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Prévia do material em texto

Ficha	Técnica
Título:	HISTÓRIA	DE	UMA	FRAUDE
Título	original:	GENUINE	FRAUD
Autor:	E.	Lockart
Tradução:	Ana	Saldanha
Revisão:	Carolina	Matias
Capa:	Maria	Manuel	Lacerda
Imagem	da	capa:	Jonathan	Knowles/Stone/Getty	Images
ISBN:	9789892353135
	
Edições	ASA	II,	S.A.
uma	editora	do	Grupo	LeYa
R.	Cidade	de	Córdova,	n.º	2
2160-038	Alfragide	–	Portugal
Tel.:	(+351)	214	272	200
Fax:	(+351)	214	272	201
	
©	2017,	E.	Lockhart
©	2022,	Edições	ASA	II,	S.A.
Todos	os	direitos	reservados	de	acordo	com	a	legislação	em	vigor
www.asa.leya.com
www.leya.pt
	
	
Este	livro	segue	o	Novo	Acordo	Ortográfico	de	1990.
http://www.asa.leya.com
http://www.leya.pt
Índice
Capa
Ficha	Técnica
18
17
16
15
14
13
12
11
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
19
NOTA	DA	AUTORA
AGRADECIMENTOS
E.	Lockhart
HISTÓRIA	DE	UMA	FRAUDE
Para	qualquer	pessoa	a	quem	tenha	sido	ensinado	que	«bom»	significa
«pequeno	e	silencioso»,	aqui	está	o	meu	coração	com	todos	os	seus
feios	emaranhados	e	a	sua	esplêndida	fúria.
E
18
Começar	aqui:
TERCEIRA	SEMANA	DE	JUNHO,	2017
CABO	SAN	LUCAS,	MÉXICO
ra	um	hotel	fabuloso	como	o	caraças.
No	 minibar	 do	 quarto	 de	 Jule	 havia	 batatas	 fritas	 e	 quatro	 tipos
diferentes	 de	 tabletes	 de	 chocolate.	A	banheira	 era	 de	hidromassagem.	Havia
um	abastecimento	infindável	de	toalhas	fofas	e	gel	de	banho	com	perfume	de
gardénia.	No	átrio,	um	cavalheiro	idoso	tocava	Gershwin	num	piano	de	cauda
às	quatro	horas	todas	as	tardes.	Podiam	fazer-se	tratamentos	de	pele	com	argila
quente,	 se	 não	 se	 objetasse	 ao	 toque	 de	 estranhos.	A	 pele	 de	 Jule	 cheirava	 a
cloro	o	dia	inteiro.
O	 resort	 Playa	 Grande	 em	 Baja	 tinha	 cortinas	 brancas,	 azulejos	 brancos,
alcatifas	 brancas	 e	 explosões	 de	 luxuriantes	 flores	 brancas.	 Os	 funcionários
pareciam	enfermeiros,	com	as	suas	fardas	de	algodão	branco.	Jule	encontrava-
se	sozinha	no	hotel	há	quase	quatro	semanas.	Tinha	dezoito	anos.
Esta	manhã,	estava	a	correr	no	ginásio	do	Playa	Grande.	Calçava	ténis	verde-
mar	 feitos	 à	 medida,	 com	 atacadores	 em	 azul-marinho.	 Corria	 sem	 música.
Estava	a	fazer	intervalos	há	quase	uma	hora	quando	uma	mulher	subiu	para	a
passadeira	ao	seu	lado.
Esta	mulher	tinha	menos	de	trinta	anos.	O	seu	cabelo	preto	estava	preso	num
rabo	de	cavalo	apertado,	acamado	com	laca.	Tinha	braços	grandes	e	um	tronco
sólido,	pele	de	um	moreno	claro	e	uma	camada	de	blush	em	pó	nas	faces.	Os
seus	ténis	estavam	cambados	e	salpicados	com	lama	seca.
Não	se	encontrava	mais	ninguém	no	ginásio.
Jule	 abrandou	 o	 passo,	 a	 calcular	 que	 se	 iria	 embora	 daí	 a	 um	 minuto.
Agradava-lhe	ter	privacidade,	e,	de	qualquer	maneira,	já	estava	quase	a	acabar.
–	Está	a	treinar?	–	perguntou	a	mulher.	Apontou	para	o	registo	digital	de	Jule.
–	Tipo,	para	uma	maratona	ou	coisa	do	género?	–	A	pronúncia	era	mexicano-
americana.	Provavelmente,	era	uma	nova-iorquina	criada	num	bairro	de	língua
espanhola.
–	Corria	 em	pista	 na	 secundária.	 É	 tudo.	 –	A	maneira	 de	 falar	 de	 Jule	 era
clara	e	seca,	aquilo	a	que	os	britânicos	chamam	inglês	da	BBC.
A	mulher	lançou-lhe	um	olhar	penetrante.	–	Gosto	da	sua	pronúncia	–	disse.
–	De	onde	é?
–	De	Londres.	De	St.	John’s	Wood.
–	Eu	sou	de	Nova	Iorque.	–	A	mulher	apontou	para	si	própria.
Jule	desceu	da	passadeira	para	fazer	alongamentos	dos	quadríceps.
–	 Estou	 aqui	 sozinha	 –	 confidenciou	 a	mulher	 ao	 fim	 de	 um	momento.	 –
Cheguei	 ontem	 à	 noite.	 Reservei	 este	 hotel	 à	 última	 hora.	 Está	 cá	 há	muito
tempo?
–	Nunca	é	tempo	suficiente	–	disse	Jule	–	num	sítio	como	este.
–	Então,	o	que	recomenda?	No	Playa	Grande?
Jule	não	falava	frequentemente	com	outros	hóspedes	do	hotel,	mas	não	viu
mal	em	responder.	–	Vá	fazer	a	excursão	de	mergulho	–	disse.	–Vi	uma	moreia
grande	como	o	caraças.
–	Não	me	diga.	Uma	enguia?
–	O	 guia	 tentou-a	 com	 tripas	 de	 peixe	 que	 trazia	 numa	 garrafa	 de	 leite	 de
plástico.	A	enguia	nadou	para	fora	das	rochas.	Devia	ter	dois	metros	e	quarenta
de	comprimento.	E	era	de	um	verde-vivo.
A	mulher	estremeceu.	–	Não	gosto	de	enguias.
–	Pode	não	ir.	Se	se	assusta	com	facilidade.
A	mulher	riu-se.	–	Como	é	a	comida?	Ainda	não	comi.
–	Peça	o	bolo	de	chocolate.
–	Para	o	pequeno-almoço?
–	Oh,	sim.	Trazem-lho	especialmente,	se	pedir.
–	É	bom	saber	isso.	Está	de	férias	sozinha?
–	Ouça,	vou	andando	–	disse	Jule,	sentindo	que	a	conversa	se	tornara	pessoal.
–	Adeusinho.	–	Dirigiu-se	para	a	porta.
–	O	meu	pai	está	muito	doente	–	disse	a	mulher,	 falando	para	as	costas	de
Jule.	–	Já	estou	a	tomar	conta	dele	há	imenso	tempo.
Uma	pontada	de	compaixão.	Jule	parou	e	virou-se.
–	 Todas	 as	 manhãs	 e	 todas	 as	 noites	 depois	 do	 trabalho,	 estou	 com	 ele	 –
prosseguiu	a	mulher.	–	Agora,	encontra-se	finalmente	estável,	e	eu	queria	tanto
afastar-me	daquilo	tudo	que	nem	pensei	no	preço.	Estou	a	estourar	uma	data	de
massa	que	não	devia.
–	O	que	tem	o	seu	pai?
–	E.	M.	–	respondeu	a	mulher.	–	Esclerose	múltipla?	E	demência.	Era	o	chefe
da	nossa	 família.	Muito	machista.	Com	opiniões	 fortes	em	 tudo.	Agora	é	um
corpo	 contorcido	numa	 cama.	Metade	do	 tempo,	 nem	 sequer	 sabe	 onde	 está.
Põe-se,	tipo,	a	perguntar-me	se	sou	a	empregada	de	mesa.
–	Que	diabo.
–	Tenho	medo	de	o	perder	e	detesto	estar	com	ele,	as	duas	coisas	ao	mesmo
tempo.	E	quando	ele	morrer	e	eu	ficar	órfã,	sei	que	vou	arrepender-me	de	ter
feito	esta	viagem	para	longe	dele,	sabe?	–	A	mulher	parou	de	correr	e	pôs	um
pé	 de	 cada	 lado	 da	 passadeira.	 Limpou	 os	 olhos	 com	 as	 costas	 da	 mão.	 –
Desculpe.	Demasiada	informação.
–	Não	tem	mal.
–	Vá	lá.	Vá	tomar	um	duche	ou	o	que	for.	Talvez	a	veja	por	aí	mais	tarde.
A	mulher	 arregaçou	 as	mangas	 compridas	 da	 sua	T-shirt	 e	 virou-se	 para	 o
registo	 digital	 da	 passadeira.	 Serpenteava-lhe	 uma	 cicatriz	 pelo	 antebraço
direito,	 como	 se	 resultante	 de	 uma	 facada,	 não	 regular	 como	 a	 de	 uma
operação.	Havia	ali	uma	história.
–	Ouça,	gosta	de	concursos	 tipo	Trivial	Pursuit?	–	perguntou	Jule,	 sabendo
que	não	devia	fazê-lo.
Um	sorriso.	Dentes	brancos,	mas	tortos.	–	Sou	excelente	em	trivialidades,	de
facto.
–	Organizam	um	de	duas	em	duas	noites	no	salão	lá	em	baixo	–	disse	Jule.	–
É	uma	treta.	Quer	ir?
–	Que	tipo	de	treta?
–	Treta	da	boa.	Um	bocado	tonto	e	barulhento.
–	OK.	Sim,	está	bem.
–	Ótimo	–	disse	Jule.	–	Vamos	arrasar.	Vai	ficar	contente	por	ter	tirado	férias.
Eu	 sou	 uma	 barra	 em	 super-heróis,	 filmes	 de	 espiões,	 YouTubers,	 fitness,
dinheiro,	maquilhagem	e	escritores	vitorianos.	E	você?
–	Escritores	vitorianos?	Tipo,	Dickens?
–	Sim,	isso.	–	Jule	sentiu	que	corava.	De	repente,	parecia	uma	série	estranha
de	coisas	por	que	se	interessar.
–	Adoro	Dickens.
–	Não	me	diga.
–	É	verdade.	–	A	mulher	 sorriu	de	novo.	–	Sou	boa	em	Dickens,	culinária,
notícias	da	atualidade,	política...	vejamos,	oh,	e	em	gatos.
–	Está	bem,	então	–	disse	Jule.	–	Começa	às	oito,	naquele	salão	que	dá	para	o
átrio	principal.	O	bar	com	sofás.
–	 Às	 oito.	 Combinado.	 –	 A	 mulher	 aproximou-se	 e	 estendeu	 a	 mão.	 –
Relembre-me,	como	se	chama?	Eu	sou	a	Noa.
Jule	apertou-lhe	a	mão.	–	Não	lhe	tinha	dito	o	meu	nome	–	respondeu.	–	Mas
é	Imogen.
Jule	West	Williams	 tinha	um	aspeto	razoavelmente	agradável.	Quase	nunca
lhe	 chamavam	 feia,	 e	 também	 não	 era	 habitualmente	 considerada	 sexy.	 Era
baixa,	 media	 só	 um	metro	 e	 cinquenta,	 e	 tinha	 o	 queixo	 espetado.	 Usava	 o
cabelo	 num	 corte	 atraente,	 à	 rapazinho,	 com	madeixas	 louras	 aplicadas	 num
cabeleireiro	 e	 atualmente	 a	 mostrar	 as	 raízes	 escuras.	 Olhos	 verdes,	 pele
branca,	sardas	claras.	Com	a	maior	parte	das	suas	roupas,	não	poderia	ver-se	a
força	da	sua	estrutura	corporal.	Jule	tinha	músculos	que	sobressaíam	dos	ossos
em	arcos	potentes	–	como	se	 tivesse	 sido	desenhada	por	um	artista	de	banda
desenhada,	 especialmente	 nas	 pernas.	 Havia	 um	 painel	 duro	 de	 músculo
abdominal	sob	uma	camada	de	gordura	na	zona	do	umbigo.	Gostava	de	carne	e
sal	e	chocolate	e	gorduras.
Jule	acreditava	que	quanto	mais	se	transpirar	nos	treinos,	menos	se	sangrará
na	batalha.
Acreditavaque	a	melhor	maneira	de	evitar	que	nos	partam	o	coração	é	fingir
que	não	temos	coração.
Acreditava	que	a	maneira	como	se	fala	é	frequentemente	mais	importante	do
que	qualquer	coisa	que	se	tenha	a	dizer.
Também	 acreditava	 em	 filmes	 de	 ação,	 no	 treino	 com	 pesos,	 no	 poder	 da
maquilhagem,	na	memorização,	na	 igualdade	de	direitos	e	na	 ideia	de	que	os
vídeos	 do	 YouTube	 podem	 ensinar	 um	 milhão	 de	 coisas	 que	 não	 se
aprenderiam	na	escola.
Se	confiasse	na	pessoa	com	quem	estava	a	falar,	Jule	diria	que	andou	um	ano
em	Stanford	com	uma	bolsa	de	atletismo.	«Fui	recrutada»	explicava	às	pessoas
de	 quem	 gostava.	 «Stanford	 é	 a	 Primeira	 Divisão.	 A	 universidade	 deu-me
dinheiro	para	as	propinas,	os	livros,	isso	tudo.»
O	que	aconteceu?
Jule	 poderia	 encolher	 os	 ombros.	 «Queria	 estudar	 Literatura	 Vitoriana	 e
Sociologia,	 mas	 o	 treinador	 principal	 era	 um	 pervertido»	 diria.	 «Tocava	 nas
raparigas	todas.	Quando	chegou	a	minha	vez,	preguei-lhe	um	pontapé	no	certo
sítio	 e	 contei	 a	 toda	 a	 gente	 que	 me	 quis	 ouvir.	 A	 professores,	 alunos,	 ao
Stanford	Daily.	Berrei-o	ao	topo	da	estúpida	torre	de	marfim,	mas	sabes	o	que
acontece	aos	atletas	que	denunciam	os	seus	treinadores.»
Torcia	 os	 dedos	 entrelaçados	 e	 baixava	 os	 olhos.	 «As	 outras	 raparigas	 da
equipa	 negaram»	 acrescentava.	 «Disseram	 que	 eu	 estava	 a	 mentir	 e	 que	 o
pervertido	 nunca	 tinha	 tocado	 em	 ninguém.	 Não	 queriam	 que	 os	 pais
soubessem	e	tinham	medo	de	perder	a	bolsa	de	estudos.	Foi	assim	que	acabou	a
história.	 O	 treinador	 manteve-se	 no	 seu	 lugar.	 Eu	 abandonei	 a	 equipa.	 Isso
significou	que	deixei	de	ter	apoio	financeiro.	E	é	assim	que	se	transforma	uma
excelente	aluna	num	caso	de	abandono	dos	estudos.»
*
Depois	do	ginásio,	 Jule	nadou	mil	 e	 seiscentos	metros	na	piscina	do	Playa
Grande	 e	 passou	 o	 resto	 da	 manhã,	 como	 era	 frequente,	 sentada	 na	 sala	 de
conferências	a	ver	vídeos	de	língua	espanhola.	Ainda	estava	de	fato	de	banho,
mas	 com	 uns	 ténis	 verde-mar.	 Usava	 batom	 cor-de-rosa	 vivo	 e	 eyeliner
prateado.	O	fato	de	banho	era	de	uma	só	peça,	cor	de	chumbo,	com	um	aro	no
peito	e	um	decote	acentuado.	Dava-lhe	um	ar	muito	Universo	Marvel.
A	sala	de	conferências	tinha	ar	condicionado.	Nunca	estava	lá	mais	ninguém.
Jule	punha	os	pés	em	cima	de	uma	mesa	e	usava	fones	e	bebia	Cola-Cola	de
dieta.
Depois	de	duas	horas	de	língua	espanhola,	almoçou	um	Snickers	e	pôs-se	a
ver	vídeos	de	música.	Dançou	por	ali	com	a	energia	da	cafeína,	cantando	para	a
fila	de	cadeiras	giratórias	na	sala	vazia.	Hoje,	a	vida	estava	a	ser	fabulosa	como
o	caraças.	Gostava	daquela	triste	mulher	fugida	ao	pai	doente,	da	mulher	com	a
cicatriz	interessante	e	o	gosto	surpreendente	em	livros.
Iam	arrasar	no	concurso.
Jule	 bebeu	 mais	 uma	 Cola-Cola	 de	 dieta.	 Verificou	 a	 maquilhagem	 e
pontapeou	o	seu	reflexo	no	vidro	da	janela	da	sala.	A	seguir,	riu-se	alto,	porque
parecia	ao	mesmo	tempo	tonta	e	incrível.	Durante	todo	esse	tempo,	o	ritmo	da
música	pulsava	nos	seus	ouvidos.
O	empregado	do	bar	da	piscina,	Donovan,	era	um	tipo	da	zona.	Tinha	ossos
grandes,	mas	 um	 aspeto	molengão.	 E	 cabelo	 penteado	 para	 trás.	 Era	 dado	 a
piscar	o	olho	à	clientela.	Falava	inglês	com	o	sotaque	típico	de	Baja	e	sabia	o
que	Jule	bebia:	uma	Coca-Cola	de	dieta	com	um	shot	de	xarope	de	baunilha.
Nalgumas	tardes,	Donovan	fazia	perguntas	a	Jule	sobre	como	fora	crescer	em
Londres.	 Jule	 praticava	 espanhol.	 Viam	 filmes	 no	 ecrã	 por	 cima	 do	 balcão
enquanto	conversavam.
Hoje,	às	três	da	tarde,	Jule	empoleirou-se	no	banco	no	canto	do	balcão,	ainda
de	fato	de	banho.	Donovan	vestia	um	blazer	branco	do	Playa	Grande	e	uma	T-
shirt.	Estavam	a	crescer-lhe	uns	pelos	da	barba	no	pescoço.
–	Qual	é	o	filme?	–	perguntou-lhe	ela,	olhando	para	cima	para	a	televisão.
–	O	Hulk.
–	Qual	deles?
–	Não	sei.
–	Foste	tu	quem	pôs	o	DVD.	Como	podes	não	saber?
–	Nem	sequer	sabia	que	havia	dois	Hulks.
–	Há	 três	Hulks.	Espera,	 retiro	o	que	disse.	Há	vários	Hulks.	Se	contarmos
com	os	da	televisão,	da	banda	desenhada,	isso	tudo.
–	Não	sei	que	Hulk	é,	Miss	Williams.
O	filme	continuava	no	ecrã.	Donovan	passou	uns	copos	por	água	e	limpou	o
balcão.	Preparou	um	uísque	escocês	com	água	com	gás	para	uma	cliente,	o	que
o	levou	para	o	outro	extremo	da	zona	da	piscina.
–	É	o	 segundo	melhor	Hulk	 –	disse	 Jule,	 quando	voltou	a	 ter	 a	 atenção	de
Donovan.	–	Como	se	diz	uísque	escocês	em	espanhol?
–	Escocés.
–	Escocés.	Qual	é	uma	marca	boa	para	se	beber?
–	A	menina	nunca	bebe.
–	Mas	se	bebesse.
–	O	Macallan	–	disse	Donovan,	encolhendo	os	ombros.	–	Quer	que	lhos	dê	a
provar?
Deitou	 em	 cinco	 copos	 de	 shot	 diferentes	 marcas	 de	 uísque	 escocês	 da
melhor	qualidade.	Explicou	as	diferenças	entre	scotches	e	whiskeys,	e	porque
se	mandaria	vir	um	e	não	o	outro.	Jule	provou	cada	um	deles,	mas	não	bebeu
muito.
–	Este	cheira	a	sovaco	–	disse-lhe	ela.
–	A	menina	é	louca.
–	E	este	cheira	a	gasolina	de	isqueiro.
Ele	debruçou-se	sobre	o	copo	para	o	cheirar.	–	Talvez.
Ela	apontou	para	o	terceiro.	–	Mijo	de	cão,	tipo,	de	um	cão	mesmo	furioso.
Donovan	riu-se.	–	A	que	cheiram	os	outros?	–	perguntou.
–	A	sangue	seco	–	disse	Jule.	–	E	àquele	pó	que	se	usa	para	limpar	casas	de
banho.	Aquele	pó	de	limpeza.
–	Qual	prefere?
–	 O	 do	 sangue	 seco	 –	 disse	 ela,	 enfiando	 o	 dedo	 no	 copo	 e	 provando-o
novamente.	–	Diz-me	como	se	chama.
–	 É	 o	Macallan.	 –	 Donovan	 retirou	 os	 copos.	 –	 Oh,	 e	 esqueci-me	 de	 lhe
dizer:	esteve	aqui	uma	senhora	a	perguntar	por	si.	Ou	talvez	não	por	si.	Talvez
ela	se	tivesse	confundido.
–	Que	senhora?
–	Uma	senhora	mexicana.	A	falar	espanhol.	Perguntou-me	por	uma	rapariga
americana	branca	com	cabelo	louro	curto,	que	viaja	sozinha	–	disse	Donovan.	–
Referiu-se	a	sardas.	–	Tocou	no	seu	próprio	rosto.	–	No	nariz.
–	O	que	é	que	lhe	disseste?
–	Disse	que	é	um	resort	 grande.	Muitos	 americanos.	Não	 sei	quem	está	 cá
sozinho	e	quem	não	está.
–	Não	sou	americana	–	disse	Jule.
–	Eu	sei.	Portanto,	disse-lhe	que	não	tinha	visto	ninguém	assim.
–	Foi	o	que	disseste?
–	Foi.
–	Mas	não	deixaste	de	pensar	em	mim.
Donovan	 olhou	 para	 Jule	 por	 um	 longo	minuto.	 –	Pensei	 de	 facto	 em	 si	 –
disse	por	fim.	–	Não	sou	estúpido,	Miss	Williams.
Noa	sabia	que	ela	era	americana.
Isso	significava	que	Noa	era	da	polícia.	Ou	coisa	do	género.	Tinha	de	ser.
Tentara	 iludir	 Jule	 com	 aquela	 conversa	 toda.	O	pai	 doente,	Dickens,	 ficar
órfã.	Noa	soubera	exatamente	o	que	dizer.	Lançara	aquele	 isco	–	«o	meu	pai
está	muito	doente»	–	e	Jule	mordera-o	logo,	faminta.
Ficou	 com	 o	 rosto	 quente.	 Era	 a	 solidão	 e	 a	 fraqueza	 e	 uma	 estupidez	 do
caraças	que	a	 tinham	feito	cair	na	esparrela	de	Noa.	Era	 tudo	uma	artimanha
para	que	Jule	a	visse	como	uma	confidente,	não	uma	adversária.
Jule	 voltou	 para	 o	 seu	 quarto	 com	 um	 ar	 tão	 relaxado	 quanto	 conseguia
aparentar.	Uma	vez	dentro	do	quarto,	tirou	os	seus	pertences	valiosos	do	cofre.
Vestiu	umas	calças	de	ganga	e	uma	T-shirt,	calçou	umas	botas	e	meteu	na	sua
pequena	mala	tanta	roupa	quanta	cabia	nela.	O	resto	deixou	ficar.	Pousou	em
cima	 da	 cama	 uma	 gorjeta	 de	 cem	 dólares	 para	 Gloria,	 a	 criada	 com	 quem
falava	 por	 vezes.	 A	 seguir,	 empurrou	 a	 mala	 de	 rodinhas	 pelo	 corredor	 e
arrumou-a	ao	lado	da	máquina	do	gelo.
De	volta	ao	bar	da	piscina,	Jule	disse	a	Donovan	onde	se	encontrava	a	mala.
Passou	uma	nota	de	vinte	dólares	americanos	sobre	o	balcão.
Pediu	um	favor.
Passou	mais	uma	nota	de	vinte	e	deu	instruções.
No	parque	de	estacionamento	do	pessoal,	Jule	olhou	à	sua	volta	e	deu	com	o
pequeno	automóvel	azul	do	empregado	do	bar,	com	a	porta	destrancada.	Entrou
e	deitou-se	no	chão	na	parte	de	trás.	Estava	cheio	de	sacos	e	copos	de	plástico
vazios.
Teria	 de	 esperar	 uma	 hora	 até	Donovan	 terminar	 o	 seu	 turno	 no	 bar.	 Com
sorte,	Noa	 só	 se	 aperceberia	 de	 que	 se	 passava	 alguma	 coisa	 quando	 Jule	 já
estivesse	muito	atrasada	para	o	concurso	dessa	noite,	talvez	por	volta	das	oito	e
meia.	A	seguir,investigaria	o	shuttle	do	aeroporto	e	os	registos	da	empresa	de
táxis	antes	de	pensar	no	parque	de	estacionamento	do	pessoal.
Estava	abafado	e	quente	dentro	do	carro.	Jule	pôs-se	à	escuta	de	passos.
Teve	uma	cãibra	no	ombro.	Sentia	sede.
Donovan	ajudá-la-ia,	correto?
Correto.	 Já	 tinha	 mentido	 a	 encobri-la.	 Dissera	 a	 Noa	 que	 não	 conhecia
ninguém	 que	 correspondesse	 à	 descrição	 dela.	 Avisara	 Jule	 e	 prometera	 ir
buscar	a	sua	mala	e	dar-lhe	boleia.	Ela	pagara-lhe,	também.
Além	disso,	Donovan	e	Jule	eram	amigos.
Jule	estendeu	as	pernas,	uma	de	cada	vez,	e	a	 seguir	voltou	a	dobrar-se	no
espaço	por	trás	dos	assentos.
Pensou	no	que	trazia	e	a	seguir	tirou	os	brincos	e	o	anel	de	jade,	enfiando-os
no	bolso	das	suas	calças	de	ganga.	Forçou-se	a	acalmar	a	respiração.
Finalmente,	ouviu-se	o	som	de	uma	mala	com	rodinhas.	O	baque	da	mala	do
carro	 a	 ser	 fechada.	 Donovan	 sentou-se	 ao	 volante,	 ligou	 o	motor	 e	 saiu	 do
parque	 de	 estacionamento.	 Jule	manteve-se	 no	 chão	 do	 carro.	 Havia	 poucos
candeeiros	na	estrada.	Na	rádio	passava	música	pop	mexicana.
–	Para	onde	quer	ir?	–	perguntou	Donovan	por	fim.
–	Para	qualquer	parte	da	cidade.
–	Vou	para	casa,	então.	–	De	repente,	a	sua	voz	soava	predadora.
Com	um	raio.	Teria	feito	mal	em	meter-se	no	carro	dele?	Seria	Donovan	um
daqueles	 tipos	que	 julgam	que	uma	 rapariga	que	queira	um	 favor	 tem	de	dar
umas	voltas	com	ele?
–	Deixa-me	ficar	a	caminho	da	 tua	casa	–	disse-lhe	num	tom	ríspido.	–	Eu
trato	de	mim.
–	Não	tem	de	o	dizer	dessa	maneira	–	disse	ele.	–	Estou	a	arriscar-me	por	si
neste	momento.
Imagine-se	 isto:	 uma	 casa	 acolhedora	 nos	 arredores	 de	 uma	 cidade	 no
Alabama.	Uma	noite,	 Jule,	com	oito	anos,	acorda	no	escuro.	Terá	ouvido	um
ruído?
Não	tem	a	certeza.	A	casa	está	em	silêncio.
Vai	ao	andar	de	baixo	na	sua	camisa	de	noite	fina	cor-de-rosa.
No	 rés	 do	 chão,	 trespassa-a	 um	 frio	 gélido.	A	 sala	 de	 estar	 está	 virada	 de
pernas	para	o	ar,	livros	e	papéis	por	todo	o	lado.	O	escritório	está	ainda	pior.	Os
armários	de	arquivo	foram	derrubados.	Os	computadores	foram-se.
–	Mamã?	Papá?	–	A	Pequena	Jule	volta	a	correr	para	o	andar	de	cima	para
espreitar	para	o	quarto	dos	pais.
As	camas	deles	estão	vazias.
Agora	 sente-se	 verdadeiramente	 assustada.	Abre	 a	 porta	 da	 casa	 de	 banho.
Eles	não	estão	lá.	Corre	para	o	exterior.
O	jardim	é	cercado	por	árvores	altas.	A	Pequena	Jule	vai	a	meio	do	caminho
quando	 se	 apercebe	 do	 que	 está	 a	 ver	 ali,	 no	 círculo	 de	 luz	 criado	 por	 um
candeeiro.
A	mamã	 e	 o	 papá	 estão	 deitados	 no	 relvado,	 de	 cara	 para	 baixo.	 Os	 seus
corpos	estão	enroscados	e	moles.	O	sangue	 forma	uma	poça	negra	por	baixo
deles.	 A	 mamã	 foi	 atingida	 no	 cérebro	 por	 um	 tiro.	 Deve	 ter	 morrido
instantaneamente.	O	papá	está	claramente	morto,	mas	os	únicos	ferimentos	que
Jule	 consegue	 ver	 são	 nos	 seus	 braços.	 Deve	 ter	 sangrado	 até	 à	morte.	 Está
enroscado	à	volta	da	mamã,	como	se	só	tivesse	pensado	nela	nos	seus	últimos
momentos	de	vida.
Jule	 volta	 a	 correr	 para	 dentro	 de	 casa	 para	 telefonar	 à	 polícia.	 A	 linha
telefónica	está	cortada.
Regressa	ao	jardim,	a	querer	dizer	uma	oração,	a	pensar	em	dizer	adeus,	pelo
menos	–	mas	os	corpos	dos	seus	pais	desapareceram.	O	seu	assassino	levou-os.
Não	se	permite	chorar.	Fica	sentada	durante	o	resto	da	noite	naquele	círculo
de	luz	do	candeeiro,	a	deixar	empapar	a	camisa	de	noite	com	o	sangue	espesso.
Nas	 duas	 semanas	 seguinte,	 a	 Pequena	 Jule	 fica	 sozinha	 naquela	 casa
saqueada.	 Mantém-se	 forte.	 Cozinha	 para	 se	 alimentar	 e	 organiza	 os	 papéis
deixados,	 à	procura	de	pistas.	Enquanto	 lê	os	documentos,	vai	 encaixando	as
peças	de	vidas	de	heroísmo,	poder	e	identidades	secretas.
Uma	 tarde,	 está	 no	 sótão	 a	 ver	 fotografias	 antigas	 quando	 aparece	 nessa
divisão	uma	mulher	de	preto.
A	 mulher	 avança	 um	 passo,	 mas	 a	 Pequena	 Jule	 é	 rápida.	 Arremessa	 um
abre-cartas,	 com	 força	 e	 rápida,	mas	 a	mulher	 apanha-o	 na	mão	 esquerda.	A
Pequena	Jule	trepa	por	uma	pilha	de	caixotes,	agarra-se	a	uma	trave	do	teto	do
sótão	e	iça-se.	Corre	ao	longo	da	trave	e	enfia-se	por	um	postigo	no	telhado.	O
pânico	martela-lhe	o	peito.
A	mulher	corre	atrás	dela.	Jule	salta	do	telhado	para	os	ramos	de	uma	árvore
vizinha	 e	 quebra	 um	galho	 aguçado	 para	 usar	 como	 arma.	 Segura-o	 na	 boca
enquanto	 desce	 da	 árvore.	 Está	 a	 correr	 para	 o	 matagal	 quando	 a	 mulher	 a
atinge	com	um	tiro	no	tornozelo.
A	dor	é	 intensa.	A	Pequena	 Jule	 tem	a	certeza	de	que	a	assassina	dos	 seus
pais	voltou	para	acabar	com	ela	–	mas	a	mulher	de	preto	ajuda-a	a	levantar-se	e
ocupa-se	da	ferida.	Remove	a	bala	e	trata	a	ferida	com	um	antissético.
Enquanto	a	mulher	lhe	liga	o	tornozelo,	explica	que	é	uma	recrutadora.	Tem
estado	a	observar	 Jule	nas	duas	últimas	 semanas.	 Jule	não	 só	é	 filha	de	duas
pessoas	 excecionalmente	 capazes,	 mas	 também	 possui	 um	 intelecto	 notável
com	um	instinto	de	sobrevivência	feroz.	A	mulher	quer	treinar	Jule	e	ajudá-la	a
procurar	vingança.	Já	que	é	uma	espécie	de	tia	há	muito	julgada	perdida.	Está	a
par	dos	segredos	que	aqueles	pais	guardaram	da	sua	adorada	filha	única.
Ali	começa	uma	educação	muito	fora	do	comum.	Jule	vai	para	uma	academia
especializada,	instalada	numa	mansão	renovada	numa	rua	normal	da	cidade	de
Nova	Iorque.	Aprende	técnicas	de	vigilância	e	a	fazer	saltos	mortais	para	trás,	e
torna-se	mestre	na	remoção	de	algemas	e	coletes	de	forças.	Usa	calças	de	pele	e
enche	os	bolsos	com	engenhocas.	Há	aulas	de	 línguas	estrangeiras,	 costumes
sociais,	 literatura,	 artes	 marciais,	 uso	 de	 armas	 de	 fogo,	 disfarces,	 sotaques
variados,	métodos	de	falsificação	e	questões	específicas	da	lei.	Os	seus	estudos
levam	dez	anos.	Quando	acabam,	Jule	tornou-se	o	tipo	de	mulher	que	seria	um
grande	erro	subestimar.
Esta	era	a	história	da	origem	de	Jule	West	Williams.	Na	altura	em	que	estava
a	viver	no	Playa	Grande,	Jule	preferia-a	a	qualquer	outra	história	que	poderia
contar	sobre	si	mesma.
Donovan	parou	e	abriu	a	porta	do	lado	do	condutor.	A	luz	acendeu-se	dentro
do	carro.
–	Onde	estamos?	–	perguntou	Jule.	Estava	escuro	lá	fora.
–	Em	San	José	del	Cabo.
–	É	onde	vives?
–	Não	muito	perto.
Jule	sentiu-se	aliviada,	mas	parecia	muito	escuro	lá	fora.	Não	deveria	haver
candeeiros	 e	 lojas,	 iluminadas	 para	 os	 turistas?	 –	 Está	 alguém	 por	 perto?	 –
perguntou.
–	Estacionei	num	beco	para	que	não	fosse	vista	a	sair	do	meu	carro.
Jule	rastejou	para	fora	do	carro.	Sentia	os	músculos	rígidos	e	a	sensação	de
ter	uma	camada	de	gordura	no	rosto.	O	beco	estava	ladeado	por	contentores	do
lixo.	A	única	 luz	vinha	de	um	par	de	 janelas	num	segundo	andar.	–	Obrigada
pela	boleia.	Abres	a	mala	do	carro,	por	favor?
–	Disse	cem	dólares	americanos	quando	a	trouxesse	para	a	cidade.
–	É	claro.	–	Jule	tirou	a	carteira	do	bolso	de	trás	e	pagou.
–	Mas	agora	é	mais	–	acrescentou	Donovan.
–	O	quê?
–	Mais	trezentos.
–	Pensei	que	éramos	amigos.
Ele	 deu	 um	 passo	 na	 direção	 dela.	 –	 Preparo-lhe	 bebidas	 porque	 é	 o	meu
trabalho.	 Finjo	 que	 gosto	 de	 conversar	 consigo	 porque	 também	 faz	 parte	 do
meu	 trabalho.	Pensa	que	não	vejo	como	me	olha	de	alto?	O	segundo	melhor
Hulk.	 Que	 tipo	 de	 uísque	 escocês.	 Nós	 não	 somos	 amigos,	 Miss	 Williams.
Mente-me	metade	do	tempo	e	eu	minto-lhe	o	tempo	todo.	–	Jule	sentia	o	cheiro
a	álcool	derramado	na	camisa	de	Donovan.	O	seu	hálito	quente	no	rosto	dela.
Jule	 acreditara	 sinceramente	 que	 Donovan	 simpatizava	 com	 ela.	 Tinham
contado	piadas	um	ao	outro	e	ele	dava-lhe	batatas	fritas	de	graça.	–	Uau	–	disse
ela	baixinho.
–	Mais	trezentos	–	disse	ele.
Seria	 um	 pequeno	 patife	 a	 raptar	 uma	 rapariga	 que	 trazia	 na	 sua	 pessoa
muitos	 dólares	 americanos?	 Ou	 um	 ordinário	 que	 julgava	 que	 ela	 preferiria
esfregar-se	 nele	 do	 que	 dar-lhe	 os	 trezentos	 dólares	 extra?	 Noa	 tê-lo-ia
subornado?
Jule	voltou	a	meter	a	carteira	do	dinheiro	no	bolso.	Mudou	a	posição	da	alça
do	 seu	 saco	para	o	pôr	 a	 tiracolo.–	Donovan?	–	Deu	um	passo	 em	 frente,	 a
aproximar-se.	Fitou-o	com	os	olhos	muito	abertos.
E	 então	 ergueu	 o	 braço	 direito	 com	 força,	 atirou-lhe	 a	 cabeça	 para	 trás	 e
assentou-lhe	 um	 murro	 no	 baixo-ventre.	 Ele	 dobrou-se	 pela	 cintura.	 Jule
agarrou-o	 pelo	 cabelo	 liso	 e	 puxou-lhe	 a	 cabeça	 para	 trás.	 Fê-lo	 rodopiar,
forçando-o	a	desequilibrar-se.
Ele	acotovelou-a	no	peito.	Doeu-lhe,	mas	a	segunda	cotovelada	falhou,	com
ela	 a	 desviar-se,	 a	 agarrar	 o	 cotovelo	 de	 Donovan	 e	 a	 dobrá-lo	 por	 trás	 das
costas	dele.	O	seu	braço	era	mole,	repulsivo.	Segurou-o	com	força	e	com	a	mão
livre	arrancou	o	dinheiro	aos	seus	dedos	gananciosos.
Enfiou	o	dinheiro	no	bolso	das	 suas	 calças	 de	ganga	 e	 puxou	 com	 força	o
cotovelo	de	Donovan	enquanto	palpava	os	seus	bolsos	da	frente,	à	procura	do
telemóvel.
Não	o	encontrou.	No	bolso	de	trás,	então.
Encontrou-o	e	enfiou-o	no	seu	soutien,	à	falta	de	outro	lugar.	Agora,	ele	não
poderia	telefonar	a	Noa	a	indicar	a	localização	de	Jule,	mas	continuava	a	ter	as
chaves	do	carro	na	mão	esquerda.
Donovan	esperneou,	atingindo-a	na	canela.	Jule	deu-lhe	um	muro	no	lado	do
pescoço	e	ele	cambaleou	para	a	frente.	Um	empurrão	forte	e	tombou	por	terra.
Começou	a	tentar	levantar-se,	mas	Jule	pegou	numa	tampa	de	metal	de	um	dos
caixotes	do	lixo	ali	perto	e	bateu-lhe	na	cabeça	duas	vezes,	e	ele	desabou	sobre
um	monte	de	sacos	do	lixo,	a	sangrar	da	testa	e	de	um	olho.
Jule	 recuou	 até	 ficar	 fora	 do	 seu	 alcance.	 Ainda	 tinha	 a	 tampa	 na	mão.	 –
Larga	as	chaves	do	carro.
A	 gemer,	 Donovan	 estendeu	 a	 mão	 esquerda	 e	 atirou-as,	 de	 modo	 que
aterraram	a	uns	cinco	centímetros	do	seu	corpo.
Jule	pegou	nas	chaves	e	abriu	a	mala	do	carro.	A	seguir,	tirou	a	sua	mala	de
viagem	e	desatou	a	correr	pela	rua	abaixo	antes	de	Donovan	conseguir	pôr-se
de	pé.
Abrandou	 o	 passo	 mal	 chegou	 à	 rua	 principal	 em	 San	 José	 del	 Cabo	 e
verificou	o	estado	da	sua	camisa.	Parecia	razoavelmente	limpa.	Passou	a	mão
pelo	rosto	de	um	modo	lento	e	calmo,	para	o	caso	de	haver	alguma	coisa	nele	–
sujidade,	 saliva	 ou	 sangue.	 Tirou	 um	 espelhinho	 do	 saco	 e	 viu-se	 a	 ele
enquanto	continuava	a	andar,	usando	o	espelho	para	olhar	por	cima	do	ombro.
Não	havia	ninguém	por	trás	dela.
Aplicou	batom	mate,	fechou	o	espelhinho	e	abrandou	o	passo	ainda	mais.
Não	podia	dar	a	impressão	de	que	estava	a	fugir	de	alguma	coisa.
O	ar	 estava	quente	 e	 saía	música	dos	bares.	Os	 turistas	 andavam	por	 ali,	 a
passear	 em	 frente	 a	 muitos	 dos	 bares	 –	 brancos,	 negros	 e	 mexicanos,	 todos
bêbedos	 e	 ruidosos.	 Turistas	 de	 férias	 baratas.	 Jule	 atirou	 as	 chaves	 e	 o
telemóvel	de	Donovan	para	um	caixote	do	lixo.	Olhou	à	volta	à	procura	de	um
táxi	ou	de	um	autocarro	supercabos,	mas	não	viu	nem	um,	nem	outro.
OK,	então.
Precisava	de	se	esconder	e	mudar	de	roupa,	para	o	caso	de	Donovan	vir	atrás
dela.	Persegui-la-ia,	se	trabalhava	para	Noa.	Ou	se	queria	vingança.
Imagina-te	 agora,	 num	 filme.	 Passam	 sombras	 pela	 tua	 pele	 lisa	 enquanto
continuas	a	andar.	Começam	a	formar-se	equimoses	por	baixo	das	roupas,	mas
o	 teu	cabelo	está	com	um	aspeto	excelente.	Estás	armada	com	todo	o	 tipo	de
equipamento,	 placas	 finas	 de	metal	 que	 desempenham	 feitos	 assombrosos	 de
tecnologia	e	assalto.	Trazes	contigo	venenos	e	antídotos.
És	o	centro	da	história.	Tu	e	mais	ninguém.	Tens	aquela	interessante	história
da	 tua	 origem,	 aquela	 educação	 pouco	 comum.	 Agora	 és	 implacável,	 és
brilhante,	 és	 praticamente	 destemida.	Há	 um	número	 de	 corpos	 no	 teu	 rasto,
porque	 fazes	 o	 que	 for	 necessário	 para	 te	manteres	 viva	 –	mas	 são	 ossos	 do
ofício,	é	tudo.
Tens	um	aspeto	soberbo	à	 luz	das	montras	dos	bares	mexicanos.	Depois	de
uma	luta,	ficas	com	as	faces	coradas.	E,	oh,	as	 tuas	roupas	ficam-te	mesmo	a
matar.
Sim,	 é	 verdade	 que	 és	 criminosamente	 violenta.	 Brutal	 até.	 Mas	 é	 o	 teu
trabalho	e	tens	qualificações	únicas	para	ele,	portanto	isso	é	sexy.
Jule	 já	 tinha	visto	uma	carrada	de	 filmes.	Sabia	que	as	mulheres	 raramente
eram	o	centro	de	tais	histórias.	Eram	antes	um	prazer	para	os	olhos,	um	troféu	a
levar	 pelo	 braço,	 vítimas	 ou	 objetos	 de	 atração.	 Na	 maior	 parte	 dos	 casos,
existiam	 para	 ajudar	 o	 grande	 herói	 branco	 e	 heterossexual	 na	 porra	 da	 sua
viagem	 épica.	 Quando	 existia	 uma	 heroína,	 pesava	 muito	 pouco,	 usava
pouquíssima	roupa	e	tinha	arranjado	os	dentes.
Jule	sabia	que	não	se	parecia	com	essas	mulheres.	Nunca	se	pareceria	com
essas	mulheres.	Mas	era	tudo	o	que	aqueles	heróis	eram	e,	em	certos	aspetos,
ainda	mais.
Também	sabia	isso.
Chegou	 ao	 terceiro	 bar	 do	Cabo	 e	 entrou.	 Estava	mobilado	 com	mesas	 de
piquenique	e	decorado	com	peixes	empalhados	nas	paredes.	Os	clientes	eram
na	 sua	 maioria	 americanos,	 a	 embebedarem-se	 depois	 de	 um	 dia	 de	 pesca
desportiva.	 Jule	dirigiu-se	 rapidamente	para	as	 traseiras,	 lançou	um	olhar	por
cima	do	ombro	e	entrou	na	casa	de	banho	dos	homens.
Estava	 vazia.	 Enfiou-se	 num	 dos	 cubículos.	 Donovan	 nunca	 viria	 à	 sua
procura	aqui.
O	 assento	 da	 sanita	 estava	molhado	 e	 amarelo.	 Jule	 procurou	 na	mala	 até
encontrar	 uma	peruca	preta	 –	um	corte	 à	 pagem	com	 franja.	Pô-la,	 limpou	o
batom	dos	lábios,	aplicou	um	brilho	escuro	e	pó	de	arroz.	Abotoou	um	casaco
de	malha	de	algodão	preto	por	cima	da	sua	T-shirt	branca.
Entrou	um	tipo	e	usou	o	urinol.	Jule	manteve-se	imóvel,	contente	por	estar	de
calças	de	ganga	e	botas	pretas	pesadas.	Só	os	seus	pés	e	a	parte	inferior	da	sua
mala	seriam	visíveis	na	parte	de	baixo	da	abertura	do	cubículo.
Entrou	um	segundo	tipo,	que	se	meteu	no	cubículo	ao	lado	do	seu.	Jule	olhou
para	os	sapatos	dele.
Era	Donovan.
Aqueles	eram	os	Crocs	brancos	e	sujos	dele.	Aquelas	eram	as	suas	calças	do
Playa	Grande,	à	enfermeiro.	Jule	sentia	o	sangue	latejar-lhe	nos	ouvidos.
Pegou	silenciosamente	na	mala	e	segurou-a	para	que	ele	não	pudesse	vê-la.
Manteve-se	imóvel.
Donovan	puxou	o	autoclismo	e	Jule	ouviu-o	arrastar	os	pés	até	ao	lavatório.
Ele	abriu	a	torneira.
Entrou	outro	tipo.	–	Pode	emprestar-me	o	telemóvel?	–	perguntou	Donovan
em	inglês.	–	É	só	para	fazer	uma	chamada	rápida.
–	Alguém	lhe	deu	uma	coça,	meu?	–	O	outro	tipo	tinha	sotaque	americano,
da	Califórnia.	–	Está	com	um	ar	de	quem	passou	das	boas.
–	Estou	bem	–	disse	Donovan.	–	Só	preciso	de	um	telefone.
–	Não	tenho	chamadas	aqui,	só	mensagens	–	disse	o	tipo.	–	Tenho	de	voltar
para	junto	dos	meus	amigos.
–	Eu	não	vou	roubá-lo	–	disse	Donovan.	–	Só	preciso	de...
–	Eu	já	disse	que	não,	OK	?	Mas	tudo	de	bom,	pá.	–	O	outro	tipo	saiu	sem
usar	a	casa	de	banho.
Donovan	queria	um	telefone	porque	não	tinha	as	chaves	do	carro	e	precisava
de	uma	boleia?	Ou	porque	queria	telefonar	a	Noa?
Respirava	pesadamente,	como	se	estivesse	com	dores.	Não	voltou	a	abrir	a
torneira.
Por	fim,	saiu	da	casa	de	banho.
Jule	pousou	 a	mala	de	viagem.	Sacudiu	 as	mãos	para	 ativar	 a	 circulação	 e
estendeu	 os	 braços	 por	 trás	 das	 costas.	 Ainda	 no	 cubículo,	 contou	 o	 seu
dinheiro,	tanto	os	pesos	como	os	dólares.	Verificou	a	peruca	no	seu	espelhinho.
Quando	 teve	a	 certeza	de	que	Donovan	 tinha	partido,	 saiu	confiante	 e	 sem
alardes	 da	 casa	 de	 banho	 dos	 homens	 e	 dirigiu-se	 para	 a	 rua.	 Lá	 fora,	 abriu
caminho	por	entre	as	multidões	de	pessoas	a	divertir-se	até	uma	esquina	e	teve
sorte.	Apareceu	um	táxi.	Ela	apressou-se	a	entrar	e	mandou	seguir	para	o	Grand
Solmar,	o	resort	ao	lado	do	Playa	Grande.
No	 Grand	 Solmar,	 arranjou	 facilmente	 um	 segundo	 táxi.	 Pediu	 ao	 novo
motorista	que	a	levasse	a	uma	pensão	barata	e	de	proprietários	locais	na	cidade.
Ele	levou-a	à	Cabo	Inn.
Era	 uma	 espelunca.	 Paredes	 finas,	 tinta	 suja,	mobília	 de	 plástico,	 flores	 de
plástico	em	cima	do	balcão.	Jule	fez	o	check-in	sob	um	nome	falso	e	pagou	ao
rececionista	em	pesos.	Ele	não	lhe	pediu	um	documento	de	identificação.
No	quarto,	Jule	usou	a	pequena	máquina	do	café	para	fazer	uma	chávena	de
descafeinado.	Sentou-se	na	beira	da	cama.
Tinhade	fugir?
Não.
Sim.
Não.
Ninguém	sabia	onde	ela	estava.	Ninguém	à	face	da	Terra.	Esse	facto	deveria
fazê-la	feliz.	Quisera	desaparecer,	ao	fim	e	ao	cabo.
Mas	sentia	medo.
Queria	Paolo.	Queria	Imogen.
Queria	poder	anular	tudo	o	que	tinha	acontecido.
Se	ao	menos	pudesse	recuar	no	tempo,	sentiu	Jule,	seria	uma	pessoa	melhor.
Ou	uma	pessoa	diferente.	Seria	mais	ela	própria.	Ou	talvez	menos	ela	própria.
Não	sabia	qual	das	opções,	porque	já	não	sabia	em	que	estado	estava	o	seu	eu
ou	se	na	realidade	não	havia	nenhuma	Jule,	mas	apenas	uma	série	de	eus	que
apresentava	em	diferentes	contextos.
Seriam	todas	as	pessoas	assim,	sem	um	verdadeiro	eu?
Ou	seria	só	Jule?
Não	sabia	se	era	capaz	de	amar	o	seu	próprio	estranho	coração	estraçalhado.
Queria	que	outra	pessoa	o	fizesse	por	ela,	que	o	visse	bater	por	trás	das	costelas
e	dissesse:	Consigo	ver	o	teu	verdadeiro	eu.	Está	aí	e	é	raro	e	valioso.	Amo-te.
Que	sombrio	e	estúpido	era	 ser	estraçalhada	e	estranha,	não	 ter	uma	 forma
específica,	não	 ter	um	eu	quando	a	vida	 se	estendia	perante	ela.	 Jule	possuía
muitos	 talentos	 raros.	 Trabalhava	 no	 duro	 e	 realmente	 tinha	 muito	 para
oferecer,	com	um	raio.	Sabia	tudo	isso.
Então,	porque	se	sentia	ao	mesmo	tempo	sem	valor?
Queria	telefonar	a	Imogen.	Desejava	poder	ouvir	o	riso	baixo	de	Immie	e	as
suas	frases	sem	pausas	a	revelarem	segredos.	Desejava	poder	dizer	a	Imogen:
Estou	com	medo.	E	 Immie	diria:	Mas	 tu	 és	 corajosa,	 Jule.	És	a	pessoa	mais
corajosa	que	conheço.
Desejava	que	Paolo	viesse	e	pusesse	os	braços	à	sua	volta,	dizendo-lhe	como
dissera	uma	vez	que	ela	era	uma	pessoa	de	primeira,	excelente.
Desejava	 que	 houvesse	 alguém	 que	 a	 amasse	 incondicionalmente,	 alguém
que	 lhe	 perdoasse	 fosse	 o	 que	 fosse.	Ou	melhor	 ainda,	 alguém	que	 soubesse
tudo	e	a	amasse	por	isso.
Nem	Paolo	nem	Immie	seriam	capazes	de	tal.
Mesmo	assim,	Jule	recordava-se	da	sensação	dos	lábios	de	Paolo	nos	seus	e
do	cheiro	a	jasmim	do	perfume	de	Immie.
De	 peruca	 preta,	 Jule	 desceu	 ao	 escritório	 da	 pensão	 Cabo	 Inn.	 Tinha
delineado	a	sua	estratégia.	O	escritório	estava	fechado	a	esta	hora	da	noite,	mas
ela	 deu	 uma	 gorjeta	 ao	 rececionista	 da	 noite	 para	 que	 lho	 abrisse.	 No
computador,	 reservou	um	voo	de	San	José	del	Cabo	para	Los	Angeles	para	a
manhã	 do	 dia	 seguinte.	 Usou	 o	 seu	 próprio	 nome	 e	 o	 seu	 cartão	 de	 crédito
habitual,	o	mesmo	que	usara	no	La	Playa	Grande.
A	 seguir,	 perguntou	 ao	 rececionista	 onde	 poderia	 comprar	 um	 carro	 a
dinheiro.	Ele	disse	que	havia	um	sujeito	que	fazia	negócio	nas	traseiras	da	sua
casa	e	que	poderia	vender-lhe	qualquer	coisa	na	manhã	seguinte	com	dólares
americanos.	Escreveu	uma	morada,	na	Ortiz	junto	à	Ejido,	disse.
Noa	 andava	 a	 vigiar	 as	 transações	 com	 cartões	 de	 crédito.	 Devia	 andar	 a
fazê-lo,	ou	nunca	teria	encontrado	Jule.	Agora,	a	detetive	veria	a	nova	despesa
e	 iria	 para	Los	Angeles.	 Jule	 compraria	 um	 carro	 a	 dinheiro	 e	 conduziria	 na
direção	de	Cancùn.	De	Cancùn,	acabaria	por	ir	até	à	ilha	de	Culebra,	em	Porto
Rico,	onde	havia	carradas	de	americanos	que	nunca	mostravam	o	passaporte	a
ninguém.
Agradeceu	ao	rececionista	a	informação	sobre	o	vendedor	de	automóveis.	–
Não	 vai	 lembrar-se	 da	 nossa	 conversa,	 pois	 não?	 –	 disse,	 empurrando	 outra
nota	de	vinte	por	cima	do	balcão.
–	Sou	capaz	–	disse	ele.
–	Não,	não	vai.	–	Acrescentou	uma	nota	de	cinquenta.
–	Nunca	a	vi	–	disse	ele.
Dormiu	mal.	Ainda	pior	do	que	o	costume.	Sonhos	de	afogamento	em	águas
quentes	azuis-turquesa;	 sonhos	de	gatos	abandonados	a	andarem	em	cima	do
corpo	 dela	 enquanto	 dormia;	 sonhos	 de	 estrangulamento	 por	 serpente.	 Jule
acordou	a	gritar.
Bebeu	água.	Tomou	um	duche	frio.
Adormeceu	e	acordou	a	gritar	de	novo.
Às	cinco	da	manhã,	cambaleou	até	à	casa	de	banho,	lavou	o	rosto	e	pintou	os
olhos.	Porque	não?	Gostava	de	maquilhagem.	Tinha	tempo.	Aplicou	concealer
e	pó,	acrescentou	uma	sombra	esfumada,	depois	rímel	e	um	batom	quase	preto
com	um	brilho	por	cima.
Pôs	gel	no	cabelo	e	vestiu-se.	Calças	de	ganga	preta,	botas	mais	uma	vez	e
uma	 T-shirt	 escura.	 Uma	 indumentária	 demasiado	 quente	 para	 o	 calor
mexicano,	 mas	 prática.	 Fez	 a	 mala,	 bebeu	 uma	 garrafa	 de	 água	 e	 deu	 uns
passos	para	fora	do	quarto.
*
Noa	estava	sentada	no	corredor,	com	as	costas	contra	a	parede,	a	segurar	uma
chávena	de	café	fumegante	entre	as	mãos.
À	espera.
S
17
FINAIS	DE	ABRIL,	2017
LONDRES
ete	 semanas	 antes,	 no	 final	 de	 abril,	 Jule	 acordou	 num	 albergue	 da
juventude	nos	arredores	de	Londres.	Havia	oito	camas	de	beliche	em	cada
quarto:	 colchões	 finos,	 cobertos	 com	 os	 lençóis	 brancos	 da	 praxe.	 Em	 cima,
estavam	 pousados	 sacos-cama.	 Mochilas	 encostadas	 às	 paredes.	 Havia	 um
fedor	ténue	a	odor	corporal	e	patchuli.
Dormira	com	a	roupa	do	ginásio	vestida.	Levantou-se,	apertou	os	atacadores
dos	 ténis	 e	 foi	 correr	 treze	 quilómetros	 pelo	 subúrbio,	 passando	 por	 pubs	 e
talhos	 ainda	 fechados	 na	 primeira	 luz	 da	 manhã.	 Ao	 regressar,	 fez	 prancha,
alongamentos,	flexões	e	agachamentos	na	sala	de	estar	do	albergue.
Jule	 já	 estava	 no	 chuveiro	 antes	 de	 as	 suas	 colegas	 de	 quarto	 acordarem	 e
começou	 a	 usar	 a	 água	 quente.	A	 seguir,	 voltou	 a	 trepar	 para	 a	 sua	 cama	de
beliche	e	desembrulhou	uma	barra	proteica	de	chocolate.
O	dormitório	ainda	se	encontrava	às	escuras.	Jule	abriu	O	Amigo	Comum	e
pôs-se	 a	 ler	 à	 luz	 do	 telemóvel.	 Era	 um	 romance	 vitoriano	 grosso	 sobre	 um
órfão.	Tinha	sido	escrito	por	Charles	Dickens.	A	sua	amiga	Imogen	 tinha-lho
oferecido.
Imogen	 Sokoloff	 era	 a	melhor	 amiga	 que	 Jule	 alguma	 vez	 tivera.	Os	 seus
livros	favoritos	eram	sempre	sobre	órfãos.	A	própria	Immie	era	órfã,	nascida	no
Minnesota	de	uma	mãe	adolescente	que	morrera	quando	Immie	tinha	dois	anos.
Depois,	 foi	 adotada	 por	 um	 casal	 que	 vivia	 num	 luxuoso	 apartamento	 num
último	andar	no	Upper	East	Side	de	Nova	Iorque.
Patti	 e	 Gil	 Sokoloff	 andavam	 pelos	 trinta	 e	 muitos	 anos	 na	 altura.	 Não
podiam	 ter	 filhos,	 e	 o	 trabalho	 de	 Gil	 na	 área	 do	 Direito	 incluía	 há	 muito
tempo,	 em	 regime	 de	 voluntariado,	 a	 defesa	 de	 crianças	 no	 sistema	 de
acolhimento.	Ele	acreditava	na	adoção.	Portanto,	após	vários	anos	em	listas	de
espera	 por	 um	 bebé	 recém-nascido,	 os	 Sokoloff	 declararam-se	 dispostos	 a
aceitar	uma	criança	mais	velha.
Apaixonaram-se	 pelos	 braços	 gorduchos	 e	 o	 nariz	 cheio	 de	 sardas	 daquela
menina	de	dois	anos.	Acolheram-na,	deram-lhe	o	nome	Imogen	e	deixaram	o
seu	 antigo	 nome	 num	 armário	 de	 arquivo.	 Fotografavam-na	 e	 faziam-lhe
cócegas.	 Patti	 cozinhava-lhe	 macarrão	 com	 manteiga	 e	 queijo.	 Quando	 a
pequena	 Immie	 tinha	 cinco	 anos,	 os	 Sokoloff	 matricularam-na	 no	 Colégio
Greenbriar,	um	estabelecimento	de	ensino	particular	em	Manhattan.	Aí,	usava
um	uniforme	verde	e	branco	e	aprendeu	a	falar	francês.	Aos	fins	de	semana,	a
pequena	Immie	brincava	com	Legos,	fazia	bolachas	e	ia	ao	Museu	Americano
de	História	Natural,	onde	preferia	os	esqueletos	de	répteis.	Comemorava	todos
os	feriados	da	fé	judaica	e,	quando	cresceu,	teve	uma	cerimónia	não-ortodoxa
do	bat	mitzvah	nos	bosques	no	norte	do	estado	de	Nova	Iorque.
A	questão	do	bat	mitzvah	 foi	algo	complicada.	A	mãe	de	Patti	e	os	pais	de
Gil	 não	 consideravam	 Imogen	 judia,	 porque	 a	 sua	mãe	 biológica	 não	 o	 fora.
Todos	insistiam	num	processo	de	conversão	formal	que	adiaria	a	cerimónia	por
um	ano,	mas	 em	vez	disso	Patti	 abandonou	 a	 sinagoga	da	 família	 e	 aderiu	 a
uma	 comunidade	 secular	 judaica	 que	 realizava	 cerimónias	 num	 retiro	 na
montanha.
Foi	assim	que,	aos	treze	anos,	Imogen	Sokoloff	se	tornou	mais	consciente	do
seu	estatuto	de	órfã	do	que	alguma	vez	estivera	e	começou	a	ler	as	histórias	que
se	tornariam	a	pedra	basilar	da	sua	vida	interior.	Inicialmente,	voltou	aos	livros
sobre	 órfãos	 que	 tinha	 sido	 obrigada	 a	 ler	 na	 escola.	 Havia	 uma	 grande
quantidade	 desses.	 «Gostava	 das	 roupas	 e	 das	 sobremesas	 edas	 carruagens
puxadas	a	cavalos»	contou	Immie	a	Jule.
Em	 junho	 passado,	 as	 duas	 tinham	 estado	 a	 viver	 numa	 casa	 que	 Immie
arrendara	na	ilha	de	Martha’s	Vineyard.	Nesse	dia,	foram	de	carro	a	uma	quinta
onde	se	podia	colher	flores.
–	Gostava	da	Heidi	 e	Deus	 sabe	de	que	outras	 tretas	–	disse	 Immie	a	 Jule.
Estava	debruçada	sobre	um	arbusto	de	dálias	com	uma	tesoura	na	mão.	–	No
entanto,	 mais	 tarde,	 todos	 esses	 livros	 me	 davam	 vontade	 de	 vomitar.	 As
heroínas	 andavam	 sempre	 animadas	 como	 o	 caraças.	 Eram	 modelos	 de
feminilidade	abnegada.	Tipo,	«Estou	a	morrer	à	fome!	Aqui	tens,	come	o	único
pãozinho	 que	 me	 resta!»	 «Não	 consigo	 andar,	 estou	 paralisada,	 mas	 mesmo
assim	sou	capaz	ver	o	lado	bom	da	vida,	feliz	feliz!»	Aqueles	livros,	tipo,	Uma
Princesinha	 e	 Poliana,	 deixa	 que	 te	 diga,	 estão	 a	 vender-te	 uma	 data	 de
mentiras	horrendas.	Quando	me	apercebi	disso,	deixei	de	gostar	deles.
Tendo	 acabado	 de	 compor	 o	 seu	 ramo,	 Immie	 içou-se	 e	 empoleirou-se	 na
vedação	de	madeira.	Jule	ainda	continuava	a	colher	flores.
–	Na	secundária,	 li	Jane	Eyre,	A	Feira	das	Vaidades,	Grandes	Esperanças,
etc.	–	continuou	Immie.	–	São,	tipo,	os	órfãos	mais	arrojados.
–	Os	livros	que	me	deste	–	disse	Jule,	tomando	consciência	desse	facto.
–	 Sim.	Tipo,	 em	A	Feira	 das	Vaidades,	 a	Becky	Sharp	 é	 uma	máquina	 de
ambição.	Nada	a	faz	parar.	A	Jane	Eyre	faz	birras,	atira-se	para	o	chão.	O	Pip,
em	 Grandes	 Esperanças,	 está	 iludido	 e	 quer	 imenso	 ter	 dinheiro.	 Todos
desejam	 uma	 vida	 melhor	 e	 tentam	 consegui-la,	 e	 todos	 são	 moralmente
duvidosos.	Isso	torna-os	interessantes.
–	Já	gosto	deles	–	disse	Jule.
*
Imogen	tinha	entrado	para	a	universidade,	Vassar	College,	em	grande	medida
por	causa	do	ensaio	que	escrevera	sobre	essas	personagens.	Não	sentia	grande
predileção	pelos	estudos	para	além	disso,	admitia.	Não	gostava	que	as	pessoas
lhe	dissessem	o	que	 fazer.	Quando	os	professores	 a	mandaram	 ler	os	 autores
gregos	da	Antiguidade,	não	o	 fez.	Quando	a	 sua	amiga	Brooke	 lhe	disse	que
lesse	Suzanne	Collins,	também	não	o	fez.	E	quando	a	sua	mãe	lhe	disse	que	se
esforçasse	mais	nos	estudos,	Immie	desistiu	de	estudar.
É	 claro	 que	 a	 pressão	 não	 fora	 a	 única	 razão	 para	 Immie	 deixar	Vassar.	A
situação	 era	 desesperadamente	 complicada.	 Mas	 a	 natureza	 controladora	 de
Patti	Sokoloff	foi	decididamente	um	dos	fatores.
–	A	minha	mãe	acredita	no	sonho	americano	–	disse	Imogen.	–	E	quer	que	eu
também	 acredite	 nele.	 Os	 pais	 dela	 nasceram	 na	 Bielorrússia.	 Compraram	 o
pacote	 todo	 sem	 hesitações.	 Sabes,	 aquela	 ideia	 de	 que	 aqui	 nos	 US	 of	 A
qualquer	 pessoa	 pode	 chegar	 ao	 topo.	 Não	 importa	 de	 onde	 partes,	 um	 dia
podes	governar	o	país,	ficar	rico,	ter	uma	mansão.	Correto?
Esta	conversa	aconteceu	um	pouco	mais	tarde	durante	o	verão	em	Martha’s
Vineyard.	 Jule	 e	 Immie	 estavam	 em	Moshup	 Beach,	 na	 praia.	 Tinham	 uma
grande	manta	de	algodão	estendida	por	baixo	delas.
–	É	um	sonho	bonito	–	disse	Jule,	metendo	uma	batata	frita	na	boca.
–	A	família	do	meu	pai	também	foi	nele	–	prosseguiu	Imogen.	–	Os	avós	dele
vieram	da	Polónia	e	viviam	num	apartamento	modesto.	Depois,	o	pai	dele	saiu-
se	bem	na	vida	e	era	proprietário	de	uma	charcutaria.	Era	suposto	que	o	meu
pai	 subisse	 ainda	 mais	 na	 vida,	 fosse	 o	 primeiro	 na	 família	 a	 andar	 na
universidade,	 portanto	 foi	 exatamente	 o	 que	 ele	 fez.	 Tornou-se,	 tipo,	 um
advogado	 importante.	 Os	 pais	 dele	 ficaram	 muito	 orgulhosos.	 Parecia-lhes
simples:	 deixar	 o	 velho	 país	 para	 trás	 e	 reinventar	 a	 tua	 vida.	 E	 se	 tu	 não
conseguisses	concretizar	totalmente	o	sonho	americano,	os	teus	filhos	fá-lo-iam
por	ti.
Jule	 adorava	 ouvir	 Immie	 falar.	Nunca	 conhecera	 ninguém	 que	 falasse	 tão
livremente.	 Divagava	 bastante,	mas	 falava	 sempre	 com	 curiosidade	 e	 de	 um
modo	 refletido.	 Não	 parecia	 censurar-se	 ou	 ensaiar	 as	 suas	 frases.
Simplesmente	 falava,	 num	 fluxo	 que	 a	 fazia	 parecer	 alternadamente
questionadora	e	desesperada	por	ser	ouvida.
–	Terra	de	oportunidades	–	disse	Jule	agora,	só	para	ver	em	que	direção	iria
Immie.
–	 É	 no	 que	 eles	 acreditam,	 mas	 não	 penso	 que	 seja	 realmente	 verdade	 –
respondeu	Immie.	–	Tipo,	podes	concluir,	ao	fim	de	meia	hora	a	ver	as	notícias,
que	 há	 mais	 oportunidades	 para	 pessoas	 brancas.	 E	 para	 pessoas	 que	 falam
inglês.
–	E	para	pessoas	com	o	teu	tipo	de	pronúncia.
–	Da	Costa	Leste?	–	disse	Immie.	–	Sim,	suponho	que	sim.	E	para	pessoas
sem	 incapacidades.	 Oh,	 e	 para	 os	 homens.	 Homens,	 homens,	 homens!	 Os
homens	 continuam	 a	 comportar-se	 como	 se	 os	US	 of	 A	 fossem	 uma	 grande
pastelaria	e	os	bolos	todos	fossem	para	eles.	Não	achas?
–	Não	vou	deixar	que	fiquem	com	o	meu	bolo	–	disse	Jule.	–	A	porra	do	bolo
é	meu	e	vou	comê-lo.
–	Sim.	Defende	o	teu	bolo	–	disse	Immie.	–	E	arranja	bolo	de	chocolate	com
cobertura	 de	 chocolate	 e,	 tipo,	 cinco	 camadas.	Mas,	 para	mim,	 a	 questão	 é...
podes	 chamar-me	 estúpida,	 mas	 não	 quero	 bolo.	 Talvez	 nem	 sequer	 tenha
fome.	 Só	 estou	 a	 tentar	 ser.	 Existir	 e	 desfrutar	 do	 que	 está	mesmo	 à	minha
frente.	 Sei	 que	 é	 um	 luxo	 e	 que	 talvez	 seja	 uma	 parvalhona	 por	 me	 poder
sequer	dar	a	esse	luxo,	mas	também	penso	que	estou	a	tentar	apreciá-lo,	minha
gente!	Deixem-me	só	sentir-me	grata	por	me	encontrar	aqui	nesta	praia	e	não
sentir	que	devia	estar	a	esforçar-me	todo	o	tempo.
–	Penso	que	estás	enganada	quanto	ao	sonho	americano	–	disse	Jule.
–	Não,	não	estou.	Porquê?
–	O	sonho	americano	é	ser	um	herói	de	ação.
–	A	sério?
–	Os	americanos	gostam	de	 travar	guerras	–	disse	Jule.	–	Queremos	mudar
leis	ou	quebrá-las.	Gostamos	de	justiceiros.	Somos	loucos	por	eles,	correto?	Os
super-heróis	e	os	 filmes	da	série	Taken	 e	coisas	do	género.	Temos	 tudo	a	ver
com	a	corrida	ao	Oeste	para	nos	apoderarmos	de	terras	que	pertenciam	a	outro
povo.	 Chacinar	 os	 alegados	 mauzões	 e	 combater	 o	 sistema.	 Esse	 é	 que	 é	 o
sonho	americano.
–	Diz	isso	à	minha	mãe	–	disse	Immie.	–	Diz-lhe:	Olá!	Quando	for	grande,	a
Immie	quer	ser	uma	justiceira	em	vez	de	capitã	da	indústria.	A	ver	como	corre.
–	Eu	tenho	uma	conversa	com	ela.
–	Ótimo.	Isso	vai	resolver	tudo.	–	Immie	soltou	uma	risadinha	e	virou-se	na
manta	 da	 praia.	Tirou	os	 óculos	 de	 sol.	 –	Ela	 tem	 ideias	 sobre	mim	que	não
encaixam.	Tipo,	quando	eu	era	pequena,	teria	sido	muito	importante	para	mim
ter	um	par	de	amigos	que	também	tivessem	sido	adotados,	para	não	me	sentir
só	ou	diferente	ou	o	que	fosse,	mas	nessa	altura	ela	só	dizia:	A	Immie	está	bem,
não	precisa	 disso,	 nós	 somos	 tal	 e	 qual	 como	outras	 famílias!	 Depois,	 daí	 a
quinhentos	anos,	quando	eu	andava	no	décimo	ano,	leu	um	artigo	numa	revista
sobre	 crianças	 adotadas	 e	 decidiu	 que	 eu	 tinha	 de	 fazer	 amizade	 com	 uma
rapariga,	a	Jolie,	que	tinha	acabado	de	entrar	para	o	Greenbriar.
Jule	 lembrava-se.	A	 rapariga	 da	 festa	 de	 aniversário	 e	 do	American	Ballet
Theatre.
–	A	minha	mãe	 tinha	a	 fantasia	de	nós	 as	duas	criarmos	 laços,	 e	 eu	 tentei,
mas	aquela	rapariga	não	gostava	mesmo	nada	de	mim	–	prosseguiu	Immie.	–
Tinha	 cabelo	 azul.	 Tipo,	 «sou	 muito	 mais	 fixe	 do	 que	 tu».	 Gozava-me	 por
causa	daquela	minha	coisa	dos	gatos	vadios	e	por	ler	a	Heidi,	e	fazia	pouco	da
música	de	que	eu	gostava.	Mas	a	minha	mãe	andava	sempre	a	telefonar	à	mãe
dela	 e	a	mãe	dela	andava	sempre	a	 telefonar	à	minha,	a	 fazerem	planos	para
nós	 as	 duas.	 Imaginavam	 toda	 uma	 ligação	 de	 filhas	 adotivas	 entre	 nós	 que
nunca	existiu	 .	–	 Imogen	suspirou.	–	Era	simplesmente	 triste.	Mas	depois	ela
mudou-se	para	Chicago	e	a	minha	mãe	desistiu.
–	Agora	tens-me	a	mim	–	disse	Jule.
Immie	estendeu	o	braço	para	tocar	na	nuca	de	Jule.	–	Agora	tenho-te	a	ti,	o
que	me	torna	significativamente	menos	desequilibrada	mental.
–	Menos	desequilibrada	mental	é	bom.
Immie	abriu	a	mala	térmica	e	encontrou	duas	garrafas	de	chá	gelado	caseiro.
Metia	 sempre	 na	mala	 bebidaspara	 a	 praia.	 Jule	 não	 gostava	 das	 rodelas	 de
limão	que	flutuavam	no	chá,	mas	bebeu	um	pouco,	de	qualquer	maneira.
–	 Ficas	 bonita	 com	 o	 cabelo	 curto	 –	 disse	 Immie,	 tocando	 de	 novo	 no
pescoço	de	Jule.
*
Nas	férias	de	inverno	no	primeiro	ano	em	Vassar,	Imogen	tinha	vasculhado	o
armário	de	arquivo	de	Gil	Sokoloff	à	procura	dos	seus	papéis	de	adoção.	Não
foram	difíceis	de	encontrar.
–	Suponho	que	pensei	que	 ler	o	 registo	me	daria	alguma	revelação	sobre	a
minha	 identidade	 –	 disse.	 –	 Como	 se	 ficar	 a	 saber	 nomes	 pudesse	 explicar
porque	 me	 sentia	 tão	 infeliz	 na	 faculdade	 ou	 fazer-me	 sentir	 enraizada	 de
alguma	maneira	como	nunca	me	sentira.	Mas	não.
Nesse	dia,	Immie	e	Jule	tinham	ido	de	carro	a	Menemsha,	uma	vila	piscatória
não	muito	distante	da	casa	de	Immie	em	Vineyard.	Percorreram	um	molhe	de
pedra	que	avançava	pelo	mar	dentro.	Andavam	gaivotas	à	volta	lá	em	cima.	As
ondas	vinham	rebentar	aos	pés	delas.	 Immie	e	 Jule	eram	da	mesma	altura,	e,
sentadas	 nos	 rochedos,	 as	 suas	 pernas	 esticadas	 estavam	morenas,	 brilhantes
com	o	protetor	solar.
–	É,	foi	uma	perda	total	de	tempo	–	disse	Imogen.	–	Não	aparecia	o	nome	do
pai.
–	Que	nome	te	deram	à	nascença?
Immie	 corou	 e	 puxou	 o	 capuz	 a	 tapar	 o	 rosto	 por	 um	 momento.	 Tinha
covinhas	fundas	nas	 faces	e	dentes	muito	certos.	O	seu	cabelo	 louro	com	um
corte	à	rapazinho	deixava	ver	umas	orelhas	minúsculas,	numa	das	quais	tinha
três	piercings.	As	suas	sobrancelhas	estavam	depiladas	numa	linha	fina.
–	Não	quero	dizer	–	disse	a	Jule	por	trás	do	tecido.	–	Estou	a	esconder-me	no
meu	capuz	agora.
–	Vá	lá.	Tu	é	que	começaste	a	contar	a	história.
–	Não	te	podes	rir	se	eu	te	disser.	–	Immie	ergueu	o	capuz	e	olhou	para	Jule.
–	O	Forrest	riu-se	e	eu	fiquei	furiosa.	Não	lhe	perdoei	durante	dois	dias,	até	ele
me	trazer	chocolates	com	recheio	de	creme	de	limão.	–	Forrest	era	o	namorado
de	Immie.	Vivia	com	elas	na	casa	em	Martha’s	Vineyard.
–	O	Forrest	podia	aprender	a	ter	maneiras	–	disse	Jule.
–	 Não	 pensou.	 A	 gargalhada	 saiu-lhe	 sem	 querer.	 A	 seguir,	 ficou
superarrependido.	–	Immie	defendia	sempre	Forrest	depois	de	o	criticar.
–	Por	favor	diz-me	o	nome	que	te	deram	à	nascença	–	pediu	Jule.	–	Não	me
rio.
–	Prometes?
–	Prometo.
Immie	 segredou	 ao	 ouvido	 de	 Jule:	 –	Melody,	 e	 o	 apelido	Bacon.	Melody
Bacon.
–	Deram-te	um	segundo	nome	próprio?	–	perguntou	Jule.
–	Não.
Jule	não	se	riu,	nem	sequer	sorriu.	Pôs	os	braços	à	volta	do	corpo	de	Immie.
Olharam	para	o	mar.
–	Sentes-te	como	uma	Melody?
–	Não.	 –	 Immie	 estava	 pensativa.	 –	Mas	 também	não	me	 sinto	 como	uma
Imogen.
Olharam	para	um	par	de	gaivotas	que	tinha	acabado	de	aterrar	num	rochedo
perto	delas.
–	De	que	morreu	 a	 tua	mãe?	–	perguntou	 Jule	 por	 fim.	 –	Essa	 informação
constava	do	registo?
–	Adivinhei	o	quadro	geral	antes	de	ler,	mas	sim.	Morreu	de	uma	overdose	de
metanfetaminas.
Jule	 apreendeu	 aquela	 informação.	 Imaginou	 a	 sua	 amiga	 como	 bebé,	 de
fralda	molhada,	a	gatinhar	sobre	roupas	de	cama	sujas,	com	a	sua	mãe	deitada
por	baixo	delas,	drogada	e	negligente.	Ou	morta.
–	 Tenho	 duas	 marcas	 na	 parte	 de	 cima	 do	 braço	 direito	 –	 disse	 Immie.	 –
Tinha-as	quando	vim	viver	para	Nova	 Iorque.	Tanto	quanto	 sabia,	 sempre	 as
tinha	tido.	Nunca	me	ocorreu	perguntar,	mas	a	enfermeira	em	Vassar	disse-me
que	eram	queimaduras.	Tipo,	de	um	cigarro.
Jule	não	sabia	o	que	dizer.	Queria	resolver	as	coisas	à	bebé	Immie,	mas	Patti
e	Gil	Sokoloff	já	o	tinham	feito,	há	muito	tempo.
–	Os	meus	pais	também	já	morreram	–	disse	por	fim.	Era	a	primeira	vez	que
o	dizia	em	voz	alta,	embora	Immie	já	soubesse	que	ela	 tinha	sido	criada	pela
tia.
–	Foi	o	que	supus	–	disse	Immie.	–	Mas	também	supus	que	não	querias	falar
sobre	isso.
–	Não	quero	–	disse	 Jule.	–	Ainda	não,	de	qualquer	maneira.	–	 Inclinou-se
para	a	frente,	a	separar-se	de	Imogen.	–	Ainda	não	sei	que	história	contar	sobre
isso.	Não...	 –	Faltavam-lhe	 as	 palavras.	Não	 conseguia	 divagar	 como	 Immie,
analisar-se.	–	A	história	recusa-se	a	tomar	forma.
Era	verdade.	Nessa	 altura,	 Jule	 só	 começara	 ainda	 a	 construir	 a	história	da
sua	origem	em	que	mais	 tarde	se	apoiaria,	e	não	podia,	não	podia	dizer	mais
nada.
–	Tudo	bem	–	disse	Imogen.
Meteu	 a	mão	 na	mochila	 e	 tirou	 uma	 tablete	 grossa	 de	 chocolate	 de	 leite.
Desembrulhou-a	até	meio	e	quebrou	um	pedaço	para	Jule	e	um	pedaço	para	si
mesma.	Jule	recostou-se	contra	o	rochedo	e	deixou	o	chocolate	derreter	na	sua
boca	 e	 o	 sol	 aquecer-lhe	 o	 rosto.	 Immie	 enxotou	 as	 gaivotas	 pedinchonas,
ralhando-lhes.
Jule	sentia	que	conhecia	completamente	Imogen.	Tudo	estava	compreendido
entre	elas,	e	sempre	estaria.
Agora,	no	albergue	da	 juventude,	Jule	pousou	O	Amigo	Comum.	Havia	um
corpo	no	Tamisa,	perto	do	 início	da	história.	Não	 lhe	agradava	 ler	aquilo	–	a
descrição	de	um	corpo	morto	 saturado	de	 água.	Os	dias	de	 Jule	 eram	 longos
agora,	 desde	que	 fora	 divulgada	 a	 notícia	 de	que	 Imogen	Sokoloff	 se	matara
nesse	 mesmo	 rio,	 metendo	 pedras	 nos	 bolsos	 e	 saltando	 da	 ponte	 de
Westminster,	deixando	uma	mensagem	de	suicídio	na	sua	caixa	do	pão.
Jule	pensava	em	Immie	todos	os	dias.	A	todas	as	horas.	Recordava	a	maneira
como	 Immie	 tapava	 o	 rosto	 com	 as	mãos	 ou	 com	 o	 capuz	 quando	 se	 sentia
vulnerável.	O	som	agudo	da	sua	voz.	Imogen	rodava	os	anéis	nos	dedos.	Tinha
aquelas	duas	queimaduras	de	cigarro	na	parte	superior	do	braço	e	uma	cicatriz
numa	das	mãos,	de	um	tabuleiro	quente	de	brownies	de	queijo-creme.	Cortava
cebolas	depressa	e	com	força	com	uma	faca	pesada	e	demasiado	grande,	algo
que	aprendera	a	fazer	num	vídeo	de	culinária.	Cheirava	a	jasmim	e	por	vezes	a
café	 com	 leite	 e	 açúcar.	 Havia	 um	 spray	 com	 cheiro	 a	 limão	 que	 punha	 no
cabelo.
Imogen	 Sokoloff	 era	 o	 tipo	 de	 rapariga	 que	 os	 professores	 achavam	 que
nunca	 explorava	 o	 seu	 pleno	 potencial.	 O	 tipo	 de	 rapariga	 que	 desistia	 de
estudar	 e,	 no	 entanto,	 enchia	 os	 seus	 livros	 favoritos	 com	 Post-its.	 Immie
recusava-se	 a	visar	 a	grandeza	ou	 a	 esforçar-se	no	 sentido	de	 corresponder	 à
definição	 de	 sucesso	 de	 outras	 pessoas.	Debatia-se	 para	 se	 soltar	 de	 homens
que	 queriam	 dominá-la	 e	 de	mulheres	 que	 queriam	 a	 sua	 atenção	 exclusiva.
Recusava-se,	 uma	 e	 outra	 vez,	 a	 dar	 a	 sua	 devoção	 a	 uma	 única	 pessoa,
preferindo	 criar	 um	 lar	 para	 si	mesma,	 que	 definia	 segundo	 os	 seus	 próprios
termos	e	do	qual	era	senhora	e	dona.	Aceitara	o	dinheiro	dos	pais,	mas	não	o
controlo	da	sua	identidade	por	eles,	e	aproveitara	a	sua	sorte	para	se	reinventar,
para	encontrar	uma	maneira	diferente	de	viver.	Era	uma	espécie	particular	de
coragem,	 uma	 coragem	 que	 frequentemente	 era	 confundida	 com	 egoísmo	 ou
preguiça.	Era	o	tipo	de	rapariga	que,	poderia	pensar-se,	não	era	nada	mais	do
que	uma	loura	de	colégio	particular,	mas	seria	um	grande	engano	não	ir	mais
fundo	do	que	isso.
*
Hoje,	quando	o	albergue	de	juventude	acordou	e	os	hóspedes	começavam	a
cambalear	até	à	casa	de	banho,	Jule	saiu.	Passou	o	dia	como	era	frequente,	em
atividades	 de	 autoaperfeiçoamento.	 Percorreu	 as	 salas	 do	 Museu	 Britânico
durante	um	par	de	horas,	aprendendo	os	títulos	de	quadros	e	bebendo	uma	série
de	Coca-Colas	de	dieta	em	pequenas	garrafas.	Esteve	uma	hora	numa	livraria	e
decorou	um	mapa	do	México,	a	seguir	aprendeu	de	cor	um	capítulo	de	um	livro
chamado	Gestão	da	Riqueza:	Oito	Princípios	Básicos.
Queria	telefonar	a	Paolo,	mas	não	podia.
Não	atenderia	nenhum	telefonema	a	não	ser	aquele	de	que	estava	à	espera.
O	telemóvel	tocou	quando	Jule	estava	a	sair	do	metro	perto	do	albergue.	Era
Patti	Sokoloff.	Jule	viu	o	número	e	usou	a	sua	pronúncia	americana	genérica.
Patti	encontrava-se	em	Londres,	ficou	a	saber.
Jule	não	estava	à	espera	disso.
Jule	poderia	encontrar-se	com	ela	para	almoçar	no	restaurante	The	Ivy	no	dia
seguinte?
É	claro	que	sim.	Jule	disse	que	se	sentia	muito	surpreendida	com	o	contacto
de	 Patti.	 Tinham	 conversado	 uma	 série	 devezes	 logo	 a	 seguir	 à	 morte	 de
Immie,	quando	Jule	falara	com	agentes	da	polícia	e	enviara	vários	objetos	itens
do	apartamento	de	Immie	em	Londres	enquanto	Patti	cuidava	de	Gill	em	Nova
Iorque,	mas	 todas	aquelas	conversas	difíceis	 tinham	terminado	havia	algumas
semanas.
Normalmente,	Patti	tinha	uns	modos	despachados	e	tagarelas,	mas	hoje	soava
em	baixo	e	a	sua	voz	não	aparentava	a	animação	usual.	–	Tenho	de	te	informar
–	disse	–	que	perdi	o	Gil.
Aquilo	 foi	 um	 choque.	 Jule	 pensou	 no	 rosto	 inchado	 e	 macilento	 de	 Gil
Sokoloff	e	nos	cãezinhos	engraçados	que	ele	adorava.	Gostava	muito	dele.	Não
sabia	que	tinha	morrido.
Patti	explicou	que	Gil	morrera	duas	semanas	antes,	de	um	ataque	de	coração.
Todos	 aqueles	 anos	 de	 diálise,	 e	 fora	 o	 coração	 a	 matá-lo.	 Ou	 talvez,	 disse
Patti,	por	causa	do	suicídio	de	Immie,	não	quisera	continuar	a	viver.
Falaram	sobre	a	doença	de	Gil	por	mais	algum	tempo	e	sobre	como	ele	fora
uma	 pessoa	maravilhosa	 e	 sobre	 Immie.	 Patti	 disse	 que	 Jule	 tinha	 sido	 uma
grande	ajuda	a	 tratar	das	 coisas	 em	Londres	quando	os	Sokoloff	não	podiam
ausentar-se	de	Nova	Iorque.
–	Sei	que	parece	estranho	eu	estar	a	viajar	–	disse	Patti	–,	mas	depois	destes
anos	todos	a	olhar	pelo	Gil,	não	consigo	suportar	o	apartamento	sozinha.	Está
cheio	das	coisas	dele,	das	coisas	da	Immie.	Eu	ia...	–	Interrompeu-se,	e	quando
recomeçou	 a	 falar	 foi	 num	 tom	 de	 voz	 com	 uma	 animação	 forçada.	 –	 Seja
como	for,	a	minha	amiga	Rebecca	vive	em	Hampshire	e	ofereceu-me	a	casinha
para	 os	 convidados	 que	 tem	 na	 propriedade	 para	 eu	 descansar	 e	 recuperar.
Disse-me	que	tinha	de	vir.	Alguns	amigos	são	mesmo	assim.	Já	não	falava	com
a	 Rebecca	 há	 séculos,	 mas,	 mal	 me	 telefonou,	 depois	 de	 ouvir	 a	 notícia	 da
Immie	e	do	Gil,	 retomámos	a	amizade	 imediatamente.	Nada	de	conversas	de
circunstância.	Só	 franqueza	e	 sinceridade.	Andámos	 juntas	no	Greenbriar.	As
amigas	 dos	 tempos	 da	 escola	 têm	 recordações,	 histórias	 partilhadas	 que	 as
ligam,	 penso.	 Olha	 para	 ti	 e	 a	 Immie.	 Retomaram	 tão	 maravilhosamente	 a
vossa	amizade	depois	de	estarem	longe	uma	da	outra.
–	Lamento	muito,	muito	sobre	o	Gil	–	disse	Jule.	Estava	a	ser	completamente
sincera.
–	Ele	 já	 estava	doente	 há	uma	 eternidade.	Tantos	 comprimidos.	 –	Patti	 fez
uma	pausa	e	quando	voltou	a	falar	soava	sufocada.	–	Penso	que,	depois	do	que
aconteceu	 à	 Immie,	 já	 não	 lhe	 restavam	 forças	 no	 corpo	 para	 lutar.	 Ele	 e	 a
Immie	 eram	as	minhas	batatinhas	doces.	 –	A	 seguir,	 forçou	de	novo	 a	 voz	 a
assumir	uma	vivacidade	despachada.	–	Ora	bem,	voltando	à	 razão	para	 te	 ter
telefonado.	Vens	almoçar	comigo,	certo?
–	Já	disse	que	ia.	Claro.
–	No	The	Ivy,	amanhã,	à	uma	hora.	Quero	agradecer-te	por	tudo	o	que	fizeste
por	mim,	e	pelo	Gil,	depois	de	a	Immie	morrer.	E	até	tenho	uma	surpresa	para
ti	–	disse	Patti.	–	Algo	que	talvez	possa	até	animar-nos	às	duas.	Portanto,	não
chegues	tarde.
Depois	de	a	conversa	terminar,	Jule	manteve	o	telemóvel	encostado	ao	peito
durante	algum	tempo.
O	restaurante	The	Ivy	ocupava	na	perfeição	o	seu	canto	estreito	de	Londres.
Parecia	feito	à	medida	para	o	terreno	em	que	se	encontrava	implantado.	Dentro,
as	paredes	estavam	forradas	com	retratos	e	vitrais.	Cheirava	a	dinheiro:	borrego
assado	e	flores	de	estufa.	Jule	trazia	um	vestido	justo	e	sabrinas.	Acrescentara
batom	vermelho	à	sua	maquilhagem	de	jovem	universitária.
Foi	dar	com	Patti	à	sua	espera	a	uma	mesa,	a	beber	água	por	um	copo	para	o
vinho.	Na	última	vez	que	Jule	a	vira,	onze	meses	antes,	a	mãe	de	 Immie	era
uma	senhora	cheia	de	brilho.	Era	dermatologista,	andava	pelos	cinquenta	e	tal	e
era	magra,	embora	tivesse	uma	barriguinha.	A	sua	pele	na	altura	aparentava	um
brilho	 húmido	 rosado	 e	 usava	 o	 cabelo	 comprido,	 pintado	 de	 um	 castanho-
escuro	e	penteado	em	caracóis	soltos.	Agora,	 tinha	as	 raízes	brancas	e	estava
cortado	à	pagem.	Vestia,	à	moda	das	senhoras	do	Upper	East	Side,	calças	pretas
justas	 e	um	casaco	de	malha	de	 caxemira	 comprido	–	mas,	 em	vez	de	 saltos
altos,	trazia	um	par	de	ténis	de	um	azul	vivo.	Jule	quase	não	a	reconheceu.	Patti
levantou-se	e	sorriu	quando	viu	Jule	atravessar	a	sala.
–	Estou	com	um	aspeto	diferente,	eu	sei.
–	Não,	não	está	–	mentiu	Jule.	Beijou	Patti	na	face.
–	 Já	 não	 consigo	 fazer	 aquilo	 tudo	 –	 disse	 Patti.	 –	Aquele	 tempo	 todo	 em
frente	ao	espelho	de	manhã,	os	sapatos	desconfortáveis.	Maquilhar-me.
Jule	sentou-se.
–	Costumava	maquilhar-me	para	o	Gil	–	prosseguiu	Patti.	–	E	para	a	Immie,
quando	ela	era	pequena.	Ela	dizia-me:	«Mamã,	faz	caracóis!	Vai	pôr	brilhos	na
cara!»	Agora	não	há	razão	para	isso.	Deixei	de	trabalhar	por	uns	tempos.	Um
dia,	 pensei:	Não	 tenho	 de	 me	 incomodar	 com	 isso	 tudo.	 Saí	 porta	 fora	 sem
fazer	nada	e	 foi	um	tal	alívio,	nem	consigo	explicar.	Mas	sei	que	perturba	as
pessoas.	Os	meus	amigos	preocupam-se.	Mas	eu	penso...	eh...	Perdi	a	Imogen.
Perdi	o	Gil.	Esta	sou	eu	agora.
Jule	estava	ansiosa	por	dizer	a	coisa	certa,	mas	não	sabia	se	o	requerido	era
compreensão	ou	distração.	–	Li	um	livro	sobre	isso	na	faculdade	–	disse.
–	Sobre	o	quê?
–	A	apresentação	do	eu	na	vida	do	dia	a	dia.	Um	tal	Goffman	teve	a	ideia	de
que,	em	situações	diferentes,	a	pessoa	tem	um	desempenho	diferente	do	seu	eu.
A	nossa	personalidade	não	é	estática.	É	uma	adaptação.
–	Parei	de	desempenhar	o	meu	eu,	queres	dizer?
–	Ou	está	a	fazer	isso	de	outra	maneira	agora.	Há	diferentes	versões	do	eu.
Patti	pegou	na	ementa	e	depois	estendeu	o	braço	e	tocou	na	mão	de	Jule.	–
Tens	de	voltar	para	a	faculdade,	batatinha	doce.	És	tão	esperta.
–	Obrigada.
Patti	 olhou	 Jule	 nos	 olhos.	 –	 Sou	 muito	 intuitiva	 em	 relação	 às	 pessoas,
sabes?	–	disse.	–	E	tu	tens	tanto	potencial.	És	ambiciosa	e	aventureira.	Espero
que	saibas	que	podes	ser	o	que	quiseres	no	mundo.
O	empregado	aproximou-se	da	mesa	e	 tomou	nota	dos	pedidos	de	bebidas.
Outra	pessoa	pousou	um	cesto	com	pão.
–	 Trouxe-lhe	 os	 anéis	 da	 Imogen	 –	 disse	 Jule	 quando	 a	 azáfama	 parou.	 –
Devia	ter-lhos	enviado	pelo	correio,	mas...
–	Eu	compreendo	–	disse	Patti.	–	Foi	difícil	largá-los.
Jule	 assentiu	 com	 a	 cabeça.	Entregou-lhe	 uma	 embrulho	 de	 papel	 de	 seda.
Patti	descolou	a	fita-cola.	Dentro	encontravam-se	oito	anéis	antigos,	todos	com
entalhes	 ou	 em	 forma	 de	 animais.	 Immie	 colecionara-os.	 Eram	 divertidos	 e
pouco	 comuns,	 cuidadosamente	 produzidos,	 todos	 em	 estilos	 diferentes.	 Jule
ainda	usava	o	nono	anel.	Immie	oferecera-lho.	Era	uma	serpente	de	jade,	que
usava	no	anelar	da	mão	direita.
Patti	 começou	 a	 chorar	 silenciosamente,	 com	 o	 guardanapo	 encostado	 ao
rosto.
Jule	 olhou	 para	 a	 coleção.	 Cada	 um	 daqueles	 círculos	 estivera	 nos	 dedos
frágeis	 de	 Immie	 a	 dada	 altura.	 Immie	 estivera,	 bronzeada,	 naquela	 joalharia
em	Vineyard.	«Quero	ver	o	anel	mais	fora	do	comum	que	tem	à	venda»	dissera
ao	lojista.	E	mais	tarde:	«Este	é	para	ti.»	Dera	a	Jule	o	anel	da	serpente,	e	Jule
usava-o	 sempre	 agora,	 embora	 já	 não	 o	 merecesse	 e	 talvez	 nunca	 o	 tivesse
merecido.
Jule	engasgou-se,	uma	sensação	que	estava	a	vir-lhe	do	fundo	do	estômago	e
subiu	em	ondas	pela	sua	garganta.	–	Com	licença.	–	Levantou-se	e	cambaleou
na	direção	da	casa	de	banho	das	senhoras.	O	restaurante	estava	a	andar	à	roda.
Avolumou-se	um	negrume	dos	 lados	dos	 seus	olhos.	Agarrou-se	às	costas	de
uma	cadeira	vazia	para	se	segurar.
Ia	vomitar.	Ou	desmaiar.	Ou	ambas	as	coisas.	Aqui	no	restaurante	The	Ivy,
rodeada	por	estas	pessoas	imaculadas,	onde	não	merecia	estar,	embaraçando	a
pobre,	pobre	mãe	de	uma	amiga	de	quem	não	gostara	o	suficiente	ou	de	quem
gostara	demasiado.
Jule	chegou	à	casa	de	banho	e	debruçou-se	sobre	o	lavatório.
A	 sensação	 de	 engasgamento	 não	 parava.	 A	 sua	 garganta	 contraía-se
repetidamente.
Fechou-se	num	cubículo,	apoiando-se	à	parede.	Os	seus	ombros	sacudiam-se.
Tinha	arrancos	de	vómito,	mas	não	saía	nada.
Deixou-se	 ficar	 ali	 dentro	 até	 a	 sensação	 de	 engasgamento	 se	 atenuar,	 a
tremer	e	a	tentarrecuperar	o	fôlego.
De	 novo	 no	 lavatório,	 limpou	 o	 rosto	 húmido	 com	 uma	 toalha	 de	 papel.
Pressionou	os	olhos	inchados	com	as	pontas	dos	dedos	molhadas	em	água	fria.
Trazia	o	batom	vermelho	no	bolso	do	vestido.	Aplicou-o	de	novo	como	uma
armadura	e	voltou	para	junto	de	Patti.
*
Quando	Jule	regressou	à	mesa,	Patti	 já	se	tinha	recomposto	e	estava	a	falar
com	o	empregado.	–	Vou	querer	a	entrada	de	beterraba	–	disse	ao	empregado
quando	Jule	se	sentou.	–	E	depois	o	espadarte,	penso.	O	espadarte	é	bom?	Sim,
OK.
Jule	mandou	vir	um	hambúrguer	e	uma	salada	verde.
Quando	o	empregado	de	mesa	se	afastou,	Patti	pediu	desculpa.	–	Lamento.
Lamento	muito.	Estás	bem?
–	Claro	que	sim.
–	 Aviso-te,	 sou	 capaz	 de	 voltar	 a	 chorar.	 Possivelmente	 na	 rua!	 Nunca	 se
sabe,	 nos	 dias	 que	 correm.	 Sou	 capaz	 de	 começar	 a	 soluçar	 a	 qualquer
momento.	–	Os	anéis	e	o	papel	de	embrulho	já	não	estavam	em	cima	da	mesa.
–	Ouve,	Jule	–	disse	Patti.	–	Disseste-me	uma	vez	que	os	teus	pais	te	falharam.
Lembras-te?
Jule	não	se	lembrava.	Nunca	pensava	nos	pais,	a	não	ser	através	da	lente	da
origem	digna	de	um	herói	que	criara	para	si	mesma.	Nunca,	jamais	pensava	na
sua	tia.
Agora,	a	história	da	sua	origem	veio-lhe	à	mente.	Os	seus	pais	no	jardim	da
frente	de	uma	casinha	bonita	ao	fundo	de	uma	rua	sem	saída	naquela	minúscula
cidade	do	Alabama.	Estavam	deitados	de	rosto	para	baixo	em	poças	de	sangue
negro	que	 se	 infiltrava	na	 relva,	 iluminados	por	um	só	candeeiro.	A	 sua	mãe
alvejada	com	um	tiro	no	cérebro.	O	seu	pai	a	sangrar	até	à	morte	de	buracos	de
balas	nos	braços.
Achava	 aquela	 história	 reconfortante.	 Era	 linda.	 Os	 pais	 tinham	 sido
corajosos.	 Ao	 crescer,	 a	menina	 viria	 a	 tornar-se	 uma	 pessoa	 com	 estudos	 e
extremamente	poderosa.
Contudo,	 sabia	 que	 não	 era	 uma	 história	 para	 partilhar	 com	Patti.	 Em	 vez
disso,	perguntou	num	tom	ameno:	–	Eu	disse	isso?
–	 Sim,	 e	 quando	 o	 disseste	 pensei	 que	 talvez	 eu	 própria	 também	 tivesse
falhado	à	Imogen.	Eu	e	o	Gil	quase	nunca	falávamos	sobre	o	facto	de	ela	 ter
sido	 adotada	 em	 pequena.	 Nem	 em	 frente	 a	 ela	 nem	 em	 privado.	 Eu	 queria
pensar	na	Immie	como	a	minha	bebé,	sabes?	Não	de	mais	ninguém,	mas	minha
e	do	Gil.	E	era	difícil	falar	do	assunto,	porque	a	mãe	biológica	dela	tornou-se
toxicodependente	e	não	havia	outros	parentes	dispostos	a	ficarem	com	a	bebé.
Disse	a	mim	mesma	que	estava	a	protegê-la	de	sofrimento.	Não	fazia	ideia	de
como	estava	a	falhar-lhe	redondamente	até	ela...	–	Patti	parou	de	falar.
–	A	Imogen	adorava-a	–	disse	Jule.
–	Estava	desesperada	em	relação	a	alguma	coisa.	E	não	veio	ter	comigo.
–	Também	não	veio	ter	comigo.
–	 Devia	 tê-la	 criado	 de	 modo	 a	 que	 conseguisse	 abrir-se	 com	 as	 pessoas,
pedir	auxílio	se	estivesse	com	problemas.
–	 A	 Immie	 contava-me	 tudo	 –	 disse	 Jule.	 –	 Os	 seus	 segredos,	 as	 suas
inseguranças,	como	queria	viver	a	sua	vida.	Disse-me	o	nome	que	lhe	deram	à
nascença.	Usávamos	 a	 roupa	 uma	 da	 outra	 e	 líamos	 os	 livros	 uma	 da	 outra.
Sinceramente,	eu	era	muito	íntima	da	Immie	quando	ela	morreu,	e	penso	que
ela	tinha	uma	sorte	louca	por	a	ter	a	si,	Patti.
Os	 olhos	 de	 Patti	 encheram-se	 de	 lágrimas	 e	 ela	 tocou	 na	mão	 de	 Jule.	 –
Também	 tinha	 sorte	 por	 te	 ter	 a	 ti.	 Pensei-o	 quando	 começou	 a	 conviver
contigo	 no	 décimo	 ano	 em	 Greenbriar.	 Sei	 que	 te	 adorava	 mais	 do	 que	 a
qualquer	outra	pessoa	na	sua	vida,	Jule,	porque...	Bem.	Era	por	isto	que	queria
encontrar-me	contigo.	O	advogado	da	nossa	 família	disse-me	que	a	 Immie	 te
deixou	o	seu	dinheiro.
Jule	sentiu-se	estonteada.	Pousou	o	garfo.
O	dinheiro	de	Immie.	Milhões.
Era	segurança	e	poder.	Era	bilhetes	de	avião	e	chaves	de	carros,	mas,	mais
importante	 ainda,	 era	 dinheiro	 para	 propinas,	 comida	 na	 despensa,	 seguro	 de
saúde.	 Significava	 que	 ninguém	poderia	 dizer-lhe	 que	 não.	Ninguém	poderia
nunca	mais	detê-la	e	ninguém	poderia	magoá-la.	Jule	não	necessitaria	da	ajuda
de	ninguém,	nunca	mais.
–	Não	compreendo	as	questões	de	finanças	–	prosseguiu	Patti.	–	Devia,	sei
que	sim.	Mas	confiava	no	Gil	e	sentia-me	aliviada	por	ele	se	ocupar	disso	tudo.
Aborrece-me	de	morte.	Mas	a	Immie	compreendia	esses	assuntos,	e	deixou	um
testamento.	 Enviou-o	 ao	 advogado	 antes	 de	 morrer.	 Passou	 a	 ter	 muito
dinheiro,	do	pai	e	de	mim,	depois	de	fazer	dezoito	anos.	O	dinheiro	esteve	num
fundo	até	essa	altura,	e,	depois	de	ela	fazer	anos,	o	Gil	tratou	da	papelada	para
o	passar	para	o	nome	dela.
–	Ela	recebeu	o	dinheiro	quando	ainda	andava	na	secundária?
–	No	mês	de	maio,	antes	de	começar	a	faculdade.	Talvez	tenha	sido	um	erro.
De	qualquer	maneira,	está	feito	–	prosseguiu	Patti.	–	Ela	era	boa	em	questões
de	finanças.	Vivia	dos	juros	e	nunca	tocou	no	capital	a	não	ser	para	comprar	o
apartamento	 em	 Londres.	 Era	 por	 isso	 que	 não	 tinha	 de	 trabalhar.	 E	 no
testamento	 deixou-te	 tudo.	 Fez	 pequenos	 donativos	 à	 National	 Kidney
Foundation,	 por	 causa	 da	 doença	 dos	 rins	 do	 Gil,	 e	 à	 North	 Shore	 Animal
League,	 mas	 fez	 um	 testamento	 e	 deixou-te	 a	 ti	 o	 grosso	 do	 seu	 dinheiro.
Enviou	 um	 e-mail	 ao	 advogado	 em	 que	 dizia	 especificamente	 que	 queria
ajudar-te	a	voltar	a	estudar.
Jule	ficou	comovida.	Não	fazia	sentido,	mas	ficou.
Patti	sorriu.	–	Deixou	este	mundo	mandando-te	de	volta	aos	estudos.	É	o	lado
positivo	que	estou	a	tentar	ver.
–	Quando	é	que	ela	redigiu	o	testamento?
–	 Alguns	 meses	 antes	 de	 morrer.	 Fê-lo	 reconhecer	 num	 notário	 em	 São
Francisco.	Só	falta	assinar	algumas	coisas.	–	Patti	empurrou	um	envelope	sobre
a	mesa.	–	Transferem	o	dinheiro	diretamente	para	a	tua	conta	e	em	setembro	já
serás	aluna	do	segundo	ano	em	Stanford.
*
Quando	o	dinheiro	chegou	ao	 seu	banco,	 Jule	 levantou-o	 todo	e	abriu	uma
nova	conta	num	outro	banco.	Aderiu	a	vários	outros	cartões	de	crédito	e	deu
instruções	 para	 que	 as	 suas	 contas	 fossem	 pagas	 automaticamente	 todos	 os
meses.
Depois	 foi	 às	 compras.	 Comprou	 pestanas	 postiças,	 base	 de	maquilhagem,
lápis	 para	 os	 olhos,	 blush,	 pó	 de	 arroz,	 pincéis,	 três	 batons	 diferentes,	 duas
sombras	para	os	olhos	e	uma	caixa	de	maquilhagem	pequena,	mas	cara.	Uma
peruca	ruiva,	um	vestido	preto	e	um	par	de	sapatos	de	saltos	altos.	Teria	sido
agradável	comprar	mais,	mas	necessitava	de	viajar	com	pouca	bagagem.
Usou	o	seu	computador	para	comprar	um	bilhete	de	avião	para	Los	Angeles,
reservou	um	quarto	num	hotel	nessa	cidade	e	pesquisou	stands	de	automóveis
usados	 na	 zona	 de	 Las	 Vegas.	 De	 Londres	 para	 Los	 Angeles,	 depois	 de
autocarro	 de	 Los	 Angeles	 para	 Las	 Vegas.	 De	 Las	 Vegas	 de	 carro	 até	 ao
México.	Esse	era	o	plano.
Jule	passou	em	revista	os	documentos	no	seu	portátil.	Assegurou-se	de	que
sabia	de	cor	todos	os	números	bancários	e	números	de	atendimento	ao	cliente,
todas	 as	 palavras-passe,	 todos	 os	 números	 dos	 cartões	 de	 crédito	 e	 códigos.
Memorizou	 o	 número	 do	 passaporte	 e	 o	 da	 carta	 de	 condução.	Depois,	 uma
noite,	atirou	o	portátil	e	o	seu	telemóvel	ao	Tamisa.
*
De	regresso	ao	albergue	da	juventude,	escreveu	uma	carta	de	agradecimento
sincero	 a	 Patti	 Sokoloff	 num	 papel	 antiquado	 de	 correio	 aéreo	 e	 enviou-a.
Esvaziou	o	armário	e	fez	a	mala.	Os	seus	documentos	de	identificação	e	outra
papelada	 estavam	 devidamente	 organizados.	 Assegurou-se	 de	 que	 transferia
todas	 as	 suas	 loções	 e	 produtos	 para	 o	 cabelo	 para	 frascos	 de	 tamanho	 de
viagem	em	sacos	de	plástico	com	fecho	hermético.
Jule	 nunca	 estivera	 em	 Las	 Vegas.	Mudou	 de	 roupa	 na	 casa	 de	 banho	 da
estação	 de	 autocarros.	 Na	 zona	 dos	 lavatórios,	 encontrava-se	 uma	 mulher
branca	 dos	 seus	 cinquenta	 e	 tal	 anos	 com	 um	 trólei	 das	 compras.	 Estava
sentada	 na	 bancada,	 a	 comer	 um	 sanduíche	 embrulhada	 em	 papel	 branco
lustroso.	Usava	umas	leggings	pretas	sujas	e	tinha	coxas	finas.	Tufara	o	cabelo,
que	era	grisalho	e	 louro.	E	estava	todo	cheio	de	riças	e	sujo.	Os	seus	sapatos
encontravam-se	no	chão–	uns	sapatos	de	 tacão	alto	e	muito	 fino,	de	plástico
cor-de-rosa	 claro.	 Os	 seus	 pés	 nus,	 com	 pensos	 rápidos	 nos	 calcanhares,
balouçavam	no	ar.
Jule	 entrou	 no	 cubículo	maior	 e	 remexeu	 na	 sua	mala.	 Pôs	 as	 argolas	 nas
orelhas	 pela	 primeira	 vez	 em	 quase	 um	 ano.	 Enfiou-se	 no	 vestido	 que	 tinha
comprado	–	curto	e	preto,	combinado	com	uns	sapatos	de	cunha	em	pele.	Tirou
da	mala	a	peruca	ruiva.	Tinha	um	brilho	pouco	natural,	mas	a	cor	ficava	bem
com	as	suas	sardas.	Jule	pegou	no	estojo	de	maquilhagem,	fechou	o	saco	e	foi
até	ao	lavatório.
A	mulher	que	estava	sentada	em	cima	da	bancada	não	comentou	a	mudança
de	cor	de	cabelo.	Amassou	o	papel	do	sanduíche	e	acendeu	um	cigarro.
O	 jeito	para	se	maquilhar	de	Jule	vinha-lhe	de	ver	 tutoriais	na	 Internet.	Na
maior	parte	do	ano	passado	usara	aquilo	em	que	pensava	como	maquilhagem
de	 jovem	 universitária:	 pele	 natural,	 blush,	 brilho	 nos	 lábios,	 rímel.	 Agora,
tirou	do	 estojo	umas	pestanas	postiças,	 uma	 sombra	verde	para	os	olhos,	 um
eyeliner	 preto,	 pincéis	 para	 contornar	o	 rosto,	 um	 lápis	 para	 as	 sobrancelhas,
batom	cor-de-rosa	coral.
Não	era	realmente	necessário.	Não	necessitava	dos	cosméticos,	do	vestido	ou
dos	 sapatos.	 Provavelmente,	 a	 peruca	 seria	 suficiente.	 De	 qualquer	 modo,	 a
transformação	era	uma	boa	prática	–	era	assim	que	a	encarava.	E	agradava-lhe
tornar-se	outra	pessoa.
A	mulher	falou	quando	Jule	estava	a	acabar	de	maquilhar	os	olhos.	–	És	uma
rapariga	da	vida?
Jule	respondeu,	só	por	piada,	com	uma	pronúncia	escocesa.	–	Não.
–	Quero	dizer,	andas	a	vender	o	corpo?
–	Não.
–	Não	te	vendas.	É	tão	triste,	vocês	raparigas.
–	Não	me	vendo.
–	É	uma	pena,	é	tudo	o	que	quero	dizer.
Jule	ficou	em	silêncio.	Aplicou	iluminador	nas	maçãs	do	rosto.
–	Eu	andei	nessa	vida	–	prosseguiu	a	mulher.	Desceu	da	bancada	e	enfiou	os
seus	 pés	 todos	 estragados	 nos	 sapatos.	 –	 Já	 sem	 família	 e	 sem	 dinheiro:	 foi
assim	 que	 comecei,	 e	 não	 é	 diferente	 agora.	Mas	 não	 dá	 para	 subir	 na	 vida,
mesmo	com	tipos	da	alta.	Devias	saber	isso.
Jule	vestiu	um	casaco	de	malha	verde	e	pegou	na	sua	mala	de	viagem.	–	Não
se	 preocupe	 comigo.	 Estou	 ótima,	 sinceramente.	 –	 Arrastando	 a	 mala,
encaminhou-se	 para	 a	 porta,	mas	 tropeçou	 ligeiramente	 com	 aqueles	 sapatos
estranhos.
–	Estás	bem?	–	perguntou	a	mulher.
–	Oh,	sim.
–	É	difícil	ser	mulher	por	vezes.
–	Pois	é,	é	uma	seca,	exceto	a	maquilhagem	–	disse	Jule.	Empurrou	a	porta	e
saiu	sem	olhar	para	trás.
Com	 a	 mala	 guardada	 num	 cacifo	 na	 estação	 de	 autocarros,	 Jule	 pôs	 ao
ombro	um	saco	de	viagem	e	apanhou	um	táxi	para	a	zona	dos	casinos	de	Las
Vegas.	Sentia-se	cansada	–	não	conseguira	dormir	na	viagem	de	autocarro	–	e
ainda	estava	a	funcionar	pela	hora	de	Londres.
O	 casino	 estava	 iluminado	 com	 néon,	 lustres	 e	 o	 brilho	 das	 máquinas	 de
jogo.	 Jule	 passou	 por	 homens	 com	 camisolas	 desportivas,	 pensionistas,
raparigas	a	divertirem-se	e	um	grupo	grande	de	bibliotecários	com	crachás	de
uma	conferência	ao	peito.	Demorou	duas	horas	a	ir	de	lugar	em	lugar,	mas	por
fim	encontrou	o	que	procurava.
Havia	 um	 grupo	 de	 mulheres	 à	 volta	 de	 uma	 série	 de	 máquinas	 de	 jogo
Batman	que	pareciam	estar	a	divertir-se	imenso.	Tinham	bebidas	geladas,	roxas
e	espessas.	Algumas	americano-asiáticas,	algumas	brancas.	Tratava-se	de	uma
festa	de	despedida	de	 solteira,	 e	a	noiva	era	perfeita,	 exatamente	do	que	 Jule
precisava.	 Era	 pálida	 e	 pequena,	 com	 ombros	 com	 um	 ar	 forte	 e	 sardas
delicadas	–	e	não	devia	 ter	mais	de	vinte	e	 três	anos.	O	seu	cabelo	castanho-
claro	estava	preso	num	rabo	de	cavalo	e	ela	usava	um	minivestido	de	um	rosa
forte	e	uma	faixa	branca	com	pedrinhas	coloridas:	FUTURA	NOIVA.	Pendia-lhe	do
ombro	esquerdo	uma	pequena	carteira	azul-turquesa	com	múltiplos	 fechos	de
correr.	Estava	debruçada	para	as	amigas	a	jogarem	nas	máquinas,	a	animá-las,	à
vontade	com	a	adoração	de	toda	a	gente	à	sua	volta.
Jule	 aproximou-se	do	grupo	e	 adotou	um	sotaque	das	 terras	baixas	do	Sul,
como	o	do	Alabama.	–	Desculpem,	alguma	de	vocês...	bem,	o	meu	telemóvel
está	sem	carga	e	tenho	de	enviar	uma	mensagem	à	minha	amiga.	Na	última	vez
que	 a	 vi	 ela	 estava	 ao	 pé	 do	 balcão	 do	 sushi,	mas	 depois	 comecei	 a	 jogar	 e
agora,	oh	não!	Passaram	três	horas	e	ela	está	desaparecida	em	combate.
As	raparigas	da	despedida	de	solteira	viraram-se.
Jule	sorriu.	–	Oh,	são	uma	despedida	de	solteira?
–	Ela	vai	casar-se	no	sábado!	–	gritou	uma	das	raparigas,	agarrando	a	noiva.
–	Hurra!	–	disse	Jule.	–	Como	te	chamas?
–	 Shanna	 –	 disse	 a	 noiva.	 Eram	 da	 mesma	 altura,	 mas	 Shanna	 estava	 de
sapatos	de	salto	raso,	portanto	Jule	parecia	um	pouco	mais	alta.
–	Shanna	Dixie,	que	em	breve	vai	ser	Shanna	McFetridge	–	gritou	uma	das
amigas.
–	Com	um	diacho	–	disse	Jule.	–	Tens	vestido?
–	É	claro	que	tenho	–	respondeu	Shanna.
–	Não	é	um	casamento	de	Las	Vegas	–	disse	uma	das	amigas.	–	Vai	ser	na
igreja.
–	De	onde	é	que	vocês	todas	são?	–	perguntou	Jule.
–	De	Tacoma.	 Fica	 em	Washington.	 Conheces?	 Só	 estamos	 em	Las	Vegas
para...
–	Elas	planearam	o	fim	de	semana	todo	para	mim	–	disse	Shanna.	–	Viemos
de	avião	hoje	de	manhã	e	fomos	ao	spa	e	arranjar	as	unhas.	Estás	a	ver?	Pus
unhas	 de	 gel.	 Depois	 viemos	 até	 ao	 casino,	 e	 amanhã	 vamos	 ver	 os	 tigres
brancos.
–	E	como	é	o	teu	vestido?	Para	o	casamento,	quero	dizer.
Shanna	 agarrou	o	 braço	de	 Jule.	 –	É	 lindo	de	morrer.	 Sinto-me	 como	uma
princesa,	é	perfeito.
–	Posso	vê-lo?	No	 teu	 telemóvel?	Deves	 ter	uma	 fotografia.	–	 Jule	 tapou	a
boca	 com	 a	 mão	 e	 baixou	 um	 pouco	 a	 cabeça.	 –	 Tenho	 um	 fraquinho	 por
vestidos	de	casamento,	sabes?	Desde	que	era	pequenininha.
–	Com	os	 diabos,	 claro	 que	 tenho	 uma	 fotografia	 –	 disse	 Shanna.	Abriu	 o
fecho	da	sua	carteira	e	tirou	um	telemóvel	com	uma	capa	dourada.	O	forro	da
bolsa	era	cor-de-rosa.	Dentro	estava	uma	carteira	em	pele	castanha-escura,	dois
tampões	no	seu	invólucro	de	plástico,	uma	embalagem	de	pastilhas	elásticas	e
um	batom.
–	 Deixa	 ver	 –	 disse	 Jule.	 Aproximou-se	 para	 olhar	 para	 o	 telemóvel	 de
Shanna.
Shanna	percorreu	as	fotografias.	Um	cão.	O	lado	de	baixo	enferrujado	de	um
lava-louça.	Um	bebé.	O	mesmo	bebé	outra	vez.	–	É	o	meu	filho,	o	Declan.	Tem
dezoito	meses.	–	Umas	árvores	junto	a	um	lago.	–	Aí	está	ele.
O	vestido	era	cai-cai	e	comprido,	com	pregas	de	tecido	à	volta	das	ancas.	Na
fotografia,	Shanna	envergava-o	numa	loja	de	vestidos	de	noiva	cheia	de	outros
vestidos	brancos.
Jule	soltou	ós	e	ás.	–	Posso	ver	o	teu	noivo?
–	Com	os	diabos,	se	podes.	Ele,	tipo,	arrasou	no	pedido	de	casamento	–	disse
Shanna.	–	Meteu	o	anel	num	dónute.	Anda	em	Direito.	Não	vou	ter	de	trabalhar
a	não	ser	que	queira.	–	Continuou.	A	falar,	a	falar.	Empunhou	o	telemóvel	para
mostrar	o	felizardo	a	sorrir	na	encosta	de	uma	montanha.
–	É	giro	como	tudo	–	disse	Jule.	Enfiou	a	mão	na	carteira	de	Shanna.	Tirou	a
carteira	do	dinheiro	e	meteu-a	no	seu	saco.	–	O	meu	namorado,	o	Paolo,	anda
de	mochila	às	costas	a	dar	a	volta	ao	mundo	–	prosseguiu.	–	Está	nas	Filipinas
neste	momento.	Dá	para	crer?	Então,	estou	em	Las	Vegas	com	a	minha	amiga.
Devia	 arranjar	 um	 tipo	 que	 queira	 assentar,	 não	 dar	 a	 volta	 ao	 mundo	 de
mochila	às	costas,	certo?	Se	quero	casar.
–	Se	é	o	que	queres	–	disse	Shanna	–	podes	decididamente	tê-lo.	Podes	ter	o
que	quiseres	se	te	focares	nisso.	Rezas	e,	tipo,	visualizas.
–	Visualização	–	disse	uma	das	damas-de-honor.	 –	Fomos	 a	um	workshop.
Resulta	mesmo.
–	Ouçam	–	disse	Jule	–,	a	razão	por	que	vim	falar	com	vocês	foi	para	ver	se
podiam	emprestar-me	um	 telemóvel.	O	meu	está	 sem	bateria.	 Importavam-se
muito?
Shanna	 passou-lhe	 o	 seu	 telemóvel	 para	 as	 mãos	 e	 Jule	 enviou	 uma
mensagem	 para	 um	 número	 ao	 acaso.	 «Encontramo-nos	 às	 10:15	 no
Cheesecake	Factory».	Devolveu	o	telemóvel	a	Shanna.	–	Obrigada.	Vais	ser	a
noiva	mais	linda.
–	Tu	também,	minha	doçura	–	disse	Shanna.	–	Um	dia	em	breve.
As	raparigas	da	despedida	de	solteira	acenaram-lhe.Jule	retribuiu	o	aceno	e
avançou	pelas	filas	de	máquinas	de	jogos	até	um	grupo	de	elevadores.
Mal	 a	 porta	 do	 elevador	 se	 fechou	 e	 ela	 ficou	 sozinha,	 tirou	 a	 peruca.
Descalçou	os	sapatos	de	salto	alto	e	tirou	do	saco	umas	calças	de	fato	de	treino
e	uns	Vans,	enfiou	as	calças	por	cima	do	vestido	preto	curto	e	calçou	os	ténis.	A
peruca	e	os	sapatos	de	salto	alto	foram	para	dentro	do	saco.	Vestiu	um	blusão
de	fecho	com	capuz	e	as	portas	abriram-se	no	décimo	andar	do	hotel.
Jule	 não	 saiu	 do	 elevador.	 Quando	 ele	 voltou	 a	 descer,	 ela	 pegou	 num
toalhete	desmaquilhante	e	descolou	as	pestanas	postiças.	Limpou	o	brilho	dos
lábios.	A	seguir,	abriu	a	carteira	de	Shanna,	tirou	a	carta	de	condução	e	deitou	a
carteira	para	o	chão.
Era	outra	pessoa	quando	as	portas	do	elevador	se	abriram.
*
Quatro	 casinos	 abaixo	 na	 avenida,	 Jule	 passou	 em	 revista	 seis	 restaurantes
até	 encontrar	 um	 sítio	onde	mandou	vir	 um	café	 e	meteu	 conversa	 com	uma
estudante	 universitária	 que	 estava	 a	 entrar	 ao	 serviço	 no	 turno	 da	 noite.	 O
estabelecimento	 era	 uma	 réplica	 de	 um	 restaurante	 típico	 dos	 anos	 50.	 A
empregada	de	mesa	era	uma	mulher	minúscula	com	sardas	e	caracóis	castanhos
macios.	Usava	um	vestido	às	pintas	e	um	avental	aos	 folhos	de	dona	de	casa
tradicional.	Quando	um	grupo	de	tipos	bêbedos	invadiu	o	espaço	a	falar	sobre
cerveja	e	hambúrgueres,	Jule	pousou	algum	dinheiro	em	cima	do	balcão	para
pagar	a	comida	que	pedira	e	depois	esgueirou-se	para	a	cozinha.	De	uma	fila	de
ganchos,	tirou	a	mochila	com	o	ar	mais	feminino	e	saiu	pelas	traseiras	para	o
corredor	de	serviço	do	casino.	Descendo	a	correr	um	lanço	de	escadas	e	saindo
para	a	travessa,	pôs	a	mochila	às	costas	e	abriu	caminho	por	entre	um	grupo	de
pessoas	que	estavam	numa	fila	para	um	espetáculo	de	magia.
Lá	mais	 para	 baixo,	 remexeu	 na	mochila.	 No	 bolso	 com	 fecho	 estava	 um
passaporte.	O	nome	nele	era	Adelaide	Belle	Perry,	de	vinte	e	um	anos.
Tivera	sorte.	Jule	calculara	que	poderia	ter	de	trabalhar	durante	muito	tempo
antes	 de	 conseguir	 um	 passaporte.	 Sentia	 pena	 de	 Adelaide,	 no	 entanto,	 e,
depois	de	tirar	o	passaporte,	entregou	a	mochila	nuns	perdidos	e	achados.
De	regresso	à	zona	dos	casinos,	encontrou	uma	loja	de	perucas	e	duas	lojas
de	roupa.	Abasteceu-se,	e	ao	chegar	a	manhã	já	tinha	mudado	de	casino	mais
duas	vezes.	Com	uma	peruca	loura	ondulada	e	batom	cor	de	laranja,	apropriou-
se	 da	 carta	 de	 condução	 de	 uma	 tal	 Dakota	 Pleasance,	 com	 um	 metro	 e
cinquenta	 e	 cinco	 de	 altura.	 Com	 uma	 peruca	 preta	 e	 um	 casaco	 prateado,
roubou	o	passaporte	de	Dorothea	von	Schnell,	da	Alemanha,	com	um	metro	e
cinquenta	e	oito	de	altura.
Pelas	oito	da	manhã,	Jule	estava	de	novo	de	calças	de	fato	de	treino	e	Vans,
de	rosto	limpo.	Apanhou	um	táxi	para	o	hotel	Rio	e	subiu	no	elevador	até	ao
topo	 do	 edifício.	 Lera	 sobre	 o	 VooDoo	 Lounge,	 no	 quinquagésimo	 primeiro
andar.
*
Quando	uma	batalha	chega	ao	fim,	quando	o	grande	herói	de	filmes	de	ação
branco	e	heterossexual	vive	para	 lutar	de	novo	noutro	dia,	vai	a	algum	ponto
alto	 acima	 da	 cidade,	 algures	 com	 vista.	 O	 Homem	 de	 Ferro,	 o	 Homem-
Aranha,	o	Batman,	o	Wolverine,	Jason	Bourne,	James	Bond	–	todos	o	fazem.	O
herói	fita	a	dor	e	a	beleza	contidas	nas	luzes	cintilantes	da	metrópole.	Pensa	na
sua	missão	especial,	nos	seus	 talentos	únicos,	na	sua	 força,	na	sua	estranha	e
violenta	vida	e	em	todos	os	sacrifícios	que	faz	para	a	viver.
De	manhã	cedo,	o	VooDoo	Lounge	era	pouco	mais	do	que	uma	extensão	de
telhado	de	cimento	pontuada	com	sofás	vermelhos	e	pretos.	As	cadeiras	tinham
a	 forma	 de	 mãos	 enormes.	 Uma	 escadaria	 curvava-se	 acima	 do	 telhado.	 Os
clientes	 podiam	 subi-la	 para	 terem	uma	vista	melhor	 da	 zona	 dos	 casinos	 de
Las	 Vegas	 lá	 em	 baixo.	 Havia	 um	 par	 de	 gaiolas	 para	 as	 coristas	 dançarem
dentro	 delas,	 mas	 não	 se	 encontrava	 ninguém	 no	 bar	 naquele	 momento
excetuando	 um	 funcionário	 da	 limpeza.	 Ergueu	 as	 sobrancelhas	 quando	 Jule
apareceu	ali.
–	Só	queria	dar	uma	vista	de	olhos	–	disse-lhe	Jule.	–	Sou	inofensiva,	juro.
–	Claro	que	é	–	disse	ele.	–	Força.	Estou	a	limpar	o	chão.
Jule	 subiu	 até	 ao	 cimo	 da	 escadaria	 e	 fitou	 a	 cidade.	 Pensou	 em	 todas	 as
vidas	que	estavam	a	ser	vividas	lá	em	baixo.	Havia	pessoas	a	comprar	pasta	de
dentes,	a	ter	discussões,	ir	buscar	ovos	a	caminho	de	casa	vindos	do	trabalho.
Viviam	as	suas	vidas	rodeados	por	todo	aquele	brilho	e	aquele	néon,	supondo
alegremente	que	todas	as	mulheres	pequenas	e	engraçadas	eram	inofensivas.
Três	 anos	 antes,	 Julietta	 West	 Williams	 tinha	 quinze	 anos.	 Encontrava-se
num	 salão	 de	 jogos	 –	 num	 dos	 grandes,	 com	 ar	 condicionado	 e	 novinho	 em
folha.	Estava	a	arrecadar	pontos	numa	simulação	de	guerra.	Estava	embrenhada
no	 jogo,	 a	 disparar,	 quando	 dois	 rapazes	 que	 conhecia	 da	 escola	 se
aproximaram	por	trás	dela	e	lhe	apertaram	as	mamas.	Um	de	cada	lado.
Julietta	 deu	 uma	 forte	 cotovelada	 a	 um	 deles	 no	 seu	 estômago	 flácido	 e	 a
seguir	 rodou	 sobre	 os	 calcanhares	 e	 calcou	o	 pé	 do	outro	 com	 força.	Depois
deu-lhe	uma	joelhada	no	baixo-ventre.
Era	a	primeira	vez	que	agredia	alguém	fora	da	sua	aula	de	artes	marciais.	A
primeira	vez	que	necessitara	de	o	fazer.
Bem,	não	necessitara	de	o	fazer.	Quisera	fazê-lo.	Gostou	da	sensação.
Quando	aquele	rapaz	se	dobrou	pela	cintura,	a	tossir,	Jule	virou-se	e	bateu	no
rosto	 do	 primeiro	 com	 a	 base	 da	 mão.	 A	 cabeça	 dele	 voou	 para	 trás	 e	 ela
agarrou	a	parte	da	frente	da	sua	T-shirt	e	berrou-lhe	ao	ouvido	oleoso:	–	Não
sou	tua	para	tocares	em	mim!
Queria	ver	medo	no	rosto	daquele	rapaz,	e	ver	o	seu	amigo	enroscado	num
banco	 ali	 perto.	 Aqueles	 dois	 rapazes	 tinham	 sempre	 sido	 tão	 arrogantes	 na
escola,	sem	medo	de	nada.
Um	homem	com	borbulhas	que	trabalhava	no	salão	de	jogos	aproximou-se	e
agarrou	 o	 braço	 de	 Julietta.	 –	 Não	 podemos	 ter	 lutas	 aqui	 dentro,	 menina.
Lamento,	mas	vai	ter	de	sair.
–	Está	a	agarrar-me	o	braço?	–	perguntou-lhe	ela.	–	Porque	não	quero	que	me
agarre	o	braço.
Ele	soltou-lhe	o	braço	muito	depressa.
Teve	medo	dela.
Era	 quinze	 centímetros	mais	 alto	 do	 que	 ela	 e	 pelo	menos	 três	 anos	mais
velho.	Era	um	homem	crescido,	e	teve	medo	dela.
Era	uma	boa	sensação.
Julietta	saiu	do	salão	de	 jogos.	Não	a	preocupava	que	os	rapazes	pudessem
segui-la.	Sentia-se	como	se	estivesse	num	filme.	Não	sabia	até	esse	momento
que	 seria	 capaz	 de	 olhar	 por	 si	 daquela	maneira,	 não	 sabia	 que	 a	 força	 que
andava	 a	 consolidar	 nas	 aulas	 e	 na	 sala	 de	 pesos	 na	 secundária	 daria	 frutos.
Apercebeu-se	de	que	construíra	uma	armadura	para	si	mesma.	Talvez	fosse	o
que	tencionara	fazer.
Parecia	a	mesma,	como	qualquer	outra	pessoa,	mas	passou	a	ver	o	mundo	de
um	modo	diferente	depois	daquilo.	Ser	uma	mulher	fisicamente	poderosa	–	era
qualquer	coisa.	Podias	ir	a	qualquer	lado	e	fazer	o	que	quisesses	se	fosse	difícil
fazer-te	mal.
*
Uns	 andares	 abaixo,	 num	 corredor	 do	 hotel	 Rio,	 Jule	 encontrou	 uma
empregada	que	ia	a	empurrar	um	carrinho.	Uma	gorjeta	de	quarenta	dólares	e
arranjou	um	quarto	para	dormir	até	às	três	e	meia	da	tarde.	A	hora	do	check-in
era	às	quatro.
Mais	uma	noite	a	roubar	carteiras	e	mais	um	dia	a	dormir	e	Jule	ficou	pronta
a	comprar	um	carro	usado	que	não	desse	nas	vistas	a	um	 tipo	duvidoso	num
parque	de	estacionamento.	Pagou	em	dinheiro.	Foi	buscar	a	bagagem	à	estação
dos	 autocarros	 e	 escondeu	 os	 seus	 vários	 documentos	 de	 identificação	 por
baixo	do	feltro	que	forrava	a	porta	da	mala	do	carro.
Atravessou	 a	 fronteira	 para	 o	México	 com	o	 passaporte	 de	Adelaide	Belle
Perry.
T
16
ÚLTIMA	SEMANA	DE	FEVEREIRO,	2017
LONDRES
rês	meses	antes	de	Jule	chegar	ao	México,	Forrest	Smith-Martin	estava	no
sofá	de	 Jule	 a	 comer	 cenouras	 pequeninas	 com	os	 seus	dentes	 direitos	 e
brilhantes.	Encontrava-se	no	apartamento	de	Jule	em	Londres	há	cinco	noites.
Forrest	 era	 o	 ex-namorado	 de	 Immie.	Comportava-sesempre	 como	 se	 não
acreditasse	 numa	 palavra	 do	 que	 Jule	 dizia.	 Se	 ela	 dizia	 que	 gostava	 de
mirtilos,	ele	erguia	as	sobrancelhas	como	se	tivesse	grandes	dúvidas	disso.	Se
ela	dizia	que	Immie	tinha	dado	à	sola	para	Paris,	ele	questionava-se	sobre	onde,
exatamente,	 Immie	 estava	 alojada.	 Fazia	 Jule	 sentir	 uma	 falta	 total	 de
legitimidade.
Pálido	e	delgado,	Forrest	pertencia	à	categoria	de	homens	magricelas	que	se
sentem	desconfortáveis	quando	uma	mulher	é	mais	musculosa	do	que	eles.	As
suas	 articulações	davam	a	 impressão	de	estarem	meio-soltas	 e	o	bracelete	de
fios	 entrançados	 que	 trazia	 no	 pulso	 esquerdo	 parecia	 sujo.	 Andara	 na
universidade	 de	 Yale	 a	 estudar	 Literatura	 Mundial.	 Gostava	 que	 as	 pessoas
soubessem	 que	 tinha	 andado	 em	 Yale	 e	 mencionava-o	 com	 frequência	 nas
conversas.	Usava	uns	óculos	pequenos,	estava	a	deixar	crescer	uma	barba	que
nunca	chegara	a	despontar	propriamente	e	prendia	o	seu	cabelo	comprido	num
man	bun	 no	cimo	da	cabeça.	Tinha	vinte	 e	dois	 anos	 e	 estava	a	 escrever	um
romance.
Naquele	momento,	 andava	 a	 ler	 um	 livro	 traduzido	 do	 francês.	 De	 Albert
Camus.	 Pronunciava	 o	 nome	 do	 autor	 como	Camu.	 Estava	 esparramado	 no
sofá,	não	meramente	sentado,	e	vestia	uma	sweatshirt	e	uns	boxers.
Forrest	 encontrava-se	 no	 apartamento	 por	 causa	 da	morte	 de	 Immie.	Disse
que	queria	dormir	no	sofá-cama	na	sala	para	ficar	perto	das	coisas	de	Imogen.
Mais	do	que	uma	vez,	Jule	foi	dar	com	ele	a	tirar	do	armário	roupas	de	Imogen
e	 cheirá-las.	 Um	 par	 de	 vezes,	 pendurou-as	 dos	 caixilhos	 das	 janelas.
Encontrou	 os	 livros	 velhos	 de	 Imogen	 –	 edições	 antigas	 de	 A	 Feira	 das
Vaidades	e	de	outros	romances	vitorianos	–	e	empilhou-os	ao	lado	da	sua	cama,
como	se	precisasse	de	os	ver	antes	de	adormecer.	E	depois	deixava	o	tampo	da
sanita	levantado.
Jule	e	ele	tinham	andado	a	tratar	dos	assuntos	relacionados	com	a	morte	de
Immie	 a	 partir	 de	 Londres.	 Gil	 e	 Patti	 estavam	 presos	 em	 Nova	 Iorque	 por
causa	da	saúde	de	Gil.	Os	Sokoloff	tinham	conseguido	evitar	que	a	notícia	do
suicídio	saísse	nos	jornais.	Disseram	que	não	queriam	publicidade	e	que	não	se
punha	a	questão	de	suspeita	de	crime,	de	acordo	com	a	polícia.	Embora	o	corpo
de	Imogen	não	tivesse	sido	encontrado,	ninguém	duvidava	do	que	acontecera.
Immie	deixara	aquela	mensagem	na	caixa	do	pão.
Todos	concordavam	que	ela	devia	estar	deprimida.	Andavam	sempre	a	atirar-
se	pessoas	ao	Tamisa,	disse	a	polícia.	Se	uma	pessoa	metesse	pesos	nos	bolsos
antes	de	saltar,	como	Imogen	escrevera	que	tencionava	fazer,	não	havia	como
saber	quanto	tempo	poderia	demorar	até	se	encontrar	o	corpo.
Agora,	Jule	sentou-se	ao	lado	de	Forrest	e	ligou	a	televisão.	Eram	programas
do	fim	da	noite	na	BBC.	Os	dois	tinham	passado	o	dia	a	tratar	da	cozinha	de
Immie,	 a	 encaixotar	 coisas	 como	Patti	 pedira.	Tinha	 sido	um	projeto	 longo	e
emotivo.
–	Aquela	 rapariga	 parece-se	 com	 a	 Immie	 –	 disse	 Forrest,	 apontando	 para
uma	atriz	no	ecrã.
Jule	abanou	a	cabeça.	–	Não	acho.
–	Parece-se,	sim	–	disse	Forrest.	–	A	mim,	parece.
–	 Não	 ao	 perto	 –	 disse	 Jule.	 –	 Só	 tem	 cabelo	 curto.	 As	 pessoas	 também
acham	que	me	pareço	com	a	Immie,	ao	longe.
Olhou-a	fixamente.	–	Não	te	pareces	com	ela,	Jule	–	disse.	–	A	Imogen	era
um	milhão	de	vezes	mais	bonita	do	que	tu	alguma	vez	serás.
Jule	olhou-o	furiosa.	–	Não	sabia	que	íamos	ficar	hostis	esta	noite.	Estou	um
bocado	 cansada.	 Podemos	 saltar	 essa	 parte	 ou	 estás	 realmente	 empenhado
numa	discussão?
Forrest	inclinou-se	para	ela,	fechando	o	seu	Camus.	–	A	Imogen	emprestou-
te	dinheiro?	–	perguntou.
–	Não,	não	emprestou	–	respondeu	Jule	verdadeiramente.
–	Tu	querias	dormir	com	ela?
–	Não.
–	Dormiste	com	ela?
–	Não.
–	Ela	tinha	um	novo	namorado?
–	Não.
–	Há	alguma	coisa	que	não	me	estás	a	contar.
–	Há	seiscentas	coisas	que	não	 te	estou	a	contar	–	disse	Jule.	–	Porque	sou
uma	pessoa	reservada.	E	a	minha	amiga	morreu	há	pouco	tempo.	Estou	triste	e
a	tentar	lidar	com	isso.	Pode	ser,	por	ti?
–	Não	–	disse	Forrest.	–	Preciso	de	compreender	o	que	aconteceu.
–	 Olha.	 A	 regra	 para	 ficares	 neste	 apartamento	 é	 não	 fazeres	 à	 Jule	 um
milhão	de	perguntas	sobre	a	vida	privada	da	Immie.	Ou	sobre	a	vida	privada	da
Jule.	Dessa	maneira,	poderemos	dar-nos	bem.	Combinado?
Forrest	explodiu.	–	A	regra	deste	apartamento?	Do	que	é	que	estás	a	falar,	a
regra	deste	apartamento?
–	Todos	os	lugares	têm	regras.	O	que	fazes	quando	chegas	a	um	lugar	novo	é
calcular	 quais	 são.	 Tipo,	 quando	 és	 hóspede,	 aprendes	 os	 códigos	 de
comportamento	e	adaptas-te.	Sim?
–	Talvez	isso	seja	o	que	tu	fazes.
–	É	o	 que	 toda	 a	 gente	 faz.	Calculas	 quão	 alto	 podes	 falar,	 como	 te	 podes
sentar,	 que	 coisas	 não	 tem	 mal	 dizer	 e	 o	 que	 é	 mal-educado.	 Chama-se
comportar-se	como	um	ser	humano	em	sociedade.
–	Nã.	–	Forrest	cruzou	as	pernas	numa	atitude	descontraída.	–	Não	sou	assim
tão	 falso.	 Só	 faço	 o	 que	 me	 parece	 correto.	 E	 sabes	 que	 mais?	 Nunca	 foi
problema,	até	agora.
–	Porque	tu	és	tu.
–	O	que	é	que	isso	quer	dizer?
–	 És	 homem.	 És	 de	 uma	 família	 com	 dinheiro,	 és	 branco,	 tens	 uns	 dentes
realmente	bons,	tiraste	o	curso	em	Yale,	a	lista	é	infindável.
–	E	então?
–	As	outras	pessoas	adaptam-se	a	ti,	parvalhão.	Pensas	que	não	há	adaptação
a	acontecer,	mas	és	cego	como	o	caraças,	Forrest.	Está	a	toda	a	tua	volta,	todo	o
tempo.
–	Está	bem	visto	–	disse	ele.	–	OK,	concedo-te	esse	ponto.
–	Obrigada.
–	 Mas	 se	 pensas	 nessa	 loucura	 toda	 de	 cada	 vez	 que	 entras	 numa	 nova
situação,	então	há	alguma	coisa	de	seriamente	errado	contigo,	Jule.
–	 A	minha	 amiga	 está	 morta	 –	 disse-lhe	 ela.	 –	 É	 o	 que	 há	 de	 seriamente
errado	comigo.
Immie	não	contara	os	seus	segredos	a	Forrest.	Contara-os	a	Jule.
Jule	 apercebera-se	 da	 verdade	 bastante	 cedo,	 ainda	 antes	 de	 Immie	 lhe
revelar	o	nome	que	lhe	fora	dado	à	nascença	e	de	Brooke	Lannon	aparecer	na
casa	de	Vineyard.
Foi	 no	 feriado	 do	Quatro	 de	 Julho,	 não	muito	 tempo	 depois	 de	 Jule	 se	 ter
mudado	para	 lá.	 Immie	encontrara	uma	receita	de	massa	de	piza	que	se	 fazia
num	 grelhador	 de	 churrasco.	 Estava	 a	 mexer	 em	 fermento	 na	 cozinha.
Convidara	 amigos,	 uma	 gente	 de	 verão	 que	 conhecera	 um	 par	 de	 dias	 antes
numa	feira	de	venda	direta.	Vieram	e	comeram.	Correu	tudo	bem,	mas	queriam
ir-se	embora	cedo.
–	Vamos	 até	 à	 cidade	 ver	 o	 fogo	 de	 artifício	 –	 disseram.	 –	Não	 devíamos
perder	o	espetáculo.	Despachem-se.
Jule	 sabia	que	 Imogen	detestava	os	 apertos	dos	 eventos	de	multidões.	Não
conseguia	ver	por	cima	da	cabeça	das	outras	pessoas.	Havia	sempre	demasiado
ruído.
Forrest	não	pareceu	importar-se.	Meteu-se	no	carro	com	a	gente	de	verão,	só
parando	para	tirar	uma	caixa	de	bolachas	da	despensa.
Jule	 ficou.	Ela	 e	 Immie	 deixaram	 a	 louça	 para	 o	 funcionário	 da	 limpeza	 e
vestiram	 os	 fatos	 de	 banho.	 Jule	 tirou	 a	 tampa	 do	 jacuzzi	 exterior	 e	 Immie
trouxe	uns	copos	altos	com	água	com	gás	e	limão.
Ficaram	sentadas	em	silêncio	por	algum	tempo.	Tinha	arrefecido	ao	fim	do
dia	e	erguia-se	vapor	da	água.
–	 Gostas	 disto	 aqui?	 –	 perguntou	 Immie,	 finalmente.	 –	 Na	 minha	 casa?
Comigo?
Jule	 gostava,	 e	 disse-o.	 Quando	 Immie	 olhou	 para	 ela	 na	 expetativa,
acrescentou:	–	Todos	os	dias	há	tempo	para	ver	de	facto	o	céu	e	saborear	o	que
estou	a	comer.	Há	espaço	para	uma	pessoa	se	espreguiçar.	Sem	trabalho,	sem
expetativas,	sem	adultos.
–	Nós	somos	os	adultos	–	disse	Immie,	inclinando	a	cabeça	para	trás.	–	Penso
que	sim,	pelo	menos.	Tu	e	eu	e	o	Forrest,	somos	o	raio	dos	adultos,	e	é	por	isso
que	dá	uma	sensação	tão	boa.	Ups!	–	Tinha	entornado	a	sua	água	com	gás	no
jacuzzi	 sem	 querer.	 Pôs-se	 a	 andar	 atrás	 de	 três	 pedaços	 de	 limão,	 que	 se
afundavam	 lentamente,	 até	 os	 apanhar.	 –	Ainda	 bem	que	 gostas	 disto	 aqui	 –
disse	Immie	ao	pescar	a	última	rodela	–,	porque	havia	uma	parte	de	viver	com
o	 Forrest	 que	 era	 como...	 estar	 sozinha.	 Não	 consigoexplicar.	 Talvez	 seja
porque	ele	está	a	escrever	um	romance	ou	porque	é	mais	velho	do	que	eu.	Mas
é	melhor	contigo	aqui.
–	Como	é	que	o	conheceste?
–	Em	Londres,	frequentei	um	programa	de	verão	com	a	prima	dele	e	depois,
um	 dia,	 estava	 a	 tomar	 café	 no	 Black	 Dog	 e	 reconheci-o	 do	 Instagram.
Começámos	 a	 conversar.	 Ele	 estava	 aqui	 a	 passar	 um	mês	 para	 trabalhar	 no
livro	 dele.	 Não	 conhecia	 ninguém.	 Foi	 isso,	 basicamente.	 –	 Immie	 pôs-se	 a
passar	os	dedos	à	tona	da	água.	–	E	tu?	Andas	com	alguém?
–	Houve	alguns	namorados	em	Stanford	–	disse	Jule.	–	Mas	ainda	estão	na
Califórnia.
–	Alguns	namorados?
–	Três.
–	Três	namorados	é	muito,	Jule!
Jule	encolheu	os	ombros.	–	Não	conseguia	decidir-me.
–	 Quando	 cheguei	 à	 faculdade	 –	 disse	 Immie	 –,	 a	 Vivian	 Abromowitz
convidou-me	para	a	 festa	da	Associação	de	Estudantes	de	Cor.	Já	me	ouviste
falar	sobre	a	Vivian,	certo?	Seja	como	for,	a	mãe	dela	é	americana	de	origem
chinesa;	 o	 pai	 dela	 é	 judeu	 de	 origem	coreana.	Ela	 estava	 decidida	 a	 ir	 à	 tal
festa	porque	um	 tipo	por	quem	 tinha	uma	paixoneta	 ia	estar	 lá.	Eu	sentia-me
um	bocado	 nervosa	 por	 ser	 a	 única	 pessoa	 branca,	mas	 não	 foi	 problema.	A
parte	 embaraçosa	 foi	 que	 as	 pessoas	 eram	 todas	 viradas	 para	 a	 política	 e
ambiciosas.	 Tipo,	 a	 falarem	 sobre	 comícios	 de	 protesto	 e	 listas	 de	 leitura	 de
obras	 filosóficas	 e	 de	 uma	 série	 de	 filmes	 da	Renascença	 do	Harlem.	Numa
festa!	Eu	estava,	tipo,	quando	é	que	dançamos?	E	a	resposta	foi:	nunca.	Havia
festas	 assim	 em	 Stanford?	 Sem	 cerveja	 e	 com	 as	 pessoas	 a	 serem	 todas
intelectuais?
–	Stanford	tem	um	sistema	grego.
–	OK,	então	talvez	não.	Seja	como	for,	um	tipo	negro	alto	com	rastas,	mesmo
giro,	 pôs-se	 tipo:	 «Andaste	 no	Greenbriar	 e	 não	 leste	 o	 James	Baldwin?	E	 a
Toni	Morrison?	Devias	 ler	Ta-Nehisi	Coates.»	E	eu	disse:	«Hello?	Acabei	de
entrar	na	faculdade.	Ainda	não	li	ninguém!»	A	Vivian	estava	ao	meu	lado	e	vai
e	diz:	«	A	Brooke	mandou-me	mensagem	e	há	outra	festa	com	DJ	e	a	equipa	de
râguebi	está	lá.	Pomo-nos	daqui	para	fora?»	E	eu	queria	ir	a	uma	festa	onde	se
dançasse.	Por	isso	fomos	embora.	–	Immie	enfiou	a	cabeça	debaixo	da	água	do
jacuzzi	e	voltou	à	tona.
–	O	que	aconteceu	com	o	tipo	condescendente?
Immie	riu-se.	–	O	Isaac	Tupperman.	Ele	é	a	razão	por	que	estou	a	contar-te
esta	história.	Andei	com	ele	quase	dois	meses.	É	por	isso	que	consigo	lembrar-
me	dos	nomes	dos	escritores	favoritos	dele.
–	Foi	teu	namorado?
–	 Foi.	 Escrevia-me	 poemas	 e	 deixava-os	 na	 minha	 bicicleta.	 Ia	 lá	 a	 casa
tarde,	tipo	às	duas	da	manhã,	e	dizia	que	tinha	sentido	saudades	de	mim.	Mas
também	havia	pressão.	Ele	cresceu-se	no	Bronx	e	andou	na	Stuy	e	era...
–	O	que	é	a	Stuy?
–	É	uma	escola	pública	em	Nova	Iorque	para	miúdos	espertos.	Ele	tinha	uma
data	 de	 ideias	 sobre	 o	 que	 eu	 devia	 ser,	 o	 que	 devia	 estudar,	 o	 que	 devia
importar-me.	Queria	ser	o	espantoso	tipo	mais	velho	que	me	ia	esclarecer.	E	eu
sentia-me	lisonjeada	e,	tipo,	cheia	de	admiração	por	ele,	mas	por	vezes	também
realmente	cheia	de	tédio.
–	Então	ele	era	como	o	Forrest.
–	O	quê?	Não.	Fiquei	tão	contente	quando	conheci	o	Forrest	porque	ele	era	o
oposto	 do	 Isaac.	 –	 Immie	 disse	 aquilo	 de	 um	modo	 decisivo,	 como	 se	 fosse
totalmente	verdade.	–	O	Isaac	gostava	de	mim	porque	eu	era	ignorante	e	isso
significava	que	ele	podia	ensinar-me,	certo?	Isso	fazia-o	sentir-se	mais	homem.
E	sabia	de	facto	uma	data	de	coisas	que	eu	nunca	tinha	estudado	ou	vivido	ou	o
que	seja.	Mas,	por	outro	lado,	e	essa	é	a	ironia,	ficava	totalmente	irritado	com	a
minha	ignorância.	E	por	fim,	depois	de	ele	acabar	comigo	e	quando	eu	andava
a	sentir-me	triste	e	um	bocado	perturbada,	vim	a	Vineyard	e	um	dia	pensei:	Vai-
te	lixar,	Mr.	Isaac.	Não	sou	assim	tão	ignorante.	Só	sei	coisas	sobre	coisas	que
tu	rejeitas	como	sendo	sem	importância	e	inúteis.	Faz	sentido?	Quero	dizer,	eu
não	sabia	as	coisas	do	Isaac.	E	sei	que	as	coisas	do	Isaac	são	importantes,	mas
em	todo	o	tempo	que	passei	com	ele	senti-me	como	se	fosse	só	burra	e	oca.	O
facto	de	não	ser	capaz	de	compreender	muito	bem	a	experiência	de	vida	dele,
combinado	 com	 o	 de	 ele	 andar	 um	 ano	 à	 frente	 de	 mim	 e	 realmente
embrenhado	nos	estudos,	na	revista	literária,	etc.,	significava	que	durante	todo
o	tempo	pôde	ser	o	grande	homem	e	ter-me	a	olhá-lo	com	admiração,	de	olhos
esbugalhados.	E	era	disso	que	ele	gostava	em	mim.	E	porque	me	desprezava.
«Depois,	houve	uma	semana	em	que	julguei	que	estava	grávida	–	prosseguiu
Immie.	–	Jule,	 imagina.	Sou	adotada.	E	ali	estou	eu,	grávida	de	um	bebé	que
penso	que	talvez	tenha	de	dar	para	adoção.	Ou	abortar.	O	pai	é	um	tipo	que	os
meus	pais	conheceram	e	descartaram	como	inconsciente,	por	causa	da	cor	da
sua	pele	e	do	estilo	de	penteado	na	única	vez	em	que	o	viram,	e	eu	não	faço
ideia	 do	 que	 fazer,	 portanto	 passo	 a	 semana	 toda	 a	 faltar	 às	 aulas	 e	 a	 ler
histórias	de	abortos	na	Internet.	Depois,	um	dia,	vem-me	finalmente	o	período
e	 envio	 uma	 mensagem	 ao	 Isaac.	 Ele	 larga	 tudo	 e	 vem	 ao	 meu	 quarto	 na
residência	 universitária...	 e	 acaba	 o	 namoro.	 –	 Immie	 tapou	 o	 rosto	 com	 as
mãos.	–	Nunca	me	 senti	 tão	assustada	como	naquela	 semana	–	prosseguiu.	–
Quando	julguei	que	tinha	um	bebé	dentro	de	mim.
*
Nessa	noite,	quando	Forrest	 regressou	do	fogo	de	artifício,	 Imogen	já	 tinha
ido	para	a	cama.	Jule	ainda	estava	acordada,	a	ver	televisão	sentada	no	sofá	da
sala.	 Seguiu-o	 quando	 ele	 se	 pôs	 a	 remexer	 no	 frigorífico	 e	 encontrou	 uma
cerveja	e	uma	costeleta	de	porco	grelhada	que	tinha	sobrado.
–	Sabes	cozinhar?	–	perguntou-lhe	ela.
–	Sei	cozer	massa.	E	aquecer	molho	de	tomate.
–	A	Imogen	é	realmente	boa	cozinheira.
–	Pois	é.	É	bom	para	nós,	certo?
–	Trabalha	no	duro	na	cozinha.	Aprendeu	sozinha,	a	ver	vídeos	e	a	requisitar
livros	de	culinária	da	biblioteca.
–Ah	 sim?	 –	 disse	 Forrest,	 sem	 grande	 interesse.	 –	 Ei,	 sobrou	 crumble?	O
crumble	é	necessário	para	a	minha	existência	neste	momento.
–	Comi-o	–	disse-lhe	Jule.
–	Sua	sortuda	–	disse	ele.	–	Está	bem,	então.	Vou	trabalhar	no	meu	livro.	À
noite	é	quando	o	meu	cérebro	funciona	melhor.
Uma	noite,	quando	Forrest	 já	estava	com	Jule	em	Londres	há	uma	semana,
comprou	 bilhetes	 para	 verem	 O	 Conto	 de	 Inverno	 no	 teatro	 da	 Royal
Shakespeare	 Company.	 Era	 algo	 para	 fazerem.	 Precisavam	 de	 sair	 do
apartamento.
Apanharam	o	metro	da	linha	Jubilee	para	a	linha	Central	para	St.	Paul	e	daí
encaminharam-se	 a	 pé	 para	 o	 teatro.	Estava	 a	 chover.	Como	o	 espetáculo	 só
começaria	daí	a	uma	hora,	encontraram	um	pub	e	mandaram	vir	peixe	frito	e
batatas	 fritas.	 O	 espaço	 era	 escuro	 e	 tinha	 as	 paredes	 forradas	 a	 espelhos.
Comeram	ao	balcão.
Forrest	 falou	muito	 sobre	 livros.	 Jule	 fez-lhe	perguntas	 sobre	o	Camus	que
andava	a	ler,	L’	Étranger.	Fê-lo	explicar	o	enredo,	que	era	sobre	um	tipo	com	a
mãe	morta	que	mata	outro	tipo	e	depois	vai	para	a	prisão	por	isso.
–	É	um	policial?
–	De	maneira	nenhuma	–	disse	Forrest.	–	Os	policiais	perpetuam	o	statu	quo.
Tudo	 se	 resolve	 sempre	 no	 fim.	A	 ordem	 é	 restabelecida.	Mas	 a	 ordem	 não
existe	 realmente,	 correto?	É	 uma	 construção	 artificial.	O	 género	 do	 romance
policial	 reforça	 a	 hegemonia	 das	 noções	 ocidentais	 de	 causalidade.	 Em	 L’
Étranger,	 sabes	 tudo	 o	 que	 acontece	 desde	 o	 princípio.	 Não	 há	 nada	 a
descobrir,	 porque	 a	 existência	 humana	 é	 em	 última	 instância	 desprovida	 de
sentido.
–	Oh,	é	tão	sexy	quando	dizes	palavras	francesas	–	disse-lhe	Jule,	estendendo
a	mão	sobre	o	prato	dele	e	tirando	uma	batata	frita.	–	Estou	a	gozar.
Quando	chegou	a	conta,	Forrest	tirou	o	cartão	de	crédito	da	carteira.	–	Pago
eu,	graças	ao	Gabe	Martin.
–	O	teu	pai?
–	Sim.	Ele	paga	as	contas	deste	bebé	–	Forrest	bateu	no	cartão	–	até	eu	fazer
vinte	e	cinco	anos.	Para	poder	trabalhar	no	meu	romance.
–	 Que	 sorte.	 –	 Jule	 pegou	 no	 cartão.	 Memorizou	 o	 número.	 Virou-o	 e
memorizou	o	código	na	parte	de	trás.–	Nem	sequer	olhas	para	a	conta?
Forrest	riu-se	e	pegou	no	cartão.	Empurrou-o	sobre	o	balcão.	–	Nã.	Vai	para
o	 Connecticut.	 Mas	 tento	 manter-me	 consciente	 do	 meu	 privilégio	 e	 não	 o
tomar	por	garantido.
No	resto	do	caminho	até	ao	Barbican	Centre	sob	uma	chuva	ligeira,	Forrest
segurou	no	guarda-chuva	a	abrigar	os	dois.	Comprou	um	programa,	do	tipo	que
se	 compra	 nos	 teatros	 de	 Londres,	 cheios	 de	 fotografias	 e	 com	 a	 história	 da
produção	da	peça.	Sentaram-se	no	escuro.
Durante	o	intervalo,	Jule	encostou-se	a	uma	parede	do	átrio	e	pôs-se	a	ver	as
pessoas,	Forrest	foi	à	casa	de	banho.	Jule	escutava	as	pronúncias	dos	presentes:
Londres,	 Yorkshire,	 Liverpool.	 Boston,	 Americano	 Genérico,	 Califórnia.
África	do	Sul.	Londres	de	novo.
Com	um	raio.
Paolo	Vallarta-Bellstone	estava	aqui.
Neste	preciso	momento.	Do	outro	lado	do	átrio,	em	frente	a	Jule.
Destacava-se	muito	no	meio	da	multidão	parda.	Trazia	uma	T-shirt	vermelha
por	baixo	de	um	blazer	e	estava	com	ténis	azuis	e	amarelos.	A	fímbria	das	suas
calças	 de	 ganga	 estava	 esfiapada.	 Paolo	 tinha	 mãe	 filipina	 e	 pai	 branco
americano	de	misturada.	Era	assim	que	ele	os	descrevia.	Tinha	cabelo	preto	–
cortado	 curto	 desde	 a	 última	 vez	 que	 Jule	 o	 vira	 –	 e	 sobrancelhas	 delicadas.
Bochechas	 rechonchudas,	 olhos	 castanhos	 e	 lábios	 vermelhos	 macios,	 quase
inchados.	Dentes	direitos.	Paolo	era	o	 tipo	de	 rapaz	que	viaja	pelo	mundo	só
com	 uma	 mochila,	 que	 mete	 conversa	 com	 estranhos	 em	 carrosséis	 e	 em
museus	 de	 cera.	 Era	 um	 conversador	 despretensioso.	 Gostava	 de	 pessoas	 e
pensava	sempre	o	melhor	delas.	Neste	preciso	momento,	estava	a	comer	gomas
Swedish	Fish	que	tirava	de	um	pequeno	saco	amarelo.
Jule	virou-se.	Não	 lhe	agradava	o	quão	 feliz	 se	 sentia.	Não	 lhe	agradava	o
quão	lindo	ele	era.
Não.	Não	queria	ver	Paolo	Vallarta-Bellstone.
Não	podia	vê-lo.	Não	agora	nem	nunca.
Apressou-se	 a	 sair	 do	 átrio	 e	 regressou	 à	 sala	 do	 teatro.	 As	 portas	 duplas
fecharam-se	atrás	de	si.	Não	havia	muitas	pessoas	do	público	ali	dentro.	Só	os
arrumadores	 e	 um	par	 de	 pessoas	 idosas	 que	não	 tinham	querido	 sair	 do	 seu
lugar.
Tinha	de	 ir	 embora	 tão	depressa	quanto	possível,	 sem	ver	Paolo.	Pegou	no
casaco.	Não	esperaria	por	Forrester.
Haveria	uma	saída	lateral	algures?
Ia	 a	 correr	 pela	 coxia	 com	 o	 casaco	 por	 cima	 do	 braço	 –	 e	 ali	 estava	 ele.
Diante	dela.	Estacou.	Não	havia	como	o	evitar	agora.
Paolo	acenou-lhe	com	o	saco	de	gomas	Swedish	Fish.
–	Imogen!	–	Correu	pela	coxia	até	ela	e	beijou-a	na	face.	Jule	sentiu	o	cheiro
a	açúcar	no	seu	hálito.	–	Estou	louco	de	alegria	por	te	ver.
–	Olá	–	disse	ela	friamente.	–	Julguei	que	estavas	na	Tailândia.
–	Os	planos	atrasaram-se	–	disse	Paolo.	–	Adiámos	tudo.	–	Recuou	como	se
para	a	admirar.	–	Deves	ser	a	rapariga	mais	bonita	em	Londres.	Uau.
–	Obrigada.
–	Estou	a	falar	a	sério.	Mulher,	não	rapariga.	Desculpa.	As	pessoas	andam	a
seguir-te	por	toda	a	parte,	tipo	com	a	língua	de	fora?	Como	é	que	ficaste	mais
bonita	 desde	 a	 última	 vez	 que	 te	 vi?	 É	 aterrador.	 Estou	 a	 falar	 demasiado
porque	me	sinto	nervoso.
Jule	sentiu	a	sua	pele	aquecer.
–	Vem	comigo	–	disse	ele.	–	Ofereço-te	um	chá.	Ou	um	café.	O	que	quiseres.
Tinha	saudades	tuas.
–	Eu	também	tinha	saudades	tuas.	–	Não	tencionava	dizer	aquilo.	As	palavras
saíram-lhe	e	eram	verdadeiras.
Paolo	 pegou-lhe	 na	 mão,	 tocando	 só	 nos	 seus	 dedos.	 Sempre	 fora	 assim
autoconfiante.	Embora	 ela	o	 tivesse	 rejeitado,	 ele	viu	 imediatamente	que	não
era	sentido.	Era	supremamente	delicado	e,	no	entanto,	seguro	de	si	ao	mesmo
tempo.	 Tocou-a	 como	 se	 os	 dois	 tivessem	 sorte	 por	 estarem	 a	 tocar	 um	 no
outro;	 como	 se	 soubesse	 que	 ela	 não	 permitia	 com	 muita	 frequência	 que
alguém	lhe	tocasse.	Ponta	do	dedo	contra	ponta	do	dedo,	conduziu	Jule	de	volta
ao	átrio.
–	 Só	 não	 te	 telefonei	 porque	me	 dissestes	 para	 não	 o	 fazer	 –	 disse	 Paolo,
soltando	 a	 sua	 mão	 quando	 se	 puseram	 na	 fila	 para	 o	 chá.	 –	 Apetece-me
telefonar-te	o	tempo	todo.	Todos	os	dias.	Fico	a	olhar	para	o	telemóvel	e	depois
não	 telefono	porque	 não	 quero	 parecer	 sinistro.	Estou	 tão	 contente	 por	 te	 ter
encontrado	por	acaso.	Meu	Deus,	és	linda.
Jule	gostava	da	maneira	como	a	T-shirt	se	ajustava	à	clavícula	dele	e	como	os
seus	 pulsos	 se	 moviam	 contra	 o	 tecido	 do	 casaco.	 Mordia	 o	 lábio	 inferior
quando	estava	preocupado.	O	seu	rosto	curvava	suavemente	contra	as	pestanas
pretas.	Ela	queria	vê-lo	mal	abrisse	os	olhos	de	manhã.	Sentia	que,	se	pudesse
ver	Paolo	Vallarta-Bellstone	mal	acordasse,	tudo	estaria	bem.
–	Continuas	 a	 não	 querer	 voltar	 para	 casa,	 para	Nova	 Iorque?	 –	 perguntou
ele.
–	Não	quero	voltar	para	casa,	nunca	mais	–	disse	 Jule.	Como	 tantas	coisas
que	 dava	 por	 si	 a	 dizer-lhe,	 era	 absolutamente	 verdade.	 Os	 seus	 olhos
encheram-se	de	lágrimas.
–	 Eu	 também	 não	 quero	 ir	 para	 casa	 –	 disse	 ele.	 O	 pai	 de	 Paolo	 era	 um
magnata	 do	 setor	 imobiliário	 que	 fora	 condenado	 por	 abuso	 de	 informação
privilegiada	há	alguns	meses.	Aparecera	em	todas	as	notícias.	–	A	minha	mãe
deixou	o	meu	pai	quando	descobriu	o	que	ele	tinha	andado	a	fazer.	Agora	vive
com	a	irmã	e	vai	de	Nova	Jérsia	para	o	trabalho	todos	os	dias.	As	coisas	estão
uma	 barafunda	 com	 o	 dinheiro,	 e	 há	 advogados	 de	 divórcio	 e	 advogados
criminais	e	mediadores.	Uh.
–	Lamento.
–	 É	 simplesmente	 feio.	 O	 irmão	 do	 meu	 pai	 está	 a	 ser	 mega-racista	 em
relação	 ao	 divórcio.	 Não	 ias	 acreditar	 no	 que	 lhe	 sai	 da	 boca.	 E	 por	 isso	 a
minha	 mãe	 está	 cheia	 de	 raiva,	 francamente.	 Tem	 o	 direito	 de	 estar,	 mas	 é
infernal	 falar	 sequer	 com	 ela	 ao	 telefone.	Acho	 que	 não	 há	 nada,	 realmente,
para	que	voltar.
–	O	que	vais	fazer?
–	Viajar	por	aí	mais	um	bocado.	O	meu	amigo	pode	partir	daqui	a	mais	um
par	de	semanas,	e	depois	vamos	atravessar	de	mochila	às	costas	a	Tailândia,	o
Camboja	 e	 o	Vietname,	 o	mesmo	 plano	 de	 antes.	 Depois	 até	Hong	Kong,	 e
vamos	 visitar	 a	 minha	 avó	 às	 Filipinas.	 –	 Pegou	 de	 novo	 na	 mão	 de	 Jule.
Passou	 um	 dedo	 suavemente	 pela	 palma	 da	 mão	 dela.	 –	 Não	 trazes	 os	 teus
anéis.	–	As	unhas	dela	estavam	pintadas	com	um	verniz	cor-de-rosa	desmaiado.
–	Só	um.	–	Jule	mostrou-lhe	a	outra	mão,	em	que	tinha	o	anel	com	a	víbora
de	 jade.	 –	Os	 outros	 pertenciam	 todos	 a	 uma	 amiga	minha.	 Só	 os	 usava	 por
empréstimo.
–	Pensei	que	eram	teus.
–	Não.	Sim.	Não.	–	Jule	suspirou.
–	Em	que	ficamos?
–	 A	 minha	 amiga	 matou-se	 há	 relativamente	 pouco	 tempo.	 Tínhamos
discutido	 e	 ela	 morreu	 zangada	 comigo.	 –	 Jule	 estava	 a	 dizer	 a	 verdade,	 e
estava	a	mentir.	Estar	com	Paolo	baralhava-lhe	os	pensamentos.	Sabia	que	não
devia	 falar	 mais	 com	 ele.	 Sentia	 as	 histórias	 que	 contava	 a	 si	 mesma	 e	 as
histórias	 que	 contava	 às	 outras	 pessoas	 a	 deslocarem-se,	 a	 sobreporem-se,	 a
mudarem	de	cambiante.	Não	saberia	dizer,	esta	noite,	quais	eram	os	nomes	das
histórias,	o	que	queria	dizer	e	o	que	não	queria.
Paolo	apertou-lhe	a	mão.	–	Lamento	muito.
Jule	saiu-se	com:	–	Diz-me,	achas	que	uma	pessoa	é	tão	má	quanto	as	suas
piores	ações?
–	O	quê?
–	Achas	que	uma	pessoa	é	tão	má	quanto	as	suas	piores	ações?
–	Queres	dizer,	a	tua	amiga	vai	para	o	inferno	porque	se	matou?
–	Não.	–	Não	era	de	modo	nenhum	o	que	Jule	queria	dizer.	–	Quero	dizer	se
as	 nossas	 piores	 ações	 nos	 definem	 quando	 ainda	 estamos	 vivos?	Ou	 pensas
que	nós	os	seres	humanos	somos	melhores	do	que	as	coisas	piores	que	alguma
vez	fizemos?
Paolo	 refletiu.	 –	 Bem,	 vê	 o	 caso	 de	 Leontes	 em	 Um	 Conto	 de	 Inverno.
Tentou	envenenar	o	amigo,	atirou	com	a	própria	mulher	para	a	prisão	e	mandou
abandonar	 a	 filha	 bebé	 num	 lugar	 selvagem.	 Portanto,	 é	 do	 pior	 possível.
Correto?
–	Correto.
–	Mas	no	fim...	já	tinhas	visto	a	peça	antes	desta	noite?
–	Não.
–	No	fim,	arrepende-se.	Sente-se	mesmo,	mesmo	arrependido	de	tudo,	e	isso
é	 suficiente.	 Toda	 a	 gente	 lhe	 perdoa.Shakespeare	 deixa	 que	 o	Leontes	 seja
redimido,	embora	ele	tenha	feito	aquelas	coisas	más	todas.
Jule	sentia	vontade	de	contar	tudo	a	Paolo.
Queria	 revelar-lhe	 o	 seu	 passado	 em	 toda	 a	 sua	 fealdade	 e	 beleza,	 na	 sua
coragem	e	complexidade.	Seria	redimida.
Não	conseguia	falar.
–	Ohhhh	–	disse	Paolo,	arrastando	a	palavra.	–	Não	estamos	a	falar	sobre	a
peça,	pois	não?
Jule	abanou	a	cabeça.
–	Não	estou	zangado	contigo,	Imogen	–	disse	Paolo.	–	Estou	louco	por	ti.	–
Estendeu	 a	 mão	 e	 tocou-lhe	 na	 face.	 A	 seguir,	 passou	 a	 almofada	 do	 seu
polegar	pelo	lábio	inferior	dela.	–	Tenho	a	certeza	de	que	a	tua	amiga	também
não	continua	zangada	contigo,	seja	o	que	for	que	tenha	acontecido	quando	ela
era	viva.	Tu	és	uma	pessoa	excelente,	de	primeira.	Dá	para	ver.
Tinham	 chegado	 à	 frente	 da	 fila.	 –	 Duas	 chávenas	 de	 chá	 –	 disse	 Jule	 à
senhora	que	estava	ao	balcão.	Escorriam-lhe	 lágrimas	dos	olhos,	 embora	não
estivesse	a	chorar.	Tinha	de	parar	de	ser	emotiva.
–	 Isto	 parece	 ser	 conversa	 para	 um	 jantar	 –	 disse	 Paolo.	 Pagou	 o	 chá.	 –
Queres	 jantar	 depois	 da	 peça?	 Ou	 comer	 uns	 bagels?	 Conheço	 um	 pub	 que
serve	bagels	genuínos	de	Nova	Iorque.
Jule	sabia	que	devia	dizer	que	não,	mas	acenou	que	sim	com	a	cabeça.
–	 Bagels,	 ótimo.	 Então,	 por	 agora,	 falemos	 sobre	 coisas	 alegres	 –	 disse
Paolo.	Levaram	as	suas	bebidas	em	copos	de	papel	até	um	balcão	onde	havia
leite	 e	 colheres	 pequenas.	 –	 Eu	 ponho	 duas	 colheres	 de	 açúcar	 e	 uma	 dose
gigantesca	de	leite	gordo.	Como	é	que	tu	bebes	o	chá?
–	Com	 limão	–	 respondeu	 Jule.	–	Preciso,	 tipo,	de	quatro	 rodelas	de	 limão
para	o	chá.
–	OK,	coisas	alegres	e	que	distraiam	–	disse	Paolo	quando	se	dirigiam	para
uma	mesa.	–	Falo	sobre	mim?
–	Não	me	parece	que	alguém	conseguisse	impedir-te.
Paolo	riu-se.	–	Quando	tinha	oito	anos,	parti	o	tornozelo	a	saltar	do	tejadilho
do	carro	do	meu	tio.	Tinha	um	cão	chamado	Twister	e	um	hamster	chamado	St.
George.	 Queria	 ser	 detetive	 quando	 era	 pequeno.	 Vomitei	 por	 comer
demasiadas	cerejas	uma	vez.	E	já	não	saio	com	ninguém	desde	que	me	disseste
para	não	te	telefonar.
Ela	não	conseguiu	deixar	de	sorrir.	–	Mentiroso.
–	Nem	uma	só	mulher.	Estou	aqui	esta	noite	com	o	Artie	Thatcher.
–	O	amigo	do	teu	pai?
–	Aquele	em	casa	de	quem	estou.	Disse	que	eu	não	 tinha	visto	Londres	 se
não	tivesse	visto	a	Royal	Shakespeare	Company.	E	tu?
Jule	foi	trazida	de	volta	à	realidade.
Estava	ali	com	Forrest.
Fora	estúpido,	inacreditavelmente	estúpido,	deixar	que	Paolo	a	descarrilasse.
Decidira	sair	do	teatro.	Mas	depois	ele	roçara	os	lábios	na	face	dela.	Tocara-
lhe	nos	dedos.	Reparara	nas	mãos	dela	e	dissera,	Deus,	como	era	linda.	Disse
que	sentia	vontade	de	lhe	telefonar	todos	os	dias.
Jule	sentira	muitas	saudades	de	Paolo.
Mas	Forrest	estava	ali.
Os	dois	não	podiam	encontrar-se.	Paolo	não	podia	de	maneira	nenhuma	ver
Forrest.
–	Ouve,	tenho	de...
Forrest	apareceu	ao	seu	lado.	Estava	lânguido	e	curvado.
–	Encontraste	um	amigo	–	disse	a	Jule.	Disse-o	como	se	estivesse	a	dirigir-se
a	um	cachorrinho.
Tinham	de	se	ir	embora	imediatamente.	Jule	pôs-se	de	pé.
–	Não	me	 estou	 a	 sentir	 bem	–	 disse.	 –	Sinto	 a	 cabeça	 quente.	Estou	 com
náuseas.	Podes	 levar-me	para	casa?	–	Agarrou	no	pulso	de	Forrest	e	puxou-o
na	direção	das	portas	do	átrio.
–	Estavas	bem	há	um	minuto	–	disse	ele,	a	segui-la.
–	Foi	ótimo	ver-te	–	disse	ela	a	Paolo.	–	Adeus.
Tencionara	 que	Paolo	 ficasse	 sentado	 sem	 se	mexer,	mas	 ele	 levantou-se	 e
seguiu	 Jule	 e	 Forrest	 até	 à	 porta.	 –	 Sou	 o	 Paolo	 Vallarta-Bellstone	 –	 disse,
sorrindo	a	Forrest	enquanto	continuavam	a	andar.	–	Sou	amigo	da	Imogen.
–	Temos	de	ir	embora	–	disse	Jule.
–	Forrest	Smith-Martin	–	respondeu	Forrest.	–	Já	soubeste,	então?
–	Vamos	embora	–	disse	Jule.	–	Imediatamente.
–	Soube	o	quê?	–	disse	Paolo.	Manteve-se	a	par	deles	enquanto	Jule	puxava
Forrest	para	o	exterior.
–	 Desculpem,	 desculpem	 –	 disse	 Jule.	 –	 Passa-se	 algo	 de	 errado	 comigo.
Arranja-me	um	táxi.	Por	favor.
Estavam	 lá	 fora,	 à	 chuva	 intensa.	 O	 Barbican	 Centre	 tinha	 passadiços
compridos	a	ligarem	o	edifício	à	rua.	Jule	arrastou	Forrest	pelo	passeio.
Paolo	parou	sob	o	abrigo	do	edifício,	sem	querer	molhar-se.
Jule	 fez	 paragem	a	 um	 táxi.	Entrou.	Deu	 a	morada	 do	 apartamento	 em	St.
John’s	Wood.
A	seguir,	inspirou	fundo	e	tentou	acalmar-se.	Decidiu	o	que	contar	a	Forrest.
–	Deixei	o	casaco	no	meu	lugar	–	queixou-se	ele.	–	Estás	doente?
–	Não,	realmente	não.
–	Então	o	que	é	que	foi?	Porque	é	que	estamos	a	ir	para	casa?
–	Aquele	tipo	tem	andado	a	incomodar-me.
–	O	Paolo?
–	Sim.	Anda	sempre	a	telefonar-me.	Tipo,	muitas	vezes	ao	dia.	Mensagens.
E-mails.	Acho	que	anda	a	perseguir-me.
–	Tens	relações	esquisitas.
–	Não	é	uma	relação.	Ele	não	aceita	um	não	como	resposta.	Foi	por	isso	que
tive	de	me	vir	embora.
–	Paolo	qualquer	coisa	Bellstone,	correto?	–	disse	Forrest.	–	Era	esse	o	nome
dele?
–	Era.
–	É	da	família	do	Stuart	Bellstone?
–	Não	sei.
–	Mas	esse	era	o	apelido	dele?	Bellstone?	–	Forrest	tinha	tirado	o	telemóvel
do	bolso.	–	Na	Wikipédia	diz...	pois	é,	o	filho	de	Stuart	Bellstone,	o	escândalo
da	transação	D	and	G,	blá,	blá,	o	seu	filho	é	Paolo	Vallarta-Bellstone.
–	Suponho	que	sim	–	disse	Jule.	–	Penso	nele	tão	pouco	quanto	posso.
–	Bellstone,	tem	graça	–	disse	Forrest.–	A	Imogen	conhecia-o?
–	Sim.	Não.	–	Jule	estava	atarantada.
–	É	sim	ou	não?
–	As	famílias	dos	dois	conheciam-se.	Encontrámo-lo	por	acaso	nos	primeiros
tempos	em	Londres.
–	E	agora	ele	anda	a	perseguir-te?
–	Anda.
–	E	nunca	te	passou	pela	cabeça	que	poderia	valer	a	pena	mencionar	à	polícia
este	perseguidor,	o	Bellstone,	no	âmbito	da	investigação	do	desaparecimento	da
Immie?
–	Ele	não	tem	nada	a	ver	com	coisa	nenhuma.
–	Mas	pode	ter.	Há	uma	data	de	coisas	que	não	batem	certo.
–	A	Immie	matou-se	e	é	tudo	–	ripostou	Jule.	–	Estava	deprimida	e	já	não	te
amava	e	também	não	me	amava	o	suficiente	para	continuar	a	viver.	Para	de	te
comportares	como	se	houvesse	mais	alguma	coisa	que	pudesse	ter	acontecido.
Forrest	mordeu	 o	 lábio	 e	 seguiram	 viagem	 em	 silêncio.	Daí	 a	 um	 ou	 dois
minutos,	Jule	olhou	para	o	lado	e	viu	que	ele	estava	a	chorar.
Na	manhã	seguinte,	Forrest	tinha-se	ido	embora.	Simplesmente	não	estava	no
sofá-cama.	O	 seu	 saco	 não	 estava	 no	 armário	 da	 entrada.	As	 suas	 camisolas
felpudas	não	estavam	aqui	e	ali	na	sala.	O	seu	portátil	fora-se,	assim	como	os
seus	romances	francesas.	Deixara	os	pratos	sujos	no	lava-louça.
Jule	não	sentiria	a	sua	falta.	Não	queria	voltar	a	vê-lo.	Mas	não	queria	que	se
fosse	embora	sem	dizer	porquê.
O	que	dissera	Paolo	a	Forrest	na	noite	anterior.	Só	«Sou	amigo	da	Imogen»	e
«Soube	o	quê?»	E	o	seu	nome.	Era	tudo.
Não	ouvira	Paolo	chamar	Imogen	a	Jule.	Ou	ouvira?
Não.
Talvez.
Não.
Porque	é	que	Forrest	queria	que	a	polícia	 investigasse	Paolo?	Pensaria	que
Imogen	 fora	 perseguida	 e	 assassinada?	 Pensaria	 que	 Imogen	 tivera	 um
envolvimento	romântico	com	Paolo?	Pensaria	que	Jule	estava	a	mentir?
Jule	fez	as	malas	e	foi	para	um	albergue	da	juventude	sobre	o	qual	lera	um
artigo,	na	outra	ponta	da	cidade.
O
15
TERCEIRA	SEMANA	DE	FEVEREIRO,	2017
LONDRES
ito	 dias	 antes	 de	 ir	 para	 o	 albergue	 da	 juventude,	 Jule	 telefonara	 do
apartamento	 de	 Londres	 para	 o	 telemóvel	 de	 Forrest.	 Tremiam-lhe	 as
mãos.	 Sentou-se	 na	 bancada	 da	 cozinha	 ao	 lado	 da	 caixa	 do	 pão	 e	 deixou
pender	os	pés.	Era	de	manhã	muito	cedo.	Queria	despachar	aquele	telefonema.
–	Olá,	Jule	–	disse	ele.	–	A	Imogen	já	voltou?
–	Não,	ainda	não.
–	Oh.	–	Houve	uma	pausa.	–	Então	porque	me	estás	a	telefonar?	–	O	desdém
na	voz	de	Forrest	era	palpável.
–	Tenho	más	notícias	–	disse	Jule.	–	Lamento	muito.
–	O	que	foi?
–	Onde	estás?
–	Na	tabacaria.	A	que,	ao	que	parece,	chamam	outra	coisa	aqui.
–	Devias	sair	para	a	rua.
–	Está	bem.	–	Jule	aguardou	enquanto	ele	dava	uns	passos.	–	O	que	 foi?	–
perguntou	Forrest.
–	Encontrei	uma	mensagem,	no	apartamento.	Da	Imogen.
–	Que	tipo	de	mensagem?
–	Estava	na	caixa	do	pão.Vou	lê-la.	–	Jule	segurou	o	papel	entre	os	dedos.
Havia	 as	 letras	 altas	 e	 floreadas	 da	 assinatura	 de	 Immie,	 as	 suas	 expressões
típicas	e	as	suas	palavras	favoritas.
Olá,	Jule.	Quando	leres	isto,	eu	já	terei	tomado	uma	dose	excessiva	de	soníferos.	E	depois	terei
apanhado	um	táxi	para	me	levar	à	ponte	de	Westminster.
Vou	 ter	 pedras	 nos	 bolsos.	Uma	 data	 de	 pedras.	 Tenho	 andado	 a	 juntá-las	 a	 semana	 toda.	 E
estarei	afogada,	O	rio	ter-me-á,	e	sentirei	algum	alívio.
Tenho	a	certeza	de	que	te	perguntarás	porquê.	É	difícil	dar	uma	resposta.	Nada	está	bem.	Já	não
me	sinto	em	casa.	Nunca	me	senti	em	casa.	Penso	que	nunca	me	sentirei.
O	 Forrest	 não	 era	 capaz	 de	 compreender.	 Nem	 a	 Brooke.	Mas	 tu	 –	 penso	 que	 compreendes.
Conheces	o	meu	eu,	que	mais	ninguém	pode	amar.	Se	há	um	eu,	de	todo.
Immie
–	Oh,	meu	Deus.	Oh,	meu	Deus	–	disse	Forrest	uma	e	outra	vez.
Jule	pensou	na	linda	ponte	de	Westminster	com	os	seus	arcos	de	pedra	e	os
seus	gradeamentos	verdes,	e	no	rio	caudaloso	e	frio	que	corria	por	baixo	dela.
Pensou	no	corpo	de	Immie,	uma	camisa	branca	à	flutuar	à	sua	volta,	de	rosto
para	baixo	na	água,	numa	poça	de	sangue.	Sentia	realmente	de	modo	agudo	a
perda	de	 Imogen	Sokoloff,	mais	 do	que	Forrest	 alguma	vez	poderia	 sentir.	 –
Escreveu	 esta	 mensagem	 há	 dias	 –	 disse	 Jule	 a	 Forrest	 quando	 ele	 ficou
finalmente	em	silêncio.	–	Está	desaparecida	desde	quarta-feira.
–	Disseste	que	tinha	ido	para	Paris.
–	Estava	a	assumir.
–	Talvez	não	se	tenha	atirado	da	ponte.
–	Deixou	uma	mensagem	de	suicídio.
–	Mas	porquê?	Porque	o	faria?
–	Nunca	se	sentiu	em	casa.	Sabes	que	isso	era	verdade	quanto	a	ela.	Disse-o
na	mensagem.	–	Jule	engoliu	em	seco	e	depois	disse	o	que	sabia	que	Forrest
quereria	ouvir.	–	O	que	achas	que	devíamos	 fazer?	Não	sei	o	que	 fazer.	És	a
primeira	pessoa	a	quem	contei.
–	Vou	para	aí	–	disse	Forrest.	–	Telefona	à	polícia.
Forrest	chegou	ao	apartamento	daí	a	duas	horas.	Estava	com	um	ar	ausente	e
desgrenhado.	Trouxera	a	sua	bagagem	do	hotel	e	declarou	que	dormiria	no	sofá
na	 salinha	até	as	coisas	 se	 resolverem.	 Jule	podia	dormir	no	quarto.	Nenhum
dos	dois	devia	ficar	só,	disse.
Ela	 não	 o	 queria	 ali.	 Estava	 a	 sentir-se	 triste	 e	 vulnerável.	 Com	 Forrest,
preferia	ter	a	armadura	posta.	No	entanto,	ele	era	bom	numa	situação	de	crise,
reconhecia-lhe	isso.	Pôs-se	a	enviar	mensagens	e	a	telefonar	às	pessoas,	e	falou
com	todas	com	uma	delicadeza	extrema	que	Jule	não	sabia	que	ele	possuía.	Os
Sokoloff,	 os	 seus	 amigos	 de	 Martha’s	 Vineyard,	 os	 amigos	 de	 Immie	 da
faculdade:	 Forrest	 contactou	 todos	 pessoalmente,	 riscando-os	 ordenadamente
de	uma	lista	que	elaborara.
Jule	 telefonou	 para	 a	 polícia	 de	 Londres.	 Eles	 chegaram,	 todos	 enérgicos,
enquanto	 Forrest	 estava	 ao	 telefone	 com	 Patti.	 Os	 agentes	 pegaram	 na
mensagem	escrita	na	letra	de	Imogen	e	depois	pediram	um	depoimento	a	Jule	e
a	Forrest.
Concordaram	que	não	dava	a	ideia	de	que	Immie	tivesse	ido	viajar.	As	suas
malas	 encontravam-se	 no	 armário,	 assim	 como	 as	 suas	 roupas.	A	 carteira	 do
dinheiro	e	os	cartões	de	crédito	estavam	numa	mala	de	mão	que	encontraram.
O	seu	portátil	não	estava	no	apartamento,	no	entanto,	e	a	carta	de	condução	e	o
passaporte	também	não.
Forrest	 perguntou	 a	 um	agente	 se	 a	mensagem	de	 suicídio	 não	 poderia	 ser
forjada.	–	Talvez	um	raptor	quisesse	desviar	as	suspeitas	–	disse.	–	Ou	talvez
seja	 uma	 mensagem	 que	 ela	 foi	 forçada	 a	 escrever?	 Há	 alguma	maneira	 de
descobrirem	se	ela	foi	forçada	a	escrevê-la?
–	 Forrest,	 a	 mensagem	 estava	 dentro	 da	 caixa	 do	 pão	 –	 lembrou-lhe	 Jule
delicadamente.	–	A	Immie	deixou-ma	na	caixa	do	pão.
–	Porque	é	que	Miss	Sokoloff	haveria	de	ser	raptada?	–	perguntou	o	agente.
–	 Por	 dinheiro.	 Alguém	 pode	 tê-la	 refém	 pelo	 resgate.	 É	 estranho	 que	 o
portátil	 dela	 tenha	 desaparecido.	 Ou	 podia	 ter	 sido	 assassinada.	 Tipo,	 por
alguém	que	a	obrigou	a	escrever	a	mensagem.
Os	agentes	escutaram	as	teorias	de	Forrest.	Lembraram	que	ele	próprio	era	a
pessoa	mais	 suspeita:	 um	 ex-namorado	 que	 chegara	 recentemente	 à	 cidade	 à
procura	 de	 Imogen.	 Contudo,	 deixaram	 também	 claro	 que	 não	 suspeitavam
realmente	de	um	crime	de	qualquer	 tipo.	Procuraram	sinais	de	uma	 luta,	mas
não	encontraram	nenhum.
Forrest	disse	que	Imogen	podia	ter	sido	raptada	fora	do	apartamento,	mas	os
agentes	lembraram-lhe	a	caixa	do	pão.	–	A	mensagem	de	suicídio	deixa-o	claro
–	disseram.	Perguntaram	se	aquela	era	a	 letra	de	 Immie	e	 Jule	disse	que	era.
Perguntaram	 a	Forrest,	 e	 ele	 também	disse	 que	 era.	Ou,	 pelo	menos,	 parecia
ser.
Jule	 deu-lhes	 o	 telemóvel	 do	 Reino	 Unido	 de	 Imogen.	 Só	 mostrava
telefonemas	para	museus	locais	e	e-mails	dos	pais	dela,	de	Forrest,	de	Vivian
Abromowitz	 e	 de	 mais	 alguns	 amigos	 que	 Jule	 pôde	 identificar.	 Os	 agentes
pediram	os	extratos	bancários	de	Immie.	Jule	deu-lhes	alguns	papéis	impressos
a	partir	do	computador	em	falta.	Encontravam-se	numa	gaveta	da	secretária	na
sala	de	estar.
Os	 agentes	 prometeram	 procurar	 o	 corpo	 de	 Imogen	 no	 rio,	 mas	 também
observaram	 que	 se	 o	 seu	 corpo	 estivesse	 pesado	 com	 pedras	 não	 viria
facilmente	à	tona.	Provavelmente,	teria	sido	afastado	da	ponte	de	Westminster
pela	corrente.
Se	chegassem	a	encontrá-la,	poderia	demorar	dias	ou	mesmo	semanas.
S
14
FINAIS	DE	DEZEMBRO,	2016
LONDRES
eis	 semanas	 antes,	 Jule	 chegou	 a	Londres	 pela	 primeira	 vez.	Era	 o	 dia	 a
seguir	ao	Natal.	Apanhou	um	táxi	para	o	hotel	onde	reservara	um	quarto.	O
dinheiro	inglês	era	demasiado	grande	para	caber	bem	na	sua	carteira.	O	táxi	foi
caro	como	tudo,	mas	ela	não	se	importou.	Tinha	fundos.
O	 hotel	 era	 um	 edifício	 velho	 e	 formal,	 com	 o	 interior	 remodelado.	 Um
cavalheiro	 com	 um	 casaco	 aos	 quadrados	 estava	 sentado	 a	 uma	 secretária.
Tinha	um	 registo	da	 reserva	 e	 acompanhou	pessoalmente	 Jule	 ao	 seu	quarto.
Falou	com	ela	enquanto	um	empregado	levava	a	sua	bagagem.	Ela	adorava	a
maneira	como	ele	falava,	como	se	tivesse	saído	de	um	romance	de	Dickens.
As	 paredes	 da	 suite	 estavam	 forradas	 com	 um	 papel	 toile	 de	 Jouy	preto	 e
branco.	Cortinas	de	um	brocado	pesado	cobriam	as	 janelas.	A	casa	de	banho
tinha	 aquecimento	 no	 chão.	 As	 toalhas	 eram	 brancas	 e	 texturadas	 com
pequenos	 quadrados.	 Havia	 sabonetes	 de	 alfazema	 embrulhados	 em	 papel
pardo.
Jule	mandou	vir	um	bife.	Quando	veio	o	que	pediu,	comeu	tudo	e	bebeu	dois
grandes	copos	de	água.	Depois	disso,	dormiu	durante	dezoito	horas.
Quando	acordou,	sentia-se	eufórica.
Era	uma	nova	cidade	e	um	país	estrangeiro,	a	cidade	de	A	Feira	das	Vaidades
e	de	Grandes	Esperanças.	Era	a	cidade	de	Immie,	mas	tornar-se-ia	a	cidade	de
Jule,	assim	como	os	livros	que	Immie	adorava	se	tinham	tornado	parte	de	Jule
também.
Abriu	as	cortinas.	Londres	estendia-se	lá	em	baixo.	Autocarros	vermelhos	e
táxis	pretos	como	escaravelhos	avançavam	lentamente	por	entre	o	trânsito	em
ruas	estreitas.	Os	edifícios	pareciam	ter	centenas	de	anos.	Pensou	em	todas	as
vidas	 que	 estavam	 a	 ser	 vividas	 ali	 em	 baixo,	 pessoas	 a	 conduzirem	 pela
esquerda,	a	comerem	crumpets,	a	beberem	chá,	a	verem	televisão.
Jule	sentia-se	despida	de	culpa	e	de	arrependimento,	como	se	tivesse	largado
uma	 pele.	 Via-se	 como	 uma	 justiceira	 solitária,	 um	 super-herói	 em	 repouso,
uma	 espia.	 Era	 mais	 corajosa	 do	 que	 qualquer	 outra	 pessoa	 no	 hotel,	 mais
corajosa	do	que	toda	a	Londres,	mais	corajosa	do	que	o	comum,	de	longe.
No	verão	em	Martha’s	Vineyard,	Immie	dissera	a	Jule	que	era	proprietária	de
um	apartamento	em	Londres.	Disse:	–	As	chaves	estão	aqui	mesmo.	Podíamos
ir	amanhã	–	e	deu	uma	palmadinha	na	sua	carteira.
Mas	não	voltou	a	mencionar	aquilo.
Agora,	 Jule	 telefonou	 ao	 zelador	 do	 prédio	 que	 tratava	 dos	 assuntos	 do
apartamento	e	disse-lhe	que	Immie	tinha	chegado.	Ele	poderia	mandar	limpar	e
arejar	 o	 apartamento?	 Poderia	mandar	 trazer	 alguns	 produtos	 de	mercearia	 e
umas	flores?	Sim,tudo	isso	poderia	ser	tratado.
Quando	o	apartamento	ficou	pronto,	a	chave	de	Immie	rodou	facilmente	na
fechadura.	Era	um	apartamento	grande	com	um	quarto	e	uma	sala	em	St.	John’s
Wood,	 perto	 de	 muitas	 lojas.	 Ocupava	 o	 último	 andar	 de	 uma	 casa	 antiga
pintada	de	branco	e	 tinha	 janelas	com	vista	para	árvores.	Nos	armários	havia
toalhas	macias	 e	 lençóis	 com	 uma	 lista	 de	 um	 tecido	mais	 grosso.	 Só	 havia
banheira,	não	chuveiro.	O	frigorífico	era	minúsculo	e	a	cozinha	bastante	básica.
Immie	mandara	arranjar	o	apartamento	antes	de	ter	aprendido	a	cozinhar.	Mas
isso	não	importava.
No	 mês	 de	 junho	 depois	 de	 acabar	 o	 secundário,	 Jule	 sabia,	 Imogen
frequentara	 um	programa	de	verão	no	 estrangeiro,	 em	Londres.	Durante	 esse
tempo,	comprou	o	apartamento	a	conselho	do	seu	consultor	financeiro.	A	venda
processou-se	 rapidamente	 e	 Immie	 e	 os	 seus	 amigos	 tinham	 andado	 às
compras,	 de	 antiguidades	 no	 mercado	 de	 Portobello	 Road	 e	 de	 têxteis	 nos
armazéns	Harrods.	Immie	cobrira	a	porta	da	frente	com	fotografias	instantâneas
desse	verão	–	 talvez	umas	cinquenta.	Na	maioria,	aparecia	com	um	grupo	de
raparigas	e	rapazes,	com	o	braço	por	cima	uns	dos	outros,	em	frente	a	lugares
como	a	Torre	de	Londres	ou	o	museu	Madame	Tussauds.
Jule	arrumou	as	suas	coisas	no	apartamento	e	a	seguir	tirou	as	fotografias	da
porta.	Atirou-as	para	o	caixote	do	lixo	e	levou	o	saco	para	a	cave.
*
Nas	semanas	que	se	seguiram,	Jule	adquiriu	um	novo	portátil	e	pôs	os	dois
velhos	 no	 incinerador.	 Foi	 a	 museus	 e	 restaurante,	 comendo	 bifes	 em
estabelecimentos	tranquilos	e	hambúrgueres	em	pubs	ruidosos.	Era	encantadora
com	 os	 empregados.	 Metia	 conversa	 com	 livreiros	 e	 apresentava-se	 como
Imogen.	 Falava	 com	 turistas	 –	 pessoas	 temporárias	 –	 e	 por	 vezes	 fazia	 uma
refeição	com	eles	ou	acompanhava-os	ao	teatro.	Sentia-se	como	imaginava	que
Immie	 se	 sentiria:	 bem-vinda	 em	 toda	 a	 parte.	 Mantinha	 o	 seu	 regime	 de
exercício	físico	e	só	comia	comida	de	que	gostava.	A	não	ser	isso,	vivia	a	vida
de	Imogen.
No	início	da	sua	terceira	semana	em	Londres,	Jule	foi	ao	Madame	Tussauds.
O	museu	 é	 uma	 atração	 famosa,	 cheia	 de	 atores	 de	Bollywood,	membros	 da
família	real	e	estrelas	de	bandas	de	música	pop	adolescentes,	todos	esculpidos
em	cera.	Aquele	lugar	estava	apinhado	de	crianças	americanas	a	falarem	alto	e
dos	seus	pais	irritados.
Jule	 estava	 a	 olhar	 para	 o	 modelo	 em	 cera	 de	 Charles	 Dickens,	 que	 se
encontrava	 sentado	 com	 cara	 de	 poucos	 amigos	 numa	 cadeira	 de	 madeira,
quando	alguém	falou	com	ela.
–	 Se	 ele	 vivesse	 agora	 –	 disse	 Paolo	 Vallarta-Bellstone	 –	 rapava	 aquela
cabeça	meio	careca.
–	Se	vivesse	agora	–	disse	Jule	–	escreveria	para	a	televisão.
–	Lembras-te	de	mim?	–	perguntou	ele.	–	Sou	o	Paolo.	Conhecemo-nos	no
verão	 em	Martha’s	 Vineyard.	 –	 Estava	 com	 um	 sorriso	 tímido.	 Vestia	 umas
calças	 de	 ganga	 velhas	 e	 uma	 T-shirt	 cor	 de	 laranja	 macia.	 Uns	Vans	 todos
velhos.	 Andava	 a	 viajar	 de	 mochila	 às	 costas,	 Jule	 sabia-o.	 –	 Mudaste	 de
penteado	–	acrescentou	ele.	–	Não	tinha	a	certeza	se	eras	tu,	ao	princípio.
Tinha	 bom	 aspeto.	 Jule	 esquecera-se	 de	 como	 tinha	 bom	 aspeto.	 Beijara-o
uma	vez.	O	seu	cabelo	preto	e	 farto	 tombava-lhe	para	o	 rosto.	As	 suas	 faces
pareciam	ligeiramente	queimadas	pelo	sol	e	os	seus	lábios	um	pouco	gretados.
Talvez	tivesse	estado	a	esquiar.
–	Lembro-me	de	ti	–	disse	ela.	–	Não	consegues	decidir-te	entre	caramelo	e
doce	 de	 leite,	 enjoas	 em	 carrosséis,	 talvez	 queiras	 vir	 a	 ser	 médico	 um	 dia.
Jogas	golfe,	o	que	é	um	bocado	conservador;	andas	a	viajar	pelo	mundo,	o	que
é	interessante;	segues	raparigas	em	museus	e	apareces-lhes	de	surpresa	quando
elas	param	para	olhar	para	um	romancista	famoso	feito	de	cera.
–	Só	vou	dizer	obrigado	–	disse	Paolo	–,	embora	tenhas	feito	um	comentário
mauzinho	sobre	o	golfe.	Fico	contente	por	te	lembrares	de	mim.	Já	o	leste?	–
Apontou	para	Dickens.	–	Era	suposto	que	o	lesse	na	escola,	mas	não	me	dei	a
esse	trabalho.
–	Já.
–	Qual	é	o	melhor	romance	dele,	na	tua	opinião?
–	Grandes	Esperanças.
–	Sobre	o	que	é?	–	Paolo	não	estava	a	olhar	para	a	figura	de	cera.	Estava	a
olhar	 para	 Jule,	 atentamente.	 Estendeu	 a	mão	 e	 passou-a	 pelo	 braço	 de	 Jule
enquanto	 ela	 respondia.	 Era	 um	 gesto	 muito	 confiante,	 tocar-lhe	 assim,
segundos	depois	de	voltar	a	apresentar-se.	Normalmente,	ela	não	deixava	que
as	pessoas	lhe	tocassem,	mas	com	Paolo	não	se	importou.	Era	muito	delicado.
–	 Um	 rapaz	 órfão	 apaixona-se	 por	 uma	 rapariga	 rica	 –	 disse-lhe	 ela.	 –	 O
nome	dela	é	Estella.	E	a	Estella	foi	treinada	toda	a	vida	para	quebrar	o	coração
dos	homens,	e	talvez	não	tenha	ela	própria	coração.	Foi	criada	por	uma	senhora
louca	que	foi	abandonada	pelo	noivo	no	altar.
–	Então	essa	tal	Estella	quebra	o	coração	do	rapaz?
–	Muitas	vezes.	De	propósito.	A	Estella	não	sabe	fazer	outra	coisa.	Quebrar
corações	é	o	seu	único	poder	no	mundo.	–	Afastaram-se	de	Dickens	para	uma
secção	diferente	do	museu.	–	Estás	aqui	sozinho?	–	perguntou	Jule.
–	Estou	com	um	amigo	do	meu	pai.	Estou	na	casa	dele	por	uns	dias.	Ele	quer
mostrar-me	a	cidade,	só	que	tem	de	estar	sempre	a	sentar-se.	O	Artie	Thatcher,
conhece-lo?
–	Não.
–	A	ciática	dele	agravou-se.	Foi	descansar	no	salão	de	chá.
–	E	a	que	propósito	é	que	estás	em	Londres?
–	Fiz	a	coisa	de	andar	de	mochila	às	costas	por	Espanha,	Portugal,	França,
Alemanha,	Holanda	 e	 França	 outra	 vez.	Depois	 vim	 para	 cá.	 Estava	 a	 viajar
com	um	amigo,	mas	ele	foi	a	casa	passar	o	Natal	e	não	me	apeteceu	voltar,	por
isso	vim	ficar	com	o	Artie	durante	a	época	festiva.	E	tu?
–	Tenho	um	apartamento	aqui.
Paolo	aproximou-se	mais	e	apontou	para	um	corredor	escuro.	–	Ei,	ali	fica	a
Câmara	 dos	 Horrores,	 ao	 fundo	 daquele	 corredor.	 Vens	 lá	 dentro	 comigo?
Preciso	de	proteção.
–	De	quê?
–	Das	figuras	de	cera	loucamente	assustadoras,	é	do	quê	–	disse	Paolo.	–	É
uma	prisão	com	presos	evadidos.	Vi	na	Internet.	Uma	data	de	sangue	e	tripas.
–	E	queres	ir?
–	Adoro	sangue	e	tripas.	Mas	não	sozinho.	–	Sorriu.	–	Vens	para	me	proteger
dos	 internados	 do	 asilo,	 Imogen?	 –	 Estavam	 agora	 à	 porta	 da	 Câmara	 dos
Horrores.
–	Com	certeza	–	disse	Jule.	–	Eu	protejo-te.
Não	tinham	havido	três	namorados	em	Stanford.
Nunca	 tinham	 havido	 três	 namorados	 em	 lado	 nenhum.	 Ou	 mesmo	 um
namorado.
Jule	não	precisava	de	um	 tipo,	não	 tinha	a	certeza	se	gostava	de	 tipos,	não
tinha	a	certeza	se	gostava	fosse	de	quem	fosse.
Ficara	de	se	encontrar	com	Paolo	às	oito	horas.	Escovou	os	dentes	três	vezes
e	mudou	de	roupa	duas.	Pôs	perfume	de	jasmim.
Quando	 o	 avistou	 à	 espera	 junto	 ao	 carrossel	 onde	 tinham	 combinado
encontrar-se,	 quase	 deu	 meia	 volta	 e	 se	 foi	 embora.	 Paolo	 estava	 a	 ver	 um
artista	de	rua.	Tinha	o	cachecol	bem	apertado	a	proteger-se	do	vento	de	janeiro.
Jule	 disse	 a	 si	 mesma	 que	 não	 devia	 tornar-se	 próxima	 de	 ninguém.	 Não
havia	 ninguém	 por	 quem	 valesse	 a	 pena	 correr	 esse	 risco.	 Ir-se-ia	 embora
imediatamente,	 estava	 a	 ponto	 de	 ir	 embora	 –	mas	 Paolo	 avistou-a	 e	 correu
para	ela	a	toda	a	velocidade,	como	um	rapazinho,	estacando	antes	de	esbarrar
contra	ela.	Fê-la	rodar	segurando-a	pelos	pulsos	e	disse:	–	Ena	pá,	é	como	um
filme.	Consegues	acreditar	que	estamos	em	Londres?	Tudo	o	que	conhecemos
está	do	outro	lado	do	oceano.
E	tinha	razão.	Tudo	estava	do	outro	lado	do	oceano.
Esta	noite	correria	bem.
Paolo	 levou	 Jule	 a	 passear	 ao	 longo	 do	 Tamisa.	 Havia	 artistas	 de	 rua	 a
tocarem	 acordeão	 e	 a	 equilibrarem-se	 em	 cordas	 bambas	 baixas.	 Os	 dois
andaram	a	dar	uma	vista	de	olhos	numa	livraria	durante	algum	tempo	e	depois
Jule	comprou	algodão	doce	para	ambos.	Enfiando	nuvens	cor-de-rosa	doces	na
boca,	dirigiram-se	para	a	ponte	de	Westminster.
Paolo	 pegou	 na	 mão	 de	 Jule	 e	 ela	 deixou.	 Ele	 acariciava-lhe	 o	 pulso
suavemente	de	vez	em	quando	com	a	almofada	do	polegar.	Aquilo	provocava
em	Jule	uma	excitação	quentepelo	braço	acima.	Surpreendia-a	que	o	seu	toque
pudesse	dar	uma	sensação	tão	reconfortante.
A	ponte	de	Westminster	era	uma	série	de	arcos	de	pedra	sobre	o	rio,	cinza	e
verde.	As	luzes	dos	candeeiros	na	parte	de	cima	da	ponte	incidiam	na	corrente
forte	do	rio.
–	A	coisa	pior	naquela	Câmara	dos	Horrores	era	o	Jack,	o	Estripador	–	disse
Paolo.	–	Sabes	porquê?
–	Porquê?
–	Um,	porque	nunca	 chegou	 a	 ser	 apanhado.	E	dois,	 porque	 consta	 que	 se
matou	atirando-se	precisamente	desta	ponte.
–	Não	acredito.
–	Podes	crer.	Provavelmente,	estava	aqui	mesmo	quando	se	atirou	ao	rio.	Li
na	Internet.
–	 Isso	 é	 uma	 treta	 absoluta	 –	 disse	 Jule.	 –	Ninguém	 sabe	 sequer	 quem	era
realmente	o	Jack,	o	Estripador.
–	Tens	razão	–	disse	ele.	–	É	uma	treta.
Beijou-a	 então,	 à	 luz	 de	 um	 candeeiro.	 Como	 uma	 cena	 de	 um	 filme.	 As
pedras	estavam	húmidas	no	nevoeiro	e	brilhavam.	As	abas	dos	casacos	deles
adejavam	ao	vento.	Jule	tremia	com	o	ar	da	noite	e	Paolo	pôs	a	sua	mão	quente
contra	o	pescoço	dela.
Beijou-a	como	se	não	conseguisse	 imaginar	querer	estar	em	qualquer	outra
parte	à	 face	do	planeta,	porque	aquilo	não	era	 tão	agradável	 e	não	dava	uma
sensação	mesmo	boa?	Como	se	soubesse	que	ela	não	deixava	que	as	pessoas
lhe	tocassem,	e	soubesse	que	o	deixaria	a	ele,	e	que	era	o	tipo	mais	sortudo	do
mundo.	Jule	sentiu-se	como	se	o	rio	por	baixo	dela	estivesse	a	correr-lhe	nas
veias.
Queria	ser	ela	própria	com	ele.
Perguntou-se	 se	 estaria	 a	 ser	 ela	 própria.	 Se	 poderia	 continuar	 a	 ser	 ela
própria.
E	se	alguém	poderia	amar	a	pessoa	que	ela	era.
Soltaram-se	 dos	 braços	 um	 do	 outro	 e	 caminharam	 em	 silêncio	 por	 um
minuto.	Um	grupo	de	quatro	mulheres	jovens	bêbedas	estava	a	dirigir-se	para
eles,	a	atravessar	a	ponte	com	passos	incertos	de	tacões	altos.	–	Não	posso	crer
que	nos	puseram	fora	–	queixou-se	uma	delas,	a	arrastar	as	palavras.
–	 Deviam	 querer-nos	 como	 clientes,	 aqueles	 cabrões	 –	 disse	 outra.	 A
pronúncia	delas	era	do	Yorkshire.
–	 Ooh,	 ele	 é	 giro.	 –	 A	 primeira	 olhou	 para	 Paolo	 a	 uma	 distância	 de	 três
metros.
–	Achas	que	ele	quer	ir	beber	um	copo?
–	Ah!	Atrevida.
–	Não	sei.	Pergunta-lhe.
Uma	das	mulheres	berrou:	–	Se	quer	uma	saída	à	noite,	bom	senhor,	pode	vir
connosco.
Paolo	corou.	–	O	quê?
–	Vens	daí?	–	perguntou	ela.	–	Só	tu.
Paolo	abanou	a	cabeça.	As	mulheres	continuaram	a	andar,	a	rir-se,	e	ele	ficou
a	olhar	para	elas	até	saírem	da	ponte.	A	seguir,	pegou	de	novo	na	mão	de	Jule.
O	clima	entre	os	dois	estava	diferente,	no	entanto.	Já	não	sabiam	o	que	dizer
um	ao	outro.
Por	fim,	Paolo	disse:	–	Conhecias	a	Brooke	Lannon?
O	quê?
A	amiga	de	Imogen,	Brooke.	O	que	é	que	Paolo	tinha	que	ver	com	Brooke?
Jule	aligeirou	o	tom	de	voz.	–	Conhecia,	de	Vassar.	Porquê?
–	A	Brooke...	faleceu	há	cerca	de	uma	semana.	–	Paolo	olhou	para	o	chão.
–	O	quê?	Oh,	não.
–	Não	era	minha	intenção	ser	eu	a	dizer-te.	Não	me	ocorreu	que	a	conhecias
até	este	momento	–	disse	Paolo.	–	E	depois	saiu-me.
–	Como	é	que	conhecias	a	Brooke?
–	Não	a	conhecia,	realmente.	Era	amiga	da	minha	irmã,	dos	acampamentos
de	verão.
–	 O	 que	 aconteceu?	 –	 Jule	 queria	 ouvir	 a	 resposta	 dele,	 queria-o
desesperadamente,	mas	acalmou	a	voz.
–	 Foi	 um	 acidente.	 Ela	 estava	 no	 cimo	 de	 um	 parque	 a	 norte	 de	 São
Francisco.	Estava	lá	a	visitar	uns	amigos	que	andavam	na	faculdade	na	cidade,
mas	 eles	 estavam	 ocupados,	 ou	 algo	 do	 género,	 e	 a	 Brooke	 foi	 fazer	 uma
caminhada.	Era	uma	caminhada	durante	o	dia,	mas	já	tarde,	quando	começava
a	ficar	escuro.	Estava	numa	reserva	natural	sozinha.	E	simplesmente...	caiu	de
um	passadiço.	Um	passadiço	por	cima	de	uma	ravina.
–	Caiu?
–	 Acham	 que	 tinha	 estado	 a	 beber.	 Bateu	 com	 a	 cabeça	 e	 ninguém	 a
encontrou	até	de	manhã.	Só	alguns	animais.	O	corpo	estava	bastante	destruído.
Jule	 estremeceu.	 Pensou	 em	 Brooke	 Lannon,	 com	 o	 seu	 riso	 alto	 e
espalhafatoso.	Brooke,	 que	 bebia	 demasiado.	Brooke,	 com	 aquele	 sentido	 de
humor	perverso,	 o	 cabelo	 amarelo	 liso	 e	brilhante	 e	o	 corpo	 como	o	de	uma
foca.	 A	 linha	 do	 maxilar	 de	 quem	 se	 acha	 com	 direito	 a	 tudo.	 A	 tonta,
mesquinha,	áspera	Brooke.	–	Como	sabem	o	que	aconteceu?
–	Debruçou-se	do	gradeamento.	Talvez	tenha	trepado	para	ver	alguma	coisa.
Encontraram	 o	 carro	 dela	 no	 parque	 de	 estacionamento	 com	 uma	 garrafa	 de
vodca	vazia	lá	dentro.
–	Foi	suicídio?
–	Não,	não.	Foi	só	um	acidente.	Veio	nas	notícias	hoje,	como	uma	história	a
servir	 de	 aviso.	 Sabes,	 leva	 sempre	 um	 amigo	 quando	 vais	 para	 o	 meio	 da
Natureza.	Não	 bebas	 vodca	 antes	 de	 atravessares	 uma	 ravina.	A	 família	 dela
ficou	preocupada	quando	ela	não	apareceu	em	casa	na	véspera	de	Natal,	mas	a
polícia	supôs	que	ela	se	tinha	ausentado	deliberadamente.
Jule	sentia-se	 fria	e	estranha.	Não	pensava	em	Brooke	desde	que	chegara	a
Londres.	Poderia	 tê-la	pesquisado	na	Internet,	mas	não	o	tinha	feito.	Excluíra
completamente	Brooke	dos	seus	pensamentos.	–	Tens	a	certeza	de	que	foi	um
acidente?
–	Um	acidente	terrível	–	disse	Paolo.	–	Lamento	muito.
Continuaram	a	andar	uns	momentos	num	silêncio	embaraçado.
Paolo	puxou	o	gorro	para	baixo	a	tapar	as	orelhas.
Ao	fim	de	um	minuto,	Jule	estendeu	a	mão	e	pegou	de	novo	na	dele.	Queria
tocar-lhe.	 Admitir	 isso	 e	 fazê-lo	 dava-lhe	mais	 a	 sensação	 de	 ser	 um	 ato	 de
coragem	do	que	qualquer	luta	em	que	alguma	vez	se	tivesse	envolvido.	–	Não
pensemos	 nisso	 –	 disse.	 –	 Vamos	 só	 pensar	 que	 estamos	 no	 outro	 lado	 do
oceano	e	sentirmo-nos	com	sorte.
Deixou	que	Paolo	 a	 acompanhasse	 a	 casa	 e	 ele	 beijou-a	mais	 uma	vez	 em
frente	 ao	 prédio	 dela.	 Enroscaram-se	 um	 no	 outro	 nos	 degraus	 para	 se
manterem	quentes	enquanto	uns	alegres	flocos	de	neve	flutuavam	pelo	ar.
No	 dia	 seguinte,	 de	manhã	 cedo,	 Paolo	 apareceu	 no	 apartamento	 com	 um
saco.	Jule	estava	com	calças	de	pijama	e	uma	camisola	interior	de	alças	quando
ele	tocou	à	campainha.	Fê-lo	esperar	na	entrada	enquanto	se	vestia.
–	Pedi	emprestada	a	casa	do	meu	amigo	no	Dorset	–	disse	ele,	seguindo-a	até
à	 cozinha.	E	 aluguei	 um	 carro.	Tudo	 o	mais	 de	 que	 alguém	poderia	 precisar
para	um	fim	de	semana	fora	está	neste	saco.
Jule	 espreitou	 para	 dentro	 do	 saco	 que	 ele	 lhe	 estendia:	 quatro	 chocolates
Crunchie,	Hula	Hoops,	Swedish	 Fish,	 duas	 garrafas	 de	 água	 com	 gás	 e	 um
pacote	 de	 batatas	 fritas	 com	 sal	 e	 vinagre.	 –	 Não	 tens	 nenhumas	 roupas	 aí
dentro.	Nem	sequer	uma	escova	dos	dentes.
–	Isso	é	para	amadores.
Ela	riu-se.	–	Uh.
–	 OK,	 tudo	 bem,	 tenho	 a	 mochila	 no	 carro.	 Mas	 estes	 são	 os	 itens
importantes	–	disse	Paolo.	–	Podemos	ver	Stonehenge	no	caminho.	Já	o	viste?
–	Não.
Jule	 sentia-se	de	 facto	particularmente	curiosa	por	ver	Stonehenge,	 sobre	o
qual	lera	num	romance	de	Thomas	Hardy	que	tinha	comprado	numa	livraria	em
São	Francisco,	mas	 queria	 ver	 todas	 as	 coisas	 –	 era	 como	 se	 sentia.	 Toda	 a
Londres	que	não	vira	ainda,	toda	a	Inglaterra,	todo	o	grande	e	vasto	mundo	–	e
sentir-se	livre,	poderosa	e	sim,	com	direito	a	tudo,	testemunhar	e	compreender
o	que	havia	por	aí.
–	 Vai	 ter	 mistério	 antigo,	 portanto	 vai	 ser	 bom	 –	 disse	 Paolo.	 –	 Depois,
quando	 chegarmos	 à	 casa,	 podemos	 fazer	 umas	 caminhadas	 e	 olhar	 para	 as
ovelhas	nos	prados.	Ou	tirar	fotografias	de	ovelhas.	Talvez	fazer-lhes	festas.	O
que	quer	que	seja	que	as	pessoas	fazem	no	campo.
–	Estás	a	convidar-me?
–	Sim!	Tem	quartos	separados.	Disponíveis.
Empoleirou-se	na	beira	da	cadeira	da	cozinha,	como	se	não	tivesse	a	certeza
de	ser	bem-vindo.	Como	se	talvez	tivesse	sido	demasiado	atrevido.
–	Agora	estás	nervoso	–	disse	ela,	a	ganhar	tempo.
Queria	aceitar	o	convite.	Sabia	que	não	devia.
–	Pois	é,	estou	muito	nervoso.
–	Porquê?
Paolo	pensou	por	um	momento.	–	Está	muito	mais	em	jogo	agora.	Importa-
me	qual	vai	ser	a	tua	resposta.	–	Pôs-se	de	pé	lentamente	e	beijou-lhe	o	lado	do
pescoço.	 Ela	 encostou-se	 a	 ele	 e	 sentiu	 que	 ele	 estava	 a	 tremer	 um	 pouco.
Beijou	 o	 lóbulo	 tenro	 dasua	 orelha	 e	 depois	 os	 seus	 lábios,	 pondo-se	 nas
pontas	dos	pés	ali	na	cozinha.
–	Isso	é	um	sim?	–	segredou	ele.
Jule	sabia	que	não	devia	ir.
Era	uma	péssima	ideia.	Deixara	para	trás	esta	possibilidade	há	muito	tempo.
O	amor	era	do	que	desistias	quando	te	tornavas	–	o	que	quer	que	ela	era	agora.
Extraordinária.	Perigosa.	Correra	riscos	e	reinventara-se.
Agora	este	rapaz	estava	na	sua	cozinha,	a	tremer	quando	a	beijava,	com	um
saco	cheio	de	comida	de	plástico	e	água	com	gás.	A	dizer	tolices	sobre	ovelhas.
Jule	atravessou	para	o	outro	lado	da	divisão	e	lavou	as	mãos	no	lava-louça.
Sentia-se	como	se	o	universo	estivesse	a	oferecer-lhe	algo	belo	e	especial.	Não
voltaria	a	aparecer-lhe	com	uma	oferta	como	aquela.
Paolo	 aproximou-se	 e	 pousou	 a	 mão	 no	 ombro	 dela,	 muito,	 muito
delicadamente,	 como	 se	 a	 pedir	 permissão.	 Como	 se	 maravilhado	 por	 ter
licença	para	tocar	nela.
E	Jule	virou-se	e	disse-lhe	que	sim.
Stonehenge	estava	fechado.
E	estava	a	chover.
Não	se	podia	mesmo	ver	as	pedras	a	não	ser	que	se	tivesse	comprado	bilhetes
antecipadamente.	 Jule	 e	 Paolo	 nem	 sequer	 conseguiram	 pôr-lhes	 a	 vista	 em
cima	do	centro	de	visitantes.
–	 Prometi-te	 mistério	 antigo	 e	 agora	 não	 é	 mais	 do	 que	 um	 parque	 de
estacionamento	 –	 disse	 Paolo,	 meio	 triste	 e	 meio	 na	 brincadeira,	 quando
voltaram	para	dentro	do	carro.	–	Devia	ter-me	informado.
–	Não	faz	mal.
–	Sei	como	usar	a	Internet,	acredita.
–	Oh,	não	te	preocupes.	Estou	mais	empolgada	com	a	ideia	das	ovelhas,	de
qualquer	maneira.
Ele	sorriu.	–	Estás	mesmo?
–	Claro	que	sim.	Podes	garantir-me	ovelhas?
–	Falas	a	sério?	Porque	não	me	parece	que	possa	garantir	ovelhas	de	facto,	e
não	quero	dececionar-te	outra	vez.
–	Não,	não	quero	saber	de	ovelhas	para	nada.
Paolo	 abanou	 a	 cabeça.	 –	 Devia	 ter	 adivinhado.	 As	 ovelhas	 não	 são
Stonehenge.	 Temos	 de	 encarar	 esse	 facto.	 Nem	mesmo	 as	melhores	 ovelhas
alguma	vez	serão	Stonehenge.
–	Vamos	comer	uns	Swedish	Fish	–	disse	ela,	para	o	animar.
–	Perfeito	–	disse	Paolo.	–	Isso	é	um	plano	perfeito.
A	casa	não	era	uma	casa.	Era	uma	mansão.	Uma	grande	casa,	construída	no
século	XIX.	 Havia	 terras	 à	 volta	 e	 uma	 entrada	 com	 portão.	 Paolo	 tinha	 um
código	para	o	portão.	Digitou-o	e	conduziu	o	carro	por	um	caminho	de	acesso	à
casa	em	curva.
As	 paredes	 da	 casa	 eram	 de	 tijolo	 e	 estavam	 cobertas	 de	 heras.	 Num	 dos
lados,	havia	um	jardim	em	declive	com	roseiras	e	bancos	de	pedra,	a	terminar
num	pavilhão	redondo	à	beira	de	um	ribeiro.
Paolo	remexeu	nos	bolsos.	–	Tenho	as	chaves	aqui	algures.
Chovia	muito	agora.	Eles	estavam	na	soleira	da	porta,	com	os	sacos	na	mão.
–	Com	um	raio,	onde	é	que	elas	estão?	–	Paolo	palpou	o	casaco,	as	calças,	o
casaco	de	novo.	–	Chaves,	chaves.	–	Procurou	no	saco.	Procurou	na	mochila.
Deu	uma	corrida	e	foi	procurar	no	carro.
Sentou-se	 na	 soleira	 da	 porta,	 abrigado	 da	 chuva,	 e	 tirou	 tudo	 dos	 bolsos.
Depois,	tirou	tudo	do	saco.	E	tudo	da	mochila.
–	Não	tens	as	chaves	–	disse	Jule.
–	Não	tenho	as	chaves.
Era	um	trapaceiro,	um	vigarista.	Não	era	nada	Paolo	Vallarta-Bellstone.	Que
provas	vira	Jule?	Nem	documento	de	identificação	nem	fotografias	na	Internet.
Só	 o	 que	 ele	 lhe	 dissera,	 os	 seus	modos,	 o	 seu	 conhecimento	 da	 família	 de
Imogen.	–	És	realmente	amigo	destas	pessoas?	–	perguntou	ela,	aligeirando	a
voz.
–	É	a	casa	de	campo	da	família	do	meu	amigo	Nigel.	Ele	recebeu-me	aqui	no
verão,	e	ninguém	está	a	usá-la	e...	eu	sabia	o	código	do	portão,	não	sabia?
–	Não	estou	a	duvidar	de	ti	de	facto	–	mentiu	ela.
–	 Podemos	 ir	 às	 traseiras	 e	 ver	 se	 a	 porta	 da	 cozinha	 está	 aberta.	 Há	 um
jardim	 da	 cozinha,	 de...	 dos	 tempos	 na	 história	 em	 que	 tinham	 jardins	 da
cozinha	 –	 disse	 Paolo.	 –	 Penso	 que	 o	 termo	 técnico	 é	 «nos	 bons	 velhos
tempos».
Puseram	 os	 respetivos	 casacos	 por	 cima	 da	 cabeça	 e	 correram	 à	 chuva,
pisando	poças	e	rindo.
Paolo	 sacudiu	 a	 porta	 da	 cozinha.	 Estava	 aferrolhada.	 Andou	 por	 ali	 à
procura	de	uma	chave	extra	debaixo	de	pedras,	enquanto	Jule	se	abrigava	sob	o
guarda-chuva.
Ela	tirou	o	telemóvel	do	bolso	e	pesquisou	o	nome	dele,	procurando	imagens.
Que	 alívio.	 Era	 decididamente	 Paolo	 Vallarta-Bellstone.	 Havia	 fotografias
dele	em	eventos	de	angariação	de	fundos	para	organizações	de	caridade,	de	pé
ao	lado	dos	pais,	sem	gravata	num	evento	onde	claramente	se	esperava	que	os
homens	 usassem	 gravara.	 Imagens	 dele	 com	 outros	 tipos	 num	 campo	 de
futebol.	 Uma	 fotografia	 da	 cerimónia	 de	 fim	 do	 curso	 do	 secundário	 que
mostrava	dentes	com	aparelho	e	um	mau	corte	de	cabelo,	publicada	por	uma
avó	que	tinha	escrito	no	seu	blogue	um	total	de	três	vezes.
Jule	 sentia-se	 contente	 por	 ele	 ser	 Paolo	 e	 não	 um	 vigarista	 qualquer.
Agradava-lhe	que	fosse	tão	boa	pessoa.	Era	melhor	que	fosse	genuíno,	porque
podia	acreditar	nele.	Mas	havia	 tanto	de	Paolo	que	 Jule	nunca	 saberia.	Tanta
história	que	ele	nunca	chegaria	a	contar-lhe.
Paolo	desistiu	 de	procurar	 a	 chave.	Tinha	o	 cabelo	 ensopado.	 –	As	 janelas
têm	alarme	–	disse.	–	Acho	que	é	um	caso	perdido.
–	O	que	havemos	de	fazer?
–	É	melhor	 irmos	até	ao	pavilhão	e	 ficarmos	a	beijar-nos	por	um	bocado	–
disse	Paolo.
A	chuva	não	abrandava.
Com	as	roupas	húmidas,	dirigiram-se	no	carro	para	Londres	e	pararam	num
pub	para	comer	comida	frita.
Paolo	parou	junto	ao	prédio	de	Jule.	Não	a	beijou,	mas	estendeu	a	mão	para
pegar	 na	 dela.	 –	Gosto	 de	 ti	 –	 disse.	 –	Pensei...	 acho	 que	 já	 o	 tinha	 deixado
claro?	Mas	pensei	que	devia	dizê-lo.
Jule	retribuía	o	seu	sentimento.	Gostava	de	si	mesma	com	ele.
Mas	não	era	ela	mesma	com	ele.	Não	sabia	do	que	era	ou	mesmo	de	quem
era	que	Paolo	gostava.
Poderia	ser	de	Immie.	Poderia	ser	de	Jule.
Ela	já	não	tinha	a	certeza	de	onde	traçar	a	linha	entre	as	duas.	Jule	cheirava	a
jasmim	como	Imogen,	Jule	falava	como	Imogen,	Jule	gostava	dos	livros	de	que
Immie	 gostava.	 Essas	 coisas	 eram	 verdade.	 Jule	 era	 órfã	 como	 Immie,	 uma
pessoa	 que	 se	 criara	 a	 si	 mesma,	 uma	 pessoa	 com	 um	 passado	 misterioso.
Muito	de	Imogen	estava	em	Jule,	sentia	ela,	e	muito	de	Jule	estava	em	Imogen.
Mas	Paolo	pensava	que	Patti	e	Gil	eram	os	seus	pais.	Pensava	que	ela	tinha
andado	na	faculdade	com	a	pobre	da	falecida	Brooke	Lannon.	Pensava	que	ela
era	judia	e	rica	e	proprietária	de	um	apartamento	em	Londres.	Essas	mentiras
faziam	parte	daquilo	de	que	ele	gostava.	Era	impossível	contar-lhe	a	verdade,	e,
mesmo	que	ela	o	fizesse,	ele	odiá-la-ia	por	essas	mentiras.
–	Não	posso	continuar	a	ver-te	–	disse-lhe	ela.
–	O	quê?
–	Não	posso	continuar	a	ver-te.	Assim.	Nunca	mais.
–	Porque	não?
–	Simplesmente	não	posso.
–	Há	outra	pessoa?	Com	quem	andes?	Eu	podia	tirar	vez	ou	pôr-me	na	fila	ou
coisa	do	género.
–	Não.	Sim.	Não.
–	É	sim	ou	não?	Consigo	fazer-te	mudar	de	ideias?
–	Não	 estou	 disponível.	 –	Podia	 dizer-lhe	 que	 tinha	 outra	 pessoa,	mas	 não
queria	mentir-lhe	mais.
–	Porque	não?
Abriu	a	porta	do	carro.	–	Não	tenho	coração.
–	Espera.
–	Não.
–	Por	favor,	espera.
–	Tenho	de	ir.
–	 Passaste	 um	 dia	 mau?	 Quer	 dizer,	 além	 da	 chuva,	 de	 não	 termos	 visto
Stonehenge,	não	ficarmos	na	casa	de	campo,	não	haver	ovelhas?	Além	do	facto
de	ter	sido	um	dia	de	desastre	em	cima	de	desastre?
Jule	 queria	 ficar	 no	 carro.	 Tocar	 nos	 lábios	 dele	 com	 as	 pontas	 dos	 seus
dedos	e	descontrair-se	como	Immie	e	deixar	as	mentiras	aumentarem,	assentes
umas	em	cima	das	outras.
Mas	não	podia.
–	Deixa-me	em	paz	Paolo,	porra	–	resmungou.	Abriu	a	porta	do	carro	e	saiu
para	a	chuva	torrencial.
Passaram	 duas	 semanas.	 Jule	 mantinha	 as	 sobrancelhas	 depiladas	 finas.
Comprou	 roupas	e	mais	 roupas,	 coisas	maravilhosas	com	etiquetas	de	preços
exorbitantes.	 Comprou	 livros	 de	 culinária	 para	 a	 cozinha	 do	 apartamento,
embora	nunca	os	usasse.	Foi	ao	bailado,	à	ópera,	ao	teatro.	Viu	todas	as	coisas,
locais	 históricos	 e	 museu	 e	 edifícios	 famosos.	 Comprou	 antiguidades	 em
Portobello	Road.
Uma	noite,	 já	 tarde,Forrest	 apareceu	no	apartamento.	Era	 suposto	estar	na
América.
Jule	tentou	controlar	o	pânico	ao	espreitar	pelo	óculo	da	porta.	Apetecia-lhe
abrir	a	janela	e	trepar	pelo	cano	do	esgoto	para	o	telhado,	saltar	para	o	prédio
ao	 lado	 e,	 francamente,	 não	 estar	 em	 casa,	 ponto	 final.	 Queria	 mudar	 as
sobrancelhas	e	o	cabelo	e	a	maquilhagem	e...
Ele	tocou	à	campainha	uma	segunda	vez.	Jule	optou	por	tirar	os	anéis	e	vestir
umas	calças	de	fato	de	treino	e	uma	T-shirt	em	vez	do	vestido	maxi	com	que
estava.	Pôs-se	em	frente	à	porta	e	recordou	a	si	mesma	que	sempre	soubera	que
Forrest	 poderia	 aparecer.	 Era	 o	 apartamento	 de	 Immie.	 Jule	 tinha	 uma
estratégia.	Podia	lidar	com	ele.	Abriu	a	porta.
–	Forrest.	Que	grande	surpresa.
–	Jule.
–	Pareces	cansado.	Estás	bem?	Entra.
Ele	trazia	um	saco	de	fim	de	semana.	Ela	tirou-lho	das	mãos	e	trouxe-o	para
dentro	do	apartamento.
–	 Acabei	 de	 sair	 de	 um	 avião	 –	 disse	 Forrest,	 a	 esfregar	 o	 queixo	 e	 a
pestanejar	por	trás	dos	óculos.
–	Apanhaste	um	táxi	de	Heathrow?
–	 Apanhei.	 –	 Olhou-a	 friamente.	 –	 Porque	 é	 que	 tu	 estás	 aqui?	 No
apartamento	da	Imogen?
–	Estou	cá	por	uns	tempos.	Ela	deu-me	as	chaves.
–	Onde	é	que	ela	está?	Quero	vê-la.
–	Não	voltou	para	casa	ontem	à	noite.	Como	é	que	deste	com	o	apartamento?
–	 A	 Patti	 Sokoloff	 deu-me	 a	 morada.	 –	 Forrest	 olhou	 para	 o	 chão,
embaraçado.	–	Foi	um	voo	longo.	Posso	beber	um	copo	de	água?
Jule	conduziu-o	à	cozinha.	Deu-lhe	água	da	torneira,	sem	gelo.	Tinha	limões
numa	taça	em	cima	da	bancada	da	cozinha,	porque	se	enquadravam	na	ideia	de
como	 deveria	 ser	 o	 aspeto	 do	 apartamento,	 mas	 dentro	 dos	 armários	 e	 do
frigorífico	não	havia	nada	que	Imogen	teria	comprado.	Jule	comia	bolachas	de
água	e	sal	e	manteiga	de	amendoim	açucarada,	embalagens	de	salame	e	tabletes
de	chocolate.	Esperava	que	Forrest	não	pedisse	comida.
–	Onde	está	a	Immie,	diz	lá?	–	perguntou.
–	Já	te	disse,	não	está	aqui.
–	Mas,	Jule.	–	Agarrou-lhe	o	braço	e	por	um	momento	ela	sentiu	medo	dele,
medo	 das	 suas	mãos	 duras	 a	 pressionarem	 o	 algodão	 da	 sua	T-shirt,	 embora
fosse	magro	e	fraco.	–	Onde	é	que	ela	está	em	vez	de	estar	aqui?	–	disse,	muito
lentamente.	Jule	detestava	a	sensação	do	corpo	dele	perto	do	seu.
–	Nunca	mais	me	toques,	porra	–	disse-lhe.	–	Nunca	mais.	Compreendes?
Ele	soltou-lhe	o	braço	e	entrou	na	sala	de	estar,	onde	se	esparramou	no	sofá
sem	ser	convidado.	–	Penso	que	sabes	onde	ela	está.	É	tudo.
–	 Provavelmente	 foi	 passar	 o	 fim	 de	 semana	 a	 Paris.	 Pode-se	 ir	 muito
rapidamente	daqui	pelo	Eurotúnel.
–	Paris?
–	É	uma	suposição.
–	Ela	disse-te	para	não	me	dizeres	aonde	ia?
–	Não.	Nem	sequer	sabíamos	que	tu	vinhas.
Forrest	 voltou	 a	 afundar-se	 no	 sofá.	 –	 Preciso	 de	 a	 ver.	 Mandei-lhe
mensagem,	mas	ela	é	capaz	de	me	ter	bloqueado.
–	Arranjou	um	telemóvel	do	Reino	Unido,	com	um	número	diferente.
–	Também	não	 responde	 aos	meus	e-mails.	 Foi	 por	 isso	que	vim	 lá	 de	 tão
longe.	Tinha	a	esperança	de	conversar	com	ela.
Jule	fez	um	chá	para	os	dois	enquanto	Forrest	telefonava	para	hotéis.	Teve	de
fazer	 doze	 telefonemas	 antes	 de	 encontrar	 um	 hotel	 com	 um	 quarto	 que
pudesse	reservar	por	algumas	noites.
Fora	 suficientemente	 arrogante	para	pensar	que	 Imogen	o	deixaria	 ficar	no
apartamento.
D
13
MEADOS	DE	DEZEMBRO,	2016
SÃO	FRANCISCO,	CALIFÓRNIA
ois	 dias	 antes	 da	 sua	 chegada	 a	 Londres,	 Jule	 estava	 a	 subir	 a	 pé	 uma
encosta	 em	 São	 Francisco	 com	 uma	 estatueta	 pesada	 de	 um	 leão	 na
mochila.
Adorava	 São	 Francisco.	 Tinha	 o	 aspeto	 que	 Immie	 dissera	 que	 teria,	 com
colinas	e	pitoresca,	mas	ao	mesmo	tempo	expansiva	e	elegante.	Hoje,	Jule	fora
ver	a	exposição	de	cerâmica	do	Museu	de	Arte	Asiática.	A	proprietária	do	seu
apartamento	recomendara-o.
Maddie	 Chung,	 a	 proprietária,	 era	 uma	 mulher	 enxuta,	 andava	 pelos
cinquenta	e	era	gay.	Usava	calças	de	ganga	e	fumava	no	alpendre	e	tinha	uma
pequena	 livraria.	 Jule	 pagou	 a	 dinheiro	 uma	 semana	 de	 arrendamento	 do
apartamento,	 que	 era	 o	 último	 andar	 de	 uma	 casa	 vitoriana.	Maddie	 e	 a	 sua
mulher	 viviam	 nos	 dois	 andares	 de	 baixo.	 Ela	 andava	 sempre	 a	 falar	 a	 Jule
sobre	história	 de	 arte	 e	 exposições	 em	galerias.	Era	muito	bondosa	 e	 parecia
encarar	Jule	como	alguém	a	necessitar	de	benevolência.
Hoje,	quando	Jule	chegou	a	casa,	Brooke	Lannon	estava	sentada	nos	degraus
do	alpendre.	A	amiga	de	 Immie	de	Vassar.	–	Cheguei	aqui	mais	cedo	–	disse
Brooke.	–	Mas	adiante.
O	 descapotável	 de	 Brooke	 ficara	 estacionado	 em	 frente	 à	 casa	 durante	 a
noite.	 Ela	 precisava	 de	 vir	 buscá-lo,	 mas	 Jule	 enviara-lhe	 uma	 mensagem	 a
pedir-lhe	que	ficasse	para	conversarem.
Brooke	tinha	coxas	grossas,	queixo	quadrado	e	cabelo	louro	liso	e	brilhante
que	parecia	sempre	igual.	Pele	branca	e	batom	sem	cor.	Um	estilo	desportivo.
Crescera	em	La	Jolla.	Bebia	demasiado,	jogara	hóquei	em	campo	na	secundária
e	tivera	uma	série	de	namorados	e	uma	namorada,	mas	nunca	amor.	Essas	eram
todas	as	coisas	que	Jule	sabia	sobre	ela	dos	tempos	de	Martha’s	Vineyard.
Agora,	Brooke	pôs-se	de	pé	e	quase	se	desequilibrou.
–	Estás	bem?	–	perguntou	Jule.
–	Nem	por	isso.
–	Estiveste	a	beber?
–	Estive	–	respondeu	Brooke.	–	Que	tem	isso?
Estava	a	anoitecer.
–	Vamos	dar	uma	volta	de	carro	–	disse	Jule.	–	Podemos	conversar.
–	Uma	volta	de	carro?
–	Vai	ser	agradável.	Tens	um	carro	tão	giro.	Dá-me	as	chaves.	–	O	carro	era	o
tipo	de	coisa	que	homens	mais	velhos	compram	para	se	convencerem	de	que
ainda	são	sexy.	Os	dois	assentos	eram	beges-escuros,	o	chassi	arredondado	e	de
um	verde-vivo.	 Jule	 perguntou-se	 se	 o	 carro	 pertenceria	 ao	 pai	 de	Brooke.	 –
Não	te	posso	deixar	conduzir	se	estiveste	a	beber.
–	Quem	é	que	tu	és,	a	polícia?
–	Não	propriamente...
–	Uma	espia?
–	Brooke.
–	A	sério,	és?
–	Não	posso	responder	a	isso.
–	Ah.	É	o	que	uma	espia	diria.
Já	 não	 importava	 o	 que	 Jule	 dissesse	 ou	 não	 dissesse	 a	 Brooke.	 –	 Vamos
fazer	uma	caminhada	–	disse.	–	Conheço	um	sítio	no	parque	estatal.	Podemos
atravessar	a	ponte	Golden	Gate,	vai	ser	cénico	como	tudo.
Brooke	fez	tilintar	as	chaves	do	carro	no	bolso.	–	É	um	bocado	tarde.
–	Olha	–	disse	Jule.	–	Tivemos	um	mal-entendido	em	relação	à	Immie,	e	fico
contente	que	 tenhas	vindo	cá.	Vamos	só	a	um	lugar	neutro	conversar	sobre	o
assunto.	O	meu	apartamento	não	é	o	melhor	sítio	para	isso.
–	Não	sei	se	quero	conversar	contigo.
–	Apareceste	mais	cedo	–	disse	Jule.	–	Queres	conversar	comigo.
–	OK,	falamos	sobre	o	assunto,	resolvemos	a	coisa	com	um	abraço,	isso	tudo
–	disse	Brooke.	–	Vai	fazer	feliz	a	Immie.	–	Entregou	as	chaves	do	carro	a	Jule.
As	pessoas	eram	estúpidas	quando	bebiam.
Dois	dias	antes	do	Natal	fazia	demasiado	frio	para	andar	num	descapotável,
mas	 a	 capota	 do	 carro	 de	Brooke	 estava	 descida,	 de	 qualquer	modo.	Brooke
insistira.	Jule	estava	com	calças	de	ganga,	botas	e	uma	camisola	quente	de	lã.	A
sua	mochila	encontrava-se	na	mala	do	carro,	e	dentro	dela	trazia	a	carteira	do
dinheiro,	uma	segunda	camisola	e	uma	T-shirt	limpa,	uma	garrafa	de	água	com
o	bocal	largo,	uma	embalagem	de	toalhetes	de	bebé,	um	saco	preto	do	lixo	e	a
estatueta	do	leão.
Brooke	tirou	uma	garrafa	de	vodca	meio	vazia	do	saco	que	trazia	ao	ombro,
mas	não	chegou	a	beber.	Adormeceu	quase	imediatamente.
Jule	atravessou	a	cidade	ao	volante.	Quando	chegaram	à	ponte	Golden	Gate,
sentia-se	 agitada.	A	 viagem	 em	 silêncio	 era	 enervante.	Acotovelou	Brooke	 a
acordá-la.	–	A	ponte	–	disse.	–	Olha.	–	Pairava	acima	delas,	 cor	de	 laranja	 e
majestosa.
–	As	pessoas	adoram	atirar-se	desta	ponte	para	 se	matarem	–	disse	Brooke
com	a	voz	empastada.
–	O	quê?
–	É	a	segunda	ponte	mais	popular	do	mundo	para	suicídios	–	disse	Brooke.	–
Li	isso	algures.
–	Qual	é	a	primeira?
–	Uma	 ponte	 no	 rio	Yangtze.	Não	me	 lembro	 do	 nome.	 Leio	 coisas	 desse
género	–	disse	Brooke.	–	As	pessoas	pensam	que	é	poético,	 atirar-se	de	uma
ponte.	É	por	isso	que	o	fazem.	Ao	passo	que,	digamos,	cortares	os	pulsos	numa
banheira	é	só	uma	sujeira.O	que	é	que	uma	pessoa	deve	vestir	para	se	esvair
em	sangue	até	à	morte	numa	banheira?
–	Não	veste	nada.
–	Como	é	que	sabes?
–	Simplesmente	sei.	–	Jule	desejava	não	se	ter	envolvido	na	conversa	sobre
este	tópico	com	Brooke.
–	Não	quero	que	as	pessoas	me	vejam	nua	quando	estiver	morta!	–	berrou
Brooke	para	o	ar	por	baixo	da	ponte	Golden	Gate.	–	Mas	 também	não	quero
usar	roupas	na	banheira!	É	muito	embaraçoso.
Jule	ignorou-a.
–	De	qualquer	maneira,	andam	a	construir	uma	barreira	agora	para	as	pessoas
não	poderem	atirar-se	–	prosseguiu	Brooke.	–	Aqui	na	Golden	Gate.
Saíram	da	ponte	em	silêncio	e	viraram	para	o	parque.
Por	fim,	Brooke	acrescentou:	–	Não	devia	ter	abordado	aquele	assunto.	Não
quero	meter-te	ideias	na	cabeça.
–	Eu	não	tenho	ideias.
–	Não	te	mates	–	disse	Brooke.
–	Não	me	vou	matar.
–	Estou	a	ser	tua	amiga	neste	momento,	OK?	Há	algo	em	ti	que	não	é	normal.
Jule	não	respondeu.
–	 Cresci	 com	 pessoas	 muito	 normais	 e	 estáveis	 –	 continuou	 Brooke.	 –
Comportávamo-nos	 como	pessoas	 normais	 o	 dia	 todo	 na	minha	 família.	 Tão
normais	 que	 me	 dava	 vontade	 de	 arrancar	 os	 olhos.	 Portanto	 sou,	 tipo,
especialista.	 E	 tu?	 Tu	 não	 és	 normal.	 Devias	 pensar	 em	 procurar	 ajuda	 para
isso,	é	o	que	estou	a	dizer.
–	Tu	pensas	que	ser	normal	é	ter	carradas	de	dinheiro.
–	Não,	não	penso.	A	Vivian	Abromowitz	anda	em	Vassar	com	uma	bolsa	de
estudos	que	cobre	tudo	e	é	normal,	aquela	bruxa.
–	Pensas	que	é	normal	ter	tudo	o	que	queres	todo	o	tempo	–	disse	Jule.	–	Que
as	coisas	sejam	fáceis.	Mas	não	é.	A	maior	parte	das	pessoas	não	consegue	o
que	quer,	tipo,	nunca.	Fecham-lhes	portas	na	cara.	Têm	de	se	esforçar,	todo	o
tempo.	 Não	 vivem	 na	 tua	 terra	 mágica	 de	 carros	 de	 dois	 lugares	 e	 dentes
perfeitos	e	viagens	para	a	Itália	e	casacos	de	peles.
–	Ai	está	–	disse	Brooke.	–	Provaste	o	que	eu	disse.
–	Como?
–	Nem	sequer	 é	normal	dizer	 coisas	 como	essas.	Voltaste	 à	vida	da	 Immie
depois	de	já	não	a	veres	há	anos	e	numa	questão	de	dias	mudaste-te	para	a	casa
dela,	 andas	 a	 pedir	 emprestadas	 as	 coisas	 dela,	 andas	 a	 nadar	 na	 porra	 da
piscina	dela	e	a	deixá-la	pagar	os	teus	cortes	de	cabelo.	Tu	andaste	na	porra	de
Stanford	e,	coitadinha,	perdeste	a	bolsa	de	estudos,	mas	não	te	dês	ares	de	que
és	a	porta-voz	da	porra	dos	noventa	e	nove	por	cento.	Ninguém	te	está	a	fechar
portas	na	cara,	Jule.	E	também	ninguém	usa	casacos	de	pele	porque,	hello,	isso
nem	sequer	é	ético.	Quer	dizer,	 talvez	a	avó	de	alguém	usasse,	mas	não	uma
pessoa	normal.	E	eu	nunca	disse	nada	sobre	os	teus	dentes.	Fogo.	Precisas	de
aprender	 a	 relaxar	 e	 a	 comportares-te	 como	 um	 ser	 humano	 se	 queres	 ter
amigos	de	verdade	e	não	só	pessoas	que	te	toleram.
Nem	uma	nem	a	outra	disseram	mais	uma	palavra	durante	o	resto	da	viagem.
Estacionaram	e	Jule	pegou	na	sua	mochila.	Tirou	as	luvas	do	bolso	das	calças
de	ganga	e	enfiou-as.	–	Vamos	deixar	os	nossos	telemóveis	na	mala	do	carro	–
disse.
Brooke	olhou	para	ela	por	um	longo	minuto.	–	OK,	tudo	bem.	Estamos	numa
de	natureza	–	disse,	a	arrastar	as	palavras.	Fecharam	os	telemóveis	e	Jule	meteu
as	chaves	do	carro	no	bolso.	Olharam	para	a	tabuleta	na	entrada	do	parque	de
estacionamento.	Os	trilhos	de	caminhadas	estavam	assinalados	em	várias	cores.
–	Vamos	até	ao	miradouro	–	disse	Jule,	apontando	para	o	trilho	assinalado	a
azul.	–	Já	lá	estive.
–	Tanto	faz	–	disse	Brooke.
Era	 uma	 caminhada	 de	 ida	 e	 volta	 de	 seis	 quilómetros	 e	 meio.	 O	 parque
estava	quase	vazio	por	causa	do	frio	e	de	ser	a	época	de	Natal,	mas	algumas
famílias	 estavam	 a	 ir-se	 embora	 com	 a	 aproximação	 do	 fim	 do	 dia.	 Havia
crianças	cansadas	a	queixarem-se	ou	a	serem	levadas	ao	colo.	Quando	Brooke
e	Jule	começaram	a	subir	a	colina,	o	caminho	já	estava	vazio.
Jule	sentiu	acelerar	a	pulsação.	Ia	à	frente.
–	Tu	tens	um	fraquinho	pela	Imogen	–	disse	Brooke,	quebrando	o	silêncio.	–
Não	 penses	 que	 isso	 te	 torna	 especial.	Toda	 a	 gente	 tem	 um	 fraquinho	 pela
Imogen.
–	Ela	é	a	minha	melhor	amiga.	Não	é	o	mesmo	que	ter	um	fraquinho	–	disse
Jule.
–	Ela	não	é	a	melhor	amiga	de	ninguém.	É	uma	quebra-corações.
–	 Não	 digas	 mal	 dela.	 Só	 estás	 furiosa	 por	 não	 te	 ter	 mandado	 uma
mensagem.
–	Ela	mandou-me	 uma	mensagem.	A	questão	não	é	 essa	–	disse	Brooke.	–
Ouve.	Quando	 nos	 tornámos	 amigas	 no	 primeiro	 ano	 da	 faculdade,	 a	 Immie
andava	 sempre	no	meu	quarto	na	 residência:	 de	manhã,	 a	 trazer-me	um	 latte
antes	das	aulas;	a	arrastar-me	para	ir	ver	filmes	no	departamento	de	cinema;	a
querer	pedir	brincos	emprestados;	a	trazer-me	bolachas	de	água	e	sal	Goldfish
porque	sabia	que	eu	gostava	delas.
Jule	não	disse	nada.
Immie	arrastara-a	para	filmes.	Immie	comprara-lhe	chocolates.	Immie	trazia-
lhe	café	à	cama,	quando	viviam	juntas.
Brooke	 continuou:	 –	 Passava	 por	 lá	 todas	 as	 terças	 e	 quintas,	 porque
tínhamos	uma	aula	de	 Italiano	de	manhã	cedo.	E	ao	princípio	eu	nem	sequer
estava	acordada.	Ela	tinha	de	esperar	enquanto	eu	me	vestia.	A	minha	colega	de
quarto	começou	a	 implicar	por	a	 Immie	 ir	 lá	 tão	cedo,	por	 isso	eu	comecei	a
ligar	o	alarme	no	telemóvel.	Levantava-me	e	já	estava	à	porta	antes	de	a	Immie
chegar.
«E	depois,	um	dia,	ela	não	veio.	Foi	no	princípio	de	novembro,	acho	eu.	E
sabes	que	mais?	Nunca	mais	veio	depois	disso.	Nunca	mais	me	comprou	um
latte	nem	me	arrastou	para	o	cinema.	Tinha	passado	para	a	Vivian	Abromowitz.
E	sabes	que	mais?	Eu	podia	ter	feito	uma	cena	de	miúda	da	secundária	quanto	a
isso,	 Jule.	 Podia	 ter	 ficado	 toda	 amuada	 e	 agido	 tipo,	 ooh,	 pobre	 de	 mim,
porque	não	podes	 ter	 duas	melhores	 amigas	 e	uá,	 uá,	 uá.	Mas	não	o	 fiz.	Fui
simpática	com	as	duas.	E	ficámos	todas	amigas.	E	ficou	tudo	bem.»
–	OK.
Jule	 detestava	 aquela	 história.	 Detestava,	 também,	 o	 facto	 de	 não	 ter
compreendido	antes	que	a	razão	por	que	Vivian	e	Brooke	não	gostavam	uma	da
outra	era	a	própria	Imogen.
Brooke	 prosseguiu:	 –	 O	 que	 estou	 a	 dizer	 é	 que	 a	 Imogen	 quebrou	 o
coraçãozinho	 da	 Vivian	 também.	Mais	 tarde.	 E	 o	 do	 Isaac	 Tupperman.	 Deu
esperanças	a	uma	data	de	tipos	diferentes	quando	andava	com	o	Isaac	e	o	Isaac,
claro,	 ficou	 todo	 cheio	 de	 ciúmes	 e	 inseguro.	 Depois	 a	 Immie	 ficou
surpreendida	quando	 ele	 acabou	 com	ela.	Mas	do	que	 é	que	 estava	 à	 espera,
quando	se	envolvia	com	outros	tipos?	Queria	ver	se	as	pessoas	perdiam	a	calma
e	ficavam	todas	obcecadas	com	ela.	E	sabes	que	mais?	 Isso	foi	exatamente	o
que	tu	fizeste	e	exatamente	o	que	uma	data	de	pessoas	fez	na	faculdade.	É	uma
coisa	de	que	a	Imogen	gosta,	porque	a	faz	sentir	espantosa	e	sexy,	mas	depois
já	 não	 podem	 continuar	 amigas.	 A	 outra	 maneira	 de	 lidar	 com	 a	 situação	 é
provares	que	és	superior	a	isso.	A	Imogen	sabe	que	tu	és	tão	forte	como	ela	ou
talvez	até	mais	forte.	E	então	respeita-te	e	continuam	a	dar-se.
Jule	mantinha-se	em	silêncio.	Esta	era	uma	nova	versão	da	história	de	Isaac
Tupperman,	 o	 Isaac	 do	 Bronx,	 de	 Coates	 e	 Tony	 Morrison,	 dos	 poemas
deixados	na	bicicleta	de	Imogen,	da	possível	gravidez.	Immie	não	o	olhara	com
admiração?	Ficara	 embeiçada	 e	 a	 seguir	 desiludida	 –	mas	 só	 depois	 de	 ele	 a
deixar.	Não	parecia	possível	que	ela	o	tivesse	traído.
Mas	então,	de	repente,	parecia	de	facto	possível.	Parecia	óbvio	a	Jule	agora
que	 Imogen	 –	 que	 se	 sentira	 oca	 e	 inferior	 ao	 lado	 do	 intelecto	 e	 da
masculinidade	 de	 Tupperman	 –	 se	 tivesse	 feito	 sentir	 mais	 forte	 e	 mais
poderosa	do	que	ele	traindo-o.
Continuaram	a	andar	pela	floresta.	O	sol	começava	a	pôr-se.
Não	havia	mais	ninguém	no	caminho.
–	Se	queres	ser	como	a	Immie,	então	sê	como	ela.	Tudo	bem	–	disse	Brooke.
Tinham	chegado	a	um	passadiço	sobre	uma	ravina.	Conduzia	a	uns	degraus	de
madeira	que	davam	acesso	a	uma	torre	de	onde	se	via	o	vale	lá	no	fundo	e	as
colinas	à	volta.	–	Mas	tu	não	és	a	Imogen,	compreendes?
–	Eu	sei	que	não	sou	a	Imogen.
–	Não	tenho	a	certeza	se	sabes	–	disse	Brooke.
–	Nada	disso	é	da	tua	conta.
–	Talvez	eu	o	tenha	tornado	da	minha	conta.	Talvez	pense	queés	instável	e
que	o	melhor	seria	que	te	afastasses	da	Immie	e	procurasses	ajuda	para	os	teus
problemas	mentais.
–	 Diz-me	 uma	 coisa.	 Porque	 é	 que	 estamos	 aqui?	 –	 perguntou	 Jule.
Encontrava-se	nos	degraus	acima	de	Brooke.
Abaixo	delas	estava	a	ravina.
O	sol	já	quase	se	tinha	posto.
–	Porque	é	que	estamos	aqui,	perguntei	–	disse	Jule.	Disse-o	num	tom	ligeiro,
tirando	a	mochila	dos	ombros	e	abrindo-a	como	se	para	ir	buscar	a	garrafa	de
água.
–	 Vamos	 ter	 uma	 conversa	 sobre	 o	 assunto,	 como	 tu	 disseste.	 Quero	 que
pares	 de	 te	meter	 na	 vida	 da	 Immie,	 de	 viver	 do	 fundo	 fiduciário	 dela,	 de	 a
levar	a	ignorar	os	amigos	e	de	fazer	o	que	mais	estejas	a	fazer.
–	Perguntei-te	porque	estamos	aqui	–	disse	Jule,	debruçada	sobre	a	mochila.
Brooke	 encolheu	 os	 ombros.	 –	 Aqui	 exatamente?	 Neste	 parque?	 Tu
trouxeste-nos	cá.
–	Correto.
Jule	 levantou	 o	 saco	 que	 continha	 a	 estatueta	 do	 leão	 do	 Museu	 de	 Arte
Asiática.	Balouçou-a	uma	vez,	 com	 força,	 acertando	na	 testa	de	Brooke	 com
um	estalido	horrendo.
A	estatueta	não	se	partiu.
A	 cabeça	 de	Brooke	 projetou-se	 para	 trás.	 Ela	 cambaleou	 no	 passadiço	 de
madeira.
Jule	avançou	um	passo	e	atingiu-a	de	novo.	Desta	vez	de	 lado.	Começou	a
esguichar	sangue	da	cabeça	de	Brooke.	Salpicou	o	rosto	de	Jule.
Brooke	 tombou	 contra	 o	 gradeamento,	 as	 mãos	 a	 agarrarem	 os	 varões	 de
madeira.
Jule	 deixou	 cair	 a	 estatueta	 e	 baixou-se	 para	 Brooke.	 Agarrou-a	 pelos
joelhos.	Brooke	esperneou	e	atingiu	Jule	no	ombro,	a	tentar	voltar	a	agarrar-se
ao	gradeamento.	O	pontapé	 foi	 forte	 e	o	ombro	de	 Jule	deslocou-se	 com	um
choque	de	dor.
Merda.
Jule	viu	tudo	branco	por	um	minuto.	Largou	Brooke	e,	com	o	braço	esquerdo
a	pender,	enganchou	o	direito	e	enfiou-o	por	baixo	dos	antebraços	de	Brooke,
obrigando-a	a	largar	o	gradeamento.	A	seguir,	inclinou-se	e	voltou	a	baixar-se.
Prendeu	 as	 pernas	 de	Brooke,	 que	 se	 debatia	 no	 chão,	 agarrou-as	 com	 força,
meteu	o	ombro	são	por	baixo	do	corpo	de	Brooke,	ergueu-a	e	atirou-a	para	a
ravina.
Tudo	ficou	em	silêncio.
O	sedoso	cabelo	louro	de	Brooke	caiu	a	pique.
Ouviu-se	 um	 baque	 surdo	 quando	 o	 corpo	 dela	 bateu	 contra	 os	 topos	 das
árvores	e	outro	quando	aterrou	no	fundo	da	ravina	rochosa.
Jule	 debruçou-se	 do	 gradeamento.	 O	 corpo	 estava	 invisível	 por	 baixo	 da
vegetação.
Olhou	à	sua	volta.	Ainda	ninguém	no	caminho.
O	 seu	 ombro	 estava	 deslocado.	 Doía-lhe	 tanto	 que	 não	 conseguia	 pensar
bem.
Não	 contara	 com	 um	 ferimento.	 Se	 não	 conseguisse	 mexer	 o	 seu	 braço
deslocado,	fracassaria,	porque	Brooke	estava	morta	e	o	sangue	dela	estava	por
toda	a	parte	e	Jule	tinha	de	mudar	de	roupa.	Imediatamente.
Forçou-se	a	acalmar	a	respiração.	Forçou-se	a	focar	os	olhos.
Segurando	 o	 pulso	 esquerdo	 com	 o	 direito,	 ergueu	 o	 braço	 esquerdo	 num
movimento	a	afastá-lo	do	corpo.	Uma,	duas	vezes	–	meu	Deus,	 como	doía	–
mas	à	terceira	tentativa	o	ombro	esquerdo	voltou	ao	seu	lugar.
A	dor	desapareceu.
Jule	 vira	 um	 tipo	 fazer	 aquilo	 uma	 vez,	 num	 ginásio	 de	 artes	 marciais.
Fizera-lhe	perguntas	sobre	essa	técnica.
Ora	 bem,	 então.	Olhou	 para	 a	 sua	 camisola.	Estava	 salpicada	 com	 sangue.
Tirou-a.	A	T-shirt	que	trazia	por	baixo	também	estava	húmida.	Despiu-a	e	usou
uma	 ponta	 limpa	 para	 limpar	 as	 mãos	 e	 o	 rosto.	 Tirou	 as	 luvas.	 Pegou	 nos
toalhetes	 de	 bebé	 que	 trazia	 na	mochila	 e	 limpou-se	 –	 o	 peito,	 os	 braços,	 o
pescoço,	 as	 mãos	 –	 a	 tremer	 ao	 ar	 frio	 de	 inverno.	 Enfiou	 as	 roupas	 e	 os
toalhetes	ensanguentados	no	saco	preto	do	lixo,	atou-o	para	o	fechar	e	enfiou
tudo	na	mochila.
Vestiu	a	T-shirt	limpa	e	a	camisola	limpa.
Havia	sangue	no	saco	onde	trazia	a	estatueta.
Jule	 tirou	a	estatueta	do	saco	e	virou-o	do	avesso	de	modo	a	que	o	sangue
ficasse	no	seu	interior.	Meteu	a	estatueta	na	mochila	e	enfiou	o	saco	sujo	na	sua
garrafa	de	água	de	bocal	largo.
Limpou	 os	 salpicos	 de	 sangue	 do	 passadiço	 com	 toalhetes	 e	 depois	 enfiou
todo	o	lixo	na	garrafa	de	água.
Olhou	à	sua	volta.
O	caminho	estava	vazio.
Jule	 tocou	 a	medo	 no	 ombro.	 Estava	 bem.	Limpou	 o	 rosto,	 as	 orelhas	 e	 o
cabelo	quatro	vezes	mais	com	toalhetes,	a	desejar	ter-se	lembrado	de	trazer	um
espelhinho	de	bolso.	Olhou	por	cima	da	ponte,	para	a	ravina.
Não	conseguia	ver	Brooke.
Percorreu	o	caminho	de	volta	pelo	trilho.	Sentia	que	poderia	caminhar	para
sempre	 e	 nunca	 ficar	 cansada.	 Não	 viu	 ninguém	 no	 caminho	 até	 perto	 da
entrada,	onde	passou	por	quatro	tipos	de	ar	desportivo	com	gorros	à	Pai	Natal	e
lanternas	elétricas,	a	começarem	a	subir	o	trilho	assinalado	a	amarelo.
Junto	ao	carro,	Jule	parou.
O	 carro	 devia	 ficar	 ali.	 Se	 o	 levasse	 para	 qualquer	 outro	 lugar,	 não	 faria
sentido	quando	o	corpo	de	Brooke	fosse	encontrado	na	ravina.
Cuidadosamente,	entrou	no	carro.	Tirou	os	toalhetes	da	mochila	e	começou	a
limpar	o	travão	de	mão,	mas	parou.
Não,	 não.	 Era	 um	 plano	 errado.	 Porque	 não	 pensara	 bem	 nisso	 antes?
Pareceria	suspeito	se	não	houvesse	nenhumas	impressões	digitais	no	carro.	As
impressões	digitais	de	Brooke	deviam	estar	ali.	Pareceria	estranho,	agora	que	o
travão	estava	limpo.
Pensa,	 pensa.	A	 garrafa	 de	 vodca	 encontrava-se	 no	 chão	 junto	 ao	 lugar	 do
passageiro.	Jule	pegou	nela	com	um	toalhete	e	abriu	a	tampa.	A	seguir,	verteu
um	pouco	de	vodca	em	cima	do	travão	de	mão,	como	se	se	tivesse	derramado
acidentalmente.	 Talvez	 isso	 fizesse	 com	 que	 parecesse	 normal	 não	 haver
impressões	digitais	nele.	Não	fazia	ideia	se	os	investigadores	do	local	do	crime
prestavam	 atenção	 a	 esse	 tipo	 de	 coisa.	 Não	 sabia	 o	 que	 investigavam,	 na
verdade.
Com	um	raio.
Saiu	do	carro.	Forçou-se	a	pensar	 logicamente.	As	suas	 impressões	digitais
não	 constavam	 de	 nenhum	 registo.	 Não	 tinha	 cadastro.	 A	 polícia	 poderia
descobrir	que	outra	pessoa	conduzira	o	carro,	se	investigasse	–	mas	não	saberia
que	fora	Jule.
Não	 havia	 nenhum	 indício	 de	 que	 alguém	 chamado	 Jule	 West	 Williams
alguma	vez	vivera	na	cidade	de	São	Francisco	ou	a	visitara.
Abriu	a	mala	do	carro	e	tirou	dela	o	telemóvel	de	Brooke,	assim	como	o	seu.
A	seguir,	ainda	a	tremer,	trancou	as	portas	do	carro	e	afastou-se.
Estava	uma	noite	fria.	Jule	caminhava	rapidamente	para	se	manter	quente.	A
um	quilómetro	e	meio	a	pé	do	parque	já	se	sentia	mais	calma.	Deitou	a	garrafa
da	água	num	caixote	do	lixo	na	berma	da	estrada.	Mais	abaixo,	atirou	as	roupas
ensanguentadas	no	seu	saco	de	plástico	preto	para	o	fundo	de	um	contentor	do
lixo.
A	seguir	continuou	a	andar.
A	 ponte	 Golden	 Gate	 estava	 incandescente	 contra	 o	 céu	 noturno.	 Jule	 era
pequena	por	baixo	dela,	mas	sentia-se	como	se	um	foco	lá	em	cima	estivesse	a
incidir	em	si.	Atirou	as	chaves	do	carro	e	o	telemóvel	de	Brooke	pelo	lado	da
ponte	para	a	água.
A	 sua	 vida	 era	 cinemática.	 Tinha	 um	 aspeto	 soberbo	 à	 luz	 dos	 candeeiros.
Depois	 da	 luta,	 as	 suas	 faces	 estavam	 coradas.	 Começavam	 a	 formar-se
equimoses	 por	 baixo	 da	 roupa,	mas	 o	 seu	 cabelo	 parecia	 excelente.	E	 oh,	 as
roupas	 caíam-lhe	 tão	 bem.	 Sim,	 era	 verdade	 que	 ela	 era	 criminosamente
violenta.	 Brutal,	 até.	 Mas	 esse	 era	 o	 seu	 trabalho,	 e	 Jule	 era	 singularmente
qualificada	para	ele,	portanto	era	sexy.
A	 lua	 estava	 em	 quarto	 crescente	 e	 o	 vento,	 cortante.	 Jule	 sugava	 grandes
golfadas	de	 ar	 e	 respirava	o	glamour	 e	 a	 dor	 e	 a	 beleza	 da	 vida	 do	 herói	 de
ação.
De	volta	ao	apartamento,	tirou	a	estatueta	do	leão	da	mochila	e	verteu	lixívia
sobre	ela.	A	seguir,	lavou-a	no	chuveiro,	secou-a	e	colocou-a	na	prateleira	por
cima	do	fogão	de	sala.
Imogen	teria	gostado	daquela	estatueta.	Adorava	felinos.
Jule	comprou	um	bilhete	de	avião	para	Londres	com	partida	de	Portland,	no
Oregon,	 no	 nome	 de	 Imogen.	A	 seguir,	 apanhou	 um	 táxi	 para	 a	 estação	 dos
autocarros.
Ao	chegar,	apercebeu-se	de	que	acabara	de	perder	o	autocarro	das	nove	da
noite.	O	autocarro	seguinte	só	partiria	às	sete	da	manhã.
QuandoJule	se	instalou	para	esperar,	a	adrenalina	das	últimas	horas	começou
a	esvair-se.	Comprou	três	embalagens	de	M&Ms	numa	máquina	e	sentou-se	em
cima	da	sua	bagagem.	De	repente,	sentia-se	exausta	e	com	medo.
Só	estava	mais	um	par	de	pessoas	na	sala	de	espera,	a	usar	a	estação	como
abrigo	noturno.	Jule	chupou	os	M&Ms	para	os	fazer	durar.	Tentou	ler,	mas	não
conseguia	 concentrar-se.	 Ao	 fim	 de	 vinte	 e	 cinco	 minutos,	 um	 bêbedo	 que
estava	a	dormir	num	banco	acordou	e	começou	a	cantar	alto:
*
«God	rest	ye	merry,	gentlemen,
Let	nothing	you	dismay
Remember	Christ	our	savior
Was	born	on	Christmas	Day,
To	save	us	all	from	Satan’s	power
When	we	had	gone	astray.»1
*
Jule	 sabia	 que	 se	 tinha	 tresmalhado	 como	 o	 caraças.	Matara	 uma	 rapariga
estúpida	 e	 linguaruda	 com	 uma	 premeditação	 brutal.	 Nunca	 haveria	 um
salvador	que	pudesse	 salvá-la	do	que	quer	que	a	 tinha	 levado	a	 fazer	 aquilo.
Nunca	tivera	um	salvador.
Era	isso.	Não	havia	como	voltar	atrás.	Encontrava-se	sozinha	numa	estação
de	autocarros	gélida,	em	23	de	dezembro,	a	ouvir	um	tipo	bêbedo	e	a	raspar	os
últimos	vestígios	do	sangue	de	alguém	de	debaixo	das	unhas	com	a	ponta	do
seu	 bilhete	 de	 autocarro.	 Outras	 pessoas,	 pessoas	 boas,	 estavam	 a	 fazer
bolachas	de	gengibre,	a	comer	rebuçados	de	hortelã-pimenta	e	a	atar	laços	em
presentes	de	Natal.	Estavam	a	discutir	e	a	decorar	a	casa	e	a	 levantar	a	mesa
depois	de	grandes	 refeições,	 toldadas	 com	o	vinho	quente	 com	especiarias,	 a
verem	filmes	antigos	inspiradores.
Jule	estava	aqui.	Merecia	o	frio,	a	solidão,	os	bêbedos	e	o	lixo,	mil	punições
e	torturas	piores.
O	 relógio	 deu	 uma	 volta	 completa.	Chegou	 a	meia-noite	 e	 o	 dia	 tornou-se
oficialmente	Véspera	de	Natal.	Jule	comprou	um	chocolate	quente	na	máquina.
Bebeu-o	e	sentiu-se	mais	quente.	Apresentou	argumentos	a	si	mesma	para	se
livrar	do	desespero.	Ao	fim	e	ao	cabo,	era	corajosa,	esperta	e	forte.	Cometera	o
ato	com	uma	eficiência	incrível.	Com	estilo,	até.	Cometera	um	homicídio	com
o	raio	de	uma	estatueta	de	um	gatinho	num	belo	parque	estatal	acima	de	uma
ravina	maciça	e	cénica.	Não	houvera	uma	só	testemunha.	Não	deixara	sangue
em	lado	nenhum.
Matara	Brooke	para	se	proteger.
As	pessoas	necessitavam	de	se	protegerem.	Era	da	natureza	humana,	e	Jule
passara	 anos	 a	 treinar-se	 para	 se	 tornar	 especialmente	 boa	 nisso.	 Os
acontecimentos	desse	dia	eram	prova	de	que	ela	era	ainda	mais	capaz	do	que
esperara.	Era	fenomenal,	de	facto	–	uma	mutante	lutadora,	uma	supercriatura.
O	Wolverine,	com	um	raio,	não	parava	para	chorar	a	morte	das	pessoas	que	as
suas	garras	dilaceravam.	Andava	sempre	a	matar	pessoas	para	se	defender	ou
por	uma	causa	meritória.	O	mesmo	no	caso	de	Bourne,	Bond	e	os	outros	todos.
Os	 heróis	 não	 desejavam	 bolachas	 de	 gengibre,	 presentes	 e	 rebuçados	 de
hortelã-pimenta.	 Jule	 também	 não	 desejaria	 tais	 coisas.	 Nunca	 as	 tivera,	 de
qualquer	maneira.	Não	havia	nada	por	que	se	lamentar.
*
«God	rest	ye	merry,	gentlemen,
Let	nothing	you	dismay...»
*
O	bêbedo	começou	a	cantar	outra	vez.
–	Cala-te	antes	que	eu	vá	aí	e	te	obrigue!	–	berrou-lhe	Jule.
A	cantoria	parou.
Ela	emborcou	o	resto	do	chocolate.	Não	pensaria	em	ter-se	tresmalhado.	Não
se	sentiria	culpada.	Seguiria	esta	via	do	herói	de	ação	e	continuaria	com	toda	a
força.
*
Jule	West	Williams	passou	o	dia	24	de	dezembro	numa	viagem	de	autocarro
de	dezanove	horas	e	adormeceu	cedo	na	manhã	do	dia	de	Natal	num	hotel	do
aeroporto	de	Portland,	no	Oregon.	Às	onze	da	manhã,	foi	para	o	aeroporto	e	fez
o	check-in	da	bagagem	para	o	voo	da	noite	para	Londres,	em	classe	executiva.
Comeu	um	hambúrguer	na	praça	da	alimentação.	Comprou	livros	e	perfumou-
se	com	perfumes	desconhecidos	na	loja	duty-free.
1	Cântico	tradicional	de	Natal.	«Deus	vos	descanse	felizes,	cavalheiros/Que	nada	vos
desconsole/Lembrai-vos	de	que	Cristo,	o	nosso	salvador/Nasceu	no	Dia	de	Natal/Para	nos	salvar	a	todos
do	poder	de	Satanás/Quando	nos	tínhamos	tresmalhado.»	(N.	da	T.)
N
12
MEADOS	DE	DEZEMBRO,	2016
SÃO	FRANCISCO
o	 dia	 anterior	 à	 caminhada,	 Jule	 recebeu	 um	 telefonema	 de	 Brooke.	 –
Onde	estás?	–	rosnou	Brooke,	sem	dizer	olá.	–	Viste	a	Immie?
–	Não.	–	Jule	acabara	nesse	momento	uma	sessão	de	exercício	físico.	Sentou-
se	num	banco	no	exterior	do	ginásio	Haight-Ashbury	Fitness.
–	Já	lhe	mandei,	 tipo,	um	trilião	de	mensagens,	mas	ela	não	me	responde	–
disse	 Brooke.	 –	Não	 está	 no	 Snapchat	 nem	 no	 Insta.	 Estou	 a	 ponto	 de	 ficar
hostil,	por	isso	pensei	telefonar-te	e	ver	o	que	sabes.
–	A	Immie	não	responde	a	ninguém	–	disse	Jule.
–	Onde	estás?
Jule	não	viu	razão	para	mentir.	–	Em	São	Francisco.
–	Estás	aqui?
–	Espera,	tu	estás	aqui?	–	La	Jolla,	onde	Brooke	supostamente	se	encontrava,
ficava	a	umas	boas	oito	horas	de	carro.
–	Tenho	amigos	do	secundário	que	andam	na	universidade	em	São	Francisco,
por	isso	arranjei	um	hotel	e	vim	até	cá.	Mas	afinal	eles	todos	têm	empregos	ou
exames	o	dia	todo.	Era	para	me	encontrar	com	o	Chip	Lupton	hoje	de	manhã,
mas	 ele	 deixou-me	 pendurada,	 o	 filho	 da	 mãe.	 Nem	 sequer	 me	 mandou
mensagem	até	eu	já	estar	à	espera	dele,	tipo,	num	corredor	de	cobras	mortas.
–	Cobras	mortas?
–	Uh	–	gemeu	Brooke.	–	Estou	na	Academia	das	Ciências.	O	filho	da	mãe	do
Lupton	 disse	 que	 queria	 ver	 a	 exposição	 de	 herpetologia.	 Se	 não	 quisesse
saltar-lhe	em	cima	nunca	 teria	dito	que	 sim.	A	 Immie	está	em	São	Francisco
contigo?
–	Não.
–	Quando	é	que	é	a	porra	do	Hanukkah?	Ela	vai	a	casa	para	essa	festa?
–	É	 agora.	Não	 iria	 a	 casa	 para	 isso.	 Foi	 para	Mumbai,	 talvez.	Não	 sei	 ao
certo.
–	OK.	Então	vem	até	cá,	já	que	estás	na	cidade.
–	Às	cobras?
–	Sim.	Meu	Deus,	que	tédio.	Estás	longe?
–	Tenho...
–	Não	digas	que	tens	cenas	para	fazer.	Continuamos	a	mandar	mensagens	à
Immie	e	forçamo-la	a	responder.	Ela	tem	rede	em	Mumbai?	Podemos	mandar-
lhe	e-mails,	 se	não	 tem.	Vem	 ter	comigo	à	exposição	de	herpetologia	–	disse
Brooke.	–	Tens	de	fazer	uma	marcação.	Eu	envio-te	o	número.
Jule	 queria	 ver	 todas	 as	 coisas.	 Ainda	 não	 fora	 à	Academia	 das	 Ciências.
Além	disso,	queria	saber	o	que	Brooke	sabia	sobre	a	vida	de	Imogen	depois	de
Martha’s	Vineyard.	Portanto,	meteu-se	num	táxi.
A	Academia	era	um	museu	de	história	natural	cheio	de	ossos	de	dinossauro	e
taxidermia.
–	Tenho	uma	marcação	para	as	duas	horas	–	disse	Jule	ao	homem	ao	balcão
da	herpetologia.
–	Um	documento	de	identificação,	por	favor.
Jule	mostrou-lhe	o	cartão	de	Vassar	e	ele	deixou-a	passar.
–	Temos	mais	de	trezentos	mil	espécimes	provenientes	de	cento	e	sessenta	e
seis	países	–	disse	ele.	–	Desfrute	da	sua	visita.
A	 coleção	 estava	 albergada	 numa	 série	 de	 salas.	 O	 ambiente	 era	 meio
biblioteca,	meio	 armazém.	 Nas	 prateleiras	 havia	 frascos	 cheios	 com	 animais
conservados:	 cobras,	 lagartos,	 sapos	 e	 muitos	 outros	 que	 Jule	 não	 sabia
identificar.	Estavam	todos	cuidadosamente	rotulados.
Jule	 sabia	 que	 Brooke	 estava	 à	 sua	 espera,	 mas	 não	 lhe	 enviou	 uma
mensagem	 a	 avisar	 que	 chegara.	 Em	 vez	 disso,	 percorreu	 lentamente	 os
corredores,	em	passos	silenciosos.
Decorou	os	nomes	da	maior	parte	das	coisas	para	que	olhava.	Xenopus	leivis,
rã	 de	 unhas	 africana.	 Crotalus	 cerastes,	 cascavel	 chifruda.	 Crotalus	 ruber,
cascavel	 diamante	 vermelho.	 Anotou	 mentalmente	 os	 nomes	 de	 víboras,
salamandras,	rãs	raras,	cobras	minúsculas	nativas	de	ilhas	remotas.
As	 víboras	 estavam	 enroscadas	 sobre	 si	 mesmas,	 suspensas	 num	 líquido
turvo.	 Jule	 tocou	 com	 a	 mão	 nas	 suas	 bocas	 venenosas,	 sentindo	 o	 medo
percorrê-la.
Dobrou	uma	esquina	e	deu	com	Brooke	sentada	no	chão	num	corredor,	a	fitar
uma	rã	amarela	robusta	numa	prateleira	baixa.
–	Levaste	uma	eternidade	–	disse	Brooke.
–	Distraí-me	com	as	cobras	–	disse	Jule.	–	São	tão	poderosas.
–	Não	são	poderosas.	Estão	mortas	–	disse	Brooke.	–	Estão,	tipo,	enroscadas
em	frascos	e	ninguém	gosta	delas.	Meu	Deus,	não	seria	deprimente	se	depois
de	morreres	a	 tua	família,	 tipo,	 te	conservasse	em	formol	e	 te	guardasse	numfrasco	gigante?
–	 Têm	 veneno	 dentro	 delas	 –	 disse	 Jule,	 ainda	 a	 falar	 sobre	 as	 víboras.	 –
Algumas	 conseguem	 matar	 um	 animal	 trinta	 vezes	 maior	 do	 que	 elas.	 Não
achas	que	seria	uma	sensação	incrível,	ter	uma	arma	assim	dentro	de	ti?
–	 São	 feias	 como	 o	 diabo	 –	 disse	 Brooke.	 –	Não	 valeria	 a	 pena.	 Adiante.
Estou	farta	de	herpetologia.	Vamos	beber	um	café.
No	 bar	 do	 museu	 serviam	 chávenas	 minúsculas	 de	 café	 extremamente
amargo	 e	 gelados	 italianos.	 Brooke	 disse	 a	 Jule	 que	 pedisse	 de	 baunilha,	 e
deitaram	o	café	por	cima	da	taça	de	gelado.
–	Isto	tem	um	nome	–	disse	Brooke	–,	mas	não	prestei	atenção	quando	fomos
a	Itália.	Tomávamo-lo	num	pequeno	restaurante	numa	praça	qualquer.	A	minha
mãe	estava	sempre	a	tentar	contar-me	a	história	da	praça	e	o	meu	pai	era	tipo
«Vamos	praticar	o	teu	italiano!»	Mas	a	minha	irmã	e	eu	achávamos	tudo	uma
seca.	 Foi	 assim	 a	 viagem	 toda,	 a	 revirarmos	 os	 olhos,	 mas	 depois...	 e	 isto
acontecia	 quase	 sempre...	 chegava	 a	 comida	 e	 nós	 ficávamos	 só	 nham	nham
nham.	 Já	 foste	 a	 Itália?	É	um	nível	de	massas	que	nem	sequer	compreendes,
juro-te.	Não	devia	 ser	 legal.	 –	Ergueu	 a	 taça	 e	 bebeu	o	 resto	 do	 café.	 –	Vou
contigo	para	casa	para	jantarmos	–	anunciou.
Ainda	não	tinham	falado	sobre	Imogen,	portanto	Jule	disse	que	estava	bem.
Compraram	 salsichas,	 massa	 e	 um	 molho	 vermelho.	 Brooke	 tinha	 uma
garrafa	de	vinho	na	mala	do	carro.	No	apartamento,	Jule	enfiou	numa	gaveta	a
pilha	de	correio,	com	a	parte	da	frente	para	baixo,	e	escondeu	a	sua	carteira	do
dinheiro	enquanto	Brooke	cirandava	por	ali.
–	Um	sítio	fixe.	–	Brooke	mexeu	nas	almofadas	em	forma	de	ouriço-cacheiro
e	nos	frascos	com	berlindes	bonitos	e	pedras	de	fantasia.	Olhou	para	a	toalha	de
mesa	estampada,	os	armários	vermelhos	da	cozinha,	as	estatuetas	decorativas	e
os	livros	que	tinham	pertencido	ao	inquilino	anterior.	A	seguir,	abriu	armários	e
encheu	um	tacho	com	água	para	a	massa.	–	Precisas	de	uma	árvore	de	Natal	–
disse.	–	Espera,	és	judia?	Não,	não	és	judia.
–	Não	sou	nada.
–	Todas	as	pessoas	são	alguma	coisa.
–	Não.
–	Não	sejas	esquisita,	Jule.	Tipo,	eu	sou	holandesa	da	Pensilvânia	do	lado	da
minha	mãe	 e	 católica	 irlandesa	 e	 cubana	 do	 lado	 do	meu	 pai.	 Isso	 não	 quer
dizer	que	seja	cristã,	mas	quer	dizer	que	tenho	de	ir	a	casa	todas	as	Vésperas	de
Natal	e	fingir	que	presto	atenção	na	Missa	do	Galo.	O	que	és	tu?
–	Não	comemoro	a	data.	–	Jule	gostaria	que	Brooke	não	insistisse.	Não	tinha
resposta.	Não	 tinha	mitologia	que	evocasse	 alguma	coisa	 além	da	história	de
origem	de	herói.
–	 Bem,	 isso	 é	 triste	 como	 o	 caraças	 –	 disse	 Brooke,	 abrindo	 a	 garrafa	 de
vinho.–	Diz-me	onde	tem	estado	a	Immie.
–	Eu	e	ela	viemos	até	cá	–	disse	Jule.	–	Mas	só	por	uma	semana.	Depois	ela
disse-me	 que	 ia	 a	 Paris,	 despediu-se	 e	mais	 tarde	mandou	 uma	mensagem	 a
dizer	 que	 Paris	 era	 só	 uma	 cidade	 como	 Nova	 Iorque	 e	 que	 ia	 antes	 para
Mumbai.	Ou	então	para	o	Cairo.
–	Sei	que	não	 foi	para	casa,	porque	a	mãe	dela	voltou	a	mandar-me	um	e-
mail	 –	disse	Brooke.	–	Oh,	 e	 sei	que	deixou	o	Forrest.	A	 Immie	mandou-me
uma	mensagem	a	dizer	que	ele	andava	em	baixo	como	um	gato	listrado	triste	e
que	se	sentia	aliviada	por	se	livrar	dele,	mas	não	me	pintou	o	quadro	completo.
Falou-te	sobre	o	funcionário	da	limpeza?
Essa	era	a	conversa	que	Jule	queria	ter,	mas	sabia	que	teria	de	avançar	com
cautela.	–	Um	pouco.	O	que	é	que	te	contou	a	ti?
–	Telefonou-me	no	dia	a	seguir	a	eu	ter	partido	de	Vineyard	e	disse	que	era
tudo	culpa	dela	 e	que	 ia	dar	 à	 sola	para	Porto	Rico	contigo	para	descansar	 e
descontrair	–	disse	Brooke.
–	Não	fomos	para	Porto	Rico	–	disse	Jule.	–	Viemos	para	aqui.
–	Detesto	pra	caraças	como	ela	é	de	segredinhos	–	disse	Brooke.	–	Adoro-a,
mas,	tipo,	ela	gosta	de	parecer	desligada	e	misteriosa.	É	tão	irritante.
Jule	sentiu	necessidade	de	defender	Imogen.	–	Ela	está	a	tentar	ser	verdadeira
consigo	mesma	em	vez	de	andar	sempre	a	agradar	às	outras	pessoas	–	disse.
–	Bem,	não	me	importava	se	ela	se	esforçasse	um	bocado	mais	por	agradar	às
pessoas,	na	verdade	–	disse	Brooke.	–	De	 facto,	 ela	podia	 tentar	muito	mais,
com	um	caraças.
Brooke	foi	até	ao	televisor	como	se	tivesse	dito	as	palavras	definitivas	sobre
o	assunto	de	Imogen	Sokoloff.	Saltou	de	canal	em	canal	até	encontrar	um	filme
antigo	 com	 Bette	 Davis	 que	 começara	 nesse	 momento.	 –	 Vamos	 ver	 isto	 –
disse.	–	Serviu-se	de	um	segundo	copo	de	vinho	e	pôs	a	massa	nos	pratos.
Viram	 o	 filme.	 Era	 a	 preto	 e	 branco.	 Todas	 as	 pessoas	 usavam	 roupas
maravilhosa	 e	 se	 comportavam	 horrivelmente	 umas	 para	 com	 as	 outras.	 Daí
uma	hora,	ouviu-se	bater	à	porta.
Era	 Maddie,	 a	 proprietária	 do	 apartamento.	 –	 Preciso	 de	 ligar	 a	 água	 no
lavatório	da	 sua	casa	de	banho	e	 a	 seguir	desligá-la	–	disse.	–	O	canalizador
está	 lá	em	baixo.	Quer	que	o	ajude	a	descobrir	por	que	motivo	 tem	andado	a
funcionar	mal.
–	Pode	voltar	mais	tarde?
–	O	tipo	está	na	minha	casa	neste	momento	–	disse	Maddie.	–	Eu	só	demoro
um	minuto.	Mal	se	vai	aperceber	de	que	estou	aqui.
Jule	lançou	um	olhar	a	Brooke.	Estava	com	os	pés	cima	da	mesa	de	apoio	ao
sofá.	–	Entre.
–	Obrigada,	 é	uma	 joia.	–	 Jule	 seguiu	Maddie	 até	 à	 casa	de	banho,	onde	a
proprietária	 se	 pôs	 a	 ligar	 e	 a	 desligar	 as	 torneiras.	 –	 Já	 deve	 bastar	 –	 disse
Maddie,	saindo.	–	Agora	vou	ver	se	o	meu	lavatório	está	entupido.	Espero	não
ter	de	voltar.
–	Obrigada	–	disse	Jule.
–	Não,	obrigada	eu,	Imogen.	Desculpe	ter	vindo	incomodá-la.
Que	raio.
Que	raio.
A	porta	fechou-se	nas	costas	de	Maddie.
Brooke	desligou	a	televisão.	Estava	com	o	telemóvel	na	mão.	–	O	que	é	que
ela	disse?
–	É	hora	de	ires	para	casa	–	disse	Jule.	–	Já	bebeste	muito.	Vou	chamar-te	um
táxi.
Jule	manteve	uma	conversa	fiada	ininterrupta	até	Brooke	estar	dentro	do	táxi,
mas,	mal	ele	arrancou,	o	telemóvel	de	Immie	deu	sinal	no	seu	bolso.
Brooke	Lannon:	Immie!	Onde	tás?
BL:	A	Jule	diz	Mumbai?	Ou	Cairo.
BL:	É	verdade?
BL:	Também,	a	Vivian	foi	uma	enorme	bruxa	para	mim	e	não	posso	crer	na	coisa	sobre	ela	e
o	Isaac.	Quer	dizer,	posso	crer,	mas	que	porra.
BL:	 O	 Chip	 Lupton	 apalpou-me	 as	 mamas	 ontem	 à	 noite	 e	 depois	 hoje	 deixou-me
pendurada.	Portanto,	ADIANTE.	Quem	me	dera	que	estivesses	aqui,	só	que	tá	uma	cena
tão	má	que	ias	detestar.
BL:	E	também	a	Jule	disse	à	senhoria	que	se	chama	Imogen.	????!!!!
Jule	finalmente	respondeu.
IS:	Ei.	Estou	aqui.
BL:	–	Olá!!!!!
IS:	O	Chip	apalpou-te	as	mamas?
BL:	São	precisas	mamas	para	te	fazer	responder-me,	eh	eh.
BL:	Bem,	as	mamas	são	mto	importantes.
Jule	esperou	um	minuto	e	a	seguir	escreveu:
IS:	Na	boa	com	a	Jule.	Ela	é	a	minha	amiga	mais	antiga.
IS:	 Arranjei-lhe	 um	 apartamento	 até	 ela	 se	 instalar	 em	 condições.	 Assinei	 o	 contrato	 de
arrendamento,	portanto	a	proprietária	julga	que	ela	é	eu.	Está	sem	dinheiro.
BL:	Não	tou	convencida.	Passa-se	alguma	coisa,	não	sei	o	quê.	A	sério,	a	Jule	deixou	a	tal
senhora	CHAMAR-LHE	«IMOGEN».
IS:	Não	tem	mal.
BL:	Não	sei.	Podia	dar	cabo	do	teu	nome	em	termos	de	crédito,	e	sei	que	esse	tipo	de	treta	é
importante	para	 ti.	Além	de	que	é	sinistro.	Hello?	Roubo	de	 identidade?	Existe	de	 facto,
não	é	só	um	mito	urbano.
BL:	E	também,	onde	estás?	Em	Mumbai?
Jule	 não	 respondeu.	 Nada	 que	 pudesse	 dizer	 importaria	 se	 Brooke	 estava
decidida	a	causar	problemas.
N
11
ÚLTIMA	SEMANA	DE	SETEMBRO,	2016
SÃO	FRANCISCO
ove	semanas	antes	de	Brooke	vir	 jantar,	Jule	 foi	de	avião	de	Porto	Rico
para	São	Francisco	e	instalou-se	no	hotel	Sir	Francis	Drake	em	Nob	Hill.
Aquele	lugar	era	só	veludo	vermelho,	lustres	e	floreados	rococó.	Os	tetos	eram
de	estuque.	Jule	usou	o	cartão	de	crédito	e	o	documento	de	identificação	com
uma	fotografia	de	 Imogen.	O	 rececionista	não	questionou	nada	e	chamou-lhe
Ms.	Sokoloff.
Jule	tinha	uma	suite	no	último	andar.	No	quarto	havia	cadeirões	de	pele	com
tachas	 e	 uma	 cómoda	 com	 um	 debruado	 dourado.	 Ela	 começou	 a	 sentir-se
melhor	assim	que	aviu.
Tomou	um	duche	demorado	e	 lavou	o	 suor	da	viagem	e	 as	 recordações	de
Porto	Rico	da	sua	pele.	Esfregou	com	força	com	a	esponja	e	pôs	champô	duas
vezes.	 Vestiu	 um	 pijama	 que	 nunca	 tinha	 usado	 e	 dormiu	 até	 a	 dor	 que	 lhe
subia	pelo	pescoço	desaparecer	finalmente.
Jule	passou	uma	semana	naquele	hotel.	Sentia-se	como	se	estivesse	num	ovo.
A	 casca	 cintilante	 e	 dura	 do	 hotel	 protegia-a	 quando	 estava	 a	 necessitar	 de
proteção.
No	 final	da	 semana,	viu	uma	 lista	de	casas	para	arrendar,	 enviou	alguns	e-
mails	e	foi	ver	o	apartamento	de	São	Francisco.	Maddie	Chung	fez-lhe	a	visita
guiada.	A	casa	era	mobilada,	mas	não	 tinha	o	 tipo	de	mobiliário	 simples	que
poderia	 esperar-se	 de	 um	 apartamento	 de	 arrendamento.	 Estava	 cheio	 de
pequenas	 esculturas	pouco	usuais	 e	 de	 coleções	bonitas	 em	 frascos	de	vidro:
botões,	berlindes	e	pedras	de	fantasia	expostos	em	prateleiras	de	modo	a	que	a
luz	 incidisse	neles.	A	cozinha	 tinha	armários	vermelhos	e	 soalho	de	madeira.
Havia	pratos	de	vidro	e	tachos	e	panelas	de	ferro	pesado.
Entregando-lhe	 a	 chave,	Maddie	 explicou	 que	 tivera	 um	 inquilino	 durante
mais	de	dez	anos,	um	cavalheiro	 solteiro	que	morrera	 sem	deixar	parentes.	–
Não	havia	ninguém	a	quem	comunicar	a	morte	dele.	Ninguém	para	vir	buscar
as	coisas	dele	–	disse	ela.	–	E	tinha	um	gosto	tão	bonito	e	tinha	tomado	conta
de	 tudo	 tão	bem.	Pensei:	«Vou	arrendar	o	apartamento	mobilado,	para	 férias.
Assim,	 as	 pessoas	 podem	 apreciá-lo.»	 –	 Tocou	 num	 frasco	 com	 berlindes.	 –
Nenhuma	loja	de	caridade	quer	estas	coisas.
–	Porque	é	que	ele	não	tinha	ninguém?	–	perguntou	Jule.
–	Não	 sei.	 Era	mais	 ou	menos	 da	minha	 idade	 quando	morreu.	Cancro	 da
garganta.	 Não	 tinha	 parentes	 que	 eu	 conseguisse	 descobrir.	 Nem	 dinheiro.
Talvez	tenha	mudado	de	nome	ou	estivesse	zangado	com	a	família.	Acontece.	–
Encolheu	 os	 ombros.	 Estavam	 agora	 à	 porta.	 –	 Vai	 mandar	 homens	 de
mudanças?	–	perguntou	Maddie.	–	Pergunto	porque	gosto	de	estar	em	casa	se	a
porta	 do	 prédio	 for	 ficar	 aberta	 o	 dia	 todo,	 mas	 não	 deve	 ser	 problema
combinarmos	isso.
Jule	abanou	a	cabeça.	–	Só	tenho	uma	mala.
Maddie	olhou-a	com	bondade	e	sorriu.	–	Sinta-se	à	vontade,	Imogen.	Espero
que	seja	feliz	aqui.
Olá,	mãe	e	pai,
Parti	de	Martha’s	Vineyard	há	pouco	mais	de	uma	semana	e	agora	ando	em	viagem.
Não	sei	bem	para	onde	irei!	Talvez	para	Mumbai	ou	Paris	ou	o	Cairo.
A	vida	na	ilha	era	tranquila	e,	tipo,	isolada	do	resto	do	mundo.	Tudo	se	movia	a	um
ritmo	lento.	Lamento	realmente	não	me	ter	mantido	em	contacto.	Só	preciso	de	descobrir
quem	sou	sem	os	estudos,	a	família	ou	qualquer	outra	coisa	a	definir-me.	Isso	faz
sentido?
Tive	um	namorado	em	Martha’s	Vineyard.	Chama-se	Forrest.	Mas	acabámos,	e	quero
ver	mais	do	mundo.
Por	favor	não	se	preocupem	comigo.	Vou	viajar	em	segurança	e	olhar	bem	por	mim
mesma.
Sempre	foram	uns	pais	maravilhosos.	Penso	em	vocês	todos	os	dias.
Muitos	beijinhos,
Imogen
Depois	 de	 instalar	 a	Wi-Fi	 no	 apartamento	 de	 São	 Francisco,	 Jule	 enviou
aquela	mensagem	por	e-mail	a	partir	da	conta	de	Imogen.
Também	 escreveu	 a	 Forrest.	 Usou	 as	 palavras	 favoritas	 de	 Immie,	 o	 seu
calão,	a	sua	fórmula	de	despedida,	os	seus	«tipo»	e	«talvez».
Olá	Forrest.
Este	e-mail	é	difícil	de	escrever,	mas	tenho	de	te	dizer:	não	vou	voltar.	A	renda	está
paga	até	ao	fim	de	setembro,	portanto,	desde	que	saias	antes	de	1	de	outubro,	está	tudo
bem.
Não	quero	voltar	a	ver-te.	Vou-me	embora.	Bem,	ah.	Já	me	vim	embora.
Mereço	alguém	que	não	me	olhe	de	alto.	Admite,	é	o	que	tu	fazes.	Porque	és	um
homem	e	eu	sou	uma	mulher.	Porque	sou	mais	pequena	do	que	tu.	Porque	sou	adotada	e
tu	não	gostas	de	o	dizer,	mas	dás	valor	às	origens.	Pensas	que	és	superior	porque	eu
desisti	de	estudar	e	tu	não.	E	pensas	que	escrever	um	romance	é	mais	importante	do	que
qualquer	coisa	que	eu	gosto	de	fazer	ou	quero	fazer	com	a	minha	vida.
A	verdade,	Forrest,	é	que	sou	eu	que	tenho	o	poder.	Tinha	a	casa.	E	o	carro.	Pagava	as
contas.	Sou	uma	adulta,	Forrest.	Tu	não	passas	de	um	rapazinho	dependente	que	se	acha
com	todos	os	direitos.
Seja	como	for,	parti.	Achei	que	devias	saber	porquê.
Imogen
Forrest	respondeu.	Sentia-se	triste	e	arrependido.	Furioso.	Implorou.
Jule	 não	 respondeu.	Em	vez	 disso,	 enviou	 uma	breve	mensagem	 a	Brooke
com	dois	gatinhos.
IS:	Acabei	com	o	Forrest.	Este	gato	triste	listrado	talvez	seja	como	ele	se	sente
IS:	O	cor	de	laranja	peludo	é	como	me	sinto.	(Tão	aliviada.)
Brooke	respondeu.
BL:	Tiveste	notícias	da	Vivian?
BL:	ou	de	mais	alguém	de	Vassar?
BL:	Immie?
BL:	Porque	soube	pela	Caitlin	(a	Caitlin	Moon,	não	a	Caitlin	Clark)	que
BL:	a	Vivian	anda	com	o	Isaac	agora.
BL:	Mas	não	acredito	em	nenhuma	coisa	que	a	Caitlin	Moon	diga.
BL:	Portanto,	talvez	não	seja	verdade.
BL:	Acabei	de	vomitar	um	bocadinho	na	boca.
BL:	Espero	que	não	fiques	incomodada.
BL:	Sinto-me	incomodada	por	ti.
BL:	Mas	bye	bye,	Forrest!	Immie,	tu	consegues	muito	melhor.
BL:	Oh	meu	Deus	La	Jolla	é	uma	seca	descomunal	la	la	la	porque	é	que	não	me	respondes?
responde-me	sua	bruxa.
Mais	 tarde	 nesse	 mesmo	 dia,	 chegou	 um	 e-mail	 da	 própria	 Vivian	 a
comunicar	que	estava	apaixonada	por	Isaac	Tupperman	e	esperava	que	Imogen
compreendesse,	porque	não	havia	como	controlar	o	coração	humano.
*
Nos	 dias	 seguintes,	 Jule	 preparou-se	 para	 viver	 como	 pensava	 que	 Immie
viveria.	Numa	manhã,	bateu	à	porta	de	Maddie	Chung	com	um	latte	do	café	ao
fundo	do	quarteirão.	–	Achei	que	talvez	estivesse	a	precisar	de	um	café.
O	 rosto	 de	Maddie	 iluminou-se.	 Jule	 foi	 convidada	 a	 entrar	 e	 conheceu	 a
mulher	da	sua	senhoria,	uma	mulher	grisalha	e	bem	vestida,	que	saía	de	casa
nesse	 momento	 para	 «ir	 dirigir	 uma	 corporação»,	 como	 disse	 Maddie.	 Jule
perguntou	se	podia	ir	ver	a	livraria,	e	a	senhoria	levou-a	lá	num	Volvo.
A	loja	de	Maddie	era	pequena	e	desarrumada,	mas	confortável.	Vendia	uma
mistura	 de	 livros	 novos	 e	 usados.	 Jule	 comprou	 dois	 romances	 vitorianos	 de
autores	 que	 não	 tinha	 a	 certeza	 se	 Immie	 alguma	 vez	 lera:	Gaskell	 e	Hardy.
Maddie	recomendou	O	Coração	das	Trevas	e	Dr.	Jekyll	e	Mr.	Hyde,	além	de
um	livro	da	autoria	de	um	tipo	chamado	Goffman	intitulado	The	Presentation
of	Self	in	Everyday	Life.2	Jule	comprou	esses	também.
Noutros	 dias,	 Jule	 foi	 ver	 exposições	 que	 Maddie	 sugerira.	 Pensando	 em
Imogen,	abrandava	o	passo	e	deixava	a	mente	vaguear.
Immie	não	teria	prestado	muita	atenção	em	nenhum	museu.	Não	teria	tentado
aprender	história	de	arte	e	memorizar	datas.
Não.	 Immie	 teria	 atravessado	 preguiçosamente	 as	 salas,	 a	 deixar	 que	 o
espaço	ditasse	o	seu	estado	de	espírito.	Teria	parado	para	apreciar	beleza,	para
existir	sem	se	esforçar.
Tanto	de	Immie	estava	agora	em	Jule.	Isso	era	uma	consolação.
2	A	Apresentação	do	Eu	na	Vida	Quotidiana.	Livro	de	Ervin	Goffman	não	traduzido	em	Portugal.	(N.	da
T.)
U
10
TERCEIRA	SEMANA	DE	SETEMBRO,	2016
ILHA	DE	CULEBRA,	PORTO	RICO
ma	semana	antes	de	se	mudar	para	São	Francisco,	Jule	estava	bêbeda	na
ilha	de	Culebra.	Nunca	estivera	bêbeda.
Culebra	é	um	arquipélago	ao	largo	da	costa	de	Porto	Rico.	Na	ilha	principal,
andam	 cavalos	 selvagens	 pelas	 estradas.	 Existem	 hotéis	 caros	 ao	 longo	 da
costa,	 mas	 o	 centro	 da	 cidade	 não	 é	 muito	 virado	 para	 o	 turismo.	 A	 ilha	 é
conhecida	pelo	mergulho,	e	existe	ali	uma	pequena	comunidade	de	residentes
norte-americanos.
Eram	dez	da	noite.	O	bar	era	um	local	que	Jule	conhecia.	Estava	aberto	ao	ar
da	noite	num	dos	lados.	Umas	ventoinhas	brancas	e	sujas	zumbiam	nos	cantos.
O	espaço	estava	cheio	de	americanos,	alguns	turistas,	mas	muitos	residentes.	O
empregado	 do	 balcão	 não	 pediu	 um	 documento	 de	 identificação	 a	 Jule	 para
confirmar	a	sua	idade.	Quase	ninguém	pedia	a	identificação	em	Culebra.
Esta	noite,	Jule	mandara	vir	um	Kahlúa	e	natas.	Um	homem	que	conhecera
antes	ocupou	um	par	de	lugares	ao	balcão,	mais	adiante.	Era	um	tipo	branco	de
barba,	 talvez	com	uns	cinquenta	e	cinco	anos.	Usava	uma	camisahavaiana	e
tinha	 a	 testa	 queimada	 do	 sol.	 Falava	 com	 pronúncia	 da	 Costa	 Oeste	 –	 de
Portland,	dissera	antes	a	Jule.	Ela	não	sabia	o	seu	nome.	Com	ele	encontrava-se
uma	 mulher	 da	 mesma	 idade.	 O	 seu	 cabelo	 era	 aos	 caracóis	 grisalhos
despenteados.	A	sua	T-shirt	cor	de	rosa	era	decotada	e	um	pouco	incongruente
com	a	 saia	 estampada	 e	 as	 sandálias	 que	usava	na	metade	 inferior	 do	 corpo.
Começou	a	comer	uma	mistura	de	pretzel	de	uma	 taça	que	se	encontrava	em
cima	do	balcão.
A	bebida	de	Jule	chegou.	Engoliu-a	e	pediu	outra.	O	casal	estava	a	discutir.
–	Aquela	puta	com	um	coração	de	ouro:	era	o	meu	principal	problema	–	disse
a	mulher	com	uma	pronúncia	sulista.	Talvez	do	Tennessee,	talvez	do	Alabama.
Despretensiosa.
–	Era	só	um	filme	–	respondeu	o	homem.
–	A	namorada	perfeita	é	uma	puta	que	comes	de	graça.	Nojento.
–	Não	 sabia	 que	 ia	 ser	 isso	 –	 disse	 o	 homem.	 –	Nem	 sequer	 sabia	 que	 te
incomodou	 até	 começarmos	 a	 vir	 para	 cá.	 O	Manuel	 disse	 que	 era	 um	 bom
filme.	Passámo-lo;	não	é	nada	de	importante.
–	Menospreza	metade	da	população,	Kenny.
–	Não	te	obriguei	a	vê-lo.	Além	disso,	talvez	o	filme	seja	de	mente	aberta	em
relação	à	prostituição.	–	Kenny	soltou	uma	risada.	–	Tipo,	não	devemos	pensar
mal	dela	por	causa	do	trabalho	que	faz.
–	Deve	 dizer-se	 trabalho	 sexual	 –	 disse	 o	 empregado	 do	 balcão,	 piscando-
lhes	o	olho.	–	Não	prostituição.
Jule	terminou	a	sua	bebida	e	pediu	uma	terceira.
–	Era	só	coisas	a	explodir	e	um	tipo	com	um	fato	vermelho	–	disse	Kenny.	–
Tens	andado	a	conviver	demasiado	com	essas	amigas	do	clube	de	leitura.	Ficas
sempre	mais	sensível	depois	de	estares	com	elas.
–	Oh,	vai-te	lixar	–	disse	a	senhora,	mas	disse-o	de	uma	maneira	agradável.	–
Tens	tantos	ciúmes	das	minhas	amigas	do	clube	de	leitura.
Kenny	reparou	que	Jule	estava	a	olhar	para	eles.	–	Ei,	olá	–	disse,	erguendo	o
seu	copo	de	cerveja.
Jule	 sentiu	 que	 os	 três	 Kahlúas	 estavam	 a	 inundá-la	 como	 uma	 onda
pegajosa.	Sorriu	à	senhora.	–	É	a	sua	mulher	–	disse	numa	voz	empastada.
–	Sou	a	namorada	dele	–	disse	a	senhora.
Jule	acenou	com	a	cabeça.
A	noite	começou	a	toldar-se.	Kenny	e	a	sua	senhora	estavam	a	falar	com	ela.
Jule	estava	a	rir-se.	Disseram	que	ela	devia	comer	alguma	coisa.
Ela	 não	 conseguia	 encontrar	 a	 boca.	 As	 batatas	 fritas	 eram	 demasiado
salgadas.
Kenny	 e	 a	 sua	 senhora	 ainda	 estavam	 a	 falar	 sobre	 filmes.	 A	 senhora
detestava	o	tipo	do	fato	vermelho.
Quem	era	esse	tipo?	Tinha	um	guaxinim?	Era	amigo	de	uma	árvore.	Não,	de
um	unicórnio.	O	tipo	feito	de	pedras	estava	sempre	triste.	Estava	condenado	a
ser	pedras	o	 tempo	todo,	por	 isso	ninguém	gostava	dele.	Depois	havia	aquele
que	 não	 falava	 sobre	 quem	 era.	 Era	 velho,	 mas	 tinha	 um	 bom	 corpo	 e	 um
esqueleto	de	metal.	Espera,	espera.	Também	havia	um	tipo	azul.	E	uma	mulher
nua.	Duas	pessoas	azuis.	De	repente,	Jule	estava	no	chão	do	bar.
Não	 sabia	 como	 tinha	 chegado	 lá.	 Sentia	 as	 mãos	 doridas.	 Havia	 algo	 de
errado	com	as	suas	mãos.	Sentia	a	boca	estranha	e	doce.	Tanto	Kahlúa.
–	Estás	no	Del	Mar,	no	resort	mais	acima	na	estrada?	–	disse	a	senhora	do
Kenny	a	Jule.
Jule	assentiu	com	a	cabeça.
–	Devíamos	acompanhá-la	até	lá,	Kenny	–	disse	a	senhora.	Estava	acocorada
no	chão	 junto	a	Jule.	–	Aquela	estrada	não	é	 iluminada.	Ela	podia	meter-se	à
frente	de	um	carro.
A	 seguir	 estavam	 no	 exterior.	 Kenny	 não	 se	 encontrava	 perto	 delas.	 A
senhora	estava	a	segurar	o	braço	de	Jule.	Acompanhou	Jule	pela	estrada	escura
até	onde	as	luzes	do	Del	Mar	brilhavam.
–	Preciso	de	lhe	contar	uma	história	–	disse	Jule	em	voz	muito	alta.	Tinha	de
dizer	coisas	à	senhora	do	Kenny.
–	Ah	sim?	–	disse	a	senhora.	–	Cuidado	com	os	pés,	aí.	Está	escuro.
–	É	uma	história	sobre	uma	rapariga	–	disse	Jule.	–	Não,	uma	história	sobre
um	 rapaz.	 Passada	 há	 muito	 tempo.	 Esse	 rapaz	 empurrou	 uma	 rapariga	 que
conhecia	contra	uma	parede.	Outra	rapariga,	não	eu.
–	Hum-hum...
Jule	 sabia	 que	 não	 estava	 a	 contar	 a	 história	 da	 maneira	 como	 devia	 ser
contada,	mas	 estava	 a	 contá-la.	Agora	 não	 pararia.	 –	 Fez	 as	 coisas	 feias	 que
queria	com	aquela	rapariga	no	beco	por	trás	do	supermercado,	de	noite.	Certo?
Sabe	do	que	falo?
–	Penso	que	sim.
–	Essa	rapariga	conhecia-o	de	vista	e	foi	para	o	beco	com	ele	quando	ele	lhe
pediu,	porque	ele	tinha	uma	cara	bonita.	Essa	rapariga	estúpida	não	sabia	como
dizer	não	da	maneira	 certa.	Não	com	os	punhos.	Ou	 talvez	não	 importasse	o
que	ela	dissesse,	porque	ele	não	lhe	deu	ouvidos.	A	questão	é	que	essa	rapariga
não	tinha	músculos.	Não	tinha	competências.	Tinha	um	saco	de	plástico	cheio
de	leite	e	dónutes.
–	És	do	Sul,	minha	doçura?	–	perguntou	 a	 senhora	do	Kenny.	 –	Não	 tinha
reparado.	Eu	sou	do	Tennessee.	De	onde	és?
–	 Ela	 não	 contou	 a	 nenhuma	 pessoa	 crescida	 o	 que	 tinha	 acontecido,	mas
contou	a	um	par	de	amigas	na	casa	de	banho.	Foi	assim	que	fiquei	a	saber.
–	Ah,	pois.
–	Esse	rapaz,	esse	mesmo	rapaz,	ia	a	pé	do	cinema	para	casa	uma	noite.	Dois
anos	depois.	Eu	tinha	dezasseis	anos	e,	sabe,	estou	em	forma.	Sabia	isso	sobre
mim?	 Estou	 em	 forma.	 Então,	 uma	 noite,	 fui	 ao	 cinema	 e	 vi-o.	 Vi	 o	 rapaz
quando	estava	a	ir	para	casa.	Eu	não	devia	estar	sozinha	na	rua,	a	maior	parte
das	pessoas	diria	isso.	Mas	estava.	Esse	rapaz	também	não	devia	estar	sozinho.
Toda	 aquela	 ideia	 parecia	 engraçada.	 Jule	 sentiu	 que	precisava	de	 parar	 de
andar	para	se	rir.	Plantou	os	pés	e	esperou	que	viesse	o	riso.	Mas	não	veio.
–	Tinha	um	granizado	azul	na	mão	–	prosseguiu	–,	um	daqueles	grandes	que
se	compram	no	cinema.	Sandálias	com	tiras	e	saltos	altos.	Era	verão.	Gosta	de
sapatos	bonitos?
–	Tenho	joanetes	–	disse	a	senhora.	–	Anda	lá,	vamos	continuar	a	andar.
Jule	pôs-se	a	andar.	–	Descalcei	os	sapatos.	E	chamei	o	nome	daquele	rapaz.
Contei-lhe	uma	mentira,	que	precisava	de	telefonar	para	um	táxi,	ali	na	esquina
no	escuro.	Disse	que	o	meu	telemóvel	estava	sem	bateria	e	perguntei	se	podia
ajudar-me.	Ele	julgou	que	eu	era	inofensiva.	Tinha	um	sapato	numa	das	mãos	e
a	bebida	na	outra.	O	outro	sapato	estava	no	chão.	Ele	aproximou-se.	Atirei-lhe
o	granizado	à	cara	com	a	mão	esquerda,	ataquei-o	com	o	 tacão.	Atingiu-o	na
têmpora.
Jule	aguardou	que	a	senhora	dissesse	alguma	coisa.	Mas	a	senhora	manteve-
se	em	silêncio.	Continuava	a	agarrar	o	braço	de	Jule.
–	 Ele	 tentou	 prender-me	 pela	 cintura,	mas	 eu	 ergui	 o	 joelho	 e	 atingi-o	 no
maxilar.	Depois	 voltei	 a	 atacá-lo	 com	o	 tacão	do	 sapato.	Atingi-o	mesmo	no
topo	 da	 cabeça.	 Numa	 parte	 mole.	 –	 Parecia	 importante	 explicar	 onde
exatamente	o	sapato	o	atingira.	–	Bati-lhe	com	o	sapato,	uma	e	outra	e	outra
vez.
Jule	 parou	 de	 andar	 e	 forçou	 a	 senhora	 a	 olhá-la	 no	 rosto.	 Estava	 muito
escuro.	Só	conseguia	ver	as	rugas	bondosas	à	volta	dos	olhos	da	senhora,	mas
não	os	olhos	em	si.	–	Ficou	ali	deitado	com	a	boca	aberta	–	disse	Jule.	–	Com
sangue	 a	 sair-lhe	 do	 nariz.	 Parecia	 morto,	 minha	 senhora.	 Não	 se	 levantou.
Olhei	 para	 o	 fundo	 da	 rua.	 Era	 tarde.	 Nem	 uma	 luz	 de	 um	 alpendre	 estava
acesa.	Não	conseguia	ver	se	ele	estava	morto.	Peguei	no	copo	do	granizado	e
nos	meus	sapatos	e	fui	a	pé	para	casa.
«Peguei	 em	 tudo	 o	 que	 tinha	 usado	 e	 meti-o	 num	 saco	 de	 plástico	 do
supermercado.	De	manhã,	fiz	de	conta	que	ia	para	as	aulas.»
Jule	 baixou	 os	 braços	 ao	 lado	 do	 corpo.	 De	 súbito	 sentia-se	 cansada	 e
estonteada	e	vazia.
–	Ele	estava	morto?	–	perguntou	a	senhora	do	Kenny.
–	 Não	 estava	morto,	 minha	 senhora	 –	 disse	 Jule	 lentamente.	 –	 Procurei	 o
nome	dele	na	Internet.	Procurei-o	todos	os	dias	e	nunca	apareceu,	exceto	num
jornal	local,	ao	lado	de	uma	fotografia.	Tinha	ganhado	um	concurso	de	poesia.
–	A	sério?
–	Nunca	chegou	a	apresentar	queixa	na	polícia.
«Essa	foi	a	noite	em	que	eu	soube	quem	era	–	disse	Jule	à	senhora	do	Kenny.
–	Em	que	soube	do	que	era	capaz.	Compreende-me,	minha	senhora?»
–	 Fico	 contente	 que	 ele	 não	 tenha	morrido,	 minha	 doçura.	 Penso	 que	 nãoestás	habituada	a	beber.
–	Nunca	bebo.
–	Ouve.	Essa	coisa	aconteceu-me,	há	muitos	anos	–	disse	a	senhora.	–	Como
o	 que	 aconteceu	 àquela	 rapariga	 de	 quem	 falaste.	 Não	 gosto	 de	 abordar	 o
assunto,	mas	é	verdade.	Resolvi	a	coisa	na	minha	cabeça	e	agora	estou	bem,
estás	a	ouvir-me?
–	Tá,	OK.
–	Achei	que	ias	querer	saber	isso.
Jule	olhou	para	a	senhora.	Era	uma	senhora	 linda,	e	Kenny	era	um	homem
com	 sorte.	 –	 Sabe	 qual	 é	 o	 verdadeiro	 nome	do	Kenny?	 –	 perguntou	 Jule.	 –
Qual	é	o	nome	verdadeiro	do	Kenny?
–	Deixa-me	levar-te	ao	teu	quarto	–	disse	a	senhora.	–	Devia	assegurar-me	de
que	chegas	lá	bem.
–	Foi	quando	senti	o	herói	dentro	de	mim	–	disse	Jule.
Depois	disso,	estava	no	seu	quarto	e	o	mundo	ficou	às	escuras.
Jule	acordou	na	manhã	seguinte	com	bolhas	nas	mãos.	Em	cada	mão	 tinha
quatro	inchaços	cheios	de	pus	nas	palmas,	logo	abaixo	dos	dedos.
Deixou-se	 ficar	 deitada	 na	 cama	 a	 olhar	 para	 elas.	 Estendeu	 a	mão	 para	 o
anel	 de	 jade	 na	 mesa	 de	 cabeceira.	 Não	 conseguia	 enfiá-lo.	 Tinha	 os	 dedos
demasiado	inchados.
Rebentou	cada	bolha	e	deixou	o	líquido	escorrer	para	o	lenço	branco	e	macio
do	hotel.	A	pele	ficaria	calejada	mais	depressa	dessa	maneira.
Isto	não	é	um	filme	sobre	uma	 rapariga	que	 rompe	com	o	namorado	que	a
menospreza,	pensou.	 Isto	 também	não	é	um	filme	sobre	uma	 rapariga	que	 se
afasta	 da	 sua	 mãe	 controladora.	 Não	 é	 sobre	 um	 grande	 herói	 branco
heterossexual	que	ama	uma	mulher	que	tem	de	salvar	ou	faz	equipa	com	uma
mulher	menos	poderosa	vestida	com	um	fato	justo	como	uma	segunda	pele.
Eu	sou	o	centro	da	história	agora,	disse	Jule	para	consigo.	Não	tenho	de	ter
muito	pouco	peso,	de	usar	muito	pouca	roupa	ou	de	arranjar	os	dentes.
Eu	sou	o	centro.
Assim	 que	 se	 sentou	 para	 cima	 na	 cama,	 começou	 a	 sentir	 vontade	 de
vomitar.	Correu	para	a	casa	de	banho	e	pressionou	as	palmas	das	mãos	contra	a
frialdade	do	chão,	mas	não	lhe	saiu	nada	da	boca	para	dentro	da	sanita.
Nada	e	mais	nada.	Os	arrancos	continuaram	durante	o	que	pareceram	horas,
com	 a	 sua	 garganta	 a	 fechar-se	 e	 a	 abrir-se.	 Pressionou	 uma	 toalha	 pequena
contra	 o	 rosto.	 Quando	 a	 tirou	 estava	 húmida.	 Enroscou-se,	 a	 tremer	 e	 a
arquejar.
Finalmente,	o	ritmo	da	sua	respiração	abrandou.
Jule	pôs-se	de	pé.	Fez	café	e	bebeu-o.	A	seguir,	abriu	a	mochila	de	Immie.
Ali	 estava	 a	 carteira	 do	 dinheiro	 de	 Immie.	Tinha	 um	milhão	 de	 pequenos
compartimentos	e	um	fecho	prateado.	Dentro	havia	cartões	de	crédito,	recibos,
um	cartão	da	biblioteca	de	Martha’s	Vineyard,	um	cartão	de	Vassar,	um	cartão
do	 refeitório	 de	Vassar,	 um	 cartão	 do	Starbucks,	 um	 cartão	 de	 um	 seguro	 de
saúde	 e	 o	 cartão	 da	 porta	 do	 quarto	 de	 hotel	 de	 Immie.	 E	 seiscentos	 e	 doze
dólares	em	dinheiro.
Jule	 abriu	 a	 encomenda	 de	 Immie,	 entregue	 no	 dia	 anterior.	 Dentro	 havia
roupas	enviadas	por	uma	 loja	online	 através	da	FedEx.	Quatro	vestidos,	duas
camisas,	um	par	de	calças	de	ganga,	uma	camisola	de	seda.	Cada	peça	era	tão
cara	que	Jule	tapou	a	boca	com	a	mão	involuntariamente	quando	olhou	para	a
fatura.
O	quarto	de	Immie	era	ao	lado.	Jule	tinha	agora	o	cartão	da	porta.	O	quarto
estava	limpo.	Na	casa	de	banho,	encontrava-se	um	estojo	de	maquilhagem	sujo
em	cima	da	bancada.	Nele,	Jule	encontrou	o	passaporte	de	Imogen,	além	de	um
número	 surpreendente	 de	 bisnagas	 e	 caixinhas,	 tudo	 desorganizado.	 No
toalheiro	estava	pendurado	um	soutien	bege	feio.	Havia	uma	lâmina	de	barbear
com	alguns	pelos.
Jule	pegou	no	passaporte	de	Immie	e	olhou	para	a	fotografia	ao	lado	do	seu
próprio	 rosto	 no	 espelho.	A	 diferença	 de	 altura	 era	 só	 de	 dois	 centímetros	 e
meio.	A	 cor	 dos	 olhos	 estava	 registada	 como	 verde.	 O	 cabelo	 de	 Immie	 era
mais	 claro.	O	peso	de	 Jule	 era	 significativamente	mais	 elevado,	mas	a	maior
parte	era	músculo	e	não	se	via	por	baixo	de	certas	roupas.
Tirou	os	documentos	de	identificação	de	Vassar	da	carteira	de	Immie	e	olhou
para	eles.	O	cartão	do	 refeitório	mostrava	claramente	o	pescoço	comprido	de
Immie	 e	 a	 sua	 orelha	 com	 três	 piercings.	 O	 cartão	 de	 estudante	 era	 mais
pequeno	e	mais	desfocado.	Não	mostrava	a	orelha.	Jule	poderia	facilmente	usar
esse.
Cortou	 o	 cartão	 do	 refeitório	 em	minúsculos	 pedacinhos	 com	 uma	 tesoura
das	unhas,	deitou-os	na	sanita	e	puxou	o	autoclismo.
A	seguir	depilou	as	sobrancelhas	–	finas,	como	as	de	Immie.	Cortou	a	franja
mais	 curta	 com	 a	 tesoura	 das	 unhas.	 Encontrou	 a	 coleção	 de	 anéis	 vintage
gravados	 de	 Immie:	 a	 raposa	 de	 ametista,	 a	 silhueta,	 o	 pato	 esculpido	 em
madeira,	o	da	safira	com	um	abelhão,	um	elefante	de	prata,	um	coelho	de	prata
a	saltar	e	uma	rã	de	jade	verde.	Não	entravam	nos	seus	dedos	inchados.
Os	 dois	 dias	 seguintes	 foram	 passados	 a	 passar	 em	 revista	 os	 ficheiros	 de
Immie	no	computador.	Jule	usava	os	dois	quartos.	Tinham	ar	condicionado.	Por
vezes,	abria	a	porta	da	varanda	para	deixar	o	calor	espesso	entrar	e	inundá-la.
Comia	panquecas	com	pepitas	de	chocolate	e	bebia	sumo	de	manga	do	serviço
dos	quartos.
Na	 conta	 bancária	 e	 na	 de	 investimento	 de	 Immie	 havia	 um	 total	 de	 oito
milhões	de	dólares.	Jule	memorizou	os	números	e	as	palavras-passe.	Números
de	telefone	e	endereços	de	e-mail	também.
Aprendeu	a	 fazer	a	assinatura	 floreada	de	 Imogen	pela	do	passaporte	e	das
folhas	de	guarda	dos	 livros	dela.	Copiou	outras	palavras	escritas	por	ela	num
bloco	 de	 apontamentos,	 que	 estava	 coberto	 de	 rabiscos	 e	 listas	 de	 compras.
Depois	de	criar	uma	assinatura	eletrónica,	encontrou	o	nome	do	advogado	da
família	de	Immie.	Disse-lhe	que	ela	(Immie)	iria	viajar	muito	no	ano	seguinte,
dar	a	volta	ao	mundo.	Queria	fazer	um	testamento.	O	dinheiro	seria	deixado	a
uma	amiga	que	não	tinha	muito,	uma	amiga	que	era	órfã	e	perdera	a	sua	bolsa
de	 estudos:	 Julietta	West	Williams.	Também	deixaria	 dinheiro	 à	North	Shore
Animal	League	e	à	National	Kidney	Foundation.
O	advogado	demorou	alguns	dias	a	entrar	em	ação,	mas	prometeu	 tratar	de
tudo.	Não	havia	problema.	Imogen	Sokoloff	era	legalmente	adulta.
Jule	 examinou	 o	 estilo	 de	 escrita	 de	 Immie	 nos	 e-mails	 e	 no	 Instagram:	 a
maneira	como	rematava	a	mensagem,	a	maneira	como	escrevia	parágrafos,	as
expressões	 que	 usava.	 Apagou	 todas	 as	 contas	 de	 Immie	 nas	 redes	 sociais.
Estavam	 inativas,	 de	 qualquer	maneira.	 Retirou	 a	 identificação	 de	 Immie	 de
tantas	 fotografias	 quanto	 possível.	 Assegurou-se	 de	 que	 todas	 as	 contas	 dos
cartões	 de	 crédito	 de	 Immie	 eram	 pagas	 automaticamente	 através	 das	 suas
contas	bancárias.	Escolheu	novas	palavras-passe	usando	o	e-mail	de	Immie.
Lia	os	jornais	de	Culebra	à	procura	de	notícias,	mas	não	aparecia	nada.
Jule	 comprou	 tinta	 para	 o	 cabelo	 num	 supermercado	 e	 aplicou-a
cuidadosamente	 com	 uma	 escova	 dos	 dentes.	 Praticou	 sorrir	 sem	mostrar	 os
dentes.	 Sentia	 uma	 dor	 intensa	 num	 dos	 lados	 do	 pescoço	 que	 não	 havia
maneira	de	passar.
Finalmente,	o	advogado	enviou-lhe	um	formulário	de	testamento	por	e-mail.
Jule	imprimiu-o	no	escritório	do	hotel.	Meteu	os	papéis	na	sua	mala	de	viagem
e	 decidiu	 que	 já	 esperara	 tempo	 suficiente.	 Comprou	 um	 bilhete	 para	 São
Francisco	em	nome	de	Imogen.	Fez	o	check-out	de	ambas	do	hotel.
D
9
SEGUNDA	SEMANA	DE	SETEMBRO,	2016
CULEBRA,	PORTO	RICO
uas	semanas	e	meia	antes	de	partir	para	São	Francisco,	Jule	estava	sentada
ao	lado	de	Imogen	no	banco	traseiro	de	um	táxi,	um	jipe	aos	solavancos
na	estrada	do	aeroporto	de	Culebra.	Immie	tinha	feito	a	reserva	no	resort.
–	 Vim	 aqui	 com	 a	 família	 da	minha	 amiga	 Bitsy	 Cohan	 quando	 tínhamos
doze	anos	–	disse	Immie,	apontando	para	a	ilha	à	volta	delas.	–	A	Bitsy	estava
com	a	boca	 fechada	com	um	arame	nos	maxilares,	depois	de	um	acidente	de
bicicleta.	 Lembro-me	 que	 só	 bebia	 daiquiris	 virgens	 todo	 o	 dia.	 Não	 comia
nada.	 Numa	 manhã,	 fomos	 de	 barco	 para	 uma	 ilha	 minúscula	 chamada
Culebrita.	Tinha	rochas	vulcânicas	pretas	como	nada	que	eualguma	vez	tivesse
visto.	E	fizemos	mergulho,	mas	os	maxilares	da	Bitsy	causavam-lhe	problemas,
por	isso	ela	estava	muito	rabugenta.
–	 Tiveram	 de	me	 pôr	 um	 arame	 nos	maxilares	 uma	 vez	 –	 disse	 Jule.	 Era
verdade,	mas,	assim	que	as	palavras	lhe	saíram	da	boca,	desejou	não	ter	falado.
Não	era	uma	história	divertida.
–	 O	 que	 aconteceu?	 Caíste	 de	 uma	 moto	 que	 pertencia	 a	 um	 dos	 teus
namorados	 de	 Stanford?	Ou	 o	 treinador	malvado	 da	 tua	 equipa	 de	 atletismo
mandou	alguém	espancar-te?
–	Foi	uma	briga	num	balneário	–	mentiu	Jule.
–	Outra?	–	Immie	parecia	ligeiramente	dececionada.
–	Bem,	estávamos	nuas	–	disse	Jule,	para	a	divertir.
–	Não	posso!
–	Depois	dos	treinos,	no	último	ano	do	secundário.	Uma	batalha	nua	e	crua,
no	chuveiro,	três	contra	uma.
–	Como	um	filme	pornográfico	passado	na	prisão.
–	Não	tão	sexy.	Partiram-me	o	raio	do	maxilar.
–	Cavalos	–	disse	o	taxista,	apontando,	e	lá	estavam	eles.	Um	grupo	de	três
cavalos	selvagens	amorosos,	com	o	pelo	desgrenhado,	estava	parado	no	meio
da	estrada.	O	taxista	buzinou.
–	Não	lhes	buzine!	–	disse	Imogen.
–	Eles	não	se	deixam	assustar	–	disse	o	taxista.	–	Olhe.	–	Voltou	a	buzinar	e
os	cavalos	afastaram-se	lentamente	do	caminho,	só	ligeiramente	irritados.
–	Gostas	mais	de	animais	do	que	de	pessoas	–	disse	Jule.
–	As	pessoas	são	umas	parvalhonas,	como	a	história	que	acabaste	de	contar
prova	completamente.	–	 Imogen	 tirou	uma	embalagem	de	 lenços	de	papel	do
seu	saco	e	usou	um	para	limpar	a	testa.	–	Quando	é	que	alguma	vez	viste	um
cavalo	a	ser	parvalhão?	Ou	uma	vaca?	Nunca	são.
O	taxista	falou	lá	da	frente.	–	As	cobras	são	umas	parvalhonas.
–	Não	são	nada	–	disse	Immie.	–	As	cobras	estão	a	 tentar	sobreviver	como
todos	os	outros	seres.
–	Não	as	que	mordem	–	disse	ele.	–	São	más	como	tudo.
–	As	cobras	mordem	quando	estão	com	medo	–	disse	Immie,	 inclinando-se
para	a	frente	no	assento	traseiro.	–	Mordem	se	precisarem	de	se	proteger.
–	Ou	 se	 precisarem	 de	 comer	 –	 disse	 o	 taxista.	 –	 Provavelmente,	mordem
alguma	coisa	uma	vez	por	dia.	Detesto	cobras.
–	É	muito	mais	agradável	para	um	rato	morrer	de	uma	mordida	de	cascavel
do	que,	por	exemplo,	ser	apanhado	por	um	gato.	Os	gatos	brincam	com	as	suas
presas	 –	 disse	 Immie.	 –	 Dão-lhes	 patadas,	 deixam-nas	 escapar	 e	 depois
apanham-nas	outra	vez.
–	Os	gatos	são	uns	parvalhões,	então	–	disse	o	taxista.
Jule	riu-se.
Pararam	 em	 frente	 ao	 hotel.	 Immie	 pagou	 ao	 motorista	 com	 dólares
americanos.	–	Mantenho	a	minha	defesa	das	 cobras	–	disse	 Imogen.	–	Gosto
delas.	Obrigada	pela	viagem.
O	taxista	tirou	as	malas	delas	da	mala	do	carro	e	arrancou.
–	Não	ias	gostar	de	uma	cobra	se	te	aparecesse	uma	pela	frente	–	disse	Jule.
–	 Sim,	 gostava.	 Adorava	 a	 cobra	 e	 fazia	 dela	 um	 animal	 de	 estimação.
Enrolava-a	à	volta	do	pescoço	como	uma	joia.
–	Uma	cobra	venenosa?
–	Claro.	Estou	aqui	contigo,	não	estou?	–	Imogen	passou	o	braço	à	volta	do
corpo	 de	 Jule.	 –	 Vou-te	 dar	 a	 comer	 uns	 ratos	 deliciosos	 e	 outros	 tipos	 de
petiscos	para	cobras,	e	deixo-te	descansar	em	cima	dos	meus	ombros.	De	vez
em	 quando,	 quando	 for	 absolutamente	 necessário,	 podes	 espremer	 os	 meus
inimigos	até	à	morte,	toda	nua.	OK?
–	As	cobras	estão	sempre	nuas	–	disse	Jule.
–	Tu	és	uma	cobra	especial.	Na	maior	parte	do	tempo	vais	usar	roupas.
Immie	entrou	à	frente	no	átrio	do	hotel,	a	puxar	as	suas	duas	malas	atrás	de
si.
O	hotel	 era	 sofisticado,	de	uma	 forma	 turística,	muito	azul-turquesa.	Havia
plantas	verdes	e	 flores	de	cores	vivas	por	 toda	a	parte.	Jule	e	 Imogen	 tinham
quartos	um	ao	lado	do	outro.	Havia	duas	piscinas	e	uma	praia	que	se	estendia
num	longo	arco	branco,	com	uma	doca	no	outro	extremo.	A	ementa	era	 toda
peixe	e	frutos	tropicais.
Depois	de	desfazerem	as	malas,	encontraram-se	para	jantar.	Immie	tinha	um
ar	fresco	e	parecia	grata	por	estar	a	comer	uma	refeição	tão	maravilhosa.	Não
aparentava	nenhum	sinal	de	mágoa	ou	culpa.	Só	existia.
Mais	tarde,	desceram	a	estrada	até	um	lugar	que	aparecia	descrito	na	Internet
como	um	bar	de	americanos	estrangeiros	residentes	na	ilha.	O	balcão	era	a	toda
a	volta,	com	o	empregado	no	centro.	Sentaram-se	em	bancos	de	vime.	Immie
mandou	vir	Kahlúa	com	natas	e	Jule	uma	Coca-Cola	de	dieta	com	xarope	de
baunilha.	 As	 pessoas	 eram	 conversadoras.	 Imogen	 meteu	 conversa	 com	 um
tipo	 branco	de	 idade	 com	uma	 camisa	 havaiana.	Ele	 disse-lhes	 que	 vivia	 em
Culebra	há	vinte	e	dois	anos.
–	Tinha	um	pequeno	negócio	de	marijuana	–	disse	o	tipo.	–	Cultivava-a	numa
despensa	com	luzes	e	depois	vendia-a.	Era	em	Portland.	Não	se	pensaria	que
alguém	lá	se	importasse.	Mas	a	bófia	meteu-me	dentro	e	quando	saí	sob	fiança
apanhei	 um	 avião	 para	 Miami.	 Daí	 fui	 de	 barco	 para	 Porto	 Rico	 e	 depois
apanhei	o	ferry	para	cá.	–	Fez	um	gesto	ao	empregado	do	balcão,	a	pedir	outra
cerveja.
–	É	foragido	da	justiça?	–	perguntou	Immie.
Ele	 resfolegou.	 –	 Pensa	 na	 coisa	 desta	maneira:	 não	 acreditava	 que	 o	 que
tinha	 feito	 devia	 considerar-se	 crime,	 e	 portanto	 eu	 não	 merecia	 as
consequências	que	estavam	para	vir	Mudei-me.	Não	ando	fugido.	Toda	a	gente
aqui	me	conhece.	Só	não	sabem	o	nome	no	meu	passaporte,	é	tudo.
–	E	que	nome	é?	–	perguntou	Jule.
–	Não	te	vou	dizer.	–	Riu-se.	–	Assim	como	não	lhes	digo	a	eles.	Ninguém	se
incomoda	com	coisas	desse	género	aqui.
–	O	que	faz	para	ganhar	a	vida?	–	perguntou	Jule.
–	Há	muitos	americanos	e	porto-riquenhos	ricos	que	têm	casas	de	férias	aqui.
Olho	pelas	casas	deles.	Pagam-me	a	dinheiro.	Segurança,	organizar	reparações,
esse	tipo	de	coisa.
–	E	a	sua	família?	–	perguntou	Immie.
–	 Não	 tenho	 muita.	 Tenho	 uma	 namorada	 aqui.	 O	 meu	 irmão	 sabe	 onde
estou.	Já	me	veio	visitar	uma	ou	duas	vezes.
Imogen	franziu	a	testa.	–	Quer	voltar	um	dia?
O	 homem	 abanou	 a	 cabeça.	 –	Nunca	 penso	 nisso.	Quando	 se	 fica	 longe	 o
tempo	suficiente,	deixa	de	parecer	haver	grande	coisa	para	que	voltar.
Passaram	 os	 três	 dias	 seguintes	 sentadas	 junto	 à	 enorme	 piscina	 curva,
rodeadas	 por	 guarda-sóis	 e	 espreguiçadeiras	 azuis-turquesas.	 Jule	 estava
enroscada	à	volta	do	pescoço	de	Imogen.	Liam.	Imogen	via	vídeos	no	YouTube
sobre	técnicas	de	culinária.	Jule	fazia	exercício	na	sala	dos	pesos.	Imogen	fazia
tratamentos	de	spa.	Nadavam	e	caminhavam	na	praia.
Imogen	bebia	muito.	Pedia	 aos	 empregados	para	 lhe	 trazerem	margaritas	 à
beira	da	piscina.	Mas	não	parecia	triste.	A	sensação	mágica	da	sua	fuga	inicial
de	 Martha’s	 Vineyard	 entretecia-se	 nos	 dias.	 Tanto	 quanto	 Jule	 adivinhava,
eram	 triunfantes.	Esta	 era	 a	 vida	que	 Imogen	descrevera	que	queria,	 livre	 de
ambição	 e	 expetativas,	 sem	 ninguém	 a	 quem	 agradar	 e	 ninguém	 a	 quem
dececionar.	As	duas	simplesmente	existiam,	e	os	dias	eram	 lentos	e	sabiam	a
coco.
Já	 tarde	 na	 quarta	 noite,	 Jule	 e	 Immie	 estavam	 sentadas	 com	 os	 pés	 no
jacuzzi	 exterior,	 como	 em	 tantas	 noites	 na	 casa	 de	 Immie	 em	 Martha’s
Vineyard.
–	Talvez	eu	devesse	voltar	para	Nova	Iorque	–	disse	Imogen	pensativamente.
–	Devia	ir	ver	os	meus	pais.	–	Tinham	jantado	há	algum	tempo.	Ela	tinha	uma
margarita	num	copo	de	plástico	com	uma	tampa	e	uma	palhinha.
–	Não,	não	vás	–	disse	Jule.	–	Fica	aqui	comigo.
–	Aquele	tipo	no	bar	na	outra	noite?	Disse	que	quanto	mais	tempo	se	ficar,
menos	há	para	que	voltar.	–	Imogen	pôs-se	de	pé,	então,	e	despiu	a	T-shirt	e	os
calções.	Por	baixo	trazia	um	fato	de	banho	de	um	cinzento	metalizado	com	um
aro	 dourado	 no	 peito	 e	 um	 decote	 fundo.	Mergulhou	 o	 corpo	 lentamente	 no
jacuzzi.	–	Não	quero	que	não	reste	nada.	Com	a	minha	mãe	e	o	meu	pai.	Mas
também	detesto	 estar	 lá.	Eles	 simplesmente...	 eles	 fazem-me	 sentir	 tão	 triste.
Na	última	vez	em	que	fui	a	casa,	contei-te	isto?	Sobre	as	férias	de	inverno?
–	Não.
–	 Saí	 da	 faculdade	 e	 sentia-me	 muito	 contente	 por	 me	 afastar.	 Tinha
chumbado	a	Ciências	Políticas.	A	Brooke	e	a	Vivian	andavam	a	discutir	todo	o
tempo.	O	Isaac	tinha-me	deixado.	E	quando	voltei	para	casa	o	meu	pai	estava
muito	mais	 doentedo	 que	 eu	 esperava.	 A	minha	mãe	 estava	 em	 lágrimas	 o
tempo	todo.	O	meu	estúpido	receio	de	estar	grávida	e	o	drama	das	amizades	e
os	problemas	com	o	namorado	e	as	más	notas...	era	tudo	demasiado	trivial	para
mencionar	sequer.	O	meu	pai	estava	todo	mirradinho,	a	respirar	com	a	ajuda	da
botija	de	oxigénio.	A	mesa	da	cozinha	estava	coberta	de	frascos	de	remédios.
Um	dia,	ele	agarrou-me	o	braço	e	segredou:	«Traz	ao	teu	velhote	um	babka.»
–	O	que	é	um	babka?
–	Nunca	comeste?	É	um	bolo,	um	caracol	de	canela	delicioso	como	tudo.
–	Trouxeste-lho?
–	Saí	e	comprei	seis	babkas	e	dei-lhe	um	todos	os	dias	até	acabarem	as	férias.
Deu-me	algo	para	fazer	por	ele,	quando	não	havia	nada	para	fazer...	Depois,	na
manhã	em	que	me	vim	embora,	quando	a	minha	mãe	me	estava	a	levar	de	carro
a	Vassar,	 atacou-me	 uma	 sensação	 de	 pavor.	 Não	 queria	 ver	 a	 Vivian.	 Ou	 a
Brooke.	Ou	o	Isaac.	A	faculdade	parecia	não	fazer	sentido	nenhum,	como	uma
escola	para	meninas	da	sociedade	onde	ia	aprender	a	ser	o	tipo	de	filha	que	a
minha	mãe	queria	que	eu	fosse.	Ou	o	tipo	de	rapariga	que	o	Isaac	queria	que	eu
fosse.	Mas	não	o	que	eu	queria	ser,	de	modo	nenhum.	Assim	que	a	minha	mãe
se	foi	embora,	chamei	um	táxi	e	fui	para	Martha’s	Vineyard.
–	Porquê	para	lá?
–	Para	escapar.	Tínhamos	estado	lá	de	férias	quando	eu	era	pequena.	Ao	fim
do	 primeiro	 par	 de	 dias,	 deixei	 o	 telemóvel	 ficar	 sem	 bateria.	 Não	 queria
atender	 ninguém.	 Sei	 que	 isso	 deve	 soar	 egoísta,	 mas	 tinha	 de	 fazer	 algo
radical.	Com	o	meu	pai	assim	tão	doente,	não	tinha	falado	com	ninguém	sobre
os	meus	problemas.	A	única	maneira	como	poderia	resolver	as	minhas	questões
era	 tentar	 ver	 como	 era	 a	 vida	 afastada	 de	 tudo.	 Sem	 todas	 aquelas	 outras
pessoas	 a	 quererem	 coisas	 de	 mim,	 a	 sentirem-se	 dececionadas	 comigo.	 E
depois	 fui	 ficando.	 Estava	 a	 viver	 no	 hotel	 há	 um	 mês	 quando	 me
consciencializei	de	que	não	ia	voltar.	Enviei	um	e-mail	aos	meus	pais	a	dizer
que	estava	bem,	e	arrendei	a	casa.
–	Como	é	que	eles	reagiram?
–	Com	uma	centena	de	biliões	de	e-mails	e	mensagens.	«Por	favor	volta	para
casa,	só	por	um	par	de	dias.	Nós	pagamos	o	voo.»	«O	teu	pai	quer	saber	porque
não	 lhe	 retribuis	as	chamadas.»	Esse	 tipo	de	coisa.	A	diálise	do	meu	pai	não
lhes	permitia	virem	a	Martha’s	Vineyard,	mas	andavam	literalmente	a	assediar-
me.	 –	 Immie	 suspirou.	 –	 Bloqueei-os.	 Parei	 de	 pensar	 neles.	 Parecia	magia,
simplesmente	 desligar	 aqueles	 pensamentos.	 Ser	 capaz	 de	 não	 pensar	 neles
salvou-me,	de	algum	modo.	Talvez	eu	 fosse	uma	pessoa	 terrível,	mas	 foi	 tão
bom,	Jule,	deixar	de	me	sentir	culpada.
–	Não	acho	que	sejas	uma	pessoa	terrível	–	disse	Jule.	–	Querias	mudar	a	tua
vida.	 Tinhas	 de	 fazer	 algo	 radical	 para	 te	 tornares	 a	 pessoa	 em	 que	 estás	 a
tornar-te.
–	Exatamente.	–	 Immie	 tocou	o	 joelho	de	 Jule	com	a	mão	molhada.	–	Ora
bem,	e	tu?	–	Era	o	padrão	usual	de	Imogen,	falar	numa	longa	divagação	até	ter
explorado	completamente	uma	ideia,	e	depois,	cansada,	fazer	uma	pergunta.
–	Não	vou	voltar	–	disse	Jule.	–	Nunca	mais.
–	É	assim	tão	mau,	lá	em	casa?	–	perguntou	Immie,	a	olhar	atentamente	para
o	rosto	de	Jule.
Jule	pensou	então,	por	um	segundo	cheio	de	esperança,	que	alguém	poderia
amá-la	e	ela	poderia	amar-se	a	si	mesma	e	merecer	tudo.	Immie	compreenderia
o	que	Jule	dissesse	naquele	momento.	Tudo,	fosse	o	que	fosse.
–	Nós	somos	iguais	–	aventurou-se	a	dizer.	–	Não	quero	ser	a	pessoa	que	era,
quando	estava	a	crescer.	Quero	ser	o	eu	que	está	aqui,	 agora.	Contigo.	–	Era
uma	declaração	tão	verdadeira	quanto	sabia	fazer.
Immie	inclinou-se	e	beijou-lhe	a	face.	–	As	famílias	são	lixadas,	em	todo	o
mundo.
As	 palavras	 de	 Jule	 jorraram-lhe	 da	 boca.	 –	 Nós	 somos	 a	 família	 uma	 da
outra	agora.	Eu	sou	a	tua	e	tu	podes	ser	a	minha.
Esperou.	Olhou	para	Immie.
Imogen	deveria	dizer	que	eram	como	irmãs.
Imogen	 deveria	 dizer	 que	 eram	 amigas	 para	 toda	 a	 vida	 e	 que	 sim,	 eram
família.
Tinham	 acabado	 de	 falar	 tão	 intimamente,	 e	 Imogen	 deveria	 prometer	 que
nunca	deixaria	 Jule	como	acabara	de	deixar	Forrest,	 como	deixara	a	mãe	e	o
pai.
Em	vez	disso,	Imogen	sorriu	afavelmente.	A	seguir,	saiu	do	jacuzzi	e	dirigiu-
se	para	a	piscina	com	aquele	fato	de	banho	de	um	cinzento	metalizado.	Sorriu
ao	grupo	de	rapazes	adolescentes	que	andavam	na	brincadeira	na	parte	menos
funda	da	piscina.	Rapazes	americanos.
–	Ei,	rapazes.	Um	de	vocês	quer	ir-me	buscar	um	pacote	de	batatas	fritas	ou
de	pretzels	 ao	 bar	 lá	 dentro?	 –	 disse	 Immie.	 –	 Tenho	 os	 pés	molhados.	Não
quero	levar	água	lá	para	dentro.
Os	rapazes	estavam	mais	molhados	do	que	ela,	mas	um	deles	saltou	para	fora
da	piscina	e	limpou-se	a	uma	toalha.	Era	magricela	e	tinha	borbulhas,	mas	tinha
dentes	bons	e	o	tipo	de	corpo	comprido	e	estreito	que	agradava	a	Immie.	–	Ao
teu	serviço	–	disse	ele,	com	uma	vénia	tonta.
–	És	um	príncipe	entre	homens.
–	Estão	a	ver?	–	disse	o	rapaz	aos	seus	amigos	na	piscina.	–	Sou	um	príncipe.
Porque	é	que	Immie	tinha	de	tentar	encantar	toda	a	gente?	Eles	eram	só	um
bando	de	 rapazes,	 com	pouco	a	oferecer.	Mas	 Immie	 fazia	 este	 tipo	de	 coisa
sempre	que	as	 situações	 se	 tornavam	 intensas.	Virava-se	e	 fazia	 incidir	 a	 sua
luz	em	pessoas	novas,	pessoas	que	se	sentiam	com	sorte	por	ela	 ter	 reparado
nelas.	Fizera-o	quando	trocara	as	suas	amigas	no	colégio	Greenbriar	por	outras
amigas	que	andavam	no	Dalton.	Fizera-o	quando	deixara	o	seu	pai	doente	e	as
suas	amigas	do	Dalton	para	ir	para	Vassar,	e	quando	deixara	Vassar	para	viver
em	Martha’s	Vineyard.	Deixara	Forrest	e	Martha’s	Vineyard	por	Jule,	mas	Jule
não	 era	 uma	 novidade	 suficiente,	 ao	 que	 parecia.	 Immie	 necessitava	 de
admiração	fresca.
O	 rapaz	 trouxe	 vários	 pacotes	 de	 batatas	 fritas.	 Imogen	 sentou-se	 numa
espreguiçadeira,	a	comer	e	a	fazer-lhe	perguntas.
De	onde	eram?	–	Do	Maine.
Que	idade	tinham?	–	A	suficiente.	Ah,	ah.
Não,	a	sério,	que	idade?	–	Dezasseis.
O	riso	de	Imogen	ecoou	por	toda	a	piscina.	–	Bebés!
Jule	pôs-se	de	pé	e	voltou	a	calçar	os	ténis.	Havia	algo	naqueles	rapazes	que
lhe	arrepiava	a	pele.	Detestava	a	maneira	como	competiam	por	manter	Imogen
entretida,	 a	 agitarem	 a	 água	 e	 a	 exibirem	 os	 músculos	 na	 piscina.	 Ela	 não
queria	pôr-se	a	falar	com	um	bando	de	alunos	do	secundário	todos	babados.	A
Imogen	que	lhes	alimentasse	o	ego	se	precisava	de	o	fazer.
Na	manhã	seguinte,	Jule	queria	alugar	um	barco	e	ir	a	Culebrita.	Era	a	ilha
minúscula	 com	 as	 típicas	 rochas	 vulcânicas	 pretas,	 uma	 reserva	 de	 vida
selvagem	 com	praias.	 Immie	 falara	 sobre	 ela	 no	 primeiro	 dia.	 Podia-se	 ir	 de
barco-táxi,	mas	teria	de	se	esperar	para	te	virem	buscar.	Era	mais	agradável	ir
pelos	 seus	 próprios	 meios,	 porque	 assim	 podia	 vir-se	 embora	 quando	 se
quisesse.	O	rececionista	deu	a	Jule	o	número	de	telefone	de	um	tipo	com	um
barco	para	alugar.
Immie	não	via	necessidade	de	irem	pelos	seus	próprios	meios	quando	alguém
poderia	fazê-lo	por	elas.	Não	via	necessidade	nenhuma	de	irem	a	Culebrita.	Já
a	visitara.	E	havia	água	 límpida	e	brilhante	aqui	mesmo.	E	um	restaurante.	E
duas	piscinas	aquecidas.	Havia	pessoas	com	quem	falar.
Mas	Jule	não	conseguia	suportar	um	dia	na	piscina	com	aqueles	rapazes	do
secundário,	uns	 toscos	duns	exibicionistas.	 Jule	queria	 ir	 a	Culebrita	e	ver	as
famosas	rochas	negras	e	fazer	uma	caminhada	até	ao	farol.
O	tipo	do	barco	disse	que	se	encontrava	com	elas	na	doca	que	se	estendia	no
outro	 extremo	da	praia.	Era	muito	 informal.	 Jule	 e	 Immie	desceram	até	 lá,	 e
dois	 homens	 jovens	 porto-riquenhos	 apareceram	 em	 dois	 pequenos	 barcos.
Immie	pagou	em	dinheiro.	Um	dos	tipos	mostrou	a	Jule	como	ligar	o	motor	e
como	os	remos	se	encaixavam	na	beira	do	barco,	só	para	o	caso	de	precisarem
deles.	Havia	um	número	para	telefonarem	quando	já	não	precisassem	do	barco.
Immie	estava	amuada.	Disse	que	os	coletes	salva-vidas	estavam	estalados	e
que	o	barco	precisava	de	uma	pintura.	Mas	entrou	nele,	mesmo	assim.
A	 travessia	 da	 baía	 demorou	meia	 hora.O	 sol	 ficou	mais	 quente.	 A	 água
estava	chocantemente	azul.
Em	Culebrita,	Jule	e	Imogen	saltaram	para	a	água	para	empurrar	o	barco	para
a	praia.	Jule	escolheu	um	caminho,	e	começaram	a	andar.	Immie	mantinha-se
em	silêncio.
–	Para	que	lado?	–	perguntou	Jule	ao	chegarem	a	uma	bifurcação	no	trilho.
–	Para	o	que	quiseres.
Viraram	à	esquerda.	A	colina	era	íngreme.	Ao	fim	de	quinze	minutos,	Immie
esfolou	a	planta	do	pé	numa	rocha.	Ergueu	o	pé	e	pousou-o	contra	uma	árvore
para	o	examinar.
–	Estás	bem?	–	perguntou	Jule.
Immie	estava	a	sangrar,	mas	só	ligeiramente.	–	Tou,	ótima.
–	Quem	me	 dera	 que	 tivéssemos	 pensos	 rápidos	 –	 disse	 Jule.	 –	 Devia	 ter
trazido	alguns.
–	Mas	não	trouxeste,	portanto	tudo	bem.
–	Lamento.
–	A	culpa	não	é	tua	–	disse	Immie.
–	Quero	dizer	que	lamento	que	te	tenha	acontecido.
–	Deixa	 para	 lá	 –	 disse	 Imogen,	 e	 continuou	 a	 subir	 a	 encosta.	 No	 cume,
chegaram	às	rochas	pretas.
Eram	diferentes	do	que	Jule	esperava.	Mais	belas.	Quase	assustadoras.	Eram
escuras	e	escorregadias.	Fluía	água	para	dentro	delas	e	à	sua	volta,	 formando
umas	 piscinas	 naturais	 que	 pareciam	 quentes	 ao	 sol.	 Algumas	 das	 rochas
estavam	cobertas	por	umas	algas	verdes	e	macias.
Não	havia	mais	ninguém	por	ali.
Immie	despiu-se,	ficando	em	fato	de	banho,	e	meteu-se	na	piscina	maior	sem
uma	palavra.	Estava	bronzeada	e	trazia	um	biquini	preto	com	uma	fita	à	volta
do	pescoço.
Jule	sentiu-se	como	uma	pessoa	grossa	e	masculina	de	repente.	Os	músculos
que	se	esforçava	tanto	por	desenvolver	pareciam	toscos,	e	o	fato	de	banho	azul-
claro	que	usara	todo	o	verão,	foleiro.
–	Está	quente?	–	perguntou,	sobre	a	piscina	natural	pouco	funda.
–	Bastante	quente	–	disse	Immie.	Estava	inclinada,	a	lançar	água	pelos	braços
acima	 e	 pela	 nuca.	 Jule	 sentia-se	 irritada	 com	 Immie	 por	 ela	 estar	 amuada.
Afinal,	 não	 era	 culpa	 dela	 que	 Imogen	 tivesse	 esfolado	 o	 pé.	 Jule	 só	 era
culpada	de	dizer	que	queria	alugar	um	barco	e	ver	Culebrita.
Immie	era	uma	criança	mimada	que	fazia	beicinho	quando	não	levava	a	sua
avante.	Era	uma	das	suas	limitações.	Nunca	ninguém	dizia	que	não	a	Imogen
Sokoloff.
–	Vamos	até	ao	farol?	–	perguntou	Jule.	Era	o	ponto	mais	alto	da	ilha.
–	Podemos	ir.
Jule	queria	que	Immie	mostrasse	entusiasmo.	Mas	Immie	recusava-se	a	fazê-
lo.
–	O	teu	pé	está	bem?
–	Provavelmente.
–	Queres	subir	até	ao	farol?
–	Podia.
–	Mas	queres?
–	O	que	queres	que	eu	diga,	Jule?	«Oh,	é	um	sonho	meu	ver	um	farol»?	Em
Martha’s	Vineyard	vi	a	porra	de	um	farol	todos	os	dias	da	minha	vida.	Queres
que	diga	que	estou	a	morrer	por	caminhar	até	lá	acima	com	o	pé	magoado	neste
calor	louco	para	ver	uma	construção	minúscula	que	se	parece	com	um	milhão
de	construções	minúsculas	que	já	vi	um	milhão	de	vezes?	É	isso	que	queres?
–	Não.
–	O	que	queres,	então?
–	Só	estava	a	perguntar.
–	Quero	voltar	para	o	hotel.
–	Mas	acabámos	de	chegar	aqui.
Imogen	 saiu	 da	 água	 e	 vestiu	 as	 roupas,	 enfiando	 os	 pés	 nas	 sandálias.	 –
Podemos	 voltar	 para	 o	 hotel,	 por	 favor?	 Quero	 telefonar	 ao	 Forrest.	 O	meu
telemóvel	não	tem	rede	aqui.
Jule	secou	as	pernas	e	calçou	os	ténis.	–	Porque	queres	telefonar	ao	Forrest?
–	Porque	ele	é	o	meu	namorado	e	 tenho	saudades	dele	–	disse	 Immie.	–	O
que	é	que	pensaste?	Que	eu	tinha	acabado	com	ele?
–	Não	pensei	nada.
–	Não	acabei	com	ele.	Vim	para	Culebra	para	fazer	uma	pausa,	é	tudo.
Jule	 pôs	 ao	 ombro	 o	 saco	 que	 traziam	 para	 as	 duas.	 –	 Se	 queres	 voltar,
voltemos.
Jule	 sentia-se	 esvaída	 de	 todo	 o	 júbilo	 que	 sentira	 nos	 últimos	 dias.	 Tudo
parecia	quente	e	vulgar.
Tinham	 puxado	 o	 barco	 bastante	 para	 cima	 e	 quando	 regressaram	 à	 praia
tiveram	de	o	empurrar	pelo	areal.	A	seguir,	saltaram	para	dentro	dele	e	tiraram
os	remos	do	descanso,	usando-os	para	guiar	o	barco	para	águas	suficientemente
profundas	para	ele	começar	a	flutuar	e	poderem	ligar	o	motor.
Imogen	quase	não	falava.
Jule	ligou	o	motor	e	apontou	para	Culebra,	que	era	visível	à	distância.
Immie	ia	sentada	na	parte	da	frente	do	barco,	o	seu	perfil	dramático	contra	o
mar.	Jule	olhou	para	ela	e	sentiu	um	acesso	de	afeto.	Immie	era	bela,	e	na	sua
beleza	 podia	 ver-se	 que	 era	 bondosa.	 Boa	 para	 com	 os	 animais.	 O	 tipo	 de
amiga	que	te	traz	café	feito	tal	e	qual	como	gostas,	te	compra	flores,	dá	livros	e
faz	queques.	Ninguém	sabia	como	se	divertir	como	Immie.	Atraía	as	pessoas;
toda	 a	 gente	 a	 adorava.	 Tinha	 uma	 espécie	 de	 poder	 –	 dinheiro,	 entusiasmo,
independência	–	que	brilhava	à	sua	volta.	E	aqui	estava	Jule,	no	meio	do	mar,
deste	mar	louco	azul-turquesa,	com	este	ser	humano	raro,	único.
Nada	 da	 sua	 discussão	 importava.	 Era	 a	 fadiga,	 era	 tudo.	 As	 pessoas
discutiam,	 mesmo	 nas	 melhores	 amizades.	 Fazia	 parte	 de	 serem	 verdadeiras
uma	com	a	outra.
Jule	desligou	o	motor.	O	mar	estava	muito	calmo.	Não	havia	mais	nenhum
barco	à	vista.
–	Está	tudo	bem?	–	perguntou	Imogen.
–	Desculpa	ter-nos	feito	alugar	este	estúpido	barco.
–	Não	tem	mal.	Mas	ouve-me,	por	favor.	Vou	voltar	para	Vineyard	para	estar
com	o	Forrest	amanhã	de	manhã.
Jule	sentiu-se	estonteada.	–	Então?
–	Já	te	disse,	tenho	saudades	dele.	Sinto-me	mal	pela	maneira	como	me	vim
embora.	Estava	chateada	com...	–	Immie	fez	uma	pausa,	hesitante	em	pô-lo	em
palavras.	 –	 Com	 o	 que	 aconteceu	 com	 o	 funcionário	 da	 limpeza.	 E	 com	 a
maneira	 como	 o	 Forrest	 lidou	 com	 aquilo.	 Mas	 não	 devia	 ter	 fugido.	 Fujo
demasiado.
–	 Não	 devias	 voltar	 para	 Vineyard	 porque	 sentes	 obrigação	 para	 com	 o
Forrest,	logo	ele	–	disse	Jule.
–	Eu	amo	o	Forrest.
–	Então	porque	é	que	lhe	andas	sempre	a	mentir?	–	ripostou	Jule.	–	Porque	é
que	estás	aqui	comigo?	Porque	é	que	ainda	pensas	no	Isaac	Tupperman?	Não	é
assim	 que	 te	 comportas	 quando	 estás	 apaixonada.	 Não	 deixas	 uma	 pessoa	 a
meio	da	noite	e	esperas	que	ela	fique	toda	contente	quando	voltas	a	aparecer.
Não	tens	o	direito	de	a	deixar	assim.
–	Tu	tens	ciúmes	do	Forrest.	Eu	entendo.	Mas	não	sou	nenhuma	boneca	com
que	 possas	 brincar	 e	 não	 partilhar.	 –	 Immie	 falava	 com	 aspereza.	 –	 Dantes,
pensava	que	gostavas	de	mim	por	mim	mesma,	sem	o	meu	dinheiro,	sem	nada.
Julgava	que	éramos	iguais	e	que	me	compreendias.	Era	fácil	contar-te	coisas.
Mas	 sinto	 cada	 vez	mais	 que	 tens	 uma	 ideia	 de	mim,	 da	 Imogen	 Sokoloff	 –
disse	o	seu	nome	como	se	estivesse	em	itálico	–	e	essa	não	é	quem	eu	sou.	Tens
uma	ideia	de	uma	pessoa	de	quem	gostas.	Mas	não	sou	eu.	Só	queres	usar	as
minhas	roupas	e	ler	os	meus	livros	e	fazer	de	conta	com	o	meu	dinheiro.	Não	é
uma	amizade	real,	Jule.	Não	é	uma	amizade	real	quando	eu	é	que	pago	tudo	e
tu	 pedes	 tudo	 emprestado	 e	mesmo	 assim	 não	 é	 suficiente.	 Queres	 todos	 os
meus	 segredos	 e	 depois	 usa-los	 para	 me	 controlares.	 Sinto	 pena	 de	 ti,	 sinto
mesmo.	Gosto	de	 ti...	mas	 tornaste-te,	 tipo,	uma	 imitação	de	mim	metade	do
tempo.	Nem	sabes	o	quanto	lamento	ter	de	dizer	isto,	mas	tu...
–	O	quê?
–	Não	 bates	 certo.	 Estás	 sempre	 a	 alterar	 os	 pormenores	 das	 histórias	 que
contas	e	é	como	se	nem	sequer	te	desses	conta.	Nunca	devia	ter-te	convidado
para	vires	ficar	connosco	na	casa	de	Vineyard.	Foi	bom	durante	algum	tempo,
mas	agora	sinto-me	usada,	e	até	mesmo	enganada,	de	certo	modo.	Preciso	de
me	afastar	de	ti.	É	a	verdade.
A	sensação	de	estonteamento	aumentou.
Immie	não	podia	estar	a	dizer	o	que	estava	a	dizer.
Jule	 andava	 a	 fazer	 tudo	 o	 que	 Imogen	 queria	 há	 semanas	 e	 semanas.
Deixava	Immie	em	paz	quando	ela	queria	ficar	sozinha,	ia	às	compras	quando
Immie	queria	ir	às	compras.	Tolerara	Brooke,	tolerara	Forrest.	Jule	fora	ouvinte
quando	 necessário,	 contadora	 de	 histórias	 quando	 necessário.	Adaptara-se	 ao
ambiente	 e	 aprendera	 todo	 os	 códigos	 de	 comportamento	 para	 o	 mundo	 de
Immie.	Mantivera	a	boca	fechada.	Lera	centenas	de	páginas	de	Dickens.
–	Eu	não	sou	as	minhas	roupas	–	disse	Imogen.	–	Eu	não	sou	o	meu	dinheiro.
Tu	queres	que	eu	seja	uma	pessoa	que...
–	Não	 quero	 que	 sejas	 nada	 a	 não	 ser	 tu	 –	 interrompeu	 Jule.–	Não	 quero
mesmo.
–	Mas	queres	–	disse	Imogen.	–	Queres	que	te	preste	atenção	quando	não	me
apetece.	Queres	que	eu	seja	linda	e	natural,	quando	nalguns	dias	me	sinto	feia	e
é	uma	luta.	Instalaste-me	num	trono	e	queres	que	eu	faça	sempre	comida	boa	e
leia	obras-primas	e	seja	maravilhosa	com	toda	a	gente,	mas	essa	não	sou	eu,	e	é
extenuante.	Não	quero	vestir	a	roupagem	e	levar	à	cena	esta	ideia	que	tens	de
mim.
–	Isso	não	é	verdade.
–	O	 peso	 disto	 é	 enorme,	 Jule.	 Sufoca-me.	 Estás	 a	 pressionar-me	 para	 ser
algo	para	ti,	e	eu	não	quero	sê-lo.
–	És	a	minha	amiga	mais	 íntima.	–	Era	a	verdade,	 e	 saiu	do	peito	de	 Jule,
num	 tom	 alto	 e	 queixoso.	 Jule	 sempre	 passara	 de	 raspão	 pelas	 pessoas.	Não
eram	suas;	nunca	deixavam	marca	nela,	e	não	sentiria	a	falta	de	ninguém.	Jule
contara	cem	mentiras	para	fazer	Immie	gostar	dela.	Merecia	esse	afeto	em	troca
delas.
Immie	abanou	a	cabeça.	–	Ao	fim	de	um	par	de	semanas	na	minha	casa?	A
tua	 amiga	 mais	 íntima?	 Nem	 sequer	 é	 possível.	 Devia	 ter-te	 pedido	 que	 te
fosses	embora	depois	do	primeiro	fim	de	semana.
Jule	pôs-se	de	pé.	Immie	estava	sentada	na	beira	da	frente	do	barco.
–	 O	 que	 é	 que	 eu	 fiz	 para	 tu	 me	 odiares?	 –	 perguntou-lhe	 Jule.	 –	 Não
compreendo	o	que	fiz.
–	Não	fizeste	nada!	Eu	não	te	odeio.
–	Quero	saber	o	que	fiz	de	errado.
–	Olha.	Só	 te	convidei	para	vires	comigo	porque	queria	manter-te	calada	–
disse	Imogen.	–	Convidei-te	para	aqui	para	te	calar.	Pronto,	está	dito.
Ficaram	 em	 silêncio.	 Aquela	 frase	 ficou	 entre	 elas:	Convidei-te	 para	 aqui
para	te	calar.
Imogen	prosseguiu:	–	Não	consigo	suportar	mais	esta	viagem.	Não	consigo
suportar	que	tu	me	peças	as	minhas	roupas	emprestadas	e	olhes	para	mim	como
olhas,	como	se	eu	nunca	fosse	suficiente,	e	que	me	estejas	a	ameaçar	e	queiras
que	eu	goste	tanto	de	ti.	Não	gosto.
Jule	não	pensou,	não	conseguia	pensar.
Pegou	num	remo	do	fundo	do	barco.	Balançou-o	com	força.
A	 parte	 mais	 larga	 do	 remo	 atingiu	 Imogen	 no	 crânio.	 A	 ponta	 aguçada
primeiro.
Immie	 tombou.	 O	 barco	 balouçou	 loucamente.	 Jule	 avançou	 e	 o	 rosto	 de
Immie	 virou-se	 para	 ela.	 Immie	 parecia	 surpreendida,	 e	 Jule	 sentiu	 um
momento	de	triunfo;	a	oponente	subestimara-a.
Acertou	de	novo	com	o	 remo	naquela	cara	de	anjo.	O	nariz	partiu-se,	 e	os
ossos	 das	 maçãs	 do	 rosto.	 Um	 dos	 olhos	 ficou	 esbugalhado	 e	 começou	 a
esguichar.	 Jule	 bateu	 uma	 terceira	 vez	 e	 o	 ruído	 foi	 terrível,	 alto	 e	 de	 algum
modo	final.	O	maxilar	de	Imogen	e	o	ar	de	quem	tem	direito	a	tudo	e	a	beleza	e
a	autoimportância	fácil,	 tudo	isso	foi	esmagado	pela	força	do	braço	direito	de
Jule.	 Jule	 era	 a	porra	da	vencedora,	 e	por	um	breve	momento	a	 sensação	 foi
gloriosa.
Immie	 deslizou	 do	 seu	 poleiro	 para	 a	 água.	O	 barco	 inclinou-se	 quando	 o
peso	dela	caiu	borda	fora.	Jule	cambaleou	para	trás,	batendo	com	força	com	a
anca	contra	o	lado.
Immie	bateu	de	chapa	na	água	duas	vezes,	a	debater-se.	Arquejante.	Tinha	os
olhos	cheios	de	sangue,	que	pingava	para	a	água	azul-turquesa.	A	sua	camisa
branca	flutuava	à	volta	dela.
A	 sensação	 de	 triunfo	 desvaneceu-se	 e	 Jule	 saltou	 para	 dentro	 do	 mar,
agarrando	Immie	pelo	ombro.	Queria	obter	uma	resposta.
Immie	devia-lhe	uma	resposta.
Ainda	 não	 tinham	acabado,	 com	um	 raio.	 Immie	 não	 podia	 fugir.	 –	O	que
tens	para	me	dizer?	–	gritou	Jule,	a	dar	com	os	pés	e	erguendo	Immie	o	melhor
que	podia.	–	O	que	tens	para	me	dizer	agora?	–	Corria-lhe	sangue	do	rosto	de
Immie	pelos	braços.	–	Porque	eu	não	sou	a	porra	do	teu	animal	de	estimação	e
também	já	não	sou	tua	amiga,	estás	a	ouvir-me?	–	berrou	Jule.	–	Olhas-me	de
alto,	porra,	mas	eu	é	que	sou	a	forte,	eu	é	que	sou	a	forte	aqui,	porra.	Estás	a
ver,	Immie?	Estás	a	ver?
Jule	 tentou	 virar	 Immie,	manter	 o	 seu	 rosto	 no	 ar,	mantê-la	 a	 respirar,	 e	 a
escutá-la,	mas	as	feridas	eram	enormes.	O	rosto	de	Imogen	estava	feito	numa
papa	 e	 a	 pingar	 sangue	 do	 ouvido,	 do	 nariz,	 do	 lado	 esmagado	 da	maçã	 do
rosto.	 O	 seu	 corpo	 era	 percorrido	 por	 espasmos	 e	 tremia.	 A	 sua	 pele	 estava
escorregadia,	 tão	 escorregadia.	 Esperneava	 e	 esbracejava,	 atingindo	 Jule	 no
rosto	com	as	costas	de	uma	mão	a	mover-se	involuntariamente.
–	Que	 porra	 tens	 a	 dizer	 agora?	 –	 repetiu	 Jule,	 suplicante.	 –	O	 que	 é	 que
queres	dizer-me?
O	 corpo	 de	 Imogen	 Sokoloff	 contraiu-se	 mais	 uma	 vez	 e	 a	 seguir	 ficou
imóvel.
O	sangue	acumulava-se	à	volta	das	duas.
Jule	trepou	de	novo	para	dentro	do	barco	e	o	tempo	parou.
Devia	ter	passado	uma	hora.	Talvez	duas.	Talvez	só	um	par	de	minutos.
Nenhuma	 luta	 alguma	 vez	 correra	 assim.	 Sempre	 fora	 ação,	 heroísmos,
defesa,	competição.	Por	vezes	vingança.	Isto	era	diferente.	Havia	um	corpo	no
mar.	O	rebordo	de	uma	orelha	pequena,	com	três	piercings.	Os	botões	no	punho
da	camisa,	um	azul	frio	contra	o	linho	branco.
Jule	 amara	 Imogen	 Sokoloff	 tão	 bem	 como	 sabia	 amar	 alguém.	 Amara
mesmo.
Mas	Immie	não	quisera	o	seu	amor.
Pobre	Immie.	A	linda,	a	especial	Immie.
Jule	 sentiu	 uma	 volta	 no	 estômago.	 Tentou	 vomitar	 pela	 borda	 do	 barco.
Agarrou-se	à	beira,	a	pensar	que	ia	vomitar,	com	os	ombros	a	tremerem.	Sentia
arrancos,	mas	não	saía	nada,	e	continuava	a	não	sair	nada.	Aquilo	prolongou-se
por	um	ou	dois	minutos	até	ela	se	aperceber	de	que	estava	a	chorar.
Tinha	as	faces	brilhantes	com	lágrimas.
Não	fora	sua	intenção	fazer	mal	a	Imogen.
Não,	não	fora.
Queria	não	o	ter	feito.
Queria	 poder	 voltar	 atrás.	Queria	 ser	 um	 ser	 humano	 diferente	 num	 corpo
diferente	 com	uma	vida	diferente.	Queria	que	 Immie	 tivesse	 retribuído	o	 seu
amor,	e	estava	a	soluçar	porque	agora	isso	nunca	aconteceria.
Estendeu	 a	 mão	 e	 pegou	 na	 mão	 molhada	 e	 mole	 de	 Immie.	 Segurou-a,
inclinando-se	para	trás	sobre	a	beira	do	barco.
Ouviu-se	um	som	de	um	avião	lá	em	cima.
Jule	 largou	 a	 mão	 de	 Immie	 e	 engoliu	 as	 lágrimas.	 O	 seu	 instinto	 de
autopreservação	entrou	em	ação.
Estava	bastante	longe	da	costa.	A	uns	vinte	minutos	de	barco	de	Culebra	e	a
uns	dez	de	Culebrita.	 Jule	 tocou	com	a	mão	na	água.	Havia	uma	corrente	na
direção	do	mar	aberto	vinda	do	canal	muito	movimentado	entre	as	duas	ilhas.
Puxou	 a	 mão	 de	 Immie	 para	 si	 até	 ela	 ficar	 suficientemente	 perto	 para	 lhe
passar	 uma	 corda	 por	 baixo	 dos	 braços,	 tendo	 o	 cuidado	 de	 a	manter	 frouxa
para	não	deixar	marca.	A	corda	era	áspera	e	foi	difícil	atá-la.	Jule	ficou	com	as
palmas	das	mãos	doridas,	 com	a	pele	esfolada.	Fez	várias	 tentativas	antes	de
conseguir	dar	um	nó	que	ficasse	seguro.
Ligou	o	motor	e	dirigiu-se	lentamente	para	o	mar	aberto,	seguindo	a	corrente.
Quando	o	mar	começou	a	ficar	escuro	e	profundo,	quando	já	estavam	bem	fora
do	caminho	percorrido	entre	Culebra	e	Culebrita,	Jule	soltou	a	corda	e	largou
Imogen.
O	corpo	afundou-se	muito,	muito	lentamente.
Jule	 lavou	 a	 corda	 e	 esfregou-a	 com	 uma	 escova	 que	 encontrou	 numa
pequena	 caixa	 com	 materiais.	 Tinha	 as	 mãos	 esfoladas	 e	 a	 sangrarem
ligeiramente,	 mas	 nenhumas	 outras	 marcas.	 Enrolou	 a	 corda	 muito	 bem
enrolada	 e	 arrumou-a	 no	 seu	 lugar	 no	 barco.	 Esfregou	 e	 passou	 por	 água	 o
remo.
A	seguir,	ligou	o	motor	e	voltou	para	Culebra.
*
–	Miss	Sokoloff?	–	O	rececionista	no	átrio	acenou	a	Jule.
Jule	parou	e	olhou	para	ele.
Ele	 pensava	 que	 ela	 era	 Imogen.	 Ninguém	 a	 confundira	 com	 Imogen	 até
àquele	momento.
Não	 eram	muito	 parecidas,	mas	 evidentemente	 eram	duas	mulheres	 jovens
brancas,	com	cabelo	curto	e	sardas.	Tinham	o	mesmo	sotaque	da	Costa	Leste.
Poderiam	passar	uma	pela	outra.
–	 Chegou	 uma	 encomenda	 para	 si,	 Miss	 Sokoloff	 –	 disse	 o	 rececionista,
sorrindo.	–	Tenho-a	aqui	mesmo.
Jule	retribuiu-lhe	o	sorriso.	–	O	senhor	é	um	doce	–	disse-lhe.	–	Obrigada.
S
8
SEGUNDA	SEMANA	DE	SETEMBRO,	2016
MENEMSHA,	MARTHA’S	VINEYARD
MASSACHUSETTS
eis	dias	antes	de	Jule	receber	aquela	encomenda,	o	funcionário	da	limpeza
não	 apareceu	 para	 trabalhar	 na	 casa	 de	 Immie	 em	Martha’s	Vineyard.O
seu	nome	era	Scott.	Teria	uns	vinte	e	quatro	anos,	mais	velho	do	que	Immie,
Jule,	 Brooke	 e	 mesmo	 Forrest,	 mas	 Imogen	 chamava-lhe	 o	 funcionário	 da
limpeza.
Scott	fora	recomendado	pelos	proprietários	da	casa	para	trabalhar	no	jardim	e
na	limpeza	da	casa.	A	piscina	e	o	jacuzzi	necessitavam	de	manutenção.	A	casa
era	arejada	e	tinha	muitas	janelas,	tetos	de	altura	dupla	na	sala	de	estar	e	na	sala
de	 jantar.	 Seis	 claraboias,	 cinco	 quartos	 de	 dormir.	 Deque	 na	 frente	 e	 nas
traseiras.	Roseiras	e	outras	plantas.	Era	muita	coisa	para	manter	limpa.
Scott	 tinha	 um	 rosto	 largo	 e	 aberto	 e	 um	 nariz	 achatado.	 Era	 branco,	 com
bochechas	 cor-de-rosa,	 um	 rosto	 quadrado,	 e	 cabelo	 escuro	 rebelde.	 Tinha
ancas	 estreitas	 e	 músculos	 a	 sério	 nos	 braços.	 Costumava	 usar	 um	 boné	 de
basebol	e	andar	em	tronco	nu.
Quando	Jule	conheceu	Scott,	não	compreendeu	bem	o	que	ele	estava	a	fazer
ali.	 Encontrava-se	 simplesmente	 na	 cozinha,	 a	 limpar	 o	 chão	 com	 uma
esfregona	e	um	balde.	Não	parecia	diferente	dos	vários	amigos	temporários	de
Forrest	 e	 Imogen	na	 ilha,	mas	 ali	 estava	 ele,	 em	 tronco	nu,	 a	 fazer	 trabalhos
domésticos.
–	Olá,	sou	a	Jule	–	disse	ela,	parada	à	porta.
–	Scott	–	disse	ele,	ainda	a	limpar	o	chão.
–	Vens	até	à	praia?	–	perguntou	ela.
–	Ah,	não.	Estou	bem	aqui.	Sou	o	funcionário	da	limpeza	da	Imogen.	–	A	sua
pronúncia	era	americana	genérica.
–	Oh,	estou	a	ver.	–	Jule	perguntou-se	se	Imogen	falaria	com	o	funcionário	da
limpeza	 como	 uma	 pessoa	 normal	 ou	 se	 Scott	 supostamente	 seria	 invisível.
Ainda	não	sabia	quais	eram	os	códigos	de	comportamento.	–	Sou	uma	amiga
da	Immie	da	secundária.
Ele	não	disse	mais	nada.
Jule	deixou-se	ficar	a	vê-lo.	–	Queres	uma	bebida?	–	perguntou.	–	Há	Coca-
Cola	e	Coca-Cola	de	dieta.
–	Devia	continuar	a	trabalhar.	A	Imogen	não	gosta	que	esteja	sem	trabalhar.
–	É	assim	tão	rígida?
–	Sabe	o	que	quer.	Tenho	de	respeitar	isso	–	disse	ele.	–	E	paga-me.
–	Mas	queres	uma	Coca-Cola?
Scott	pôs-se	de	joelhos	e	borrifou	um	produto	de	limpeza	na	zona	por	baixo
da	máquina	de	 lavar	 louça,	onde	se	acumulava	sujidade.	A	seguir,	esfregou-a
com	uma	esponja	áspera.	Os	seus	dorsais	brilhavam	com	suor.	–	Não	me	paga
para	tirar	coisas	do	frigorífico	dela	–	respondeu	por	fim.
Dias	mais	 tarde,	 tornou-se	 claro	que	não	era	 exatamente	 suposto	que	Scott
fosse	invisível,	porque	era	de	facto	tão	decorativo	que	ninguém	poderia	ignorar
a	sua	presença,	mas	ninguém	falava	com	ele	além	de	um	olá.	Immie	limitava-se
a	 dizer	 «ei»	 quando	 o	 via,	 embora	 os	 olhos	 dela	 lhe	 percorressem	 o	 corpo.
Scott	esfregava	as	sanitas	e	levava	o	lixo	e	arrumava	a	confusão	que	as	pessoas
deixavam	na	 sala	 de	 estar.	 Jule	 nunca	mais	 voltou	 a	 oferecer-lhe	 uma	Coca-
Cola.
O	 dia	 em	 que	 Scott	 não	 apareceu	 era	 uma	 sexta-feira.	 Às	 sextas-feiras	 de
manhã,	normalmente	limpava	a	cozinha	e	as	casas	de	banho	e	a	seguir	regava	o
relvado.	Acabava	por	volta	das	onze,	portanto	ninguém	reparou	muito	na	sua
ausência.
No	 dia	 seguinte,	 contudo,	 voltou	 a	 não	 aparecer.	 Aos	 sábados	 limpava	 a
piscina	e	tratava	da	manutenção	do	jardim.	Immie	deixava-lhe	sempre	dinheiro
para	pagar	o	 trabalho	da	 semana	anterior	em	cima	da	bancada	da	cozinha.	O
dinheiro	estava	lá	como	era	habitual,	mas	Scott	não	apareceu.
Jule	 desceu	 do	 quarto,	 vestida	 para	 fazer	 exercício	 físico.	 Brooke	 estava
sentada	na	bancada	da	cozinha	com	uma	 taça	de	uvas	 à	 sua	 frente.	Forrest	 e
Immie	estavam	a	comer	granola	com	natas	e	 framboesas	à	mesa	de	 jantar.	O
lava-louça	estava	cheio	de	pratos.
–	Onde	 está	 o	 funcionário	 da	 limpeza?	 –	 perguntou	Brooke	 para	 a	 sala	 de
jantar	quando	Jule	estava	a	deitar	água	num	copo.
–	Está	chateado	comigo	–	respondeu	Immie.
–	Eu	é	que	estou	chateado	com	ele	–	disse	Forrest.
–	Também	estou	chateada	–	disse	Brooke.	–	Quero	que	me	lave	as	uvas,	tire	a
roupa	e	me	lamba	o	corpo	todo	da	cabeça	aos	pés.	E,	no	entanto,	ele	continua	a
não	fazer	isso.	Nem	sequer	está	aqui.	Não	sei	o	que	correu	mal.
–	Muito	engraçadinha	–	disse	Forrest.
–	Ele	é	tudo	o	que	quero	num	tipo	–	disse	Brooke.	–	É	musculoso,	mantém	a
boca	fechada	e,	ao	contrário	de	ti	–	meteu	uma	uva	à	boca	–,	lava	a	louça.
–	Eu	lavo	a	louça	–	disse	Forrest.
Immie	riu-se.	–	Lavas,	tipo,	um	prato	de	que	comeste.
Forrest	pestanejou	e	voltou	ao	tópico	anterior.
–	Já	lhe	telefonaste?
–	 Não.	 Quer	 um	 aumento	 e	 eu	 recuso-me	 a	 dar-lho	 –	 disse	 Immie
suavemente,	erguendo	a	cabeça	e	olhando	Jule	nos	olhos.	–	Ele	é	bom,	mas	já
chegou	tarde	uma	data	de	vezes.	Detesto	acordar	e	ver	a	cozinha	desarrumada.
–	Despediste-o?	–	perguntou	Forrest.
–	Não.
–	Depois	de	 falarem	sobre	o	aumento,	 ele	disse	que	continuava	a	 trabalhar
aqui?
–	Acho	 que	 sim.	Não	 tenho	 a	 certeza.	 –	 Immie	 pôs-se	 de	 pé	 para	 levar	 a
caneca	e	a	taça	para	a	cozinha.
–	Como	podes	não	ter	a	certeza?
–	 Pensei	 que	 sim.	 Mas	 suponho	 que	 não	 vai	 continuar	 –	 disse	 Immie	 da
cozinha.
–	Vou	telefonar-lhe	–	disse	Forrest.
–	Não,	não	faças	isso.	–	Imogen	voltou	para	a	sala	de	jantar.
–	Porque	não?	–	Forrest	pegou	no	telemóvel	de	Immie.	–	Precisamos	de	uma
pessoa	para	limpar	a	casa,	e	ele	já	conhece	o	trabalho.	Talvez	tenha	havido	um
mal-entendido.
–	Eu	disse	 para	 não	 lhe	 telefonares	 –	 resmungou	 Immie.	 –	Esse	 telemóvel
que	tens	na	mão	é	meu	e	a	casa	não	é	tua.
Forrest	pousou	o	telemóvel.	Voltou	a	pestanejar.	–	Só	estou	a	querer	ajudar	–
disse.
–	Não,	não	estás.
–	Sim,	estou.
–	 Tu	 deixas	 tudo	 a	meu	 cargo	 aqui	 –	 disse	 Immie.	 –	 Eu	 encarrego-me	 da
cozinha	e	da	 comida	e	do	 funcionário	da	 limpeza	e	das	 compras	 e	da	Wi-Fi.
Agora,	estás	chateado	por	eu	não	estar	a	lidar	com	uma	coisa	da	maneira	que	tu
queres?
–	Imogen.
–	Eu	não	sou	a	porra	da	tua	mulher	e	fada	do	lar,	Forrest	–	disse	ela.	–	É	o
oposto	do	que	sou.
Forrest	 dirigiu-se	 para	 o	 seu	 portátil.	 –	 Qual	 é	 o	 apelido	 do	 Scott?	 –
perguntou.	–	Acho	que	devíamos	pesquisar	o	nome	e	ver	se	alguém	se	queixou
dele,	qual	é	a	dele.	Deve	aparecer	na	lista	do	Yelp	ou	coisa	do	género.
–	Cartwright	–	disse	Immie,	ao	que	parecia	disposta	a	parar	com	a	discussão.
–	 Mas	 não	 o	 vais	 encontrar.	 Ele	 é	 um	 tipo	 de	 Vineyard	 que	 faz	 biscates	 a
dinheiro.	Não	tem	site.
–	Bem,	posso	descobrir...	Oh,	meu	Deus.
–	O	que	foi?
–	Scott	Cartwright,	de	Oak	Bluffs?
–	Sim.
–	Está	morto.
Immie	correu	para	junto	de	Forrest.	Brooke	saltou	da	bancada	da	cozinha	e
Jule	 voltou	 da	 entrada	 onde	 estava	 a	 fazer	 exercícios	 de	 alongamento.
Juntaram-se	à	volta	do	computador.
Era	um	artigo	no	website	do	Martha’s	Vineyard	Times,	a	noticiar	o	suicídio
de	 um	 tal	 Scott	 Cartwright.	 Enforcara-se	 com	 uma	 corda	 pendurada	 de	 uma
viga	muito	alto	no	 teto	do	celeiro	de	um	vizinho.	Tinha	deitado	ao	chão	com
um	pontapé	um	escadote	com	seis	metros	de	altura.
–	A	culpa	é	minha	–	disse	Imogen.
–	 Não,	 não	 é	 –	 disse	 Forrest,	 ainda	 a	 olhar	 para	 o	 ecrã.	 –	 Ele	 queria	 um
aumento	 e	 chegava	 consistentemente	 tarde.	 Tu	 recusaste-te	 a	 dar-lhe	 mais
dinheiro.	Isso	não	tem	nada	que	ver	com	ele	se	matar.
–	Devia	andar	deprimido	–	disse	Brooke.
–	Diz	aqui	que	não	deixou	nenhuma	mensagem	–	disse	Forrest.	–	Mas	têm	a
certeza	de	que	foi	suicídio.
–	Não	acho	que	tenha	sido	–	disse	Immie.
–	Vá	 lá	 –	 disse	 Forrest.	 –	 Ninguém	 o	 forçou	 a	 subir	 um	 escadote	 de	 seis
metros	num	celeiro	e	a	enforcar-se.
–	Pois	–	disse	Immie.	–	Mas	acho	que	é	capaz	de	ter	acontecido.
–	Estás	 a	 ter	 uma	 reação	 exagerada	–	 disse	Forrest.	 –	O	Scott	 era	 um	 tipo
simpático,	 e	 é	 triste	 que	 tenha	morrido,	mas	 ninguém	 o	matou.	 Comporta-te
racionalmente.
–	Não	me	digas	para	me	comportar	racionalmente	–	disse	Immie,	numa	voz
dura.
–	Ninguém	mata	o	funcionário	da	limpeza	e	faz	com	que	pareça	suicídio.	–
Forrest	levantou-se	do	computador.	Torceu	o	seu	cabelo	comprido	num	rabo	de
cavalo	e	prendeu-o	com	um	elástico	que	trazia	no	pulso.
–	Não	fales	comigo	como	se	eu	fosse	uma	criança.
–	 Imogen,	estás	perturbadacom	a	notícia	do	Scott,	o	que	é	compreensível,
mas...
–	 Isto	 não	 tem	 a	 ver	 com	 o	 Scott!	 –	 gritou	 Immie.	 –	 Tem	 a	 ver	 com	 tu
dizeres-me	que	me	comporte	racionalmente.	Pensas	que	és	superior	porque	tens
um	 curso	 universitário.	 E	 porque	 és	 homem.	 E	 porque	 és	 um	 Martin,	 dos
Martins	de	Greenwich	e...
–	Immie...
–	Deixa-me	 acabar	 –	 rosnou	 Imogen.	 –	 Tu	 vives	 na	minha	 casa.	 Comes	 a
minha	comida	e	conduzes	o	meu	carro	e	o	lixo	que	fazes	era	limpo	por	aquele
pobre	 rapaz	a	quem	eu	 pagava.	Uma	parte	de	 ti	 detesta-me	por	 isso,	Forrest.
Detestas-me	 porque	 tenho	 posses	 para	 esta	 vida	 e	 tomo	 as	 minhas	 próprias
decisões,	 e	 portanto	 tratas-me	 com	 paternalismo	 e	 desvalorizas	 as	 minhas
ideias.
–	Por	favor,	podemos	ter	esta	conversa	em	particular?	–	pediu	Forrest.
–	Vai	só.	Deixa-me	em	paz	por	algum	tempo	–	disse	Immie.	Soava	cansada.
Forrest	gemeu	e	foi	para	o	andar	de	cima.	Seguiu-se	Brooke.
O	rosto	de	Immie	contorceu-se	com	lágrimas	assim	que	eles	desapareceram
de	 vista.	 Aproximou-se	 de	 Jule	 e	 abraçou-a,	 cheirando	 a	 café	 e	 a	 jasmim.
Ficaram	assim	durante	muito	tempo.
Immie	e	Forrest	saíram	de	carro	daí	a	vinte	minutos,	dizendo	que	precisavam
de	conversar.	Brooke	ficou	no	seu	quarto.
Jule	 fez	 exercício	 físico	 e	 a	 seguir	matou	 sozinha	 o	 tempo	 que	 restava	 da
manhã.	 Almoçou	 duas	 torradas	 com	 creme	 de	 chocolate	 e	 avelã	 e	 bebeu
proteína	em	pó	dissolvida	em	sumo	de	laranja.	Estava	a	lavar	a	louça	quando
Brooke	 desceu	 ruidosamente	 e	 arrastou	 o	 seu	 saco	 de	 viagem	para	 a	 sala	 de
estar.
–	Vou-me	embora	–	disse.
–	Neste	momento?
–	Não	preciso	deste	drama	todo.	Vou	para	casa,	para	La	Jolla.	Os	meus	pais
vão	dizer,	tipo,	Brooke,	devias	arranjar	um	estágio!	Fazer	voluntariado!	Voltar
a	 estudar!	Portanto	 vai	 ser	 extremamente	 irritante,	mas,	 sabes,	 por	 acaso	 até
estou	 com	 umas	 certas	 saudades	 de	 casa.	 –	 Brooke	 virou-se	 abruptamente	 e
entrou	 na	 cozinha.	 Abriu	 a	 porta	 da	 despensa	 com	 força	 e	 pegou	 em	 duas
embalagens	de	bolachas	e	um	pacote	de	tortilla	chips,	enfiando-os	no	saco	que
trazia	ao	ombro.	–	A	comida	no	ferry	não	presta	–	disse.	–	Bye.
*
Ao	fim	do	dia,	Imogen	regressou.	Saiu	para	o	deque	e	viu	Jule.
–	Onde	está	o	Forrest?	–	perguntou	Jule.
–	 Foi	 lá	 para	 cima	 para	 o	 escritório	 dele.	 –	 Immie	 sentou-se	 e	 tirou	 as
sandálias.	–	Há	um	serviço	religioso	em	memória	do	Scott	no	próximo	fim	de
semana.
–	A	Brooke	foi-se	embora.
–	Eu	sei.	Mandou-me	uma	mensagem.
–	Levou	as	bolachas	todas.
–	A	Brooke.
–	Disse	que	tu	não	te	importarias.
–	Não	estava	a	guardá-las.	–	Imogen	levantou-se	e	foi	até	ao	interruptor	que
acendia	as	luzes	da	piscina.	A	água	iluminou-se.	–	Acho	que	devíamos	ir	para
fora.	Sem	o	Forrest.
Sim.
Seria	realmente	assim	tão	fácil?	Ter	a	Immie	só	para	si?
–	Acho	que	devíamos	partir	de	manhã	–	continuou	Imogen.
–	OK.	–	Jule	esforçou-se	por	soar	indiferente.
–	Reservo	um	voo	para	nós.	Tu	compreendes.	Preciso	de	sair	daqui,	 ter	um
tempo	só	de	raparigas.
–	Eu	não	preciso	de	estar	aqui	–	disse	Jule,	encantada.	–	Não	tenho	de	 ir	a
lado	nenhum.
–	Tive	 uma	 ideia	 –	 disse	 Imogen	 com	um	ar	 de	 conspiração.	Deitou-se	 na
espreguiçadeira.	–	Uma	ilha	chamada	Culebra.	Fica	ao	largo	de	Porto	Rico.	–
Immie	 estendeu	 a	mão	 e	 tocou	 no	 braço	 de	 Jule.	 –	 E	 não	 te	 preocupes	 com
questões	 de	 dinheiro.	 Bilhetes,	 hotel,	 tratamentos	 de	 spa...	 ficam	 por	 minha
conta.
–	Sou	toda	tua	–	disse	Jule.
D
7
PRIMEIRA	SEMANA	DE	SETEMBRO,	2016
MENEMSHA,	MARTHA’S	VINEYARD
MASSACHUSETTS
ois	 dias	 antes	 de	 morrer,	 Scott	 estava	 a	 limpar	 a	 piscina	 quando	 Jule
regressou	da	sua	corrida	matinal.	Ele	estava	em	tronco	nu.	Com	as	calças
de	ganga	descaídas	nas	ancas.	Andava	a	arrastar	um	varre-folhas	ao	longo	da
água	no	perímetro	da	piscina.
Disse	 bom	 dia	 num	 tom	 animado	 quando	 Jule	 passou	 por	 ele.	 Immie	 e
Forrest	ainda	não	se	tinham	levantado.	O	carro	alugado	de	Brooke	não	estava
no	caminho	para	a	casa.	Jule	pegou	numa	pilha	de	roupas	que	escolhera	antes	e
pendurou-as	no	gancho	ao	lado	do	chuveiro	do	exterior.	A	seguir,	entrou	para	a
cabina.
Lavou-se,	rapou	os	pelos	das	pernas	e	pensou	em	Scott.	Ele	era	muito,	muito
bonito.	Pensou	quais	seriam	os	seus	exercícios	para	os	músculos	das	costas	e
nos	pagamentos	só	a	dinheiro.	Como	se	tornara	um	tipo	que	estava	disposto	a
limpar	com	lixívia	as	casas	de	banho	de	outras	pessoas	e	cortar	a	relva	dos	seus
jardins?	Tinha	o	 aspeto	 e	 a	maneira	de	 falar	 do	grande	herói	 de	 ação	branco
heterossexual	que	se	vê	em	filme	atrás	de	filme.	Provavelmente,	poderia	ter	a
maior	parte	das	coisas	que	quisesse	neste	mundo	sem	demasiado	esforço.	Nada
estava	a	empurrá-lo	para	baixo,	mas	ali	estava	ele.	A	limpar.
Talvez	lhe	agradasse	assim.	Mas	talvez	não.
Quando	ela	desligou	a	água,	Scott	e	Imogen	estavam	a	conversar	no	deque.
–	Tens	de	me	ajudar	–	disse	ele	em	voz	baixa.
–	Não,	não	tenho,	por	acaso.
–	Por	favor.
–	Não	posso	envolver-me.
–	Não	tens	de	te	envolver,	Imogen.	Vim	ter	contigo	a	pedir-te	ajuda	porque
confio	em	ti.
Immie	suspirou.	–	Vieste	ter	comigo	porque	eu	tenho	uma	conta	bancária.
–	Não	foi	isso.	Nós	temos	uma	ligação.
–	Hello?
–	 Todas	 aquelas	 tardes	 na	 minha	 casa.	 Não	 te	 pedi	 nada.	 Foste	 lá	 porque
querias.
–	Já	não	vou	à	tua	casa	há	uma	semana	–	disse	Imogen	a	Scott.
–	Tenho	saudades	tuas.
–	Não	vou	pagar	a	tua	dívida.	–	A	voz	de	Imogen	era	firme.
–	Só	preciso	de	um	empréstimo.	Para	me	desenrascar.	Até	aqueles	gajos	me
saírem	de	cima.
–	 É	 uma	má	 ideia	 –	 disse	 Imogen.	 –	 Devias	 ir	 ao	 banco.	 Ou	 contrair	 um
empréstimo	com	o	cartão	de	crédito.
–	Não	tenho	cartão	de	crédito.	Estes	gajos	são...	eles	não	brincam	em	serviço.
Deixaram-me	recados	dentro	do	carro.	Eles...
–	Não	 devias	 ter	 andado	 a	 jogar	 –	 ripostou	 Immie.	 –	Achei	 que	 eras	mais
esperto	do	que	isso.
–	Não	me	podes	adiantar	o	suficiente	para	pagar	esta	dívida?	Depois	não	tens
de	voltar	a	ver-me.	Devolvo-te	o	dinheiro	e	desapareço,	prometo.
–	 Há	 um	 minuto,	 só	 falavas	 na	 grande	 ligação	 que	 temos.	 Agora	 estás	 a
prometer	desaparecer?
–	Não	tenho	nada	–	implorou	Scott.	–	Há	cinco	paus	na	minha	carteira	neste
momento.
–	Onde	está	a	tua	família?
–	O	meu	pai	deu	à	sola	há	muito	tempo.	A	minha	mãe	teve	cancro	quando	eu
tinha	dezassete	anos	–	disse	Scott.	–	Não	tenho	ninguém.
Immie	ficou	em	silêncio	por	um	momento.	–	Lamento	muito.	Não	sabia	isso.
–	Por	favor,	Immie.	Bombom.
–	Não	comeces	com	isso.	O	Forrest	está	lá	em	cima.
–	Se	me	ajudares,	posso	ir-me	embora	discretamente.
–	Isso	é	uma	ameaça?
–	Estou	a	pedir	ajuda	a	uma	amiga	para	pagar	uma	dívida,	é	 tudo.	Dez	mil
dólares	não	é	nada	para	alguém	como	tu.
–	Porque	deves	dinheiro?	Em	que	apostaste?
Scott	murmurou	a	resposta.	–	Lutas	de	cães.
–	Não.	–	Immie	soou	chocada.
–	Tinha	um	bom	cão.
–	As	lutas	de	cães	são	um	desporto	sangrento.	Isso	é	crime.
–	Havia	uma	cadela	de	um	refúgio	de	animais	de	que	ouvi	falar;	era	uma	fera
autêntica.	E	conheço	um	gajo	que	promove	lutas	às	vezes.	Tem	um	par	de	pit
bulls.	Não	foi,	tipo,	uma	coisa	organizada.
–	Foi	organizada	se	esse	sujeito	promove	lutas.	Há	leis	contra	isso.	É	cruel.
–	Esta	cadela	gostava	de	lutar.
–	Não	digas	isso	–	disse	Imogen.	–	Simplesmente,	não	o	digas.	Se	alguém	a
adotasse	e	a	tratasse	bem	ela	teria...
–	 Tu	 não	 conheceste	 esta	 cadela	 –	 disse	 Scott,	 petulante.	 –	 De	 qualquer
maneira,	 realizou-se	a	 luta	e	ela	perdeu,	está	bem?	Mandei	parar	antes	de	ela
ficar	 demasiado	 ferida,	 porque	 podes,	 se	 fores	 o	 dono	 do	 cão,	 porque	 ela
estava...	A	luta	não	foi	o	que	eu	pensava	que	seria.
Jule	manteve-se	imóvel,	protegida	pela	parede	do	chuveiro	no	exterior.	Não
se	atrevia	a	mexer-se.
–	Isso	significou	que	perdi	dinheiro	para	todos	aqueles	gajos	que	apostaram
nela	 –	 prosseguiu	 Scott.	 –	 Disseram	 que	 eu	 devia	 tê-la	 deixado	 lutar	 até	 à
morte.	Eu	disse	que	as	 regras	dizem	que	o	dono	do	cão	pode	mandar	parar	a
luta.	Eles	disseram,	OK,	mas	ninguém	faz	 isso,porque	 lixas	as	pessoas	 todas
que	apostaram	no	teu	cão.	–	Estava	a	chorar	agora.	–	E	querem	o	dinheiro	deles
de	 volta.	 O	 gajo	 que	 organizou	 a	 luta	 também	 quer	 o	 investimento	 dele	 de
volta.	Diz	que	as	pessoas	se	queixaram,	que	lhe	dei	cabo	do	negócio	pondo	a
lutar	um	cão	quando	eu	 estava...	 com	medo,	 Imogen.	Não	 sei	 como	 resolver
isto	sem	a	tua	ajuda.
–	Deixa-me	explicar-te	a	situação	–	disse	Imogen	lentamente.	–	Tu	és	o	meu
rapaz	 do	 jardim,	 o	 meu	 rapaz	 da	 piscina,	 o	 meu	 funcionário	 da	 limpeza.
Trabalhas	 aqui.	 Tens	 feito	 um	 trabalho	 decente	 e	 tens	 sido	 um	 tipo	 razoável
para	dar	umas	voltas	de	vez	em	quando.	Isso	não	me	dá	nenhuma	obrigação	de
te	ajudar	quando	fizeste	uma	coisa	ilegal	e	imoral	a	um	pobre	cão	indefeso.
Jule	começou	a	transpirar.
A	 maneira	 como	 Imogen	 dissera	 rapaz	 do	 jardim,	 rapaz	 da	 piscina,
funcionário	da	limpeza.	Era	tão	frio.	Jule	não	vira	Immie	cara-a-cara	com	uma
pessoa	por	quem	sentisse	desdém	até	àquele	momento.
–	Não	me	vais	ajudar,	então?	–	perguntou	Scott.
–	Mal	nos	conhecemos.
–	Vá	lá,	vieste	à	minha	casa	todos	os	dias,	nalgumas	semanas.
–	 Não	 fazia	 ideia	 de	 que	 gostavas	 de	 ver	 cães	 despedaçarem-se	 uns	 aos
outros	até	morrerem.	Não	 sabia	que	eras	um	 jogador.	Não	 sabia	que	eras	 tão
estúpido	e	cruel	como	és,	porque	não	és	mais	para	mim	do	que	o	tipo	que	limpa
a	minha	casa.	Acho	que	devias	 ir-te	 embora	agora	–	disse	 Imogen	a	Scott.	 –
Posso	arranjar	outra	pessoa	qualquer	para	me	esfregar	o	chão.
Immie	 andara	 a	 mentir	 a	 Forrest.	 E	 a	 Jule.	 Immie	 inventara	 de	 propósito
histórias	sobre	aonde	ia	de	tarde.	Mentira	sobre	porque	voltava	para	casa	com	o
cabelo	 molhado,	 porque	 estava	 cansada,	 sobre	 onde	 fizera	 as	 compras	 de
mercearia.	Mentira	ao	dizer	que	ia	jogar	ténis	com	Brooke.
Brooke.	Brooke	devia	 saber	 do	 caso	 com	Scott.	Ela	 e	 Imogen	 chegavam	a
casa	juntas	muitas	vezes	com	raquetes	e	garrafas	da	água,	a	falar	sobre	os	seus
jogos	de	ténis,	quando,	provavelmente,	não	tinham	jogado	ténis	nenhum.
Scott	 foi-se	embora	sem	mais	uma	palavra.	Daí	a	um	minuto,	 Immie	bateu
com	força	na	porta	da	cabina	do	chuveiro.	–	Consigo	ver	os	teus	pés,	Jule.
Jule	arquejou.
–	 Porque	 é	 que	 ouves	 as	 conversas	 das	 outras	 pessoas	 assim?	 –	 rosnou
Immie.
Jule	apertou	mais	ao	corpo	a	toalha	e	abriu	a	porta	do	chuveiro.	–	Estava	a
secar-me.	Tu	vieste	cá	para	fora.	Eu	não	sabia	o	que	fazer.
–	Andas	sempre	à	espreita	por	aí.	A	espiar.	Ninguém	gosta	disso.
–	Entendi.	Agora,	se	não	te	importas,	deixas-me	vestir?
Imogen	afastou-se.
Jule	sentia	vontade	de	seguir	Immie	e	esbofetear	o	seu	rosto	falso	e	lindo.
Queria	sentir-se	cheia	de	razão	e	forte	em	vez	de	embaraçada	e	traída.
Mas	teria	de	queimar	aquela	fúria	de	outra	maneira.
Pegou	no	fato	de	banho	e	nos	óculos	da	natação	de	um	gancho	no	chuveiro.
Na	piscina,	nadou	uma	milha,	estilo	livre.
Uma	segunda	milha.	Nadou	até	os	braços	lhe	tremerem.
Finalmente,	atirou-se	para	cima	de	uma	toalha	no	deque	de	madeira.	Virou	o
rosto	para	o	sol	e	não	sentiu	mais	nada	a	não	ser	cansaço.
Imogen	veio	da	casa	daí	a	algum	tempo.	Trazia	uma	taça	de	queques	ainda
quentes	 com	pepitas	 de	 chocolate.	 –	 Fiz	 estes	 bolinhos	 –	 disse.	 –	 Para	 pedir
desculpa.
–	Não	há	nada	de	que	pedir	desculpa	–	disse	Jule,	sem	se	mexer.
–	Tudo	o	que	eu	disse	foi	mauzinho.	E	tenho	andado	a	mentir-te.
–	Como	se	isso	me	importasse.
–	Importa-te.
Jule	não	respondeu.
–	 Sei	 que	 te	 importa,	 fofinha.	 Não	 devia	 haver	 mentiras	 entre	 nós.	 Tu
compreendes-me	muito	melhor	do	que	o	Forrest.	Ou	do	que	a	Brooke.
–	Possivelmente,	é	verdade.	–	Jule	não	conseguiu	conter-se.	Sorriu.
–	Tens	o	direito	de	estar	zangada.	Agi	mal.	Eu	sei.
–	Possivelmente,	também	é	verdade.
–	Penso	que	a	coisa	toda	foi	uma	maneira	de	eu	afastar	o	Forrest.	Faço	isso
quando	me	 canso	 dos	 tipos.	 Traio-os.	 Desculpa	 não	 te	 ter	 contado.	 Não	me
sinto	realmente	orgulhosa	de	mim	mesma.
Imogen	pousou	os	queques	ao	 lado	do	ombro	de	Jule.	Deitou-se	no	deque.
Os	corpos	delas	ficaram	paralelos.
–	 Quero	 sentir-me	 em	 casa	 em	 algum	 lugar,	 e	 quero	 fugir	 –	 prosseguiu
Immie.	 –	 Quero	 sentir-me	 ligada	 às	 pessoas,	 e	 quero	 afastá-las.	 Quero	 estar
apaixonada,	e	engato	tipos	de	quem	nem	tenho	a	certeza	de	gostar.	Ou	amo-os
e	dou	cabo	de	tudo,	e	talvez	dê	cabo	de	tudo	de	propósito.	Nem	sequer	sei	qual
das	coisas	é,	e	isso	é	mesmo	uma	cena	marada,	não	é?
–	 É	 mediamente	 marada	 –	 disse	 Jule	 com	 uma	 risadinha.	 –	 Mas	 não
drasticamente.	Numa	escala	de	um	a	dez,	é,	tipo,	um	sete,	acho	eu.
Ficaram	ali	deitadas	em	silêncio	por	mais	um	minuto.
–	 Mas	 uma	 cena	 marada	 de	 nível	 sete,	 provavelmente,	 é	 normal	 –
acrescentou	Jule.
–	 Por	 favor,	 posso	 subornar-te	 com	 queques	 para	 me	 perdoares?	 –	 pediu
Immie.
Jule	pegou	num	queque	e	deu	uma	dentada.	–	O	Scott	é	 lindo	de	morrer	–
disse,	engolindo.	–	Um	tipo	como	ele,	o	que	havias	de	fazer:	deixá-lo	em	paz	e
ficar	a	vê-lo	 limpar	a	piscina?	Penso	que	 talvez	 tivesses	a	obrigação	 legal	de
lhe	saltar	para	cima.
Imogen	gemeu.	–	Porque	é	que	ele	tinha	de	ser	tão	sexy?	–	Agarrou	na	mão
de	Jule.	–	Fui	mesmo	uma	bruxa.	Perdoas-me?
–	Sempre.
–	És	um	doce,	minha	fofinha.	Vem	à	loja	comigo	agora!	–	Disse	aquilo	como
se	uma	ida	à	loja	fosse	maravilhosamente	divertido.
–	Estou	cansada.	Obriga	a	Brooke	a	ir	contigo.
–	Não	quero	a	Brooke.
Jule	levantou-se.
–	Não	digas	ao	Forrest	que	vamos	sair	–	disse	Immie.
–	Não	digo.
–	É	claro	que	não	dizes.	–	Imogen	ergueu	os	olhos	para	Jule	e	sorriu-lhe.	–
Sei	que	posso	contar	contigo.	Não	lhe	vais	contar	nada	de	nada,	pois	não?
O
6
FINAIS	DE	JUNHO,	2016
MARTHA’S	VINEYARD,	MASSACHUSETTS
nze	semanas	antes	de	Immie	fazer	os	queques,	Jule	deu	consigo	na	praia
em	Moshup	Beach	sem	toalha	nem	fato	de	banho.	O	sol	estava	brilhante	e
o	dia	quente.	Depois	da	 longa	caminhada	desde	o	parque	de	estacionamento,
passeou	 à	 beira-mar.	 Pairavam	 acima	 dela	 uns	 enormes	 rochedos	 de	 calcário
em	 tons	 de	 chocolate,	 pérola	 e	 ferrugem.	 O	 calcário	 estava	 estalado	 e	 era
ligeiramente	mole	ao	toque.
Jule	descalçou-se	e	deixou-se	ficar	imóvel	com	os	dedos	dos	pés	no	mar.	A
uns	cinquenta	metros,	Imogen	e	o	seu	amigo	estavam	a	instalar-se	para	passar	a
tarde.	Não	 tinham	cadeiras	de	praia,	mas	o	 tipo	abriu	um	saco	de	onde	 tirou
uma	manta	de	praia	de	algodão,	toalhas,	revistas	e	uma	pequena	mala	térmica.
Atiraram	com	as	 roupas	para	 a	 areia,	 puseram	protetor	 solar	 e	 beberam	de
latas	que	tiraram	da	mala	térmica.	Imogen	deitou-se	na	manta	para	ler.	O	tipo
pôs-se	 a	 apanhar	 pedrinhas	 e	 a	 empilhá-las	 umas	 em	 cima	 das	 outras	 para
construir	uma	escultura	delicada	na	areia.
Jule	encaminhou-se	para	eles.	A	uns	metros,	gritou:	–	Immie,	és	tu?
Imogen	não	se	virou,	mas	o	seu	namorado	espetou-lhe	um	dedo	no	ombro.	–
Ela	está	a	chamar	o	teu	nome.
–	Imogen	Sokoloff,	correto?	–	disse	Jule,	aproximando-se.	–	Sou	eu,	a	Jule
West	Williams.	Lembras-te?
Imogen	semicerrou	os	olhos	e	sentou-se.	Tateou	à	procura	dos	seus	óculos	de
sol	no	saco	de	rede	que	trazia	e	pô-los.
–	Andámos	juntas	no	colégio	–	prosseguiu	Jule.	–	No	Greenbriar.
Immie	era	digna	de	se	ver,	pensou	Jule.	Pescoço	comprido,	maçãs	do	rosto
salientes.	 Um	 leve	 bronzeado.	 Era	magricela	 na	 parte	 de	 cima	 do	 corpo,	 no
entanto,	e	fraca.	–	Andámos	mesmo?	–	perguntou.
–	Só	durante	parte	do	décimo	ano.	Depois	fui	transferida	–	disse	Jule.	–	Mas
lembro-me	de	ti.
–	Desculpa,	diz-me	outra	vez	o	teu	nome?
–	 Jule	 West	 Williams	 –	 repetiu	 Jule.	 Ao	 ver	 Imogen	 franzir	 a	 testa,
acrescentou:	–	Andava	um	ano	atrás	de	ti.
Immie	 sorriu.	 –	 Bem,	 é	 bom	 voltar	 a	 encontrar-te,	 Jule.	 Este	 é	 o	 meu
namorado,	o	Forrest.
Jule	ficou	ali	de	pé,	pouco	à	vontade.	Forrest	estava	a	prender	de	novo	o	seu
cabelo	escorrido	num	puxo.	Tinha	um	exemplar	da	revista	New	Yorker	ao	seu
lado.	–	Queres	uma	bebida?	–	perguntou,	surpreendentemente	simpático.
–	Obrigada.	–	Jule	ajoelhou-se	na	beira	da	manta	e	aceitou	uma	lata	de	Coca-Cola	de	dieta.
–	Dá	a	 ideia	de	que	vais	a	algum	lado	–	disse	Imogen.	–	Com	o	saco,	e	os
sapatos	na	mão.
–	Oh,	eu...
–	Não	tens	coisas	de	praia?
Jule	pensou	na	coisa	mais	apelativa	que	poderia	dizer,	que	acabou	por	ser	a
verdade.	–	Vim	por	impulso	–	disse.	–	Faço	isso	às	vezes.	Não	tinha	planeado
vir	à	praia	hoje.
–	 Tenho	 um	 fato	 de	 banho	 extra	 no	 saco	 –	 disse	 Imogen,	 subitamente
calorosa.	–	Queres	ir	nadar	connosco?	Estou	com	tanto	calor	que	tenho	de	ir	já
para	a	água	ou	ainda	fico	arrasada	e	o	Forrest	vai	ter	de	me	levar	ao	colo	por
aquele	caminho	comprido	como	tudo.	–	Passou	os	olhos	pelo	corpo	estreito	de
Forrest.	–	Não	sei	se	ele	ia	conseguir.	Então,	queres	vir	nadar?
Jule	ergueu	as	sobrancelhas.	–	Era	capaz	de	aceitar	o	teu	desafio.
Imogen	tirou	um	biquini	do	seu	saco	e	passou-o	a	Jule.	Era	branco	e	muito
reduzido.	–	Veste-o	por	baixo	da	saia	e	encontramo-nos	na	água.
Ela	e	Forrest	correram	a	rir	para	dentro	do	mar.
Jule	vestiu	a	roupa	de	Imogen	pela	primeira	vez.
Com	o	biquini	de	Immie,	mergulhou	debaixo	das	ondas	e	veio	à	tona	a	sentir-
se	 milagrosamente	 feliz.	 O	 dia	 estava	 cintilante	 e	 parecia	 impossível	 sentir
outra	coisa	que	não	gratidão	pela	oportunidade	de	estar	no	oceano,	a	olhar	para
o	horizonte	enquanto	a	água	salgada	à	sua	volta	os	fustigava.	Forrest	e	Immie
não	 falavam	 muito,	 mas	 galgavam	 as	 ondas,	 a	 gritar	 e	 a	 rir.	 Quando	 se
cansaram,	 deixaram-se	 ficar	 nas	 pontas	 dos	 pés	 para	 além	 do	 ponto	 onde	 as
ondas	 rebentavam,	 saltando	 delicadamente	 e	 deixando	 a	 água	 erguê-los	 e
baixá-los.	 «Aqui	 vem	 uma	 das	 grandes.»	 «Não,	 a	 que	 vem	 a	 seguir	 é	 ainda
maior.	Ali,	estás	a	ver?	«Oh,	com	um	raio,	quase	morri,	mas	foi	excelente.»
Quando	os	três	já	tinham	os	dedos	roxos	e	tremiam	de	frio,	voltaram	para	a
manta	de	Imogen,	e	Jule	viu-se	no	seu	centro.	Forrest	deitou-se	num	dos	lados,
envolto	numa	toalha	com	um	tema	náutico,	e	Imogen	no	outro,	de	rosto	virado
para	o	sol	e	ainda	coberta	de	gotas	de	água.
–	Onde	andaste	depois	do	Greenbriar?	–	perguntou	Imogen.
–	Depois	de	me	expulsarem	–	disse	Jule.	–	A	minha	tia	e	eu	saímos	de	Nova
Iorque.
–	Não	te	expulsaram	–	disse	Imogen	toda	divertida.	Forrest	pousou	a	revista.
–	 Oh	 sim,	 expulsaram.	 –	 Ambos	 estavam	 agora	 interessados.	 –	 Por
prostituição	–	disse	Jule.
O	rosto	de	Imogen	ficou	sombrio.
–	Estou	a	brincar.	Era	uma	piada.
Imogen	começou	a	rir-se	baixo	e	lentamente,	tapando	a	boca	com	a	mão.
–	 A	 Tina	 qualquer	 coisa	 costumava	 puxar-me	 as	 cuecas	 e	 fazer-me	 umas
ameaças	no	balneário	–	disse	Jule.	–	Por	fim,	bati-lhe	com	a	cabeça	contra	uma
parede	de	tijolo.	Acabou	por	ter	de	levar	pontos.
–	Era	aquela	com	o	cabelo	encaracolado?	A	alta?	–	perguntou	Imogen.
–	Não.	A	mais	baixa	que	andava	sempre	a	seguir	essa.
–	Não	consigo	lembrar-me	do	aspeto	dela.
–	É	melhor	assim.
–	E	bateste-lhe	com	a	cabeça	contra	a	parede?
Jule	acenou	com	a	cabeça.	–	Sou	uma	safada.	Podias	chamar-lhe	um	talento
meu.
–	Uma	safada?	–	perguntou	Forrest.
–	Uma	 lutadora	 –	 disse	 Jule.	 –	Não	 para	me	 divertir,	mas...	 vocês	 sabem.
Autodefesa.	Para	combater	o	mal.	Proteger	Gotham	City.
–	Não	posso	crer	que	nunca	tenha	ouvido	dizer	que	mandaste	uma	rapariga
para	o	hospital	–	disse	Imogen.
–	Abafaram	o	caso.	A	Tina	não	queria	falar	nisso	por	causa	do	que	andava	a
fazer-me	 antes	 de	 eu	 a	 obrigar	 a	 parar,	 sabes?	 E	 dava	 mau	 aspeto	 ao
Greenbriar.	 Raparigas	 a	 lutarem.	 Foi	mesmo	 antes	 do	 concerto	 de	 inverno	 –
disse	Jule.	–	Quando	vinham	os	pais	todos.	Deixaram-me	cantar	nele	antes	de
me	expulsarem.	Não	te	lembras?	Aquela	rapariga	Caraway	fez	o	solo.
–	Oh,	sim.	A	Peyton	Caraway.
–	Cantámos	uma	canção	de	Gershwin.
–	E	o	«Rudolph»	–	disse	Imogen.	–	Éramos	muito	crescidas	para	cantarmos	o
«Rudolph».	Foi	ridículo.
–	Estavas	com	um	vestido	de	veludo	azul	com	pregas	na	frente.
Imogen	tapou	os	olhos	com	as	mãos.	–	Não	posso	acreditar	que	 te	 lembres
desse	vestido!	A	minha	mãe	obrigava-me	sempre	a	usar	coisas	como	essas	nas
festas,	 e	 nós	 nem	 sequer	 comemoramos	 o	Natal.	 Como	 se	 estivesse	 a	 vestir
uma	boneca	tradicional	americana.
Forrest	espetou	um	dedo	no	ombro	de	Jule.	–	Deves	ir	começar	a	faculdade
no	outono.
–	Por	acaso,	acabei	o	secundário	mais	cedo.	Portanto	já	ando	há	um	ano	na
faculdade.
–	Onde?
–	Em	Stanford.
–	Conheces	a	Ellie	Thornberry?	–	perguntou	Imogen.	–	Ela	anda	lá.
–	Acho	que	não.
–	E	o	Walker	D’	Angelo?	–	disse	Forrest.	–	Está	no	mestrado	de	História	de
Arte.
–	O	Forrest	já	acabou	a	faculdade	–	disse	Imogen.	–	Mas	para	mim	era	como
os	quintos	da	porra	do	Inferno,	portanto	não	vou	mais.
–	Não	tentaste	realmente	–	disse	Forrest.
–	Estás	a	falar	como	o	meu	pai.
–	Oh,	faz	beicinho,	faz.
Immie	pôs	os	óculos	de	sol.	–	O	Forrest	está	a	escrever	um	romance.
–	Que	tipo	de	romance?	–	perguntou	Jule.
–	É	um	bocado	Samuel	Beckett	combinado	com	Hunter	S.	Thompson	–	disse
Forrest.	 –	 E	 sou	 um	 grande	 fã	 do	 Pynchon,	 portanto	 ele	 é	 uma	 influência
minha.
–	Boa	sorte	com	isso	–	disse	Jule.
–	 Ooh,	 és	 mesmo	 uma	 safada	 –	 disse	 Forrest.	 –	 Até	 gosto	 dela,	 sabes,
Imogen?
–	Ele	gosta	de	mulheres	com	mau	feitio	–	disse	Imogen.	–	É	uma	das	poucas
qualidades	cativantes	que	tem.
–	E	nós,	gostamos	dele?	–	perguntou	Jule	a	Imogen.
–	Toleramo-lo	por	ser	giro	–	disse	Immie.
Disseram	que	tinham	fome	e	foram	a	pé	até	às	lojas	de	Aquinah.	Nessa	zona
havia	um	aglomerado	de	barracas	de	petiscos.	Forrest	pediu	três	embalagens	de
papel	com	batatas	fritas	para	partilharem.
Immie	fez	um	grande	sorriso	ao	tipo	por	trás	do	balcão	e	disse:	–	Vai	rir-se	de
mim,	mas	preciso,	tipo,	de	quatro	rodelas	de	limão	para	o	ice	tea.	Sou	louca	por
limão.	Pode	fazer	isso	por	mim?
Ele	disse:	–	Limão?
–	Quatro	rodelas	–	disse	Immie.	Pousou	os	braços	e	os	cotovelos	no	balcão
da	barraca	e	inclinou-se	para	a	frente,	erguendo	o	rosto	para	ele.
–	Com	certeza	–	disse	ele.
–	Está	a	rir-se	do	meu	limão	–	disse	ela.
–	Não	me	estou	a	rir.
–	Está	a	rir-se	interiormente.
–	Não.	–	Ele	 já	 tinha	cortado	o	 limão	e	empurrou-o	por	cima	do	balcão	na
direção	dela	num	copo	de	papel	vermelho	e	branco.
–	Obrigada,	então,	por	levar	o	meu	limão	tão	a	sério	–	disse	Imogen.	Pegou
numa	das	rodelas	e	enfiou-a	na	boca,	 trincando-a	para	espremer	algum	sumo.
Através	da	casca	de	limão	na	boca,	disse:	–	É	muito	importante	que	os	limões
obtenham	respeito.	Fá-los	sentirem-se	valorizados.
Sentaram-se	 a	 uma	 mesa	 de	 piquenique	 com	 vista	 para	 o	 parque	 de
estacionamento	 de	 um	 dos	 lados	 e	 para	 o	 mar	 do	 outro.	 No	 outro	 lado	 do
parque	de	estacionamento,	havia	pessoas	a	lançarem	papagaios	de	papel.	Fazia
muito	vento.	A	mesa	de	piqueniques	estava	cinzenta	e	amolgada	dos	anos	ao	ar
livre.	Imogen	comeu	uma	ou	duas	batatas	fritas	e	depois	tirou	uma	banana	do
saco	e	comeu-a	com	uma	colher.
–	Estás	aqui	sozinha?	–	perguntou	Immie.	–	Em	Vineyard?
Forrest	 abrira	 o	 seu	 exemplar	 da	 revista	New	 Yorker.	 O	 seu	 corpo	 estava
ligeiramente	desviado	delas.
Jule	assentiu	com	a	cabeça.	–	Estou.	Deixei	Stanford.	–	Contou	a	história	do
treinador	pervertido	e	da	perda	da	bolsa	de	estudos.	–	Não	quero	ir	para	casa.
Não	me	dou	bem	com	a	minha	tia.
Immie	inclinou-se	para	a	frente.	–	É	com	ela	que	vives?
–	Não,	não	estou	disposta	a	lidar	mais	com	a	família.
Forrest	soltou	uma	risadinha.	–	A	Imogen	também	não.
–	Estou,	sim	–	disse	Imogen.
–	Não,	não	está	–	disse	ele.
Jule	olhou	Imogen	nos	olhos.	–	Temos	isso	em	comum,	então.
–	Sim,	suponho	que	temos.	–	Immie	atirou	a	casca	da	banana	para	o	caixote
do	lixo.	–	Ouve,	vem	connosco	até	lá	a	casa.	Podemos	nadar	na	piscina	e	podes
ficar	para	 jantar.	Vão	aparecer	umas	pessoas	de	passagem,	amigos	novos	que
só	 estão	 na	 ilha	 por	 um	 par	 de	 semanas.	Vamos	 grelhar	 bifes.	 É	mesmo	 em
Menemsha.	Nem	vais	acreditar	na	casa.	É	gigantesca.
Imogen	sentou-se	perto	de	Jule	e	alinhou	os	pés	das	duas.
–	Anda	lá.	Vai	ser	divertido	–	disse,	persuasiva.	–	Já	não	tenho	uma	conversa
de	raparigas	há	séculos.
A	 casa	 de	 Menemsha	 tinha	 tetos	 tão	 altose	 janelas	 tão	 rasgadas	 que	 as
atividades	do	dia	a	dia	pareciam	ter	espaço	e	luz	extra.	As	bebidas	pareciam	ter
mais	gás	e	serem	mais	frias	do	que	quaisquer	bebidas	alguma	vez	tinham	sido.
Jule,	 Forrest	 e	 Immie	 nadaram	 na	 piscina	 e	 depois	 usaram	 o	 chuveiro	 no
exterior.	As	pessoas	temporárias	vieram	jantar,	mas	Jule	via	já	que	não	era	uma
delas,	 pela	maneira	 como	 Imogen	 a	 chamou	 ao	 grelhador	 para	 olhar	 para	 os
bifes	 e	 pela	 maneira	 como	 se	 sentou	 no	 deque,	 enroscada	 aos	 pés	 de	 Jule.
Imogen	 disse-lhe	 que	 devia	 passar	 ali	 a	 noite	 num	 dos	 quartos	 de	 hóspedes,
quando	 os	 outros	 amigos	 estavam	 a	 meter-se	 no	 carro.	 Tinham-se	 oferecido
para	dar	boleia	a	Jule	para	o	seu	hotel,	pelas	estradas	agora	escuras	da	ilha.
Ela	recusou.
Immie	levou	Jule	a	um	quarto	no	segundo	andar.	Havia	uma	enorme	cama	e
cortinas	brancas	esvoaçantes	–	e	estranhamente,	um	pequeno	cavalo	de	baloiço
antigo	e	uma	coleção	de	cata-ventos	antigos	expostos	numa	secretária	grande
de	madeira.	Jule	dormiu	o	sono	profundo	que	se	segue	a	longos	dias	ao	sol.
*
Na	manhã	seguinte,	Forrest	levou-a	contrafeito	de	carro	ao	hotel	para	ela	ir
buscar	 as	 suas	 coisas.	Quando	 Jule	 voltou	 a	 entrar	 na	 casa	 com	 a	 sua	mala,
Immie	 tinha	posto	quatro	 jarras	com	flores	no	quarto.	Quatro.	Também	 tinha
deixado	 livros	 na	mesa	 de	 cabeceira:	A	Feira	 das	 Vaidades,	 de	 Thackeray	 e
Grandes	 Esperanças,	 de	 Dickens,	 além	 de	 um	 guia	 turístico,	 The	 Insider’s
Guide	to	Martha’s	Vineyard.
Assim	começou	uma	série	de	dias	que	se	sucediam	indistintos	uns	aos	outros.
A	 gente	 de	 Immie,	 amigos	 temporários	 e	 literários	 da	 semana,	 adquiridos	 na
praia	 ou	 na	 feira	 da	 ladra,	 atravessavam	 a	 casa.	 Nadavam	 na	 piscina	 e
ajudavam	a	cozinhar	ao	ar	 livre	e	 riam-se	histericamente,	agarrados	ao	peito.
Eram	todos	jovens;	rapazes	bem	parecidos	e	efeminados	e	raparigas	igualmente
bem	parecidas	e	exuberantes.	Na	sua	maioria	eram	divertidos	e	nada	atléticos,
tagarelas	 e	 bastante	 alcoólicos,	 estudantes	 universitários	 ou	 de	 Belas-Artes.
Para	 além	 disso,	 eram	 de	 vários	 meios	 e	 orientações	 sexuais.	 Imogen	 era	 a
típica	 nova-iorquina:	 de	 mente	 aberta,	 de	 uma	 maneira	 que	 Jule	 só	 vira	 na
televisão,	ao	que	parecia	totalmente	confiante	nos	seus	atrativos	como	amiga	e
anfitriã.
Jule	 demorou	 um	 ou	 dois	 dias	 a	 adaptar-se,	 mas	 não	 tardou	 a	 sentir-se	 à
vontade.	Encantou	os	temporários	com	histórias	de	Greenbriar,	de	Stanford	e,
em	menor	grau,	de	Chicago.	Debatia	com	eles,	bem	disposta,	quando	queriam
debates.	Namoriscava	 com	eles	 e	 esquecia	os	 seus	nomes	 e	deixava-os	 saber
que	esquecera	os	seus	nomes,	porque	o	facto	de	os	esquecer	fazia	com	que	eles
quisessem	 que	 ela	 os	 lembrasse.	 Ao	 princípio,	 enviava	 fotografias	 a	 Patti
Sokoloff	 e	 escrevia	 e-mails	 cheios	 de	 conversa	 e	 de	 esperança,	 mas	 pouco
tardou	até	Jule	ignorar	Patti	tal	como	Imogen	a	ignorava.
Immie	fazia-a	sentir-se	desejada.	O	júbilo	dessa	sensação	nova	enchia	os	dias
de	Jule.
Um	dia,	 quando	 Jule	 já	 estava	 a	 viver	 ali	 há	 duas	 semanas,	 viu-se	 só	 pela
primeira	vez.	Forrest	e	Immie	tinham	ido	almoçar	fora	juntos.	Havia	um	novo
restaurante	que	Immie	queria	experimentar.
Jule	 comeu	 restos	 em	 frente	 à	 televisão	e	depois	 foi	para	o	 andar	de	 cima.
Ficou	à	porta	do	quarto	de	Immie	por	um	momento,	a	olhar	lá	para	dentro.
A	cama	estava	feita.	Na	mesa	havia	livros,	um	boião	de	creme	para	as	mãos,
o	estojo	dos	óculos	de	Forrest	e	um	carregador	vazio.	Jule	entrou	e	abriu	um
frasco	de	perfume,	perfumou-se	e	esfregou	os	pulsos	um	contra	o	outro.
No	armário	estava	pendurado	um	vestido	que	Imogen	usava	com	frequência.
Era	um	vestido	maxi	verde-escuro,	de	algodão	fino,	com	um	grande	decote	em
vê	 na	 frente	 que	 tornava	 impossível	 usar	 soutien.	 Immie	 tinha	 pouco	 peito,
portanto	isso	não	importava.
Sem	pensar,	Jule	despiu	os	calções	de	correr	e	depois	a	T-shirt	desbotada	e
esfiapada	de	Stanford.	E	depois	o	soutien.
Enfiou	o	vestido	de	 Immie	pela	 cabeça.	Encontrou	um	par	de	 sandálias.	A
coleção	de	 Immie	de	 anéis,	 oito,	 com	 formas	de	 animais,	 estava	 em	cima	da
cómoda.
Havia	 um	 espelho	 de	 corpo	 inteiro	 com	 uma	 moldura	 larga	 prateada
encostado	a	uma	parede.	Jule	virou-se	e	mirou-se	de	olhos	semicerrados.	Tinha
o	 cabelo	 preso	 num	 rabo	 de	 cavalo,	 mas,	 para	 além	 disso,	 à	 pouca	 luz	 do
quarto,	parecia	Imogen.	Quase.
Então,	esta	era	a	 sensação	que	dava.	Sentar-se	na	cama	de	 Imogen.	Usar	o
perfume	de	Imogen	e	os	anéis	de	Imogen.
Immie	 deitava-se	 nesta	 cama	 à	 noite,	 ao	 lado	 de	 Forrest,	 mas	 ele	 era
substituível.	Immie	aplicava	este	creme	nas	mãos,	assinalava	a	página	no	livro
com	 aquele	 marcador.	 De	 manhã,	 abria	 os	 olhos	 e	 via	 estes	 lençóis	 azuis-
esverdeados	e	aquela	pintura	do	mar.	Era	esta	a	sensação	que	dava	saber	que
esta	 enorme	 casa	 era	 dela,	 nunca	 se	 preocupar	 com	 dinheiro	 ou	 a
sobrevivência,	sentir-se	amada	por	Gil	e	Patti.
Andar	tão	maravilhosamente	vestida,	sem	esforço.
*
–	Desculpa?
Immie	estava	à	porta	do	quarto.	Trazia	calções	de	ganga	e	uma	camisola	com
capuz	 que	 pertencia	 a	 Forrest.	 Os	 seus	 lábios	 brilhavam	 com	 um	 batom
vermelho	 que	 não	 costumava	 usar.	 Não	 se	 parecia	 muito	 com	 a	 Imogen	 na
mente	de	Jule.
A	vergonha	inundou	o	corpo	de	Jule,	mas	ela	sorriu.
–	Achei	que	não	te	importavas	–	disse.	–	Precisava	de	um	vestido.	Telefonou-
me	um	tipo,	coisa	de	última	hora.
–	Que	tipo?
–	O	tipo	de	Oak	Bluffs,	aquele	com	quem	falei	quando	andei	no	carrossel.
–	Quando	foi	isso?
–	Mandou-me	mensagem	agora	mesmo	e	perguntou-me	se	queria	encontrar-
me	com	ele	no	jardim	das	esculturas	daqui	a	meia	hora.
–	Seja	como	for	–	disse	Immie.	–	Fazes-me	o	favor	de	despir	a	minha	roupa?
Jule	sentia	o	rosto	quente.	–	Não	julguei	que	te	importasses.
–	Vais	mudar	de	roupa	ou	quê?
Jule	puxou	para	baixo	a	parte	de	cima	do	vestido	verde	de	Immie	e	pegou	no
seu	soutien	do	chão.
–	Esses	são	os	meus	anéis,	também?	–	perguntou	Immie.
–	São.	–	Não	havia	como	fingir	outra	coisa.
–	Porque	é	que	haverias	de	usar	as	minhas	roupas?
Jule	tirou	o	vestido	e	voltou	a	pendurá-lo	no	cabide.	Vestiu	o	resto	das	suas
roupas	e	pousou	os	anéis	em	cima	da	cómoda.
–	Não	acredito	que	tenhas	um	tipo	à	espera	do	jardim	das	esculturas	–	disse
Immie.
–	Acredita	no	que	quiseres.
–	O	que	se	está	a	passar?
–	Peço	desculpa	por	ter	usado	as	tuas	roupas	e	não	volto	a	fazê-lo.	OK?
–	OK.	–	Imogen	ficou	a	ver	Jule	arrumar	as	sandálias	no	armário	e	apertar	os
atacadores	 dos	 seus	 ténis.	 –	 Tenho	 uma	 pergunta	 –	 disse,	 quando	 Jule	 se
preparava	para	passar	por	ela	para	o	corredor.
O	rosto	de	Jule	ainda	estava	a	arder.	Não	queria	conversar.
–	Não	te	vás	embora	–	disse	Immie.	–	Responde-me	uma	coisa,	pode	ser?
–	O	que	é?
–	Estás	sem	dinheiro?	–	perguntou	Imogen.
Sim.	 Não.	 Sim.	 Jule	 detestava	 o	 quão	 vulnerável	 a	 fazia	 sentir	 aquela
pergunta.
–	Falida	–	disse	finalmente.–	É,	estou	completamente	falida.
Immie	tapou	a	boca	com	a	mão.	–	Não	sabia.
E	assim,	sem	mais,	Jule	ficou	em	vantagem.	–	Não	tem	problema	–	disse.	–
Posso	arranjar	um	emprego.	Quer	dizer,	não	tenho	andado	a	encarar	a	situação
como	tenho	de	a	encarar.
–	Devia	ter-me	apercebido.	–	Immie	sentou-se	na	cama.	–	Sabia	que	não	ias
voltar	para	Stanford,	e	disseste	que	 te	 tinhas	zangado	com	a	 tua	 tia,	mas	não
deduzi	que	a	situação	era	assim	tão	má.	Ver-te	a	usar	as	mesmas	coisas	dia	após
dia.	Nunca	comprares	nada	no	supermercado	cá	para	casa.	Deixares-me	pagar
tudo.
Oh.	 Então,	 ela	 devia	 comprar	 coisas	 no	 supermercado.	 Era	 um	 código	 de
conduta	 que	 Jule	 não	 compreendera	 até	 àquele	 momento.	 Mas	 limitou-se	 a
dizer	a	Imogen:	–	Tudo	bem.
–	Não,	 tudo	mal,	Jule.	Lamento	imenso.	–	Immie	ficou	em	silêncio	por	um
momento.	A	seguir,	disse:	–	Penso	que	tenho	andado	a	presumir	coisas	sobre	a
tua	vida	que	não	devia	 presumir.	E	não	 te	 pedi	 para	me	 contares.	Não	 tenho
uma	experiência	muito	alargada,	acho	eu.
Juleencolheu	os	ombros.	–	Tens	sorte.
–	O	Isaac	andava	sempre	a	dizer-me	que	eu	tinha	uma	perspetiva	acanhada.
Mas	adiante.	Pede	emprestado	tudo	o	que	quiseres.
–	Ia	sentir-me	esquisita,	agora.
–	Não	 te	 sintas	 esquisita.	 –	 Immie	 abriu	o	 armário.	Estava	 atafulhado	 com
roupas.	–	Tenho	mais	do	que	preciso.
Voltou	para	junto	de	Jule.	–	Deixa-me	arranjar-te	o	cabelo.	Tens	uns	ganchos
soltos.
O	cabelo	de	Jule	era	comprido.	Na	maior	parte	do	tempo,	usava-o	apanhado
para	 trás,	 bem	 repuxado.	 Agora,	 inclinou	 a	 cabeça	 para	 a	 frente	 e	 Immie
prendeu	umas	madeixas	no	pescoço	que	se	tinham	soltado.
–	Devias	cortá-lo	curto	–	disse	 Immie.	–	 Ia	 ficar-te	bem.	Não	bem	como	o
meu.	 Um	 pouco	 mais	 comprido	 na	 franja,	 penso,	 e	 mais	 suave	 à	 volta	 das
orelhas.
–	Não.
–	 Levo-te	 ao	 meu	 cabeleireiro	 amanhã,	 se	 quiseres	 –	 insistiu	 Immie.	 –
Ofereço	eu.
Jule	abanou	a	cabeça.
–	Deixa-me	fazer	alguma	coisa	por	ti	–	disse	Immie.	–	Tu	mereces.
*
Em	Oak	Bluffs	no	dia	 seguinte,	 Jule	 sentiu-se	 leve,	 sem	o	peso	do	cabelo.
Era	agradável	ter	Imogen	a	cuidar	dela.	A	emprestar-lhe	um	brilho	dos	lábios
depois	do	corte	de	cabelo.	A	levá-la	a	almoçar	num	restaurante	com	vista	para
o	porto.	Depois	da	refeição,	entraram	numa	joalharia	de	peças	vintage.
–	Quero	ver	o	anel	mais	fora	do	comum	que	tem	à	venda	–	disse	Immie.
O	empregado	afadigou-se	a	alinhar	seis	anéis	num	tabuleiro	forrado	a	veludo.
Imogen	tocou-lhes	com	reverência.	Selecionou	um	de	jade	com	a	forma	de	uma
víbora,	pagou-o	e	passou	a	caixa	de	veludo	azul	para	as	mãos	de	Jule.
–	Este	é	para	ti.
Jule	abriu	a	caixa	imediatamente	e	enfiou	a	víbora	no	anelar	da	mão	direita.	–
Sou	demasiado	nova	para	me	casar	–	disse.	–	Não	fiques	com	ideias.
Immie	riu-se.	–	Amo-te	–	disse	casualmente.
Era	a	primeira	vez	que	Immie	usava	a	palavra	amar.
No	dia	seguinte,	 Jule	 levou	o	carro	para	 ir	buscar	gás	para	o	grelhador	aos
armazéns	de	ferragens	do	outro	lado	da	ilha.	Também	fez	algumas	compras	no
supermercado.	Quando	voltou,	 Imogen	e	Forrest	estavam	nus,	os	seus	corpos
entrelaçados	na	piscina.
Jule	ficou	parada	do	lado	de	dentro	da	porta	de	vidro,	a	observá-los.
Os	 dois	 pareciam	 tão	 desajeitados,	 a	 bambolearem-se	 abraçados.	O	 cabelo
comprido	de	Forrest	 estava	molhado	e	 caía-lhe	à	volta	dos	ombros.	Tinha	os
óculos	na	beira	da	piscina	e	o	seu	rosto	parecia	apagado	e	vazio	sem	eles.
Parecia	impossível.	Jule	tinha	a	certeza	de	que	Imogen	não	podia	realmente
amar	ou	desejar	Forrest.	Ele	era	só	uma	ideia	de	um	namorado:	um	marcador
de	 lugar.	 Embora	 não	 o	 soubesse,	 era	 uma	 pessoa	 temporária,	 como	 os
universitários	e	os	estudantes	de	Belas-Artes	que	vinham	jantar	e	nunca	mais	se
voltavam	 a	 ver.	 Forrest	 não	 ouvia	 os	 segredos	 de	 Immie.	 Não	 era	 um	 ser
amado.	Jule	nunca	acreditara	que	Imogen	pudesse	agarrar-lhe	o	rosto	e	beijá-lo
e	 parecer	 esfomeada	 e	 louca	 por	 ele,	 como	 estava	 a	 fazer	 naquele	momento.
Não	acreditara	 realmente	que	 Imogen	 ficasse	 sequer	nua	 em	 frente	 a	 ele,	 tão
vulnerável.
Forrest	viu-a.
Jule	 recuou,	 a	 contar	 que	 Forrest	 berrasse	 ou	 ficasse	 embaraçado,	mas	 ele
limitou-se	a	dizer	a	Immie:	–	A	tua	amiguinha	está	aqui	–	como	se	estivesse	a
falar	sobre	uma	criança.
Imogen	virou	a	cabeça	e	disse:	–	Adeusinho,	Jule.	Vemos-te	mais	tarde.
Jule	deu	meia	volta	e	correu	para	o	andar	de	cima.
*
Horas	depois,	desceu.	Ouviu	o	som	de	um	podcast	na	cozinha,	que	Imogen
tinha	o	hábito	de	ouvir	quando	cozinhava,	e	foi	dar	com	ela	a	cortar	curgetes
para	o	grelhador.
–	Precisas	de	ajuda?	–	perguntou	Jule.	Sentia-se	extremamente	embaraçada.
O	 facto	 de	 ter	 presenciado	 aquela	 cena	 era	 excruciante.	 Poderia	 dar	 cabo	 de
tudo.
–	Desculpa	lá	o	espetáculo	pornográfico	–	disse	Imogen	num	tom	ligeiro.	–
Não	te	importas	de	cortar	uma	cebola	roxa?
Jule	tirou	uma	cebola	da	taça.
–	Quando	arranjei	o	apartamento	em	Londres	–	continuou	Imogen	–,	havia
duas	raparigas	do	meu	programa	de	estudos	que	namoravam.	Tinham	acabado
de	se	assumir,	sabes,	longe	da	família,	e	iam	ficar	lá	em	casa	durante	o	mês	de
agosto.	 Um	 dia,	 apanhei-as	 no	 chão	 da	 cozinha	 em	 flagrante,	 tipo,
completamente	 nuas	 e	 a	 gritarem.	 Devo	 ter	 chegado	 num	momento	 de	 auge
como	 o	 caraças,	 se	me	 faço	 entender.	 Pensei,	meu	Deus,	 alguma	 vez	 vamos
voltar	 a	 conseguir	 encarar-nos?	 Tipo,	 como	 é	 que	 podíamos	 ir	 todas	 ao	 pub
mais	 tarde,	 depois	 daquilo,	 e	 comer	 peixe	 com	 batatas	 fritas?	 Simplesmente
não	 parecia	 possível,	 e	 tive	 a	 sensação	 de	 que	 talvez	 tivesse	 perdido	 duas
amigas	 incríveis	 só	 por	 ter	 voltado	 para	 casa	 no	momento	 errado.	Mas	 uma
delas	 disse,	 tipo,	 «Oh,	 desculpa	 lá	 o	 espetáculo	 pornográfico»,	 e	 desatámos
todas	 a	 rir	 e	 ficou	 tudo	 bem.	 Portanto,	 pensei	 que	 também	 ia	 dizer	 isso	 se
alguma	vez	me	visse	no	mesmo	tipo	de	situação.
–	Tens	um	apartamento	em	Londres?	–	Jule	olhava	para	a	cebola	enquanto	a
descascava.
–	 Foi	 um	 investimento	 –	 disse	 Immie.	 –	 E,	 tipo,	 um	 capricho.	 Estava	 em
Inglaterra	num	programa	de	verão.	A	pessoa	que	me	trata	do	dinheiro	tinha-me
aconselhado	 a	 investir	 algum	 em	 imobiliário,	 e	 eu	 adorava	 a	 cidade.	Aquele
apartamento	 foi	 o	 primeiro	 que	 visitei,	 uma	 compra	 impulsiva	 no	 país
totalmente	 errado,	 mas	 não	 me	 arrependo.	 Fica	 numa	 zona	 muito	 gira:	 St.
John’s	Wood.	–	Immie	pronunciou	o	nome	como	Sin	Jahn’s	Wood.	–	Diverti-
me	imenso	a	decorá-lo	com	as	minhas	amigas.	E	andámos	pela	cidade	a	fazer
coisas	de	turista.	A	Torre	de	Londres,	a	mudança	da	guarda,	o	museu	de	cera.
Vivíamos	 de	 bolachas	 digestivas.	 Foi	 antes	 de	 eu	 aprender	 a	 cozinhar.	 Posso
emprestar-te	o	apartamento	quando	quiseres.	Nunca	o	uso	agora.
–	Devíamos	ir	juntas	–	disse	Jule.
–	Oh,	ias	adorar.	Tenho	as	chaves	aqui	mesmo.	Podíamos	ir	amanhã	–	disse
Immie,	 batendo	 com	 a	 mão	 na	 carteira	 que	 estava	 em	 cima	 da	 bancada	 da
cozinha.	–	E	talvez	devêssemos.	Consegues	imaginar?	Só	tu	e	eu	em	Londres?
Immie	 adorava	 pessoas	 que	 fossem	 entusiásticas.	 Queria	 que	 adorassem	 a
música	que	ela	adorava,	as	flores	que	lhes	oferecia,	os	livros	que	ela	admirava.
Queria	que	apreciassem	o	aroma	de	uma	especiaria	ou	o	sabor	de	um	novo	tipo
de	sal.	Não	se	importava	que	discordassem,	mas	detestava	pessoas	que	fossem
apáticas	ou	indecisas.
Jule	leu	os	dois	livros	com	personagens	órfãs	que	Immie	deixara	na	sua	mesa
de	cabeceira	e	tudo	o	mais	que	Immie	trazia	para	casa	para	ela.	Memorizava	os
rótulos	das	garrafas	de	vinho,	as	etiquetas	dos	queijos,	excertos	de	romances,
receitas.	 Era	 uma	 doçura	 com	 Forrest.	 Era	 safada,	 mas	 disposta	 a	 agradar,
feminista	 mas	 feminina,	 cheia	 de	 raiva	 mas	 amistosa,	 eloquente	 mas	 não
dogmática.
Compreendia	 que	 a	manufatura	 de	 si	mesma	 para	 agradar	 a	 Imogen	 –	 era
como	 correr,	 na	 realidade.	 Simplesmente	 persistias,	 quilómetro	 após
quilómetro.	 Acabavas	 por	 desenvolver	 resistência.	 Um	 dia,	 apercebias-te	 de
que	adoravas	aquilo.
Quando	Jule	já	estava	na	casa	de	Vineyard	há	cinco	semanas,	Brooke	Lannon
apareceu	um	dia	no	alpendre	de	Immie.	Jule	foi	abrir	a	porta.
Brooke	entrou	e	atirou	com	os	seus	sacos	de	viagem	para	cima	do	sofá.	A	sua
camisa	de	 flanela	 azul	 estava	no	 fio	 e	velha	e	 trazia	o	 cabelo	 louro	e	 sedoso
preso	num	puxo	no	 cocuruto	 da	 cabeça.	 –	 Immie,	 ainda	 existes,	 sua	 bruxa	–
disse	 quando	 Immie	 entrou	 na	 sala	 de	 estar.	 –	 Toda	 Vassar	 acha	 que	 estás
morta.	 –	Virou-se	para	olhar	para	Forrest.	 –	Este	 é	que	 é	o	 tipo?	Quem...?	 –
Deixou	um	ponto	de	interrogação	no	ar.
–	Este	é	o	Forrest	–	disse	Immie.
–	Forrest!	–	disse	Brooke,	dando-lhe	um	aperto	de	mão.	–	OK,	venha	de	 lá
um	abraço.
Forrest	abraçou-a	embaraçado.	–	Prazer	em	conhecer-te.
–	É	sempre	um	prazer	conhecer-me	–	disse	Brooke.	A	seguir,	apontou	para
Jule.	–	Quem	é	esta?
–	Não	sejas	mazinha	–	disse	Immie.
–	Estou	a	ser	encantadora	–	disse	Brooke.	–	Quem	és	tu?	–	Aquilo,	a	Jule.
Jule	 forçou	 um	 sorriso	 e	 apresentou-se.Não	 sabia	 que	 Brooke	 viria.	 E,
claramente,	Brooke	também	não	fora	informada	de	que	Jule	se	encontrava	ali.
–	A	Imogen	diz	que	és	a	pessoa	favorita	dela	de	Vassar.
–	Sou	a	pessoa	favorita	de	Vassar	de	toda	a	gente	–	disse	Brooke.	–	Por	isso	é
que	tive	de	desistir.	Eram	só	duas	mil	pessoas.	Preciso	de	um	público	maior.
Arrastou	os	seus	sacos	para	o	andar	de	cima	e	instalou-se	como	em	casa	no
segundo	melhor	quarto	de	hóspedes.
C
5
FINAIS	DE	JUNHO,	2016
MARTHA’S	VINEYARD,	MASSACHUSETTS
inco	semanas	antes	da	chegada	de	Brooke,	no	seu	sétimo	dia	em	Martha’s
Vineyard,	 Jule	 abriu	 os	 cordões	 à	 bolsa	 e	 fez	 um	 circuito	 turístico	 de
autocarro	pela	ilha.	A	maior	parte	das	pessoas	no	autocarro	era	do	tipo	que	quer
pôr	um	visto	numa	lista	dos	atrativos	locais	tirada	de	um	site	de	viagens.	Eram
grupos	de	família	e	casais,	a	falarem	alto.
À	 tarde,	 a	 excursão	 chegou	 ao	 farol	 de	 Aquinnah,	 numa	 zona	 que	 o	 guia
explicou	que	tinha	sido	habitada	originalmente	pela	Tribo	Wampanoag	de	Gay
Head	 e	 mais	 tarde,	 no	 século	 XVII,	 por	 colonos	 ingleses	 também.	 O	 guia
começou	a	falar	sobre	a	pesca	da	baleia	enquanto	os	passageiros	saíam	todos
do	autocarro	para	admirar	o	farol.	Do	miradouro,	viam	os	rochedos	de	calcário
colorido	de	Moshup	Beach,	mas	não	se	podia	descer	até	à	água	sem	fazer	uma
caminhada	de	cerca	de	oitocentos	metros	à	torreira	do	sol.
Jule	 afastou-se	 do	 miradouro	 na	 direção	 das	 lojas	 de	 Aquinnah,	 um
aglomerado	 de	 pequenos	 estabelecimentos	 que	 vendiam	 recordações	 para
turistas,	produtos	artesanais	ao	estilo	da	tribo	Wampanoag	e	comida.	Entrava	e
saía	dos	edifícios	baixos,	a	passar	a	mão	casualmente	por	colares	e	postais.
Talvez	devesse	ficar	para	sempre	em	Martha’s	Vineyard.	Poderia	arranjar	um
emprego	 numa	 loja	 ou	 num	 ginásio,	 passar	 os	 dias	 à	 beira-mar,	 arranjar	 um
sítio	para	viver.	Podia	desistir	de	tentar	fazer	alguma	coisa	pela	vida,	parar	de
ser	 ambiciosa.	 Podia	 simplesmente	 aceitar	 a	 vida	 que	 se	 lhe	 apresentava
naquele	 preciso	momento	 e	 sentir-se	 grata	 por	 ela.	Ninguém	 se	meteria	 com
ela.	Não	tinha	de	procurar	Imogen	Sokoloff	se	não	quisesse.
Ao	mesmo	tempo	que	Jule	saiu	de	uma	loja,	um	homem	novo	ia	a	sair	da	loja
em	 frente.	 Levava	 um	 saco	 grande	 de	 lona.	 Era	mais	 ou	menos	 da	 idade	 de
Jule.	Não,	um	pouco	mais	velho.	Era	magro	e	tinha	a	cintura	estreita,	um	nariz
ligeiramente	adunco	e	uma	boa	estrutura	óssea.	O	seu	cabelo	castanho	estava
preso	num	puxo.	Usava	 calças	 de	 algodão	pretas	 tão	 compridas	 que	 estavam
todas	 desfeitas	 na	 bainha,	 chinelos	 e	 uma	T-shirt	 com	 LARSEN’S	 FISH	 MARKET
estampado.
–	 Não	 sei	 porque	 é	 que	 queres	 entrar	 aí	 –	 disse	 ele	 à	 pessoa	 que	 o
acompanhava,	 que,	 presumivelmente,	 ainda	 estava	 dentro	 da	 loja.	 –	Não	 faz
sentido	comprar	coisas	que	não	têm	utilidade.
Não	houve	resposta.
–	Immie!	Anda	lá.	Vamos	para	a	praia	–	disse	o	rapaz.
E	ali	estava	ela.
Imogen	 Sokoloff.	 O	 seu	 cabelo	 estava	 agora	 cortado	 curto,	 um	 bocado	 à
rapazinho,	mais	 louro	do	que	nas	 fotografias,	mas	não	havia	dúvida	quanto	à
sua	identidade.	Parecia	exatamente	quem	era.
Saiu	da	loja	como	se	nada	fosse,	como	se	Jule	não	estivesse	à	sua	espera	e	à
sua	procura	há	dias	 e	 dias.	Era	 encantadora,	mas,	mais	 do	que	 isso,	 estava	 à
vontade.	Como	se	o	encanto	não	requeresse	nenhum	esforço.
Jule	quase	esperava	que	Imogen	a	reconhecesse,	mas	isso	não	aconteceu.
–	 Estás	 tão	 implicativo	 hoje	 –	 disse	 Immie	 ao	 tipo.	 –	 É	 uma	 seca	 quando
estás	implicativo.
–	Nem	sequer	compraste	nada	–	disse	ele.	–	Quero	ir	para	a	praia.
–	A	praia	não	vai	a	lado	nenhum	–	disse	Imogen,	remexendo	no	seu	saco.	–	E
comprei	uma	coisa.
O	tipo	suspirou.	–	O	quê?
–	É	para	 ti	–	disse	ela.	Tirou	do	saco	um	pequeno	embrulho	e	deu-lho.	Ele
descolou	a	fita-cola	e	tirou	uma	pulseira	entrançada.
Jule	estava	a	contar	que	o	namorado	 ficasse	 irritado,	mas	em	vez	disso	ele
sorriu.	Pôs	 a	pulseira	 e	 enterrou	o	 rosto	no	pescoço	de	 Imogen.	–	Adoro-a	–
disse.	–	É	perfeita.
–	É	um	berloque	–	disse	ela.	–	Tu	detestas	berloques.
–	Mas	gosto	de	presentes	–	disse	ele.
–	Eu	sei	que	gostas.
–	Anda	daí	–	disse	ele.	–	A	água	deve	estar	morna.	–	Atravessaram	o	parque
de	estacionamento	na	direção	do	caminho	para	a	praia.
Jule	olhou	para	 trás.	O	guia	 turístico	estava	a	acenar	ao	grupo,	a	 indicar	às
pessoas	que	deviam	voltar	para	o	autocarro.	A	partida	estava	marcada	para	daí
a	cinco	minutos.
Jule	não	 tinha	maneira	de	 regressar	ao	hotel.	O	seu	 telemóvel	estava	quase
sem	bateria	e	não	sabia	se	poderia	chamar	um	táxi	desta	parte	da	ilha.
Não	importava.	Encontrara	Imogen	Sokoloff.
Jule	deixou	o	autocarro	partir	sem	ela.
U
4
TERCEIRA	SEMANA	DE	JUNHO,	2016
MARTHA’S	VINEYARD
ma	semana	antes,	um	guarda	mandou	parar	Jule	no	controlo	de	segurança
do	aeroporto.	–	Se	quer	levar	este	saco,	menina,	tem	de	meter	os	produtos
de	 higiene	 num	 saco	 plástico	 transparente	 –	 disse-lhe	 o	 homem.	 Tinha	 o
pescoço	flácido	e	usava	um	uniforme	azul.	–	Não	viu	o	aviso?	Tudo	tem	de	ter
um	máximo	de	cem	mililitros.
O	guarda	estava	a	revistar	a	mala	de	Jule	com	um	par	de	luvas	de	látex	azul.
Pegou	no	 champô,	 no	 creme	 amaciador,	 no	 protetor	 solar,	 na	 loção	 corporal.
Atirou-os	todos	para	o	caixote	do	lixo.
–	Vou	passar	o	saco	outra	vez	–	disse,	puxando	o	fecho.	–	Já	deve	estar	bem.
Aguarde	aqui.
Ela	aguardou.	Tentou	dar	a	impressão	de	que	sabia	as	regras	dos	líquidos	em
viagens	 aéreas	 e	 simplesmente	 se	 esquecera,	 mas	 as	 suas	 orelhas	 estavam	 a
ficar	 quentes.	 Sentia-se	 furiosa	 com	 o	 desperdício.	 Sentia-se	 pequena	 e
inexperiente.
O	avião	era	apertado,	com	assentos	de	um	material	plástico	gastos	por	anos
de	uso,	mas	Jule	desfrutou	do	voo.	A	vista	era	empolgante.	Estava	um	dia	sem
nuvens.	A	linha	da	costa	traçava	uma	curva	ao	longo	do	mar,	castanha	e	verde.
O	 seu	 hotel	 ficava	 em	 frente	 ao	 porto	 em	 Oak	 Bluffs.	 Era	 um	 edifício
vitoriano	 com	 faixas	 brancas.	 Jule	 deixou	 a	 mala	 no	 quarto	 e	 percorreu	 os
poucos	 quarteirões	 até	Circuit	Avenue.	A	 cidade	 estava	 cheia	 de	 pessoas	 em
férias.	Havia	um	par	de	lojas	com	roupas	bonitas.	Jule	precisava	de	roupa;	tinha
os	cartões-presente	da	Visa	e	sabia	o	que	lhe	ficava	bem,	mas	hesitou.
Pôs-se	 a	 observar	 as	mulheres	 que	 passavam.	Usavam	 calças	 de	 ganga	 ou
saias	 curtas	 de	 algodão	 e	 sandálias.	Cores	 desbotadas	 e	 azul-escuro.	Os	 seus
sacos	 eram	 de	 tecido,	 não	 de	 pele.	 O	 batom	 sem	 cor	 ou	 cor-de-rosa,	 nunca
vermelho.	Algumas	vestiam	calças	brancas	e	alpergatas.	Não	se	viam	as	marcas
de	soutiens.	Usavam	só	brincos	muito	pequenos.
Jule	 tirou	 as	 argolas	 e	 guardou-as	 na	 carteira.	 Regressou	 às	 lojas,	 onde
comprou	um	par	de	calças	de	ganga	de	estilo	boyfriend,	três	tops	de	algodão	de
alças,	um	casaco	de	malha	comprido	e	largo,	alpergatas	e	um	vestido	branco	de
alças.	 A	 seguir,	 um	 saco	 de	 trazer	 ao	 ombro	 de	 lona	 estampada	 com	 flores
cinzentas.	Pagou	com	o	cartão	e	levantou	dinheiro	no	multibanco.
Parada	a	uma	esquina,	Jule	transferiu	os	seus	documentos	de	identificação	e
o	 dinheiro,	 os	 produtos	 de	 maquilhagem	 e	 o	 telemóvel	 para	 o	 novo	 saco.
Telefonou	para	o	serviço	de	faturas	do	telemóvel	e	solicitou	o	pagamento	com
o	número	do	cartão	Visa.	Telefonou	à	sua	colega	de	casa,	Lita,	e	deixou	uma
mensagem	de	voz	a	pedir	desculpa.
No	 hotel,	 Jule	 fez	 exercício,	 tomou	 um	 duche	 e	 vestiu	 o	 vestido	 branco.
Secou	o	cabelo	e	penteou-o	em	ondas	 largas.	Precisava	de	encontrar	 Imogen,
mas	isso	podia	esperar	até	ao	dia	seguinte.
Foi	 a	 pé	 até	 um	 bar	 de	 ostras	 com	 vista	 para	 o	 porto	 e	 mandou	 vir	 uma
sanduíche	de	lagosta.	Quando	chegou,	não	era	o	que	ela	esperava.	Não	passava
de	 pedaços	 de	 lagosta	 com	 maionese	 metidos	 num	 pão	 de	 cachorro-quente
torrado.	Imaginara	que	seria	algo	mais	elegante.
Pediu	um	prato	de	batatas	fritas	e	comeu-as	em	vez	da	sanduíche.
Era	 estranho	 andar	 pela	 cidade	 sem	 ter	 nada	 para	 fazer.Jule	 acabou	 no
carrossel.	Ficava	dentro	de	um	edifício	escuro	e	velho	que	cheirava	a	pipocas.
Numa	tabuleta	declarava-se	que	o	Flying	Horses	era	«O	Carrossel	Mais	Antigo
da	América».
Comprou	um	bilhete.	Não	se	encontrava	ali	muita	gente,	só	algumas	crianças
e	os	seus	irmãos	mais	velhos.	Os	pais	estavam	a	olhar	para	o	telemóvel	na	zona
de	espera.	A	música	era	antiquada.	Jule	escolheu	um	cavalo	na	parte	de	fora.
Quando	a	corrida	estava	a	começar,	reparou	no	tipo	sentado	no	pónei	ao	seu
lado.	 Era	 um	 homem	 enxuto,	 com	 deltoides	 e	 dorsais	 desenvolvidos:
possivelmente	alpinista,	não	do	tipo	que	frequenta	a	sala	de	pesos	no	ginásio.
Alguma	ascendência	branca	e	alguma	asiática,	supôs	Jule.	Tinha	cabelo	preto
farto,	um	pouco	comprido	de	mais.	Parecia	ter	andado	ao	sol.
–	Estou	a	sentir-me	um	verdadeiro	fracassado	neste	momento	–	disse-lhe	ele
quando	o	carrossel	começou	a	andar.	–	Como	se	isto	fosse	uma	ideia	má	como
tudo.	–	A	sua	pronúncia	era	americana	genérica.
Jule	adotou-a.	–	Porquê?
–	 Náuseas.	 Senti-as	 mal	 começámos	 a	 andar.	 Uh.	 E	 também	 sou	 a	 única
pessoa	nesta	coisa	que	tem	mais	de	dez	anos.
–	Além	de	mim.
–	Além	 de	 ti.	 Andei	 neste	 carrossel	 uma	 vez	 quando	 era	miúdo.	A	minha
família	 veio	 cá	passar	 férias.	Hoje,	 estou	 à	 espera	 do	 ferry	 e	 tinha	 uma	 hora
para	 matar,	 portanto	 pensei,	 porque	 não?	 Para	 recordar	 os	 velhos	 tempos.	 –
Esfregou	a	testa	com	a	mão.	–	Porque	estás	aqui?	Tens	um	irmãozinho	ou	uma
irmãzinha	algures?
Jule	abanou	a	cabeça.	–	Gosto	de	andar	em	carrosséis.
Ele	inclinou-se	no	espaço	entre	os	dois	e	estendeu-lhe	a	mão.	–	Sou	o	Paolo
Santos.	E	tu?
Ela	apertou-lhe	a	mão	atabalhoadamente,	porque	os	cavalos	dos	dois	estavam
a	mover-se.
Aquele	tipo	ia	partir	da	ilha.	Jule	só	falaria	com	ele	por	um	ou	dois	minutos;
depois	 disso,	 nunca	 mais	 voltaria	 a	 vê-lo.	 Não	 fazia	 muito	 sentido;	 foi	 um
impulso	–	mas	mentiu.	–	Sou	a	Imogen	Sokoloff.
Dava	uma	sensação	agradável	dizer	o	nome.	Seria	bom,	afinal,	ser	Imogen.
–	Oh,	tu	é	que	és	a	Imogen	Sokoloff?	–	Paolo	atirou	a	cabeça	para	trás,	a	rir-
se	 e	 a	 erguer	 as	 suas	 sobrancelhas	 macias.	 –	 Devia	 ter	 adivinhado.	 Tinha
ouvido	dizer	que	eras	capaz	de	estar	em	Vineyard.
–	Sabias	que	eu	estava	aqui?
–	Devia	explicar.	Disse-te	um	nome	falso.	Peço	realmente	perdão,	isso	deve
parecer	marado.	Só	o	apelido	é	que	é	falso.	Chamo-me	realmente	Paolo.	Mas
não	realmente	Santos.
–	Oh.
–	Desculpa.	–	Voltou	a	esfregar	a	testa.	–	Foi	uma	coisa	estranha	de	se	fazer,
mas	calculei	que	só	íamos	conversar	um	com	o	outro	durante	o	próximo	par	de
minutos.	Por	vezes,	quando	ando	em	viagem,	gosto	de	ser	outra	pessoa.
–	Tudo	bem.
–	Sou	o	Paolo	Vallarta-Bellstone.	O	meu	pai,	 o	Stuart,	 estudou	 com	o	 teu.
Tenho	a	certeza	de	que	já	o	conheceste.
Jule	 ergueu	 as	 sobrancelhas.	Ouvira	 falar	 de	 Stuart	Bellstone.	 Era	 um	 tipo
importante	do	mundo	financeiro	que	recentemente	fora	para	a	prisão	por	aquilo
a	que	os	sites	de	notícias	chamavam	«o	escândalo	de	 transação	D	and	G».	A
sua	 fotografia	 andara	 pelas	 notícias	 dois	 meses	 antes,	 quando	 o	 julgamento
terminara.
–	Joguei	golfe	com	o	teu	pai	e	o	meu	uma	série	de	vezes	–	prosseguiu	Paolo.
–	 Antes	 de	 o	 Gil	 ficar	 doente.	 Ele	 falava	 sempre	 sobre	 ti.	 Andaste	 no
Greenbriar	e	depois	começaste	em...	Vassar,	foi	isso?
–	Foi,	mas	desisti	a	seguir	ao	primeiro	semestre	–	disse	Jule.
–	Porquê?
–	É	uma	história	longa	e	desinteressante.
–	Vá	lá.	Distrais-me	das	náuseas	e	assim	não	vomito	para	cima	de	ti.	Saímos
todos	a	ganhar.
–	O	meu	pai	diria	que	me	envolvi	com	gente	que	só	pensava	em	festas	e	não
usei	o	meu	potencial	todo	no	primeiro	semestre.
Paolo	riu-se.	–	Soa	típico	dele.	O	que	dirias	tu?
–	 Diria...	 que	 queria	 uma	 vida	 diferente	 da	 que	 supostamente	 me	 estava
destinada	–	disse	Jule	lentamente.	–	Vir	para	cá	foi	uma	maneira	de	a	ter.
O	 carrossel	 abrandou	 a	marcha	 até	 parar.	 Desceram	 dos	 cavalos	 e	 saíram.
Paolo	 pegou	 numa	 mochila	 grande	 de	 um	 canto	 onde	 a	 deixara	 pousada.	 –
Queres	ir	comer	um	gelado?	–	perguntou.	–	Conheço	a	melhor	gelataria	da	ilha.
Foram	 até	 uma	 pequena	 loja.	 Debateram	 os	 méritos	 respetivos	 de	 molho
quente	 de	 caramelo	 e	 doce	 de	 leite	 e	 a	 seguir	 concordaram	 que	 os	 dois	 ao
mesmo	tempo	resolveria	tudo.	Paolo	disse:	–	É	tão	engraçado,	tu	estares	aqui
neste	preciso	momento.	Sinto	que,	até	agora,	quase	nos	conhecemos	um	milhão
de	vezes.
–	Como	é	que	soubeste	que	estava	em	Martha’s	Vineyard?
Paolo	 comeu	 uma	 colher	 de	 gelado.	 –	 És	 um	 bocadinho	 famosa,	 Imogen,
deixares	 os	 estudos	 e	 desapareceres...	 e	 depois	 apareceres	 aqui.	 O	 teu	 pai
pediu-me	que	te	telefonasse	quando	estivesse	na	ilha,	para	dizer	a	verdade.
–	Não!
–	É	verdade.	Enviou-me	um	e-mail.	Estás	a	ver?	Telefonei	para	o	teu	número
há	seis	dias.	–	Tirou	do	bolso	um	iPhone	e	mostrou-lhe	o	registo	das	chamadas
recentes.
–	Isso	é	um	bocado	sinistro.
–	Não,	não	é	–	disse	Paolo.	–	O	Gil	quer	saber	como	estás,	é	tudo.	Disse	que
não	tens	atendido	o	telefone,	que	deixaste	de	estudar	e	estavas	em	Vineyard.	Se
te	visse,	queria	que	o	informasse	de	que	estás	bem.	Queria	que	te	dissesse	que
vai	fazer	uma	operação.
–	Sei	que	vai	fazer	uma	operação.	Estive	há	pouco	na	cidade	com	ele.
–	Então	os	meus	esforços	foram	um	desperdício	–	disse	Paolo,	encolhendo	os
ombros.	–	Não	será	a	primeira	vez.
Voltaram	para	o	porto	e	puseram-se	a	ver	os	barcos.	Paolo	falou	sobre	viajar
para	escapar	à	reputação	destroçada	do	seu	pai	e	à	queda	da	família.	Acabara	o
curso	em	maio	e	estava	a	pensar	em	estudar	Medicina,	mas	queria	ver	o	mundo
antes	de	assumir	esse	compromisso.	Ia	agora	passar	uma	noite	em	Boston	antes
de	 se	meter	 num	 avião	 para	Madrid.	 Ele	 e	 um	 amigo	 tencionavam	 andar	 de
mochila	 às	 costas	 durante	 um	 ano	 ou	mais	 –	 primeiro	 na	 Europa,	 depois	 na
Ásia,	acabando	nas	Filipinas.
O	embarque	no	 ferry	 estava	 a	 começar.	 Paolo	 beijou	 Jule	 rapidamente	 nos
lábios	 antes	 de	 partir.	 Foi	 delicado	 e	 confiante,	 não	 atrevido.	Os	 seus	 lábios
estavam	um	pouco	pegajosos,	do	molho	de	doce	de	leite.
Jule	 ficou	 surpreendida	 com	o	beijo.	Não	queria	 que	 ele	 tocasse	nela.	Não
queria	que	ninguém	tocasse	nela,	nunca.	Mas	quando	os	lábios	cheios	e	macios
de	Paolo	roçaram	nos	seus,	a	sensação	agradou-lhe.
Estendeu	a	mão	para	o	seu	pescoço,	puxou-o	a	si	e	beijou-o	outra	vez.	Era
um	tipo	lindo,	pensou.	Não	todo	dominador	e	transpirado.	Não	todo	de	agarrar
com	 força	 e	 violento.	Não	 condescendente.	Não	 todo	 lisonjas	 e	 correntes	 de
ouro	 ao	 pescoço,	 tão	 pouco.	O	 seu	 beijo	 foi	 tão	 delicado	 que	 ela	 teve	 de	 se
inclinar	mais	para	o	sentir	completamente.
Gostava	de	lhe	ter	dito	o	seu	verdadeiro	nome.
–	 Posso	 telefonar-te?	 –	 perguntou	 ele.	 –	 Outra	 vez,	 quero	 dizer?	 Não	 em
nome	do	teu	pai.
Não,	não.
Paolo	não	podia	voltar	 a	 telefonar	para	o	número	de	 Imogen.	Se	o	 fizesse,
ficaria	a	saber	que	não	fora	Imogen	que	conhecera.	–	É	melhor	não	–	disse	Jule.
–	 Porque	 não?	 Vou	 estar	 em	Madrid,	 e	 depois	 noutro	 sítio	 qualquer,	 mas
podíamos...	podíamos	só	conversar,	de	vez	em	quando.	Sobre	caramelo	quente
e	doce	de	leite,	talvez.	Ou	a	tua	nova	vida.
–	Estou	numa	relação	–	disse	Jule,	para	o	calar.
Paolo	ficou	com	um	ar	desolado.–	Oh,	estás.	É	claro	que	estás.	Bem,	tens	o
meu	número,	de	qualquer	maneira	–	disse.	–	Deixei-te	uma	mensagem	há	uns
tempos.	É	um	número	que	começa	por	646.	Portanto,	podes	dar-me	um	toque
se	acabares...	romperes,	ou	lá	como	se	diz.	OK?
–	Não	te	vou	telefonar	–	disse	Jule.	–	Mas	obrigada	pelo	gelado.
Pareceu	 magoado,	 por	 breves	 instantes.	 Mas	 a	 seguir	 sorriu.	 –	 Quando
quiseres,	Imogen.
Pôs	a	mochila	aos	ombros	e	foi-se	embora.
Jule	ficou	a	ver	o	ferry	afastar-se	da	doca.	A	seguir,	descalçou	as	alpergatas	e
desceu	 ao	 areal.	 Deixou-se	 ficar	 com	 os	 pés	 na	 água.	 Sentia	 que	 Imogen
Sokoloff	 teria	 feito	 aquilo,	 teria	 saboreado	 a	 ligeira	 sensação	 de	 tristeza	 e	 a
beleza	 da	 vista	 do	 porto,a	 segurar	 acima	 dos	 joelhos	 a	 saia	 do	 seu	 bonito
vestido	branco.
U
3
SEGUNDA	SEMANA	DE	JUNHO,	2016
CIDADE	DE	NOVA	IORQUE
ma	 semana	 antes	 de	 ir	 para	Martha’s	 Vineyard,	 Jule	 estava	 de	 pé	 com
Patti	Sokoloff	num	deque	com	vista	para	o	Central	Park.	O	sol	já	se	tinha
posto.	O	parque	estendia-se	à	sua	frente,	um	retângulo	escuro	delimitado	pelas
luzes	da	cidade.
–	Sinto-me	como	o	Homem-Aranha	–	disse	Jule	sem	pensar.	–	Ele	olha	para
a	cidade	à	noite.
Patti	 acenou	 com	 a	 cabeça.	O	 cabelo	 tombava-lhe	 nos	 ombros	 em	grandes
caracóis	profissionais,	e	trazia	um	casaco	de	malha	comprido	por	cima	de	um
vestido	branco	e	umas	bonitas	sandálias	rasas.	Os	seus	pés	pareciam	velhos,	e
tinha	 pensos	 rápidos	 nos	 calcanhares	 e	 nos	 dedos.	 –	 A	 Immie	 teve	 um
namorado	que	veio	uma	vez	cá	a	uma	 festa	–	disse	a	 Jule.	–	Disse	a	mesma
coisa	sobre	a	vista.	Bem,	o	Batman,	disse	ele.	Mas	a	ideia	é	a	mesma.
–	Não	são	o	mesmo.
–	OK,	mas	são	os	dois	órfãos	–	disse	Patti.	–	O	Batman	perdeu	os	pais	muito
cedo.	E	o	Homem-Aranha	também.	Vive	com	a	tia.
–	Lê	banda	desenhada?
–	Nunca.	Mas	fiz	a	revisão	do	ensaio	que	a	Immie	escreveu	para	a	faculdade
para	 aí	 umas	 seis	 vezes.	 Ela	 dizia	 que	 o	 Homem-Aranha	 e	 o	 Batman	 são
descendentes	de	todos	os	órfãos	daqueles	romances	vitorianos	de	que	gosta.	A
Immie	 tem	 mesmo	 uma	 grande	 predileção	 por	 romances	 vitorianos,	 sabias
isso?	 É	 uma	 coisa	 que	 usa	 para	 definir	 a	 sua	 identidade.	 Sabes,	 algumas
pessoas	definem-se	como	atletas,	defensores	da	justiça	social,	fãs	do	teatro.	A
Immie	define-se	como	uma	leitora	de	romances	vitorianos.
«Não	é	uma	estudante	excelente	–	prosseguiu	Patti	–	mas	adora	literatura.	No
ensaio	 para	 a	 faculdade,	 escreveu	 que	 nessas	 histórias	 ser	 órfão	 é	 uma	 pré-
condição	 para	 se	 tornar	 herói.	 Também	 disse	 que	 aqueles	 heróis	 de	 banda
desenhada	 não	 são	 simples	 heróis,	 mas	 “heróis	 complicados	 que	 fazem
cedências	 morais,	 na	 mesma	 tradição	 dos	 órfãos	 de	 narrativas	 vitorianas”.
Penso	que	essas	são	capazes	de	ser	as	palavras	exatas	do	ensaio	dela.»
–	Eu	costumava	ler	banda	desenhada	no	secundário	–	disse	Jule.	–	Mas	não
tinha	tempo	para	isso	em	Stanford.
–	 O	 Gil	 cresceu	 a	 ler	 banda	 desenhada,	 mas	 eu	 não,	 nem	 a	 Immie,	 na
realidade.	Os	super-heróis	 foram	só	a	 introdução	do	ensaio	dela,	para	 indicar
por	 que	 razão	 os	 livros	mais	 antigos	 são	 importantes	 para	 os	 leitores	 atuais.
Obteve	a	maior	parte	das	informações	sobre	o	Batman	daquele	namorado	que
mencionei.
Viraram-se	para	entrar	em	casa.	O	apartamento	dos	Sokoloff	no	último	andar
do	prédio	era	dramático	e	moderno,	mas	estava	atulhado	com	pilhas	de	livros,
revistas	e	objetos	com	valor	afetivo.	O	chão	era	de	madeira	branca,	em	toda	a
casa.	Estava	uma	cozinheira	a	trabalhar	na	cozinha,	onde	havia	um	amontoado
de	correio	não-solicitado,	frascos	de	comprimidos	e	pacotes	de	lenços	de	papel
em	cima	da	mesa	dos	pequenos-almoços.	A	sala	de	estar	centrava-se	em	dois
enormes	sofás	de	pele.	Ao	lado	de	um	deles	estava	uma	botija	de	oxigénio.
Gil	Sokoloff	não	se	levantou	quando	Patti	conduziu	Jule	para	dentro	da	sala.
Andava	pelos	cinquenta	anos,	mas	umas	rugas	de	dor	vincavam-lhe	os	lados	da
boca	 e	 a	 pele	 do	 seu	 pescoço	 pendia	 flácida.	 A	 forma	 do	 seu	 rosto	 era	 da
Europa	de	Leste	e	tinha	uma	espessa	cabeleira	de	cabelo	grisalho	encaracolado.
Vestia	umas	calças	de	fato	de	treino	e	uma	T-shirt	cinzenta.	As	suas	faces	e	o
seu	nariz	estavam	salpicados	com	pequenos	derrames.	Inclinou-se	para	a	frente
lentamente,	 como	 se	 mover-se	 lhe	 causasse	 dor,	 apertou	 a	 mão	 de	 Jule	 e	 a
seguir	 apresentou-lhe	 dois	 cães	 brancos,	 pequenos	 e	 gordos:	 Snowball	 e
Snowman.	Apresentou	também	os	três	gatos	de	Imogen.
Foram	imediatamente	jantar	numa	sala	de	jantar	formal,	com	Gil	a	arrastar	os
pés	e	Patti	a	andar	lentamente	ao	seu	lado.	A	cozinheira	trouxe	taças	e	travessas
e	depois	deixou-os	sozinhos.	Comeram	minúsculas	costeletas	de	borrego	e	um
risotto	de	cogumelos.	Gil	pediu	a	sua	botija	de	oxigénio	a	meio	da	refeição.
Enquanto	comiam	queijo,	falaram	sobre	os	cães,	que	eram	novos	na	casa.	–
Arruinaram-nos	a	vida	–	disse	Patti.	–	Estão	sempre	a	fazer	cocó.	O	Gil	deixa-
os	fazer	no	deque.	Consegues	acreditar?	Vou	lá	de	manhã	e	há	um	cocó	de	cão
mal-cheiroso.
–	 Eles	 ganem	 para	 sair	 antes	 de	 tu	 te	 levantares	 –	 disse	 Gil,	 impenitente.
Puxou	para	o	lado	a	máscara	do	oxigénio	para	poder	falar.	–	O	que	é	que	hei	de
fazer?
–	Depois	temos	de	borrifar	o	deque	com	um	produto	de	limpeza	com	lixívia.
Há	pequenas	manchas	de	lixívia	por	toda	a	madeira	–	disse	Patti.	–	É	um	nojo.
De	qualquer	maneira,	é	o	que	se	faz	quando	se	gosta	de	um	animal.	Deixa-se
que	faça	cocó	no	deque,	suponho.
–	A	Imogen	andava	sempre	a	trazer	gatos	vadios	para	casa	–	disse	Gil.	–	Era
mais	um	gatinho	a	cada	dois	meses,	no	secundário.
–	 Alguns	 não	 se	 safavam	 –	 disse	 Patti.	 –	 Ela	 encontrava-os	 na	 rua	 e	 eles
tinham	bronquite	dos	gatos	ou	outra	praga	qualquer.	Morriam	uma	mortezinha
triste,	e	a	Immie	ficava	destroçada	de	cada	vez	que	isso	acontecia.	Depois	foi
para	Vassar	e	nós	ficámos	com	estes	bichos.	–	Patti	fez	uma	festa	a	um	gato	que
andava	às	voltas	debaixo	da	mesa	de	 jantar.	–	Só	dão	 trabalho	e	orgulham-se
disso.
Como	 qualquer	 antiga	 aluna	 de	 Greenbriar,	 Patti	 tinha	 histórias	 dos	 seus
tempos	no	colégio.	–	Tínhamos	de	usar	meias	de	vidro	ou	meias	até	ao	joelho
com	o	uniforme,	todo	o	ano	–	disse.	–	E	quando	chegava	o	verão	sentíamo-nos
muito	 desconfortáveis.	 No	 secundário...	 isto	 foi	 nos	 finais	 dos	 anos	 1970...
algumas	 de	 nós	 andávamos	 sem	 roupa	 interior,	 só	 para	 nos	 sentirmos	 mais
frescas.	Meias	 pelos	 joelhos	 sem	 roupa	 interior!	 –	 Deu	 uma	 palmadinha	 no
ombro	de	Jule.	–	Tu	e	a	Immie	tiveram	sorte	por	os	uniformes	terem	mudado.
Estudaste	 música	 no	 Greenbriar?	 Pareceste	 tão	 entusiástica	 em	 relação	 ao
Gershwin	no	outro	dia.
–	Um	pouco.
–	Lembras-te	do	concerto	de	inverno?
–	Claro.
–	Estou	mesmo	a	ver-vos,	 a	 ti	 e	 à	 Imogen,	uma	ao	 lado	da	outra.	Eram	as
meninas	mais	pequeninas	no	nono	ano.	Cantaram	todas	cânticos	de	Natal,	e	a
filha	dos	Caraway	cantou	o	solo.	Lembras-te?
–	É	claro	que	sim.
–	Tinham	iluminado	o	salão	de	baile	todo	para	a	época	festiva,	com	a	árvore
naquele	canto.	Também	tinham	uma	menorá,	claro,	mas	não	era	realmente	com
convicção	–	disse	Patti.	–	Oh,	com	um	raio.	Vou	ficar	à	beira	das	 lágrimas,	a
pensar	na	Immie	com	aquele	vestido	de	veludo	azul.	Comprei-lhe	um	vestido
próprio	para	a	época	festiva	para	aquele	concerto,	em	azul-forte	com	pregas	na
frente.
–	A	Immie	veio	em	meu	socorro	no	meu	primeiro	dia	no	Greenbriar	–	disse
Jule.	–	Alguém	esbarrou	em	mim	na	 fila	da	cafetaria	 e	 fiquei	 com	molho	do
esparguete	pela	camisa	toda.	Ali	estava	eu,	a	olhar	para	aquelas	raparigas	todas
sofisticadas	 com	 as	 suas	 roupas	 limpas.	 Todas	 se	 conheciam	 já	 do	 segundo
ciclo.	 –	A	 história	 fluía	 com	 naturalidade.	 Patti	 e	Gil	 eram	 bons	 ouvintes.	 –
Como	 podia	 eu	 sentar-me	 à	 mesa	 de	 alguém	 quando	 tinha	 molho,	 como
sangue,	por	mim	toda?
–	Oh,	batatinha	doce.
–	A	Immie	aproximou-se	de	mim	em	grandes	passadas.	Tirou-me	o	tabuleiro
das	mãos.	Apresentou-me	às	amigas	 todas	e	 fingiu	que	não	via	a	sujidade	na
minha	camisa	toda,	portanto	elas	também	fingiram	que	não	a	viam.	E	foi	assim
–	 disse	 Jule.	 –	 Ela	 era	 uma	 das	 minhas	 pessoas	 favoritas,	 mas	 não	 nos
mantivemos	em	contacto	depois	de	eu	sair	de	lá.
Mais	tarde,	na	sala	de	estar,	Gil	instalou-se	no	sofá	com	os	tubos	de	oxigénio
no	nariz.	Patti	abriu	um	álbum	de	fotografias	grosso,	de	papel	dourado.	–	Vais
deixar-me	mostrar-te	fotografias,	não	vais?
Puseram-se	 a	 ver	 velhas	 fotografias.	 Jule	 achou	 Imogen	 excecionalmente
bonita	–	baixa	e	com	um	ar	um	pouco	maroto.	Tinha	cabelo	claro	e	bochechas
gorduchas	com	covinhas,	que	mais	tarde	se	tornariam	maçãs	do	rosto	salientes.
Em	muitas	das	fotografias	aparecia	em	frente	a	algum	destino	atraente.«Fomos
a	Paris,»	dizia	Patti,	ou:	«Visitámos	uma	quinta,»	ou:	«Esse	é	o	carrossel	mais
antigo	da	América.»	Immie	usava	saias	de	roda	e	leggings	às	riscas.	Na	maior
parte	 das	 fotografias,	 o	 seu	 cabelo	 era	 comprido	 e	 um	 pouco	 rebelde.	 Em
fotografias	mais	recentes,	via-se	que	usava	aparelho	nos	dentes.
–	Nunca	mais	teve	amigas	que	tivessem	sido	adotadas	depois	de	tu	saíres	do
Greenbriar	 –	 disse	 Patti.	 –	 Sempre	 senti	 que	 lhe	 tínhamos	 falhado	 a	 esse
respeito.	–	Patti	inclinou-se	para	a	frente.	–	Tiveste	isso?	Uma	comunidade	de
famílias	como	a	tua?
Jule	inspirou	fundo.	–	Não	tive	isso.
–	Sentes	que	os	teus	pais	te	falharam?	–	perguntou	Patti.
–	Sim	–	disse	Jule.	–	Os	meus	pais	falharam-me,	de	facto.
–	 Penso	 tantas	 vezes	 que	 devia	 ter	 criado	 a	 Immie	 de	modo	 diferente.	 Ter
feito	mais.	Ter	falado	mais	sobre	as	coisas	difíceis.	–	Patti	continuou	a	divagar,
mas	Jule	não	a	ouvia.
Os	 pais	 de	 Julietta	 tinham	morrido	 quando	 ela	 tinha	 oito	 anos.	A	 sua	mãe
faleceu	de	uma	doença	prolongada	e	horrível.	Pouco	depois,	o	seu	pai	sangrou-
se	até	à	morte,	nu	numa	banheira.
Julietta	fora	criada	por	outra	pessoa,	aquela	tia,	num	lar	que	não	era	um	lar.
Não.	Não	pensaria	mais	nisso.	Estava	a	apagar	tudo	agora.
Estava	 a	 escrever	 uma	 nova	 história	 para	 si	 própria,	 uma	 história	 da	 sua
origem.	Nessa	versão,	a	sala	de	estar	aparecia	virada	de	pernas	para	o	ar.	No
escuro	da	noite.	Sim,	era	 isso.	A	história	 ainda	não	estava	acabada,	mas	 Jule
reviu-a	 tão	bem	quanto	conseguia.	Via	os	pais	no	círculos	de	 luz	criado	pelo
candeeiro,	mortos	no	relvado	com	o	sangue	a	formar	uma	poça	negra	por	baixo
deles.
–	 Precisamos	 de	 chegar	 ao	 que	 interessa	 –	 disse	 Gil,	 com	 a	 respiração
sibilante.	–	A	rapariga	não	tem	a	noite	toda.
Patti	 acenou	 com	 a	 cabeça.	 –	O	 que	 não	 te	 disse,	 e	 porque	 te	 convidámos
para	 vires	 cá,	 é	 que	 a	 Imogen	 abandonou	 os	 estudo	 em	 Vassar	 depois	 do
primeiro	semestre.
–	Pensamos	que	se	meteu	com	pessoas	que	só	andam	em	festas	–	disse	Gil.	–
Não	usou	o	potencial	todo	dela	nas	aulas.
–	Bem,	 ela	 nunca	 gostou	muito	 da	 escola	 –	 disse	 Patti.	 –	Não	 da	maneira
como	tu	obviamente	adoras	Stanford,	Jule.	De	qualquer	maneira,	deixou	Vassar
sem	nos	dizer	nada,	e	só	um	mês	depois	é	que	nos	contactou.	Estávamos	muito
preocupados.
–	Tu	estavas	muito	preocupada	–	disse	Gil.	Inclinou-se	para	a	frente.	–	Eu	só
estava	furioso.	A	Imogen	é	uma	irresponsável.	Perde	o	telemóvel	ou	esquece-se
de	 o	 ligar.	 Não	 é	 nada	 boa	 a	 telefonar,	mandar	mensagens,	 nenhuma	 dessas
coisas.
–	Afinal,	foi	para	Martha’s	Vineyard	–	disse	Patti.	–	Costumávamos	ir	muitas
vezes	para	lá	em	família,	e	ela	fugiu	para	lá,	ao	que	parece.	Disse-nos	que	tinha
arrendado	uma	casa,	mas	não	nos	deu	a	morada,	nem	sequer	nos	disse	em	que
cidade	está.
–	Porque	não	vão	vê-la?	–	perguntou	Jule.
–	Eu	não	posso	ir	a	lado	nenhum	–	disse	Gil.
–	Faz	diálise	dos	 rins	a	cada	dois	dias.	É	arrasador.	E	vai	 ter	de	 fazer	uma
operação	–	disse	Patti.
–	Vão-me	 tirar	 as	 entranha	 todas	 em	breve	–	disse	Gil.	 –	Vou	 ter	de	 andar
com	elas	um	saco.
Patti	 debruçou-se	 e	 beijou-o	 na	 face.	 –	 Portanto,	 tivemos	 a	 ideia	 de	 que
talvez	 tu	 gostasse	 de	 ir	 até	 lá,	 Jule.	A	Vineyard.	 Pensámos	 em	 contratar	 um
detetive...
–	Tu	pensaste	nisso	–	disse	Gil.	–	Uma	ideia	ridícula.
–	Chegámos	a	pedir	a	algumas	amigas	dela	da	faculdade,	mas	não	queriam
interferir	–	disse	Patti.
–	O	que	querem	que	eu	faça?	–	perguntou	Jule.
–	 Que	 confirmes	 que	 ela	 está	 bem.	 Não	 lhe	 digas	 que	 fomos	 nós	 que	 te
mandámos	lá,	mas	envia-nos	uma	mensagem	para	ficarmos	a	saber	como	estão
a	correr	as	coisas	–	disse	Patti.	–	Tenta	convencê-la	a	voltar	para	casa.
–	 Não	 vais	 trabalhar	 este	 verão,	 pois	 não?	 –	 perguntou	 Gil.	 –	 Não	 tens
nenhum	estágio,	nada	desse	género?
–	Não	–	respondeu	Jule.	–	Não	tenho	nenhum	emprego	em	vista.
–	Naturalmente,	pagamos	as	tuas	despesas	para	ires	a	Vineyard	–	disse	Gil.	–
Podemos	dar-te	uns	vales	no	valor	de	uns	dois	mil	dólares,	e	pagamos	o	hotel.
Os	Sokoloff	 eram	 tão	crédulos.	Tão	bondosos.	Tão	estúpidos.	Os	gatos,	 os
cães	que	faziam	cocó	no	deque,	a	botija	de	oxigénio	de	Gil,	o	álbum	cheio	de
fotografias,	 a	 preocupação	 com	 Imogen,	 a	 interferência	 até;	 a	 tralha	 toda	 no
apartamento,	as	costeletas	de	borrego,	a	maneira	tagarela	como	falavam,	tudo
era	maravilhoso.
–	Teria	todo	o	prazer	em	ajudar	–	disse-lhes	Jule.
*
Jule	apanhou	o	metro	de	regresso	ao	seu	apartamento.	Abriu	o	computador,
fez	 uma	 pesquisa	 e	 encomendou	 uma	 T-shirt	 vermelha	 da	 Universidade	 de
Stanford.
Quando	chegou,	daí	a	uns	dias,	puxou	pela	gola	até	ela	ficar	esbambeada	e
borrifou	a	parte	de	baixo	com	um	produto	de	limpeza	com	lixívia	para	lhe	fazer
uma	nódoa.
Lavou-a	repetidamente	até	ficar	macia	e	parecer	velha.
U
2
AINDA	A	SEGUNDA	SEMANA	DE	JUNHO,	2016
CIDADE	DE	NOVA	IORQUE
m	dia	antes	do	jantar	em	casa	de	Patti,	Jule	encontrava-se	a	uma	esquina
na	zona	alta	de	Manhattan	com	um	pedaço	de	papel	em	que	estava	escrita
uma	morada.	Eram	dez	da	manhã.	Trazia	um	vestido	de	algodão	preto	com	um
decote	 quadrado	 que	 a	 favorecia.	 As	 suas	 sandálias	 de	 salto	 alto	 fechadas	 à
frente	 e	 pontiagudas	 também	 eram	 pretas.	 Ficavam-lhe	 demasiado	 pequenas.
Tinha	um	par	de	ténis	no	saco.	Maquilhara-se	num	estilo	que	considerava	ser
de	menina	da	faculdade.	Trazia	o	cabelo	preso	num	puxo.
O	Colégio	Greenbriar	 ocupava	uma	 série	 de	mansões	 renovadas	na	Quinta
Avenida	 junto	 à	 Rua	 82.	 A	 fachada	 de	 pedra	 da	 secundária,	 onde	 Jule	 iria
trabalhar,	tinha	uma	altura	de	cinco	andares.	Uma	escadaria	em	curva	conduzia
a	umas	estátuas	junto	à	entrada.	Grandes	portas	duplas.	Parecia	um	lugar	onde
se	poderia	obter	uma	educação	altamente	incomum.
–	O	 evento	 é	 no	 salão	 de	 baile	 –	 disse	 o	 guarda	 quando	 Jule	 entrou.	 –	A
escadaria	para	o	segundo	andar	fica	à	sua	direita.
A	 entrada	 tinha	 chão	 de	 mármore.	 Numa	 tabuleta	 à	 esquerda	 podia	 ler-se
SECRETARIA,	 e	 num	 quadro	 de	 cortiça	 ao	 seu	 lado	 havia	 uma	 lista	 das
colocações	 dos	 alunos	 finalistas:	 Yale,	 Penn,	 Harvard,	 Brown,	 Williams,
Princeton,	Swarthmore,	Dartmouth,	Stanford.	Pareciam	a	Jule	locais	de	ficção.
Era	estranho	vê-los	escritos	como	um	poema,	cada	nome	na	sua	própria	linha	e
cada	palavra	evocando	uma	imensidade.
Ao	 cimo	 das	 escadas,	 o	 patamar	 abria-se	 para	 um	 salão	 de	 baile.	 Uma
senhora	de	casaco	vermelho	e	com	um	ar	de	autoridade	aproximou-se	com	a
mão	estendida.	–	É	do	catering?	Bem-vinda	ao	Colégio	Greenbriar	–	disse.	–
Fico	muito	contente	que	pudesse	ajudar-nos	hoje.	Sou	a	Mary	Alice	McIntosh,
a	presidente	do	comité	de	angariação	de	fundos.
–	Prazer	em	conhecê-la.	Sou	a	Lita	Kruschala.
–	O	Colégio	Greenbriar	foi	pioneiro	na	educação	das	mulheres,	começando
em	1926	–	disse	Mary	Alice.	–	Ocupamos	 três	mansões	de	estilo	Beaux	Arts
que	 eram	 originalmente	 casas	 particulares.	 Os	 edifícios	 são	 considerados
património	cultural	e	os	nossos	doadores	atuais	são	filantropos	e	apoiantes	da
educação	das	raparigas.
–	É	um	colégio	só	para	raparigas?
Mary	Alice	passou	para	as	mãos	de	Jule	um	avental	preto	com	folhos.	–	Há
estudos	 que	 demonstram	 que,	 nas	 escolas	 femininas,	 as	 raparigas	 escolhem
disciplinas	mais	não-tradicionais,	como	as	da	área	de	Ciências.	Preocupam-se
menos	com	o	seu	aspeto,	são	mais	competitivas	e	têm	uma	maior	autoestima.	–
Recitou	 aquilo	 como	 um	 discurso	 que	 já	 tivesse	 feito	 mil	 vezes.	 –	 Hoje,
esperamos	cem	convidados	aqui	para	ouvir	música	e	comer	uns	hors	d’oeuvres.
A	seguir,	um	almoço	servido	à	mesa	nas	salas	do	terceiro	andar.	–	Mary	Alice
acompanhou	 Jule	 ao	 salão	 de	 baile,	 onde	 umas	 mesas	 altas	 estavam	 a	 ser
cobertas	 com	 toalhas	 brancas.	 –	 As	 alunas	 vêm	 aqui	 para	 a	 assembleia	 às
segundas	e	sextas,	e	a	meio	da	semana	usamos	o	espaço	para	ioga	e	palestras.
As	paredes	do	salão	de	baile	estavam	decoradas	com	quadros	a	óleo.	Havia
um	forte	cheiro	a	 cera	paramóveis.	Pendiam	 três	 lustres	do	 teto	e	via-se	um
piano	de	cauda	a	um	canto.	Custava	crer	que	andassem	ali	pessoas	a	estudar.
Mary	 Alice	 encaminhou	 Jule	 para	 o	 supervisor	 do	 catering,	 e	 Jule	 deu	 o
nome	 de	 Lita.	 Atou	 o	 avental	 por	 cima	 do	 vestido.	 O	 supervisor	 mandou-a
dobrar	guardanapos,	mas,	assim	que	ele	virou	as	costas,	Jule	foi	ao	patamar	e
espreitou	para	dentro	de	uma	das	salas	de	aula.
Algumas	das	paredes	estavam	forradas	a	livros.	Havia	um	Smartboard	numa
das	paredes	e	uma	fila	de	computadores	noutra,	mas	o	centro	da	sala	dava	uma
sensação	 de	 antiguidade.	 Havia	 um	 tapete	 de	 um	 vermelho	 forte	 no	 chão.
Cadeiras	 pesadas	 à	 volta	 de	 uma	 velha	 mesa	 larga.	 No	 quadro	 negro,	 a
professora	tinha	escrito:
Escrita	livre,	10	minutos:
«A	coisa	importante	é	esta:	ser	capaz	a	qualquer	momento	de	sacrificar	o	que	somos	por	aquilo
em	que	poderíamos	tornar-nos.»
–	Charles	Du	Bos
Jule	tocou	na	beira	da	mesa.	Sentar-se-ia	naquele	lugar,	ali,	decidiu.	Seria	o
seu	lugar	habitual,	de	costas	para	a	luz	da	janela	e	de	olho	na	porta.	Debateria	a
citação	de	Du	Bos	com	as	outras	alunas.	A	professora,	uma	senhora	vestida	de
preto,	andaria	a	pairar	entre	elas,	não	ameaçadora,	mas	inspiradora.	Incentivá-
las-ia	a	alcançarem	a	excelência.	Acreditaria	que	as	suas	alunas	eram	o	futuro.
Houve	 uma	 tossidela.	 O	 supervisor	 do	 catering	 estava	 na	 sala	 com	 Jule.
Apontou	para	a	porta.	Jule	seguiu-o	de	volta	à	pilha	de	guardanapos	e	começou
a	dobrá-los.
Chegou	um	pianista	ao	salão	de	baile,	todo	apressado.	Era	magricela,	tinha	a
pele	 clara	 e	 sardenta	 e	 era	 ruivo.	Os	 pulsos	 despontavam-lhe	 das	mangas	 do
casaco,	demasiado	curtas.	Tirou	da	pasta	umas	pautas	musicais,	olhou	para	o
telemóvel	 por	 um	 ou	 dois	 minutos	 e	 depois	 começou	 a	 tocar.	 A	música	 era
animada	e	de	algum	modo	cheia	de	classe.	Quando	Jule	acabou	de	dobrar	os
guardanapos,	aproximou-se	dele.	–	Que	canção	é	essa?
–	 É	 do	Gershwin	 –	 disse	 o	 pianista	 com	 desdém.	 –	 É	 um	 almoço	 só	 com
Gershwin.	As	pessoas	com	dinheiro	adoram	Gershwin.
–	Tu	não?
Ele	encolheu	os	ombros,	ainda	a	tocar.	–	Paga	a	renda	de	casa.
–	 Julguei	 que	 as	 pessoas	 que	 tocavam	 num	 piano	 de	 cauda	 já	 tinham
dinheiro.
–	Temos	dívidas,	normalmente.
–	Então,	quem	é	o	Gershwin?
–	Quem	foi	o	Gershwin?	–	O	pianista	parou	de	tocar	e	começou	a	tocar	algo
novo.	Jule	olhava	para	as	suas	mãos	a	correrem	sobre	o	teclado	e	reconheceu	a
canção.	Summertime,	and	the	livin’	is	easy.
–	Conheço	essa	–	disse.	–	Ele	já	morreu?
–	Há	muito	tempo.	Era	dos	anos	1920	e	1930.	Era	um	imigrante	de	primeira
geração;	 o	 pai	 dele	 fazia	 sapatos.	 Singrou	 no	 teatro	 iídiche	 e	 começou	 por
escrever	 canções	 de	 jazz	 populares	 para	 fazer	 uns	 dinheiritos,	 a	 seguir	 fez
música	 para	 filmes.	 Depois,	 mais	 tarde,	 música	 clássica	 e	 ópera.	 Portanto,
acabou	por	ser	da	classe	alta,	mas	veio	do	nada.
Que	incrível	ser	capaz	de	tocar	um	instrumento,	pensou	Jule.	Acontecesse	o
que	acontecesse	a	uma	pessoa,	fosse	o	que	fosse	que	se	passasse	na	sua	vida,
podia	olhar	para	as	mãos	e	pensar:	Eu	toco	piano.	Sempre	saberia	isso	sobre	si.
Era	como	ser	capaz	de	lutar,	apercebeu-se.	E	ser	capaz	de	mudar	de	sotaque.
Eram	 poderes	 que	 residiam	 no	 próprio	 corpo.	 Nunca	 te	 deixariam,
independentemente	do	teu	aspeto,	de	quem	te	amasse	ou	não	te	amasse.
Daí	 a	 uma	 hora,	 o	 supervisor	 do	 catering	 bateu	 no	 ombro	 de	 Jule.	 –	 Tens
molho	 de	 cocktail	 na	 roupa,	 Lita	 –	 disse.	 –	 E	 também	 natas	 azedas.	 Vai-te
arranjar	e	dou-te	outro	avental.
Jule	olhou	por	si	abaixo.	Tirou	o	avental	e	entregou-o.
Como	 estava	 alguém	 na	 casa	 de	 banho	 que	 ficava	mais	 perto	 do	 salão	 de
baile,	Jule	subiu	a	escadaria	de	pedra	até	ao	terceiro	andar.	Vislumbrou	um	par
de	salas	elegantes.	As	mesas	estavam	decoradas	com	ramos	de	 flores	cor-de-
rosa.	Os	convidados	davam	apertos	de	mão	e	sujeitavam-se	a	apresentações.
Na	casa	de	banho	das	senhoras	havia	uma	antecâmara.	Estava	forrada	a	um
papel	de	parede	verde	e	dourado	e	 tinha	um	pequeno	sofá	ornamentado.	 Jule
atravessou	o	espaço	e	abriu	a	porta	da	casa	de	banho.	Ali,	descalçou	os	sapatos
de	Lita.	Tinha	os	dedos	dos	pés	 inchados	e	estava	a	 sangrar	dos	calcanhares.
Enxugou	o	sangue	com	uma	 toalha	de	papel	humedecida.	A	seguir,	 limpou	o
vestido	até	ele	ficar	sem	manchas.
Recuou	para	a	antecâmara	descalça	e	deu	com	uma	senhora	de	cinquenta	e
tal	 anos	 sentada	 no	 sofá.	 A	 senhora	 era	 bonita,	 ao	 estilo	 da	 zona	 alta	 de
Manhattan:	pele	morena	com	blush	cuidadosamente	aplicado	e	cabelo	pintado
de	 castanho.	 Trazia	 um	 vestido	 de	 seda	 verde	 que	 fazia	 com	 que	 parecesse
coadunar-se	com	aquele	sofá	de	veludo	verde	e	aquele	papel	de	parede	verde	e
dourado.	 Estava	 sem	 meias	 e	 a	 pôr	 pensos	 rápidos	 nos	 dedos	 dos	 pés,	 que
tinham	bolhas.	Havia	um	par	de	sandálias	de	salto	alto	no	chão.
–	O	calor	faz-me	inchar	os	pés	–	disse	a	senhora	–,	e	depois	o	sofrimento	é
interminável.	Tenho	ou	não	tenho	razão?
Jule	 respondeu	 com	 uma	 pronúncia	 semelhante	 à	 da	 senhora:	 americano
genérico.	–	Pode	dispensar-me	um	penso	rápido?
–	Tenho	uma	embalagem	inteira	–	respondeu	a	senhora.	Enfiou	a	mão	numa
carteira	 grande	 e	 tirou	 a	 embalagem.	 –	Vim	 preparada.	 –	As	 suas	 unhas	 das
mãos	e	dos	pés	estavam	pintadas	num	tom	rosa-pálido.
–	Obrigada.	–	Jule	sentou-se	ao	lado	dela	e	tratou	dos	seus	pés.
–	Não	te	lembras	de	mim,	pois	não?	–	disse	a	senhora.
–	Eu...
–	Não	te	preocupes.	Eu	lembro-me	de	ti.	Tu	e	a	minha	filha	Immie	pareciam
sempre	 iguaizinhas,	 com	 os	 vossos	 uniformes	 do	 colégio.	 Ambas	 tão
pequeninas	e	com	aquelas	sardas	fofinhas	no	nariz.
Jule	pestanejou.
A	 senhora	 sorriu.	 –	 Sou	 a	mãe	 da	 Imogen	Sokoloff,	 batatinha	 doce.	 Podes
chamar-me	Patti.	Vieste	à	 festa	de	anos	da	 Imogen	no	nono	ano,	 lembras-te?
Aquela	festa	de	pijama	em	que	fizemos	chupa-chupas	de	bolo.	E	tu	e	a	Immie
costumavam	 ir	 às	 compras	 no	 SoHo.	 Oh,	 lembras-te,	 levámos-te	 ao	 bailado
Coppelia,	no	American	Ballet	Theatre?
–	É	claro	–	disse	Jule.	–	Desculpe	não	a	ter	reconhecido	imediatamente.
–	 Não	 te	 preocupes	 –	 disse	 Patti.–	 Esqueci-me	 do	 teu	 nome,	 tenho	 de
confessar,	 embora	 nunca	 esqueça	 um	 rosto.	 E	 tu	 tinhas	 aquele	 cabelo	 azul
divertido.
–	É	Jule.
–	É	claro.	Era	tão	fixe	que	tu	e	a	Immie	fossem	tão	amigas,	naquele	primeiro
ano	do	secundário.	Depois	de	te	ires	embora,	ela	começou	a	andar	com	aquelas
miúdas	de	Dalton.	Nunca	gostei	tanto	delas	como	de	ti.	Só	há	algumas	antigas
alunas	 recentes	 aqui	 na	 festa	 de	 angariação	 de	 fundos,	 penso	 eu.	 Talvez
ninguém	que	conheças?	É	só	ex-alunas	de	uma	certa	idade,	como	eu.
–	Enviaram-me	o	convite	e	vim	pelo	Gershwin	–	disse	Jule.	–	E	para	voltar	a
ver	o	colégio	depois	de	ter	estado	ausente.
–	Que	ótimo	que	aprecies	Gershwin	–	disse	Patti.	–	Na	adolescência,	eu	só
gostava	de	punk	e	nos	meus	vinte	anos	era	Madonna	e	outros	do	género.	Em
que	universidade	andas?
Uma	pausa.	Uma	escolha.	Jule	atirou	com	o	papel	dos	pensos	rápidos	para	o
caixote	do	lixo.
–	 Em	 Stanford	 –	 respondeu.	 –	Mas	 não	 tenho	 a	 certeza	 se	 vou	 voltar	 no
outono.	–	Revirou	os	olhos	comicamente.	–	Estou	em	guerra	com	o	gabinete	de
auxílio	financeiro.	–	Tudo	o	que	estava	a	dizer	a	Patti	 lhe	dava	uma	sensação
deliciosa	na	boca,	como	caramelo	a	derreter.
–	 Isso	 é	 desagradável	 –	 disse	 Patti.	 –	 Pensei	 que	 tinham	 um	 sistema	 de
auxílio	financeiro	ótimo	lá.
–	E	têm,	geralmente	–	disse	Jule.	–	Mas	não	para	mim.
Patti	olhou	para	Jule	muito	séria.	–	Penso	que	tudo	se	vai	resolver.	Olhando
para	ti,	vejo	que	não	vais	deixar	que	te	fechem	nenhumas	portas	na	cara.	Ouve,
tens	um	trabalho	para	o	verão,	um	estágio,	algo	do	género?
–	Ainda	não.
–	Então,	 tenho	 uma	 ideia	 de	 que	 gostava	 de	 te	 falar.	 É	 só	 um	pensamento
louco	que	estou	a	ter,	mas	talvez	te	agrade.	–	Tirou	um	cartão	de	visita	branco
da	 sua	mala	 de	mão	 e	 entregou-o	 a	 Jule.	Nele	 havia	 uma	morada	 na	Quinta
Avenida.	–	Tenhode	voltar	para	casa	agora,	para	junto	do	meu	marido.	Ele	não
está	bem	de	saúde.	Mas	porque	não	vens	jantar	lá	a	casa	amanhã	à	noite?	Sei
que	o	Gil	vai	ficar	encantado	por	conhecer	uma	das	velhas	amigas	da	Immie.
–	Obrigada.	Adoraria.
–	Às	sete?
–	Lá	estarei	–	disse	Jule.	–	Agora,	atrevemo-nos	a	calçar	os	sapatos?
–	Oh,	suponho	que	tem	de	ser	–	disse	Patti.	–	É	muito	duro	ser-se	mulher,	por
vezes.
D
1
PRIMEIRA	SEMANA	DE	JUNHO,	2016
CIDADE	DE	NOVA	IORQUE
ezasseis	 horas	 antes,	 às	 oito	 da	 noite,	 Jule	 saiu	 do	 metro	 num	 bairro
duvidoso	de	Brooklyn.	Passara	o	dia	à	procura	de	trabalho.	Era	a	quarta
vez	seguida	que	usava	o	seu	melhor	vestido.
Sem	sorte.
O	seu	apartamento	ficava	por	cima	de	uma	mercearia	com	um	toldo	amarelo
desbotado:	o	Joyful	Food	Mart.	Era	uma	noite	de	sexta-feira	e	havia	tipos	num
grupo	 à	 esquina,	 a	 falar	 alto.	 Os	 caixotes	 do	 lixo	 nos	 passeios	 estavam	 a
transbordar.
Jule	 só	 vivia	 ali	 há	 quatro	 semanas.	 Partilhava	 o	 apartamento	 com	 uma
rapariga,	Lita	Kruschala.	Hoje	era	dia	de	pagar	a	renda	e	ela	não	tinha	como.
Não	era	amiga	íntima	de	Lita.	Tinham-se	conhecido	quando	Jule	respondeu	a
um	anúncio	que	encontrou	na	Internet.	Antes	disso,	tinha	ficado	num	albergue
da	 juventude.	 Usara	 a	 Internet	 da	 biblioteca	 pública	 para	 pesquisar
apartamentos	partilhados.
Quando	 foi	 ver	 o	 apartamento,	Lita	 estava	 a	 oferecer	 a	 sala	 de	 estar	 como
quarto	de	dormir.	Estava	separada	da	cozinha	por	uma	cortina.	Lita	disse	a	Jule
que	 a	 sua	 irmã	 regressara	 recentemente	 à	 Polónia.	 Lita	 preferia	 ficar	 na
América.	Limpava	casas	e	trabalhava	para	uma	empresa	de	catering,	ambos	os
trabalhos	 pagos	 a	 dinheiro	 na	 hora.	 Não	 estava	 numa	 situação	 legal	 para
trabalhar	nos	Estados	Unidos.	Frequentava	aulas	de	Inglês	numa	instituição	de
solidariedade,	o	YMCA.
Jule	 disse	 a	Lita	 que	 tinha	 um	 emprego	 como	personal	 trainer.	 Era	 o	 que
tinha	 feito	na	Florida,	e	Lita	acreditou	nela.	 Jule	pagou	um	mês	de	 renda	em
dinheiro.	Lita	não	pediu	para	ver	um	documento	de	 identificação.	 Jule	nunca
pronunciou	o	nome	Julietta.
Em	certas	noites,	os	amigos	de	Lita	iam	lá	a	casa	e	ficavam	a	falar	polaco	e	a
fumar	 cigarros.	 Faziam	 carne	 estufada	 e	 batatas	 cozidas	 na	 cozinha.	 Nessas
noites,	Jule	punha	os	fones	e	enroscava-se	na	cama,	a	praticar	pronúncias	com
a	ajuda	de	tutoriais	na	Internet.	Por	vezes,	Lita	entrava	no	quarto	de	Jule	com
uma	tigela	com	guisado	e	passava-lha	para	as	mãos	sem	dizer	nada.
Jule	 chegara	 a	Nova	 Iorque	 de	 autocarro.	Depois	 do	 rapaz	 e	 do	 granizado
azul,	depois	da	 sandália	de	 salto	 alto	 e	do	 sangue	no	passeio,	depois	de	esse
rapaz	 ter	 caído,	 Julietta	West	Williams	 desaparecera	 do	 estado	 do	 Alabama.
Também	deixara	de	estudar.	Tinha	dezassete	anos	e	não	era	obrigada	a	terminar
os	estudos.	Nenhuma	lei	dizia	que	tinha	de	o	fazer.
Poderia	 não	 ter	 tido	 problemas	 se	 tivesse	 ficado	 onde	 estava.	O	 rapaz	 não
morrera,	 e	 nunca	 disse	 uma	 palavra	 sobre	 o	 que	 se	 passara.	Mas,	 por	 outro
lado,	se	ela	tivesse	ficado	na	cidade,	talvez	ele	falasse.	Ou	poderia	ter	retaliado.
Pensacola,	 na	 Florida,	 ficava	 só	 a	 uns	 quatrocentos	 quilómetros.	 Jule	 foi
contratada	para	trabalhar	a	dinheiro	num	ginásio	com	montra	para	a	rua	numa
zona	comercial	de	um	subúrbio.	Os	proprietários	não	requeriam	do	pessoal	que
tivesse	qualquer	espécie	de	certificado.	Insuflavam	os	rapazes	com	esteroides,
e	nada	era	propriamente	legal.
Julietta	treinava	tipos	todos	os	dias.	Seguranças	de	discotecas,	rufias,	guarda-
costas,	até	alguns	polícias.	Trabalhou	lá	seis	meses	e	ganhou	músculo.	O	patrão
era	proprietário	de	um	sítio	de	artes	marciais	a	menos	de	dois	quilómetros,	e
deixava-a	 ter	aulas	 lá	de	graça.	Julietta	alugara	à	semana	um	quarto	de	motel
com	kitchenette.
À	 hora	 do	 almoço,	 ia	 muitas	 vezes	 a	 pé	 ao	 centro	 comercial,	 a	 alguma
distância.	Era	um	centro	comercial	de	luxo,	com	fontes	e	lojas	de	marcas	caras.
Julietta	 ia	 ler	 para	 a	 livraria	 arejada,	 admirava	 vestidos	 de	 mil	 dólares	 nas
montras	 e	 experimentava	 produtos	 de	 maquilhagem	 nos	 grandes	 armazéns.
Aprendeu	 os	 nomes	 das	 marcas	 com	 mais	 classe.	 Reinventava-se	 com	 pós,
cremes	 e	 brilhos.	 O	 seu	 rosto	 tinha	 um	 aspeto	 num	 dia,	 outro	 no	 seguinte.
Nunca	gastava	um	cêntimo	que	fosse.
Foi	assim	que	conheceu	Neil.	Neil	era	um	tipo	magro	com	um	blusão	de	pele
da	cor	da	manteiga.	De	vez	em	quando,	passava	uma	tarde	a	rondar	os	balcões
dos	cosméticos,	a	falar	com	as	raparigas.	Usava	Nikes	personalizados	e	falava
com	 pronúncia	 sulista.	Não	 devia	 ter	mais	 de	 vinte	 e	 cinco	 anos	 e	 tinha	 um
rosto	branco	de	bebé	com	faces	coradas,	suíças	e	uma	cruz	de	ouro	ao	pescoço.
O	tipo	de	sujeito	que	falava	e	ria	demasiado	alto	no	cinema	e	comprava	sempre
uma	embalagem	grande	de	pipocas.
–	Neil	quê?	–	perguntara	Julietta.
–	Não	uso	o	meu	último	nome	–	respondeu	ele.	–	Não	é	tão	bonito	como	eu.
Neil	 estava	 no	 negócio.	 Foi	 o	 que	 respondeu	 quando	 ela	 perguntou	 o	 que
estava	a	fazer	junto	aos	balcões	de	perfumaria.	–	Estou	no	negócio.
Ela	 perguntou-se	 de	 onde	 viria	 aquela	 expressão.	 Seria	 uma	 expressão	 de
Pensacola,	ou	de	outro	lugar?
Sabia	o	que	ele	queria	dizer.
–	Podias	ganhar	muito	mais	do	que	ganhas	agora,	a	trabalhar	para	mim.	Eu
tratava-te	muito	bem	–	disse-lhe	Neil.	Era	o	terceiro	dia	que	ela	falava	com	ele.
–	O	que	fazes	para	ganhar	dinheiro,	bebé	bonita?	Vejo	que	não	estás	a	gastar
nenhum.
–	Não	me	chames	bebé	bonita.
–	O	quê?	Tu	és	deslumbrante
–	 A	 sério,	 consegues	 arranjar	 raparigas	 que	 gostem	 de	 ti,	 a	 chamares-lhes
isso?
Ele	encolheu	os	ombros	e	riu-se.	–	É,	consigo.
–	Então,	arranjas	umas	raparigas	mesmo	estúpidas.
–	Tenho	raparigas	bem	fixes,	é	o	que	tenho.	Elas	mostravam-te	como	é	que	é.
O	trabalho	não	é	duro.
–	Certo.
–	Mantinhas-te	 na	 linha.	 Podias	 comprar	 umas	 roupas	 bonitas.	 Dormir	 até
tarde	todas	as	manhãs.
Julietta	deu-lhe	com	os	pés	nesse	dia,	mas	Neil	voltou	a	 rondar	os	balcões
dos	 produtos	 de	 cosmética	 daí	 a	 uma	 semana.	 Dessa	 vez,	 convidou-a	 tão
delicadamente	que	ela	deixou	que	lhe	pagasse	um	burrito	num	sítio	de	pronto-
a-comer	 no	 centro	 comercial	 Sentaram-se	 a	 uma	 mesa	 delicada	 junto	 a	 um
laguinho.
–	Os	homens	gostam	de	mulheres	com	músculos,	sabias?	–	disse	Neil.	–	Nem
todos,	mas	muitos	gostam.	Esse	 tipos	gostam	de	ser	mandados.	Querem	uma
rapariga	com	o	teu	físico,	que	não	os	deixe	chamarem-lhe	bebé	bonita.	Sabes	o
que	quero	dizer?	Posso	 arranjar-te	 uma	pipa	 de	massa	 com	um	certo	 tipo	de
gajo.	Uma	bela	pipa	de	massa.
–Recuso-me	a	andar	nas	ruas	–	disse-lhe	ela.
–	Não	é	nas	 ruas,	 sua	novata.	É	um	grupo	de	apartamentos	com	porteiro	e
elevador.	Banheiras	 de	 hidromassagem.	Tenho	um	 segurança	que	 patrulha	 os
corredores,	 mantém	 toda	 a	 gente	 em	 segurança.	 Ouve,	 estás	 com	 uma	 vida
difícil	neste	momento.	Dá	para	ver,	porque	 já	passei	por	 isso.	Vim	do	nada	e
trabalhei	como	o	diabo	para	ter	uma	vida	melhor.	Tu	és	uma	rapariga	esperta	e
com	 resposta	 pronta;	 uma	 rapariga	 linda,	 fora	 do	 comum.	Tens	um	corpo	do
caraças	 que	 é	 só	músculo,	 e	 acredito	 que	mereces	melhor	 do	 que	 o	 que	 tens
neste	momento.	É	tudo.
Julietta	escutou-o.
Ele	estava	a	dizer	o	que	ela	sentia.	Compreendia-a.
–	De	onde	és,	Julietta?
–	Do	Alabama.
–	O	teu	sotaque	parece	do	Norte.
–	Perdi	o	sotaque.
–	O	quê?
–	Substitui-o.
–	Como?
Os	 tipos	no	ginásio	onde	 Julietta	 trabalhava	eram	velhos.	Só	queriam	 falar
sobre	 repetições	 e	milhas,	 pesos	 e	 dosagens.	 E	 eram	 as	 únicas	 pessoas	 com
quem	ela	alguma	vez	falava.	Neil,	pelo	menos,	era	jovem.	–	Quando	tinha	nove
anos	 –	 disse-lhe	 ela	 –,	 um	 dia	 tinha	 tido...	 chamemos-lhe	 um	 dia	 mau.	 A
professora	 a	 mandar-nos	 estar	 calados.	 A	 berrar	 comigo	 para	 eu	 me	 calar.
«Cala-te,	minha	menina,	 já	disseste	quanto	baste.»	«Para,	minha	menina,	não
batas,	usa	as	palavras»...	e	cala-te	ao	mesmo	tempo.	Esmagam-te.	Querem	que
sejas	pequena	e	silenciosa.Boa	era	só	outra	maneira	de	dizer	não	dês	luta.
Neil	acenou	com	a	cabeça.	–	Eu	andava	sempre	a	ser	repreendido	por	fazer
barulho.
–	Um	dia,	não	veio	ninguém	buscar-me	à	escola.	Simplesmente...	 não	veio
ninguém.	 Da	 secretaria	 fartaram-se	 de	 telefonar	 para	 a	 minha	 casa,	 mas
ninguém	 atendia.	Miss	 Kayla,	 uma	 professora	 que	 ficava	 a	 tomar	 conta	 dos
alunos	depois	das	aulas,	levou-me	a	casa	de	carro.	Já	estava	escuro.	Eu	mal	a
conhecia.	Entrei	no	carro	porque	ela	 tinha	cabelo	bonito.	Pois	é,	fui	estúpida,
meter-me	no	carro	de	uma	desconhecida,	eu	sei.	Mas	ela	era	professora.	Deu-
me	uma	caixinha	de	Tic	Tacs.	Enquanto	conduzia,	 fartou-se	de	falar,	para	me
animar,	percebes?	E	era	do	Canadá.	Não	sei	de	que	parte	do	Canadá,	mas	tinha
sotaque.
Neil	acenou	com	a	cabeça.
–	 Comecei	 a	 imitá-la	 –	 prosseguiu	 Julietta.	 –	 Sentia	 curiosidade	 em	 saber
porque	é	que	ela	falava	daquela	maneira.	Dizia	gaz	em	vez	de	gas.	Aboot	em
vez	 de	 about.	 A	 isso	 chama-se	 rising	 canadiano,	 já	 agora.	 É	 uma	 alteração
vocálica.	E	fiz	Miss	Kayla	rir-se,	a	imitar	o	sotaque	dela.	Ela	disse-me	que	eu
era	uma	boa	imitadora.	Depois,	chegámos	a	minha	casa	e	ela	acompanhou-me
até	à	porta.
–	E	depois?
–	Tinha	estado	sempre	alguém	em	casa.
–	Fogo.
–	Pois	é.	Ela	estava	a	ver	televisão.	Não	se	tinha	lembrado	de	me	ir	buscar.
Ou	não	podia.	Não	sei.	Era	uma	cena	marada,	de	uma	maneira	ou	outra.	Não	se
tinha	dado	ao	trabalho	de	atender	a	porcaria	do	telefone	naquelas	vezes	todas
em	que	a	escola	telefonou.	Empurrei	a	porta	a	abri-la	e	entrei.	Disse:	«Onde	é
que	estavas?»	E	ela	disse:	«Cala-te,	não	vês	que	tenho	a	televisão	ligada?»	E	eu
disse:	«Porque	é	que	não	atendeste	o	telefone?»	E	ela	disse:	«Já	te	disse	que	te
calasses.»	Mais	 um	 cala-te	 e	 não	 dês	 luta.	 Então,	 pus	 uns	 flocos	 de	 cereais
secos	 numa	 tigela	 para	 o	 jantar	 e	 pus-me	 a	 ver	 televisão	 ao	 lado	 dela.
Estávamos	a	ver	televisão	há	uma	hora	ou	mais	quando	me	veio	à	cabeça	uma
ideia.
–	O	quê?
–	 A	 televisão	 ensina-te	 como	 falar.	 Locutores,	 pessoas	 ricas,	 médicos
naquelas	séries	de	hospitais.	Nenhum	deles	falava	como	eu.	Mas	todos	falavam
uns	como	os	outros.
–	Suponho	que	sim.
–	É	verdade.	Calculei	que	se	aprendesse	a	falar	daquela	maneira	talvez	não
me	mandassem	calar	tantas	vezes.
–	Aprendeste	sozinha?
–	Aprendi	americano	genérico	primeiro.	É	o	que	se	ouve	na	 televisão.	Mas
agora	 sei	 falar	 à	 moda	 de	 Boston,	 de	 Brooklyn,	 da	 Costa	 Oeste,	 das	 Terras
Baixas	do	Sul,	do	Canadá	Central,	do	inglês	da	BBC,	do	irlandês,	escocês,	sul-
africano.
–	Queres	ser	atriz.	É	isso?
Julietta	abanou	a	cabeça.	–	Tenho	coisas	melhores	em	mente.
–	O	domínio	do	mundo,	então.
–	Algo	do	género.	Ainda	tenho	de	decidir	ao	certo.
–	Decididamente,	podias	ser	atriz	–	disse	Neil,	sorrindo.	–	De	facto,	aposto
que	 vais	 entrar	 em	 filmes.	 Daqui	 a	 um	 ano,	 vou	 dizer,	 tipo,	 uau.	 Aquela
rapariga,	a	Julietta,	costumava	estar	ao	balcão	da	Chanel	a	empastar	a	cara	com
cosméticos	de	graça.	Aquela	rapariga	deixava-me	conversar	com	ela	de	vez	em
quando.
–	Obrigada.
–	Precisas	de	arranjar	umas	roupas	boas,	Miss	Julietta.	Tens	de	conhecer	uns
gajos	 com	 dinheiro	 que	 te	 comprem	 joias	 e	 vestidos	 bonitos.	 Falar	 como	 na
televisão	é	uma	coisa,	mas	neste	momento	é	tudo	fatos	de	treino,	ténis,	cabelo
com	um	ar	barato.	Assim	nunca	vais	chegar	a	lado	nenhum.
–	Não	quero	vender	o	que	andas	a	vender.
–	Deixa-me	ouvir-te	falar	à	Brooklyn	–	disse	Neil.
–	A	minha	hora	do	almoço	chegou	ao	fim.	–	Ela	pôs-se	de	pé.
–	Vá	lá.	À	irlandesa,	então.
–	Não.
–	Bem,	se	alguma	vez	quiseres	um	trabalho	melhor	do	que	o	que	tens	agora,
aqui	tens	o	meu	número	–	disse	Neil,	 tirando	do	bolso	um	cartão	de	visita.	O
cartão	era	preto	e	tinha	um	número	de	telemóvel	impresso	a	prateado.
–	Vou-me	embora.
Neil	ergueu	a	sua	Coca-Cola	como	se	num	brinde.
Julietta	riu-se	ao	afastar-se.
Neil	fazia-a	sentir-se	bonita.	Era	um	bom	ouvinte.
Na	manhã	seguinte	fez	as	malas	e	meteu-se	num	autocarro	para	a	cidade	de
Nova	 Iorque.	 Receava	 aquilo	 em	 que	 poderia	 tornar-se	 se	 esperasse	 mais
tempo.
Agora	 a	 renda	 de	 Jule	 tinha	 de	 ser	 paga.	 Andava	 a	 comer	 ramen	 de
supermercado.	Só	tinha	cinco	dólares	na	carteira.
Nenhum	ginásio	em	Nova	Iorque	contrataria	uma	instrutora	sem	habilitações.
Ela	 nem	 tinha	 o	 diploma	 do	 secundário.	 Não	 tinha	 cartas	 de	 recomendação,
porque	 abandonara	 o	 seu	 primeiro	 e	 único	 emprego	 até	 à	 data.	 Os	 ginásios
pagariam	 melhor,	 calculara,	 e	 pouparia	 um	 pouco	 de	 dinheiro	 e	 depois
procuraria	algo	que	lhe	possibilitasse	subir	na	vida.	Mas	depois,	como	nenhum
dos	 ginásios	 se	 dispusera	 a	 contratá-la,	 tentou	 os	 balcões	 de	 perfumaria	 nos
grandes	 armazéns,	 outros	 empregos	na	venda	 a	 retalho,	 trabalhos	 como	ama,
como	empregada	de	mesa,	qualquer	oferta	de	trabalho.	Andava	à	procura	todo
o	dia,	todos	os	dias.	Sem	resultado.
Entrou	no	Joyful	Food	Mart,	por	baixo	do	seu	apartamento.	Estava	bastante
movimentado.	 Pessoas	 saídas	 dos	 empregos	 a	 comprarem	 embalagens	 de
massa	e	latas	de	feijão	ou	a	jogarem	o	seu	número	na	lotaria.	Jule	comprou	um
pudim	de	 baunilha	 por	 um	dólar	 e	 pegou	 numa	 colher	 de	 plástico.	Comeu	o
pudim	 como	 jantar	 enquanto	 subia	 as	 escadas	 para	 o	 apartamento	 que
partilhava	com	Lita.
O	apartamento	estava	às	escuras,	Jule	sentiu-se	aliviada.	Lita	fora	cedo	para	a
cama	 ou	 tinha	 saído	 até	 tarde.	 Num	 caso	 ou	 no	 outro,	 Jule	 não	 teria	 de	 dar
desculpas	por	não	ter	o	dinheiro	da	renda.
*
Na	 manhã	 seguinte,	 Lita	 não	 saiu	 do	 quarto.	 Normalmente,	 levantava-se
antes	 das	 sete	 aos	 sábados	 para	 ir	 para	 o	 trabalho	 de	 catering.	 Às	 oito,	 Jule
bateu	à	porta	do	seu	quarto.	–	Estás	bem?
–	Estou	morta	–	disse	Lita	do	outro	lado	da	porta	fechada.
Jule	espreitou	para	dentro.	–	Tens	trabalho	hoje,	correto?
–	Às	dez.	Mas	estive	a	vomitar	a	noite	toda.	Misturei	cocktails.
–	Precisas	de	água?
Lita	gemeu.
–	Queres	que	eu	vá	trabalhar	por	ti?	–	perguntou	Jule,	com	a	ideia	a	ocorrer-
lhe	nesse	momento.
–	Acho	que	não	–	disse	Lita.	–	Sabes	sequer	como	trabalhar	no	catering?
–	Claro.
–	Se	eu	não	aparecer,	despedem-me	–	disse	Lita.
–	Então,	deixa-me	ir	a	mim	–	disse	Jule.	–	Dá	jeito	às	duas.
Lita	passou	as	pernas	pelo	 lado	da	cama	e	agarrou-se	à	mesa	de	cabeceira,
com	um	ar	de	náusea.	–	Está	bem.	OK.
–	A	sério?
–	Mas...	diz-lhes	que	és	eu.
–	Não	me	pareço	nada	contigo.
–	Não	importa.	Eles	 têm	um	supervisor	novo.	Não	se	vai	dar	conta.	É	uma
empresa	grande.	O	importante	é	pôr	um	visto	no	meu	nome	no	registo.
–	Entendi.
–	E	que	o	gajo	 te	pague	antes	de	vires	embora.	Vinte	por	hora,	dinheiro	na
mão,	além	de	que	vais	receber	gorjetas.
–	Fico	com	o	dinheiro?
–	Com	metade	–	disse	Lita.	–	O	trabalho	é	meu,	ao	fim	e	ao	cabo.
–	Três	quartos	–	disse	Jule.
–	Está	 bem.	 –	Lita	 procurou	 no	 telemóvel	 e	 depois	 escreveu	 a	 informação
num	 pedaço	 de	 papel.	 –	 Colégio	 Greenbriar,	 no	 Upper	 East	 Side.	 Tens	 de
apanhar	o	autocarro	até	ao	metro	e	depois	mudar	para	a	linha	verde.
–	Qual	é	o	evento?
–	Uma	 festa	 para	 doadores	 do	 colégio.	 –	 Lita	 voltou	 a	 deitar-se	 na	 cama,
movendo-se	como	se	 receasse	bater	com	a	cabeça.	–	Não	devia	beber,	nunca
mais.	Oh,	tens	de	usar	um	vestido	preto.
–	Não	tenho	nenhum.
Lita	suspirou.	–	Tira	do	meu	armário.	Eles	dão-te	um	avental.	Não,	não	o	que
tem	rendas.	Esse	tem	de	ser	limpo	a	seco.	Leva	um	de	algodão.
–	Também	preciso	de	sapatos.
–	Meu	Deus,	Jule.
–	Desculpa	lá.
–	Leva	os	de	saltos	altos.	Vão	dar-te	gorjetas	maiores.
Jule	enfiou	os	pés	nos	sapatos.	Eram	demasiado	pequenos,	mas	conseguiria	–
Obrigada.
–	Traz-me	também	metade	do	dinheiro	das	gorjetas	–	disse	Lita.	–	Esses	são
os	meus	sapatos	bons.
Jule	nunca	usara	um	vestido	tão	bonito	como	aquele.	Era	de	um	tecido	grosso
de	algodão,	um	vestido	de	passeio	com	um	decote	quadrado	e	uma	saia	rodada.
Surpreendeu-a	que	Lita	tivesse	tal	peça	de	vestuário,	mas	ela	disse	que	o	tinha
comprado	barato	numa	loja	de	segunda	mão.
Jule	saiu	para	arua	com	o	vestido	e	os	seus	ténis,	os	sapatos	de	salto	alto	de
Lita	no	saco.	O	cheiro	da	cidade	de	Nova	Iorque	no	calor	do	princípio	do	verão
flutuava	no	ar	espesso	à	sua	volta:	lixo,	pobreza,	ambição.
Decidiu	atravessar	a	pé	a	ponte	de	Brooklyn.	Podia	apanhar	um	comboio	da
linha	verde	do	lado	de	Manhattan	e	assim	não	teria	de	mudar	de	linha	no	metro.
O	sol	cintilava	quando	se	pôs	a	caminho.	As	torres	de	pedra	pairavam	lá	no
alto.	 Jule	 via	 os	 barcos	 no	 porto,	 deixando	 trilhos	 na	 água.	 A	 Estátua	 da
Liberdade	estava	forte	e	brilhante.
Era	 estranho	 como	 o	 vestido	 de	 outra	 pessoa	 a	 fazia	 sentir-se	 uma	 nova
pessoa.	Esta	sensação	de	ser	outra	pessoa,	de	se	transformar	numa	outra	pessoa,
de	ser	linda	e	jovem	e	atravessar	esta	famosa	ponte	para	algo	grande	–	era	para
isso	que	Jule	viera	para	Nova	Iorque.
Nunca	sentira	essa	possibilidade	espraiar-se	à	sua	frente	até	esta	manhã.
U
19
TERCEIRA	SEMANA	DE	JUNHO,	2017
CABO	SAN	LUCAS,	MÉXICO
m	 pouco	 mais	 de	 um	 ano	 depois,	 na	 estalagem	 Cabo	 Inn,	 às	 cinco	 da
manhã,	Jule	cambaleou	até	à	casa	de	banho,	deitou	água	na	cara	e	pintou
os	 olhos.	 Porque	 não?	 Gostava	 de	 maquilhagem.	 Tinha	 tempo.	 Aplicou
concealer	e	pó,	acrescentou	uma	sombra	esfumada,	depois	 rímel	e	um	batom
quase	preto,	com	um	brilho	por	cima.
Pôs	 gel	 no	 cabelo	 e	 vestiu-se.	 Calças	 de	 ganga	 pretas,	 botas,	 uma	 T-shirt
escura.	Roupa	quente	para	o	calor	do	México,	mas	prática.	Fez	a	mala,	bebeu
uma	garrafa	de	água	e	deu	uns	passos	para	fora	do	quarto.
*
Noa	 encontrava-se	 sentada	 no	 chão	 do	 corredor,	 com	 as	 costas	 contra	 a
parede	e	um	copo	de	café	a	fumegar	entre	as	mãos.
À	espera.
A	porta	fechou-se	com	um	estalido.	Jule	recuou	contra	ela.
Com	um	raio.
*
Julgara	que	estava	livre,	ou	quase	livre.	Agora,	tinha	uma	luta	pela	frente.
Noa	 parecia	 autoconfiante;	 descontraída,	 até.	 Manteve-se	 sentada,	 com	 os
joelhos	 para	 cima.	A	 equilibrar	 aquele	 copo	 de	 café	 com	 espuma.	 –	 Imogen
Sokoloff?	–	disse.
Espera.	O	quê?
Noa	pensava	que	ela	era	Imogen?
Imogen,	claro.
Noa	 tentara	 cativar	 Jule	 com	 Dickens.	 E	 um	 pai	 doente.	 E	 gatos
abandonados.	 Porque	 sabia	 que	 todas	 essas	 coisas	 seriam	 um	 engodo	 para
envolver	Imogen	Sokoloff	numa	conversa.
–	Noa!	–	disse	Jule,	sorrindo,	regressando	à	sua	pronúncia	da	BBC,	com	as
costas	contra	a	porta	do	seu	quarto.	–	Oh,	uau,	apanhaste-me	de	surpresa.	Não
consigo	acreditar	que	estás	aqui	neste	momento.
–	Quero	falar	consigo	sobre	o	desaparecimento	de	Julietta	West	Williams	–
disse	Noa.	–	Conhece	uma	jovem	com	esse	nome?
–	Peço	perdão?	–	Jule	pôs	a	carteira	a	tiracolo	para	não	lhe	descer	do	ombro
facilmente.
–	 Pode	 deixar	 essa	 do	 sotaque,	 Imogen	 –	 disse	 Noa,	 pondo-se	 de	 pé
lentamente	para	não	derramar	o	café.	–	Temos	razões	para	crer	que	tem	andado
a	usar	o	passaporte	da	Julietta.	As	provas	apontam	para	que	tenha	encenado	a
sua	própria	morte	em	Londres	há	um	par	de	meses,	depois	do	que	transferiu	o
seu	dinheiro	para	a	 Julietta	e	assumiu	a	 sua	 identidade,	possivelmente	com	a
cooperação	dela.	Mas	agora	já	ninguém	a	vê	há	semanas.	Não	deixou	nenhuma
pegada	 desde	 pouco	 depois	 da	 execução	 do	 seu	 testamento	 até	 a	 Imogen
começar	a	usar	cartões	de	crédito	emitidos	no	nome	dela	no	Playa	Grande.	Isso
soa-lhe	familiar?	Será	que	poderia	mostrar-me	um	documento	de	identificação?
Jule	precisava	de	processar	toda	esta	nova	informação,	mas	não	havia	tempo.
Tinha	de	agir	de	imediato.
–	Penso	que	deves	estar	a	confundir-me	com	outra	pessoa	qualquer	–	disse,
mantendo	 a	 pronúncia	 da	 BBC.	 –	 Peço	 desculpa	 por	 não	 ter	 ido	 à	 noite	 do
concurso.	 Deixa-me	 tirar	 a	 carteira	 e	 tenho	 a	 certeza	 de	 que	 esclareceremos
tudo	isto	imediatamente.
Fez	de	conta	que	procurava	no	seu	saco	e	em	dois	passos	estava	em	cima	de
Noa.	Deu	um	pontapé	no	café	de	baixo	para	cima.	O	café	ainda	estava	quente	e
borrifou	o	rosto	da	detetive.
A	 cabeça	 de	Noa	 projetou-se	 para	 trás,	 e	 Jule	 balançou	 a	mala	 com	 força.
Atingiu	Noa	no	lado	do	crânio,	derrubando-a.	Jule	ergueu	novamente	a	mala	e
bateu	com	ela	no	ombro	de	Noa	com	 toda	a	 força.	Uma	e	outra	 e	outra	vez.
Noa	caiu	no	chão	e	pôs-se	a	tatear	à	procura	do	tornozelo	de	Jule	com	a	mão
esquerda	enquanto	estendia	a	direita	para	a	perna	das	suas	calças.
A	mulher	estaria	armada?	Sim.	Tinha	algo	atado	à	perna.
Jule	deixou	cair	com	força	a	sua	bota	nos	ossos	da	mão	de	Noa.	Houve	um
som	de	esmagamento	e	Noa	soltou	um	grito,	mas	com	a	sua	outra	mão	ainda
estava	a	tentar	agarrar	o	tornozelo	de	Jule,	para	a	desequilibrar.
Jule	 apoiou-se	 à	 parede	 e	 pontapeou	Noa	 no	 rosto.	 Enquanto	 a	 detetive	 se
retraía,	 encolhida,	 levando	 as	 duas	 mãos	 aos	 olhos	 para	 os	 proteger,	 Jule
arregaçou	a	perna	das	calças	de	ganga	dela.
Havia	uma	arma	atada	à	barriga	da	perna	de	Noa.	Jule	arrancou-a.
Apontou	a	 arma	a	Noa	e	começou	a	 recuar	pelo	corredor,	 arrastando	a	 sua
mala	sem	deixar	de	ter	a	detetive	sob	a	sua	mira.
Quando	chegou	às	escadas,	virou-se	e	desceu-as	a	correr.
Ao	sair	pela	porta	traseira	da	estalagem,	lançou	um	olhar	aos	caixotes	do	lixo
e	 aos	 carros	 estacionados	 no	 parque	 de	 estacionamento.	 Havia	 bicicletas
encostadas	às	paredes	da	parte	de	trás	do	edifício.
Não.	Jule	não	podia	ir	de	bicicleta,	porque	não	podia	deixar	a	mala.
Mais	abaixo	na	encosta,	a	rua	desembocava	numa	praça	com	um	café.
Não,	seria	demasiado	óbvio.
Jule	atravessou	a	correr	o	parque	de	estacionamento	da	estalagem.	Quando
dobrou	 a	 esquina	 do	 edifício,	 viu	 uma	 janela	 de	 um	 quarto	 de	 hóspedes	 na
parede	lateral.	Estava	aberta	na	parte	de	cima.
Jule	olhou	para	dentro	do	quarto.
Vazio.	A	cama	estava	feita.
Arrancou	o	mosquiteiro	da	janela	e	atirou-o	para	dentro	do	quarto.	Enfiou	a
mala	pela	abertura	na	parte	de	cima	da	 janela	–	cabia	à	 justa	–	e	 fê-la	passar
pelos	 estores	 venezianos	 baratos.	 Atirou	 o	 seu	 saco	 de	 pôr	 ao	 ombro	 para
dentro	do	quarto	e	saltou	para	cima	do	parapeito	da	janela	e	daí	para	dentro	do
quarto.	Esfolou	a	pele,	e	aterrou	com	força	no	chão.	A	seguir,	fechou	a	janela,
ajustou	os	estores,	atirou	as	suas	coisas	e	o	mosquiteiro	da	janela	para	dentro	da
casa	de	banho	–	e	fechou-se	ali	dentro	também.
A	pensão	era	o	último	lugar	onde	Noa	a	procuraria.
Jule	sentou-se	na	beira	da	banheira	e	forçou-se	a	respirar	lentamente.	Puxou
o	fecho	da	mala	e	tirou	dela	a	sua	peruca	ruiva.	Despiu	a	T-shirt	preta	e	vestiu
um	top	branco,	a	seguir	pôs	a	peruca	e	escondeu	o	seu	cabelo	por	baixo	dela.
Fechou	a	mala.
Pegou	 na	 arma	 e	 enfiou-a	 na	 parte	 de	 trás	 da	 cintura	 das	 suas	 calças	 de
ganga,	como	vira	fazer	nos	filmes.
Daí	a	um	par	de	minutos,	ouviu	Noa	passar	pela	janela	do	quarto	de	hotel.	A
detetive	 estava	 a	 falar	 ao	 telefone	 e	 a	mover-se	 lentamente.	 –	Eu	 sei	 –	 disse
Noa.–	Subestimei	a	situação,	eu	sei	isso.
Uma	pausa.–	Era	uma	 coisa	 ligeira,	 uma	herdeira	 que	 fugiu,	 sabes?	–	Noa
parara	de	andar	e	era	fácil	de	ouvir.	–	Uma	rapariga	tonta	e	rica	numa	grande
farra.	Os	 indícios	 até	 ao	momento	 fazem	 com	que	 pareça	 que	 ela	 e	 a	 amiga
encenaram	um	suicídio	que	iria	permitir	que	ambas	vivessem	à	grande.	As	duas
combinaram	fugir	juntas.	Queriam	escapar	às	coisas	do	costume:	ex-namorado
obsessivo,	pais	controladores.	A	amiga	julgou	que	iam	partilhar	o	dinheiro	da
herdeira,	mas	a	herdeira	faz	jogo	duplo.	Assume	a	identidade	da	amiga	como
planeado	e	depois	livra-se	completamente	da	amiga...	Um	assassino	contratado
é	 a	 nossa	 melhor	 suposição,	 provavelmente	 no	 Reino	 Unido.	 A	 amiga	 está
agora	 desaparecida,	 vista	 pela	 última	 vez	 em	 Londres	 em	 abril	 passado.
Entretanto,	a	herdeira,	usando	a	identidade	da	amiga,	foge	com	o	dinheiro	todo
e	estaria	a	viver	feliz,	só	que	o	namorado	obsessivo	não	consegue	acreditar	que
ela	se	matou,	por	isso	continua	a	atazanar	a	polícia.	Finalmente,	a	polícia	acaba
por	 pensar	 que	 ele	 deve	 ter	 alguma	 razão.	 Investigam	 o	 caso	 e	 acabam	 por
verificar	 que	 o	 cartão	 de	 crédito	 da	 amiga	 estáa	 ser	 usado	 neste	 resort
mexicano.
Outra	pausa	enquanto	Noa	escutava.	–	Vá	 lá.	Uma	rapariga	como	ela,	uma
rapariga	de	Vassar,	não	se	espera	uma	ofensiva.	Ninguém	o	esperaria.	Ela	mal
chega	 ao	 metro	 e	 cinquenta.	 Usa	 ténis	 de	 trezentos	 dólares.	 Não	 me	 podes
chamar	à	capa	por	isso.
Mais	uma	pausa,	e	a	voz	de	Noa	começou	a	desvanecer-se	à	medida	que	se	ia
afastando.	–	Bem,	envia	alguém,	porque	preciso	de	cuidados	médicos.	A	miúda
tem	a	minha	arma.	Sim,	eu	sei,	eu	sei.	Envia-me	só	auxílio	local,	comprende?
Forrest	enviara	detetives.	Jule	compreendia	isso	agora.	Ele	nunca	aceitara	o
suicídio	de	Immie,	suspeitara	de	Jule	desde	o	início,	e	o	que	é	que	todas	as	suas
questões	 desconfiadas	 tinham	 revelado?	 Fora-lhe	 dito	 que	 Imogen	 cometera
uma	fraude	para	se	afastar	dele	e	que	a	pobre	Jule	estava	morta	e	não	passara
de	uma	vítima	crédula.
Jule	 saiu	 da	 casa	 de	 banho,	 rastejou	 pelo	 chão	 e	 acocorou-se	 por	 baixo	 da
janela	para	espreitar	lá	para	fora.	Noa	ia	a	descer	a	encosta,	agarrando	o	braço	e
o	ombro.
Vinha	 um	 autocarro	 supercabos	 a	 descer	 a	 estrada.	 Jule	 pegou	 na	 mala,
empurrou-a	 para	 o	 corredor	 e	 a	 seguir	 saiu	 da	 pensão	 por	 uma	 porta	 lateral.
Dirigiu-se	calmamente	para	a	berma	da	estrada	e	ergueu	o	braço.
O	autocarro	parou.
Ela	respirou.
Noa	não	se	virou.
Jule	entrou	pela	parte	da	frente	do	autocarro.
Noa	continuava	a	não	se	virar.
Jule	pagou	o	bilhete	e	as	portas	do	autocarro	fecharam-se.	Chegou	um	carro
ao	 lugar	 onde	Noa	 estava	 parada,	 a	 amparar	 a	 sua	mão	 fraturada.	A	detetive
mostrou	o	seu	cartão	de	identificação	à	pessoa	dentro	do	carro.
O	autocarro	arrancou	na	direção	oposta.	Jule	sentou-se	no	assento	gasto	mais
perto	do	condutor.
O	 motorista	 pararia	 onde	 ela	 quisesse	 sair.	 Era	 assim	 que	 funcionava	 o
supercabos.	–	Quiero	ir	a	la	esquina	de	Ortiz	y	Ejido.	Puede	llevarme	cerca	de
allí?	–	perguntou	Jule.	À	esquina	de	Ortiz	e	Ejido	–	era	onde	o	funcionário	do
hotel	lhe	dissera	que	havia	um	tipo	que	vendia	carros	usados	a	dinheiro.	Sem
fazer	perguntas.
O	motorista	do	autocarro	acenou	com	a	cabeça.
Jule	West	Williams	inclinou-se	para	a	frente	no	assento.
Tinha	 quatro	 passaportes,	 quatro	 cartas	 de	 condução,	 três	 perucas,	 vários
milhares	 de	 dólares	 em	 dinheiro	 e	 um	 número	 de	 cartão	 de	 crédito	 que
pertencia	a	Forrest	Smith-Martin,	que	serviria	para	comprar	bilhetes	de	avião.
De	facto,	havia	uma	série	de	coisas	que	Jule	poderia	fazer	com	aquele	cartão
de	 crédito	 de	 Smith-Martin.	 Poderia	 vingar-se	 de	 Forrest	 por	 todos	 os
problemas	que	lhe	causara.
Era	tentador.
Provavelmente,	no	entanto,	não	se	daria	a	esse	trabalho.	Forrest	não	era	nada
para	Jule,	agora	que	ela	já	não	necessitava	de	ser	Imogen	Sokoloff.
Os	últimos	pedacinhos	de	Immie	que	tinham	estado	dentro	de	si	deslizaram
para	fora,	como	pedrinhas	levadas	de	uma	praia	por	uma	maré	a	vazar.
Daí	 para	 a	 frente,	 Jule	 tornar-se-ia	 outra	 coisa	 completamente	 diferente.
Haveria	 outras	 pontes	 a	 atravessar	 e	 outros	 vestidos	 a	 usar.	 Mudara	 a
pronúncia,	mudara	o	seu	próprio	ser.
Poderia	voltar	a	fazê-lo.
Jule	tirou	o	anel	de	jade	com	a	víbora,	atirou-o	ao	chão	e	ficou	a	vê-lo	rolar
para	 a	 parte	 de	 trás	 do	 autocarro.	 Em	 Culebra,	 ninguém	 pedia	 para	 ver
documentos	de	identificação.
A	arma	dava	uma	sensação	de	calor	contra	as	suas	costas.	Ela	estava	armada.
Não	tinha	um	coração	que	pudesse	partir-se.
Como	um	herói	de	um	filme	de	ação,	Jule	West	Williams	ocupava	o	centro
da	história.
NOTA	DA	AUTORA
Muitos,	muitos	 livros	 e	 filmes	me	 inspiraram	para	 a	 escrita	 de	História	de
uma	Fraude.	Histórias	vitorianas	sobre	órfãos,	 lendas	de	vigaristas,	 romances
de	 anti-heróis,	 filmes	de	 ação,	 filmes	noir,	 banda	 desenhada	 de	 super-heróis,
histórias	 contadas	 de	 trás	 para	 a	 frente,	 histórias	 sobre	 mobilidade	 social	 e
livros	 sobre	 as	 vidas	 de	 mulheres	 ferozmente	 ambiciosas	 e	 infelizes.	 O
romance	 que	 escrevi	 dá-me	 a	 sensação	 de	 conter	 camada	 sobre	 camada	 de
alusões.	 Não	 me	 é	 possível	 identificar	 individualmente	 tudo	 o	 que	 me
influenciou,	mas	tenho	uma	dívida	particular	para	com	O	Talentoso	Mr.	Ripley,
de	 Patricia	 Highsmith,	 The	 Man	 in	 the	 Rockefeller	 Suit,	 de	 Mark	 Seal	 e
Grandes	Esperanças,	de	Charles	Dickens.
AGRADECIMENTOS
Agradeço	 aos	 meus	 primeiros	 leitores	 pelo	 seu	 feedback	 detalhado:	 Ivy
Aukin,	Coe	Booth,	Matt	de	la	Peña,	Justine	Larbalestier	e	Zoey	Peresman.	Um
agradecimento	ainda	maior	a	Sarah	Mlynowski,	que	leu	múltiplos	rascunhos.	A
fotógrafa	Heather	Weston	criou	uma	série	de	imagens	maravilhosas	inspiradas
pelo	romance	e	acrescentou	muito	à	minha	compreensão	da	sua	estética.	Tenho
uma	dívida	para	com	Ally	Carter,	Laura	Ruby,	Anne	Ursu,	Robin	Wasserman,
Scott	 Westerfeld,	 Gayle	 Forman,	 Melissa	 Kantor,	 Bob,	 Meg	 Wolitzer,	 Kate
Carr,	Libba	Bray	 e	Len	 Jenkin	 pelo	 seu	 apoio	 e	 os	 seus	 conselhos.	A	minha
agente,	 Elizabeth	 Kaplan,	 tem	 sido	 uma	 campeã;	 o	 seu	 assistente,	 Brian
McGuffog,	um	enorme	auxílio.	Obrigada	a	Jane	Harris	e	Emma	Matthewson,
da	 HotKey,	 e	 a	 Eva	 Mills	 e	 Elise	 Jones,	 da	 Allen	 and	 Unwin,	 pelo	 seu
entusiasmo	inicial.	Obrigada	a	Ramona	Jenkin	pelas	suas	informações	médicas
especializadas.	 A	 minha	 gratidão	 à	 equipa	 espantosa	 na	 Penguin	 Random
House,	 que	 inclui,	 mas	 não	 se	 limita	 a,	 John	 Adamo,	 Laura	 Antonacci,
Dominique	 Cimina,	 Kathleen	 Dunn,	 Colleen	 Fellingham,	 Anna	 Gjesteby,
Rebecca	Gudelis,	Christine	Labov,	Casey	Lloyd,	Barbara	Marcus,	Lisa	Nadel,
Adrienne	 Waintraub	 –	 e	 especialmente	 à	 minha	 exigente,	 paciente	 e
encorajadora	heroína	de	ação,	a	editora	Beverly	Horowitz.	Obrigada	à	minha
família,	próxima	e	distante,	e	a	Daniel	Aukin	acima	de	tudo.
	Ficha Técnica
	18
	17
	16
	15
	14
	13
	12
	11
	10
	9
	8
	7
	6
	5
	4
	3
	2
	1
	19
	NOTA DA AUTORA
	AGRADECIMENTOS

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