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Introdução à Segurança Pública Políticas de Segurança Pública Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria MARIANNA SALVÃO FELIPETTO AUTORIA Marianna Salvão Felipetto Olá! Sou advogada no Brasil e Mestre em Ciências Jurídico-Criminais pela Universidade de Coimbra, a mais antiga de Portugal e uma das mais tradicionais de todo o mundo. Possuo experiência técnico-profissional, sobretudo nas áreas de direito e processo penal, com as quais trabalho há mais de oito anos. Durante a graduação, trabalhei em órgãos públicos como o Ministério Público do Estado do Paraná e Defensoria Pública do Estado do Paraná. No setor privado, presto serviços de escrita de conteúdo para a TransferWise, na qual treino diariamente a habilidade de síntese e objetividade na hora de tratar sobre assuntos nem sempre tão simples. Tudo o que faço, faço porque acredito piamente no poder da informação. É ela a ferramenta primordial para uma sociedade com pensamento crítico e independente. E assim, com cidadãos que pensam de forma autônoma e estruturada, todos os debates tornam-se mais produtivos e a evolução da sociedade como um todo é possível. Foi por esta forma de pensar que fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes e garanto-lhe que estou muito feliz em poder ajudá-lo nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! ICONOGRÁFICOS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO: para o início do desenvolvimento de uma nova compe- tência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou dis- cutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últi- mas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Noções de Segurança Pública .............................................................. 10 O que é Segurança Pública ..................................................................................................... 10 Conceito de Segurança e Segurança Privada ......................................... 11 Segurança Pública ...................................................................................................... 14 Segurança Nacional .................................................................................................. 15 O que são as Políticas de Segurança Pública ............................................................ 17 A Segurança Pública e os Direitos Humanos ................................. 21 O Contexto Histórico dos Direitos Humanos na Atualidade ............................ 21 Quais são os Direitos Humanos?..........................................................................................24 Os Direitos Humanos e a Segurança Pública .............................................................27 A Segurança Pública na Constituição Federal de 1988 .............. 32 O Direito Constitucional à Segurança Pública ...........................................................32 Função do Estado na Garantia da Segurança Pública .....................34 Função da População na Garantia da Segurança Pública ........... 36 Os Órgãos de Segurança Pública Previstos Constitucionalmente .............37 Polícia Federal .............................................................................................................. 38 Polícia Rodoviária Federal .................................................................................... 39 Polícia Ferroviária Federal..................................................................................... 39 Bombeiros e Polícia Militar ................................................................................... 39 Polícia Civil ....................................................................................................................... 39 Definições Importantes Sobre Segurança Pública no Brasil .... 41 Poder de Polícia não é Poder da Polícia ........................................................................ 41 O papel das Forças Armadas .................................................................................................43 A Segurança Pública como um Sistema ........................................................................44 Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP .................... 46 Conselho Nacional de Segurança Pública – CONASP .....................47 Departamento Penitenciário Nacional - DEPEN Nacional ............ 48 Departamento Penitenciário Local – DEPEN Local ........................... 50 7 UNIDADE 01 Políticas de Segurança Pública 8 INTRODUÇÃO Seja nos jornais, na televisão ou nas redes sociais, sempre que se abordam os grandes problemas da atualidade, a Segurança Pública aparece como uma das principais questões. Afinal, qualidade de vida está diretamente relacionada à sensação de segurança e é por isso que se torna tão importante debater esta questão. Mas você sabe exatamente quais são as questões de Segurança Pública? Conhece os órgãos responsáveis e quais os mecanismos que o Estado possui para efetivá-la? As políticas de Segurança Pública representam um dos maiores e mais importantes desafios do século, e por isso é essencial que você saiba como a Constituição da República e o Sistema Brasileiro como um todo abordam e buscam respostas para este tema. Está curioso? Então aproveite esta unidade letiva para mergulhar de cabeça neste universo!. Políticas de Segurança Pública 9 OBJETIVOS Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1 – Introdução à Segurança Pública. Nosso objetivo é auxiliar você no atingimento dos seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender os conceitos básicos que permeiam a noção de Segurança Pública. 2. Analisar a importância dos Direitos Humanos e entender em que sentido a Segurança Pública pode ser considerada um deles. 3. Identificar a forma como a Constituição Federal de 1988 trabalha esta questão e quais são os órgãos responsáveis pela Segurança Pública em território nacional. 4. Adentrar nas demais esferas do sistema de Segurança Pública no Brasil e analisar aspectos importantes para a obtenção de dados e na criação de ferramentas de Segurança Pública. E então? Ansioso para iniciar uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! Políticas de Segurança Pública 10 Noções de Segurança Pública OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender vários dos conceitos básicos sobre segurança, desde a privada, passando pela pública e chegando à nacional. Este primeiro passo é essencial para que se construa uma base firme, que te possibilite um raciocínio lógico e independente sempre que se tratar de Segurança Pública. E então? Animado para desenvolver esta competência? Avante!. O que é Segurança Pública No Brasil e em diversos outros países, a Segurança Pública aparece como uma das principais prioridades dos governos. Entretanto, embora muito se fale sobre ela, raramente os pormenores do termo são explicados para a população ou até mesmodebatidos com ela. Isso é importante, sobretudo porque o próprio conceito de “segurança” por si só, por mais óbvio que possa parecer, sempre irá possuir especificidades que variam conforme a posição da pessoa que está tratando sobre o tema e a interpretação dada por ela. Nos tópicos a seguir, você irá analisar a expressão “Segurança Pública”, para que possa, ao final, chegar à conclusão sobre o seu próprio conceito – formado de forma racional e estruturada. Políticas de Segurança Pública 11 Conceito de Segurança e Segurança Privada Segurança é um termo usado por quase todo mundo, quase que diariamente. Todos sabem que ter direito a ela é algo que a população clama nas eleições e é algo que está assegurado até mesmo na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU. Basicamente, depois da vida e da liberdade, a segurança é o bem mais precioso na vida de basicamente qualquer ser humano. Mas você já parou para pensar no que ele efetivamente se traduz? Se procurar no dicionário, você verá que as principais definições de segurança estão relacionadas a “estar afastado do perigo e dos riscos”, “acautelado e protegido” em uma situação de “certeza” e “sem medos”. Justamente por conta destes conceitos, é possível concluir que o que é seguro para alguns, na prática, não é seguro para outros. O perigo se mostra de formas muito diferentes para as pessoas. Quer alguns exemplos? Imagine a situação de uma mulher com menos de 30 anos, que vive na periferia, onde cria sozinha seus 3 filhos. E imagine, em contrapartida, um empresário bem sucedido, que tem seus filhos matriculados em escola integral e que, aos fins de semana, são cuidados pela babá. Se for perguntado a essas duas pessoas o que lhes faz sentir inseguros, a resposta certamente será diferente, e isso acontece precisamente por conta das experiências que cada um viveu durante a vida. Na periferia, os problemas relacionados à segurança são certamente diferentes dos problemas de segurança vividos pela classe média/alta. No exemplo dado, a senhora que vive na periferia irá sentir insegurança por conta dos problemas intrínsecos à pobreza, à violência, à falta de certeza quanto ao dinheiro para dar de comer aos filhos ou ao medo de que, na primeira chuva mais forte que aconteça, sua casa não consiga ficar em pé. Para esta senhora, uma vida sem segurança está ligada propriamente ao medo de não ter as condições mínimas para viver e fazer viver os seus. Políticas de Segurança Pública 12 Figura 1 – Pobreza Fonte: Pixabay. Em contrapartida, para o empresário bem-sucedido, a insegurança pode aparecer na instabilidade do mercado financeiro, nas crises econômicas ou no medo de levar seus filhos à escola e eles serem sequestrados para que se peça um resgate, por exemplo. Figura 2 – Empresário de sucesso Fonte: Pixabay. Políticas de Segurança Pública 13 As questões de gênero podem ser (e comumente são) fatores que diferenciam as noções de segurança para cada um. O maior exemplo disso é que, se você perguntar a um homem qual o seu maior medo na hora de voltar sozinho para casa, a pé, de madrugada, ele possivelmente responderá ter medo de ser assaltado. Em contrapartida, se esta mesma pergunta for feita a uma mulher, embora o medo de assalto também exista, certamente o medo de ser estuprada poderá ser maior. Isso não se deve a uma coincidência, mas sim ao fato de que, comprovadamente, mulheres são as principais vítimas deste tipo de criminalidade. Ou seja, noções de segurança por si só dizem respeito às noções de segurança privada de cada um e, nesse sentido, cada um sabe de si, dos seus medos e receios. IMPORTANTE: Tratar sobre as diferenças do conceito de segurança para cada um não é um exercício de julgar qual a noção mais importante. Não se busca com isso determinar uma noção como certa e outra como errada. O foco, neste momento, é apenas entender que “segurança” por si só é um conceito variável, que está absolutamente ligado à experiência pessoal de cada um e ao lugar ocupado no mundo. Faça um exercício mental consigo mesmo: o que é segurança para você? Quais as situações do cotidiano que mais lhe fazem sentir na pele a insegurança? Políticas de Segurança Pública 14 Segurança Pública Ao contrário do conceito de segurança, que possui um significado completamente particular e variável conforme as condições e experiências de cada um, a noção de Segurança Pública é composta por contornos mais determinados (muito embora não sejam estáticos). O primeiro tópico a ser abordado diz respeito à esfera de abrangência da Segurança Pública: ao contrário da segurança, quando se trata de Segurança Pública sai-se da esfera privada e passa-se à esfera comunitária. Aqui, mais do que os medos e as inseguranças de cada indivíduo, a sociedade é analisada como um todo, de forma a entender quais são as principais preocupações do coletivo, naquele lugar e tempo determinado. Quer um exemplo? A alguns parágrafos atrás, ao pensar no que lhe faz sentir inseguro, você possivelmente sequer lembrou dos acidentes de trânsito. Entretanto, para o Brasil e para diversos outros países, esta é claramente uma preocupação concernente à Segurança Pública, já que, segundo a ONU, anualmente morrem cerca de 1 milhão e 350 mil pessoas em acidentes de trânsito ao redor do globo (uma média de 3.700 pessoas por dia, o equivalente a sete acidentes de avião). Ou seja, embora talvez essa não seja uma questão de segurança privada, na sua realidade, trata- se de uma questão de Segurança Pública. Ao entender um problema como sendo público, passa-se parte (ou toda) da responsabilidade ao Estado, que irá, com seus mecanismos, buscar formas de enfrentamento à questão. DEFINIÇÃO: Segurança pública é o termo utilizado para englobar o conjunto de questões que colocam em risco a comunidade como um todo. Geralmente, as matérias de Segurança Pública tendem a estar ligadas de alguma forma à questão da criminalidade. Políticas de Segurança Pública 15 Segurança Nacional Embora possuam nomes parecidos, a Segurança Pública e a Segurança Nacional não podem ser confundidas. Nesse sentido, ambas são essenciais para o funcionamento de qualquer estado, mas enquanto a primeira diz respeito à efetividade do governo para com seus governados, a segunda refere-se muito mais às relações exteriores e à forma como a nação buscará manter-se segura e íntegra. Por ser uma área específica e bastante importante para o Estado, no Brasil foi promulgada em 1983 a Lei nº 7.170, que dispõe sobre os crimes contra a segurança nacional, a ordem pública e social. Este dispositivo estabelece quais são esses crimes e como será seu processo e julgamento. Suas penas são sensivelmente mais altas do que a média dos crimes comuns, previstos no Código Penal, por exemplo. Nesse sentido, há penas máximas previstas de até 20 anos, o que denota a importância dada à temática. É importante perceber que, embora a noção de Segurança Nacional se insurja sobretudo em tempos de guerra, os crimes contra a Segurança Nacional podem ser praticados a qualquer momento. Analise na tabela a seguir alguns exemplos dos crimes abrangidos pela dita lei, com as suas respectivas penalidades., conforme pode ser observado no Quadro 1. Políticas de Segurança Pública 16 Quadro 1 – Crimes previstos na Lei nº 7.170/83 e suas respectivas penalidades Crimes previstos na Lei nº 7.170/83 Pena Art. 8º: Negociar com governo ou grupos estrangeiros para provocar guerra no Brasil. 3 a 15 anos de reclusão. Art. 9º: Tentar submeter parte do território nacional à soberania de outro país. 4 a 20 anos de reclusão. Art. 10: Aliciar estrangeiros para invasão do território brasileiro. 3 a 10 anos de reclusão. Art. 11: Tentar desmembrar parte do território brasileiro para formar outro país. 4 a 12 anos de reclusão. Art. 13: Repassar informações sigilosas brasileiraspara governos ou indivíduos estrangeiros. 3 a 15 anos de reclusão. Art.18: Usar de violência ou grave ameaça para tentar impedir o livre exercício do Legislativo, Judiciário e Executivo. 2 a 6 anos de reclusão. Fonte: Elaborada pela autora, com base na Lei nº 7.170/83 (2021). VOCÊ SABIA? Um dos casos mais frequentes de crimes contra a Segurança Nacional é o do espião em tempos de guerra. Essa figura é retratada em dezenas de filmes e livros, pois de fato a guerra é um cenário propício para o surgimento de espiões. Nesse sentido, o filme “O Anjo do Mossad”, estreado em 2018 pela Netflix, baseia-se em fatos reais para contar a história de um egípcio que repassava informações confidenciais do seu país à inteligência israelense. Para aqueles que desejarem se aprofundar ainda mais nos pormenores desta história, o livro “The Angel: The Egyptian Spy Who Saved Israel”, escrito por Uri Bar Joseph e publicado em 2016, conta maiores detalhes sobre o caso de Ashraf Marwan. Políticas de Segurança Pública 17 O que são as Políticas de Segurança Pública A partir do momento em que entendemos o que são as questões de Segurança Pública, passa a ser possível identificá-las na sociedade e, na sequência, estudá-las de forma a encontrar melhores formas de solucionar ou abrandar os problemas. Uma política de Segurança Pública nada mais é do que a ferramenta utilizada para enfrentar um problema social atual e importante que assola significativamente a população. Para isso, não é necessário que exista um número mínimo de casos, mas sim que o problema seja suficientemente relevante quando observado dentro do escopo social. Política, nesse sentido, diz respeito à organização e ao sistema que será implementado para combater determinada situação. Por exemplo: a violência contra a mulher é sabida e notoriamente um problema de Segurança Pública. Como forma de enfrentar essa questão, há diversas possibilidades. Uma política pública nesse âmbito, por exemplo, foi a promulgação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), com a criação de medidas protetivas de urgência para mulheres em situação de violência doméstica e familiar. IMPORTANTE: Entretanto, nem sempre as políticas vêm do Estado - que, embora seja um ente importante na implementação de políticas sociais, não é detentor do seu monopólio. Com esses conceitos em mente, e ainda com base no exemplo da violência contra a mulher, para que seja possível pensar em uma política que diminua os casos de violência doméstica, é imprescindível fazer um raciocínio que vá à origem do problema. Vamos a isso: Políticas de Segurança Pública 18 A mulher, por questões históricas e culturais, foi durante séculos subjugada e colocada em um patamar inferior ao do homem, sem poder trabalhar, estudar e nem mesmo viajar sem a autorização do seu pai, se fosse solteira, ou do seu marido, se casada. Foram séculos de lutas incansáveis até que se obtivesse o direito ao voto, à autodeterminação e à liberdade efetiva. Entretanto, é cediço que até os dias atuais ainda existem resquícios de um machismo estruturante e arraigado ao seio da grande maioria das sociedades. Por conta disso, embora já se tenha conquistado muito em termos de independência e autossuficiência, ainda é comum encontrar mulheres em casamentos abusivos, nos quais não é dada à mulher a possibilidade de escolher estudar, trabalhar ou obter seu próprio sustento. Por conta dessa situação, que pode vir somada a diversas variáveis (como a existência de filhos, ausência de apoio familiar, baixa instrução etc), muitas mulheres se encontram, ainda hoje, em relações das quais não conseguem sair, pois possuem dependência para com o parceiro. Essa dependência pode ser emocional/psicológica, mas é também, geralmente, financeira. Pronto. Raciocínio feito. Por óbvio, tal situação poderia ser muitíssimo mais esmiuçada, pois se trata de um problema sério e que foi estruturado por séculos, sendo impossível resumi-lo satisfatoriamente em apenas algumas linhas. De qualquer forma, seu objetivo foi alcançado, visto que era o de contextualizar a situação da violência contra a mulher, já que somente a partir desse contexto é que se torna viável a busca por políticas de Segurança Pública. EXEMPLO Um caso prático de política que surge a partir dessa contextualização, por exemplo, é a criação de corporativas que ensinem mulheres a realizarem trabalhos de artesanato, em busca da liberdade financeira que lhes permitiria sair de um relacionamento abusivo e, assim, evitar a violência dos seus cônjuges. Outro exemplo poderia ser a realização de eventos em áreas mais periféricas (e onde o acesso à informação é mais difícil), com a presença de profissionais de diversas áreas, como advogados, médicos e psicólogos, que informassem às mulheres os seus Políticas de Segurança Pública 19 direitos e as fizessem perceber que, embora seu relacionamento sempre tenha tido toques de violência, não há nada de normal nessa situação. Muitas vezes, só o fato de mostrar que a realidade vivida não é a única realidade possível já acaba por ser o melhor mecanismo de funcionamento para uma política de Segurança Pública. Feitas essas ressalvas, é possível perceber que qualquer implementação de política de Segurança Pública demanda muito estudo e bastante conhecimento da realidade e da história local. Para que uma medida seja efetiva, ela precisa saber exatamente em que ponto e como atuará. Além disso, também é possível perceber que nem sempre o Estado será o protagonista das políticas de Segurança Pública, muito embora seja certo que a sua presença se mostra como um combustível importante, aumentando a visibilidade, a potência e a credibilidade da política em questão. SAIBA MAIS: Ainda não conseguiu visualizar de que forma as políticas criadas por particulares são capazes de ajudar no enfrentamento de questões públicas? Clique aqui e acesse a reportagem “Mulheres se unem e criaram cooperativa em busca da independência financeira.” RESUMINDO: Chegamos ao final do primeiro capítulo. E então? Entendeu tudinho? Consegue agora perceber a diferença entre segurança privada, Segurança Pública e segurança nacional? Entendeu a importância do Estado como órgão que possibilita e efetiva as políticas no que concerne à Segurança Pública? Aposto que sim, mas só para que não reste nenhuma dúvida quanto a todas as informações repassadas, faremos um resumo do que foi estudado até então. Políticas de Segurança Pública http://g1.globo.com/ro/rondonia/videos/t/todos-os-videos/v/mulheres-se-unem-e-criaram-cooperativa-em-busca-da-independencia-financeira/7136349/ 20 A segurança é um dos principais objetivos pessoais de qualquer ser humano. Por conta das diferentes realidades das pessoas, os significados de segurança na esfera privada podem variar (e definitivamente variam) conforme o interlocutor. Situações de segurança para alguns nem sempre são situações de segurança para outros. Entretanto, há uma parcela dos problemas sociais que ultrapassa a noção do indivíduo e passa a importar para o Estado como um todo. Essas questões, geralmente atreladas à criminalidade, dizem respeito à segurança pública, especificamente. Nesse sentido, quando algo deixa de ter importância apenas para alguns e passa a ser essencial para o todo, o Estado despende maior esforço e energia no enfrentamento da questão. Por fim, tem-se a ideia de segurança nacional, que em nada se confunde com Segurança Pública, já que busca proteger a nação e não seus cidadãos como sociedade que formam. A partir dessas noções, você construiu bases sólidas para entender que as políticas de Segurança Pública visam encontrar respostas palpáveis a problemas reais da população de um país e possuem muito mais força quando feitas com a contribuição e auxílio do próprio Estado. Políticas de Segurança Pública 21 A Segurança Pública e osDireitos Humanos OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você conhecerá a história do surgimento dos direitos humanos e o porquê da sua importância até os dias de hoje. Além disso, será capaz de entender sua função, seus destinatários e seus principais órgãos garantidores. Isto é essencial para que, posteriormente, seja possível analisar a relação da segurança pública com os direitos humanos. E aí? Ansioso por mais conhecimentos? Vamos lá!. O Contexto Histórico dos Direitos Humanos na Atualidade Nos moldes em que os conhecemos atualmente, os direitos humanos tiveram sua formação com o fim da Segunda Guerra Mundial. Isso mesmo! Foi dentro de um dos maiores conflitos já presenciados pela humanidade que a semente dos direitos humanos foi plantada e, se você parar para pensar, esta ideia faz total sentido, afinal, é justamente quando o homem percebe as atrocidades de que é capaz que surge a real percepção da importância de garantir um mínimo de dignidade para todos os seres humanos. Quando em 1945 a Segunda Guerra Mundial teve fim, aconteceu em São Francisco a Conferência das Nações Unidas, onde representantes de 50 países se reuniram no intuito de formar uma Organização Internacional que teria a função de evitar guerras futuras e promover a paz a nível global. O planeta já havia sido muito maltratado pela sequência da primeira e segunda grandes guerras. Era mais do que hora de evitar uma terceira. E assim nasceu a ONU - Organização das Nações Unidas, que em sua carta trazia um preâmbulo um tanto quanto inspirador. Políticas de Segurança Pública 22 IMPORTANTE: Trecho da Carta da ONU, mostrando o seu intuito de criação: “NÓS, OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS, RESOLVIDOS a preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla. E PARA TAIS FINS, praticar a tolerância e viver em paz, uns com os outros, como bons vizinhos, e unir as nossas forças para manter a paz e a segurança internacionais, e a garantir, pela aceitação de princípios e a instituição dos métodos, que a força armada não será usada a não ser no interesse comum, a empregar um mecanismo internacional para promover o progresso econômico e social de todos os povos. RESOLVEMOS CONJUGAR NOSSOS ESFORÇOS PARA A CONSECUÇÃO DESSES OBJETIVOS. Em vista disso, nossos respectivos Governos, por intermédio de representantes reunidos na cidade de São Francisco, depois de exibirem seus plenos poderes, que foram achados em boa e devida forma, concordaram com a presente Carta das Nações Unidas e estabelecem, por meio dela, uma organização internacional que será conhecida pelo nome de Nações Unidas”. Políticas de Segurança Pública 23 Figura 3 – Símbolo da ONU Fonte: Pixabay. Com a Carta da ONU, foram criados quatro órgãos internos, quais sejam: a Assembleia Geral (AG), o Conselho de Segurança (CS), a Corte Internacional de Justiça (CIJ) e o Conselho Social e Econômico (ECOSOC). A este último órgão cabia a função de coordenar e promover todos os programas e trabalhos referentes ao melhor desenvolvimento das políticas econômicas e sociais a nível global. Foi o ECOSOC, então, que estabeleceu a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, num cenário de busca absoluta por um mundo mais igualitário, pacífico e harmonioso. Para a Comissão, a guerra só acontecia em um contexto de profundo desprezo pelos direitos das pessoas e famílias por ela devastadas. Portanto, a partir do momento em que os países membros das Nações Unidas se comprometessem a reconhecer a importância dos direitos dos seus governados, não mais a população precisaria sofrer com esse terrível mal. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, oficialmente aprovada pela Assembleia Geral em 10 de dezembro de 1948, veio com o escopo de dar diretrizes precisas aos países signatários da Carta, para que dentro dos seus ordenamentos jurídicos fossem adotadas medidas que maximizassem a garantia dos direitos humanos e garantissem a existência dos Estados democráticos em sua plena forma, afinal, a democracia apenas consegue ser plena em um cenário no qual a população tem seus direitos garantidos e não se vê ameaçada pelo bel-prazer daqueles que estão no poder. Políticas de Segurança Pública 24 Quais são os Direitos Humanos? Conforme você deve ter percebido anteriormente, os direitos humanos são para todos, homens e mulheres, das nações grandes ou pequenas, independente de classe social ou nível de estudo, para além de qualquer profissão, raça, nacionalidade, religião, etnia ou situação em que se encontre. Figura 4 – Abrangência dos Direitos Humanos Fonte: Pixabay. Os Direitos Humanos são para você também! Por isso, mais do que nunca é importante que você tenha noção de pelo menos alguns dos seus principais direitos, observados no Quadro 2. Políticas de Segurança Pública 25 Quadro 2 – Principais direitos Direitos civis Vida. Dignidade. Liberdade de ir e vir. Liberdade de opinião. Liberdade de expressão. Privacidade. Igualdade perante à lei. Propriedade. Direitos políticos Nacionalidade. Votar e ser votado. Liberdade de reunião e associação pacífica. Liberdade de manifestação pacífica. Asilo político. Direitos econômicos, sociais e culturais Educação e instrução. Saúde. Moradia. Segurança. Liberdade de crença religiosa. Previdência social. Trabalho, em condições dignas. Distribuição de renda. Direitos difusos e coletivos Paz. Ordem. Justiça. Preservação do meio ambiente. Proteção do consumidor. Fonte: Elaborado pela autora, com base na Carta da ONU (2021). Políticas de Segurança Pública 26 Como você pode perceber, são muitos os direitos garantidos aos seres humanos. Esses, elencados anteriormente, representam apenas alguns deles, que você possivelmente conseguirá identificar na sua realidade. REFLITA: Além dos direitos elencados no Quadro 1, existem outros especialmente importantes para algumas situações específicas. O direito à língua materna, por exemplo, é possivelmente algo sobre o qual você nunca parou para refletir, pois simplesmente não faz parte da sua realidade. Trata-se, porém, de um direito absolutamente essencial para os alunos indígenas das escolas de Rondônia, por exemplo, que além de precisarem aprender o português, também precisam aprender a ler e escrever em paiter-suruí (língua indígena da sua tribo). Diante dessa situação, a professora da escola encontrou uma alternativa interessante. Clique aqui e veja mais. Após todas essas informações, você com certeza deve ter em mente alguns exemplos de violações dos Direitos Humanos, e neste momento é quase inevitável concluir: o “mundo ideal” realmente seria um mundo em que todos esses direitos conseguissem ser garantidos ao máximo, para todos os seres humanos. Como isto ainda não foi alcançado, sigamos juntos na busca! ACESSE: Para entender mais sobre os direitos humanos, a melhor fonte é o próprio site das Nações Unidas. Portanto, se você quiser saber mais sobre a ONU, estudar mais a fundo as declarações e tratados de Direitos Humanos ou buscar informações sobre como denunciar violações, clique aqui. Políticas de Segurança Pública https://novaescola.org.br/conteudo/9021/direito-a-lingua-materna https://novaescola.org.br/conteudo/9021/direito-a-lingua-materna https://nacoesunidas.org/direitoshumanos/ 27 Os Direitos Humanos e a Segurança Pública No artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, está previsto o seguinte: “Todoser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”. A segurança privada aparece, portanto, como um direito expressamente tutelado. Entretanto, a situação não é a mesma com a segurança pública. Você consegue imaginar o porquê? A Segurança Pública, mais do que algo especificamente protegido, é algo que tem sua proteção diretamente proporcional à harmonia da sociedade como um todo. Quanto mais um Estado se preocupa em garantir o direito à vida, à saúde, à educação, ao trabalho digno e à igualdade de oportunidades para a sua população, menos esse mesmo Estado terá problemas relacionados à Segurança Pública. Portanto, embora a Segurança Pública não apareça de forma expressa como um direito humano fundamental, é bastante visível que a soma de todos os Direitos Humanos elencados na Declaração irá resultar em uma sociedade com nível elevado de Segurança Pública. Outro ponto a ser ressaltado é que a Segurança Pública, para além de ser um direito, é também o resultado último buscado por diversos organismos de combate à criminalidade. Neste ponto, notadamente as polícias são um instrumento para que, ao fim do dia, a sociedade se sinta mais segura. Entretanto, uma má atuação policial pode acabar por proporcionar exatamente o sentimento contrário à população que, neste caso, se veria desprotegida por conta da criminalidade e ainda mais desprotegida pela forma de atuação equivocada de alguns policiais. Políticas de Segurança Pública 28 Figura 5 – Carro de polícia Fonte: Pixabay. O que se conclui disso é que, ao atuar em busca da Segurança Pública, é imprescindível que os agentes prestem atenção aos demais Direitos Humanos que estão envolvidos no procedimento. Por exemplo: ao realizar a prisão de um rapaz que está vendendo drogas com seu filho por perto, a polícia deve sim agir no sentido da sua detenção, mas é inviável, por exemplo, que aja com truculência ou excessos, pois isso significaria pôr em causa os demais Direitos Humanos existentes, protegidos pela Declaração Universal e ratificados pelo Brasil. Basicamente, o que se precisa ter em mente é: o fato de alguém estar pondo em causa a Segurança Pública não se revela como motivo suficiente para que todos os demais Direitos Humanos lhe sejam alienados. O Estado precisa buscar a Segurança Pública sem ignorar a existência dos demais direitos dos seus cidadãos para isso. São necessárias, portanto, medidas inteligentes e suficientes que ampliem ao máximo a segurança geral enquanto minimizam tanto quanto possível as intervenções em outras esferas de direito. Por óbvio, há esferas que necessariamente serão atingidas e, no caso da prisão, necessariamente será prejudicada a liberdade de ir e vir do sujeito. A perda temporária da sua liberdade, entretanto, não autoriza de forma alguma o Poder Público a restringir outros direitos que o sujeito possui. Sua saúde, sua integridade Políticas de Segurança Pública 29 física e até mesmo sua segurança pessoal não estão em negociação, e o Estado possui o dever legal de garanti-las. Este é um dos motivos que torna tão importante a formação da população e sobretudo dos agentes de segurança pública no que tange aos Direitos Humanos. Figura 6 – Diversidade dos Direitos Humanos Fonte: Pixabay. Nos últimos anos, criou-se a falsa ideia de que os direitos humanos servem apenas para tutelar os direitos dos encarcerados ou daqueles que respondem por processos por conta do suposto cometimento de crimes. Essa é, entretanto, uma das maiores falácias já inventadas. A Declaração Universal deixa claro que os Direitos Humanos são para absolutamente todos, independente de quaisquer particularidades da vida de cada um. É justamente por isso, inclusive, que são também aplicáveis para as pessoas que estão cumprindo a pena pelo cometimento de delitos. Ao cometer um crime, o sujeito perde temporariamente a sua liberdade e diversos outros benefícios da vida em sociedade, mas jamais perderá a sua humanidade - no sentido de não deixar de ser um ser humano. Mesmo nos casos de crimes graves, mesmo quando a atitude deva ser absolutamente repudiada, o sujeito ainda possui Direitos Humanos. Assim como você, seus familiares e amigos, que independente de qualquer erro que venham a eventualmente cometer na vida, ainda serão detentores de Direitos Humanos. Políticas de Segurança Pública 30 É importante ter em mente que os direitos sempre estão resguardados pela Declaração Internacional, mas é justamente nos momentos de violação mais explícita que sentimos a sua importância. E você? Consegue imaginar outros casos de violação a Direitos Humanos? Uma fábrica clandestina, por exemplo, que trata seus funcionários em condições análogas à escravidão, viola os Direitos Humanos; um Estado que não permite a liberdade de reunião e proíbe a realização de passeatas pacíficas, viola os Direitos Humanos; um policial que extrapola os limites legais e agride um sujeito que já está preso e sem oferecer resistência, ofende os Direitos Humanos; um governo que é conivente com o trabalho infantil, viola os Direitos Humanos. E a sobreposição dessas violações todas acontecendo em diferentes esferas da sociedade, acaba por gerar efetivos problemas de Segurança Pública, na qual a população não tem as condições dignas de vida e busca seus próprios meios (nem sempre lícitos) de conseguir sobreviver. É neste cenário que nasce a maior parte da criminalidade no Brasil. RESUMINDO: Chegamos ao final do segundo capítulo. Como foi para você? Obteve algumas respostas ou surgiram novas dúvidas? Não se preocupe! Isso faz parte da obtenção do conhecimento. Para esclarecer ainda melhor tudo que foi dito nas últimas páginas, fica aqui um resumo para facilitar a sua vida. Políticas de Segurança Pública 31 Os Direitos Humanos, nos moldes em que os conhecemos hoje em dia, têm sua formação no final da Segunda Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas e com a posterior publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Com este documento, ficou claro que o objetivo dos países signatários era o de tornar os Direitos Humanos algo igualitário e acessível à toda população mundial, que depois de dois conflitos gigantescos, precisava urgentemente de um período de paz - para que então fosse possível reconstruir tudo que a grande guerra havia destruído. Nesse sentido, as Nações Unidas entenderam que o único jeito do mundo prosperar era por meio da cooperação dos Estados no sentido de garantir à sua população as condições dignas de existência. São direitos de todos os seres humanos, portanto, a vida, a segurança, a liberdade em todos os seus níveis, a educação, o trabalho digno, o voto etc. A Segurança Pública, por sua vez, não é tratada expressamente como um direito humano autônomo, mas acaba por ser o bem máximo atingido quando todos os demais direitos são assegurados. Afinal, quanto mais bem tratada é a população, menos problemas de Segurança Pública são causados. Para além disso tudo, é importante ter em mente que os Direitos Humanos se aplicam à totalidade das pessoas. Ou seja, nenhuma circunstância ou situação faz com que a pessoa perca definitivamente os seus direitos. Nesse sentido, o que pode acontecer é a suspensão temporária de alguns direitos, a depender do caso em questão, mas isso só é possível mediante previsão legal expressa e apenas por um período determinado. Políticas de Segurança Pública 32 A Segurança Pública na Constituição Federal de 1988 OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender de que forma a constituição brasileira se posiciona quanto à Segurança Pública, quais são os agentes escolhidos para garanti-la e como as diretrizes dadas pela Carta Magna devem ser interpretadas. Preparado para entender mais sobre a estruturação da Segurança Pública no nosso país? Vamos a isso!. O Direito Constitucionalà Segurança Pública Conforme vimos anteriormente, pensar em Segurança Pública nem sempre é um exercício tão óbvio: é preciso encarar a realidade local, analisar os problemas da população e o histórico de cada questão social que se levanta. É um tema notoriamente importante, você há de concordar e é justamente por ser tão importante assim que os legisladores reservaram um capítulo inteiro na Constituição Federal de 1988 para isso. Analise, a seguir, a íntegra do artigo 144, inserido no Título V (da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas), Capítulo 3, da CF/88: Art. 144. A Segurança Pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I - Polícia Federal; II - Polícia Rodoviária Federal; III - Polícia Ferroviária Federal; IV - Polícias Civis; V - Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares. VI - Polícias Penais Federal, Estaduais e Distrital. Políticas de Segurança Pública 33 § 1º A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se a: I - apurar infrações penais contra a ordem política e social ou em detrimento de bens, serviços e interesses da União ou de suas entidades autárquicas e empresas públicas, assim como outras infrações cuja prática tenha repercussão interestadual ou internacional e exija repressão uniforme, segundo se dispuser em lei; II - prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência; III - exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras; IV - exercer, com exclusividade, as funções de polícia judiciária da União. § 2º A polícia rodoviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das rodovias federais. § 3º A polícia ferroviária federal, órgão permanente, organizado e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se, na forma da lei, ao patrulhamento ostensivo das ferrovias federais. § 4º Às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, incumbem, ressalvada a competência da União, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais, exceto as militares. § 5º Às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil. § 5º-A. Às polícias penais, vinculadas ao órgão administrador do sistema penal da unidade federativa a que pertencem, cabe a segurança dos estabelecimentos penais. § 6º As polícias militares e os corpos de bombeiros militares, forças auxiliares e reserva do Exército subordinam-se, juntamente com as polícias civis e as polícias penais estaduais e distrital, aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. § 7º A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos responsáveis pela Segurança Pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades. Políticas de Segurança Pública 34 § 8º Os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei. § 9º A remuneração dos servidores policiais integrantes dos órgãos relacionados neste artigo será fixada na forma do § 4º do art. 39. § 10. A segurança viária, exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do seu patrimônio nas vias públicas: I - Compreende a educação, engenharia e fiscalização de trânsito, além de outras atividades previstas em lei, que assegurem ao cidadão o direito à mobilidade urbana eficiente; e II - compete, no âmbito dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, aos respectivos órgãos ou entidades executivos e seus agentes de trânsito, estruturados em Carreira, na forma da lei (BRASIL, 1988, p. 90-91). O artigo 144 é longo e denso, cheio de informações relevantes. Por isso, é importante analisá-lo por partes. É o que faremos na sequência. Função do Estado na Garantia da Segurança Pública Para a Constituição de 1988, Segurança Pública se revela na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. O Estado possui, portanto, o dever de garantir tudo isso à sua população, nomeadamente através dos órgãos de Segurança Pública. Não é algo opcional, mas sim um real objetivo, pois se trata de uma das funções primordiais pelas quais o Estado existe, e essa ideia está disposta expressamente no caput do art. 144; está longe de ser novidade. Entre os séculos XVI e XVIII, ganharam força, sobretudo na Europa, as teorias contratualistas de criação do Estado. Para essa corrente, composta por nomes como Locke, Montesquieu e Rousseau, o ser humano, antes da criação do Estado, vivia no chamado “estado de natureza”, no qual usufruía plenamente da sua liberdade. Entretanto, com o passar dos anos e devido à existência de muitos conflitos entre os homens, estes acharam por bem que cada um cedesse uma parte da sua liberdade individual a um ente soberano, que seria o “legítimo depositário e administrador” Políticas de Segurança Pública 35 de todas as partes de liberdade cedidas, no intuito de que o restante da liberdade individual de cada um fosse assegurada ao máximo (BECCARIA, 2014). Para os contratualistas, portanto, o Estado havia surgido propriamente de um “contrato” entre a população e um ente soberano, e a existência deste ente só faria sentido enquanto o contrato fosse cumprido. Ou seja, enquanto cumprir com suas funções e garantir que cada um usufrua o máximo possível da sua liberdade, o Estado é bom para a vida em sociedade. Voltando para os dias de hoje, embora a Constituição não se refira diretamente aos ideais contratualistas, traz intrinsecamente a ideia de que cabe ao Estado garantir a boa convivência entre sua população, pois só assim cada cidadão estará fazendo uso, ao máximo, da sua liberdade individual. EXEMPLO Ficou difícil de entender? Então pense na seguinte situação, adaptada aos tempos de hoje: imagine se na nossa sociedade, de um dia para o outro, o Estado deixasse completamente de interferir na liberdade dos seus cidadãos. Cada um poderia fazer o que quisesse, da forma como achasse melhor. Assim, se alguém resolvesse dirigir seu carro a 200km/h, não haveria qualquer objeção estatal em contrário. Essa conduta, entretanto, interferiria diretamente na liberdade de um pedestre, por exemplo, que nessa situação se sentiria inevitavelmente mais inseguro. Por óbvio, você consegue imaginar o caos que seria criado se todos fossem absolutamente livres, não só no trânsito, mas em todas as demais áreas da vida. Para os contratualistas, é justamente em um cenário como esse (de caos, no qual as liberdades de uns acabam por interferir nas liberdades dos outros) que o ser humano resolve abrir mão de parcela da sua liberdade. No exemplo dado, o sujeito abriria mão da liberdade que lhe permitia andar a 200km/h e a daria para o Estado, para que este se encarregasse de estabelecer limites a todos e, assim, fosse possível um convívio mais harmônico e funcional. Políticas de Segurança Pública 36 O dever do Estado em garantir a Segurança Pública nada mais é do que uma das funções pelas quais ele existe. Isso restringe a liberdade individual de cada um (pois interfere diretamente na forma como as pessoas agem em sociedade), mas é essencial para que a liberdade de um não agrida a liberdade dos demais. Função da População na Garantia da Segurança Pública A Segurança Pública é um dever do Estado, e só dele. Entretanto, a ConstituiçãoFederal determina que é também um direito e uma responsabilidade de todos. Sobre este termo, “responsabilidade”, é importante esclarecer que ele não impõe à população o dever de garantir a Segurança Pública (pois esta é uma obrigação exclusiva do Estado), servindo apenas para afirmar que cada um é responsável pelos seus próprios atos. Portanto, se você agir no sentido de afetar a Segurança Pública, será responsabilizado pela sua atitude. Se agir no sentido de colaborar com ela, por outro lado favorecerá com que a Segurança Pública seja efetivamente possível. Figura 7 – Necessidade de unir forças Fonte: Pixabay. Políticas de Segurança Pública 37 Os Órgãos de Segurança Pública Previstos Constitucionalmente O artigo 144 da Constituição Federal traz um rol taxativo de órgãos de Segurança Pública composto exclusivamente por algumas polícias. Significa dizer que: 1 – nenhum ente federativo possui poder para criar novos órgãos de Segurança Pública (pois o rol é taxativo, e não exemplificativo); e 2 – nem todas as polícias existentes são órgãos de Segurança Pública (vide a polícia legislativa, que atua dentro do Congresso Nacional, mas não é órgão de Segurança Pública). Quadro 3 – Polícias que compõem a Segurança Pública Polícias que compõem a segurança pública Polícia Federal Polícia Rodoviária Federal Polícia Ferroviária Federal Bombeiros e Polícia Militar Polícia Civil Fonte: Elaborado pela autora, com base na Constituição Federal de 1988 (2021). Todas as polícias que vimos no quadro 2 fazem parte do Poder Executivo e, sendo assim, seus agentes respondem, em última instância, ao Presidente da República ou ao Governador do Estado – a depender de qual seja a esfera de atuação do órgão em questão. No que tange à Guarda Municipal e ao Órgão de Trânsito (também previstos no artigo 144, nos seus últimos parágrafos), há dissonância quanto ao fato de serem ou não órgãos de Segurança Pública, mas a absoluta maioria dos estudiosos do tema entendem que eles não compõem a segurança pública, pois o legislador assim não quis e porque a Polícia Militar já exerce todas as funções de Segurança Pública que a Guarda Municipal poderia vir a exercer. A respeito deles, interessa saber que a Guarda Municipal é uma guarda patrimonial que cuida do patrimônio do município, enquanto o Órgão de Trânsito é responsável pela segurança das vias urbanas. Políticas de Segurança Pública 38 Voltando aos órgãos de Segurança Pública com previsão constitucional, você precisa saber que as polícias podem ser administrativas ou judiciárias. A polícia administrativa possui função ostensiva (mostra que o Estado está ali, presente) e função preventiva (sua presença inibe a prática de ilícitos). A polícia judiciária, por sua vez, tem função investigativa (tem poder para investigar crimes) e repressiva (atua para reprimir o ilícito penal, quando só a atuação da polícia administrativa não foi suficiente). Feitas essas ressalvas, vamos analisar cada uma das polícias que compõem a Segurança Pública. Polícia Federal Possui características de polícia administrativa, pois tem função ostensiva e preventiva, mas diferentemente das demais polícias federais, possui também função repressiva e função investigativa. É, portanto, conhecida como a Polícia Judiciária da União, responsável por cumprir as ordens judiciais vindas de Tribunais Federais (como, por exemplo, realizar buscas e apreensões, interceptar telefones e cumprir ordens de prisão). Possui previsão constitucional, mas é instituída por lei federal (Decreto nº 73.332, de 19 de dezembro 1973), na qual se estabelecem sua estrutura interna e suas atribuições. A respeito disso, inclusive, atribui-se à Polícia Federal a responsabilidade de: • Apurar infrações penais conta a ordem política e social. • Apurar infrações penais cometidas contra a União, suas autarquias e empresas públicas. • Apurar infrações penais com repercussão interestadual ou internacional. • Prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes, o contrabando e o descaminho. • Exercer as funções de polícia marítima, aeroportuária e de fronteiras. Políticas de Segurança Pública 39 Polícia Rodoviária Federal É a polícia administrativa responsável por garantir a ordem da Segurança Pública nas rodovias públicas federais ou das rodovias federais concedidas à iniciativa privada. Não é polícia judiciária e, sendo assim, no caso de prisão em flagrante em rodovia federal, o preso deve ser imediatamente levado à Polícia Federal mais próxima para a instauração de inquérito. Polícia Ferroviária Federal Também é polícia administrativa, mas até hoje, apesar da previsão constitucional, não foi implementada. Portanto, só existe no papel. Bombeiros e Polícia Militar São órgãos de polícia administrativa e são subordinados ao Governador do Estado (com exceção dos bombeiros e policiais militares do Distrito Federal, que respondem diretamente ao Poder Executivo da União). Em alguns estados, os bombeiros estão “dentro” da organização da PM, mas em outros possuem uma organização à parte. Independentemente da estrutura que possuam, a eles cabe a defesa civil da população. Já a Polícia Militar é polícia ostensiva, responsável por realizar o patrulhamento das ruas e mostrar a presença do Estado. Possui, também, a função de patrulhar as rodovias estaduais (já que as federais estão sob a supervisão da PRF). Polícia Civil É a Polícia Judiciária subsidiária dos Estados e no Distrito Federal, e responde ao Governador. Ou seja, assim como a Polícia Federal, que em âmbito federal pode realizar buscas e apreensões, interceptar telefones e cumprir ordens de prisão, a Polícia Civil também pode, mas apenas nos processos de cunho estadual. Políticas de Segurança Pública 40 RESUMINDO: Aqui termina o terceiro capítulo. Gostou de entender um pouco mais como a Constituição Federal Brasileira se manifesta acerca da segurança pública? Esperamos que sim e, para que as informações sejam ainda mais bem fixadas, faremos um breve resumo do que foi visto. A Constituição da República de 1988 reservou seu artigo 144 inteiramente para tratar de segurança pública. Com isso, além de ficar claro o tamanho da importância dada à temática, o legislador também conseguiu deixar expressamente previsto o dever do Estado em garantir a Segurança Pública dos seus cidadãos. A sociedade, por sua vez, além de ter na Segurança Pública um direito, tem nela uma responsabilidade – no sentido de sermos, cada um, responsáveis pelos nossos atos. Por fim, foi possível analisar um pouco melhor quais são os órgãos que a Constituição de 1988 selecionou como sendo de Segurança Pública. São eles: Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Ferroviária Federal, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Polícia Civil. Os agentes de trânsito e a Guarda Municipal, embora previstos nos parágrafos do art. 144, não se encontram-se rol taxativo de órgãos de Segurança Pública. Políticas de Segurança Pública 41 Definições Importantes Sobre Segurança Pública no Brasil OBJETIVO: Ao término deste capítulo, você conseguirá diferenciar alguns termos e sujeitos que, embora aparentem, não estão diretamente relacionados à Segurança Pública. Além disso, compreenderá como funciona todo o sistema que existe em volta da temática, nutrido por meio de órgãos que, embora não sejam de Segurança Pública, colaboram muito para todas as discussões e políticas sobre o tema. E aí, animado para finalizar esta unidade em grande estilo? Então vamos lá!. Poder de Polícia não é Poder da Polícia Diferentemente do que se pode imaginar, o poder de polícia não é um poder possuído diretamente pelas polícias em si, mas antes disso, é um poder de todos os representantes da Administração Pública. Nesse sentido, o representante de determinado órgão público irá possui o poder de interferir, limitar e criar condiçõesao livre exercício de direitos individuais pela população (nomeadamente a liberdade e a propriedade) sob o fundamento da supremacia do interesse público sobre o individual, e apenas nas áreas de atuação que digam respeito ao órgão que represente. Ou seja, nas situações em que a ordem pública, a saúde pública ou a Segurança Pública estiverem em risco, é necessário que o Estado aja para garantir o bem do coletivo. O conceito legal de poder de polícia encontra-se no Código Tributário Nacional, no artigo 78, que determina que: Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos costumes, à disciplina Políticas de Segurança Pública 42 da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. Parágrafo único. Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável, com observância do processo legal e, tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária, sem abuso ou desvio de poder (BRASIL, 1966, p. 72). Com a leitura do artigo, algum exemplo de exercício de poder de polícia lhe vem à mente? Uma situação bastante comum em que o poder de polícia é visto na prática são justamente as multas de trânsito. Nesse caso, um fiscal de trânsito (representante do órgão de trânsito, que não faz parte dos órgãos de segurança pública) possui poder de polícia para aplicar uma multa e, assim, limitar sua plena fruição de direitos, tendo em vista a supremacia do interesse coletivo frente ao individual. EXEMPLO Analise alguns outros exemplos de sujeitos que possuem poder de polícia e quais os exemplos de limitação de direito que eles podem gerar à população. • Um fiscal da vigilância sanitária pode fechar estabelecimentos que não cumpram com as regras de higiene. • Um fiscal da Receita Federal pode determinar o pedimento de mercadorias que não forem devidamente declaradas. • Um fiscal do IBAMA pode aplicar multa por atividade lesiva ao meio ambiente. • Um fiscal de Obras pode aplicar multas por prédios construídos sem licença ou em desconformidade com ela. • Um fiscal do INSS pode impor multa no caso do descumprimento de obrigações não tributárias, impostas pela lei previdenciária. Feitas tais considerações e ressalvas, é importante que você tenha em mente que nem todos os órgãos que possuem poder de polícia são Políticas de Segurança Pública 43 órgãos de Segurança Pública, muito embora ajam, em alguns casos, no sentido de favorecê-la. O papel das Forças Armadas Retomando um conhecimento aprendido no primeiro capítulo desta unidade, será possível perceber que as Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) são responsáveis pela segurança nacional e não pela Segurança Pública, tanto é que respondem em última instância ao Ministério da Defesa, e não ao Ministério ou às Secretarias de Segurança. As Forças Armadas estão diretamente ligadas à proteção da Nação e, portanto, só atuam nas operações em momentos de guerra ou em situações absolutamente excepcionais, tais como: a. Declaração de Estado de Defesa: ocorre quando uma grave e iminente instabilidade institucional ou calamidades naturais de grandes proporções colocam em risco a ordem pública e a paz social. b. Declaração de Estado de Sítio: ocorre quando a medida do Estado de Defesa é ineficaz, quando há comoção grave com repercussão nacional ou nos casos de guerra declarada ou de agressão armada vinda do exterior. c. Intervenção Federal: representa a suspensão temporária da autonomia de um ente federativo. Com isso, um município ou estado deixa de ser autônomo e passa a ser gerido pela União, até que a situação de que determinou a intervenção acabe. Foi o caso visto da intervenção militar ocorrida em 2018 no Rio de Janeiro, com o objetivo de pacificar o cenário de insegurança que assolava o estado. d. Operações cujo contexto seja de interesse nacional, com necessidade de policiamento ostensivo: é o caso, por exemplo, de uma das operações de patrulhamento com membros das Forças Armadas durante a abertura das Olimpíadas (na qual estavam presentes Chefes de Estado de vários países). Políticas de Segurança Pública 44 Portanto, as Forças Armadas protegem o ideal de “nação”. Entretanto, às vezes, de forma absolutamente excepcional, podem atuar no sentido da garantia da segurança interna do país – mas tenha em mente: nem mesmo nesses casos as Forças Armadas podem ser consideradas como um órgão de segurança pública. A Segurança Pública como um Sistema Logo na sequência da promulgação de 1988, diversos pesquisadores da época debruçaram seus estudos sobre o artigo 144, buscando formas de compreender a estrutura que foi formada por meio do caput, dos incisos, parágrafos e números. Diogo de Figueiredo Moreira Neto, já em 1990, se manifestou no sentido de que a segurança pública não poderia mais ser interpretada apenas como um fim último, pois compõe antes disso um verdadeiro sistema formado por vários órgãos, todos eles definidos pela Constituição Federal. Para o autor: Se a Segurança Pública compreende estrutura e funções para prática de atos para a garantia da ordem pública, ela é, em si mesmo, um sistema, com seus elementos definidos, em interrelação, com sua própria organização e com sua característica intrínseca; e aí temos o sistema da Segurança Pública. Definidos os elementos do sistema, será fácil adentrar a organização de mais interrelações a partir de cada caso, pois ela variará de país para país e de época para época, existem, assim, incontáveis modalidades de Segurança Pública (MOREIRA NETO, 1990, p. 152). Segundo Moreira Neto, os sistemas de Segurança Pública são pensados e estruturados conforme o tempo e espaço em que se encontram. Disso concluímos que o sistema brasileiro não poderia simplesmente copiar o sistema argentino, da mesma forma que tampouco poderia simplesmente copiar o próprio sistema brasileiro de 100 anos atrás. Portanto, quando o legislador elaborou a Carta Magna da República Políticas de Segurança Pública 45 em 1988, entendeu que exatamente aqueles órgãos seriam vitais ao Brasil daquele momento. REFLITA: Como lidar, diante dessa situação, com as mudanças sociais que ocorrem diuturnamente? Porque é certo que elas mudam diversos fatos predeterminados e geram, consequentemente, novos problemas de Segurança Pública. As mudanças sociais são absolutamente normais, sobretudo com o passar de mais de 30 anos. Justamente por isso, desde a sua criação, o artigo 144 já foi alterado por três emendas constitucionais que buscavam atualizar o texto da Carta Magna: EC nº 19/1998, EC nº 82/2014 e EC nº 104/2019). Para além das emendas, ainda, também organismos em nível municipal, estadual e federal são eventualmente criados – não com o intuito de serem órgãos oficiais de Segurança Pública (afinal, o rol constitucional é taxativo), mas na expectativa de colaborarem na busca por resultados melhores quando se falar de Segurança Pública no Brasil. Tais organizações são diversas, e vão desde Secretarias até Departamentos e Conselhos. É como se utilizando de uma analogia, os órgãos constitucionais de segurança pública funcionassem como os órgãos vitais de um corpo, enquanto essas outras organizações funcionam como veias e artérias, que levam o sangue oxigenado (as informações) para os órgãos – permitindo assim que o corpo funcione como um todo. A seguir, serão apresentados alguns dos órgãos que, embora não sejam de segurança pública, trabalham diretamente com esta questão dentro do territórionacional. Políticas de Segurança Pública 46 Secretaria Nacional de Segurança Pública - SENASP Criada pelo Decreto nº 2.315, de 4 de setembro de 1997, a SENASP é um órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública que tem como principal função a assessoria prestada ao Ministro no que tange à definição, implementação e acompanhamento da Política Nacional de Segurança Pública. Além disso, também ajuda no planejamento e implementação de propostas e programas referentes à Segurança Pública, promovendo a integração dos seus órgãos (polícias) e estimulando a realização de cada vez mais pesquisas e estudos na área. Outra função importante é a manutenção do INFOSEG (Sistema Nacional de Informações de Justiça e Segurança Pública), por meio do qual as informações de Segurança Pública são interligadas. Isso é especialmente importante para as polícias judiciárias (Civil e Federal), que diariamente precisam de informações sobre suspeitos. Figura 8 – Interligação de informações gerada pelo INFOSEG Fonte: Pixabay. Políticas de Segurança Pública 47 IMPORTANTE: A importância do SENASP para a Segurança Pública, portanto, está diretamente ligada ao fato de que seu banco de dados e seus estudos sobre a temática são essenciais para que se pense qualquer política de melhoria da Segurança Pública. SAIBA MAIS: Se você ficou interessado e deseja saber quais são as exatas atribuições da SENASP, clique aqui. Conselho Nacional de Segurança Pública – CONASP O CONASP também é um órgão integrante do Ministério da Justiça, cujas competências estão previstas no Decreto nº 7.413, de 30 de outubro de 2010. Sua função é sobretudo consultiva e deliberativa, o que significa que suas reuniões têm o objetivo de analisar situações na área de Segurança Pública, desenvolver pesquisas acerca do tema e propor medidas a serem tomadas. Sua composição é formada pelo presidente, vice-presidente e secretário executivo. Entretanto, para que os debates, estudos e discussões sejam mais produtivas, há também os conselheiros. Os conselheiros são membros das mais diferentes áreas da sociedade – desde representantes de órgãos de Segurança Pública até representantes de coletivos sociais. Políticas de Segurança Pública https://www.justica.gov.br/sua-seguranca/seguranca-publica/senasp-1/a-senasp 48 SAIBA MAIS: Para saber exatamente quais as competências e qual a formação atual do CONASP, com o nome dos conselheiros e a entidade que eles estão representando dentro do Conselho, clique aqui. IMPORTANTE: O CONASP é um órgão importantíssimo para o desenvolvimento de políticas de Segurança Pública, e isso se deve especialmente ao fato da sua composição: os conselheiros, ao representarem diferentes áreas da sociedade, conseguem trazer para o debate diversas especificidades sociais. Esse intercâmbio de realidades é fundamental para pensar em políticas de Segurança Pública efetivas, que se apliquem à realidade complexa e mista que existe no Brasil. Departamento Penitenciário Nacional - DEPEN Nacional O DEPEN é um órgão subordinado ao Ministério da Justiça (ao Poder Executivo Nacional, portanto), pelo qual transitam todas as questões que se referem à política nacional quanto ao sistema penitenciário. Reconhecendo a importância do DEPEN, a Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/84) fixou desde logo algumas das suas principais atribuições: 1. Fiscalização quanto à aplicação da LEP (Lei de Execução Penal) e às diretrizes da Política Penitenciária Nacional nas prisões federais. 2. Inspeções aos estabelecimentos penais. 3. Ajuda às Unidades Federativas, no sentido de cumprirem as regras da LEP, implementarem estabelecimentos penais e realizarem cursos que aprimorem a formação dos agentes que trabalham nas penitenciárias. Políticas de Segurança Pública https://www.justica.gov.br/sua-seguranca/seguranca-publica/conasp/composicao https://www.justica.gov.br/sua-seguranca/seguranca-publica/conasp/competencias 49 4. Supervisão dos estabelecimentos penais e de internamento federais. Além da LEP, o regimento interno do DEPEN também elenca outras atribuições importantes: 1. Planejamento e coordenação da Política Penitenciária Nacional. 2. Encaminhamento dos pedidos de indulto individual de presos. 3. Gestão do FUNPEN (Fundo Penitenciário Nacional). 4. Apoio administrativo e financeiro ao Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. IMPORTANTE: A importância do DEPEN para os debates quanto à Segurança Pública se demonstra no fato de ser exatamente este o órgão que lida diretamente com as mazelas, dificuldades e insuficiências do sistema penitenciário. É ele, portanto, quem conhece de perto todos os tópicos que precisam ser melhorados, os programas que deram certo e as situações que precisam urgentemente de reforma dentro do âmbito penitenciário nacional, pois trata-se do órgão que mais possui dados para embasar qualquer política de Segurança Pública ligada à execução da pena. Neste momento, você pode estar se perguntando: “E o que é que a execução da pena tem a ver com a Segurança Pública? Se os presos estão na penitenciária, não representam mais um problema de Segurança Pública, já que não podem mais praticar crimes”. Mas é aí que você muito se engana. Nas próximas unidades, haverá um capítulo inteiro para tratar dos pormenores da situação carcerária e os reflexos que ela gera para a Segurança Pública no Brasil. Por ora, basta que você perceba que a forma como os presos executam suas penas irá refletir diretamente no tipo de ser humano que, mais tarde, será reinserido na sociedade. Políticas de Segurança Pública 50 SAIBA MAIS: Se você ainda ficou com dúvidas ou curiosidades quanto à atuação do DEPEN, clique aqui. Departamento Penitenciário Local – DEPEN Local Além do DEPEN Nacional, a LEP também previu, em seus artigos 73 e 74, a possibilidade de implementação de DEPEN´s locais, cujas atribuições serão estabelecidas pelo próprio ente federativo que as criar. Como plano de fundo geral, a LEP se bastou em determinar que o DEPEN Local (que sequer precisa ter essa nomenclatura) terá como principal atribuição a supervisão e coordenação dos estabelecimentos penais da unidade federativa a que pertença. Além disso, deverá colaborar com o fornecimento de dados e resultados ao DEPEN Nacional. IMPORTANTE: A importância dos Departamentos Penitenciários Locais, portanto, no que tange à Segurança Pública, é a complementação do trabalho do DEPEN Nacional, aprimorando as estatísticas e dados, o que permite uma melhoria nas políticas eventualmente implantadas. RESUMINDO: E desta forma terminamos o quarto e último capítulo desta unidade! Como você se sente? Acredita que conseguiu absorver todos os conhecimentos transmitidos? Sabemos que são muitas as informações e, por isso, faremos um resumo do que vimos nestas últimas páginas. Políticas de Segurança Pública http://depen.gov.br/DEPEN/depen/quem-somos-1 51 Para evitar que você confundisse conceitos, foi primeiramente necessário esclarecer que poder de polícia não é um poder da polícia, mas sim uma ferramenta da Administração Pública no geral que permite que seus agentes limitem ou condicionem direitos individuais de uns, no intuito de garantir que prevaleça o interesse público. Outra questão que precisou ser esclarecida é o fato das Forças Armadas não fazerem parte dos órgãos de Segurança Pública, atuando neste âmbito apenas em situações muito excepcionais. Por fim, trabalhamos a ideia de Segurança Pública como um verdadeiro sistema composto pelos seus órgãos vitais (previstos constitucionalmente), mas também por outros elementos, como a SENASP, o CONASP e o DEPEN, que se mostram fundamentais para que a Segurança Pública funcione de forma mais harmônica e produtiva. Políticas de Segurança Pública 52 REFERÊNCIAS BEATO FILHO, C. C. Políticas públicas de segurança e a questão policial. São Paulo em Perspectiva, São Paulo,v. 13, n. 4, p. 13-27, 1999. BECCARIA, C. Dos delitos e das penas. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2014. BRASIL. Código Tributário Nacional. Brasília: Senado Federal, 1966. BRASIL. Competências do Conasp. Ministério da Justiça e Segurança Pública, [s. d]. Disponível em: https://www.justica.gov.br/sua- seguranca/seguranca-publica/conasp/competencias. Acesso em: 30 mar. 2020. BRASIL. Constituição Federal de 1988. Brasília: Senado Federal, 1988. BRASIL. Departamento Penitenciário Nacional. Quem somos. 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