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Relatos docentes de ações exitosas APLICADAS NO ENSINO FUNDAMENTAL II 2 0 2 3 SUMÁRIO 3 INTRODUÇÃO 7 ADOLESCÊNCIA E PUBERDADE: POR QUE ISSO ESTÁ ACONTECENDO? 12 ESTUDO DOS INVERTEBRADOS: UMA PROPOSTA DE PESQUISA A PARTIR DO ENSINO POR INVESTIGAÇÃO 16 RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE A CONSTRUÇÃO DE UM MODELO DIDÁTICO DO SISTEMA RESPIRATÓRIO ADOTADO COMO SUPORTE NA APLICAÇÃO DE UMA SEQUÊNCIA DE ENSINO INVESTIGATIVA (SEI) 27 FONTES PRIMÁRIAS, ESCRAVIDÃO E ENSINO DE HISTÓRIA 37 RELATO DE PRÁTICA CULTURA POPULAR E RESISTÊNCIA EM MOGI DAS CRUZES 52 HANDEBOL: DAS BRINCADEIRAS E JOGOS POPULARES A PRÁTICA DO HANDEBOL 58 VIVÊNCIAS E HISTÓRIAS: ALFABETIZANDO NA EJA EM CEL. ALMEIDA 71 FUNDAMENTAL II - CEMPRE BENEDITO FERREIRA LOPES PROJETO: JORNAL DA TURMA TEMA: ANTIRRACISMO 78 RELATO DE EXPERIÊNCIA PROJETO: GÊNERO TEXTUAL - HISTÓRIAS EM QUADRINHOS 96 ESCALAS – UM PROJETO SOBRE A SEMANA DE ARTE DE 1922 102 GRANDEZAS EM CARRINHOS INTRODUÇÃO A formação continuada de professores é uma temática bastante dis- cutida na área educacional e nas pesquisas acadêmicas. Sua contribui- ção para o desenvolvimento profissional docente é inegável. Entretanto, para que tal formação seja verdadeiramente efetiva, deve estar apoiada na reflexão do sujeito sobre a sua própria prática e promover questio- namentos permanentes, num processo constante de autoavaliação que oriente o seu trabalho. Considerando que o desenvolvimento profissional docente é um pro- cesso de evolução contínuo e coletivo, que leva em consideração o ca- ráter contextual e organizacional e deve ser orientado para a mudança, é que o formato do curso oferecido aos professores dos Anos Finais do Ensino Fundamental e EJA foi idealizado. Em 2022 foi realizado, assim, um curso de formação continuada para esse público com a característica de um grupo de estudos. Dessa forma, foi possível promover reflexões mais assertivas com relação às reais necessidades desses profissionais. Os grupos de estudo foram organizados de acordo com a área de atu- ação do docente. Ou seja, cada professor especialista participou do gru- po da área de conhecimento sobre a qual ministra suas aulas. As discus- sões de tais grupos foram organizadas e mediadas pelos professores especialistas das áreas de conhecimento que atuam no Departamento Pedagógico (DEPED). Contando com quase 100% de participação dos professores envolvi- dos, encerramos esse movimento formativo com um saldo positivo no envolvimento com as propostas e no engajamento dos professores. Como produto final desse processo, cada professor produziu um tex- to, que poderia ou não ser compartilhado posteriormente. Para aqueles que optaram por compartilhar, foi disponibilizado um espaço na pre- sente revista, composta por textos de todas as áreas de conhecimento. As produções foram diversas e trouxeram, para além da auto formação com reflexões sobre a prática docente, a interação entre os especia- listas de diversas áreas, contribuindo, assim, para o desenvolvimento profissional docente de todos os envolvidos. A seguir, disponibilizamos esses textos, divididos por área de conhe- cimento1. Aproveite a leitura! 1 Salientamos que cada autor é responsável pela produção e autorização de divulgação do seu texto, eximindo o Departamento Pedagógico e a Secretaria Municipal de Educação de Mogi das Cruzes de quaisquer incumbências ou obrigações com relação a plágios e outras situações semelhantes. CIÊNCIAS DA NATUREZA, HISTÓRIA E GEOGRAFIA C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 6 FFrente a tanta desinformação dispersa na sociedade, a esco-la possui papel fundamental na formação de sujeitos críticos e reflexivos, que se posicionam frente aos diversos acontecimen- tos do mundo. Na área das Ciências da Natureza, História e Geografia, a abordagem investigativa vem ao encontro dessas necessidades, susci- tando a alfabetização científica e favorecendo a aculturação científica. As etapas do ensino por investigação estão alicerçadas em sequên- cias que envolvem a problematização, elaboração de hipóteses, verifi- cação das hipóteses através da experimentação prática ou pesquisa, análises dos resultados e divulgação de dados. Com essa abordagem, o protagonismo infanto-juvenil está presente em todos os momentos, garantindo que o envolvimento dos estudantes seja potencializado desde a problematização até a divulgação das des- cobertas para a comunidade escolar. Na rede municipal de educação de Mogi das Cruzes, o uso dessa fer- ramenta didático pedagógica tem mostrado resultados promissores. No ano de 2022, como parte integrante do curso de formação elemen- tar oferecido pelo Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação, foi proposto aos professores especialistas em Ciências da Natureza, História e Geografia atuantes nos Anos Finais do Ensino Fun- damental, o relato de suas experiências dentro dessa abordagem. Nos relatos, além da descrição das etapas inerentes ao processo, os professores puderam expressar suas opiniões, bem como contribuições observadas ao longo de suas vivências. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 7 ADOLESCÊNCIA E PUBERDADE: POR QUE ISSO ESTÁ ACONTECENDO? Roberta Sebastiany França de Men- donça OOs objetos de estudo do relato de experiência foram os me-canismos reprodutivos e sexualidade, que foram trabalhados de acordo com a habilidade: (EF08CI08) “Analisar e explicar as transformações que ocorrem na puberdade considerando a atuação dos hormônios sexuais e do sistema nervoso” (BRASIL, 2018). A ideia central é que o aluno possa reconhecer e descrever a ação dos hormônios so- bre o desenvolvimento biológico tanto nas meninas quanto nos meninos, com destaque para questões biológicas, emocionais, sociais e também culturais. O trabalho foi realizado com uma sequência investigativa tratando do tema adolescência e puberdade, com os alunos dos 8ºs anos da Escola Municipal CEMPRE Benedito Ferreira Lopes, em Mogi das Cruzes. A ideia central foi esclarecer sobre as transformações físicas, psicológicas e emocionais que ocorrem com os meninos e meninas. Uma das primei- ras aulas sobre o assunto foi sobre a atuação do sistema endócrino e as funções de suas principais glândulas e os mecanismos de funciona- mento dos hormônios, com ênfase para os hormônios sexuais mascu- lino e feminino e os órgãos envolvidos no processo. Para isso, fizemos uma aula expositiva com o uso do livro didático, e posteriormente uma C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 8 apresentação de slides sobre o assunto, com o uso de imagens e figuras relacionadas ao tema. Ao término desta etapa, os alunos responderam a questões relacionadas ao assunto. Para entrar diretamente no tema que envolve as mudanças na ado- lescência e puberdade, tivemos uma conversa inicial na sala de aula so- bre as mudanças que estavam acontecendo com eles naquele momen- to, o que cada aluno mais sentia nesta fase, a explicação da atuação hormonal nos meninos e nas meninas e as semelhanças e diferenças das alterações corporais que ocorrem com eles. Nesta etapa, os alunos puderam expor o que cada um deles sentia, como eles lidavam com as situações, quais eram aquelas mais problemáticas para cada um deles e como lidavam com as suas próprias emoções e a dos colegas e familia- res que também estão passando por essa fase. Posteriormente, assistimos também a uma apresentação de slides e a um vídeo disponível no youtube “O Que Realmente Acontece quando você atinge a puberdade?” em que aparecem todas essas mudanças, tratando de uma maneira bem objetiva e descontraída o assunto. Ao tér- mino desta etapa construímos de maneira colaborativa um quadro na lousa da sala de aula, em que colocamos as mudanças que ocorrem no corpo dos meninos, das meninas e aquelas que são comuns aos dois casos. Para conclusão final desta etapa, os alunosentregaram um rela- tório sobre o vídeo apresentado. Dando sequência aos trabalhos desenvolvidos com os alunos nesta sequência didática, uma outra atividade foi proposta em que eles fo- ram separados em grupos de 3 a 4 integrantes e tiveram que trabalhar com 7 situações-problema envolvendo a adolescência e puberdade. As situações problemas foram retiradas de um plano de aula elaborado por PERSICH (2022). O objetivo era elaborar soluções para as referidas si- tuações-problema baseadas no respeito às mudanças durante a ado- C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 9 lescência e a puberdade, elaborando hipóteses e buscando possíveis soluções para compreender que é por meio das transformações físicas, psicológicas e emocionais durante a adolescência, que se pode identi- ficar formas de respeitar a si mesmo e aos outros e que tais mudanças na verdade são acontecimentos normais na vida de cada um, porém a intensidade e a forma como cada pessoa encara a situação é diferente e deve ser respeitada. Cada grupo recebeu um tablet e uma situação- -problema que foi discutida entre eles, conforme pode-se observar na imagem abaixo. (Foto 1). Foto 1: Alunos realizando a atividade proposta sobre adolescência e puberdade utilizando os tablets e a sala de vídeo da escola CEMPRE Benedito Ferreira Lopes. Após levantamento de hipóteses e discussão, eles elaboraram um comentário/sugestão que foi publicado no padlet, conforme é possível observar na imagem abaixo (Foto 2). C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 10 Foto 2: Mural colaborativo construído pelos alunos do 8º ano C do CEMPRE Benedito Ferreira Lopes utilizando a ferramenta “padlet”. A atividade finalizada encontra-se disponível no seguinte link: <https://padlet.com/roberta- franca1/fknj7itj8v3eab2v>. Com o uso do mural, os grupos de alunos puderam divulgar as suas ideias e possíveis soluções para as problematizações apresentadas e toda a turma envolvida pode escutar e relacionar as suas ideias com a dos colegas e tudo que foi apresentado a eles até o momento. Quando teve necessidade, as intervenções necessárias foram feitas, para com- plementar alguma ideia ou corrigir conceitos equivocados. https://padlet.com/robertafranca1/fknj7itj8v3eab2v https://padlet.com/robertafranca1/fknj7itj8v3eab2v C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 11 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricu- lar. Brasília, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov. br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em 03 de agosto de 2022. O Que Realmente Acontece Quando Você Atinge a Puberdade? INCRÍ- VEL. 1 vídeo. 9:21 min. Disponível em: https://www.youtube.com/wat- ch?v=xw0MkTRmTu4. Acesso em 09 de agosto de 2022. PERSICH, G. D. Plano de aula: Ser adolescente: sexualidade, puber- dade e adolescência. Revista nova escola. Disponível em: https://nova- escola.org.br/planos-de-aula/fundamental/8ano/ciencias/ser-adoles- cente-sexualidade-puberdade-e-adolescencia/2047. Acesso em 03 de agosto de 2022. http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf https://www.youtube.com/watch?v=xw0MkTRmTu4 https://www.youtube.com/watch?v=xw0MkTRmTu4 https://novaescola.org.br/planos-de-aula/fundamental/8ano/ciencias/ser-adolescente-sexualidade-puberdade-e-adolescencia/2047 https://novaescola.org.br/planos-de-aula/fundamental/8ano/ciencias/ser-adolescente-sexualidade-puberdade-e-adolescencia/2047 https://novaescola.org.br/planos-de-aula/fundamental/8ano/ciencias/ser-adolescente-sexualidade-puberdade-e-adolescencia/2047 C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 12 ESTUDO DOS INVERTEBRADOS: UMA PROPOSTA DE PESQUISA A PARTIR DO ENSINO POR INVESTIGAÇÃO Erika Coelho Canejo AAtualmente estamos cercados pela tecnologia, notebooks, celulares, smart tvs, redes sociais nos bombardeiam de in-formações e estímulos visuais o tempo todo e neste cenário temos um grande desafio nas escolas, atrair o interesse dos alunos para as aulas. Apenas com os recursos tradicionais como podemos disputar com todos esses estímulos? A resposta é simples, não podemos. Não é possível tratar a tecnologia como um inimigo da escola, ao contrário, o que se faz necessário é utilizar dessas ferramentas para atrair a aten- ção e priorizar a participação do aluno no processo de ensino-aprendi- zagem. No ensino de ciências naturais, as tecnologias podem proporcionar um item a mais para atrair o interesse dos alunos, mas o principal deve ser estimular o protagonismo desse aluno, fazer com que ele seja foco desse processo e o professor deve atuar como um orientador durante todo o percurso. Nesse sentido, o ensino por investigação é uma fer- ramenta altamente eficaz, pois envolve trazer o aluno para o centro do processo de aprendizagem. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 13 Em uma sequência de ensino por investigação é possível trabalhar com os conhecimentos prévios dos alunos sobre um determinado tema e a partir desse ponto levantar uma situação, permitindo que os alunos busquem informações e se apropriem e construam o próprio conheci- mento. No ensino de ciências naturais no 7° ano do ensino fundamental tra- balha-se entre outros temas o estudo dos animais invertebrados, que de forma tradicional se torna um assunto bastante enfadonho na visão dos alunos, portanto com a necessidade de instigar o interesse e a partici- pação nas aulas de ciências naturais foi proposto aos alunos do 7° ano B do CEMPRE Benedito Ferreira Lopes uma sequência de ensino por inves- tigação para o estudo dos animais invertebrados e posterior produção de um livro sobre o tema. Em um primeiro momento foi apresentado aos alunos de forma bem sucinta quem eram os animais invertebrados, qual sua principal diferen- ça dos animais vertebrados, seus principais grupos e representantes. A seguir os alunos se organizaram em pequenos grupos de 2 ou 3 partici- pantes e cada grupo pode escolher um dos subtemas disponibilizados pela professora. Durante as aulas de ciências naturais, os grupos iniciaram sua pes- quisa de cada tema nos livros disponíveis na biblioteca do laboratório de ciências da escola, onde puderam selecionar as informações pertinen- tes ao seu tema entre vários títulos disponíveis. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 14 Também foram utilizados os chromebooks disponíveis na escola para pesquisa na internet. Após esse momento de coleta de informações os alunos iniciaram a produção de um texto próprio abrangendo as princi- pais características do grupo de invertebrados estudado para compor um capítulo do livro, onde também se utilizou dos chromebooks para sua digitação. Coube à professora organizar os capítulos e imprimir o material produzido. Como forma de finalizar os estudos os alunos produziram pôsteres sobre os temas com um pequeno resumo e curiosidades de cada grupo animal para socializar suas descobertas com os demais colegas de sala. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 15 Trabalhar com o ensino por investigação mostrou-se muito produti- vo, os alunos ficaram motivados, desde o momento que foi apresenta- da a proposta e durante todas as etapas do projeto. Apesar de algumas dificuldades no uso das tecnologias, os alunos conseguiram superar os obstáculos e o mais importante se apropriaram dos conhecimentos tra- balhados com mais eficiência. O resultado final foi motivo de orgulho para os alunos, pois perceberam que não são apenas um personagem passivo e sim os verdadeiros protagonistas no processo de aprendiza- gem. O produto final do trabalho foi apresentado nafeira do conhecimento realizada pela escola, onde os alunos organizaram uma sala temática dos invertebrados e apresentaram suas pesquisas aos visitantes. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 16 RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE A CONSTRUÇÃO DE UM MODELO DIDÁTICO DO SISTEMA RESPIRATÓRIO ADOTADO COMO SUPORTE NA APLICAÇÃO DE UMA SEQUÊNCIA DE ENSINO INVESTIGATIVA (SEI) Edilson Ribeiro Romão RESUMO Objetivamos apresentar um relato de experiência sobre a aplicação de uma Sequência de Ensino Investigativa pautada na construção de um modelo didático do sistema respiratório que foi adotado como suporte na aplicação da (SEI). A prática de construção do modelo de sistema res- piratório representa uma experiência dinâmica, lúdica, criativa e cola- borativa. Permite a percepção visual e amplia o horizonte de discussões sobre a importância da construção de modelos na ciência, tanto para a compreensão de processos como para divulgação de resultados de pes- quisa. Foram necessárias para aplicação desta SEI um total de 6 horas aulas de 50 minutos cada e a partir dela trabalhados habilidades do cur- rículo escolar. Como resultado verificamos que a aplicação da SEI per- C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 17 mitiu avaliar a bagagem prévia de conhecimentos dos estudantes e que ela foi fundamental para ampliar o engajamento da turma. A construção do modelo didático inseridos no contexto de uma sequência investigati- va, assim como a utilização de vídeos como um dos pressupostos ava- liativos mostrou-se satisfatória na aplicação da atividade. Os diferentes conceitos inseridos no tema proposto apareceram de forma espontânea conforme os estudantes montavam o modelo ou quando precisaram ex- plicar o modelo construído na confecção do vídeo. PALAVRAS-CHAVE: SEI; Sistema Respiratório; Ensino de Ciências INTRODUÇÃO Neste relato de experiência são apresentados o percurso da imple- mentação de uma Sequência de Ensino Investigativa (SEI) como pro- posta didático-pedagógica para o ensino e aprendizagem do sistema respiratório. A proposta desta SEI surgiu durante o decurso formativo docente obrigatório em meio ao grupo de estudos de Ciências da Natu- reza, gerenciado pelo Departamento Pedagógico da Secretaria Munici- pal de Educação do Município de Mogi das Cruzes. Conforme preconizado na Base Nacional Comum Curricular, assim como em pesquisas inerentes a área de ensino de Ciências (Freiberg, 2015, Sasseron, & Carvalho, 2008, Solino, 2017, Souza, 2015) o ensino por investigação pode ser um modo apropriado para que a alfabetização científica ocorra em sala de aula. Sasseron, 2015 e Solino, 2017, salientam ainda que o ensino por inves- tigação é uma abordagem didática, que vai além das estratégias espe- cíficas, mas às ações e às práticas realizadas pelo professor quando da proposição dessas estratégias e tarefas aos estudantes, sendo essen- C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 18 cial o estabelecimento de liberdade intelectual aos alunos para a inves- tigação de um problema. Carvalho, 2008, defende que ao transitar pelas informações por meio da investigação, construindo novos entendimentos sobre as informa- ções que já possuem, e, por meio de análises críticas e constantes das ações, os estudantes estarão desenvolvendo práticas científicas e epis- têmicas em estreita relação com o desenvolvimento do raciocínio cien- tífico. Portanto, objetivamos apresentar um relato de experiência sobre a aplicação de uma Sequência de Ensino Investigativa pautada na cons- trução de um modelo didático do sistema respiratório que foi adotado como suporte na aplicação da (SEI). A prática de construção do modelo de sistema respiratório represen- ta uma experiência dinâmica, lúdica, criativa e colaborativa entre seus participantes. Além disso, permite aos estudantes a percepção visual, potencializa uma prática docente não tradicional e amplia o horizonte de discussões sobre a importância da construção de modelos na ciên- cia, tanto para a compreensão de processos como para divulgação de resultados de pesquisa. METODOLOGIA O desenvolvimento e escolha do tema, sistema respiratório, veio de encontro aos objetivos do conhecimento inerentes ao currículo de prio- rização escolar vinculados ao 8º ano do ensino fundamental II. Partici- param diretamente desta atividade estudantes de uma turma composta por 31 alunos. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 19 Foram necessárias para aplicação desta SEI um total de 6 horas aulas de 50 minutos cada. Quanto as habilidades vigentes no currículo escolar e na BNCC foi possível trabalhar com algumas, dentre elas: • • (EF05CI06) Selecionar argumentos que justifiquem por que os sis- temas digestório e respiratório são considerados corresponsáveis pelo processo de nutrição do organismo, com base na identifica- ção das funções desses sistemas. • • (EF02HI02) Identificar e descrever práticas e papéis sociais que as pessoas exercem em diferentes comunidades. • • Identificar as principais estruturas que compõe o sistema respira- tório; A aplicação da SEI foi dividida em etapas, conforme quadro descritivo abaixo. ETAPAS DESCRIÇÃO TEMPO Etapa 01 Apresentação do pro- blema e orientações gerais 2 aulas – 50min Etapa 02 Desenvolvimento da proposta: Atividade prática de confecção do modelo de sistema respiratório 2 aulas – 50min Etapa 03 Contextualização do conhecimento 2 aulas – 50min QUADRO 01: SÍNTESE DAS ETAPAS DA SEQUÊNCIA DE ENSINO POR INVESTIGAÇÃO C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 20 ETAPA 01: APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA Conforme quadro descritivo consistiu na apresentação do problema para os estudantes. Nela os alunos tiveram uma breve introdução ao tema por meio de perguntas e questionamentos de modo que os mobi- lizassem a levantar suas primeiras ideias e hipóteses acerca dos ques- tionamentos propostos, refletissem e explanassem o conteúdo de suas bagagens prévias de conhecimentos sobre o tema. Dentre os questionamentos, perguntas e problemas disparadores os estudantes refletiram sobre: Por que ocorre o engasgo? Por que ocor- re o espirro? A respiração é automática ou voluntária? Você pensa para respirar? Você consegue controlar sua respiração? Como o ar adentra nos pulmões sem o nosso controle voluntário? Esta etapa foi realizada de forma dialogada, com incentivo da par- ticipação oral dos estudantes e com coleta escrita de suas primeiras hipóteses acerca de alguns dos questionamentos mencionados acima. ETAPA 02: DESENVOLVIMENTO DA PROPOSTA Nesta etapa foi realizado uma breve discussão sobre o uso de mode- los didáticos na ciência e apresentação da proposta de construção de um modelo de sistema respiratório. Foi exibido um vídeo aos estudantes do canal do YouTube, Manual do Mundo, com detalhamento dos materiais e etapas de construção do modelo para reprodução dos discentes. Além disso, os estudantes com apoio do professor se organizaram em grupos e foi definida a data de confecção dos modelos. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 21 ETAPA 03: CONTEXTUALIZAÇÃO DO CONHECIMENTO Neste momento, em posse dos modelos produzidos cada grupo re- cebeu um roteiro de questões relacionados ao tema. Neste roteiro de exercícios os estudantes foram indagados novamente sobre os questio- namentos e perguntas elencadas na etapa 01, de modo que refletissem sobre suas hipóteses iniciais e conseguissem reformulá-las ou refutá- -las. Além disso, após a confecção do modelo eles tiveram que gravar um pequeno vídeo descrevendo a experiência de suas produções, assim como relatar e mencionar os elementos associativos das estruturas do modelo produzido com as estruturas reais do sistema respiratório. Figura 01: Esquema deassociação do sistema respiratório humano e modelo didático A figura 01 detalha os materiais necessários para confecção do mo- delo, assim como os elementos associativos e comparativos doo modelo e das estruturas do sistema respiratório. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 22 ANÁLISE E DISCUSSÃO A análise das respostas dos estudantes aferidas na etapa inicial de- mostrou que eles apresentavam explicações e hipóteses variadas aos questionamentos inicialmente propostos. Enquanto alguns evidencia- ram de forma escrita e oral um bom domínio sobre o tema, outros de forma muito vaga, simplória e distorcida não conseguiam lanças expli- cações e hipóteses contundentes às reflexões propostas. Esta constatação inicial é comum devido a heterogeneidade de alunos na sala de aula que se encontram em etapas diferentes de desenvolvi- mento e trazem distintas bagagens de conhecimentos sobre diferentes temas que são abordados nas aulas. Para o professor, esta análise inicial é fundamental por lançar luz a um diagnóstico prévio e permitir evidências mais consistentes sobre a assimilação e desenvolvimento das habilidades inicialmente propostas na aplicação de determinada atividade. No que tange a classificação desta atividade, conforme descrito por Bell, Smetana & Binns (2005), em relação ao grau de abertura investiga- tiva podemos inclui la no segundo nível, classificando-a como uma ativi- dade de investigação estruturada, em que os alunos investigaram uma resposta para uma ou mais questões colocadas pelo professor, sendo- -lhes dado o procedimento e demais orientações que possibilitaram aos estudantes construírem suas conclusões pessoais. Uma atividade investigativa, conforme presume a literatura educa- cional, deve proporcionar aos alunos uma atmosfera de aprendizagem em que eles sejam encorajados a explorar, a testar as suas ideias e in- vestigar as situações que lhes são propostas. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 23 Figura 02 - Modelos de sistema respiratório produzidos pelos estudantes. No que pese a não existência de uma maior abertura ou nível de liber- dade máximo nesta atividade proposta, ela foi importante por colocar os estudantes neste processo e iniciar um processo mais ativo e envolven- te na construção dos seus conhecimentos. A etapa de produção do modelo, pensada inicialmente para ser feita em sala de aula foi muito prejudicada devido os estudantes não terem cumprido com os acordos propostos inicialmente e não terem trazido para a aula os materiais necessários para construção do modelo. Deste modo, para contornar a situação e por não dispor de tempo hábil para confecção em sala a atividade de construção foi reorientada e os estu- dantes a realizaram em casa. No que pese o evento acima, apenas 4 alunos, dentre os 31 da turma não realizaram a atividade de construção do modelo de sistema respira- tório. Abaixo segue uma amostra dos modelos produzidos por eles. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 24 A participação dos estudantes e engajamento da turma na concre- tização desta atividade foi bastante satisfatória. Além disso, a análise preliminar das respostas ao roteiro de exercícios propostos e as inter- venções orais constatadas em sala demonstraram que os estudantes conseguiram compreender de forma contundente o assunto trabalhado e obtiveram um ótimo domínio das habilidades avaliadas. Em posse de um dos modelos produzidos pelos estudantes foi possí- vel para o professor discorrer oralmente de forma mais pontual e com maior engajamento dos estudantes o funcionamento do sistema respi- ratório, suas peculiaridades, assim como a relação existente entre o seu funcionamento e as inter-relações com os sistemas digestório e circu- latório. Além disso, a produção dos vídeos pelos estudantes, que podem ser acessados via no Quadro 02, proporcionou utilizar as habilidades e re- cursos digitais como ferramenta importante no processo de desenvolvi- mento da aprendizagem ativa e como mecanismo de avaliação na com- preensão de conceitos e exposição oral. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 25 CONCLUSÃO Os resultados alcançados mostram que a Sequência de Ensino por Investigação proporcionou aos participantes uma aprendizagem mais ativa e participativa com maior interação e engajamento. A construção do modelo didático inseridos no contexto de uma se- quência investigativa, assim como a utilização de vídeos como um dos pressupostos avaliativos mostrou-se satisfatória na aplicação da ativi- dade. Os diferentes conceitos inseridos no tema proposto apareceram de forma espontânea conforme os estudantes montavam o modelo ou quando precisaram explicar o modelo construído na confecção do vídeo. VÍDEO LINK DE ACESSO Vídeo 01 https://drive.google.com/file/d/1zf5EkvzE- CoMMaCbu21eCvSY2VVWcupSy/view?us- p=sharing Vídeo 02 https://drive.google.com/file/d/1lKZG2W- CFxrlqOn3903HpNh0IkgLGLJZP/view?us- p=sharing Vídeo 03 https://drive.google.com/file/d/12yX2h- GhjzHf7Cn-pWPDgIKSt8vdn4Frs/view?us- p=sharing Vídeo 04 https://drive.google.com/file/d/1u3V- 5 -9 J6UScBbwnx0eDs6 _U9zg _Q x3O5/ view?usp=sharing QUADRO 02 – LINK DE ACESSO AOS VÍDEOS EXPLICATIVOS PRODUZIDOS PELOS ESTUDANTES https://drive.google.com/file/d/1zf5EkvzECoMMaCbu21eCvSY2VVWcupSy/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1zf5EkvzECoMMaCbu21eCvSY2VVWcupSy/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1zf5EkvzECoMMaCbu21eCvSY2VVWcupSy/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1lKZG2WCFxrlqOn3903HpNh0IkgLGLJZP/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1lKZG2WCFxrlqOn3903HpNh0IkgLGLJZP/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1lKZG2WCFxrlqOn3903HpNh0IkgLGLJZP/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/12yX2hGhjzHf7Cn-pWPDgIKSt8vdn4Frs/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/12yX2hGhjzHf7Cn-pWPDgIKSt8vdn4Frs/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/12yX2hGhjzHf7Cn-pWPDgIKSt8vdn4Frs/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1u3V5-9J6UScBbwnx0eDs6_U9zg_Qx3O5/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1u3V5-9J6UScBbwnx0eDs6_U9zg_Qx3O5/view?usp=sharing https://drive.google.com/file/d/1u3V5-9J6UScBbwnx0eDs6_U9zg_Qx3O5/view?usp=sharing C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 26 REFERÊNCIAS Carvalho, A. M. P. (2013) Ensino de Ciências e a proposição de sequên- cias de ensino investigativas. In Carvalho, A. M. P. (Org.). Ensino de Ciên- cias por Investigação: condições para implementação em sala de aula. (pp. 1–20). São Paulo, SP: Cengage Learning. Machado, V. F., & Sasseron, L. H. (2012). As perguntas em aulas inves- tigativas de ciências: a construção teórica de categorias. Revista Brasi- leira de Pesquisa em Educação em Ciências, 12(1), p. 29–44. MEC, Ministério da Educação (2017). Base Nacional Comum Curricular, Brasília: Secretaria da Educação Básica. Sasseron, L. H. (2015). Alfabetização Científica, ensino por investiga- ção e argumentação: relações entre ciências da natureza e escola, En- saio Pesquisa em Educação em Ciências, 17(no. Especial), p.49–67. Solino, A. P. (2017). Tese (Doutorado em Educação), Problemas poten- ciais significadores em aulas investigativas: contribuições da perspec- tiva histórico-cultural. Universidade de São Paulo. São Paulo, SP Souza, T. N. (2015). Dissertação (Mestrado em Ensino de Ciências), En- gajamento disciplinar produtivo e o ensino por investigação: estudo de caso em aulas de Física no Ensino Médio. Universidade de São Paulo, São Paulo, SP. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 27 FONTES PRIMÁRIAS, ESCRAVIDÃO E ENSINO DE HISTÓRIA Armando de Melo Servo Constante EEste trabalho partiu de diferentes questões inerentes ao trabalho docente com alunos do 8º ano na disciplinade História. Algumas questões transcendem o ano em questão, enquanto outras são específicas para o 8º ano do ensino fundamental. Trata-se de pensar: como inserir aspectos da história local trabalhando com base no cur- rículo paulista? Qual a importância de se trazer fontes primárias para o contexto da sala de aula? Como trabalhar didaticamente com tais fon- tes? Estas questões, de ordem mais metodológica, podem ser coloca- das para diferentes momentos dos anos finais do ensino fundamental. Mas, além dessas questões metodológicas, há temas prementes na história que não podem ser negligenciados. Um deles é a escravidão. Mas, então, pergunto: como introduzir o tema escravidão no Alto Tietê, para alunos da região, sem deixar de lado o conteúdo do currículo? Essa questão me motivou a tentar criar atividades e trabalhos norteados por este objetivo. Considero que há uma lacuna muito grande em relação ao conhecimento da escravidão no Alto Tietê, ao mesmo tempo em que há muita documentação disponível para pesquisa. Porém, como nunca foi dado um tratamento didático a tais fontes, acaba ficando para o docente fazer estas adaptações. Foi a partir destas questões que decidi inserir esta temática colo- cando os alunos em contato com algumas fontes primárias, orientar as C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 28 análises e a leitura das fontes e inserir o conteúdo destas fontes no con- texto histórico que estudamos. Aqui eu falo sobre o tema da escravidão no século XIX no contexto de crescimento da cafeicultura na província de São Paulo. Muitas vezes deixamos de lado as especificidades do Alto Tietê ao trabalhar tais temas, especialmente quando priorizamos seguir apenas o currículo paulista. Era exatamente o que eu não queria que ocorresse. Didaticamente optei por fazer a maior parte das atividades em pe- quenos grupos, para estimular discussões e possibilidades de mais in- terpretações e observações de detalhes nas diferentes fontes. A opção pelos grupos teve também o propósito de auxiliar os alunos com maiores dificuldades de leitura e interpretação. Embora o maior foco desta vez tenha sido em fontes escritas, também valorizei a oralidade. Considero também que um trabalho com imagens (há muitas fontes de excelente qualidade digitalizadas e disponíveis para pesquisa) seja de grande valia. Porém, já havia trabalhado muito com imagens em momentos anterio- res, como no período do Brasil Joanino e no processo de independência. Por isso, preferi neste momento, trabalhar com fontes escritas. As habilidades que possibilitaram este trabalho foram: BNCC: • • (EF08HI19) Formular questionamentos sobre o legado da escravi- dão nas Américas, com base na seleção e consulta de fontes de diferentes naturezas. • • (EF08HI20) Identificar e relacionar aspectos das estruturas sociais da atualidade com os legados da escravidão no Brasil e discutir a importância de ações afirmativas. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 29 CURRÍCULO PAULISTA: • • (EF07HI16) Analisar os mecanismos e as dinâmicas de comércio de escravizados em suas diferentes fases, identificando os agentes responsáveis pelo tráfico e as regiões e zonas africanas de proce- dência dos escravizados. • • (EF08HI19B) Identificar as propostas presentes nas Leis Eusébio de Queirós, Ventre Livre, Sexagenário e Áurea, bem como analisar os seus impactos na sociedade brasileira do período imperial. Obviamente, há outras habilidades envolvidas no processo. Porém, estas são as principais habilidades que pretendia desenvolver com os alunos. Quais caminhos didáticos seriam interessantes para conseguir fazer com que os alunos compreendessem minimamente a realidade da escravidão no Alto Tietê no séc. XIX? Digo minimamente porque não houve possibilidade de aprofundar no tema, mas foi possível o conheci- mento da existência de fontes primárias, sendo uma escritura de com- pra e venda de escravo da região que se insere no contexto estudado por se tratar de uma escritura da segunda metade do século XIX. Primeiro, levei em consideração que já havíamos trabalhado o Pri- meiro Reinado (1822-1831), o Período Regencial (1831-1840) e iniciáva- mos o Segundo Reinado (1840-1889). Trabalhamos as questões sociais e políticas desses períodos e os alunos tiveram contato, também, com a ampliação da economia cafeeira em São Paulo. Nesse sentido, traba- lhamos os temas produção, trabalho e mão-de-obra. Em observância aos temas, escolhi trabalhar primeiramente com a legislação brasileira acerca da escravidão. Utilizei como subsídio tanto o livro didático quanto o texto da lei de 7 de novembro de 1831, a qual reproduzi para os alunos. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 30 Para estas atividades iniciais optei por reproduzir alguns artigos sobre esta lei que proibia o tráfico internacional de cativos. Mantive a grafia original para que os alunos se acostumassem com esse tipo de leitura, o que rendeu observações interessantes. Meu objetivo é que os alunos compreendessem que o tráfico internacional de escravos havia sido proibido e, ainda assim, continuaram a ser comercializados ilegal- mente africanos no Brasil, incluindo no Alto Tietê. O fluxo de africanos para esta região tem ligação com o crescimento da produção cafeeira TRECHO DA LEI REPRODUZIDA AOS ALUNOS Declara livres todos os escravos vindos de fôra do Imperio, e im- põe penas aos importadores dos mesmos escravos. A Regencia, em Nome do Imperador o Senhor D. Pedro II, Faz sa- ber a todos os Subditos do Imperio, que a Assembléa Geral Decretou, e Ella Sanccionou a Lei seguinte: Art. 1º Todos os escravos, que entrarem no territorio ou portos do Brazil, vindos de fóra, ficam livres. Exceptuam-se: 1º Os escravos matriculados no serviço de embarcações per- tencentes a paiz, onde a escravidão é permittida, emquanto em- pregados no serviço das mesmas embarcações. 2º Os que fugirem do territorio, ou embarcação estrangeira, os quais serão entregues aos senhores que os reclamarem, e reex- portados para fora do Brazil. (Fonte: Legislação digitalizada - Câmara dos Deputados. Disponível em <https://www2.camara.leg.br/ legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37659-7-novembro-1831-564776-publicacaooriginal-88704-pl.html >) https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37659-7-novembro-1831-564776-publicacaooriginal-88704-pl.html https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-37659-7-novembro-1831-564776-publicacaooriginal-88704-pl.html C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 31 no Vale do Paraíba. Os alunos tiveram oportunidade de ver num mapa que Mogi das Cruzes era considerado um município parte do Vale do Pa- raíba no séc. XIX. Com o objetivo de diversificar as fontes primárias, reproduzi para os alunos um trecho de uma peça do Martins Pena (1815-1848), que fazia comédias de costume. Trata-se da peça Os dois ou o inglês maquinista. Um dos personagens, chamado Negreiro, era comerciante de escravos. O trecho apresentado aos alunos foi: CLEMÊNCIA – Deixe-o falar. A propósito, já lhe mostrei o meu meia-cara , que recebi ontem na Casa da Correção? NEGREIRO – Pois recebeu um? CLEMÊNCIA – Recebi, sim. Empenhei-me com minha comadre, minha comadre empenhou-se com a mulher do desembargador, a mulher do desembargador pediu ao marido, este pediu a um de- putado, o deputado ao ministro e fui servida. NEGREIRO – Oh, oh, chama-se isto transação! Oh, oh! CLEMÊNCIA – Seja lá o que for; agora que tenho em casa, nin- guém mo arrancará. Morrendo-me algum outro escravo, digo que foi ele. FELÍCIO – E minha tia precisava deste escravo, tendo já tantos? CLEMÊNCIA – Tantos? Quanto mais, melhor. Ainda eu tomei um só. E os que tomam aos vinte e aos trinta? Deixa-te disso, rapaz. Venha vê-lo, sr. Negreiro. [(Saem.)] (meia-cara era o apelido dado aos escravoscomercializados ilegalmente, sem recolher os impostos aduaneiros) (Fonte: PENA, M. Os dois ou o inglês maquinista. RJ, FBN; obra de domínio público, disponível em <http:// www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164>) http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 32 Veja que se trata de uma cena na qual a personagem Clemência se compraz de conseguir comprar um escravo vendido ilegalmente. Em ou- tro trecho da mesma peça que os alunos também interpretaram, o per- sonagem Negreiro ridicularizou um outro traficante de escravos, pego pela fiscalização por aportar no Rio de Janeiro. Como questões para orientar a leitura e interpretação da fonte, pro- pus aos alunos que respondessem às seguintes questões: a) Julgue a frase: Comprar escravizados importados ilegalmente da África após 1831 era facilmente realizado por qualquer pessoa. (V/F) ( ) Justifique com base no diálogo da peça. b) De acordo com o diálogo, a escravidão ainda era valorizada em 1845? Justifique. c) Todos os personagens do diálogo parecem ter a mesma visão so- bre a escravidão? Justifique. Com essa orientação, tinha por objetivo que os alunos compreen- dessem que a compra ilegal de cativos não era tão simples, mas que a escravidão ainda era muito valorizada enquanto instituição social, mes- mo que houvesse quem questionasse a escravidão. Obviamente, nesse contexto os escravizados acabaram se tornando um ativo econômico do qual muitos proprietários se aproveitaram. E o que isto tem a ver com o Alto Tietê? Aqui muitos senhores vendiam cativos para regiões produto- ras de café. Voltando à questão da legislação do período, agora chegando a me- ados do século XIX, disponibilizei aos alunos trecho da Lei Eusébio de Queirós (1850), cujos efeitos colocaram fim ao tráfico internacional de escravos, mudando a realidade das negociações de cativos no Brasil. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 33 A província de São Paulo foi particularmente atingida pela realidade da produção cafeeira que acabou por aumentar a demanda por mão de obra. Mantive sempre a grafia original de todas as fontes para que os alu- nos tivessem a sensação do trabalho do historiador. Também coloquei à disposição bibliografia para nortear a interpretação dos textos. Agora, de posse de muitas informações sobre o contexto histórico da segunda metade do século XIX, propus a principal fonte histórica trabalhada nes- se momento: uma escritura de compra e venda de um escravo, realiza- da no ano de 1867 em Mogi das Cruzes. Esta fonte estava disponível no antigo Acervo do Fórum de Mogi das Cruzes na então Universidade Braz Cubas. Hoje estes livros encontram-se no arquivo municipal. Da mesma forma que nos documentos anteriores, eu mantive a grafia original na transcrição paleográfica que fiz do documento. A transcrição apresentada aos alunos foi: nº 82 Saibão quantos esta virem, que no Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesuz Christo de mil oito sentos sessenta e sete, aos vinte e um dias do mês de Setembro, nesta cidade de Mogy das Cruzes na caza da residencia de Francisca Roza de Carvalho á Rua das Flores nº 3 onde eu, escrivão abaixo nomeado me achava, perante mim e das testemunhas abaixo assignadas, apparecerão de uma parte Francisca Roza de Carvalho, e de outra o Tenente Coronel Antonio Mendes da Costa, ambos moradores desta cidade, a primeira á Rua das Flores nº 3, e o segundo á Rua do Carmo nº 64, ambos conhecidos de mim escrivão do que dou fé, e por Fran- cisca Roza de Carvalho foi dito que de hoje para sempre vende aos sobre dito Tenente Coronel Antonio Mendes da Costa, um escravo C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 34 de nome Benedito, crioulo, mulato, de idade de quatorze annos, solteiro, sem officio, e natural desta Cidade, por preço de um conto e duzentos mil reis, livre da meia siza, quantia que neste acto lhe foi entregue pelo comprador em moeda corrente perante mim e as testemunhas; e recebido o preço pela vendedora, por ela foi dito que desde já transfere todo dominio e mais direitos inherentes á propriedade; obrigando-se por sua pessoa e bens a fazer esta ven- da boa, e a defender o comprador quando este o chamar a authoria. E logo pelo comprador me foi aprezentada a certidão de meia siza que reza o seguinte = Colletoria da Cidade de Mogy das Cruzes, em vinte um de Setembro de mil oitosentos sessenta e sete = número sete = pagou de meia siza a quantia de trinta mil reis, e de Sello um mil e duzentos reis. Depois de escripta esta eu escrivão a li perante elles, que reciprocamente a outorgaram e aceitarão; Testemunhas a tudo prezentes Procopio Fernandes da Cruz Bonilha, e Antonio Jose Pereira Inghino, pessoas de mim conhecidas, que assignarão com o comprador, vendedora, e comigo José Arouche de Toledo Maia, escrivão o escrevi. Antonio Mendes da Costa Francisca Roza de Carvalho Procopio Frz. Da Cruz Bonilha Antonio Jose Pereira Inghino O Escrivão = José Arouche de Toledo Maia. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 35 A leitura desse documento foi orientada de modo aos alunos perce- berem uma série de elementos. Local da negociação; os valores mone- tários envolvidos na negociação (preço e impostos), comprador e ven- dedor. Em relação ao escravo negociado, orientei a análise de todos os dados qualificadores do cativo que tinha, na ocasião, 14 anos. Conhe- cendo o cativo pelos informações que trazem o documento, percebe- -se que ele era, pelo menos, a segunda geração de afrodescendentes na região. Nascido em Mogi em 1853, Benedito era filho de uma cativa. Os alunos notaram a ausência de sobrenome do Benedito. Para inserir o documento no contexto da época, solicitei que os alu- nos investigassem por quais formas o Benedito poderia ter sido liberto, levando em consideração o intervalo entre os anos de 1867 e 1888. Os alunos tinham subsídios didáticos para fazer essa investigação, conhe- cendo a legalização da prática do pecúlio pela Lei do Ventre-Livre (1871). Em relação a resistência, foi aventada por alguns grupos a possibilidade de fuga do Benedito. Por fim, questionei se o seu comprador decidisse utilizar o cativo como uma possibilidade de auferir lucro, onde ele venderia o Benedito. Muitos grupos encontraram a região do oeste paulista, em virtude do aumento da produção cafeeira na região. Este trabalho continua para além do momento em que esse relato é escrito. A ideia é explorar mais o contexto histórico, além de mostrar o quanto a escravidão foi valorizada enquanto instituição e que isso dei- xou marcas perenes na sociedade brasileira. Também servirá para mos- trar que o discurso de que a vinda de imigrantes europeus foi promovida em virtude da “falta de mão de obra” é falacioso, pois milhares de afro- descendentes e africanos necessitavam de trabalho à medida que eram “libertos”. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 36 Didaticamente, percebi um bom desenvolvimento da capacidade de interpretação de fontes históricas. Porém, percebi que o tempo de exe- cução desse tipo de trabalho deve ser pausado, mais lento, para que os alunos tenham a oportunidade de compreender o que significa um tra- balho de pesquisa em história. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 37 RELATO DE PRÁTICA CULTURA POPULAR E RESISTÊNCIA EM MOGI DAS CRUZES Felipe de Morais Nogueira2 Márcia Cunha dos Santos3 Renan Leite Galiano4 INTRODUÇÃO Esta prática pedagógica, intitulada “Cultura Popular e Resistência em Mogi das Cruzes”, partiu do princípio de que o processo de ensinoe aprendizagem deve incluir uma variedade metodológica que estimu- le variados conhecimentos acerca da diversidade humana, visto que na escola alunas e alunos formam suas identidades tanto no âmbito indi- vidual, quanto no coletivo. Desta forma, buscamos valorizar os saberes populares presentes na nossa cidade como forma de mostrar aos alunos a riqueza presente na diversidade. Para isso, buscamos a referência em uma manifestação cultural muito presente nas festas populares de Mogi das Cruzes: as Congadas. Elaboramos algumas trilhas de pesquisa e aprendizagem onde alunas e alunos desenvolveram pesquisas sobre as Congadas, ao mesmo tem- 2 Professor de Geografia no Cempre Benedito Ferreira Lopes 3 Professora de História no Cempre Benedito Ferreira Lopes 4 Professor de História no Cempre Benedito Ferreira Lopes C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 38 po em que tiveram acesso aos conteúdos curriculares de História e Ge- ografia que perpassam a temática como, por exemplo, conceitos como colonialismo, sincretismo religioso, escravização moderna e comércio colonial, desigualdades raciais, diversidade étnica e cultural, migrações internas no Brasil, dentre outros. Uma das questões levantadas ao longo deste processo foi a necessi- dade de superação de práticas pedagógicas que abordam a cultura po- pular em salas de aula de ensino básico a partir do conceito de folclore. Folclore é uma palavra que vem da língua inglesa, formada pela junção dos termos folk (popular, do povo) e lore (conhecimento, saber); signifi- ca, portanto, saber do povo, conhecimento popular. Contudo, constan- temente vemos o termo sendo utilizado de forma pejorativa, com uma perspectiva que trata do que é inexistente ou inventado pelo povo, por vezes simplório ou teatral, como as lendas e personagens muito presen- tes em trabalhos escolares, sobretudo na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Perde-se, nestes casos, a amplitude do real significado do próprio termo, no que se refere à cultura popular e aos diferentes modos de vida e saberes populares, engendrados nas mais diferentes sociedades ao longo do tempo histórico. Por isso, o termo cultura popular torna-se mais apropriado, para que se valorize o significado abrangente da pala- vra, mas também para não tratarmos os saberes populares como meras crenças ou como algo do campo da fantasia, cristalizados num passado remoto, mas como uma forma de sociabilidade, de viver em comunidade e de reconhecer-se como parte de algo no presente que gera uma iden- tidade coletiva. Por muito tempo, entendeu-se a cultura popular brasileira como algo fragmentado e regionalizado: a cultura nordestina, a cultura sulista, e assim por diante. Porém, especialmente a partir da segunda metade do C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 39 século XX, os movimentos de migrações internas no território brasilei- ro mobilizaram manifestações culturais em diferentes partes do nosso território, quando notamos manifestações tradicionais do Nordeste na região Sudeste ou do Sul na região Norte. Em muitos momentos assisti- mos o termo folclore - ao invés de cultura popular - sendo abordado em sala de aula como aquilo que está fora do nosso espaço cotidiano, algo que vem de outras regiões e lugares, que, ainda que integrem a cultura brasileira, fazem parte de um imaginário popular e não propriamente de uma prática ou de uma forma de colocar-se no mundo, com técnicas, saberes e ritos, como parte da vida, compondo nosso território ou nossa cidade. É preciso olhar as manifestações culturais locais e encontrar ne- las aquilo que muitas vezes idealizamos como folclore e alheio à nossa realidade. Nossa prática pedagógica objetivou desconstruir tais per- cepções e idealizações produzidas justamente porque o termo folclo- re abarca uma certa cultura registrada no passado e nunca aquela que segue sendo registrada e reinventada no presente. Enquanto folclore nos remete à tradição como algo permanente e contínuo, o conceito de cultura popular traz a tradição como algo dinâmico e presente na vida cotidiana, transformado ao longo da história e das práticas sociais. Foi a partir dessas reflexões que optamos por trabalhar com as Congadas de Mogi das Cruzes em sala de aula. Trata-se de uma manifestação cultural afro-brasileira em uma cidade que historicamente omitiu de seu patri- mônio cultural local a identidade negra, suas tradições e costumes. A existência e resistência de tal identidade na cidade aponta para a urgên- cia do desenvolvimento de pesquisas voltadas aos saberes e manifesta- ções populares, com foco na diversidade cultural brasileira, bem como nos diferentes processos históricos e espaciais que contribuíram para a existência e permanência desta identidade e de sua manifestação no nosso território. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 40 DESENVOLVIMENTO Ainda que tenhamos tido pouco tempo de encontros presenciais en- tre a professoras e os professores proponentes para planejamentos conjuntos, buscamos desenvolver o projeto a partir das contribuições de cada disciplina segundo seus conteúdos curriculares. A escolha das turmas de 7.° ano deu-se pela intersecção dos conteúdos de Geografia do Brasil e conteúdos sobre o período colonial da História do Brasil. Mui- to embora a periodização desses conteúdos fossem distintas, em alguns momentos elas entravam em sintonia. Enquanto a disciplina de História abordava o período colonial brasileiro, a Geografia debatia a formação do povo brasileiro a partir da colonização, bem como as questões étni- cas presentes na atualidade, principalmente as relacionadas à popula- ção afro-brasileira e indígena. A fim de trazer a temática da diversidade cultural brasileira para nos- sa escala local, utilizamos o documentário “Mário, um modernista em Mogi” que aborda a passagem de Mário de Andrade por Mogi em 1937. Este documentário foi fundamental para visualizarmos a importância da participação das Congadas de Mogi na Entrada dos Palmitos na tradicio- nal festa do Divino. O documentário, elaborado pela Secretaria de Cultu- ra5, traz o elemento cultural afro-brasileiro na história do município, ao mesmo tempo, em que mostra a importância da Semana de Arte Moder- na de 1922 para a valorização de elementos da cultura popular brasilei- ra. Com isso, buscamos produções audiovisuais que apresentassem às alunas e alunos as particularidades das Congadas de Mogi, como o do- 5 Mário: um modernista em Mogi foi elaborado em 2022 pela Secretaria de Cultura de Mogi das Cruzes em come- moração ao centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. O documentário apresenta trechos do artigo acadê- mico de Mário de Andrade com suas observações acerca da Entrada dos Palmitos, tradição cultural mogiana que Mário de Andrade veio prestigiar na Festa do Divino de Mogi no ano de 1937. Também há trechos da gravação em vídeo feita por Dina Dreyfus sobre as Cavalhadas do Divino, tradição cultural caracterizada por uma dança dra- mática que, assim como as Congadas e Marujadas, representam as batalhas entre cristãos e mouros nas Guerras Santas, onde o objetivo é a conversão do inimigo (SOUZA, 2001) C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 41 cumentário Reinado de Congo de Mogi das Cruzes (2016)6, que traz, além das características próprias das Congadas em geral, as particularidades das Congadas de Mogi, a trajetória migrante dos antepassados das con- gadeiras e dos congadeiros que atualmente compõem os grupos, além das questões que envolvem o sincretismo entre elementos das religiões de matriz africana, em particular o candomblé, e os elementos cristãos, além do preconceito contra esse sincretismo. Na última etapa, organizamos entrevistas com alguns integrantes da Congada de Santa Efigênia (Mestra Laine e Rafael) e daCongada de São Benedito (Mestre Alexandre), na qual pudemos evidenciar o protagonis- mo das alunas e dos alunos ao elaborarem questões objetivas, assim como ao realizarem a transcrição dos áudios das entrevistas. Importan- te lembrar, como nos alerta o professor Jeremias Brasileiro (2012), que “ao trabalhar com memórias, por meio de testemunhos provenientes de alguns personagens do Congado, percebo o quanto a memória não é uma forma de recordação estática. Ao contrário, é construída, fornecendo assim, diferentes possibilidades de ser compreendida, não se limitando apenas a uma idealização unívoca do passado”. Esta etapa do trabalho, ainda que aparente ser automática, mostrou-se muito benéfica, visto que possibilitou o contato direto das alunas e dos alunos com a história oral de pessoas que trazem em suas vidas uma tradição e muita repre- sentativa da diversidade cultural brasileira. A ABORDAGEM DA GEOGRAFIA Em Geografia, trabalhamos o projeto em 10 aulas, partindo da forma- ção do povo brasileiro, enfatizando alguns conceitos para embasar nos- 6 Disponível no site do Memorial da Casa do Congado em São Paulo: www.mdcsp.com.br. http://www.mdcsp.com.br C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 42 sos estudos, como, por exemplo, a diversidade étnico-racial do Brasil, as contradições presentes no processo de formação da identidade bra- sileira, o genocídio e o etnocídio dos colonizadores para com as popula- ções indígenas e afro-brasileiras ao longo da nossa história. Após apresentar em três aulas as principais características dos po- vos formadores do Brasil e de seus processos de inserção naquilo que se denominou “povo brasileiro”, vimos os principais momentos de mobi- lização e deslocamento desse povo pelo território, além da chegada de outros povos estrangeiros que contribuíram para a diversidade cultural brasileira. A migração de colonos aconteceu mais intensamente entre o final do século XIX e início do século XX, vindos da Europa, do Orien- te Médio e do Leste Asiático. Esse momento foi dividido em duas aulas diferentes, uma para analisar as migrações internas e seus diferentes momentos históricos na formação do território brasileiro, e outra para analisar as migrações externas, tanto aquelas de imigrantes para o Bra- sil, como a da população brasileira para outros países. Em paralelo ao estudo dos movimentos migratórios no Brasil e de sua contribuição para a diversidade cultural brasileira, propomos um semi- nário focado na desigualdade racial no Brasil, pois, como nos aponta os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) ao abordar o tema transversal Pluralidade Cultural: “As produções culturais não ocorrem “fora” de rela- ções de poder: são constituídas e marcadas por ele, envolvendo um per- manente processo de reformulação e resistência” (PCN´s 1998. pp. 121). Dessa forma, a questão das desigualdades raciais revisita a desigualda- de social, infelizmente característica marcante da sociedade brasileira. Os seminários foram feitos a partir de uma questão geradora: quais são as origens da desigualdade racial no Brasil? Além da produção tex- tual temática, foi proposta a pesquisa sobre uma personalidade negra da História do Brasil que tivesse sido importante na luta contra a desi- C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 43 gualdade racial. Nesta etapa, diversas alunas e alunos trouxeram dados importantes em suas pesquisas, como a desigualdade de acesso ao en- sino por cor ou raça, a falta de pessoa negras em cargos de chefia ou liderança e o genocídio da população negra periférica. Porém, ao bus- carem personalidades históricas negras no Brasil, alguns ficaram res- tritos aos primeiros resultados de busca em sites de pesquisas, como informações sobre Zumbi dos Palmares. Contudo, outros nomes foram trazidos, como Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus e Gilberto Gil. As pesquisas e cartazes foram elaborados em casa e utilizamos 2 aulas para a apresentação dos seminários. Nas 3 últimas aulas do projeto, as salas elaboraram um mapa dos fluxos migratórios internos do território brasileiro e de um segundo mapa, a título de comparação, dos fluxos migratórios feitos pelos antepassados dos entrevistados das Congadas de Mogi. A ABORDAGEM DA HISTÓRIA O trabalho começou com análise de três obras do pintor francês Je- an-Baptiste Debret: “Jovens negras indo à Igreja para serem batizadas” (1821), “Cortejo fúnebre do filho de um rei negro” (1819) e “Enterro de uma mulher negra” (1835). Com o intuito de despertar a sensibilidade do olhar para obras criadas na transição do final do período colonial, início do período independente e todo atravessamento do olhar do artista, todas as seis turmas tiveram acesso às imagens e realizaram a análise a partir de um roteiro pré-estabelecido. Foi um momento muito profícuo, vis- to que alguns questionamentos não previstos vieram à tona, bem como pesquisas específicas sobre objetos e adereços presentes na imagem. A resistência e o simbolismo presente nelas foi assunto de debates após o término da atividade. Nesta etapa, algumas alunas e alunos declaram sua religiosidade ligada ao Candomblé e à Umbanda, o que fomentou de- C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 44 bates sobre a demonização das crenças e rituais próprios de religiões de matriz africana e seu recorte claramente racista. Tivemos ainda uma mãe que se opôs ao trabalho e proibiu seu filho de assistir às aulas, além de falas racistas por parte das próprias alunas e alunos. Em um segundo momento, assistimos a recortes do documentário com abordagens sobre o processo migratório, a importância e o respei- to às tradições, bem como sobre o preconceito com manifestações com elementos afro-brasileiros. Tivemos ainda um momento de escuta e transcrição das letras das Congadas, o que trouxe certa resistência por parte das alunas e dos alu- nos, em especial pela construção musical ocidental e branca a que es- tão expostos. Ora ouvíamos falas que reclamam do agudo “excessivo” dos cantos, ora sobre a simplicidade das letras. Por outro lado, foi muito gratificante ouvir as turmas cantarolando congadas durante e após esta etapa, bem como o respeito com que o tema foi tratado. Tal momento revelou a responsabilidade da escola na inserção da cultura popular nas aulas como uma forma de ampliar as possibilidades de identificação das turmas. Paralelamente às ações acima descritas, os temas curriculares do sétimo ano de História do Brasil: povos originários, colonização, con- tatos com os europeus e a ocupação do território foram abordados de modo a mostrar como esse processo foi complexo, tanto temporalmen- te quanto em relação aos envolvidos e como isso se faz presente atual- mente, como podemos ver no objeto de nosso trabalho, a Congada, com elementos tanto europeus quanto africanos e indígenas. No decorrer das aulas, o uso de documentos sobre o período fez com que os estudantes tivessem contato com as diferentes formas que o processo de colonização aconteceu no território e como os agentes en- C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 45 volvidos agiram, suas intenções, quais as consequências e o mais im- portante como a partir de documentos se cria uma narrativa sobre lu- gares e pessoas. Esse ponto foi explorado para tentar elucidar um erro que muitos estudantes veem na História como algo do passado, que já aconteceu e não tem relação com o presente. O uso dos documentos, como o relato de viagens, mostrou para os alunos que pessoas comuns também ajudam na criação das narrativas. Com esse ponto de vista, os alunos fizeram as visitas no Muve, Museu de Vivências Educacionais, e no Museu Mogiano, que como instituições públicas trazem um discurso subjacente à sua constituição como locais de memória e de uma narrativa sobre o município. As visitasocorreram com a mediação dos educadores em ambas instituições; no Muve, a pri- meira sala é onde fica mais evidente a questão da narrativa histórica, onde aparece um vídeo onde a história de Mogi é contada. Para além das imprecisões históricas, que não são o ponto aqui, a mediação foi muito importante para suscitar discussões sobre como a narrativa do vídeo é passível de ser criticada. Os estudantes participaram dessas discus- sões que foram muito bem conduzidas pela mediadora. As outras salas do museu também foram exploradas com enfoque na de manifestações culturais mogianas, onde aparece a congada. Na visita ao Museu Mogiano a questão da narrativa também se faz pre- sente, como a visitação é por salas sem o recurso audiovisual, as media- ções foram importante para mostrar aos estudantes como o acervo do museu foi criado e adquirido e qual a importância daqueles objetos em exposição. Em ambos os museus, à questão da narrativa foi central nas discussões com os estudantes no pós-visita. A materialidade presente no museu Mogiano frente a exposição do Muve, o que trouxe nas aulas posteriores a discussão da questão do patrimônio material e imaterial. Como a congada sendo um patrimônio imaterial entra no ambiente mu- seal e o porquê da sua importância em estar nesses locais. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 46 A FEIRA DE CONHECIMENTO A finalização do projeto se deu no dia 23 de novembro com a expo- sição dos trabalhos na Feira do Conhecimento da nossa escola. Neste dia, além do resultado das entrevistas e de algumas letras de congadas, foram expostas algumas fotos do fotógrafo mogiano Danilo Duvilierz, selecionadas pelas turmas com um enfoque particular de crianças e adolescentes participando das Congadas de Mogi, Além disso, tivemos duas oficinas de dança das Congadas junto ao professor e congadeiro Rafael Luiz dos Santos, onde aprendemos mais sobre a prática percussiva das Congadas, bem como passos e danças próprias da manifestação. A oficina foi o ponto alto da exposição, com a participação de alunas e alunos, bem como docentes da nossa escola. CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho com as Congadas de Mogi das Cruzes em sala de aula, abordando-a a partir de seus elementos constituintes, mas também de seu processo de formação histórico-social e da história oral narrada por seus sujeitos, nos permitiu, como aponta Silva & Mendes (2011), a bus- ca por um ensino contra-hegemônico, no qual, frente a hegemonia dos meios de comunicação de massa, que vendem uma cultura desenraiza- da, valores culturais padronizados e voltados apenas para a reprodução de uma sociedade burocrática de consumo dirigido (LEFEBVRE, 1991), colocamos a contracultura, representada pela cultura popular, engen- drada a partir do que é vivido, de determinadas condições de existência que demonstram uma resistência de identidades particulares, justa- mente opostas a homogeneização de hábitos culturais promovidas pela globalização do capitalismo. Dessa forma, acreditamos que o projeto C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 47 contribuiu para a formação de sujeitos que valorizam a diversidade étni- co-cultural brasileira como elemento de resistência popular e não ape- nas estético. A possibilidade de trazer para sala de aula temas transversais, como a cultura popular brasileira e a questão étnico-racial no Brasil, nos per- mitiu uma abordagem interdisciplinar muito enriquecedora, integrando diferentes conteúdos curriculares em torno da transversalidade temáti- ca do projeto. As principais potencialidades avaliadas foram a realização de ativi- dades coletivas; a participação dos alunos na exposição dos seus tra- balhos; a abertura para o posicionamento dos alunos em relação aos assuntos abordados, principalmente a questão das religiões de matrizes africanas e a própria experiência de realizar um trabalho interdisciplinar com a possibilidade de continuidade em outros anos. Contudo, muitas dificuldades se apresentaram ao longo do processo, tais como Integrar os alunos em torno de uma atividade coletiva, en- quanto eles estão preocupados com a avaliação individual (nota); lidar com preconceitos e com o não reconhecimento de elementos culturais de matriz africana por parte de alguns alunos e pais; associar o conteú- do programático de cada disciplina com o tema do projeto interdiscipli- nar, equilibrando-os as demandas rotineiras da escola e o curto tempo para realização dos planejamentos conjuntos. Importante destacar a importância de trabalhos com viés antirracis- tas dentro do espaço escolar. Sabemos que a escola é permeada por uma multiplicidade de elementos que reforçam a supremacia branca, seja por meio do currículo eurocentrado, seja por meio da estética da estrutura, do corpo docente, seja pelo apagamento da resistência ne- gra. Conforme a lei 10.639/2003 que nos incita a garantirmos o atraves- C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 48 samento racial na nossa prática cotidiana como ferramenta de combate ao racismo, buscamos fugir das abordagens que colocam o povo negro em um lugar estático ou vitimizado, trazendo o povo “negro como mero produto oriundo do escravismo persistentemente mitificado por meio de um discurso que representa esse negro como um eterno vitimizado” (BRA- SILEIRO, 2012). Logo, este trabalho buscou focar na existência das Con- gadas como elemento de força, beleza e resistência do povo negro e promover a identificação das alunas e dos alunos com nossa história. C IÊ N C IA S D A N A T U R E Z A , H IS T Ó R IA E G E O G R A F IA 49 REFERÊNCIAS BRASIL, Ministério da Educação, (1997). Parâmetros Curriculares Na- cionais para o Ensino Fundamental. Brasília, MEC/SEF. BRASILEIRO, Jeremias, 2012. O ressoar dos tambores do Congado: entre a tradição e a contemporaneidade: cotidiano, memórias, disputas (1955 – 2011) / Jeremias Brasileiro. - Uberlândia, 2012. LEFEBVRE, Henri. A Vida cotidiana no mundo moderno (Trad. Alcides João de Barros). São Paulo, Editora Ática, 1991. SILVA, Kalita Tavares da; MENDES, Estevane de Paula Pontes. ENSI- NO DE GEOGRAFIA, CULTURA POPULAR E TEMAS TRANSVERSAIS: uma proposta de transversalidade a partir dos Parâmetros Curriculares Na- cionais(PCN's). In: VIII Congresso de Pesquisa, Ensino e Extenção PRO- EC-38, 2011, Goiânia. ENSINO DE GEOGRAFIA, CULTURA POPULAR E TE- MAS TRANSVERSAIS: uma proposta de transversalidade a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais(PCN's), 2011. SOUZA, Marina de Mello e. História, mito e identidade nas festas de reis negros no Brasil - séculos XVIII e XIX. In: Festa: cultura e sociabili- dade na América Portuguesa, vol. 1 / István Jancsó e Iris Kantor (orgs.) - São Paulo, Hucitec, 2001. EDUCAÇÃO FÍSICA E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A 51 A A proposta formativa para os Professores Especialistas de Edu-cação Física, em 2022, teve como base teórica a Educação Física culturalmente orientada. Essa nova teoria muda, defi- nitivamente, o foco do trabalho pedagógico, que sai do conteúdo e lança um cuidadoso olhar sobre o aluno e a Cultura Corporal do Movimento, que faz parte da sua construção e do seu contexto. Entendendo que a Educação Física Escolar está inserida na área de linguagens a partir da Base Nacional Comum Curricular, é preciso repensar a atuação pedagó- gica, visando formar o aluno leitor e produtor de textos corporais. Quando uma criança está em processo de alfabetização, o professor deve oferecer a ele diversos gêneros textuais, munindo-o de conheci- mento para que possa escrever seus próprios textos. Nesse momento, são apresentadas as receitas, as propagandas, as notícias, os contos, as cartas, as fábulas, os verbetes… assim, o aluno vai aprimorando sua leitura e tornando-se um escritor. Da mesma forma, isso acontece com o corpo. Os estudantes precisam ter acesso às diversas práticas cor-porais, compreendê-las, ressignificá-las, para que possam criar o seu padrão de escrita e leitura desses textos. Pode parecer estranho, mas quando um aluno nunca viu um jogo de handebol e tem seu primeiro contato com essa modalidade, a leitura mais simples é: futebol com a mão. Da mesma forma, o basquete é o futebol com mão que faz cesta. Certamente, qualquer pessoa vai fazer a associação do novo com aquilo que já lhe é conhecido. Isso não pode ser considerado um erro, mas um daltonismo, uma visão limitada das práticas corporais. Quando duas pessoas convivem, é muito comum a repetição de ges- tos do outro. Isso não é uma imitação provocada, mas a transmissão de uma cultura de movimento. Os seres humanos aprendem vendo o outro. Quando olhamos uma pessoa se expressar corporalmente, E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A 52 HANDEBOL: DAS BRINCADEIRAS E JOGOS POPULARES A PRÁTICA DO HANDEBOL Maurício Dias EEsse trabalho foi realizado no ano de 2022 nas aulas de educa-ção física da escola Cempre Benedito Ferreira Lopes, com as turmas dos 6º anos com a finalidade de ampliar o repertórios de movimentos corporais já que essas turmas passaram dois anos durante a pandemia praticamente sem contato com as atividades físicas. Para chegar a essa modalidade esportiva coletiva foi feito um trabalho onde os alunos partiram de práticas corporais menos elaboradas e sistemati- zadas para uma prática mais sistematizada e complexa. Começamos com pesquisas sobre modalidades esportivas conheci- das pelos alunos e esportes em geral. Pesquisaram os esportes ou jogos que seus pais praticavam ou jogavam quando tinham a idade que eles tem hoje, e assim fomos chegando próximo da modalidade handebol uma modalidade coletiva competitiva, classificada na BNCC como ESPORTES DE INVASÃO: são esportes onde o objetivo é infiltrar no campo adver- sário e levar a bola ou outro objeto até uma meta ou área específica do campo adversário. Ex.: Futsal, Handebol, Basquetebol, Futebol, Rúgbi. E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A 53 Pesquisaram sobre espaços para práticas esportivas nos locais onde moram e nas proximidades da escola. Conheceram jogos e brincadeiras do repertório popular, passaram pelos jogos cooperativos e jogos pré- -desportivos e chegando aos esportes coletivos. Foi passado aos alunos um vídeo onde a seleção brasileira de hande- bol feminino sagrou-se campeã mundial na modalidade jogando contra a Servia. Nos esportes coletivos conheceram o handebol como uma modali- dade de invasão, que tinha como objetivo fazer gols com as mãos o que foi logo comparado ao futebol por ter o elemento gol e ser jogado nos mesmos espaços que o futebol. E D U C A Ç Ã O F ÍS IC A 54 Sendo assim estudaram sobre sua origem, seu histórico e suas re- gras. Fizemos então um grande jogo onde os alunos participaram quase todos ao mesmo tempo o que despertou mais a vontade de participar das aulas e aprender os fundamentos do jogo. Nos primeiros jogos realizados pelas turmas eles jogavam sendo orientados a marcar e esperar os adversários atacarem, com a invasão dos seus espaços de forma bem simples o que dá uma dinâmica ao jogo. Eles são levados a participar do ataque e da defesa e procuram as me- lhores estratégias para vencer a barreira adversária, assim eles apren- derão os fundamentos de ataque, controle de bola e de corpo, condução da bola em velocidade, passes, arremessos parados, com movimentos e com saltos, participando do jogo e torna-os mais competitivos a ponto de aumentar o grau de disputa entre os participantes. Assim sendo fo- mos introduzindo os fundamentos que os alunos sentiam que fazia par- te da modalidade o que ia melhorar o seu desempenho, assim eles en- tendiam o porquê desses fundamentos e as suas aplicações em quadra quando estavam jogando de forma competitiva. LÍNGUA PORTUGUESA L ÍN G U A P O R T U G U E S A 56 PPartindo da premissa que “Não basta alfabetizar, é preciso ensi-nar a ler”, do apaixonado e grande incentivador da leitura, José Mindlin, da Academia Brasileira de Letras, o percurso formativo para professores da área da Língua Portuguesa, do Ensino Fundamental II e EJA do nosso município, alinhavou práticas educacionais desenvol- vidas em sala de aula por meio de um relato de experiências vivenciadas entre estudantes e mestres, compartilhando um trabalho vivo de leitura para além dos livros: a leitura de mundo que perpassa pela vida de cada um. Ao fomentar o registro de experimentos tão significativos no proces- so de aquisição da linguagem, as etapas de todo o aprendizado perpas- saram propostas sociointeracionistas, tendo os(as) estudantes como protagonistas ativos nesta propositura. Práticas sociais de leitura e escrita foram utilizadas em cada trabalho desenvolvido pelos(as) professores do Ensino Fundamental II, pois para o desenvolvimento e formação de leitores plenos, não são considera- dos apenas aqueles que decifram os códigos ou os que leem apenas o próprio nome. Faz-se necessário incorporar textos que façam sentido e que ocorrem no cotidiano, como também trazer para dentro da escola a escrita e a leitura que acontecem fora dela. Nessa perspectiva, as práticas de leitura, escrita e oralidade não foram descontextualizadas, pois partiram de uma situação de comu- nicação comumente vivida pelos(as) estudantes, tendo como tema do trabalho e textos selecionados o racismo e o fomento às atitudes antir- racistas. As modalidades didáticas de trabalho com leitura contempladas nes- se projeto possibilitaram e constituíram a proficiência leitora, por meio L ÍN G U A P O R T U G U E S A 57 de uma mobilização de procedimentos e habilidades que foram desen- volvidas e ampliadas durante todas as suas etapas. Dessa forma, cada professor(a) utilizou-se de práticas com o objetivo de ampliar estratégias de leitura, produção textual e oralidade para al- cançar a fluência leitora e o letramento por meio de diferentes gêneros textuais. Para isso, foram escolhidas histórias em quadrinhos, charges, textos jornalísticos, bem como, de forma indireta, todos os outros gêne- ros que compõem um jornal escrito. Para contemplar as habilidades propostas, situações comunicativas permearam os trabalhos, como rodas de conversa, leituras comparti- lhadas, leituras de textos multissemióticos para estudo de efeitos gráfi- cos, como também pesquisas e leituras de diferentes mídias (impressas e digitais). Já na Educação de Jovens e Adultos, a partir de um formulário para estabelecer a curadoria sobre o seu público-alvo, foram mapeados os motivos pelos quais avivaram os estudantes a retornarem aos estudos. Todos os dados coletados potencializaram os desafios com vistas a uma educação inclusiva e equitativa. Neste sentido, ao considerar o texto como unidade básica de ensino- -aprendizagem, os(as) estudantes foram apresentados ao livro “Quarto de despejo, diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus, bem como à biografia da autora, a qual possibilitou a construção de conheci- mento a partir da autobiografia dos(as) estudantes. Assim, orientados por um sistema de tutoria, cada professor(a) pôde auxiliá-los(as) no processo de escrita, valorizando a história individual, bem como a contribuição interdisciplinar para um produto que enches- sem-nos(nas) de orgulho. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 58 VIVÊNCIAS E HISTÓRIAS: ALFABETIZANDO NA EJA EM CEL. ALMEIDA Carla Gonçalves Conatti Edno Candido da Cunha Eliane Batista de Souza Marina Jacques Fernandes Lopes Zenildo Leal INTRODUÇÃO O aluno da EJA (Educação de Jovens e Adultos) tem uma visão de mundo bastante peculiar, pois tratam-se de homens e mulheres afas- tados da escola durante um tempo, ou mesmo iniciando sua trajetória escolar nessa fase da vida. Apresentam traços de vida, origens, idades, vivências profissionais, históricos escolares, ritmos de aprendizagem e estruturas de pensamento completamente variadas. Além disso, são pessoas que vivem no mundo do trabalho,com responsabilidades so- ciais e familiares, com valores éticos e morais formados a partir de ex- periência, do ambiente e da realidade cultural em que estão inseridos. A alfabetização de adultos é particularmente complexa, por isso, muitos autores discorrem sobre o tema na tentativa de orientar os pro- fessores sobre como abordar a alfabetização com o adulto. De fato, al- L ÍN G U A P O R T U G U E S A 59 fabetizar um adulto é certamente distinto de fazê-lo com uma criança na idade certa. Além disso, é necessário que sejam analisadas as condições sociais em que vivem esses adultos e o que os fez afastar-se da escola. É indis- cutível que o cotidiano desse aluno interfere em seu aprendizado. O desafio ao ensinar, em qualquer nível, sobretudo o adulto, é motivar o estudante no sentido de que seus interesses, expectativas e anseios o mobilizem para a aprendizagem. Diversas vezes o estudante é tratado com preconceito e o processo de educação de adultos tende a vê-lo como alguém que não se desen- volveu culturalmente. Ao menosprezar o conhecimento do adulto, a alfa- betização de adultos passa a ser, na visão de Pinto (1994), a retomada do crescimento mental de um ser humano que estacionou na fase infantil. Por vezes o professor não considera o conhecimento prévio do es- tudante, os saberes adquiridos através de sua história de vida, e igno- ra que o desenvolvimento e a aprendizagem acontecem na interação social, que não cessa pelo fato de o indivíduo permanecer analfabeto (Scheartz, 2012). É preciso conhecer e saber quem são os jovens e adultos, como vivem, o que pensam, o que fazem e ainda o que os motivou a voltar a estudar. Para Scheartz (2012), é preciso enxergar o aluno como sujeitos inteli- gentes, que desenvolvem estratégias de sobrevivência em uma cultura escrita sem estar adequadamente preparados, resolvendo problemas e trabalhando. Para Vygostsky, o desenvolvimento das funções humanas está pau- tado no processo de interação do indivíduo com o mundo (nas esferas sociais e históricas) por sistemas de símbolos construídos socialmen- L ÍN G U A P O R T U G U E S A 60 te. Desse modo, o aprendizado através de interações com o meio físico, social e histórico possibilita o desenvolvimento de processos internos e propiciam diferentes formas de aprendizagem e conhecimentos (OLI- VEIRA, 1997). De acordo com Durante (1998), considerar esses aspectos é funda- mental para o trabalho com o adulto não alfabetizado ou pouco escola- rizado. Suas experiências e circunstâncias culturais, históricas e sociais propiciam situações de aprendizagem, promovendo o desenvolvimento psicológico. Para Paulo Freire, a humanização do homem é o sentido de toda e qualquer educação, do contrário, segundo ele, seria dominação. A des- peito de uma concepção problematizadora, a prática “bancária” da edu- cação não reconhece o homem como ser histórico formado, mas sim como seres inacabados e que não são autores de sua própria história (FREIRE, 1980). JUSTIFICATIVA Marta Durante (1998) traz a proposta de uma prática que considera o texto como unidade básica do processo de ensino e aprendizagem. Ao considerar um estudo feito com adultos não alfabetizados ou pouco es- colarizados da construção civil, a autora aponta a necessidade de uma organização curricular que considere o texto de uso social como princi- pal recurso. Nesse sentido, esse estudo também utilizou o texto como unidade básica para o desenvolvimento da competência discursiva, ampliando a capacidade de produzir e interpretar textos orais e escritos. O objetivo L ÍN G U A P O R T U G U E S A 61 foi trabalhar a leitura e a escrita através da própria história de vida dos estudantes, a autobiografia. Ao conhecermos nossos alunos podemos perceber a heterogeneida- de de aprendizagem desse público. Alguns estudantes, mesmo estando matriculados nos anos finais do ensino fundamental, ainda não sabiam ler e escrever. Entretanto, não vivem em um mundo fora da sociedade, eles participam de atividades práticas letradas, pois tudo que se faz en- volve de uma forma ou de outra a escrita. Os analfabetos tomam ônibus, olham os jornais em bancas e até retiram o dinheiro no banco com car- tão magnético. Tais práticas os fazem ter contato com o mundo letra- do e favorecem os níveis de alfabetização. Por esse motivo, utilizar um texto próximo da realidade deles os motiva e facilita a aprendizagem, tornando significativo esse processo. CARACTERIZAÇÃO Este estudo foi realizado, e ainda está em curso, com os estudantes da Educação de Jovens e Adultos da “Escola Municipal Cel Almeida”, si- tuada na região central de Mogi das Cruzes, em prédio tombado desde 2007, pelo Condephaat, e recebe estudantes de várias localidades do Município de Mogi das Cruzes. Além do Ensino Regular de 1º ao 5º Ano, a escola conta com duzentos e vinte e quatro alunos matriculados na EJA. Inicialmente foram feitas entrevistas com os estudantes a fim de co- nhecermos o público-alvo do estudo. Nessa primeira conversa indaga- mos os motivos que os fizeram deixar os estudos e ainda o que os moti- vou a retornarem, além de conhecermos suas profissões, um pouco de sua família e outros assuntos que eles sentissem à vontade para relatar. Os estudantes adultos ali matriculados são trabalhadores, alguns de- L ÍN G U A P O R T U G U E S A 62 sempregados, donas de casa, jovens, idosos, pessoas com deficiências, enfim, são pessoas com diferenças sociais, culturais, étnicas e religio- sas. De acordo com as entrevistas, nossos estudantes são na maioria adultos, residem longe da escola no distrito de Jundiapeba, que está cerca de 7,5 km de distância do centro e outros bairros também distan- tes como Jardim Piatã, Varinhas, entre outros. Por esse motivo, muitos dependem do passe escolar para ir e vir às aulas. O principal motivo pelo qual pararam de estudar foi para trabalhar e compor a renda familiar, sendo que muitos sustentavam a família desde muito jovens, muitas vezes um trabalho precário e sem direitos traba- lhistas. Agora esses adultos retornam aos bancos escolares à procura de melhoria da qualidade de vida, enxergando na escola uma possibilida- de de aprender e ainda obter novas oportunidades de trabalho. Vale ressaltar que muitos estudantes estão em busca de realização pessoal, de conseguirem ler e escrever e se emocionaram ao conseguir ler sua própria história de vida. Os alunos da EJA variam entre 15 e 55 anos de idade. Alguns alunos nunca tinham frequentado a escola em idade própria e outros estão há mais de 30 anos sem estudar. Alguns mais jovens pararam os estudos há pouco tempo e estão retornando na EJA. Temos uma quantidade significativa de estudantes desempregados e dentre os trabalhadores temos empregadas domésticas, cabeleireiras e manicures, pedreiros, trabalhadores informais, entre muitas outras ocupações. Todos esses dados potencializam os desafios para uma educação com equidade e inclusiva para a EJA. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 63 DESENVOLVIMENTO A ideia das entrevistas iniciais foi conhecer nossos alunos e seus an- seios, para então propor intervenções assertivas para contribuir com a aprendizagem deles. Após o período de entrevistas, os professores iniciaram as revisões na literatura e idealizaram o presente projeto. Por meio de uma conversa coletiva com os(as) estudantes, foi explicitado qual seria a intencionali- dade das atividades propostas e, além disso, a importância da participa- ção de todos no projeto. A proposta do projeto foi trabalhar a alfabetização de adultos a partir de textos produzidos por eles, com ou sem ajuda do professor. Trata-se da produção de um texto do gênero autobiográfico, no qual os alunos escreveram sua história de vida. Para a introdução do tema foi apresentado aos alunos um texto de biografia de Carolina Maria de Jesus, autora do livro “Quarto de Despe- jo” e outro de autobiografia de Bartolomeu Campos Queiroz, escritor delivros infantis, com o objetivo de apresentar aos alunos esses gêneros textuais. Nesse momento foi feito com os alunos uma construção de ideias ou elementos que não devem faltar em uma autobiografia. Os professores colocavam na lousa as ideias propostas pelos estudantes, fazendo in- tervenções quando necessário. Em seguida, cada estudante já alfabeti- zado iniciou seu processo de escrita. Em sistema de tutoria cada professor, autor deste estudo, ficou res- ponsável por uma quantidade de alunos para que pudesse ler e auxili- á-los no processo de escrita com o objetivo de avaliar e interferir nas produções. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 64 A escrita do presente texto foi um processo de aperfeiçoamento gra- dativo, até chegarmos ao texto final, a ser publicado em um livro digital, que está sendo elaborado em parceria com o Departamento Pedagógico da Secretaria da Educação de Mogi das Cruzes. Com estudantes não alfabetizados, os tutores (professores) foram os escribas, e a ação seria utilizar essa produção para construção deste processo de aprendizagem, ou seja, a partir de sua própria história de vida, os jovens e adultos começariam a aprender a ler e a escrever. Além desse processo de alfabetização, esse estudo permitiu que cada área do conhecimento trabalhasse suas peculiaridades a partir das histórias dos alunos. Na área de Ciências foi possível introduzir con- ceitos a respeito da saúde e bem estar do ser humano, uma vez que os alunos traziam questões como histórico de saúde da família e proble- mas decorrentes do estilo de vida que levavam. Além disso, foi possível a problematização a respeito da pegada ecológica que cada indivíduo deixa na natureza a partir de suas ações e costumes. Essa temática foi utilizada na construção de novos textos de forma coletiva e a posterior leitura para atingirmos em algum momento a proficiência leitora dos es- tudantes. Quando refletimos com o estudante sobre seu pertencimento à na- tureza e meio ambiente podemos discutir seu papel na concepção em Direitos Humanos e sua interferência na degradação do Planeta, com- prometendo sua saúde e qualidade de vida. A partir do olhar para seus costumes e ações pode-se problematizar sobre a marca que sua histó- ria já deixou na natureza e ainda sobre quais hábitos poderiam ser re- pensados para que sua pegada ecológica seja menor daqui em diante. Durante as aulas de Língua Portuguesa, foram utilizados capítulos do livro "Quarto de Despejo, diário de uma favelada", de Carolina Maria de https://brasilescola.uol.com.br/geografia/pegada-ecologica.htm L ÍN G U A P O R T U G U E S A 65 Jesus. Alguns dias de relatos autobiográficos foram lidos e divididos em etapas sistemáticas contextualizadas, que partem de um todo para par- tes menores. Os alunos entenderam qual a função social exercida pelos textos, que inicialmente foi o ponto trabalhado. Após o trabalho com a função social, iniciou-se a alfabetização a partir de textos que foram baseados na visualização. Isso permite ao aluno a impressão de que ele caminha rápido para chegar ao que almeja: o entendimento, leitura e escrita de uma mensagem No momento da criação da autobiografia, após já ter sido abordado temas e aspectos que eles, alunos, acham ser fundamental na escrita da autobiografia, partimos para a coleta de dados pessoais e o que eles gostariam de mostrar na escrita de suas próprias histórias. Eles apren- deram a colocar os temas em ordem cronológica e a selecionarem o que queriam que o outro soubesse sobre eles. O momento da escrita e após a reescrita foi gratificante e enriquecedor, muitos descobriram que o mistério existente nas letras estava sendo decifrado por eles a partir de sua própria história. Na disciplina de Língua Inglesa foram trabalhadas questões culturais de países de língua inglesa que influenciam o cotidiano das pessoas no Brasil. Falamos sobre influências na culinária, na vestimenta, nos costu- mes e nas Artes (música, filmes, séries), fizemos um paralelo das datas comemorativas em países anglófonos e no Brasil e como isso influencia a nossa vida (a forma como comemoramos o Halloween foi discutida em sala). Falamos também sobre o uso de tecnologias e como a língua ingle- sa está presente na internet e nos aplicativos que mais usamos no dia a dia (whatsapp, facebook, instagram etc). Outra questão que foi trabalhada em algumas turmas, foram os rela- tos de experiências internacionais. Temos alunos que trabalharam com estrangeiros, alguns moraram em outros países, outros foram casados L ÍN G U A P O R T U G U E S A 66 com pessoas de fora do Brasil. Falamos sobre essas experiências com um viés da diversidade cultural. Tivemos uma situação pontual de uma aluna não alfabetizada que viveu por alguns anos na Espanha e enten- de e fala bem a língua Espanhola, mesmo sem ser alfabetizada em ne- nhum idioma. Aproveitamos a ocasião para desconstruir a crença de que aprender outras línguas seria impossível para quem não domina a escrita e questionar a fala que muitas pessoas têm de que "não sabemos nem português, quem dirá o inglês". Em Matemática, o projeto possibilitou a compreensão da leitura como competência essencial ao ser humano, no início, trabalhamos com leitu- ra de situações-problema, uma destas surgidas a partir da fala da aluna Cristina, que estava buscando entender quanto deveria cobrar nos pro- dutos que vende na feira aos finais de semana, passamos a escrever a lista, pesquisar os preços em diferentes locais através do celular e em seguida calculamos os custos totais, incluindo as despesas variáveis, para determinarmos os valores de venda com margem de lucro de 30%, alguns produtos ela nos ensinou que era possível lucrar 100%, à procura. Começamos a ler diariamente situações-problema de forma com- partilhada, o avanço na decodificação pode ser percebido, contudo a compreensão ainda é um desafio, especialmente quando usamos ter- minologias específicas, como a mais, a menos, diferença, produto, indi- cando que este trabalho precisa continuar, respeitando o ritmo destes estudantes. Nas aulas de História, tem sido trabalhado junto à construção da au- tobiografia dos alunos, conceitos como, “tempo”, “espaço” e “sujeito his- tórico”. Na construção dos textos, bem como no levantamento das infor- mações foram problematizados os contextos históricos com os quais as memórias dos alunos dialogam, levando-se em conta que L ÍN G U A P O R T U G U E S A 67 A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sen- tido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vul- nerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações (NORA, 1984, p.XIX). Temos discutido e refletido com os estudantes o quanto essas me- mórias se modificam de acordo com o momento em que são acionadas, apontando que, conforme são produzidas relacionam-se ao presente, ou seja, são frutos de como, atualmente, o sujeito se organiza e se en- xerga diante dos grupos aos quais pertence. CONCLUSÃO O estudante adulto tem sua história construída ao longo da vida, além disso, tem seus costumes, suas crenças, suas experiências e conhe- cimentos, uma bagagem que não pode ser desconsiderada em sala de aula, podemos conceituar que ao utilizar a sua história e a memória, o estudante passa a se reconhecer como sujeito, além de ser motivado à aprendizagem. Concebíamos ser um grande desafio possibilitar a alfabetização des- ses estudantes, uma vez que nós, professores de ciclo II não nos enxer- gávamos como alfabetizadores. Foi transformador quando nos perce- bemos capazes de alfabetizar, quebrando paradigmas ao garantir que a alfabetização seja, de fato, um direito de todos. Outra aprendizagem, para nós professores(as), foi em relação ao tempo, pois queremos dar conta do “conteúdo”, planejamos diversas atividades, e por vezes, nos frustramos,pois o sujeito principal desta relação não consegue acompanhar, ou seja, precisamos qualificar e não L ÍN G U A P O R T U G U E S A 68 quantificar, respeitando o tempo e ritmo dos(as) nossos(as) estudantes, garantindo a essencialidade curricular com diferentes metodologias. Toda essa aprendizagem construída por nós, professores(as), é visível nos Jovens e Adultos que demonstraram a autoestima elevada, motiva- dos a aprender, afirmando que não querem apenas o diploma. Esse pro- cesso foi de mudança paradigmática, em que professores e estudantes tornam-se sujeitos do processo de ensino e aprendizagem. Em alguns momentos, nós professores(as) pensamos, estudamos e planejamos as ações que serão desenvolvidas em sala pelos sujeitos estudantes, que ao vivenciarem a experiência aprendem com elas, por outro lado, em outros momentos surge do olhar e escuta deste estudante jovem e adul- to, a demonstração e o interesse do que gostaria de aprender, tornando esse processo contínuo. Para esse desenvolvimento, a interdisciplinaridade é inerente ao tra- balho docente, foi preciso um planejamento e atuação conjunta entre os professores(as) das disciplinas. A partir dessas histórias marcantes, que levaremos conosco, aprendemos a derrubar muros ideológicos, que separam as disciplinas, buscando significado, diferentes metodologias em cada ação, aprendendo com colegas e estudantes. Dessa forma, a reflexão sobre o papel da escola e do professor frente às suas práti- cas, e ainda sobre qual a finalidade real que se pretende atingir, posto que o professor, precisa antes de qualquer coisa, entender sua tarefa social dentro da sala de aula, para poder trabalhar um modelo educa- cional comprometido de fato com as transformações sociais. Para que a escola assuma seu papel, é necessário conhecer a realidade deste(a) estudante, pois é impossível continuar a caminhada sem rever sua prá- tica pedagógica. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 69 REFERÊNCIAS DURANTE, Marta. Alfabetização de adultos: leituras e produção de textos. Porto Alegre: Grupo A, 1998. FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Penso, 1999. FREIRE, M. Pedagogia da autonomia – Saberes necessários para à prática docente. 9.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998. MORAIS, Artur Gomes de. Sistema de escrita alfabética. São Paulo: Melhoramentos, 2012. NORA, Pierre (dir.). 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L ÍN G U A P O R T U G U E S A 71 FUNDAMENTAL II- CEMPRE BENEDITO FERREIRA LOPES PROJETO: JORNAL DA TURMA TEMA: ANTIRRACISMO Daiana Aparecida de Castilho OOs alunos dos sextos anos A,B,C e D do CEMPRE Benedito Fer-reira Lopes fizeram um Jornal dentro da disciplina de Língua Portuguesa, o projeto está de acordo com o Currículo da tur- ma e refere-se ao trabalho com textos jornalísticos, o foco está nas se- guintes habilidades: • • EF69LP03 que consiste em: Identificar, em notícias, o fato cen- tral, suas principais circunstâncias e eventuais decorrências; em reportagens e fotorreportagens o fato ou a temática retratada e a perspectiva de abordagem, em entrevistas os principais temas/ subtemas abordados, explicações dadas ou teses defendidas em relação a esses subtemas; em tirinhas, memes, charge, a crítica, ironia ou humor presente. • • EF69LP06 que consiste em: Produzir e publicar notícias, fotode- núncias, fotorreportagens, reportagens, reportagens multimidi- áticas, infográficos, podcasts noticiosos, entrevistas, cartas de leitor, comentários, artigos de opinião de interesse local ou global, textos de apresentação e apreciação de produção cultural – re- L ÍN G U A P O R T U G U E S A 72 senhas e outros próprios das formas de expressão das culturas juvenis, tais como vlogs e podcasts culturais, gameplay, detonado etc.– e cartazes, anúncios, propagandas, spots, jingles de campa- nhas sociais, dentre outros em várias mídias, vivenciando de forma significativa o papel de repórter, de comentador, de analista, de crítico, de editor ou articulista, de booktuber, de vlogger (vlogueiro) etc., como forma de compreender as condições de produção que envolvem a circulação desses textos e poder participar e vislum- brar possibilidades de participação nas práticas de linguagem do campo jornalístico e do campo midiático de forma ética e respon- sável, levando-se em consideração o contexto da Web 2.0. Para início do projeto, os alunos tiveram contato com jornais im- pressos como Mogi News, Gazeta de São Paulo e Folha de São Paulo. Eles leram e analisaram os cadernos, o layout, a estrutura dos textos jornalísticos e depois escolheram uma matéria para apresentar para os colegas, em seguida analisaram revistas como Veja, Veja São Pau- lo, Superinteressante, Scientific American Brasil e Época, observaram as características e também escolheram uma matéria para apresentar para os colegas, é importante salientar que todos os alunos participa- ram da apresentação e do estudo da matéria, apropriando-se do texto jornalístico e das práticas de leitura e interpretação. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 73 ALUNOS APRESENTANDO APÓS TEREM LIDO OS JORNAIS E REVISTAS: L ÍN G U A P O R T U G U E S A 74 A partir dessas tarefas, os alunos em seus grupos, tiveram que criar matérias para um jornal da turma sob a temática antirracista, então várias ideias surgiram como, elaboração de entrevistas, podcasts, bio- grafias, receitas, reportagens, charges ou HQs. Cada grupo escolheu o nome e formato do jornal, de forma coletiva, por meio de uma eleição. Alguns alunos assistiram a filmes para fazer resenha, outros escolhe- ram fazer as receitas em casa, todos se mobilizaram para fazer o melhor dentro de suas possibilidades. Entrevista com a assistente social Anita Camilo, 6ºD L ÍN G U A P O R T U G U E S A 75 Depois de termos selecionado todas as matérias, vídeos, pesquisas, entrevistas, danças, foi o momento de digitar o conteúdo via Google Doc, e preencher os layouts dos jornais com o conteúdo digitado. Os alunos gostaram muito da experiência de digitar o material escrito por eles mesmos, se ajudaram e colaboraram para que tudo desse certo. Digitação das matéria Trabalho com charge Trabalho com charge L ÍN G U A P O R T U G U E S A 76 Feito isso, veio o momento de revisar os jornais e imprimi-los para a Feira do Conhecimento, a culminância do projeto foi a Feira, no dia 23 de novembro, os alunos apresentaram as danças para os presentes e os jornais também foram expostos, percebemos o orgulho dos pais e dos alunos ao fim da jornada. Os exemplares foram impressos para os alunos, levaram-no para a casa e demonstrarammuito orgulho ao ver o produto final. Saliento que trabalhar conteúdos por meio de projetos é muito gratifi- cante e dinâmico, pois sai da forma expositiva e permite que o aluno seja autônomo, buscando ferramentas para entender o conteúdo e incentiva uma participação mais efetiva, pois quando ele se vê no papel de jorna- lista, ele acaba prestando mais atenção na tarefa, ajuda o colega com Os grupos que pesquisaram músicas de matriz afro, ensaiaram uma música por turma e o vídeo também foi anexado no jornal, via QR Code. Todas as atividades estão em um canal do YouTube recurso do Canva, app para confecção dos jornais. Os próprios alunos escolheram a mú- sica e a coreografia, os estilos escolhidos foram samba, hip hop, pop e axé. Dança dos alunos, Ilê Pérola Negra de Daniela Mercury https://www.youtube.com/@CEMPREprofessoradaiana2022/videos L ÍN G U A P O R T U G U E S A 77 Jornal produzido pelos alunos dificuldade, e isso torna o momento de aprendizagem mais proveitoso e atraente, além de trabalhar o letramento digital e a conscientização sobre o preconceito e equidade racial, questões latentes presentes em nossa sociedade. Esse projeto foi importante e, ao fim dele, os alunos disseram que observaram mudanças ao falar sobre o tema trabalhado, todos estavam engajados em conhecer e respeitar as diferentes cultu- ras, em suma, foi maravilhoso. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 78 RELATO DE EXPERIÊNCIA PROJETO: GÊNERO TEXTUAL - HISTÓRIAS EM QUADRINHOS Paulo Sérgio de Oliveira Júnior INTRODUÇÃO Este relato de experiência tem por propósito contribuir para os es- tudos de ensino de Língua Portuguesa como língua materna, a partir da ampliação de estratégias de leitura de textos. Tal frente de trabalho das aulas de Língua Portuguesa não pode ser vista de forma independente do contexto de letramento. A sala de aula deve manter-se como espaço de apresentação e de tra- balho com textos de diferentes gêneros, contemplando a observação de aspectos, como propósito comunicativo, estrutura composicional, esti- lo predominante, efeitos de sentido etc. Este último aspecto da leitura será foco do nosso trabalho, visto ser um dos elementos requisitados para a compreensão textual e que, pelas dificuldades de nossos estu- dantes, requer especial atenção. O desenvolvimento do letramento literário tem por foco o gênero tex- tual história em quadrinhos, visto que foi um dos textos elencados para a reorganização das aprendizagens, no período posterior ao da pande- mia. O objetivo geral deste trabalho é: trabalhar gêneros textuais, como história em quadrinhos, identificando os efeitos de sentido a partir dos elementos linguísticos e paralinguísticos. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 79 Os objetivos específicos são: • • Ler, de forma autônoma, e compreender história em quadrinhos, expressando avaliação sobre o texto lido e estabelecendo prefe- rências por gêneros, temas, autores; • • Identificar efeitos de sentido advindos de escolhas feitas pelo au- tor, de forma a poder desenvolver uma atitude crítica frente aos textos; • • Analisar diferentes práticas e textos pertencentes a diferentes gê- neros da cultura digital envolvidos no trato com a informação e opinião, de forma a possibilitar uma presença mais crítica e ética nas redes. LETRAMENTO Magda Soares (SOARES, 2004) afirma que é muito comum confundir letramento com alfabetização, pelo fato de o primeiro termo ter sido in- troduzido recentemente no léxico de ciências como a Pedagogia. Con- tudo, é essencial que tenhamos clareza quanto ao sentido de cada um desses conceitos. Para a autora, “alfabetização é o processo pelo qual se adquire o do- mínio de um código e das habilidades de utilizá-lo para ler e escrever, ou seja, o domínio da tecnologia - do conjunto de técnicas - para exercer a arte e ciência da escrita” (SOARES, 2004, p. 91). Sendo um processo, é necessário que certas competências sejam apreendidas para se efetivar a alfabetização, como a codificação de fonemas em grafemas, decodi- ficação de grafemas em fonemas, habilidades motoras de manipulação de instrumentos e equipamentos de codificação e decodificação, dos L ÍN G U A P O R T U G U E S A 80 suportes em que se escreve e lê, postura correta e organização espacial da escrita na página. A autora ainda enfatiza que a definição acima de alfabetização tem sentido próprio, contrapondo-o ao sentido ampliado que vem sendo di- fundido, acompanhado de adjetivos que caracterizam a qual tecnologia se refere a aquisição, como alfabetização numérica, alfabetização musi- cal, etc. Enquanto a alfabetização diz respeito às habilidades que levam à codificação e decodificação da escrita, o letramento ao uso dessas habilidades com uma determinada finalidade: adquirir conhecimento, informar-se, interagir com os outros, pelo próprio prazer estético, entre outros. (SOARES, 2004) Para Magda Soares, com a evolução dos conceitos de alfabetização e letramento, atualmente, seus conceitos são tratados de forma distinta, por terem naturezas diferentes. No entanto, esses processos são inter- dependentes e indissociáveis. Nas palavras da autora: A alfabetização - a aquisição da tecnologia escrita - não precede nem é pré-requisito para o letramento, isto é, para a participação em práticas sociais de escrita, tanto assim que analfabetos podem ter um certo nível de letramento: não tendo adquirido a tecnologia da escrita, utilizam-se de quem a tem para fazer uso da leitura e da escrita; (...) a tecnologia da escrita é aprendida (...) através de atividades de letramen- to, isto é, de leitura e produção de textos reais, de práticas sociais de leitura e de escrita. (SOARES, 2004, p. 92) Britto (2004) afirma que o termo letramento é uma versão em portu- guês do termo inglês literacy, comumente traduzido por alfabetização, num momento em que se compreendia esse processo como também a inserção do indivíduo no mundo da escrita, consequentemente, na pers- pectiva de formação do cidadão leitor e escritor. A nova tradução dada ao termo em inglês deve-se ao fato de que, com os avanços na pesquisa L ÍN G U A P O R T U G U E S A 81 em alfabetização, surgiram novos sentidos para o ser alfabetizado na sociedade contemporânea, levando-se em conta a interação, a partici- pação social e a construção do conhecimento. Ao tratar de alfabetização e de letramento, não podemos deixar de lado o termo escolarização, muito caro para nossos estudos em Educa- ção. Segundo Soares (2004), podemos entendê-lo do ponto de vista das relações entre níveis de aprendizado escolar e níveis de letramento, e também do ponto de vista das práticas sociais e práticas escolares de leitura e de escrita. Comumente, associamos de forma natural alfabetização e escolari- zação, embora seja possível aprender a ler e a escrever em instâncias não escolares, como no seio familiar, na comunidade, na instituição re- ligiosa, entre outros. No caso do letramento, seu vínculo com a esco- larização não é tão óbvio, visto que, segundo Soares (2004), há muitas e diversas práticas de uso da leitura e da escrita, sejam sociais sejam escolares. Para a autora: (...) letramento é um contínuo não linear, multidimensional, ilimita- do, englobando múltiplas práticas com múltiplas situações e múltiplos contextos, em que, consequentemente, são múltiplas e muito variadas as habilidades, conhecimentos, atitudes de leitura e de escrita deman- dadas, não havendo gradação nem progressão que permita fixar um critério objetivo para que se determine que ponto, no contínuo, separa letrados de iletrados. (SOARES, 2004, p. 95) Dessa forma, ao tratar de letramento, não há um ponto de chegada, dizer que o indivíduo “letrou-se” por inteiro. Dada a multiplicidade do fenômeno, estamos sempre em processo de letramento, à medida que participamos de eventos sociais com conteúdos de escrita. Com as Tecnologias da Informação e da Comunicação em constante evolução, o conceito de letramentoampliou-se. Rojo (2012) nos apre- L ÍN G U A P O R T U G U E S A 82 senta o termo multiletramentos para abarcar a diversidade cultural. Di- ferente de letramentos múltiplos, os multiletramentos referem-se não só à multiplicidade cultural populacional, mas também à multiplicidade semiótica de constituição textual. A perspectiva idealizada pela autora brasileira, a partir de um grupo estadunidense que se debruçou sobre qual educação era apropriada para grupos minoritários que se intera- giam com grupos hegemônicos, num mesmo espaço e de forma global. Isso implica em uma variedade de gêneros textuais híbridos, em uma multimodalidade (múltiplas linguagens), requerendo, dessa forma, práti- cas de compreensão e de produção próprias. METODOLOGIA Foram propostos duas histórias em quadrinhos para leitura e discus- são. Trata-se de histórias de Armandinho. Criado em 2009 por Alexandre Beck, a demanda de criar a personagem surgiu às pressas para ilustrar uma reportagem sobre pais e filhos no Diário Catarinense. Foram selecionadas duas histórias em quadrinhos, conforme repro- duzidas abaixo: ILUSTRAÇÃO 1: L ÍN G U A P O R T U G U E S A 83 DISCUSSÃO E RESULTADOS Os textos apresentados no item anterior deste trabalho foram repro- duzidos em aula, por meio do Datashow na Sala de Vídeo da escola. Fo- ram necessárias duas aulas para o trabalho, pois houve outra atividade realizada a partir de um curta-metragem. Num primeiro momento, pedi a um aluno que lesse a primeira tira de Alexandre Beck. Iniciei a roda de conversa com uma pergunta que reto- masse os elementos na narrativa (personagens, tempo, espaço, enredo, foco narrativo). Por se tratar de uma história em quadrinhos, retomei com a turma que a característica desse gênero textual é o processo de estrutura em três atos, ou seja, com começo, meio e fim. No começo, há a ambientação da história a ser contada (sobre o que se trata a história). No desenvolvimento, há a complicação ou o conflito da história. No final, temos acesso ao encerramento, comumente acompanhado de uma re- viravolta, com conteúdos de crítica, humor ou ironia. O procedimento adotado, nas duas tiras, foi o seguinte: leitura da tira, identificação dos elementos da narrativa e verificação do final da narrativa, tentando classificá-la como humor, ironia ou crítica. No caso do desfecho de cada história, a reviravolta se encontra na fala final da personagem. Em ambas as tiras, a temática abordada é a do racismo. A ILUSTRAÇÃO 2: L ÍN G U A P O R T U G U E S A 84 escolha por esse tema deve-se, não só ao Dia da Consciência Negra que se aproximava, mas também pela demanda da turma que, comumente, utilizava termos racistas para se referirem. Coletivamente, construímos uma interpretação de ambas as narrati- vas, percebendo que há uma crítica por trás de cada tira: seja pela ne- cessidade da criança negra, amiga de Armandinho, precisar carregar consigo a nota fiscal da bicicleta, seja pela mesma garota não poder correr perto de policiais, a fim de não ser confundida com uma infratora. Houve mobilização da turma, por meio da participação oral e do engaja- mento, principalmente, de estudantes negros. Sentindo necessidade em ainda trabalhar essa temática, selecionei um curta-metragem para abordar o assunto. Trata-se de O senhor do trem, curta metragem de, aproximadamente, 11 minutos. O começo da história mostra Jumapili, na África, sendo capturada e escravizada. A jovem é levada à América por meio de um navio negreiro. Enquanto está presa, desaparece, em alusão à perda da memória coletiva provocada pelo processo de escravidão. No Rio de Janeiro, na atualidade, Dandara ouve a história de Jumapili, contada por sua avó. A idosa morre, vítima de bala perdida. Dandara, desolada, começa a se apagar. Uma “força” a leva para um bairro no Rio. Durante o trajeto, percorre pontos históricos que serviam de palco para escravos, o Instituto de Pretos Novos, com um importante acervo afri- cano e afro-brasileiro. Por fim, chega ao trem, em que a energia se per- sonaliza na figura de um homem negro vestido com seu terno branco. Essa personagem afirma à Dandara que ela não está sozinha. O Se- nhor do trem lhe conta sobre escravidão e sua brutal violência que foi arrancar pessoas do continente africano. O curta encerra-se no bairro Oswaldo Cruz, no Rio, onde um grupo de pessoas negras criaram um es- L ÍN G U A P O R T U G U E S A 85 tilo musical, de origem africana, como forma de resistência e de sobre- vivência: o samba. Dandara, sambando, retira as luvas e percebe que não mais desapa- rece. Pelo contrário: torna-se presença, quando se percebe parte de um grupo, amparado pela ancestralidade. Ao final da obra, o espectador tem acesso às personalidades históricas que fundaram e alimentaram a Escola de Samba Portela. A figura que guia Dandara até o terreiro nada mais é uma delas: Paulo da Portela (1901-1949), idealizador responsável por romper a imagem do samba, vista como um atributo da malandra- gem e responsável por popularizar o samba carioca no mundo. O objetivo de sua exibição era relacionar com a história pessoal de cada aluno, mais especificamente, com histórias de família histórias de família de transmissão oral/ou transmitidas oralmente, compondo um verdadeiro patrimônio da cultura familiar, obviamente atravessado pelo desenvolvimento atual do discurso e da arte, em nossa cultura e época. Para expor o filme, inicialmente, apresentei o título e pedi que o grupo fizesse inferências: sobre o que se trata o curta? As respostas mais co- muns foram: "o senhor que pega o trem”, “o senhor que mora no trem”, “o senhor que dirige o trem''. O filme foi exibido em meio a burburinhos e pessoas que prestaram atenção. Depois dessa etapa, foi feita uma rememoração da narrativa fílmica. Em função de certa desatenção por parte de alguns participan- tes, foi preciso relembrar os nomes e as personagens (Jumapili, Dandara e avó de Dandara), situando-as na história. Também resgatamos os co- nhecidos elementos da narrativa (tempo, espaço, foco narrativo, além do enredo). L ÍN G U A P O R T U G U E S A 86 Um dos rapazes que participou do encontro, denominado aqui de Tayó, quis expor sobre a roupa branca da personagem Paulo da Portela. Aqui, cometi um deslize em explicar o símbolo, fazendo com que o mes- mo se rompesse: ao invés de permitir que o jovem expusesse sua visão sobre a figura do filme, contextualizei-o, de imediato, associando-o à Velha Guarda da Portela. A atitude foi imediata, silenciando o garoto. Ao final da roda de con- versa, pedi que ele falasse sua impressão sobre a figura do Paulo da Portela. Tayó respondeu-me que, pelo fato de vestir branco e de se transformar, em alguns momentos do filme, em uma pomba, poderia se relacionar a Oxalá, deus-orixá da mitologia iorubá e cultuado pelas re- ligiões de Matriz Africana, como Umbanda, Candomblé. Oxalá é o deus africana que simboliza a paz e a sabedoria ancestral. Tayó, ao relembrar que havia uma baobá no curta-metragem, pediu a palavra para falar que é a mesma árvore que existe no livro O Pequeno Príncipe. Reforcei sua fala, elogiando-o por fazer essa associação. Outra cena que foi relembrada é aquela em que Jumapili, presa no navio que a levava para a América, lentamente desaparecia. A partici- pante, denominada Shadê, referiu-se à personagem mitológica perder sua essência, por deixar de acreditar em si. Mais uma cena que foi destacada pela turma, quando Dandara percor- re cenas históricas na cidade do Rio de Janeiro e passa por um policial que a vê com desconfiança. A participante, de nome Chaniya, referiu-se ao fato de ela ser negra. Após o debate, foi proposta uma atividade, em que os participantes deverão escrever alguma história de família, ouvida em casa, em reuni- ões familiares, festas etc. Houve certa resistência, por parte dos alunos, L ÍN G U A P O R T U G U E S A 87 em fazer a produção, dizendo não sabernenhuma história de família. Eles quiseram escrever sobre racismo, a partir da temática apresenta- da, não só pelo vídeo, mas também pelas histórias em quadrinhos do Armandinho. Propus, então, que procurassem seus parentes, conver- sassem com eles e escrevessem um texto sobre essa experiência. A proposta de produção textual baseou-se na teoria bakhtiniana de gêneros do discurso. Para o autor: A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua - recursos lexicais, fraseológicos e gra- maticais -, mas também, e sobretudo, por sua construção composicio- nal. (...) todos eles são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. (BAKHTIN, 2000, p. 279) Atualizando as teorias de Bakhtin (2000), Marcuschi (2005) utiliza o termo gênero textual para se referir ao enunciado material, concreto - o texto - que circulam no cotidiano e que, por essa razão, tem caracterís- ticas sócio-comunicativas definidas por “conteúdos, propriedades fun- cionais, estilo e composição característica”. (MARCUSCHI, 2005, p. 23) Em se tratando da atividade proposta, o gênero que mais se aproxima do produto requerido é a memória, pelo fato de relatar fatos e eventos pessoais, no caso, originários da família. RESULTADOS Dentre as produções elaboradas após a exibição do curta O Senhor do Trem, recolhi um relato feito de histórias familiares: L ÍN G U A P O R T U G U E S A 88 Na minha família é muito comum, todo final de semana nós fa- zermos algum tipo de doce, seja bolo, pudim, brigadeiro e etc. Po- rém o mais comum é o pudim porque aqui na minha família tem um certo tipo de valor sentimental, pois a minha avó aprendeu com a mãe dela, que aprendeu com a mãe dela e assim foi indo… Mas não é sempre que a receita dá certo, e é o caso da história que eu vou contar agora, e que virou motivo de risada na minha família e sempre gostamos de relembrar quando estamos juntos. Um dia antes do aniversário da minha tia, eu e a minha avó deci- dimos fazer alguma sobremesa a mais, além do bolo, então decidi- mos fazer um pudim, porém eu tive a ideia de nós fazermos numa forma que o fundo sai, assim, o pudim ficaria bonito e numa tex- tura boa. Eu e a minha avó estávamos super animadas e fazendo a receita toda felizes, colocamos a receita na forma e colocamos no forno, eu fui deitar e minha vó também. Quando passou uns 30 minutos fomos desligar o forno, pois já estava pronto, tiramos e deixamos na mesa para esfriar, e quando fomos passar o pudim a forma abriu antes da hora e o pudim caiu no chão. Eu e minha avó nos olhamos e começamos a rir e tivemos que fazer outro pudim. Essa história é sempre relembrada nas festas de família e sempre rimos como se estivéssemos ouvindo a histó- ria, pela primeira vez. Também foi selecionado um texto muito próximo ao do artigo de opi- nião sobre o racismo, visto que o debate sobre o tema foi muito produ- tivo: L ÍN G U A P O R T U G U E S A 89 O racismo está presente no mundo inteiro há décadas e é algo que deve sim, ser tratado com importância, pois só no Brasil 77% das vítimas de homicídio são negras. Muitas das pessoas negras que sofreram algum tipo de ataque racista, tanto física ou verbal- mente alegam terem sido abordadas por pessoas brancas (não é muito comentado, mas existe sim pessoas negras que também praticam racismo com outras pessoas negras). Pessoas brancas que cometem esse crime muito das vezes é para aumentar o pró- prio ego, esse tipo de pessoa tem em mente que pessoas brancas são superiores a pessoas negras, por quê? Porque elas são bran- cas, elas não possuem traços de pessoas negras e se consideram sortudos(as). No Brasil, a taxa de mortalidade de pessoas negras é muito alta e o racismo no Brasil, não é novidade para ninguém. E o Brasil ser um país com uma injustiça racial também não, é muito comum ver- mos em noticiários, que uma pessoa branca, de classe média alta, cometeu algum crime e, no dia seguinte, já estava livre pois pa- gou fiança. Para pessoas negras é muito diferente, a abordagem dos policiais é diferente, os olhares são diferentes, tudo é diferen- te pois pessoas negras são taxadas de “burras”, “preto favelado”, “pessoas sujas” etc, e muito disso tudo pela pessoa ter saído de uma comunidade pobre e ir morar em um lugar melhor e com mais segurança. Querendo ou não precisamos ter consciência de que vivemos em um mundo racista, onde já se tornou “normal” uma pessoa negra entrar em qualquer loja, e ser perseguida por um se- gurança, já se tornou normal ouvir pessoas brancas dizerem que tudo isso não passa de “mi mi mi” e vitimização e muitas dessas coisas já se tornaram “normal” no dia a dia, mas não deveria, pois L ÍN G U A P O R T U G U E S A 90 todos os dias pessoas negras morrem por ignorância de outras pessoas. Em 2013 iniciou-se o Black Lives Matter traduzindo: “Vidas Ne- gras Importam” basicamente é um movimento ativista internacio- nal, com origem na comunidade afro-americana, que faz campanha contra a violência direcionada às pessoas negras, esse movimen- to vem ganhando voz cada vez mais e tem sido muito importante. Esse movimento ficou mais conhecido após o caso do George Floyd (um afro-americano que foi assassinado em Minneapolis no dia 25 de maio de 2020, George foi estrangulado pelo policial branco Drek Chauvin, que ajoelhou no pescoço de George durante a abordagem por supostamente usar uma nota falsificada de vinte dólares em um supermercado. Infelizmente pessoas como George Floyd, Marielle Franco (as- sassinada aos 36 anos de idade em uma emboscada, no centro da capital fluminense no dia 14 de março de 2018), Evaldo Rosa dos Santos (executado dentro do seu carro por militares, de acordo com os laudos produzidos durante a investigação comprovam que os 257 disparos foram efetuados pelos agentes na época), o caso já ficou conhecido como os do “80 tiros”, e outras milhares de víti- mas não foram e nem vão ser as últimas pessoas a serem afetadas pelo racismo. As famílias das vítimas acabam, não só perdendo um familiar importante, como perdendo também a esperança de poder ter um mundo melhor, onde todos possam viver sem medo. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 91 CONSIDERAÇÕES A atividade proposta e descrita no relato de experiência proporcionou um espaço de escuta para todas as pessoas, independente da etnia. A turma selecionada é formada por pessoas de diferentes etnias, o que culminou num meio de interação entre elas. O texto de memória autobiográfica teve por mote a exibição do curta- -metragem O senhor do trem, o que levou a turma a pensar em histórias de família ouvidas pelos alunos. Também se privilegiou as vivências que eles traziam de suas casas. A produção de um texto de opinião sobre o racismo deveu-se ao fato de um grupo apresentar resistência em escrever sobre histórias de fa- mília, mas se propuseram a escrever sobre esse tema abordado nas tiras do Armandinho. Ao invés de recusar um texto de outro gênero textual, deixei o espaço de escrita aberto para a criação, já que se tratam de textos autorais, escritos por pessoas que vivenciaram, viram de perto ou se afetaram com o tema. Dessa forma, foi possível dar voz às questões abordadas em minha intervenção. Diante dos resultados, é possível inferir que há a necessidade de se apresentar um repertório amplo de materiais sobre o tema, para que, não só haja motivação, mas também elementos para produção textual. L ÍN G U A P O R T U G U E S A 92 REFERÊNCIAS BAKHTIN, M. Os Gêneros do Discurso. Estética da Criação Verbal. Trad: Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p. 277-326. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Secretariade Edu- cação Básica/ Ministério da Educação, 2018. BRITTO, Luiz Percival Leme. Sociedade de Cultura, Alfabetismo e Par- ticipação. RIBEIRO, Vera Masagão (org.). Letramento no Brasil, reflexões a partir do INAF. 2 ed. São Paulo: Global, 2004. p. 47-63. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definição e funcionali- dade. DIONISIO, Angela Paiva; MACHADO, Anna Rachel; BEZERRA, Maria Auxiliadora (org.). Gêneros Textuais & Ensino. 4 ed. Rio de Janeiro: Lu- cerna: 2005. p. 19-36. O SENHOR DO TREM. Direção e roteiro de Alda Queiroz e Cesar Coelho. Publicado pelo Canal Campo 4 Produções Cinematográficas, 2022. 1 ví- deo (11 min.) Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=qB0gcl- NpCVQ&t=459s . Acesso em: 20 out. 2022 ROJO, Roxane Helena Rodrigues. Pedagogia dos multiletramentos: diversidade cultural e de linguagens na escola. ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo (org.). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Edito- rial, 2012. p. 11-31. SOARES, Magda. Letramento e escolarização. RIBEIRO, V. M. (org.) Le- tramento no Brasil. 2 ed. São Paulo: Global, 2004. p. 89-113. https://www.youtube.com/watch?v=qB0gclNpCVQ&t=459s https://www.youtube.com/watch?v=qB0gclNpCVQ&t=459s MATEMÁTICA M A T E M Á T IC A 94 TTodos os dias nas aulas de Matemática nos deparamos com de-safios, estudantes com saberes e interesses diferentes, que exigem de nós, professores, estratégias diversas. Resgatar nossos estudantes, envolvê-los no desenvolvimento, am- pliar e consolidar os conhecimentos, faz parte das atribuições da escola. Estamos sempre buscando novas experiências de forma criativa e aberta para que nossos estudantes avancem e possam interagir, deba- ter, investigar e validar suas hipóteses, colocando-se como protagonis- tas das suas descobertas. De acordo com Borba e Penteado (2012), “o nosso trabalho, como edu- cadores matemáticos, deve ser o de ver como a Matemática se constitui quando novos atores se fazem presentes em sua investigação”. As aulas de Matemática devem se basear na investigação e na explo- ração, em um processo construtivo entre erros e acertos. Ponte, Broca- do e Oliveira (2003), afirmam que investigar é procurar respostas para o que não se sabe. Aprender Matemática não é simplesmente compreender a Matemáti- ca já feita, mas ser capaz de fazer investigação de natureza matemática (ao nível adequado a cada grau de ensino). Só assim se pode verdadeira- mente perceber o que é a Matemática e a sua utilidade na compreensão do mundo e na intervenção sobre o mundo. Só assim se pode realmente dominar os conhecimentos adquiridos. Só assim se pode ser inundado pela paixão 'detectivesca' indispensável à verdadeira fruição da Mate- mática. Aprender Matemática sem forte intervenção da sua faceta in- vestigativa é como tentar aprender a andar de bicicleta vendo os outros andar e recebendo informação sobre como o conseguem. Isso não che- ga. Para verdadeiramente aprender é preciso montar a bicicleta e an- dar, fazendo erros e aprendendo com eles. PONTE; BROCADO; OLIVEIRA (2003) aput BRAUMANN (2002). M A T E M Á T IC A 95 Portanto, propostas com atividades investigativas são essenciais para a construção do conhecimento matemático e, nessa perspectiva, focamos nos estudos e trocas de experiências com os professores(as) de Matemática da rede, que produziram os textos a seguir. M A T E M Á T IC A 96 ESCALAS – UM PROJETO SOBRE A SEMANA DE ARTE DE 1922 Marcia Regiane Miranda A A escolha da unidade temática “Álgebra” para as atividades aqui relatadas, se deu por observar bastante dificuldade dos alu-nos do 9º ano do Ensino Fundamental do CEMPRE Benedito Ferreira Lopes em resolver problemas sobre escalas. Tendo em vista o projeto da escola com o tema gerador "Semana de Arte Moderna de 1922", decidi desenvolver um trabalho de reprodução de algumas pintu- ras desse período em escala. As habilidades em foco, conforme a BNCC foram: • • (EF09MA08) Resolver e elaborar situações-problema que envolvam relações de proporcionalidade direta e inversa entre duas ou mais grandezas, inclusive escalas, em contextos socioculturais, am- bientais e de outras áreas. (BRASIL, 2018, p.317) Inicialmente, para melhor identificar as fragilidades detectadas por meio de exercícios e trabalhos, pedi para que os alunos preenchessem as duas primeiras colunas da tabela SIAR baseada no modelo de Mogi das Cruzes (2022) conforme segue: M A T E M Á T IC A 97 A maior parte dos alunos demonstrou pouco conhecimento sobre esse tema e algum interesse em aprender. Assim, selecionei alguns exercícios com diferentes graus de dificuldade e após uma revisão de forma expositiva, solicitei que fizessem essa atividade em duplas, po- dendo esclarecer dúvidas com os próprios colegas e com a professora. O próximo passo foi formar grupos e propor que escolhessem alguma obra exposta ou influenciada pela “Semana de Arte Moderna de 1922” para pesquisar. Sugeri as seguintes pinturas: a) Abaporu - Tarsila do Amaral; b) O mestiço - Cândido Portinari; c) Pierrete - Di Cavalcanti; d) O homem amarelo - Anita Malfatti; e) O artesão - Vicente do Rego Monteiro; f) A estudante - Anita Malfatti; g) Os operários - Tarsila do Amaral; h) A boba - Anita Malfatti. SABER O que sei? INDAGAR O que quero saber? APRENDER O que aprendi? REFLETIR Como aprendi? M A T E M Á T IC A 98 Uma informação essencial que deveria constar na pesquisa era o ta- manho original da pintura e também deveriam trazer uma cópia colorida. Baseada em Smole (2001), no dia combinado para trazer o que foi so- licitado, propus as seguintes questões: • • Como verificar se as cópias impressas estão proporcionais à pin- tura original? • • Como fazer uma reprodução da obra escolhida no tamanho original a partir da cópia trazida com materiais que temos à disposição na escola ou em casa (impressora, folhas formato A4, máquina copia- dora, papelão, cartolina, tintas)? • • Qual seria o tamanho de uma reprodução da pintura escolhida na escala 1:2; 1:3 e 1:4? Qual dessas escalas seria apropriada para ca- ber num papel sulfite? Essas questões suscitaram muita dúvida. Mas não dei as soluções, fiz várias perguntas, dei algumas pistas e permiti que os alunos registras- sem suas hipóteses, mesmo que equivocadas. Eles próprios foram iden- tificando inconsistências nas respostas após alguns questionamentos. Principalmente a segunda questão foi bastante desafiadora, pois não se tratava só de resolver um problema matemático, mas também tomar decisões com os recursos disponíveis. Depois de várias intervenções a maioria dos grupos chegou a uma conclusão aceitável. Depois dessa etapa, os alunos deveriam fazer uma cópia e uma re- leitura em tamanho original ou em uma escala escolhida por eles para a exposição na escola. Nesse momento puderam usar a criatividade e tiveram orientação da professora de Artes e do professor de Língua Por- tuguesa que auxiliou na elaboração da ficha técnica. Outro aspecto a se M A T E M Á T IC A 99 destacar é que os estudantes puderam usar os cálculos feitos anterior- mente. Por fim, tivemos uma conversa sobre as aprendizagens sobre pro- porcionalidade e escalas e os alunos terminaram de preencher a tabela SIAR. Por meio das observações na realização dessas atividades, con- versas e leitura das respostas na tabela SIAR, foi possível concluir que ocorreram avanços na aprendizagem de diversas formas: pelas trocas entre os pares, pelas reflexões na execução do trabalho, na resolução dos exercícios e situações-problema e esclarecimento de dúvidas com a professora. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. MOGI DAS CRUZES. Secretaria da Educação. Orientações Didáticas – 5º Ano – 3º Bimestre. Mogi das Cruzes, 2022. SMOLE, K. S. e DINIZ, M.I. (org). Ler, escrever e resolver problemas: ha- bilidades básicas para aprender matemática. Porto Alegre: Penso, 2001. M A T E M Á T IC A 100 ANEXOS Figura 1: Alunos confeccionando asreleituras. Figura 2: Reprodução e releitura da obra “Pierrete” de Di Cavalcanti. M A T E M Á T IC A 101 Figura 3: Releituras das obras “O mestiço” de Cândido Portinari; “A estudante” e “O homem amarelo” de Anita Malfatti; Figura 4: Exemplos de tabelas SIAR na qual foi possível observar aprendizagens. M A T E M Á T IC A 102 GRANDEZAS EM CARRINHOS Prof Natanael Nogueira de Souza AApós esse tempo em que ficamos, por conta da pandemia, em atendimento remoto, percebi que os alunos apresentaram al-gumas lacunas na aprendizagem e se faz necessário que nas atividades sejam inseridos diferentes conteúdos a fim de trabalhar não somente a habilidade foco, mas, também outras habilidades periféricas, assim, resgatando ou mesmo apresentando esses conteúdos. Observando minhas turmas percebi que a principal dificuldade era com as razões entre grandezas, habilidade foco (EF09MA07), resolver situações-problema que envolvam a razão entre duas grandezas de es- pécies diferentes como velocidade e densidade demográfica, principal- mente com a velocidade média, seja na compreensão, na resolução de situações-problema ou até mesmo a dificuldade com os cálculos. Pensei em uma atividade que foi a de calcular a velocidade média dos carrinhos de fricção e ou carrinhos movidos a pilha/bateria, no experi- mento foi medida a distância percorrida e o tempo gasto para percor- rê-la, feita a média aritmética de cada medida, feitos arredondamentos que se fizeram necessários e posteriormente os alunos produziram um relatório detalhando todo o processo do experimento, com os dados e observações. O relatório, bem como, todos os dados foram socializados e feita a troca de experiências e o debate sobre o projeto. Nesta atividade utilizamos carrinhos de fricção e ou pilha/bateria por serem elementos de memória afetiva, que faziam parte do dia a dia dos M A T E M Á T IC A 103 alunos , das brincadeiras e ao mesmo tempo que transportam ao ima- ginário do mundo dos carros de corrida e da velocidade, dessa maneira, pretendeu-se superar o distanciamento entre as experiências dos alu- nos e do conteúdo estudado. As decisões de como fazer o experimento, foi em conjunto, desde, quais materiais utilizar, como fazer as medições, arredondamentos, anotações até o relato. Houve oportunidade para que todos expuses- sem e defendessem suas opiniões, argumentando sobre qual a melhor maneira de fazer e o porquê. A própria imprecisão das medidas levou ao debate e foram levantadas hipóteses de como minimizar a possibilidade do erro de uma medida aleatória. O erro também foi tratado como parte do processo, sendo acolhido e compreendido como um caminho natural rumo ao objetivo final desejado, foram testadas as hipóteses de como fazer as medições e também de como realizar cada etapa do experimen- to.Cury(1994) diz que os erros são esperados e ajudam a mostrar como o aluno pensa, são estágios que podem ser usados para novas descober- tas e discussão de conceitos. Os erros cometidos pelos alunos são considerados estágios neces- sários à exploração de problemas e podem ser utilizados, pelo professor ou pelos próprios alunos para novas descobertas e para discussão dos conceitos envolvidos em um determinado problema matemático (Cury, 1994 p. 132). Para essa atividade foram formados grupos de 4 ou 5 alunos, sendo que o professor atuou como mediador, conforme publicação da revis- ta Nova Escola de 02/01/2017, Matemática para Explicar e Entender o Mundo, o professor mediador deve conduzir a atividade dando liberdade ao aluno para que possa ocorrer a construção colaborativa do conheci- mento favorecendo o ambiente de aprendizagem necessário para esti- mular o aluno, levando-o a refletir, buscando nos conhecimentos prévios M A T E M Á T IC A 104 construir caminhos, fazer conexões, que possam resolver diferentes si- tuações-problema. O primeiro problema que surgiu foi de como realizar o experimento e como colher as medidas, cada grupo teve autonomia para decidir, desde que argumentassem e mostrassem aos colegas que aquela maneira era ideal para o seu grupo, sendo assim, alguns optaram por marcar uma distância fixa para o percurso do carrinho tendo apenas que anotar o tempo que ele levava para percorrê-lo.Outros grupos decidiram marcar o tempo até que o carrinho parasse de se movimentar e somente depois marcar a distância percorrida pelo mesmo.As maneiras escolhidas ob- tiveram sucesso na realização do experimento e após a realização os grupos puderam comparar e compartilhar resultados e experiências. A avaliação foi feita considerando a participação do aluno em todo o processo, mais do que avaliar os cálculos, o foco esteve nos registros de acompanhamento, nos avanços da aquisição de habilidades como: capacidade de formular hipóteses, utilizar diferentes linguagens para expressar ideias, analisar e resolver situações-problemas diversos. As maiores dificuldades encontradas foram na argumentação com os colegas e na realização do relatório, pois não é hábito dos alunos escre- ver sobre experimentos, estratégias de realização da atividade , refle- xões sobre o erro e a respeito dos resultados obtidos, alguns dos alunos sequer entendiam isso como parte da matemática.O ganho foi no traba- lho em grupo e justamente nessa nova visão que os alunos tiveram da matemática, pois observo que após o experimento a atitude em sala de aula se alterou para alguns deles , pois em atividades em que um solicita ajuda do colega existe a preocupação em mostrar o porquê, o questio- namento sobre o resultado e seus significados, percebo que estão mais dedicados e empolgados com as possibilidades que se apresentaram. Para outros alunos, embora tenham gostado de sair da rotina, de brincar M A T E M Á T IC A 105 com os carrinhos, não houve significativa alteração de comportamento frente à matemática, mas entendo que os resultados na sua maioria fo- ram positivos. M A T E M Á T IC A 106 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. União dos Dirigentes Municipais de Educação do Estado de São Paulo. Currículo Paulista. São Paulo: SEE-SP/UNDIME-SP,2019. Cury, H.N. As concepções de Matemática dos professores e sua for- ma de considerar o erro dos professores e sua forma de considerar o erro dos alunos. Porto Alegre, tese de Doutorado na Universidade do Rio Grande do Sul, 1994 Nova Escola. São Paulo, 02 janeiro de 2017. Disponível em https://no- vaescola.org.br/conteudo/12095/matematica-para-explicar-e-enten- der-o-mundo https://novaescola.org.br/conteudo/12095/matematica-para-explicar-e-entender-o-mundo https://novaescola.org.br/conteudo/12095/matematica-para-explicar-e-entender-o-mundo https://novaescola.org.br/conteudo/12095/matematica-para-explicar-e-entender-o-mundo M A T E M Á T IC A 107 ANEXOS Relatos docentes de ações exitosas: aplicadas no ensino fundamental II AUTORES ORGANIZADORES Adriana Aparecida da Cunha - Matemática Alessandra Aparecida Machado - Ciências Ana Carolina Faber Boog - Educação Física Ana Luiza Campello - EJA Carolina Domingues - Revisora Cintia Maria Ambrósio de Oliveira - Ciências Geraldo Monteiro Neto - Arte Luciana Campos Barbosa Sant’ Anna - Língua Portuguesa Luiz Alberto de Souza - Arte Luiz Flávio Silva - História e Geografia Marli Rodrigues Lourenço - Língua Portuguesa Mônica Senziali Santos Oliveira - Educação Física Vanderlei Masotori - Língua Portuguesa/EJA PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Alexandre R. Rodrigues Luiz Gustavo Firveda de Almeida REALIZAÇÃO Departamento Pedagógico - Secretaria Municipal de Educação Foto da capa: www.freepik.com Armando de Melo Servo Constante Carla Goncalves Conatti Daiana Aparecida de Castilho Edilson Ribeiro Romão Edno Candido da Cunha Eliane Batista de Souza Erika Coelho Canejo Felipe de Morais Nogueira Márcia Cunha dos Santos Marcia Regiane Miranda Marina Jacques Fernandes Lopes Mauricio Dias Natanael Nogueira deSouza Paulo Sergio de Oliveira Junior Renan Leite Galiano Roberta Sebastiany França de Mendonça Zenildo Leal INTRODUÇÃO ADOLESCÊNCIA E PUBERDADE: POR QUE ISSO ESTÁ ACONTECENDO? ESTUDO DOS INVERTEBRADOS: UMA PROPOSTA DE PESQUISA A PARTIR DO ENSINO POR INVESTIGAÇÃO RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE A CONSTRUÇÃO DE UM MODELO DIDÁTICO DO SISTEMA RESPIRATÓRIO ADOTADO COMO SUPORTE NA APLICAÇÃO DE UMA SEQUÊNCIA DE ENSINO INVESTIGATIVA (SEI) FONTES PRIMÁRIAS, ESCRAVIDÃO E ENSINO DE HISTÓRIA RELATO DE PRÁTICA CULTURA POPULAR E RESISTÊNCIA EM MOGI DAS CRUZES HANDEBOL: DAS BRINCADEIRAS E JOGOS POPULARES A PRÁTICA DO HANDEBOL VIVÊNCIAS E HISTÓRIAS: ALFABETIZANDO NA EJAEM Cel. Almeida Fundamental II- CEMPRE Benedito Ferreira LopesProjeto: Jornal da turmaTema: Antirracismo RELATO DE EXPERIÊNCIA Projeto: Gênero textual - Histórias em Quadrinhos ESCALAS – UM PROJETO SOBRE A SEMANA DE ARTE DE 1922 GRANDEZAS EM CARRINHOS