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10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 1/22 BOTÂNICA CRIPTOGÂMICA AULA 4 Prof.ª Nicole Witt 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 2/22 CONVERSA INICIAL Nesta aula, compreenderemos as características evolutivas que foram importantes para a colonização diferenciada do ambiente terrestre, com foco no desenvolvimento de estruturas que deram origem às plantas traqueófitas (com vasos condutores de seiva). Na sequência, vamos estudar o grande grupo das pteridófitas, as primeiras traqueófitas e suas características, importâncias, reprodução e ciclo de vida, bem como a sua diversificação e filogenia. Portanto, como objetivos para esta aula teremos: Compreender a evolução das plantas traqueófitas com ênfase na colonização do ambiente terrestre; Conhecer as características morfofisiológicas das pteridófitas, a sua distribuição e importâncias ecológicas e econômicas; Compreender o ciclo de vida das pteridófitas, relacionando ao fato de apresentarem a fase esporofítica como dominante; Reconhecer os diferentes grupos de pteridófitas e suas relações filogenéticas. TEMA 1 – EVOLUÇÃO DAS PLANTAS VASCULARES As plantas vasculares (traqueófitas) e as briófitas, formam o grande grupo monofilético das embriófitas. No entanto, as briófitas divergem das traqueófitas, que, por sua vez, formam outro clado monofilético, em vários aspectos, principalmente no que tange ao ciclo de vida, diferenciação celular e lignificação da parede celular secundária, resultando em diferentes graus de dependência do ambiente aquático. Durante a colonização do ambiente terrestre, as embriófitas enfrentaram inúmeros desafios, dentre os quais o controle à dessecação, a dependência da água para a reprodução, a exigência de 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 3/22 estruturas de suporte e sustentação antes exercidos pela água (ar é menos denso), mecanismos de absorção e transporte de substâncias, uma vez que nem todo o corpo está em contato com a solução aquosa e a dispersão dos esporos, tendo o ar como veículo. Assim, ao longo da evolução e subsequente colonização da terra, as plantas desenvolveram uma série de características morfológicas adaptativas ao novo ambiente conquistado (Salgado-Labouriau, 1994). Acredita-se que as primeiras plantas terrestres, semelhantes às hepáticas atuais, tenham surgido há cerca de 470-480 milhões de anos (Judd et al., 2009; Reece et al., 2015; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Destituídas de muitas das características adaptativas, como vasos condutores, cutícula espessa, estômatos, estruturas de sustentação e órgãos verdadeiros, eram plantas pequenas e junto à sua fase gametofítica, dependente da água para a fecundação, ser a duradoura, estavam aptas a colonizar, somente, o ambiente ainda muito próximo a água. Como estudamos na aula passada, as briófitas compartilham de forma diferenciada entre os seus representantes (hepáticas, musgos e antóceros), de várias características dessas primeiras plantas terrestres. No caminhar da evolução, registros fósseis do Siluriano Médio (425 milhões de anos) das mais antigas plantas vasculares conhecidas, exemplares de Cooksonia e (Edwards; Kenrick, 2015; Raven; Evert; Eichhorn, 2018), posteriormente de Rhynia, ambas do filo Rhyniophyta, fornecem indícios de como, possivelmente, eram essas plantas: simples, ainda pequenas, sem folhas, raízes ou sementes, mas já constituídas de um esporófito ramificado como fase dominante, (Raven; Evert; Eichhorn, 2018), o que, para Edwards e Kenrick (2015), foi uma das principais inovações na evolução das plantas, lançando bases para o desenvolvimento de plantas complexas com múltiplos esporângios e sistemas de órgãos especializados (caules, raízes e folhas). Ao que tudo indica, a ausência de raízes tanto nas plantas semelhantes às briófitas (avasculares) quanto nas plantas vasculares foi suprida pelas relações simbióticas estabelecidas com fungos, os quais formam extensas redes de filamentos nos solos e transferem água e nutrientes para sua parceira vegetal simbiótica (Reece et al., 2015). Figura 1 – Paisagem do Devoniano Inferior (408 a 387 milhões de anos) ilustrando da esquerda para a direita, com as plantas semelhantes às briófitas e mais próximas a água no centro (tapete verde), uma hipótese evolutiva da colonização do ambiente terrestre pelas plantas vasculares 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 4/22 Crédito: Flávio Oliveira. Mais adiante, as plantas vasculares desenvolveram um sistema de fixação ao substrato terrestre, como também de absorção (raízes), um sistema caulinar formado pelo caule e folhas, estes contendo os tecidos vasculares (xilema e floema) que, além de garantir o transporte de substâncias nutritivas e água para toda a planta, favoreciam a sustentação devido à incorporação da lignina à parede celular das traqueídes, células alongadas com parede espessa e mortas na maturidade (Judd et al., 2009; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Associado aos órgãos verdadeiros, o desenvolvimento de uma cutícula mais espessa constituída de cutina que impede a perda de água excessiva pela planta e, consequentemente, o seu dessecamento e de uma epiderme, com células mais compactas e a presença dos estômatos, já presentes no ancestral comum a algumas briófitas (musgos e antóceros atuais, possuem estômatos), favoreceram a colonização de ambientes cada vez mais distantes da água. A presença de esporos com esporopolenina, já era uma característica ancestral importante à dispersão. Na reprodução e consequentemente, ciclo de vida, o acontecimento mais marcante foi a evolução da fase esporofítica (2n), aumentando em duração e complexidade morfológica, diferentemente da gametofítica (n), que reduziu de tamanho e complexidade (Figura 2). Nas primeiras plantas vasculares, como ainda visto em licófitas e samambaias, o gametófito era livre e independente do esporófito, característica não mais vista em plantas com sementes, nas quais o 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 5/22 gametófito tornou-se muito reduzido e completamente dependente do esporófito (Judd et al., 2009). Essas mudanças graduais até a máxima redução da fase gametofítica, segundo vários autores, têm relação com várias das alterações morfofisiológicas presentes nas plantas vasculares (dos múltiplos esporângios, aos estróbilos das gimnospermas e flores das angiospermas) e a conquista diferencial do ambiente terrestre, com o futuro desenvolvimento do grão de pólen e semente nas gimnospermas e do fruto nas angiospermas. De acordo com Judd et al. (2009), a fase esporofítica (2n) se tornou dominante ao mesmo tempo em que a fase gametofítica (n) diminuiu de tamanho e progressivamente se tornou especializada para a reprodução sexuada, devido à proteção genética contra mutações deletérias exercida pela diploidia (2n – uma cópia do gene deletério não necessariamente impede o desenvolvimento) em comparação aos organismos haploides, para os quais uma única cópia do gene deletério extingue o ser vivo. Adicionalmente, o esporófito não sofre restrições para aumentar em tamanho, o que favorece a dispersão dos esporos e o acesso a luz, enquanto o gametófito livre (das briófitas e a maioria das pteridófitas) é dependente da água para a fertilização (gameta masculino flagelado) e mais sensível à perda de água. Figura 2 – Relação gametófito-esporófito ao longo da evolução, ilustrando a tendência evolutiva de aumento da complexidade do esporófito com subsequente redução do gametófito Crédito: Aldona Griskeviciene/Shutterstock. 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 6/22 Graças às suas adaptações para existência no ambiente terrestre, as plantas vasculares têm sido bem-sucedidas ecologicamente e são as plantas dominantes nos habitats terrestres (Raven; Evert;Eichhorn, 2018), compondo um clado que compreende cerca de 93% de todas as espécies de plantas terrestres existentes (Reece et al., 2015). No próximo tópico, descrevemos algumas das características das plantas vasculares sem sementes, conhecidas didaticamente como pteridófitas. TEMA 2 – PTERIDÓFITAS: TRAQUEÓFITAS SEM SEMENTES As pteridófitas, assim como as briófitas, não formam um clado válido, por isso nas classificações mais recentes (e nesta disciplina), essas denominações, quando mantidas, o são apenas como recurso didático. Mas, diferentemente das briófitas, as pteridófitas fazem parte do clado das traqueófitas e compartilham com as espermatófitas (gimnospermas e angiospermas) algumas sinapomorfias, tais como tecidos condutores (traqueídes – xilema e elementos crivados – floema), lignina nas paredes secundárias, esclerênquima como tecido de sustentação e esporófito de vida longa e independente. No entanto, diferentemente das espermatófitas, não apresentam sementes, mantendo os esporos como unidade dispersora. Também não apresentam grão de pólen e dependem da água para que seus gametas masculinos flagelados encontrem e fecundem a oosfera (Simpson, 2010). Atualmente, as pteridófitas são encontradas em praticamente todos os ambientes, sendo mais diversas em florestas tropicais, onde vivem aderidas ao solo, pedras, areia ou mesmo sobre o tronco de árvores ou arbustos, onde são epífitas. Algumas poucas são aquáticas e de pequeno porte, como as Salvinea e Marcilea (trevo de quatro folhas); outras atingem grandes tamanhos, como a samambaiaçu, que produz o xaxim. No passado, do Devoniano Superior até o período Carbonífero (375 até cerca de 290 milhões de anos atrás), eram as plantas dominantes e formavam extensas florestas que hoje constituem parte dos depósitos de carvão utilizados como combustível fóssil. Muitas samambaias, como é o caso das espécies Pteridium aquilinum ou Gleichenia pectinata, são consideradas plantas pioneiras importantes que, quando bem manejadas, participam do processo de sucessão ecológica promovendo alterações significativas no solo e no controle da erosão em áreas degradadas na Mata Atlântica (Reis; Zambonim; Nakazomo, 1999). Outras pteridófitas, como diferentes espécies de samambaias, exemplo das avencas, renda portuguesa e chifre-de-viado, são consideradas ornamentais e de fácil cultivo. Assim, é muito comum encontrarmos várias dessas plantas em vasos e jardins domiciliares (Plastino; Sano, 2012). Uma das 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 7/22 samambaias mais comercializadas, mas com o propósito de produção de xaxim a partir do seu caule, foi a samambaiaçu (Dicksonia sellowiana), que na língua tupi significa samambaia grande, uma espécie nativa da Mata Atlântica. A sua elevada exploração para a produção do xaxim somado ao seu lento crescimento (50 cm a cada 20 anos) fizeram com que na década de 90 a espécie entrasse para a lista de espécies ameaçadas de extinção. Por isso, em 2001 a sua extração, comercialização e industrialização foram proibidas por Lei. As pteridófitas apresentam outras potencialidades, como para a retirada de substâncias tóxicas do ambiente, a fitorremediação. Nesse caso, o grande exemplo é o da samambaia asiática Pteris vittata, que vem sendo utilizada para a retirada de arsênico do solo, um resíduo tóxico da mineração. Essa planta é capaz de absorver o arsênico do solo, transportar e armazenar nas suas folhas, onde o metaloide tóxico se acumula em níveis elevados. Ao contrário de outras espécies, a P. vittata não sofre alteração estruturais devido ao acúmulo desse metaloide (Fernandes et al., 2021) e, ao que tudo indica, isso ocorre devido à capacidade que a membrana tem de bombear o arsênico para os vacúolos das células vegetais, protegendo a célula de lesão (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Algumas pteridófitas apresentam ainda interesse farmacológico, como é o caso da cavalinha, Equisetum arvense L., amplamente utilizada na América do Sul devido aos seus efeitos diuréticos. Da sua parte aérea costuma ser produzido o chá de cavalinha, que, além de ter efeito diurético, ajuda no fortalecimento dos ossos e tem potencial antimicrobiano. 2.1 MORFOLOGIA Como em todas as plantas vasculares, o esporófito é a fase dominante. Assim, quando olhamos para uma samambaia ou cavalinha, estamos vendo o seu esporófito (vide Figura 3). Os esporófitos das plantas vasculares são ramificados, constituídos por múltiplos esporângios (poliesporangiadas) e diferenciados em raízes, caules e folhas – os órgãos da planta, os quais são constituídos por um conjunto de tecidos contínuos (dérmico, vascular e fundamental). As raízes formam o sistema radicular, que fixa a planta e absorve água e sais minerais do solo. O caule, aéreo como em licófitas e equisetófitas ou comumente do tipo rizoma nas samambaias, e as folhas, juntos, formam o sistema caulinar, com o caule originando órgãos fotossintetizantes especializados – as folhas ou folíolos, quando essas são ramificas em forma de pena – dispostas para a captura da luz solar (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). O sistema vascular, constituído por células lignificadas 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 8/22 condutoras de água, as traqueídes (do xilema), conduz água e minerais para as folhas e, por meio de células do floema, os produtos da fotossíntese das folhas para outras partes da planta. Dotados de estômatos com controle da abertura e fechamento e cutícula com cutina, os esporófitos das pteridófitas controlam com maior eficiência a perda da água. Vantagens de se apresentar sistema vascular: Maior eficiência no transporte de água, nutrientes inorgânicos e orgânicos; Maior sustentação em meio aéreo, devido a lignificação da parede secundária das traqueídes (células condutoras de água); Possibilidade de aumento no tamanho corporal. Apesar da presença de células especializadas na condução de seiva, as plantas vasculares sem sementes apresentam, na maioria das vezes, apenas crescimento primário, derivado dos meristemas apicais que produzem os tecidos primários que garantem o crescimento vertical das plantas. Um tipo de crescimento secundário pode ser visto em licófitas extintas do gênero Lepidodrendon, no entanto desprovidas de xilema secundário (lenho), sinapomorfia das lignófitas, a árvore de 10 a 35 metros de altura era sustentada por um tronco formado por uma grande quantidade de periderme (sistema dérmico secundário) que margeava uma pequena quantidade de xilema. TEMA 3 – REPRODUÇÃO E CICLO DE VIDA O esporófito (2n) – a planta em si, em algumas épocas do ano apresenta folhas modificadas, os esporofilos, assim chamadas porque possuem vários esporângios, que podem estar agrupados em soros distribuídos na face inferior (abaxial) ou na borda dos folíolos ou ainda, para algumas espécies de licófitas e cavalinhas em um conjunto de folhas férteis chamadas de estróbilos, que se diferem dos estróbilos das gimnospermas por não terem óvulos e ou grão de pólen, novidades evolutivas exclusivas das espermatófitas. Nos esporângios, encontramos células produtoras de esporos (2n) que, ao sofrer meiose, produzem as unidades dispersoras, os esporos (n) revestidos por esporopolenina, o que torna essa estrutura bastante resistente à perda da água e ação de decompositores, uma importante adaptação à vida na terra. Quando o esporângio seca e se abre, acaba lançando os esporos no ambiente. Estes são levados pelo vento e, quando em local adequado, germinam, formando um gametófito (n) denominado de 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 9/22 protalo. O gametófito (n) representa a fase haploide do ciclo, sendo muito reduzido e temporário, podendo ter vida livre ou viver aderido ao esporófito. Efêmero, após a produção de gametângios e gametas, comumente senesce e morre. A maioria das pteridófitas é monoica, ou seja, apresentam gametângios (n) femininos, os arquegôniosque produzem oosfera e os masculinos, anterídios que produzem os anterozoides. Os gametângios produzem os gametas (n) por mitose. Como todas as plantas de fecundação oogâmica, os gametângios femininos (arquegônios) mantem a oosfera no seu interior, e os anterozoides flagelados se locomovem com auxílio da água e fecundam a oosfera formando a célula-ovo ou zigoto (2n). O zigoto se desenvolve em embrião e este em um novo esporófito (2n), reiniciando o ciclo. Figura 3 - Representação esquemática e generalizada do ciclo de vida das pteridófitas. Créditos: Kazakova Maryia/Shutterstock. 3.1 PLANTAS HOMOSPORADAS E HETEROSPORADAS 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 10/22 As plantas vasculares homosporadas produzem somente um tipo de esporo, que pode vir a se desenvolver em um gametófito bissexuado (hermafrodita). As plantas heterosporadas, por sua vez, produzem micrósporos e megásporos, que germinam e dão origem a gametófitos masculinos e gametófitos femininos, respectivamente (Simpson, 2010; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). A maioria das plantas vasculares sem sementes é homosporada, mas a heterosporia é encontrada em licófitas, como as Selaginellas, Isoetes e, em algumas monilófitas, como as samambaias aquáticas (Salviniales) (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Na história das plantas vasculares, a heterosporia surgiu várias vezes sendo exibida também, nas espermatófitas atuais (Judd et al., 2009). Os gametófitos de plantas heterosporadas são de tamanho reduzido se comparados com aqueles das plantas homosporadas. Outra diferença é que, em plantas heterosporadas, o gametófito se desenvolve no interior do envoltório formado pela parede do esporo (desenvolvimento endospórico), enquanto, em plantas homosporadas, os gametófitos se desenvolvem fora do envoltório do esporo (desenvolvimento exospórico) (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Esses, foram sem dúvida, passos importantes para a retenção dos gametófitos junto ao esporófito, do qual se tornaram dependentes nutricionalmente e futuramente, possibilitaram a formação do grão de pólen e da semente, nas espermatófitas. Tem havido uma longa e contínua tendência evolutiva em direção à redução do tamanho e da complexidade do gametófito (Figura 2), que culminou nas angiospermas (plantas com flores) e a heterosporia seguido da endosporia, foram passos importantes para esse caminho. De tal forma que as plantas vasculares sem sementes têm arquegônios e anterídios, enquanto a maioria das gimnospermas tem somente arquegônios, com exceção de algumas delas. Nas angiospermas, tanto os arquegônios como os anterídios desapareceram (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). TEMA 4 – DIVERSIDADE E FILOGENIA O grande grupo das pteridófitas, de acordo com as análises mais recentes, compreende quatro filos de representantes fósseis Rhyniophyta, Zosterophyllophyta, Trimerophyta, extintas no final do Devoniano e as Progymnospermophyta, mais relacionadas ao grupo das espermatófitas, que foram extintas no período seguinte, no Carbonífero Inferior. Todas as pteridófitas viventes e, que serão abordadas nessa aula, estão atualmente distribuídas em dois únicos filos, Lycopodiophyta e Monilophyta (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 11/22 Figura 4 – Divisão basal das plantas vasculares, com ênfase nos filos viventes de plantas vasculares sem sementes Fonte: Gissi, 2016. Duas das características morfológicas importantes que diferenciam os dois grandes grupos de plantas vasculares sem sementes são a estrutura do cilindro vascular e das folhas. Nas traqueófitas, os tecidos vasculares primários e, em algumas plantas, uma coluna central de células parenquimáticas, conhecida como medula, constituem o cilindro central, ou estelo, da raiz ou do caule no corpo primário da planta. São reconhecidos vários tipos de estelos, entre os quais o protostelo, o sifonostelo e o eustelo, os quais diferem um do outro pela organização interna dos tecidos vasculares e pela presença ou ausência de células de preenchimento e sustentação (tecido fundamental). Enquanto nos protostelos a parte central é preenchida por xilema, nos outros dois tipos, há uma parte central parenquimática (medula). Associado ao tipo de estelo, sob a perspectiva evolutiva, as folhas podem ser classificadas em microfilos, menores e com origem direta dos tecidos vasculares, sem a formação de lacuna e normalmente em formato de espinho; e megafilo, folhas 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 12/22 maiores e com sistema de nervuras mais complexos, sendo originada de lacunas presentes em estelos do tipo sinfonostelo e eustelo (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Além disso, os megafilos, geralmente, sustentam maior produtividade fotossintetizante do que os microfilos (Reece et al., 2015). 4.1 FILO LYCOPODIOPHYTA A linhagem que inclui as licófitas atuais apareceram no registro fóssil logo após o surgimento das primeiras plantas vasculares (Judd et al., 2009) e logo se separaram da linhagem que veio dar origem as eufilófitas (monilófitas e espermatófitas) (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). A presença de um cilindro central primitivo, do tipo protostelo e dos microfilos, folhas pequenas com um único feixe de tecido vascular, são características exclusivas de licófitas e justificam a colocação como grupo basal. Particularmente diversas durante o período Carbonífero, as licófitas com representantes de grande porte do gênero extinto Lepidodendron, árvores com crescimento secundário de até 40 m, dominavam as margens de brejos em ambientes tropicais. Os remanescentes dessas plantas são o principal componente dos depósitos de carvão (Judd et al., 2009; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Atualmente, não passam de 1.200 espécies, representadas principalmente pelos licopódios, selaginelas, com cerca de 700 espécies viventes, sendo um gênero bastante diversificado nos trópicos, onde muitas das plantas crescem como epífitas e Isoetes, parente das antigas licófitas arbóreas, que apesar de não chegarem a esses tamanhos, mantiveram algumas atividades de crescimento secundário e sistema de raízes adventícias das antigas espécies arbóreas (Judd et al., 2009). Figura 5 – Esquerda: exemplares de Lycopodium sp. Direita: exemplar de Selaginella sp. 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 13/22 Crédito: Piramidonforte/Shutterstock; Ap Focus/Shutterstock. 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 14/22 4.2 FILO MONILOPHYTA Pertencente ao grande grupo das Euphyllophytas, análises morfológicas, presença de megafilos e análises moleculares colocam as Monilophytas como grupo irmão das Spermatophytas (espermatófitas) (Judd et al., 2009; Gissi, 2016). As monilófitas compreendem as samambaias e as cavalinhas (Equisetum spp.). Esses grupos já foram considerados filos separados; contudo análises recentes de características morfológicas, como a anatomia do estelo (do tipo sifonostelo), dos genes nucleares e dos cloroplastos indicam que samambaias e cavalinhas formam um clado (Monilophyta) com quatro classes: Equisetopsida, Psilotopsida, Marattiopsida e Polypodiopsida (Gissi, 2016; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). As relações entre essas linhagens ainda estão sendo ativamente investigadas. O termo comum samambaia é frequentemente aplicado aos membros das linhagens Psilotopsida, Marattiopsida e Polypodiopsida (Judd et al., 2009; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 4.3 CLASSE EQUISETOPSIDA: AS CAVALINHAS Como as licófitas, as equisetófitas existem desde o período devoniano e fizeram parte da flora de archaeopteris junto à progimnosperma do gênero Archaeopteris. As equisetófitas alcançaram a sua máxima abundância e diversidade no Carbonífero há cerca de 300 milhões de anos (Salgado- Labouriau, 1994). Atualmente estão representadas por um único gênero herbáceo, equisetum, que consiste em 15 espécies. Uma vez que Equisetum é essencialmenteidêntico à Equisetites, uma planta do Carbonífero, Equisetum pode ser o gênero de planta mais antigo sobrevivendo na terra (Judd et al., 2009; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). As espécies de equisetum, conhecidas como cavalinhas, são amplamente distribuídas em locais úmidos ou encharcados, próximos a córregos e ao longo das margens de florestas (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). As cavalinhas são facilmente reconhecidas pelos seus caules rígidos, ocos e articulados, que contêm pequenas folhas semelhantes a escamas junto aos nós. Os entrenós são estriados, e as estrias são rijas e reforçadas com depósitos de sílica nas células epidérmicas, o que deu a elas no passado o nome de juncos de polimento, pois eram utilizadas para polir potes e panelas em séculos passados. Seus esporângios estão reunidos em esporangióforos (Simpson, 2010), que, por sua vez, formam um estróbilo no ápice dos ramos férteis. Os esporos apresentam elatérios, apêndices que auxiliam na dispersão (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 15/22 Figura 6 – Exemplares de Equisetum Crédito: Aga7ta/Shutterstock; Chatchai Kuntrakornkiti/Shutterstock. 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 16/22 4.3 SAMAMBAIAS As samambaias, relativamente abundantes no registro fóssil desde o período Carbonífero até o presente, correspondem hoje a mais de 12.000 espécies, com a maioria vivendo nos trópicos. Em diversidade, as samambaias só perdem para as angiospermas (Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Superficialmente similares pela presença de frondosos e bem desenvolvidos megafilos (muitas vezes bastante divididas) que se abrem a partir de um báculo (folha em forma de feto) e a presença comum de caule do tipo rizoma (Judd et al., 2009), são distribuídas entre as classes Psilotopsida, Marattiopsida e Polypodiopsida, sendo estas tradicionalmente divididas em dois grupos com base na estrutura e no desenvolvimento dos esporângios (Gissi, 2016; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). 4.3.1 Classes Psilotopsida e Marattiopsida Assim, como a maioria das plantas vasculares, as Psilotopsida, e Marattiopsida são eusporangiadas, pois seu esporângio se desenvolve a partir de muitas células iniciais e apresenta uma parede com mais de uma célula de espessura quando plenamente desenvolvido. Esporângios desse tipo tendem a ser maiores e a conter um grande número de esporos haploides na maturidade (Judd et al., 2009; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Outra característica comum às duas classes é a presença de gametófitos subterrâneos com rizoides e fungos simbiontes. As plantas da classe Psilotopsida, distribuídas nas ordens Psilotales e Ophioglossales, são mais abundantes em regiões de clima temperado do Hemisfério Norte com alguns representantes em regiões do Sul do Pacífico, já as 200 espécies de Marattiopsida, habitam os trópicos (Raven; Evert ;Eichhorn, 2018). 4.3.2 Classe Polypodiopsida As samambaias da classe Polypodiopsida são as únicas plantas vasculares leptosporangiadas, com esporângios formados a partir de uma única célula inicial e com parede constituída por uma única camada de células na maturidade. Esse tipo de esporângio resulta na formação de um menor número de esporos e é considerado como característica derivada (Judd et al., 2009; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). Agrupados em soros, os esporângios comumente estão localizados na porção abaxial das folhas e cobertos por um tecido, o indúsio. Os gametófitos são pequenos e normalmente em formato de coração (protalo) (Judd et al., 2009; Simpson, 2010). Com exceção das samambaias aquáticas da ordem Slviniales, com as representantes mais conhecidas dos gêneros Marsilea – semelhante a um trevo de quatro folhas, e Salvinia, todas são homosporadas (Judd et al., 2009; Raven; Evert; Eichhorn, 2018). A maioria (10.500 de 12.000) das 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 17/22 samambaias viventes são leptosporangiadas (Raven; Evert; Eichhorn, 2018) e, portanto, muito possivelmente, correspondem às samambaias que conhecemos. Figura 7 - A. Exemplar de samambaia. B. Báculo em desenvolvimento. C. Exemplar epífita. D. Soros, agrupamentos de esporângios localizados na face abaxial das folhas. E. Marsilea samambaia aquática. F. Vista aproximada dos soros Crédito: Yarygin/Shutterstock; Aniilphotos/Shutterstock; P. Kyriakos/Shutterstock; Iris Petrovic/Shutterstock; Pakats/Shutterstock; Neenawat Khenyothaa/Shutterstock. TEMA 5 - RELAÇÕES FILOGENÉTICAS ENTRE AS TRAQUEÓFITAS (PLANTAS VASCULARES) O diagrama da Figura 8, retirado de Raven, Evert e Eichhorn (2018, p. 404), retrata uma das hipóteses mais recentes acerca das relações filogenéticas entre as plantas vasculares (traqueófitas). 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 18/22 Essa árvore filogenética mostra a divisão basal entre o clado licófita e o clado eufilófita. Também são mostradas as relações entre algumas plantas vasculares sem sementes, especificamente monilófitas (as Psilotopsida, compreendendo Psilotales e Ophioglossales, e Marattiopsida, Polypodiopsida e Equisetopsida) e progimnospermas (aneurófitas e Archaeopteris), e plantas com sementes. As Psilophyton retratam um dos gêneros mais bem conhecidos das trimerófitas, possíveis ancestrais das monilófitas e das progimnospermas. O clado que contém as progimnospermas e as plantas com sementes foi chamado de lignófitas ou produtoras de madeira. Os caracteres distintivos dos principais clados estão assinalados. Os asteriscos indicam táxons extintos. É importante notar, que as relações entre as classes Marattiopsida, Polypodiopsida e Equisetopsida ainda não estão bem claras e isso está representado na árvore pela saída dos três táxons de um mesmo ponto. Figura 8 – Relações filogenéticas de plantas vasculares (traqueófitas) NA PRÁTICA 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 19/22 As pteridófitas, junto às briófitas, formam o grupo das criptógamas. O estudo desses dois grupos de planta é fundamental para compreendermos a conquista do ambiente terrestre pelas plantas e as relações filogenéticas dentro das embriófitas. Pensando nisso, preencha a tabela contendo os mesmos itens da tabela das briófitas preenchida na aula passada, compare as duas e responda às questões. Tabela 1 – Características das pteridófitas PTERIDÓFITAS Fase dominante Ramificação do esporófito Presença de órgãos verdadeiros Desenvolvimento da cutícula Presença de estômatos Presença de vasos condutores Encontro entre os gametas Unidade dispersora Ambiente de vida Tamanho alcançado 1. As pteridófitas e as demais plantas vasculares compartilham características que as briófitas não possuem. Elenque essas novidades evolutivas e justifique a colonização diferencial do ambiente terrestre. 2. Analise as tabelas construídas por você e justifique o maior tamanho das pteridófitas em comparação às briófitas. 3. Compare o ciclo de vida de um musgo com de uma samambaia homosporada leptosporangiada. 4. As pteridófitas ainda não conquistaram de fato o ambiente terrestre. Explique o porquê, indicando o que falta para as plantas vasculares dominarem de vez o ambiente terrestre. 5. Diferencie os dois filos de plantas vasculares sem sementes. Saiba Mais Leia o artigo “A evolução inicial das plantas terrestres, dos fósseis à genômica: um comentário sobre Lang (1937) 'Sobre os restos da planta do Downtoniano da Inglaterra e País de 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 20/22 Gales'” (em inglês, mas com tradução direta no site) e reflita acerca da importância dos registros fósseis e da análise genômica para a compreensão da evolução das plantas, bem como, aprofunde seu conhecimento sobre a evolução e, portanto, relações filogenéticas do grupo. EDWARDS, D; KENRIK, P. The early evolution of land plants, from fossils to genomics: a commentary on Lang (1937)‘On the plant-remains from the Downtonian of England and Wales'. The Royal Society, 19 abr. 2015. Disponível em: <https://royalsocietypublishing.org/doi/10.109 8/rstb.2014.0343>. Acesso em: 16 dez. 2021. FINALIZANDO Ao longo desta aula, estudamos as características evolutivas que permitiram o desenvolvimento das plantas traqueófitas e a sua conquista diferencial do ambiente terrestre, entendendo que, no percurso evolutivo, muitos foram os desafios enfrentados pelas plantas na conquista do novo ambiente, mas que algumas tendências evolutivas se fizeram presentes. Ao mesmo tempo, abordamos a transição da fase dominante gametofítica para a esporofítica, abordando, para isso, o primeiro grupo de plantas vasculares viventes, as pteridófitas, as quais, assim como as briófitas, correspondem a filos distintos, não sendo um clado válido. Dentro das pteridófitas, estudamos as suas características gerais e suas importâncias ecológicas e econômicas. Ao avançarmos no estudo da diversidade e filogenia, abordamos o filo das licófitas e das monilófitas, com as cavalinhas e samambaias e que, apesar de apresentarem o esporófito ramificado, vascular, com órgãos verdadeiros e cutícula espessa como fase dominante, ainda são dependentes da água para a reprodução, devido à presença de gametas masculinos flagelados que dependem da água ambiental para o encontro com o gameta feminino, a oosfera. Ademais, são plantas vasculares que mantêm o esporo como unidade dispersora, sendo desprovidas de sementes e órgãos reprodutores evidentes. Por fim, compreendemos as relações evolutivas entre as traqueófitas, compreendendo os filos das plantas vasculares sem sementes, com vista ao estudo das espermatófitas e fanerógamas. REFERÊNCIAS EDWARDS D.; KENRICK P. The early evolution of land plants, from fossils to genomics: a commentary on Lang (1937) ‘On the plant-remains from the Downtonian of England and Wales’. The https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2014.0343 10/11/2022 22:27 UNINTER https://univirtus.uninter.com/ava/web/roa/ 21/22 Royal Society, 19 abr. 2015. Disponível em: <https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rstb.2014.0343>. Acesso em: 16 dez. 2021. GISSI, D. Samambaias e licófitas: as plantas vasculares sem sementes. In: V BOTÂNICA NO INVERNO 2015, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, Departamento de Botânica, 2015. p. 48-58. Acesso em: 16 dez. 2021. FERNANDES, P. A. et al. Estudo teórico sobre fitorremediação de solo contaminado por arsênio. In: VI CONGRESSO INTERNACIONAL DE MEIO AMBIENTE SUBTERRÂNEO. Anais..., 1 set. 2021. JUDD, W. S. et al. Sistemática vegetal: um enfoque filogenético. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. PLASTINO, E. M.; SANO, P. T. Reconhecimento dos principais grupos vegetais e de alguns fungos. In: SANTOS, D. Y. A. C. dos; CHOW, F.; FURLAN, C. M. (orgs.) A botânica no cotidiano. 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