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Colo Uterino ● Ectocérvice: ○ Epitélio escamoso não ceratinizado. ● Endocérvice: ○ Epitélio colunar mucoso e células subcolunares de reserva que podem se diferencial em epitélio colunar ou escamoso; ○ Pregueado, avança para o estroma do colo, formando glândulas endocervicais. ● JEC = Junção escamocolunar = local (orifício externo) em que ambos epitélios se encontram; Representação esquemática da junção escamocolunar (JEC). A transição dos dois tipos de epitélio localiza-se no orifício externo. B. Eversão (ectrópio) da mucosa endocervical, que passa a ocupar uma área fora do orifício externo, inclusive com glândulas endocervicais. ● O epitélio da ectocérvice é rico em glicogênio e, por isso, cora-se facilmente com iodo → Teste de Schiller ou Teste do Iodo → Iodo cora as células bem diferenciadas/típicas; ● Na idade fértil, o epitélio endocervical, por influência hormonal, prolifera e se projeta pelo orifício externo do colo (eversão/ectrópio) → esse epitélio não é adequado para as condições adversas do meio vaginal → sofre metaplasia escamosa (células de reserva diferenciam-se em epitélio escamoso) → essa zona fica conhecida como Zona de Transformação (ZT). ○ A metaplasia escamosa do epitélio endocervical pode obstruir os orifícios de drenagem das glândulas endocervicais → forma Cistos de Naboth. A. Colo uterino com extensa área de ectrópio (cabeças de seta). B. Mesmo caso, após teste de Schiller. A região de ectrópio mostra-se clara (não se cora pelo iodo), chamada de área Schiller positiva ou iodo negativa. Cisto de Naboth. No detalhe, aspecto macroscópico do colo uterino com o cisto (seta). Microscopicamente, vê-se a zona de transformação, com epitélio escamoso na superfície e, logo abaixo no estroma, glândula endocervical dilatada (seta), formando o cisto. Representação esquemática da zona de transformação (ZT). O epitélio endocervical sofreu metaplasia e transformou-se em epitélio escamoso, que está presente em toda a região antes ocupada pelo ectrópio. Cervicites ● Infecciosas ou não infecciosas; ● As mais importantes são as causados por vírus (vírus do papiloma humano - HPV → associação com carcinoma cervical; citomegalovírus - CMV → inflamação em mulheres imunossuprimidas), bactérias (agentes sexualmente transmissíveis - gonococo e clamídia) e outros microrganismos; ● Quando a inflamação é prolongada e intensa → pode surgir ulceração e atipias no epitélio → podem ser confundidas com lesões precursoras do câncer. Pólipo Endocervical ● Lesão prevalente → achado incidental em mulheres >40; ● Pequena (<1cm); raramente volumosa (~15cm → pólipo gigante); ● Pediculada; ● Pode causar sangramento vaginal; ● Constituída de epitélio endocervical, com ou sem metaplasia escamosa, e estroma com vasos sanguíneos e infiltrado inflamatório; ● Pólipo misto = com glândulas endocervicais e endometriais (ocorre no istmo); ● Todo pólipo deve ser examinado histologicamente (raramente pode ter lesões precursoras do câncer de colo uterino). Neoplasias Malignas ● Neoplasias do colo uterino = 3º lugar em frequência; 4ª causa de morte por câncer; ○ frequente em mulheres de baixa condição socioeconômica. Patogênese ● Associa-se a infecção persistente por subtipos de alto risco do HPV (principalmente HPV 16 e 18) → responsáveis por 70% dos carcinomas cervicais; ○ HPV → verrugas genitais (condiloma acuminado) → induzem proliferação epitelial; ○ Os tipos de HPV de alto risco oncogênico associam-se a lesões precursoras do carcinoma escamoso (NIC 2 e NIC 3) e ao adenocarcinoma endocervical; ○ Há tipos de HPV de baixo risco oncogênico → raramente integram-se ao DNA da célula hospedeira causando câncer; ○ HPV é mais prevalente em mulheres sexualmente ativas entre 18 e 30 anos (pico em 25 anos e outro por volta de 45 anos); ○ Progressão para câncer ocorre 10-20 anos após infecção; ○ Fatores de risco: tipo viral, infecção múltipla, carga viral na lesão, taxa de integração do vírus ao genoma celular, variantes geográficas do HPV, resposta imunitária, tabagismo, início precoce de atividade sexual, uso prolongado de contraceptivos orais, multiparidade, múltiplos parceiros sexuais, associação com outras infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV. ● Câncer é mais comum >35 anos (infecção precoce + evolução lenta); ● No colo, apenas células basais e parabasais do epitélio escamoso são capazes de se dividir (células suprabasais sofrem diferenciação e maturação, mas não divisão) → vírus penetra em células da camada basal; ● Atipia coilocitótica = número de cópias virais cresce sem integrar ao DNA celular → ocorre vacuolização perinuclear em células escamosas → mantém maturação preservada do epitélio → maior atividade proliferativa e hiperplasia da camada basal; ● O HPV, em resumo, produz proteínas virais E6 e E7 que bloqueiam proteínas essenciais no controle da multiplicação celular (p53 e pRB) → instabilidade genômica e aumento da proliferação celular. Atipias coilocitóticas em condiloma acuminado do colo uterino. Carcinoma de Células Escamosas (CCE) ● Tipo histológico mais frequente de câncer cervical (85% das neoplasias malignas do colo); ● Afeta mulheres jovens (3ª-5ª décadas de vida), em idade fértil e socialmente produtiva. Morfologia ● Inicialmente → área endurecida, discretamente elevada ou pequena úlcera; ● Avançado → crescimento: a. vegetante (massa polipoide ou papilífera projetada no colo); b. ulcerado, sangrante e com bordas elevadas; c. endofítico (forma lesão ulcerada ou nódulo na luz do canal endocervical; mais agressiva, com infiltração precoce da parede e extensão aos órgãos vizinhos → fístulas); ● Microscopia: massas ou grupos de células pleomórficas e atípicas que infiltram o estroma adjacente; ○ CCE bem diferenciado → células bem diferenciadas com produção de ceratina e formação de pérolas córneas; ○ CCE moderadamente diferenciado → células mais pleomórficas, menor ceratinização e escassas pérolas córneas; ○ CCE pouco diferenciado → pleomorfismo acentuado, alto índice mitótico, necrose e ausência de ceratinização. Estadiamento ● Estádio I → tumor restrito ao colo; ○ Ia → carcinoma microinvasor = não há tumor visível macroscopicamente. ● Estádio II → neoplasia invade além do colo sem atingir parede pélvica ou terço inferior da vagina; ● Estádio III → lesão invade terço inferior da vagina ou parede pélvica, ou acomete o ureter (hidronefrose) ou tem metástases em linfonodos pélvicos/para-aórticos; ● Estádio IV → estende-se além da pelve ou invade a mucosa do reto ou da bexiga. Exame Citológico ou Colpocitológico (Papanicolau) ● Oferecido às mulheres de 25 a 64 anos com vida sexual ativa; ● Pode identificar, também, alterações do epitélio glandular atípico (adenocarcinoma in situ = lesão precursora do adenocarcinoma invasivo de colo). ● Classe I: esfregaço sem alterações ou normal; ● Classe II: alterações celulares inflamatórias; ● Classe III: algumas células atípicas, suspeitas ou sugestivas de displasia que precisam ser mais bem investigadas; ● Classe IV: maior número de células atípicas, porém sem necrose, sugerindo carcinoma in situ; ● Classe V: além de atipias acentuadas e pleomorfismo celular, o esfregaço é sanguinolento e com necrose, sugerindo câncer invasor. Classificação de Bethesda ● Lesão NIC1 = lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL, low grade squamous intraepithelial lesion); ● Lesões de NIC2 e NIC3 = lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL, high grade squamous intraepithelial lesion). ● Quando o aspecto citológico não é tão característico → Lesão de Células Escamosas de Significado Indeterminado (ASCUS) → pode corresponder a alterações inflamatórias ou a lesões precursoras de câncer; ● ASC-H → indica atipia em células escamosas sem poder excluir lesão de alto grau (H = High Grade). Carcinoma do colo uterino. A. Lesão elevada, ulcerada, iniciada na JEC, acometendo o lábio posterior. B. Lesão exofítica, com destruição do lábio posterior. Carcinoma do colo uterino, invasor, em estádio avançado. Lesão brancacentano canal cervical e no istmo (setas pretas), que se infiltra nos paramétrios e na parede da bexiga (setas vermelhas). Aspectos Morfológicos das Lesões Precursoras do CCE A. Epitélio escamoso normal. B. Displasia leve (NIC1 ou lesão intraepitelial escamosa de baixo grau). Proliferação e atipias do epitélio no terço basal; nessa região, há perda da polaridade e da maturação das células. A metade superficial do epitélio é normal. C. Displasia moderada (NIC2 ou lesão intraepitelial escamosa de alto grau). As atipias estão presentes também no terço médio do epitélio. D. Displasia acentuada (NIC3 ou lesão intraepitelial escamosa de alto grau). Distúrbios acentuados de proliferação e diferenciação das células escamosas em quase toda a espessura do epitélio. Notar pleomorfismo celular, hipercromasia nuclear e figuras de mitose. E. Carcinoma in situ (NIC3 ou lesão intraepitelial escamosa de alto grau). Hipercelularidade, perda da polarização e atipias celulares em toda a espessura do epitélio, estendendo-se por superfície às glândulas endocervicais. F. Padrão espectral da lesão intraepitelial escamosa numa mesma região, de displasia leve (1), moderada (2), acentuada (3) a carcinoma in situ (4). Adenocarcinoma ● Menos frequente que CCE; ● Corresponde a 20% dos cânceres cervicais; ● Tipos: ○ Adenocarcinoma associado à infecção pelo HPV (principalmente tipo 18) → 90% dos adenocarcinomas; ○ Adenocarcinoma sem relação com HPV → mais raro, predomina em mulheres idosas. Morfologia ● Adenocarcinoma in situ = glândulas lobuladas que substituem o epitélio endocervical normal por epitélio atípico, com núcleos estratificados e hipercorados, sem invasão de estroma, com mitoses e corpos apoptóticos; ● Adenocarcinoma microinvasor (Ia) = invasão inicial. ● Macroscopia: massa infiltrativa, exofítica, polipoide ou ulcerada; ○ Colo em barril = adenocarcinoma com crescimento global dentro do canal cervical. ● Adenocarcinoma associado ao HPV: mais prevalente, “adenocarcinoma do tipo usual”, variantes viloglandular/mucinoso/células em anel de sinete; ● Adenocarcinoma não associado ao HPV: adenocarcinoma do tipo gástrico (com mucinas gástricas)… outros tipos incluem mesonéfrico, de células claras e endometrioide Aspectos Clínicos do Câncer Cervical e Lesões Precursoras ● Lesões precursoras e carcinomas em estádio inicial (Ia) não têm manifestações clínicas; ● Inicia-se investigação com esfregaço convencional → se alteração citológica ou com HPV de alto risco, faz-se colposcopia e biópsia dirigida; ● Lesões avançadas podem causar dispareunia, dor, insuficiência renal, fístulas cervicovesicais ou retais e edema das extremidades por metástases linfonodais; ○ Tratamento recomendado é cirurgia de conização. ● Complicações graves são devidas à extensão do tumor à bexiga e ao reto, com manifestações urinárias, intestinais e fístulas; ○ Em muitas pacientes, a morte é resultado da obstrução de vias urinárias, hidronefrose, pielonefrite e insuficiência renal. ● No estágio I, o tratamento é cirúrgico; em estádios avançados, envolve radioterapia e quimioterapia. Vacina contra HPV ● Meninas entre 9 e 14 anos; ● 2 doses com intervalo de 6 a 12 meses. Adenocarcinoma da endocérvice. A. Lesão esponjosa no canal endocervical que alcança a ectocérvice e infiltra toda a parede. B. Aspecto histológico. Secreção de muco na luz das glândulas neoplásicas. C. Variante viloglandular, formada por estruturas papilíferas complexas.