Prévia do material em texto
ESTRATÉGIAS E TÉCNICAS EM SERVIÇO SOCIAL I Mariana Oliveira Decarli Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever o histórico do processo de trabalho do Serviço Social. Reconhecer os conceitos de instrumental, instrumento e técnica. Identificar os instrumentos e técnicas utilizados no Serviço Social após o movimento de reconceituação da profissão. Introdução Neste capítulo, você vai estudar o significado da instrumentalidade do Serviço Social. Também vai ver de que forma essa instrumentalidade é materializada pelos instrumentos e técnicas que garantem o fazer profissional crítico, propositivo e transformador da realidade. O processo de trabalho, de maneira geral, diz respeito à relação entre homens e mulheres com a natureza e a sua transformação. Na sociedade capitalista, esse processo é alienado, o que constrói relações sociais tam- bém alienadas. O Serviço Social e o processo de trabalho da profissão estão inscritos, portanto, nesse contexto. É fundamental que você compreenda a importância de uma prática orientada de forma teleológica pelo profissional para que a instrumen- talidade do Serviço Social não reproduza a lógica alienada intrínseca ao capitalismo. Desenvolvimento histórico do Serviço Social Inicialmente, você deve notar que o desenvolvimento histórico do trabalho do assistente social se conecta ao processo de trabalho como todo. Para Marx, o processo de trabalho se dá antes de qualquer vinculação com determinada formação social. Isso signifi ca que o processo de trabalho é, antes de tudo, a relação de homens e mulheres com a natureza — modifi cando-a a partir de sua capacidade teleológica de refl exão e ação, assim como construindo algo novo com base nessa relação. O trabalho é a categoria que dignifica homens e mulheres e que constitui ontologicamente um novo tipo de ser: o ser social. Ao modificar a natureza e produzir algo novo, homens e mulheres modificam a si mesmos. Para que o desenvolvimento de um processo de trabalho seja possível, são necessárias algumas condições, como o meio e o objeto de trabalho. Para exercer deter- minado trabalho, são imperativas as faculdades mecânicas, físicas e químicas. Segundo Marx (1985, p. 151): Além das coisas que medeiam a atuação do trabalho sobre seu objeto e por isso servem, de um modo ou de outro, de condutor da atividade, o processo de trabalho conta, em sentido lato, entre seus meios, com todas as condições objetivas que são exigidas para que seu processo se realize. Estas não entram diretamente nele, mas sem elas ele não pode decorrer ao todo ou só deficien- temente. O meio universal de trabalho deste tipo é a própria terra, pois ela dá ao trabalhador o locus standi, e ao processo dele, o campo de ação ( field of employment) [...]. Esse processo de trabalho tomado de forma abstrata está relacionado com a produção de um fim, de algo utilizável no âmbito da interação entre homens, mulheres e natureza. O resultado do processo de trabalho é claro para quem trabalha. Um trabalhador que fia tem como resultado de seu trabalho o fio, a ser utilizado pela sociedade, pela coletividade. No entanto, hoje o processo de trabalho está inscrito em uma lógica distinta. Aqui, é importante que você reflita sobre a formação social capitalista. Assim, em breve, vai poder refletir também acerca do processo de trabalho do Serviço Social — que ganha definições a mais, definições que são fundamentais na compreensão da ordem vigente. Segundo Marx (1985, p. 154): O processo de trabalho, em seu decurso enquanto processo de consumo da força de trabalho pelo capitalista, mostra dois fenômenos peculiares. [...] O trabalhador trabalha sobre o controle do capitalista a quem pertence seu trabalho. [...] Segundo, porém: o produto é propriedade do capitalista, e não do produtor direto, do trabalhador. Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social2 Todo o processo de trabalho sob a lógica da produção capitalista passa a se tornar alienante ao trabalhador. A atividade fundante passa a ser uma atividade alienada. Na medida em que se complexificam os processos de trabalho, há, cada vez mais, uma ruptura entre o trabalhador e aquilo que ele produz. Além disso, há também a sua exclusão do consumo de bens materiais coletivos, sem haver nesse processo a troca de mercadorias. Assim, a sociedade produz relações sociais de produção alienantes que se circunscrevem a todos em interação social. O processo de trabalho do Serviço Social, portanto, tem por base o desen- volvimento das forças produtivas em dado momento do desenvolvimento do próprio capitalismo em sua fase monopolista. Segundo Guerra (2000, p. 6): É no estágio monopolista do capitalismo, dadas as características que lhe são peculiares, que a questão social vai se tornando objeto de intervenção siste- mática e contínua do Estado. Com isso, instaura-se um espaço determinado na divisão social e técnica do trabalho para o Serviço Social (bem como para outras profissões). É nesse marco contraditório que se inscreve o fazer profissional do assis- tente social. A sua utilidade social se dá na medida em que há a necessidade de responder às classes sociais em disputa no interior da sociedade. Embora o Serviço Social seja uma profissão que responde às necessidades do capital, também é uma profissão que, com base em uma perspectiva crítica, tem o potencial de garantir e consolidar direitos, postando-se ao lado dos oprimidos. Existe uma distinção entre a generalização ou abstração do processo de trabalho — enquanto ação de homens e mulheres na natureza, criando algo novo, de utilidade coletiva — e o processo de trabalho inscrito em determinada sociedade. Em cada formação socioeconômica distinta (escravismo, feudalismo e capitalismo), há um tipo de processo de trabalho circunscrito, embora o processo de trabalho em si tenha a mesma essência. 3Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social Instrumentais, instrumentos e técnicas profissionais A compreensão acerca dos instrumentais do Serviço Social está inter-relacionada com o processo de trabalho em si. Afi nal, todo trabalho social possui algum tipo de instrumentalidade (que é diferente de instrumento e de técnica). A instru- mentalidade é uma condição inerente ao trabalho. Segundo Guerra (2000, p. 3): A ação transformadora que é práxis [...], cujo modelo privilegiado é o trabalho, tem uma instrumentalidade. Detém a capacidade de manipulação, de conversão dos objetos em instrumentos que atendam às necessidades dos homens e de transformação da natureza em produtos úteis (e, em decorrência, a transfor- mação da sociedade). Mas a práxis necessita de muitas outras capacidades/ propriedades além da própria instrumentalidade. Assim, o processo de manipular coisas — a natureza ou os posteriores frutos do trabalho — possui instrumentalidade. Isso significa que essas ações possuem teleologia, envolvem a capacidade de refletir acerca de possibilidades, de futuros. A questão central é que, na formação social capitalista, a instrumentalidade que homens e mulheres utilizavam para transformar a natureza passa a ser utilizada pelo burguês na compra de força de trabalho. Ocorre o que Guerra (2000, p. 5) chama de “[...] instrumentalização de pessoas [...]”. O profissional de Serviço Social, também inscrito na lógica de produção e reprodução da força de trabalho, tem seu próprio trabalho intermediado pela instrumentalização de pessoas. As- sim, em última instância, sua atuação também pode ser permeada de alienação. Como você pode notar, o quadro vai se tornando mais complexo. Diante disse, segundo Guerra (2000, p. 7): [...] é importante, na reflexão do significado sócio-histórico da instrumentalidade como condição de possibilidade do exercício profissional, resgatar a natureza e a configuração das políticas sociais que, como espaços de intervenção pro-fissional, atribuem determinadas formas, conteúdos e dinâmicas ao exercício profissional. A este respeito, considerando a natureza (compensatória e residual) e o modo de se expressar das políticas sociais (como questão de natureza técni- ca, fragmentada, focalista, abstraída de conteúdos econômico-políticos), estas obedecem e produzem uma dinâmica que se reflete no exercício profissional através de dois movimentos: 1) interditam aos profissionais a concreta apre- ensão das políticas sociais como totalidade, síntese da articulação de diversas esferas e determinações (econômica, cultural, social, política, psicológica), o que os limita a uma intervenção microscópica, nos fragmentos, nas refrações, nas singularidades; 2) exigem dos profissionais a adoção de procedimentos instrumentais, de manipulação de variáveis, de resolução pontual e imediata. Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social4 O desafio que se impõe é a construção de uma instrumentalidade baseada não naquilo que o capitalismo exige — ou seja, a reprodução da força de trabalho para que se reproduza o capital —, mas na consolidação dos direitos sociais e humanos. Isso é possível por meio da materialização de políticas sociais em interlocução com as necessidades reais e objetivas dos usuários. Como você pode perceber, esse desafio é cada vez maior e mais complexo. A utilização de instrumentos e técnicas para a execução das políticas sociais no âmbito da seguridade social (saúde, assistência social, previdência social) também não está descolada do cenário apresentado. Mas tais instrumentos e técnicas guar- dam, eles mesmos, contradições próprias. Muitas vezes, é por meio de um fazer profissional tecnicista (ou seja, que se preocupa de forma unilateral com a técnica e os instrumentos) que se abre espaço para o processo que não inclui a práxis. Sem refletir criticamente acerca da realidade e sem se posicionar no co- tidiano profissional, o assistente social passa a realizar uma prática isolada, fragmentada, imediatista e que trata das aparências sem acessar a essência das relações sociais postas. A redução do Serviço Social a um processo técnico descolado do projeto ético-político da profissão é extremamente prejudicial não somente ao fazer profissional, mas também à própria condição do assistente social de garantidor de direitos sociais para os usuários. Sem processos de reflexão crítica, o Serviço Social pode se tornar um meio para qualquer tipo de ação profissional desqualificada. O que são instrumentos e técnicas? A dimensão técnico-operativa do Serviço Social envolve um conjunto articulado de instrumentos e técnicas que permitem a operacionalização dos serviços sociais. O conhecimento e as habilidades do profi ssional também são instrumentos que ele utiliza no seu cotidiano profi ssional. Portanto, a dimensão técnico-operativa também é uma dimensão que envolve a educação e a formação dos profi ssionais. São atribuições do assistente social: coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas e projetos na área de Serviço Social; prestar informações e elaborar pareceres no que tange à profissão; planejar, coordenar e executar atividades socioeducativas; atuar como consultor, facilitador de processos de formação, reuniões, palestras; elaborar relatórios técnicos e análises sobre temas do Serviço Social; supervisionar estagiários de Serviço Social. 5Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social Você deve partir da perspectiva de que toda a matéria de Serviço Social é profissional. Assim, para ser assistente social, o profissional deve estudar e se formar considerando todos os fundamentos da profissão. Além disso, precisa pas- sar por uma formação crítica, de acordo com o projeto ético-político profissional. Alguns instrumentos do Serviço Social que você pode utilizar para desen- volver o seu trabalho junto aos usuários são: a visita domiciliar, as entrevistas, os estudos sociais, os laudos e pareceres técnicos e as intervenções em grupos. Esses instrumentos fazem parte do cotidiano dos profissionais e possibilitam o trabalho qualificado, bem como a escuta qualificada dos usuários. Só assim o assistente social pode responder às demandas apresentadas a ele. No link a seguir, você pode assistir a uma aula magna da professora Yolanda Guerra sobre a instrumentalidade do Serviço Social. O vídeo foi gravado na Universidade Estadual do Ceará (UECE). https://goo.gl/kyJ1xy Modificações trazidas pelo movimento de reconceituação Segundo Guerra (2000), há três tipos de instrumentalidade no Serviço Social. A primeira delas é uma instrumentalidade que está de acordo com o projeto burguês de sociedade. Ela se relaciona à capacidade da profi ssão de converter-se em meio de manutenção da ordem. Isso ocorre pela utilização de seu aparato técnico- -instrumental apenas de forma racional e técnica, sem criticidade. A segunda ins- trumentalidade responde às demandas das classes, ou seja, é uma instrumentalidade que também está inscrita numa perspectiva mecanicista de atuação profi ssional. A terceira instrumentalidade é a mediação. Segundo Guerra (2000, p. 11): Se é verdade que a Instrumentalidade insere-se no espaço do singular, do cotidiano, do imediato, também o é que ela, ao ser considerada como uma particularidade da profissão, dada por condições objetivas e subjetivas, e como tal sócio-históricas, pode ser concebida como campo de mediação e instância de passagem. Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social6 Assim, a autora afirma que a instrumentalidade é um campo de mediação. Nesse sentido, a profissão é tomada enquanto totalidade num esforço de abs- tração para se entender esse viés profissional. Na interação com o cotidiano profissional, o assistente social lança mão de acúmulos sociais, culturais, ideológicos e de formação. Ele adapta todo esse arcabouço ao seu fazer pro- fissional para resolver problemas e questões que surgem em seu cotidiano. Isso quer dizer que nesse processo também se confrontam visões distintas de mundo e do arcabouço teórico a ser utilizado. O movimento de reconceituação, que surge em 1965 no interior do Serviço Social, tem como base as condições objetivas que atravessavam o País em meio à ditadura civil-militar e à chegada da teoria social crítica por aqui — ou seja, a interação do profissional enquanto sujeito político e, portanto, a sua práxis. Nesse contexto, a instrumentalidade é repensada, assim como os instrumentos e técnicas utilizados no cotidiano profissional. Além disso, uma série de instrumentais de cunho conservador presentes no interior da profissão começam a ser questionados junto a todo o fazer profissional e à perspectiva conservadora. A possibilidade de se compreender a sociedade a partir do método crítico- -dialético, entendendo o movimento interno do capital, suas formas de sus- tentação e o papel do Serviço Social nesse contexto, faz com que o corpo profissional se destine a criticar aquilo que Barroco (2010) definiu como ethos conservador do Serviço Social. Assim, a ideia é constituir uma perspectiva emancipatória para a profissão, vinculada à necessária transformação social. A instrumentalidade é colocada como elemento fundamental da criticidade, como parte integrante da perspectiva de formação profissional. Afinal, não há um processo teórico sem um processo prático que o reflita. Assim, reforça-se a centralidade da práxis enquanto fundamento ético e ontológico da profissão. É fundamental você compreender que, ao longo dessas duas décadas de existência do Serviço Social (até o marco da reconceituação), a prática do profissional esteve voltada para a manutenção da ordem burguesa a partir de uma perspectiva teórico-metodológica e de uma ação pautadas pelo conservadorismo e pela óptica da benfeitoria junto aos usuários. Além disso, havia em todo o processo — da formação à atuação profissional — uma perspectiva de culpabilização dos sujeitospelas suas condições de existência. Diante do marco da reconceituação e do movimento de entrada da teoria social crítica no Brasil no contexto ditatorial, os profissionais passaram a acessar um instrumental teórico que explica a contradição da sociedade de uma perspectiva crítica. Tal perspectiva oferece instrumentais para que o profissio- nal compreenda que o seu trabalho é necessário, pois se vive numa sociedade 7Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social cindida pela luta de classes. Nesse sentido, as injustiças e as expressões da questão social — alvo de sua intervenção — são constituídas pela contradição entre os detentores dos meios de produção e aqueles que têm apenas a sua força de trabalho para vender. Esse marco é, portanto, fundante da perspectiva do Serviço Social que se desenvolve desde então e do aprofundamento dessa compreensão no Código de Ética de 1993. Considere que um profissional que trabalha na área de saúde se depara com esta situação trazida por um usuário do Sistema Único de Saúde: o medicamento para pressão está em falta nas unidades básicas de saúde de todo o município e o usuário não tem outra condição de adquiri-lo que não por meio da farmácia básica. Diante disso, o assistente social deve munir-se de todo o seu aparato de instrumentos e técnicas para solucionar a demanda do usuário. As ações tomadas por esse profissional podem ser definidas de inúmeras formas. Ele pode: optar por dialogar com seus colegas num trabalho multidisciplinar em busca de uma solução coletiva; abrir uma ação judicial contra o município, exigindo que o usuário tenha garantido seu direito de acesso ao medicamento; buscar a rede de atendimento de saúde na expectativa de garantir o direito do usuário. Todo esse processo de reflexão e tomada de decisões acerca de um quadro está inscrito na instrumentalidade da profissão. BARROCO, S. M. L. Ética: fundamentos sócio-históricos. São Paulo: Cortez, 2010. GUERRA, Y. Instrumentalidade do processo de trabalho e serviço social. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, v. 21, n.62, p. 5-34, mar. 2000. MARX, K. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1985, 2 ed. Leitura recomendada NETTO, P. J. Ditadura e serviço social. São Paulo: Cortez, 2011. Os instrumentais técnico-operativos do Serviço Social8 Conteúdo: