Prévia do material em texto
@anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 1 OBJETIVO 1. Compreender os mecanismos fisiológicos do puerpério; 2. Estudar as alterações patológicas do puerpério; 3. Entender os fatores de risco para o puerpério patológico; 4. Elucidar os cuidados preventivos no pré e pós parto. Puerpério Síntese dos fenômenos fisiológicos de involução e recuperação do sistema reprodutor feminino após o parto. PÓS-PARTO IMEDIATO (1° AO 10° DIA) PÓS-PARTO TARDIO (10° AO 45° DIA) Vagina Progressiva atrofia do epitélio escamoso de revestimento, independentemente da presença da lactação Por volta do 15° dia, o processo de descamação alcança seu máximo, seguido pelas primeiras manifestações regenerativas A partir do 25° dia, o processo regenerativo é distinto conforme a amamentação. Entre as mulheres que não amamentam há uma aceleração dos processos, que culminam com um epitélio eutrófico, enquanto nas mulheres que amamentam observa-se um epitélio vaginal subatrófico Útero Corpo Logo após o parto, encontra-se pouco acima da cicatriz umbilical. Então, sofre acelerado processo involutivo entre o 3° e o 10° dia, quando então reassume sua localização intrapélvica Persiste o processo involutivo, embora lentamente, sem que o útero alcance as proporções encontradas entre as nulíparas Istmo Também cursa com processo de contração e retração, porém sem a intensidade do corpo uterino Ao final do processo involutivo, o istmo uterino é raramente distinguível entre a cérvice e o corpo uterino Cérvice A cérvice persiste permeável a um ou dois dedos até o 3° dia pós-parto, e, por volta do 9° ou 10° dia, apenas o orifício externo encontra-se entreaberto O orifício externo da cérvice, agora mais amplo e dilaniado nas porções laterais, apresenta-se em fenda transversal, caracterizando a paridade da mulher Endométrio Dentro de 2 a 3 dias após o parto, a decídua remanescente se divide. A camada superficial torna- se necrótica e é eliminada nos lóquios, enquanto a camada basal adjacente ao miométrio permanece intacta e dá origem ao novo endométrio. Esse novo endométrio se origina da proliferação das glândulas endometriais remanescentes e do estroma do tecido conjuntivo interglandular. É um processo rápido, exceção feita ao leito placentário, e, por volta de 1 semana pós-parto, já se identifica um novo epitélio glandular recobrindo a maior parte da cavidade uterina. O processo de regeneração endometrial evolui e, a partir do 16o dia pós-parto, o endométrio em geral encontra-se plenamente recuperado. INTRODUÇÃO O puerpério, também denominado pós-parto, é o período que sucede o parto e, sob o ponto de vista fisiológico, compreende os processos involutivos e de recuperação do organismo materno após a gestação. Embora o caráter gradual e progressivo assumido por essas manifestações torne o puerpério um período de demarcação temporal imprecisa, é aceitável dividi-lo em: pós-parto imediato, do 1° ao 10° dia; pós-parto tardio, do 10° ao 45° dia; e pós-parto remoto, além do 45° dia. Muitos estudos assumem como pós-parto os 12 meses que sucedem o parto. FISIOLOGIA SISTEMA REPRODUTOR Os complexos fenômenos regenerativos vivenciados pelo sistema reprodutor feminino após o parto desenrolam-se especialmente ao longo do pós-parto imediato e do pós- parto tardio. Enquanto, no pós-parto imediato, prevalece a crise genital, caracterizada por eventos catabólicos e involutivos das estruturas hiperplasiadas e/ou hipertrofiadas pela gravidez, no pós-parto tardio evidenciam-se mais claramente a transição e a recuperação genital, com progressiva influência da lactação. @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 2 Em relação à involução uterina, ressalte-se a atuação conjunta de diversos mecanismos fisiológicos, que, em última instância, garantem a involução da matriz uterina e evitam quadros de hemorragia pós-parto. Dentre eles, assumem maior importância: − A retração e contração uterinas, as quais acarretam acentuada anemia miometrial e consequente má nutrição e hipoxia celular; estão também associadas a trombose e obliteração de vasos parietais formados ao longo da gestação. Imediatamente após o parto, mais especificamente com a saída da placenta, esses fenômenos de retração e contração são os principais responsáveis pela hemostasia da ferida placentária e por evitar os quadros de hemorragia pós-parto. É o denominado globo de segurança, o qual permite que as ligaduras vivas de Pinard causem acentuada constrição dos vasos miometriais parietais; − O reflexo uteromamário, o qual permite que esses eventos involutivos uterinos ocorram mais intensamente nas mulheres que amamentam. A estimulação dos mamilos e da árvore galactófora acarreta contrações uterinas, identificadas pelas mulheres como cólicas (tortos), em virtude da liberação de ocitocina na circulação sanguínea; − O remodelamento dos vasos pélvicos, aqui representados pela circulação uterina e ovariana, cujos calibres retornam progressivamente ao pré- gravídico e contribuem para um estado de isquemia do tecido miometrial hipertrofiado. Esse processo é influenciado significativamente tanto pela contração e retração miometrial quanto pelo desaparecimento da fístula arteriovenosa, representada pela circulação uteroplacentária; − O desaparecimento súbito, em crise, dos hormônios placentários. O pós-parto remoto (após 45 dias) é caracterizado pelo retorno da ovulação e da menstruação, eventos marcadamente influenciados pela lactação. Entre as mulheres que não amamentam, a menstruação retorna, em média, por volta do 45° dia pós-natal e, ao contrário do que se pensava, é precedida pela ovulação. Nas lactantes, todavia, esses prazos dependem da duração e da frequência do aleitamento. Cortes sagitais da recém-parida (A) e da puérpera entre o 8° e o 10° dia (B). LÓQUIOS A involução e a regeneração do leito placentário, de toda a decídua e das demais superfícies genitais ocorrem, inicialmente, por meio da eliminação de grande quantidade de elementos deciduais e células epiteliais descamados, que, associados a eritrócitos e bactérias, compõem, então, o que denominamos lóquios. Ao longo dos 3 ou 4 primeiros dias pós-parto, temos os lóquios sanguíneos (lochia cruenta, lochia rubra), em função da considerável presença de sangue. A partir de então, a diminuição do conteúdo sanguíneo leva a lóquios progressivamente serossanguíneos (lochia fusca) – de coloração acastanhada – e, posteriormente, serosos (lochia serosa, lochia flava). Por volta do 10° dia, os lóquios apresentam conteúdo líquido reduzido e significativa quantidade de leucócitos, assumem coloração esbranquiçada ou discretamente amarelada (lochia alba) e mantêm-se dessa forma por 4 a 8 semanas. Em geral, o volume total dos lóquios ao longo de todo esse período varia entre 200 e 500 mℓ. SISTEMA ENDÓCRINO No fim da gestação, os níveis de estrogênio e progesterona estão muito elevados, assim como os de prolactina (PRL). Com a saída da placenta, ocorre queda imediata dos esteroides placentários a níveis muito baixos e leve diminuição dos valores de PRL, que permanecem ainda bastante elevados. As gonadotrofinas e os esteroides sexuais atingem seus menores valores nas primeiras 2 a 3 semanas pós-parto. Já os níveis de gonadotrofina coriônica humana (hCG) retornam ao normal 2 a 4 semanas após o parto. Na ausência da lactação, nas primeiras semanas pós-parto, tanto o hormônio luteinizante (LH) como o hormônio foliculestimulante (FSH) mantêm-se com valores muito baixos, para logo começarem a se elevar lentamente. No início do puerpério, os níveis de estrogênio mantêm-se baixos, e a progesterona não é detectável. A recuperação das gonadotrofinas até os níveis prévios da gravidez depende da presença ou não da amamentação. A amamentaçãopode inibir a fertilidade pela ação direta do estímulo do mamilo sobre o hipotálamo por via neuroendócrina, elevando a PRL e inibindo o FSH e o LH. SISTEMA URINÁRIO Algum grau de trauma vesical é comum em partos vaginais, especialmente entre mulheres cujos trabalhos de parto foram mais demorados. Embora comumente não cursem com repercussão clínica, esses traumas (especialmente do nervo pudendo), associados à capacidade aumentada e à relativa insensibilidade da bexiga no período pós-parto, podem atuar conjuntamente e favorecer a sobredistensão, o esvaziamento incompleto e a excessiva quantidade de urina residual. @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 3 Os fatores de risco para a disfunção vesical pós-parto parecem incluir a nuliparidade, o parto assistido, o parto com primeiro e segundo estágios prolongados, a cesariana e a anestesia de condução. No que tange aos ureteres e pelves renais, os quais se encontram dilatados na gestação, comumente retornam ao estado pré-gravídico entre 2 e 8 semanas após o parto. SISTEMA SANGUÍNEO Ao longo do parto e no puerpério imediato, é comum a leucocitose acentuada, a qual pode alcançar 30.000/mm3 e caracteriza-se por predomínio de granulócitos, relativa linfopenia e eosinofilia absoluta. Em geral, esses parâmetros normalizam por volta de 5 a 6 dias pós-parto. Em relação à série vermelha, durante os primeiros dias após o parto, os níveis de hemoglobina (Hb de 10 g/dℓ) costumam flutuar moderadamente. Uma queda acentuada de seus valores costuma estar relacionada a perdas sanguíneas excessivas, e, por volta de 6 semanas pós- parto, a hemoglobina encontra-se em níveis pré- gravídicos. As alterações induzidas pela gravidez nos fatores de coagulação sanguíneos persistem por períodos variados do puerpério, mantendo, então, o estado de relativa hipercoagulabilidade. Por exemplo, os elevados níveis de fibrinogênio plasmático persistem ao menos na 1a semana pós-parto, enquanto a velocidade de hemossedimentação pode vir a se regularizar apenas entre a 5a e a 7a semana puerperal. SISTEMA CARDIOVASCULAR A gestação, normalmente, evolui com acentuado aumento do conteúdo do líquido extracelular, e a diurese pós-parto responde pela reversão fisiológica desse processo. Porém, nas primeiras horas após o parto, é comum nos depararmos com uma diurese escassa, resultante da desidratação relacionada ao trabalho de parto. A partir do 2° dia, inicia- se o processo de eliminação dessa hipervolemia característica da gestação, fenômeno geralmente completo por volta do 6° dia pós-parto. As alterações na função cardíaca e vascular observadas após o parto acompanham o padrão detectado em relação à redistribuição hídrica. A frequência e o débito cardíacos mantêm-se elevados por 24 a 48 h após o parto e retornam aos valores pré-gravídicos por volta do 10° dia puerperal. Já a resistência vascular permanece reduzida ao longo das primeiras 48 h pós-natais e, então, progressivamente retorna aos níveis prévios à gestação. PELE As estriações do abdome e das mamas, quando presentes, perdem a cor vermelho-arroxeada e ficam pálidas, transformando-se, em algumas semanas, nas estrias branco-nacaradas. O cloasma gravídico e demais hiperpigmentações da pele, geralmente, regridem no período puerperal, ainda que não se tenha ciência do tempo exato em que isso ocorre. PESO A média de perda ponderal decorrente do parto é de 6 kg. No puerpério, ocorre perda adicional de 2 a 7 kg, habitualmente mais pronunciada nos primeiros 10 dias de pós-parto, atribuída a maior diurese, secreção láctea e eliminação loquial. DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS A gestação é um período de transição que faz parte do processo normal do desenvolvimento da mulher. Entretanto, as grandes transformações (físicas e emocionais) vividas pelas mulheres nesse período podem contribuir para alterações de seu psiquismo. Por ser um fator gerador de ansiedade, a gestação, muitas vezes, torna a mulher mais vulnerável ao desenvolvimento de perturbações emocionais, e alguns autores acreditam que o período gravídico-puerperal é a fase de maior incidência de alterações psíquicas e transtornos do humor, em particular de depressão. Nesse período, há a necessidade de atenção especial para manter ou recuperar o bem-estar materno e prevenir dificuldades futuras para o recém-nascido, pois prejuízos na saúde mental da gestante podem alterar a relação mãe- feto e, futuramente, influenciar negativamente o desenvolvimento da criança. Inicialmente, essa disfunção no relacionamento pode se expressar no recém-nascido em forma de choro, irritabilidade ou apatia e provocar distúrbios afetivos na idade adulta. A intensidade das alterações psicológicas depende de fatores familiares, conjugais, sociais, culturais e da própria personalidade da gestante. Estima-se que 25 a 35% das mulheres desenvolvem sintomas depressivos na gestação e que até 20% das gestantes podem apresentar os critérios para diagnóstico de depressão. Essa constatação segue no sentido contrário ao da crença amplamente difundida de que a gravidez é um período de alegria para todas as mulheres. Os transtornos psiquiátricos que ocorrem durante a gravidez, o parto e o puerpério não constituem uma entidade homogênea. Esses transtornos incluem desde quadros transitórios benignos até situações graves, que podem culminar em prejuízos irreparáveis para a gestante e o recém-nascido. Também se observou que os transtornos do humor durante a gravidez representaram risco de desenvolvimento de depressão pós-parto. O atendimento pré-natal é o momento para o rastreamento das gestantes para possíveis distúrbios mentais, e recomenda-se que o atendimento represente, ainda, um processo educativo para as mulheres, oferecendo informações e causando alívio em relação ao aspecto emocional. @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 4 Os sintomas de ansiedade, medo e depressão e os antecedentes pessoais e familiares de doenças psiquiátricas devem ser pesquisados e valorizados desde a primeira consulta. Também os fatores de risco devem ser avaliados. As mulheres com episódios de depressão maior fora da gestação ou que tiveram depressão pós-parto em gestações anteriores, bem como aquelas com atritos com o companheiro, assim como as vítimas de abuso físico, verbal ou sexual, são mais suscetíveis ao desenvolvimento de distúrbios psíquicos. BLUES PUERPERAL Blues puerperal, ou “baby blues”, é o distúrbio psiquiátrico mais comum no período puerperal, afetando entre 40 e 80% das mães e caracterizando-se pela ocorrência de sintomas depressivos leves, como disforia (tristeza, irritabilidade, choro fácil, ansiedade), insônia e redução da concentração. As pacientes tendem a iniciar esses sintomas a partir do terceiro ao quinto dia do pós- parto, apresentando piora na primeira semana e, tipicamente, melhora do quadro depressivo após 10 a 14 dias do parto. − Todos esses sintomas têm um pico na primeira semana, com diminuição gradativa deste ponto em diante. − Comportamento muito diferente da depressão pós-parto, em que os sintomas persistem por várias semanas, com piora progressiva. A causa do blues puerperal não é conhecida, entretanto muitos estudos analisaram as grandes mudanças biológicas que ocorrem durante o trabalho de parto, parto e puerpério imediato, assim como os fatores psicossociais e de personalidade envolvidos nesses períodos. De acordo com esses achados, Kennerley e Gath relatam que a ocorrência de ansiedade e humor deprimido durante o período gestacional também esteve relacionada à maior prevalência de blues puerperal. Estar apto a reconhecer os fatores associados a esse quadro é importante porque as pacientes acometidas por blues são de alto risco para ocorrência de depressão pós-parto. Acredita-se que aproximadamente20% das mulheres que tiveram blues evoluem com quadro de depressão maior no primeiro ano pós-natal; esse fato justifica atenção especial à evolução dos sintomas relacionados durante a gestação e o puerpério. Blues puerperal requer abordagem terapêutica conservadora, uma vez que a disforia é transitória. Intervenções úteis incluem suporte psicossocial e auxílio familiar de forma que a puérpera possa dormir e descansar adequadamente. Providenciar que alguém possa cuidar do recém-nascido durante a noite é geralmente suficiente, porém, a utilização criteriosa de tranquilizantes pode ser recomendada. Benzodiazepínicos em baixas doses e por breves períodos, como clonazepam (0,5 a 1 mg, por via oral, à noite) ou lorazepam (0,5 a 1 mg, por via oral, à noite), podem auxiliar no controle da insônia. A ingesta de álcool deve ser fortemente contraindicada. Caso os sintomas não se resolvam dentro de 2 semanas ou piorem, é necessária avaliação cuidadosa quanto à possibilidade de depressão pós-parto. DEPRESSÃO PÓS-PARTO Depressão pós-parto é um episódio depressivo maior, com sintomas clínicos como ansiedade, irritabilidade, anedonia, cansaço, alterações de sono, desânimo persistente, sentimentos de culpa, ideação suicida, temor de machucar o filho, diminuição do apetite e da libido, diminuição da cognição e presença de ideias obsessivas ou supervalorizadas. O início dos sintomas ocorre, geralmente, na terceira ou quarta semanas de puerpério, alcançando habitualmente sua intensidade máxima nos primeiros 6 meses. Entretanto, a duração e a gravidade do quadro são extremamente variáveis. Até 70% das puérperas com episódio de depressão pós- parto em gestação prévia desenvolvem novo episódio em gravidez subsequente: além disso, a ocorrência de depressão pós-parto e/ou blues puerperal está associada à maior incidência de quadros depressivos maiores posteriores. Os sintomas da depressão pós-parto podem ser confundidos com queixas comuns do puerpério (cansaço, indisposição, dificuldade para dormir e redução da libido), sendo que frequentemente a paciente não percebe que está deprimida. Além disso, a puérpera pode sentir-se inibida para queixar-se aos familiares e ao médico em razão da crença social de que deva estar feliz. Antecedente pessoal de depressão (antes da gestação ou no período pós-parto) é o maior fator de risco relacionado à depressão pós-parto; metade das mulheres que desenvolvem esse distúrbio de humor apresenta início dos sintomas antes ou durante a gestação. Menor escolaridade e baixo nível socioeconômico também são fatores comumente associados com a depressão pós-parto. Entre os fatores psicossociais com maior associação, incluem-se: baixo suporte social, história de doença psiquiátrica, blues puerperal, depressão diagnosticada Fatores de risco relacionados à maior ocorrência de blues puerperal •História de depressão •Sintomas depressivos durante a gestação •História familiar de depressão •Alterações de humor pré-menstruais ou relacionadas à utilização de contraceptivos hormonais •Estresse relacionado aos cuidados com o recém-nascido •Desajuste psicossocial relacionado ao trabalho, às relações interpessoais ou a atividades de lazer @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 5 durante o pré-natal, baixa autoestima, ansiedade pré-natal, estresse, gravidez não planejada, tentativa de interromper a gravidez, transtorno disfórico pré-menstrual e sentimentos negativos em relação à criança. Além disso, gestantes solteiras, tabagistas ou que foram usuárias de drogas ilícitas durante a gestação são mais suscetíveis ao desenvolvimento de depressão pós-parto. Para o estabelecimento do diagnóstico, faz-se necessária a apresentação dos sintomas na maior parte do dia, todos os dias, durante pelo menos 2 semanas; entretanto, a distinção dos sintomas depressivos daqueles considerados normais durante o período pós-parto (perda de peso, alteração de sono, menor disposição e energia para execução de tarefas rotineiras etc.) nem sempre é fácil. Mulheres com fatores de risco para depressão pós-parto que apresentem blues puerperal devem ser cuidadosamente avaliadas, pois pode se tratar de fase inicial de depressão pós-parto. Pensamentos repetitivos acerca de incapacidade de cuidar ou mesmo de maus tratos do recém-nascido e pensamentos de suicídio podem ocorrer na depressão pós-parto e, raramente, as pacientes revelam-nos espontaneamente. Geralmente, as pacientes percebem esses pensamentos como intrusivos e inaceitáveis (egodistônicos) e não estão necessariamente associados a maior risco de infanticídio ou suicídio. Pacientes com planejamento de suicídio e pacientes com alucinações auditivas que comandem suicídio ou infanticídio devem ser, idealmente, internadas em caráter de emergência. Infanticídio na depressão pós-parto é um evento raro, sendo mais provável em mulheres psicóticas e pacientes com antecedente de internação psiquiátrica. Casos leves e moderados, com ausência de agressividade, crítica preservada, ausência de sintomas psicóticos e ausência de planejamento suicida e homicida, podem ser tratados ambulatorialmente, sempre com acompanhamento conjunto pelo psiquiatra. Os sintomas, quando não tratados, podem melhorar gradualmente até o sexto mês pós-parto. Entretanto, na prática clínica, admite-se que estes podem ocorrer até 1 ano após o parto. Para casos leves e moderados, a psicoterapia pode ser útil e suficiente; em casos mais graves, existe indicação de tratamento medicamentoso com a utilização de drogas antidepressivas, especialmente as que inibem seletivamente a recaptação de serotonina (fluoxetina, sertralina, paroxetina, citalopram). Os inibidores de recaptação de serotonina são a primeira opção terapêutica por apresentarem menor incidência de efeitos colaterais e menor risco de superdosagem. Espera-se melhora dos sintomas em um período inicial de 4 a 6 semanas e, caso isso ocorra, o tratamento deve ser mantido por pelo menos 6 a 12 meses, a fim de prevenir recidivas. O auxílio de especialista (psiquiatra) deve ser requerido sempre que possível, até porque é importante a presença deste profissional no seguimento da paciente, na observação se haveria evolução para outros quadros, tais como o transtorno bipolar. Ideação suicida ou homicida deve ser pesquisada e, em casos mais graves, a hospitalização psiquiátrica pode ser necessária. Não há contraindicação à amamentação, desde que os cuidados anteriormente descritos sejam tomados. TRATAMENTO DA DEPRESSÃO PÓS-PARTO Droga Dosagem (mg/dia) Uso na amamentação Inibidores seletivos da recaptação de serotonina Sertralina 50-200 Sem relato de efeitos adversos Paroxetina 20-60 Sem relato de efeitos adversos Fluvoxamina 50-200 Sem relato de efeitos adversos Citalopram 20-40 Insônia do RN, dependente da dose Fluoxetina 20-60 Raramente cólicas, irritabilidade e insônia do RN Antidepressivos tricíclicos Nortriptilina 50-150 Sem relato de efeitos adversos Desipreamina 100-300 Sem relato de efeitos adversos Inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina Venlafaxina 75-300 Sem relato de efeitos adversos Fatores de risco relacionados à ocorrência de depressão pós-parto •Relação conjugal conflituosa •Eventos de vida estressantes nos últimos 12 meses •Ausência de suporte familiar e social para a gestação •Ausência de suporte emocional e financeiro por parte do cônjuge •Ausência de cônjuge •Gestação não planejada •Tentativa de abortamento na gestação atual •Abortamento prévio •Antecedente familiar de doença psiquiátrica •Ausência de relacionamento afetivo com a própria mãe •Não amamentar •Desemprego (da puérpera) •Antecedente de depressão do marido/parceiro •Náuseas e vômitos durante a gestação (relacionados a hiperêmese, irritabilidade uterinaou doença psiquiátrica) •Características de personalidade: neuroses e introversão profunda •Diabetes prévio ou diabetes mellitus gestacional •Antecedente pessoal de distúrbio bipolar @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 6 Outros Bupropiona 300-450 Não conhecido Nefazodona 300-600 Não há dados publicados dos níveis séricos em RN Sedação e amamentação deficiente em prematuros Mirtazapina 15-45 Não conhecido PATOLOGIA DA LACTAÇÃO HIPOGALACTIA Pode ser dividida em primária e secundária. A hipogalactia primária é a verificada desde o início da amamentação e depende diretamente da glândula mamária. Suas causas podem ser a hipoplasia da mama (pobreza em tecido glandular secretante), a nutrição deficiente, as doenças consumptivas e outros fatores da esfera psicossomática que façam com que a mulher não aceite amamentar. A hipogalactia secundária revela-se no decorrer do aleitamento e geralmente há erro na técnica de amamentação ou sucção inadequada por causa fetal (malformação do aparelho bucal, como lábio leporino, goela de lobo, debilidade congênita) ou materna (vícios de conformação do mamilo, como mamilo invertido ou circunvalado, rágades, mastites), incorrendo sempre, em qualquer dos casos, no esvaziamento incompleto da mama. DIAGNÓSTICO: habitualmente é realizado pela observação do lactente: sinais inequívocos de insatisfação da mamada, pesada diferencial irrisória e estagnação da curva ponderal. TRATAMENTO: não parece exato que se possam apontar alimentos especificamente dotados de ação galactagoga, bem como atribuir a determinadas vitaminas poder especial de influir na secreção láctea. A questão essencial é manter a nutriz bem alimentada e racionalmente induzida a amamentar seu filho. Deve-se, portanto, complementar as medidas higiênicas gerais com a obtenção da normalidade psíquica adequada ao aleitamento. INGURGITAMENTO MAMÁRIO O ingurgitamento mamário caracteriza-se pelo aumento de volume das mamas, que se apresentam túrgidas, distendidas e dolorosas a ponto de impedir a amamentação. O ingurgitamento mamário no 2° ou no 3° dia do pós- parto, consequente à congestão venosa e ao edema da mama, é fisiológico. O patológico é tardio e ao contrário do que se supunha, o distúrbio de base não é o aumento da secreção láctea, mas a sua retenção, por acotovelamento dos canais galactóforos e consequente falta de esvaziamento da mama. O quadro é de hipogalactia secundária. O ingurgitamento mamário é causa de febre puerperal em 15% dos casos. TRATAMENTO: são medidas propostas a sustentação das mamas com sutiãs apropriados, a retirada do leite por esvaziamento manual ou com bomba de sucção, a ministração de ocitócicos por via nasal e a aplicação de bolsa de gelo. SÍNDROME DE GALACTORREIA-AMENORREIA Costumava-se identificar três síndromes separadamente: síndrome de Chiari-Frommel (após a gravidez), síndrome de Argonz-del Castillo (sem antecedentes de gravidez), síndrome de Forbes-Albright (com tumor intrasselar evidenciável). Atualmente, pensa-se que essas três síndromes representem diferentes estágios da mesma doença – progressão da hiperplasia de hipófise até o adenoma, tendo como denominador comum a hiperprolactinemia, em consequência da disfunção hipotalâmico-hipofisária. Entretanto, nem sempre a hiperprolactinemia (70%) e a amenorreia (mais de 60%) estão associadas à galactorreia. A menstruação não retornar dentro de 4 a 6 meses nas não lactantes é um fato preocupante, mas o diagnóstico só é definitivo após 1 ano. Em geral, há deficiência de estrogênios, queda acentuada das gonadotrofinas hipofisárias (5 mUI/mℓ), à conta do aumento da prolactina (PRL) (geralmente acima de 100 ng/mℓ). A hiperprolactinemia é causa importante de esterilidade e de amenorreia. A causa mais frequente é o microadenoma de hipófise benigno. Também pode ser decorrente de medicamentos que agem como antagonistas da dopamina, como metildopa e fenotiazínicos. O diagnóstico é confirmado pela combinação da dosagem da prolactina (PRL) e da ressonância magnética da hipófise. Há de se afastar, inicialmente, o hipotireoidismo, fator responsável até por alterações radiográficas de sela turca. O rastreamento do tumor hipofisário é o passo seguinte. Inicialmente eles são classificados em microadenomas (< 10 mm de diâmetro) e macroadenomas (10 mm). Em virtude das alterações fisiológicas que ocorrem na hipófise durante a gravidez, notadamente aumento progressivo em até 35%, por causa, principalmente, da maior quantidade e tamanho das células lactóforas, com elevação de dez vezes nos níveis de PRL, não é de se @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 7 estranhar que mulheres com adenoma de hipófise recebam atenção especial na gestação. Ao surgir sintomatologia na gravidez (distúrbios visuais, cefaleia, diabetes insípido), decorrente do crescimento da glândula hipofisária, as pacientes deverão receber tratamento adequado. A microcirurgia transfenoidal da hipófise está atualmente em plano secundário pela alta recidiva da síndrome após 10 anos do tratamento. Em 80% dos casos, ele pode ser tratado com agonistas da dopamina – bromocriptina ou cabergolina – que determinam redução do tumor. Tumores maiores podem requerer cirurgia ou radioterapia, que devem ser realizadas fora da gravidez. A bromocriptina e a cabergolina são em geral suspensas na gravidez. Embora a hipófise aumente o volume durante a gestação, é raro que o microadenoma cause problema. É importante monitorar os campos visuais durante a gravidez. Se houver evidência de aumento do tumor na gestação, a medicação deve ser recomeçada. Em mulheres com macroadenoma (1 cm) é indicado continuar com os agonistas da dopamina pelo risco do aumento do tumor sob a estimulação estrogênica. Não há evidência de que a bromocriptina ou a cabergolina sejam teratogênicas. Como se tem referido na literatura, a maioria das pacientes com microadenoma não exibem complicação na gravidez, enquanto percentual mais expressivo delas com macroadenoma apresenta aumento tumoral com sintomatologia (15,5% nas não tratadas). MASTITE Os processos inflamatórios caracterizam, muito particularmente, a mama puerperal, sendo raros fora dessa condição ou no homem. Assim se explicam pela atividade maior da glândula e pelo aleitamento, que, obrigando a uma intensa manipulação dos seios, consequentemente aumentam as possibilidades da infecção piogênica. O mamilo pode tornar-se, ainda, porta de entrada fácil, pelos canais galactóforos, ou de soluções de continuidade. Em geral, o germe responsável é o Staphylococcus aureus (50% dos casos); outros: estreptococos do grupo A ou B, Escherichia coli, Bacteroides sp. RACHADURAS E FISSURAS NO MAMILO Assim se denominam as feridas superficiais (rachaduras ou rágades) e as profundas, que alcançam a derme (fissuras), e observadas, frequentemente, nos primeiros dias de lactação. Entre os fatores predisponentes estão as anomalias do mamilo (umbilicado, plano, circunvalado, grande), e naturalmente as más condições higiênicas que podem cercar as mamadas. A causa determinante é a sucção pelo lactente, e é esse quem muitas vezes revela a existência da lesão pelo vômito sanguinolento ou de sangue puro, e ainda, pela ocorrência dele nas fezes. O sintoma predominante é a dor, espontânea ou pelo simples contato das roupas, mas, sobretudo, produzida no momento da mamada, e que impede, habitualmente, o seu prosseguimento. CLASSIFICAÇÃO Estando íntegro o mamilo, os germes patogênicos podem introduzir-se pelos canais galactóforos, que se infectam (galactoforite) e por esse caminho alcançam os ácinos glandulares (mastite parenquimatosa). Quando a penetração se faz por ferida mamilar, é afetado o tecido conjuntivo diretamente, alcançando, de imediato,as vias linfáticas, o que dá origem à mastite intersticial. Em estágio posterior, as duas infecções se podem combinar, importando tão somente a localização dos abscessos resultantes. DIAGNÓSTICO Incide na 2° ou 3° semana após o parto, quer exista fissura mamilar, precedida ou não de ingurgitamento mamário. Na fase inicial, observam-se febre (39 a 40°C), mal-estar e dor. O diagnóstico diferencial com o ingurgitamento é importante. O processo em geral é bilateral e não apresenta febre nem vermelhidão local. Ultrapassada a mastite, passível de regressão com a terapêutica conveniente, se o processo prospera verificam-se os caracteres locais do abscesso, como o edema, a vermelhidão da pele e o @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 8 aparecimento de ponto de flutuação, cuja evidência é difícil, e tardia, em órgão móvel e elástico. A ultrassonografia extingue as dúvidas do diagnóstico. No fleimão retromamário somam-se a dor intensa às tentativas de mobilização da mama, o edema acentuado no sulco submamário e o tipo especial de flutuação, ocasionado pela situação posterior do líquido: “a mama flutua no pus”. Desnecessário acentuar a gravidade maior dessa ocorrência – propagação ao tórax ou mesmo septicemia. TRATAMENTO À menor suspeita de mastite, e, sobretudo, quando essa for inegável, o emprego correto de ANTIBIÓTICOS (cefalosporinas – cefalexina, 500 mg, 4 vezes/dia VO, por 7 a 10 dias) irá evitar que se formem os abscessos. É fundamental o esvaziamento da mama, bolsa de gelo e mantê-la suspensa com sutiã adequado. Não se deve interromper a amamentação. Por vezes, a mulher pode ser aconselhada a desprezar o leite coletado até que o tratamento alcance 24 h. O poder resolutivo dessa terapêutica é indiscutível em paciente corretamente saturada de antibióticos; todavia, quando se perdeu a esperança de involução clínica, tais recursos auxiliam a formação do pus e facilitam a eclosão do abscesso mamário. A sua abertura cirúrgica e ampla drenagem são indicação formal, mantendo-se dreno conforme as dimensões da coleção encontrada. A operação deve ser feita sob sedação e cobertura antibiótica venosa (oxacilina ou cefazolina). Muito embora os tratadistas proponham a incisão nas mamas, para esvaziar o abscesso, radial, a fim de evitar a secção dos ductos lactóforos, por motivos estéticos, atendendo às linhas de tensão da região, aconselhamos que a abertura da pele seja curvilínea. INIBIÇÃO MEDICAMENTOSA DA LACTAÇÃO Inúmeras são as eventualidades que obrigam o obstetra a inibir a lactação: ingurgitamento mamário, hipergalactia, rachaduras, rágades e fissuras do mamilo, mastite, incapacidade de sucção do lactente, nati- ou neomortalidade, doenças sistêmicas maternas etc. As medidas adequadas são: − Deixar as mamas suspensas por sutiãs ajustados durante 3 a 10 dias − Aplicar bolsa de gelo por 10 min, 4/dia − Não permitir a sucção pelo recém-nascido ou a expressão dos mamilos − Aplicar a medicação: o Cabergolina, dose única de 1 mg para a prevenção ou 0,25 mg 2/dia durante 2 dias para a suspensão o Bromocriptina, 5 mg/dia, durante 14 dias o Lisurida, 0,2 mg 3/dia, durante 14 dias. ASSISTÊNCIA PÓS-NATAL CUIDADO HOSPITALAR O período de internação hospitalar após o parto é muito importante para a saúde da mãe e do recém-nascido. Além dos cuidados médicos, a equipe de saúde é também responsável por instruir a mulher sobre alterações evolutivas e fisiológicas esperadas ao longo do puerpério imediato e tardio, especialmente a característica dos lóquios, a perda de peso, a diurese e a apojadura. Este também é o momento ideal para promover o aleitamento materno e dar suporte para que ele ocorra de forma exclusiva pelos 6 meses seguintes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a puérpera e seu bebê devam permanecer internados por ao menos 24 horas. De qualquer maneira, esses prazos se mostram razoáveis e servem de orientação para a maioria dos casos, ainda que a alta após a cesárea, em geral, não exceda 72 h de pós-parto em nosso meio. Períodos maiores ou menores de internação podem ser adotados em situações específicas. MEDIDAS GERAIS Durante a primeira hora após o parto, a mulher deve ser monitorada com cuidado, especialmente no intuito de se diagnosticarem precocemente eventuais hemorragias, decorrentes ou não de quadros de hipotonia uterina. Assim, a cada 15 minutos, a equipe de saúde deve aferir a pressão arterial e a frequência cardíaca materna, bem como se assegurar de que o sangramento vaginal esteja dentro da normalidade e o útero se encontre firmemente contraído. Quando o parto ocorreu com anestesia, a mulher deve ser acompanhada em ambiente adequado e por profissional especializado. Na ausência de complicações maternas e neonatais, a interação precoce entre mãe e filho (contato pele a pele) precisa ser estimulada, ainda na sala de parto. Nesse momento, a amamentação também deve ser encorajada. Em relação à dieta, mulheres que tiveram parto vaginal eutócico não requerem qualquer restrição alimentar. Na amamentação, as demandas calóricas, proteicas e hídricas são aumentadas; do contrário, são equivalentes àquelas do período pré-gestacional. Conforme os valores de hemoglobina (Hb < 10 g/dℓ), no momento da consulta de revisão pós-parto poderá haver necessidade de administração de ferro oral (Royal College of Obstetricians and Gynaecologists [RCOG], 2015). DEAMBULAÇÃO A mobilização e o caminhar precoce reduzem a incidência de retenção urinária, constipação intestinal e fenômenos tromboembólicos pós-natais. Após o parto normal, mesmo quando utilizado o bloqueio regional, a paciente poderá @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 9 deambular tão logo se sinta em condições para tal. Contudo, ao menos a primeira deambulação após o parto deve acontecer sob vigilância (não necessariamente profissional de saúde), devido ao risco de síncope. CUIDADOS GENITAIS Em relação ao cuidado da região perineal, a mulher deve ser orientada a fazer a higiene vulvar no sentido anteroposterior, e o uso de gelo no primeiro dia pode reduzir o desconforto local, especialmente por ocasião da realização de episiotomia ou presença de laceração extensa. A utilização de antissépticos com anestésicos locais em solução aerossol bem como de anti-inflamatórios (via oral ou retal), nos dias subsequentes ao parto, também pode ser interessante nesses casos. Quando a mulher relata dor excessiva na região perineal, vaginal ou retal, cuidadoso exame físico faz-se necessário para excluir a presença de hematoma ou processo infeccioso. TEMPERATURA Exceto para as primeiras 24 h, quando pode haver certa pirexia, o normal é a ausência de febre, caracterizada aqui pela temperatura abaixo de 38°C. A chamada “febre do leite”, concomitantemente à apojadura, no 3o dia, é considerada por alguns um evento fisiológico, embora outros a encarem como resultante da ascensão de germes vaginais à cavidade uterina, comum nessa época. AVALIAÇÃO DA INVOLUÇÃO UTERINA O útero puerperal tem consistência firme, é indolor e altamente móvel em decorrência da flacidez dos seus elementos de fixação. Ao examiná-lo, é habitual palpar a bexiga. Em razão de suas conexões anatômicas com o útero, a bexiga cheia pode deslocá-lo para cima, falseando o resultado de suas medidas. Nas primeiras 12 h do sobreparto, a altura do fundo uterino mede aproximadamente 12 cm. Do 2o dia em diante, diminui progressivamente, na média de 1 cm ao dia (Figura 15.4). A subinvolução uterina, com redução da consistência e da mobilidade do órgão, requer pronta atenção. Quando associada a dor, taquisfigmia e febre, sugere processo infeccioso. Contudo, quando essa subinvolução conjuga- se apenas ao amolecimento da víscera, a hemorragia e a retenção de coágulos ou restos ovularessão os comemorativos mais habituais. MONITORAMENTO DA FUNÇÃO VESICAL Conforme discutido, a ocorrência de retenção urinária e sobredistensão vesical pode acometer até 5% dos partos vaginais. Dentre os potenciais fatores de risco, ressaltam- se: primiparidade, doses elevadas de ocitocina, lacerações perineais, parto instrumental, cateterismo vesical durante o trabalho de parto, trabalho de parto com duração maior que 10 h e realização de analgesia peridural ou raquidiana. Assim, mulheres com um ou mais desses fatores de risco devem ter seu débito urinário monitorado. Figura 15.4 Involução uterina no pós-parto imediato. Mostra-se a altura do fundo uterino de acordo com os dias de puerpério. Algumas mulheres podem apresentar também incontinência urinária e/ou fecal no puerpério. Ainda não está claro se programas de exercício do assoalho pélvico no pós-parto previnem a ocorrência dessas disfunções; porém, mulheres de alto risco, como aquelas que tiveram parto com fórceps ou de bebês macrossômicos, podem beneficiar-se dessa estratégia. CUIDADOS COM AS MAMAS Recomenda-se o uso de porta-seios apropriado, o que previne acotovelamentos vasculares responsáveis pela congestão sanguínea e pela galactoestase. Nos primeiros dias, observa-se apenas a saída de colostro e, no 3o dia do pós-parto, é comum ocorrer a apojadura, que pode levar a desconforto considerável às pacientes. É de fundamental importância orientar a pega adequada, a fim de prevenir fissuras mamilares (ver Capítulo 16). AVALIAÇÃO DOS ASPECTOS PSICOSSOCIAIS Ainda que o blues pós-parto (ou baby blues) seja uma condição transitória e autolimitada, observada em aproximadamente 80% das mães logo após o parto, uma correta orientação oferecida a elas sobre esses sintomas de labilidade emocional, depressão e ansiedade traz conforto e pode prevenir o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. @anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 16 10 CONSULTAS PÓS-PARTO Em relação ao retorno da mulher aos serviços de saúde para o acompanhamento de sua evolução após o parto, recomenda-se que essas consultas ocorram entre 7 e 10 dias pós-natais e por volta de 6 semanas puerperais, quando o pós-parto tardio se encerra. O risco relativo de doença tromboembólica venosa (DTV) no puerpério está muito aumentado. Isso tem implicações no que diz respeito à duração da terapêutica anticoagulante no pós-parto e ao uso de anticoncepcional. PRIMEIRA CONSULTA: 7 A 10 DIAS PÓS-PARTO Embora não seja habitualmente adotada, a consulta por profissional especializado entre 7 e 10 dias puerperais é importante no sentido de assegurar a saúde da mulher e do recém-nascido, uma vez que boa parte das situações de morbidade e mortalidade materna e neonatal acontece na primeira semana após o parto. A realização do hemograma dirigido, visando especialmente avaliar a possibilidade de anemia pela dosagem da hemoglobina, resulta em menos transfusões, custos mais baixos e melhor qualidade de assistência pré- natal à paciente, do que o exame rotineiro. Outros propõem o hemograma dirigido pelo quadro clínico exibido pela paciente caracterizado por taquicardia, oligúria e tontura. SEGUNDA CONSULTA: 6 SEMANAS PÓS-PARTO Ações semelhantes àquelas realizadas na primeira consulta pós-parto devem ser adotadas quando a mulher retorna ao serviço de saúde. Então, recomenda-se: − Investigar as condições gerais de saúde da mulher e do recém-nascido, registrando e conduzindo adequadamente eventuais alterações − Caracterizar o padrão de amamentação, reafirmando as boas práticas no sentido de garantir o aleitamento materno exclusivo até 6 meses de vida do recém-nascido − Avaliar o retorno do fluxo menstrual e da atividade sexual − Oferecer adequada orientação sobre os diferentes métodos anticonceptivos, estimulando a adoção daquele que mais se adapte às características e preferências maternas. Além disso, a consulta de revisão pós-parto é o cenário ideal para que as complicações eventualmente vivenciadas ao longo do ciclo grávido-puerperal sejam revistas em relação às suas causas, ao risco de recorrência e às medidas preventivas, quando possível. ANTICONCEPÇÃO O início da anticoncepção no pós-parto é importante para prevenir a gravidez indesejada e o pequeno intervalo interpartal e suas conhecidas implicações (recém-nascido pequeno para a idade gestacional, parto pré-termo). Mulheres que não amamentam podem ovular com 25 dias do pós-parto. Por outro lado, o risco de DTV nos primeiros 42 dias do pós-parto está aumentado de 22 a 84 vezes em relação a não grávidas. O risco é máximo logo após o parto, decresce nos primeiros 21 dias, mas só desaparece após 42 dias do pós-parto. Assim, as normas referendadas pela OMS em relação ao uso do anticoncepcional combinado são: − Não usar até 21 dias (OMS3) − Entre 21 e 42 dias – utilizar (OMS2) − Após 42 dias – utilizar (OMS1). Sabe-se que os anticoncepcionais combinados elevam o risco de DTV e, além disso, nas puérperas que amamentam, interferem na lactação. No pós-parto, tanto em lactantes como em não lactantes, a preferência é pelas pílulas de progesterona, que não prejudicam a amamentação nem elevam o risco de DTV. O dispositivo intrauterino (DIU) de cobre ou de progesterona também tem sido utilizado no pós-parto, exceto na infecção puerperal, quando está formalmente contraindicado (Centers for Disease Control and Prevention [CDC], 2011). RELAÇÃO SEXUAL Os principais fatores relacionados que afetam a retomada da satisfação sexual no puerpério estão principalmente adstritos a trauma da cicatrização perineal, secura da vagina associada à lactação e efeitos da depressão pós- parto. Eis alguma medidas pertinentes para prevenir ou tratar a disfunção sexual pós-parto: limitar o uso da episiotomia; reparar as lesões perineais com fios sintéticos absorvíveis; encorajar o uso de lubrificantes vaginais, particularmente em lactantes; abordar a depressão própria do período. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA Montenegro, Carlos Antonio, B. e Jorge de Rezende Filho. Rezende Obstetrícia Fundamental, 14ª edição. Disponível em: Minha Biblioteca, Grupo GEN, 2017. Zugaib, Marcelo, and Rossana Pulcineli Vieira Francisco. Zugaib obstetrícia 4a ed. Disponível em: Minha Biblioteca, (4ª edição). Editora Manole.