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Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
 
A pneumonia é uma infecção do parênquima pulmonar. 
A pneumonia é uma das principais causas de internação 
no Brasil (perdendo apenas para parto/puerpério, não 
considerados doença). O sexo masculino foi 
predominante, e a maioria dos casos ocorreu nos meses 
de outono-inverno, em particular nos extremos de idade 
(menores de 5 anos e maiores de 65 anos). O termo 
“pneumonia” pode ser definido sob dois pontos de vista 
diferentes. Pelo enfoque: 
 Histopatológico: pneumonia significa 
preenchimento do espaço alveolar por 
infiltrado necroinflamatório – os alvéolos 
encontram-se totalmente ocupados por 
leucócitos (geralmente neutrófilos) e exsudato 
purulento, contendo debris celulares, 
neutrófilos e bactérias. Neste aspecto, a 
pneumonia deve ser diferenciada da 
“pneumonite” ou “alveolite”, lesão caracterizada 
por um infiltrado inflamatório localizado 
principalmente (mas não exclusivamente) nos 
septos alveolares, que representam o interstício 
do órgão. 
 Clínico: quando o médico usa o termo 
“pneumonia”, está se referindo à infecção aguda 
do pulmão. Usando este conceito, consideramos 
pneumonia todo e qualquer processo 
inflamatório agudo do parênquima pulmonar 
decorrente da infecção por algum micro-
organismo (bactéria, vírus ou fungo). 
O Consenso Brasileiro de Pneumonia Adquirida na 
Comunidade (PAC) define esta entidade da seguinte 
maneira: 
 Pacientes sem história de internação > 48h nos 
últimos 90 dias. 
 Pacientes sem história de uso de ATB 
intravenoso, quimioterapia ou tratamento para 
úlcera de pressão nos últimos 30 dias. 
 Pacientes NÃO oriundos de unidades especiais 
de internação prolongada (ex.: asilos, home 
care). 
 Pacientes que não se encontram sob tratamento 
em clínicas de diálise. 
 
–
 
O “pneumococo” ou Streptococcus pneumoniae é um coco 
Gram-positivo que, ao atingir os alvéolos, é capaz de 
desencadear uma reação inflamatória neutrofílica com 
grande rapidez e agressividade. A bactéria se multiplica 
nos espaços alveolares (que se comunicam entre si 
através dos poros de Kohn) e libera substâncias com 
efeito vasodilatador e alto poder quimiotáxico para 
neutrófilos. O processo pneumônico se instala e evolui 
 
 
em quatro fases sucessivas: (1) congestão; (2) 
“hepatização” vermelha; (3) “hepatização” cinzenta; 
 
(4) resolução ou organização. A ocupação total do 
espaço alveolar pelo exsudato neutrofílico pode ocorrer 
numa grande área do parênquima, ao que podemos 
chamar de consolidação (ou condensação) alveolar. 
1. Congestão: nesta fase, as bactérias se 
multiplicam rapidamente no interior dos 
alvéolos, os vasos dilatam-se ingurgitando-se 
de sangue. Um exsudato fibrinoso, com poucos 
neutrófilos, já pode ser visto no espaço 
alveolar. 
2. “Hepatização” Vermelha: caracterizada pela 
exsudação de hemácias, neutrófilos e fibrina 
para o interior dos alvéolos. O espaço alveolar 
já se encontra totalmente ocupado por este 
exsudato. Como predominam as hemácias, o 
aspecto macroscópico do lobo pulmonar 
acometido é semelhante ao fígado – daí o nome 
“hepatização”. 
3. “Hepatização” Cinzenta: as hemácias começam 
a se desintegrar e o exsudato passa a conter 
basicamente neutrófilos e debris celulares. 
Seria a fase supurativa da pneumonia. O 
aspecto macroscópico revela uma 
consolidação de cor cinza claro. 
4. Resolução ou Organização: o exsudato celular 
dá lugar a um material semifluido e granulado, 
formado pelos debris das células 
inflamatórias. Estes vão sendo consumidos por 
macrófagos até a completa resolução do 
processo. Na maioria das vezes, o parênquima 
pulmonar volta ao normal. Aqui cabe ressaltar 
que a pneumonia pneumocócica não costuma 
destruir os septos alveolares. Esta regra não 
vale para a pneumonia estafilocócica, por 
germes Gram-negativos entéricos e por 
anaeróbios. 
Quando praticamente todo (ou quase todo) um lobo 
pulmonar é consolidado, surge o termo Pneumonia 
Lobar. Sabemos que cerca de 90-95% dos casos de 
pneumonia lobar comunitária têm o Streptococcus 
pneumoniae como patógeno. É importante ressaltar, 
entretanto, que a pneumonia lobar não é o tipo mais 
comum de pneumonia, mesmo no caso do “pneumococo”. 
O achado mais típico da pneumonia bacteriana é 
definido pelo termo Broncopneumonia caracterizado 
pela presença de múltiplos focos coalescentes de 
consolidação alveolar, distribuindo-se na região 
peribrônquica. Cada um desses focos ocupa o volume 
aproximado de um ácino ou lóbulo pulmonar. O próprio 
“pneumococo”, o Staphylococcus aureus, e as bactérias 
Gramnegativas costumam acometer o pulmão desta 
forma. Vale ressaltar que se a coalescência dos focos 
broncopneumônicos atingir um grande volume, o 
infiltrado pode transformarse em uma pneumonia lobar 
ou sublobar. 
1. Pneumonia Lobar: caracterizada pela 
consolidação alveolar extensa, ocupando uma 
grande área do parênquima pulmonar, como um 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
lobo inteiro. O agente principal é o 
Streptococcus pneumoniae, mas qualquer 
bactéria de alta virulência pode desenvolver 
este padrão pneumônico. 
2. Broncopneumonia: caracterizada pela 
consolidação alveolar multifocal – são múltiplos 
focos acinares (ou lobulares), coalescentes, que 
predominam na região peribrônquica. Este é o 
tipo mais frequente de apresentação da 
pneumonia. Qualquer agente infeccioso 
causador de pneumonia pode cursar com este 
padrão. 
 
Na grande maioria dos 
casos, o micro-organismo 
causador da pneumonia 
atinge os alvéolos 
pulmonares através da 
microaspiração do material 
proveniente das vias aéreas 
superiores (orofaringe, 
nasofaringe). Ou seja, para 
infectar o pulmão, o agente 
primeiro precisa colonizar o 
epitélio faríngeo e depois ser 
aspirado para as vias aéreas 
inferiores. Menos 
comumente, o germe atinge 
os alvéolos por inalação de 
aerossol contaminado do 
ambiente (Legionella) ou por 
via hematogênica (S. 
aureus). 
 
Agente Etiológico 
O agente etiológico mais 
comum da pneumonia 
comunitária é o Streptococcus pneumoniae – o 
“pneumococo”, um diplococo Gram-positivo. Isso é 
verdadeiro para todas as faixas etárias, exceto recém-
natos. Estima-se que o pneumococo seja responsável por 
30-40% das pneumonias em adultos. Os outros agentes da 
pneumonia comunitária em adultos podem ser 
separados em grupos, de acordo com o seu 
comportamento biológico. 
 
Colonização das Vias Aéreas Superiores 
O conceito de “colonização” é bem diferente do conceito 
de “infecção”. As bactérias que se multiplicam na 
superfície do epitélio das vias aéreas superiores não 
entram em contato com o meio interno do organismo e, 
portanto, não provocam resposta imunológica nem 
sequer lesão celular ou tecidual – os elementos 
fundamentais de uma infecção. Sendo assim, dizemos 
que esses micro-organismos são simplesmente 
colonizadores, componentes da microbiota local. As 
principais bactérias que compõem esta flora não são 
capazes de infectar indivíduos imunocompetentes, 
recebendo a denominação “saprófitas”. Os agentes que 
podem eventualmente causar infecção e doença no ser 
humano são denominados “patogênicos”. A colonização 
das vias aéreas superiores por bactérias patogênicas 
geralmente é transitória, durando semanas. 
As bactérias anaeróbias são os principais 
colonizadores do epitélio faríngeo, presentes numa 
concentração dez vezes maior que a de aeróbios. São as 
mesmas bactérias encontradas na cavidade oral, 
especialmente, no sulco gengival, nas placas dentárias, 
nas criptas da língua e nas amígdalas. Pertencem aos 
seguintes gêneros: Peptostreptococcus, Bacteroides, 
Prevotella, Porphyro monas e Fusobacterium. 
Excetuando-se o coco Gram-positivo 
Peptostreptococcus, as demais bactérias são bastonetes 
Gram-negativos anaeróbios.Estas bactérias são 
importantes agentesetiológicos da “pneumonia 
bacteriana aspirativa”. 
Em termos de concentração bacteriana na faringe, 
depois dos anaeróbios vêm os Gram-positivos aeróbios – 
a maioria deles saprófita, como os do gênero 
Corynebacterim (ou difteroides) e os estreptococos do 
grupo viridans. O epitélio faríngeo dos indivíduos 
hígidos é revestido por uma camada de fibronectina – 
uma proteína que serve como receptor para a adesão dos 
aeróbios Gram-positivos. Eventualmente, “aparece” um 
agente patogênico, como o Streptococcus pneumoniae. 
Segundo pesquisas, o “pneumococo” é encontrado na 
nasofaringe de 5-10% dos adultos e de 20-40% das 
crianças. Estima-se que até 60% das pessoas albergarão 
esta bactéria na nasofaringe em algum momento de suas 
vidas. Outro exemplo de bactéria patogênica – o 
Staphylococcus aureus – coloniza a porção anterior das 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
narinas de 20-40% da população (os chamados 
“carreadores nasais” do estafilococo). 
A idade avançada e determinadas afecções debilitantes, 
como DPOC, diabetes mellitus e alcoolismo, podem 
modificar a flora colonizadora por reduzir a quantidade 
de fibronectina do epitélio, permitindo a exposição de 
receptores das células epiteliais para agentes Gram- -
negativos aeróbios. Assim, bactérias como Haemophilus 
influenzae, Moraxella catarrhalis e Klebsiella 
pneumoniae começam a sobressair e colonizar as vias 
aéreas superiores (e eventualmente as inferiores) destes 
pacientes. Você acabou de compreender por que este 
grupo de indivíduos tem propensão à infecção 
respiratória por Gram-negativos. Um outro exemplo é o 
das pneumopatias estruturais, como a fibrose cística e as 
bronquiectasias, que permitem a colonização das vias 
aéreas inferiores por S. aureus e P. aeruginosa. 
 
Virulências Bacteriana x Defesa Do Hospedeiro 
A ocorrência da pneumonia depende muito da 
competição entre a bactéria e as defesas do hospedeiro. 
Para ocorrer pneumonia uma ou mais das seguintes 
situações tem que estar presente: (1) contato do alvéolo 
com um agente de alta virulência; (2) contato do 
alvéolo com um grande inóculo de bactérias; (3) defeito 
nos mecanismos de defesa do hospedeiro. 
As defesas naturais do aparelho respiratório 
conseguem manter as vias aéreas infraglóticas 
estéreis, apesar de uma grande concentração de 
bactérias na faringe, cavidade oral e nasal. As 
partículas “infectantes” medindo mais de 2 micra 
geralmente são depositadas no muco do epitélio 
traqueobrônquico e então conduzidas pelo movimento 
ciliar das células epiteliais até a orofaringe, onde são 
deglutidas. O reflexo da tosse e outros reflexos 
epiglóticos podem eliminar abruptamente uma grande 
quantidade dessas partículas. A secreção de IgA 
específica é um importante meio de defesa das vias 
aéreas superiores contra agentes infecciosos. Uma 
pequena quantidade desta imunoglobulina também pode 
ser encontrada nas vias aéreas inferiores. 
As partículas “infectantes” muito pequenas, com 
menos de 2 micra, conseguem atingir os bronquíolos 
terminais e os alvéolos, estruturas desprovidas de 
cílios. Entretanto, o surfactante alveolar é rico em 
substâncias de efeito antibacteriano, como IgG, IgM, 
complemento, fibronectina, lisozimas e proteínas 
ligadoras de ferro. Os anticorpos antibacterianos 
específicos agem de duas formas: (1) o IgM ativa o 
sistema complemento capaz de destruir a bactéria pelo 
seu poder lítico; (2) o IgG reveste a superfície 
bacteriana, permitindo o seu reconhecimento pelos 
fagócitos alveolares. No interior dos alvéolos 
encontram-se alguns macrófagos, responsáveis pelo 
primeiro ataque fagocítico às bactérias. 
Se a virulência do agente for alta, ele consegue se 
multiplicar mesmo na presença de macrófagos 
alveolares. Algumas bactérias podem se proteger do 
sistema humoral (anticorpos, complemento) pela 
liberação de exotoxinas e pela presença de uma 
cápsula polissacarídica, como no caso do 
“pneumococo”. A defesa contra este tipo de germe 
depende muito da presença de anticorpos específicos 
contra os antígenos capsulares (o que pode ser obtido 
com a vacina antipneumocócica polivalente). Quando os 
macrófagos não conseguem conter a proliferação 
bacteriana, passam a servir de mediadores da resposta 
inflamatória, liberando citoquinas, como o TNF-alfa, a 
IL-1 e fatores de quimiotaxia para neutrófilos, como o IL-
8, o C5a e o leucotrieno B4. Estes fatores, chamados 
quemoquinas, também são liberados pelas células do 
endotélio e do epitélio alveolar. Os neutrófilos então são 
recrutados no local, desencadeando e perpetuando o 
processo inflamatório agudo. 
Até mesmo os eritrócitos conseguem atravessar a 
membrana alveolocapilar, e isso causa hemoptise. O 
extravasamento capilar é responsável pelos 
infiltrados radiográficos e pelos estertores detectáveis 
à ausculta, enquanto a hipoxemia é atribuída ao 
preenchimento dos espaços alveolares. Além disso, 
alguns patógenos bacterianos parecem interferir na 
vasoconstrição hipoxêmica, que normalmente ocorreria 
se os alvéolos fossem preenchidos por líquidos; essa 
interferência pode causar hipoxemia grave. A dispneia 
tem como causas a redução da complacência pulmonar 
secundária ao extravasamento capilar, a hipoxemia, a 
hiperestimulação do centro respiratório, as secreções 
profusas e, ocasionalmente, o broncospasmo 
desencadeado pela infecção. Se a doença for grave, as 
alterações da mecânica pulmonar secundárias às 
reduções do volume e da complacência pulmonares, bem 
como o shunt intrapulmonar do sangue, podem levar o 
paciente à insuficiência respiratória e à morte. 
Existem várias condições que inibem um ou mais 
mecanismos de defesa contra os agentes da pneumonia 
comunitária. Algumas delas aumentam a chance de 
pneumonia por quase todos os germes, como é o caso da 
idade avançada, das doenças respiratórias e cardíacas. 
Outras estão mais relacionadas à pneumonia por agentes 
específicos. 
 
O quadro clínico clássico da pneumonia comunitária 
“típica” é representado pela pneumonia pneumocócica. 
A doença se apresenta de forma hiperaguda (2-3 dias), 
com uma história de calafrios com tremores, seguidos 
de febre alta (39-40 oC), dor torácica pleurítica e tosse 
produtiva com expectoração purulenta (esverdeada). 
O exame físico pode revelar prostração, 
taquipneia (FR > 24 ipm), taquicardia (FC > 100 bpm) e 
hipertermia (Tax > 38oC). Os achados positivos no exame 
do aparelho respiratório podem variar desde simples 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
estertores inspiratórios até uma síndrome de 
consolidação e/ou de derrame pleural. 
 Síndrome de consolidação: é caracterizada pela 
presença do som bronquial (“sopro tubário”), 
aumento do frêmito toracovocal, submacicez, 
broncofonia e pectorilóquia fônica. 
 Síndrome do derrame pleural: é identificada 
pela abolição do murmúrio vesicular e do 
frêmito toracovocal, submacicez e egofonia. 
 
 
Os exames laboratoriais inespecíficos geralmente 
revelam uma leucocitose neutrofílica entre 15.000-
35.000/mm3, com desvio para esquerda. A ativação dos 
neutrófilos pode ser notada à hematoscopia pela 
presença de granulações grosseiras no citoplasma e/ou 
corpúsculos de Dohle. O hematócrito, os índices 
hematimétricos e as plaquetas costumam estar 
normais no início do quadro. A leucopenia pode ocorrer 
e é considerada um importante sinal de mau 
prognóstico. A bioquímica na maioria das vezes está 
normal, mas pode mostrar hiponatremia leve a 
moderada em alguns casos. A hiponatremia grave e a 
elevação das enzimas hepáticas são mais comuns na 
pneumonia por Legionella pneumophila. O aumento 
agudo das escórias renais sugere sepse grave ou nefrite 
intersticial pelo antibiótico utilizado. A gasometria 
arterial depende da gravidade e extensão da 
pneumonia, bem como da reserva cardiopulmonar 
prévia do paciente. Os achadosmais frequentes são a 
hipoxemia e a alcalose respiratória. O encontro de 
hipoxemia grave (PaO2 < 60 mmHg), acidose 
metabólica ou respiratória são importantes sinais de 
mau prognóstico. 
O quadro clinicolaboratorial descrito acima é muito 
comum quando a pneumonia bacteriana comunitária 
acomete adultos de meia-idade previamente hígidos. 
Entretanto, sabemos que a pneumonia é uma patologia 
predominante nos idosos e nos pacientes que 
apresentam comorbidades (DPOC, insuficiência 
cardíaca, diabetes mellitus, alcoolismo, neoplasia, 
uremia, doença cerebrovascular etc.). 
Grave o seguinte conceito: quanto mais idoso e mais 
debilitado for o paciente por alguma doença de base, 
mais o quadro clínico se afasta do que foi descrito acima. 
A febre pode estar ausente ou, se presente, ser mais 
baixa (38- 38,5oC). Podem faltar outros comemorativos, 
como a tosse, a expectoração purulenta e a leucocitose. 
Às vezes, o único sinal de pneumonia nesses pacientes 
pode ser a prostração, a desorientação ou a 
taquidispneia. 
 
1. Radiografia de Tórax no Quadro Clínico “Típico” 
Existe pneumonia com 
radiografia de tórax 
normal? Existe, mas não 
é um achado comum na 
prática médica. Três 
situações podem 
explicar a radiografia 
normal na pneumonia: 
(1) o infiltrado é 
retrocardíaco, não 
sendo visualizado na 
incidência PA; (2) o 
infiltrado é muito 
tênue para ser identificado pela radiografia – mas pode 
ser visualizado na TC (este fenômeno é mais comum na 
pneumocistose e na neutropenia grave); (3) a técnica 
da radiografia foi incorreta, exagerando-se na 
kilovoltagem dos raios X (“muito penetrado”). 
 
2. O que costumamos visualizar na radiografia de 
tórax em um paciente com pneumonia? 
 infiltrado pulmonar. 
Este infiltrado, no caso 
da pneumonia 
bacteriana, geralmente é 
do tipo alveolar 
broncopneumônico: 
múltiplas 
condensações 
lobulares coalescentes. 
A presença do 
“broncograma aéreo” 
caracteriza o infiltrado 
alveolar, pois os 
alvéolos em volta do 
brônquio estão preenchidos de exsudato, contrastando 
com o ar em seu interior. Algumas vezes, podemos ter 
uma grande área de consolidação alveolar, constituindo 
a pneumonia lobar ou sublobar. 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
3. Todo infiltrado pulmonar visto na radiografia de 
tórax significa pneumonia? 
Claro que não! Existe uma infinidade de doenças não 
infecciosas que podem se manifestar como infiltrado 
pulmonar na radiografia. Como exemplos, podemos citar 
o edema pulmonar da insuficiência cardíaca congestiva 
descompensada, a síndrome de Mendelson (pneumonite 
química aspirativa), o tromboembolismo pulmonar, a 
SDRA por causas não infecciosas, a pneumonia 
eosinofílica, a hipersensibilidade medicamentosa, a 
síndrome de Löeffler, a BOOP (ou COP), colagenose, 
vasculites, etc. Muitas vezes, estas entidades são 
confundidas com pneumonia na prática médica, e o 
diagnóstico diferencial exige uma análise abrangente do 
caso clínico e de outros exames complementares. 
 
4. Existem padrões radiológicos sugestivos de um 
determinado agente etiológico? 
Sim, existem 
padrões 
radiológicos 
sugestivos de alguns 
agentes etiológicos. 
A pneumonia lobar 
quase sempre é 
causada pelo 
“pneumococo”, 
apesar de que pode 
eventualmente 
surgir 
evolutivamente de 
uma pneumonia estafilocócica ou por Gram-negativos. 
Um tipo especial de pneumonia lobar – a “pneumonia do 
lobo pesado” – é causada pela Klebsiella pneumoniae 
(pneumonia de Friedlander), geralmente em alcoólatras 
ou diabéticos. O lobo comprometido costuma ser o 
superior, e na radiografia observa-se abaulamento da 
cisura (pelo edema lobar inflamatório). A formação de 
cistos com paredes finas, geralmente múltiplos, 
denominados pneumatoceles, é comum na pneumonia 
por Staphylococcus aureus. São decorrentes da 
passagem de ar para o interstício subpleural, através de 
pequenas roturas bronquiolares e revertem 
completamente com o tratamento medicamentoso da 
pneumonia, sem a necessidade de drenagem. 
Uma pneumonia que se manifesta no RX com uma 
condensação de formato arredondado (pseudotumor) 
é chamada de “pneumonia redonda” (round 
pneumonia). É uma entidade típica de crianças, causada 
quase sempre pelo Streptococcus pneumoniae. A 
propensão à necrose parenquimatosa, com formação 
de cavitações, caracteriza a pneumonia pelos 
seguintes agentes: anaeróbios (pneumonia aspirativa), 
Klebsiella pneumoniae, Staphylococcus aureus e 
Streptococcus pneumoniae sorotipo 3 (raro). Quando as 
lesões cavitárias são pequenas (< 2 cm), usamos a 
denominação pneumonia necrosante, e quando a lesão 
cavitária é grande (> 2 cm), contendo nível hidroaéreo, 
chamamos de abscesso pulmonar. Na verdade, a 
pneumonia necrosante e o abscesso pulmonar são 
gradações do mesmo tipo de processo patológico. 
 
Quadro Clínico Atípico 
O quadro clínico atípico de pneumonia se parece com 
uma virose respiratória prolongada. O principal agente é 
o Mycoplasma 
pneumoniae, 
incidindo geralmente 
numa faixa etária 
jovem, acima dos 
cinco anos e abaixo 
dos quarenta anos de 
idade. Ao contrário 
da pneumonia 
bacteriana “típica”, a 
instalação é 
subaguda (tempo de 
início médio dos 
sintomas = 10 dias), abrindo com sintomas gerais de 
uma “síndrome gripal”: dor de garganta; mal-estar; 
mialgia; cefaleia; tosse seca; febre entre 38- 39oC. A 
tosse costuma piorar após a primeira semana, 
passando a ser o principal sintoma; às vezes persiste 
por várias semanas. Costuma ser uma tosse seca, que 
atrapalha o sono do paciente, mas também pode 
mostrar-se produtiva. Neste caso, a expectoração 
geralmente é branca, mas em 30-50% dos casos é 
descrita como purulenta. 
 
O laboratório só mostra leucocitose neutrofílica em 20% 
dos casos, o que difere da 
pneumonia bacteriana 
“típica”, na qual a 
leucocitose com desvio 
para esquerda é a regra. 
O grande marco da 
síndrome da pneumonia 
“atípica” é a importante 
dissociação 
clinicorradiológica 
encontrada nesses 
pacientes. Enquanto o 
exame do aparelho 
respiratório é 
totalmente normal ou 
revela apenas discretos estertores crepitantes ou 
sibilos, a radiografia de tórax mostra um infiltrado 
pulmonar maior do que o esperado. O infiltrado pode 
ser do tipo broncopneumônico (típico das infecções 
por micoplasma ou clamídia) ou do tipo intersticial 
reticular ou reticulonodular (típico das viroses). 
 
A pneumonia por Chlamydia pneumoniae se manifesta 
de forma muito semelhante à pneumonia por 
micoplasma, porém predomina numa faixa etária mais 
velha, geralmente entre 65-80 anos. É o segundo agente 
mais comum de pneumonia “atípica”. 
Embora a pneumonia por Legionella pneumophila 
(legionelose) seja considerada uma causa de pneumonia 
“atípica”, o motivo certamente não é o quadro clínico 
semelhante à pneumonia por micoplasma e clamídia, 
mas sim o fato de esta bactéria não ser identificada com 
facilidade no Gram de escarro, não crescer em cultura 
para germes comuns e não responder aos antibióticos 
betalactâmicos. Na verdade, a legionelose é uma doença 
bastante grave, muito mais do que a infecção 
pneumocócica, e de início agudo, com febre alta e 
evolução para grandes áreas de condensação pulmonar 
de pneumonia lobar. 
 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
 
 
O diagnóstico de pneumonia comunitária geralmente é 
feito pelo quadro clinicolaboratorial em conjunto com 
a radiografia de tórax nas incidências PA e perfil. O 
exame de escarro pode revelar dados que corroboram 
o diagnóstico e sugerem o agente etiológico. Exames 
invasivos e semi-invasivos (ex.: broncofibroscopia) 
não devem ser solicitados de rotina, mas podem ser 
necessários em casos selecionados. 
Aí está a grande dúvida: vale a pena solicitar um exame de 
escarro de um paciente com suspeita de pneumonia? A 
mesma dúvida que vocêtem também passa pela cabeça 
dos principais especialistas no assunto. Apesar de ser um 
exame relativamente barato, a espera de um resultado 
poderia retardar o início da antibioticoterapia e, além 
disso, nem sempre podemos confiar neste exame. 
 
Diagnóstico Etiológico 
Procurar ou não procurar o agente etiológico na PAC é 
uma dúvida que ainda paira na cabeça dos maiores 
especialistas no assunto. O tratamento inicial 
inapropriado pode aumentar a mortalidade e o risco de 
falência orgânica, o que seria minimizado com a pesquisa 
do agente etiológico na admissão. Por outro lado, o 
rendimento dos exames complementares não é muito 
bom. A recomendação atual é a procura do agente 
etiológico somente se houver motivo para acreditar 
que o resultado possa alterar o antibiótico que você 
selecionou empiricamente. Por exemplo: pneumonia 
sem critérios de gravidade, com apresentação típica, em 
adulto jovem, sem comorbidade = pneumococo (não há 
necessidade de lançar mão de propedêutica diagnóstica 
cara e invasiva para tentar confirmar um dado que já tem 
alta probabilidade pré-teste). 
Assim, na PAC, em especial nos casos que serão tratados 
em regime ambulatorial, a escolha do antibiótico é 
empírica, com base nos agentes mais frequentemente 
identificados em estudos epidemiológicos, 
eventualmente com algum ajuste em função de fator de 
risco específico ou situação epidemiológica (influenza 
aviária, Legionella, tuberculose). Segundo a ATS/IDSA, 
nos pacientes que serão internados, deve-se colher 
hemoculturas e escarro (Gram + cultura) se houver 
indicação. Pacientes com pneumonia grave deverão 
ser avaliados por hemocultura, cultura do escarro 
(aspirado endotraqueal se for intubado) e dosagens de 
 
 
 
 
 
antígenos urinários para Legionella pneumophila e 
Streptococcus pneumoniae. 
 
 
 
1. Teste do Antígeno Urinário Pneumocócico 
VANTAGENS: rapidez, simplicidade, capacidade de 
detectar mesmo após início da antibioticoterapia. 
Sensibilidade de 50-80% e especificidade de mais de 
90%. 
DESVANTAGENS: custo, ausência de antibiograma, 
falso-positivo em crianças com doença respiratória 
crônica colonizada pelo S. pneumoniae e em pacientes 
com episódio de PAC nos últimos três meses. Não há 
restrição em pacientes DPOC. 
Teste do Antígeno Urinário da Legionella 
Sensibilidade de 70-90% e especificidade de 99%. 
Desde o primeiro dia de doença já se encontra positivo 
e permanece por semanas. 
 
 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
 
 
Coloração pelo Gram e Cultura de Escarro 
O objetivo principal da coloração do escarro pelo Gram é 
confirmar que uma amostra é apropriada para cultura. 
Entretanto, a coloração pelo Gram também pode ajudar 
a identificar alguns patógenos (p. ex., S. pneumoniae, S. 
aureus e bactérias Gram-negativas) por seu aspecto 
característico. Para que uma amostra de escarro seja 
apropriada para cultura, ela deve conter > 25 neutrófilos 
e < 10 células epiteliais escamosas por campo de pequeno 
aumento. A sensibilidade e a especificidade da coloração 
pelo Gram e da cultura do escarro são muito variáveis. 
Mesmo nos casos de pneumonia pneumocócica com 
bacteremia, a positividade das culturas das amostras 
de escarro é ≤ 50%. Alguns pacientes, principalmente os 
idosos, podem não conseguir fornecer amostras 
adequadas de escarro expectorado. Outros podem já ter 
iniciado o tratamento com antibióticos por ocasião da 
coleta das amostras e isso pode interferir nos resultados. 
A incapacidade de fornecer escarro pode ser causada 
pela desidratação e a correção desse distúrbio pode 
aumentar a expectoração de escarro e acentuar o aspecto 
de um infiltrado na radiografia de tórax. Nos pacientes 
internados em UTI e intubados, o material obtido por 
aspirado traqueal ou lavado broncoalveolar (obtido por 
broncoscopia ou por outras técnicas) tem positividade 
alta na cultura quando a amostra é enviada ao laboratório 
de microbiologia no menor tempo possível. Como as 
etiologias da PAC grave são um pouco diferentes das que 
se observam na doença mais branda, as vantagens 
principais da coloração e da cultura das secreções 
respiratórias são alertar o médico para patógenos 
insuspeitos e/ou resistentes e permitir a modificação 
apropriada do tratamento. Outras técnicas de coloração 
e cultura (p. ex., colorações específicas para M. 
tuberculosis ou fungos) também podem ser úteis. 
 
Hemoculturas 
A positividade das hemoculturas, mesmo quando as 
amostras são obtidas antes de se iniciar o tratamento 
antibiótico, é desanimadoramente baixa. Apenas cerca 
de 5-14% das hemoculturas dos pacientes 
hospitalizados com PAC são positivas, e o patógeno 
isolado mais comumente é o S. pneumoniae. Como todos 
os esquemas empíricos recomendados conferem 
cobertura contra o pneumococo, as hemoculturas 
positivas para esse patógeno têm pouco ou nenhum efeito 
no desfecho clínico. Entretanto, os resultados dos testes 
de sensibilidade podem permitir a restrição do 
tratamento antibiótico aos casos apropriados. Em 
razão da positividade baixa e da inexistência de impacto 
significativo, as hemoculturas não são mais 
consideradas obrigatórias para todos os pacientes 
hospitalizados com PAC. Alguns pacientes de alto risco 
– incluindo aqueles com neutropenia secundária à 
pneumonia, asplenia, deficiências de complemento, 
doença hepática crônica ou PAC grave – devem fazer 
hemoculturas. 
 
Reação em Cadeia da Polimerase 
Os testes de reação em cadeia da polimerase (PCR), que 
amplificam o DNA ou o RNA dos microrganismos, estão 
disponíveis para alguns patógenos. O PCR de swabs de 
nasofaringe se tornou o padrão para diagnóstico de 
infecções respiratórias virais. Além disso, a PCR 
múltipla pode detectar o ácido nucleico de espécies 
Legionella, M. pneumoniae, C. pneumoniae e 
micobactérias. Nos pacientes com pneumonia 
pneumocócica, a carga bacteriana aumentada no sangue 
total evidenciada pela PCR está associada a um risco 
mais alto de choque séptico, à necessidade de ventilação 
mecânica e à morte. A disponibilidade clínica desse teste 
poderia ajudar na identificação de pacientes para a 
internação em UTIs. 
 
Sorologia 
A elevação de quatro vezes no título dos anticorpos IgM 
específicos entre as amostras de soro das fases aguda e 
de convalescença geralmente é considerada 
diagnóstica da infecção pelo patógeno em questão. No 
passado, os testes sorológicos eram realizados para 
ajudar a identificar patógenos atípicos e também alguns 
microrganismos incomuns, como a Coxiella burnetti. 
Entretanto, recentemente esses testes caíram em desuso 
em razão do tempo necessário para obter o resultado 
final na amostra da fase de convalescença. 
 
Biomarcadores 
Várias substâncias podem servir como marcadores de 
inflamação grave. Os dois atualmente usados são a 
proteína C-reativa (PCR) e a procalcitonina (PCT). Os 
níveis desses reagentes de fase aguda aumentam na 
presença de uma resposta inflamatória, particularmente 
com patógenos bacterianos. A PCR pode ser útil na 
identificação de piora da doença ou falha do 
tratamento, e a PCT pode ajudar para determinar a 
necessidade de terapia antibacteriana. Esses testes não 
devem ser usados sozinhos, mas, quando interpretados 
em conjunto com outros achados da história, exame 
físico, radiologia e exames laboratoriais, podem ajudar 
na escolha da antibioticoterapia e manejo adequado de 
pacientes gravemente enfermos com PAC. 
 
Onde eu trato? No ambulatório ou indico 
internação? 
As diretrizes da 
IDSA/ATS e do 
Consenso Brasileiro 
sugerem que se use um 
escore de gravidade 
para auxiliar na 
decisão de 
tratamento 
ambulatorial ou 
internação na PAC. 
Dentre os dois escores 
mais usados em PAC, o 
PSI (Pneumonia 
Severity Index) e o 
CURB65, os autores 
sugerem a utilização 
deste último, por ser mais simples e por ter sido 
desenvolvido e validado para caracterizar gravidade da 
PAC. O PSI foicriado para estratificar o risco de óbito, e, 
posteriormente, seus resultados foram extrapolados 
para decisão sobre o local de tratamento. 
Os pacientes com diagnóstico de PAC devem ser sempre 
avaliados quanto à gravidade da doença, cuidado que 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
tem impacto direto na redução da mortalidade. Os 
escores de prognóstico disponíveis dimensionam a 
gravidade e ajudam a predizer o prognóstico da PAC, 
guiando a decisão quanto ao local de tratamento — 
ambulatorial, hospitalar ou UTI — quanto à 
necessidade de investigação etiológica, quanto à 
escolha do antibiótico e sua via de administração. 
Os instrumentos validados incluem Pneumonia Severity 
Index (PSI); mental Confusion, Urea, Respiratory rate, 
Blood pressure, and age ≥ 65 years (CURB-65); CRB-65 
(sem determinação de ureia); as diretrizes da American 
Thoracic Society/Infectious Diseases Society of America 
(ATS/IDSA) de 2007; Systolic blood pressure, Multilobar 
involvement, Albumin, Respiratory rate, Tachycardia, 
Confusion, Oxygenation, and pH (SMART-COP); e Severe 
Community-Acquired Pneumonia (SCAP) — os três 
últimos relacionados a pneumonia grave e internação em 
UTI. 
É importante frisar que a gravidade da doença definida 
pelos escores é o fator preponderante para a decisão 
sobre internação hospitalar; porém, outros fatores 
devem ser levados em consideração, como a viabilidade 
do uso de medicação por via oral, comorbidades 
associadas, fatores psicossociais e características 
socioeconômicas que indiquem vulnerabilidade do 
indivíduo. Idealmente, a SpO2 deve ser sempre avaliada: 
valores de SpO2 inferiores a 92% devem indicar 
internação. 
 
 Pacientes com escore de 0 ou 1 (apenas ganhou 
ponto pela idade) podem ser tratados 
ambulatorialmente. 
 Escores de 2 ou mais indicam internação do 
paciente, mas avalie o paciente, não fique só 
pensando no número! Mesmo com a utilização 
de critérios objetivos como números, a 
avaliação complementar do médico é 
importante na tomada de decisão. Ela deve 
considerar a possibilidade de o paciente tomar 
ou não medicação por via oral, o apoio que o 
paciente terá durante seu tratamento 
ambulatorial, a presença de comorbidades que 
podem ser descompensadas pela pneumonia 
(diabetes, insuficiência cardíaca, DPOC). Além 
disso, lembre-se de que as internações têm um 
custo 25 vezes maior, prolongam o período de 
retorno às atividades do dia a dia, além de maior 
risco de TEP e infecção por agentes mais 
virulentos e resistentes. 
 
Tudo bem, internamos o paciente... E a terapia 
intensiva? QUANDO? Critérios para PAC Grave 
ATS/IDSA 
 
 CRITÉRIOS MAIORES 
o Choque séptico, necessitando de 
vasopressores 
o Ventilação mecânica invasiva 
 CRITÉRIOS MENORES 
o Outros critérios deverão entrar 
posteriormente (hipo/ hiperglicemia – 
em não diabéticos, 
intoxicação/abstinência alcoólica, 
hiponatremia, acidose metabólica 
inexplicada ou lactato aumentado, 
cirrose e asplenia). 
o FR = 30 irpmb 
o PaO2/FiO2 <250 (necessidade de 
Ventilação Não Invasiva (VNI) poderia 
ser considerada critério menor, 
substituindo a FR e relação PaO2 /FiO2) 
o Infiltrado multilobar 
o Confusão/Desorientação 
o Ureia >43 mg/dl 
o Leucopenia <4.000/mm3 (decorrente da 
infecção) 
o Trombocitopenia <100.000/mm3 
o Hipotermia (temperatura central < 
36ºC) 
o Hipotensão, necessitando de reposição 
volêmica agressiva 
 
Um critério maior ou três critérios menores → terapia 
intensiva 
 
A indicação de 
admissão à 
unidade de 
terapia 
intensiva 
(UTI) é 
mandatória 
para o manejo 
adequado de 
pacientes com 
PAC grave. A 
PAC grave é definida como aquela em que há uma 
probabilidade maior de deterioração do quadro clínico 
ou alto risco de morte. 
Então, segundo a Sociedade Brasileira, para definir PAC 
grave, usamos o escore proposto por Ewig, a presença de 
dois critérios menores ou de um critério maior indica a 
necessidade de tratamento em UTI. 
Para definir PAC grave teremos critérios maiores 
(presença de choque séptico e/ou necessidade de 
ventilação mecânica) e critérios menores (PaO2/FIO2 < 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
250; Envolvimento de mais de um lobo; Pressão arterial 
sistólica <90 mmHg e diastólica <60mmHg). 
Mas a American Thoracic Society (ATS) propôs um novo 
critério para definir PAC grave e indicar tratamento em 
UTI. A ATS vem sendo bem utilizada. Desta forma, 1 
critério maior ou 3 critérios menores já devem ser 
indicativos de internação na UTI. 
Outras ferramentas para a predição da ocorrência de 
PAC grave foram desenvolvidas para avaliar desfechos 
diversos dos riscos genéricos de morte ou de admissão à 
UTI. Esses desfechos incluem, além da necessidade de 
admissão à UTI, o desenvolvimento de sepse grave, 
necessidade de ventilação mecânica e risco de falência 
terapêutica, no caso do SCAP, e desfechos associados de 
forma mais específica à necessidade do uso de suporte 
ventilatório mecânico invasivo ou não invasivo ou do 
emprego de drogas vasopressoras para suporte 
circulatório, no caso do SMART-COP. Esses desfechos 
têm sido considerados marcadores mais objetivos da 
gravidade da PAC, tendo em vista a heterogeneidade de 
indicações e protocolos de admissão à UTI entre 
instituições e sistemas de saúde diversos. 
 
SCAP 
Uma pontuação ≥ 10 pontos prediz um maior risco de uso 
de ventilação mecânica e necessidade de uso de droga 
vasoativa. 
Os critérios maiores são: 
o pH < 7,30 (13 pontos) 
o pressão arterial sistólica < 90 mmHg (11 
pontos). 
Os critérios menores são: 
o FR > 30 ciclos/min (9 pontos); 
o PaO2/FiO2 < 250 (6 pontos); 
o ureia > 30 mg/dl (5 pontos); 
o alteração do nível de consciência (5 
pontos); 
o idade ≥ 80 anos (5 pontos); 
o presença de infiltrado radiológico 
multilobar ou bilateral (5 pontos). 
 
SMART-COP 
Uma pontuação superior a 3 identificou 92% dos 
pacientes que necessitaram de uso de ventilação 
mecânica invasiva ou de drogas vasoativas na evolução 
da PAC. 
 Pressão arterial sistólica < 90 mmHg (2 pontos); 
 envolvimento multilobar (1 ponto); 
 albumina < 3,5 g/dl (1 ponto); 
 FR ≥ 25 ciclos/min (1 ponto); 
 FC > 125 bpm (1 ponto); 
 confusão mental (1 ponto); 
 SpO2 < 93% ou PaO2 < 70 mmHg (2 pontos); 
 pH < 7,30 (2 pontos). 
 
Diretrizes da ATS/IDSA 2007 
Os critérios de gravidade adotados pelo documento 
conjunto da ATS/IDSA e sua versão simplificada estão 
classificados como maiores e menores. Na presença de 
um dos critérios maiores (choque séptico ou indicação 
de ventilação mecânica), há a indicação de admissão à 
UTI. Já a presença de três ou mais critérios menores 
também indica cuidados intensivos. Esses critérios, 
entretanto, não se prestam para a avaliação de pacientes 
ambulatoriais, motivo pelo qual o próprio documento 
recomenda o uso do PSI ou do CURB-65 para guiar a 
decisão nesses pacientes. 
 
Bem, já sabemos onde o paciente vai ficar. Agora, 
como é o tratamento da pneumonia adquirida na 
comunidade? 
Recomendações de antibióticos para o tratamento 
empírico de PAC são escolhidos baseados nas principais 
causas bacterianas tratáveis de PAC. Tradicionalmente, 
esses patógenos bacterianos incluem Streptococcus 
pneumoniae, Haemophilus influenzae, Mycoplasma 
pneumoniae, Staphylococcus aureus, Espécie 
Legionella, Chlamydia pneumoniae, e Moraxella 
catarrhalis. A etiologia microbiana da PAC tem mudado, 
principalmente após a inserção da vacina pneumocócica 
conjugada tornando maior o conhecimento acerca dos 
patógenos virais. 
Como patógenos bacterianos, muitas vezes coexistem 
com vírus e não há teste de diagnóstico preciso o 
suficiente ou rápido para determinar se a PAC é devido 
apenas a um vírus no momento da apresentação, nossas 
recomendações são para inicialmente tratar 
empiricamente para possívelinfecção bacteriana ou 
coinfecção. Além disso, o surgimento de patógenos 
multirresistentes, incluindo S. aureus resistente à 
meticilina (MRSA) e Pseudomonas aeruginosa, requer 
recomendações quando o risco de cada um desses 
patógenos é elevado. 
 
Antibioticoterapia na PAC: recomendações para uso de 
monoterapia e terapia combinada 
1. Tratamento De Pacientes Ambulatoriais 
A escolha do antibiótico deve levar em consideração: 
1. patógeno mais provável no local de aquisição 
da doença; 
2. fatores de risco individuais; 
3. presença de doenças associadas; e 
4. fatores epidemiológicos, como viagens 
recentes, alergias e relação custo-eficácia. 
A cobertura antibiótica para patógenos atípicos nos 
casos de PAC de menor gravidade ainda é controversa, e 
vários estudos não mostraram vantagens com essa 
conduta. As orientações norte-americanas de 2007 
defendem o tratamento de patógenos atípicos e 
pneumococos e sugerem macrolídeos ou doxiciclina 
quando não há suspeita de resistência aos antibióticos. A 
proposta no Brasil é o uso de monoterapia com β-
lactâmico ou macrolídeos para os pacientes 
ambulatoriais, sem comorbidades, nenhum uso 
recente de antibióticos, sem fatores de risco para 
resistência e sem contraindicação ou história de 
alergia a essas drogas. 
Para esses casos sugere-se evitar o uso das 
fluoroquinolonas devido ao recente alerta da agência 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
norte-americana Food and Drug Administration sobre o 
potencial risco de efeitos colaterais graves. Essas drogas 
devem ser reservadas para pacientes com fatores de 
risco, doença mais grave ou quando não houver outra 
opção de tratamento, situações essas em que os 
benefícios superariam os potenciais riscos. Quanto aos 
macrolídeos, a azitromicina é mais efetiva in vitro contra 
a maioria das cepas de Haemophilus influenzae do que a 
claritromicina e, por isso, deveria ser preferida nos 
pacientes com DPOC. 
Os riscos de infecção por agentes patogênicos resistentes 
e de falência terapêutica são maiores quando há história 
de uso de um antibiótico nos três meses anteriores, 
quando os pacientes vêm de regiões onde a taxa local de 
resistência aos macrolídeos é superior a 25% e presença 
de doenças associadas (DPOC, doença hepática ou renal, 
câncer, diabetes, insuficiência cardíaca congestiva, 
alcoolismo ou imunossupressão). Para esses casos 
específicos recomenda-se para o tratamento 
ambulatorial da PAC associar macrolídeos a um β-
lactâmico ou realizar monoterapia com uma 
fluoroquinolona respiratória por pelo menos 5 dias. 
 
2. Tratamento De Pacientes Internados Em 
Enfermarias 
A monoterapia com o uso de uma fluoroquinolona 
respiratória isolada (levofloxacino, moxifloxacino ou 
gemifloxacino) ou a associação de um β-lactâmico a um 
macrolídeo têm sido recomendadas por diretrizes para o 
tratamento de pacientes com PAC internados em 
enfermarias devido a boa cobertura e bons resultados 
nas infecções causadas por S. pneumoniae, M. 
pneumoniae, C. pneumoniae, H. influenzae ou 
Legionella sp. 
As fluoroquinolonas respiratórias apresentam ampla 
cobertura microbiológica, comodidade posológica e 
facilidade na mudança de terapia parenteral para oral. 
Entretanto, seu uso excessivo pode induzir o 
aparecimento subsequente de organismos 
multirresistentes entre os pacientes tratados, fato 
também observado com β-lactâmicos. Vale ressaltar que 
o ciprofloxacino, embora seja uma fluoroquinolona de 
segunda geração, não está recomendado para o 
tratamento da PAC por germes comunitários por carecer 
de ação contra o pneumococo e outros organismos Gram 
positivos. Nesses casos, a monoterapia com macrolideos 
não está indicada em nosso meio devido à alta 
prevalência de resistência do S. pneumoniae a esta classe 
de antibióticos. 
A recomendação atual é o emprego de β-lactâmico 
associado a um macrolídeo ou fluoroquinolona 
respiratória isolada. Um β-lactâmico isolado pode ser 
usado se houver exclusão confirmada de Legionella sp. 
 
3. Tratamento De Pacientes Internados Em UTI 
A terapia combinada deve ser recomendada para 
pacientes com PAC grave com indicação de admissão em 
UTI por reduzir a mortalidade. A administração dos 
antibióticos deve ser a mais precoce possível e deve 
incluir preferencialmente um macrolídeo e um β-
lactâmico, ambos por via endovenosa. Excetuando-se 
cenários clínicos que indiquem alta probabilidade de 
germes específicos como agentes causadores. As 
pneumonias por patógenos padrão têm como fatores de 
risco a idade, a exposição ocupacional e a presença de 
comorbidades, como ocorre na doença invasiva 
pneumocócica pulmonar, comum em pacientes com 
doenças respiratórias crônicas, diabetes, cardiopatias e 
imunodepressão. 
Recomendações Para Terapia Alvoespecífica De Germes 
Em Pacientes De Risco De Bactérias Bastonetes Gram 
Negativas, Staphylococcus Aureus E Outros Germes 
Potencialmente Resistentes Na Comunidade. 
 
 
As pneumonias por patógenos multirresistentes 
dependem principalmente da epidemiologia local. O 
CA-MRSA ainda tem como apresentação típica 
pneumonia necrosante de rápida evolução, podendo 
estar associado à lesão cutânea ou à prática de esportes 
coletivos em pacientes hígidos. 
Recentemente, um novo grupo de bactérias 
multirresistentes tem sido associado a PAC em pacientes 
com contato prévio com um serviço de assistência à 
saúde, como serviços de assistência domiciliar, de 
diálise, serviços ambulatoriais de cuidado de feridas 
crônicas e casas de repouso. Nesses pacientes, MRSA, 
enterobactérias produtoras de betalactamase de 
espectro expandido e Pseudomonas sp. multirresistentes 
têm sido agentes frequentes de pneumonia, mesmo 
depois de longos períodos sem internação hospitalar, 
apenas pelo fato de os pacientes permanecerem 
colonizados. São fatores de risco para infecções por essas 
bactérias: internação hospitalar em até 90 dias antes do 
episódio de pneumonia, uso prévio de antibióticos há 90 
dias, imunossupressão, uso de bloqueador gástrico, 
alimentação enteral, hemodiálise e colonização 
intestinal prévia por bactéria multirresistente ou MRSA 
nasal. 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
Diferentemente da terapia de primeira linha para PAC, 
que se baseia em fatores regionais, como a incidência 
local de patógenos padrão e fatores de gravidade do 
paciente, na terapia alvo-específica, os fatores de risco 
e a prevalência local de microrganismos resistentes 
são avaliados como direcionadores da terapêutica. Os 
medicamentos de escolha para o tratamento são 
aqueles que inibem a produção de toxina: 
clindamicina, linezolida ou vancomicina, que podem 
ser utilizados em monoterapia, associados entre si 
(linezolida e clindamicina ou vacomicina e 
clindamicina) ou à rifampicina no caso de cepas 
resistentes ou de dificuldade de penetração em tecido 
necrótico. O tratamento de pneumococo resistente à 
penicilina é realizado com cefalosporinas, podendo ser 
utilizadas ceftriaxona, cefotaxima e cefepima. 
Em quadros de infecção não grave, em que a 
monoterapia oral é uma escolha, o uso de cefuroxima e 
ampicilina/ sulbactam têm sido opções seguras em 
locais com baixa resistência a β-lactâmicos, bem como 
fluoroquinolonas, já que a resistência é rara em 
pneumococos. Nos casos de CA-MRSA, o objetivo é 
suprimir a produção de toxina, e o tratamento de escolha 
é clindamicina, sulfametoxazol/trimetoprim ou 
linezolida. Deve ser considerado o potencial de indução 
de resistência pela clindamicina em infecções de alto 
inóculo via efluxo ou por alterações ribossômicas. 
 
Duração Da Antibioticoterapia Para Pacientes 
Ambulatoriais E Internados Com PAC 
A duração ideal da antibioticoterapia no tratamento da 
PAC não está ainda definitivamente estabelecida. A 
antibioticoterapia de curta duração parece ser a mais 
apropriada, uma vezque proporciona menor 
exposição do paciente à ação de antibióticos, reduz a 
ocorrência de efeitos adversos, diminui o 
desenvolvimento de resistência por parte dos 
microrganismos, melhora a adesão dos pacientes e 
pode minimizar o tempo de internação e os custos 
financeiros. Adicionalmente, tratamentos muito longos 
favorecem o desenvolvimento de resistência 
bacteriana e a ocorrência de efeitos adversos 
potencialmente graves, como infecções por 
Clostridium difficile. No entanto, o tratamento curto 
deve ser tão eficaz quanto os tratamentos mais longos no 
que diz respeito às taxas de mortalidade, complicações e 
recorrência da doença. 
A duração do tratamento, suficiente para garantir 
sucesso no tratamento da PAC (considerando como 
principal desfecho a mortalidade, mas também efeitos 
adversos e falência do tratamento), pode ser diferente 
conforme a gravidade da PAC, segundo os escores de 
gravidade atualmente disponíveis. Tratamentos de 5 a 7 
dias parecem ser suficientes na maior parte das vezes, 
especialmente em infecções não graves. Recomenda-
se que para a PAC de baixa gravidade e com tratamento 
ambulatorial, esse seja feito com monoterapia e por 5 
dias. A PAC de moderada a alta gravidade deve ser 
tratada com os esquemas antibióticos acima 
discutidos, por períodos de 7 a 10 dias. O tratamento 
pode ser estendido até 14 dias a critério do médico 
assistente. 
 
Recomendações Para Uso De Corticoide Como 
Tratamento Adjuvante Na PAC 
A ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal é 
responsável pela produção do cortisol, um 
corticosteroide endógeno, que, durante quadros 
pneumônicos, induz a expressão de proteínas anti-
inflamatórias e a inibição de moléculas pró-
inflamatórias. 
Evidências de moderada a alta qualidade sugerem que 
os corticoides, quando associados a antibióticos e 
terapia usual, melhoram a evolução de pacientes com 
PAC tratados. Os benefícios incluem redução no tempo 
de internação, tempo para estabilização clínica, assim 
como redução na taxa de ventilação mecânica e de 
progressão para SARA aguda. 
Em relação à mortalidade, o papel dos corticoides na 
prevenção de óbitos relacionados à PAC não foi ainda 
bem definido, apesar de os dados envolvendo apenas 
indivíduos com apresentação grave sugerirem benefícios 
dessa terapia nesse subgrupo. Outro aspecto importante 
a ser considerado é a falta de padronização do esquema 
terapêutico utilizado nos ensaios clínicos. 
 
Em conclusão, o uso de corticoides na PAC grave 
mostrou-se tanto seguro como benéfico em diversos 
desfechos clínicos importantes. Entretanto, são 
necessários novos estudos que confirmem o impacto 
dessa terapia sobre a mortalidade relacionada à PAC, 
apesar de as meta-análises sugerirem a redução dessa 
taxa, sobretudo no subgrupo com apresentação mais 
grave. Por outro lado, deve-se ressaltar a importância de 
se evitar o uso indiscriminado dessa terapia, priorizando 
sua utilização em indivíduos com maior propensão de 
benefícios clínicos tais como aqueles com maior grau de 
inflamação sistêmica. Nesse contexto, a proteína C 
reativa pode ser considerada um biomarcador útil, 
identificando pacientes com maior risco de 
complicações relacionadas à PAC e que, 
consequentemente, podem se beneficiar da 
corticoterapia adjuvante. Essas indicações não devem 
ser extrapoladas para pacientes com PAC de menor 
gravidade e em tratamento ambulatorial. 
 
 
Recomendações Atuais Para A Vacinação Em Adultos: 
Antiinfluenza E Antipneumocócica 
1. Vacina Anti-Influenza 
No Brasil, as vacinas disponíveis são constituídas de 
vírus inativados e fragmentados (portanto, sem risco de 
infectar o paciente), obtidos a partir de culturas em ovos 
embrionados de galinhas. As vacinas inativadas 
diminuem a magnitude dos sintomas respiratórios 
quando a cepa viral circulante é similar às cepas 
vacinais, levando à redução da incidência da doença em 
mais de 60%. Há dois tipos aprovados para uso no país 
pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária: 
 Vacina anti-influenza trivalente (A/H1N1, 
A/H3N2 e influenza B): disponível no Sistema 
Único de Saúde, nas unidades básicas de saúde 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
durante as campanhas de vacinação (e 
posteriormente até terminar a sua 
disponibilidade) conforme as indicações 
 Vacina anti-influenza tetravalente — ou 
quadrivalente — (A/H1N1, A/H3N2 e duas cepas 
de influenza B): disponível em clínicas privadas, 
com as mesmas indicações. 
 
Indicações prioritárias (não exclusivas) 
 Adultos com idade igual ou superior a 60 anos 
 Paciente com enfermidades crônicas 
pulmonares, cardiovasculares (exceto 
hipertensão arterial sistêmica), renais, 
hepáticas, hematológicas e metabólicas 
 Adultos em estado de imunossupressão 
 Indivíduos com distúrbios neuromusculares, 
comprometimento funcional pulmonar e 
dificuldade para remover secreções 
 Gestantes e mulheres que planejam engravidar e 
mulheres que estejam em estado de 
amamentação 
 Residentes em lares de idosos 
 Potenciais transmissores dos vírus para 
indivíduos de maior risco 
 Profissionais de saúde 
 Cuidadores domiciliares de crianças (idade 
inferior a 5 anos) e de indivíduos adultos (idade 
superior a 50 anos) 
 População indígena e população privada de 
liberdade 
 
Indivíduos que não devem ser vacinados 
 Pessoas com alergia grave (anafilaxia) a ovo de 
galinha, a algum componente da vacina ou à dose 
anterior 
 Menores de 6 meses de idade 
 História prévia de síndrome de Guillain-Barré, 
sobretudo se essa ocorreu após vacinação para 
influenza 
 
Observações 
 Pessoas com história de alergia grave a ovo de 
galinha, com sinais de anafilaxia, devem receber 
vacina em ambiente com condições de 
atendimento de reações anafiláticas e 
permanecer em observação por pelo menos 30 
minutos 
 Em caso de febre, deve-se adiar a vacinação até 
que ocorra remissão do sinal 
 No caso de história de síndrome de Guillain-
Barré até seis semanas após a dose anterior da 
vacina, recomenda-se avaliação médica 
criteriosa sobre o risco-benefício antes de se 
administrar uma nova dose 
 Excetuando-se os casos aqui citados, não são 
necessários cuidados especiais antes da 
vacinação 
 Compressas frias aliviam a reação no local da 
aplicação, e, em casos mais intensos, pode-se 
usar medicação para dor sob recomendação 
médica 
 Qualquer sintoma grave e/ou inesperado após a 
vacinação deve ser notificado ao serviço que a 
realizou 
 Sintomas de eventos adversos persistentes, que 
se prolongam por mais que 72 h (dependendo do 
sintoma), devem ser investigados para a 
verificação de outras causas 
 
2. Vacina Antipneumocócica 
Atualmente, dispõe-se de dois tipos de vacinas: uma 
vacina polissacarídica 23-valente (VPP23), não 
conjugada a carreador proteico, que possui antígenos da 
parede de 23 sorotipos pneumocócicos. A segunda utiliza 
um carreador proteico para os antígenos 
polissacarídeos, sendo denominada vacina 
antipneumocócica conjugada (PCV). Essa formulação 
aumenta o efeito imunogênico e, por estimular a memória 
imunológica via células T, confere proteção mais 
duradoura. Duas novas formulações conjugadas com 
antígenos de 10 (PCV10) e 13 (PCV13) sorotipos estão 
disponíveis no Brasil. A PCV10 está aprovada para a 
prevenção de doença pneumocócica invasiva em 
crianças de até 2 anos, enquanto a PCV13 está aprovada 
para crianças desde seis semanas de vida até adultos. Os 
sorotipos associam-se à gravidade da doença e, por isto, o 
impacto clínico da vacinação depende da cobertura dos 
mesmos. 
 A PCV13 deve ser administrada como uma dose 
única em adultos com 50 anos de idade ou mais, 
incluindo aqueles vacinados anteriormente com 
a vacina pneumocócica polissacarídica. 
 A necessidade de revacinac ̧ão com uma dose 
subsequente de PCV13 não foi estabelecida. Um esquema sequencial de PCV13 e VPP23 está 
recomendado rotineiramente pela Sociedade 
Brasileira de Imunizações para indivíduos com 
60 anos ou mais. 
 Para indivíduos com algumas comorbidades, um 
esquema sequencial de PCV13 e VPP23 está 
recomendado. 
 Deve-se iniciar com uma dose da PCV13, seguida 
de uma dose de VPP23 6-12 meses após, e uma 
segunda dose de VPP23 5 anos após a primeira. 
No caso de pessoas que já receberam uma dose de 
VPP23, recomenda-se o intervalo de 1 ano para a 
aplicac ̧ão de PCV13. A segunda dose de VPP23 
deve ser feita 5 anos após a primeira, mantendo-
se um intervalo de 6-12 meses da PCV13. 
 Para os que já receberam duas doses de VPP23, 
recomenda-se uma dose de PCV13 com um 
intervalo mínimo de 1 ano após a última dose de 
VPP23. 
 Se a segunda dose de VPP23 foi aplicada antes 
dos 65 anos, está recomendada uma terceira dose 
depois dessa idade, com intervalo mínimo de 5 
anos da última dose. 
 Segundo este calendário, a vacinação entre 50-
59 anos com PCV13 pode ser feita a critério do 
médico assistente. 
 As vacinas polissacarídicas resultam na redução 
da ocorrência de doença pneumocócica 
invasiva na população adulta e têm menor 
efetividade na prevenção de PAC em pacientes 
com redução da imunidade. A vacina conjugada 
resulta na redução de 45,6% de casos de PAC 
pelos sorotipos vacinais, de 45% de casos de 
pneumonias bacterianas e de 75% de doença 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
pneumocócica invasiva. A vacina está indicada 
para casos de risco aumentado de PAC. 
 
Indicações da vacina 
 Adultos com idade igual ou superior a 60 anos 
 Indivíduos com idade entre 2 e 59 anos, com 
doença crônica cardíaca, pulmonar, doença 
falciforme, diabetes, alcoolismo, cirrose 
hepática, fístulas cérebro-espinhais ou 
implantes cocleares 
 Indivíduos com idade entre 2 e 59 anos, com 
doença ou condição imunossupressora, como 
doença de Hodgkin, linfoma ou leucemia, 
insuficiência renal, mieloma múltiplo, síndrome 
nefrótica, infecção por HIV ou AIDS, doença 
esplênica ou asplenia, e transplantados de 
órgãos 
 Indivíduos com idade entre 2 e 59 anos que 
utilizem drogas imunossupressoras, como 
tratamento com corticoides por longo prazo, 
drogas utilizadas no tratamento de câncer ou que 
tenham passado por radioterapia 
 Adultos entre 19 e 59 anos, tabagistas ou 
portadores de asma 
 Residentes em casas de saúde e asilos de longa 
permanência 
 
 
 
Segundo os conceitos atuais, choque é um estado de 
hipoperfusão orgânica efetiva generalizada – uma 
verdadeira "isquemia" generalizada. Em última análise, 
as células não recebem o aporte de oxigênio necessário 
para manter a sua homeostase. A perfusão efetiva de um 
órgão ou tecido depende de dois fatores: (1) fluxo 
sanguíneo total para este órgão; (2) distribuição 
adequada deste fluxo através do órgão ou tecido, de 
forma que todas as suas células recebam um suprimento 
adequado de oxigênio. 
OBS: Choque não é sinônimo de hipotensão arterial! 
Quando dizemos "hipotensão arterial" nos referimos a 
uma PA sistólica inferior a 90 mmHg. Nem todo paciente 
hipotenso encontra-se chocado. Por exemplo, é possível 
nos depararmos com uma pessoa que tem uma PA = 85 x 
50 sem apresentar sinais de hipoperfusão orgânica. Esta 
situação não é rara em mulheres jovens. Por outro lado, 
nem todo paciente com choque tem PA sistólica < 90 
mmHg. Podemos encontrar um paciente com sinais 
francos de hipoperfusão orgânica sistêmica, mas com PA 
= 100 x 60. Isto pode ocorrer nos hipertensos e idosos com 
aterosclerose cerebral. 
 
–
 
Alterações hemodinâmicas 
No choque surgem diversas alterações hemodinâmicas 
que devem ser muito bem compreendidas. O padrão 
hemodinâmico do choque pode inclusive categorizá-lo 
em seus diversos tipos. Alguns princípios fisiológicos 
devem ser primeiramente entendidos para que em 
seguida possamos explicar as alterações fisiopatológicas 
do choque. 
 
Entendendo os princípios básicos de 
hemodinâmica 
Imagine o sistema circulatório como um circuito fechado 
contendo um fluido – o sangue Esse fluido é bombeado 
pelo coração, de modo a circular pelos órgãos e tecidos. O 
fluxo total de sangue produzido pela bomba cardíaca é 
denominado débito cardíaco. O sangue bombeado passa 
pelo sistema arterial, ganha o leito capilar e retorna ao 
coração através do sistema venoso. Para que o sangue 
perfunda adequadamente o leito capilar dos órgãos e 
tecidos, é preciso que a Pressão Arterial Sistêmica Média 
(PAM) se mantenha em um nível adequado (geralmente 
entre 60-120 mmHg), o que é garantido pelo produto do 
Débito Cardíaco (DC) pela Resistência Vascular 
Sistêmica (RVS). 
 
A RVS é determinada pelo tônus muscular das arteríolas, 
de modo que a vasoconstricção arteriolar aumenta a RVS, 
enquanto a vasodilatação arteriolar reduz a RVS. A 
maioria dos órgãos e tecidos (pele, subcutâneo, 
musculoesquelético, vísceras) funciona como principais 
reguladores da RVS, pelo tônus de suas arteríolas, de 
forma a garantir a pressão necessária para manter a 
perfusão dos órgãos nobres (cérebro e miocárdio). 
O sistema venoso é de suma importância em todo esse 
contexto, pois funciona como o grande armazenador de 
sangue – cerca de 70% da volemia encontra-se no leito 
venoso, enquanto que apenas 20% está no leito arterial e 
10% no leito capilar. Quando as veias dilatam 
(venodilatação ou venoplegia), chega menos sangue ao 
coração, isto é, diminui o retorno venoso e, portanto, o 
débito cardíaco. Quando contraem (venoconstricção), o 
retorno venoso se eleva. 
O DC é determinado basicamente por quatro fatores: (1) 
précarga; (2) pós-carga; (3) contratilidade miocárdica; (4) 
frequência cardíaca. Os três primeiros determinam o 
volume de sangue bombeado a cada batimento – o débito 
sistólico. A pré-carga representa o retorno venoso que, 
em última análise, determina o volume de enchimento 
diastólico do ventrículo – quanto maior esse volume, 
maior será o débito sistólico. A pós-carga representa a 
"dificuldade" imposta à ejeção ventricular, determinada 
pela própria RVS, pela impedância da aorta e pela 
geometria ventricular. O aumento da pós-carga prejudica 
o esvaziamento ventricular, portanto, reduz o débito 
sistólico. A contratilidade miocárdica é a capacidade 
contrátil intrínseca ao músculo cardíaco, independente 
da pré e pós-carga. O débito cardíaco é o produto do 
Débito Sistólico (DS) pela Frequência Cardíaca (FC). 
 
 
 
Nas taquiarritmias com frequência muito elevada (> 200 
bpm), o tempo de enchimento diastólico é tão encurtado, 
que o débito sistólico "despenca", tendo como resultado a 
queda do débito cardíaco, ao invés do seu aumento (como 
esperado pela fórmula acima...). Nas bradiarritmias, o 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
tempo de enchimento diastólico fica maior, aumentando 
o volume diastólico e, portanto, o débito sistólico. Porém, 
se a frequência cardíaca estiver muito baixa (< 40 bpm), o 
débito cardíaco geralmente cai significativamente 
(respeitando a fórmula acima). 
 
Monitorização hemodinâmica – o cateter de 
swan-ganz 
O cateter de Swan-Ganz foi um grande avanço na 
avaliação hemodinâmica dos pacientes com choque. 
Trata-se de um cateter introduzido por uma veia 
profunda (jugular interna ou subclávia) até uma das 
artérias pulmonares. Para realizar as suas funções, ele 
precisa ter: (1) um lúmen distal para medir a Pressão da 
Artéria Pulmonar (PAP); (2) um lúmen proximal para 
medida da pressão atrial direita (que corresponde a 
PVC); (3) um balonete na extremidade distal para 
permitir a medida da Pressão Capilar Pulmonar (PCP) ou 
pressão de oclusão de artéria pulmonar (PAOP); e (4) um 
termômetro na extremidade distal para o cálculo do DC 
pelo método da termodiluição (mensuração 
intermitente). Nos últimos anos, os cateterestêm 
apresentado um quinto lúmen contendo dois filamentos 
de fibra óptica, utilizados para mensurar de forma 
contínua a saturação venosa de oxigênio obtida de sangue 
colhido em artéria pulmonar (SvO2 ). Novas técnicas têm 
nos permitido medir continuamente o DC. 
À medida que é introduzida no sistema venoso, a 
extremidade distal do cateter atinge primeiramente a 
veia cava superior e, em seguida, o átrio direito, o 
ventrículo direito e, finalmente, a artéria pulmonar. O 
médico responsável pelo procedimento pode saber 
exatamente em que posição está o cateter, de acordo com 
o padrão da curva de pressão apresentado na tela do 
monitor O lúmen distal tem a sua abertura na ponta do 
cateter – quando está desinsuflado, a pressão medida 
corresponde à Pressão Arterial Pulmonar (PAP) e quando 
é insuflado com 1,5 ml de ar, desliza e "impacta" em um 
ramo distal da artéria pulmonar. Nesse momento, temos 
a medida da Pressão Capilar Pulmonar (PCP), também 
conhecida como pressão de oclusão da artéria pulmonar 
(PAOP) – Dizemos que o balonete está encunhado na 
artéria pulmonar – daí também chamarmos a PCP 
determinada pelo Swan-Ganz de pressão encunhada da 
artéria pulmonar (PWP – Pulmonary Wedge Pressure). A 
PCP geralmente é semelhante à PAP diastólica. 
O DC é mensurado indiretamente pelo método da 
termodiluição. Ao injetar 10 ml de soro frio (em torno de 
25 o C) pelo lúmen proximal, este líquido ganha o átrio 
direito, sendo logo em seguida "diluído" pelo sangue do 
paciente (em torno de 37 o C) que chega pelas veias cava. 
Como é de se esperar, a temperatura da ponta do cateter 
na artéria pulmonar inicialmente cai e depois volta a 
subir, desenhando uma curva na tela do monitor. A curva 
de temperatura é utilizada para a determinação do DC. 
Quanto maior o débito cardíaco, mais rápido é o retorno 
da temperatura a 37ºC – "curva pequena". Como vimos 
antes, a medida contínua deste parâmetro já é possível 
atualmente. 
Quando falarmos sobre as alterações hemodinâmicas do 
choque, eventualmente iremos nos referir aos 
parâmetros do Swan-Ganz (débito cardíaco, PVC, PAP e 
PCP). A monitorização com esse cateter deve ser 
acompanhada pela monitorização da pressão arterial 
média sistêmica, através de um pequeno cateter na 
artéria radial ou femoral – denominada PAM invasiva. 
Digitando-se no monitor o valor da PAM, da PVC e do DC, 
o programa calcula um parâmetro hemodinâmico 
fundamental – a Resistência Vascular Sistêmica (RVS). 
 
 
Alterações hemodinâmicas no choque 
Em relação às alterações hemodinâmicas, podemos 
dividir o choque em dois grandes grupos, de acordo com 
o DC e a RVS: (1) os choques hipodinâmicos – 
relacionados ao baixo débito cardíaco e aumento da RVS 
(vasoconstrição); (2) os choques hiperdinâmicos – 
relacionados a um alto débito cardíaco e redução da RVS 
(vasodilatação). Os primeiros são representados pelos 
choques hipovolêmico, cardiogênico e obstrutivo 
extracardíaco. Os últimos são representados pelos 
choques distributivos (séptico, sirético, anafilático, 
neurogênico). 
Nos choques hipodinâmicos, o débito cardíaco, por 
definição, está comprometido, seja por uma redução 
primária do retorno venoso (hipovolêmico), seja por um 
defeito na bomba cardíaca (cardiogênico), seja uma 
obstrução mecânica à circulação de sangue (obstrutivo). 
Quando o DC se reduz, a tendência é para a queda da 
PAM, prejudicando a perfusão orgânica; contudo o 
estímulo imediato dos baroceptores, localizados nas 
carótidas, átrios e ventrículos, determina uma 
hiperativação neurohumoral, representada pelo sistema 
nervoso simpático e medula adrenal. As catecolaminas 
elevam-se nas fendas sinápticas do coração e vasos 
sanguíneos (noradrenalina), bem como na própria 
circulação (adrenalina). As catecolaminas aumentam a 
contratilidade e a frequência cardíaca (receptores beta-
1), promovem vasoconstrição arteriolar e venosa 
(receptores alfa). Como resultado temos: (1) a RVS se 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
torna elevada pela vasoconstrição – evitando a queda da 
PA; (2) o DC se eleva mais um pouco, pelo efeito direto das 
catecolaminas no coração e pelo aumento do retorno 
venoso – venoconstrição. Acabamos de descrever a fase 
compensada do distúrbio que mais tarde poderá levar ao 
choque... O choque irá se instalar quando esses 
mecanismos compensatórios forem insuficientes, ou 
seja, não mais capazes de manter uma pressão arterial 
mínima para garantir a perfusão dos órgãos e tecidos. Os 
primeiros órgãos que sofrem isquemia são: pele, 
subcutâneo, musculoesquelético, vísceras. Em segundo 
lugar, os rins. Por último, o cérebro e o miocárdio. 
 
A determinação das pressões pelo Swan-Ganz (PCP, PAP 
e PVC) é fundamental para diferenciarmos entre os 
diversos tipos de choque hipodinâmico... No choque 
hipovolêmico, por definição, as pressões de enchimento 
de ambos os ventrículos são baixas, pois o retorno venoso 
está primariamente comprometido. Como resultado, 
teremos uma redução da PVC, PAP diastólica e PCP. No 
choque cardiogênico, por definição, as pressões de 
enchimento ventricular estão elevadas. Se o 
comprometimento principal for do ventrículo esquerdo 
(mais comum), teremos um aumento de PCP (> 16 mmHg) 
e da PAP diastólica. Se o comprometimento for do 
ventrículo direito, teremos um aumento da PVC, 
enquanto que as pressões de enchimento do coração 
esquerdo (PCP e PAP diastólica) encontram-se normais 
ou baixas. No choque obstrutivo do tamponamento 
cardíaco, os parâmetros hemodinâmicos são muito 
sugestivos – as pressões de enchimento do coração 
esquerdo (PCP, PAP diastólica) e direito (PVC) estão 
equalizadas. No pneumotórax hipertensivo, pela 
compressão da veia cava, os parâmetros hemodinâmicos 
são os mesmos do choque hipovolêmico, apesar do 
paciente apresentar uma turgência jugular patológica 
bem marcada. No choque obstrutivo do 
tromboembolismo pulmonar, as pressões de enchimento 
do coração direito estão elevadas (PVC), juntamente com 
a Pressão Arterial Pulmonar (PAP), enquanto que a PCP 
encontra-se normal ou baixa. Sempre que a Resistência 
Vascular Pulmonar (RVP) estiver aumentada, a PAP 
diastólica aumenta consideravelmente em relação à PCP. 
Os principais exemplos são o tromboembolismo 
pulmonar e a hipertensão arterial pulmonar primária ou 
secundária crônica. 
Nos choques hiperdinâmicos, como o choque séptico – o 
principal representante deste grupo – existem dois 
problemas primários: (1) uma intensa vasodilatação 
sistêmica que compromete os leitos arterial e venoso; e (2) 
uma má distribuição do fluxo a nível microvascular – ver 
adiante. No choque séptico, desde o início do quadro, 
observa-se um ambiente microvascular totalmente 
"corrompido"... Veja o que acontece: dilatação 
inapropriada de vasos arteriolovenulares que desviam o 
sangue dos capilares (microshunts), fenômeno 
exacerbado pela obstrução de capilares por plugs de 
neutrófilos, hemácias e microtrombos. A constrição dos 
esfíncteres póscapilares, em conjunto com o aumento da 
permeabilidade do endotélio, provoca um 
extravasamento de fluidos para o espaço intersticial. 
Esta perda de fluidos do intravascular para o interstício 
associa-se a outros tipos de perda hídrica comuns na 
sepse (hiperpneia, vômitos, diarreia, peritonite, pleurite, 
distensão intestinal etc.). Uma importante venodilatação 
ocorre precocemente na sepse. Um sistema venoso 
dilatado aliado à perda de fluidos do intravascular 
acarreta numa redução significativa do retorno venoso e, 
portanto, do débito cardíaco nas fases iniciais do choque 
séptico – uma espécie de "componente hipovolêmico". 
Após a reposição vigorosa de fluidos, o retorno venoso é 
corrigido, permitindo a expressão completa da natureza 
hiperdinâmica do choque séptico. Nesse momento, 
teremos um choque com um DC elevado e RVS bastante 
deprimida. 
 
 
O choque sépticoentão tem uma fase inicial em que a 
hipovolemia relativa (venodilatação) e absoluta (perda 
hídrica para o terceiro espaço) "escondem" a sua 
natureza hiperdinâmica. A partir da reposição volêmica, 
as suas características hemodinâmicas aparecem. 
Além do "componente hipovolêmico", o choque séptico 
também tem o seu "componente cardiogênico". A lesão 
miocárdica decorrente dos chamados "fatores de 
depressão miocárdica da sepse" provoca uma disfunção 
sistólica do ventrículo esquerdo, justificando um 
aumento das pressões de enchimento ventricular. Ele 
encontra-se dilatado (aumento de seus volumes sistólico 
e diastólico), mas com fração de ejeção reduzida. Apesar 
de existir disfunção miocárdica, o DS encontra-se 
elevado, pois o coração trabalha contra uma pós-carga 
muito baixa (vasodilatação arteriolar), facilitando a 
ejeção ventricular. Em pequeno número de pacientes 
(cerca de 15-20%) com choque séptico, o grau de 
disfunção miocárdica é grave, havendo redução do DC, 
mesmo na presença de uma RVS baixa. Esses são os 
pacientes com cardiopatia prévia ou aqueles que estão 
infectados por agentes que "atacam" diretamente o 
miocárdio (ex.: bacilo da difteria, meningococo, 
leptospira etc.). 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
 
 
Microvasculatura no choque 
As alterações microvasculares são comuns a todos os 
tipos de choque, porém são caracteristicamente mais 
precoces no choque séptico. Estas alterações são 
decorrentes da ação de toxinas bacterianas, citocinas, 
PAF (fosfolipídio ativador plaquetário), óxido nítrico, 
bradicinina, prostaglandinas e leucotrienos, sistema 
complemento, sistema de coagulação, ativação de 
leucócitos e plaquetas etc. Como veremos abaixo, essas 
substâncias elevam-se precocemente no choque séptico, 
porém podem se elevar nas fases tardias dos outros tipos 
de choque, estimuladas pela própria lesão tecidual 
hipóxica. A célula endotelial lesada pode ser uma das 
fontes produtoras destas substâncias. 
Vasodilatação inapropriada de microshunts 
arteriolovenulares, obstrução de capilares por plugs 
celulares (leucócitos, hemácias, plaquetas) ou 
trombóticos, constrição do esfíncter pós-capilar e 
aumento da permeabilidade endotelial, ambos levando 
ao extravasamento de líquido para o espaço intersticial – 
todos exemplos das alterações microvasculares do 
choque. No choque hipovolêmico hemorrágico, por 
exemplo, essas alterações costumam aparecer quando a 
reposição volêmica é atrasada por algumas horas. Nesse 
caso, mesmo repondo cristaloide, coloide ou 
concentrado de hemácias, esse líquido pode ir para o 
terceiro espaço e não mais corrigir o distúrbio 
hemodinâmico. Por isso, a correção de um choque 
hemorrágico nunca pode ser postergada. 
 
Metabolismo celular no choque 
Esta é a "pedra mestra" do choque! Não existe choque sem 
alteração do metabolismo celular. As células para 
sobreviverem precisam produzir energia. Para isso, 
utilizam a combustão da glicose ou de ácidos graxo que, 
via ciclo de Krebs e fosforilação oxidativa mitocondrial, 
produzem trifosfato de adenosina (ATP), dióxido de 
carbono (CO₂) e consomem oxigênio (O₂) e água (H₂O) – é o 
processo de aerobiose. Sem oxigênio, não há fosforilação 
oxidativa, nem ciclo de Krebs – o metabolismo da 
mitocôndria para. O produto final da glicólise – o 
piruvato, que antes era utilizado para produzir acetil-
CoA, alimentando o ciclo de Krebs, agora se acumula no 
citoplasma e é convertido em lactato. Os estoques de ATP 
da célula caem vertiginosamente, pois o ATP agora é 
fornecido apenas pelo processo de glicólise 
(anaerobiose). Enquanto a anaerobiose produz apenas 2 
ATPs por molécula de glicose, a aerobiose forma 36 ATPs 
por molécula de glicose "queimada". 
O ATP é o principal armazenador de energia celular. A 
atividade metabólica da célula usa a energia do ATP, ao 
"quebrar" a ligação de alta energia do terceiro fosfato, 
transformando-o novamente em ADP (difosfato de 
adenosina). Essa reação libera um H + , que então se liga 
ao lactato acumulado, transformando-o em ácido lático. 
O ácido lático então sai da célula através de um carreador 
específico de membrana e ganha o espaço extracelular e 
o plasma. Como resultado, teremos a acidose lática – a 
causa mais comum de acidose metabólica. O aumento dos 
níveis de lactato (> 2,5 mM) e o aparecimento de um 
deficit de bases (base excess negativo) são os primeiros 
indícios de que um paciente está em choque. Nesse 
momento, a pressão arterial ainda pode encontrar-se na 
faixa normal, já que o sistema neuro-hormonal já está 
ativado. 
O lactato não é apenas um "grande vilão". Ele também tem 
a sua importância fisiológica no choque, ao servir como 
substrato energético para o músculo cardíaco. Já está 
bem documentado que, excetuando-se os casos de 
choque cardiogênico por fenômenos de isquemia ou 
infarto miocárdico, o tecido miocárdico não libera 
lactato – pelo contrário, consome-o. O grande produtor 
de lactato no choque é o musculoesquelético e, em 
segundo lugar, as vísceras. A reutilização do lactato para 
formar piruvato, que então pode ser convertido em 
glicose (gliconeogênese) ou utilizado no ciclo de Krebs, é 
denominada ciclo de Cori. 
 
Como estão os hormônios no choque? 
O estresse isquêmico e inflamatório estimula a liberação 
de cortisol e adrenalina pela suprarrenal e de glucagon 
pelo pâncreas – são os hormônios contrarreguladores da 
insulina. Eles promovem glicogenólise (quebra do 
glicogênio) e gliconeogênese no fígado, lançando mais 
glicose no sangue – razão da hiperglicemia 
frequentemente encontrada nas fases iniciais do choque, 
da sepse e do trauma. A supressão insulínica permite o 
efeito da adrenalina e do cortisol no tecido adiposo, 
promovendo a liberação de ácidos graxos (lipólise), que 
serão utilizados como principal substrato metabólico 
para o musculoesquelético. Ao agir sobre os receptores 
beta-2 do musculoesquelético, a adrenalina promove o 
influxo de potássio, levando à hipocalemia (achado 
também frequente no choque, sepse ou trauma). O 
sistema renina-angiotensina-aldosterona também se 
encontra ativado, auxiliando as catecolaminas a 
"proteger" a hemodinâmica do paciente, devido ao efeito 
vasoconstritor e retentor de sal e água da angiotensina II 
e aldosterona, respectivamente. 
 
Extração tecidual de oxigênio no choque 
Um conceito que tem que estar bem sedimentado em 
"nosso cérebro": no choque, o resultado final é a falta de 
O₂ às células, levando-as a perder as reservas de energia 
(ATP) e produzir ácido lático. A hipóxia celular sobrevém 
por um dos seguintes mecanismos: (1) não há oferta 
suficiente de oxigênio aos tecidos; (2) os tecidos não estão 
mais extraindo o oxigênio de forma adequada. Vamos 
entender isto melhor. 
A oferta de oxigênio aos tecidos é representada pela DO₂, 
que mede a quantidade de O₂ que chega aos tecidos na 
unidade de tempo – depende do débito cardíaco, do teor 
de hemoglobina do sangue e da saturação de oxigênio 
arterial. Valor normal = 700-1.200 ml/min. Uma queda 
expressiva da DO₂ caracteriza os choques hipodinâmicos 
(hipovolêmico, cardiogênico, obstrutivo). Nem a 
hipoxemia nem a anemia costumam ser os responsáveis 
isolados por uma queda expressiva da DO₂, pois a 
hipoxemia geralmente estimula o aumento da 
hemoglobina (policitemia) e a anemia estimula o 
aumento do DC. 
O consumo tecidual de oxigênio é representado pelo VO₂, 
que mede a quantidade de O₂ extraída pelos tecidos na 
unidade de tempo. Valor normal = 180-280 ml/min. A taxa 
de extração tecidual de oxigênio – representada pela 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
TEO₂ – é o percentual do O₂ ofertado aos tecidos que é 
efetivamente extraído, ou seja, quantos por cento do que 
é ofertado (DO₂) é consumido (VO₂). 
 
 
Em condições normais, a TEO₂ está entre 25 e 35%, ou seja, 
vai de 0,25 a 0,35.Quando a DO₂ começa a cair, como na 
hipovolemia ou na insuficiência cardíaca, o consumo 
tecidual de O₂ (VO₂) permanece inalterado à custa de uma 
maior TEO₂. À medida que a DO₂ vai caindo, chega num 
ponto crítico (na faixa de 500 ml/min), no qual a TEO₂ 
tornou-se máxima (em torno de 70% ou 0,70) – a partir 
daí, qualquer queda adicional da DO₂ levará a uma 
redução proporcional do consumo (VO₂). É o que 
acontece nos choques hipovolêmico, cardiogênico e 
obstrutivo. Essa queda da VO₂ proporcional à queda da 
DO₂ é chamada dependência fisiológica da DO₂ e é a 
responsável pela hipóxia tecidual nos choques 
hipodinâmicos. 
 
E no choque séptico? 
Nesse tipo de choque, a taxa de extração de oxigênio pelos 
tecidos está comprometida, isto é, a TEO₂ encontra-se 
abaixo de 0,25. Mesmo com uma DO₂ alta (o que é comum 
nos estados de alto débito cardíaco), o consumo (VO₂) está 
baixo, apesar de uma demanda tecidual elevada de O₂. As 
células precisam de oxigênio, mas parece que há algum 
tipo de "bloqueio" em sua extração ou consumo. Nestes 
pacientes observamos que o ponto crítico da DO₂ é maior 
que o esperado – o VO₂ começa a cair antes da DO₂ atingir 
500 ml/min. A isto denominamos dependência 
patológica da DO₂. Essa é a razão da hipóxia tecidual no 
choque séptico. A razão desse "bloqueio" da TEO₂ pode 
ser o desarranjo microvascular, a disfunção endotelial ou 
ainda uma disfunção celular metabólica. 
 
Saturação venosa de oxigênio 
Nos choques hipodinâmicos, vimos inicialmente que 
uma DO₂ reduzida acaba deflagrando um aumento 
compensatório na TEO₂ pelas células. Se formos "olhar" a 
microcirculação com calma veremos que este fenômeno 
faz passar um sangue com menor quantidade de O₂ do 
capilar para vênula pós-capilar, e daí para as veias, o que 
levará a uma queda da saturação venosa de O₂ obtida da 
artéria pulmonar, também conhecida como saturação de 
O₂ do sangue venoso misto (SvO₂). Lembrem-se que o 
sangue da artéria pulmonar é venoso. 
Outros fatores além do aumento da TEO₂ reduzem a SvO₂. 
Os principais incluem: queda no conteúdo de O₂ no 
sangue arterial, diminuição do DC, redução da 
Hemoglobina (Hb) e aumento da VO₂. 
Em pacientes sem monitorização invasiva com cateter de 
SwanGanz (somente com cateter profundo e medidas da 
PVC) a saturação venosa de O₂ pode ser medida 
diretamente de sangue colhido da veia cava superior, 
sendo chamada de ScvO₂. 
 
Como fica a svo₂ na sepse grave e no choque 
séptico? 
Vai depender do momento de evolução do paciente. 
Embora a TEO₂ esteja diminuída, esta alteração não 
ocorre de imediato. Lembrem-se que nas fases iniciais da 
sepse grave e do choque séptico o que temos é um 
paciente com extrema hipovolemia relativa (os vasos 
dilatam e o sangue em seu interior acaba sendo 
"insuficiente"). Dessa forma, a TEO₂ vai se comportar 
como nos choques hipodinâmicos, estando aumentada, o 
que vai justificar uma SvcO₂ baixa. Quando repomos 
volume no doente inauguramos a fase hiperdinâmica e 
esta, por coincidência ou não, vem acompanhada dos 
reais distúrbios microcirculatórios, ou seja, TEO₂ 
reduzida e, por isso, um aumento gradual na SvcO₂. Esta, 
que estava reduzida, tende inicialmente à normalidade. 
O mesmo raciocínio se aplica naturalmente à SvO₂. 
 
O mecanismo do êxito letal no choque é a Disfunção de 
Múltiplos Órgãos e Sistemas (DMOS). Seria muito bom 
para o paciente se o choque fosse apenas um distúrbio 
hemodinâmico, microvascular e metabólico... Ele seria 
simplesmente reversível na maioria dos casos e não 
haveria morte. Pois é... Infelizmente, essa não é a 
realidade... O aspecto mais importante do choque, na 
verdade, é a evolução para uma fase tardia, caracterizada 
pela lesão orgânica múltipla. Nesse momento, a 
letalidade torna-se bastante elevada, mesmo se o 
distúrbio hemodinâmico for corrigido. 
A hipóxia celular, o trauma e a sepse são fatores capazes 
de ativar o sistema inflamatório. A inflamação é um 
processo fisiológico localizado, definido pela 
vasodilatação (calor e rubor) e aumento da 
permeabilidade capilar (edema) desencadeados por 
mediadores químicos que, em última análise, têm o 
intuito de atrair neutrófilos e monócitos para o local – 
células estas que possuem a função de matar micro-
organismos e induzir o reparo tecidual. No choque, 
entretanto, o estímulo inflamatório pode ocorrer em 
vários órgãos e tecidos ao mesmo tempo, culminando em 
lesão orgânica generalizada. 
Os fatores relacionados ao choque estimulam 
macrófagos a produzir e liberar uma citocina – o fator de 
necrose tumoral-alfa (TNF-α), talvez um dos mais 
importantes mediadores inflamatórios do choque. O seu 
papel já está bem documentado no choque séptico (a 
endotoxina dos Gram-negativos e o ácido teicoico dos 
Gram-positivos podem induzir a sua liberação). O TNF-α 
estimula a invasão de leucócitos aos tecidos, ao aumentar 
a formação de neutrófilos na medula óssea (leucocitose) e 
ao mesmo tempo promover a expressão endotelial de 
moléculas de adesão leucocitária (ICAM-1, VCAM-1, P-
selectina). Os neutrófilos podem ser os responsáveis 
diretos pela lesão tecidual – quando ativados, liberam 
radicais livres derivados do oxigênio, N-cloraminas e 
enzimas proteolíticas – substâncias de um alto poder 
lesivo. 
O TNF-α também estimula leucócitos a produzir e liberar 
citocinas (IL-1, IL-6, IL-8 e o próprio TNF-α) importantes 
na manutenção e exacerbação do processo inflamatório. 
Diversos mediadores inflamatórios são liberados por 
efeito direto ou indireto das citocinas: PAF (um dos mais 
potentes), prostaglandinas, leucotrienos, bradicinina, 
fatores quimiotáticos do sistema complemento (C3a, 
C5a). A Interleucina-6 (IL-6) age no fígado, estimulando a 
liberação de proteínas da fase aguda, como a Proteína C-
Reativa (PCR) e o amiloide A. Existe no choque séptico um 
estado pró-coagulante, que tem como características 
uma redução dos níveis de proteínas anticoagulantes, 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
como as proteínas C e S e a antitrombina, e um aumento 
do inibidor do ativador do plasminogênio do tipo 1 (PAI-
1), o que dificulta a lise da malha de fibrina. Além disso, a 
ativação de plaquetas e dos fatores de coagulação é 
fenômeno encontrado em fases avançadas de todos os 
tipos de choque, justificando, dentre outros achados, a 
formação de microtrombos na rede capilar, o que 
contribui para o distúrbio microcirculatório. O TNF-α é 
um importante inotrópico negativo, à medida que 
estimula a produção do lipídio esfingosina que, por sua 
vez, bloqueia a saída de cálcio do retículo 
sarcoplasmático do miócito cardíaco. 
O TNF-α age sobre o endotélio, induzindo a formação de 
um tipo especial da enzima óxido nítrico sintetase. Essa 
enzima é capaz de sintetizar níveis 100 vezes maiores que 
o normal de óxido nítrico (NO) – um potente 
vasodilatador e um dos principais fatores incriminados 
na vasodilatação do choque séptico. Em altas 
concentrações no tecido hipóxico, o NO pode reagir com 
o ânion superóxido (O₂ - ) para gerar o radical 
peroxinitrito (ONOO- ), altamente lesivo para as 
mitocôndrias. O NO também é um importante inotrópico 
negativo – aumenta os níveis de GMPc do miócito, 
levando à desfosforilação dos canais L de cálcio da 
membrana (um efeito oposto ao AMPc). Como resultado, 
o influxo sistólico de cálcio, determinante da 
contratilidade miocárdica, encontra-se reduzido. 
Outro aspecto da lesão tecidual é a lesão de reperfusão. A 
hipóxia prolongada depleta progressivamente os 
estoques de ATP das células. À medida que vai sendo 
utilizado, o ATP volta a ser ADP. O ADP pode seguir um 
caminho metabólico, convertendo-se sequencialmente 
em AMP, adenosina, inosina e hipoxantina. O resultado é 
o acúmulo de hipoxantina no citoplasma da célula 
depletada em ATP. A hipoxantina, na presença de O₂, 
sofre ação da xantina oxidase, que transforma ahipoxantina em xantina e o O₂ em O₂ - (ânion superóxido). 
Esse radical livre sofre ação da superóxido dismutase, se 
convertendo em H₂O₂ (peróxido de hidrogênio) que logo 
libera o radical hidroxila (OH), altamente reativo. Em 
resumo, quando reperfundimos um tecido depletado 
previamente em ATP, podemos aumentar mais ainda a 
lesão a suas células, pois o O₂ fornecido acaba sendo 
transformado em radicais livres altamente citotóxicos. 
Os eventos acima descritos podem culminar na morte 
celular. Depletada de ATP e com a queda do pH 
citoplasmático, a célula vai perdendo a ação de suas 
enzimas, como a Na + K +- ATPase e a Ca ++- ATPase, 
permitindo a excessiva entrada de líquido e de cálcio. A 
peroxidação dos fosfolipídios pelos radicais livres 
derivados do O₂ contribui para a disfunção da membrana 
celular e para a morte das mitocôndrias. Os lisossomas se 
rompem no citoplasma, liberando suas hidrolases ácidas, 
responsáveis pelo processo de autólise. Nesse momento, 
a morte celular já se instalou. Se o processo se generalizar 
entre os diversos órgãos e sistemas, a morte do organismo 
sobrevém. 
 
 
Choques Hipodinâmicos 
Os pacientes com choque hipodinâmico se apresentam 
com "fáscies de sofrimento" (em inglês, ill appearance), 
palidez cutâneo-mucosa, sudorese fria e pegajosa, 
principalmente nas extremidades, taquicardia, 
taquipneia, com pulsos radiais finos ou impalpáveis, 
oligúria e hipotensão arterial. Como vimos, a hipotensão 
arterial (definida como PA sistólica < 90 mmHg) não é um 
critério obrigatório. Na , estão os principais critérios para 
o diagnóstico empírico de choque. Esses critérios se 
encaixam perfeitamente nos choques hipodinâmicos, 
mas podem ser também utilizados para o diagnóstico de 
outros tipos de choque, como o choque séptico. 
O restante do quadro depende da causa do choque. Por 
exemplo, um politraumatizado com história de perda 
sanguínea aguda ou que apresenta sinais de hemorragia 
interna – hemotórax, hemoperitônio, hematoma 
muscular de grande monta – nos fala a favor de um 
choque hemorrágico. A mesma hipótese pode ser 
constatada quando há história de hemorragia digestiva 
aguda (hematêmese, melena, hematoquezia). Devemos 
lembrar que os pacientes idosos e os previamente 
doentes (cardiopatas, nefropatas, cerebropatas) toleram 
menos o sangramento do que os jovens previamente 
hígidos. 
No trauma torácico, devemos lembrar, além do 
hemotórax, de outras causas de choque que necessitam 
de uma rápida abordagem intervencionista, como o 
pneumotórax hipertensivo e o tamponamento 
pericárdico agudo, por hemopericárdio. Nesses dois 
casos, o paciente encontra-se chocado e com turgência 
jugular patológica. A assimetria respiratória entre os 
hemitóraces, com hipertimpanismo de um deles sugere 
muito o pneumotórax hipertensivo, enquanto o 
abafamento completo de bulhas aponta para o 
diagnóstico do hemopericárdio. 
Um paciente masculino acima de 40 anos ou feminino 
acima de 50 anos que apresentou um quadro de dor 
torácica súbita, evoluindo com choque, leva a três 
importantes hipóteses diagnósticas: (1) infarto agudo do 
miocárdio com choque cardiogênico; (2) dissecção 
aórtica aguda, com rotura de aorta para o pericárdio, 
pleura ou peritônio; (3) tromboembolismo pulmonar 
maciço. No choque cardiogênico por infarto extenso de 
Ventrículo Esquerdo (VE) ou de VD podemos encontrar 
turgência jugular patológica, assim como no 
hemopericárdio consequente a uma dissecção aguda de 
aorta ou no tromboembolismo pulmonar maciço. A 
taquidispneia e a cianose são achados bastante 
proeminentes neste último. A estertoração pulmonar e a 
ortopneia franca podem ocorrer no choque 
cardiogênico. O hemopericárdio também pode ser 
decorrente da rotura da parede livre do VE, no contexto 
de um Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) – essa é uma das 
complicações mecânicas do IAM. Elas são raras (< 5% dos 
casos) e costumam aparecer entre o 1 o e 5 o pós-IAM. 
No choque cardiogênico, é importante a avaliação do 
ritmo cardíaco. Algumas taquiarritmias muito rápidas ou 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
bradiarritmias muito lentas podem desencadear o 
choque e devem ser prontamente revertidas. A fibrilação 
atrial com alta resposta ventricular, a taquicardia 
ventricular sustentada e alguns casos raros de 
taquicardia supraventricular paroxística e flutter atrial 
podem levar à instabilidade hemodinâmica. O 
tratamento de escolha é cardioversão elétrica 
sincronizada. As bradiarritmias que podem levar ao 
choque geralmente são o Bloqueio Atrioventricular de 
segundo grau (BAV de 2 o grau) Mobitz tipo II e o Bloqueio 
Atrioventricular Total (BAVT) com ritmo de escape baixo. 
Nesses casos está indicado um marcapasso provisório 
transvenoso. 
Um tipo especial de choque cardiogênico é o infarto de 
VD. Geralmente associado ao IAM de parede 
inferoposterior, pode levar a uma grave disfunção 
sistólica do VD, provocando baixo DC, aumento das 
pressões de enchimento do VD (como a PVC), aumento da 
RVS e choque. Como o VD costuma tolerar bem a infusão 
de volume, esse choque costuma ter uma boa resposta à 
infusão volêmica, mas quase sempre é necessário o uso de 
inotrópicos. 
É importante destacar que muitos pacientes hipotensos 
ou mesmo chocados na fase aguda do IAM podem ter uma 
excelente resposta à reposição volêmica, afastando como 
principal hipótese o choque cardiogênico. No contexto 
do IAM, ele é definido por uma PA sistólica < 90 mmHg 
e/ou sinais de disfunção orgânica não responsivos à 
reposição de fluidos. Devemos lembrar que a prova 
terapêutica com volume só está indicada se o paciente 
não estiver com sinais típicos de congestão pulmonar 
(ortopneia, estertores pulmonares etc.). 
É de extrema importância, que, diante de um quadro de 
choque, o clínico tenha decisões rápidas – enquanto já 
começa a monitorizar e tratar o paciente empiricamente, 
já está pensando e avaliando o diagnóstico etiológico, 
através de uma rápida anamnese com o paciente ou seus 
familiares, um exame físico sumário, um ECG, uma 
radiografia de tórax, uma gasometria arterial e, 
eventualmente, até um ecocardiograma transtorácico ou 
transesofágico. 
 
 
Choques Hiperdinâmicos 
Choque Séptico 
Em 2016 foi realizado o Terceiro Consenso Internacional 
para a Definição de Sepse e Choque Séptico (Sepsis-3), 
que modificou alguns conceitos importantes: 
• INFECÇÃO: definida por invasão de tecido 
normalmente estéril por micro-organismos. 
• BACTERIEMIA: é a presença de bactérias 
viáveis na corrente sanguínea ou crescimento 
de bactérias na hemocultura. 
• SEPSE: é definida pela presença de disfunção 
de órgãos ameaçadora à vida, sendo 
ocasionada por uma resposta inflamatória 
desregulada do hospedeiro à infecção. A 
disfunção de órgãos encontra-se presente 
quando há elevação aguda ≥ a 2 pontos no 
escore SOFA consequente à infecção. 
• CHOQUE SÉPTICO: pode ser considerado um 
subtipo de sepse; é definido como a 
persistência de hipotensão e lactato sérico 
elevado (> 18 mg/dl ou > 2 mmol/l) apesar de 
uma ressuscitação volêmica adequada em 
pacientes com sepse. Estes pacientes 
necessitam obrigatoriamente do uso de aminas 
vasopressoras para manter uma PAM ≥ 65 
mmHg. 
 
Nesse texto, sepse é definida pela presença de disfunção 
de órgãos ameaçadora à vida, sendo ocasionada por uma 
resposta inflamatória desregulada do hospedeiro à 
infecção. A partir de então, a gravidade da disfunção de 
órgãos passou a ser avaliada por um escore conhecido 
como SOFA (Sequential [Sepsis-Related] Organ Failure 
Assessment Score). Na realidade, disfunção de órgãos 
passou a ser caracterizada por uma mudança aguda no 
escore SOFA ≥ 2 pontos consequente à infecção. A 
disfunção, quando presente, encerra uma mortalidade 
hospitalar global de aproximadamente 10%. 
Outro escore, rápido de ser avaliado à beira do leito, tem 
sidopreconizado em pacientes fora de Unidade de 
Terapia Intensiva (UTI) e inclui três dados: FR ≥ 22 irpm, 
alteração do estado mental e PA sistólica ≤ 100 mmHg; 
este escore, conhecido como quick SOFA, identifica, 
com bom valor preditivo, pacientes com infecção que 
apresentam mau prognóstico (pontuação ≥ 2). 
O termo sepse grave foi abandonado. Muitos autores 
criticam o SOFA acusando-o de omitir dados 
importantes, como a dosagem sanguínea do lactato, por 
exemplo. 
 
 
 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
Nesse consenso, o termo Síndrome da Reposta 
Sistêmica Inflamatória (SIRS) não foi mais relacionado 
à sepse. Os critérios de SIRS não necessariamente 
implicam em uma resposta inflamatória desregulada e 
ameaçadora à vida. Estes critérios podem estar presentes 
em muitos pacientes hospitalizados, incluindo aqueles 
que jamais desenvolverão um processo infeccioso, e em 
muitos casos, nem apresentarão um prognóstico adverso. 
Contudo, muitos autores citam que os sinais e sintomas da 
sepse continuam sendo pouco específicos e incluem 
diversas combinações dos seguintes: 
(1) sintomas direcionados a uma fronte infecciosa 
(tosse e dispneia podem sugerir pneumonia, dor 
e exsudato purulento em uma ferida operatória 
podem indicar infecção de sítio cirúrgico); 
(2) hipotensão arterial (hipotensão arterial sistólica 
< 90 mmHg ou PAM < 70 mmHg); 
(3) temperatura > 38,3ºC ou < 36ºC; 
(4) FC > 90 bpm; 
(5) taquipneia (FR > 20 irpm); 
(6) alteração do estado mental; 
(7) íleo adinâmico; e 
(8) tempo de enchimento capilar prolongado, 
cianose ou livedo (cianose mosqueada). 
O choque séptico passou a ser uma variedade da sepse, 
situação em que o indivíduo permanece hipotenso e 
com níveis de lactato > 18 mg/dl (> 2 mmol) a despeito 
de uma ressuscitação volêmica adequada; esses 
pacientes obrigatoriamente necessitarão de aminas 
vasopressoras para manter uma PAM ≥ 65 mmHg. 
Nesses casos, a mortalidade hospitalar é de 
aproximadamente 40%. 
Após a reposição volêmica, o choque séptico se 
transforma em um quadro hiperdinâmico; na ausência 
de aminas, a PA se encontra surpreendentemente 
baixa (< 90 mmHg), com oligúria e alteração do estado 
mental; há indubitavelmente disfunção de órgãos. Além 
da hiperlactatemia, o laboratório apresenta leucocitose 
com desvio à esquerda, que se torna importante (desvio 
até bastões, metamielócitos ou mielócitos) em casos de 
infecção por bactérias piogênicas, Gram-negativas ou 
positivas. Não há diferença clínica entre o choque 
séptico causado por Gram-negativos daquele ocasionado 
por micro-organismos Gram-positivos. 
Alguns pacientes com choque séptico encontram-se 
hipotérmicos (TAx < 36ºC), enquanto outros apresentam 
leucopenia inferior a 4.000 células/mm³. Estes achados 
funcionam como sinais de mau prognóstico e são mais 
comuns na presença de comorbidades (doença renal 
crônica, câncer, uso de quimioterapia citotóxica, doença 
cerebrovascular avançada etc.) e nos idoso acima de 70 
anos. 
 
Choque Anafilático 
Trata-se de um tipo especial de choque hiperdinâmico. O 
choque anafilático é desencadeado pela exposição a um 
determinado alérgeno, que pode ser um medicamento 
ou uma substância presente nos alimentos (frutos do 
mar, leite e derivados, nozes, amêndoas etc.). Outras 
condições que podem precipitar uma reação anafilática 
incluem veneno de insetos da ordem Hymenoptera 
(abelhas e vespas), exercício (associado a alimentos ou 
isoladamente), imunoterapia (aplicação terapêutica de 
alérgenos) e látex e transfusão de plasma (< 1% dos casos). 
A reação anafilática se baseia no princípio da alergia – 
uma reação de hipersensibilidade imediata (tipo I), 
dependente da liberação de grandes quantidades de 
histamina pelos mastócitos, além de outros 
mediadores importantes, como PAF, leucotrienos e 
bradicinina. 
Essa reação é mediada por IgE. Uma exposição prévia 
ao antígeno (sensibilização) estimula a síntese de IgE 
específica, que então se liga à membrana dos 
mastócitos, presentes no tecido conjuntivo da pele, 
subcutâneo, brônquios e vasos sanguíneos. A ligação 
entre o antígeno e o IgE dos mastócitos numa segunda 
exposição desencadeia a degranulação em massa dessas 
células. 
Na anafilaxia, o indivíduo pode apresentar dor 
abdominal, vômitos, prurido, lesões cutâneas do tipo 
urticária, angioedema de face e, nos casos mais graves, 
edema de glote, broncoespasmo e choque. O choque 
anafilático é um choque hiperdinâmico, desencadeado 
por uma vasodilatação generalizada inapropriada. 
Pode ser revertido prontamente com o uso de 
adrenalina. A droga inicialmente é administrada pela 
via intramuscular, no vasto lateral da coxa (dose de 0,3 
mg para adultos e 0,15 mg em crianças < 50 kg), com 
uma ou duas doses repetidas; em pacientes que já 
desenvolveram hipotensão significativa ou naqueles 
que não responderam ao uso intramuscular, a 
adrenalina venosa deve ser iniciada, na dose de 2 a 10 
μg/min (em crianças 0,1 a 1 μg/kg/min), em infusão 
contínua. Os anti-histamínicos utilizados são tanto os 
bloqueadores H1 (difenidramina) quanto os 
bloqueadores H2 (ranitidina); estas medicações 
promovem uma resolução mais rápida da urticária, 
sem influenciar nos níveis de pressão arterial ou em 
outros sintomas. Os corticosteoides são recomendados 
de forma empírica, com o objetivo de atenuar possíveis 
reações tardias. As drogas mais empregadas são a 
metilprednisolona e a prednisona. O glucagon 
endovenoso pode ser administrado em pacientes não 
responsivos à adrenalina, principalmente naqueles que 
utilizam rotineiramente os betabloqueadores. 
 
Choque Neurogênico 
É um tipo de choque hiperdinâmico, semelhante ao 
choque séptico. Pode ser desencadeado por condições 
como traumatismo cranioencefálico grave ou Trauma 
Raquimedular (TRM). Todo o fluxo simpático é 
interrompido de forma brusca e o paciente evolui 
rapidamente com uma intensa vasoplegia, acometendo 
os leitos arterial e venoso. A venoplegia reduz o retorno 
venoso e, portanto, o DC. A dilatação arteriolar é 
responsável pela queda da RVS. 
O quadro clínico é de um paciente chocado e, 
curiosamente, com extremidades quentes e FC 
tendendo a bradicardia. Em situações de politrauma, 
por exemplo, uma FC reduzida e as extremidades 
aquecidas frente à instabilidade hemodinâmica afastam, 
a princípio, a perda hemorrágica como a causa da 
alteração pressórica. O tratamento consiste em 
ressuscitação volêmica para "preencher espaço" nos 
vasos extremamente dilatados, somada ao uso de 
aminas vasopressoras como a noradrenalina ou a 
fenilefrina (efeito somente alfa). 
 
Outros Tipos De Choque 
Choques endócrinos 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
São complicações conhecidas e documentadas da crise 
tireotóxica, do coma mixedematoso, da insuficiência 
adrenal aguda e da apoplexia hipofisária. 
• Choque tireotóxico é semelhante ao choque 
séptico, apresentando-se desde o início com 
um intenso hiperdinamismo circulatório – alto 
DC, queda da RVS, taquicardia, taquipneia, 
aumento dos diâmetros ventriculares, terceira 
bulha, sopro sistólico funcional. Estes 
pacientes podem se apresentar hipertensos, 
mas evoluir para choque se a crise tireotóxica 
não for prontamente diagnosticada e tratada. Os 
indivíduos geralmente têm bócio, exoftalmia e 
sintomas prévios de tireotoxicose, sendo quase 
sempre portadores da doença de Basedow-
Graves. O ritmo de fibrilação atrial com alta 
resposta ventricular é muito comum nesses 
casos. O tratamento deve ser feito com 
propiltiouracil em altas doses, lugol, 
prednisona e, se a PA sistólica não estiver 
inferior a 90 mmHg, betabloqueadores 
administrados cuidadosamente. Os hormônios 
tireoidianos em excesso aumentam o efeito 
adrenérgico sobre o miocárdio. Isso por um lado 
aumenta o DC, mas por outro lado pode ser 
tóxicoaos miócitos. 
• Choque mixedematoso é um choque 
hipodinâmico, caracterizado por um baixo 
débito cardíaco, bradicardia sinusal 
acentuada, hipotermia, bradipneia e um 
aumento da RVS (vasoconstrição). 
• Choque adrenal (apoplexia adrenal – 
complicação da sepse ou da meningococcemia) é 
muito semelhante ao choque da apoplexia 
hipofisária (hemorragia da hipófise, geralmente 
dentro de um macroadenoma) – choque 
hipofisário. A perda aguda do efeito 
glicocorticoide leva a um tipo de choque 
hipodinâmico, com características 
semelhantes às da hipovolemia. Hiponatremia 
refratária e hipoglicemia são achados 
frequentes. A hipercalemia e a acidose 
metabólica hiperclorêmica só ocorrem na 
insuficiência adrenal primária, por conta do 
hipoaldosteronismo (e não do hipocortisolismo). 
Devemos lembrar que a zona glomerulosa da 
suprarrenal só é destruída ou atrofiada na 
insuficiência primária da glândula, pois não 
existe relação desta região com hormônios 
hipofisários. Por esse motivo, não encontramos 
os distúrbios eletrolíticos e acidobásicos 
descritos na apoplexia hipofisária. 
A intoxicação exógena por drogas ilícitas ou 
medicamentos também pode levar ao choque. As 
substâncias mais incriminadas são: antagonistas do 
cálcio, betabloqueadores, sedativos, narcóticos, 
antidepressivos, agentes anestésicos, estimulantes do 
SNC etc. Em sua maioria, acarretam choques 
vasoplégicos e com depressão miocárdica. Além das 
medidas de suporte interessadas a todos os choques, 
algumas dessas drogas exigem o uso de antídotos 
(gluconato de cálcio para os antagonistas do cálcio; 
glucagon para os betabloqueadores; flumazenil para os 
benzodiazepínicos e naloxone para os opioides 
narcóticos). 
Os diversos tipos de choque podem causar variados graus 
de disfunção orgânica. Se o distúrbio hemodinâmico não 
for prontamente controlado e o fator etiológico não for 
corrigido, a tendência é que o processo evolua para a 
síndrome de Disfunção de Múltiplos Órgãos e Sistemas 
(DMOS), definida como a presença de três ou mais 
comprometimentos orgânicos. 
 
Cérebro 
Por ser um órgão nobre, o cérebro é protegido da 
isquemia por uma alta capacidade de autorregulação do 
seu fluxo sanguíneo. A isquemia cerebral só ocorre 
quando a PAM está abaixo de 50- 55 mmHg (PAM = PAs + 2 
x PAd / 3) em indivíduos sem doença cerebrovascular 
prévia. Porém, nos idosos e indivíduos com patologia 
vascular cerebral prévia, a isquemia cerebral pode 
ocorrer com PAM mais alta. No choque séptico e sirético, 
mediadores inflamatórios sistêmicos podem inibir 
diretamente a função neuronal, determinando o que 
chamamos de encefalopatia séptica. Os distúrbios 
tóxicos, eletrolíticos e metabólicos também podem 
contribuir para uma disfunção cerebral em pacientes 
com choque. 
 
Coração 
Assim como o cérebro, o coração é um órgão nobre, sendo 
protegido da isquemia por seu alto poder de 
autorregulação do fluxo coronariano. A resposta 
cardíaca mais comum ao choque é decorrente da 
ativação neuro-humoral (sistema adrenérgico), levando 
à taquicardia, aumento da contratilidade, arritmogênese. 
Entretanto, mediadores inflamatórios sistêmicos, 
liberados especialmente no choque séptico, podem inibir 
a contratilidade miocárdica – são os "fatores depressores 
miocárdicos da sepse". O principal candidato é o TNF-α. 
Este mediador age diretamente ou através da produção 
excessiva de NO pelo endotélio (ver anteriormente). Em 
pacientes com doença coronariana prévia, o choque 
pode realmente levar à isquemia miocárdica, 
prejudicando gravemente a função ventricular. 
 
Pulmões 
A resposta mais comum do choque relativa aos pulmões é 
a taquipneia e hiperpneia, propiciada pela ativação 
direta de receptores do interstício pulmonar ou pela 
acidose metabólica. Na ausência de acidose metabólica 
prévia, a hiperpneia leva à alcalose respiratória. 
Substâncias liberadas na sepse podem estimular 
diretamente o centro respiratório provocando alcalose 
respiratória. Uma das disfunções orgânicas mais temidas 
do choque e da sepse/SIRS é a lesão pulmonar – a 
Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) ou 
Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA). 
Caracteriza-se pelo acúmulo de neutrófilos aderidos ao 
endotélio alveolar, que liberam mediadores e 
substâncias oxidantes e proteolíticas. Uma grave lesão 
alveolar então se instala, marcada pela formação de uma 
membrana hialina revestindo o interior dos alvéolos, 
edema alveolar não cardiogênico (por aumento da 
permeabilidade capilar) e perda do surfactante por lesão 
dos pneumócitos tipo II. Sem o surfactante, diversos 
alvéolos entram em colapso, como se fossem múltiplas 
atelectasias. O resultado final é um grave distúrbio de 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
troca gasosa, levando à hipoxemia refratária e 
necessidade de ventilação mecânica com altos níveis de 
PEEP (pressão positiva no final da expiração). 
 
Rins 
Os rins são órgãos de "prioridade intermediária" na 
homeostase cardiovascular. Costumam ser mais 
poupados que as vísceras, a musculatura esquelética e a 
pele/subcutâneo, mas são lesados muito antes do cérebro 
e do coração. A autorregulação do fluxo renal não é tão 
eficaz quanto a cerebral e cardíaca. A taxa de filtração 
glomerular começa a se reduzir quando a PAM está 
inferior a 70 mmHg. Inicialmente, o paciente desenvolve 
uma insuficiência pré-renal, que pode levar à oligúria e 
azotemia, prontamente responsiva à reposição de 
fluidos. Porém, uma isquemia renal prolongada, 
especialmente na sepse e no trauma, pode levar à lesão 
renal – sob a forma de Necrose Tubular Aguda (NTA). A 
NTA isquêmica também se manifesta com oligúria e 
azotemia, mas difere da pré-renal por não responder à 
reposição volêmica. A diferenciação laboratorial entre 
azotemia pré-renal e NTA foi amplamente revista no 
módulo de "Nefrologia". Nos casos mais graves, o paciente 
evolui com uremia, necessitando de diálise. Se houver 
melhora do choque ou da sepse, a tendência é para a 
recuperação da função renal, com poliúria, após 7-21 
dias. Raramente, a necrose estende-se para o córtex renal 
(necrose cortical aguda), tornando a disfunção renal 
irreversível. 
 
Trato Gastrointestinal 
As vísceras abdominais estão entre os órgãos mais 
acometidos no choque pela hipoperfusão, já que são um 
dos primeiros a sofrerem vasoconstrição por ação 
adrenérgica. Este fenômeno leva a diversas 
consequências como gastrite isquêmica, lesão aguda da 
mucosa gástrica (causa importante de hemorragia 
digestiva em pacientes críticos), colecistite acalculosa, 
pancreatite, íleo metabólico, isquemia mesentérica 
aguda não oclusiva e colite isquêmica (levando à 
hematoquezia). Uma consequência grave da agressão a 
mucosa intestinal é a translocação de toxinas 
provenientes das bactérias da microbiota ileocolônica. A 
endotoxina é uma das principais, sendo incriminada no 
desenvolvimento da DMOS. 
 
Fígado 
A hepatite isquêmica é uma entidade bem documentada, 
manifestando-se pelo aumento das aminotransferases, 
fosfatase alcalina e bilirrubinas, bem como pela 
disfunção hepática. A função sintética do fígado pode ser 
comprometida, levando à hipoalbuminemia e ao 
alargamento do tempo de protrombina, pela deficiência 
de fatores da coagulação. Em alguns casos, especialmente 
no choque séptico, as aminotransferases podem subir a 
níveis semelhantes aos da hepatite viral. Esses casos 
cursam com também acentuada hiperbilirrubinemia, 
com predomínio de bilirrubina direta. O histopatológico 
mostra uma extensa lesão centrolobular. Se o paciente se 
recuperar do choque, a tendência é a melhora do 
hepatograma após 5-10 dias. Entretanto, na maioria dos 
casos de choque ou sepse, o comprometimento hepático é 
leve, caracterizando-se apenas por uma discreta 
elevação de aminotransferases, bilirrubinas e fosfatase 
alcalina, de caráter transitório.Sistema Hematológico 
Um estímulo à medula óssea a produzir e liberar 
leucócitos é comum, especialmente na sepse e no trauma, 
explicando a leucocitose e o desvio para a esquerda. Nas 
fases avançadas do processo, o paciente pode evoluir 
com insuficiência medular, levando a uma espécie de 
"esgotamento hematológico" – expressando-se como 
pancitopenia. A síndrome da Coagulação Intravascular 
Disseminada (CIVD) é comum na sepse e nas 
complicações obstétricas. A ativação da hemostasia 
(primária e secundária) leva à formação de trombos na 
microcirculação, o que agrava a perfusão tecidual. Uma 
vez consumidos plaquetas e fatores de coagulação, 
principalmente o fibrinogênio, sobrevêm manifestações 
de sangramento (sítios de punção, petéquias, equimoses, 
sangramentos em cavidades etc.). No choque 
hemorrágico, a politransfusão pode causar 
plaquetopenia e coagulopatia dilucionais. 
 
Medidas Gerais 
Os pacientes com o diagnóstico clínico de choque devem 
ser prontamente atendidos. Antes de mais nada, devem 
ser instalados o monitor cardíaco, o oxímetro de pulso 
e o paciente deve ser colocado no oxigênio em máscara 
de Hudson. Em seguida, punciona-se um acesso venoso 
periférico com um jelco nº 16 ou nº 18. Nos pacientes 
vítimas de trauma ou choque hemorrágico, é de praxe a 
instalação de dois acessos venosos periféricos para 
aumentar a capacidade de reposição de fluidos. Não se 
esqueçam da tríade inicial para todo paciente grave: 
OXIGÊNIO – VEIA – MONITOR. 
O sangue do paciente deve ser prontamente coletado 
para tipagem, bioquímica, hemograma, gasometria 
arterial, enzimas cardíacas, lactato e PCR. Em certos 
casos suspeitos, os hormônios tireoidianos e o cortisol 
devem ser dosados. Nos casos em que há sinais de 
insuficiência ventilatória (esforço ventilatório intenso, 
respiração agônica, redução do nível de consciência) o 
indivíduo deve ser prontamente intubado e colocado em 
ventilação mecânica. Devemos tomar cuidado com o uso 
dos sedativos, uma vez que estas drogas podem piorar a 
instabilidade hemodinâmica. A pressão positiva do 
ventilador também é um fator potencialmente deletério 
para a hemodinâmica do paciente, pois reduz o retorno 
venoso. A reposição volêmica pode corrigir esse 
problema. A princípio, os pacientes com instabilidade 
hemodinâmica não devem ser submetidos a uma PEEP 
alta (> 10 cmH2O). A saturação de O2 deve ser mantida 
acima de 92%. 
A não ser que o paciente esteja congesto (ortopneia, 
terceira bulha, estertores pulmonares) ou sabidamente 
hipervolêmico, o primeiro passo no tratamento do 
choque é a reposição de fluidos. Além de ser a principal 
medida no choque hipovolêmico, é parte fundamental 
do tratamento do choque séptico e pode ajudar em 
alguns casos de choque cardiogênico, quando existe 
um componente de hipovolemia (pelo uso prévio de 
diuréticos etc.). Neste momento, um cateter de Foley 
uretral deve ser instalado, para a monitorização do 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
débito urinário. A melhora da diurese é um excelente 
parâmetro de sucesso terapêutico. 
 
Aminas Inotrópicas E Vasopressoras 
As aminas vasopressoras mais utilizadas na prática do 
choque em nosso meio são a dopamina, a noradrenalina 
e, menos frequentemente, a adrenalina. Uma amina 
vasopressora está indicada em todos os casos de choque 
refratário à reposição volêmica ou outras medidas 
iniciais, quando a PA sistólica estiver abaixo de 80 
mmHg ou a PAM invasiva abaixo de 65-70 mmHg. Estas 
drogas agem através da vasoconstrição, aumentando a 
RVS e, portanto, a PAM. Com isso, melhoram a perfusão 
dos órgãos nobres, como o cérebro e o coração e, 
eventualmente, os rins. Para isso, têm que promover 
vasoconstrição do leito arteriolar dos órgãos não 
nobres, como as vísceras, a musculatura esquelética, a 
pele e o subcutâneo. No choque séptico, as aminas 
vasopressoras têm indicação precisa, pois agem no 
principal distúrbio hemodinâmico deste choque – a 
vasodilatação inapropriada, corrigindo (pelo menos em 
parte) a queda da RVS. 
As aminas inotrópicas sem efeito vasopressor são 
representadas pela dobutamina. As aminas dopamina, 
noradrenalina e adrenalina são ao mesmo tempo 
inotrópicas e vasopressoras. 
 
Dopamina 
Em doses entre 3 a 5 µg/kg/min, a dopamina tem apenas 
efeito dopaminérgico, isto é, são agonistas dos 
receptores dopaminérgicos do tipo DA2, presentes na 
vasculatura renal, esplâncnica, coronariana e cerebral. 
O efeito principal é a vasodilatação renal e esplâncnica. 
O estímulo aos receptores DA1 possui um efeito 
natriurético independente da vasodilatação renal. 
Contudo, a maioria dos estudos não demonstra benefício 
da dopamina em baixas doses ("doses renais") em termos 
de prognóstico do choque e da insuficiência renal aguda. 
Em doses mais altas, entre 5 a 10 µg/kg/min, a dopamina 
tem efeito cronotrópico (aumenta a frequência 
cardíaca) e inotrópico (aumenta a contratilidade 
ventricular), por agir sobre os receptores beta-1 
adrenérgicos do nódulo sinusal e do miocárdio, 
respectivamente. Na realidade, a dopamina é mais 
cronotrópica do que inotrópica, além de ser bastante 
arritmogênica. As verdadeiras doses vasoconstritoras 
são ainda mais altas, a partir de 10 µg/kg/min. Nessas 
doses, os receptores alfa vasculares são os mais 
estimulados, promovendo vasoconstrição arteriolar 
(aumentando a RVS) e venoconstrição (aumentando o 
retorno venoso e as pressões de enchimento cardíacas). 
 
Noradrenalina 
Trata-se de uma catecolamina com um potente efeito alfa 
vascular, isto é, uma importante ação vasoconstritora e 
venoconstritora. Apresenta um efeito menos 
pronunciado sobre os receptores beta do coração. É a 
amina de escolha na manutenção da pressão arterial e 
perfusão tecidual no choque séptico, já que o principal 
objetivo neste caso é a vasoconstrição, para corrigir a 
queda da RVS. Apesar de ter potente efeito 
vasoconstritor, não promove queda do DC. Além disso, 
não leva a aumento da frequência cardíaca. A dose 
situa-se entre 0,1 até 1,0 µg/kg/min. Todavia, em 
pacientes com choque hipovolêmico, esta amina não 
deve ser usada, pois apresentou maior incidência de 
isquemia renal. 
 
Adrenalina 
É a catecolamina com efeito inotrópico e vasopressor 
mais potente. É utilizada nos casos de choque 
cardiogênico ou séptico refratário a outras aminas. 
Alguns pacientes em fase avançada de choque só 
melhoram a PAM com a infusão de adrenalina – são os que 
têm um péssimo prognóstico. A adrenalina (ou 
epinefrina) age com grande potência sobre os receptores 
alfa, beta-1 e beta-2 adrenérgicos. A dose situa-se entre 
0,1 a 1 µg/kg/min. Em doses baixas (1-8 µg/min) o seu 
efeito já é bastante expressivo. O principal problema da 
adrenalina é o seu alto poder arritmogênico. 
 
Dobutamina 
É uma amina de grande potência inotrópica e um leve 
efeito vasodilatador arteriolar. Age sobre os receptores 
beta-1 do miocárdio, tendo um efeito inotrópico mais 
proeminente que o cronotrópico. O aumento do 
inotropismo pela estimulação beta1 advém do aumento 
dos níveis citoplasmáticos de AMPc que, em última 
análise, fosforilam os canais L de cálcio, facilitando a 
entrada celular deste íon na sístole ventricular. 
Ao contrário da dopamina, a dobutamina reduz as 
pressões de enchimento ventricular, pois, além de 
melhorar a contratilidade do miocárdio, ela reduz a pós-
carga (dilatando arteríolas por ação dos receptores beta-
2 periféricos) e otimiza a pré-carga (aumentando o 
retorno venoso através da venoconstrição mediada por 
receptores alfa). 
Além disso, tem a característica especial e particular de 
aumentar a perfusão coronariana, acompanhando o 
aumento da demanda miocárdica de O₂. Enquanto isso, a 
dopamina aumenta a demanda miocárdica de O₂, sem 
alterar a perfusão coronariana. É menos arritmogênica 
que a dopamina e a adrenalina. A sua principal indicaçãoé no choque cardiogênico (de VE ou VD), uma vez que a 
PAM encontra-se acima de 70 mmHg (ou a PA sistólica 
acima de 80 mmHg). Não pode ser feita isoladamente no 
choque com PA abaixo desses valores, devido ao seu leve 
efeito dilatador arteriolar. A dose varia de 3 até 20 
µg/kg/min. Alguns autores preconizam o uso da 
dobutamina no choque séptico em situações especiais 
(sempre associada à noradrenalina), para manter um 
índice cardíaco (DC/superfície corpórea) elevado (> 4,0 
L/min/m²), de forma a otimizar a DO₂. 
 
Vasopressina 
A vasopressina (ADH) é hormônio liberado na resposta 
ao trauma e em situações de estresse. Esta medicação é 
capaz de restaurar o tônus vascular em estados 
vasoplégicos, como no choque séptico. Embora um 
trabalho recente (Vasopressin and Septic Shock Trial – 
VASST) tenha demonstrado um efeito benéfico da droga, 
semelhante ao da noradrenalina, em casos de choque 
séptico, a vasopressina, neste contexto, continua sendo 
encarada como amina vasopressora de segunda linha. A 
dose inicial é de 0,01 a 0,03 U/min. Doses acima de 0,04 
U/min podem causar vasoconstrição coronária e 
redução da excreção de água livre e consequente 
hiponatremia. 
 
 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
Drogas De Uso Menos Frequente 
Os inibidores da fosfodiesterase, como a amrinone e a 
milrinone, têm sido utilizados com menor frequência 
atualmente. A dopexamina é um análogo da dopamina 
com efeitos dopaminérgicos e alfa-2 adrenérgicos. 
Alguns estudos demonstraram aumento do índice 
cardíaco e da perfusão esplâncnica em doentes 
chocados. 
 
 
Sepse é uma síndrome clínica caracterizada por 
alterações biológicas, fisiológicas e bioquímicas no 
hospedeiro, culminando em disfunção no 
funcionamento de órgãos e sistemas, secundária à 
resposta inflamatória desregulada a uma infecção. 
Diferentemente do antigo conceito de infecção 
generalizada, entende-se atualmente que o foco da 
infecção pode estar localizado em apenas um órgão, 
como o pulmão; no entanto, é a resposta do organismo 
para combater o agente infeccioso que provoca uma 
resposta inflamatória sistêmica descontrolada, não 
regulada e autossustentável responsável pela lesão 
celular e disfunções orgânicas atribuídas à sepse. 
Aceita-se ainda que a sepse faz parte de um continuum de 
gravidade, que se inicia na infecção não complicada, 
perpassa a sepse, o choque séptico e culmina na 
síndrome de disfunção de múltiplos órgãos (SDMOS) e 
morte. 
Os critérios diagnósticos de sepse têm evoluído com o 
passar dos anos: 
o Bone et al. (1992) definiram sepse como resposta 
inflamatória sistêmica (tabela 1) causada por infecção. 
o Singer et al. (2016), com o Sepse 3.0, definiram sepse 
como a presença de infecção suspeita ou confirmada 
associada com elevação aguda no escore SOFA (Tabela 
2) de 2 pontos ou mais (assume-se escore 0 em 
pacientes sem disfunção orgânica preexistente 
conhecida). 
 
A incidência de sepse nas unidades de terapia 
intensiva (UTIs) do Brasil é de 36 por 1.000 
pacientes/dia com mortalidade de cerca de 55% dos 
acometidos. A sepse é uma das principais causas de 
mortalidade hospitalar tardia no país, superando infarto 
agudo do miocárdio e câncer. Fatores de risco para pior 
evolução incluem extremos de idade, doenças 
imunossupressoras, câncer, medicamentos 
imunossupressores, diabetes, abuso de álcool, 
cateteres venosos ou outras condições que envolvam 
integridade cutânea. 
A incidência de sepse está aumentando no mundo. As 
possíveis razões para esse aumento provavelmente 
incluem: 
o Maior número de pacientes convivendo com 
imunossupressão (pacientes transplantados, em 
programas de quimioterapia, ou convivendo com o 
HIV/AIDS). 
o Desenvolvimento de microrganismos multirresistentes. 
o Aumento da expectativa de vida da população (pacientes 
com mais de 65 anos representam 60 a 85% dos casos). 
 
A causa mais comum de sepse é pneumonia. Estima-se 
que até 48% dos pacientes internados com diagnóstico de 
pneumonia evoluem com sepse. Além do pulmão (que 
representa 64% dos casos de sepse), outros focos são 
abdome (20%), corrente sanguínea (15%) e trato 
geniturinário (14%). A sepse pode ter origem na 
comunidade, ser nosocomial ou associada a cuidados de 
saúde. Cerca de 80% dos casos de sepse são da 
comunidade. O estudo SOAP relatou uma prevalência 
quase igual de infecções bacterianas Gram-positivas e 
Gramnegativas entre pacientes com sepse, com 
Staphylococcus aureus (Gram-positivo) e espécies de 
Pseudomonas e Escherichia coli (Gram-negativas) sendo 
os organismos mais frequentemente identificados. 
Infecção acontece quando um microrganismo 
patogênico invade um local estéril do corpo do 
hospedeiro. A resposta do hospedeiro à infecção é 
iniciada quando as células imunes inatas, 
particularmente os macrófagos, reconhecem e se ligam 
aos componentes microbianos, iniciando uma série de 
etapas que resultam na fagocitose e morte do invasor e 
fagocitose de detritos do tecido lesionado. Esse processo 
produz e libera uma gama de citocinas pró-inflamatórias 
pelos macrófagos, levando ao recrutamento de células 
inflamatórias adicionais. Essa resposta é altamente 
regulada por um equilíbrio de mediadores pró-
inflamatórios e anti-inflamatórios. A resposta local do 
hospedeiro é geralmente suficiente para resolver o 
processo infeccioso. O resultado final é a reparação e a 
cicatrização dos tecidos. 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
A sepse ocorre quando a liberação de mediadores pró-
inflamatórios em resposta a uma infecção excede os 
limites do ambiente local, levando a uma resposta 
generalizada. 
 
A causa da generalização é provavelmente multifatorial, 
envolve o agente infeccioso e o hospedeiro, e pode 
incluir: 
 O efeito direto dos microrganismos invasores ou de 
seus produtos tóxicos, por exemplo, componentes da 
parede celular bacteriana (endotoxina, 
peptidoglicano e ácido lipoteicoico), toxinas 
bacterianas (enterotoxina estafilocócica B, exotoxina 
A de Pseudomonas e proteína M de estreptococos 
hemolíticos do grupo A). 
 A liberação de grande quantidade de mediadores pró-
inflamatórios, que incluem o fator de necrose tumoral 
alfa (TNFalfa) e interleucina-1 (IL-1). 
 A ativação do sistema complemento. 
 Suscetibilidade genética individual ao 
desenvolvimento de sepse. 
 
Sepse, portanto, pode ser definida como uma 
inflamação intravascular descontrolada, não regulada 
e autossustentável que pode levar a lesão celular. Lesão 
celular é o mecanismo precursor da disfunção orgânica 
na sepse. 
Os mecanismos propostos para explicar a lesão celular 
incluem: 
 Isquemia tecidual: oxigênio insuficiente para suprir as 
demandas metabólicas de um tecido inflamado. 
 Lesão citopática: lesão celular direta, principalmente 
secundária a disfunção mitocondrial por mediadores 
pró-inflamatórios e aumento de indução de apoptose. 
 
Os mediadores inflamatórios na sepse também estão 
implicados no desenvolvimento de coagulação 
intravascular disseminada, caracterizada por 
microtromboses e hemorragias, complicadores do 
processo inflamatório. 
 
O paciente séptico pode se apresentar no departamento 
de emergência (DE) com sinais e sintomas relacionados à 
infecção (Tabela 4), à resposta inflamatória sistêmica 
(Tabela 1) ou à disfunção ou falência orgânica (Tabela 2). 
Assim, pacientes com quadro de sepse geralmente 
apresentam-se com queixas infecciosas, como tosse 
produtiva, dor abdominal ou disúria. Ao exame físico, 
pode-se encontrar febre, taquicardia e taquipneia. É 
importante ressaltar que a apresentação inicial da sepse 
é inespecífica, de modo que muitas outras condições, 
como pancreatite, podem se apresentar de maneira 
semelhante. Com a evolução do processo, sinais de 
disfunção orgânica, como insuficiência respiratória, 
insuficiênciarenal, insuficiência hepática e choque 
podem se desenvolver. 
 
Choque séptico, definido como disfunção hemodinâmica 
e metabólica associada a sepse, deve ser identificado 
precocemente e tratado de forma agressiva, pela 
mortalidade atribuída ao processo (Tabela 4). 
Hipotensão, taquicardia, diminuição do tempo de 
enchimento capilar, livedo ou cianose podem indicar 
choque. Sinais adicionais incluem estado mental 
alterado (rebaixamento ou agitação), oligúria e íleo. Esses 
achados podem ser modificados por doenças ou 
medicamentos preexistentes; por exemplo, pacientes 
idosos e usuários de betabloqueadores podem não exibir 
taquicardia. Por outro lado, pacientes mais jovens 
frequentemente desenvolvem taquicardia grave e 
prolongada e não se tornam hipotensos até que ocorra 
descompensação grave, muitas vezes repentina. 
Pacientes com hipertensão crônica podem desenvolver 
hipoperfusão crítica com uma pressão arterial mais 
elevada do que pacientes previamente saudáveis. 
 
Da mesma forma que a anamnese e o exame físico, os 
achados laboratoriais são pouco específicos, e 
geralmente estão associados à etiologia da sepse, 
resposta inflamatória sistêmica ou disfunção orgânica. 
Por outro lado, os exames laboratoriais e radiológicos são 
importantes para determinar o foco infeccioso (Tabela 5) 
e para diagnóstico da síndrome de sepse a partir da 
comprovação de disfunção orgânica (Tabela 6). A 
solicitação de exames deve ser realizada de maneira 
racional e orientada pela suspeição clínica. Dois pares de 
hemoculturas (meios de cultura para anaeróbio e 
aeróbio) devem ser solicitados para todos os pacientes 
com suspeita de sepse, preferencialmente antes da 
administração de antibióticos (desde que não haja atraso 
nessa administração). A ultrassonografia point-of-care 
(USPOC) tem ganhado importância na sepse, pois pode 
indicar o diagnóstico etiológico (pneumonia, 
pielonefrite, apendicite etc.), presença de complicações 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
(disfunção miocárdica) e orientar o tratamento 
(reposição volêmica). 
 
O diagnóstico de sepse é feito quando há aumento de 2 
ou mais pontos no escore SOFA, Sequential Sepsis-
related Organ Failure Assessment (Tabela 7). Critérios 
diagnósticos de sepse para populações específicas estão 
sendo propostos, como o Sepse Escore em Obstetrícia ≥ 6 
(Tabela 8) ou o Chronic Liver Failure (CLIF) Consortium 
Organ Failure Score ≥ 2 para pacientes cirróticos (Tabela 
9). Validação adicional desses escores é necessária antes 
que possam ser utilizados rotineiramente. 
No departamento de emergência, a contradição entre a 
necessidade de exames complementares para o 
estabelecimento diagnóstico e o benefício da instituição 
de tratamento precoce torna necessária a adoção de 
ferramentas para o rastreio de pacientes com sepse 
possível. 
Em pacientes com suspeita de infecção, ferramentas têm 
sido estudadas para triagem de pacientes com sepse 
possível: 
 
 SIRS (Tabela 1) ≥ 2 pontos: apresenta alta 
sensibilidade, mas baixa especificidade para o 
diagnóstico de sepse no DE. 
 qSOFA (Tabela 10) ≥ 2: apresenta baixa sensibilidade, 
mas alta especificidade para o diagnóstico de sepse. 
Pela baixa sensibilidade, esse critério não é 
recomendado para a triagem de sepse no DE. 
 NEWS (Tabela 11) ≥ 4: apresenta melhor acurária para 
sepse no DE (AUC 0,91) com sensibilidade comparável 
à do SIRS e especificidade comparável à do qSOFA. O 
escore NEWS é utilizado atualmente no pronto-
socorro do HC-FMUSP para a triagem de pacientes 
com suspeita de sepse. 
 
 
 
 
 
 
 
Antimicrobianos 
Recomendamos que a antibioticoterapia seja iniciada 
precocemente no paciente com sepse, 
preferencialmente em até 1 h da apresentação do 
paciente no DE. No entanto, o benefício da administração 
precoce de antibióticos em pacientes com sepse é 
controverso e tem sido alvo de estudo nos últimos anos. A 
escolha dos antimicrobianos, embora empírica, pode ser 
complexa e deve ser personalizada para o paciente 
(Tabela 13). Sugere-se que a antibioticoterapia seja 
direcionada para o foco suspeito de infecção. Há 
recomendação de que a escolha inicial seja por droga ou 
associação de amplo espectro. Considerando os agentes 
mais comumente causadores de sepse, são: 
Staphylococcus aureus, Escherichia coli, Pseudomonas 
aeruginosa, Klebsiella pneumoniae e Streptococcus 
pneumoniae. 
 
 
Ressaltamos a diferença entre antibióticos de amplo 
espectro (como a ceftriaxona) e antibióticos indicados 
para bactérias com perfis específicos de resistência (p. 
ex., meropenem ou polimixina). O espectro de 
antibióticos deve sempre ser reduzido quando os 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
patógenos tiverem sido isolados e as sensibilidades 
estabelecidas. A administração rotineira de terapia 
antifúngica empírica não é justificada em pacientes não 
neutropênicos. Os principais fatores de risco para 
infecção fúngica são cirurgia recente, nutrição 
parenteral, tratamento antimicrobiano ou 
hospitalização prolongados, quimioterapia, transplante, 
insuficiência renal ou hepática crônica, diabetes, 
dispositivos vasculares, choque séptico ou colonização 
prévia por Candida spp. Mesmo nesse perfil de 
pacientes, o uso de antifúngicos empíricos não 
direcionados por culturas não parece reduzir 
mortalidade. Em pacientes neutropênicos ou com forte 
suspeita de Candida ou de Aspergillus, equinocandinas 
(para Candida) ou voriconazol (para Aspergillus) são 
medicações de escolha. 
 
Ressuscitação volêmica 
Em pacientes sépticos com sinais de má perfusão (Tabela 
5) é recomendada a reposição volêmica inicial com 30 
mL/kg de peso de solução cristaloide nas primeiras 
horas, com preferência para o ringer lactato. Essa 
abordagem é baseada nos estudos ProCESS (2014), ARISE 
(2014) e ProMISE (2015), que não demonstraram 
diferença na mortalidade de pacientes quando foram 
administrados volumes de 2-3 litros em comparação com 
volumes maiores do que 3-5 litros nas primeiras 3 horas. 
A ressuscitação volêmica deve ser administrada em 
bolus, em infusão rápida, por exemplo, 500 mL aberto. 
Idealmente, a responsividade do paciente à terapia 
fluida deveria ser avaliada antes de cada infusão. 
Assumimos como fluidorrespondedor o paciente que 
apresenta aumento de 15% do débito cardíaco (medido ao 
ecocardiograma, p. ex.) com a manobra de elevação 
passiva das pernas. 
Na impossibilidade de avaliação de flui 
dorresponsividade, sugerimos que a resposta clínico-
hemodinâmica e a presença ou ausência de congestão 
pulmonar sejam avaliadas antes e após cada bolus. 
Embora o lactato não seja um marcador direto de 
perfusão tecidual, ele tem sido repetidamente descrito 
como um marcador substituto de desfechos adversos. 
Assim, quando maior do que 2 mmol/L (> 18 mg/dL) na 
admissão do paciente, sugerimos uma segunda dosagem 
2-4 h após o início da ressuscitação volêmica, como 
avaliador de medidas já implantadas e indicador 
prognóstico. Evidências de estudos randomizados e 
metanálises não demonstraram diferença convincente 
em relação a mortalidade, disfunção orgânica ou tempo 
de internação hospitalar e em UTI entre pacientes que 
usaram soluções de albumina ou soluções cristaloides no 
tratamento de sepse ou choque séptico. Pela custo-
efetividade, sugerimos soluções cristaloides como 
primeira escolha. Entre as soluções cristaloides, há um 
crescente interesse no uso das soluções cristaloides 
balanceadas, como o ringer lactato, e algumas 
evidências sugerem que uma estratégia de ressuscitação 
restritiva ao cloreto está associada à redução da 
incidência tanto de injúria renal aguda quanto da 
necessidade de terapia renal substitutiva, embora ainda 
precisemos de mais estudos antes de abandonar o uso de 
soro fisiológico no DE. Ressaltamos que o ringer lactato, 
de forma geral,não aumenta o lactato sérico do paciente. 
Soluções de amido aumentaram a mortalidade e a 
necessidade de terapia substitutiva renal em pacientes 
com choque séptico em comparação com cristaloides e 
devem ser evitadas. 
 
Drogas vasoativas 
O alvo de pressão arterial média (PAM) em pacientes em 
choque séptico é de 65 mmHg; se necessário, drogas 
vasoativas estão indicadas. Pacientes hipertensos 
crônicos possivelmente se beneficiam de manter PAM 
entre 80- 85 mmHg. A droga vasopressora preferencial é 
a noradrenalina. A Tabela 15 apresenta as principais 
drogas vasoativas no choque séptico. 
A instituição de noradrenalina precoce, assim que 
diagnosticada a síndrome de choque, ainda durante a 
ressuscitação volêmica, demonstrou controle mais 
rápido do choque no estudo CENSER (2019). A adição de 
uma segunda ou terceira droga à norepinefrina pode ser 
necessária (p. ex., epinefrina, dobutamina ou 
vasopressina), com dados controversos para auxiliar na 
seleção do agente. Embora as principais diretrizes 
sugiram vasopressina (até 0,04 unidade/minuto para 
reduzir a dose de norepinefrina), a prática varia 
consideravelmente. 
 
Suporte adicional 
O uso de corticosteroides em pacientes com choque 
séptico permanece controverso e não há dados 
convincentes para indicar ou contraindicar o uso 
rotineiro. 
Transfusões de hemácias devem ser reservadas para 
pacientes com nível de hemoglobina ≤ 7 g/dL. As exceções 
incluem choque hemorrágico concomitante ou isquemia 
miocárdica ativa, que têm indicações específicas de 
hemotransfusão. Caso seja necessário realizar intubação 
traqueal em paciente em choque séptico, evitar drogas 
cardiodepressoras ou hipotensoras como o midazolam, o 
fentanil e o propofol para indução em sequência rápida. 
Quetamina e etomidato são boas opções. Existe 
preocupação com etomidato e disfunção adrenal em 
pacientes críticos. No entanto, não existem evidências 
que demonstrem que dose única de etomidato cause 
insuficiência adrenal clinicamente significativa. Em 
pacientes em ventilação mecânica, considera-se 
ventilação protetora. Em pacientes com injúria renal 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
induzida pela sepse, o início da terapia de substituição 
renal (TRS) deve ser discutido com o nefrologista. 
Se TRS estiver indicada, Sun et al. (2014) demonstraram 
que pacientes submetidos a terapias contínuas 
apresentaram melhores taxas de recuperação renal. 
Além disso, terapias contínuas apresentam maior 
adequação e facilidade de manejo volêmico em pacientes 
com instabilidade hemodinâmica. O controle glicêmico 
deve manter glicemia sérica < 180 mg/dL, se necessário 
com insulina de ação rápida, o que é compatível com as 
recomendações do estudo NICE-SUGAR (NJEM, 2009). 
Profilaxia de tromboembolismo venoso (TEV) em 
pacientes com mobilidade reduzida com enoxaparina 40 
mg SC 1x/dia ou heparina 5.000 U SC 3x/dia. Profilaxia de 
úlcera gástrica, embora recomendada pela Campanha de 
Sobrevivência a Sepse, tem seu uso cada vez mais 
desencorajado em pacientes sépticos. Sasabuchi et al. 
(2016) demonstraram que o uso de profilaxia de úlcera de 
estresse em 15.651 pacientes sépticos em UTI não reduziu 
sangramentos de trato gastrointestinal com indicação de 
terapia endoscópica, ao passo que aumentou a incidência 
de pneumonia hospitalar. Assim, não recomendamos a 
prescrição de profilaxia de úlcera gástrica somente pela 
sepse. Em pacientes que evoluem com síndrome de 
disfunção de múltiplos órgãos e refratariedade ao 
tratamento, deve ser feita a reavaliação de hipótese 
diagnóstica e plano terapêutico, além de se discutir 
terminalidade e cuidados paliativos. 
 
SEGUIMENTO 
A unidade de internação preferível para pacientes 
sépticos varia de acordo com as características 
individuais. Pacientes com choque séptico ou em 
insuficiência respiratória com necessidade de 
vasopressores ou de ventilação mecânica necessitam de 
internação em UTI. Já pacientes sem choque e que 
respondem rapidamente à antibioticoterapia podem ser 
transferidos com segurança para leito de internação. 
Pacientes limítrofes devem ter avaliação cuidadosa e o 
limiar para escolha de UTI deve ser baixo. 
 
Tratamento Da Sepse E Choque Séptico 
Os pacientes com sepse e choque séptico se encontram 
hipovolêmicos e extremamente vasodilatados. Como 
vimos antes, esta é uma hipovolemia relativa, ou seja, a 
vasodilatação é tamanha que o conteúdo do 
intravascular passa a ser insuficiente para perfundir 
tecidos. Nas fases iniciais, antes da reposição de fluidos, 
muitos pacientes apresentam dados hemodinâmicos 
semelhantes aos encontrados nos choques 
hipodinâmicos. No entanto, após a infusão de líquidos, 
sobrevém a fase hiperdinâmica da doença. 
Nos últimos anos, uma diretriz conhecida como 
Surviving Sepsis Campaign (SSC) foi elaborada em uma 
tentativa de padronizar o atendimento e aumentar a 
sobrevida de doentes em sepse e choque séptico. 
Inicialmente, Rivers e cols, confeccionaram um 
protocolo denominado Early Goal Directed Therapy 
(EGDT), em que se valorizava a infusão de grande 
quantidade de líquidos nas primeiras seis horas; na 
época, este protocolo demonstrou os benefícios de tal 
conduta. 
 
Ressuscitação Volêmica Inicial E Uso De Aminas 
A última revisão do SSC, de 2016, preconiza uma 
abordagem inicial com a administração de cristaloide em 
um volume 30 ml/kg nas primeiras três horas; a prova 
inicial de volume deve ser repetida enquanto 
observamos melhora hemodinâmica. A albumina pode 
ser acrescentada ao cristaloide em doentes que 
necessitam de grandes quantidades de volume 
(recomendação fraca). Nessa abordagem inicial, os 
níveis de lactato devem ser solicitados. 
Caso a PAM continue inferior a 65 mmHg, se encontra 
indicado o início de aminas vasopressoras (diagnóstico 
de choque séptico). A noradrenalina é a droga de escolha, 
na dose inicial de 0,01 μg/kg/min. Caso exista 
necessidade de outro vasopressor, a adrenalina ou a 
vasopressina podem ser recomendadas. 
A dobutamina deve ser iniciada em casos de disfunção 
miocárdica (pressões de enchimento cardíaco elevadas 
ou baixo débito cardíaco) ou em situações de 
hipoperfusão mantida mesmo com a reposição volêmica 
e PAM adequadas. Nesse último caso podemos citar como 
exemplo um paciente em choque séptico que apresenta 
uma PAM dentro dos parâmetros da normalidade 
acompanhada de uma SvcO₂ persistentemente reduzida, 
mesmo após administração de volume adequada e uso de 
aminas vasopressoras... 
A instalação de cateter que afere a PAM se encontra 
indicada em doentes que necessitam de noradrenalina. O 
SSC recomenda o uso de parâmetros dinâmicos para 
acompanharmos a resposta à ressuscitação volêmica, 
com destaque para a normalização do lactato. 
 
Diagnóstico Do Agente Infeccioso, Antibioticoterapia E 
Abordagem Da Fonte De Infecção 
Devemos obter culturas adequadas antes de iniciarmos 
os antimicrobianos, se essas culturas não causarem um 
atraso significativo (> 45 minutos) ao início da 
administração dessas drogas. Para otimizarmos a 
identificação dos micro-organismos causadores, o ideal é 
a obtenção de pelo menos dois conjuntos de 
hemoculturas (em frascos para aeróbios e anaeróbios). 
Uma coleta deve ser por via percutânea e outras através 
de cada dispositivo de acesso vascular. Com base na 
nossa suspeita clínica, culturas de outros líquidos 
corporais (urina, secreções respiratórias etc.) também 
podem ser realizadas. Os antibióticos devem ser 
Isadora Pedreira. Mod. XXIII. Problema 2 Abertura e Fechamento 
administrados dentro de 60 minutos do reconhecimento 
do choque séptico. 
Caso ocorra crescimento do mesmo agente em duas 
amostras de hemoculturas, é muito provável que este seja 
o causador da sepse. Se houver crescimento primeiro na 
hemocultura de sangue colhido de acesso central, 
provavelmente estamos lidando cominfecção de cateter. 
O uso do Gram é útil principalmente em infecções do 
trato respiratório. Exames de imagem podem e devem ser 
feitos para diagnosticar a fonte infecciosa. 
Após rastreamento microbiológico, é mandatória a 
prescrição antibiótica empírica. As drogas 
antimicrobianas trazem realmente um grande benefício 
quando iniciadas dentro da primeira hora de instalação, 
seja da sepse ou do choque séptico, levando a uma 
diminuição da mortalidade. 
A escolha do antibiótico pode ser complexa e geralmente 
leva em consideração a história do paciente, uso de 
antibióticos recentes, comorbidades, tipo de infecção (se 
nosocomial ou comunitária) e padrões de resistência 
local. No geral, a seleção dos antimicrobianos deve ser 
suficientemente ampla para cobrir todos os prováveis 
patógenos, podendo incluir fungos e vírus. 
Na presença de focos de infecção passíveis de 
intervenção, a antibioticoterapia deverá ser 
acompanhada de abordagem cirúrgica ou de 
procedimentos que envolvam radiologia 
intervencionista. O momento de intervir deve ser o mais 
breve, dentro das primeiras 6-12 horas. O ideal é que se 
realize um procedimento o menos invasivo possível 
como, por exemplo, abordagem de abscessos intra-
abdominais por punção percutânea guiada por 
tomografia computadorizada. 
 
Uso De Imunomoduladores 
Estudos observaram que em doentes críticos, sobretudo 
os que desenvolvem choque séptico, a atividade 
glicocorticoide é insuficiente para o grau de intensidade 
da infecção e da resposta sistêmica apresentada. Este 
fenômeno, conhecido como Critical Illness-Related 
Corticosteroid Insufficiency (CIRCI), é ocasionado com 
maior frequência por disfunção do eixo hipotálamo 
hipófise combinado a resistência periférica à ação do 
cortisol. Contudo, dano estrutural à glândula suprarrenal 
também tem sido descrito como causa de CIRCI. 
Apesar da "defesa" da prescrição do hormônio no 
parágrafo anterior, a última revisão do EGDT recomenda 
que se evite o uso de glicocorticoide caso a 
hemodinâmica do paciente estabilize com a infusão de 
volume e o uso de vasopressores no choque séptico. 
Contudo, se o paciente permanecer instável após estas 
medidas (PA sistólica < 90 mmHg por mais de uma hora), 
recomenda-se um breve curso de hidrocortisona (200-
300 mg ao dia, intravenosa) por sete dias ou até o suporte 
vasopressor não ser mais necessário. Embora a 
hidrocortisona, nesses casos, acelere a recuperação 
clínica, a droga não demonstrou aumentar a sobrevida 
em longo prazo. 
 
Suporte Geral 
Pacientes com sepse e choque séptico, como qualquer 
outro doente crítico, devem ter seus níveis glicêmicos 
controlados, uma vez que a hiperglicemia grave está 
associada a prognóstico adverso. Todavia, um controle 
glicêmico rigoroso (glicemia < 110 mg/dl), como era 
preconizado há algum tempo atrás, não é mais 
recomendado, uma vez que se associa a um maior número 
de episódios de hipoglicemia, o que é mais prejudicial do 
que eventuais escapes hiperglicêmicos. Recomenda-se 
que nos pacientes em sepse, os níveis de glicemia fiquem 
na faixa de 140 a 180 mg/dl. 
A insulina endovenosa contínua deve ser iniciada caso 
seja observado dois níveis consecutivos de glicemia > 180 
mg/dl. Pacientes em uso de insulina contínua devem ter 
suas glicemias monitoradas de hora em hora; nesses 
casos, torna-se necessário aporte calórico sob forma de 
glicose para evitarmos episódios de hipoglicemia. 
Uso de métodos dialíticos, como hemodiálise 
intermitente ou hemofiltração venovenosa contínua, são 
necessários para suporte renal ou em casos de 
sobrecarga de volume. O início precoce de suporte 
nutricional enteral, a administração de profilaxia para 
trombose venosa profunda e o uso de medicações para a 
prevenção de úlceras de estresse são medidas de suporte 
essenciais. 
 
 
VELASCO, T. I. et al. Medicina de emergência: 
abordagem prática. 14. ed., rev., atual. e ampl, Barueri - 
SP]: Manole, 2020. 
 
CORREA, R. A. et al. 2018 recommendations for the 
management of community acquired pneumonia. J. bras. 
pneumol., São Paulo, v. 44, n. 5, p. 405-423, 2018. 
 
METLAY, J.P et al. Diagnosis and Treatment of Adults 
with Community-acquired Pneumonia: An Official 
Clinical Practice Guideline of the American Thoracic 
Society and Infectious Diseases Society of America. Am J 
Respir Crit Care Med Vol 200, Iss 7, pp e45–e67, 2019.

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