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Hemoglobinopatias ● mutações nos genes das globinas: distúrbios monogênicos de maior prevalência no mundo → afeta 7% da população mundial Síntese da hemoglobina ● adulto normal: 3 tipos de hemoglobina (Hb) ○ Hb A: estrutura molecular → principal→ tetrâmetro de cadeias polipeptídicas de globina = par de cadeias tipoα 2 β 2 α (141 AA) + par de cadeias tipo (146 AA)β ○ Hb fetal ou Hb F: estrutura molecular α 2 γ 2 ○ Hb : estrutura molecular → Hb do adulto de menor importância𝐴 2 α 2 δ 2 ● cada cadeia de globina: um único grupo heme → anel de protoporfirina IX em complexo com um único átomo de Fe no estado ferroso ( )𝐹𝑒2+ ○ cada grupo heme → pode se ligar a uma única molécula de → cada molécula de Hb tem a capacidade de𝑂 2 transportar até 4 moléculas de 𝑂 2 ○ estrutura secundária altamente helicoidal ○ estruturas terciárias globulares → superfícies externas ricas em AA polares (hidrofílicos) (→ aumentam a solubilidade) + superfície interna revestida por grupos apolares (→ bolsa hidrofóbica) + no interior está o grupo heme ○ estrutura quaternária: 2 dímeros → numerosas interações firmes (ex.: contatos ) →mantêm as cadeias eαβ α 1 β 1 α β ○ tetrâmetro completo: mantido unido por interfaces (ex.: ) entre a cadeia do tipo de um dímero e a cadeia nãoα 1 β 2 α α do outro dímero + altamente solúvel ○ cada cadeia individual de globina→ insolúvel ○ globina não pareada→ precipitação→ inclusões que lesionam a célula→ pode desencadear apoptose ○ solubilidade + ligação reversível do oxigênio → propriedades essenciais afetadas nas hemoglobinopatias → dependem principalmente dos AA hidrofílicos de superfície + AA hidrofóbicos que revestem a bolsa do heme + de uma histidina essencial na hélice F e dos AA que formam os pontos de contato e → mutações nessasα 1 β 1 α 1 β 2 regiões→ altera a afinidade pelo ou sua solubilidade𝑂 2 Função da Hb ● Hb liga-se ao na do alvéolo→ retêm o na circulação→ libera para os tecidos na dos leitos capilares teciduais𝑂 2 𝑝𝑂 2 𝑂 2 𝑝𝑂 2 ● cooperatividade (interação heme-heme): propriedade inerente ao arranjo tetramérico do heme e das subunidades de globina dentro da molécula de hemoglobina→ aquisição de e seu suprimento em uma faixa relativamente estreita de tensões de𝑂 2 𝑂 2 ● baixas tensões de → tetrâmetro da Hb totalmente desoxigenado𝑂 2 ● ligação ao → começa lentamente, à medida que aumenta a tensão de + certa quantidade de ligada ao tetrâmetro𝑂 2 𝑂 2 𝑂 2 → aumento abrupto na inclinação da curva ● moléculas de Hb ligadas ao → desenvolvem maior afinidade pelo → acelera acentuadamente sua capacidade de se𝑂 2 𝑂 2 combinar com + oxigênio ● afinidade pelo →modulada por diversos fatores𝑂 2 ○ efeito Bohr: capacidade da Hb de liberar mais para os tecidos em pH baixo + surge da ação estabilizadora dos𝑂 2 prótons sobre a desoxiemoglobina (se liga a protóns + rapidamente que a oxiemoglobina)→ Hb tem afinidade + baixa pelo em pH baixo𝑂 2 ○ principal molécula pequena que altera a afinidade pelo nos seres humanos: 2,3-bisfosfoglicerato (2,3-BPG) →𝑂 2 diminui a afinidade pelo quando ligado à Hb𝑂 2 ○ HbA: afinidade razoavelmente alta pelo 2,3-BPG ○ HbF: não se liga ao 2,3-BPG→ tende a apresentar maior afinidade pelo 𝑂 2 ○ Hb: se liga ao óxido nítrico (NO) de modo reversível→ influência o tônus vascular ○ transporte adequado de → depende da estrutura tetramérica das proteínas + do arranjo apropriado dos𝑂 2 aminoácidos hidrofílicos e hidrofóbicos + da interação com prótons ou com o 2,3-BPG ● genes de globina: 3 éxons + 2 íntrons ○ transcrição → RNA inicial→ splicing→ retirada dos íntrons (sempre começam com um dinucleotídeo G-T + terminam com dinucleotídeo A-G)→mRNA→ recebe poliadenilato na extremidade 3’→ estabiliza ○ talassemia: pode surgir de mutações ou deleções de qualquer dessas sequências ● outras sequências: influenciam a transcrição do gene, asseguram sua fidelidade e especificam sítios para início e término da tradução, garantem a estabilidade do mRNA recém-sintetizado→mutações→ talassemia ● promotores: encontrados em 5’ do gene ● amplificadores: ocorrem em 5’ ou 3’ do gene → importante na regulação específica a tecido da expressão gênica na regulação da síntese de várias cadeias de globina durante a vida fetal e após o nascimento ● região de controle do locus (LCR): elemento regulador genético + situado longe e a jusante do aglomerado (cluster) de β -globina → controla a atividade genética de cada domínio por interação física com a região promotora + abrindo a cromatina para permitir a ligação dos fatores de transcrição ○ região similar na síntese de -globinaα ● mudança da Hb fetal para a adulta ○ genes da globina: arranjado nos cromossomos 11 e 16 na ordem em que são expressos ○ certas hemoglobinas embrionárias→ expressas somente nos eritroblastos do saco vitelino ○ gene da -globina: expresso em baixo nível no início da vida fetalβ ○ 3-6 meses após o nascimento → principal conversão para a Hb do adulto → síntese de cadeia é substituída porγ cadeias β ○ BCL11A: importante regulador transcricional da conversão + outros fatores transcricionais nucleares envolvidos ● anormalidades da Hb resultam de ○ (1) síntese de uma Hb anormal ○ (2) diminuição da velocidade de síntese das cadeias normais ou da globina (as ou - talassemias)α β α β ○ muitos casos: anomalia é silenciosa ○ anomalia mais clinicamente importante: anemia de células falciformes ○ Hb C,D e E: comuns→ substituições na cadeia β ○ hemoglobinas instáveis: raras→ anemia hemolítica crônica de gravidade variável com hemólise intravascular ○ hemoglobinas anormais→ poliglobulia ou metemoglobinemia congênita ○ defeitos genéticos da Hb: doenças genéticas + comuns em todos o mundo Classificação das hemoglobinopatias ● 5 classes principais ● (1) hemoglobinopatias estruturais: mutações alteram a sequência dos AA de uma cadeia da globina → modifica as propriedades fisiológicas das hemoglobinas variantes + causa as anormalidades clínicas típicas ○ Hb variantes de maior relevância clínica sofrem polimerização anormal (ex.: anemia falciforme) ou exibem alteração de sua solubilidade ou afinidade de ligação pelo oxigênio ● (2) síndromes talassêmicas: surgem de mutações que comprometem a produção ou a tradução do mRNA da globina → biossíntese deficiente das cadeias da globina ○ anormalidades clínicas: atribuíveis ao suprimento inadequado de Hb e aos desequilíbrios na produção das cadeias das globinas→ destruição prematura dos eritroblastos e eritrócitos ● (3) variantes de hemoglobina talassêmicas: combinam características da talassemia (ex.: biossíntese anormal de globinas) e das hemoglobinopatias estruturais (ex.: uma sequência anormal de AA) ● (4) persistência hereditária da hemoglobina fetal (PHHF): síntese dos níveis elevados de hemoglobina fetal na idade adulta ● (5) hemoglobinopatias adquiridas: modificações da molécula de Hb por toxinas (ex.: metemoglobinemia adquirida) + anormalidades clonais da síntese de hemoglobina (ex.: altos níveis de produção de HbF na pré-leucemia e ocorrência de α-talassemia nos distúrbios mieloproliferativos) Epidemiologia ● comus em áreas onde a malária é endêmica: vantagem seletiva de sobrevida para os eritrócitos anormais→ oferecem um ambiente menos favorável durante os estágios eritrocitários obrigatórios do ciclo evolutivo do parasita ● crianças pequenas com -talassemia→ + suscetíveis à infecção pelo Plasmodium vivax não letalα ○ talassemia pode favorecer uma proteção natural contra a infecção pelo P. falciparum (mais letal) ● talassemias: distúrbio genético + comum no mundo→ 200 milhões de pessoas no mundo todo ● 15% dos negros: portadores silenciosos da α-talassemia ○ traço da α-talassemia (minor): 3% dos negros + 1 a 15% dos indivíduos de ascendência mediterrânea ● -talassemia: incidência de 10 a 15% nos indivíduos do Mediterrâneo e do Sudeste da Ásia e de 0,8% nos negrosβ ● doença falciforme: hemoglobinopatia estrutural mais comum → forma heterozigota: em cerca de 8%dos negros + forma homozigota: em 1:400 ● entre 2 e 3% dos negros: portadores de um alelo da hemoglobina C Herança e ontogenia ● hemoglobinopatias: caracteres autossômicos codominantes → heterozigotos compostos que herdam um alelo mutante anormal diferente de cada progenitor exibem características compostas de cada um ● ex.: pacientes que herdam a β-talassemia falciforme→ exibem características da β-talassemia e da anemia falciforme ● mutações da cadeia α→ anormalidades em todas as 3 hemoglobinas (HbA, na HbA2 e na HbF) ● hemoglobinopatias da α-globina→ sintomáticas in utero e depois do nascimento ● lactentes com hemoglobinopatias da β-globina→ tendem a ser assintomáticos até 3-9 meses de idade→ HbA substitui, em grande parte, a HbF → prevenção ou a reversão parcial da permuta deve constituir uma estratégia terapêutica efetiva para as hemoglobinopatias de cadeia β Detecção e caracterização das hemoglobinopatias ● cromatografia líquida de alto desempenho (HPLC, de high-performance liquid chromatography) suplantou, em grande parte, a eletroforese na maioria dos laboratórios de referência ● caracterização completa, incluindo o sequenciamento dos aminoácidos ou a genotipagem por análise direta do DNA→ deve ser solicitada se houver alta suspeita clínica ou quando a HPLC não consegue fornecer respostas definitivas ● quantificação do perfil da hemoglobina: costuma ser desejável + necessária à caracterização do traço falciforme, das síndromes talassêmicas falciformes ou da doença da HbSC + monitorar a efetividade da terapia de exsanguineotransfusão em reduzir a porcentagem de HbS circulante. ○ HbA2: frequentemente está elevada no traço β-talassêmico e diminuída na deficiência de ferro ○ HbF: elevada na PHHF, em algumas síndromes β-talassêmicas e em períodos ocasionais de estresse eritroide ou displasia medular. ● ensaios funcionais para falcização da hemoglobina, solubilidade ou afinidade pelo oxigênio → conforme determinado pelo quadro clínico ○ determinação do grau com que a amostra de hemoglobina se torna insolúvel ou gelatinizada quando desoxigenada (ex.: teste de solubilidade falciforme) ○ Hb instáveis→ detectadas por sua precipitação em isopropanol ou após aquecimento a 50°C ○ variantes com alta afinidade ou baixa afinidade pelo O2→ detectadas pela quantificação da P50, a pressão parcial de oxigênio em que a amostra de hemoglobina se torna 50% saturada com oxigênio ● testes diretos para determinar a porcentagem de carboxiemoglobina e metemoglobina ● melhor maneira de estabelecer o diagnóstico → reconhecimento de história clínica típica, achados físicos, morfologia do esfregaço de sangue periférico e anormalidades do hemograma completo (p. ex., microcitose acentuada com anemia mínima no traço talassêmico) Talassemias ● grupo heterogêneo de doenças genéticas que resultam de diminuição da velocidade de síntese de cadeias ouα β ● suprimento reduzido de globinas→ diminui a produção de tetrâmeros de hemoglobina→ hipocromia e microcitose ● síntese das globinas não afetadas prossegue em velocidade normal→ acúmulo desequilibrado das subunidades α e β ● gravidade clínica varia amplamente, de acordo com o grau de comprometimento da síntese da globina afetada, a alteração na síntese das outras cadeias de globina e a co-herança de outros alelos anormais da globina ● principais síndromes ○ talassemia maior: talassemia dependente de transfusão ○ talassemia intermédia: talassemia com anemia moderada, não dependente de transfusão + devida a defeitos genéticos variados ○ talassemia menor: estado de portador de ou talassemiaα β Manifestações clínicas ● formas mais comuns: surgem de mutações que afetam o splicing do mRNA precursor ou que interrompem prematuramente a tradução do mRNA ● hipocromia e a microcitose → todas as formas de β-talassemia, devido às quantidades reduzidas dos tetrâmeros de Hb ○ heterozigotos (traço de β-talassemia): única anormalidade observada ○ anemia mínima ● estados homozigotos mais graves: acúmulo desequilibrado das α e β-globinas → acúmulo de cadeias α não pareadas altamente insolúveis → formam corpúsculos de inclusão tóxicos → matam os eritrócitos em desenvolvimento na medula óssea ○ alguns dos proeritroblastos que estão iniciando a maturação eritroide→ sobrevivem ○ eritrócitos que sobrevivem → transportam uma carga de corpúsculos de inclusão → detectados no baço → reduz o tempo de sobrevida dos eritrócitos → anemia hemolítica grave → estimula a liberação de eritropoietina e a hiperplasia eritroide compensatória + resposta da medula óssea é sabotada pela eritroipoiese ineficaz → anemia persiste → hiperplasia eritroide pode tornar-se exuberante + produzir massas de tecido eritropoiético extramedular no fígado e no baço ○ expansão maciça da medula óssea→ desorganiza o crescimento e o desenvolvimento ○ hiperplasia medular do maxilar e da protuberância frontal → crianças adquirem uma face de “esquilo” típica + pode ocorrer adelgaçamento + fratura patológica dos ossos longos e das vértebras devido à invasão cortical por elementos eritroides + atraso acentuado do crescimento ● anemia hemolítica → hepatoesplenomegalia, úlceras de perna, cálculos biliares e insuficiência cardíaca congestiva de alto débito ● recrutamento dos recursos calóricos para sustentar a eritropoiese → inanição, suscetibilidade a infecções, disfunção endócrina ○ casos mais graves: morte durante a primeira década de vida ● transfusões crônicas de hemácias → melhoram o transporte de oxigênio + suprimem a eritropoiese ineficaz excessiva + prolongam a vida ○ efeitos colaterais inevitáveis (esp. sobrecarga de ferro) em geral tornam-se fatais por volta dos 30 anos de idade ● gravidade: altamente variável ● atores moduladores conhecidos: melhoram a quantidade de inclusões de α-globina não pareada ● alelos associados a defeitos mais leves de síntese e a co-herança do traço da α-talassemia→ reduzem a gravidade clínica ao diminuírem o acúmulo de α-globina em excesso ● HbF: persiste em vários graus nas β-talassemias ● cadeias de genes da γ-globina → podem substituir as cadeias β → gera mais hemoglobina + reduz a quantidade de inclusões de α-globina ● β-talassemia major e β-talassemia intermédia→ termos utilizados para refletir a heterogeneidade clínica ● pacientes com β-talassemia major: necessitam de suporte transfusional intensivo para sobreviver ● pacientes com β-talassemia intermédia: fenótipo um pouco mais leve e podem sobreviver sem transfusão ● β-talassemia minor e traço de β-talassemia: heterozigotos assintomáticos para β-talassemia Síndromes -Talassêmicasα ● causadas por deleções, mais raramente por mutações, de genes -globínicosα ● se há 4 cópias do gene de -globina→ gravidade depende do nº de genes que faltam ou estão inativosα ● perda de todos os 4 genes → suprime por completo a síntese de cadeia →α incompatível com a vida→morte in utero (hidropsia fetal) ● 4 -talassemias clássicas (ocorrência mais comum em asiáticos)α ○ traço da -talassemia 2: deleção de 1 dos 4 loci da -globinaα α ○ traço da -1: deleção de 2 lociα ○ doença da HbH: deleção de 3 loci→ rara ○ hidropsia fetal de Hb Barts: deleção de 4 loci→ rara ○ existem formas sem deleção ● hidropsia fetal: estado homozigoto para a deleção cis da α-talassemia 1→ ausência total da síntese da α-globina ○ não ocorre produção de qualquer hemoglobina fisiologicamente útil após o estágio embrionário ○ excesso de γ-globina → forma tetrâmeros → Hb Barts (γ4) → afinidade muito alta pelo oxigênio→ quase não libera O2 para os tecidos fetais → asfixia tecidual + edema (hidropsia fetal) + insuficiência cardíaca congestiva→morte in utero ● doença da Hb H: 3 deleções do gene → anemia microcítica e hipocrômica moderadamente grave (Hb 7-11 g/dL) comα esplenomegalia ○ produção de HbA é apenas 25 a 30% do normal ○ prole duplamente heterozigota para α-talassemia 2 e α-talassemia 1→ fenótipo + grave ○ feto acumula algumas cadeias β não pareadas (Hb Barts; tetrâmeros de cadeia γ) ○ adultos:cadeias β não pareadas se acumulam + solúveis o suficiente para formar tetrâmeros β4 (HbH)→ HbH forma poucas inclusões nos eritroblastos e precipitados nos eritrócitos circulantes → anemia hemolítica moderadamente grave, porém com eritropoiese ineficaz mais leve + comum a sobrevida do paciente até a meia-idade sem necessidade de transfusões ○ Hb H ( ): pode ser detectada nos eritrócitos desses pacientes por eletroforese ou em preparações de reticulócitosβ 4 ○ vida fetal→ Hb Barts ( )γ 4 ● traços -talassêmicos: causados por perda de 1 ou 2 genes + em geral não se associam à anemia + VCM e HCM baixos +α eritrócitos acima de 5,5 x / L + cromatografia líquida de alta resolução (HPLC) e eletroforese de Hb normais + necessário106 µ análise de DNA para diagnóstico ○ traço da α-talassemia 2: estado de portador silencioso assintomático→ 15-20% entre negros ○ traço da α-talassemia 1: assemelha-se à β-talassemia minor ○ doença da HbH ○ deleção cis: heterozigose para uma deleção que remove ambos os genes do mesmo cromossomo → comum em asiáticos e Mediterrâneo + deleção trans: homozigose para a α-talassemia 2 → ambas provocam hipocromia e microcitose assintomáticas ● formas incomuns de -talassemia não delecional: causadas por mutações pontuais que produzem disfunção dos genes ou,α raramente, por mutações que afetam a terminação da tradução→ cadeia longa e instável (ex.: Hb Constant Spring) ○ gene no cromossomo 16 (ATR-16) ou no cromossomo X (ATR-X): controlam transcrição do gene da -globina e deα outros genes→mutação→ 2 formas raras de -talassemia associadas à deficiência intelectualα Síndromes -Talassêmicasβ ● mutações podem afetar qualquer etapa na via de expressão dos genes da globina: transcrição, processamento do precursor do mRNA, tradução e metabolismo pós-tradução da cadeia polipeptídica da β-globina ○ formas mais comuns: surgem de mutações que afetam o splicing do mRNA precursor ou que interrompem prematuramente a tradução do mRNA ● hipocromia e microcitose: todas as formas ○ quantidades reduzidas dos tetrâmeros de Hb ○ heterozigotos (traço de β-talassemia): única anormalidade observada + anemia mínima -Talassemia maiorβ ● chance de ocorrência em filhos de pai e mãe portadores do traço -talassêmico: 1:4β ● não há síntese de cadeia ( ) OU só é sintetizada uma pequena e insuficientes quantidade de cadeias ( )β β0 β β+ ● quanto maior o excesso de cadeias → + grave a anemiaα ○ produção de cadeias → ajuda a “limpar” o excesso de cadeias + atenua a doençaγ α ● lesões genéticas pontuais → podem ocorrer dentro do complexo do próprio gene ou nas regiões promotoras ou amplificadoras ○ certas mutações → + frequentes em algumas comunidades → simplifica o diagnóstico pré-natal dirigido para a detecção de mutações no DNA fetal ● talassemia maior: várias vezes resulta de herança de 2 mutações diferentes que afetam a síntese de -globinaβ (heterozigotos compostos) ○ alguns casos: supressão dos genes , e ou , eβ δ β β δ γ ○ outros: cruzamento (crossing-over) desigual→ fusão dos genes → síndrome de Leporeδβ Manifestações clínicas ● anemia grave: notada 3-6 meses após o nascimento →mudança de produção da cadeia para → atraso no desenvolvimento, palidez progressiva e abdome inchadoγ β ● aumento do fígado e do baço: destruição excessiva de eritrócitos + hematopoese extramedular→ sobrecarga de ferro ○ baço grande → aumenta necessidade hemoterápicas + expansão do volume plasmático ● expansão dos ossos: hiperplasia eritroide da medula óssea → “faceis talassêmica” + adelgaçamento do córtex de muitos ossos→ tendência a fraturas + formação de bossas no crânio → aspecto radiológico de “fios de escova” ● talassemia maior: doença que causa com maior frequência a sobrecarga transfusional de ferro ○ necessidade de transfusões por toda a vida, desde o 1º ano, salvo se tiver cura por transplante de células-tronco ○ baixo nível de hepcidina dependente da liberação de proteínas (ex.: GDF 15) → absorção de Ferro aumentada ○ infância: comum retardos do crescimento e da puberdade ○ sem tratamento→morte por dano cardíaco na adolescência ● infecções: frequentes ○ 1ª infância: sem reposição transfusional adequada → anemia predispõe a infecções bacterianas ○ esplenomegalia→ suscetibilidade ao pneumococo, e Haemophilus e ao meningococo ○ infecção por Yersinia enterocolitica → esp. em pacientes com sobrecarga de Fe em tratamento com desferroxiamina + pode causar grave gastrenterite ● doença hepática: geralmente se deve à hepatite C mas hepatite B também é comum em área endêmicas + sobrecarga de Fe pode causar dano hepático ● osteoporose: pode ocorrer em pacientes bem transfundidos + mais comum em pacientes diabéticos com anomalias endócrinas ● carcinoma hepatocelular: incidência aumentada em pacientes com sobrecarga de Fe e hepatite crônica B ou C + USG e dosagem de alfa-fetoproteína sérica recomendados a cada 6 meses Diagnóstico laboratorial ● hemograma ○ grave anemia microcítica e hipocrômica ○ aumento da contagem de reticulócitos e com eritroblastos, células-alvo e pontilhado basófilo na distensão sanguínea ● cromatografia líquida de alta resolução (HPLC): padrão-ouro para diagnosticar distúrbios da Hb ○ HPLC ou eletroforese de Hb → ausência ou diminuição extrema de Hb A + quase toda Hb circulante é Hb F + Hb A2 normal, baixa ou levemente aumentada ○ análise de DNA: identificar defeito em cada alelo→ importante no diagnóstico pré-natal Tratamento ● necessário transfusões regulares de glóbulos para manter Hb sempre > 10g/dL ○ em geral: necessárias 2-3 unidades a cada 4-6 semanas ○ sangue fresco e filtrado para remoção de leucócitos → maior sobrevida dos eritrócitos transfundidos + menos reações adversas ○ genótipo dos pacientes deve ser determinado no início do programa de transfusão para o caso de surgirem anticorpos contra eritrócitos transfundidos ● terapia quelante de ferro: essencial + disponibilidade de fármacos aumentou consideravelmente a expectativa de vida ● ácido fólico: administrado regularmente se a dieta for pobre ● esplenomegalia: pode ser necessária para diminuir as necessidades de sangue + deve ser adiada até que o paciente ultrapasse 6 anos de idade (alto risco de infecções graves após a esplenectomia) ● tratamento endocrinológico: reposição por falência de órgãos periféricos ou para estimular a hipófise se a puberdade for retardada ● imunização contra a hepatite B: feita em todos os paciente não imunes ● transplante de células-tronco alogênicas: perspectiva de cura permanente ○ índice de sucesso em pacientes jovens bem quelados, sem fibrose hepática ou hepatomegalia: > 80% Traço -talassêmico (talassemia menor)β ● condição comum, em geral assintomática ● quadro hematológico ○ anemia leve (Hb 10-12 g/dL) ○ microcítico e hipocrômico (VCM e HCM muito baixos) ○ contagem de eritrócitos alta (> 5,5 x / )106 µ𝐿 ● em geral: anemia + grave do que no traço -talassêmicoα ● aumento de Hb (> 3,5%)→ confirma diagnóstico𝐴 2 Talassemia intermediária (talassemia não dependente de tratamento transfusional) ● gravidade moderada (Hb 7-10 g/dL) sem necessidade de transfusões regulares ● síndrome clínica → pode ser causada por uma variedade de defeitos genéticos: -talassemia homozigótica com produçãoβ de mais Hb F do que o normal, traço -talassêmico isolado de gravidade incomum ( -talassemia “dominante”) ou traçoβ β β -talassêmico com leves anomalias na globina (ex.: Hb Lepore) ● coexistência de traço -talassêmico → melhora nível de Hb na -talassemia homozigótica pela diminuição do grau deα β desequilíbrio de cadeias + da precipitação de cadeias e da eritropoese ineficazα : β α ● pacientes com traço -talassêmico e excesso de genes → + anêmicos que o normalβ α ● deformidades ósseas, hepatomegalia e esplenomegalia, eritropoese extramedular, úlceras de perna, litíase vesicular, osteoporose e tromboses venosas ● aumento da absorção e transfusões ocasionais de Fe (ex.: gestação ou diminuir deformidades ósseas)→ sobrecarga de Fe ● quelaçãode ferro (fármacos orais)→ necessário se a ferritina > 5mg/g ● esplenectomia: útil para evitar necessidade de transfusão ● hemoglobinopatia H ( -talassemia com deleção de 3 genes) → talassemia intermediária sem sobrecarga de Fe ouα hematopoese extramedular -Talassemiaδβ ● falta de produção das cadeias eδ β ● produção de Hb fetal→ aumenta a 5-50% no estado heterozigótico→ hematologicamente semelhante à talassemia menor ● estado homozigótico→ presente apenas Hb F→ quadro hematológico de talassemia intermediária Hemoglobina Lepore ● Hb anormal causada pelo cruzamento (crossing-over) desigual dos genes e → cadeia peptídica = cadeiaδ β δ aminoterminal + cadeia carboxiterminalβ ● cadeia de fusão sintetizada de maneira ineficiente + produção de cadeias e abolidaδβ δ β ● homozigotos→ talassemia intermediária ● heterozigotos→ traço talassêmico Persistência hereditária da Hb fetal ● grupo heterogêneo de doenças genéticas causadas por deleções ou crossing over→ afeta a produção de cadeias eβ γ ● formas sem deleção→mutações pontuais a jusante dos genes de -globina ou no gene BCL11Aγ Associação de traço -talassêmico com outros distúrbios genéticos da Hbβ ● combinação traço -talassêmico com o Hb E→ síndrome de talassemia maior, depende de transfuçãoβ ● algumas se apresentam como talassemia intermediária ● traço -talassêmico + traço de Hb S→ quadro clínico + próximo de anemia de células falciformes do que talassemiaβ ● traço -talassêmico + traço Hb D→ anemia microcítica e hipocrômica de gravidade variávelβ Diagnóstico e tratamento das talassemias ● β-talassemia major ○ diagnóstico facilmente estabelecido durante a infância → presença de anemia grave + sinais característicos de eritropoiese ineficaz maciça: hepatoesplenomegalia, microcitose profunda, esfregaço sanguíneo característico + níveis elevados de HbF, HbA2, ou ambas ○ muitos pacientes necessitam de terapia crônica de hipertransfusão → finalidade de manter um hematócrito de pelo menos 27 a 30%, de modo a suprimir a eritropoiese ○ esplenectomia: indispensável se a necessidade de transfusão anual (volume de hemácias por quilograma do peso corporal por ano) aumentar em > 50% ○ suplementos de ácido fólico: podem ser úteis ○ vacinação com Pneumovax, prevendo uma futura esplenectomia + monitoramento rigoroso à procura de infecção, úlceras de perna e doença do trato biliar ○ sobrecarga de ferro → deficiências endócrinas → proceder a uma avaliação endócrina precoce à procura de intolerância à glicose, disfunção da tireoide e início tardio da puberdade ou do surgimento das características sexuais secundárias ● β-talassemia intermédia: quadro semelhante a major, porém podem sobreviver sem hipertransfusão crônica ○ fatores que podem agravar a anemia: infecção, início da puberdade, desenvolvimento de esplenomegalia e hiperesplenismo ○ expansão da massa eritrocitária→ absorção excessiva do ferro da dieta e hemossiderose, mesmo sem transfusão ○ alguns pacientes acabam ficando dependentes de transfusão ● β-talassemia minor (traço talassêmico): microcitose profunda e hipocromia com células-alvo, porém com anemia apenas mínima ou discreta ○ raramente: VCM > 75 fl + hematócrito < 30 a 33% ○ análise da hemoglobina → elevação da HbA2 (3,5-7,5%) + algumas formas estão associadas à HbA2 normal e/ou à HbF elevada ○ aconselhamento genético + orientação do paciente → essenciais → devem ser advertidos de que o seu quadro hematológico assemelha-se ao da deficiência de ferro + evitar uso empírico de ferro ● traço da α-talassemia: hipocromia e microcitose leves, em geral sem anemia ○ níveis de HbA2 e de HbF: normais ○ em geral: só necessitam de aconselhamento genético ● doença da HbH: assemelha-se à β-talassemia intermédia ○ complicação adicional de que a molécula de HbH se comporta como uma Hb moderadamente instável ○ devem ser submetidos à esplenectomia se houver desenvolvimento de anemia excessiva ou necessidade de transfusão ○ preciso evitar os fármacos oxidativos ○ pode ocorrer sobrecarga de Fe→morte dos pacientes mais gravemente acometidos Prevenção ● diagnóstico pré-natal das síndromes talassêmicas: disponível em ampla escala ○ baseia-se na amplificação do DNA fetal pela reação em cadeia da polimerase (PCR) ○ amostra obtida por amniocentese ou biópsia das vilosidades coriônicas, seguida de hibridização para sondas de oligonucleotídeos específicas de alelos ou sequenciamento direto do DNA Outras hemoglobinopatias Hemoglobinas instáveis ● substituições de AA que reduzem a solubilidade ou que aumentam a suscetibilidade à oxidação → Hb instáveis que precipitam→ forma corpúsculos de inclusão que lesionam a membrana do eritrócito ● mutações representativas: interferem nos pontos de contato entre as subunidades α e β (ex.: Hb Philly [β35Tyr→Phe]), alteram os segmentos helicoidais (p. ex., Hb Genova [β28Leu→Pro]) ou rompem interações das bolsas hidrofóbicas das subunidades de globina com o heme (p. ex., Hb Köln [β98Val→Met]) ● corpúsculos de Heinz: inclusões que podem ser clinicamente detectadas mediante coloração com corantes supravitais, como o cristal violeta ● remoção dessas inclusões pelo baço → células rígidas e escavadas com tempo de sobrevida encurtado → anemia hemolítica de gravidade variável que, algumas vezes, exige suporte transfusional crônico ● esplenectomia: pode ser necessária para corrigir a anemia ● úlceras de perna e a doença prematura da vesícula biliar, em virtude da carga de bilirrubina: estigmas frequentes ● Hb instáveis: ocorrem de modo esporádico, em geral por novas mutações espontâneas ● heterozigotos: costumam ser sintomáticos, devido ao possível desenvolvimento de uma carga significativa de corpúsculos de Heinz, mesmo quando a variante instável representa apenas parte da hemoglobina total ● Hb instáveis sintomáticas: tendem a ser variantes da β-globina → mutações esporádicas que só afetam um dos quatro alelos da globina α produziriam apenas 20 a 30% de hemoglobina anormal Hemoglobinas com afinidade alterada pelo oxigênio ● Hb de alta afinidade (ex.: Hb Yakima [β99Asp→His]): ligam-se ao oxigênio mais rapidamente, porém liberam uma menor quantidade de O2 aos tecidos na presença de níveis capilares normais de PO2 → hipoxia tecidual leve, estimulando a produção de eritrócitos e a eritrocitose ● casos extremos: Ht pode atingir 60-65% → aumenta a viscosidade sanguínea + sintomas típicos (cefaleia, sonolência ou tontura) ● flebotomia: pode ser necessária ● mutações típicas → alteram as interações dentro da bolsa do heme ou desorganizam o efeito Bohr ou o local da ligação de sal ● mutações que comprometem a interação da HbA com o 2,3-BPG → aumenta a afinidade pelo O2 → ligação ao 2,3-BPG diminui a afinidade pelo O2 ● hemoglobinas de baixa afinidade (p. ex., Hb Kansas [β102Asn→Lys]): ligam-se a uma quantidade suficiente de oxigênio nos pulmões, apesar de sua menor afinidade pelo oxigênio, até alcançar uma saturação quase completa ○ pseudoanemia: tensões capilares de oxigênio → perdem quantidades de oxigênio suficientes para manter a homeostasia com Ht baixo ○ dessaturação da hemoglobina capilar: pode ser suficiente para provocar cianose clinicamente aparente Metaglobinemias ● metemoglobina: produzida pela oxidação do ferro do heme ao estado férrico→ coloração marrom fosco azulada típica que lembra a cianose ● afinidade elevada pelo oxigênio→ praticamente nenhum oxigênio é liberado ● níveis > 50 a 60% costumam ser fatais ● metemoglobinemia congênita: surge em decorrência de mutações da globina que estabilizam o ferro no estado férrico (ex.: HbM Iwata [α87His→Tyr]) ou de mutações que comprometem as enzimas que reduzem a metemoglobina à hemoglobina (ex.: metemoglobina-redutase, NADP-diaforase) ● metemoglobinemia adquirida: causada por toxinas que oxidam o ferro do heme, notadamente compostos que contêm nitrato e nitrito, incluindo fármacos de uso comum em cardiologia e anestesiologia Diagnóstico e tratamento de pacientes com Hb instáveis, Hb de alta afinidade e metemoglobinemia● suspeitar de variantes instáveis da hemoglobina em pacientes com anemia hemolítica não imune, icterícia, esplenomegalia ou doença prematura do trato biliar ● em geral: hemólise grave manifesta-se durante a lactância na forma de icterícia ou anemia neonatais ● casos mais leves: podem manifestar-se na idade adulta com anemia ou apenas na forma de reticulocitose inexplicada, hepatoesplenomegalia, doença prematura do trato biliar ou úlceras de perna ● comum: ocorrência de mutação espontânea, podendo não haver história familiar de anemia ● frequente: esfregaço de sangue periférico revela anisocitose, células abundantes com inclusões pontilhadas e formas irregulares (poiquilocitose) ● testes mais apropriados para estabelecer o diagnóstico das hemoglobinas instáveis (2): preparação dos corpúsculos de Heinz e o teste do isopropanol ou de estabilidade ao calor ● muitas variantes de Hb instáveis: eletroforeticamente silenciosas → obtenção de eletroforese normal não exclui o diagnóstico ● HPLC ou a análise gênica direta→ diagnóstico definitivo ● pacientes gravemente acometidos → podem necessitar de suporte transfusional durante os três primeiros anos de vida, visto que a esplenectomia antes dessa idade está associada a um déficit imune significativamente maior ○ em geral: esplenectomia é eficaz posteriormente ○ após esplenectomia → pacientes podem desenvolver colelitíase e úlceras de perna, estados hipercoaguláveis e suscetibilidade à sepse fulminante ○ esplenectomia deve ser evitada ou adiada, a não ser que constitua a única alternativa ● alguns pacientes podem necessitar de suporte transfusional durante toda a vida ● precipitação das hemoglobinas instáveis: agravada pelo estresse oxidativo (ex.: infecções e determinados agentes antimaláricos, cujo uso deve ser evitado sempre que possível) ● suspeitar de variantes de hemoglobina com alta afinidade pelo O2 em pacientes com eritrocitose ○ melhor teste para confirmação→ determinação da P50 ○ presença de hemoglobina com alta afinidade pelo O2 provoca um desvio significativo para a esquerda (menor valor numérico de P50) ○ outras condições passíveis de causar confusão (ex.: tabagismo ou exposição ao monóxido de carbono) também podem reduzir a P50 ● hemoglobinas de alta afinidade: com frequência→ assintomáticas + rubor ou a pletora podem constituir sinais indicadores ○ Ht se aproxima de 60%→ sintomas de alta viscosidade do sangue e fluxo lento (cefaleia, letargia, tontura, etc.) ○ podem beneficiar-se de flebotomia criteriosa ○ eritrocitose: tentativa apropriada de compensar o transporte reduzido de oxigênio pela variante anormal ○ flebotomia excessiva → pode estimular um aumento da eritropoiese ou agravar os sintomas ao impedir esse mecanismo compensatório ○ deficiência de ferro modesta induzida pela flebotomia→ pode ajudar no controle ● hemoglobinas de baixa afinidade em pacientes com cianose ou hematócrito baixo, sem outra razão aparente após avaliação minuciosa ○ teste da P50 confirma o diagnóstico ○ aconselhamento e a tranquilização do paciente: intervenções de escolha ● suspeitar da presença de metemoglobinemia adquirida → pacientes com sintomas hipóxicos, que têm aspecto cianótico, mas que apresentam uma PaO2 alta o suficiente→ Hb totalmente saturada com oxigênio ○ história de ingestão de nitrito ou outros oxidantes nem sempre é obtida ○ algumas exposições podem ser inaparentes para o paciente, ao passo que outras podem resultar de tentativas de suicídio ○ aparência barrenta típica do sangue recém-coletado→ indício fundamental ○ níveis > 15%→ sintomas de isquemia cerebral ○ níveis > 60%→ costumam ser letais ○ injeção intravenosa de 1 mg/kg de azul de metileno: terapia de emergência eficaz ○ casos mais leves + acompanhamento dos casos graves: tratados com azul de metileno por VO (60 mg, 3-4×/dia) ou ácido ascórbico (300-600 mg/dia) Hemoglobina lepore ● Hb Lepore (α2[δβ]2): surge de um crossing-over desigual e de um evento de recombinação que une a extremidade proximal do gene δ com a extremidade distal do gene β estreitamente ligado ● comum na bacia do Mediterrâneo ● cromossomo resultante contém apenas o gene δβ fusionado ● globina Lepore (δβ): sintetizada precariamente→ gene fusionado fica sob controle do promotor fraco da globina δ ● alelos da Hb Lepore: fenótipo semelhante ao da β-talassemia, exceto pela presença adicional de 2 a 20% de Hb Lepore ● heterozigotos compostos para a Hb Lepore e um alelo da β-talassemia clássico também podem apresentar talassemia grave Hemoglobina E ● HbE (α2β226Glu→Lys): extremamente comum no Camboja, na Tailândia e no Vietnã ● levemente instável, porém não o suficiente para afetar de maneira significativa o tempo de sobrevida dos eritrócitos ● heterozigotos: assemelham-se aos indivíduos com o traço da β-talassemia ● homozigotos: microcitose levemente assintomática, hipocromia e níveis de hemoglobina raramente < 100 g/L (< 10 g/dL) ● heterozigotos compostos para HbE e um gene da β-talassemia: podem apresentar a β-talassemia intermédia ou a β-talassemia major, dependendo da gravidade do gene talassêmico co-herdado ● alelo βE: tem uma alteração de uma única base no códon 26→ provoca substituição de um AA + ativa um local de splicing oculto do RNA → gera um mRNA de globina estruturalmente anormal, que não pode ser traduzido, de cerca de 50% das moléculas iniciais de pré-mRNA ● 40 a 50% restantes→ splicing normal + produzem mRNA funcional, traduzido em βE-globina, pois o mRNA maduro tem uma mudança de base que altera o códon 26 ● aconselhamento genético dos indivíduos com risco de HbE: deve concentrar-se particularmente na interação da HbE com β-talassemia Persistência hereditária da Hb fetal ● síntese contínua de níveis elevados de HbF na idade adulta ● não há efeitos deletérios aparentes, mesmo quando toda a hemoglobina produzida é HbF ● demonstra que a prevenção ou a reversão da mudança da hemoglobina fetal para a hemoglobina do adulto devem proporcionar uma terapia eficaz para a anemia falciforme e a β-talassemia Hemoglobinopatias adquiridas ● intoxicação por monóxido de carbono e a metemoglobinemia ● monóxido de carbono possui maior afinidade pela hemoglobina do que o oxigênio → pode substituí-lo + diminuir o seu transporte ● elevação crônica dos níveis de carboxiemoglobina para 10 a 15%, como a que ocorre nos fumantes, pode resultar em policitemia secundária ● carboxiemoglobina:a cor vermelho-cereja → mascara o desenvolvimento da cianose, em geral associada a uma liberação deficiente de O2 aos tecidos ● pacientes com mielodisplasia, eritroleucemia ou distúrbios mieloproliferativos→ níveis elevados de HbF ou uma forma leve de doença da HbH Tratamento Hemossiderose transfusional ● transfusão sanguínea crônica: pode resultar em infecção transmitida pelo sangue, aloimunização, reações febris e sobrecarga de ferro letal ● 1 und de concentrado de hemácias → 250-300 mg de ferro (1 mg/L) → ferro assimilado por uma única transfusão de 2 unidades de concentrado de hemácias = uma ingestão oral de ferro durante 1 a 2 anos ● Fe acumula-se nos pacientes submetidos a transfusões crônicas → não existem mecanismos para aumentar sua excreção → expansão do éritron→ desenvolvimento particularmente rápido de sobrecarga de ferro ○ eritropoiese acelerada promove a absorção excessiva do ferro da dieta ● vitamina C não deve ser fornecida como suplemento→ gera radicais livres nos estados de excesso de ferro ● pacientes que recebem > 100 unidades de concentrado de hemácias→ geralmente apresentam hemossiderose ● níveis de ferritina aumentam, seguidos de disfunção endócrina precoce (intolerância à glicose e atraso da puberdade), cirrose e miocardiopatia ● biópsia hepática→ presença de ferro parenquimatoso e reticuloendotelial ● cardiotoxicidade: insidiosa ○ desenvolvimento precoce de pericardite seguido de arritmia e falência da bomba ○ início da insuficiência cardíaca: funesto + com frequência, prenuncia a morte em 1 ano ● tratamento com agentesquelantes do ferro: desferroxamina é usada por via parenteral → exige infusão lenta crônica através de uma bomba dosimetrada ○ presença constante do fármaco: melhora a eficiência da quelação + protege os tecidos da liberação ocasional da fração mais tóxica do ferro – o ferro de baixo peso molecular –, que não pode ser sequestrada pelas proteínas protetoras ○ desferroxamina: relativamente atóxica → podem ocorrer catarata, surdez e reações cutâneas localizadas, incluindo urticária ○ deferasirox: agente oral quelante do ferro→ doses diárias de 20 a 30 mg/kg→ reduções da concentração hepática de ferro comparáveis àquelas obtidas com a desferroxamina em pacientes adultos e pediátricos submetidos a transfusões de longo prazo → pode causar certa elevação nas enzimas hepáticas e aumentos leves, mas persistentes, na creatinina sérica sem consequência clínica aparente + perfil de toxicidade aceitável, embora os efeitos em longo prazo ainda estejam sendo avaliados. ● deterioração irreversível dos órgãos-alvo com níveis relativamente moderados de sobrecarga de ferro, mesmo quando os sintomas não aparecem durante muitos anos ● para obter uma sobrevida significativa→ quelação precisa ser iniciada antes dos 5 aos 8 anos na β-talassemia major Terapias experimentais ● transplante de medula óssea: fornece células-tronco capazes de expressar a Hb normal ○ início da evolução da doença, antes da ocorrência de lesão dos órgãos-alvo: transplante é curativo em 80 a 90% dos pacientes ○ centros altamente especializados: taxa de mortalidade relacionada com o tratamento < 10% ○ sobrevida até a idade adulta é possível com terapia convencional → decisão quanto à realização de transplante é tomada com a participação de centros especializados. ● terapia gênica: novos lentivírus vetores parecem ser capazes de produzir uma síntese estável de variantes de hemoglobina antifalciformes em alguns casos, sem a mutagênese insercional observada com outros vetores ● restabelecimento dos altos níveis de síntese de hemoglobina fetal deve melhorar os sintomas das hemoglobinopatias de cadeia β ○ agentes citotóxicos (ex.: hidroxiureia e citarabina) → promovem altos níveis de síntese da HbF, provavelmente ao estimular a proliferação da população de células progenitoras primitivas produtoras de HbF (progenitores das células F) ○ ainda não demonstrou ser efetivo na β-talassemia ○ butiratos estimulam a produção de HbF, porém apenas de modo transitório → administração em pulsos ou intermitente sustenta a indução da HbF na maioria dos pacientes com anemia falciforme Crises aplásicas e hipoplásicas em pacientes com hemoglobinopatias ● crise aplásica: profunda interrupção da atividade eritroide em pacientes com anemias hemolíticas crônicas, está associada a uma rápida queda do hematócrito ○ causadas pela infecção por uma cepa específica do parvovírus, B19A→ crianças infectadas por esse vírus costumam desenvolver imunidade permanente ● pacientes com anemia hemolítica→ algumas vezes exibem um declínio alarmante do hematócrito durante e imediatamente após uma doença aguda→ ocorre supressão da medula óssea em quase todos os pacientes durante doenças inflamatórias agudas e crônicas ● pacientes com eritrócitos de sobrevida curta→ supressão pode afetar mais radicalmente as contagens dos eritrócitos ● em geral: crises hipoplásicas são transitórias e passíveis de autocorreção antes de surgir a necessidade de intervenção ● não sofrem recidiva frequente e raramente observadas em adultos ● tratamento: exige monitoramento rigoroso do hematócrito e da contagem dos reticulócitos ● anemia sintomática→ suporte transfusional ● maioria das crises: desaparece espontaneamente em 1 a 2 semanas