar? Há convergênciade opiniões e de interesses? Há uma visão de futuro? Essas e outras questões podem ajudar a delinear um plano de ação para resolver uma necessidade identificada, mas que futuramente pode resultar na constituição de uma associação, uma cooperativa ou em outra forma de organização coletiva. Um bom planejamento possibilita que os objetivos sejam cumpridos, que todos saibam os procedimentos a serem adotados e que os integrantes se sintam envolvidos, integrados e motivados a colaborar. 2.2 O QUE FAZER PARA CRIAR UMA ASSOCIAÇÃO Não existe uma metodologia para a criação de uma associação, o que pode haver, sim, é a necessidade de união de pessoas para a resolução de problemas comuns. Destaca-se que os procedimentos de organização e constituição de uma associação de produtores rurais podem seguir diversas formas, dependendo das características de cada grupo (EMBRAPA, 2006, p. 9; MAPA, 2009, p. 11; SENAR, 2011, p. 30; CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 30). Para que uma associação possa realizar suas funções adequadamente e para possibilitar que seus membros possam usufruir de todos os benefícios e vantagens, é importante que essa organização coletiva esteja legalmente estruturada e formalmente registrada, conforme a legislação brasileira determina. 146 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO Uma proposta interessante e com subdivisões didáticas é apresentada por Cardoso, Carneiro e Rodrigues (2014a, p. 30-36). Nesta publicação, o SEBRAE – Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas apresenta um roteiro que serve de sugestão e pode auxiliar os interessados em como criar e constituir uma associação. Com essa finalidade, vamos observar um roteiro para a constituição de uma associação (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 30-36), que apresenta as seguintes etapas: • Fase 1: Sensibilização; • Fase 2: Constituição; • Fase 3: Pré-Operacional; • Fase 4: Operacional. Vamos analisar agora cada uma das fases propostas, identificando as necessidades e condições para o seu atendimento, apresentando os principais itens e atividades que envolvem a criação e constituição de uma associação rural. DICAS O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, além da Embrapa, disponibilizam documentos de fácil acesso e boa didática, estruturados para atender demandas da agricultura familiar na área do associativismo. Sob a forma de cartilhas ou manuais, são apresentadas as principais ações e exemplos de como organizar uma associação de produtores rurais. Nestes documentos há também modelos bem organizados de como elaborar a ata de fundação e o estatuto social. Outros modelos de documentos e requerimentos também são apresentados. Acesse e conheça: EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Como organizar uma associação. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2006, 45p. Disponível em: <https://ainfo. cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/11937/2/00078740.pdf>. Acesso em: 9 ago. 2018. MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Como criar e administrar associações de produtores rurais: Manual de orientação. Brasília: MAPA/ACS, 2009. 155p. Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/assuntos/cooperativismo-associativismo/ arquivos-publicacoes-cooperativismo/como-criar-e-administrar-associacoes-de- produtores-rurais.pdf>. Acesso em: 9 ago. 2018. 2.3 FASE 1: SENSIBILIZAÇÃO A primeira fase, chamada de sensibilização, está relacionada com a identificação de interesses e necessidades comuns, com a identificação das pessoas que podem se envolver e com a apresentação e reconhecimento das condições e oportunidades do trabalho em cooperação. TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 147 Essa etapa pode ser separada em três momentos (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 30-31): o contato inicial, a sensibilização propriamente dita e a apresentação dos resultados de cada etapa. Eles são organizados a partir de reuniões, convidando pessoas com interesses comuns, vizinhos, produtores com a mesma atividade, ou outros que desejam se envolver. O contato inicial busca esclarecer às pessoas a importância do tema, as características que motivaram a busca pela cooperação, as oportunidades e condições de organização, além das limitações e possibilidades de atuação, apresentando as informações de forma clara e simples. Nesta etapa, uma sugestão interessante pode ser o convite de membros de uma associação já estabelecida, de um técnico ou de um especialista para uma exposição ou palestra, apresentando as características e as possibilidades de uma situação real. Neste momento, as informações apresentadas devem orientar a escolha das pessoas presentes, sobre o seguimento do processo de organização da associação. Essa continuação da fase de sensibilização pode se caracterizar pela ampliação da mobilização, convidando outras pessoas, aumentando assim o número de novos interessados para uma reunião futura (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 30- 31). A identificação e apresentação de um problema comum podem ajudar nesta primeira mobilização (EMBRAPA, 2006, p. 10). Problemas que podem estimular a organização de produtores podem estar relacionados com: dificuldades de compra de insumos, pelo alto custo ou impossibilidade de entrega; baixo preço de comercialização da produção, por uma venda isolada em pequena quantidade; falta de infraestrutura adequada, exemplificada por estradas malconservadas, ausência de local adequado para o beneficiamento ou armazenagem; entre outras situações. A definição de objetivos de caráter mais geral também é importante. Os objetivos gerais são descritos no estatuto e expressam a finalidade ou a justificativa da existência da associação (SENAR, 2011, p. 30). Os objetivos de caráter mais específico estão relacionados aos projetos realizados pela associação, sendo constantemente renovados e redefinidos, de acordo com os interesses e as necessidades dos associados. Assim, o objetivo geral define o tipo de atividade a que a associação está se propondo realizar, enquanto os objetivos específicos se constituem em ações de referência, formas de planejamento e de organização, realizadas nas atividades do dia a dia da associação. Sugere-se definir objetivos simples para possibilitar a compreensão e participação de todos, porém não devem ser muito fáceis de serem alcançados, para não resultar na perda de razão da existência da associação, e nem muito difíceis, para não desestimular a participação dos associados (EMBRAPA, 2006, p. 11). A sensibilização propriamente dita, que pode ocorrer desde o primeiro encontro, tem como objetivo apresentar e sensibilizar os participantes sobre o tema, podendo aprofundar os assuntos discutidos, dependendo do envolvimento, do interesse e do empenho dos membros. Esse momento também serve para nivelar a compreensão entre os interessados, sobre as condições e possibilidades do trabalho cooperativo e da organização de uma associação, informando as 148 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO responsabilidades, as condições para a formalização, os direitos e deveres de cada um. Prosseguindo, pode-se direcionar tarefas mais específicas, onde grupos de pessoas possam se responsabilizar por trazer novas informações, sobre a elaboração de um estatuto ou sobre o processo de legalização e registro, por exemplo. Outros grupos de pessoas podem estudar e trazer propostas de como realizar a viabilização econômica e como atender necessidades de infraestrutura para o funcionamento da associação. Outros ainda podem se encarregar de discutir propostas de distribuição dos membros entre a diretoria e o conselho fiscal. Essas tarefas podem ser estruturadas em comissões provisórias que vão tratar das primeiras providências para possibilitar a formalização da associação e o início das atividades (SENAR, 2011, p. 31). A apresentação dos resultados ou tarefas distribuídas entre os grupos pode se constituirna etapa final da fase de sensibilização, podendo levar uma ou mais reuniões para a sua conclusão. Essa última etapa objetiva agrupar uma quantidade de dados e informações relevantes para que os interessados possam decidir sobre o tipo de organização (associação, cooperativa etc.) e as condições a serem definidas para o seguimento da fase de constituição da associação. Nessas reuniões finais devem ser estabelecidos os documentos e as condições de comum acordo que possibilitem a elaboração da versão final do estatuto e a realização da assembleia de constituição. Segundo o SEBRAE/PE (2018), é importante realizar algumas consultas prévias para evitar conflitos de interesse e condições que impossibilitem o registro da associação e/ou de participação de seus membros na diretoria ou no conselho fiscal. Dentre essas consultas prévias sugere-se (SEBRAE/PE, 2018): • Verificação de impedimentos legais entre os associados, junto à Receita Federal, que impossibilitem sua participação no Conselho de Administração ou no Conselho Fiscal da associação. • Consulta aos órgãos governamentais ou de competência (prefeitura etc.) sobre a disponibilidade do local da sede e sobre a possibilidade e condições de funcionamento. • Consulta no Registro Civil de Pessoa Jurídica para verificar a existência de nomes idênticos ou que possam resultar em confusão, necessitando alterar a identificação da associação. 2.3.1 O estatuto social da associação O estatuto social é o documento oficial que contém todas as descrições, regras e condições para o funcionamento da associação (MAPA, 2009, p. 13). O estatuto regula todas as intenções e as atividades da associação (SENAR, 2011, p. 31). O estatuto contém todas as informações sobre a associação e seus sócios, entre eles os direitos, os deveres e as formas de funcionamento e de atuação (EMBRAPA, 2006, p. 14). Por esta razão, o estatuto deve ser bem escrito, discutido e acordado entre os sócios, além de atender à legislação vigente. Ressalta-se a importância de discutir todos os itens do estatuto antes de sua aprovação sob a forma final. O estatuto social após aprovado na reunião de fundação da associação TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 149 deve ser registrado e cumprido pelos membros, sendo, além de um documento formal, um termo de responsabilidade e de cooperação entre os associados. No momento da organização do estatuto, os proponentes devem preocupar-se em atender às exigências dos órgãos de registro e de fiscalização, além da adequação à área de abrangência da associação (MAPA, 2009, p. 13). Para esta atividade, pode-se utilizar outros exemplos de estatutos de associações similares, servindo de modelo para a redação da versão final do estatuto da associação. Sugere-se também buscar o apoio de pessoas com experiência (técnicos, membros de outras associações etc.) ou com qualificação profissional (advogados, entre outros) para auxiliar na redação da versão final do estatuto social, antes de submeter à aprovação na assembleia de constituição. Segundo o Código Civil Brasileiro (Lei Federal, nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002), são pontos essenciais, que devem estar claramente definidos e descritos no estatuto social de associações (art. 54), sob pena de nulidade do registro (BRASIL, 2002): I - a denominação, os fins e a sede da associação; II - os requisitos para a admissão, demissão e exclusão dos associados; III - os direitos e deveres dos associados; IV - as fontes de recursos para sua manutenção; V - o modo de constituição e de funcionamento dos órgãos deliberativos; VI - as condições para a alteração das disposições estatutárias e para a dissolução; VII - a forma de gestão administrativa e de aprovação das respectivas contas. Destacam-se ainda outros itens importantes e que devem estar definidos no estatuto, como (EMBRAPA, 2006, p. 14-16; MAPA, 2009, p. 13; SENAR, 2011, p. 31): localização (endereço completo, podendo ser provisório), tempo de duração (geralmente indeterminado), objetivos, responsabilidades dos associados, patrimônio, estrutura da associação (assembleia geral, diretoria, conselho fiscal, contabilidade, livros, possibilidade e condições de reforma do estatuto, disposições gerais e ata de assembleia geral de constituição), competências e modo de funcionamento dos órgãos de administração e de deliberação e de regulação. Informações adicionais estão apresentadas no capítulo II (art. 53-61) do Código Civil (BRASIL, 2002). DICAS Todos os itens do estatuto social devem ser discutidos e aprovados nas assembleias gerais de constituição, bem como reformas podem ser implementadas após a sua aprovação nas assembleias gerais extraordinárias. Uma sugestão de critério para a exclusão de associados pode ser a partir da ausência em sequência e sem a devida justificativa, em um número mínimo de reuniões (por exemplo, três ou quatro). Isso pode evitar o constrangimento de realizar a solicitação de exclusão do associado, bem como possibilita maior autonomia e independência da associação em relação a esta situação particular. 150 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO O estatuto social ou ato constitutivo deve estar pronto para ser lido e aprovado na primeira reunião da associação, a assembleia de constituição (EMBRAPA, 2006, p. 14). 2.4 FASE 2: CONSTITUIÇÃO A criação da associação acontece no ato de constituição ou de fundação. Esse ato de constituição é uma etapa formal do processo de legalização da associação, devendo ocorrer durante a assembleia de constituição (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 32). Nesta assembleia, faz-se necessária a presença de todos os associados (EMBRAPA, 2006, p. 16; CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 32). Os presentes nesta reunião serão identificados como sócios fundadores da associação (EMBRAPA, 2006, p. 16; MAPA, 2009, p. 11). Para a constituição de uma associação, é necessário seguir alguns procedimentos oficiais para que a personalidade jurídica possa ser reconhecida e registrada perante a sociedade. O processo de criação de uma associação ocorre em uma reunião formalmente convocada em edital publicado em mídia(s) de acesso e com abrangência no território ou na condição em que a associação planeja representar (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 32). Essa reunião formalmente convocada é a Assembleia Geral de Constituição. O procedimento inicial durante a assembleia geral de constituição é a escolha democrática de dois participantes: um presidente e um secretário. A função destes dois membros escolhidos é realizar a condução das atividades neste ato de fundação da associação. O presidente dirige as atividades da reunião, enquanto o secretário realiza as anotações sobre as deliberações, o registro dos membros presentes e demais informações para possibilitar a elaboração da Ata de Constituição (EMBRAPA, 2006, p. 17; MAPA, 2009, p. 12). NOTA A Ata é um registro escrito, de comprovação formal e valor jurídico, sobre todos os acontecimentos e assuntos discutidos e decididos durante uma reunião ou uma assembleia. Assim, por ser um documento oficial, as atas apresentam um conjunto de normas e padrões técnicos que devem ser observados para sua correta redação. Algumas informações básicas que devem estar presentes na ata são: a abertura da reunião (data, horário, local, identificação etc.), a legalidade da reunião (disponibilidade de quórum ou número mínimo de sócios de presentes), o expediente da reunião (informação sobre a presença dos membros, avisos e leitura da ata da reunião anterior etc.), a ordem do dia (contendo as informações discutidas, sendo apresentadas em ordem cronológica e com o registro da votação, além de outras condições de discussão e deliberação) e o encerramento (com as considerações finais, resumo e conclusão das atividades). Todos os participantes devem assinar a ata. De forma geral, nas atas não se utilizam abreviações; não se separam parágrafos ou alíneas;todos os números são escritos por extenso; o texto não deve conter TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 151 correções, rasuras ou emendas; os verbos são usados no pretérito perfeito do indicativo (Por exemplo: fomos, redigiram, comprei etc.). Em caso de erro durante a redação, o secretário utiliza uma partícula retificadora no texto (Por exemplo: Aos dez dias do mês de julho, digo, de agosto de dois mil e dezoito...). Caso o erro seja percebido depois de lavrada a ata, a correção deve ser realizada sob a forma de uma errata ao final (Por exemplo: onde se lê julho, leia-se agosto). Podem-se encontrar exemplos de atas e de outros documentos importantes nas fontes da Embrapa e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, informadas anteriormente. Após a instalação da mesa diretora, inicia-se a discussão sobre a criação da associação, sendo apresentada a proposta de estatuto social, que deve ser lida, discutida e aprovada em sua forma total. Em seguida, para realizar a eleição e a posse da diretoria, a mesa diretora recebe a inscrição das chapas que concorrem e inicia-se a votação, podendo ser realizada por cargos ou por chapas. Concluída a votação, é realizada a apuração e em seguida é dada a posse aos membros da Diretoria e do Conselho Fiscal (MAPA, 2009, p. 12). Ao término é lavrada a ata da assembleia geral de constituição da associação, sendo assinada por todos. Esse é um dos documentos necessários para o registro civil da associação. A ata de constituição ou de fundação é o documento oficial que descreve a sequência de acontecimentos ocorridos durante a assembleia geral, devendo ser assinada pelo presidente e pelo secretário da assembleia geral de constituição, pelo presidente eleito e por todos os associados presentes (SENAR, 2011, p. 32). Quanto maior for a representatividade do grupo de fundadores, maiores serão as chances de sucesso da associação. Uma associação forte, ativa e com participação de seus membros estimula que novos produtores tenham interesse na adesão (MAPA, 2009, p. 11). No estatuto deve ser definido o valor referente à taxa de inscrição, também chamada de “joia”, para a adesão de novos associados, bem como deve estar estabelecido o valor da mensalidade ou da anuidade, a ser cobrada para possibilitar a operacionalização da associação (MAPA, 2009, p. 12; MAPA, 2012, p. 33). O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento recomenda que essas taxas possam ser determinadas com referência em percentuais calculados em relação ao salário mínimo (MAPA, 2009, p. 12). Ressalta-se que o patrimônio social (ou capital social) da associação também pode ser constituído por doações, fundos de reserva, entre outras fontes de recursos (MAPA, 2012, p. 33). 152 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 2.4.1 Registros da associação Há diversos registros que devem ser efetuados para que a associação possa atuar de forma legal e regular. Dependendo do tipo de associação, pode haver a necessidade de outros registros complementares. De forma geral, as associações de produtores rurais necessitam registrar-se (SENAR, 2011, p. 33-34; CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 33): • no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas ou no Cartório de Registro de Títulos e Documentos; • no órgão da Receita Federal; • na Secretaria Estadual da Fazenda; • no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS); • na Prefeitura Municipal. Para cada um destes registros há necessidade de pagamento de taxas e emolumentos que devem ser efetuados no momento de sua solicitação. Assim, recomenda- se fazer uma consulta dos valores cobrados, para possibilitar a acumulação dos recursos financeiros necessários para possibilitar esses registros. Dependendo do ramo de atividade, do local de instalação e do porte, outras licenças e registros podem ser necessários para possibilitar o funcionamento. Como exemplos podem ser: Licença ambiental (IBAMA ou de órgãos estaduais), Licença sanitária (órgãos federais, estaduais ou municipais de vigilância sanitária), Vistoria de cumprimento de normas de segurança (Corpo de Bombeiros), entre outras. Para auxiliar na obtenção dos registros da associação, sugere-se consultar um escritório de contabilidade, para obter instruções atualizadas sobre os procedimentos a serem adotados para cada situação. ATENCAO 2.4.1.1 Registro no cartório civil O registro da associação no cartório civil representa a “certidão de nascimento da associação”. Esse documento torna público que a associação existe oficialmente perante a sociedade, informando a(s) finalidade(s) de sua existência e os associados que a representam nas instâncias judicial e extrajudicial (MAPA, 2009, p. 24). TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 153 DICAS A Lei Federal nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, que dispõe sobre os registros públicos no Brasil, estabelece as condições para o registro civil de pessoas naturais, de pessoas jurídicas, de títulos e documentos e de imóveis (BRASIL, 1973). Como uma associação, formalmente constituída, é uma organização de pessoas sem fins lucrativos e econômicos, compreende uma forma de pessoa jurídica, devendo assim estar registrada e oficializada sob as condições da legislação em vigência. Para que o registro da associação no cartório civil possa ser realizado, é necessário reunir diversos documentos, sendo entre eles (MAPA, 2009, p. 24; CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 32-34): • Requerimento do presidente, solicitando o registro da associação e encaminhando os demais documentos, devendo estar assinado, com firma reconhecida e sendo apresentado em duas vias (uma original e uma cópia); • Estatuto Social aprovado na assembleia de fundação, devendo estar assinado por todos os sócios fundadores da associação, sendo apresentado em três vias (uma original e duas cópias, com assinaturas originais), além de estarem assinadas por um advogado habilitado (com registro na Ordem dos Advogados do Brasil – OAB); • Ata da Assembleia de Constituição da Associação, assinada por todos os associados, sendo apresentada em três vias (uma original, referente ao Livro Ata e duas cópias, com assinaturas originais); • Resumo do Estatuto, sendo denominado “extrato”, que deverá ser publicado no Diário Oficial do Estado onde a associação está instalada; • Relação dos associados fundadores e dos membros da diretoria eleita (Diretoria Executiva e Conselho Fiscal), informando a nacionalidade (país de nascimento) e naturalidade (cidade de nascimento), estado civil, profissão, número de documentos (RG e CPF) e endereço, sendo apresentada em duas vias; • Cópias dos documentos de todos os membros da diretoria eleita (Diretoria Executiva e Conselho Fiscal). Lembramos que outros documentos complementares ainda podem ser solicitados pelo oficial de registro no cartório civil. Após a obtenção do registro no cartório civil, o procedimento é solicitar o registro no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) junto à Receita Federal (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 34). 154 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO 2.4.1.2 Registro no órgão da Receita Federal O registro junto à Receita Federal possibilita a inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). Esse registro pode ser realizado de forma on-line, no endereço eletrônico da Receita Federal. Com o registro do CNPJ, pode- se solicitar os demais registros necessários para o funcionamento da associação, como o cadastro estadual e municipal, na Previdência Social (INSS) e os demais registros necessários para o início das atividades (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 35). Embora as associações não façam o recolhimento (pagamento) do imposto de renda, a declaração anual à Receita Federal é obrigatória para a continuidade das atividades (SENAR, 2011, p. 33). 2.4.1.3 Registro na Secretaria Estadual da Fazenda O registro junto à SecretariaEstadual da Fazenda possibilita a Inscrição Estadual. Esse registro é necessário quando a associação realiza algum tipo de movimentação financeira de mercadorias. Cada estado da federação possui suas próprias metodologias e formas de solicitação do registro de inscrição estadual. Consulte o endereço eletrônico da Secretaria de Estado da Fazenda disponível para o Estado de sua residência (SENAR, 2011, p. 34). 2.4.1.4 Registro no Instituto Nacional de Seguridade Social – INSS O registro junto ao INSS deve ser realizado pela associação, de forma a atender à legislação vigente (SENAR, 2011, p. 34). Essa solicitação pode ser feita através do endereço eletrônico junto à Previdência Social. A associação também deve providenciar a matrícula junto à Caixa Econômica Federal, para fins de regularização do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 35). 2.4.1.5 Registro na Prefeitura Municipal O registro junto à Prefeitura Municipal possibilita a obtenção do Alvará de Licença de Localização e de Funcionamento. Esses documentos são as autorizações de que a atividade pode ser realizada no município local (SENAR, 2011, p. 34). Com o alvará, as demais licenças podem ser solicitadas, como a sanitária, a ambiental, de polícia ou de bombeiros, entre outras. TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 155 2.5 FASE 3: PRÉ-OPERACIONAL Concluídas as etapas de constituição e registros, a associação estará devidamente legalizada para o exercício de suas atividades. Demais procedimentos de documentação e registro de informações de funcionamento da associação devem ser providenciados sob consulta de um escritório de contabilidade ou de advocacia. A fase pré-operacional é a etapa de estruturação da associação. Esse conjunto de atividades está relacionado com a organização do local e das condições para que a associação efetivamente funcione nas tarefas do dia a dia. Pode-se constituir a estruturação física das instalações, mobiliário e equipamentos, quando necessária a contratação de funcionário(s), a realização de abertura de conta bancária, entre outras atividades. A fase pré-operacional também inclui a consulta e verificação dos procedimentos jurídicos, contábeis, administrativos e financeiros para que se executem as atividades da associação de acordo com a legislação, possibilitando a realização das futuras prestações de contas, declarações e demonstrativos de forma correta (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 36). DICAS Há diversas instituições públicas e privadas que oferecem opções de cursos e treinamentos sobre a organização e administração de associações, bem como a respeito dos procedimentos a serem adotados. Esses treinamentos podem ser realizados tanto sob a forma presencial quanto à distância, pela internet. Se você estiver fazendo parte da organização de uma associação, pesquise onde e como essas oportunidades de capacitação podem contribuir. Lembre-se: Aprender nunca é demais! 2.6 FASE 4: OPERACIONAL A fase operacional é a etapa onde realmente as atividades que justificaram a existência da associação começam a ser desenvolvidas. Como a associação é caracterizada pela cooperação entre os sócios em busca de objetivos comuns, essa relação se desenvolve e se aperfeiçoa no dia a dia (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 36). A gestão administrativa apresenta um papel muito importante para que a associação possa exercer suas funções, para que os sócios se sintam valorizados e motivados e que os benefícios possam ser percebidos ao longo do tempo. Como já foi mencionado anteriormente, a associação somente funcionará se os associados se sentirem comprometidos e responsáveis com seus propósitos (CARDOSO; CARNEIRO; RODRIGUES, 2014a, p. 36). Neste caso, não há uma receita ou roteiro definido, devendo as atividades de todos serem pautadas pelos princípios e valores da cooperação e pelos princípios do associativismo. 156 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO A associação deve sempre buscar adequar-se constantemente às novas situações e oportunidades, sendo que essas mudanças devem ser frequentemente discutidas e aprovadas nas reuniões e assembleias (MAPA, 2012, p. 34). Essa condição deixa claro que as atividades da associação não são estáticas e fixas, sendo que a dinâmica da cadeia de produção agropecuária expõe a necessidade de ajustes e transformações constantes. Algumas recomendações para que a associação se mantenha ativa e que possibilitam boas relações entre os associados são listadas (EMBRAPA, 2006, p. 20-21): • Participe de todas as atividades da associação, como reuniões, assembleias, além de outras necessidades. • Pague suas contribuições em dia, de acordo com o estatuto e com as deliberações acordadas. • Respeite as decisões da maioria, embora seja importante apresentar e discutir sugestões e opiniões divergentes. • Assuma responsabilidades e cumpra os compromissos assumidos, de forma integral, com ética e nos prazos definidos. • Zele pelo patrimônio moral (“nome”) e material da associação, além do capital social (associados), cuidando para que se mantenha a confiança e o respeito perante a sociedade. • Apresente sugestões e participe de discussões para propor melhorias na administração e nos trabalhos da associação, nas atividades e na resolução de problemas apresentados nas assembleias ou em outras oportunidades. • Esteja disposto a candidatar-se a algum cargo da diretoria, participando e envolvendo-se nos assuntos da organização e administração da associação. 3 A ADMINISTRAÇÃO DE UMA ASSOCIAÇÃO A administração das associações envolve um processo de tomada de decisões democrático. Esse processo é realizado nas assembleias. A seguir serão apresentados os tipos de assembleias que podem ser convocadas. 3.1 ASSEMBLEIAS Uma associação, uma cooperativa ou um sindicato realizam as decisões através de uma reunião com a participação democrática de seus associados, as assembleias. As assembleias são as instâncias máximas de decisão da associação. A associação é constituída, tem sua organização e funcionamento estabelecidos e definidos pelo estatuto social, elegendo seus representantes (Diretoria executiva e Conselho fiscal) por deliberação nas assembleias gerais. TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 157 NOTA A deliberação refere-se ao processo de análise, reflexão, consultas e discussão de temas, em uma reunião ou assembleia, com o objetivo de tomar uma decisão. As assembleias gerais podem ser de três tipos (MAPA, 2009, p. 33): • a assembleia geral de fundação ou de constituição; • a assembleia geral ordinária (AGO); • a assembleia geral extraordinária (AGE). As assembleias gerais, ordinária e extraordinária, serão convocadas pelo presidente, através de edital de convocação, com informações sobre o local, data, horário e pauta de discussão devidamente expressas e publicadas com prazo mínimo para o conhecimento dos associados (cerca de 10 dias). As assembleias gerais também podem ser convocadas pela solicitação e vontade de um número mínimo de associados (no mínimo 20%), expressos no edital de convocação (NETO; JUNIOR, 2011, p. 25; SENAR, 2011, p. 46). As assembleias gerais devem ter um quórum mínimo de associados presentes (geralmente 2/3 do total de associados) para o início das atividades, podendo ser realizadas após o estabelecimento de quórum suficiente, através de convocações sucessivas (conforme deve estar definido no estatuto social) (SENAR, 2011, p. 48). 3.1.1 Assembleia geral de fundação ou de constituição A assembleia geral de fundação ou de constituição reúne os interessados para fundar a associação. São assuntos deliberados na assembleia geral de fundação (MAPA, 2009, p. 33): • discutir e aprovar o estatuto social; • eleger a diretoria executiva e o conselho fiscal; • elaborar a ata de constituição, sendo os membros chamados de sócios fundadores. 3.1.2 AssembleiaGeral Ordinária (AGO) A Assembleia Geral Ordinária (AGO) é realizada anualmente, geralmente no primeiro quadrimestre (janeiro a abril), para o exame das contas, análise das ações da associação no ano anterior e apresentação dos planos para o ano seguinte. Pode-se ainda realizar a renovação parcial ou total dos membros da diretoria executiva e do conselho fiscal (MAPA, 2009, p. 33). São assuntos deliberados na assembleia geral ordinária (AGO): 158 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO • a prestação de contas do ano anterior, compreendendo a análise de relatórios de gestão, de balanço patrimonial, demonstrativos financeiros, pareceres do conselho fiscal, pareceres de auditorias independentes (quando for necessário ou solicitado), entre outros; • a proposta de destinação dos resultados (no caso de cooperativas, como veremos mais adiante, na Unidade 3) e de projetos e planejamentos futuros; • a eleição de novos membros da diretoria e do conselho fiscal; • demais assuntos de interesse, com exceção daqueles de competência exclusiva da assembleia geral extraordinária (AGE). 3.1.3 Assembleia Geral Extraordinária (AGE) A Assembleia Geral Extraordinária (AGE) é realizada sempre que houver necessidade, para deliberar sobre assuntos não rotineiros, como alienação de bens imóveis para contratação de empréstimos, destituição de membros da diretoria ou dissolução da associação (MAPA, 2009, p. 33). São assuntos deliberados na assembleia geral extraordinária (AGE): • reformulação ou readequação do estatuto social; • destituição (parcial ou total) de membros da diretoria e/ou do conselho fiscal; • alterações na estrutura da associação, como mudanças de objetivo, fusão, incorporação, entre outras; • dissolução da associação, nomeação de liquidantes, destinação patrimonial, entre outras. 3.2 ATRIBUIÇÕES DOS MEMBROS DA DIRETORIA E DO CONSELHO FISCAL Os membros da diretoria não são os “donos” da associação. Os membros da diretoria são voluntários, escolhidos e eleitos democraticamente pelos associados para conduzir as atividades da associação por um tempo determinado. As condições, o tempo de atividade, a descrição dos cargos e as suas atribuições devem estar descritos no estatuto social. Podemos dividir os membros da diretoria em dois: a diretoria executiva e o conselho fiscal. A Diretoria Executiva refere-se aos cargos da diretoria, responsáveis pelas atividades de administração, comando e direção da associação. No mínimo, uma associação deve ser composta por quatro cargos de diretoria executiva: o presidente, o vice-presidente, o secretário e o tesoureiro (SENAR, 2011, p. 34). Uma associação também pode prever, no estatuto, a existência de outros cargos de diretoria, dependendo dos interesses, necessidades e finalidades, por exemplo: um diretor de patrimônio, um diretor cultural, um diretor social, um diretor esportivo, entre outros (NETO; JUNIOR, 2011, p. 20). O Conselho Fiscal refere-se aos cargos da diretoria responsáveis pelas atividades de fiscalização das ações da administração da associação. No mínimo, o conselho fiscal de uma associação deve ser composto por três membros efetivos (SENAR, 2011, p. 37). TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 159 Além da diretoria executiva e do conselho fiscal, o estatuto pode prever a criação de um Conselho Deliberativo (ou Conselho de Administração), que é um órgão não obrigatório, sendo suas funções e a eleição dos membros, subordinados à assembleia geral. Este é um órgão intermediário entre a assembleia geral e a diretoria executiva, com função de contribuir para o entendimento e funcionamento da associação (NETO; JUNIOR, 2011, p. 20). Fique atento, apenas para evitar confusão! Em muitas situações, os membros do Conselho de Administração são identificados como os cargos da Diretoria ou da Diretoria Executiva da associação, enquanto os membros do Conselho Fiscal são identificados como Conselheiros Fiscais. Uma associação é uma pessoa jurídica que é administrada coletivamente. Assim, mesmo que alguns membros participem de cargos administrativos, todos os demais membros podem participar da administração e das decisões da associação. ATENCAO 3.2.1 Atribuições da diretoria A diretoria deverá se reunir com frequência regular (mensal ou conforme a necessidade) ou de forma extraordinária, através de convocação por qualquer de seus membros ou por solicitação do conselho fiscal. A diretoria será considerada reunida com a participação de um número mínimo de membros conforme estabelecido no estatuto, sendo necessário que seja lavrada ata de cada reunião, contendo a assinatura de todos os presentes e a descrição das resoluções deliberadas (SENAR, 2011, p. 35). A diretoria executiva possui diversas atribuições, principalmente (NETO; JUNIOR, 2011, p. 14-16; SENAR, 2011, p. 34-35): • propor normas, orientar e controlar as atividades e serviços da associação; • analisar e aprovar os planos de atividades, orçamento e programas de investimento da associação; • propor à assembleia geral o valor da contribuição dos associados, além de fixar taxas destinadas à cobertura de despesas operacionais ou de outra natureza; • contrair obrigações, adquirir ou alienar (transferir) bens móveis e equipamentos; • adquirir, alienar (transferir) ou onerar bens imóveis, com expressa autorização da assembleia geral; • indicar os bancos onde serão realizadas as movimentações financeiras e os depósitos e aplicações monetárias mantidos pela associação; • criar comissões ou comitês especiais e nomear os responsáveis, distribuindo os cargos entre os membros associados; 160 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO • estabelecer normas de admissão e de demissão de funcionários, bem como propor a contratação de serviços e consultorias, quando necessário; • zelar pela manutenção das obrigações e disposições legais e pelo cumprimento do estatuto e demais deliberações aprovadas pela assembleia geral; • deliberar sobre a convocação da assembleia geral; • apresentar à assembleia geral ordinária os relatórios referentes ao balanço patrimonial, ao demonstrativo de contas e de resultados durante o exercício (ano de atividade), além de informativos de outras atividades da associação, bem como o parecer do conselho fiscal. 3.2.1.1 Atribuições do presidente O presidente é o representante oficial da associação, sendo exercida internamente (nas atividades da diretoria e na assembleia geral) e externamente (ao representar a associação em eventos, audiências etc.) (NETO; JUNIOR, 2011, p. 17). São atribuições do presidente (NETO; JUNIOR, 2011, p. 17-18; SENAR, 2011, p. 36): • convocar e presidir as reuniões da diretoria e das assembleias gerais; • nomear e demitir os titulares de cargos de comissões e comitês, além de funcionários da associação; • representar a associação nas atividades externas, de acordo com o que está estabelecido no estatuto; • determinar e autorizar o pagamento de despesas, contas e compras da associação; • apresentar os relatórios de gestão, os balanços anuais de contas e o parecer do conselho fiscal à assembleia geral. 3.2.1.2 Atribuições do vice-presidente O vice-presidente tem como atribuições estar à disposição e em condições de assumir as atividades da associação na ausência ou no impedimento das atribuições do presidente, podendo também assumir outros cargos na administração, desde que previstos no estatuto (NETO; JUNIOR, 2011, p. 18). 3.2.1.3 Atribuições do secretário O secretário é o responsável pela organização dos documentos e comunicados oficiais da associação (NETO; JUNIOR, 2011, p. 18). O cargo de secretário pode ser complementado com um segundo secretário (secretário adjunto), que pode colaborar com o secretário geral (primeiro secretário) na organização da documentação, além de sua substituição em caso de ausência. São atribuições do secretário (NETO; JUNIOR, 2011, p. 18; SENAR, 2011, p. 36): TÓPICO 3| CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 161 • lavrar as atas das reuniões da diretoria e das assembleias gerais, mantendo sob sua responsabilidade os livros atualizados e corretamente documentados; • elaborar e enviar correspondências, relatórios e outros documentos da associação; • substituir as funções do vice-presidente em caso de ausência ou impedimento. 3.2.1.4 Atribuições do tesoureiro O tesoureiro ou diretor financeiro é o responsável pela organização e administração dos recursos financeiros da associação (NETO; JUNIOR, 2011, p. 19). Da mesma forma que para o cargo de secretário, o tesoureiro pode ser complementado com um segundo tesoureiro, que pode colaborar com o primeiro tesoureiro nas suas atividades, e eventualmente substituí-lo. Para a realização de movimentação bancária, celebração de contratos de qualquer natureza, cessão de direitos ou outra atividade que implique alterações no patrimônio ou nos recursos da associação, há a necessidade de assinatura de pelo menos dois diretores (SENAR, 2011, p. 37). São atribuições do tesoureiro (NETO; JUNIOR, 2011, p. 19; SENAR, 2011, p. 37): • arrecadar as receitas (mensalidades ou anuidades), emitindo os respectivos recibos, e realizar o depósito e aplicações na instituição bancária designada pela presidência (ou diretoria); • determinar e proceder os pagamentos de despesas da associação, após a autorização da presidência; • proceder à escrituração do livro caixa, mantendo-o sob sua responsabilidade; • zelar pela manutenção da ordem e pela atualização da contabilidade da associação, disponibilizando e realizando as devidas informações à diretoria ou ao conselho fiscal, quando solicitado; • assinar, juntamente com o presidente, os cheques ou aprovar outras formas para o pagamento de despesas da associação; • apresentar o balanço parcial de receitas e despesas nas reuniões ordinárias da diretoria, além do balanço geral (anual) na assembleia geral; • realizar o recolhimento das obrigações fiscais, tributárias, previdenciárias, entre outras (declaração de imposto de renda etc.), de responsabilidade da associação; • verificar, controlar e manter registrados os documentos relacionados com as receitas e as despesas da associação; • substituir o secretário na ausência ou impedimento de suas funções. 3.2.2 Atribuições do conselho fiscal A função do conselho fiscal é realizar a análise e fiscalização da administração realizada pela diretoria executiva da associação. O conselho fiscal faz o controle e emite opiniões através de pareceres, que serão apresentados aos associados nas assembleias gerais. O conselho fiscal é um órgão independente 162 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO da diretoria e da administração da associação, buscando através de princípios de transparência, equidade e prestação de contas, contribuir para o melhor desempenho da associação (IBGC, 2007, p. 9). O conselho fiscal poderá se reunir com frequência regular e com a participação de um número mínimo de membros, conforme estabelecido no estatuto, sendo necessário que seja lavrada ata de cada reunião em livro próprio, contendo a assinatura de todos os presentes e a descrição das resoluções deliberadas (SENAR, 2011, p. 37-38). Os membros do conselho fiscal não podem exercer nenhuma função na diretoria administrativa (NETO; JUNIOR, 2011, p. 28). O conselho fiscal possui diversas atribuições, principalmente (NETO; JUNIOR, 2011, p. 28): • fiscalizar as atividades e a gestão administrativa e financeira da associação; • reunir-se, pelo menos uma vez por ano, com a diretoria executiva para a apreciação das contas da associação; • examinar toda a documentação contábil, que deve ser disponibilizada pelo tesoureiro sempre que solicitado; • emitir parecer sobre o balanço anual, sobre a previsão orçamentária e sobre as atividades da diretoria executiva, sendo que os pareceres deverão ser apresentados e aprovados na assembleia geral. DICAS O conselho fiscal é um órgão de grande importância em uma associação. Você pode conhecer melhor as atribuições e competências, os procedimentos e as responsabilidades do conselho fiscal. Estas informações, além de modelos de documentos e de requerimentos, podem ser encontradas em: IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Guia de orientação para o conselho fiscal. São Paulo: IBGC, 2. ed. 2007, 80p. Disponível em: <http://www.ibgc.org.br/userfiles/1. pdf>. Acesso em: 16 ago. 2018. 3.3 CUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES LEGAIS A associação é uma pessoa jurídica e quando regularmente registrada e cadastrada, necessita cumprir algumas exigências legais de fiscalização e de controle. Algumas dessas exigências estão destacadas abaixo (SENAR, 2011, p. 38; SENAR, 2015, p. 30): • obedecer às obrigações do estatuto, não remunerando os dirigentes, exceto nos casos previstos e de acordo com a legislação; TÓPICO 3 | CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DAS ASSOCIAÇÕES RURAIS 163 • aplicar integralmente no país os seus recursos, através de ações de desenvolvimento; • manter livros atualizados e corretamente preenchidos, para facilitar o preenchimento da Declaração de Isenção de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ); • manter o registro dos seguintes livros (escrituração contábil completa): Livro de matrícula de associados, Livro de atas de reunião da diretoria executiva, Livro de atas de reunião do conselho fiscal; Livro de atas da assembleia geral; Livro de presença de associados às assembleias, outros livros fiscais e contábeis exigidos pela legislação e/ou estatuto social; • efetuar o controle de numerário financeiro (valores monetários em caixa e em aplicações bancárias), a partir do controle e manutenção de extratos bancários mensais; • emitir e controlar as notas fiscais de prestação de serviços e de outras atividades, mantendo-os conservados por pelo menos cinco anos; • realizar anualmente a Declaração de Isenção de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica; • recolher as taxas, impostos e demais contribuições estabelecidas na legislação; • assegurar a destinação de seu patrimônio a outra instituição (pessoa jurídica) que atenda às condições legais ou a órgão público, não distribuindo qualquer parcela, item ou renda a pessoa física, em casos de incorporação, fusão, cisão ou extinção da associação. 3.4 PLANEJAMENTO E AÇÕES DO DIA A DIA DA ASSOCIAÇÃO As atividades e ações que possibilitam o funcionamento da associação devem ser muito bem planejadas, envolvendo a definição de prioridades e a adoção de mecanismos de controle bem estabelecidos e de fácil utilização (SENAR, 2011, p. 41). As atividades do dia a dia são executadas por todos os associados, embora a diretoria executiva tenha assumido algumas tarefas administrativas, todos têm responsabilidade perante os planejamentos e ações em benefício da associação. As reuniões da diretoria devem seguir as mesmas orientações básicas estruturadas para as reuniões com todos os associados. No entanto, as reuniões são os momentos de encontro dos associados, onde se pode discutir problemas e soluções, apresentar novas propostas, compartilhar informações, possibilitar a capacitação técnica, apresentar indicações de orçamento, além de ser um momento de encontro e de confraternização entre os associados e suas famílias. Por isso, para que os associados mantenham a confiança e o otimismo perante a participação na associação, o planejamento das reuniões deve ser feito com muito critério e cuidado. O ideal é realizar reuniões com frequência regular (mensal, a cada dois meses, ou como definido entre os associados), de forma a possibilitar encontros constantes entre os associados, evitando longos períodos de distanciamento. 164 UNIDADE 2 | ORGANIZAÇÃO SOCIAL, COOPERAÇÃO E ASSOCIATIVISMO Algumas sugestões são propostas para a organização e condução de reuniões em associações de produtores rurais (SENAR, 2011, p. 41-45): • defina de forma clara e objetiva a necessidade da reunião;• estabeleça o tempo aproximado de duração; • procure definir previamente a data e horário, por exemplo: a primeira segunda- feira de cada mês, às 19h30min; • elabore uma lista de presença dos participantes, pois pode haver convidados que não sejam membros da associação; • programe os temas e decisões a serem discutidos, devendo ser apresentados de forma objetiva, simples e clara; • apresente os temas prioritários no início da reunião, para obter maior atenção e participação dos associados; • aproveite a oportunidade para estimular a capacitação técnica dos associados, convidando palestrantes, técnicos ou representantes comerciais, que possam apresentar conhecimentos, inovações ou tecnologias de interesse para os associados; • prepare com antecedência a documentação, as instalações e os equipamentos necessários; • considere a possibilidade de uma breve confraternização entre os associados e suas famílias, disponibilizando bebidas e comidas ao final da reunião; • mobilize e comunique antecipadamente os participantes sobre a data e a pauta da reunião, podendo ser através de telefone, e-mail, redes sociais ou por grupos de troca de mensagens via telefone celular; • conduza a reunião com pontualidade, cordialidade e respeito a todos; • apresente os convidados, que podem ser: um profissional técnico, representante comercial, membro da comunidade, interessado em se associar, entre outros; • informe a importância da pauta da reunião e sobre a oportunidade e necessidade de participação dos associados; • conduza as discussões com foco nos objetivos, deixando os inscritos se manifestarem e oportunizando os debates, chegando a um acordo em comum para cada um dos temas; • conclua a reunião fazendo um resumo sobre todos os temas que foram apresentados e quais foram as decisões tomadas; • registre tudo o que foi discutido em um livro de atas de reuniões e solicite para que todos os participantes tomem conhecimento e assinem; • agradeça a presença, agende a próxima reunião e convide os participantes para um momento de confraternização. 165 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • O primeiro passo para a criação de uma associação é reunir pessoas com interesses e afinidades comuns. • Não existe uma metodologia para a criação de uma associação, porém o seguimento de algumas etapas pode favorecer os procedimentos de constituição e de legalização. • A fase de sensibilização está relacionada com a identificação de interesses comuns, bem como agrupamento de dados e de informações relevantes para a elaboração dos documentos necessários para a realização da assembleia de constituição. • O estatuto social é o documento oficial que contém todas as descrições, regras e condições para o funcionamento da associação. • A fase de criação da associação acontece no ato de constituição ou de fundação. • Há necessidade de diversos registros, que devem ser efetuados para que a associação possa atuar de forma legal e regular. • A fase operacional é a etapa onde realmente as atividades que justificaram a existência da associação começam a ser desenvolvidas. • A administração e a execução das atividades de uma associação envolvem a participação democrática de seus associados nas assembleias. • A diretoria executiva e o conselho fiscal são ocupados por associados eleitos e que possuem diversas atribuições para o funcionamento da associação. • Há diversas obrigações que devem ser cumpridas, além da importância do controle e do planejamento em todas as atividades, para fortalecer benefícios da associação. 166 Caro acadêmico, para fixar melhor os conteúdos apresentados sobre a constituição e funcionamento de associações rurais, sugere-se alguns exercícios sobre esta unidade. Leia as questões, relembre sobre o que foi estudado e responda aos exercícios propostos. 1 A criação de uma associação envolve várias etapas, sendo a identificação de interesses e necessidades comuns a mais importante delas. Sobre a criação de associações, é CORRETO afirmar que: a) ( ) A identificação de pessoas que desejam se envolver e trabalhar em cooperação é uma etapa dispensável do processo de organização coletiva de uma associação. b) ( ) A formação de grupos de trabalho que possam se encarregar de obter dados e informações para a elaboração do estatuto social pode ser feita após a fundação da associação. c) ( ) O estatuto social é o documento oficial que contém todas as descrições sobre a associação e deve estar pronto para ser lido e aprovado na primeira reunião da associação. d) ( ) Após a criação da associação, que acontece na assembleia de constituição, não é necessário fazer o seu registro, pois os custos são elevados, além da exigência de muitos documentos. 2 A assembleia geral de constituição é o evento de fundação da associação. Diversas atividades são realizadas nesta reunião, sendo importante seguir alguns procedimentos para que os registros possam ser realizados e a associação possa atuar de forma regular. Considerando esse contexto, analise as seguintes asserções e a relação entre elas: I- A sequência de atividades realizadas na assembleia geral de constituição envolve a escolha democrática da mesa diretora, a análise e aprovação do estatuto social e a eleição e posse da primeira diretoria e do conselho fiscal. ALÉM DISSO II- A ata de constituição deve ser lavrada, informando, de forma sequencial, to- dos os eventos ocorridos na assembleia geral de constituição, bem como deve ser assinada por todos os participantes, identificados como sócios fundadores. a) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras. b) ( ) As asserções I e II são proposições falsas. c) ( ) A asserção I é uma proposição verdadeira e a II é uma proposição falsa. d) ( ) A asserção I é uma proposição falsa e a II é uma proposição verdadeira. AUTOATIVIDADE 167 3 A diretoria executiva é democraticamente eleita para administrar e organizar as atividades da associação durante o período de sua vigência. Sobre as atividades da diretoria executiva, é CORRETO afirmar que: a) ( ) O presidente é o responsável pela associação, podendo comandar e decidir isoladamente sobre as ações mais adequadas para a associação. b) ( ) O secretário é um cargo muito importante, pois é ele quem cuida dos recursos financeiros da associação, prestando contas e cumprindo as obrigações fiscais. c) ( ) O tesoureiro é o responsável pela organização da documentação e comunicados da associação, tendo a atribuição de lavrar todas as atas das reuniões e assembleias. d) ( ) Embora a diretoria executiva (presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro) seja eleita para administrar a associação, todos os associados devem participar e se responsabilizar para que a associação funcione. 168 169 UNIDADE 3 COOPERATIVISMO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • contextualizar o histórico do movimento cooperativista; • apresentar os princípios, valores, símbolos e ramos de cooperativismo; • identificar as características que diferenciam as associações, as cooperativas e as empresas; • conhecer a estrutura e o processo de organização de uma cooperativa; • apresentar as vantagens e dificuldades de uma organização cooperativista; • conhecer os procedimentos para a criação, registro, funcionamento e administração da cooperativa, além das funções e responsabilidades dos associados. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – HISTÓRICO E IMPORTÂNCIA DO COOPERATIVISMO TÓPICO 2 – ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO COOPERATIVISMO TÓPICO 3 – CONSTITUIÇÃO E ADMINISTRAÇÃO DAS COOPERATIVAS 170 171 TÓPICO 1 HISTÓRICO E IMPORTÂNCIA DO COOPERATIVISMO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Estudamos na unidade anterior as condições relacionadas a organização social, trabalho rural,importância da cooperação e as características do associativismo, abordando a constituição e o funcionamento de uma associação rural. Nesta unidade, daremos ênfase à compreensão do cooperativismo, abordando os aspectos históricos, a estrutura e organização de uma cooperativa, além dos procedimentos de administração e funcionamento. Este primeiro tópico apresenta uma contextualização e um histórico do surgimento do cooperativismo, além de uma breve discussão sobre a economia solidária. Também é feita uma classificação dos tipos de cooperativas e são apresentadas as formas de representação do sistema cooperativo. Objetiva-se que os conteúdos abordados possam melhorar a compreensão das condições que resultaram no surgimento do cooperativismo e das condições de organização e de representação no mundo e no Brasil. A Unidade 3 finaliza este Livro de Estudos sobre o associativismo e cooperativismo. Prossiga seus estudos, conhecendo um pouco mais sobre o Cooperativismo, sua importância e as suas contribuições para as cadeias de produção do agronegócio. Lembre-se, todos juntos somos fortes. Bons estudos! UNIDADE 3 | COOPERATIVISMO 172 2 CONTEXTO HISTÓRICO DO SURGIMENTO DO COOPERATIVISMO Verificamos, na unidade anterior, que existem muitos exemplos de cooperação, tanto na natureza quanto ao longo da história de evolução da vida humana, desde o período da pré-história. Entre os povos das civilizações antigas também havia muitos relatos e documentos que comprovam a importância da cooperação no desenvolvimento de diversas atividades, como: agricultura, migração, habitação, artes e religião, convívio social, entre outros. Além do esforço para a sobrevivência, a cooperação também estava presente e aproximava as pessoas em torno de valores, crenças e hábitos de vida. A formação das atividades cooperativas como verificamos atualmente se deu a partir de um contexto histórico, social, econômico e geográfico, relacionado com a vida na Europa a partir da segunda metade do segundo milênio. Desde o século XVII, estudiosos buscavam compreender e estabelecer modelos de desenvolvimento econômico, de organização social e de estrutura do trabalho. Diversas experiências e ideias eram propostas, testadas e discutidas em países como Inglaterra, França, Alemanha, entre outros (OCESC, 2013, p. 13). Durante esse período, as grandes navegações impulsionavam a atividade mercantil, principalmente pela chegada e oferta de novos produtos. Assim, a expansão do comércio internacional resultou no aumento da riqueza na Europa. A formação de uma burguesia com alto poder de investimento, tanto em projetos de inovação quanto no aperfeiçoamento das técnicas de produção e de manufatura, possibilitou o desenvolvimento e a ampliação industrial. Na Europa do século XVIII, diversas transformações nas relações sociais e de trabalho estavam sendo estruturadas, principalmente a partir das aplicações práticas da doutrina econômica liberal, concebida pelo filósofo e economista escocês Adam Smith (Reino Unido: 1723 a 1790). Segundo essa visão, que previa o afastamento do papel do Estado nas relações com a sociedade, os governos deveriam assegurar apenas condições básicas, como: paz e segurança, desobrigando-se assim de promover condições relacionadas à qualidade de vida das pessoas, como: educação, saúde, trabalho, habitação, entre outros. Assim, o liberalismo condicionava para as pessoas a busca pelas alternativas de resolver os seus problemas de sobrevivência (SESCOOP/OCB, 2017, p. 42). Pela interpretação de Adam Smith, ao buscar a satisfação do interesse particular, o indivíduo atende aos interesses da sociedade de forma mais eficaz. Porém, os efeitos práticos não seguiam essa proposta, pois ao buscar a produtividade em nome da competitividade, as pessoas não eram a prioridade, e sim o lucro (SALES, 2010), o que resultava em enorme desigualdade, pobreza e descontentamentos. Esse contexto histórico, relacionado à organização do Estado Liberal, ganhou importância e tornou-se mais poderoso com a Revolução Industrial (da segunda metade do século XVIII à primeira metade do século XIX). A adoção de máquinas possibilitou o aumento da produtividade e dos lucros, alavancando TÓPICO 1 | HISTÓRICO E IMPORTÂNCIA DO 173 a economia e a dominação social e política (Figura 1). No entanto, surgiram consequências, como a exclusão social, o êxodo rural, desemprego expressivo, salários baixíssimos, péssimas condições de trabalho, jornadas extremamente longas de trabalho. Além disso, as mulheres e crianças também realizavam trabalhos com remuneração extremamente baixa. Com a introdução das máquinas, em substituição ao trabalho manual, aumentou a pressão na sociedade e a insatisfação entre os trabalhadores (Figura 2). Essa situação resultou em enorme desigualdade social e miséria (SENAR, 2015, p. 40; SESCOOP/OCB, 2017, p. 42). FIGURA 1 – FILME “TEMPOS MODERNOS” (1936), DO CINEASTA BRITÂNICO CHARLES CHAPLIN FONTE: Disponível em: <http://culturaefe.com.br/2018/a-revolucao-do-trabalho-e-a-fe-crista/>. Acesso em: 20 ago. 2018. DICAS Muitos filmes e registros do comediante britânico Charles Spencer Chaplin (1889-1977) faziam críticas e apresentavam de forma sarcástica as dificuldades e as situações enfrentadas pelos trabalhadores em vários aspectos da vida cotidiana. Esse ator ficou caracterizado pelas suas interpretações na era do cinema mudo, empregando a mímica e outras formas de comunicação para a transmissão das mensagens. UNIDADE 3 | COOPERATIVISMO 174 No clássico filme “Tempos Modernos” (1936), o personagem icônico “O Vagabundo”, em meio às grandes máquinas, tenta sobreviver e se adaptar às mudanças do mundo moderno e industrializado. De forma cômica e crítica, mostra-se a inadequação de um operário frente ao trabalho alienado, tentando se adaptar à realidade de produção em massa, ao permanecer entre grandes máquinas e em condição de exploração do trabalho. No Brasil, o personagem “O vagabundo” também é conhecido como “Carlitos”. Ao final do filme, Chaplin deixa uma de suas importantes mensagens: “Não sois máquinas! Homens é que sois!”. FIGURA 2 – ILUSTRAÇÃO MOSTRA INSATISFAÇÃO DOS TRABALHADORES DURANTE A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL FONTE: Disponível em: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/old-illustration-workers- riot-hazard-cool-72678259?src=3dx90Kw4kfy4m5q_vQ-B2A-1-21>. Acesso em: 25 ago. 2018. O trabalho em cooperação “aparece”, através de diversos estudiosos e idealistas, como uma forma de solucionar os problemas sociais e econômicos relacionados com o liberalismo e com o capitalismo, caracterizados pela concentração de poder e riqueza em uma minoria da população. A possibilidade de acesso a bens e serviços, além de condições menos desiguais de trabalho e de vida social, foram os estímulos para o surgimento das primeiras organizações cooperativas (SESCOOP/OCB, 2017, p. 42). TÓPICO 1 | HISTÓRICO E IMPORTÂNCIA DO 175 3 HISTÓRICO DO COOPERATIVISMO MODERNO Ao longo deste período, essas experiências foram se adequando através de diferentes formas associativas e da aplicação prática das diversas propostas de pensamento. Também foram se ajustando aos modelos que possibilitavam a viabilidade social e financeira aos empreendimentos coletivos, possibilitando sua inserção no sistema de desenvolvimento econômico. Nesse contexto, apareceram as iniciativas que originaram o cooperativismo como é identificado atualmente. 3.1 PRECURSORES DO COOPERATIVISMO As ideias e experiências práticas de alguns estudiosos para enfrentar as desigualdades econômicas e injustiças sociais resultaram em propostas para o combate à forma como a sociedade europeia estava organizada. Estes estudiosos são reconhecidos atualmente como os precursores do cooperativismo (OCESC, 2013, p. 14-15). Embora todos eles tenham tido um papel importante na formação do sistema de trabalho cooperativo, a origem do cooperativismo deu-se através da necessidade de superação das pessoas frenteàs condições desiguais e insustentáveis de sobrevivência. Essas propostas são conhecidas como experiências pré-cooperativas, que consistiam de ajuda mútua, cooperação, solidariedade e práticas associativas, estruturadas em uma sociedade onde a compreensão de valor e lucro ainda estava em formação. Na Inglaterra e na França, essas ações pré-cooperativas foram protagonizadas e serviram de influência para a origem da primeira cooperativa moderna, em Rochdale, na Inglaterra. Porém, em todos os continentes, iniciativas anteriores também foram experimentadas (SESCOOP/OCB, 2017, p. 44). No século XVII, o holandês Peter Cornelius Plockboy publicou em 1659 um panfleto onde incentivava a formação de grupos econômicos de agricultores, artesãos, entre outros, com organização em associações de cooperação. Já o inglês John Bellers, em 1695 sugeriu a formação de colônias de trabalho, publicada na obra Proposals for Raising a College of Industry of All Useful Trades and Husbandry. Do ponto de vista histórico, existem muitos dados e documentos que sugerem experiências pré-cooperativas que apresentaram funcionamento como pequenas organizações comunitárias em diversas regiões da Europa Ocidental, na América do Norte e no Japão em meados do século XIX. As missões ou reduções jesuíticas no sul da América do Sul, durante o século XVII, também foram exemplos de sociedades baseadas na cooperação (SESCOOP/OCB, 2017, p. 42). Porém, os pioneiros de Rochdale (1844) são considerados os fundadores do movimento cooperativista moderno (ICA, 2018b). Entre os precursores do cooperativismo que defendiam propostas baseadas nas ideias de ajuda mútua, igualdade, associativismo e autogestão, destacam-se: UNIDADE 3 | COOPERATIVISMO 176 - Robert Owen (Inglaterra: 1771 a 1858): socialista galês, foi o primeiro pensador a empregar o termo cooperativa. Com origem em uma família de artesãos, tornou-se um industrial e se destacou por promover a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. Realizou reformas como a redução do número de horas diárias trabalhadas de 16 para 10, aumentou os salários e proibiu o trabalho de crianças com menos de 10 anos de idade (SESCOOP/OCB, 2017, p. 45). Ele orientava sua visão da sociedade com o propósito de promover maior justiça social através da propriedade coletiva, além de combater a divisão entre trabalhadores e patrões (SALES, 2010). É reconhecido como o Pai do Cooperativismo Moderno (OCESC, 2013, p. 14). Destaca-se ainda que a noção que Owen atribuía à cooperativa é muito diferente daquela que é representada na atualidade (SESCOOP/OCB, 2017, p. 46). - François Marie Charles Fourier (França: 1772-1837): socialista francês e, assim como Owen, se preocupava com os problemas sociais relacionados ao modelo capitalista liberal. Para ele, a propriedade individual deveria ser mantida, como forma de estimular o trabalho produtivo, apresentando condições de convívio coletivo e outras situações de interesses particulares, porém que apresentassem justiça e harmonia (SALES, 2010; SESCOOP/OCB, 2017, p. 45). - Willian King (Inglaterra: 1786-1858): médico que se dedicou ao cooperativismo de consumo, engajando-se em prol do movimento cooperativo. - Philippe Joseph Benjamin Buchez (Bélgica: 1796-1865): preconizava a melhoria das condições dos trabalhadores a partir de associações cooperativas de trabalhadores com a mesma categoria profissional, assegurando o trabalho e rendimentos igualitários, porém sem auxílio ou participação do Estado (SALES, 2010). - Sean Joseph Charles Louis Blanc (França: 1822-1882): defendia a organização através de associações de trabalhadores em indústrias sociais, como forma de modificar o modelo econômico e se opor à concorrência. Nessa interpretação, o Estado era responsável pelos problemas econômicos e sociais. Para Louis Blanc, as fábricas sociais teriam estatutos próprios, atuando com princípios de igualdade, nos quais as sobras líquidas seriam divididas em três partes: uma para os trabalhadores, uma para um fundo de assistência social e a terceira para a capitalização e fortalecimento financeiro do empreendimento (SALES, 2010). O empresário do ramo de tecelagem Robert Owen é reconhecido como o Pai do Cooperativismo Moderno (Figura 3, à esquerda). O padre Theodor Amstad é considerado o Patrono do Cooperativismo no Brasil (Figura 3, à direita). ATENCAO TÓPICO 1 | HISTÓRICO E IMPORTÂNCIA DO 177 O padre jesuíta Theodor Amstad (Suíça: 1851-1938) veio para o Brasil em 1885 e se tornou um importante líder rural e incentivador do cooperativismo. No município de Nova Petrópolis/ RS, em 1902, fundou a primeira cooperativa de crédito no Brasil (Sicredi Pioneira), seguindo o modelo Raiffeisen. A cooperativa de crédito de Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul, é a mais antiga cooperativa em atividade no Brasil. FIGURA 3 – EMPRESÁRIO ROBERT OWEN E O PADRE THEODOR AMSTAD FONTE: Adaptado de: <https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Owen> e <https://www. sicredipioneira.com.br/sicredi-pioneira-rs/conheca-o-sicredi/historia>. Acesso em: 30 ago. 2018. Outros precursores que contribuíram para o desenvolvimento da organização cooperativa foram: John Bellers (Inglaterra: 1654-1725), Ferdinand Lasalle (Alemanha: 1825-1864), Friedrich Wilhelm Raiffeisen (Alemanha: 1818- 1888), Franz Herman Schulze-Delitzsch (Alemanha: 1808-1883). Outros estudiosos que contribuíram para o movimento cooperativista e para a sistematização do cooperativismo foram: George Jacob Holyoake (1817-1906), Wilhelm Haas (Alemanha: 1838-1913), Luigi Luzzatti (Itália: 1841-1927), Charles Gide (França: 1847-1932), Alphonse Desjardins (Canadá: 1854-1920), Theodor Amstad (Suíça: 1851-1938), George Fauquet (1873-1953), entre outros. NOTA Franz Herman Schulze-Delitzsch fundou as cooperativas de crédito Schulze- Delitzsch, bancos populares entre os artesãos. Foi um dos autores do projeto que possibilitou a elaboração do primeiro Código Cooperativo, promulgado na Alemanha em 27 de março de 1867. UNIDADE 3 | COOPERATIVISMO 178 George Jacob Holyoake teve um papel importante na história do cooperativismo, por influenciar e promover o movimento cooperativo. Publicou diversos livros, como: Pioneiros de Rochdale (1857), A história da cooperação na Inglaterra (1875, revisada em 1906) e O movimento cooperativo de hoje (1891). Foi o presidente do congresso cooperativo de 1887 e batalhou pela criação da ACI, ocorrida em 1895. Em seu livro Os 28 tecelões de Rochdale descreveu que os empreendimentos cooperativos ajudavam a organizar a riqueza, não molestavam o Estado, nada tinham de secreto, não ambicionavam honrarias e nem pediam privilégios, não temiam a concorrência, mas pretendiam honestidade comercial. Para ele, as cooperativas eram contrárias ao monopólio, além de aprimorar a responsabilidade e a participação de todos na construção do progresso (SESCOOP/OCB, 2017, p. 16). 3.2 A PRIMEIRA COOPERATIVA MODERNA: A SOCIEDADE DOS PROBOS DE ROCHDALE O cooperativismo moderno tem suas origens a partir das consequências e crises sociais e econômicas provocadas pela Revolução Industrial do século XIX. A história do cooperativismo moderno tem sua origem oficial a partir do estabelecimento da Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale, na cidade de Manchester, no noroeste da Inglaterra. (GAWLAK; RATZKE, 2007, p. 18; CARDOSO et al., 2014b, p. 7; SENAR, 2015, p. 42; SESCOOP/OCB, 2017, p. 43; OCB, 2018a). Essa sociedade, fundada em 21 de dezembro de 1844, foi formada por 28 trabalhadores (27 homens e uma mulher), na maioria tecelões, que se encontravam em situação de desemprego e baixos salários. A primeira reunião para a discussão das dificuldades enfrentadas e de alternativas para garantirem o sustento da família foi realizada em novembro de 1843. Após ouvirem informações relacionadas com as ideias de Robert Owen, estes trabalhadores optaram pela formação de uma sociedade de consumo, baseada no cooperativismo. Esta iniciativa foi formalizada pouco