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Hemoglobinopatias → Os distúrbios das hemoglobinas humanas, ou Hemoglobinopatias, são as doenças genéticas mais comuns em todo o mundo → Grupo mais comum de doenças monogênicas, com enorme impacto na morbidade e mortalidade humana → 5% da população mundial é portadora de uma ou mais mutações dos genes envolvidos na síntese da hemoglobina → 350.000 crianças/ano apresentam grave distúrbio de estrutura ou síntese de hemoglobina → OMS: programas de triagem populacional com a meta de informar as escolhas reprodutivas, a fim de reduzir o número de crianças afetadas → A hemoglobina é a principal proteína das hemácias, responsável por recepção e transporte de oxigênio Estrutura da hemoglobina → Tetrâmero: 4 cadeias polipeptídicas (globinas) → Um grupo prostético: heme (um átomo de ferro situado no centro de um anel de porfirina, que se liga ao oxigênio) → Estrutura quaternária muda à medida que o oxigênio é captado pela oxigenação de cada grupo heme → Regiões helicoidais (A - H); → Dois aminoácidos conservados: βHis92: histidina à qual o ferro do heme está covalentemente ligado βFen42: fenilalanina que apoia o anel de porfirina do heme na bolsa da proteína dobrada → Hemoglobina adulta normal – Hb A (a2β2): 2 cadeias α, com 141 aminoácidos 2 cadeias β, com 146 aminoácidos → Cadeias de alfa globina: dois genes alfa no cromossomo 16 → Cadeias de beta-globina: apenas um gene no cromossomo 11 → Hb A: composta das cadeias a e β – corresponde a 96-98 % da hemoglobina total de um adulto → Hb A2: variante normal da Hb A – 2-3% da hemoglobina total em adultos → formada por cadeias a e δ: a2δ2 → Além da Hb A, existem 5 outras Hb humanas normais: todas tetraméricas, com duas cadeias a ou similares à a e duas cadeias β ou similares à β Hemoglobina Fetal → Hb F (α2γ2): formada a partir do segundo mês de gestação → Constitui cerca de 70% do total de hemoglobina ao nascimento Vida adulta < 1% → Possui cadeias γ equivalentes à cadeia β da Hb A: 10 aminoácidos diferentes → Dentre esses aminoácidos um super importante está na posição 82: serina no lugar da lisina → maior afinidade por oxigênio do que a Hb A (materna), possibilitando a captação de oxigênio ao nível da barreira placentária Genes das cadeias de globina → Cromossomo 16: grupo alfa → No início há um gene que está associado a período embriônico e dois pseudogenes (genes que atualmente não são funcionais) → Acredita-se que os pseudogenes ao longo da evolução tenham sofrido tantas mutações que deixaram de ser expressos → No cromossomo 11 há pseudogenes: beta, delta, gama, épsilon e zeta → Cada pessoa normal tem 4 alelos de globina α ativos, codificando as cadeias de α-globina Genes: cluster β-globina → As cadeias γ são codificadas principalmente na vida fetal e se combinam com cadeias α, formando a Hb F → A síntese de β-globina começa logo após o nascimento → Os genes de cada grupo compartilham padrões de expressão temporal e espacial → Estão organizados na mesma orientação transcricional e estão situados na mesma ordem em que são expressos → Regulação: promotores (onde liga o fator de transcrição), sequências acentuadoras (aumenta transcrição dos genes) e LCR (protagonista para o controle da expressão dos genes) → Dependendo do estágio, há um tipo de hemoglobina sendo formada → Expressão espacial: se relaciona com o local principal de eritropoiese → Período fetal → saco vitelínico → fígado → baço → medula óssea no adulto → Tudo isso vai ser controlado pela LCR LCR (região controladora do locus) → Domínio que se localiza antecedente ao primeiro gene do grupo → É uma sequência de DNA que está antes de todo o grupo, tem uma LCR na frente de todos os genes → Possui sítios hipersensíveis a DNAse – mantêm a cromatina aberta: Centro de cromatina ativa: acesso a fatores de transcrição (é como se esse complexo de proteínas que se ligou na LCR começasse a andar pelo cromossomo) O “liga e desliga” sequencial resulta da associação sequencial do centro da cromatina ativa aos diferentes genes do grupo, à medida que o centro se move do gene mais próximo de 5 ́ para 3 ́ → O gene que vai ser expresso é onde está o centro ativo de cromatina, tudo que vem depois está silenciado ainda → Mutações/deleções da LCR: não expressam os genes do grupo da globina → Alvo para terapia gênica – tenta-se dar um restart na LCR no sentido que ela volte a ter um centro de cromatina ativo, e com isso o indivíduo voltaria a produzir hemoglobina fetal e assim melhorar a clínica de algumas hemoglobinopatias. Hemoglobinopatias → Mutações nos genes estruturais das globinas, ou ainda nos genes reguladores da síntese das diferentes globinas → Hemoglobinas anormais: versões variantes com ou sem manifestações clínicas e alterações hematológicas → Mutações no gene de β-globina causam provavelmente mais doenças do que as mutações em α, pois uma única mutação em β afeta 50% das cadeias β → Hemoglobinopatias são divididas em três categorias: variantes estruturais (altera a molécula de hemoglobina), talassemias (altera a síntese das cadeias), e persistência hereditária de hemoglobina fetal Variantes estruturais → Existem mais de 400 variantes descritas: Aumenta mutações de ponto Aproximadamente metade com importância clínica → Clinicamente as variantes estruturais podem ser divididas em: 1. Anemia hemolítica: hemoglobinas mutantes instáveis ou com estruturas rígidas incomuns; 2. Transporte de O2 alterado: aumento ou diminuição de afinidade com o oxigênio ou formação de meta-hemoglobina; 3. Variantes que causam talassemia: mutação na região codificante que reduz a abundância de globina → Hemoglobinas instáveis: • Mutação de ponto: desnaturação do tetrâmero de hemoglobina → insolúveis, precipitam formando inclusões (corpos de Heinz) que lesam a membrana da hemácia (hemólise de hemácias maduras) → Hb Hammersmith: substituição na cadeia β42 Phe → Ser Serina: Heme sai do lugar → instabilidade Menor afinidade por O2 = cianose Anemia Falciforme → Mais importante anomalia estrutural – hemoglobina com estrutura incomum rígida → 1:400-600 nascimentos afro-americanos; 1:50 na África equatorial → Mutação de ponto, sentido trocado: ácido glutâmico por valina na posição 6 da cadeia de β-globina (GAG→GTG) → Ela continua sendo formada por duas cadeias alfa e duas cadeias beta, mas aqui tem mutação na beta → Hemoglobina falciforme: Hb S (α2βS2) → Apresenta herança autossômica recessiva, ou seja, a mutação tem que acontecer nos dois alelos do gene de betaglobina → A valina é mais neutra que o ácido glutâmico → eletroforese mais lenta → Mutação altera as características da molécula de hemoglobina: hemácias → forma de foice sob condições de baixa tensão de oxigênio → Heterozigotos – traço falcêmico 8% afro-americanos; 25% de neonatos em populações com alta frequência gênica Adaptativo em áreas endêmicas de malária – se for infectado pela malária é muito leve Clinicamente normais Hemácias clinicamente normais, porém falciformes quando submetidas a baixa tensão de oxigênio in vitro Podem estar sob risco de infarto do baço durante vôos com baixa pressurização na cabine, mergulhos em alta profundidade ou anestesia geral → Distribuição e prevalência no Brasil – locais onde tem uma maior população de afrodescendentes, existe uma tendência de ter mais casos de anemia falciforme → Manifestações clínicas • Hemácias menos flexíveis, não conseguem se comprimir para passar pelos capilares → bloqueio do fluxo e isquemia local • Tendem a se ancorar ao endotélio vascular→ hipoxemia localizada, crises falcêmicas dolorosas e infarto de vários tecidos • Hemácias falciformes: frágeis, com tempo de sobrevida encurtado, resultando em uma anemia hemolítica crônica; se aglomeram para formar os agregados, o que pode levar à oclusão da circulação periférica • Início: lactância – gene beta, que é onde há a mutação, vai começar a ser expresso só após o nascimento • Clínica muito variável: discreta a grave • Anemia: destruição prematura das hemácias falcêmicas que diminui o nível de hemoglobina • Baço aumentado • Perda de uma parte da função imune – infecções bacterianas recorrentes • Dores articulares e crises agudas de dor • Infartos nos tecidos (ulceração) • Icterícia • Problemas osteoarticulares e renais. → Tratamento • Imunização contra infecção pneumocócica • Tratamento profilático regular com penicilina para evitar infecção • Suplementação de ácido fólico para evitar a deficiência de folato que pode exacerbar a anemia • Quimioterapia leve (hidroxiureia e butirato): aumenta a produção de hemoglobina fetal e melhora a função das hemácias • Transplante de medula óssea → Severidade clínica/genes modificadores • Nível de Hb Fetal do paciente → altos níveis estão associados a menor morbidade e baixa mortalidade: Hb F é ótima transportadora de oxigênio na vida pós-natal e também inibe a polimerização da Hb S → Afinidade aumentada/diminuída por O2: • Interface αβ é altamente conservada (movimento da mudança de forma oxigenada para a desoxigenada) • Substituições nos aminoácidos dessa interface → efeitos patológicos graves: Hb Kempsey (Asp99Asn, cadeia β): a mutação mantém a hemoglobina na forma relaxada, que tem alta afinidade por O2, causando policitemia → Meta-hemoglobina: substituições na região da bolsa do heme afetam a ligação heme-globina, tornando o ferro resistente à redutase: • Oxiemoglobina: capaz de oxigenação reversível, seu ferro do heme está no estado reduzido. Esse ferro tende a se oxidar espontaneamente à forma férrica, e a molécula resultante (meta-hemoglobina) é incapaz de oxigenação reversível; → Quantidades significantes de meta- hemoglobina no sangue → cianose • Heterozigotos assintomáticos (cianóticos); homozigose letal. → Hb Hyde Park: meta-hemoglobina de cadeia β, onde há a substituição da histidina92 por tirosina → Distúrbios autossômicos recessivos mais comuns no mundo → Mutação provoca redução ou ausência na síntese das cadeias a ou β, sem alterar a sequência de aminoácidos • Classificadas com base nos genes de globina envolvidos e no fato de a expressão gênica ser suprimida completamente (0) ou parcialmente (+) → Cadeia em excesso = homotetrâmeros → precipitação na célula → lesão na membrana → destruição prematura da hemácia → anemias hipocrômicas e microcíticas → Alta frequência: vantagem protetora contra a malária → Diagnóstico diferencial da anemia por deficiência de ferro; → Fonte relativamente comum de referência para a detecção de heterozigotos e diagnóstico pré-natal → É frequente indivíduos com alelos para ambos os tipos de talassemias, como também para anormalidades estruturais → interações clinicamente importantes Alfa-talassemias → Problema de saúde importante no sudeste da Ásia (portadores: 1:5 indivíduos); comum em partes da África e regiões do Mediterrâneo (malária endêmica) → Distúrbios genéticos na produção da alfa- globina → Afetam a formação das Hb fetal e adulta → Maioria devido a deleções gênicas → Ausência de cadeias de a-globina: cadeias de β-globina formam homotetrâmeros com baixa capacidade de ligação ao oxigênio → hipoxemia → Pela ocorrência de dois genes alfa muito similares e pareamento desigual entre os cromossomos homólogos (maioria da vezes) → Talassemia alfa mínima: portadores silenciosos e traço de alfa-talassemia → Apenas um gene alfa: doença de HbH → Ausência de genes alfa: hidropisia fetal, morte intraútero na maioria dos casos ou natimorto logo após o nascimento → Associação da quantidade de alelos funcionais, de cadeias alfa e da clínica → Doença de Hb H (α-talassemia leve): anemia moderadamente grave (precipitação gradual de Hb H), hemoglobina 7-10g/100ml, infecções, hemólise e esplenomegalia; → Hidropsia fetal: α-talassemia severa de altos níveis de Hb Bart ́s: hipóxia intrauterina acentuada, grande acúmulo generalizado de líquido ao nascimento Beta-talassemias → Alta frequência de portadores (resistência à malária): Mediterrâneo, norte da África e Oriente Médio, Índia e sudeste da Ásia → Cadeias de β-globina deficientes: excesso de cadeias α → homotetrâmeros que precipitam e danificam as membranas celulares → destruição prematura das hemácias → anemia → Eritropoiese prejudicada e aumento da destruição de hemácias → anemia hemolítica grave, com aumento de eritropoiese intramedular, o que por sua vez leva a uma expansão das cavidades da medula óssea com deformidade óssea e um risco de fratura patológica → > 300 mutações = variação considerável quanto à severidade → Maioria das mutações levam a um decréscimo na abundância de mRNA da β- globina → menos cadeia de beta globina sendo formada → Maioria por substituições de bases → Maioria dos casos com mutações diferentes nas duas cópias do gene – heterozigotos compostos (indivíduo que tem mutação nos dois alelos mas as mutações são diferentes) → Dependendo de onde for a mutação há consequências diferentes → Por exemplo, na região promotora há mutações que não deixam o gene ser expresso, ou no promotor uma mutação que simplesmente diminui a afinidade dos fatores de transcrição → Pode ter na região promotora, mutação de splicing, que faz RNAm não funcional, mutação na parte de Cap e de cauda poliA, dependendo da mutação vai relacionar com a quantidade de cadeia de betaglobina → clínica do paciente → Talassemia maior: homozigotos β0/β0 (mutação nos dois alelos sem produção de betaglobina → anemia de Cooley) → Talassemia intermediaria: homozigotos β+/β+ (alelos ainda conseguem produzir alguma quantidade de cadeia de betaglobina → clínica mais leve) → Talassemia menor: heterozigotos (mutação em só um alelo) → normalmente esses indivíduos não precisam de controle clínico β-talassemia major/ Anemia de Cooley • Maioria dos indivíduos; • Anemia severa, com necessidade de acompanhamento médico por toda a vida (transfusões sanguíneas) • Manifestações clínicas: 2-6meses. Pouca alimentação, retardo de desenvolvimento, infecções recorrentes • Alterações no esqueleto: maxilar superior e maçãs do rosto protuberantes e adelgaçamento dos ossos longos • Esplenomegalia Severidade clínica/genes → Severidade do quadro clínico depende do efeito combinado dos 2 alelos → Variações genéticas no nível de Hb Fetal também estão associadas com a severidade clínica da β-talassemia → ausência de β- globina é parcialmente aliviada por altos níveis de γ-globina; → Nível de Hb F aumentado → sobrevida seletiva e produção aumentada de hemácias adultas que contêm Hb F → Mutações nas cadeias de α-globina associam-se com indivíduos menos afetados Persistência da Hemoglobina Fetal → Persistência da Hb F: síntese de cadeias γ persiste durante a idade adulta: Inibição da repressão pós-natal do gene γ (mutações de ponto ou deleções nas regiões regulatórias) → Variação na expressão de Hb F – SNPs em 3 genes: Gene da γ-globina Gene BCL11A Gene MYB → Indivíduos com trissomia no 13/18 → em um desses cromossomos existem micro-RNAs que silenciam o MYB → mais cromossomos → mais micro-RNA → MYB não conseguia silenciar gama-globina → persistência de hemoglobina fetal → Homozigotos/heterozigotos: assintomáticos, sem grandes alterações hematológicas → Enfoque terapêuticopara anemia falciforme e β-talassemias Interações de mutações → Altas frequências gênicas de muitas formas diferentes de hemoglobinopatias → algumas pessoas herdam duas ou mais mutações no grupo gênico α e/ou β: • Interações clinicamente importantes: alelos diferentes do mesmo gene ou alelos mutantes de genes diferentes de globina → Difícil prever o resultado – as vezes pode descobrir as mutações, mas não necessariamente conseguir prever a clínica do paciente → Talassemia α e β: pessoas duplo- heterozigotas são geralmente saudáveis. A presença de uma mutação de talassemia α tende a reduzir a gravidade da anemia vista nos homozigotos para talassemia β → Alelos diferentes e interações alélicas em compostos genéticos: os alelos diferentes de um único gene podem ser associados a fenótipos de gravidade variável – ex: alelos de β-talassemia associados a β0 ou β+ → Genes diferentes: as mutações em genes diferentes podem produzir fenótipos similares, mas em geral distinguíveis (ex: α versus β) → Genes modificadores: alelos específicos selvagens ou mutantes de um ou mais genes (modificadores) podem modificar a gravidade clínica do fenótipo devido às mutações em um gene causador de doença