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Juan Gómez-Jurado Contrato com Deus Tradução Joana Angélica d’Avila Melo Copyright © 2007 Juan Gómez-Jurado Todos os direitos desta edição reservados à Editora Objetiva Ltda. Rua Cosme Velho, 103 Rio de Janeiro — RJ — Cep: 22241-090 Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825 www.objetiva.com.br Título original Contrato con Dios Capa Rodrigo Rodrigues sobre design original de Random House Mondadori/Yolanda Artola Imagens de capa Julian Love/Corbis North Wind Picture Archives/Alamy Preparação de originais Elisabeth Xavier de Araújo Revisão Fatima Fadel Tamara Sender Rodrigo Rosa Coordenação de e-book Marcelo Xavier Conversão para e-book Filigrana CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G619c Gómez-Jurado, Juan Contrato com Deus [recurso eletrônico] / Juan Gómez-Jurado ; tradução de Joana Angélica d’Avila Melo. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2012. recurso digital Tradução de : Contrato con Dios Formato: e-Pub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web 394p. ISBN 978-85-8105-071-3 (recurso eletrônico) 1. Romance espanhol. 2. Livros eletrônicos. I. Melo, Joana Angélica d’Avila. II. Título. 12-0384 CDD: 863 CDU: 821.134.2-3 Para meus pais, que se refugiaram das bombas embaixo das mesas Para criar um inimigo Começa com uma tela em branco e esboça nela as silhuetas de homens, mulheres e crianças Mergulha o pincel no poço de tua própria escuridão Desenha na cara de teu inimigo a cobiça, o ódio e a crueldade que não te atreves a reconhecer como teus Ensombrece todo indício de simpatia em seus rostos Apaga qualquer resto da miríade de amores, esperanças e medos que residem no caleidoscópio do infinito coração deles Deforma-lhes o sorriso em uma careta cruel Arranca a carne de seus ossos até que só reste o abstrato esqueleto da morte Exagera cada traço humano até metamorfoseá-lo em besta, parasito, inseto Preenche o fundo de tua tela com os demônios e figuras malignas que alimentam nossos pesadelos ancestrais Quando teu quadro estiver completo, poderás matá-los sem culpa e despedaçá-los sem sentir vergonha O que destruíste é simplesmente um inimigo do teu Deus Faces of the Enemy, SAM KEEN Eu sou o senhor teu Deus Não matarás Não terás outro Deus além de mim Não cometerás adultério Não jurarás em falso em nome de Deus Não roubarás Recorda o Sabá e conserva-o santo Não levantarás falsotestemunho Honra pai e mãe Não serás cobiçoso Prólogo HOSPITAL INFANTIL AM SPIEGELGRUND Viena Fevereiro de 1943 Ao chegar embaixo da grande bandeira com a suástica que ondulava acima da porta do hospital, a mulher não pôde evitar um calafrio. Seu acompanhante interpretou equivocadamente o gesto e atraiu-a para si a fim de aquecê-la. O fino agasalho que ela usava quase não a protegia contra o vento cortante da tarde, prenúncio da nevasca que iria cair dentro de poucas horas. — Vista meu paletó, Odile — disse ele, começando a desabotoá-lo com dedos trêmulos. Ela ignorou o abraço e segurou ainda mais fortemente o pacote contra seu peito. Dez quilômetros sobre a neve tinham-na deixado enregelada e exausta. Três anos antes, faria esse trajeto em seu Daimler com motorista, embrulhada em um visom. Mas seu carro agora transportava um Brigadeführer, e seu casaco de pele engalanava nos palcos do Teatro as noites de alguma prostituta nazista de pálpebras lambuzadas de pintura. Controlou-se para apertar com força a campainha, antes de responder. — Não estou tremendo de frio, Josef. Falta pouco para o toque de recolher. Se não conseguirmos voltar a tempo... O marido não pôde responder, porque uma enfermeira sorridente já abria a porta do hospital. O sorriso lhe morreu nos lábios quando ela observou atentamente os visitantes. Tantos anos de regime nazista haviam- na ensinado a reconhecer um judeu à primeira vista. — O que desejam? A mulher se obrigou a sorrir, embora isso lhe custasse uma dor imensa em seus lábios rachados. — Viemos ver o doutor Graus. — Têm hora marcada? — O doutor disse que nos receberia. — Nome? — Josef e Odile Cohen, fräulein. A enfermeira deu um temeroso passo para trás, quando o sobrenome confirmou suas suspeitas. — Estão mentindo. Não têm hora marcada. Vão embora. Voltem ao buraco de onde saíram. Sabem que não podem estar aqui. — Por favor. Meu filho está aí dentro. Por favor. Essas palavras ricochetearam contra a porta, que se fechou com violência. Josef e sua mulher olharam desesperados a impenetrável fachada do hospital. Odile cambaleou, tonta e sem forças, e ele conseguiu segurá-la antes que ela caísse. — Vamos. Precisamos achar outra maneira de entrar. Rodearam o edifício e, assim que dobraram a esquina, Josef puxou sua mulher para trás. Uma porta acabava de se abrir, e um homem metido num capote pesado empurrava com grande esforço um carrinho cheio de lixo. Grudados à parede, Josef e Odile se esquivaram até a porta entreaberta, enquanto o homem se afastava rumo à parte dos fundos do hospital. Ao entrar, toparam com uma passagem de serviço que conduzia a um labirinto de corredores e escadas. Ao longo do trajeto ouviam-se prantos débeis e apagados, como se viessem de um mundo diferente. A mulher aguçou os ouvidos, tentando escutar a voz de seu filho, mas foi inútil. Percorreram o hospital sem encontrar vivalma. Josef precisou apertar o passo para seguir sua mulher, que, levada pelo instinto, atravessava os corredores quase sem vacilar a cada esquina. Encontraram um pavilhão escuro em forma de L, repleto de crianças em suas camas. Muitas estavam atadas com correias às cabeceiras, e soluçavam como cães encharcados. Um cheiro azedo flutuava no ambiente aquecido. A mãe começou a transpirar e a sentir alfinetadas nas articulações à medida que o calor voltava ao seu corpo, embora não desse importância a nenhuma dessas sensações. Seus olhos saltavam de um rosto ao seguinte, de um leito ao seguinte, buscando angustiados os traços do filho. — Aqui está o prontuário, doutor Graus. Josef e sua mulher trocaram um olhar de entendimento ao escutar o nome do médico que estavam procurando. O homem que tinha em suas mãos a vida do filho deles. Dobraram a esquina em passos rápidos, topando com um grupo de pessoas que rodeava um dos leitos. Um jovem louro, atraente, de jaleco, estava sentado junto à cama de uma menina de uns 9 anos. Acompanhavam-no uma enfermeira grandalhona, que segurava uma bandeja de instrumentos, e um médico de meia-idade que tomava notas com ar entediado. — Doutor Graus... — disse Odile, armando-se de coragem e avançando uns passos para o grupo. O jovem fez um gesto irritado com a mão aberta em direção à enfermeira, sem afastar o olhar daquilo que estava fazendo. — Agora não, por favor. A enfermeira e o médico dirigiram-lhes um olhar surpreso, mas guardaram silêncio. Odile observou o que acontecia sobre aquela cama e mordeu a língua para não gritar. A menina estava meio desmaiada e tão pálida quanto um quilo de farinha. Graus segurava um dos braços dela sobre um recipiente metálico, ao mesmo tempo em que lhe fazia pequenos cortes com um bisturi. Quase não restavam centímetros de pele sem receber o contato macabro da lâmina. O sangue fluía devagar e quase enchia o recipiente. Por fim, a menina deixou cair a cabeça para um lado. Com indiferença, Graus lhe colocou sobre o pescoço dois dedos finos e elegantes. — Bom, não tem pulso. Hora, doutor Stroebel. — Seis e trinta e sete. — Quase 93 minutos. Esplêndido! O indivíduo resistiu maravilhosamente desperto, embora com um nível baixo de consciência e sem sinais de dor. Sem dúvida, a mistura de láudano e estramônio é superior a tudo o que experimentamos até agora, Stroebel. Parabéns. Preparem o espécime para a dissecção. — Obrigado, herr doktor. Imediatamente. Só então o médico se virou para Josef e Odile. Em seus olhos havia uma mistura de enfado e desinteresse. — Quem são os senhores, afinal? A mulher deu um passo à frente e se colocou junto à cama, fazendo um esforço para não olhar o que haviaali em cima. — Meu nome é Odile Cohen, doutor Graus. Sou a mãe de Conrad Cohen. O médico olhou friamente para ela e depois para a enfermeira. — Tire estes judeus daqui, fräulein Ulrike. A enfermeira agarrou Odile pelo cotovelo e se interpôs entre ela e o doutor, empurrando-a com grosseria. Josef correu em socorro de sua esposa e debateu-se com a corpulenta mulher. Durante um instante, formaram um estranho trio de dança, empurrando em direções diferentes sem avançar em nenhuma. A cara de fräulein Ulrike ia ficando vermelha pelo esforço. — Doutor, tenho certeza de que houve um erro — disse Odile, lutando por despontar o pescoço sobre os largos ombros da enfermeira. — Meu filho não tem nenhuma doença mental. A mãe conseguiu escapulir do abraço da enfermeira e se aproximou do médico. — É verdade que ele fala pouco desde que perdemos nossa casa, mas não está louco. Está aqui por equívoco. Por favor. Se o senhor desse alta a ele, eu... Permita-me lhe oferecer a única coisa que nos resta. Depositou o pacote em cima da cama, procurando evitar que tocasse o cadáver, e abriu com cuidado os jornais que o cobriam. Mesmo com a luz fraca do pavilhão, um brilho dourado percorreu as paredes. — Está na família de meu marido há incontáveis gerações, doutor Graus. Eu preferiria morrer a me separar dela. Mas meu filho, doutor, meu filho... Nesse momento a senhora começou a chorar e caiu de joelhos. O jovem doutor quase não se deu conta disso, porque seu olhar estava fixo no objeto que havia em cima da cama. Seus lábios, porém, abriram-se pelo tempo suficiente para aniquilar a esperança do casal. — Seu filho está morto. Vão embora. Odile conseguiu se recobrar um pouco quando o frio da rua lhe bateu no rosto. Abraçou-se ao marido e caminhou depressa, mais consciente do que nunca do toque de recolher. Sua mente só conseguia pensar em voltar a tempo para junto de seu outro filho, que aguardava na outra ponta da cidade. — Corra, Josef, corra. Sobre a neve, os passos dos dois foram se acelerando cada vez mais. Em seu consultório do hospital, o doutor Graus desligou o telefone com ar ausente, acariciando com os dedos aquele estranho objeto. Nem sequer olhou pela janela quando, minutos depois, chegou aos seus ouvidos o som da sirene das viaturas das SS. Sua ajudante comentou alguma coisa sobre judeus fugitivos, mas ele não prestou atenção. Sua mente estava ocupada demais preparando a operação do pequeno Cohen. Dramatis Personæ SACERDOTES ANTHONY FOWLER, AGENTE DUPLO DA CIA E DA SANTA ALIANÇA. NORTE- AMERICANO. PADRE ALBERT, EX-HACKER. ANALISTA DE SISTEMAS DA CIA E INTERMEDIÁRIO COM A INTELIGÊNCIA VATICANA. NORTE-AMERICANO. RELIGIOSOS FREI CESÁRIO, DOMINICANO. CONSERVADOR DA SALA DAS RELÍQUIAS NO VATICANO. ITALIANO. CORPO DI VIGILANZA DELLO STATO DELLA CITTÀ DEL VATICANO CAMILO CIRIN, INSPETOR-GERAL. EM SEGREDO, É O CABEÇA DA SANTA ALIANÇA, O SERVIÇO DE ESPIONAGEM DO VATICANO. CIVIS ANDREA OTERO, REPÓRTER DO JORNAL EL GLOBO. ESPANHOLA. RAYMOND KAYN, MULTIMILIONÁRIO DONO DE UMA HOLDING EMPRESARIAL. NACIONALIDADE DESCONHECIDA. JACOB RUSSELL, ASSISTENTE EXECUTIVO DE KAYN. INGLÊS. ORVILLE WATSON, CONSULTOR SOBRE TERRORISMO E DONO DA GLOBALINFO. NORTE-AMERICANO. DOUTOR HEINRICH GRAUS, GENOCIDA NAZISTA. AUSTRÍACO. PESSOAL DA EXPEDIÇÃO MOISÉS CECYL FORRESTER, ARQUEÓLOGO ESPECIALIZADO EM TEMAS BÍBLICOS. NORTE- AMERICANO. DAVID PAPPAS, GORDON DURWIN, KYRA LARSEN, STOWE ERLING E EZRA LEVINE, ASSISTENTES DE CECYL FORRESTER. MOGENS DEKKER, CHEFE DE SEGURANÇA DA EXPEDIÇÃO. SUL-AFRICANO. ALDIS GOTTLIEB, ALRYK GOTTLIEB, TEWI WAAKA, PACO TORRES, LOUIS MALONEY E MARLA JACKSON, PELOTÃO DE DEKKER. DOUTORA HAREL, MÉDICA DA ESCAVAÇÃO. ISRAELENSE. TOMMY EICHBERG. MOTORISTA. TERRORISTAS Nazim e Kharouf, da célula de Washington. O., D. e W., das células da Síria e da Jordânia. Huqan (seringa), cabeça das três células. RESIDÊNCIA DE HEINRICH GRAUS Steinfeldstraße, 6 Krieglach, Áustria Quinta-feira, 15 de dezembro de 2005. 11h42 O sacerdote limpou cuidadosamente os pés no capacho, antes de bater à porta do monstro. Vinha procurando-o havia quase quatro meses, e ficara quase duas semanas vigiando desde que localizou seu esconderijo. Agora estava seguro da identidade do homem, e chegara o momento de enfrentá- lo. Esperou com paciência durante longos minutos. Graus sempre demorava a abrir a porta, por volta do meio-dia, provavelmente porque fazia uma breve sesta no sofá. Àquela hora, quase nunca havia alguém na estreita rua de pedestres. Os bons vizinhos da Steinfeldstraße estavam trabalhando, alheios ao fato de que no número 6, numa casinha pequena com cortinas azuis nas janelas, um genocida dormitava diante do televisor. Finalmente o ruído dos ferrolhos anunciou que a porta se abria. A cabeça de um ancião de aspecto venerável, como o vovô de um anúncio de bombons, surgiu pela abertura. — Pois não? — Bom dia, herr doktor. O velho examinou de alto a baixo o seu interlocutor. Era um sacerdote de seus 50 anos, alto, magro e calvo, trajando um clergyman e um sobretudo pretos. Erguia-se diante da porta com a altivez de um poste de olhos verdes. — Acho que está enganado, padre. Eu era encanador e agora estou aposentado. Além disso, já contribuí para a paróquia. Portanto, com sua licença... — Por acaso o senhor não é Heinrich Graus, o famoso neurocirurgião austríaco? O ancião parou de respirar por um segundo. Afora esse momento, não houve em sua atitude um só gesto, um só detalhe, que o delatasse. Mas, para o sacerdote, já era suficiente. Era sua prova definitiva. — Meu sobrenome é Handwurz, padre. — Não é verdade, e nós dois sabemos disso. E agora, se me deixar entrar, poderei mostrar o que lhe trouxe — disse o outro, erguendo a mão esquerda, na qual carregava uma maleta preta. Como única resposta, a porta se abriu, e o velho coxeou ligeiramente até a cozinha. As tábuas do piso decrépito protestavam à sua passagem. O sacerdote foi atrás dele, sem prestar grande atenção ao ambiente. Havia espiado pelas janelas em três ocasiões, e por isso conhecia em detalhes a distribuição dos móveis baratos. Preferiu cravar seu olhar nos ombros do velho nazista. Embora este caminhasse vacilante, como se lhe custasse andar, o padre o vira levantar sacos de carvão no telheiro do jardim com uma facilidade que deixaria invejoso um homem cinquenta anos mais jovem. Heinrich Graus continuava sendo muito perigoso. A pequena cozinha era um aposento escuro, com cheiro de carne de porco. Sobre a bancada, uma cebola ressequida. O mobiliário consistia em um fogão a gás, uma mesa redonda e duas cadeiras descombinadas. Com um gesto educado, Graus lhe indicou uma delas. Circulou entre os armários e colocou dois copos d’água sobre a mesa antes de se sentar por sua vez. Os copos d’água ficaram intactos sobre o tampo de pinho, tão impassíveis quanto os dois homens, que ficaram se estudando mutuamente durante mais de um minuto. O velho usava um roupão de flanela vermelha, camisa de algodão e uma calça desgastada. Seus cabelos tinham começado a rarear vinte anos antes, e os poucos que restavam eram completamente brancos. Os grandes óculos arredondados haviam saído de moda antes da derrocada do comunismo. E o lábio inferior, meio caído, produzia uma falsa impressão bonachona. Nada disso enganou o sacerdote. Os tímidos raios do mês de dezembro criavam entre a janela e a mesa um corredor de luz no qual se viam flutuar milhares de partículas de poeira. Uma delas pousou numa das elegantes mangas do traje. O sacerdote a removeu com um piparote, sem olhá-la. Ao nazista, não passou despercebida a segurança inquebrantável daquele gesto. Mas ele tivera tempo para se recobrar, de modo que voltou a se escudar na indiferença. — Não vai beber nada, padre? — Não estou com sede, doutor Graus. — Com que, então, insiste em me chamar por esse sobrenome. Mas é Handwurz. Eu me chamo Baltasar Handwurz. O sacerdote não lhe fez o menor caso. — Devo reconhecer que o senhor foi muito hábil. Quando conseguiu o passaporte para fugir para a Argentina, ninguémimaginou que, meses depois, retornaria a Viena. Foi o último lugar onde o procurei, é claro. A apenas 70 quilômetros de Spiegelgrund. Enquanto isso, Wiesenthal investigava durante anos na Argentina, sem saber que o senhor estava próximo do escritório dele, a um reles trajeto de carro. Não acha irônico? — Acho ridículo. O senhor é americano, não é? Fala alemão muito bem, mas o sotaque o delata. O padre colocou a maleta em cima da mesa, sem desviar do outro o olhar, e dali extraiu uma pasta muito manuseada. De todos os documentos que havia ali dentro, o primeiro era uma fotografia de Graus jovem, tirada no hospital de Spiegelgrund durante a guerra. O segundo era uma variação da foto, na qual se via o médico já ancião, graças a um software de envelhecimento. — Não lhe parece que a tecnologia é maravilhosa, herr doktor? — Isso não prova nada. Qualquer um poderia fazê-lo. Eu vejo televisão, sabia? — Mas seu tom de voz dizia outra coisa. — Tem toda a razão, não prova nada. Mas isto aqui, sim. O sacerdote colocou sobre a mesa uma folha de papel amarelada, à qual alguém havia grampeado uma fotografia em preto e branco. Coroavam o texto umas letras em sépia, Testimonianza Fornita, e o selo do Estado do Vaticano. — “Baltasar Handwurz. Cabelo louro, olhos castanhos, compleição forte. Sinais particulares de identidade, uma tatuagem no braço esquerdo com o número 256441. Realizada pelos nazistas durante sua estada no campo de concentração de Mauthausen.” Um lugar onde, com certeza, o senhor nunca pôs os pés. O número era falso. O tatuador o inventou na hora, mas isso era o de menos. Funcionou. O velho acariciou o braço esquerdo por cima do roupão de flanela. Estava lívido de raiva e medo. — Quem diabos é o senhor, maldito seja? — Eu me chamo Anthony Fowler e quero lhe propor um acordo. — Saia da minha casa. Vá embora. — Acho que não lhe ficou suficientemente claro. O senhor foi o segundo no comando no Hospital Infantil AM Spiegelgrund durante seis anos. Um lugar muito interessante. Quase todos os pacientes eram judeus e tinham enfermidades mentais. “Vidas indignas da vida.” Não foi assim que os chamou? — Não faço a mínima ideia do que o senhor está falando! — Ninguém suspeitou de suas atividades naquele lugar. Os experimentos. As dissecções em vida. Setecentas e catorze crianças, doutor Graus. Matou 714 com suas próprias mãos. — Eu já lhe disse que... — Guardou os cérebros desses meninos em frascos! Fowler deu um soco na mesa, tão forte que os dois copos viraram e o líquido deslizou para o piso da cozinha. Durante dois longos segundos, só se ouviu o ruído da água gotejando sobre os ladrilhos. Ele respirou devagar, tentando se acalmar. O médico evitou aqueles olhos verdes que pareciam querer atravessá-lo de um lado a outro. — O senhor está com os judeus? — Não, Graus. Sabe perfeitamente que não. Se eu fosse um deles, o senhor estaria pendurado numa forca em Tel Aviv. Minha... filiação está com aqueles que lhe facilitaram a fuga em 1946. O médico reprimiu um calafrio. — A Santa Aliança — murmurou. Fowler não respondeu. — E o que a Aliança quer de mim, depois de tantos anos? — Algo que o senhor possui. O nazista fez um gesto ao redor. — Como é óbvio, eu não nado exatamente na abundância. Já não me resta dinheiro. — Se eu quisesse dinheiro, iria vendê-lo à promotoria de Stuttgart. Continuam oferecendo 130 mil euros pela sua captura. O que eu quero é a vela. O nazista o encarou, fingindo perplexidade. — Que vela? — Agora, o ridículo é o senhor, doutor Graus. A vela que o senhor roubou da família Cohen, há 62 anos. Um círio pesado, sem pavio, recoberto por filigrana de ouro. Eu a quero, e quero agora. — Vá contar suas mentiras em outro lugar. Não tenho vela nenhuma. Fowler suspirou, fez um gesto de enfado, recostou-se um pouco na cadeira e apontou os copos, virados e vazios. — Tem algo mais forte? — Atrás do senhor — disse Graus, apontando a prateleira da cozinha. O sacerdote se virou e alcançou uma garrafa meio cheia. Endireitou os copos e serviu dois dedos de um líquido amarelo brilhante. Ambos o tomaram de um só trago. Nenhum dos dois brindou. Fowler pegou de novo a garrafa, serviu outra rodada e começou a beber em pequenos goles, enquanto falava. — Weizenkorn. Aguardente de milho. Fazia muito que eu não a experimentava. — Com certeza, não sentia falta. — Em absoluto. Mas é barato, não? Como resposta, Graus deu de ombros. O padre o apontou com o dedo. — Um homem como o senhor, Graus. Brilhante. Vaidoso. Escolheu isto. Envenenar-se pouco a pouco em um buraco sujo, com cheiro de urina. E quer saber? Eu o entendo. — Entende o quê? — Admirável. Ainda se lembra das técnicas do Reich. Regulamento de oficiais, terceira seção: “Em caso de captura pelo inimigo, negue tudo e dê apenas respostas curtas, que não o comprometam.” Pois fique sabendo, Graus: está comprometido até o pescoço. O velho fez uma careta e serviu-se do resto da bebida. Fowler estudava com atenção a linguagem corporal dele a cada frase, analisando como a firmeza do monstro se quebrava lentamente. Era como um pintor que, após umas 12 pinceladas, retrocede um passo para contemplar como a imagem começa a aparecer na tela, antes de decidir que cor vai aplicar em seguida. Decidiu-se por molhar o pincel na verdade. — Veja minhas mãos, doutor — disse Fowler, estendendo-as sobre a mesa. Eram mãos rugosas, de dedos finos. Nada tinham de estranho, exceto por um pequeno detalhe. Na primeira falange de cada dedo, perto dos nós, havia uma finíssima linha esbranquiçada, muito reta, que continuava em ambas as extremidades. — Uma cicatriz feia. Quantos anos tinha quando a obteve? Dez, 11? — Doze. Estava ensaiando no piano: Prelúdio do Opus 28 de Chopin. Meu pai se aproximou de mim e, sem avisar, baixou a tampa do Steinway com toda a força. Não perdi os dedos por milagre, mas nunca pude voltar a tocar. O sacerdote pegou de novo seu copo, antes de continuar, e deixou que sua vista se perdesse no conteúdo. Nunca havia sido capaz de reconhecer aquilo fitando outro ser humano nos olhos. — Meu pai... me forçou várias vezes, desde que eu tinha 9 anos. Naquele dia, eu tinha ameaçado contar tudo a alguém, se ele voltasse a fazer isso. Ele não me ameaçou. Simplesmente, me destruiu as mãos. Depois chorou, me pediu perdão e trouxe os melhores médicos que o dinheiro podia pagar. Ah, ah, ah. Nem pense nisso. Graus havia deslizado o braço por baixo da mesa, tentando alcançar a gaveta dos talheres. Retirou a mão instantaneamente. — Por isso é que eu o entendo, doutor. Meu pai era um monstro, cuja culpa ultrapassava sua própria capacidade de perdão. Mas ele foi mais valente. Acelerou no meio de uma curva muito fechada, levando consigo minha mãe. — História comovente, padre — disse Graus, em tom zombeteiro. — Acha mesmo? O senhor tem vivido todos estes anos fugindo de seus crimes. Bom, pois estes o encontraram. E eu vou lhe dar o que meu pai não teve: uma oportunidade. — Estou ouvindo. — Entregue-me a vela. Em troca, receberá esta pasta com todos os documentos que o condenariam. E poderá continuar se escondendo aqui até o fim de seus dias. — É só isso? — disse o velho, incrédulo. — No que se refere a mim, é. O velho balançou a cabeça e se levantou, rindo disfarçadamente. Abriu um dos armários e tirou dali um pote de vidro de bom tamanho, cheio de arroz. — Nunca aguentei as gramíneas. Elas me causam azia. Esvaziou o pote sobre a mesa. Uma cascata de grãos, nuvens de amido e um ruído seco. Meio coberto pelo arroz, um pacote. Fowler se inclinou para o objeto, mas a garra ossuda de Graus lhe segurou o pulso. O sacerdote o encarou. — Tenho sua palavra, não? — perguntou o velho, ansioso. — Ela lhe vale de alguma coisa? — No que se refere a mim, vale. — Então a tem. O médico relaxou a pressão e Fowler continuou seu movimento. Afastou devagarinho o arroz e levantou o pacote de tecido escuro. Estava atado com cordões. Ele desfez os nós calmamente, com mão firme. As do velho tremiam. Fowler desdobrou o tecido. Os raios tênues do começo doinverno austríaco levantaram cintilações douradas na cozinha imunda. Aquele resplendor não estava em consonância com o lugar, como o estava a cera acinzentada e suja do grosso círio que jazia sobre a mesa. Tempos atrás, toda a sua superfície estivera recoberta por uma fina lâmina de ouro de intricado desenho. O metal precioso havia quase desaparecido, deixando marcas da filigrana sobre a cera. Restava menos de um terço de ouro sobre ela. Graus riu, sombrio. — A casa de penhores foi ficando com o resto, padre. Fowler não respondeu. Puxou do bolso da calça um isqueiro Zippo e o acendeu com a mesma mão. Colocou a vela de pé e aproximou a chama da extremidade superior. Embora não houvesse pavio, o calor da chama começou a derreter lentamente a cera, que emitiu um odor enjoativo enquanto gotas de cinza derretida resvalavam até a mesa. Graus continuou mastigando suas ácidas ironias enquanto contemplava o processo, como se tivesse prazer em comentar com alguém sua verdadeira identidade, depois de tantos anos. — Realmente me diverte. O judeu da casa de penhores andou comprando pedaços de ouro judeu durante anos para manter um orgulhoso membro do Reich. E agora o senhor contempla o resultado de uma busca inútil. — As aparências enganam, Graus. O ouro desta vela não é o tesouro que estou buscando. É só uma distração para imbecis. Como um alerta, a chama crepitou nas mãos do sacerdote. No tecido ia se formando um charco e, na parte superior da vela, um considerável buraco. No centro desse vulcão de cera líquida, apareceu a borda esverdeada de um objeto metálico. — Bom, aqui está — disse o sacerdote. — Já posso ir embora. Fowler se levantou e voltou a dobrar o tecido sobre a vela, tomando cuidado para não se queimar. O nazista o observava, assombrado. Já não ria. — Espere. O que é isto? O que havia aí dentro? — Nada que seja da sua conta. O velho se levantou e remexeu na gaveta, da qual puxou uma faca de cozinha. Com passos trêmulos, contornou a mesa em direção ao sacerdote, que olhou para ele sem se mover. Nos olhos do nazista ainda ardia o fogo obsessivo de quem havia passado noites inteiras contemplando aquele objeto. — Eu tenho que saber. — Não, Graus. Fizemos um trato. A vela em troca da pasta, e é o que o senhor terá. O velho ergueu a mão com a qual segurava a faca, mas o que viu no rosto de seu incômodo visitante o fez baixá-la de volta. Fowler lançou a pasta sobre a mesa. Devagar, com o volume de tecido em uma mão e a maleta na outra, retrocedeu até a porta da cozinha, sem parar de olhar o nazista. Este pegou a pasta. — Não existem cópias, certo? — Só uma. Está com os judeus que esperam lá fora. Os olhos de Graus pareceram sair das órbitas. Ele empunhou de novo a faca e deu um passo em direção ao padre. — O senhor mentiu! Disse que me daria uma oportunidade! Fowler o encarou, impassível, pela última vez. — Deus me perdoará. O senhor acha que terá tanta sorte? E, sem dizer mais nada, desapareceu pelo corredor. O sacerdote saiu à rua e começou a se afastar, com o precioso pacote de tecido apertado contra o peito. A poucos metros da porta, dois homens de casaco cinza aguardavam com determinação. Fowler lhes avisou ao passar: — Ele tem uma faca. O mais alto dos dois estalou os dedos e lhe dedicou meio sorriso. — Tanto melhor. (Notícia publicada no jornal El Globo, 17 de dezembro de 2005. Página 12) Encontrado morto o Herodes austríaco VIENA (Agências). Depois de se esquivar da justiça durante mais de cinquenta anos, o doutor Graus, o carniceiro de Spiegelgrund, foi finalmente encontrado pela polícia austríaca. O célebre criminoso de guerra nazista apareceu morto em uma pequena casa de Krieglach, uma aldeia a 60 quilômetros de Viena, tudo indica que de um ataque cardíaco, segundo ressaltaram fontes judiciais. Nascido em 1915, Graus se filiou ao partido nazista em 1931. No início da Segunda Guerra Mundial, já era o segundo no comando do Hospital Infantil AM Spiegelgrund. Graus utilizou sua posição para realizar todo tipo de experiências desumanas com crianças judias supostamente problemáticas ou deficientes mentais. Em muitas ocasiões, afirmou que a conduta desses meninos era causada pela herança genética e que a experimentação com eles era lícita, já que viviam “vidas indignas da vida”. Graus inoculava crianças saudáveis com bactérias de doenças infecciosas, realizava dissecções em vida ou injetava em suas vítimas, para medir as reações à dor, diversas fórmulas de um anestésico que estava desenvolvendo. Acredita-se que mil assassinatos ocorreram entre as paredes do Spiegelgrund durante a guerra. Terminado o conflito, o nazista fugiu sem deixar outros rastros além de trezentos cérebros infantis conservados em formol dentro de seu consultório. Apesar dos esforços da justiça alemã, ninguém conseguiu localizá-lo. O famoso caçador de nazistas Simon Wiesenthal, que conseguiu levar perante a justiça mais de 1.100 criminosos de guerra, ansiou até sua morte por encontrar Graus, a quem denominou sua “questão por resolver” e a quem procurou de maneira incessante pela América do Sul. Wiesenthal faleceu três meses atrás em Viena, ignorando que seu perseguido vivia oculto, como encanador aposentado, a pouca distância de seu escritório. Fontes não oficiais da embaixada israelense em Viena lamentaram que Graus tenha morrido sem responder pelos seus crimes, mas comemoraram o fato de o velho nazista morrer repentinamente, já que sua idade avançada complicaria muito seu julgamento e sua extradição, como ocorreu com o ditador chileno Augusto Pinochet. “Não podemos deixar de ver a mão do Criador em sua morte”, afirmaram essas mesmas fontes. KAYN — Está lá embaixo, senhor. O homem da poltrona se encolheu um pouco. Sua mão tremia, mas o movimento oscilante teria sido praticamente imperceptível para qualquer um que não o conhecesse tão bem como seu assistente. — Como é ele? Foi investigado a fundo? — O senhor sabe que sim. Houve um suspiro sonoro. — Sim, Jacob. Você tem que me desculpar. — O homem se levantou da poltrona enquanto falava, apertando com tanta força o controle remoto com o qual comandava todo o seu aposento que os nós de seus dedos estavam brancos. Havia quebrado assim vários controles, até que seu assistente se cansou e encomendou um especial, fabricado em metacrilato reforçado, com a forma da mão do velho. — Meu comportamento deve ser maçante para você. Lamento. O assistente não respondeu. Sabia que seu chefe precisava desabafar. Era um homem humilde com uma grande consciência de si mesmo, se é que tais conceitos são compatíveis. — Para mim é doloroso ficar sentado aqui o dia inteiro, sabe? Cada vez encontro menos prazer no cotidiano. Droga de idiota senil, este em que me transformei. Todo dia, ao ir dormir, digo a mim mesmo: amanhã. Amanhã será o dia. Depois me levanto e a resolução desapareceu, como meus dentes. — Será melhor começarmos, senhor — disse o assistente, que já escutara dezenas de variantes desse discurso. — É imprescindível? — Foi o senhor quem pediu. Um método para controlar o cabo solto. — Eu poderia me limitar a ler o informe. — Não se trata só disso. Já estamos na fase quatro. Se quiser fazer parte da Expedição, o senhor tem que começar a ver pessoas desconhecidas. O doutor Hocher foi muito claro a respeito. O velho apertou uma série de botões na tela táctil de seu controle. As persianas da sala desceram. As luzes se apagaram, e ele voltou à sua poltrona. — Não há outro remédio? Seu subordinado negou com a cabeça. — De acordo, então. O assistente se dirigiu para a porta, pela qual entrava toda a luz que havia agora no aposento. — Jacob? — Pois não, senhor? — Antes de sair... você se importaria de segurar minha mão por uns momentos? Estou assustado. O assistente o atendeu. A mão tremia. ESCRITÓRIO CENTRAL DAS INDÚSTRIAS KAYN Nova York Quarta-feira, 5 de julho de 2006. 11h10 Orville Watson deu umas palmadinhas inquietas na volumosa pasta de couro que repousava em cima de suas pernas. Fazia mais de duas horas que estava sentado sobre seu arredondadotraseiro naquela antessala do 38o andar da Kayn Tower. À razão de 3 mil dólares por hora de consultoria, qualquer outro esperaria até pelo Juízo Final. Mas não Orville. O jovem californiano começava a se entediar. Afinal, a luta contra o tédio havia sido o motor de sua carreira. Entediava-se na universidade, e por isso abandonou os estudos no segundo ano, contra a opinião da família. Conseguiu trabalho e um bom salário na CNET, uma das companhias de ponta em novas tecnologias, e mais uma vez o tédio abriu caminho. Orville buscava constantemente novos e excitantes desafios. Responder a perguntas era sua autêntica paixão. Visão empresarial não lhe faltava, e, com o alvorecer do novo século, deixou seu emprego para fundar sua própria start-up. Orville não se deteve nem mesmo com todas as objeções de sua mãe, que diariamente lia nos jornais sobre o fracasso das ponto.com. Meteu seus 104 quilos, seu louro rabo de cavalo e uma mala de roupa em uma caminhonete desconjuntada e cruzou o país até um subsolo de Manhattan. Ali nasceu a GlobalInfo. Seu slogan era “você pergunta, nós respondemos”. Podia ter ficado no sonho louco de um garoto com um grave distúrbio alimentar, inquietações demais e uma grande habilidade para dominar o ciberespaço e compreender como funciona a Rede. Então aconteceu o 11 de Setembro, e Orville compreendeu, ao mesmo tempo que os burocratas de Washington, três coisas cuja pesquisa custara a eles alguns anos. A primeira, que os modos de gestão da informação estavam obsoletos havia trinta anos. A segunda, que o novo clima de correção política imposto por oito anos de administração Clinton dificultava ainda mais a busca de dados, já que só se podia contar com “fontes de boa reputação”, o que, para tratar com terroristas, é absurdo. E a terceira, que o idioma árabe era o novo russo em questões de espionagem internacional. A mãe de Orville, Yasmina, nascera e vivera muitos anos em Beirute, antes de se casar com um engenheiro bonitão de Sausalito que desenvolvia um projeto no Líbano e com quem ela logo se mudou para os Estados Unidos. A nostálgica Yasmina tinha educado o fruto dessa união em inglês e em árabe. Adotando múltiplas identidades falsas na Rede, o jovem descobriu que a internet era o paraíso dos extremistas. Não importava quão distantes estivessem entre si dez radicais: na Web, sua distância era de escassos milissegundos e seu anonimato, completo. Não importava quão sectárias fossem as ideias deles: ali encontravam quem pensava da mesma maneira. Em poucas semanas, Orville conseguiu algo que nenhum sistema de inteligência ocidental obteria por seus próprios meios: infiltrar-se nas redes mais radicais do terrorismo islâmico. Numa manhã do início de 2002, Orville se encaminhou para o sul, rumo a Washington, com quatro caixas repletas de papéis no bagageiro. Bateu à porta do quartel-general da CIA e pediu para falar com um responsável pelo assunto de terrorismo islâmico, alegando ter informações importantes. Na mão, levava dez folhas que resumiam suas descobertas. O obscuro analista que o atendeu obrigou-o a esperar duas horas, antes de se dar ao trabalho de ler o informe. Quando o fez, chamou, alarmado, seu supervisor. De repente, quatro homens se lançaram em cima de Orville, derrubaram-no, despiram- no e o jogaram numa sala de interrogatórios. Orville sorria por dentro, durante o humilhante processo. Tinha acertado na mosca. Quando tomaram consciência da magnitude do talento dele, os manda- chuvas da CIA lhe ofereceram um emprego na Companhia.1 Orville se limitou a dizer-lhes que o conteúdo daquelas quatro caixas (que possibilitou 23 detenções nos Estados Unidos e na Europa) era apenas uma amostra grátis. Se quisessem mais, dali para a frente deveriam contratar os serviços de sua nova empresa, a GlobalInfo. — A preços exorbitantes, devo acrescentar. Podem devolver minha cueca, por favor? Quatro anos e meio depois, Orville havia engordado outros cinco quilos, embora seguisse obstinadamente a dieta Atkins, ou talvez por isso mesmo. Sua conta-corrente também havia engordado. A GlobalInfo empregava agora 17 pessoas que elaboravam refinadas análises e buscas de informação para os principais governos do mundo ocidental, quase sempre relacionadas com assuntos de segurança. Orville Watson era agora milionário, e começava a se entediar outra vez. Até que chegou aquela encomenda. A GlobalInfo tinha uma norma. Todos os pedidos que eles recebiam deviam ser realizados em forma de pergunta. E aquela pergunta em especial, unida às palavras “orçamento ilimitado” e ao fato de provir de uma empresa privada, e não do governo de um país, tinha despertado sua curiosidade. Quem é o padre Anthony Fowler? Orville se levantou do sofá caríssimo no qual esperava, para alongar um pouco os músculos. Juntou as mãos e esticou os braços para trás tanto quanto pôde. Um pedido de informação por parte de uma empresa privada, sobretudo de uma como as Indústrias Kayn, que constava das cem primeiras da lista Fortune 500, era incomum. Especialmente um pedido tão concreto, estranho, sobre aquele simples sacerdote de Boston. Sobre aquele que parecia um simples sacerdote de Boston, corrigiu-se Orville mentalmente. A entrada na antessala de um jovem moreno e musculoso, vestido num elegante terno de Carolina Herrera, pegou-o de surpresa, em pleno processo de estiramento dos membros superiores. O executivo, que mal chegava aos trinta, fitou-o muito sério, por trás de seus óculos de armação sem aro. O tom alaranjado de sua pele o delatava como assíduo usuário dos raios UVA. Falou com um sotaque britânico tão caprichado quanto o de um locutor da BBC. — Senhor Watson, eu sou Jacob Russell, assistente executivo de Raymond Kayn. Nós nos falamos por telefone. Orville tentou recompor sua figura, com escasso êxito, e lhe estendeu a mão. — Muito prazer, senhor Russell. Lamento por... — Não tem importância. Venha comigo, por favor. Vou levá-lo até sua reunião. Ambos atravessaram a antessala acarpetada até umas portas cor de mogno no fundo do aposento. — Reunião? Achei que exporia ao senhor as minhas conclusões. — Bem, não será assim, senhor Watson. Seu ouvinte de hoje será Raymond Kayn. Orville ficou mudo. — Algum problema, senhor Watson? Sente-se mal? — Sim. Não. Quero dizer, não há nenhum problema, senhor Russell. Simplesmente, estou muito surpreso. O senhor Kayn... Russell puxou uma pequena saliência na moldura da porta de mogno, na qual havia uma portinhola dissimulada. Atrás havia uma simples placa de vidro escuro. O executivo colocou sua mão direita sobre a placa, que emitiu uma luz alaranjada. A porta de mogno se desbloqueou com um zumbido. — Compreendo seu espanto, depois do que os meios de comunicação contaram sobre ele. Como o senhor provavelmente sabe, meu chefe é uma pessoa muito zelosa de sua intimidade... É um ermitão fodido, isso é o que ele é, pensou Orville. — ... mas isso não deve intimidá-lo. Não é habitual que ele queira ver pessoas a quem não conhece, mas, se o senhor seguir certas normas... Chegaram a um corredor acarpetado, muito estreito, ao fim do qual apareciam as reluzentes portas metálicas de um elevador. — O que significa isso de não ser habitual, senhor Russell? O executivo pigarreou, constrangido. — Devo lhe dizer que o senhor é a quarta pessoa, além dos altos executivos desta empresa, com quem o senhor Kayn se encontra pessoalmente ao longo dos três anos em que venho trabalhando para ele. Orville soltou um assovio desafinado, de puro desconcerto. — Não diga. Chegaram junto do elevador. Não havia botão de chamada, mas só, ao lado, um painel alfanumérico. — Vire-se de costas, senhor Watson, por gentileza — disse Russell, apontando o painel com um gesto. O jovem californiano obedeceu. Um interminável repicar de bipes lhe indicou que o assistente estava introduzindo a senha. — Pode se virar. Obrigado. Orville virou a cabeça. A porta do elevador se abriu, e os dois entraram. No interior do elevador não havia botões, mas só um leitor magnético de cartões. Russellsacou um retângulo de plástico e deslizou-o pelo leitor. As portas da cabine se fecharam e o elevador se movimentou suavemente. — Parece que seu chefe leva muito a sério a segurança — disse Orville. — O senhor Kayn já recebeu numerosas ameaças de morte. Alguns anos atrás, até sofreu um grave atentado, do qual teve a sorte de sair ileso. Por favor, não se alarme com a nuvem. É absolutamente normal. Orville estava se perguntando de que, com todos os demônios, Russell estava falando, quando uma miríade de gotas minúsculas desceu do teto. Levantou o olhar e viu que na parte superior do elevador havia vários nebulizadores, que cobriram os dois homens com uma nuvem fresca. — E isto, agora? — Apenas um leve composto antibiótico, absolutamente inofensivo para sua saúde. Gostou do cheiro? Que diabo, ele até pulveriza os visitantes antes de vê-los, para não se contaminar. Retifico. Esse sujeito não é um ermitão, é um paranoico. — Hummm, sim, claro. Menta, não? — Essência de menta silvestre. Refrescante. Orville mordeu os lábios para não responder como queria. Obrigou-se a pensar na fatura de sete cifras que ia cobrar quando saísse daquela jaula dourada. Isso o animou um pouco. O elevador se abriu para um espaço diáfano, cheio de claridade. Metade do 39o andar era um gigantesco mirante com paredes de vidro, cuja vista dava para o rio Hudson. Na frente e atrás, Hoboken, e na direção sudeste, Ellis Island. — Impressionante. — Meu chefe gosta de recordar suas origens. Venha comigo, por favor. Uma decoração simples contrastava com a magnificência do panorama. O piso e os poucos móveis eram de cor branca. A outra metade do andar, a que dava para o interior de Manhattan, era separada do mirante por uma parede também branca, na qual se abriam várias portas. Russell se deteve a poucos passos de uma delas. — Bem, senhor Watson, o senhor Kayn vai recebê-lo agora. Mas, antes que entre, eu gostaria de lembrar algumas normas simples para sua entrevista. Primeiro, não o olhe diretamente. Segundo, não lhe faça perguntas. E, terceiro, não tente tocá-lo ou aproximar-se dele. Ao entrar na sala, verá uma mesinha com uma cópia de seu informe e um controle remoto. Esse aparelho comanda a apresentação em Power Point que seu escritório nos mandou esta manhã. Mantenha-se junto à mesinha, faça sua exposição e saia quando tiver terminado. Estarei à sua espera aqui fora. Compreendeu? Orville concordou, meio nervoso. — Farei o melhor que puder. — Adiante, então — disse Russell, abrindo-lhe a porta. O jovem californiano se deteve antes de cruzar o umbral. — Ah, só mais uma coisa. A GlobalInfo descobriu algo interessante durante a investigação rotineira que fazíamos para o FBI. Certos indícios fazem supor que as Indústrias Kayn poderiam ser alvo de terroristas islâmicos. Está tudo aqui — disse Orville, estendendo um DVD ao assistente. Este o recebeu com ar preocupado. — Considere isto uma cortesia de nossa parte. — Muito obrigado, senhor Watson. Boa sorte. 1 Nome pelo qual é conhecida a CIA nos círculos de inteligência. (N. do A.) HOTEL LE MÉRIDIEN Amã, Jordânia Quarta-feira, 5 de julho de 2006. 18h11 Enquanto isso, do outro lado do mundo, Tahir Ibn Faris, funcionário do Ministério da Indústria, saía de seu escritório mais tarde que o habitual. O motivo não era sua dedicação ao trabalho — por sinal, exemplar —, mas a intenção de evitar olhares indiscretos. Demorou menos de dois minutos para chegar ao seu destino, que desta vez não era a parada do ônibus, como sempre, mas o luxuoso Le Méridien, o melhor hotel cinco estrelas da Jordânia e alojamento temporário de dois cavalheiros que haviam solicitado vê-lo por intermédio de um conhecido industrial da capital. Infelizmente, a fama do industrial não vinha de negócios muito limpos ou muito claros. Por isso, Tahir sabia que aquele convite para tomar um café podia significar algo mais nebuloso. E, embora tivesse se orgulhado, durante seus 23 anos no ministério, de agir com a máxima honradez, ele começava a desejar ter menos orgulho e mais ativos negociáveis. O motivo era o iminente casamento de sua filha mais velha, com os gastos — enormes — que acarretaria. A caminho de uma das suítes executivas, Tahir examinou seu reflexo no espelho do elevador e desejou ter um jeitão de homem ambicioso. Mal chegava a um metro e setenta, e a barriga, a barba grisalha e um começo de careca mais sugeriam um bebum boa-praça do que um funcionário corrupto. E ele queria apagar de sua aparência até o último traço de incorruptibilidade. Porém, o que mais de duas décadas de honradez não podiam era gerar um caráter de acordo com as presentes circunstâncias. Enquanto seu dono batia à porta da suíte, os joelhos do insignificante funcionário pareciam querer formar seu próprio duo de percussão. Somente um instante antes de entrar foi que ele conseguiu ficar mais calmo. Um americano bem-vestido, que aparentava ter 50 anos, deu-lhe as boas-vindas. Outro um pouco mais jovem o esperava sentado no espaçoso salão, fumando e falando ao celular. Ao vê-lo entrar, desligou e se levantou para recebê-lo. — Ahlan wa sahlan — seja bem-vindo, em perfeito árabe. Tahir se surpreendeu. Todas as vezes em que havia recusado subornos para requalificação de terrenos de uso industrial e comercial em Amã — a autêntica mina de ouro de seus colegas menos escrupulosos —, não o fizera somente por senso de dever e de compromisso, mas também por causa da insultuosa prepotência dos ocidentais quando, três minutos depois de conhecê-lo, jogavam maços de dólares em cima da mesa. A conversa com os dois americanos não podia ser mais diferente. Ante os olhos incrédulos de Tahir, o mais velho se sentou diante de uma mesa baixa na qual estavam preparadas quatro dellas, as cafeteiras beduínas, e um pequeno braseiro. Com mão ágil, torrou uns grãos frescos de café numa frigideira de ferro e os deixou esfriar. Depois triturou o café recém-torrado, junto com grãos mais maduros, no mahbash, um pequeno almofariz. Uma agradável conversa sobre temas banais acompanhou todo o processo, exceto nos momentos em que a mão do almofariz golpeava ritmicamente o fundo, já que esse som é considerado música pelos árabes, e o convidado deve apreciá-lo com encantamento artístico. O americano acrescentou sementes de cardamomo e uma pitada invisível de açafrão à mistura e cozinhou-a seguindo a tradição centenária nos mínimos detalhes. Tahir segurou educadamente a xícara sem asas enquanto o americano a enchia até a metade — é privilégio do anfitrião servir primeiro a pessoa mais importante do aposento — e sorveu a beberagem, ainda meio cético quanto ao resultado. Não pretendia consumir mais do que uma xícara, pois para ele já era tarde, mas, depois de prová-la, tomou regozijado outras quatro. E teria tomado uma sexta, se as regras de cortesia não considerassem de má educação ingerir um número par de rodadas. — Senhor Fallon, eu jamais imaginaria que alguém nascido no país da Starbucks pudesse executar com tanta mestria o ritual beduíno do gahwa — disse Tahir, que já se encontrava muito a gosto e pretendia deixar isso claro, para saber o que diabos os americanos queriam dele. O mais jovem dos anfitriões lhe estendeu pela enésima vez uma cigarreira de ouro. — Meu caro Tahir, pare de nos chamar pelos sobrenomes, por favor. Eu sou Peter, e ele é Frank. Só isso — disse, acendendo o enésimo Dunhill. — Obrigado, Peter. — Bem, Tahir, agora que relaxamos, o senhor consideraria muito grosseiro de minha parte se falássemos de negócios? O funcionário se surpreendeu. Tinham passado quase duas horas. O árabe detesta começar com assuntos sérios antes de meia hora, mas, ainda assim, o americano mais velho lhe pedia permissão cortesmente. Naquele momento, sentiu que requalificaria para ele até mesmo o palácio do rei Abdullah. — Em absoluto, meu amigo. — Então vou dizer do que precisamos. Uma licença de exploração de fosfatos para a Kayn Mining Co., com validade de um ano a partir de hoje. — Não será simples, meu amigo. Quase todo o litoral do mar Morto estáocupado pelas indústrias locais. Como sabe, os fosfatos e o turismo são praticamente nossos únicos recursos nacionais. — Ah, Tahir, não há problema. Nós não queremos parte do mar Morto. Queremos apenas uma pequena área de 26 quilômetros quadrados, com centro nestas coordenadas. O americano lhe estendeu um papel. Tahir comentou: — Não podem estar falando sério, meus amigos: 29o 34’ 44” N, 36o 21’ 24” E? Isto fica a nordeste de Al Mudawwara. — Sim, perto da fronteira com a Arábia Saudita. Sabemos disso, Tahir. O jordaniano os encarou, confuso. — Mas lá não há fosfatos. É o deserto. Só há pedras sem valor. — Bom,Tahir, nós temos grande confiança em nossos engenheiros, e eles acreditam poder extrair naquela região uma quantidade muito importante de fosfatos. E, é claro, meramente a título de amizade, haveria uma pequena compensação para o senhor. Tahir arregalou os olhos quando seu novo amigo colocou diante dele uma maleta aberta. — Mas aí deve haver... — O suficiente para o casamento da pequena Myiesha, não? E para uma casinha na praia, com carro na garagem, pensou Tahir. Que diabo, esses americanos continuam se achando mais espertos do que todo mundo e sonham que vão encontrar petróleo naquela região. Como se nós já não tivéssemos procurado mil e uma vezes. Enfim, não serei eu a lhes tirar a ilusão. — Amigos, não se pode negar que os senhores são duas pessoas de grande valor e educação. Tenho certeza de que seus negócios serão muito bem-vindos no Reino Hachemita da Jordânia. Apesar dos sorrisos açucarados de Peter e Frank, Tahir continuou martelando seu cérebro durante muito tempo. Que diabo os americanos estão buscando no deserto? Por mais que matutasse, porém, não se aproximou nem remotamente da verdade que, em poucos dias, iria lhe custar a vida. ESCRITÓRIO CENTRAL DAS INDÚSTRIAS KAYN Nova York Quarta-feira, 5 de julho de 2006. 11h29 Orville se viu em uma sala na penumbra. Somente um pequeno foco iluminava uma estantezinha de leitura sobre a qual ele viu seu informe e o prometido controle remoto. Caminhou uns 3 metros até alcançá-lo. Estava examinando-o, perguntando-se como poderia iniciar a apresentação, quando uma súbita claridade o sobressaltou. A 2 metros de onde ele estava, iluminara-se uma tela de 6 metros de largura. Nela, Orville viu projetada a primeira página de sua apresentação, com o logotipo vermelho da GlobalInfo. — Ah, muito obrigado, senhor Kayn, e bom dia. Permita-me começar dizendo que é uma honra... Soou um leve zumbido e a tela atrás dele mudou. Agora mostrava o título da apresentação e a primeira das duas perguntas, em letras de meio metro de altura. QUEM É O PADRE ANTHONY FOWLER? Estava claro que o comando e a brevidade agradavam ao senhor Kayn. Ele tinha um segundo controle remoto e não se constrangeria em usá-lo para acelerar a exposição. Tudo bem, velho, mensagem captada. Vamos ao ponto. Orville pressionou o botão de passar página. O diapositivo seguinte mostrou um sacerdote delgado e musculoso, careca e com os escassos cabelos restantes muito curtos. Começou a falar para a escuridão. — John Anthony Fowler, também chamado padre Anthony Fowler, ou ainda Tony Brent. Data de nascimento, 16 de dezembro de 1951 em Boston, Massachusetts. Olhos verdes, 79 quilos. Agente livre da CIA e um mistério. A resposta a esse mistério envolveu dez de meus melhores investigadores, em tempo integral, ao longo de dois meses de trabalho, e um monte de dinheiro para amaciar algumas fontes de informação. Isso explica em boa parte os três milhões de dólares que este informe lhe custou, senhor Kayn. A tela mudou, mostrando a fotografia de uma família. Um casal bem- vestido, no que parecia um jardim de uma casa luxuosa. Ao lado, um belo garoto moreno, de uns 11 anos. A mão do pai apertava o ombro do filho. Os três exibiam sorrisos tensos. — Filho único de Marcus Abernathy Fowler, industrial dono da companhia farmacêutica Infinity Pharma, hoje transformada em uma empresa multimilionária de biotecnologia. Depois que seus pais morreram em um obscuro acidente de carro em 1984, Fowler a vendeu por 80 milhões de dólares, junto com o resto de suas propriedades. Doou tudo a entidades beneficentes. Ficou apenas com a mansão dos pais em Beacon Hill, que alugou a um casal com filhos, mas se reservou o último andar. Transformou-o num apartamento no qual colocou alguns móveis e muitos livros de filosofia. Ocupa-o ocasionalmente, quando vai a Boston. Um diapositivo da mesma mulher da foto anterior, muito mais jovem e com beca universitária. — Daphne Brent foi uma química de certo valor, que trabalhou na Infinity Pharma até que o proprietário da empresa se apaixonou por ela. Casaram-se. Quando Daphne engravidou, Marcus a transformou em dona de casa, da noite para o dia. Isso é tudo o que sabemos da relação do jovem Anthony com sua família, além do fato de que ele frequentou Stanford em vez do Boston College, como fizera seu pai. Apareceu o jovem Anthony, quase adolescente, com um grupo identificado como turma de 1971. Um rosto muito sério. — Licenciou-se em pedagogia, magna cum laude, aos 20 anos. O mais jovem de sua turma. Esta foto foi tirada um mês antes de terminarem as aulas. No último dia do curso, Anthony recolheu suas coisas e se apresentou ao escritório de recrutamento da universidade. Queria ir para o Vietnã. Agora, um papel gasto e amarelado, preenchido a mão. — Esta é uma foto de seu AFQT, o Teste de Qualificação das Forças Armadas. Ele obteve 98 sobre 100. O sargento instrutor ficou tão impressionado que o enviou diretamente à base aérea de Lackland, no Texas, onde Fowler seguiu o curso de instrução dos pararresgatadores, uma unidade das Forças Especiais que se dedica ao resgate de pilotos caídos entre as linhas inimigas. Ali aprendeu o manejo de helicópteros e táticas de guerrilha. Após um ano e meio na frente de batalha, terminou a guerra como tenente. Em sua lista de medalhas há um Coração Púrpura e uma Cruz da Força Aérea. No informe escrito, o senhor poderá encontrar as ações que justificaram essas condecorações. Um instantâneo de vários homens uniformizados em um aeródromo. No centro, Fowler vestido de sacerdote. — Acabada a guerra, Fowler ingressa num seminário e é ordenado padre em 1977. Torna-se capelão militar da base aérea de Spangdahlem, na Alemanha, onde a CIA vai recrutá-lo. É compreensível o interesse da agência numa pessoa com suas habilidades, especialmente para idiomas. Fowler fala 11 idiomas e arranha outros 15. Mas a Companhia não é o único organismo que o recrutou. Fowler, em Roma, junto com outros dois sacerdotes jovens. — No final dos anos 1970, Fowler se torna agente ativo da CIA. Mantém sua condição de sacerdote e viaja como capelão militar para muitas bases das Forças Aéreas por todo o mundo. Até aqui, o senhor poderia ter reunido facilmente estes dados recorrendo a outras agências de informação. Mas o que vou lhe revelar agora é ultrassecreto, e foi tremendamente difícil de averiguar. A tela ficou branca. O reflexo que o projetor desprendia permitiu que Orville entrevisse uma poltrona na escuridão, e talvez alguém sentado nela. Fez um esforço para não o olhar diretamente. — Fowler é também um agente ativo da Santa Aliança, o serviço de espionagem do Vaticano. É uma organização reduzida, desconhecida da opinião pública, mas muito atuante. Entre seus êxitos, está o de ter salvado a vida da primeira-ministra israelense Golda Meir, quando terroristas islâmicos estiveram prestes a explodir o avião dela por ocasião de uma visita a Roma. Um trabalho cujos méritos foram atribuídos ao Mossad, o que não importou à Santa Aliança. Eles levam ao extremo a expressão “serviço secreto”. Somente o papa e um punhado de cardeais têm conhecimento oficial da existência dessa organização, embora, dentro da comunidade internacional de inteligência, muitos a respeitem e a temam. Lamentavelmente, pouco mais posso acrescentar sobre o histórico de Fowler nessa instituição. Com relação aos trabalhos de Fowler com a CIA, nem minha ética profissionalnem meu contrato com eles me permitem revelar nada, senhor Kayn. Orville pigarreou. Não esperava nenhuma resposta por parte da figura sentada no fundo da sala, mas mesmo assim fez uma pausa. Nada aconteceu. — Quanto à segunda pergunta que nos formulou, senhor Kayn... Por um momento, Orville se perguntou se devia revelar que a resposta não tinha sido encontrada por eles. Que lhes havia chegado ao escritório de maneira anônima, em um envelope lacrado. Que havia outros interesses envolvidos, pessoas que desejavam que as Indústrias Kayn tivessem aquela informação. Depois recordou a humilhação da nuvem com cheiro de menta e continuou falando. Na tela apareceu a foto de uma moça de olhos azuis e cabelo louro- acobreado. — Esta jovem jornalista se chama... REDAÇÃO DO JORNAL EL GLOBO Madri, Espanha Quinta-feira, 6 de julho de 2006, 20h29 — Andrea!! Andrea Otero, sua filha da mãe!! Cadê você!? Dizer que a sala da redação emudeceu ante o grito do diretor não faria justiça à verdade, já que as salas de redação, uma hora antes de lançar à rua um jornal, não podem emudecer jamais. As vozes humanas, porém, se calaram, conseguindo que a barulheira habitual de telefones, rádios ligados, televisores, faxes e impressoras parecesse um silêncio inquieto. O diretor trazia uma maleta executiva em cada mão e um jornal embaixo do braço. Deixou cair as maletas na entrada da redação e caminhou diretamente para a editoria Internacional, até a única mesa vazia. Deu uns tapas impacientes no tampo. — Já pode sair. Eu vi você se meter aí embaixo. A cabeleira louro-acobreada e os olhos azuis da aludida emergiram devagar. Ela tentou fingir despreocupação, mas seu belo rosto estava tenso. — Olá, chefe. Minha esferográfica tinha caído. O veterano jornalista levou a mão à cabeça para ajeitar a peruca. Na redação, a calvície do diretor era um tabu, de modo que a Andrea Otero de nada adiantou dar-se conta da situação. — Não estou satisfeito, Otero. Nem um pouco mesmo. Posso saber que diabo deu em você? — Do que está falando, chefe? — Você tem 14 milhões de euros no banco, Otero? — Na última vez em que olhei o extrato, não. De fato, na última vez em que ela o havia consultado, o saldo devedor de seus cinco cartões de crédito estava preocupantemente no limite, produto de sua excessiva queda pelas bolsas Hermès e pelos sapatos Manolo Blahnik. Já estava até pensando em pedir à contabilidade um adiantamento do extra de Natal. Dos próximos três anos. — Pois então, é bom que lhe morra alguma tia rica, porque esse é o dinheiro que você vai me custar, Otero. — Não se aborreça, chefe. Aquilo da Holanda não voltará a acontecer. — Não estou falando de suas faturas do serviço de quarto, Otero. Estou falando de François Dupré — disse o diretor, jogando em cima da mesa o jornal da véspera. Merda, então é isso, pensou Andrea. — Convenhamos, chefe. Um desfalque é um desfalque. — Um dia! Um único dia de folga em cinco meses, malditos sejam todos vocês! — No ato, a redação inteira parou de olhar naquela direção. Até o último dos jornalistas descobriu que podia trabalhar intensamente de costas para aquela cena. — Um desfalque, você diz? — Transferir uma quantidade escandalosa de dinheiro dos fundos dos clientes para a conta pessoal é um desfalque. — E espalhar aos quatro ventos, na chamada da Internacional, uma simples confusão do acionista majoritário de um dos nossos principais anunciantes é uma cagada, Otero. Andrea engoliu em seco, fingindo inocência. — Acionista majoritário? — Do Interbank, Otero. Que, caso você não saiba, gastou 12 milhões de euros neste jornal, no último ano. E pretendia gastar 14 milhões, no próximo. Pretendia, no passado. — Chefe... a verdade não tem preço. — Tem, sim. Catorze milhões. E as cabeças dos responsáveis. Portanto, Moreno e você vão para a rua. O indivíduo em questão acabava de aparecer, arrastando os pés. Fernando Moreno era o redator-chefe da noite, e era ele que havia derrubado uma notícia sem importância sobre os lucros de uma petrolífera para incluir a matéria-bomba de Andrea. Um breve ataque de valentia, do qual ele agora se arrependia. A jovem olhou para o colega, um homem de meia-idade, e pensou na mulher e nos filhos dele. Engoliu em seco de novo. — Chefe... Moreno não teve nada a ver. Fui eu que inseri a matéria, antes de mandar a página para as máquinas. Moreno mudou de expressão por um instante, mas depois voltou a exibir a cara compungida que arrastava. — Não me venha com essa conversa, Otero — disse o diretor. — Isso é impossível. Você não está autorizada a passar para o azul. O Hermes, o sistema informático do jornal, funcionava com um esquema de cores. As páginas do jornal apareciam em vermelho quando o repórter as elaborava; em verde, quando passavam ao redator-chefe para sua aprovação; e em azul quando o redator-chefe da noite as transmitia à rotativa para começar a imprimir. — Eu me infiltrei no sistema azul usando a senha de Moreno, chefe — mentiu Andrea. — Ele não teve nada a ver com isso. — Ah, é? E como conseguiu a senha, posso saber? — Ele a guarda na gaveta de sua mesa. Foi fácil. — É verdade, Moreno? — Ahnnn... sim, chefe — disse o redator-chefe, tentando evitar que o alívio lhe aparecesse no rosto. — Lamento. O diretor de El Globo estava lívido. Virou-se para a repórter tão depressa que a peruca lhe desceu vários centímetros pela careca. — Merda, Otero. Eu me enganei. Achei que você era idiota. Agora, vejo que é idiota e mal-intencionada. Vou me encarregar pessoalmente de que ninguém dê emprego a uma safada como você. — Mas, chefe... — a voz da jovem começava a soar desesperada. — Não diga mais nada, Otero. Está demitida. — ... eu não pensei... — Está completamente demitida. Está tão demitida que eu já nem a vejo. Nem a escuto. Em grandes passadas, o diretor se afastou da mesa de Andrea, que continuou vendo ao redor uma paisagem de nucas insolidárias. Moreno se colocou ao lado dela. — Obrigado, Andrea. — Não foi nada. Seria absurdo que nós dois arcássemos com a culpa. Moreno sacudiu a cabeça. — Lamento que você tenha dito que invadiu o sistema. Agora, ele está tão puto que vai queimar seu nome por aí. Você sabe, quando ele cisma com alguma coisa... Enfim... — Parece que já começou — disse Andrea, apontando o resto da redação. — De repente, virei uma empesteada. Bom, também acho que, antes, ninguém ia muito com a minha cara. — Não é que você seja má pessoa, Andrea. Na verdade, é uma jornalista corajosa. Mas sempre vai em frente sem se importar com as consequências. Boa sorte. Andrea jurou a si mesma que não choraria, que ela era uma mulher forte e independente. Apertou os dentes com toda a força, enquanto o pessoal da segurança colocava suas coisas em uma caixa, e conseguiu, por muito pouco, cumprir sua promessa. APARTAMENTO DE ANDREA OTERO Madri, Espanha Quinta-feira, 6 de julho de 2006. 23h15 O que ela mais odiava, desde que Eva fora embora, era o som das chaves ao caírem sobre a mesinha auxiliar da entrada. Produzia no fundo do corredor um pequeno eco que, para Andrea, era um resumo de sua vida: vazio e de pouca ressonância. Quando Eva estava, tudo era diferente. Chegava correndo até a porta como uma menininha, beijava-a e começava a tagarelar de modo incoerente sobre as coisas que havia feito ou as pessoas que havia visto. Andrea, aflita pela parede de atividade que se erguia entre ela e o sofá da sala, rezava por um pouco de silêncio. Suas preces tinham sido atendidas. Eva fora embora numa manhã, três meses antes, da mesma maneira como havia chegado: de repente. Não houve prantos nem lágrimas. Não houve lamentos nem reprimendas. Andrea praticamente não disse nada, aliviada de certo modo. Mais tarde teria tempo de lamentar esse afastamento, com o eco leve das chaves na casa em silêncio. Tinha tentado resolver esse vazio de muitas formas. Deixando o rádio ligado antes de sair de casa. Guardando as chaves de volta no bolso do jeans. Falando sozinha. Mas nenhum dos ruídos mascarava o silêncio, porque Andrea carregava o silênciopor dentro. Naquela noite, ao entrar, afastou com o pé a última de suas tentativas para não se sentir só: um gato tigrado, de cor marrom. Na loja, parecia muito fofinho e carinhoso. Andrea havia demorado quase 48 horas para começar a odiá-lo com todas as suas forças. Isso lhe parecia bom. Com o ódio, podia lidar. O ódio é ativo. Você odeia alguma coisa ou alguém. Com o que não podia era com a frustração. A frustração faz a gente sofrer. — Oi, PH. Demitiram a mamãe do emprego, sabia? PH eram as iniciais de Pequeño Hijoputa, um nome que ocorrera a Andrea depois que o monstrinho deu um jeito de entrar no banheiro, para caçar e destruir um caríssimo frasco de xampu com ph neutro. O animal não reagiu diante do anúncio de demissão da jornalista. — Não se importa, hein? Pois deveria se preocupar — disse Andrea, tirando uma lata de Whiskas da geladeira e colocando o conteúdo num pratinho ao alcance de PH. — Quando eu não tiver o que comer, vou vender você ao senhor Wong, aquele do restaurante chinês da esquina. E depois encomendo uma refeição de frango com amêndoas. A possibilidade de vir ele mesmo a integrar o cardápio não pareceu tirar o apetite de PH. Aquele gato não tinha respeito por nada nem ninguém, era solitário, mal-humorado, pouco carinhoso, descontrolado e orgulhoso. Andrea o odiava porque ele me lembra demais minha própria pessoa. A jovem passeou o olhar ao redor, incomodada com o que via. As prateleiras estavam cheias de poeira. Havia restos de comida no chão, a pia estava oculta em algum lugar embaixo de uma montanha de pratos. Um manuscrito pela metade do romance que ela pretendia escrever havia três anos estava espalhado pelo piso do banheiro. Caralho. Se fosse possível pagar à faxineira com cartão de crédito... O único lugar do apartamento que estava bem-cuidado e em ordem era o enorme graças a Deus armário embutido do quarto. Andrea era extremamente meticulosa com sua roupa. O resto se assemelhava perigosamente a uma zona de guerra. Ela sempre acreditara que sua desorganização tinha sido uma das principais causas do rompimento com Eva. Estavam juntas havia dois anos, e a jovem engenheira era uma máquina de limpeza. Andrea a chamava carinhosamente de O Aspirador Romântico, dado o gosto de Eva em arrumar a casa ao ritmo de Barry White. Naquele momento, contemplando o desastre, Andrea teve uma revelação. Arrumaria aquela pocilga, venderia suas roupas pelo eBay, procuraria um trabalho bem-remunerado, pagaria suas contas e se reconciliaria com Eva. Tinha um objetivo, uma missão. Tudo seria perfeito. Um jorro de energia percorreu seu corpo. Durou exatamente quatro minutos e 27 segundos, o tempo exato para abrir um saco de lixo, jogar dentro a quarta parte dos restos de comida da mesa — e alguns pratos sujos, além de qualquer salvação —, andar confusamente para lá e para cá, topar com o livro que estivera lendo na noite anterior e deixar cair a foto no chão. As duas juntas. A última que haviam tirado. Não adianta. Deixou-se cair no sofá, chorando, enquanto o saco de lixo devolvia parte de seu conteúdo ao tapete da sala. PH se aproximou e mordiscou um pedaço de pizza no qual os restos de queijo tinham começado a ficar verdes. — Está claro, não, PH? Não posso me livrar daquilo que sou. Pelo menos, não com esfregão e vassoura. O gato, sem lhe dar a menor bola, correu para a entrada e se esfregou contra a moldura da porta. Andrea se levantou mecanicamente, sabendo que havia alguém prestes a tocar a campainha. Quem será o imbecil que me aparece a esta hora? Abriu de chofre, surpreendendo o visitante. — Oi, lindinha. — Ora, veja. As notícias voam. — As ruins, muito. Mas, se você chorar, eu me mando. A jovem se afastou para um lado, sem apagar do rosto a expressão de tédio, mas secretamente aliviada. Devia ter adivinhado. Enrique Pascual era seu melhor amigo e ombro para derramar lágrimas havia muitos anos. Trabalhava numa das principais cadeias de rádio de Madri, e sempre que Andrea tropeçava Enrique aparecia em sua porta com uma garrafa de uísque e um sorriso. Naquela ocasião, devia achar que ela estava especialmente necessitada, porque a garrafa tinha 12 anos e, ao lado do sorriso, havia um buquê de flores. — Tinha que fazer isso, não é? A super-repórter tinha que foder o acionista do jornal — comentou Enrique, atravessando o corredor em direção à sala e tentando não tropeçar em PH. — Tem alguma jarra limpa neste chiqueiro? — Deixe que elas morram e me dê a garrafa. Até porque nada dura eternamente. — Agora eu me perdi — disse Enrique, desistindo de sua intenção de colocar as flores na água e estendendo-lhe o uísque. — Estamos falando de Eva ou de sua demissão? — Acho que nem eu mesma sei — murmurou a jovem, voltando da cozinha com um copo em cada mão. — Se você tivesse se amarrado comigo, veria isso mais claro. Andrea reprimiu uma gargalhada. Enrique Pascual, alto, atraente e maravilhoso, era o sonho de qualquer mulher durante os dez primeiros dias de relacionamento, e o pesadelo durante os três meses seguintes. — Se eu gostasse de homem, você estaria entre os vinte primeiros da minha lista. Provavelmente. Agora foi a vez de Enrique rir. O rapaz serviu dois dedos de uísque caubói, mas quase não tinha provado sua bebida quando Andrea já esvaziara a sua e esticava o braço para se servir outra. — Ei, vamos devagar, Andrea. Não é boa ideia acabar a noite na Emergência. De novo. — Pois eu acho uma ideia do cacete. Pelo menos, eu teria alguém se preocupando comigo. — Obrigado pela parte que me toca. Mas você não devia dramatizar tanto. — Acha pouco drama, perder a namorada e o emprego no prazo de dois meses? Minha vida é uma merda. — Isso eu não discuto. Pelo menos, você vive no meio dela — disse Enrique, fazendo um gesto de asco para o caos que os rodeava. — Você é quem podia vir dar uma de faxineira aqui. Certamente, seria mais útil do que esse programa esportivo de merda no qual finge trabalhar. O jovem não se alterou. Sabia o que vinha em seguida, e Andrea também. A jornalista enterrou a cara numa almofada e começou a gritar com todas as suas forças. Após alguns segundos, o grito se transformou em choro. — Eu devia ter trazido duas garrafas. Nesse momento, um celular tocou. — Acho que é o seu. — Seja lá quem for, mande tomar no cu — respondeu Andrea, do fundo de sua almofada. Enrique atendeu ao telefone, com gesto elegante. — Prantos Irreprimíveis, pois não? Um momento, um momento... Passou o aparelho a Andrea. — É melhor você falar. Eu não entendo estrangeiro. Andrea pegou o celular, enxugando as lágrimas com o dorso da mão e tentando soar normal. — Sabe que horas são, imbecil? — resmungou. — Queira desculpar. Andrea Otero, por favor? — disse uma voz em inglês. — Quem é? — respondeu a jornalista, no mesmo idioma. — Meu nome é Jacob Russell, senhorita Otero. Estou ligando de Nova York, em nome do meu chefe, Raymond Kayn. — Raymond Kayn, das Indústrias Kayn? — Ele mesmo. E a senhorita é a mesma Andrea Otero que fez aquela entrevista polêmica com o presidente Bush no ano passado. Claro, a entrevista. Aquela matéria tivera muita repercussão na Espanha e alguma no resto da Europa. Ela havia sido a primeira jornalista espanhola a visitar o Salão Oval, e algumas de suas incisivas perguntas — as poucas não programadas que conseguiu infiltrar — tinham deixado o texano nervoso. Aquela exclusiva havia relançado sua carreira no jornal. Ao menos, por pouco tempo. E parecia ter chamado a atenção de alguém do outro lado do Atlântico. — A mesma, cavalheiro. E me diga: para que seu chefe precisa de uma repórter excelente? — disse Andrea, fungando discretamente e se alegrando de que seu interlocutor não pudesse vê-la em semelhante estado. Houve um pigarro na outra ponta do fio. — Garante que não dirá nada a ninguém do seu jornal, senhorita Otero? — Sem dúvida alguma — retrucou Andrea, irônica. — O senhor Kayn quer lhe dar a matéria exclusiva mais importante de sua vida. — A mim? E por que a mim? — perguntou Andrea, fazendo a Enrique um gesto com a mão. Seu colegapuxou do bolso um bloquinho e uma esferográfica e os passou a ela, interrogando-a com o olhar. Andrea o ignorou. — Digamos que ele gosta de seu estilo. De acordo? — Senhor Russell, no atual momento da minha vida me é muito difícil acreditar na palavra de um desconhecido que me telefona com uma oferta vaga e um tanto incrível. — Então, permita-me convencê-la. Russell falou durante quase 15 minutos, nos quais a atônita Andrea não parou de tomar notas febrilmente. Enrique tentava em vão bisbilhotar por cima do ombro dela, mas as retorcidas patas de aranha que eram as letras de Andrea o deixaram na ignorância. — ... por isso, queremos contar com a senhorita em pessoa, na escavação. — Haverá uma entrevista exclusiva com o senhor Kayn? — O senhor Kayn tem por norma não conceder entrevistas. Nunca. — Talvez interesse ao senhor Kayn uma jornalista a quem as normas importem. Houve um silêncio incômodo. Andrea cruzou os dedos, torcendo para que seu tiro às cegas acertasse o alvo. — Suponho que sempre tem de haver uma primeira vez. Temos um trato? Andrea meditou durante alguns segundos. Se de fato fosse garantido o que Russell lhe prometia, conseguiria um contrato em qualquer meio de comunicação do mundo. E podia enviar por entrega expressa uma fotocópia do cheque àquele veado do diretor do El Globo. E, se não for garantido, não tenho nada a perder. Não pensou mais. — Pode ir me reservando uma passagem para Djibuti. Na primeira classe. Andrea desligou. — Não entendi nada, exceto isso de “primeira classe”. Posso saber aonde você vai? — perguntou Enrique, surpreendido com a visível mudança que se produzira no ânimo de Andrea. — Se eu lhe disser Bahamas, você não vai acreditar, não é? — Muito bonito — disse Enrique, entre despeitado e invejoso. — Eu lhe trago as flores, o uísque, praticamente venho erguê-la do tapete, e você me trata assim... Andrea, fingindo não ter escutado, começou a arrumar a bagagem. CRIPTA DAS RELÍQUIAS Cidade do Vaticano Sexta-feira, 7 de julho de 2006. 20h29 Frei Cesário se sobressaltou ao escutar um ruído na entrada. Ninguém descia nunca à Cripta, não só porque o acesso era restrito a uns poucos privilegiados no Vaticano, mas também porque o ambiente era insalubre, apesar dos quatro potentes desumidificadores que zumbiam em cada canto do enorme aposento. Dada a natureza do local, para o velho dominicano ter visitas era um acontecimento, mas, ao abrir a porta blindada, ele sorriu e ficou nas pontas dos pés para abraçar o recém-chegado. — Anthony! O musculoso sacerdote lhe devolveu o sorriso e o abraço. — Estava nas redondezas... — Pelo amor de Deus, Anthony, como você conseguiu chegar até a porta? Faz tempo que isto aqui está cheio de câmeras e controles automatizados. — Sempre existe mais de uma entrada, quando se tem tempo e se conhece o caminho. Você me ensinou isso, lembra? O velho dominicano alisou o cavanhaque, apalpou a barriga proeminente e riu com vontade. O subsolo de Roma é perfurado por 500 quilômetros de catacumbas, algumas mais de 70 metros abaixo da cidade. Um autêntico museu sinuoso e inexplorado, que conduz praticamente a qualquer parte, inclusive ao Estado do Vaticano. Vinte anos antes, Fowler e ele dedicavam seus dias livres a fazer espeleologia por aqueles caminhos intricados e perigosos. — Está claro que Cirin terá de revisar seu impecável sistema de segurança. Se um veterano como você se insinuou aqui dentro... Mas por que não usar a entrada autorizada, Anthony? Ouvi que você deixou de ser persona non grata para o Santo Ofício. E adoraria saber por quê. — Talvez eu agora seja uma persona grata demais para alguns.2 — Cirin quer que você volte, hein? Esse Maquiavel de supermercado não solta facilmente uma presa. — Os velhos cuidadores de relíquias também costumam ser muito obstinados. Especialmente, em falar de coisas das quais supostamente não deveriam saber. — Anthony, Anthony. Esta cripta é o lugar mais recôndito de nosso diminuto país, e no entanto em suas paredes ecoam muitos rumores. Os santos me cochicham tudo — disse frei Cesário, apontando ao redor. Fowler levantou a vista. O teto da cripta, reforçado por arcos peraltados, continuava enegrecido pela fumaça dos milhões de velas que haviam iluminado o aposento durante quase dois milênios, embora uma moderna instalação elétrica tivesse expulsado o fogo daquele lugar, duas décadas antes. Era um espaço retangular de 80 metros quadrados, parte dos quais havia sido roubada à rocha viva a golpes de picareta. E as paredes, do solo ao teto, eram cobertas de portas, portas que ocultavam nichos, nichos que guardavam santos. — Você vem respirando há tempo demais este ar lúgubre, que sem dúvida não faz nada bem aos seus clientes. Por que continuar aqui? É pouco sabido que, há 1.700 anos, em cada igreja católica, por mais humilde que seja, há uma relíquia de um santo escondida num altar. E ali, na Cripta das Relíquias, o Vaticano guarda a maior coleção delas no mundo. Alguns nichos estão quase vazios, contêm apenas pequenos fragmentos de osso; outros, o esqueleto completo. Sempre que se erige um templo em qualquer parte do globo, um jovem sacerdote pega uma maleta de aço das mãos de frei Cesário e se dirige ao novo altar para ali depositar com reverência a relíquia. O velho historiador tirou os óculos e limpou-os com a borda do hábito branco. — Segurança. Tradição. Teimosia. As palavras que definem nossa Santa Madre Igreja. — Puxa vida, além de umidade, aqui se respira cinismo. Frei Cesário apalpou a tela do potente MacBook Pro no qual escrevia quando seu amigo chegou. — Aqui estão encerradas minhas verdades, Anthony. Quarenta anos de trabalho dedicados à catalogação de fragmentos de cálcio. Alguma vez você já chupou um osso ressecado, meu amigo? Um método excelente para detectar falsificações, mas deixa um sabor amargo na boca. Quatro décadas depois, não estou mais próximo da Verdade do que quando comecei — suspirou. — Bom, talvez você possa investigar nesse disco rígido e me dar uma mão com isto aqui, velho — disse Fowler, estendendo-lhe uma foto. — Sempre metido nos negócios, sempre... O dominicano se deteve no meio da frase, com os olhos arregalados. Durante um tempinho, cravou seu olhar míope na foto, e depois se dirigiu à escrivaninha onde trabalhava. De uma pilha de livros, resgatou um desgastado volume de hebraico clássico, profusamente anotado a lápis. Pesquisou entre as páginas, comprovando diversos símbolos nos livros. Ergueu a vista, assombrado. — De onde você tirou isto, Anthony? — Do interior de um círio muito, muito antigo. Estava em poder de um velho nazista. — Camilo Cirin mandou você recuperá-lo? Conte-me tudo, não omita nenhum detalhe. Preciso saber! — Digamos que eu devia um favor a Camilo e me comprometi a realizar uma última missão para a Santa Aliança. Ele me pediu que encontrasse um criminoso de guerra austríaco que havia roubado a vela de uma família judaica, em 1943. A vela estava recoberta de ouro e ele a conservou durante décadas. Meses atrás, consegui localizá-lo e lhe tirar a vela. Depois de derreter a cera, encontrei no interior a lâmina de cobre que você vê na foto. — Não tem outra com mais resolução? Mal se consegue ler a face externa. — Estava muito enrolada e, se eu tentasse desenrolá-la, poderia quebrá- la. — Ainda bem que você não fez isso. O que seria danificado não tem preço. Onde está? — Entreguei-a a Cirin e ele não lhe deu grande importância. Imaginei que seria simplesmente um capricho de algum membro da Cúria. Voltei para Boston, achando que minha dívida estava saldada... — Mas não estava, Anthony — disse uma voz pausada, sem emoção. O dono daquela voz acabava de se infiltrar no aposento com a discrição própria de um mestre de espiões, que é o que era aquele personagem baixinho, de terno cinza e rosto inexpressivo. Era avaro com as palavras e com os gestos, que ficavam encerrados atrás de uma muralha de camaleônica insignificância. — Não é bem-educado entrar sem bater à porta, Cirin — disse frei Cesário. — Não responderquando sua presença é solicitada também não é — retrucou o diretor da Santa Aliança, fitando Anthony. — Achei que havíamos concluído. Combinamos uma missão. Só uma. — E você cumpriu com sucesso a primeira parte: recuperar a vela. Agora, tem que se assegurar de que o conteúdo dela seja usado corretamente. Fowler guardou silêncio, contrariado. — Talvez Anthony fique mais à vontade com o encargo se compreender a magnitude dele — continuou Cirin. — Já que tomou conhecimento do assunto, frei Cesário, faria a gentileza de explicar a ele o que há nessa foto e que o senhor jamais tinha visto? O dominicano pigarreou. — Antes, preciso saber se é autêntico, Cirin. — É. Os olhos do frade se iluminaram. Ele virou-se para Fowler. — Isto, meu amigo, é o mapa de um tesouro. Ou, melhor dizendo, metade dele. Se não me falha a memória, pois já faz muitos anos que a outra metade esteve em minhas mãos, isto é o fragmento perdido do Rolo de Cobre de Qumran. O rosto do sacerdote se ensombreceu. — Você está me dizendo... — Sim, meu amigo. O objeto mais poderoso da História se encontra do outro lado do significado desses caracteres. Com todos os problemas que traria consigo. — Santo Deus. Precisamente agora, ele tinha de reaparecer... — Alegra-me que finalmente você entenda, Anthony — interrompeu Cirin. — Comparadas com isto, as relíquias que nosso bom amigo acumula neste aposento não passam de poeira. — Quem lhe deu a pista, Camilo? Por que agora, depois de tanto tempo, procurar o doutor Graus? — perguntou frei Cesário. — A informação veio de um benfeitor da Igreja, o senhor Kayn. Um benfeitor de outra confissão e um grande filantropo. Ele precisava que encontrássemos Graus, e se ofereceu para financiar pessoalmente uma expedição arqueológica, se conseguíssemos a vela. — Onde? — Ainda não revelou a localização exata. Mas a região, sim. Al Mudawwara, Jordânia. — Bem, então não há motivo para se preocupar — interveio Fowler. — Sabe o que vai acontecer se isto vazar, por menos que seja? Nenhum membro dessa expedição respirará o tempo suficiente para desenterrar um osso. — Esperemos que você esteja enganado. Nós vamos enviar um observador com essa expedição: você mesmo. Fowler balançou a cabeça. — Não. — Você conhece as consequências. As ramificações. — Minha resposta continua sendo não. — Você não pode se negar. — Então me detenha — disse o sacerdote, dirigindo-se para a porta. — Anthony, meu rapaz — as palavras de Cirin o acompanharam no caminho para a saída. — Não estou dizendo que vou impedi-lo de nada. Você vai tomar sozinho a decisão de ir. Por sorte, os anos me ensinaram como lidar com você. Precisei relembrar qual é a coisa que você valoriza mais do que sua liberdade, e recorrer a uma solução criativa. Fowler estacou, ainda de costas. — O que você fez, Camilo? Cirin andou uns passos em direção ao sacerdote. Se havia algo que ele detestava mais do que falar, era levantar a voz. — Sugeri ao senhor Kayn a repórter perfeita para sua expedição. Como jornalista, ela não tem nada de excepcional. Não é bonita demais, nem esperta demais, nem honrada demais. Na realidade, a única coisa que a torna interessante é que você lhe salvou o couro. Como se chama isso? Dever a vida, certo? De modo que agora você não vai sair correndo para se esconder num refeitório de pobres. Não, sabendo o risco que ela corre. Fowler não se voltou. A cada palavra de Cirin, sua mão ia se fechando mais um pouco, até se transformar em uma bola compacta, as unhas cravando-se na palma. Mas a dor não era suficiente. Ele lançou o punho contra uma das cavernas na parede. A porta de madeira, que estava ali havia centenas de anos, estilhaçou-se com um estalo que fez estremecer toda a cripta. Um osso do nicho profanado rolou pelo chão. — A rótula de São Soutinho. Pobre homem, coxeou a vida inteira — disse frei Cesário, agachando-se para recolher a relíquia. Fowler, resignado, virou-se. 2 Como se conta em Espião de Deus, Suma de Letras, 2007. (N. do A.) EXTRATO DE RAYMOND KAYN, biografia não autorizada, por James Graham (...) Muitos dos senhores se perguntarão como um judeu sem nome, que viveu de caridade durante a infância, conseguiu levantar tão vasto império. Já ficou claro nas páginas precedentes que Kayn não existiu nem um segundo antes de dezembro de 1943. Nenhum registro de nascimento, nenhum papel comprova que ele seja cidadão americano. (...) O período mais conhecido de sua vida começa com sua entrada para o Massachusetts Institute of Technology e sua crescente coleção de patentes. Enquanto os Estados Unidos se entregavam nos braços dos gloriosos anos sessenta, Kayn reinventava os circuitos impressos. Em cinco anos, era dono de sua própria empresa. Em dez, de meio Vale do Silício. Mas isso os senhores já leram na revista Time, assim como as desgraças que destroçaram sua vida como pai e como marido. (...) Talvez o que preocupa o cidadão comum, os John e Jane Doe, não seja essa invisibilidade, essa falta de transparência que alguém tão poderoso transforma em um enigma inquietante. Mais cedo ou mais tarde, alguém deverá levantar esse halo de mistério que rodeia a figura de Kayn... A BORDO DA BEHEMOT Navegando pelo golfo de Aqaba, mar Vermelho Terça-feira, 11 de julho de 2006. 16h29 ... alguém deverá levantar esse halo de mistério que rodeia a figura de Kayn... Andrea sorriu com suficiência e lançou a biografia do magnata pela borda. Aquela merda sensacionalista e tendenciosa já a aborrecera bastante enquanto ela sobrevoava o Saara rumo a Djibuti. Durante o voo, Andrea tivera tempo para fazer algo que fazia muito poucas vezes: refletir sobre sua pessoa. E havia decidido que não gostava de si mesma. Como a caçula de cinco irmãos — todos homens, menos ela —, Andrea crescera num ambiente de proteção absoluta. E vulgaridade absoluta, também. Um pai sargento, uma mãe dona de casa, um bairro operário, macarrão na maioria das noites e frango aos domingos. Madri é uma cidade bonita, mas, para Andrea, havia significado apenas o contraste que refletia a mediocridade de sua família. Aos 14 anos, ela jurou a si mesma que, um minuto depois de completar 18, cruzaria a porta e não voltaria nunca mais. Claro que as desavenças com o papai quanto à sua orientação sexual aceleraram um pouco a despedida, não foi, meu anjo? Havia um longo caminho desde que ela saiu foi expulsa de casa até seu primeiro trabalho real, e não os que teve de desempenhar para pagar a faculdade de jornalismo. No dia em que entrou para El Globo, achou que havia acertado na loteria, mas desde então tudo tinha ido de mal a pior. Empurrada de uma editoria para outra, sentia-se pendurada, perdendo a perspectiva e ao mesmo tempo o controle de sua vida pessoal. Acabara na Internacional, seu último posto antes de sair ser demitida atrás desta aventura impossível. Minha última oportunidade. Do jeito como está o mercado de trabalho para jornalistas, meu emprego seguinte será o de caixa de supermercado. Mas, caramba, existe algo em mim que não funciona. Não sou capaz de fazer nada direito. Nem sequer Eva, que era o cúmulo da paciência, aguentou ao meu lado. No dia em que foi embora... de que me chamou mesmo? Poço de descontrole, frígida emocional... acho que imatura foi o mais suave. E devia ser tudo verdade, porque ela não levantou a voz nem um pouquinho. Saco, o problema é que sou igual para tudo. É melhor não cagar as coisas desta vez. Andrea repeliu decidida esses pensamentos e aumentou ao máximo o volume do iPod. A cálida voz de Alanis Morissette sossegou sua inquietação. A jovem se recostou no assento e desejou chegar quanto antes. Por sorte, viajar de primeira classe tinha suas vantagens, e a mais importante era desembarcar do avião antes dos outros. Um jovem e bem- apessoado motorista negro a esperava na pista, ao lado de um jipe desconjuntado. Ora, ora... sem alfândega, hein? Esse senhor Russell organiza tudo muito bem, pensou Andrea, enquanto descia a escadinha do avião. — É só isso? — perguntou em inglês o motorista, apontando a maleta de fim desemana e a mochila preta que Andrea trazia consigo, como toda a sua bagagem. — Estamos indo para a porra do deserto, não? Então, dirija. Conhecia bem o olhar do chofer. Estava acostumada a que a julgassem como um estereótipo. Loura, jovem e tonta. Andrea ainda desconhecia se sua atitude frívola em relação à roupa e ao dinheiro era uma tentativa de se camuflar ainda mais sob essa apreciação errônea ou, simplesmente, sua própria concessão à banalidade. Talvez uma mistura de ambas. Mas para aquela viagem, como um símbolo de sua mudança, havia reduzido ao mínimo sua bagagem. Enquanto o jipe percorria os 8 quilômetros que havia até o barco, Andrea tirava fotos com sua Canon 5D (na verdade, não era sua Canon 5D. Era a Canon 5D do jornal, que ela havia esquecido de devolver. Eles bem que mereciam, aqueles nojentos) e se assombrava com a pobreza extrema daquela terra. Árida, marrom, pedregosa. Até a própria capital podia ser percorrida a pé, em duas horas. Não havia indústria, nem agricultura, nem infraestrutura. A poeira levantada pelas rodas do veículo se grudava aos rostos das pessoas que o olhavam quando o veículo passava, rostos sem esperança. — O mundo está muito mal distribuído, se gente como Bill Gates ou Raymond Kayn ganha em um mês mais do que o PIB deste país em um ano. Por toda resposta, o motorista deu de ombros. Já iam chegando ao porto, a área mais moderna e bem-cuidada da capital, e praticamente sua única fonte de renda. É desse modo que Djibuti aproveita sua situação favorável dentro do Chifre da África. O jipe se deteve com uma freada brusca. Andrea precisou erguer o olhar, e o que viu a deixou assombrada. A Behemot não era o horrendo cargueiro que esperara encontrar. Era uma linda fragata com o casco pintado de vermelho e a superestrutura de um branco reluzente, as cores das Indústrias Kayn. Sem esperar que o motorista a ajudasse, ela pegou suas coisas e subiu correndo pela passarela, desejando começar quanto antes aquela aventura. Meia hora depois, o barco zarpava. Uma hora mais tarde, Andrea se confinou no camarote, dedicada a vomitar em discreta privacidade. Depois de dois dias nos quais tudo o que entrava por sua boca eram líquidos, seu ouvido interno parecia ter lhe dado uma trégua suficiente e ela se animou a sair para respirar um pouco e conhecer a embarcação, não sem antes jogar pela borda, com todas as suas forças, a Biografia não autorizada de Raymond Kayn. — Não devia ter feito isso. Andrea se virou. Caminhando pelo convés central, dirigia-se para ela uma mulher morena e atraente, que beirava os 40 anos. Vestia-se como Andrea, de jeans e camiseta, mas por cima trazia um jaleco branco. — Eu sei. Poluir é feio. Mas experimente ficar três dias trancada com aquela merda de livro e verá. — Teria sido menos traumático se tivesse aberto a porta para algo mais do que receber água das mãos dos tripulantes. Eu sei que lhe ofereceram meus serviços. Andrea, envergonhada, fixou a vista no livro, que já flutuava muito longe. Não lhe agradava que outros a vissem quando estava doente. Detestava se sentir vulnerável. — Eu estava bem. — Sei. Mas, certamente, com meia tonelada de Biodramina ficaria melhor. — Se o que pretende é me ver morta, acertou, doutora... — Harel. Alergia ao dimenidrinato, senhorita Otero? — Entre muitas outras coisas. Pode me chamar de Andrea, por favor. A doutora Harel sorriu, e várias rugas produziram o estranho efeito de suavizar seu rosto. Tinha belos olhos amendoados, de forma e de cor, e o cabelo escuro ondulado. Era 5 centímetros mais alta do que Andrea. — E a senhorita, a mim, de doutora Harel — disse, estendendo-lhe a mão. Andrea olhou a mão estendida sem oferecer a sua. — Não gosto de esnobes. — Eu também não. Não lhe digo meu nome porque não tenho. Meus amigos me chamam de Doc. Finalmente, a jornalista lhe apertou a mão. O contato era cálido e suave. — Isso deve quebrar o gelo em todas as festas, Doc. — Nem imagina! Costuma ser meu primeiro assunto, com cada pessoa que fico conhecendo. Vamos passear um pouco e eu lhe conto a história. Dirigiram-se para a proa. O vento soprava quente, em sentido contrário, agitando a insígnia do barco, uma bandeira norte-americana. — Nasci em Tel Aviv, logo após o final da Guerra dos Seis Dias — continuou Harel. — Quatro membros de minha família tinham morrido durante o conflito, e o rabino interpretou isso como um sinal de mau agouro. Por isso, meus pais não me deram um nome, para enganar o Anjo da Morte. Só eles o saberiam. — E isso funciona? — Para nós, judeus, o nome é algo muito importante. Define uma pessoa e tem poder sobre ela. Meu pai me cochichou o meu ao ouvido, muito baixinho, quando chegou meu bat mitzvá,3 enquanto toda a congregação cantava ao redor. E eu não posso dizê-lo nunca a ninguém. — Ou o Anjo da Morte a encontrará? Não se ofenda, Doc, mas isso não faz muito sentido. Que eu saiba, a Parca não consulta o catálogo telefônico. Harel riu com gosto. — Enfrento muitas vezes esse tipo de atitude. E devo lhe dizer que me parece engraçado. Seja como for, meu nome continuará sendo um segredo. Andrea sorriu. Gostava da simplicidade daquela mulher. Ficou fitando-a nos olhos, talvez um segundo a mais do que o necessário ou conveniente. Harel desviou o olhar, meio encabulada pelo exame. — O que uma doutora sem nome faz a bordo da Behemot? — Uma substituição de última hora. Precisavam de um médico na expedição. Afinal, somos setenta pessoas a bordo. Metade é a tripulação do barco. Tinham chegado à proa. O mar deslizava rápido sob seus pés e a tarde brilhava, ensolarada e majestosa. Andrea olhou ao redor. — Quando não tem o efeito de uma centrifugadora nas minhas tripas, é uma embarcação bonita. — “Vê a força de suas ancas, o vigor de seu ventre musculoso. Seus ossos são tubos de bronze; suas cartilagens, barras de ferro”— recitou a doutora, exaltada. — Temos poetas na tripulação? — Não, querida. É do Livro de Jó. Fala da besta Behemot, o irmão do Leviatã. — Não é um mau nome para um barco. — Antes, era uma fragata dinamarquesa de combate, da classe Hvidbjornen — informou a doutora, apontando uma área do convés onde uma placa metálica de 3 metros quadrados parecia soldada como um remendo. — Ali ficava o único canhão. As Indústrias Kayn a compraram desarmada em um leilão, quatro anos atrás, por dez milhões de dólares. Uma pechincha. — Eu não pagaria mais de nove e meio. — Pode se refugiar no sarcasmo, Andrea, mas esta preciosidade tem 80 metros de comprimento, seu próprio heliporto e uma autonomia de 13 mil quilômetros a 15 nós. Poderia ir e voltar de Cádiz a Nova York sem reabastecer. A quilha partiu uma onda um pouco mais alta e a embarcação se encabritou ligeiramente. Andrea escorregou e quase caiu pela borda, que, na proa, media pouco mais de meio metro de altura. A doutora a segurou pela camiseta. — Cuidado! Se uma pessoa cair a esta velocidade e tiver a sorte de não ser despedaçada pelas hélices, vai se afogar antes que possamos fazer a volta. A jornalista ia agradecer, mas tinha a vista fixa no horizonte. — O que é aquilo? Harel entrecerrou os olhos e fez uma viseira com a mão, seguindo a direção que Andrea apontava. Não via nada. Ao cabo de cinco segundos, divisou um ponto ao longe. — Por fim, estamos todos. Aí vem o grande chefe. — Quem? — Não lhe disseram? O senhor Kayn em pessoa supervisionará tudo. Andrea se voltou, boquiaberta. — Está de gozação, Doc. Harel negou com a cabeça. — Será a primeira vez que o vejo. — Tinham me prometido uma entrevista com ele, mas achei que seria no final desta ridícula pantomima. — Não acredita no êxito da expedição? — É preferível dizer que desconfio de seu propósito. O senhor Russell me recrutou assegurando que íamos recuperar uma relíquia muito importante, desaparecida durante milênios. Não quis me dizer de que se tratava. — Foi segredo para todos. Veja, está se aproximando! A aeronave estava a apenas 4 quilômetros de distância, e Andrea começava a distinguir seus detalhes. — Escute, Doc, mas é um avião! — A jornalistaprecisou levantar a voz, porque a aclamação dos marinheiros e os motores da aeronave, quando esta passou perto do barco, traçando um semicírculo, já eram ensurdecedores. — Não, não é! Observe! Viraram-se. O avião, ou pelo menos aquilo que Andrea havia tomado por tal, era um pequeno bimotor, pintado com as cores e o logotipo das Indústrias Kayn. Era propulsionado por umas hélices estranhas, três vezes maiores que o normal. Ante o olhar atônito da jovem, as hélices e os motores começaram a girar sobre o eixo da asa, ao mesmo tempo em que o avião abandonava sua trajetória semicircular ao redor da Behemot e ficava suspenso. As hélices haviam completado o giro de 90 graus e agora sustentavam o aparelho no ar, como as de um helicóptero, desenhando ondas concêntricas no mar. — É o BA-609 TiltRotor. O primeiro de sua classe, e este é seu voo inaugural. Dizem que saiu diretamente de uma ideia do senhor Kayn. — Parece que tudo que rodeia esse homem é impressionante. Quero conhecê-lo. — Não, Andrea, espere! A doutora tentou reter Andrea, mas esta se meteu entre a nuvem de marinheiros que se debruçavam sobre a borda, agora a de estibordo. Entrou no convés central, que se conectava pelos respectivos corredores sob a superestrutura com o convés de popa, onde nesse momento o avião pousava. No final do corredor, deu com a porta bloqueada por 1,90 metro de marinheiro louro. — Proibido passar, senhorita. — Como assim? — Poderá admirar o avião quando o senhor Kayn tiver entrado no camarote dele. — Sei. E se eu quiser admirar o senhor Kayn? — Tenho ordem de não permitir a ninguém o acesso à popa. Lamento. Andrea deu a volta sem se despedir. Não gostava de negativas, de modo que agora tinha o dobro de vontade de tapear o vigilante. Meteu-se por uma das escotilhas à sua direita, chegando à área comum do barco. Precisava se apressar, se quisesse ver Kayn antes que o levassem para baixo do convés. Poderia tentar descer um nível e esperá-lo nos corredores, mas certamente no acesso ao convés inferior haveria outro guarda. Experimentou as maçanetas de várias portas, até encontrar uma aberta. Era uma espécie de sala de lazer, com um sofá e uma mesa de pingue-pongue desconjuntada. E, ao fundo, um olho de boi aberto. Que dava para a popa. Et voilà. Andrea apoiou um de seus pequenos pés na mesa e outro no sofá. Passou os braços, em seguida a cabeça e conseguiu deslizar para o outro lado. A menos de 3 metros diante dela, um marinheiro de jaqueta e protetores de ouvido fazia indicações ao piloto do BA-609, cujas rodas já roçavam o heliporto com um rangido. As hélices alvoroçaram os cabelos da jovem. Ela se agachou instintivamente, embora, em dezenas de ocasiões, tivesse jurado a si mesma que, quando se visse embaixo de um helicóptero, não faria como todos os personagens de filmes, que abaixam a cabeça mesmo que as pás do aparelho estejam um metro e meio acima deles. Mas, claro, uma coisa é imaginar e outra é fazer, não é? A porta do BA-609 começou a se abrir. Andrea sentiu um movimento atrás de si. Ia se virar quando a lançaram no solo e imobilizaram sua face contra o convés. Notou o calor do metal na pele, enquanto alguém se sentava em seu dorso. Virou-se com todas as suas forças, mas não conseguiu se safar. Com a respiração entrecortada, ainda tentou olhar para a aeronave. Viu descer um jovem de óculos, moreno e elegante, de paletó esporte. Seguia-o um brutamontes de 100 quilos, ou pelo menos foi o que pareceu a Andrea, vendo-o do chão. Quando o brutamontes a encarou, ela não percebeu expressão alguma em seus olhos castanhos. Uma feia cicatriz cruzava a cara do sujeito, da sobrancelha esquerda até o queixo. E, finalmente, um homenzinho pequeno e delgado, completamente vestido de branco. A pressão sobre sua cabeça aumentou. Ela mal pôde observar o último passageiro, já que este passou como uma exalação pelo seu reduzido campo de visão, no qual só restou um pedaço de convés sobre o qual deslizavam, cada vez mais preguiçosas, as sombras das hélices. — Agora me solte, pode ser? Esse desgraçado louco paranoico já conseguiu, já está em seu camarote, portanto levante-se de minhas costas, caralho! — O senhor Kayn não está louco nem é paranoico. Temo que sofra de agorafobia — disse seu captor, em espanhol. Aquela voz não era a do marinheiro. Andrea recordava muito bem aquele tom educado, belo, cadenciado e grave, tão semelhante ao de Ed Harris. Quando a pressão sobre o seu dorso desapareceu, ela se levantou de chofre. — O senhor? À sua frente se encontrava o padre Anthony Fowler. 3 Cerimônia em que a criança judia assume a responsabilidade religiosa lendo um fragmento da Torá na sinagoga. Sua importância social é semelhante à da Primeira Comunhão das crianças católicas, embora suas significações sejam mais similares ao sacramento da Confirmação. Chama-se bat mitzvá no caso de uma menina; no de um menino, bar mitzvá. (N. do A.) EXTERIOR DO ESCRITÓRIO DA GLOBALINFO Somerset Avenue, 225. Washington Terça-feira, 11 de julho de 2006. 11h29 O mais alto dos dois era também o mais jovem. Por isso, era sempre ele quem devia ir buscar o café e o almoço, como demonstração de respeito. Chamava-se Nazim e tinha 19 anos. Fazia 15 meses que integrava o grupo de Kharouf, e estava muito feliz. Sua vida tinha encontrado um propósito, um caminho. Nazim adorava Kharouf. Os dois tinham se conhecido 15 meses antes, na mesquita de Clive Cove, em Nova Jersey. Um lugar cheio de ocidentalizados, como os chamava Kharouf. Nazim gostava de jogar basquete perto da mesquita, e ali havia se aproximado de seu novo amigo, embora este fosse vinte anos mais velho. Nazim se sentira lisonjeado com o fato de que alguém tão maduro, e ainda por cima universitário, conversasse com ele. Abriu a porta do carro e se esforçou por se sentar no banco do carona. Não é fácil, quando você mede 1,90 metro. — Aqui perto só encontrei um Burger King. Trouxe saladas e hambúrgueres — disse, estendendo a sacola a Kharouf, que sorriu. — Obrigado, Nazim. Mas preciso lhe dizer uma coisa, e não quero que você se chateie. — O que é? Kharouf tirou os hambúrgueres da embalagem e jogou-os pela janela. — No Burger King eles acrescentam lecitina aos hambúrgueres, e pode haver restos de porco. Não é halal.4 Lamento. Mas as saladas, tudo bem. Nazim ficou um pouco triste, mas ao mesmo tempo se sentiu reconfortado. Kharouf era seu guia. Quando ele cometia um erro, Kharouf o corrigia com respeito e com um sorriso. Muito diferente de como haviam acabado as coisas com os pais de Nazim, que não paravam de gritar com ele nos últimos meses, desde que conhecera Kharouf, e este o convenceu a começar a frequentar outra mesquita, menor e mais “comprometida”. Na nova mesquita, o imame não somente lia o Sagrado Corão em árabe como também pregava nesse idioma. Embora tivesse nascido em Nova Jersey, Nazim lia e escrevia perfeitamente a língua do Profeta. Sua família provinha do Egito. Ao hipnótico sermão do imame, Nazim começou a ver a luz pouco a pouco. Rompeu com o caminho que fazia na vida. Tinha boas notas e poderia ter começado nesse ano o curso de engenharia, mas Kharouf lhe arrumou uma ocupação melhor numa empresa de contabilidade dirigida por um bom crente. Os pais não gostaram nada. Também não compreendiam que o jovem se trancasse no banheiro para rezar. Mas iam aceitando as mudanças, por mais dolorosas que fossem. Até que aconteceu o episódio de Hana. O jovem vinha se mostrando cada vez mais violento em seus comentários. Uma noite, sua irmã Hana, dois anos mais velha do que ele, voltou às duas da manhã depois de tomar uns drinques com as amigas. Nazim a esperava acordado e lhe deu uma bronca pela maneira com que ela se vestia e por chegar um pouco bêbada. Houve insultos muito feios de ambos os lados. Então o pai se interpôs e Nazim o apontou com o dedo. — Você é um fraco. Não sabe mandar em suas mulheres. Deixa sua filha trabalhar, dirigir carro, e não a obriga a usar véu. O papel dela é em casa, esperando um marido. Hana foi protestar e Nazim a esbofeteou. Paraseu pai, essa foi a gota d’água. — Eu posso ser fraco, mas pelo menos sou dono da minha casa. Vá embora daqui. Não o conheço. Vá embora! Nazim foi para a casa de Kharouf com a roupa do corpo. Naquela noite chorou um pouco, mas as lágrimas passaram logo. Agora, tinha uma nova família. E, nela, Kharouf representava o papel de pai e irmão mais velho. Nazim o admirava muito, porque Kharouf era um jihadista autêntico. Tinha 39 anos, estivera nos campos de treinamento do Afeganistão e do Paquistão, e transmitia seus conhecimentos apenas a um seleto punhado de jovens que, como Nazim, haviam sofrido muitas faltas de respeito. No colégio, no instituto e até na rua, as pessoas desconfiavam dele quando tomavam conhecimento de sua origem árabe, quando notavam sua pele azeitonada e seu nariz aquilino. Kharouf disse que isso era porque essas pessoas tinham medo. Porque os cristãos sabiam que os fiéis ao Islã são mais numerosos e mais fortes. Isso agradava a Nazim. Era a hora de impor seu próprio respeito. Kharouf levantou o vidro do motorista. — Faremos tudo daqui a seis minutos. Nazim o encarou, preocupado. Seu amigo notou que algo não ia bem. — O que foi, Nazim? — Nada. — Nunca é nada. Vamos, você sabe que pode me contar. — Não é nada. — É medo? Está com medo? — Não. Sou um soldado de Alá. — Os soldados de Alá também podem ter medo, Nazim. — Bom, eu não tenho. — É porque vai atirar? — Não! — Vamos, você treinou no matadouro do meu primo. Quarenta horas. Acho que acertou mais de mil vacas. Kharouf havia sido também um dos instrutores de tiro de Nazim. Um dos exercícios nos quais havia insistido mais tinha sido o de disparar em gado — às vezes vivo, muitas vezes morto —, para que Nazim se acostumasse ao manejo da arma e ao impacto das balas na carne. — O treinamento foi bom. Não tenho medo de disparar nessas pessoas. Quero dizer, eu sei que elas não são realmente gente e pronto. Kharouf não respondeu. Apoiou as mãos no volante, olhou para a frente e esperou. Sabia que a melhor maneira de Nazim lhe contar alguma coisa era deixar transcorrer um pequeno silêncio incômodo. O garoto sempre acabava preenchendo-o. — É só... bom, lamento não ter me despedido dos meus pais — disse Nazim, após um tempinho. — Sei. Você ainda se culpa pelo que aconteceu, não é? — Um pouco. Isso é ruim? Kharouf sorriu e colocou a mão sobre o ombro de Nazim. — Não. Você é um jovem sensível e carinhoso, Nazim. Alá lhe deu essas boas qualidades, bendito seja o nome dele. — Bendito seja. — Também lhe deu a força para superar tudo, quando necessário. E agora você empunha a espada de Alá e serve ao propósito dele. Alegre-se, Nazim. O rapaz tentou sorrir, mas em seu rosto só apareceu uma expressão torcida. Kharouf apertou a pressão da mão sobre o ombro dele. Sua voz soava cálida, amável. — Relaxe, Nazim. Hoje, Alá não nos pede nosso sangue, só o de outros. Mas, mesmo que aconteça alguma coisa, você gravou um vídeo para sua família, não? Nazim fez que sim com a cabeça. — Então, não se preocupe. Pode ser que seus pais tenham se ocidentalizado um pouco, mas no fundo da alma são bons muçulmanos. Sabem qual é o prêmio do mártir. E, quando você chegar à Vida Futura, Alá lhe dará o privilégio de interceder por eles. Imagine como se sentirão, nessa hora. O jovem imaginou seus pais e sua irmã ajoelhados diante dele, agradecendo-lhe pela salvação, pedindo-lhe perdão por terem se equivocado. Na bruma de sua fantasia, esse era o vislumbre mais belo da Vida Futura. Finalmente, conseguiu sorrir. — Assim é que eu gosto, Nazim. Carregue em seu rosto o bassamat al farah, o sorriso do martírio. É parte do nosso compromisso. É parte do nosso prêmio. Nazim meteu a mão na jaqueta e agarrou com força a culatra da arma. Pausadamente, Kharouf e ele desceram do carro. 4 Alimento permitido pela lei islâmica. (N. do A.) A BORDO DA BEHEMOT Navegando pelo golfo de Aqaba, mar Vermelho Terça-feira, 11 de julho de 2006. 17h11 — O senhor? — repetiu Andrea, com mais aborrecimento do que surpresa. Na última vez em que se haviam visto, Andrea rastejava perigosamente a 6 metros de altura, perseguida por um improvável agressor. Naquele momento, o padre Fowler lhe salvara a vida, mas também lhe arrebatara das mãos a Grande Matéria, a reportagem com que todos os repórteres sonham. Woodward e Bernstein conseguiram; Lowell Bergman5 conseguiu; Andrea Otero iria conseguir. Mas aquele sacerdote cruzou seu caminho. Pelo menos, havia lhe conseguido — que me enforquem, se eu souber como, pensava Andrea — uma entrevista exclusiva com o presidente Bush, e era graças a essa entrevista que ela estava naquele barco, ou pelo menos assim pensava. Mas aquela história eram águas passadas, e o presente se impunha. Andrea não estava disposta a deixar escapar a oportunidade. — Também me alegro em vê-la, senhorita Otero. Vejo que a cicatriz já é somente uma lembrança. A jovem tocou instintivamente a própria testa, no lugar onde Fowler lhe dera quatro pontos, 16 meses antes. Só restava uma linha fina e pálida. — O senhor tem boa mão. Mas isso não justifica sua presença aqui. Está me espiando? Veio de novo para estragar tudo? — Sou apenas um observador do Vaticano na expedição. Ninguém importante. Desconfiada, a jovem estudou o sacerdote. Por causa do calor tremendo, ele só usava uma camisa de manga curta com cabeção e uma calça de pregas, tudo rigorosamente preto. Pela primeira vez, Andrea atentou para os braços morenos do padre. Os musculosos antebraços eram enormes, e cheios de grossas veias do tamanho de esferográficas. Estes não são braços de um levantador de Bíblias. — E por que o Vaticano envia um observador a uma expedição arqueológica? O sacerdote ia responder quando uma voz alegre os interrompeu. — Que bom! Já foram apresentados? A doutora Harel irrompeu na popa exibindo um lindo sorriso. Andrea não o devolveu. — Mais ou menos. O padre Fowler ia me explicar por que bancava o Brett Favre comigo, dois minutos atrás. — Na realidade, Brett Favre é quarterback. Não faz tackling — retificou Fowler. — O que aconteceu, padre? — perguntou Harel. — A senhorita Otero entrou na popa quando o senhor Kayn descia do avião. Precisei imobilizá-la sem grandes cuidados. Lamento. Harel assentiu. — Entendo. Afinal, ela não esteve na reunião de segurança. Não se preocupe, padre. — Não se preocupe, como assim? Ficaram todos malucos, aqui? — Sossegue, Andrea. Infelizmente, a senhorita esteve doente nas últimas 48 horas e não pôde ser informada. Permita que eu lhe faça um breve resumo. Veja bem, Raymond Kayn é agorafóbico. — Isso, o padre Tackler já me disse. — Saiba que o padre Fowler é psicólogo, além de sacerdote. Por favor, padre, não hesite em intervir para completar a explicação, se eu me esquecer de alguma coisa. O que sabe sobre agorafobia, Andrea? — Que é o medo dos espaços abertos. — Esse é um erro muito comum. Na realidade, os que padecem dessa enfermidade manifestam temores bem mais complexos do que essa redução simplista. Fowler pigarreou. — O que os agorafóbicos temem de verdade é perder o controle — disse. — Têm medo de ficar sozinhos, de se verem em lugares dos quais seja difícil escapar ou de conhecer novas pessoas. Por isso, costumam se encerrar em casa durante longos períodos. — O que acontece quando algo lhes escapa ao controle? — Depende do nível do transtorno. O caso do senhor Kayn é dos mais agudos. Portanto, o mais provável é que, diante de um ansiógeno, ele sofresse ataques de pânico, perda de contato com a realidade, tremores, tonturas e taquicardia. — Bom, os agorafóbicos não poderiam ser operadores da Bolsa. — Nem neurocirurgiões, está claro — brincou Harel. — Mas podem levar uma vida normal. Há pessoas famosas, como Kim Basinger ou Woody Allen, que enfrentaram a agorafobia durante décadas e se saíram bem. O próprio senhor Kayn levantou um império a partir do nada. Infelizmente, nos últimos cinco anos tem lutado contra um agravamento de sua doença. — Eu me pergunto que diabo de coisa é tão importante assim para que um homem doente searrisque a sair de sua carapaça. — A senhorita colocou o dedo na ferida, Andrea — disse Harel. Andrea notou que a doutora a fitava de maneira estranha. Permaneceram em silêncio por uns instantes. Foi Fowler quem reatou a conversa. — Espero que agora perdoe meu excesso de brusquidão, há pouco. — Talvez. Mas o senhor quase me destroncou o pescoço — disse Andrea, friccionando a nuca. Fowler olhou para Harel, que fez um gesto de concordância. — Bem, senhorita Otero... conseguiu ver os homens que desciam do BA-609? — Havia um jovem moreno de óculos, muito atraente. Um homem de uns 50 anos, vestido de preto e com uma cicatriz enorme. E outro magrinho, de cabelo branco, que imagino ser o senhor Kayn. — O jovem é o secretário de Kayn, Jacob Russell. O homem da cicatriz se chama Mogens Dekker e é o chefe de segurança das Indústrias Kayn. Acredite, se a senhorita tivesse se aproximado de Kayn seguindo seu... estilo habitual, podia tê-lo deixado muito nervoso. E a senhorita não quer que isso aconteça. Um apito percorreu o barco da proa à popa. — Como veem, chegou a hora da sessão introdutória — disse Harel. — Finalmente, o grande mistério será revelado. Venham comigo. — Aonde vamos? — perguntou Andrea, começando a andar atrás da doutora. Os três retornaram ao convés central e entraram pelo mesmo corredor da superestrutura pelo qual a jornalista havia se insinuado minutos antes. — Todo o pessoal da expedição vai se encontrar pela primeira vez. Eles nos explicarão qual é o papel de cada um, e o mais importante: o que estamos indo procurar na Jordânia. — A propósito, doutora, qual é sua especialidade? — perguntou Andrea, quando já entravam na sala de reuniões. — Medicina de combate — respondeu Harel, em tom displicente. 5 Woodward e Bernstein descobriram o escândalo de escutas ilegais durante a presidência de Richard Nixon; foi o famoso caso Watergate. Lowell Bergman trouxe à luz os podres da indústria norte- americana do tabaco. (N. do A.) REFÚGIO DA FAMÍLIA COHEN Viena Fevereiro de 1943 Jora Myer estava doente de preocupação. Era uma sensação ácida no fundo da garganta, que lhe provocava tonturas terríveis. Não a experimentava desde os 14 anos, quando fugira dos pogroms de 1906 em Odessa, Ucrânia, com seu avô de braços dados. Tivera sorte. Entrou muito jovem para trabalhar na casa da família Cohen, donos de uma fábrica em Viena. Josef era o mais velho dos filhos. Quando a shadchan, a casamenteira, encontrou para ele uma boa esposa judia, Jora o acompanhou como babá. Os primeiros anos do primogênito, Elan, foram rodeados de mimo e privilégio. O pequeno Yudel, porém... O menino jazia feito um novelo no catre, improvisado no chão com duas mantas dobradas. Até a véspera, tinha compartilhado o leito com o irmão. Visto ali, deitado, Yudel parecia miúdo e triste. Sem os pais, o asfixiante espaço lhe parecia enorme. Pobre Yudel. Aqueles 4 metros quadrados tinham sido para ele o universo inteiro, praticamente desde seu nascimento. Na tarde em que veio ao mundo, toda a família, incluindo Jora, estava no hospital. Nenhum deles retornou ao luxuoso apartamento da Rienstrasse. Era 9 de novembro de 1938, a jornada que o mundo conheceria semanas mais tarde como a Kristallnacht, a Noite dos Cristais Quebrados. Os avós de Yudel foram dos primeiros a cair. Todo o imóvel da Rienstrasse ardeu até os alicerces, junto com a sinagoga vizinha, enquanto os bombeiros bebiam e riam. A única bagagem que os Cohen levaram foi alguma roupa e um misterioso pacote que o pai de Yudel havia usado em uma cerimônia quando o menino nasceu. Jora não soube do que se tratava, pois o senhor Cohen insistira em que todos abandonassem o quarto do hospital para realizá-la, inclusive Odile, que mal podia se aguentar de pé. Quase sem dinheiro, Josef não ousou ou não pôde fugir do país. Acreditou, como muitos na época, que a tormenta passaria logo, e buscou refúgio para todos nas casas de amigos austríacos católicos. Não se esqueceu de Jora, coisa que a madura senhorita Myer tampouco esqueceria. Mas poucas amizades resistem a provações tão terríveis como a que resultou da ocupação da Áustria. Uma, porém, conseguiu. O velho juiz Rath decidiu ajudá-los, mesmo que isso lhe custasse a vida. Camuflou em sua casa um espaço em um dos aposentos, levantando com suas próprias mãos a parede de tijolos e deixando um buraco estreito que fazia as vezes de porta. Uma estante baixa cobria aquela pequena passagem. Entraram naquela tumba de vivos numa noite de dezembro de 1939, acreditando que a guerra duraria poucas semanas. Não tinham espaço para ficar todos deitados ao mesmo tempo. Seus únicos utensílios eram uma lamparina de óleo e um balde. A comida e o ar entravam à uma da madrugada, duas horas depois que a criada do juiz ia para casa. Por volta da meia-noite e meia, o ancião começava a empurrar a estante, devagar. Por causa de sua idade, levava quase meia hora, com muitos descansos, até afastá-la o suficiente para que todos saíssem. O juiz Rath era mais um prisioneiro daquela vida. Sabia muito bem que o marido da criada era membro do partido nazista. Para construir o esconderijo, teve de enviá-la de férias a Salzburgo por alguns dias, e, quando ela voltou, disse que haviam reformado o encanamento de gás. Não se atrevia a demiti-la, pois daria o que falar. Também não se arriscava a ter grandes quantidades de comida, e, desde que começaram os cupons de racionamento, para ele ficava cada vez mais complicado alimentar cinco pessoas. Jora tinha pena dele, pois o juiz havia vendido todos os objetos de valor que conseguiu para arrumar carne e batatas de contrabando, que escondia no sótão do edifício. À noite, quando todos saíam descalços, fantasmas estranhos e sussurrantes, ele descia a comida do sótão. Os Cohen não se atreviam a permanecer mais que umas poucas horas fora de sua clausura. Enquanto Jora procurava fazer os meninos tomarem banho e se movimentarem um pouco, Josef e Odile conversavam baixinho com o juiz. Durante o dia não podiam dizer uma só palavra nem fazer o mínimo ruído. Passavam o tempo dormindo, ou em um estado de semivigília que parecia a Jora uma tortura, até que escutava as histórias sobre os campos de Treblinka, Dachau e Auschwitz. Os detalhes mais insignificantes da vida se tornavam operações complicadíssimas. As necessidades fisiológicas, beber ou mesmo trocar as fraldas do pequeno Yudel eram processos longos e tediosos naquele buraco. Jora não parava de se assombrar com a capacidade expressiva de Odile Cohen, que havia desenvolvido um complexo sistema de sinais que dedicava na maior parte a longas e amargas discussões com o marido. Passaram três anos em silêncio. Yudel não aprendeu a falar mais do que quatro ou cinco palavras. Foi uma sorte que tivesse um temperamento tranquilo. Quando pequenino, quase não chorava, e preferia ficar nos braços de Jora a ficar nos da mãe, algo que não parecia importar muito a Odile. Ela só tinha olhos para Elan, que foi quem mais sofreu naquele confinamento. Era um menino inquieto e mimado de 5 anos quando começaram os pogroms de novembro de 1938. Após mais de mil dias de clausura, tinha o olhar perdido e alucinado. Insistia em ser o último a entrar no esconderijo quando chegava a hora de voltar. Muitas vezes se negava a entrar, ou ficava parado na entrada. Nessas ocasiões, Yudel se aproximava e lhe segurava a mão, animando-o a fazer o sacrifício de novas e intermináveis horas de escuridão. Até que, seis noites antes, simplesmente não aguentara mais. Quando todos, menos ele, haviam retornado ao buraco, Elan escapuliu pela porta. Os dedos artríticos do juiz só conseguiram lhe roçar a camisa antes que o menino escapasse. Josef tentou segui-lo, mas, quando chegou à rua, não havia rastro de Elan. As notícias chegaram três dias depois, no Kronen Zeitung. Um pequeno judeu, deficiente mental e sem família conhecida, tinha sido levado para o Kinderspital AM Spiegelgrund. O juiz se mostrou horrorizado. Quando explicou aos seus protegidos, com um nó na garganta, qual era o destino mais prováveldo filho deles, Odile renunciou a toda prudência e sensatez. Jora começou a sentir o desassossego e as tonturas no instante em que a senhora Cohen cruzou a porta. Embaixo do braço, carregava aquele pacote que os acompanhara no esconderijo, o mesmo que levariam ao hospital pouco depois. Seu marido, apesar de seus protestos, acompanhou-a, não sem antes entregar um envelope a Jora. — Para Yudel. Diga que não o abra antes de seu bar mitzvá. Desde aquele momento, haviam se passado duas noites terríveis. Jora ansiava por notícias, mas o juiz estava ainda mais taciturno do que de costume. No dia anterior, a casa estivera cheia de ruídos estranhos. E então, pela primeira vez em três anos, a estante começou a se deslocar em pleno dia e o rosto do juiz apareceu no vão. — Saiam, rápido. Não há um segundo a perder! Jora pestanejou. Custou-lhe reconhecer como a luz do sol aquele forte resplendor que encontraram do lado de fora do buraco. Yudel não a tinha visto nunca e voltou a se meter no esconderijo, assustado. — Jora, lamento muito. Ontem eu soube da detenção de Josef e Odile, mas não lhe disse nada para não preocupá-la ainda mais. Agora, você não pode mais ficar aqui. Eles serão interrogados, e, por mais que aguentem, acabarão revelando onde está Yudel. — A patroa não dirá nada. Ela é forte. O juiz balançou a cabeça. — Os interrogadores vão prometer a vida do mais velho em troca da revelação do esconderijo do caçula, ou algo pior. Eles sempre conseguem que as pessoas falem. A criada começou a chorar. — Agora não há tempo para isso, Jora. Quando vi que Josef e Odile não voltavam, fui procurar um amigo na legação búlgara. Consegui para vocês dois cartões de saída em nome de Bilyana Bogomil, preceptora, e Mikhail Zhivkov, filho de um diplomata búlgaro. Presume-se que você está levando o menino de volta à escola, depois de passar o Natal com os pais. — Mostrou-lhe uns bilhetes retangulares. — Aqui estão duas passagens de trem para Stara Zagora. Mas você não chegará até lá. — Não entendi — disse Jora. — Este é o destino oficial de sua viagem, mas vocês vão ficar em Cernavoda, onde o trem faz uma breve parada. Você desce para que o menino estique as pernas, muito sorridente e sem levar nenhuma maleta nem nada nas mãos. Quando puder, desapareça. Constanta fica a 60 quilômetros, na direção leste. Você terá de fazer esse trajeto andando ou de caleça, se conseguir alguém que os leve. — Constanta — repetiu Jora, tentando memorizar tudo em seu aturdimento. — Antes era Romênia, agora é Bulgária. Amanhã, quem sabe? O importante é que é um porto de mar que os nazistas não controlam muito. Ali, você poderá conseguir um barco para Istambul. E de Istambul para qualquer lugar. — Mas não temos dinheiro. Não vou poder comprar a passagem. — Tome, aqui estão uns marcos para a viagem. E neste envelope há dinheiro para as passagens. A criada olhou ao redor. Na casa não restava um só móvel, e Jora compreendeu de onde vinham os ruídos que havia escutado no dia anterior: o velho tinha empenhado tudo o que possuía para lhes dar uma oportunidade. — Como poderemos lhe agradecer, juiz Rath? — Não agradeça. Sua viagem será muito perigosa. Não tenho certeza de que os cartões de saída sirvam para protegê-los. Que Deus me perdoe, espero não estar enviando-os para a morte. Duas horas depois, Jora conseguiu arrastar o menino até a escada do edifício. Ia se lançar para a rua quando um caminhão freou junto à calçada. Todos os que viviam sob o jugo dos nazistas conheciam muito bem aquela melodia lúgubre. Começava por um rangido, seguido por um grito e um surdo pisotear de botas sobre a neve. Depois, as pisadas se tornavam mais nítidas quando as solas golpeavam madeira, e você rezava para que a canção passasse ao largo. Havia um crescendo e uma pausa quando os músicos batiam a uma porta. Após a pausa, começava o coro de lamentos, que às vezes terminava com um solo de metralhadora. E, quando a canção se concluía, as luzes voltavam a se acender, os comensais retornavam à mesa e as mães sorriam, fingindo que não tinha acontecido nada. Jora, que conhecia muito bem aquela toada, escondeu-se embaixo da escada quando escutou os primeiros compassos. Um soldado passeou nervoso pelo pórtico escuro, enquanto seus companheiros derrubavam a porta de Rath. O soldado trazia na mão uma lanterna, e o feixe de luz partia a escuridão, faminto. Já roçava o sapato cinza e gasto de Jora. Yudel agarrou-a com toda a força, tanto que Jora teve de morder os lábios para não gritar de dor. O soldado estava tão perto que ambos sentiram o cheiro do couro de seu capote e o aroma frio, metálico e gordurento do cano da arma. O estrondo de um disparo desceu pela escada. O soldado interrompeu sua busca e correu para os companheiros, que gritavam. Jora levantou Yudel nos braços e saiu para a rua, andando muito devagar. A BORDO DA BEHEMOT Navegando pelo golfo de Aqaba, mar Vermelho Terça-feira, 11 de julho de 2006. 18h03 Quase todo o espaço da sala era ocupado por uma mesa retangular sobre a qual haviam colocado ordenadamente umas pastas de cartolina, diante das quais se sentavam umas vinte pessoas. Harel, Fowler e Andrea foram os últimos a entrar e tiveram de ocupar os lugares que restavam. Andrea ficou entre uma jovem afro-americana, vestida numa espécie de uniforme paramilitar, e um homem maduro, de espesso bigode. A jovem a ignorou e continuou conversando com os companheiros de sua esquerda, vestidos como ela. O homem maduro a cumprimentou com uma mão de dedos enrugados e grossos, tão juntos como um pacote de seis cervejas. — Tommy Eichberg, motorista. É a senhorita Otero, não? — Ora veja, outro que me conhece. Muito prazer. Eichberg sorriu. Tinha um rosto amável e redondo, e começava a ficar careca. — Espero que já esteja melhor. Andrea ia responder, mas foi interrompida por um pigarro forte e desagradável. Acabava de entrar um ancião que passava muito dos 70. As rugas lhe fustigavam os olhos até apequená-los, efeito que era acentuado pelos diminutos óculos que ele usava. Era calvo, e uma enorme barba grisalha lhe flutuava ao redor da boca como uma nuvem de cinza. Usava bermudas e camisa curta, ambas de cor cáqui, e grossas botas pretas. Sua voz era tão aguda e desagradável como o fio de um bisturi sobre os dentes. Começou a falar antes mesmo de chegar à cabeceira da mesa, onde havia uma lousa eletrônica portátil. Ao lado se encontrava o secretário de Kayn. — Cavalheiros, senhoritas. Meu nome é Cecyl Forrester e sou professor de arqueologia bíblica na Universidade de Massachusetts. Não é a Sorbonne, mas é um lar. Houve algumas risadas educadas entre os assistentes do professor, que haviam escutado aquele gracejo um milhão de vezes. — Os senhores andaram especulando sobre o propósito desta viagem desde que puseram os pés no barco. Espero que não desde antes, já que seus... ou melhor, nossos... contratos de confidencialidade com as Indústrias Kayn exigem silêncio absoluto de sua parte desde o momento em que os assinaram e até que sua morte torne felizes seus herdeiros. As condições do meu contrato, infelizmente, também incluem que os ilumine durante a próxima hora e meia. Não me interrompam, exceto para fazer perguntas inteligentes. Como o senhor Russell me facilitou suas fichas, conheço seus QIs e até suas marcas favoritas de preservativos. Portanto, que os discípulos do senhor Dekker não se deem ao trabalho de tentar isso. Andrea, que estava parcialmente voltada para o professor, escutou atrás de si um murmúrio ameaçador. Os de uniforme se agitavam, nervosos. — Este filho da puta se acha mais esperto do que todo mundo — sussurrou alguém. — Talvez eu o faça engolir os dentes um a um. — Silêncio. A voz era suave, mas tinha um matiz tão violento que Andrea não pôde reprimir um calafrio. Girou a cabeça o suficiente para ver que pertencia a Mogens Dekker, o homem da cicatriz, que se apoiava em um tabique a poucos metros. Os soldados se calaram imediatamente. — Bom, agora que estamos todos em nossos lugares — continuou Cecyl Forrester—, é melhor que eu os apresente. Fomos convocadas 23 pessoas para aquela que será a maior descoberta de todos os tempos, e todos os senhores exercerão nela um papel. Já conhecem o senhor Russell, à minha direita. Foi ele quem selecionou todos. O assistente de Kayn fez uma inclinação de cabeça à maneira de saudação. — À direita dele, o padre Anthony Fowler, que atuará como observador do Vaticano na expedição. Segue-se o grupo de trabalhadores: Nuri Zayit e Rani Peterke, cozinheiro e ajudante de cozinha. Robert Frick e Brian Hanley, intendência. Os dois cozinheiros eram homens mais velhos. Zayit estaria pelos 60 e era um homem enxuto e de lábios caídos, enquanto seu ajudante era corpulento e um pouco mais novo. Andrea não soube precisar quanto. Os dois da intendência, pelo contrário, eram jovens e estavam quase tão morenos quanto ele. — Além desses trabalhadores excessivamente remunerados, temos meus assistentes puxa-sacos e preguiçosos. Todos são formados em universidades caras e acreditam saber mais do que eu: David Pappas, Gordon Durwin, Kyra Larsen, Stowe Erling e Ezra Levine. Os arqueólogos se remexeram em seus assentos e procuraram fazer cara de profissionais. Andrea teve pena deles. Os cinco rondavam os 30, mas o cabresto de terror com que Forrester os dominava fazia-os parecer mais novos e inseguros do que realmente eram. Exatamente o contrário do que se observava no outro lado da mesa, onde se sentavam os uniformizados, junto à jovem jornalista. — Ao fundo, o senhor Dekker e seus cães de caça: os gêmeos Gottlieb, Aldis e Alryk; Tewi Waaka, Paco Torres, Marla Jackson e Louis Maloney. Eles se encarregarão de nossa segurança, acrescentando armas de grande calibre ao material da expedição. A ironia desta frase é devastadora, não acham? Os soldados não reagiram, mas Dekker afastou as costas da parede e se inclinou sobre a mesa. — Estamos indo para uma zona fronteiriça de um país islâmico. Dada a natureza de nossa... missão, os moradores locais poderiam ficar violentos. Certamente o professor Forrester apreciará o calibre de nossas armas, se for o caso. Forrester abriu a boca para responder, mas alguma coisa no rosto de Dekker deve tê-lo convencido de que aquele não era o melhor momento para réplicas ácidas. — Mais à direita, os senhores têm Andrea Otero, nossa cronista oficial. Peço-lhes que atendam aos seus pedidos de entrevistas e informações, para que ela possa contar nossa história ao mundo. A jovem lançou um sorriso ao redor e encontrou alguns em retribuição. — O homem de bigode é Tommy Eichberg, nosso motorista. E por último, à direita dele, a curandeira oficial, Doc Harel. — Não se aflijam se não souberem o nome dos restantes — disse a doutora, levantando a mão. — Vamos passar juntos um bom número de dias, num lugar que não se destaca por sua oferta cultural, de modo que nos conheceremos bem. Não se esqueçam de usar sempre o crachá que a tripulação deixou em seus camarotes. — Para mim tanto faz que saibam ou não o nome dos outros, desde que façam seu trabalho — interrompeu o velho professor. — Se prestarem atenção à lousa eletrônica, vou lhes contar uma história. A tela se iluminou com imagens de uma cidade da antiguidade, recriadas por computador. Acima de um vale erguia-se uma aglomeração de muros ocres e telhados de terracota, rodeada por uma tríplice muralha. As ruas eram um ir e vir de pessoas cuidando de seus assuntos cotidianos. Andrea se encantou com o nível de detalhes da apresentação, digno das melhores produções de Hollywood, mas a voz que narrava o documentário era a do próprio professor. O sujeito é tão narcisista que não se dá conta do timbre horrível que tem. Chega a me dar dor de cabeça, pensou a jovem. Bem-vindos a Jerusalém, abril do ano 70 d.C. A cidade está ocupada há quatro anos pelos rebeldes zelotas, que expulsaram os invasores romanos. Estes, oficialmente os donos de Israel, não podem tolerar a situação por mais tempo, e Roma encarrega Tito de aplicar um castigo exemplar. A tranquila paisagem de mulheres recolhendo água nos poços com seus cântaros e crianças brincando perto do bocal se interrompe quando aparecem no horizonte uns estandartes coroados por águias. Ouvem-se trombetas e as crianças correm apavoradas para o lado de dentro dos muros. Quatro legiões rodeiam a cidade em poucas horas. É o quarto assédio à cidade, e os habitantes repeliram com êxito as tentativas anteriores de reconquistar a cidade feitas pelos romanos. Mas Tito utiliza uma estratégia muito hábil. Permite que todos os peregrinos que vão chegando a Jerusalém para a Páscoa atravessem o cerco. Passada a festa, o círculo se fecha. Tito não permite que os peregrinos saiam, e agora a cidade tem quase o dobro de habitantes. As reservas de água e comida diminuem muito depressa. As legiões romanas lançam um ataque sobre o lado norte, derrubando o terceiro muro. Estamos em meados de maio, e a queda da cidade é apenas questão de tempo. A imagem mostra um aríete destruindo o muro e, do topo da colina mais alta da cidade, alguns sacerdotes contemplando a cena, com lágrimas nos olhos. A cidade viria a cair em setembro, e Tito aplicaria a punição que havia prometido a Vespasiano. A maioria dos habitantes será assassinada ou dispersada, e suas posses, saqueadas. Seu templo, destruído. Um grupo de legionários rodeado de cadáveres lança do templo em chamas um gigantesco candelabro de sete braços, enquanto o general sorri do alto de seu cavalo. O segundo templo de Salomão foi arrasado até os alicerces, e assim continuou até hoje. Muitos dos tesouros do templo foram saqueados. Muitos, mas não todos. Após a queda, em maio, do Terceiro Muro, um sacerdote chamado Yirmëyáhu concebeu um plano para colocar a salvo parte do tesouro. Selecionou um grupo de vinte homens valentes e, aos primeiros 12, deu pacotes e instruções precisas sobre para onde levar os volumes e o que fazer com eles. Tais pacotes continham a parte “convencional” do tesouro do templo: grandes quantidades de ouro e prata. Um sacerdote ancião de barba branca, vestido com túnica preta, fala com dois jovens, enquanto outros esperam sua vez em um aposento de pedra iluminado por tochas. Aos oito últimos homens Yirmëyáhu reservara um destino muito especial. Dez vezes mais perigoso que o dos outros. O sacerdote conduz os homens, que carregam um pesado fardo com a ajuda de um andor, por uma intricada rede de túneis, com tochas nas mãos. Usando as passagens secretas sob o templo, Yirmëyáhu os conduziu para além das muralhas, além do assédio romano. Aquela região, na retaguarda da legião X Fretensis, era controlada a determinados intervalos por patrulhas, mas os escolhidos do sacerdote conseguiram levar sua pesada carga até Yëriho, a moderna Jericó, no alvorecer do dia seguinte. E ali sua pista desaparece para sempre. O professor apertou um botão e a tela se apagou. Ele se voltou para a audiência, que esperava em silêncio, ansiosa. — A façanha desses homens foi incrível. Percorreram 22 quilômetros com uma carga enorme, em menos de nove horas. E esse foi apenas o princípio de sua viagem. — O que eles levavam, professor? — perguntou Andrea. — Suponho que o objeto mais valioso — disse Harel. — Cada coisa em seu devido tempo, queridas. Yirmëyáhu voltou ao interior da cidade e passou os dois dias seguintes redigindo um manuscrito muito especial, em um suporte ainda mais especial. Era um mapa detalhado com instruções para recuperar os lotes nos quais havia repartido os tesouros do templo que conseguira salvar... mas não pôde fazê-lo sozinho. Era um mapa verbal, escrito em baixo-relevo sobre um rolo de cobre de 3 metros de comprimento. — Por que cobre? — perguntou alguém lá de trás. — À diferença do papiro ou do pergaminho, o cobre é um material durável. Também é muito mais difícil de trabalhar sobre ele. Foram necessárias cinco pessoas, que escreveram todo o texto em uma única sessão, às vezes alternando-se. Quando terminaram, Yirmëyáhu dividiu o rolo em duas partes e entregou uma a um mensageiro, com instruções de deixá-laa salvo numa comunidade de Yisseyitas que vivia perto de Jericó. A outra ele entregou a seu próprio filho, um dos kohanim, um sacerdote como ele. E essa é a história que conhecemos de primeira mão, porque Yirmëyáhu a escreveu em seu manuscrito. Depois, a pista se perde durante 1.882 anos. O velho fez uma pausa para tomar fôlego e beber água. Por um momento, deixou de parecer um manequim pomposo e enrugado e se assemelhou muito a um ser humano. — Agora, os senhores conhecem mais desta história do que qualquer erudito do mundo. Ninguém mais sabe como se escreveu o manuscrito. E, no entanto, ele se tornou muito famoso quando uma de suas partes apareceu em 1952, numa gruta da Palestina. O manuscrito estava entre os cerca de 85 mil fragmentos de texto que foram encontrados até agora em Qumran. — É o famoso Rolo de Cobre de Qumran? — interveio a doutora Harel. O arqueólogo voltou a ligar a tela, que mostrou a imagem de um fragmento do famoso rolo. Uma folha curvada de metal verde-escuro, com caracteres quase ilegíveis em sua superfície. — Assim foi denominado. Em seguida, ele chamou a atenção dos pesquisadores, tanto por seu conteúdo especial (que ninguém foi capaz de traduzir convenientemente) quanto por ser um suporte de cobre. Ficou claro desde o princípio que era a lista de um tesouro, formada por 64 itens. As entradas davam uma ideia do que devia ser procurado e onde, por exemplo Sob a gruta que fica quarenta passos a leste da Torre de Achor, cavai um metro. Há seis barras de ouro. — ... mas as indicações eram vagas, e as quantidades descritas pareciam irreais, algo assim como 200 toneladas de ouro e prata. Então, os pesquisadores “sérios” disseram que aquilo era um mito, um conto, uma falsificação, uma brincadeira. — Muito trabalho para uma simples brincadeira — comentou Tommy Eichberg. — Exato! Brilhante, senhor Eichberg, brilhante, sobretudo para um motorista — disse Forrester, que parecia incapaz de fazer o mínimo elogio sem lhe acrescentar um insulto. — No ano 70 não havia serralherias. Uma enorme lâmina de cobre a 99 por cento era caríssima. E ninguém escreveria um relato de ficção em um suporte tão custoso. Havia um raio de esperança. O item no 64 era, segundo o Rolo, “um texto como este, com instruções e uma chave para encontrar os objetos descritos”. Um dos soldados levantou a mão. — Ou seja, esse velho aí, Yermiyaju... — Yirmëyáhu. — Tanto faz. Ou seja, o velho partiu em dois o manuscrito, e um era a chave para achar o outro e vice-versa? — E os dois juntos, para encontrar o tesouro. Sem o segundo rolo, toda a esperança de decifrar o manuscrito era nula. Mas, oito meses atrás, aconteceu algo... — Tenho certeza de que seus ouvintes preferirão a versão abreviada, doutor — disse o padre Fowler, com um sorriso. O velho arqueólogo ficou olhando para ele durante alguns segundos. Andrea notou como ele fazia um esforço para continuar falando, e se perguntou que diabo teria acontecido entre aqueles dois homens. — Sim. Sem dúvida. Bom, basta dizer que finalmente apareceu a segunda parte do manuscrito, graças ao empenho do Vaticano em localizá- la. Havia sido transmitida de pais para filhos como um objeto sagrado. O dever da família era custodiá-lo até o momento oportuno. Para isso, esconderam-no em uma vela, mas, no decorrer do processo, esqueceram o que havia dentro. — Não é de estranhar. Foram... quantas? Setenta, oitenta gerações? É um milagre que o dever de cuidar da vela tenha se mantido intacto — disse alguém situado em frente a Andrea. À jovem, pareceu tratar-se de Brian Hanley. — Nós, judeus, somos um povo de homens pacientes — comentou Nuri Zayit. — Estamos há três mil anos esperando o Messias. — E vão esperar mais três mil — completou um dos soldados de Dekker. Um coro de risadas escandalosas e o estalar de palmas no canto do fundo acompanharam aquela brincadeira de mau gosto. Mais ninguém riu. Pelos nomes, Andrea desconfiava que quase todos os integrantes da expedição, exceto os paramilitares, eram de origem judaica. A jovem sentiu a tensão, tão patente quanto uma cabeça de frango num bolo de casamento. — Continuemos — disse Forrester, ignorando os gracejos dos soldados. — Sim, foi um milagre. Podem contemplá-lo. Um dos ajudantes trouxe uma moldura de madeira de um metro de comprimento, na qual se havia colocado e protegido com um vidro uma folha de cobre repleta de símbolos em hebraico. Todos, inclusive os soldados, ficaram olhando e fazendo comentários em voz baixa. — Parece novo. — Sim, o Rolo de Cobre é mais velho. Não brilha e está cortado em tiras pequenas. — O Rolo de Cobre parece muito mais antigo porque esteve exposto ao ar — esclareceu o professor —, e está dividido em tiras pequenas porque os pesquisadores não acharam outra forma de abri-lo e ler seu conteúdo, a não ser cortando-o. O Segundo Rolo ficou permanentemente protegido da oxidação pela cera na qual estava envolto. Por isso é que agora os senhores o veem quase como no primeiro dia. Nosso próprio mapa do tesouro. — Então, conseguiram decifrá-lo? — perguntou Andrea. — Quando obtivemos o segundo manuscrito, decifrar o conteúdo do primeiro foi brincadeira de criança. Não foi fácil manter o segredo de uma descoberta como esta. Por favor, não me importunem pedindo mais detalhes sobre o processo, porque ainda não estou autorizado a lhes revelar nada, e, de todo modo, os senhores não iriam entender. — Quer dizer que vamos em busca de um monte de ouro? Não é um objetivo um tanto banal para uma expedição tão pretensiosa? Ou para alguém que bota dinheiro pelos ouvidos, como o senhor Kayn? — disse Andrea. — Senhorita, não estamos indo em busca de um monte de ouro. Na verdade, já encontramos um pouco. O velho arqueólogo fez um sinal a um de seus assistentes, o qual desdobrou sobre a mesa um feltro preto e, com muito esforço, colocou em cima dele um objeto resplandecente. Era a maior barra de ouro que Andrea havia visto em sua vida. Tinha o tamanho de um antebraço humano e não estava talhada, só fundida. Sua superfície era coberta de crateras, curvas e imperfeições, e mesmo assim era muito bonita. Todos os olhos se cravaram na mesa, e houve vários assovios de admiração. — Usando a chave do Segundo Rolo, descobrimos um dos esconderijos descritos no Rolo de Cobre. Foi em março deste ano, num lugar da Cisjordânia. Havia seis barras de ouro como esta. — Quanto vale? — Uns 30 mil dólares... Os assovios se transformaram em gritos. — ... mas, acreditem, não é nada comparável ao valor do que vamos procurar. O objeto mais precioso da história da humanidade. Forrester fez um gesto e um dos assistentes retirou a barra, mas deixou o feltro preto. O arqueólogo puxou de seus documentos uma folha de papel pautada e deixou-a no mesmo lugar onde havia depositado o ouro. Os presentes se inclinaram com avidez sobre a mesa, tentando ver o que era. Todos, sem exceção, reconheceram no mesmo instante o que os esboços da folha representavam. — Senhoras e senhores, somos os 23 eleitos para devolver ao mundo a Arca da Aliança. A BORDO DA BEHEMOT Navegando pelo golfo de Aqaba, mar Vermelho Terça-feira, 11 de julho de 2006. 19h17 Uma onda de assombro percorreu a sala. Todos começaram a falar entre si, excitados. Em seguida, encheram de perguntas o velho arqueólogo. — ... onde está a Arca? — ... o que há dentro...? — ... poderemos ajudar...? Andrea ficou espantada com a reação dos assistentes, inclusive a sua própria. Aquelas palavras, Arca da Aliança, imediatamente acrescentavam um componente místico à grande descoberta arqueológica que o encontro daquela relíquia significaria. Nem sequer uma entrevista com Kayn está à altura disto. Russell tinha razão. Se acharmos a Arca, será a notícia do século. Uma prova da existência de Deus... Sua respiração se acelerou. De repente, ela quis fazer centenas de perguntas a Forrester, mas logo percebeu que seria inútil. O velho os levara até aquele ponto e agora ia deixá-los ali plantados, ansiando por mais. Uma forma excelente de garantir nossa colaboração. Confirmandoo pensamento de Andrea, Forrester os fitou com a mesma cara de satisfação de um gato que tivesse acabado de caçar um canário. Acenou com as mãos para que se calassem. — Por hoje, chega. Não quero lhes dar mais do que aquilo que seus cérebros possam assimilar. Informaremos quando chegar o momento. Por enquanto, vou passar a palavra... Andrea o interrompeu. — Uma última coisa, professor. O senhor disse que somos 23 eleitos, e aqui eu estou contando 22. Quem falta? Forrester fez um gesto de pergunta muda a Jacob Russell, que lhe dirigiu um sinal de aprovação. — O número 23 na expedição será o senhor Raymond Kayn. As conversas pararam de repente. — Que diabo significa isso? — quis saber um dos mercenários. — Significa que o patrão da expedição, que como todos sabem chegou ao barco horas atrás, viajará conosco. É tão estranho assim, senhor Torres? — Mas, meu Deus, dizem que o velho está pirado. Já é difícil proteger os lúcidos. Os pirados, então, é impossível — replicou o tal de Torres, que a Andrea pareceu ser da América do Sul. Era baixo, seco de carnes e muito moreno. Seu inglês tinha um forte sotaque latino. — Torres. O mercenário se encolheu na cadeira. Não se voltou. A voz de Dekker às suas costas o impediu de continuar dando mancadas. Enquanto isso, Forrester se sentou e foi Jacob Russell quem ficou de pé. Andrea percebeu que seu blazer branco não tinha uma só ruga. — Boa tarde a todos. Em meu nome e no das Indústrias Kayn, quero agradecer ao professor Cecyl Forrester sua emocionante apresentação e, a todos os senhores, sua presença aqui. Tenho pouco a acrescentar, exceto dois detalhes muito importantes. Primeiro: a partir deste preciso momento, fica proibida qualquer comunicação com o exterior. Isso inclui celulares, e- mail e comunicações verbais. Desde este momento, e até cumprirmos nossa missão, o universo são os senhores. Certamente entenderão que essa medida é necessária para garantir o sucesso de nossa delicada tarefa, assim como nossa própria segurança. Houve leves murmúrios de protesto, sem muito entusiasmo. Todos já sabiam aquilo que Russell dizia, pois vinha especificado no interminável contrato que haviam assinado. — O segundo é muito mais desagradável. Recebemos de uma consultoria de segurança um informe, ainda não confirmado, segundo o qual um grupo terrorista islâmico conhece nossa missão e planeja atentar contra nós. — Como...? — ... brincadeira... — ... perigoso... O secretário de Kayn ergueu os braços, num gesto tranquilizador. Era evidente que esperava a avalanche de perguntas. — Não se alarmem. Só quero que estejam atentos e não corram riscos desnecessários, e muito menos digam a alguém de fora qualquer coisa sobre nosso destino final. Desconheço de onde provém o vazamento, mas, acreditem, averiguaremos tudo e agiremos de acordo com o que descobrirmos. — Podem ter sabido pelo governo jordaniano? — sugeriu Andrea. — Um grupo como o nosso deve chamar a atenção. — No que concerne ao governo jordaniano, somos uma expedição comercial que vai realizar um estudo de viabilidade para uma mina de fosfatos em certo setor do oeste da Jordânia. Nenhum dos senhores passará por alfândega, portanto não se preocupem com seus disfarces. — Não estou preocupada com meu disfarce, estou é com os terroristas — disse Kyra Larsen, uma das assistentes do professor Forrester. — Não deveria, garota, enquanto estivermos aqui para protegê-la — pavoneou-se um dos soldados. — Enquanto não for confirmado, é só um boato. E os boatos não fazem mal — disse Russell, com um amplo sorriso. Mas as confirmações, sim, pensou Andrea. A reunião acabou pouco depois. Russell, Dekker, Forrester e alguns outros se retiraram para seus camarotes. Na porta da sala havia dois carrinhos com um jantar frio que algum marinheiro tinha deixado discretamente. Estava claro que o isolamento havia começado. Os que continuavam na sala, discutindo excitados as revelações que acabavam de escutar, atacaram a comida. Andrea conversou durante umas duas horas com a doutora Harel e com Tommy Eichberg, enquanto dava conta de sanduíches de rosbife e dois copos de cerveja. — Que bom que a senhorita já está de novo com apetite, Andrea. — Obrigada, Doc. Mas, infelizmente, ao final de cada jantar meus pulmões exigem sua dose de nicotina. — Terá de fumar no convés — disse Tommy. — No interior da Behemot, é proibido. Já sabe... — ... ordens do senhor Kayn! — concluíram os três em coro, e soltaram uma gargalhada. — Sim, sim, eu sei. Não se preocupem, volto em cinco minutos. Quero ver se nesse carrinho há algo mais forte do que cerveja. A BORDO DA BEHEMOT Navegando pelo golfo de Aqaba, mar Vermelho Terça-feira, 11 de julho de 2006, 21h41 Lá fora já havia anoitecido. Andrea saiu para o corredor da superestrutura e caminhou devagar até a proa, lamentando não ter trazido um suéter. A temperatura caíra bastante. A brisa lhe agitou o cabelo e a fez estremecer. Puxou o maço amarfanhado de Camel de um bolso da calça e, do outro, o isqueiro da sorte. Não era nada do outro mundo, apenas um recarregável de cor vermelha, com flores estampadas. Não custava mais que sete euros nas lojas de departamentos, mas tinha sido o primeiro presente de Eva. Precisou de dez tentativas para acender um cigarro, por causa do vento. O fato de finalmente conseguir teve um sabor de glória. Para ela, desde que pisara na Behemot, havia sido quase impossível fumar, por causa do enjoo. E não por falta de tentativas. Enquanto desfrutava do rumor das ondas abaixo da proa do barco, a jovem jornalista buscava na memória qualquer dado que pudesse recordar sobre os Manuscritos do Mar Morto e o Rolo de Cobre. Não havia muitos. Por sorte, os assistentes do professor Forrester haviam prometido lhe dar um curso acelerado, para que ela pudesse transmitir melhor a importância da descoberta. Andrea comemorou sua boa sorte. Aquela expedição era muito melhor do que o que ela imaginara. Mesmo que não encontrassem a Arca, encontro que Andrea acreditava impossível, a reportagem sobre o Segundo Rolo e sobre a descoberta de parte do tesouro seria incentivo suficiente para que todas as publicações do mundo comprassem a notícia. O mais sensato será procurar um agente para vender a matéria completa. Eu me pergunto o que seria melhor, se vender uma exclusiva a um dos grandes, como National Geographic ou New York Times, ou muitos textos a muitos veículos. Com certeza, com isso eu me livro das faturas dos cartões de crédito, pensou Andrea. Deu uma última tragada no cigarro e se aproximou de bombordo para jogá-lo na água. Caminhava devagar, porque não havia esquecido o incidente vespertino, com aquela borda tão baixa. Lançou o braço para trás, e no último instante flutuou diante dela o rosto da doutora Harel, lembrando-lhe que poluir é feio. Ora, Andrea. Até para você há salvação. Você, fazendo algo certo quando ninguém está olhando, disse a si mesma, enquanto apagava a guimba na amurada e a guardava no bolso do jeans. Nesse momento, sentiu que algo a agarrava pelos tornozelos e o mundo virou de cabeça para baixo. Andrea agitou as mãos, desesperada, tentando se agarrar a alguma coisa, mas seus dedos só encontraram ar. Enquanto caía, acreditou ver uma forma escura na borda, olhando-a. Em seguida, seu corpo se chocou com a água. AFUNDANDO NO MAR VERMELHO Terça-feira, 11 de julho de 2006. 21h43 A primeira coisa que Andrea sentiu foi um frio intenso que lhe espetou as extremidades. Agitou os braços em todas as direções, tentando voltar à superfície. Demorou quase dois segundos para perceber que não sabia para onde nadar. O pouco ar que havia em seus pulmões estava acabando. Expirou com cuidado, para ver a direção que as bolhas tomavam, mas não conseguiu. A escuridão era total. As forças a abandonavam. Seus pulmões lhe golpeavam o peito, lá do fundo, em ondas ardentes, tentando ativar o reflexo de respirar. Andrea sabia que, se engolisse água, estava morta. Apertou os dentes de maneira quase irracional, decidida a não abrir a boca, procurando pensar. Que merda.Não pode. Assim, não. Não pode acabar assim. Moveu de novo os braços, acreditando estar nadando para cima, quando uma força irresistível a arrastou. De repente seu rosto encontrou ar e ela inspirou com ânsia primitiva e ruidosa. Alguém a segurava pelos ombros. Andrea tentou se voltar. — Sossegue. Respire devagar. — O padre Fowler estava gritando ao seu ouvido para se fazer escutar. O ar estava cheio do estrondo das hélices. Andrea viu com terror como a corrente os ia aproximando perigosamente da popa do barco. — Preste atenção! Não se vire ainda, ou morreremos os dois. Descanse. Tire os sapatos. Mova as pernas devagar. Dentro de 15 segundos estaremos no ângulo morto da corrente das hélices. Aí eu a soltarei. Nade com todas as suas forças! A jovem tirou as sapatilhas empurrando-as com as pontas dos pés. Olhava fixamente a morte em forma de espuma acinzentada e pulsante que ia sugando-os lentamente. Estavam a menos de 12 metros da hélice. Reprimiu o impulso de se soltar e nadar na direção contrária. Seus tímpanos zumbiam, e os 15 segundos lhe pareceram uma eternidade. — Agora! — gritou Fowler. Andrea sentiu que a sucção se detinha. Nadou em direção contrária às hélices, afastando-se do estrondo infernal. Passaram-se quase dois minutos, até que o sacerdote, que a seguira de perto, segurou-a por um braço. — Pronto. A jovem dirigiu o olhar para a fragata, que se afastara bastante deles. Agora podiam ver um dos costados, iluminado por vários focos que apontavam para a água. Tinham começado a procurá-los. — Merda. — Andrea sentiu que as forças lhe faltavam naquele momento. Mal conseguia se manter flutuando e, durante um segundo, imergiu. Fowler sustentou-a antes que ela fosse até o fundo. — Calma. Deixe que eu a segure como antes. — Merda — repetiu Andrea, cuspindo água, enquanto o sacerdote se colocava atrás dela e a sustentava na clássica postura de resgate. De repente uma luz cegou completamente a jovem. Os poderosos focos da Behemot os tinham encontrado. A fragata já se aproximava e se colocava ao lado deles. Nas bordas, os marinheiros gritavam nervosos e os apontavam com o dedo. Dois deles lhes lançaram salva-vidas. Andrea estava esgotada, gelada de frio, agora que a adrenalina e o medo iam diminuindo. Os marinheiros jogaram um cabo. Fowler começou a atá-lo por baixo dos braços de Andrea, rodeando-lhe o peito. — Que diabo a senhorita estava fazendo para cair na água? — perguntou o sacerdote, enquanto começavam a içá-la. — Eu não caí, padre. Fui jogada. ANDREA E FOWLER — Obrigada. Achei que não íamos conseguir. Ela ainda tiritava sobre o convés, enroscada em uma manta. Ele estava sentado ao lado, estudando-a com preocupação. Os marinheiros já se afastavam, conscientes da proibição de falar com qualquer membro da expedição. — Não imagina a sorte que tivemos. As hélices estavam girando muito devagar. A manobra Anderson, se não me engano. — Do que o senhor está falando? — Saí para tomar ar e escutei seu mergulho noturno. Então usei o interfone mais próximo e saltei atrás da senhorita. Gritei Homem ao mar, a bombordo!, e com isso eles deveriam ter executado um círculo completo denominado manobra Anderson, mas em direção a bombordo, e não a estibordo. — Porque senão... — Porque, se for feita para o lado contrário àquele em que o marinheiro caiu, transformará o coitado em salsicha com as hélices. Foi o que quase aconteceu conosco. — Meus planos não incluem virar comida para peixes. — Tem absoluta certeza do que me disse antes? — Como do nome da minha mãe. — Conseguiu ver quem a empurrou? — Só um vulto escuro. — Se estiver certo o que a senhorita diz, e a manobra errada do barco também não tiver sido acidente... — Podem ter entendido mal o senhor, padre. Fowler demorou quase um minuto para responder. — Senhorita Otero, não fale com ninguém sobre suas suspeitas, por favor. Quando lhe perguntarem, diga que caiu. Se for verdade que alguém a bordo quer matá-la, revelar isso agora... — ... deixaria esse safado de sobreaviso. — Exato — disse Fowler. — Não se preocupe, padre. Aquelas sapatilhas Armani tinham me custado duzentos euros — respondeu Andrea com lábios trêmulos. — Quero pegar o filho da puta que me obrigou a mandá-las para o fundo do mar Vermelho. APARTAMENTO DE TAHIR IBN FARIS Amã, Jordânia Quarta-feira, 12 de julho de 2006. 01h32 Tahir entrou na casa às escuras, tremendo de medo. Da sala, uma voz desconhecida o chamou. — Venha cá, Tahir. O miúdo funcionário precisou de toda a sua coragem para atravessar o vestíbulo até a salinha. Procurou às apalpadelas o interruptor de luz, mas este não funcionava. Nesse momento uma mão agarrou seu braço e o torceu, obrigando Tahir a se ajoelhar. A voz saiu de novo do meio das sombras, diante dele. — Você pecou, Tahir. — Não. Não, senhor, por favor. Minha vida tem sido regida pela taqwa, a honradez. Os ocidentais me tentaram muitas vezes e eu nunca cedi. Nunca, senhor. Esse foi meu único erro, senhor. — Então, você diz que é honrado? — Sim, senhor. Juro perante Alá. — No entanto, permitiu que os kafirun, os infiéis, se apoderassem de um pedaço de nossa terra. Aquele que lhe segurava o braço aumentou a pressão, e Tahir deixou escapar um grito abafado. — Não grite, Tahir. Se você ama sua família, não grite. Tahir levou o outro braço à boca e mordeu a manga da jaqueta com todas as suas forças. A pressão continuou aumentando. Soou um rangido seco, terrível. Tahir despencou, chorando em silêncio. Seu braço direito pendia do corpo como uma meia cheia de carne. — Bravo, Tahir. Parabéns. — Por favor. Eu cumpri as instruções dos senhores. Durante as próximas semanas, ninguém se aproximará da zona de escavação. — Você se assegurou bem disso? — Sim, senhor. De todo modo, ninguém nunca vai lá. — E a polícia do deserto? — A estrada mais próxima é um caminho de terra a 6 quilômetros de distância. Ninguém passa por ali, nem três vezes por ano. Quando montarem o acampamento, os americanos serão dos senhores. Juro. — Fez bem, Tahir. Muito bem. Naquele momento, alguém restabeleceu a corrente e as luzes da sala se acenderam. Tahir se soergueu um pouco, e o que viu lhe gelou o sangue nas veias. Myesha, sua filha, e Zayna, sua mulher, estavam amarradas e amordaçadas no sofá. Mas não foi isso o que aterrorizou Tahir. Afinal, sua família já estava assim quando ele saíra cinco horas antes, para cumprir as exigências do grupo de homens encapuzados. O que o aterrorizou foi que esses homens já não usavam capuzes. — Por favor, senhor — disse Tahir. O funcionário havia retornado com a esperança de que tudo se resolvesse. De que o suborno recebido de seus amigos americanos não vazasse, de que os encapuzados fossem embora e deixassem sua família em paz. Agora, a esperança se evaporava como uma gota d’água numa frigideira muito quente. Tahir evitou o olhar do homem sentado entre sua mulher e sua filha, que tinham os olhos vermelhos de tanto chorar. — Por favor, senhor — repetiu. O homem trazia algo na mão. Era uma pistola, e na ponta do cano haviam prendido uma garrafa plástica de Coca-Cola, de meio litro, vazia. Tahir sabia perfeitamente o que era aquilo: um silenciador primitivo e eficiente. O funcionário não pôde controlar seu tremor. — Você não tem nada a temer, Tahir — disse o sujeito, agachando-se para lhe falar ao ouvido. — Por acaso Alá não preparou a Vida Futura para os homens honrados? A detonação foi leve, como um estalido. As outras duas se espaçaram alguns minutos. Afinal, colocar uma nova garrafa vazia e prendê-la com fita isolante leva tempo. A BORDO DA BEHEMOT Navegando pelo golfo de Aqaba, mar Vermelho Quarta-feira, 12 de julho de 2006, 09h47 Andrea acordou na enfermaria da embarcação, um lugar espaçoso com duas camas, vários armários de vidro e uma escrivaninha. Uma preocupada doutora Harel a obrigara a passar ali a noite anterior. A médica não devia ter dormido muito, pois quando Andrea abriu os olhos viu-a de costas, sentada à escrivaninha. Lia um livro e dava pequenos goles numa xícara de café. Andrea bocejouruidosamente. — Bom dia, Andrea. Está perdendo meu lindo país. Andrea se levantou da cama esfregando os olhos. Uma cafeteira de filtro sobre a mesa era tudo o que ela conseguia distinguir. A doutora observou-a, divertida, enquanto a cafeína começava a exercer seu efeito mágico sobre o corpo da jornalista. — Seu lindo país? — disse Andrea, quando foi capaz de articular alguma palavra. — Estamos em Israel? — Tecnicamente, estamos em águas da Jordânia. Vamos sair, e eu lhe mostro. Quando deixaram a enfermaria, cuja porta ficava junto ao costado de bombordo, Andrea ergueu o rosto para o sol matinal. Ia ser um dia quente. A jovem respirou com gosto e se espreguiçou em seu pijama, abrindo muito os braços. A doutora Harel, debruçada na borda, zombou da jornalista. — Cuidado, não vá cair de novo. Andrea estremeceu, dando-se conta da sorte que tinha de ainda estar viva. Na noite anterior, com a agitação do resgate e a vergonha que passara, ao mentir dizendo que havia caído, não houve espaço para o medo. Mas nesse momento, à luz do dia, o ruído das hélices e o frio negror da água passaram por sua lembrança como um vento escuro. Tentou concentrar a mente na beleza da paisagem que via à sua frente. A Behemot se aproximava pausadamente do cais, precedida pela pequena nave do prático do porto de Agaba. Harel apontou na direção da proa do barco. — Isto aqui é Aqaba, Jordânia. E ali fica Eilat, Israel. Observe como as duas cidades formam um espelho. — É bonito, sem dúvida. Mas não o mais bonito que há por aqui. Doc se ruborizou ligeiramente e afastou o olhar. — Ao nível da água, não se pode apreciar — Harel continuou falando atropeladamente —, mas, se tivéssemos vindo de avião, seria possível ver como o golfo forma um litoral quadrado. O canto leste é ocupado por Aqaba e o oeste por Eilat. — Agora que você mencionou o assunto, por que não viemos de avião? — Porque isto não é oficialmente uma escavação arqueológica. O senhor Kayn quer recuperar a Arca e levá-la para os Estados Unidos. A Jordânia não concordaria, sob nenhuma hipótese. Então, parte de nosso disfarce como buscadores de fosfato é vir por mar, como os outros. Em Aqaba são embarcadas diariamente centenas de toneladas de fosfatos destinadas ao mundo inteiro. Nós somos apenas uma humilde equipe de prospecção. E, além disso, trazemos nossos próprios veículos no porão. Andrea concordou, pensativa, e admirou a placidez da costa. Olhou para Eilat. Uma nuvem de embarcações de recreio flutuava ao redor da cidade, como pombas brancas em torno de um ninho verde. — Nunca estive em Israel. — Deve ir — disse Harel, sorrindo com tristeza. — É uma terra bonita. Um pomar arrancado do deserto. De areia e de sangue. A jornalista observou Harel detidamente. O cabelo ondulado e a tez morena da doutora eram ainda mais belos sob aquela luz, como se os pequenos defeitos presentes em qualquer rosto se esfumassem à visão da pátria. — Acho que sei a que se refere, Doc. Andrea puxou um amassado maço de Camel do bolso do pijama e acendeu um. — Não devia ter dormido com isto aí. — Também não devia fumar, nem beber, nem me comprometer com expedições ameaçadas por terroristas. — Acho que temos mais coisas em comum do que parece. Andrea ficou olhando Harel, tentando decifrar esse último comentário dela. A doutora estendeu a mão e lhe filou um cigarro do maço. — Ora veja, Doc. Não sabe a alegria que me dá. — Por quê? — Adoro ver médicos que fumam. Ver frestas na armadura de autocomplacência que eles usam. Harel soltou uma gargalhada. — Gosto da senhorita. Por isso me chateia tanto vê-la nesta situação. — Que situação? — perguntou Andrea, erguendo uma sobrancelha. — Estou falando do atentado que lhe fizeram ontem. A jornalista ficou com o cigarro no meio do caminho para a boca aberta. — Quem lhe disse isso? — Fowler. — Mais alguém sabe? — Não. Mas me alegra que ele tenha me contado. — Vou matá-lo — disse Andrea, esmagando o cigarro na borda. — Sabe a vergonha que passei, como todos me olhavam ontem...? — Sei que ele lhe pediu que não contasse a ninguém, mas, acredite, no meu caso é um pouco diferente. — “Vejam só essa idiota, nem sequer sabe manter o equilíbrio!” — Bom, não é algo que não tenha estado prestes a lhe acontecer de verdade, lembra? Andrea se sobressaltou ao recordar como, no dia anterior, Harel tivera de agarrá-la pela camiseta quando o BA-609 estava aterrissando. — Não se preocupe — prosseguiu Harel. — Fowler me contou com um objetivo. — Que só ele conhece. Desconfio dele, Doc. Nós nos conhecemos algum tempo atrás... — E ele também lhe salvou a vida. — Vejo que a senhora sabe inclusive disso. Diga-se de passagem, eu me pergunto como ele foi capaz de me tirar da água. — O padre Fowler já foi oficial da Força Aérea dos Estados Unidos. Fazia parte de um grupo de elite chamado Pararresgatadores. — Ouvi falar deles, há algum tempo. São gente que procura soldados desaparecidos, não? Harel concordou. — Acho que a senhorita lhe inspirou afeto, Andrea. Recorda alguém a ele. Andrea ficou olhando para a doutora, pensativa. Ali havia uma conexão que ela estava perdendo, e sentia-se decidida a investigar de que se tratava. Estava cada vez mais convencida de que sua reportagem sobre a busca de uma relíquia antiga ou sua entrevista com um dos multimilionários mais esquivos do mundo eram somente pequenos desvios do tema principal. E, para completar, tinham-na jogado de um barco em movimento. Que me enforquem, se eu tenho a menor ideia do que está acontecendo aqui. Mas a chave está em Fowler e Harel... e em quanto eles se dispõem a me contar, pensou a jornalista. — Parece que a senhora sabe muito sobre ele. — Bom, o padre Fowler viaja muito. — É melhor especificar um pouco, Doc. O mundo é enorme. — O mundo em que ele se move, não. Fowler conheceu meu pai, sabia? — Era um homem extraordinário — interveio o padre. Ambas se voltaram, surpresas. O sacerdote estava atrás delas. — Está aí há muito tempo? — perguntou Andrea. Uma pergunta estúpida, que só indica à pessoa a quem foi feita que você disse algo que não quer que ela saiba. Mas o padre Fowler ignorou a pergunta. Trazia no rosto uma expressão muito séria. — Temos uma tarefa urgente a realizar. ESCRITÓRIO DA GLOBALINFO Somerset Avenue, Washington Quarta-feira, 12 de julho de 2006, 01h59 O agente da CIA conduziu um aterrorizado Orville Watson através do vestíbulo do escritório. Ainda flutuava no ar alguma fumaça, mas o pior era o cheiro de fuligem, sujeira e cadáveres. O piso acarpetado tinha pelo menos um centímetro de água lamacenta. — Tome cuidado, senhor Watson. Cortamos a luz, para evitar curtos- circuitos. Temos de nos arranjar com as lanternas. Usando os potentes círculos de luz de suas MagLite, Orville e o agente percorriam os corredores. O jovem não acreditava nos próprios olhos. Cada vez que o feixe da lanterna parava sobre uma escrivaninha de pernas para o ar, sobre um rosto chamuscado ou uma cesta de lixo ainda fumegante, sentia vontade de chorar. Aqueles eram seus empregados. Aquela era sua vida. Enquanto o agente — Orville achava que era o mesmo que o chamara por telefone assim que ele descera do avião, embora não pudesse ter certeza — ia lhe desfiando os detalhes horríveis do atentado, o jovem apertava os dentes em silêncio. — Os atiradores entraram pela porta principal. Apontaram para a recepcionista, arrancaram os cabos do telefone e começaram a atirar. Infelizmente, todos estavam em seus postos de trabalho. Eram 17, não? Orville fez que sim. Seu olhar horrorizado se cravara no colar de âmbar de Olga, da contabilidade. Orville lhe presenteara aquele colar no aniversário dela, duas semanas antes. O círculo de luz conferia ao objeto um brilho irreal. No escuro, mal se intuíam as mãos carbonizadas, curvadas como garras. — Mataram todos, um a um, friamente. Eles não tinham para onde escapar. A única saída do escritório é pela porta principal, e ao todo a sala deve ter... uns 150 metros quadrados? Não tinham onde se esconder. Claro. Porque Orville amava os espaços amplos.Todo o escritório era um ambiente diáfano, forrado de vidro, aço e jambire. Não havia portas. Nem cubículos. Só luz. — Quando terminaram, colocaram uma bomba no armário do fundo e outra na entrada. Explosivos de fabricação caseira. Nada muito potente, mas bastou para atear fogo em tudo. Os servidores. Um milhão de dólares em hardware e milhões de dados valiosíssimos acumulados ao longo de todos aqueles anos, perdidos. No mês anterior, haviam renovado o sistema de armazenagem de cópias de segurança em discos Blu-ray. Tinham gravado duzentos discos, mais de 10 terabaites de informação guardados em armários à prova de fogo... que agora apareciam abertos e vazios. Como, diabos, tinham sabido onde procurar? — As bombas foram ativadas por celular. Achamos que todo o atentado não deve ter demorado mais de três minutos, no máximo quatro. Quando alguém chamou a polícia, os terroristas já estavam longe. Um escritório numa casa de um só andar, num bairro afastado do centro, rodeado somente por lojinhas independentes e um Starbucks. O lugar perfeito para trabalhar à vontade, sem angústias. Sem suspeitas. Sem testemunhas. — Os primeiros agentes que chegaram ao local isolaram a rua, avisaram os bombeiros e mantiveram afastados os curiosos. Depois, chegou nossa equipe de controle de danos. Dissemos às pessoas que havia acontecido uma explosão de gás, com um morto. Ninguém deve saber o que aconteceu hoje aqui. Poderia ter sido por mil operações. Al Qaeda, Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, IBDA-C... qualquer um desses grupos, alertado sobre a verdadeira atividade da GlobalInfo, teria considerado prioritário aquele massacre, porque a empresa de Orville expunha o ponto mais fraco deles: seu meio de comunicação. Mas Orville desconfiava que aquilo tinha uma raiz mais misteriosa e profunda: seu último trabalho para as Indústrias Kayn. E um nome. Um nome muito, muito perigoso. Huqan. — O senhor teve muita sorte por estar viajando, senhor Watson. Enfim, agora já não precisa se preocupar com nada. A CIA o colocará sob sua proteção. Ao ouvir aquilo, Orville falou pela primeira vez, desde que havia cruzado o umbral. — Sua proteção de merda é tão boa quanto uma passagem express para o necrotério. Nem pensem em me seguir. Vou desaparecer por uns meses. — Não posso permitir, senhor — disse o agente, dando um passo para trás e colocando uma mão no coldre. Com a outra, apontava sua lanterna para o peito de Orville. A camisa florida do jovem contrastava tanto com aquele ambiente de fumaça e morte quanto um palhaço num funeral viquingue. — Do que está falando? — Em Langley, querem conversar com o senhor. — Eu devia ter imaginado. Estão dispostos a me pagar enormes somas em dinheiro. Estão dispostos a insultar a memória de meus rapazes e moças, dizendo que eles morreram na porra de um acidente, em vez de assassinados pelos inimigos deste país. O que não querem é que se feche a torneira da informação, não é, agente? — irritou-se Orville. — Mesmo que seja expondo minha vida. — Eu não sei de nada disso, senhor. Apenas tenho ordem de levá-lo a Langley são e salvo. Por favor, colabore. Orville baixou a cabeça e suspirou. — Certo. Vou com o senhor. Que mais eu poderia fazer? O agente sorriu, visivelmente aliviado, e afastou de Orville a lanterna. — Não sabe como me alivia ouvir isso. Eu detestaria ter de levá-lo algemado. Afinal, o senhor... Só percebeu tarde demais. Orville partia para cima dele com todo o seu peso. À diferença do agente, o jovem californiano não tinha recebido um exaustivo treinamento em luta corpo a corpo. Não dominava três disciplinas das artes marciais, nem conhecia cinco maneiras de matar com as mãos. A coisa mais violenta que Orville tinha feito na vida era jogar Playstation. Mas pouco se pode fazer contra 109 quilos de puro desespero e fúria que lançam você contra uma escrivaninha caída. O agente despencou sobre a madeira do móvel, partindo-a em duas. Tentou virar-se e lançou mão da arma, mas Orville foi mais rápido. Inclinando-se sobre ele, bateu-lhe na cara com sua lanterna. Os braços do sujeito relaxaram e ele ficou muito quieto. O jovem levou as mãos à cabeça, muito assustado. Aquilo estava indo longe demais. Menos de duas horas antes, ele descia de seu avião particular e era o dono do mundo. Agora golpeava um agente da CIA até matá-lo? Uma rápida comprovação dos batimentos do agente na veia do pescoço lhe disse que não. Graças aos céus pelos pequenos favores. Certo. Certo. Pense. Sair daqui. Refúgio seguro. E, sobretudo, calma. Não deixe que o peguem. Com seu corpanzil, seu rabo de cavalo e sua camisa havaiana, não iria a lugar nenhum. Aproximou-se da janela e traçou um plano. Junto à porta, uns bombeiros bebiam água e mordiscavam gomos de laranja. Era disso que ele precisava. Saiu, aparentando calma, e se aproximou da cerca abaixo da janela. Os bombeiros tinham deixado ali seus capacetes e jaquetões, que pesavam demais com aquele calor, e agora tagarelavam de costas para ele. Rezando para que não o vissem, Orville se apropriou de um jaquetão e um capacete e voltou sobre seus passos, tentando entrar de novo no escritório. — Ei, amigo! Orville se virou, aflito. — É comigo? — Claro que é — disse um dos bombeiros, com cara de mau humor. — Aonde o senhor pensa que vai com meu jaquetão? Responda, homem, responda. Invente uma desculpa. E convincente. — Pois é, precisamos investigar a sala do servidor e o agente acha que todo cuidado é pouco... — E sua mãe não o ensinou a pedir as coisas antes de pegá-las? — Lamento, desculpe. Pode me emprestar? O bombeiro relaxou e sorriu. — Claro. Vamos ver se o tamanho lhe serve — disse o bombeiro, abrindo o jaquetão. Orville meteu os braços pelas mangas. O bombeiro o ajudou a fechar a roupa e lhe colocou o capacete. O jovem franziu o nariz ao perceber a mistura de suor e fuligem que flutuava ali dentro. — Ficou ótimo nele, hein, rapazes? — O senhor pareceria um bombeiro de verdade se não fossem as sandálias — disse outro dos homens, apontando os pés de Orville. Todos comemoraram a observação com risadas. — Obrigado, muito obrigado. Posso lhes oferecer uma rodada de suco, para me desculpar? O que acham? Um coro de aplausos deu a Orville o pretexto para se afastar. O jovem percorreu os 200 metros que o separavam da barreira, onde uns vinte curiosos e alguns — poucos — câmeras de televisão tentavam captar algo da cena. Daquela distância, tudo parecia só uma desagradável explosão de gás, de modo que Orville suspeitou que os jornalistas iriam embora logo. Duvidava que o assunto viesse a ocupar sequer um minuto nos noticiários. Nem meia coluna no Washington Post. Mas, agora, ele tinha um problema mais urgente: sair dali. Ficará tudo bem, desde que você não dê de cara com algum outro agente da CIA. Portanto, sorria, sorria. — Olá, Bill — disse, saudando com uma inclinação de cabeça o policial que vigiava a barreira, como se o conhecesse de toda a vida. — Vou buscar uns sucos para os rapazes. — Eu sou Mac. — Ah, sim, claro, desculpe. Eu o confundi com outro. — Você está com a 54, não? — Não, com a 8. Eu sou Stewart — disse Orville, mostrando a etiqueta de velcro, com o nome bordado, no peito do jaquetão, e rezando para que o policial não olhasse para seus pés. — Tudo bem, pode ir — disse o policial, levantando um pouco a barreira para que Orville pudesse passar. — Se puder, me traga alguma coisa para comer, hein, companheiro? — Sem problema! — respondeu Orville, deixando para sempre atrás de si os restos fumegantes de seu escritório e perdendo-se em meio à nuvem de curiosos. A BORDO DA BEHEMOT Cais de Aqaba, Jordânia Quarta-feira, 12 de julho de 2006. 10h21 — Não vou fazer isso — disse Andrea. — É uma loucura. Fowler balançou a cabeça e buscou Harel com o olhar, num pedido de ajuda. Era sua terceira tentativa de convencer a jornalista. — Escute, querida — interveio a doutora agachando-se junto à jornalista, que se sentara no chão, apoiada à parede, abraçando as pernas com a mão esquerda e fumando compulsivamente com a direita. — Comolhe disse ontem à noite o padre Fowler, seu “acidente” é uma prova de que alguém se infiltrou na expedição. O porquê de atacarem concretamente a senhorita é que me escapa... — À senhora, escapa, mas a mim importa, e muito — resmungou Andrea entre dentes. — ... mas o essencial é que tenhamos pelo menos a mesma informação que Russell tem. E eles sem dúvida não vão compartilhá-la conosco. Por isso precisamos que a senhorita dê uma olhada naquelas pastas. — E não posso tentar ver as de Russell? — Não, por dois motivos. Primeiro, Russell e Kayn dormem no mesmo camarote, e por isso a vigilância é absoluta. E, segundo, mesmo que a senhorita conseguisse entrar, é um camarote muito maior e Russell deve tê- lo enchido de papéis. Ele trouxe um monte de trabalho, para poder continuar administrando daqui o império de Kayn. — Pois é, mas aquela besta... Eu vi como me olha. Não quero estar perto dele. — O senhor Dekker conhece e cita de memória toda a obra de Schopenhauer. Quem sabe a senhorita e ele não encontram algo de que falar... — disse Fowler, numa de suas poucas e fracassadas tentativas de gracejar. — Padre, isso não ajuda nada — repreendeu-o Harel. — Do que ele está falando, Doc? — perguntou Andrea. — Dekker costuma repetir citações de Schopenhauer quando está nervoso. É famoso por isso. — Achei que ele seria famoso por comer arame farpado no café da manhã. Imaginam o que fará, se me pegar espiando em seu camarote? Eu vou embora daqui. — Andrea — disse Harel, segurando-a pelo braço. — Que a senhorita fosse embora era o plano desde o princípio. O padre Fowler e eu queríamos lhe falar e convencê-la a abandonar a expedição sob um pretexto qualquer, quando chegássemos ao porto. Mas, agora que nos foi revelado o propósito da nossa viagem, não serão permitidas baixas voluntárias. Muito bem, muito bem. Enclausurada com a grande exclusiva da minha vida. Espero que não seja uma vida muito curta. — Está nisto, queira ou não, senhorita Otero — interveio Fowler. — Nem a doutora nem eu podemos nos aproximar do camarote de Dekker. Eles nos marcam muito de perto. Mas a senhorita, sim, pode. É um camarote pequeno e não deve ter muitas coisas. Certamente, as únicas pastas lá dentro são as do briefing da missão. Devem ser de cor preta, com uma garra de urso na capa. — Por que a cor preta? — Dekker trabalha para uma empresa de segurança que fornece mercenários bem-treinados, chamada Blackwater.6 Não são muito criativos. Andrea meditou por alguns instantes. Por mais medo que tivesse de Mogens Dekker, o fato de haver um assassino a bordo não iria se esfumar se ela simplesmente olhasse para outro lado e fizesse sua reportagem, esperando o melhor. Tinha de lidar com a realidade, e formar uma equipe com Harel e o padre Fowler não era uma solução tão ruim assim. Pelo menos, enquanto me for conveniente, e desde que eles não se interponham entre a objetiva de minha câmera e a Arca. — Certo. Mas só espero que aquele cro-magnon não me estupre nem me esquarteje, ou eu volto em forma de fantasma e fodo com a vida dos senhores. Andrea caminhou até o meio do corredor 7. O plano era muito simples. Harel tinha localizado Dekker perto da ponte de comando e o entreteria com perguntas sobre a vacinação de seus soldados. Fowler esperaria na escada entre os níveis 1 e 2 da superestrutura, vigiando. O camarote do mercenário ficava no nível 2. E a porta estava aberta. Veado metido, pensou Andrea. O sóbrio quartinho era quase idêntico ao dela. Uma cama estreita, com lençóis apertados. Como a de papai. Putos militares de merda. Um armário metálico, um pequeno lavabo e uma escrivaninha. Sobre esta última, uma pilha de pastas de cor preta. Bingo. Foi fácil. Ia estendendo a mão para elas quando uma voz sedosa quase a fez cuspir o coração. — Ora, ora. A que devo a honra? 6 A Blackwater USA é a maior companhia militar privada do mundo. Está sediada na Carolina do Norte, e seu principal — mas não único — cliente é o governo americano. A Blackwater tem um exército de milhares de homens, além de sua própria frota de barcos, helicópteros e tanques. Sua participação na guerra do Iraque gerou uma enorme controvérsia na sociedade norte-americana. (N. do A.) A BORDO DA BEHEMOT Cais de Aqaba, Jordânia Quarta-feira, 12 de julho de 2006. 11h32 Andrea reuniu todas as suas forças para não gritar e para voltar-se com um sorriso no rosto. — Olá, senhor Dekker. Ou é comandante Dekker? Estava à sua procura. O mercenário era tão grande e estava tão perto que Andrea precisou erguer o rosto para não falar com o pescoço dele. — Senhor Dekker está correto. Precisa de alguma coisa... Andrea? Um pretexto, e muito bom, pensou Andrea, abrindo o sorriso ainda mais. — Vim lhe pedir desculpas por ter irrompido na popa ontem à tarde, quando o senhor escoltava o senhor Kayn. Dekker não disse nada, limitando-se a soltar um grunhido de concordância. O brutamontes cobria por completo a estreita porta do camarote. Tão perto como estava, Andrea podia observar, mais detalhadamente do que preferiria, a cicatriz arroxeada que cobria o rosto dele, o cabelo castanho, os olhos azuis, a barba de dois dias e o perfume. Não acredito. Ele usa Armani. E aos litros, parece. — Bom, diga alguma coisa. — Diga a senhorita, Andrea. Ou não veio pedir desculpas? Num documentário da National Geographic, Andrea tinha visto certa vez uma cobra fitando um porquinho-da-índia. Aquela situação era muito parecida. — Desculpe. — Não foi nada. Por sorte, seu amigo Fowler salvou a situação. Mas a senhorita deveria ter cuidado. Quase todas as nossas aflições provêm de nossas relações com outras pessoas. Dekker deu um passo à frente. Andrea retrocedeu. — Isso é muito profundo. Schopenhauer? — Ah, a senhorita é uma conhecedora dos clássicos. Ou recebe aulas particulares no barco? — Sempre fui autodidata. — Bom, o grande mestre diz: “Observe o rosto da pessoa, porque ele diz muito mais do que dizem suas palavras.” Vejo que a senhorita tem rosto de culpada. Andrea olhou de esguelha para as pastas, lamentando-se imediatamente por ter feito isso. Tinha de evitar que ele desconfiasse. Mas já era tarde demais. — O grande mestre também disse: “Cada homem toma os limites de seu próprio campo de visão pelos limites do mundo.” Dekker mostrou os dentes num sorriso comprazido. — É uma grande verdade. É melhor que se prepare, vamos desembarcar dentro de uma hora. — Sim, claro. Com licença — disse Andrea, fazendo menção de passar. De início, Dekker não se moveu. Depois afastou um pouco a parede de tijolos que tinha por corpo, e a jornalista conseguiu deslizar pelo vão entre a escrivaninha e o mercenário. O que aconteceu depois, Andrea sempre o recordaria como uma grande astúcia de sua parte, um truque genial para obter as informações bem diante do nariz do sul-africano. Mas a realidade foi mais prosaica. Ela tropeçou. A perna esquerda da jovem se enganchou com o pé esquerdo de Dekker, que não se mexeu um milímetro sequer. Andrea, porém, perdeu o equilíbrio e caiu para a frente, apoiando-se na escrivaninha para não machucar o rosto na borda. As pastas esparramaram seu conteúdo pelo chão. Andrea olhou atônita para o solo e depois para Dekker, que a encarava soltando fumaça pelo nariz. — Ôps. — ... então, balbuciei uma desculpa e me mandei correndo. Se vissem a cara com que ele me olhou... Não vou esquecê-la nunca. — Lamento não termos conseguido retê-lo — disse o padre Fowler, balançando a cabeça. Ele deve ter descido da ponte de comando por algum alçapão de serviço. Estavam os três reunidos de novo na enfermaria, Andrea sentada na cama e Fowler e Harel olhando-a preocupados. — Nem o escutei chegar. Acho incrível que alguém daquele tamanho possa se mover com aquela discrição. E todo o esforço não adiantou nada. Claro, muito obrigada pela frase de Schopenhauer, padre. Por um momento, deixou-o sem palavras. — De nada. É um filósofo bastante chato. Para mim, foi difícil me lembrar de alguma citação. — E a senhorita, Andrea, lembra-se de alguma coisa do que viu quando as pastascaíram no chão? — interveio Harel. Andrea fechou os olhos, tentando se concentrar. — Havia fotos do deserto, plantas de algo que pareciam casas... não sei, estava tudo revirado e cheio de anotações por todos os cantos. A única pasta diferente era uma amarela com um logotipo vermelho. — Como era o logotipo? — quis saber a doutora. — De que serviria? — queixou-se Andrea. — A senhorita se surpreenderia com quantas guerras são ganhas por detalhes sem importância. Andrea voltou a se concentrar. Tinha uma memória excelente, mas só pudera olhar as folhas espalhadas pelo chão por dois segundos, e estava agitada. Segurou a base do nariz entre os dedos, apertou fortemente os olhos e fez todo tipo de barulhinhos estranhos que não serviram de nada. Justamente quando ela já achava que não ia se lembrar, a imagem apareceu em sua cabeça. — Era uma ave. Uma coruja, a julgar pelos olhos. Tinha as asas abertas. Fowler sorriu. — Isso é algo incomum. Pode ser que sirva. O sacerdote foi até sua maleta, que trouxera consigo do camarote, e tirou dali um celular; puxou uma antena grossa e ligou o aparelho diante das duas mulheres surpresas. — Achei que estavam proibidas todas as conexões com o exterior — disse Andrea. — E estão. Ele vai se meter em complicações, se o pegarem. Fowler estudava atentamente a tela do celular, esperando que desse cobertura. Aquele era um telefone via satélite Globalstar, que não utilizava as redes normais: conectava-se diretamente com a rede de satélites de comunicações. Em modelos como aquele, a cobertura era de 99 por cento da superfície terrestre. — Por isso é que era imprescindível averiguarmos alguma coisa ainda hoje, senhorita Otero — disse o sacerdote, teclando um número. — Agora estamos num núcleo urbano, e um sinal vindo do barco passará despercebido, junto com os sinais da cidade de Aqaba. Quando estivermos na escavação, usar este telefone será muito arriscado. — Mas o que... Fowler interrompeu Andrea, erguendo um dedo. A ligação se completara. — Albert, preciso de um favor. EM CERTO LUGAR DE FAIRFAX COUNTY, VIRGINIA Quarta-feira, 12 de julho de 2006. 05h16 O jovem sacerdote pulou da cama meio adormecido, sabendo imediatamente quem era. Aquele celular só tocava em casos de absoluta emergência. Tinha uma melodia diferente das dos outros que ele usava, e só uma pessoa no mundo sabia o número. Uma pessoa por quem o padre Albert daria a vida sem pestanejar. Claro que o padre Albert nem sempre havia sido o padre Albert. Doze anos antes, quando estava com 14, chamava-se FrodoPoison, e era o maior ciberpirata dos Estados Unidos. O pequeno Al ficava muito sozinho. Papai e mamãe trabalhavam fora e viviam ocupados demais com suas carreiras para prestar atenção num menino louro e magrinho, de aspecto tão frágil que os motivava a manter fechadas as janelas de casa, para que uma corrente de ar não o carregasse. Mas, a Albert, o ar não fazia a menor falta para voar por toda parte no ciberespaço. — Não existe explicação para seu talento — diria, horas depois de sua detenção, um dos agentes do FBI encarregados do caso. — Ninguém ensinou nada a ele. Quando esse pirralho olha um computador, não vê 20 quilos de cobre, silício e plástico. Vê simplesmente portas. Albert havia aberto algumas. Só para se distrair um pouco. Entre elas, as dos cofres-fortes virtuais do Chase Manhattan Bank, do Mitsubishi Tokyo Financial Group e do BNP. Havia saqueado 893 milhões de dólares durante as três semanas de sua carreira de delitos, fazendo o programa do banco reaplicar comissões por intermédio de outro banco, inexistente, o Albert M. Bank, situado nas ilhas Caimã. Um banco com um só cliente. Claro que colocar seu próprio nome no “estabelecimento” não tinha sido a decisão mais inteligente, mas, afinal, Albert estava na adolescência. O garoto se deu conta disso quando dois esquadrões completos da SWAT invadiram a casa de seus pais na hora do jantar, estragando o tapete da sala e esmagando o rabo do gato. Albert jamais conheceria o interior de uma cela, confirmando o dito popular de que, quanto mais você rouba, mais se livra. Mas, enquanto esteve algemado numa sala de interrogatórios do FBI, os escassos conhecimentos sobre o sistema penitenciário norte-americano que ele havia adquirido na internet se atropelavam em sua cabeça. Albert tinha uma vaga noção de que a cadeia era um lugar onde você apodrecia e era sodomizado. E, embora não soubesse muito bem o que era essa segunda coisa, intuía que era algo que doía. Os agentes do FBI olhavam aquele menino vulnerável e abatido e suavam, nervosos. Aquele pirralho havia indignado muita gente. Pegá-lo tinha sido tremendamente complicado, e, se não fosse seu erro infantil, ele teria continuado a depenar tenazmente os gigantes do sistema bancário. Que, é claro, não estavam nada interessados em que aquela situação chegasse a juízo ou ao conhecimento do público. Esses incidentes sempre geravam desconfiança por parte dos investidores. — O que a gente faz com uma bomba atômica de 14 anos? — disse um dos agentes. — Ensiná-la a não explodir — respondeu o outro, numa exibição de criatividade. E assim foi que colocaram o caso nas mãos da CIA, que sempre aproveitava um talento em estado bruto como aquele. E, para falar com o garoto, tiraram da cama um agente que em 1994 tinha caído em desgraça dentro da Companhia, um maduro capelão militar das Forças Aéreas com experiência em psicologia. Quando, naquela madrugada, um sonolento Fowler entrou na sala de interrogatórios e disse a Albert que este podia optar entre ficar atrás das grades ou dar seis horas semanais de trabalho para o governo, o menino chorava de agradecimento. Bancar a babá daquele rapazote magricela foi uma tarefa imposta a Fowler como um castigo, mas que para ele significou um prêmio. Com o tempo, iriam nascer uma amizade inquebrantável e uma admiração mútua, que no caso de Albert se concretizou em abraçar a fé católica e entrar para o seminário. Quando se ordenou sacerdote, Albert continuou colaborando esporádica e voluntariamente com a CIA, embora desta vez servindo também de ligação com a Santa Aliança, o serviço de espionagem vaticano a que Fowler também pertencia. Desde aquele dia, Fowler o acostumara a ligações telefônicas de madrugada, em parte como vingança por aquela noite de 1994 em que os dois tinham se conhecido. — Olá, Anthony. — Albert, preciso de um favor. — Não sabe ligar em horário normal? — “Velai, porque não sabeis o dia nem a hora”, diz o Senhor. — Não enche, Anthony — disse o jovem padre, encaminhando seus passos para a geladeira. — Estou um caco, portanto fale rápido. Você está na Jordânia? — Já ouviu falar de uma empresa de segurança que tenha como logotipo um mocho ou uma coruja de cor vermelha, com as asas abertas? Albert se serviu um copo de leite frio e voltou ao quarto. — Está brincando? É o logo da GlobalInfo. Esses meninos eram a nova estrela da Companhia. Ganhavam uma boa fatia dos contratos de informação do Departamento de Terrorismo Islâmico. Também davam consultas privadas a empresas norte-americanas, e até, uma ou outra vez, ao governo de Tony Blair. — Por que você está falando no passado, Albert? — Emitiram um boletim interno, horas atrás. Ontem, um grupo terrorista crivou de balas todos os membros da empresa em Washington e fez voar pelos ares a sede. A mídia não sabe de nada. Vão fazer com que pareça uma explosão de gás. A Companhia já recebeu críticas demais pela quantidade de trabalho antiterrorista que vem sendo vazado para fontes externas. Um atentado como este os faria parecer vulneráveis. — Sobreviventes? — Só um, um tal de Orville Watson, o chefe e dono. Depois do atentado, Watson disse aos agentes que não queria a proteção da CIA e se mandou. Os chefes de Langley estão furiosos com os dois babacas que o deixaram escapulir. Encontrar Watson e colocá-lo sob discreta proteção é prioritário. Fowler manteve silêncio por mais de um minuto. Albert já estava acostumado às pausas de seu amigo, de modo que simplesmente esperou. — Escute, Albert— disse Fowler, finalmente. — Estamos metidos numa boa confusão, e Watson sabe de alguma coisa. Você tem que encontrá-lo antes da CIA. A vida dele corre grave perigo. E, o que é pior, a nossa também. A CAMINHO DA ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Quarta-feira, 12 de julho de 2006. 16h15 Teria sido um atrevimento chamar de estrada aquela fina linha de terra endurecida pela qual o comboio se arrastava. Vistos do alto, ou de algum dos penhascos de arenito que dominam aquelas paragens desoladas, os oito veículos pareciam estranhas anomalias poeirentas. De Aqaba até o local da escavação, a distância mal chegava a 162 quilômetros, mas o comboio demorou cinco horas para percorrê-la, por causa da irregularidade do terreno e da visibilidade nula de que os motoristas dispunham a partir do terceiro veículo, dada a nuvem de areia que os da frente formavam. Abriam a marcha dois 4x4 Hummer H3, cada um com quatro pessoas a bordo. Pintados de branco, com o logotipo vermelho da mão aberta das Indústrias Kayn nas portas, aqueles H3 pertenciam a uma série limitada, criada para superar as condições de trabalho mais complicadas sobre a face da Terra. — Uma maravilha de carro — ia dizendo Tommy Eichberg, ao volante do segundo H3, a uma Andrea aborrecida, diante da impossibilidade de tirar fotos fora do veículo. — Aliás, carro, não. Isto aqui é um tanque. Pode subir paredes verticais de 40 centímetros, ou escalar uma ladeira com inclinação de 60 por cento. — Certamente custa mais do que meu apartamento — comentou a jornalista com Stowe Erling e David Pappas, que ocupavam os assentos traseiros. — Quase 300 mil euros. Pode atravessar qualquer coisa, desde que tenha gasolina. — Por isso trouxemos esses tambores, não? — comentou David. Era um jovem moreno, de nariz achatado e tão pouca testa que as sobrancelhas e a raiz do cabelo podiam se tocar se o jovem abrisse os olhos com assombro, coisa que fazia com frequência. Andrea simpatizava com ele, mais do que com Stowe, o qual, embora fosse alto e atraente, e exibisse um bem-cuidado rabicho louro, parecia saído de um livro de autoajuda contra a insegurança. — Claro, David. Não faça perguntas cuja resposta você já conhece. Isso prejudica sua imagem. Atitude, lembre-se. É a chave. — Você fica muito exibido quando o professor não está, Stowe — disse David, magoado. — Não me pareceu ter tanta atitude hoje de manhã, quando ele o corrigia pelas estimativas que você apresentou. Stowe levantou o queixo e fez uma cara de “mas dá para acreditar?” dirigida a Andrea, que o ignorou e se limitou a trocar o cartão de memória da câmera. Em cada cartão de 4 gigabytes cabiam seiscentas fotos com resolução máxima. Quando enchia um, ela transferia as imagens para um disco rígido portátil, especial para fotógrafos, com capacidade para 12 mil instantâneos e uma tela LCD de 7 polegadas para visualização. Preferiria usar seu laptop, mas os computadores estavam rigorosamente proibidos na expedição. Os únicos permitidos eram os da equipe de Forrester. — Quanta gasolina temos aí, Tommy? — perguntou ela, virando-se para o motorista. O homem acariciou o bigode com lentidão. Andrea achava divertida sua maneira calma de falar, e de começar uma em cada três frases com um alongado “beeeeem”. — Os dois caminhões que nos seguem transportam as reservas. São caminhões Kamaz russos, militares. Duros como pedras. Os russos os estrearam no Afeganistão. Beeem... depois vêm os dois caminhões-tanque. O de água leva 40 mil litros. O de gasolina é um pouco menor, deve comportar uns 35 mil litros. — É muito combustível. — Bem, vamos ficar semanas por aqui. Precisaremos de eletricidade. — Sempre podemos recorrer ao barco. Eles podem mandar mais, você sabe. — Bem, isso não vai acontecer, moça. As ordens são de que, uma vez chegados ao acampamento, estamos fora. Sem contato com o exterior. — E se houver alguma emergência? — alarmou-se Andrea. — Somos bastante autossuficientes. Poderíamos sobreviver meses com o que estamos trazendo, mas o programa leva em conta todos os luxos. Sei disso porque, como motorista e mecânico oficial, me coube supervisionar a carga de todos os veículos. A doutora Harel traz um autêntico hospital aí atrás. E, beeem, se houver algo mais sério do que uma simples torção de tornozelo, estaremos a apenas 75 quilômetros do povoado mais próximo, Al Mudawwara. — Puxa, que alívio. Quantos habitantes o povoado tem? Doze? — Ensinam essa atitude no curso de jornalismo? — interveio Stowe, do assento traseiro. — Sim, chama-se Sarcasmo 101. — Certamente foi sua única nota máxima. Sabichãozinho de merda. Tomara que você tenha uma lipotimia ao escavar, para ver o que acha de passar mal em pleno deserto da Jordânia Central, imbecil, pensou Andrea, que nunca havia tirado notas muito boas. Ofendida, mergulhou num silêncio digno durante um bom tempo. — Bem-vindos à Jordânia Central, amigos — cantarolou Tommy. — Terra do simum. População: ninguém. — O que é o simum, Tommy? — quis saber Andrea. — Gigantescas tempestades de areia. Um fenômeno digno de se ver, dizem. Vejam, estamos quase lá. O H3 reduziu a velocidade. Os caminhões começaram a se alinhar emparelhados num lado do caminho precário. — Acho que chegamos ao desvio — disse Tommy, apontando a tela do GPS no painel. Faltam só 3 quilômetros, mas vamos demorar para percorrê- los. Estas dunas têm um desnível enorme. Os caminhões vão sofrer. Quando a poeira assentou um pouco, Andrea viu uma enorme duna que formava uma colina na areia rosada. Atrás ficava o cânion da Garra, o lugar que, segundo Forrester, encerrava a Arca da Aliança havia dois milênios. Pequenos redemoinhos perseguiam uns aos outros no alto da duna, chamando a atenção de Andrea. — Acha que eu poderia fazer o resto do caminho a pé? — perguntou ela. — Gostaria de fotografar a chegada da expedição. Estarei lá em cima antes dos veículos, pelo que vejo. Tommy a encarou, preocupado. — Bem, acho que não é boa ideia. Subir essa colina não vai ser fácil. Dentro do carro estamos fresquinhos, mas aí fora deve estar fazendo uns 40 graus. — Eu tomo cuidado. Além disso, manteremos contato visual o tempo todo. Não vai me acontecer nada. — Também acho que não deveria fazer isso, senhorita Otero — observou David Pappas. — Vamos, Eichberg. Deixe-a ir. Ela já é maiorzinha — disse Stowe, mais pelo prazer de contrariar David do que para apoiar Andrea. — Tenho que consultar o senhor Russell. — Pois, então, faça isso. De má vontade, Tommy pegou o walkie-talkie. Vinte minutos depois, Andrea lamentava profundamente sua decisão. Do caminho até o topo da duna, o trajeto incluía primeiro uma baixada que descia uns 25 metros para em seguida ascender paulatinamente por outros 800. Os últimos 15 metros tinham uma inclinação de 25 por cento. O cume parecia enganosamente próximo. A areia, enganosamente branda. A jovem tinha levado uma mochila com uma garrafa de dois litros de água. Antes de a duna acabar, já a consumira. Sentia a cabeça doendo, apesar de usar chapéu, e o nariz e a garganta a incomodavam. Vestia somente uma camiseta de manga curta, bermuda e botas. Embora tivesse passado filtro solar de fator 80 antes de sair do carro, a pele dos braços começava a arder. Menos de meia hora, e estou para ingressar na unidade de queimados. É bom que não aconteça nada com os veículos e não tenhamos de voltar andando, pensou Andrea. Mas esse não parecia ser o caso. Com tremenda eficácia, Tommy estava se encarregando de conduzir um a um os caminhões até o alto da duna. Uma tarefa que exigia um motorista experiente, se você não quisesse capotar. Primeiro ele cuidou dos dois caminhões Kamaz de provisões, deixando-os alinhados no final da inclinação longa, pouco antes da subida mais íngreme. Depois, dos dois caminhões-tanque. Enquanto isso, o resto do pessoal o observava, à sombra dos H3. Andrea, por sua vez, contemplou toda a operação através de sua teleobjetiva. Tommy, cada vez que deixava um dos veículos, saudava com a mão a jovem no alto da duna. Andrea devolvia a saudação. Finalmente,Tommy tratou de levar os H3 até a borda da ladeira final, já que ia usá-los como reboque para ajudar a subir os pesados caminhões, os quais, apesar de suas enormes rodas, não tinham tração suficiente em uma inclinação tão elevada e coberta de areia. Andrea fez algumas fotos da subida do primeiro caminhão. Um soldado de Dekker pilotava um dos 4x4, ao qual o Kamaz havia sido atrelado por um cabo de aço. Quando, com grande esforço, conseguiram que o enorme caminhão chegasse ao topo da duna e ultrapassaram o ponto em que se encontrava a jornalista, esta perdeu o interesse. Voltou sua atenção para o cânion da Garra. À primeira vista, o gigantesco desfiladeiro de rocha não se distinguia em nada dos outros que povoavam o deserto. Andrea pôde ver duas paredes separadas por uns 50 metros, que se alongavam e se bifurcavam. No caminho, Eichberg lhe mostrara uma foto aérea do lugar para onde iam e a forma do cânion, que parecia a garra de três dedos de uma gigantesca ave de rapina. Ambas as paredes mediam entre 30 e 40 metros de altura ao longo do desfiladeiro. Andrea apontou a teleobjetiva para o alto das rochas, procurando um lugar por onde subir e do qual pudesse focalizar algum plano elevado. E então o viu. Foi somente um segundo. Um homem, vestido com roupas de cor cáqui, observando-a. Intrigada, ela jogou a cabeça para trás e olhou sem a teleobjetiva. A distância era grande demais. Voltou a focalizar o alto do cânion com a teleobjetiva. Nada. Mudou de posição, varreu a parte da parede leste que a máquina lhe permitia, mas foi inútil. Fosse quem fosse, o homem a vira segurando a teleobjetiva e tratara de se esconder, o que não era bom sinal. Andrea tentou decidir o que fazer. O mais inteligente é esperar e falar com Fowler e Harel. Foi se instalar à sombra do primeiro caminhão, ao qual estava se unindo o segundo. Uma hora mais tarde, toda a expedição se encontrava no topo da duna, na entrada do cânion da Garra. ARQUIVO MP3 RECUPERADO DO GRAVADOR DE ANDREA OTERO PELA POLÍCIA JORDANIANA DO DESERTO, APÓS O FRACASSO DA EXPEDIÇÃO MOISÉS Título, dois pontos. A arca recuperada. Não, espere, apague isso. Título... O tesouro do deserto. Não, muito ruim. Convém fazer referência à Arca já no título, a Arca vende jornal. Bom, deixaremos o título para o fim. Lead, dois pontos. Mencionar seu nome é mencionar o mito recorrente de toda a humanidade. Com ela começou a história da civilização ocidental, e hoje em dia é o objeto mais cobiçado pelos arqueólogos de todo o mundo. Acompanhamos a Expedição Moisés em sua rota secreta através do deserto oriental da Jordânia até o cânion da Garra, o lugar onde, há quase 2 mil anos, um grupo de fiéis escondeu a Arca após a destruição do segundo templo de Salomão... Hum, isto aqui está saindo um pouco frio. Melhor escrever primeiro a matéria. Vamos com a entrevista do velho Forrester... caralho, esse sujeito me dá calafrios, com sua voz de flauta. Dizem que é por causa de sua doença. Lembrete: pesquisar na internet se é assim mesmo que se escreve pneumoconiose. (...) PERGUNTA: Professor Forrester, a Arca da Aliança vem excitando a imaginação dos seres humanos desde tempos imemoriais. A que atribui esse interesse? RESPOSTA: Veja bem, se quiser que eu lhe dê uma introdução descritiva, não é preciso que me situe e faça tantos rodeios. Simplesmente, peça o que quer e eu falarei. O senhor costuma dar muitas entrevistas, professor? Dezenas. A senhorita não vai me perguntar nada original, nada novo, nada que eu não tenha escutado ou respondido antes. Se aqui na escavação tivéssemos conexão com a internet, eu lhe sugeriria procurar alguma das que já dei e copiar as respostas. O que houve? O senhor tem obsessão por não se repetir? Tenho obsessão por não perder tempo. Estou com 77 anos. Venho há 43 atrás da Arca. É agora ou nunca. Bom, essa resposta o senhor com certeza não tinha dado ainda. O que é isto? Um concurso de originalidade? Espere, vou lhe dar um furo: houve uma conspiração para matar Kennedy. O que lhe parece? Incrível, não? Acha que eu poderia ser jornalista? Professor, por favor. O senhor é um homem inteligente e entusiasmado. Por que não faz um pequeno esforço para se colocar ao alcance do público e contagiá-lo um pouquinho com sua empolgação? (breve pausa) Quer um mestre de cerimônias? Farei o possível. Obrigada. A Arca... O objeto mais poderoso da História. Isso não é casualidade, sobretudo se considerarmos que a civilização ocidental nasceu com ela. Eu juraria que os historiadores afirmam ter sido na Grécia. Besteira. O ser humano fica milhares de anos adorando manchas de fuligem dentro de cavernas escuras. Manchas que ele chama de deuses. O tempo passa e as manchas mudam de forma, tamanho e material, mas continuam sendo manchas. Não soubemos da existência de um só Deus até que ele se revelou a Abraão, há somente 4 mil anos. O que sabe de Abraão, menina? Que é o pai dos israelitas. Correto. E também dos árabes. Duas maçãs que caíram da árvore, muito juntinhas, uma ao lado da outra. Em seguida, as maçãs aprenderam a se odiar mortalmente. O que isso tem a ver com a Arca? Cinco séculos depois que se revelou a Abraão, o Todo-Poderoso estava farto de que seu povo lhe virasse as costas. Quando Moisés tira os judeus do Egito, Deus se revela novamente ao seu povo. A apenas 230 quilômetros daqui, nesta direção. E ali firmam um contrato. Desculpe, doutor. Está falando de compromisso, ou refere-se a um contrato mesmo, como quando a gente compra um carro? Eu me refiro ao contrato definitivo. De um lado, a humanidade, que se compromete a cumprir dez cláusulas simples. Os Dez Mandamentos. Do outro lado, Deus. Ele se compromete a dar ao homem a vida eterna. É o momento mais importante da História. O momento em que a vida adquire transcendência. Três mil e quinhentos anos depois, todo ser humano traz esse contrato inscrito em sua consciência. Uns irão chamá-lo de lei natural, outros questionarão sua existência ou seu sentido. Matarão e morrerão por sua interpretação. Mas o momento em que Moisés recebe das mãos de Deus as Tábuas da Lei dá início à nossa civilização. E depois Moisés guarda as Tábuas na Arca da Aliança. Junto com outros objetos. Transformando-a na caixa-forte que guarda o contrato com Deus. Há quem diga que a Arca tem poderes sobrenaturais. Bobagem. Isso eu explicarei amanhã a todos os senhores, quando começarmos a trabalhar. Não acredita no caráter sobrenatural da Arca? Com todo o meu coração. Minha mãe me lia a Bíblia desde que eu era um feto. Minha vida está dedicada à palavra de Deus. Isso não significa que eu não esteja disposto a desmontar as superstições. Por falar em superstições: durante muitos anos, sua busca se chocou contra os círculos acadêmicos mais rigorosos. Os que criticam o uso de textos antigos para encontrar tesouros. Houve insultos de ambos os lados. Academicistas... eles não seriam capazes de encontrar seu próprio cu, usando as duas mãos e uma lanterna. Schliemann teria encontrado o tesouro de Troia sem a Ilíada de Homero? Carter encontraria o túmulo de Tutancâmon sem o obscuro papiro de Ut? Ambos receberam muitas críticas em sua época por usarem as mesmas técnicas que eu emprego. Carter e Schliemann são imortais, ao passo que já ninguém se lembra dos críticos deles. Eu viverei para sempre. (forte ataque de tosse) Está doente? Não se pode passar tantos anos metido em túneis úmidos, respirando terra, sem pagar um preço. Sofro de pneumoconiose crônica. Nunca me afasto muito de um cilindro de oxigênio. Continue, por favor. Onde estávamos...? Ah, sim. O senhor sempre esteve convencido da existência histórica da Arca da Aliança, ou sua crença nasceu quando o senhor traduziu o Rolo de Cobre pela primeira vez? Eu cresci como cristão, mas me converti ao judaísmo muito jovem. Nos anos 60, lia o hebraico antigo tanto quanto lia o inglês. Não foi quando comecei a estudar o Rolo de Qumran que descobri que a Arca era real. Isso eu já sabia. Na Bíblia há mais de duzentas referências à Arca, ela é o objeto mais copiosamentedescrito. O que eu soube quando tive nas mãos o Rolo foi que eu descobriria a Arca. Pois é. Como, exatamente, o Segundo Rolo ajudou a decifrar o Rolo de Cobre? Bom, houve uma grande confusão entre consoantes como he, het, mem, kaf, wav, zayin e yod... Em língua inteligível, professor. Havia consoantes pouco claras que complicavam a decifração. E o mais estranho de tudo: várias letras gregas apareciam inseridas de maneira aparentemente aleatória ao longo do Rolo. Com a chave adequada, compreendemos que essas letras eram o cabeçalho dos segmentos que modificavam sua ordem e, portanto, seu conteúdo. Foram os noventa dias mais excitantes de minha carreira profissional. Deve ter sido frustrante, depois de dedicar 42 anos à tradução do Rolo de Cobre, que tudo se resolvesse em questão de três meses, após o aparecimento do segundo Rolo. De modo algum. Os manuscritos do mar Morto, dos quais o rolo faz parte, apareceram por acaso em uma caverna da Palestina, porque um pastor atirou lá dentro uma pedra e escutou algo se quebrando. Assim se descobriu o primeiro dos depósitos dos Manuscritos. Isso não é arqueologia, é sorte. Mas, sem essas décadas de estudo exaustivo, nunca teríamos chegado ao senhor Kayn... Ao senhor Kayn? Do que está falando? Não me diga que um multimilionário aparece citado no Rolo de Cobre. Não posso falar disso. Já falei demais. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Quarta-feira, 12 de julho de 2006. 19h33 As horas seguintes foram de um vaivém frenético pelo cânion. O professor Forrester decidiu estabelecer o acampamento na entrada, protegido do vento pelas duas paredes de rocha que se estreitavam no início do cânion para depois se alargarem e finalmente se juntarem 280 metros adiante, no que Forrester denominou o Indicador. Duas bifurcações do cânion, para leste e sudeste, formavam os dedos Médio e Anular. O grupo se abrigaria em barracas especiais, desenhadas por uma empresa israelense para combater o calor do deserto. Para quase todos, grande parte da atividade da tarde consistiu em montá-las, já que o trabalho de descarregamento dos caminhões recaiu quase por completo sobre Robert Frick e Tommy Eichberg, os quais usaram os guindastes hidráulicos dos Kamaz para poder descer os contêineres, as enormes caixas metálicas nas quais o material da expedição viajava. — Dois mil quilos de comida, 100 quilos de remédios, 1.800 quilos de equipamentos arqueológicos, 3 mil quilos de ferramentas e material elétrico, mil quilos de trilhos de aço, uma perfuratriz e uma miniescavadeira. O que acha, moça? Andrea fez uma cara de assombro, tomando notas mentais para sua reportagem. Enquanto isso, marcava os quadrinhos na lista de verificação que Tommy lhe entregara. Por sua pouca experiência em montagem de barracas, a jornalista havia se apresentado como voluntária para dar uma mãozinha no descarregamento, e o motorista lhe atribuíra a tarefa de controlar para onde devia ir cada uma das caixas. Ela não fizera isso por um desejo altruísta de ajudar, mas por acreditar que, quanto mais cedo acabassem, mais cedo poderia falar com Harel e Fowler a sós. Agora, a doutora estava ocupada demais, levantando a barraca da enfermaria. — Aí vai a 34, Tommy — gritou Frick, do alto da parte traseira do segundo caminhão. As correntes do guindaste, terminadas por dois ganchos metálicos que prendiam os dois lados da caixa, chacoalhavam ruidosamente, enquanto esta transpunha o metro e meio que a separava do solo arenoso. — Tome cuidado, que isso pesa à beça. A jovem jornalista folheou, intrigada, as páginas da lista, temerosa de haver deixado passar algo. — Falta alguma coisa na listagem, Tommy. Aqui só figuram 33 caixas. — Não se preocupe, esta tem uma utilidade muito concreta... Aí vem o pessoal que se encarregará dela — disse Eichberg, pelejando com as correntes para soltá-las. Andrea ergueu a vista do papel para topar com Marla Jackson e Tewi Waaka, dois dos soldados de Dekker. Ambos se ajoelharam junto à caixa e soltaram as presilhas de segurança. A tampa deslizou com um chiado apagado, como se tivesse sido fechada a vácuo. A jovem deu uma olhada discreta para o interior, embora Waaka e Jackson não parecessem se importar nem um pouco. Quase parecem estar esperando que eu faça isso. O conteúdo não podia ser mais prosaico. Embalagens de arroz, café, legumes, dispostas em oito fileiras de vinte. Andrea não entendia nada, e menos ainda quando Marla Jackson agarrou um pacote em cada mão e lançou-os ao seu peito. Os músculos dos braços da soldado Jackson se projetaram sob sua pele negra. — Pegue aí, Branca de Neve. Andrea teve de deixar cair a prancheta com a lista para que os dois pacotes de arroz não fossem parar no chão. Waaka reprimiu um sorrisinho desagradável, enquanto sua colega, ignorando a surpreendida jornalista, metia a mão no espaço deixado pelos dois saquinhos e puxava com força. O conjunto de pacotes saiu por completo, como uma segunda tampa, e deixou ver um conteúdo muito menos prosaico. Rifles, metralhadoras e armas curtas repousavam em bandejas superpostas. Enquanto Jackson e Waaka extraíam as bandejas — seis ao todo — e as colocavam com extremo cuidado sobre outras caixas, os demais soldados de Dekker e o próprio sul-africano se aproximaram e começaram a se armar. — Certo, senhores. Como disse o sábio, os grandes homens são como as águias... constroem seus ninhos em elevada solidão. A primeira guarda ficará a cargo de Jackson e dos Gottlieb. Procurem posições de cobertura ali, ali e ali — disse Dekker, apontando três pontos no alto das paredes do cânion. O segundo deles não ficava longe de onde Andrea acreditava ter visto o desconhecido, horas antes. — Só rompam o silêncio de rádio para emitir seus informes a cada dez minutos. Essa carapuça é para o senhor, Torres. Se voltar a trocar receitas de cozinha com Maloney, como aconteceu no Laos, terá que se explicar comigo. Em marcha. Marla Jackson e os gêmeos Gottlieb partiram em três direções diferentes, tentando estabelecer uma rota de escalada até aquelas que viriam a ser as posições de vigia dos soldados durante a estada da expedição no cânion. Quando as encontraram, colocaram longas escadas de corda com degraus de alumínio, fixadas à rocha a cada 3 metros, para facilitar a subida vertical. Enquanto isso, Andrea se encantava com as maravilhas da tecnologia moderna. Nem mesmo nos seus sonhos mais otimistas ela teria imaginado que, durante as próximas semanas, seu corpo poderia sequer se aproximar de um chuveiro. Mas, para seu assombro, os quatro últimos objetos que desceram dos Kamaz eram duas duchas e duas cabines sanitárias pré- fabricadas, construídas em plástico e fibra de vidro. — E então, gatinha? Não se alegra por não precisar cagar na areia? — disse Robert Frick. O jovem ossudo se movia nervosamente, todo cotovelos e joelhos. Andrea recebeu esse comentário vulgar com uma sonora gargalhada, enquanto o ajudava a nivelar a última das cabines. — Não imagina quanto, Robert. E, pelo que vejo, temos banheiro para meninas e para meninos... — Um pouco injusto, levando em conta que vocês são quatro e nós, vinte. Mas me tranquiliza pensar que lhes cabe cavar sua própria latrina — disse Frick. Andrea empalideceu. Só de pensar em segurar uma pá, cansada como estava, já lhe brotavam bolhas nas mãos. Frick, enquanto isso, se dobrava de rir. — Não vejo qual é a graça. — Ah, ah. A senhorita ficou mais branca do que o traseiro da minha tia Beulah. Isso é engraçado. — Não dê ouvidos a ele, moça — intrometeu-se Tommy. — Usaremos a miniescavadeira. Não demoraremos nem dez minutos. — Você sempre estraga a diversão, Tommy. Devia ter assustado a moça um pouco mais — disse Frick, balançando a cabeça e afastando-se em busca de alguém a quem chatear. HUQAN Tinha 14 anos quando começou a aprender. Claro que, primeiro, precisou esquecer muito. Para começar, tudo o que havia aprendido no colégio, na escola, com seus amigos, em sua casa. Nada era real. Tudo eram mentiras inventadas pelos inimigos, os opressores do Islã. Porqueeles tinham um plano. O imame lhe disse isso, sussurrando-lhe ao ouvido. — Começam dando liberdade às mulheres. Colocando-as à altura dos homens, para nos enfraquecer. Sabem que somos mais fortes, mais aptos. Sabem que nosso compromisso com Deus é mais elevado. Depois lavam nossos cérebros, conquistam até imames santos. Nublam sua mente com imagens impuras de luxúria e degradação. Estimulam a homossexualidade. Mentem, mentem, mentem. Mentem até com a data. Eles dizem que é 22 de maio. Mas você sabe que dia é hoje. — Hoje é 16 de shawwal, mestre. — Falam de integração. De convivência. Mas você sabe o que Deus quer. — Não, não sei, mestre — disse o garoto, aterrorizado. Como poderia estar dentro da mente de Deus? — Deus quer que vinguemos as Cruzadas, as de mil anos atrás e as de agora. Deus quer que restabeleçamos o Califado, que eles destruíram em 1924. Desde aquele dia, a comunidade muçulmana tem sido desmembrada em pedaços de terra controlada por nossos inimigos. Basta ler um jornal para ver como os irmãos muçulmanos vivem sob um estado de opressão, humilhação e genocídio. E a maior de todas as afrontas é essa farpa cravada no coração de Dar al-Islam:7 Israel. — Eu odeio os judeus, mestre. — Não. Isso é o que lhe parece. Escute atentamente minhas palavras. Dentro de alguns anos, esse ódio que você agora acredita sentir será como uma faísca comparada ao incêndio de um bosque inteiro. Somente os autênticos crentes são capazes. E você será. Você é especial. Basta-me olhá-lo nos olhos para sentir dentro de você essa força que pode mudar o mundo. Devolver a unidade à comunidade muçulmana. Levar a sharia8 a Amã, ao Cairo, a Beirute. E depois a Berlim. A Madri. A Washington. — Como faremos isso, mestre? Como levaremos a sharia ao mundo? — Você não está preparado para a resposta. — Estou, sim, mestre. — Quer saber com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua mente? — Não há nada que eu deseje mais do que levar a palavra de Alá. — Não, ainda não. Em breve... 7 A casa do Islã. (N. do A.) 8 A lei islâmica. Na prática, uma confusão entre a religião e o Estado. (N. do A.) A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Quarta-feira, 12 de julho de 2006. 20h27 Uma hora depois, as barracas estavam levantadas, as cabines dos sanitários e das duchas instaladas e conectadas ao tanque de água, e o pessoal civil da expedição descansava na minúscula praça retangular que as barracas haviam criado. Andrea, sentada no chão com uma garrafa de Gatorade na mão, havia desistido de procurar o padre Fowler. Nem ele nem a doutora Harel apareciam em lugar algum, de modo que Andrea se dedicou a contemplar com interesse as estruturas de lona e alumínio. Não se pareciam com nenhuma das barracas que ela havia visto antes. O compartimento principal tinha forma de cubo alongado, com uma porta vertical e várias janelas de plástico. Um estrado de madeira instalado sobre 12 pilares de cimento separava as barracas do solo a uma altura de 40 centímetros, para evitar o calor abrasador da areia. O teto era formado por uma lona curva, presa ao chão em um dos lados da barraca para melhorar a refração. Todas eram conectadas a um gerador situado junto ao caminhão de gasolina, para desfrutar da corrente elétrica. Das seis barracas, três eram diferentes. Uma era a enfermaria, que apresentava um desenho mais tosco porém hermético, segundo lhe explicara Harel. Outra era o refeitório-cozinha, dotado de ar-condicionado para que as pessoas pudessem descansar um pouco durante as horas de mais calor. A última era a barraca de Kayn. Ficava um pouco afastada das demais. Não tinha janelas visíveis, e era rodeada por um cordão de isolamento, como muda advertência de que o multimilionário não queria ser incomodado. Kayn permanecera no interior de seu H3 — pilotado por Dekker — até que terminaram de levantá-la, e não tinha saído de novo. Duvido que ele volte a aparecer no tempo que resta de expedição. E me pergunto se não lhe instalaram uma cabine sanitária portátil, pensou Andrea, tomando um gole distraído de sua bebida. Veja só, aí vem a pessoa que vai me responder. — Olá, senhor Russell. — Como está? — disse o assistente, dedicando-lhe um sorriso educado. — Bem, obrigada. Escute, quanto à entrevista com o senhor Kayn... — Temo que não seja possível ainda — disse Russell, esquivo. — Espero que o senhor não tenha me trazido aqui para passear. Quero que saiba... — Bem-vindos, damas e cavalheiros. — A voz desagradável do professor Forrester interrompeu as queixas da jornalista. — Contra todos os prognósticos, os senhores foram capazes de armar as barracas a tempo. Parabéns. Aplaudam a si mesmos. O tom em que ele disse isso era tão desanimado quanto as escassas e descoordenadas palmas que se seguiram. Aquele homem produzia ao seu redor uma aura de humilhação e desconcerto. Apesar de tudo, os membros da expedição foram se sentando no solo ao redor do professor, enquanto o sol morria atrás das montanhas. — Antes de começarmos a distribuição das barracas e o jantar, quero concluir uma história — prosseguiu o arqueólogo, de pé no meio de um círculo de faces intrigadas. Devem lembrar que lhes contei como alguns eleitos haviam tirado a relíquia da cidade de Jerusalém. Pois bem, esse grupo de homens valentes... — Uma dúvida me ronda a cabeça, professor — cortou Andrea, ignorando o olhar fulminante do velho. — O senhor disse que Yirmëyáhu foi o autor do Segundo Rolo. Que ele o escreveu antes de os romanos arrasarem o templo de Salomão, estou enganada? — Não está enganada. — Ele deixou algum outro escrito? — Não, não deixou. — E os homens que tiraram a Arca de Jerusalém? — Também não. — Então, como o senhor pode ter ideia do que aconteceu? Aqueles homens carregaram um objeto muito pesado, forrado de ouro, por uns... 300 quilômetros? Eu mal consegui subir a pé a duna que rodeia o cânion, e só levava minha câmera e uma garrafa. E se fosse... O velho ia ficando mais vermelho a cada palavra que Andrea dizia, até que o conjunto de sua careca e sua barba ficou parecendo uma cereja sobre um leito de algodão. — Como os egípcios conseguiram construir as pirâmides? Como os nativos da ilha de Páscoa levantaram suas gigantescas estátuas de 10 toneladas? Como os nabateus esculpiram Petra? — inquiriu, aproximando- se de Andrea a tal ponto que agora falava curvado sobre ela, com a cara quase grudada à da moça, cuspindo-lhe as palavras e a saliva em partes iguais. A jovem inclinou o rosto, evitando aquele hálito rançoso. — Com fé. A fé necessária para percorrer a pé 300 quilômetros, sob um sol abrasador e por um terreno inóspito. A fé necessária para acreditar que conseguiriam. — Com que então, afora o Segundo Rolo, o senhor não tem nenhuma outra prova — disse Andrea, sem poder se conter. — Não, não tenho nenhuma. Mas tenho uma teoria, e é melhor que eu tenha razão, senhorita Otero, ou voltaremos para casa de mãos abanando. A jornalista ia replicar, mas de repente sentiu uma leve cotovelada nas costelas. Ao se voltar, viu o rosto impassível do padre Fowler, encarando-a fixamente. Nos olhos do sacerdote havia um alerta. — Onde o senhor se meteu? Andei à sua procura. Precisamos conversar. Com um gesto, Fowler mandou-a se calar. — Os oito homens que partiram de Jerusalém com a Arca alcançaram Jericó na manhã seguinte — retomou Forrester, que já se levantara e se dirigia de novo às 14 pessoas que o escutavam atentamente. — Aqui, entramos no terreno da especulação, mas a especulação de um homem que dedicou décadas a pensar no assunto. Em Jericó, abasteceram-se de comida e água. Atravessaram o Jordão perto de Betânia, e alcançaram o Caminho dos Reis próximo do monte Nebo. A mais antiga via de comunicação utilizada ininterruptamente. A trilha que conduziu Abraão da Caldeia a Canaã. Aqueles oito judeus percorreram-na até Petra, onde a abandonaram em direção a um lugar mítico que, para os hierosolimitanos, ficava nos confins do mundo. Este lugar. — Professor, o senhor calcula em que parte do cânion devemos procurar? Porque isto aqui éenorme — interveio a doutora Harel. — Aí é que entram os senhores, a partir de amanhã de manhã. David, Gordon, mostrem a eles os equipamentos. Os dois jovens assistentes chegaram vestidos de maneira estranha. Traziam um arnês no peito, ao qual estava acoplado um dispositivo de metal, como uma pequena mochila. Do arnês partiam quatro correias que sustentavam uma estrutura metálica quadrada, que circundava o corpo à altura das coxas. Na parte dianteira, duas protuberâncias semelhantes a lanternas estavam colocadas nos dois extremos do quadrado, como os faróis de um carro. As protuberâncias apontavam para o solo. — Este, senhores, será seu modelito de verão durante os próximos dias. Chama-se magnetômetro de precessão de prótons. Ouviram-se assovios de admiração. — Sim, um nome muito bacana, não? — disse David Pappas. — Cale-se, David. Partimos da teoria de que os escolhidos de Yirmëyáhu esconderam a Arca no cânion, mas não sabemos onde. O magnetômetro nos dirá. — Como funciona, professor? — perguntou Tommy Eichberg. — O aparelho emite sinais que medem o campo magnético terrestre. Uma vez sintonizado, qualquer anomalia no campo magnético, como a presença de metais, fica registrada. Não é necessário que os senhores compreendam totalmente como funciona, porque o equipamento está dotado de um sinal sem fio que transmite todos os dados diretamente para o meu computador. Se encontrarem alguma coisa, eu saberei antes dos senhores. — É difícil de manejar? — quis saber Andrea. — Não, se a senhorita souber caminhar. A cada um dos senhores será atribuída uma série de quadrantes do cânion, separados por várias dezenas de metros. Tudo o que precisam fazer é apertar o botão de ligar no arnês e dar um passo a cada cinco segundos. Assim. Gordon deu um passo à frente e estacou. Ao cabo de cinco segundos, a máquina da mochila emitiu um apito suave. Gordon avançou de novo, e o apito cessou. Em cinco segundos, o apito se repetiu. — Farão isso durante 12 horas por dia, em intervalos de uma hora e um quarto, com descansos de 15 minutos — disse Forrester. Ergueu-se uma torrente de protestos. — E quem tiver outras obrigações? — Ocupem-se delas quando não estiverem penteando o cânion, senhor Frick. — Pretende que caminhemos dez horas por dia? Em pleno sol? — Recomendo-lhes beber muita água. Pelo menos um litro a cada hora. A 44 graus de temperatura, o corpo se desidrata rapidamente. — E se não tivermos tempo de cumprir as dez horas durante o dia? — Continuarão durante a noite, senhor Hanley. — Caralho, viva a democracia — sussurrou Andrea. Talvez não suficientemente baixo, porque Forrester a escutou. — Acha injusto, senhorita Otero? — inquiriu o arqueólogo, com voz muito suave. — Agora que o senhor mencionou isso, acho, sim — retrucou Andrea, desafiante. Encolheu os ombros, temendo uma nova cotovelada de Fowler, mas esta não veio. — O governo jordaniano nos concedeu um mês nesta falsa licença de exploração de fosfatos. Imagine que eu lhes impusesse um ritmo mais suave. Imagine que terminássemos de fazer a prospecção de dados do cânion dentro de três semanas. Imagine que não pudéssemos extrair a Arca a tempo. Isso seria justo? Andrea baixou a cabeça, encabulada. Odiava aquele homem, e muito. — Mais alguém inscrito no sindicato da senhorita Otero? — perguntou Forrester, examinando os rostos dos presentes. — Ninguém? Bom. A partir de agora, os senhores não são nem médicos, nem sacerdotes, nem operadores de perfuratriz, nem cozinheiros. São meus burros de carga. Divirtam-se. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Quinta-feira, 13 de julho de 2006. 12h27 Passo, espera, apito, passo. Andrea Otero jamais havia feito uma lista com as três piores experiências de sua vida. Primeiro, porque detestava listas e classificações. Segundo, porque não tinha a menor capacidade de introspecção e, embora fosse muito inteligente, costumava encontrar poucas respostas dentro de si mesma. E terceiro, porque, quando os problemas lhe explodiam na cara, seu método consistia em fugir deles indo adiante. Se, na noite anterior, Andrea tivesse dedicado cinco minutos a pensar nessa lista, a primeira das experiências seria a do feijão-branco. Era o último dia de colégio, e ela marchava com passo firme e decidido pela adolescência. Voltou da aula com uma só ideia na cabeça: estrear a nova piscina do condomínio. Por isso, comeu com toda a pressa, decidida a vestir o maiô antes de todo mundo. Ainda com o último bocado na garganta, levantou-se da mesa. E então sua mãe soltou a bomba. — Quem vai lavar os pratos hoje? Andrea quase não se virou, porque aquela era a vez do seu irmão mais velho, Miguel Ángel. Mas seus outros três irmãos não estavam dispostos a esperar pelo líder deles, naquele dia tão especial. E responderam como um só homem: — Andrea! — Merda nenhuma. Vocês estão mal da cabeça ou o quê? Já fiz isso anteontem. — Filha, por favor, não quero ter que lavar sua boca com água sanitária. — Isso, mamãe, com água sanitária — reforçaram os irmãos. — Mas, mamãe, não é a minha vez — disse Andrea, pisando forte no chão. — Pois vai lavar do mesmo jeito, filha, e ofereça o sacrifício ao Senhor pelos seus pecados. Você está numa idade muito ruim — disse a mãe, enquanto Miguel Ángel disfarçava um sorriso e os irmãos se felicitavam a cutucadas por baixo da mesa. Uma hora depois, Andrea, que nunca tivera a língua propriamente curta, pensaria em cinco réplicas possíveis para tamanha injustiça. Mas, naquele momento, só lhe ocorreu uma: — Mamãããe... — Nada de mamãe. Você lava os pratos e deixa seus irmãos descerem antes para a piscina, que eles estão aflitos para ir. Nesse momento, Andrea entendeu. Sua mãe sabia. Sabia que não era a vez dela. É difícil compreender o que ela fez, se você não for a caçula de cinco filhos, e a única menina. Sem ter crescido num ambiente pré-conciliar, no qual a culpa aparece antes do pecado. Sem ser filha de um militar da velha escola, que deixava muito claro a quem preferia. Sem ter sido pisoteada, cuspida, humilhada e deixada de lado por ser mulher. Comparada a um menino, talvez. Com sensibilidade de menino, com certeza. Naquele dia, Andrea deu um basta. Voltou à mesa, levantou a panela de feijão-branco com tomate que haviam comido primeiro. Estava meio cheia. Sem a menor hesitação, a menina virou a panela sobre a cabeça de Miguel Ángel e instalou-a nele como um chapéu. — Lave você os pratos, se quiser, filho da puta. O castigo foi o pior. Além de, obviamente, lavar os pratos, seu pai lhe impôs um corretivo extremamente imaginativo. Nada de proibir que ela descesse para mergulhar durante todo o verão. Isso teria sido suave demais. Ordenou-lhe que se sentasse à mesa da cozinha, de cuja janela havia uma vista perfeita da piscina, e colocou três quilos de feijão-branco na frente dela. — Conte tudo. Quando me disser quantos grãos temos aqui, você pode descer para a piscina. Andrea espalhou os grãos pela mesa e começou a contar um a um, jogando-os dentro de uma caçarola. Quando chegou a 1.283, levantou-se para ir ao banheiro. Na volta, a panela estava vazia. Alguém jogara tudo de volta no monte de grãos. Papai, você vai esperar sentado, se acha que vai me escutar chorar, pensou Andrea. Claro que chorou, durante cinco longuíssimos dias nos quais, tentasse o que tentasse, teve de recomeçar a contar 43 vezes. Na noite anterior, Andrea teria relatado aquela experiência como a pior de sua vida, superior à surra brutal que recebera em Roma, no ano anterior. Naquela manhã, porém, a experiência do magnetômetro ocupava sem sombra de dúvida o topo da lista. O dia havia começado às cinco em ponto, três quartos de hora antes do nascer do sol, com um desagradável coro de buzinadas. A Andrea coubera dormir com a doutora Harel e a arqueóloga Kyra Larsen na enfermaria, segregadas por sexo em virtude do puritanismo do professor Forrester. O pelotão de Dekker ocupava uma barraca, o pessoal de serviço, outra, e os outros quatro assistentes de Forrester, mais o padre Fowler, a última. O professor preferiadormir separado, numa pequena barraca individual de 80 dólares que levava consigo em todas as expedições. Não devia dormir muito, já que às cinco em ponto se plantou no centro da praça de barracas e começou a fazer soar uma buzina de ar comprimido até que conseguiu várias ameaças de morte e um monte de gente acordada. Andrea se levantou entre xingamentos e procurou às apalpadelas a toalha e o nécessaire que deixara junto do colchonete inflável e do saco de dormir que lhes serviam de cama. Já ia se dirigindo à porta, quando Harel a chamou. Apesar da hora, estava completamente vestida. — Não está pensando em tomar banho, imagino. — Estou, sim. — A senhorita é quem sabe. Mas lhe recordo que as duchas funcionam com um código individual, e que só dispomos de trinta segundos de água por dia. Se gastar sua água agora, à noite estará tão pegajosa que pedirá aos gritos que a gente lhe cuspa em cima. Andrea voltou a se jogar no colchão, abatida. — Muito obrigada. A senhora fodeu com meu dia. — Certo. Mas salvei sua noite. — Estou horrível — disse Andrea, levantando-se e recolhendo o cabelo em um rabo de cavalo, algo que não fazia em público desde a universidade. — Mais do que horrível. — Caralho, Doc, seria de esperar que dissesse “Não tanto quanto eu”, ou “Que nada, está ótima”. Corporativismo feminino, sabe como é? — Bom, eu nunca fui uma mulher muito convencional — retrucou Harel, fitando Andrea nos olhos. Que diabo quis dizer com isso, Doc?, perguntou-se Andrea, enquanto vestia uma bermuda e umas botas. Você é o que eu imagino? E o mais importante... será que me atrevo a tomar a iniciativa? Passo, espera, apito, passo. Stowe Erling havia sido o encarregado de conduzir Andrea até seu quadrante e de lhe colocar o arnês. De modo que ali estava Andrea, em um quadrilátero de terreno com 15 metros de lado, delimitado por uma corda amarrada a pequenas estacas a 20 centímetros do solo. Sofrendo. A primeira coisa havia sido o peso. Dezesseis quilos não parecem muito no princípio, sobretudo quando presos a um arnês. Mas, ao começar a segunda hora, Andrea passou a sentir os ombros muito doloridos. A segunda, o calor. Ao meio-dia, aquilo não era areia, mas uma grelha cor-de-rosa. E a água de beber se esgotava meia hora antes de ela iniciar cada turno. A terceira tinham sido os descansos. A cada pessoa, cabia um quarto de hora ao término de cada turno, mas oito daqueles minutos se perdiam em sair do quadrante e voltar, dois em recolher garrafas de água fria e outros dois em passar de novo o filtro solar fator 60. Sobravam exatamente três minutos, que consistiam em escutar Forrester pigarrear e consultar seu relógio. Mas, acima de tudo, estava a repetição da tarefa. Aquele absurdo passo, espera, apito, passo. Eu estaria melhor em Guantánamo, caralho. Embora sejam torturados ao sol, os presos pelo menos não têm que carregar este peso. — Bom dia. Está um pouquinho quente, não é? — disse uma voz em espanhol. — Vá à merda, padre. — Beba um pouco — disse Fowler, estendendo-lhe uma garrafa de água. Vestia calça de sarja e sua habitual camisa preta de manga curta com o distintivo sacerdotal. Voltou a sair do perímetro de corda e se sentou no chão, observando-a divertido. — Pode me explicar a quem subornou para não ter que arcar com esta canga? — disse Andrea, esvaziando a garrafa ansiosamente. — O professor Forrester tem muito respeito pela minha condição religiosa. Ele também é um homem de Deus, à sua maneira. — Prefiro dizer que é um maníaco ególatra. — Isso também. E quanto à senhorita? — O escravagismo não se inclui entre meus defeitos. — Eu me refiro à religião. — Pretende salvar minha alma com uma garrafa de meio litro? — Seria suficiente? — Eu diria que preciso de pelo menos um litro. Fowler sorriu e lhe passou outra garrafa. — Se beber em pequenos goles, acalmará a sede muito mais. — Obrigada. — Não vai me responder? — A religião é algo profundo demais para mim. Prefiro andar de bicicleta. O sacerdote riu com gosto e tomou um gole de sua própria garrafa de água. Parecia cansado. — Ora, vamos, senhorita Otero, não se chateie comigo porque não estou bancando o burro de carga. Acha que as cordas que delimitam os quadrantes apareceram por magia? O quadrante estava situado a 60 metros da área das barracas. Os outros membros da expedição se espalhavam por toda a superfície do cânion, cada um com seu próprio passo, espera, apito, passo. Andrea chegou ao final da corda, deu um passo para a direita, girou 180 graus e começou a andar de novo, de costas para o sacerdote. — E eu que não conseguia encontrá-los... Então, foi isso que a doutora e o senhor andaram fazendo a noite toda. — Havia mais gente. Não precisa se preocupar. — O que o senhor quis dizer com isso, padre? Fowler não falou nada. Durante um tempinho, tudo o que se ouviu foi o ritmo de passo, espera, apito, passo. — Como percebeu? — perguntou Andrea, angustiada. — Eu desconfiava. Agora sei. — Caralho. — Lamento ter invadido sua intimidade, senhorita Otero. — Lamenta, uma merda. — Andrea fez uma pausa e mordeu o punho. — Eu seria capaz de matar para poder fumar. — O que a impede? — O professor Forrester me disse que isso interferia com os instrumentos. — Posso lhe dizer uma coisa? Para quem exibe essa pose de sabe-tudo, a senhorita é extraordinariamente ingênua. A fumaça do tabaco não altera o campo magnético terrestre. Pelo menos, não segundo minhas fontes. — Velho safado! Andrea remexeu nos bolsos e acendeu um cigarro. — Vai dizer alguma coisa a Doc, padre? — Harel é inteligente, muito mais do que eu. E é judia. Não precisa da tagarelice de um velho sacerdote. — E eu, sim? — Bom, a senhorita é católica, não? — Perdi a confiança em sua comunidade há 14 anos, padre. — Em qual? Na dos militares ou na dos sacerdotes? — Em ambas. Meus pais se encarregaram de me foder. — Todos os pais fazem isso. Não é assim que a vida começa? Andrea virou a cabeça para ele, conseguindo vê-lo com o canto do olho. — Com que então, temos algo em comum. — A senhorita nem imagina. Por que nos procurou ontem à noite, Andrea? A jornalista olhou para a direita e para a esquerda antes de responder. O ser humano mais próximo era David Pappas, preso ao arnês a 30 metros deles. Uma lufada de vento quente soprou lá da entrada do cânion, formando com a areia uns redemoinhos de infinita beleza aos pés de Andrea. — Ontem, quando chegamos à entrada do cânion, eu percorri a duna a pé. No topo, comecei a fazer umas fotos com a teleobjetiva, e vi um homem. — Onde? — alterou-se Fowler. — No alto do penhasco que está atrás do senhor. Só o vi por um segundo. Usava roupas marrons. Não contei nada a ninguém porque não sei se tem a ver com a pessoa que tentou me matar na Behemot. Fowler entrecerrou as pálpebras, passou a mão pela cabeça calva e inspirou profundamente. Tinha uma nuvem sobre o rosto. De repente, as rugas ao redor dos olhos pareceram se multiplicar. — Senhorita Otero, isto é muito, muito perigoso. O sucesso da expedição se baseia no segredo. Se alguém descobrir o que na verdade estamos fazendo... — Vão nos expulsar daqui? — Vão matar todos nós. — Ah. Andrea ergueu a vista, tremendamente consciente do isolamento do lugar e de como estariam confinados naquele espaço se a linha tênue representada pelos homens de Dekker se rompesse. — Preciso falar com Albert. Urgentemente. — Achei que o senhor tinha dito que não poderia usar seu telefone por satélite aqui, padre. Que Dekker tem um escâner de frequências. O sacerdote se limitou a fitá-la. — Ah, merda. De novo, não — disse Andrea. — Faremos isso hoje à noite. NOVECENTOS METROS A OESTE DA ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 01h18 O homem alto se chamava O. e estava chorando. Para isso, precisara se afastar de seus companheiros. Não queria de jeito nenhum que o vissem expressar seus sentimentos, e menos ainda falar sobre eles. Sem dúvida seria muito perigoso manifestar em voz alta por que chorava. Na realidade, era por causa da menina. Ela lhe recordavademais sua própria filha. Tinha odiado ter de matá-la. Matar Tahir fora simples, um alívio, na verdade. O. até se permitiu desfrutar um pouco, brincar com ele. Dar-lhe uma antecipação do inferno na terra. Mas a menina era outra história. Só 16 anos. No entanto, D. e W. tinham concordado com O. A missão era importantíssima. Não estavam em jogo somente as vidas dos dez irmãos que se amontoavam na gruta, mas a de toda a Dar al-Islam. A mãe e a filha sabiam demais. Não podia haver exceções. — Bela guerra de merda — murmurou. — Deu para falar sozinho? Era W. Aproximara-se rastejando pelo solo, devagar. Não gostava de correr riscos. Sempre falava em sussurros, inclusive dentro da gruta. — Estava rezando. — Temos de voltar para o buraco. Podem nos ver. — Só há um dos sentinelas na parede oeste, e não tem ângulo para cobrir esta área. Não se preocupe. — E se mudar de lugar? Eles usam óculos de visão noturna. — Não se preocupe. Agora é a vez do negro enorme. Passa o tempo todo fumando. A brasa do cigarro não o deixa ver nada — disse O., irritado por ter de falar tanto, quando só queria usufruir do silêncio. — Volte para a gruta, vamos. Jogaremos xadrez. Esse W. não o enganara nem por um momento. Sabia que ele estava melancólico. Afeganistão, Paquistão, Iêmen. Tinham passado por muita coisa juntos, e era um bom companheiro. Por mais desajeitada que fosse, era uma tentativa de animá-lo. O. se estirou com todo o seu comprimento sobre a areia. Encontravam-se numa depressão ao pé de uma pequena formação rochosa. A gruta se formava perto da base, e era um diminuto espaço natural com menos de 10 metros quadrados. Tinha sido O. quem a localizara três meses antes, quando começara a preparar a operação. Mal havia lugar para os dez, mas, mesmo que a gruta fosse cem vezes maior, O. preferiria ficar do lado de fora. Sentia-se preso naquele buraco ruidoso, acossado pelos roncos e pelas ventosidades dos irmãos. — Acho que vou ficar aqui fora um tempinho. Gosto do frio. — Está esperando o sinal de Huqan? — Ainda falta para isso. Até agora, os infiéis não encontraram nada. — Eu gostaria que eles se apressassem um pouco. Estou farto de ficar amontoado, comer alimento enlatado e mijar num balde. O. não respondeu. Fechou os olhos e se concentrou nas sensações da brisa sobre sua pele. Não se importava de esperar. — Vamos ficar aqui sem fazer nada? Somos dez, bem armados. Devíamos entrar e matar todo mundo — insistiu W. — Seguiremos as ordens de Huqan. — Huqan é um temerário. — Eu sei. Mas é esperto. Ele me contou uma história. Sabe como um guerreiro boxímane encontra água no Kalahari, quando está longe de casa? Procura um macaco e o observa o dia inteiro. Não pode se deixar ver, porque, se o macaco desconfiar, o jogo termina. Com paciência, acaba-se descobrindo o esconderijo dele. Uma fenda na rocha, um pequeno poço... lugares que o boxímane não encontraria nunca. — E o que ele faz, então? — Bebe a água e come o macaco. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 01h18 Stowe Erling mordeu nervosamente sua esferográfica e maldisse o professor Forrester com todas as forças. Afinal, não tinha sido culpa dele que os dados da prospecção daquele quadrante não tivessem chegado ao seu destino. Já lhe bastava ter de aguentar as queixas dos outros forçados enquanto lhes colocava ou retirava os arneses, trocava as baterias e se assegurava de que ninguém percorresse o mesmo quadrante duas vezes. Ele, contudo, não tinha a ajuda de ninguém para colocar em si mesmo o arnês. E a operação não era nada simples, no meio da noite e apenas com a luz de um lampião para camping. Ninguém importava porra nenhuma a Forrester. Isto é, ninguém, exceto ele mesmo. Depois do jantar, havia detectado a anomalia nos dados e ordenado a Stowe que fizesse de novo a análise do quadrante 22K. De nada adiantara que Stowe pedisse — quase suplicasse — para deixar isso para o dia seguinte. Se os dados dos quadrantes não fossem cruzados, o programa se bloqueava. Droga de Pappas. Supostamente, o melhor arqueotopógrafo do mundo, não? Supostamente, um designer qualificado de software, não? Um merda, isso é o que ele é. Nunca deveria ter saído da Grécia, caralho. Por mais que eu puxasse o saco do velho para que me deixasse preparar os cabeçalhos de código dos magnetômetros, ele acaba dando a tarefa a Pappas. Dois anos, dois anos inteiros, porra. Dois anos pesquisando referências para Forrester, emendando seus erros infantis, comprando seus remédios, esvaziando sua lixeira daqueles imundos lenços cheios de sangue infecto. Dois anos, e ele continua me tratando assim. Por sorte, sua complicada movimentação havia terminado, e o magnetômetro estava instalado e em funcionamento. Stowe pegou o lampião para colocá-lo no meio da ladeira. O terreno do quadrante 22K ocupava em sua maior parte uma encosta de areia e pedras, perto do nó do Indicador. O terreno ali era diferente, e não o colchão esponjoso e rosado da base do cânion, nem a pura rocha crestada que o formava. A areia da ladeira, mais escura e com uma inclinação de 14 por cento, agitava-se sob as botas como um rato dentro de um empadão. Nos trechos ascendentes, Stowe, para não cair, tinha de puxar com força as correias que sustentavam o magnetômetro. Equilibrava assim o peso do equipamento. Ao se inclinar para deixar o lampião no solo, Stowe rasgou a pele da mão direita numa rebarba de ferro da estrutura do magnetômetro, fazendo um corte superficial. — Merda de... Ai! Chupando o corte com força, o jovem começou a seguir o lento e agônico ritmo do aparelho. Nem sequer é americano. Nem sequer é judeu, cacete. É apenas um grego sujo, imigrante, mau-caráter. Pelo Santo Nome, mas se ele era ortodoxo antes de começar a trabalhar para o professor! Converteu-se ao judaísmo depois de três meses conosco. Uma conversão express. Muito comovente. Como estou cansado! Por que faço isto? Tomara que encontremos a Arca. As faculdades de História vão me disputar. Encontrarei um bom emprego e farei conferências. O velho não deve durar muito, só o suficiente para nos roubar a glória, de início. Mas, em três ou quatro anos, só se falará de sua equipe. De mim. Seria perfeito se aqueles pulmões podres se arrebentassem nas próximas horas. Eu me pergunto quem Kayn colocaria à frente da expedição. Não seria Pappas. Ele se caga todo só de olhar o professor, e Kayn o derreteria só com uma mirada. Vai precisar de alguém forte. Alguém com carisma. Não imagino como é esse Kayn. Dizem que está muito doente. Por que será que veio? Stowe se deteve, de chofre, no meio da subida e de cara para a parede do cânion. Tivera a impressão de escutar alguém caminhando, mas isso era impossível. Olhou para o acampamento, que parecia tranquilo e em silêncio. Claro que sim. O único que não está na cama sou eu. Bom, à exceção dos sentinelas, mas esses estão bem abrigados e certamente estão roncando. Vão nos proteger de quem? Seria melhor que... O jovem estacou. De novo, escutara algo, e desta vez não era imaginação sua. Inclinou a cabeça, tentando ouvir melhor, mas o apito enervante do magnetômetro soou de novo. Tateando, Stowe procurou o botão de ligar/desligar o aparelho e o pressionou levemente. Desse modo, desativava-se o apito sem apagar o equipamento (o que acionaria um alarme no computador de Forrester), algo que, no dia anterior, 12 pessoas teriam dado um braço para saber fazer. Deve ser algum dos soldados trocando de turno. Ora, eu já sou crescidinho para ter medo do escuro. Iniciou devagarinho a descida da ladeira. Pensando melhor, voltaria para a cama. Se Forrester se aborrecesse, azar. Recomeçaria o trabalho na primeira hora. Dispensaria o café da manhã. É isto. Vou me levantar antes do velho. Quando houver mais um pouco de luz. Sorriu. Alegrava-se por ter se alarmado sem motivo: afinal, poderia ir mais cedo para a cama, era disso que precisava, na verdade. Se se apressasse, poderia dormir três horas. Desligou o magnetômetro. De repente, algo o puxou pelo arnês. Stowe se inclinoupara trás, agitando os braços no ar para não perder o equilíbrio. Mas, quando achava que ia cair sentado, sua queda topou com um corpo humano, que o segurou com força. O jovem não notou a ponta da faca que se cravou na base de sua espinha dorsal. A mão que o agarrava pelo arnês puxou-o para trás com mais força. Stowe recordou sua infância, quando ia com o pai ao lago Chebacco para pescar. O pai segurava os peixes em uma mão e depois os destripava com um só movimento, acompanhado de um som úmido e silvante. Muito parecido com o último som que Stowe escutou. A mão parou de agarrá-lo e o jovem despencou de cara no chão, como um boneco de pano. O magnetômetro impediu que ele rodasse, de modo que seu corpo deslizou devagar, ladeira abaixo. Stowe fez um ruído quebradiço ao morrer, um ganido breve e seco, e isso foi tudo. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 02h33 A primeira parte do plano era acordar a tempo. A partir daí, tudo foi um desastre. Andrea havia colocado o relógio de pulso perto da cabeça, com o alarme regulado para duas e meia da madrugada. Devia se encontrar com Fowler no quadrante 14B, onde estivera trabalhando quando contou ao sacerdote sobre o desconhecido que avistara. Tudo o que a jovem sabia era que o sacerdote precisava de sua ajuda para anular o escâner de frequências de Dekker, mas ele não lhe dissera nem como pensava fazê-lo nem onde estava o aparelho. Para se certificar de que ela não faltasse ao encontro, Fowler lhe deixara seu próprio relógio, já que o da jornalista não tinha despertador. Era um tosco MTM preto com pulseira de velcro e aspecto de ter quase a mesma idade que Andrea. Na caixa do relógio havia uma inscrição gravada: “That others may live.” Para que outros vivam. Que tipo de pessoa usa um relógio como este? Um padre, não, é claro. Os padres usam relógios Casio de 20 euros, no máximo um Lotus dos mais baratos e pulseira imitando couro. Nada com tanta personalidade, cismava Andrea antes de dormir. Quando o alarme soou, Andrea tomou o cuidado de desligá-lo imediatamente e de levar o objeto consigo, por duas razões. Fowler deixara muito claro o que aconteceria a ela se o perdesse. E, além disso, o mostrador trazia integrada uma pequena lanterna LED, que lhe seria muito útil para percorrer o cânion sem tropeçar numa das cordas dos quadrantes e quebrar a cabeça numa pedra. Enquanto procurava a roupa às apalpadelas, Andrea escutava atentamente para saber se o alarme do relógio havia acordado alguém, mas os inconfundíveis roncos de Kyra Larsen a tranquilizaram. Decidiu calçar as botas lá fora, para fazer menos ruído, e começou a caminhar em direção à porta. Mas sua proverbial falta de jeito pregou-lhe uma peça e o relógio caiu. A jovem tentou controlar os nervos e lembrar como era a configuração da enfermaria. Ao fundo situavam-se duas macas, uma mesa e o instrumental médico. As três ocupantes dormiam perto da entrada, em colchonetes autoinfláveis e sacos de dormir. Andrea no meio, Larsen à esquerda e Harel do outro lado. Usando os roncos de Kyra como indicador, ela começou a apalpar o chão. Identificou a borda de seu próprio colchonete. Um pouco adiante, algo que, com toda a probabilidade, eram as meias usadas da assistente de Forrester. Com uma careta de nojo, esfregou a mão nos fundilhos da calça. Tateando, procurou em cima de seu próprio colchão, e depois um pouco mais longe. Aquele era o colchão de Harel. Que estava vazio. Surpresa, Andrea puxou do bolso o isqueiro e se arriscou a acendê-lo, interpondo seu corpo entre a chama e Larsen. Harel não aparecia em lugar nenhum. E Fowler lhe dissera que não contasse à doutora nada do que pretendiam fazer. A jornalista não passou mais tempo pensando nisso. Recolheu o relógio, que caíra entre os dois colchonetes, e saiu da barraca. O acampamento estava silencioso como o inquilino de um cemitério, mas Andrea se alegrou com que a enfermaria ficasse perto da parede noroeste: assim, evitaria encontros indesejáveis, se alguém estivesse indo ou voltando dos sanitários. Certamente, é lá que Harel está. Não entendo por que não podemos lhe contar o que vamos fazer, se ela já conhece a existência do telefone por satélite do padre. Esses dois têm um vínculo muito estranho. Nesse momento, a buzina de ar comprimido do professor começou a soar. Andrea ficou congelada no lugar, o medo rasgando-lhe as tripas como uma cobra numa bola de futebol. A princípio, achou que Forrester a descobrira, até perceber que a buzina devia estar longe. O ruído chegava amortecido e multiplicado, ricocheteando por todo o cânion, mas sem muita força. Soou duas vezes. Depois parou. Em seguida, começou a soar de maneira ininterrupta. Isso é um grito de socorro. Aposto meu pescoço. Andrea não sabia a quem avisar. Como Harel estava ausente, e Fowler a esperava no 14B, a melhor opção era Tommy. A barraca do pessoal de serviço ficava ao lado. Auxiliada pela lanterna do relógio, Andrea encontrou o fecho ecler da entrada e irrompeu lá dentro. — Tommy, Tommy, o senhor está aqui? Meia dúzia de cabeças brotaram dos sacos de dormir. — São duas da manhã, pelo amor de Deus! — exclamou um despenteado Brian Hanley, esfregando os olhos. — Acorde Tommy. Acho que o professor está com algum problema. Mas Tommy já se erguia do saco. — O que houve? — É a buzina do professor. Não para de soar. — Não estou ouvindo nada. — Saiam comigo. Ele deve estar no fundo do cânion. — Daqui a pouco. — Está esperando o quê? O Hanukkah?9 — Não, que a senhorita se vire. Eu estou nu. Andrea saiu da barraca murmurando uma desculpa. Lá fora o som continuava, cada vez mais débil. A carga de ar comprimido da buzina devia estar acabando. Tommy se uniu a ela, seguido pelo resto dos companheiros de alojamento. — Vá olhar na barraca do professor, Robert — disse Tommy, apontando o esquelético operador de perfuratriz. — E você, Brian, vá avisar os soldados. Esta última recomendação era desnecessária. Dekker, Maloney, Torres e Jackson já se aproximavam deles. Com pouca roupa, mas com as metralhadoras prontas. — Que merda está acontecendo aqui? — perguntou Dekker. Trazia um walkie-talkie na pesada e áspera mão grandona. — Meus rapazes dizem que no fundo do cânion alguém está armando um alvoroço tremendo. — A senhorita Otero acredita que o professor está com problemas. E seus vigias? — quis saber Tommy. — A área fica num ângulo morto. Waaka está procurando uma posição melhor. — Boa noite. O que aconteceu? O senhor Kayn está tentando dormir — disse Russell, unindo-se ao grupo com o cabelo um tanto revolto, e metido num pijama de seda cor de canela. — Acho que seria... Dekker o interrompeu com um gesto. O walkie crepitava, e a voz pastosa de Waaka brotou do alto-falante. — Comandante, tenho visibilidade. Identifico Forrester e um corpo caído no solo. Câmbio. — O que o professor está fazendo, Ninho 1? — Está quieto, de joelhos, inclinado sobre o corpo. Câmbio. — Recebido, Ninho 1. Permaneça nesse lugar e nos dê cobertura. Ninhos 2 e 3, caprichem nas precauções. Se um rato soltar um peido, eu quero saber. Dekker cortou a comunicação e passou a dar ordens. Nos breves instantes que sua conversa com Waaka havia durado, todo o acampamento se pusera de pé. Tommy Eichberg acendeu uns poderosos focos brilhantes que criaram enormes sombras nas paredes do cânion. Andrea, enquanto isso, permanecera um pouco atrás do círculo de gente que rodeava Dekker. Um olhar por cima do ombro lhe permitiu ver Fowler aparecer caminhando por detrás da enfermaria, completamente vestido. Ele fez uma volta e se colocou atrás da jornalista. — Não diga nada. Daqui a pouco nos falamos. — Onde está Harel? Fowler encarou Andrea, arqueando as sobrancelhas. Não faz a menor ideia. De repente uma suspeita se abriu na mente de Andrea e ela se virou para Dekker, mas Fowler a reteve pelo braço. Depois de trocar umas palavras com Russell, o enorme sul-africano havia tomado uma decisão. Deixou Maloney cuidando do acampamento e se dirigiu ao quadrante 22K, juntocom Torres e Jackson. — Deixe-me, padre! Disseram que havia um corpo! — reclamou Andrea, tentando se soltar. — Espere! — Poderia ser ela! — Espere. Enquanto isso, Russell ergueu os braços e se dirigiu ao grupo. — Por favor. Por favor. Sei que estamos todos muito nervosos, mas, correndo de um lado para outro, não ajudarão ninguém. Bom, olhem todos ao seu redor e me digam se falta alguém. Senhor Eichberg, e Brian? — Está aí atrás, abastecendo o grupo eletrógeno. O nível de gasolina está baixo. — Senhor Pappas? — Todos, menos Stowe Erling, senhor. — A voz entrecortada do assistente deixava claro seu nervosismo. — Ele estava fazendo uma revisão do quadrante 22K. Os cabeçalhos de dados estavam mal processados. — Senhora Harel? — A doutora não está, senhor Russell — disse Kyra Larsen. — Como assim? Faz alguma ideia de onde podemos encontrá-la? — perguntou Russell, surpreso. — Encontrar quem? — disse uma voz às costas de Andrea. A jornalista se voltou, com o alívio estampado no rosto. Harel estava ali de pé, com os olhos vermelhos e usando apenas umas botas e uma camiseta comprida, de cor vermelha, que lhe chegava aos joelhos. — Terão de me perdoar, mas hoje tomei um comprimido para dormir e ainda estou grogue. O que aconteceu? Enquanto Russell informava a doutora, Andrea enfrentou sentimentos contraditórios. Embora se sentisse mais tranquila sabendo que Harel estava bem, não conseguia imaginar onde ela se metera durante todo aquele tempo. E não sou a única, pensou Andrea, observando sua outra companheira de barraca. A arqueóloga não tirava os olhos de cima de Harel. Larsen desconfia da doutora, e muito. Com certeza percebeu que ela não estava em seu colchão, minutos atrás. Se os olhares fossem raios laser, Doc teria agora nas costas um buraco do tamanho de uma pizza média. Teremos problemas aqui. 9 Festa religiosa judaica que se celebra em dezembro. (N. do A.) KAYN O velho subiu numa cadeira e desatou um dos nós que prendiam as paredes transversais da barraca. Atou-o, voltou a desatá-lo e o atou mais uma vez. — O senhor está fazendo isso de novo. — Um morto, Jacob. Um morto. — Senhor, o nó está bem-feito. Desça, convém tomar isto aqui — disse Russell, segurando no alto um copinho de papel com uns comprimidos. — Não vou tomar. Preciso de todos os meus sentidos em alerta. Eu poderia ser o próximo. Gostou deste nó? — Sim, senhor Kayn. — Chama-se oito duplo. Um nó muito seguro. Foi meu pai quem me ensinou. — É um nó perfeito, senhor. Por favor, desça da cadeira. — Quero ter certeza. Vou atá-lo outra vez. — Senhor, está recaindo no transtorno obsessivo. — Não me chame disso! O velho se voltou para repreendê-lo, tão bruscamente que perdeu o equilíbrio. Jacob se apressou a segurá-lo, mas não pôde impedir que ele caísse no chão. — Sente-se bem, senhor? Vou chamar a doutora Harel! O velho chorava no solo, e apenas uma pequena parte das lágrimas se deviam ao tombo. — Um morto. Um morto. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 03h13 — Assassinato. — Tem certeza, doutora? O cadáver de Stowe Erling estava no centro de um círculo de lampiões de gás, que forneciam uma luz pálida e translúcida como asa de mosca. As sombras das pedras ao redor se difundiam no exterior do círculo para transformar-se gradualmente em uma noite que de repente estava cheia de ameaças. Andrea reprimiu um calafrio ao olhar o cadáver, que jazia estendido sobre a areia. Minutos antes, quando Dekker e seus homens chegaram junto ao professor, este segurava uma mão do cadáver com a direita enquanto, com a esquerda, continuava apertando inutilmente a buzina de ar comprimido, cujo gás se esgotara havia tempo. Dekker afastou com maus modos o professor e mandou chamar Harel. A doutora pediu a Andrea que a acompanhasse. — Eu preferiria não ir — disse Andrea. Sentira-se tonta e confusa quando Dekker disse pelo rádio que haviam encontrado Stowe Erling morto. Não pôde evitar o quanto havia desejado que o deserto o engolisse. — Por favor. Estou muito nervosa, Andrea. Pode me ajudar? A doutora parecia de fato transtornada, de modo que Andrea começou a caminhar ao seu lado sem mais discussões. Pelo caminho, a jornalista pensou em várias maneiras de abordar Doc e perguntar onde diabos ela estava quando começara o tumulto, mas não lhe ocorreu nenhuma em que não ficasse a descoberto que ela mesma estava onde não devia. Quando chegaram ao quadrante 22K, descobriram que Dekker havia buscado um jeito de iluminar o cadáver para que Harel definisse a causa da morte. — O senhor é quem vai me dizer. Se não foi assassinato, ele era um suicida muito decidido. Tem uma facada na base da coluna. Um golpe necessariamente mortal. — E muito difícil de acertar — disse Dekker, sombrio. — Como assim? — interveio Russell, de pé junto ao mercenário. Um pouco mais longe, Kyra Larsen, agachada junto ao professor, tentava consolá-lo e o cobria com uma manta. — Significa que é um golpe dado sem vacilar, perfeito. Com uma lâmina afiadíssima. Quase não sangrou — disse Harel, tirando a luva de látex com que estivera apalpando o ferimento. — Um profissional, senhor Russell. — Quem o encontrou? — No computador do professor, soa um alarme quando um magnetômetro deixa de transmitir — explicou Dekker, indicando o velho com a cabeça. — Ele se levantou para dar uma bronca em Stowe. Ao vê-lo no chão, achou que o rapaz estava dormindo e começou a lhe buzinar no ouvido, até que percebeu o que acontecia. Então continuou buzinando para nos avisar. — Não quero nem pensar como reagirá o senhor Kayn quando souber. Onde diabos estavam seus homens, Dekker? Como isso pôde acontecer? — Olhando para o exterior, suponho, como lhes ordenei. São três efetivos cobrindo uma área enorme numa noite sem lua. Fazem o que podem. — Que não é muito — disse Russell, apontando o cadáver. — Eu lhe disse, senhor Russell. Eu lhe disse que era uma loucura vir para este lugar com apenas seis efetivos. Forçando ao máximo, podemos ter três homens montando guardas de quatro horas. Para cobrir uma área hostil como esta, precisaríamos de pelo menos vinte. Então, não venha jogar a culpa em mim. — Isso está fora de cogitação. O senhor já sabe o que aconteceria se o governo jordaniano... — Querem parar de discutir? — O professor se levantara, a manta pendendo desajeitadamente de seus ombros, e sua voz tremia de raiva. Passado o choque inicial, ele queria derramar sua fúria de alguma maneira. — Morreu um dos meus assistentes. Fui eu que o mandei aqui. Querem parar de se culpar mutuamente? Russell torceu a cara, incomodado. E, para surpresa de Andrea, Dekker também, embora dissimulasse, dirigindo-se à doutora Harel. — Pode nos dizer algo mais? — Pelos rastros que vemos daqui, imagino que o mataram mais em cima e que ele deslizou até o final da ladeira. — Imagina? — interpelou Russell, arqueando uma sobrancelha. — Lamento, mas não sou legista. Sou apenas uma médica comum. O fato de ser especialista em medicina de combate não me capacita a ler cenários de crime. E também não é possível encontrar muitas pegadas nem nada, com esta mistura grossa de areia e rocha. — Sabe se ele tinha inimigos, professor? — perguntou Dekker. — Ele se dava muito mal com David Pappas. Uma rivalidade que eu mesmo provoquei muitas vezes. — Alguma vez o senhor os viu discutir? — Muitas, mas nunca chegaram a extremos. — Forrester se deteve e levantou o dedo bem na cara de Dekker. — Um momento: o senhor não está sugerindo que um dos meus rapazes fez isto, está? Andrea, nesse ínterim, estivera contemplando o cadáver de Erling com uma mescla de espanto e desconcerto. Queria dar um passo à frente, entrar no círculo de lampiões, puxá-lo pelo rabicho e demonstrar que ele não estava morto, que aquilo era apenas uma estranha brincadeira perpetrada por Forrester para torturá-los. Só se convenceu da gravidade do que ocorria quando viu o frágil professor agitando o dedo diante do gigantesco Dekker. Nesse momento, o segredo que ela vinha contendo durante dois dias transbordoucomo uma represa estourada ante a pressão da água. — Senhor Dekker. O sul-africano virou-se para ela, com cara de poucos amigos. — Senhorita Otero, o mestre Schopenhauer dizia que, no primeiro encontro, uma cara produz em nós a impressão que nos dará para sempre. No momento, estou farto de sua cara, entendeu? — Aliás, nem sei por que está aqui, quando ninguém a chamou. Isto não é publicável. Volte para o acampamento — ordenou Russell. A jornalista recuou um passo, mas aguentou o olhar do mercenário e do executivo. Em seguida, ignorando os conselhos de Fowler, cuspiu tudo. — Não saio daqui. É possível que este homem tenha morrido por minha culpa. Dekker aproximou tanto seu rosto do de Andrea que esta pôde sentir o calor seco que a pele dele desprendia. — Fale claro. — Quando chegamos ao cânion, acreditei ver uma pessoa no alto desse penhasco. — O quê? E não nos disse nada? — Na hora, não dei importância. Lamento. — Ah, fantástico, lamenta. Então, tudo resolvido, porra. Russell balançava a cabeça, atônito. Dekker coçava a cicatriz com força, tentando digerir o que acabava de ouvir. Harel e o professor fitavam Andrea, mudos. A única que reagiu foi Kyra Larsen, que, afastando Forrester para um lado, se aproximou de Andrea e lhe deu uma bofetada. — Piranha! Andrea ficou tão surpresa que não soube reagir. Viu a angústia e a dor nos olhos de Kyra e compreendeu. Baixou os braços. Sinto muito. Perdão. — Piranha — repetiu a arqueóloga, lançando-se sobre ela com os punhos fechados, golpeando-a no rosto, no peito, nos ombros. — Podia ter contado a todo mundo que alguém nos vigiava. Por acaso não sabe o que estamos procurando? Não sabe como isso os afeta? Harel e Dekker agarraram Larsen pelos braços, puxando-a para trás. Ela recuou sem oferecer resistência, mas, ao ver que a doutora a segurava, desprendeu-se com força e se afastou vários passos. — Ele era meu amigo — murmurou. Nesse momento, David Pappas chegou correndo. Grossas gotas de suor lhe cobriam a testa e os braços, e estava claro que ele havia caído pelo menos uma vez, porque trazia o rosto e os óculos cheios de areia. — Professor Forrester! Professor Forrester! — O que foi, David? — Os dados. Os dados de Stowe — disse o jovem, inclinando-se e agarrando os joelhos para recuperar o fôlego. O professor fez um gesto de desprezo com a mão. — Este não é o momento, David. Seu colega está aí no chão, esfriando. — Mas, professor Forrester, o senhor tem que me escutar. Os cabeçalhos. Eu os corrigi. — Muito bem, David. Amanhã falaremos disso. David, fazendo algo que jamais lhe ocorreria na vida se ele não estivesse sob a terrível tensão dos acontecimentos daquela noite, agarrou o professor pela manta e o obrigou a se virar e olhá-lo no rosto. — O senhor não entendeu. Há um pico. Um 7911! O professor não reagiu de imediato àquela revelação. Depois falou muito devagar e muito baixo, tanto que David mal conseguiu escutá-lo. — De que tamanho? — Enorme, professor. Forrester caiu de joelhos. Incapaz de falar, balançava-se para a frente e para trás numa prece muda, mais chorada do que rezada. — O que é um 7911, David? — perguntou Andrea. — Número atômico 79. Posição 11 da tabela periódica — disse o jovem, confuso e com a voz embargada, como se, após ter comunicado sua mensagem, tivesse ficado tão vazio e inútil quanto um envelope amassado. Tinha o olhar cravado no cadáver. — Ou seja... — Ouro, senhorita Otero. Stowe Erling encontrou a Arca da Aliança. ALGUNS DADOS SOBRE A ARCA DA ALIANÇA, EXTRAÍDOS DO CADERNO MOLESKINE DO PROFESSOR CECYL FORRESTER A Bíblia diz: “Farás uma arca de madeira de acácia de dois côvados e meio de comprimento, um côvado e meio de largura e um côvado e meio de altura. Tu a cobrirás de ouro puro por dentro e por fora, e farás sobre ela uma moldura de ouro ao redor. Fundirás para ela quatro argolas de ouro, que porás nos quatro cantos inferiores da arca. Farás também varais de madeira de acácia, e os cobrirás de ouro. E enfiarás os varais nas argolas aos lados da arca, para carregá-la por meio deles.” Aplico as medidas do côvado vulgar. Sei que serei criticado, pois poucos estudiosos o fazem: preferem o côvado egípcio e o côvado “sagrado”, muito mais glamourosos. Mas eu tenho razão. O que sabemos com certeza sobre a Arca é isto: - Ano de construção: 1453 a.C., ao pé do monte Sinai - 111 cm de comprimento - 65 cm de profundidade - 65 cm de altura - 385 litros de capacidade - 265 quilos de peso Certos autores assinalam que o peso da Arca é muito superior, e fica em torno dos 500 quilos. Existe até um imbecil que se atreve a afirmar que a Arca pesa mais de uma tonelada. Isso é absurdo. E eles se fazem chamar eruditos. Adoram acrescentar o peso do ouro à estrutura. Pobres idiotas. Não percebem que o ouro, embora seja pesado, é brando, muito brando. As argolas não resistiriam a semelhante peso, e tampouco os varais de madeira com um comprimento suficiente para que mais de quatro homens a transportassem com comodidade. O ouro é um metal muito maleável. No ano passado, vi um aposento inteiro coberto de ouro laminado a partir de uma só moeda de bom tamanho, seguindo métodos da Idade do Bronze. Os judeus eram hábeis artesãos, e não dispunham de grandes quantidades de ouro no deserto nem podiam se prender a um peso tão enorme, que os deixaria indefesos diante de seus inimigos. Não, eles utilizaram uma quantidade pequena e criaram lâminas para cobrir a madeira. Uma madeira sólida, que pode durar séculos sem se alterar, completamente coberta por uma fina camada de metal inerte, inoxidável e alheio ao passar do tempo. É um objeto construído para ser eterno. E poderia ser de outra maneira, sendo o Eterno que dava as instruções? A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 14h21 — Com que, então, os dados estavam manipulados. — Alguém sabia, padre. — Por isso o mataram. — Já tenho o “o quê”, o “onde” e o “quando”. Se o senhor me der um “como” e um “quem”, serei a mulher mais feliz do mundo. — Estou trabalhando nisso. — Acha que foi alguém de fora? Talvez o homem que eu vi no alto do cânion? — Não a considero uma idiota, senhorita. — Continuo me sentindo culpada. — Pois pare com isso. Fui eu que lhe pedi para não dizer nada. Mas acredite: um dos membros da expedição é um assassino. Por isso, falarmos com Albert é mais urgente do que nunca. — Tudo bem. Mas o senhor sabe mais do que o que conta. Muito mais. Ontem, havia no cânion um movimento inusitado, para aquela hora da madrugada. A doutora não estava em seu colchão. — Eu já lhe disse... Estou trabalhando nisso. — Caralho, padre. O senhor é o único maldito poliglota que não gosta de falar. O padre Fowler e Andrea Otero estavam sentados à sombra da parede leste do cânion. Ninguém conseguira dormir grande coisa na noite anterior, e o dia começara lento e pesado, cheio da comoção pela morte de Stowe Erling. Pouco a pouco, no entanto, a perspectiva da descoberta de uma grande quantidade de ouro no magnetômetro de Stowe havia eclipsado a tragédia no ambiente do acampamento. O professor Forrester se transformou no vértice de uma voragem ao redor do quadrante 22K: análise da composição das rochas, mais testes com o magnetômetro e, sobretudo, medições da resistividade do solo. Esse processo consistia em fazer passar uma corrente elétrica pelo terreno, para comprovar o quanto dessa corrente ele podia absorver. Um poço cheio de terra, por exemplo, tem uma resistência elétrica diferente da do solo intacto que o rodeia. Os resultados dos testes foram conclusivos: o terreno era extremamente instável, o que enfureceu Forrester. Andrea o viu agitando mãos e pés, lançando papéis no ar, insultando seus subordinados. — Por que o professor está tão irritado? — comentou Fowler. O sacerdote vinha há um bom tempo brincando com uma pequena chave de fenda e um punhado de cabos que havia surrupiado da caixa de ferramentas de Brian Hanley, o da manutenção. Estava sentado numa rocha plana, meio metro acima de Andrea, e não prestava muita atençãoao que acontecia diante deles. — Andaram fazendo testes e não podem simplesmente se limitar a desenterrar a Arca — respondeu Andrea, que havia falado com David Pappas minutos antes. — Acham que ela está num vão criado pelo homem no subsolo. Se usarem a escavadeira, há muitas possibilidades de que a caverna desmorone. — Terão que fazer uma volta. Isso poderia levar semanas. Andrea disparou outra rajada de fotos e conferiu-as no visor. Havia conseguido um bom ângulo de Forrester literalmente soltando espumas de raiva pela boca. Uma assustada Kyra Larsen jogava a cabeça para trás, com cara de pavor. — Forrester já está gritando de novo. Não sei como os assistentes dele aguentam. — Talvez isso seja o que todos necessitam esta manhã, não acha? Andrea ia retrucar ao sacerdote que não dissesse bobagens, quando se deu conta de que ela era uma fervorosa partidária do autocastigo como método de desvio da dor. O bom do PH é prova disso. Se eu pregasse com o exemplo, já o teria jogado pela janela há muito tempo. Maldito gato. Espero que não fure os frascos de xampu da vizinha. E, se ele fizer isso, que pelo menos a vizinha não me faça pagar. Os gritos reataram a atividade ao redor de Forrester, como a correria de baratas numa cozinha na qual de repente se acendesse uma luz. — Talvez o senhor tenha razão, padre. Mas acho que fazê-los trabalhar assim não é muito respeitoso com o colega morto. Fowler desviou a vista da chave de fenda para lançar a Andrea um olhar acusador. — Não o critico por isso. Eles têm de se apressar, amanhã é sábado. — Ah, sim. O shabat. Os judeus não podem nem acender uma luz depois que o sol se põe na sexta-feira. Grande bobagem. — Pelo menos, acreditam em algo. Em que a senhorita acredita? — Sempre fui uma pessoa prática. — Suponho que quer dizer descrente. — Suponha que me refiro a prática. Perder duas horas por semana em um lugar cheio de incenso subtrairia de minha vida exatamente 343 dias. Não se ofenda, mas não me parece um bom trato. Nem sequer por uma suposta eternidade. O sacerdote riu entre dentes. — Então, acreditou em algo, alguma vez? — Acreditei numa relação. — O que aconteceu? — Estraguei tudo. Poderíamos dizer que ela teve mais fé do que eu. Fowler guardou silêncio. A voz de Andrea tinha soado um pouco forçada, e a jovem percebeu que o sacerdote só queria que ela desabafasse. — Além disso, padre... não penso que a fé seja a única motivação para esta expedição. A Arca valeria muito dinheiro. — No mundo existem aproximadamente 125 mil toneladas de ouro. Acha que alguém como o senhor Kayn precisa perseguir justamente os 13 ou 14 quilos que a Arca contém? — Estamos falando de Forrester e seus atarefados jovens — retrucou Andrea, que adorava discutir, mas não que rebatessem seus argumentos com tanta facilidade. — Tudo bem. Quer uma razão prática? A fase da negação. O trabalho dele os anima a continuar. — De que diabos o senhor está falando? — Das fases do luto da doutora Kübler-Ross. — Ah, sei. Negação, raiva, depressão e todo aquele rolo. — Exato. Pois então? Estão todos na primeira fase. — Vendo o doutor gritar, qualquer um diria que ele está na segunda. — Esta noite eles se sentirão melhor. O professor Forrester dirigirá a hesped, a eulogia. Considero que será interessante ouvi-lo dizer algo bom sobre alguém que não seja ele mesmo. — O que acontecerá com o corpo, padre? — Será colocado em uma bolsa lacrada e hermética e depois enterrado provisoriamente. Andrea se levantou e encarou Fowler, incrédula. — Está brincando. — É a lei judaica. Todo falecido deve ser enterrado antes de se completarem 24 horas de sua morte. — O senhor sabe a que me refiro. Não vão devolvê-lo à família dele? — Nada nem ninguém sai do acampamento, senhorita Otero. Está lembrada? Andrea guardou a câmera na mochila e acendeu um cigarro. — Essa gente está maluca. Espero que essa merda dessa exclusiva não acabe com todos nós. — Sempre com sua exclusiva, senhorita Otero. Não consigo entender de que é que a senhorita precisa tão desesperadamente. — Fortuna e glória. E quanto ao senhor? Fowler se levantou por sua vez e estirou os braços. Arqueou para trás a coluna, que soltou uns estalidos bem audíveis. — Cumpro ordens. Se a Arca for real, o Vaticano quer saber isso para, em seu caso, reconhecê-la como o objeto que contém os Mandamentos de Deus. Explicação muito simples, muito inocente. E absolutamente falsa, padre. O senhor mente muito mal. Mas vamos fingir que eu acredito. — Pode ser — disse Andrea, após um momento. — Mas, nesse caso, por que seus chefes não mandaram um historiador? Fowler lhe mostrou aquilo em que vinha trabalhando. — Porque um historiador não poderia fazer isto aqui. — O que é? — interpelou Andrea, interessada. O objeto parecia um simples interruptor do qual saíam dois cabos. — Não podemos tentar de novo meu plano de ontem à noite para contactar Albert. Depois do assassinato de Erling, eles estarão atentos demais. Portanto, isto é o que vamos fazer... A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 15h42 Repita para mim mais uma vez, padre, por que eu faço isso. Porque quer saber a verdade. A verdade do que está acontecendo aqui. A verdade de por que chamaram a senhorita para fazer este trabalho, quando Kayn poderia encontrar mil jornalistas melhores e mais famosos sem sair de Nova York. A conversa continuava ressoando nos ouvidos de Andrea. Aquela pergunta era a mesma que uma Tênue Vozinha vinha fazendo no fundo de sua cabeça desde muitos dias antes. Havia sido abafada pela Filarmônica do Orgulho completa, acompanhada pelo senhor Faturas do Visa, barítono, e pela senhorita Fama a Qualquer Preço, soprano. Mas as palavras de Fowler tinham conferido à Tênue Vozinha um lugar no centro do cenário. Andrea sacudiu a cabeça, tentando se concentrar no que devia fazer. O plano era aproveitar a troca de guarda, quando somente três dos homens de Dekker estavam fora da barraca, em seus postos de vigia. O resto tentava descansar um pouco, fazer uma sesta ou jogar cartas. — Então, a senhorita intervirá — dissera Fowler. — Quando eu der o sinal, meta-se embaixo da barraca. — Entre a madeira e a areia? Ficou maluco? — Há espaço suficiente. Terá de rastejar uns 50 centímetros até o quadro elétrico. O cabo de cor laranja é a ligação entre o gerador e a barraca. Tire-o depressa, conecte-o a esta ponta do meu aparelho e ligue a outra ponta à conexão do quadro elétrico. Depois, aperte este botão a intervalos de 15 segundos, durante três minutos. Em seguida, desapareça dali. — O que se supõe que vai acontecer? — Nada muito tecnológico. Isso produzirá uma leve queda de tensão na corrente, sem chegar a cortá-la de todo. O escâner de frequências só se apagará duas vezes. Uma quando a senhorita conectar o cabo. A segunda, quando o retirar. — E no resto do tempo? — Ficará em estado de iniciar. Como um computador, enquanto carrega o sistema operacional. Desde que não olhem embaixo da barraca, não haverá problema. Só que havia, sim. O calor. Rastejar sob a barraca quando Fowler deu o sinal foi fácil. Andrea se agachou, fingiu amarrar a bota, olhou ao redor e rolou para baixo da plataforma de madeira. Foi como submergir em um enorme pedaço de manteiga quente. O ar ali estava rarefeito pelo calor acumulado do dia, pela areia e pelo grupo eletrógeno situado junto à barraca, cujos ventiladores emitiam progressivas bofetadas ardentes que penetravam no vão onde se encontrava a jornalista. Ela chegou logo sob o quadro elétrico, sentindo o rosto e os braços abrasados. Sacou o interruptor de Fowler, preparou-o na mão direita e, com a esquerda, deu um forte puxão no cabo laranja. Colocou-o na ponta do de Fowler, conectou a outra ponta e esperou. Maldito relógio mentiroso. Diz que se passaram 12 segundos, e parecem 12 minutos. Meu Deus, que calor. Treze, 14, 15. Apertou o interruptor. Acima dela, as vozes dos soldados mudaram de tom. Parece que notaram. Espero que não deem importância. Aguçou o ouvido para poder escutar a conversa.Começou como uma maneira de se distrair do calor e evitar desmaiar. Naquela manhã, não tinha bebido água suficiente e agora estava pagando o preço. Sentia os lábios secos, a garganta áspera e uma ligeira tontura. Mas, trinta segundos depois, Andrea começou a se aterrorizar com o que estava ouvindo, a tal ponto que não se deu conta de que os três minutos haviam passado e ela continuou ali, apertando o botão do interruptor a cada 15 segundos, lutando contra a sensação de desmaio que estava prestes a vencê-la. EM ALGUM LUGAR DE FAIRFAX COUNTY, VIRGINIA Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 08h42 — Conseguiu? — Alguma coisa, acho que sim. Mas não foi fácil. Esse sujeito é muito hábil para ocultar seus rastros. — Prefiro que você me dê algo melhor do que uma suposição, Albert. Aqui, começou a morrer gente. — Sempre morre gente, não? — Desta vez é diferente. Estou assustado. — Você? Não acredito. Não se assustou nem sequer quando houve o lance dos coreanos. E naquela vez... — Albert. — Desculpe. Pedi alguns favores. Os especialistas da CIA recuperaram parte dos dados dos computadores da GlobalInfo. Orville Watson vinha seguindo uma pista sobre um terrorista chamado Huqan. — Seringa. — Se você diz... Eu não sei nada de árabe. Ao que parece, esse cara queria atentar contra Kayn. — Algo mais? Nacionalidade, afiliação? — Nada. Só coisas vagas, e-mails trocados do escritório. Nenhum arquivo crítico se salvou do fogo. Os discos rígidos são muito delicados, sabe? — Pois, então, encontre Watson. Ele é a chave de tudo. E encontre já! — Pode deixar. INTERIOR DA BARRACA DOS SOLDADOS, CINCO MINUTOS ANTES Marla Jackson não costumava ler o jornal, e isso a mandou para a cadeia. Claro, Marla não pensava assim. Achava que havia ido para a cadeia por ser uma boa mãe. Entre essas duas afirmações radicais pode-se balizar a vida de Marla, que teve uma infância pobre, mas relativamente normal. Tão normal quanto pode ser a vida em Lorton, Virginia, que os próprios habitantes chamam de Sovaco da América. Marla nasceu no seio de uma família de classe baixa, brincou com bonecas, pulou corda, frequentou o instituto e engravidou aos 15 anos e sete meses. A seu favor, convém dizer que ela tentou evitar. Mas como Marla ia saber que Curtis havia furado o preservativo? Simplesmente não podia. Tinha ouvido falar desse absurdo ritual de virilidade dos jovens negros, que consiste em engravidar uma jovem antes de concluir o instituto. Mas isso era algo que acontecia com outras. Curtis a amava. Curtis sumiu. Marla deixou o instituto e entrou para o pouco seleto clube das mães adolescentes. A pequena Mae se tornou o centro da vida de sua mãe, para o bem e para o mal. Ficou para trás o sonho de economizar dinheiro para se dedicar à fotografia de tempestades e furacões. Marla começou a trabalhar numa fábrica de processamento de carne de frango, uma ocupação que, somada à sua labuta como mãe, não lhe deixava muito tempo para ler o jornal. Isso a levou a tomar uma decisão desinformada. Certa tarde, seu chefe lhe anunciou que ia passá-la do turno da manhã para o vespertino. A jovem mãe já havia visto suficientes mulheres saindo de seu turno à noite, mulheres que caminhavam com o olhar fixo no solo e o uniforme da fábrica em sacolas de supermercado, mulheres cujos filhos ao deus-dará acabavam muito cedo em um reformatório ou crivados de tiros numa briga entre gangues. Para evitar isso, Marla se inscreveu na reserva do Exército. Os reservistas não podiam ser mudados de turno, porque isso colidia com as duas horas semanais de instrução na base de Cresaptown. Portanto, ela poderia passar mais tempo com a pequena Mae. Marla tomou essa decisão um dia depois de notificarem a 372a companhia da Polícia Militar sobre seu próximo destino: Iraque. Um fato que apareceu na página 6 do Lorton Chronicle. Em setembro de 2003, Marla acenou com a mão um adeus a Mae e subiu ao caminhão da base. A menina, abraçada à avó, chorava com toda a lancinante potência pulmonar de que somente uma criança de 6 anos é capaz. Ambas morreriam quatro semanas depois, quando a senhora Jackson, que não era nem de longe uma mãe tão boa quanto Marla, arriscou a sorte fumando na cama pela última vez. Quando lhe deram a notícia, Marla foi incapaz de voltar para casa. Aquilo foi simplesmente inadmissível para a jovem, a qual pediu a uma espantada irmã que cuidasse do funeral e do enterro. Marla pediu aos superiores para permanecer no Iraque e se entregou de corpo e alma ao seu trabalho de policial militar na prisão de Abu Ghraib. Um ano depois, o aparecimento de fotos inoportunas no programa de televisão 60 Minutes revelou que algo dentro de Marla se despedaçara. A boa mãe de Lorton, Virginia, tornara-se uma torturadora de prisioneiros iraquianos. Uma foto em especial, em que a jovem sorria para a câmera enquanto apontava os genitais de um dos presos, cuja cabeça aparecia coberta por um saco plástico, foi tremendamente ofensiva para a opinião pública. Marla não era a única, é claro. Mas o fato de ter perdido a filha e a mãe “por culpa daqueles cachorros imundos do Saddam” só era uma justificativa em sua cabeça. De modo que Marla foi dispensada com desonra e condenada a quatro anos de prisão, dos quais cumpriu seis meses. Depois, seguiu direto para pedir emprego na Blackwater. Queria retornar ao Iraque. Conseguiu o emprego, mas não voltou logo para o Iraque. Em vez disso, caiu nas mãos de Mogens Dekker. Literalmente. Tinham sido 18 meses durante os quais Marla aprendeu bastante. Sabia disparar muito melhor, sabia mais de filosofia, sabia como um homem branco fazia amor. O comandante Dekker se interessara quase instantaneamente por aquela mulher de pernas grossas e carinha angelical. Marla encontrara nele algum consolo, e do cheiro de pólvora havia obtido o resto. Tinha matado pela primeira vez, e gostava. Gostava muito. Também gostava de seu pelotão... às vezes. Dekker os escolhera bem. Um punhado de assassinos sem escrúpulos, que desfrutavam da impunidade resultante do fato de matarem graças a um contrato governamental. Enquanto se encontravam no campo de batalha, tudo ia bem, eram irmãos de sangue. Mas quando estavam, como naquela tarde de calor pegajoso, ignorando as ordens de Dekker para dormir e jogando cartas, a coisa mudava muito. Tornavam-se tão irritáveis e perigosos quanto um macaco em um banho turco. E o pior de todos era Torres. — Você está fodendo comigo, Jackson. E não me deu nem um beijinho — disse o pequeno colombiano. Marla ficava especialmente nervosa quando ele brincava com sua diminuta navalha oxidada. Era uma metáfora de si mesmo. Aparentemente inofensiva, mas muito capaz de degolar um homem sem grande esforço. O colombiano removia pequenas tiras brancas da borda da mesa de plástico à qual estavam sentados, e tinha um sorriso nos lábios. — Du scheißt’ mich an,10 Torres. Jackson tem full, e você está cheio de merda — disse Alryk Gottlieb, que lutava com os pronomes e as preposições inglesas com unhas e dentes. O mais alto dos gêmeos odiava Torres com toda a sua alma desde que, meses antes, haviam assistido juntos a uma partida amistosa prévia à Copa do Mundo da Alemanha entre seus respectivos países. Disseram-se coisas, voaram golpes. Paradoxalmente, o 1,90 metro de Alryk não lhe servia para dormir tranquilo à noite. Se ele continuava vivo, era porque Torres não tinha certeza de poder com os dois gêmeos. — Só digo que essas cartas são boas demais — replicou Torres, alargando ainda mais seu sorriso. — Bom, vai dar ou não? — disse Marla, que havia blefado, sim, mas queria aparentar tranquilidade. Já havia tirado dele quase duzentos paus. Esta sorte não pode durar muito. Preciso começar a deixar que ele ganhe, ou numa noite qualquer acabo topando com o fio dessa navalha, pensou ela. Torres começou a distribuir com cuidado, fazendo todo tipo de gestos e barulhinhos divertidos e ligeiramente desagradáveis para distraí-los. O fato é que esse safado é simpático. Se não tivesse essa personalidade de psicopata ou não desprendesseesse permanente cheiro de mofo, até que me daria tesão. Nesse momento, o escâner de frequências que descansava em uma mesinha auxiliar, a dois metros de onde eles jogavam, emitiu um apito. — Que porra é essa? — disse Marla. — É o verdammt escâner, Jackson. — Torres, vá olhar. — Uma merda. Aposto cinco paus. Marla se levantou ela mesma e se aproximou da tela do escâner, um aparelho do tamanho de um daqueles velhos VHS que ninguém usava mais, só que com uma tela LCD e um custo cem vezes superior. — Parece ok, está se reiniciando — disse Marla, voltando à mesa. — Vejo seus cinco e ponho mais cinco. — Passo — disse Alryk, inclinando-se para trás na cadeira. — Cagão. Não tem nem um parzinho. — Acha que o monopólio é seu, namorada do chefe? — disse Torres. Marla se irritou mais com o tom de gozação do que com as palavras. De repente, esqueceu sua própria resolução de deixá-lo ganhar. — Nada disso, Torres. Eu vivo na terra da cor, mano. — De que cor? Marrom cocô? — Qualquer uma, menos amarelo. Curioso... a cor dos covardes é a que está mais no alto, na sua bandeira. Marla se arrependeu assim que falou. Torres era um rato sujo e abjeto de Medellín, certo. Mas, para um colombiano, sua pátria e sua bandeira são tão sagradas quanto o divino Jesus. Ele apertou tanto a boca que seus lábios desapareceram, e nas bochechas lhe surgiram umas manchas arroxeadas. Marla se sentiu ao mesmo tempo assustada e excitada, desfrutando da humilhação do outro e bebendo sua raiva no gargalo. Agora vou ter que perder seus duzentos paus e mais duzentos meus. Este porco está tão pirado que até se atreveria a levantar a mão para mim. Mesmo sabendo que Dekker o mataria. Alryk os olhava com uma sombra de preocupação no rosto. Embora Marla soubesse se cuidar, o que ela pisava agora não era terreno minado, mas minas com uma camada de terra por cima. Uma camada muito fina. — Vamos, Torres. Dê um gelo em Jackson. Isso é só gogó. — Deixe estar, Alryk. Não acho que ele se atreva a sacar de novo o trinchete. Não é, veadinho? — Do que você está falando, Jackson? — Vai dizer que não foi você quem espetou o lourinho ontem à noite? Torres ficou estranhamente sério. — Não fui eu. — Pois sua assinatura está em todo canto. Um instrumento pequeno e preciso, a pouca altura e pelas costas. — Estou lhe dizendo que não fui eu. — E eu digo que vi você discutindo no barco com o lourinho do rabicho. — Ora, eu discuto com muita gente. Sou um incompreendido. — Então, quem foi? O simum, o vento assassino? Ou, quem sabe, o padre? — Não estranhe se tiver sido aquele urubu. — Você não está falando sério, Torres — interveio Alryk. — Esse padre não passa de um warmer bruder. — Ele não lhe disse? O grande bandido se caga de medo do padreco. — Eu não tenho medo de nada. Só digo a vocês que ele é um sujeito perigoso. Muito perigoso — insistiu Torres, torcendo a cara. — Você não caiu na conversa de que ele é da CIA, caiu? Pelo amor de Deus, não passa de um coroa. — Só deve ter uns três ou quatro anos mais do que seu namorado, fofinha. E, que eu saiba, o chefe pode quebrar o pescoço de um burro só com as mãos. — Pode ter certeza, maluco — disse Marla, que adorava se gabar de seu homem. — É muito mais perigoso do que lhe parece, Jackson. Se você conseguisse tirar os olhos do cu, teria lido o informe sobre ele. Esse cara é um pararresgatador. Não há ninguém melhor. Meses antes de o chefe pegar você como mascote do pelotão, fizemos uma operação em Tikrit. Fomos com um ex-para na equipe. As coisas que eu o vi fazer... não são normais. Esses sujeitos trazem a morte grudada nas unhas. — Os paras são foda. Durões como um dente de Deus — disse Alryk. — Vão à merda vocês dois, malditas menininhas católicas. O que acham que ele leva naquela maleta preta? Explosivo C4? Um ferro? Vocês passeiam pelo cânion com um M4 que pode cuspir novecentas balas por minuto. O que ele vai fazer, espancá-los com a Bíblia? Pode também pedir um bisturi à doutora para lhes cortar os ovos. — Essa aí me preocupa pouco — disse Torres, agitando a mão. — É só uma sapatona do Mossad. Estou de olho nela. Mas Fowler... — Esqueça o urubu. Venha cá, será que tudo isso não é uma desculpa para não admitir que você espetou o lourinho... — Estou lhe dizendo que não fui eu, Jackson. Aqui, ninguém é quem diz ser. — Então, agradeça ao seu Deus que tenhamos um protocolo Ypsilon nesta missão — disse Jackson, mostrando uma dentadura perfeita e branquíssima, que custara à sua mãe oitenta turnos duplos na cafeteria onde trabalhava. — Assim que seu namorado disser “Salsaparrilha” e começarem a cair cabeças, o primeiro que vou buscar é o padre. — Não diga a senha, bichinha. E cubra a aposta de uma vez. — Ninguém vai cobrir nada — disse Alryk, detendo Torres com um gesto. O colombiano retirou a mão de suas fichas. — O escâner de frequências não está funcionando. Não para de se reiniciar. — Cacete. Alguma coisa deve estar enguiçada na eletricidade. Deixa para lá, porra. — Halt die klappe Affe.11 Não podemos ficar sem este troço ligado, ou Dekker vai nos chutar a bunda. Vou checar o quadro elétrico. Continuem jogando. Torres fez menção de continuar, mas deu uma olhada fria para Jackson e se levantou. — Vou com você, branquelo. Quero esticar as pernas. Marla se deu conta de que havia pressionado demais a macheza de Torres, e agora o colombiano a colocara no alto de sua lista de assassináveis. Arrependeu-se só um pouco. Torres odiava todo mundo, então por que diabos não lhe dar uma boa razão? — Eu também vou. Os três saíram para o calor abrasador do exterior, e Alryk se agachou junto à plataforma. — Aqui, tudo certo. Vou verificar o grupo eletrógeno. Balançando a cabeça, Marla voltou ao interior da barraca, desejando descansar um pouco. Mas, antes de entrar, notou que o colombiano se agachava junto à borda da plataforma e remexia a areia. Extraiu um objeto e ficou olhando para ele durante um bom tempo, com um estranho sorriso nos lábios. Marla não entendia o que havia de especial naquele isqueiro vermelho com flores estampadas. 10 Você é como uma espinha no cu. (N. do A.) 11 Cale a boca, macaco. (N. do A.) A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 20h31 A tarde de Andrea consistiu em uma série de fugas. A duras penas, ela havia conseguido escapar de sob a plataforma quando escutou os soldados se levantarem. Bem na hora. Mais uns segundos suportando o jorro de ar quente do grupo eletrógeno, e desmaiaria sem remédio. Arrastou-se para o lado oposto à porta, levantou-se e caminhou devagarinho até a enfermaria, tentando não cair. O que necessitava de verdade era tomar uma chuveirada, mas isso estava descartado, porque não queria se encontrar com Fowler. Pegou duas garrafas de água, sua câmera fotográfica e saiu de novo, procurando um lugar entre as rochas do Indicador, a parte menos concorrida do cânion. Achou um bom esconderijo num barranco e ali se dedicou a observar o vaivém dos arqueólogos, embora desconhecesse por completo em que fase se encontravam. Em certo momento, Fowler e a doutora Harel passaram diante dela, sem dúvida procurando-a. Andrea encolheu a cabeça atrás das rochas e tentou refletir sobre o que havia escutado. A primeira conclusão a que chegou foi que não podia confiar no sacerdote — algo que ela já sabia — nem em Doc, o que a incomodava muito mais. Não alimentara muitas ilusões a respeito da doutora, além da poderosa atração física faz correrem formigas embaixo de minha pele que sentia por ela. Mas o fato de a médica ser uma espiã do Mossad superava sua capacidade de tolerância. A segunda conclusão era que não lhe restava outro remédio além de confiar no padre e na doutora, se quisesse sair viva. Aquelas palavras sobre o protocolo Ypsilon haviam subvertido por completo sua percepção do equilíbrio de forças existente. Por um lado, temos Forrester e seus lacaios, todos servis demais para pegar uma faca e matar um colega. Ou não? O pessoal da manutenção, dedicado às suas obscuras tarefas, sem que ninguém lhes prestemuita atenção. Kayn e Russell, os cérebros desta loucura. Um grupo de soldados pagos por eles, e uma chave secreta para matar. Matar quem? O que está claro é que nosso destino ficou selado para sempre no momento em que nos unimos a esta expedição, para o bem ou para o mal. Quase certamente para o mal. Deve ter adormecido, porque, quando se deu conta, a tarde havia caído e uma luz pesada, cinzenta e quente havia substituído o mundo de alto- contraste, sombra e areia, em que o dia transformava o cânion. Andrea lamentava ter perdido o entardecer. A cada dia procurava ir à zona aberta, fora do cânion, quando chegava a hora. O sol mergulhava na areia, criando harmoniosas espirais de calor que faziam o horizonte ondular. O último lampejo do sol antes de desaparecer criava uma explosão laranja cujo resplendor permanecia no céu por vários minutos. Ao fundo do Indicador, a única vista noturna era a pedra arenosa. Com um suspiro, Andrea levou a mão à calça e puxou o maço de cigarro, mas o isqueiro não aparecia em lugar nenhum. Apalpou os bolsos, intrigada, quando uma voz em espanhol quase a fez cuspir o coração. — Está procurando isto, putinha? Andrea levantou a vista. Um metro e meio acima dela, Torres se inclinava no barranco, com o braço estendido, oferecendo-lhe o isqueiro vermelho. A jovem deduziu que, havia um bom tempo, o colombiano espreitava ali, e um calafrio lhe percorreu a espinha. Fez um esforço para não demonstrar medo, levantou-se e estirou a mão para pegar o isqueiro. — Sua mãe não o ensinou a falar com uma dama, Torres? — disse Andrea, conseguindo controlar seu pulso o suficiente para acender o cigarro, e exalando a fumaça na direção do mercenário. — Ensinou, sim. Mas aqui não estou vendo nenhuma. Torres mantinha o olhar cravado nas túmidas coxas de Andrea. A jovem jornalista usava uma calça desmontável meio arregaçada, e a marca do sol criava uma fronteira sensual. Quando Andrea viu para onde se dirigia o olhar do colombiano, seu medo se acentuou. Ela virou a cabeça para o extremo do Indicador. Um grito potente serviria para alertar as pessoas que trabalhavam na escavação, a qual havia começado horas antes, quase ao mesmo tempo que sua excursão embaixo da barraca dos soldados. Mas, ao se virar, não encontrou ninguém. A escavadeira aparecia solitária e um pouco de lado. — Foram todos ao funeral, putinha. Estamos sós. — Você não deveria estar em seu posto, Torres? — disse Andrea, apontando um dos penhascos com estudadíssima despreocupação. — Não sou o único que está onde não deve, concorda? Essa é uma atitude que precisamos corrigir, sim, senhorita, claro que sim. Com um salto, o soldado desceu para se colocar ao mesmo nível de Andrea. Estavam numa plataforma de rocha a uns 4 metros do solo do cânion, não maior que uma mesa de pingue-pongue. Uma massa irregular de pedras se erguia junto à borda, criando um terraço natural que servira a Andrea para se esconder... mas do qual, agora, ela não podia escapar. — Não sei do que está falando, Torres — respondeu Andrea, tentando ganhar tempo. O colombiano deu um passo à frente, e agora estava tão perto que ela podia ver claramente as gotinhas de suor que lhe povoavam a testa, o óleo que se acumulava no cabelo engordurado, as unhas de luto rigoroso. — Claro que sabe. E agora você vai fazer algo por mim, se souber o que lhe convém. É um desperdício que uma mulher boazuda como você seja uma fanchona, mas com certeza é porque nunca experimentou o que é bom. Andrea deu um passo para a borda esquerda do terraço, mas o colombiano se plantou entre ela e o lugar por onde a jovem havia subido. — Não se atreva, Torres. Seus companheiros podem estar nos olhando agora mesmo. — Aqui, somente Waaka pode nos ver... e não vai mexer um dedo. Vai sentir bastante inveja, mas a pica dele não levanta há muito tempo. Esteroides demais. Não se preocupe, que a minha funciona muito bem. Agora mesmo eu lhe demonstro. Andrea constatou que fugir era impossível, de modo que tomou uma decisão de puro desespero. Jogou fora o cigarro, firmou bem os dois pés na rocha e se inclinou um pouco. Não ia deixar fácil. — Tudo bem, filho da puta. Se quiser, venha buscar. Pelos olhos de Torres passou um brilho púrpura, mistura da excitação pelo desafio e da ira pelo insulto à sua mãe. Ele se lançou para diante e segurou Andrea por um braço, atraindo-a para si com uma força que contradizia sua baixa estatura. — Adorei você pedir, sua sem-vergonha. Andrea arqueou o corpo e o golpeou na boca com o cotovelo. Um fio de sangue aterrissou sobre as pedras da borda do terraço, e Torres soltou um grito de raiva. Puxou com força a camiseta de Andrea, rasgando-a pela manga e deixando a descoberto um sutiã preto. Aquela visão pareceu inflamar ainda mais o mercenário, que agarrou Andrea pelos dois braços e tentou lhe mordiscar um seio. A jovem se jogou para trás no último instante, e os dentes estalaram ao encontrar somente ar. — Relaxe, você vai gostar... pois não está querendo? Andrea tentou lhe dar uma joelhada na virilha ou no estômago, mas Torres havia desviado o corpo para o lado e cruzado as pernas, antecipando- se ao movimento. Não deixe que ele a jogue no chão, pensou Andrea, relembrando uma reportagem que fizera dois anos antes com uma associação de vítimas de estupro. Havia assistido com outras moças a um cursinho antiestupro dado por uma instrutora que sofrera na adolescência uma tentativa de violação. Ela havia perdido um olho, mas não a virgindade. O estuprador perdeu tudo. Se a jogar no chão, você está perdida. Um novo puxão arrancou as alças do sutiã e deixou as taças pendendo. Torres decidiu que aquilo era suficiente e aumentou a pressão sobre os pulsos de Andrea, que mal podia mover os dedos. Torceu-lhe cruelmente o braço direito, deixando o esquerdo livre. Andrea ficou de costas, imobilizada pelo colombiano, que a obrigou a se dobrar sobre o ventre e a golpeou nos tornozelos para lhe abrir as pernas. O estuprador é vulnerável em dois momentos, ressoou a voz da instrutora, tão cheia de energia e de controle que Andrea sentiu suas forças renovadas. Quando lhe tira a roupa e quando tira a dele. Se você tiver a sorte de ele fazer isso primeiro, aproveite. Com uma só mão, Torres desafivelou o cinto, e sua calça de camuflagem formou uma sanfona sobre seus tornozelos. Andrea pôde notar o membro dele ereto entre as coxas, quente e ameaçador. Espere que ele se incline sobre você. O mercenário se dobrou sobre Andrea, buscando às apalpadelas o fecho da calça dela. A barba áspera raspava a nuca da jovem, e esse foi o sinal de que ela precisava. Levantou de repente o lado esquerdo, apoiando todo o peso do corpo sobre o direito. Torres, apanhado de surpresa, soltou-lhe o braço, e Andrea rodou para sua direita. O colombiano caiu para frente e se viu de bruços no solo. Tentou se levantar, mas Andrea já estava de pé e lhe deu um, dois, três pontapés no estômago em rápida sucessão, atenta a que o mercenário não lhe prendesse os tornozelos e a derrubasse. Torres recebeu os golpes em cheio, e, quando tentou se encolher para evitar novos pontapés, deixou a descoberto um alvo muito mais delicado. Obrigada, meu Deus. Nunca me canso de fazer isto, pensou a caçula de cinco irmãos. Jogou o pé para trás a fim de tomar impulso e chutou os testículos de Torres, cujo uivo ecoou pelas paredes do cânion. — Vamos manter isto entre nós — disse Andrea. — Agora, estamos quites. — Ainda pego você, sua puta. Pego com tanta força que você vai se engasgar com minha piroca — berrou Torres, quase chorando. — Pensando bem... Andrea, que já alcançara a borda do terraço e se dispunha a descer, virou-se, deu uma corridinha e acertou de novo a ponta da bota na virilha do mercenário, a quem de nada adiantou se cobrir com as mãos como pôde. A segunda vez foi muito mais forte, e Torres ficou de boca aberta em busca de ar, com o rosto vermelho, duas lágrimas correndo e sem forças nem para gemer. — ... agora, sim, estamos quites. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sexta-feira,14 de julho de 2006. 21h43 Andrea caminhou de volta para o acampamento, a toda a velocidade de que era capaz sem correr. Não olhou para trás nem se preocupou muito com sua roupa destroçada até chegar junto à fileira de barracas. Nesse momento, sentiu uma estranha vergonha pelo que lhe acontecera, misturada com o medo de que alguém descobrisse sua aventura com o escâner de frequências. Tentou recompor sua figura o melhor possível. A camiseta não tinha jeito, de modo que ela deslizou até a enfermaria, felizmente sem topar com ninguém. Quando ia entrando, esbarrou em Kyra Larsen, que levava todas as suas coisas nas mãos. — O que houve, Kyra? A arqueóloga lhe dedicou um olhar gélido. — Você não teve sequer a decência de se apresentar na hesped de Stowe. Suponho que não está nem aí, porque não o conhecia. Para você, ele não era ninguém, certo? Por isso, não liga para o fato de ele ter morrido por culpa sua. Andrea esteve a ponto de responder que outros compromissos a tinham retido, mas duvidava que Kyra a entendesse. Não disse nada. — Não sei o que vocês estão armando — continuou a arqueóloga, afastando-a com o ombro. — Você sabe muito bem que a doutora não estava na cama dela naquela noite. Pode ter enganado todo mundo, mas não a mim. Vou dormir com meus colegas. Agora, há um leito livre graças a você, puta. Andrea se alegrou com que ela se fosse, porque não estava disposta a discutir com ninguém e porque, intimamente, concordava com cada uma das palavras de Kyra, embora não o admitisse em voz alta. Parte importante de sua educação católica era a culpa, e a do pecado de omissão era a mais pegajosamente persistente e dolorosa. Entrou na barraca e encontrou a doutora Harel, que de imediato voltou a cabeça para o outro lado. Era evidente que havia discutido com Larsen. — Que bom que você está bem. Estávamos preocupados. Andrea também mudou a forma de tratamento: — Vire-se para cá, Doc. Já sei que você andou chorando. Harel virou, esfregando os olhos vermelhos. — Que bobagem, não? Uma simples secreção da glândula lacrimal, e que vergonha faz a gente passar. — Mais vergonhosa é a mentira. A doutora atentou então para as roupas rasgadas de Andrea, algo que sem dúvida, em seu aborrecimento, Larsen havia deixado passar ou não se dignara a comentar. — O que lhe aconteceu? — Caí da escada. Não mude de assunto. Sei quem você é. Harel a encarou, medindo cada uma de suas palavras. — O que você sabe? — Que a medicina de combate é uma especialidade muito apreciada no Mossad, ao que parece. E que a tal substituição que você precisou fazer não foi tão casual como me contou. A doutora franziu a testa e se levantou, aproximando-se de Andrea, que remexia em sua bagagem à procura de algo limpo para vestir. — Sinto que você tenha sabido assim, Andrea, sinto mesmo. Eu sou apenas uma analista de segunda categoria, e não uma agente de campo. Meu governo quer ter olhos e ouvidos em cada expedição arqueológica que anda em busca da Arca da Aliança. Em sete anos, esta é a terceira em que estou. — Você é médica mesmo? Ou isso também era mentira? — interpelou Andrea, enfiando a camiseta. — Sou médica. — E como é que se dá tão bem com Fowler? Porque eu ouvi dizer que ele é agente da CIA, caso você não saiba. — Ela sabe, e a senhorita me deve uma explicação — disse Fowler. Estava junto da porta, com o cenho franzido, mas com evidente alívio no rosto, depois de tê-la procurado a tarde inteira. — Devo merda nenhuma. — Andrea apontou o dedo para o sacerdote, que recuou, surpreso. — Quase morri de calor embaixo da plataforma, e, para completar, um dos cachorros de Dekker tentou me estuprar dez minutos atrás. Não estou com disposição para falar com vocês. Não ainda, pelo menos. Fowler segurou Andrea pelos braços, atentando para as contusões dos pulsos. — A senhorita está bem? — Melhor do que nunca — retrucou ela, afastando as mãos dele. A última coisa que a jovem desejava naquele momento era o contato com alguém do sexo masculino. — Senhorita Otero, por acaso escutou a conversa dos soldados quando estava embaixo da plataforma, ou estou enganado? — Que diabo você fazia lá? — espantou-se a doutora. — Fui eu que a mandei. Ela precisava me ajudar a interferir no escâner de frequências, para eu poder acessar meu contato em Washington. — Eu gostaria que o senhor tivesse me contado, padre. Fowler baixou a voz até transformá-la num sussurro. — Precisamos de informação, e não vamos consegui-la presos nesta bolha. Ou acha que eu não sei como a senhora escapa no meio da noite para enviar mensagens de texto a Tel Aviv? — Touché — reconheceu Harel, fazendo uma careta. Era isso o que você estava fazendo, Doc?, perguntou-se Andrea, mordendo o lábio inferior e tratando de tomar decisões. Talvez eu estivesse enganada e tenha que confiar em você, afinal. É o que espero, porque não resta outro remédio. — Tudo bem, padre. Vou contar o que ouvi... FOWLER E HAREL — Precisamos tirá-la daqui — sussurrou o sacerdote. As sombras do cânion os rodeavam, e os únicos ruídos provinham da barraca-refeitório, onde os membros da expedição começavam a jantar. — Não vejo como, padre. Pensei em roubar um dos Hammer, mas é preciso transpor a duna. Não chegaríamos longe. E se simplesmente contássemos ao grupo a verdade do que está acontecendo aqui? — Supondo que conseguíssemos e que acreditassem em nós... de que serviria? Doc conteve um suspiro angustiado no meio da escuridão, um queixume de raiva e impotência. — Então, a única resposta que me ocorre é a mesma que o senhor me deu ontem sobre o araponga: esperar e ver. — Há uma maneira — disse Fowler, após um tempinho. — Será perigoso, e vou precisar de sua ajuda. — Suponho que o senhor pode contar comigo, padre. Mas, antes, preciso que me explique o que é um protocolo Ypsilon. — É um procedimento pelo qual o destacamento de segurança assassina todos os membros do grupo, os mesmos a quem supostamente protegia, quando soa pelo rádio uma palavra-chave. Todos, exceto aquele que o contratou e quem este designar. — Não entendo como pode existir algo assim. — Oficialmente, não existe. Mas alguns integrantes das companhias de mercenários que estiveram em Operações Especiais, por exemplo, importaram de países asiáticos esse conceito. Harel guardou silêncio por um momento. — Existe algum modo de saber quem está incluído? — Não — disse o sacerdote, com um fio de voz. — E o mais irritante é que a pessoa que contratou o grupo costuma ser alguém diferente de quem ostenta o comando de maneira nominal. — Então, Kayn... — disse Harel, arregalando os olhos. — Exato, doutora. Não é Kayn que quer nos ver mortos, mas sim alguém muito diferente. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sábado, 15 de julho de 2006. 02h34 A princípio, a quietude da barraca-enfermaria era total. Com Kyra Larsen dormindo com seus companheiros, a respiração profunda das duas mulheres servia para emoldurar e definir o silêncio. Depois veio uma leve raspadela, a de um zíper Hawnvëiler, os mais seguros e herméticos do mundo. Não passa nem poeira quando eles estão fechados, mas nada impede um intruso de entrar, desde que abra uma passagem de uns 50 centímetros de altura. Seguiu-se um conjunto de sons leves, pés metidos em meias sobre a madeira; o estalido de uma caixinha de plástico ao se abrir; e um ruído quase imperceptível, mas tremendamente ameaçador: o de 24 patas de queratina agitando-se nervosas dentro da caixinha. Veio depois uma série de silêncios, porque os movimentos que os acompanharam não produziram sons reconhecíveis pelo ser humano: a borda de um saco de dormir meio aberto levantando-se, o ruído das patinhas aterrissando sobre o tecido, a borda do saco voltando à sua posição e cobrindo os donos das patas. Durante os sete segundos seguintes, as respirações voltaram a reinar no silêncio, porque o roçar dos pés a caminho da saída foi ainda mais leve do que na entrada, porque o zíper já não se fechou quando o intruso se foi e porque o único movimento que Andrea fez dentro do saco foi tão breve quepraticamente não produziu nenhum som. Foi também suficiente para dar aos visitantes do saco de Andrea uma maneira de descarregar a fúria e o desconcerto que o intruso produzira neles ao agitar com força a caixinha de plástico antes de entrar na barraca. O primeiro ferrão se cravou e Andrea, aos gritos, acabou com o silêncio. MANUAL DE TREINAMENTO DA AL QAEDA, LOCALIZADO EM UM APARELHO PELA SCOTLAND YARD, PÁGINAS 131 E SEGUINTES. TRADUZIDO POR WM E SA.12 Estudos militares da jihad contra a tirania Em nome de Alá, o piedoso e compassivo [...] Capítulo 14: Sequestros e assassinatos utilizando rifles e pistolas É preferível escolher um revólver, já que, embora comporte menos balas do que uma pistola automática, ele não engasga, e as cápsulas vazias permanecem no tambor, dificultando a ação dos investigadores. [...] Partes críticas do corpo O atirador deve conhecer as partes letais do corpo ou [onde] ferir seriamente, para poder disparar nesses pontos sobre a pessoa que ele quer assassinar. São estes: 1 – O círculo que compreende os dois olhos, o nariz e a boca é uma área letal, e o atirador não deve apontar por baixo, à esquerda ou à direita, pois assim se arrisca a que o projétil falhe. 2 – A parte do pescoço onde se juntam veias e artérias 3 – O coração, esta é uma parte letal 4 – O estômago 5 – O fígado 6 – Os rins 7 – A coluna vertebral Princípios e regras do disparo A maioria dos erros de pontaria se deve ao estresse físico ou aos nervos, que podem fazer a mão se agitar ou tremer. Isso pode ser causado por aplicar uma pressão excessiva no gatilho e por puxar o gatilho em vez de apertá-lo, fazendo com que a boca do cano se desvie do alvo. Portanto, os irmãos devem observar as seguintes considerações ao apontar e disparar: 1 – Controle-se ao apertar o gatilho para não agitar a pistola 2 – Aperte o gatilho sem força excessiva e sem puxá-lo 3 – Não deixe que o som do disparo afete você e não se concentre em antecipar o som do disparo, porque isso faria sua mão tremer 4 – O corpo deve estar normal, não tenso, e as articulações relaxadas; mas não relaxado demais 5 – Quando disparar, alinhe seu olho direito com o centro do alvo 6 – Feche o olho esquerdo se disparar com a direita, e vice-versa 7 – Não demore demais a apontar, ou seus nervos o trairão 8 – Não sinta remorso ao apertar o gatilho. Você está matando um inimigo do seu Deus 12 O manual original da Al Qaeda ocupa 5 mil páginas em vários volumes e contém informação detalhadíssima sobre operações realizadas no passado pelo grupo terrorista, assim como a metodologia pertinente para recrutamento de novos membros; treinamento; criação de células; preparação de explosivos e sua utilização contra objetivos militares e civis; assassinatos com todo tipo de armas de fogo, venenos e armas brancas; espionagem e contraespionagem; e resistência a interrogatórios e tortura. Nos aparelhos usados pelos terroristas há sempre uma versão reduzida do manual, de umas 180 páginas. É rigorosamente proibido tirar o manual da casa, e o chefe da célula tem ordem de destruí-lo ao menor sinal de perigo. (N. do A.) UM SUBÚRBIO DE WASHINGTON Sexta-feira, 14 de julho de 2006, 20h34 Nazim tomou um gole da Coca-Cola e logo a deixou de lado. Tinha açúcar demais, como todas as bebidas dos restaurantes em que você comprava o copo e podia enchê-lo quantas vezes quisesse. O Mayur Kabab, onde fora buscar o jantar, era um desses. — Sabe? Um dia desses, vi um documentário. Era sobre um sujeito que comeu somente hambúrgueres do McDonald’s durante um mês. — Que nojo. — Kharouf tinha os olhos semicerrados. Havia algum tempo, tentava dormir, mas não conseguia. Dez minutos antes, desistindo, voltara a puxar para a frente o encosto do banco. Aquele Ford era muito desconfortável. — Dizem que o fígado dele virou patê. — Isso só pode acontecer nos Estados Unidos. O país com mais obesos do mundo. O país que consome 87 por cento dos recursos mundiais. Nazim se calou. Ele havia nascido norte-americano, embora um norte- americano diferente. Não aprendera a odiar sua pátria, ainda que seus lábios pronunciassem coisas diferentes. Para ele, o ódio de Kharouf aos Estados Unidos era global demais. Preferia imaginar o presidente ajoelhando-se voltado para Meca no Salão Oval, a ver a Casa Branca arrasada pelo fogo. Uma vez, tinha contado algo assim a Kharouf e este lhe mostrara um DVD com fotos de uma menininha. Fotos da cena de um crime. — Os soldados israelenses a estupraram e assassinaram em Nablus. Não existe no mundo ódio suficiente para isso — dissera Kharouf. Recordando as imagens, Nazim também sentia lhe arder o sangue. Mas procurava manter aquele pensamento fora de sua cabeça. À diferença de Kharouf, o ódio não era sua fonte de energia. Suas motivações egoístas e deformadas se concentravam em conseguir algo para ele. Seu prêmio. Quando, dias antes, tinham entrado na sede da GlobalInfo, Nazim mal tivera consciência de alguma coisa. Em certo sentido aquilo lhe doía. Os dois minutos que eles haviam passado exterminando os kafirun estavam quase apagados de sua cabeça. Tinha tentado rememorar o acontecido, mas era como a lembrança de outra pessoa, como aqueles sonhos absurdos que aparecem nos filmes para mocinhas de que sua irmã gostava, e nos quais o protagonista se vê de fora. Ninguém tem sonhos nos quais se vê de fora. — Kharouf. — Diga. — Lembra-se de alguma coisa da terça-feira passada? — Você se refere à operação? — Claro. Kharouf o encarou, deu de ombros e sorriu com tristeza. — De cada detalhe. Nazim evitou o olhar dele, porque se envergonhava de admitir o que ia dizer. — Eu... eu não me lembro muito bem, sabe? — Garoto, dê graças a Alá, bendito seja o Seu nome. Na primeira vez em que matei alguém, não consegui dormir durante uma semana. — Você? — Nazim arregalou os olhos. Kharouf lhe fez um carinho na cabeça. — Claro, Nazim. Agora você já é um jihadista, já somos iguais. Não se espante com que eu também passe por momentos ruins. Às vezes é difícil assumir o papel de espada de Deus. Mas você foi abençoado com o esquecimento dos detalhes desagradáveis. Agora só lhe resta o orgulho pelo que fez. O jovem se sentiu muito melhor do que se sentira nos últimos dias. Permaneceu algum tempo em silêncio, murmurando uma oração de agradecimento e sentindo que o suor lhe encharcava as costas. Não se atreviam a acionar o motor do carro para ligar o ar-condicionado, e a espera começava a parecer eterna. — Tem certeza de que ele está aí dentro? Porque eu estou começando a duvidar — disse Nazim, apontando o muro que rodeava a propriedade. — Não acha que deveríamos procurar em outro lugar? Kharouf meditou um momento, e depois moveu a cabeça com desânimo. — Não faço a mais remota ideia. Por quanto tempo nós o seguimos, um mês? Só veio aqui uma vez, e carregado de pacotes. Saiu sem nada, e essa casa está vazia. Pelo que sabemos, poderia ser a casa de um amigo, e ele estava apenas trazendo uma encomenda. Mas é a única coisa que temos, e ainda vamos agradecer a você por ter descoberto este local. Era verdade. Num dos dias em que coubera a Nazim seguir Watson sozinho, este último havia começado a mudar de pista frequentemente na via expressa e a seguir um caminho de volta para casa que não tinha nada a ver com o que fazia habitualmente. Nazim aumentou o volume do rádio e imaginou que era um personagem do Grand Theft Auto.13 Havia uma fase do jogo em que era preciso seguir um carro que evitava ser seguido. Era uma de suas partes favoritas, e o que ele aprendeu lhe foi muito útil naquela situação. — Acha que ele sabe algo sobre nós? — Acho que não sabe nem mesmo de Huqan, mas certamente este tem uma boa razão para querê-lo morto. Por favor, me passe a garrafa de mijar. Nazim lhe estendeu uma garrafa de dois litros. Kharouf baixou o fecho ecler e urinou dentro. Levavam várias garrafas vazias para poder se aliviar diretamente dentro do carro. Era preferível sofrer aquele incômodo, e depois jogar a garrafa numa lixeira, a se arriscar a que alguém os visse urinando na rua oua ir várias vezes num bar dos arredores. — Sabe de uma coisa? Merda, chega — disse Kharouf, fazendo um gesto de tédio. — Vou jogar a garrafa na lixeira do beco e depois vamos buscá-lo na Califórnia, na casa da mãe. À merda com tudo isto. — Espere, Kharouf. Nazim apontava a porta da propriedade. Um entregador de moto estava tocando a campainha. Segundos depois, a porta se abriu. — Ele está aí. Ótimo! Viu, Nazim, eu não lhe disse? Parabéns! Kharouf estava muito excitado. Deu uma palmada no ombro de Nazim, que se sentiu cheio de alegria e, ao mesmo tempo, de nervosismo, uma onda quente e outra fria que se chocavam no meio do coração. — Muito bem, garoto. Finalmente, vamos terminar o que começamos. 13 Video game muito popular entre os adolescentes, no qual o protagonista é um criminoso que deve executar missões como sequestrar, matar, fazer tráfico de drogas ou depenar prostitutas. (N. do A.) A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sábado, 15 de julho de 2006. 02h34 Harel despertou sobressaltada pelo grito de Andrea. A jovem se levantava no saco, agarrava a perna com desespero e voltava a gritar. — Meu Deus! Como dói! Aaaaaii!... A primeira coisa que Harel pensou foi que Andrea tinha sentido um estiramento na panturrilha enquanto dormia, de modo que se levantou, acendeu as luzes da enfermaria e agarrou a perna dela para lhe fazer uma massagem. Então, com o canto do olho, viu os escorpiões. Eram três, de uma cor amarelada e enfermiça, ou pelo menos eram três os que haviam aparecido de dentro do saco e corriam enlouquecidos, com as caudas eretas. Morta de medo, Doc deu um salto e subiu em uma das macas. Descalça como estava, seria presa fácil dos aracnídeos que haviam caído do colchão da jornalista. — Doc, Doc, me ajude. Meu Deus, minha perna está pegando fogo. Meu Deus... Doc! Os gemidos de Andrea ajudaram a doutora a controlar seu medo e tentar pensar. Não podia deixar a jovem na mão. Vamos ver, que merda eu recordo desses veados. São escorpiões amarelos. Ela tem pelo menos vinte minutos antes que a coisa comece a ficar feia. Isso, se não tiver sido picada por mais de um. A não ser... Uma terrível suspeita cruzou a mente de Doc. Se fosse alérgica ao veneno do escorpião, Andrea estava fodida. — Andrea. Escute com atenção. A jornalista abriu os olhos e a encarou. Deitada no colchão, segurando a perna e com o olhar perdido, era a imagem viva da dor. Harel fez um esforço tremendo para vencer seu medo visceral dos escorpiões — um medo que qualquer israelense nascido, como Doc, em Beersheba, à beira do deserto, aprende a ter desde muito criança — e tentou colocar um pé no solo. Mas foi incapaz. — Andrea. Andrea, na lista de alergias que você me deu, havia alguma às caribdotoxinas? Andrea urrou de dor. — E eu sei? Tenho essa lista porque sou incapaz de recordar mais de dez nomes. Caraaaaalho... Doc, desça de uma vez, pelo amor de Deus, de Jeová, de quem você quiser. Lamento nossa discussão de antes, mas... Aaaaiiii! Harel se encheu de coragem, apoiou um pé no solo e em duas passadas chegou ao seu próprio colchão. Espero que eles não estejam aqui dentro. Pelo Eterno, que não estejam dentro do saco. Com um chute, mandou um para o chão. Pegou uma bota em cada mão e virou-se para Andrea. — Tenho que calçar as botas, chegar até o armário de remédios e logo você ficará bem — disse, começando a colocar uma delas. — Esse veneno é muito perigoso, mas demoraria quase meia hora para matá-la. Aguente. Andrea não respondeu. Harel ergueu os olhos das botas e fitou a jornalista. Andrea estava levando a mão ao pescoço. Seu rosto começava a ficar azul. Oh, doce Nome. É alérgica. Vai ter um choque anafilático. Esquecendo-se de calçar a outra bota, Harel se ajoelhou junto de Andrea, com as pernas nuas expostas no chão. Nunca estivera tão consciente de cada centímetro quadrado da pele de suas extremidades. Procurou a picada do escorpião e encontrou duas na panturrilha esquerda de Andrea, dois pequenos arranhões de meio centímetro rodeados por uma mancha avermelhada do tamanho de uma bola de tênis. Merda. Eles a ferroaram para valer. A porta da barraca se abriu e o padre Fowler entrou. Também descalço. — O que houve? Harel tentou responder, enquanto se inclinava sobre Andrea e lhe fazia respiração artificial. — Padre! Em nome de Deus, ande depressa. Ela está em choque. Preciso de epinefrina. — Onde está? — No armário do fundo. Na segunda prateleira de cima para baixo, há umas ampolas de cor verde. Traga uma e uma seringa. Agachou-se e insuflou ar dentro de Andrea, mas precisava fazer uma força enorme para que algo ultrapassasse o inchaço da garganta. Se ela não contivesse o choque, a jornalista estaria morta em um minuto. E será culpa sua, covarde, que subiu na maca. — Que diabo aconteceu com ela? — perguntou o sacerdote, correndo para o armário. — É um choque? — Fechem a porta! — gritou Doc. Meia dúzia de cabeças sonolentas surgiam na enfermaria. Harel não queria que um dos escorpiões saísse e encontrasse alguém despreparado. — Foi picada por um escorpião, padre. Neste momento, há três deles aqui dentro. Tome cuidado. O padre Fowler deu um pequeno salto quando ouviu aquilo e prestou muito mais atenção ao solo. Trouxe a epinefrina para a doutora, e esta se apressou a injetar cinco centímetros cúbicos na coxa nua de Andrea. Fowler pegou um galão de água, segurando-o pela asa. — Atenda a Andrea. Eu vou procurá-los. Harel finalmente dedicou toda a sua atenção à jovem, embora naquele momento pouco pudesse fazer, além de vigiar o estado dela. À medida que o hormônio ia inundando o sistema circulatório de Andrea, os receptores nervosos de suas células iam se ativando como árvores de Natal. As células graxas de seu corpo começavam a romper os lipídios para liberar energia suplementar, seu ritmo cardíaco se incrementou, o sangue começou a transportar mais glicose, o cérebro passou a produzir dopamina e, o mais importante, os brônquios começaram a se dilatar e o inchaço da traqueia, a desaparecer. Com uma sonora aspiração, uma lufada de ar entrou nos pulmões de Andrea pelo método natural, e aquele ruído pareceu à doutora Harel quase tão agradável quanto os três golpes secos que ela escutara ao fundo, enquanto o processo seguia seu curso. Quando o padre Fowler se sentou no chão junto dela, Doc não teve a menor dúvida de que os escorpiões eram agora três charcos. — E o antídoto? A senhora tem um antiveneno? — quis saber o sacerdote. — Claro que tenho, mas não posso administrá-lo. É preparado com soro de cavalos obrigados a sofrer centenas de picadas de escorpião, até que se imunizam. Sempre restam vestígios no antiveneno, e não quero me arriscar a provocar nela outro choque. Fowler contemplou a jovem, cujo rosto ia pouco a pouco recuperando a normalidade. — Obrigado pelo que fez, doutora. Não vou esquecer. — Não se preocupe — disse Harel, que, consciente do perigo que haviam passado, começava a tremer. — Ela terá sequelas? — Não. Agora, seu corpo pode lutar contra o veneno. — A doutora ergueu uma das ampolas verdes. — Isto é adrenalina pura, igual a uma preparação de combate para o sistema dela. Todos os órgãos do corpo funcionam no dobro do rendimento, além de evitar que a pessoa se sufoque, que é o que os choques anafiláticos fazem. Dentro de duas horas ela estará bem, ainda que vá se sentir uma merda. O rosto de Fowler relaxou em parte. Depois, ele apontou a porta. — Está pensando o mesmo que eu? — Não sou idiota, padre. Fiz centenas de excursões ao deserto em meu país. A última coisa que faço à noite é conferir as entradas. Duas vezes. E esta barraca é mais hermética do que o bolso do Tio Patinhas. — Três escorpiões. Ao mesmo tempo. Em plena noite... — Sim, padre. Esta é a segunda vez que tentam matar Andrea. CASA SEGURA DE ORVILLE WATSON Arredores de Washington Sexta-feira, 14 de julho de 2006. 23h36 Desde que se dedicava ao negócio de caçar terroristas, Orville havia tomado uma série de precauções básicas: ter números de telefone e endereço sob pseudônimo, usar códigospostais e, por fim, comprar uma casa através de uma sociedade anônima estrangeira que só um gênio poderia relacionar com ele. Um lugar onde pudesse se refugiar, se as coisas ficassem feias. Claro que uma casa segura, cuja existência só é conhecida pelo dono, tem seus inconvenientes. Para começar, é preciso que você mesmo a abasteça. E era o que Orville fazia. Uma vez a cada três semanas, levava para lá comida enlatada, carne para congelar e um monte de DVDs com as últimas estreias. Desfazia-se dos produtos vencidos, trancava tudo com chave e ia embora. Um comportamento paranoico... mas muito acertado. O único erro que Orville cometera, além de se deixar seguir por Nazim, era que, da última vez, esquecera-se do saquinho de tabletes Hershey’s. Um vício imprudente, não só pelas 300 calorias que cada tablete de 60 gramas contém, como porque um pedido de urgência na Amazon pode confirmar para os terroristas que você está presente na casa que eles estão vigiando. Orville não conseguia evitá-lo. Poderia passar sem comida, sem água, sem sua coleção de fotos picantes, sem sua conexão à internet, sem livros e sem música. Mas, quando entrou na casa na madrugada de segunda-feira, jogou no lixo a roupa de bombeiro e viu que a prateleira onde guardava o chocolate estava vazia, seu pulso se deteve por um instante. Sem chocolate, não podia passar três ou quatro meses. Ficara absolutamente dependente, desde que seus pais haviam se divorciado. Podia ter sido pior, pensava, autoindulgente. Podia ser heroína, crack ou votar no partido republicano. Embora jamais tivesse provado heroína na vida, nem sequer o barato demolidor que essa droga proporcionava podia se comparar ao impulso irrefreável que sentia quando escutava o estalar do alumínio que recobria o chocolate. Se Orville se tornasse freudiano, pensaria que era porque a última coisa feita pela família Watson toda reunida havia sido passar o Natal de 1993 em Nova York, onde o garoto ficara alucinado na imensa loja da Hershey’s na Times Square. Ali você podia pegar um balde de metal, colocá-lo no final de uma canaleta prateada que descia sinuosamente do teto e enchê-lo de bombons acionando uma alavanca. O som do chocolate enchendo o balde era o som da felicidade. Mas Orville estava agora mais preocupado com outro som: o de um vidro quebrado, se seus ouvidos adormecidos não o enganavam. Afastou com cuidado uma pequena muralha de embalagens e saiu da cama. Havia resistido quase três dias sem provar o chocolate, um verdadeiro recorde pessoal, e, agora que finalmente havia sucumbido ao seu demônio particular, pretendia fazê-lo em toda a regra. Se voltasse a se tornar freudiano, perceberia que havia comido 17 tabletinhos, um para cada membro do pessoal da GlobalInfo que morrera no atentado da segunda- feira. Mas Orville não acreditava em Sigmund Freud. Para uma situação de vidros quebrados, acreditava em Smith & Wesson. Por isso, guardava um .38 Special ao lado da cama. Não pode ser. O alarme está ligado. Pegou o revólver e um objeto que estava junto dele sobre a mesinha. Parecia um chaveiro, mas era um controle remoto muito simples, com dois botões. O primeiro acionava um alarme silencioso na polícia. O segundo, uma sirene por toda a propriedade. — É tão estrondosa que poderia acordar Nixon e fazê-lo dançar sapateado — dissera a Orville o encarregado da instalação de alarmes, quando o estava colocando. — Nixon está enterrado na Califórnia. — Para o senhor ver como isto aqui é potente. Agora, Orville apertou os dois botões — não era o caso de correr riscos — e, ao ver que nada acontecia, teve vontade de esbofetear violentamente o malandro do instalador, o qual havia jurado que aquele alarme era totalmente impossível de ser desconectado. Merda, merda, merda, xingou Orville internamente, agarrando o revólver com todas as forças. Agora, o que é que eu faço? O plano era vir para cá e ficar em segurança. E o celular...? Na mesinha de centro da sala, em cima de um exemplar antigo da Vanity Fair. Sua respiração foi se acelerando e ele começou a transpirar. Quando havia escutado o ruído de vidros, estava em seu quarto, no escuro, jogando uma partida de The Sims no laptop e lambendo os restos de chocolate das embalagens. Nem sequer se deu conta de que o ar-condicionado havia parado de funcionar minutos antes provavelmente cortaram a luz ao mesmo tempo que o alarme indesconectável. Catorze mil paus de alarme, mas que filho da puta e agora o medo e o úmido verão de Washington faziam com que mil gotinhas minúsculas ensopassem a camiseta de Orville, tornassem escorregadia sua preensão da pistola e inseguros os passos de seus pés descalços a caminho da saída. Porque Orville estava fugindo a toda a velocidade. Atravessou o quarto de vestir e deu uma olhada no corredor do andar de cima. Deserto. Aparentemente, a única maneira de descer do primeiro andar era através da escada de madeira que unia a sala com a área dos dormitórios, mas Orville tinha um plano. No final do corredor, no extremo oposto ao lugar onde a escada terminava, havia uma pequena janela de guilhotina e, do outro lado, uma cerejeira raquítica, obstinada em não dar flores. Os galhos, porém, eram grossos e ficavam suficientemente perto da janela para que alguém tão pouco atlético como Orville se atrevesse a tentar a fuga. Com o enorme corpo encolhido e a pistola metida no elástico da cueca, Orville rastejou pelo carpete os 3 metros que o separavam da janela. Ouviu um estalido no térreo, e não teve mais dúvidas. Alguém tinha entrado em sua casa. Começou a abrir a janela apertando bem forte os dentes, naquele gesto que milhares de pessoas fazem a cada dia desejando que algo não faça barulho. Por sorte para elas, sua vida não depende desse ruído. Mas, para azar de Orville, a dele sim. Passos começaram a subir a escada. Abandonando toda precaução, Orville se levantou, acabou de abrir a janela e se debruçou. Os galhos estavam a mais de 1,5 metro da parede, e o jovem californiano precisou se esticar muito para roçar com os dedos um ramo suficientemente grosso. Deste jeito, não vou a lugar nenhum. Sem pensar duas vezes, apoiou um pé no parapeito, tomou impulso e se lançou ao vazio em um salto que nem o observador mais benévolo qualificaria de grácil. Seus dedos agarraram o galho com força, mas no salto a pistola se meteu por dentro da cueca e, após um breve e frio contato com o que Orville chamava “o pequeno Timmy”, resvalou pela perna e caiu no centro do jardim que rodeava a casa. Cacete. Nada poderia sair pior. Nesse momento, o galho se quebrou. Os mais de 100 quilos de Orville aterrissando de bunda sobre o jardim fizeram bastante ruído. Mais de 30 por cento do tecido de sua cueca não sobreviveu ao lance, como atestavam vários cortes sangrentos nas nádegas, embora o jovem não se desse conta nesse momento. Sua única preocupação era virar essas mesmas nádegas para a casa e sair chispando até o portão da propriedade, a 20 metros de distância e ladeira abaixo. Não tinha as chaves do portão, mas, se necessário, pretendia abri-lo até com os dentes. No meio da descida, o medo que lhe queimava o coração foi substituído por uma sensação de euforia. Duas fugas impossíveis em uma semana. Segure essa, El Santo. O portão para automóveis, inacreditavelmente, estava aberto. Estendendo os braços, Orville se precipitou para a saída. Da sombra do muro que rodeava a casa brotou de repente uma forma imprecisa que se chocou contra a cara de Orville. O jovem a recebeu quase em cheio, e um horrível ruído úmido acompanhou a ruptura de seu nariz e de três de seus dentes. Gemendo e agarrando o rosto, Orville caiu no chão. Uma figura desceu correndo a trilha da propriedade e encostou uma pistola na nuca de Orville. O gesto era desnecessário, porque o caçador de espiões havia perdido os sentidos. De pé junto ao seu corpo derrotado estava Nazim, segurando nervosamente a pá com que havia atingido o californiano na clássica postura do rebatedor diante do arremessador. Tinha sido um golpe preciso, perfeito. Nazim erafantástico jogando beisebol no instituto, e pensou incoerentemente o quanto seu treinador se sentiria orgulhoso se o tivesse visto executar um movimento como aquele em plena escuridão. — Eu não disse? — perguntou Kharouf, ofegante. — O ardil da porta é infalível. Correm como coelhinhos assustados, até onde você quer. Venha, largue isso e me ajude a levá-lo até a casa. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sábado, 15 de julho de 2006. 06h34 Andrea despertou com a boca tão pastosa quanto se alguém tivesse fervido solas de sapato dentro. Estava em uma maca junto à qual o padre Fowler e Doc Harel, ambos de pijama, cochilavam numas cadeiras. Ia se levantar para ir ao banheiro quando o zíper da porta correu e Jacob Russell apareceu no vão. O assistente de Kayn trazia um walkie-talkie no cinto e uma expressão preocupada no rosto. Vendo o sacerdote e a doutora adormecidos, aproximou-se da maca na ponta dos pés e falou sussurrando. — Como está se sentindo? — Lembra-se da manhã seguinte ao dia em que se formou na universidade? Russell fez que sim, sorrindo. — Bom, a mesma coisa, mas como se tivessem me trocado os mojitos14 por fluido de freios — disse Andrea, segurando a cabeça. — Estávamos muito preocupados com a senhorita. Na quinta-feira, a tragédia de Erling, e agora isto... Muita falta de sorte de uma vez só. Nesse momento, os dois anjos da guarda de Andrea acordaram ao mesmo tempo. — Falta de sorte porra nenhuma — disse Harel, espreguiçando-se na cadeira. — Foi uma tentativa de assassinato. — O que está dizendo? — Isso eu gostaria de saber — disse Andrea, muito assustada. — Senhor Russell — interveio Fowler, levantando-se e aproximando-se do assistente —, peço formalmente que se evacue a senhorita Otero para a Behemot. — Padre Fowler, entendo e agradeço sua preocupação com o bem-estar da senhorita Otero, que eu mesmo sou o primeiro a apoiar. Mas daí a quebrar a regra de isolamento da expedição, vai um abismo. — Escutem... — tentou interromper Andrea. — A saúde dela não corre perigo imediato, certo, doutora Harel? — Bem... tecnicamente, não — respondeu Harel, a contragosto. — Uns dois dias sem muitos esforços, e estará nova em folha. — Escutem... — insistiu Andrea, inutilmente. — Mesmo que tenham atentado contra sua vida? — disse Fowler, muito tenso. — Não há provas disso. É verdade que foi um infeliz acaso, isso de os escorpiões invadirem seu saco de dormir, mas... — CHEGA! — gritou Andrea. Os três se voltaram para a maca, surpresos. — Querem parar de falar como se eu não estivesse presente, e me escutar de uma vez, cacete? Ou eu não posso manifestar minha própria opinião, antes de me deletarem da expedição? — Claro. Prossiga, Andrea — disse Harel. — Quero saber como os escorpiões chegaram até meu saco de dormir. — Um infeliz acidente — respondeu Russell. — Não pode ter sido acidente — discordou o padre Fowler. — A enfermaria é uma barraca estanque. — Os senhores não entendem — retrucou o assistente de Kayn, balançando a cabeça com impotência. — Todo mundo está histérico depois do que aconteceu a Stowe Erling. Correm boatos. Uns dizem que foi um dos soldados, outros que foi Pappas quando soube o que Erling tinha descoberto. Se eu a liberar agora, muitos vão querer ir também. Por exemplo, Hanley, Larsen e alguns outros, que me pedem para devolvê-los ao barco cada vez que me veem. Respondi que é pela segurança deles, que não podemos garantir que cheguem sãos e salvos à Behemot, mas esse argumento não teria muita força, se eu liberar a senhorita agora. Andrea guardou silêncio alguns instantes. — Senhor Russell, devo entender que não sou livre para sair daqui quando quiser? — Na verdade, eu vim lhe trazer uma proposta do meu chefe. — Fale. — Não me interpretou bem. É o senhor Kayn em pessoa que vai lhe dizer. — Russell puxou do cinto o walkie-talkie e apertou o botão de chamada. — Senhor, vou passá-la. — Olá, bom dia, senhorita Otero. A voz do ancião Kayn era agradável e bem modulada, embora tivesse um leve sotaque bávaro. Como o do governador da Califórnia. Aquele que era ator. — Senhorita Otero, está me ouvindo? Andrea havia ficado tão surpresa que lhe custou fazer funcionar sua garganta seca. — Sim, estou, senhor Kayn. — Eu gostaria de convidá-la para almoçar comigo. Poderíamos conversar e eu responderia às suas perguntas, se a senhorita quiser. — Sim, sim, claro que quero, senhor Kayn. — Acha que estará suficientemente bem para vir à minha barraca? — Sim, senhor. Afinal, são 12 metros. — Até logo, então. Andrea devolveu o walkie-talkie a Russell, que se despediu educadamente e saiu. Fowler e Harel não falaram nada. Limitaram-se a olhar para Andrea com o cenho franzido e a desaprovação estampada no rosto. — Parem de me encarar assim — disse Andrea, deixando-se cair de novo na maca e fechando os olhos. — Não posso desperdiçar uma oportunidade como a que Kayn está me dando. — Uma surpreendente coincidência, isso de lhe oferecer a entrevista justamente no instante em que pedimos para você ir embora — ironizou Harel. — Não posso perdê-la — insistiu Andrea. — O público tem o direito de conhecer a verdade sobre esse homem. O sacerdote agitou a mão no ar. — Milionários e jornalistas... São iguaizinhos. Acham-se donos da verdade. — Como a Igreja, padre Fowler? 14 Coquetéis feitos com rum, açúcar, hortelã, limão, água com gás e gelo. (N. da T.) CASA SEGURA DE ORVILLE WATSON Arredores de Washington Sábado, 15 de julho de 2006. 00h41 As bofetadas acordaram Orville. Não muito fortes nem muito seguidas, só o suficiente para trazê-lo de volta ao mundo dos vivos e lhe arrancar um dente dianteiro que já estava abalado pelo golpe da pá. O jovem o cuspiu e em seguida a dor do nariz quebrado lhe percorreu a cabeça como uma tropa de cavalos selvagens a galope. Ia e vinha, em palpitações intermitentes. As bofetadas do homem de olhos amendoados marcavam o ritmo como as rimas ao final de um poema. — Veja. Já acordou — disse o homem das bofetadas ao seu companheiro, um rapaz bem jovem, magro e um pouco mais alto. Deu mais umas duas de quebra, e Orville gemeu. — Não está em forma, hein, kooneh?15 Orville estava em cima da mesa da cozinha, sem nada no corpo além do relógio de pulso. Embora jamais tivesse cozinhado naquela casa — na verdade, nunca havia cozinhado em lugar nenhum —, ela era completamente equipada. Orville maldisse sua obsessão pelo equilíbrio. Para ele, uma cozinha sem utensílios não era cozinha. Nesse momento, porém, ao vê-los alinhados junto da pia, desejou não ter comprado facas afiadas, saca-rolhas espiralados e espetos pontiagudos. — Escutem... — Cale a boca. O rapazinho, mudo, apontava-lhe uma pistola. O mais velho, que devia estar na casa dos 30, levantou um dos espetos e o mostrou a Orville. Sob as luzes halógenas do teto, um leve reflexo brilhou na ponta por um instante. — Sabe o que é isto? — Um espeto. Custa 3,45 o jogo de 12 no Wall Mart. Escute... Orville tentou se erguer nos cotovelos, mas o outro apoiou a mão entre os gordos peitos dele e o obrigou a se deitar de novo. — Mandei calar a boca. Ergueu o espeto com a ponta para baixo e desceu-o com toda a força contra a mão esquerda de Orville. A expressão de seu rosto não mudou um milímetro, nem sequer quando o metal atravessou de um lado a outro a mão de Watson e cravou-a na madeira da mesa. De início, Orville estava aturdido demais pelo nariz quebrado para se dar conta de algo mais. Em seguida, a dor percorreu seu braço como uma descarga elétrica. Ele gritou. — Os espetos... sabe quem os inventou? — disse o homem mais baixo, segurando as bochechas de Orville com a mão e obrigando-o a olhá-lo. — Foi o nosso povo. De fato, na Espanha eles são chamados pinchos morunos, espetinhos mouros. Nasceram numa época em que comer à mesa com faca era considerado de má educação. Acabou-se. Veados. Tenho que dizer alguma coisa. Orville não era um covarde, mas também não era idiota. Sabia qual era sua tolerância à dor e sabia quando estava derrotado. Fez três inspirações muito fortes e ruidosaspela boca: não se atrevia a respirar pelo nariz para não aumentar a dor. — Já chega. Direi o que vocês quiserem saber. Cantarei, falarei, desenharei croquis, darei esquemas. Não precisam ser violentos. — A última palavra se transformou quase em um urro de dor e pânico, quando ele viu que o homem havia apanhado outro espeto. — Claro que falaria. Mas nós não somos o comitê de torturadores. Somos o comitê de execução. O que acontece é que vamos muito devagarinho. Nazim, encoste a pistola na cabeça dele. O chamado Nazim, totalmente inexpressivo, sentou-se numa cadeira e apoiou o cano da arma no crânio de Orville, que ficou completamente quieto ao contato com o metal. O último centímetro e meio de cano afundava em seu quase sempre sedoso e espesso cabelo louro, que agora estava gordurento e cheio de folhas. — De qualquer modo, já que você está comunicativo... me conte o que sabe de Huqan. Orville fechou os olhos, assustado. Então era isso. — Nada. Ouvi alguma coisa aqui e ali. — Merda nenhuma — retrucou o outro, esbofeteando-o uma, duas, três vezes mais. — Quem o mandou procurá-lo? Quem sabe a respeito da Jordânia? — Não sei nada da Jordânia. — Mentira. — Verdade. Juro perante Alá! Essas palavras pareceram rasgar a pátina de indolência de seus agressores. Nazim empurrou com mais força o cano da arma. O outro voltou a colocar o espeto afiado sobre a pele nua do jovem californiano. — Você me dá nojo, kooneh. Veja para que usou seu talento. Para jogar fora sua religião. Para trair seus compatriotas muçulmanos. Tudo por um punhado de lentilhas. A ponta do espeto percorreu o peito de Orville, detendo-se um instante no mamilo esquerdo do jovem e levantando ligeiramente a carne. O homem a deixou cair de repente, provocando uma onda de banha que se extinguiu na papada e no umbigo. O metal arranhou a pele, deixando pequenas gotas de sangue que se misturaram com o suor nervoso que a cobria. — Só que não foi precisamente um punhado de lentilhas — continuou o sujeito, enquanto a afiada ponta de aço afundava um pouco mais, raspando a pele do braço sem chegar a provocar sangramento, a caminho da mão direita. — Você tem várias casas, um bom carro, empregados... Veja só seu relógio, bendito seja o nome de Alá. Pode ficar com ele, se me deixar sair daqui, pensou Orville, mas não o disse porque não queria que outro espeto o perfurasse. Ah, merda, não sei como vou sair desta. Angustiado, buscava a palavra certa que fizesse aqueles intrusos desaparecerem. Mas a dor pulsante do nariz e da mão transpassada lhe dizia aos gritos que essa palavra não existia. Ele sentia as tripas contraídas, querendo se esvaziar. Com a mão que não segurava a pistola, Nazim lhe tirou o relógio e o passou ao outro homem. — Ora veja... Jaeger LeCoultre. Só o melhor, hein? Quanto o governo lhe paga para ser uma ratazana? Certamente muito, para você poder comprar relógios de 20 mil dólares. O homem jogou o relógio no chão e começou a pisoteá-lo como se investisse nisso a sua vida. Não conseguiu muito mais do que arranhar o mostrador. Com isso, seu gesto perdeu a teatralidade buscada, e ele precisou parar um pouco a fim de recuperar o fôlego. — Eu só caço criminosos — respondeu Orville. — Você não tem o monopólio da mensagem de Alá. — Não repita esse nome — retrucou o outro, cuspindo no rosto do californiano. O lábio superior de Orville começou a tremer descontroladamente, mas o jovem não era nenhum covarde. Naquele momento, deu-se conta de que ia morrer, de modo que decidiu fazê-lo com a maior dignidade possível. — Omak zanya feeh erd16 — disse, fitando-o diretamente nos olhos e procurando não gaguejar. Um brilho de raiva passou pelas pupilas do homem. Estava claro que ele esperava quebrar Orville, vê-lo suplicar. E não aquela demonstração de valentia estéril. — Você vai chorar como uma menininha — ameaçou. O braço subiu e desceu, cravando o espeto na mão direita de Orville, o qual não pôde evitar um grito indefeso que pouco tinha a ver com sua bravata de segundos antes. Um jato de sangue voou pelo ar e aterrissou na boca aberta da vítima, que se engasgou e começou a tossir espasmodicamente, cada tosse mais dolorosa do que a anterior quando ele agitava os braços, que continuavam cravados à mesa pelos enormes espetos de aço. A tosse foi se acalmando gradativamente, e Orville transformou em proféticas as palavras do homem: duas grossas lágrimas desceram por suas faces e caíram sobre a mesa. Aquilo pareceu ser tudo o que o homem necessitava para liberar sua presa da tortura. Ergueu um novo utensílio de cozinha: uma faca de 30 centímetros. — Acabou-se, kooneh. Nesse momento soou um disparo que arrancou ecos metálicos das panelas que pendiam alinhadas das paredes como soldados obedientes, e o homem caiu no chão. Seu companheiro nem sequer se voltou para ver de onde vinha a bala. Com um salto, lançou-se por cima da ilha da cozinha, raspando a cerâmica vitrificada com a fivela de seu cinto e aterrissando sobre as mãos. Um segundo disparo levantou farpas de madeira da moldura da porta, a mais de meio metro da cabeça de Nazim, e este desapareceu. Orville, com os braços em cruz, completamente nu, a cara esmagada, as palmas perfuradas e coberto de sangue, mal conseguiu se virar para ver quem era seu salvador. Um jovem louro e magro, menos de 30 anos, vestido num jeans e naquilo que, na escuridão da cozinha, parecia uma camisa de sacerdote. — Belo aspecto, o seu, Orville — disse o padre, enquanto passava ao lado dele, atrás do segundo terrorista. Escondeu-se atrás da moldura da porta e assomou de repente, segurando a pistola com ambas as mãos. Ali só havia uma sala vazia e uma janela aberta. O sacerdote voltou para junto de Orville, o qual, se não tivesse os braços cravados à mesa, teria esfregado os olhos, incrédulo. — Não sei quem você é, mas obrigado. Por favor, me solte — pediu. Com o nariz arrebentado, soou como Bo fafor, be solde. — Aperte os dentes. Vai doer. — O jovem sacerdote puxou o espeto da direita, procurando fazê-lo da maneira mais reta possível, e ainda assim Orville soltou um novo grito. — Você não é nada fácil de encontrar, sabia? Orville o interrompeu erguendo a mão, na qual era claramente visível um orifício do tamanho de um centavo. Apertando os dentes pela dor e pelo esforço, voltou-se um pouco para a mão esquerda e ele mesmo arrancou-a do segundo espeto. Desta vez, não gritou. — Consegue caminhar? — perguntou o padre, ajudando-o a se reerguer. — É óbvio. — Ainda bem. Meu carro está a dois minutos daqui. Alguma ideia de onde está seu convidado? — E eu lá sei? — disse Orville, pegando junto da janela um rolo de papel toalha e envolvendo as mãos de mau jeito, meio rolo em cada uma. As extremidades de seus braços se assemelharam a gigantescos palitos de algodão-doce que foram se tingindo pouco a pouco de vermelho, de dentro para fora. — Pare com isso, e afaste-se da janela. No carro, eu lhe ponho umas ataduras. Achei que você era o especialista em pensamento terrorista. — Ora veja. Você é da CIA. E eu achando que tinha tido sorte. — Bem, mais ou menos. Eu me chamo Albert e sou um ISL.17 — Um intermediário? Com quem, com o Vaticano? Albert não respondeu. Os membros da Santa Aliança jamais revelavam pertencer a ela. — Esqueça, então — continuou Orville, reprimindo uma expressão de dor. — Bom, aqui ninguém vai nos ajudar. Acho que ninguém ouviu os tiros, porque os vizinhos mais próximos estão a meio quilômetro. Você tem celular? — Não é uma boa opção. Se a polícia vier, vai levá-lo para o hospital e depois tomar seu depoimento. Em meia hora, você teria o pessoal da CIA com flores no seu quarto. — Então, você sabe manejar este troço? — Não muito bem. Aliás, detesto armas. Sorte sua, eu ter acertado no sujeito do espeto, e não em você. — Pois você devia gostar — disse Orville, levantando seus palitos de algodão-doce. — Que espécie de agente é você? — Só recebi o treinamento básico — respondeu Albert, em tom de desculpa. — Meu negócio são os computadores. — Ah, sei. Então estamos bem. Caralho,estou ficando tonto — disse Orville, a ponto de cair. Só o braço de Albert evitou que ele desabasse. — Acha que consegue chegar até o carro, Orville? — O californiano assentiu, embora sem muita convicção. — Quantos são? — Que eu saiba, só resta o que você afugentou. Mas deve estar nos esperando no jardim. Albert deu uma rápida olhada pela janela, procurando não aparecer muito. — Então estamos fritos. Ladeira abaixo, e com a sombra do muro... ele pode estar em qualquer lugar. 15 Maricas, em árabe. (N. do A.) 16 Em árabe, “sua mãe cometeu adultério com um macaco”. (N. do A.) 17 International Service Liaison, vínculo entre serviços internacionais de espionagem. (N. do A.) CASA SEGURA DE ORVILLE WATSON Arredores de Washington Sábado, 15 de julho de 2006. 01h03 Nazim estava com muito medo. Havia imaginado muitas vezes a cena de seu martírio. Eram delírios abstratos, nos quais ele morria em uma grande bola de fogo, algo grande e transmitido pela televisão. Aquele anticlímax absurdo da morte de Kharouf o deixara confuso e assustado. Tinha fugido correndo para o jardim, temendo ouvir a qualquer momento as sirenes da polícia. Por um instante, pensou na tentadora promessa do portão de automóveis, que continuava entreaberto. O ruído das cigarras e dos grilos enchia a noite de vida e de promessas, e Nazim hesitou um pouquinho. Não. Ofereci minha vida pela glória de Alá e pela salvação dos meus. O que será de minha família agora, se eu fugir, se eu virar um fraco? Nazim não cruzou o portão. Posicionou-se nas sombras, atrás de um canteiro de bocas-de-leão muito malcuidado, mas que ainda conservava algumas flores alaranjadas. Tentou relaxar a tensão de seu corpo trocando de mão a pistola em intervalos de alguns minutos e abrindo e fechando o punho que ficava livre. Estou em forma. Saltei por cima da ilha da cozinha. A bala que se dirigia a mim falhou por muito. Um é padre e o outro está ferido. Não vão poder comigo. Tudo o que preciso fazer é vigiar o caminho de saída. E, se escutar os carros da polícia, pulo o muro. É alto, mas eu consigo. Aquele ponto à direita parece ligeiramente mais baixo. É uma pena que Kharouf não esteja aqui. Ele era um gênio para abrir portas. Na desta propriedade não demorou nem 15 segundos. Eu me pergunto se já estará nos braços de Alá. Vou sentir muito a sua falta. Ele queria que eu ficasse. Queria que eu acabasse com Watson. Este já estaria morto se ele não tivesse se demorado, mas nada o enfurecia tanto como um irmão que trai seus irmãos. Pergunto- me em que ajudaria a jihad o fato de eu morrer aqui esta noite sem acabar com o kooneh. Não. Não posso ter esse tipo de pensamento. Devo me concentrar no que importa. Porque os prazeres sujos desta vida estão destinados a acabar. O império onde nasci está destinado a cair. E eu ajudarei com meu sangue. Embora preferisse que não fosse hoje o dia. Houve um ruído no caminho de descida da casa. Nazim aguçou o ouvido. Lá vinham eles. Tinha que agir rápido. Tinha que... — Está bem. Jogue a arma no chão. Agora. Nazim nem sequer pensou. Nem uma oração final. Simplesmente virou- se, pistola na mão. Albert, que havia saído pelos fundos da casa e contornado o muro para se assegurar de que podiam alcançar o portão sem perigo, havia topado no escuro com o brilho tênue dos adesivos refletores dos Nike do rapaz. À diferença de quando tinha atirado em Kharouf de maneira instintiva, para salvar a vida de Orville — acertando por puro milagre —, agora pegou o garoto totalmente desprevenido, a somente 3 metros de distância. Plantou bem os pés no chão, apontou para o centro do peito dele, apertou o gatilho até a metade do percurso e mandou-o desarmar-se com voz clara e firme. Quando Nazim se voltou, Albert apertou o gatilho até o final e o peito do garoto voou em pedaços. Nazim teve uma vaga consciência do disparo, embora não sentisse nenhuma dor, mas apenas a sensação de estar caído na grama ressequida. Tentava mover braços e pernas, mas era inútil. Também não podia falar. Viu como aquele que atirara se inclinava sobre ele, conferia sua pulsação no pescoço e balançava a cabeça. Um minuto depois, chegava Watson. Nazim observou que este, ao se debruçar sobre ele, deixou cair uma gota de sangue, mas nunca soube que essa gota se misturou com a que brotava de seu próprio ferimento. Sua visão ficava cada vez mais turva. Ainda assim, pôde ouvir a voz de Watson, rezando. — Louvado seja Alá, que nos presenteia a vida e a oportunidade de adorá-lo com retidão e honestidade. Louvado seja Alá, que nos ensinou, no sagrado Q’ran: mesmo que alguém erga a mão sobre nós para nos matar, não devemos erguer a mão sobre ele. Perdoa-o, Senhor do Universo, pois seus pecados são os da inocência enganada. Protege-o das torturas do inferno e leva-o para junto de ti, Senhor do Trono. Depois disso, Nazim se sentiu muito melhor. Parecia que lhe haviam tirado de cima um peso. Ele tinha dado tudo por Alá. Foi se deixando levar para um tal estado de paz que, quando escutou à distância as sirenes, confundiu-as em sua mente com o ruído dos grilos. Um deles cantava junto à sua orelha, e foi a última coisa que ele ouviu. Minutos depois, dois policiais de uniforme se inclinavam sobre um rapazinho vestido num moletom dos Redskins, e cujos olhos abertos apontavam para o céu. — Central, aqui unidade 23. Temos um 10-54. Mandem uma ambulância — pediu um. — Esqueça. Ele já era — disse seu colega. — Central, anule o pedido de ambulância. Vamos proceder ao isolamento da área. Um dos agentes ficou olhando o rosto do garoto. Uma pena que tivesse morrido por um tiro. Tão jovem que poderia ser seu filho (ou eu, tão velho para ser pai dele). Isso não tiraria o sono do patrulheiro, que já vira garotos mortos nas perigosas ruas de Washington em número suficiente para cobrir por completo o carpete do Salão Oval. Mas nenhum dos que ele tinha visto trazia aquela expressão. Por um momento, pensou em chamar o parceiro e lhe perguntar que diabo significava aquele sorriso sereno. Não o fez, claro. Teve medo de passar por idiota. EM CERTO LUGAR DE FAIRFAX COUNTY, VIRGINIA Sábado, 15 de julho de 2006. 02h06 A casa segura de Orville Watson distava quase 40 quilômetros do apartamento de Albert, e Orville os percorreu no assento traseiro do Toyota do padre, meio adormecido e meio inconsciente, mas afinal com as mãos enfaixadas como Deus manda. Por sorte, Albert trazia um bom estojo de primeiros socorros naquele carro. Uma hora depois, coberto por um casaco com capuz (a única peça de Albert que lhe servia um pouco), Orville engoliu meio frasco de Tylenol acompanhado do suco de laranja que o sacerdote lhe trouxe. — Você perdeu muito sangue. Isto o ajudará a fixar o ferro. A única coisa que Orville queria fixar era seu corpo em uma cama de hospital durante um mês, mas, considerando suas opções do momento, o melhor era continuar com Albert. — Por acaso você não teria uma barrinha de Hershey’s? — Não, lamento. Não posso comer chocolate. Ainda me nascem espinhas. Mas daqui a pouco vou a um Seven Eleven comprar algo para comer, camisetas tamanho grande e algum doce, se você quiser. — Deixe para lá. Depois do que aconteceu, acho que vou enjoar dos tabletes Hershey’s pelo resto da vida. Albert deu de ombros. — Você é quem sabe. Orville apontou o conjunto de computadores que abarrotava a sala de Albert. Dez monitores, uma mesa de 4 metros de comprimento e um emaranhado de cabos que corria pelo chão, perto das paredes, tão grosso quanto a perna de um jogador de futebol. — Você tem aqui um bom equipamento, senhor Intermediário Internacional — comentou o californiano, que precisava falar para liberar a tensão. E, observando o sacerdote, percebeu que com ele acontecia o mesmo. Suas mãos tremiam levemente, e o olhar estava perdido. — Sistemas HarperEdwards, placas-mãe da TINCom... Foi assim que me achou, não? — Sua offshore18 em Nassau, a que você usou para comprar a casa segura. Levei 48 horas para achar o servidor que havia armazenado a transação original. Dois mil, cento e quarentae três passos. Você é competente. — Você também — disse Orville, genuinamente impressionado. Os dois se fitaram e concordaram, reconhecendo-se mutuamente. Para Albert, aquela breve distensão foi o buraco pelo qual os nervos que ele havia mantido fora nas últimas horas entraram em seu corpo arrasando tudo, como hooligans em um bar do time rival. Sem tempo para se levantar, vomitou numa tigela de pipocas que havia deixado sobre a mesa na noite anterior. — Eu nunca havia matado ninguém. Aquele garoto... do outro, mal me dei conta, pela tensão do momento e porque atirei sem pensar. Mas o garoto... era quase uma criança. E me olhou. Orville não disse nada, porque não se podia dizer nada. Assim se passaram dez minutos. O estômago de Albert ainda sofreu mais alguns espasmos, mas nada saiu pela boca do jovem sacerdote. — Agora eu o entendo. — Entende quem? — Um amigo meu. Alguém que teve de matar, e que sofreu muito por isso. — Está falando de Fowler? Albert o encarou com desconfiança. — Como é que você sabe desse nome? — Porque toda esta confusão começou quando as Indústrias Kayn contrataram meus serviços. Queriam saber quem era o padre Anthony Fowler, de Boston. E não pude evitar perceber que você também é padre. Albert ficou mais nervoso ainda. Gritando, agarrou Orville pelo casaco. — O que você lhes contou? Preciso saber! — Tudo — respondeu Orville, com voz monocórdia. — O treinamento, a afiliação à CIA, à Santa Aliança... — Ai, meu Deus. Então, sabem qual é a verdadeira missão dele? — Ignoro. Só me fizeram duas perguntas. A primeira, quem era ele. A segunda, com quem se importava. — E o que descobriu? E como? — Não descobri nada. Até me daria por vencido se não tivesse recebido um envelope anônimo com uma foto e o nome de uma jornalista: Andrea Otero. No envelope, diziam que Fowler faria qualquer coisa para evitar que ela sofresse. Albert o soltou e começou a passear em círculos pelo aposento, ao mesmo tempo em que começava a ligar os acontecimentos. — Agora, tudo começa a se encaixar... Quando Kayn procurou o Vaticano dizendo que dispunha de uma pista para encontrar a Arca, que poderia estar nas mãos de um antigo criminoso de guerra nazista, Cirin prometeu escalar seu melhor homem para procurá-lo, em troca de ter um observador na expedição. E, dando-lhe o nome de Otero, ao mesmo tempo garantiu que Kayn aceitaria Fowler, acreditando mantê-lo sob controle, e de que Fowler aceitaria sua missão. Maldito safado manipulador — disse Albert, contendo um sorriso meio enojado e meio admirado. Orville o fitava boquiaberto. — Não entendi uma palavra do que você está dizendo. — Melhor, porque do contrário eu teria que matá-lo. Estou brincando. Escute, Orville, não corri para salvar você hoje porque seja um ativo da CIA. Não sou. Sou apenas um humilde intermediário que está fazendo um favor a um amigo. E esse amigo está metido em grave perigo, em parte por causa da informação que você deu a Kayn sobre ele. Fowler está na Jordânia, numa expedição louca para recuperar a Arca da Aliança. E, por mais impossível que pareça, tudo indica que a expedição pode ter êxito. — Huqan — disse Orville, com um fio de voz. — Por coincidência, pesquisei alguma coisa sobre a Jordânia e sobre Huqan e repassei a ele. — Os rapazes da Companhia recuperaram esse nome de seus discos rígidos. E nada mais, porém. — Eu tinha conseguido detectar uma menção a Kayn num dos servidores de webmail frequentados por terroristas. Você sabe alguma coisa sobre terrorismo islâmico? — Só o que li no New York Times. — Então, vamos partir de menos zero. Aí vai um cursinho acelerado. A “veneração” da mídia a Osama, o grande vilão do filme, não tem nenhum sentido. A Al Qaeda como superorganização do mal não existe. Não há uma cabeça a cortar. A jihad não tem uma cabeça. A jihad é o mandado de Deus. Mas existem milhares de pequenas células, em diferentes níveis, que se impulsionam reciprocamente sem que nenhuma tenha nada a ver com as demais. — É impossível lutar contra isso. — É como tratar de uma doença. Não existe um remédio milagroso, como a invasão do Iraque, ou do Líbano na semana passada, ou do Irã daqui a três anos. Podemos apenas agir como glóbulos brancos, e matar os micróbios um por um. — Esse é seu trabalho. — O problema é que não é possível se infiltrar nas células terroristas islâmicas. Eles não são subornáveis, porque são movidos por sua religião, ou pela ideia tresloucada que têm dela. Isso você deve entender bem, suponho. Albert fez uma expressão envergonhada. — Têm um vocabulário diferente — continuou Orville —, um idioma complexíssimo para os anglo-saxões, seus nomes podem ter dezenas de apelidos diferentes, empregam um calendário distinto... para um ocidental, cada dado requer dezenas de comprovações e códigos mentais. É aí que eu entro. Golpeando no lugar onde um fanático está a um clique de mouse de outro fanático a 7.770 quilômetros de distância. — Internet. — Era mais bonito na tela do computador — disse Orville, acariciando com cuidado seu nariz esmagado, alaranjado pelo Betadyne. Albert havia colocado nele um papelão com esparadrapo para endireitá-lo, mas estava muito consciente de que, se não fosse logo a um hospital, dali a um mês teriam de quebrá-lo outra vez para ajeitá-lo direito. — Quando os terroristas estavam longe de mim. Albert meditou durante alguns instantes. — Com que então, esse Huqan pretendia atentar contra Kayn. — Não recordo nada muito bem, exceto que esse sujeito parecia algo sério. A verdade é que o que passei a eles era um punhado de informações em bruto. Eu não tinha tido tempo de depurar nada. — Então... — É como aquelas amostras grátis de supermercado, sabe? Você dá um pouquinho, e espera sentado que venham lhe encomendar mais. Não me olhe assim. A gente precisa ganhar a vida. — Temos de recuperar esses dados — disse Albert, tamborilando com os dedos nos braços da poltrona. — Primeiro, porque os que o atacaram estavam preocupados com quanto você sabia. E, segundo, porque se esse Huqan estiver infiltrado na expedição... — Não é possível. Todos os meus arquivos desapareceram ou foram queimados. — Nem todos. Existe outra cópia. Orville demorou alguns instantes para compreender a que se referia Albert. — Não. Nem fodendo. Aquele lugar é impenetrável. — Não há nada impossível, exceto uma coisa: que eu aguente mais tempo sem jantar — disse Albert, levantando-se e pegando as chaves do carro. — Tente relaxar, eu volto daqui a meia hora. O sacerdote ia cruzando a porta quando Orville o chamou. Só de pensar em se esgueirar na gaiola impenetrável que era a Kayn Tower, tinha começado a sentir uma ansiedade muito identificável. E só havia uma maneira de vencê-la. — Albert... — Sim? — Pensei melhor, quanto às barras de chocolate. 18 Companhia radicada fora do país, normalmente utilizada de maneira mais ou menos encoberta para sonegar impostos. (N. do A.) HUQAN O imame tinha razão. Prometera-lhe que a jihad entraria em sua alma e em seu coração. Prevenira-o contra os que os consideravam radicais, e a quem denominava muçulmanos brandos. — Não se deixe assustar com o que outros muçulmanos acham em relação ao que fazemos. Simplesmente, Deus não os preparou para a tarefa, não lhes temperou a alma e o coração com o fogo que nos consome. Deixe- os pensar que o Islã é uma religião de paz. Isso nos ajuda. Debilita as defesas do inimigo, cria vãos por onde podemos entrar. Fendas. Ele o sentia. Sentia gritar em seu interior o que nos lábios de outro era murmúrio. Sentiu-o na primeira vez em que o requisitaram para portar o manto da jihad. Ele, alguém especial, com condicionantes especiais. Ganhar o respeito de seus irmãos não tinha sido simples. Jamais havia pisado um campo do Afeganistão ou do Líbano. Não havia seguido o caminho ortodoxo, e no entanto a Palavra se entretecera com a medula espinhal de seu ser como uma trepadeira em uma árvore ainda jovem. Aconteceu nos arredores da cidade, num armazém. Uns irmãos retinham outro que havia deixado as prioridades do mundo exteriorinterferirem com os ditames de Deus. O imame lhe dissera que ele teria de se mostrar firme. Mostrar-se digno. Que todos os olhos estariam sobre ele. A caminho do armazém, comprou uma seringa e dobrou levemente a ponta da agulha contra a porta de seu carro. Supunha-se que ele devia entrar e dialogar com o traidor. Com aquele que queria abraçar as mordomias da vida que eles estavam chamados a erradicar. Convencê-lo de seu erro. Atado de pés e mãos em uma cadeira, completamente nu, a receptividade estava garantida. Em vez disso, entrou no armazém, foi diretamente até ele e lhe cravou no olho a seringa que havia comprado a caminho do lugar. Ignorando seus gritos, puxou-a para fora, lacerando terrivelmente o olho. Em seguida, cravou-a no outro. Em menos de cinco minutos, o traidor suplicava que o matassem, e Huqan sorriu. Tinha deixado clara a sua mensagem. Lá fora, só esperava a dor e o desejo de morrer. Huqan. Seringa. Naquele dia, ganhou seu apelido. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Sábado, 15 de julho de 2006. 12h34 — Um White Russian, por favor. — A senhorita me surpreende. Eu imaginava que pediria um Manhattan, algo massificado e pós-moderno — disse Raymond Kayn, sorrindo. — Permita-me servi-la eu mesmo. Obrigado, Jacob. — Tem certeza, senhor? — perguntou Russell, a quem não parecia agradar muito que Andrea ficasse sozinha com o ancião. — Tranquilize-se, Jacob. Não vou pular em cima da senhorita Otero. Isto é, se ela não quiser. Andrea descobriu a si mesma ruborizando-se como uma colegial, e observou ao seu redor enquanto o multimilionário lhe preparava o coquetel. Quando, três minutos antes, Jacob Russell fora buscá-la na enfermaria, Andrea estava tão nervosa que poderia bater três ovos só com o tremor das mãos. Tinha dedicado umas duas horas a corrigir, polir, reescrever e polir de novo sua lista de perguntas, e pouco antes de entrar na barraca havia arrancado as cinco páginas de sua caderneta, feito uma bola e metido tudo em um bolso. Aquele homem não era normal, e ela não pretendia lhe fazer perguntas normais. Ao cruzar o umbral, começou a duvidar de sua decisão. A barraca estava dividida em dois aposentos. Uma antessala que obviamente era ocupada por Jacob Russell, com uma escrivaninha, um laptop e o que Andrea supôs ser com que então, é assim que você mantém contato com o barco, hein? Eu já intuía que você não estaria totalmente desconectado um rádio de ondas curtas. À direita, uma fina cortina separava o espaço de Kayn, prova da simbiose que existia entre o ancião e seu jovem assistente. Eu me pergunto até onde chegará a relação desses dois, pensou Andrea. Nosso amigo Russell é suspeito, com seu jeitão metrossexual e esse porte empertigado. Será que me atrevo a insinuar alguma coisa durante a entrevista? Ao transpor a cortina, Andrea sentiu um leve perfume de sândalo. Uma cama simples mas definitivamente mais confortável do que os colchões infláveis nos quais nós dormimos preenchia um lado do aposento. Uma réplica reduzida dos sanitários- ducha que o resto do pessoal utilizava, uma pequena escrivaninha desprovida de papéis (sem computador à vista), um bar e duas cadeiras completavam o mobiliário, inteiramente de cor branca. Uma pilha de livros da altura de Andrea ameaçava desmoronar se alguém passasse perto demais. A jovem fez um esforço para esquadrinhar os títulos, mas não conseguiu: não teve tempo, porque Kayn se adiantou para recebê-la. De perto, ele parecia mais alto do que quando Andrea o vislumbrara no convés de popa da Behemot. Um metro e setenta de carnes secas, cabelo e roupa brancos, pés descalços. O conjunto produzia um efeito estranhamente fresco e rejuvenescedor, embora uma expressão no fundo dos olhos, dois buracos azuis rodeados por um atoleiro de bolsas e rugas, contribuísse para deixar tudo no devido lugar. O velho não estendeu a mão, deixando a de Andrea no ar, e olhou-a com um sorriso de desculpa. Jacob Russell já a avisara para não tentar tocar em Kayn sob nenhuma hipótese, mas, se não tentasse, ela não teria sido fiel a si mesma, e isso ainda lhe deu certa vantagem. Evidentemente, o milionário se sentira encabulado e oferecera a bebida a Andrea. A jornalista, como todos os de sua condição, não se acovardava diante de um bom copo, fosse a hora que fosse. — Pode-se saber muito sobre uma pessoa pelo coquetel que ela toma — disse Kayn, oferecendo-lhe o copo do alto, segurando-o com dois dedos muito perto da borda, deixando espaço para que Andrea o recebesse sem roçar a mão dele. — Ah, é? E o que o White Russian lhe diz a meu respeito? — perguntou Andrea, tomando um gole e cruzando as pernas em sua cadeira. — Vejamos... uma mistura doce, vodca em quantidade, licor de café e creme. Isso me diz que a senhorita gosta de beber drinques fortes, que sabe fazê-lo, que procurou muito para encontrar sua bebida, que gosta de estar atenta ao que a rodeia e que é uma pessoa exigente. — Ora, ora — disse Andrea em tom irônico, seu melhor aliado quando se sentia insegura. — Sabe de uma coisa? Eu diria que o senhor pesquisou a meu respeito e sabia perfeitamente o que eu tomava. Porque esse pote de creme fresco não costuma estar em qualquer bar, menos ainda em pleno deserto da Jordânia, móvel esse cujo dono é um milionário agorafóbico que não recebe visitas e que, pelo que observo, bebe uísque com água. — Bom, agora o surpreendido sou eu — retrucou Kayn, que estava de costas para a jornalista, preparando seu próprio drinque. — Isso está tão próximo da verdade quanto os saldos de nossas contas correntes, senhor Kayn. O milionário virou-se com o cenho franzido, mas não disse nada. — Eu preferiria afirmar que isto foi um teste e que eu dei a resposta que o senhor esperava — continuou Andrea. — E, agora, me diga por que está me concedendo esta entrevista. Kayn ocupou a outra cadeira, evitando olhar para Andrea de frente. — Fazia parte do nosso acordo. — Acho que formulei mal a pergunta. Por que eu? — Ah, a maldição do g’vir, do rico. Todos querem conhecer os motivos ocultos dele. Todos supõem que ele tem uma agenda, principalmente se for judeu. — O senhor não respondeu. — Temo que a senhorita deva decidir que resposta quer. Se a desta pergunta... ou a de todas as outras. Andrea mordeu o lábio inferior de pura raiva. Aquele velho veado era muito mais esperto do que parecia à primeira vista. Ele me deu uma rasteira sem sequer se despentear. Pois bem, coroa, vamos no seu ritmo. Vou abrir meu coração por completo, vou engolir sua história, e, quando você menos esperar, saberei o que quero saber, mesmo que tenha de lhe arrancar a língua com minhas pinças de depilar. — Por que bebe, se está tomando remédios? — inquiriu Andrea, deliberadamente agressiva. — Suponho que a senhorita deduziu que eu me medico por causa do problema com a agorafobia — respondeu Kayn, tão comprazido com o fato de Andrea continuar a entrevista quanto irritado pela pergunta. — Sim, estou tomando medicamentos contra a ansiedade, e não, não deveria beber. Mas bebo. Quando meu bisavô tinha 80 anos, meu avô odiava vê-lo shikker, vê-lo bêbado. Ah, me interrompa se eu disser alguma palavra iídiche que você não conheça, menina. — Então vou interrompê-lo muito, porque não conheço nenhuma. — Como queira. Meu bisavô bebia sem parar, e meu avô lhe dizia: “O senhor deveria se controlar um pouco, tateh.” E ele sempre respondia: “Foda-se, eu tenho 80 anos e vou beber quando quiser.” Morreu aos 98, quando uma mula lhe deu um coice nas tripas. Andrea soltou uma gargalhada. O tom de Kayn havia mudado ao reproduzir o diálogo de seus antepassados, com as respectivas vozes diferenciadas, imprimindo à breve historieta a fluência de um narrador ameno. — O senhor sabe muito de sua família. Era muito unido aos seus pais? — Não. Eles morreram na Segunda Guerra Mundial, e, embora me contassem muitas histórias e falassem muito comigo, dada a maneira como passamos meus primeiros anos, não me lembro de nada. Tudo o que sei de minha família eu reconstituí através de diversas fontes externas.Digamos que, quando pude me permitir, rastreei a velha Europa em busca de minhas raízes. — Então me fale dessas raízes. Importa-se que eu grave? — pediu Andrea, puxando do bolso seu gravador digital. Podia armazenar 35 horas em qualidade máxima. — Pode gravar. Esta história começa num duro inverno em Viena, com um casal judeu caminhando em direção a um hospital nazista... ELLIS ISLAND, NOVA YORK Dezembro de 1943 Yudel chorava em silêncio, no escuro do porão. O barco já chegava ao cais, e os marinheiros acenaram para os refugiados que abarrotavam até o último cantinho do cargueiro turco. Todos se apressaram rumo ao ar fresco. Ele não se mexeu. Agarrava com força os dedos frios da senhora Myer, negando-se a aceitar que ela estava morta. Não era seu primeiro contato com a morte. Tivera muitas experiências- limite desde que abandonara o esconderijo do juiz Rath. Sair daquele espaço reduzido, asfixiante mas tranquilizador, havia sido um golpe muito duro. Sua primeira experiência com a luz do sol mostrou-lhe que nela habitavam monstros. Sua primeira experiência com a cidade ensinou-lhe que cada recanto é um refúgio de onde se pode espiar antes de voltar a caminhar com passos rápidos até o seguinte. Sua primeira experiência com os trens o aterrorizou, com aqueles ruídos constantes e os monstros caminhando pelos corredores, buscando a quem devorar. Por sorte, se você mostrava a eles uns cartões amarelos, não lhe prestavam atenção e o deixavam passar. Sua primeira experiência em campo aberto o fez odiar a neve e o frio brutal que congelava a cada passo. Sua primeira experiência com o mar foi a de uma imensidão aterradora e intransponível, o muro de um cárcere visto de dentro. No barco que o levou a Istambul, Yudel começou a se sentir tranquilo de novo, acocorado em um canto com pouca luz. Demoraram um dia e meio para alcançar o porto turco. Demoraram sete meses para poder sair dele. A senhora Myer lutou corajosamente para conseguir um visto de saída. Naqueles meses, a Turquia era um país neutro. Uma multidão de refugiados se amontoava nos cais e fazia longas filas diante dos consulados ou das organizações humanitárias, como o Crescente Vermelho. Inútil. A Grã- Bretanha limitava cada vez mais a afluência de judeus à Palestina. Os Estados Unidos se negavam a conceder permissões de entrada. O mundo fazia ouvidos moucos às preocupantes notícias que chegavam sobre os massacres em campos de concentração. Até mesmo um jornal tão prestigioso como The Times de Londres qualificava de “contos de terror” os relatos sobre o genocídio nazista. Apesar de todas as adversidades, a excelente Jora trabalhou como pôde, mendigou e cobriu o garotinho com seu casaco nas noites frias. Tentava não minguar o dinheiro que o doutor Rath lhe dera. Viviam onde encontravam lugar, ou em uma quitanda fedorenta ou no abarrotado vestíbulo do Crescente Vermelho, cujas lajotas cinzentas os refugiados ocupavam até o último centímetro e de onde levantar-se para urinar era uma utopia. Jora só podia perguntar e rezar. Não tinha contatos, só conhecia o iídiche e o alemão, e se negava a usar o primeiro idioma, pois lhe trazia recordações infaustas. Sua saúde foi se deteriorando. Na manhã em que a tosse lhe arrancou dos pulmões uma cusparada de sangue, decidiu que não poderia demorar mais. Reuniu a coragem suficiente para entregar todo o dinheiro que possuíam a um marinheiro jamaicano que servia num cargueiro com bandeira norte-americana que zarparia dentro de poucos dias. Contra todos os prognósticos, o tripulante os introduziu discretamente no porão do barco. Ali se misturaram com as centenas de privilegiados que haviam conseguido contactar familiares judeus nos Estados Unidos para que estes avalizassem seus vistos. Jora morreu de tuberculose 36 horas antes de alcançar a costa norte- americana. Yudel não se separara dela nem um momento, embora ele mesmo estivesse doente. Havia contraído uma otite terrível, e seus ouvidos estavam completamente tamponados havia dias. Sentia a cabeça como um barril cheio de geleia. Os ruídos fortes eram como cavalos galopando sobre a tampa do barril. Por isso, não escutou o marinheiro que o mandava sair. Este, farto de gritar, obrigou-o a pontapés. — Fora, pateta! Estão à sua espera na alfândega. Yudel tentou se agarrar de novo em Jora. O marinheiro, um homem espinhento e baixinho, afastou-o aos empurrões e agarrou-o pelo pescoço. — Alguém vai vir levá-la daqui. E você, fora! O menino se remexeu e conseguiu se safar. Procurou no casaco de Jora até encontrar a carta de seu pai, a carta da qual Jora lhe falara tantas vezes, e escondeu-a na camisa. O marinheiro o agarrou de novo e o obrigou a sair para o odiado exterior. Yudel caminhou pela passarela até o interior das instalações. Em linha, funcionários vestidos de uniforme azul recebiam os imigrantes em mesas compridas. Yudel esperou na fila, mas seus pés ardiam dentro dos sapatos apodrecidos. Queria escapar, esconder-se da luz. Tremia de febre. Finalmente, chegou sua vez. Um funcionário de olhos pequenos e lábios finos o encarou por cima de uns óculos dourados. — Nome e visto? Yudel olhou para o chão. Não entendia nada. — Não disponho do dia inteiro. Nome e visto. Você é retardado ou o quê? Junto dele, outro funcionário um pouco mais jovem, que exibia um farto bigode, tentou acalmá-lo. — Calma, Jimussey. Ele viaja sozinho e não entende você. — Entendem mil vezes mais do que você supõe, esses ratos judeus. Que merda! Este é o último barco de hoje e este é meu último rato. Tenho uma jarra de bebida esperando por mim no O’Kerrigan. Se lhe importa tanto, então o atenda você, Colchie. O funcionário de bigode contornou a mesa, aproximou-se de Yudel e se agachou ao lado dele. Começou a perguntar em francês, em alemão e em polonês. O menino continuou olhando para o chão. — Não tem visto e é imbecil. Temos que mandá-lo de volta à Europa no primeiro barco, cacete — disse o dos óculos. — Fale, retardado! — O homem se levantou acima do balcão e com a mão aberta golpeou a orelha esquerda do menino. Durante um segundo, Yudel não sentiu nada. Depois, a dor lhe empapou a cabeça como uma torrente ácida. Um jorro de pus quente e espesso saiu do ouvido infeccionado. — Raichmon! (piedade!, em iídiche) — berrou. O funcionário de bigode se virou com os olhos acesos para seu colega. — Jimussey, não! — Menino desconhecido, não entende o idioma, sem visto. Deportação. O de bigode remexeu velozmente nos bolsos do garoto. Ali não havia visto. De fato, não havia nada, além de umas migalhas de pão e um envelope escrito em hebraico. Abriu-o para ver se tinha dinheiro, mas só havia uma carta, e ele voltou a colocá-la no lugar. — Entende, sim, caralho. Não ouviu o nome? Certamente ele perdeu o visto. E você não vai querer mandar deportá-lo, Jimussey. Demoraríamos outros 15 minutos. O guarda de óculos deu um suspiro ansioso. — Que ele diga o sobrenome. Quero ouvi-lo em voz alta e clara, e então vamos beber, pelo amor de Deus. Do contrário, quem se fode é ele, vai para a Deportação. — Menino, me ajude — sussurrou o do bigode. — Acredite. Você não quer acabar voltando para a Europa nem ir parar num orfanato de merda. Precisa convencer o meu colega aqui de que alguém aí fora está à sua espera. — Tentou mais uma vez, com a única palavra em iídiche que conhecia: — Mishpocha? (família?) Dos lábios trêmulos de Yudel brotou sua segunda palavra, quase ininteligível. — Cohen. Aliviado, o do bigode encarou o colega de óculos. — Ouviu? Ele se chama Raymond. Raymond Kayn.19 19 O caso de Raymond Kayn é apenas um entre os de milhares de imigrantes que chegaram a Ellis Island e cujo nome os funcionários mudaram, ou transcrevendo-o foneticamente, substituindo-o por um que lhes fosse mais fácil escrever na ficha, ou por um mais comum em língua inglesa. (N. do A.) KAYN O velho, de joelhos junto ao sanitário de plástico da barraca, reprimiu um espasmo, enquanto o assistente tentava em vão lhe oferecer um copo d’água. Finalmente, Kayn conseguiu conter o enjoo. Odiava vomitar,odiava aquela sensação relaxante e esgotadora de expulsar toda a ruindade que corrói por dentro. Um fiel reflexo de como era sua alma. — Você não sabe o que me custou, Jacob. Não faz ideia... essa rechielesnitseh...20 falar com ela, me ver tão exposto. Não posso suportar mais. Ela quer fazer outra entrevista. — Temo que o senhor deva aguentar mais um pouco. O velho olhou com anseio o bar no outro lado do aposento, tremendo ligeiramente. O assistente, que havia seguido a direção de seu olhar, encarou-o duramente e o velho afastou a vista com um suspiro. — Como somos contraditórios, os seres humanos, Jacob! Chegamos a gostar daquilo que mais odiamos. Contar minha vida a uma desconhecida me aliviou muito de minha carga, por um momento me senti conectado com o mundo. Eu planejava enganar, misturar mentiras com verdades, talvez. Mas, em vez disso, contei tudo a ela. — Fez isso porque sabia que não era uma entrevista real. Que ela não poderá publicá-la. — Pode ser. Ou talvez eu precisasse contar. Acha que ela desconfia de alguma coisa? — Acho que não, senhor. Seja como for, estamos quase no final. — Ela é muito inteligente, Jacob. Não a perca de vista. Ela pode ser mais que mera figurante em todo este assunto. 20 Mulher bisbilhoteira, em iídiche. (N. do A.) ANDREA E DOC Do pesadelo não lhe restou nenhuma lembrança, apenas um suor frio, um ofegar assustado na escuridão, tentando recordar onde se encontrava. Tinha frequentemente esse sonho, e nunca sabia em que consistia. Na hora de acordar, ele se apagava por completo, e Andrea podia somente saborear os restos de medo e solidão que permaneciam em sua alma. Em seguida ela esteve ao seu lado, engatinhando até se sentar em seu colchão, pousando uma mão em seu ombro. Uma temia ir além; a outra, que a primeira não fosse. Houve um soluço, e ela abraçou-a com força. Juntaram as frontes, e depois os lábios. Como um carro que tivesse rateado durante horas montanha acima e finalmente chegasse ao topo, aquele foi o momento decisivo, o instante de equilíbrio. A língua de Andrea se aventurou na dela, buscando, ansiosa, e ela lhe retribuiu o beijo. Depois lhe tirou a camiseta pelos ombros, como se descasca uma fruta deliciosa que passou tempo demais na árvore, e percorreu com a língua a pele salgada e molhada entre seus seios. Andrea se recostou de novo no colchão. Já não tinha medo. O carro se lançou então ladeira abaixo, precipitando-se sem freios. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Domingo, 16 de julho de 2006. 01h28 Continuaram deitadas por muito tempo, conversando, beijando-se a cada poucas frases, como se não pudessem acreditar que haviam se encontrado e que a outra pessoa continuava ali. — Ora, ora, doutora. É assim que você cuida de seus pacientes? — disse Andrea, brincando com os dedos no pescoço dela, enredando-os em seu cabelo ondulado. — É meu juramento hipócrita. — Achei que se chamava juramento hipocrático. — O meu foi diferente. — Pode brincar quanto quiser, mas não vai me fazer esquecer que continuo chateada com você. — Lamento não ter lhe contado a verdade sobre mim, Andrea, mas mentir faz parte do meu trabalho. — O que mais faz parte do seu trabalho? — Meu governo quer saber o que está acontecendo aqui. E pare de perguntar, porque não vou lhe contar nada. — Temos formas de fazer você falar — ameaçou Andrea, levando a brincadeira com os dedos a uma parte muito diferente. — Definitivamente, acho que resistirei ao interrogatório — disse Doc, com voz rouca. Durante vários minutos, nenhuma das duas falou nada, até que Doc terminou com um gemido abafado. Depois puxou Andrea para si e lhe sussurrou ao ouvido. — Chedva. — O que significa? — perguntou Andrea, também num sussurro. — É meu nome. Andrea soltou uma exclamação. Doc pôde sentir sua surpresa, e abraçou- a com força. Eram apenas duas vozes no escuro. — Seu nome secreto. — Nunca o repita em voz alta. Agora, você é a única que sabe. — E seus pais? — Já não estão aqui. — Lamento. — Minha mãe morreu quando eu era menina, e meu pai, há 13 anos, numa prisão do Negev. — Por que ele estava lá? — Quer mesmo que eu conte? É uma merda muito frustrante. — Minha vida está cheia de merda frustrante, Doc. Seria agradável experimentar o sabor da semana, para variar. Houve um silêncio breve. — Meu pai era um katsa, um agente especial do Mossad. Só existem uns trinta, e quase ninguém dentro do instituto chega a alcançar esse nível. Eu mesma estou lá dentro há sete anos e sou bat leveyha, o grau inferior. Já tenho 36 anos, portanto não acho que me promovam nunca. Meu pai, no entanto, já era katsa aos 29. Trabalhou muitos anos fora de Israel, e em 1983 enfrentava já uma de suas últimas operações. Morou em Beirute vários meses. — Você não ia com ele, claro. — Normalmente, eu costumava ir junto quando ele ia à Europa ou à América, mas Beirute não era lugar para uma menina. Na verdade, não era lugar para ninguém. Foi lá que ele conheceu o padre Fowler, que naquela época precisou ir ao vale do Bekaa para resgatar três missionários. Meu pai tinha muito apreço por ele. Dizia que o que Fowler fez para resgatar aqueles religiosos foi a ação mais heroica que ele viu na vida, e, no entanto, não mereceu nem uma linha na imprensa. Os religiosos disseram simplesmente que tinham sido soltos. — Suponho que esse tipo de trabalho não é amigo da publicidade. — Não, não é. Durante sua missão, meu pai topou com algo que não esperava. Uma informação segundo a qual um grupo de terroristas islâmicos tinha um caminhão cheio de explosivos e pretendia atentar contra interesses norte-americanos. Meu pai avisou seu superior, o qual respondeu que os americanos, se metiam o bedelho no Líbano, mereciam tudo o que lhes acontecesse. — E ele tentou algo? — Meu pai, por conta própria, tentou avisar a embaixada americana com um bilhete anônimo. Mas, sem o respaldo de uma fonte confiável, o bilhete foi ignorado. No dia seguinte, a embaixada voou pelos ares e morreram 241 marines. — Meu Deus. — Meu pai retornou a Israel, mas aquela história não tinha acabado. Na CIA exigiram explicações ao Mossad, e alguém vazou o nome do meu pai. Meses depois, quando voltava para casa de uma viagem à Alemanha, ele foi detido no aeroporto. Os policiais revistaram sua mala e encontraram 200 gramas de plutônio 29 e provas de que ele supostamente pretendia vendê-lo ao governo iraniano. Com isso, eles poderiam fabricar uma bomba nuclear média. Meu pai foi para a cadeia praticamente sem julgamento. — Alguém havia plantado as provas contra seu pai, não? — A CIA já tinha sua vingança. Através de meu pai, enviaram uma mensagem aos agentes de todo o mundo: se souberem de algo assim, providenciem para ficarmos sabendo ou vamos foder com vocês. — Ah, Doc. Você deve ter ficado arrasada. Pelo menos, seu pai sabia que contava com seu apoio. Houve outro silêncio, e este foi muito longo. — Tenho vergonha de dizer, mas... durante vários anos, não acreditei na inocência do meu pai. Achei que ele simplesmente havia se cansado e queria ganhar dinheiro. Ficou completamente só, abandonado por todos, inclusive por mim. Uma camada espessa e quente de culpa ficou flutuando no ar... — Conseguiu se reconciliar com ele antes de sua morte? — Não. ... e caiu de chofre sobre a doutora, que começou a chorar. — Dois meses depois que ele morreu, um informe sodi beyoter, altamente confidencial, foi tornado público. Dizia que meu pai era inocente, acrescentando as provas pertinentes que demonstravam isso, a começar pela firma do plutônio, que pertencia aos Estados Unidos. — Espere... você está me dizendo que o Mossad sabia disso desde o início? — Eles o venderam, Andrea. Para encobrir a cagada que fizeram, usaram a cabeça do meu pai. Satisfizeram a CIA, e a vida seguiu seu curso. Exceto para aqueles 241 soldados mortos e para meu pai, em sua prisão de segurança máxima. — Que filhos da puta. — Uma semana depois, enterraram meu pai em Gilot, ao norte de Tel Aviv, um lugar onde se presta tributo aos tombados nas guerras contra os árabes.Meu pai é o número 71 dos membros do Mossad enterrados ali, com honras de heróis de guerra. O que não apaga o mal que me fizeram. — Não entendo, Doc, realmente não. Então, por que diabos você começou a trabalhar para eles? — Pela mesma razão que fez meu pai aguentar dez anos na prisão. Porque Israel está em primeiro lugar. — Outra maluca, igual a Fowler. — Você ainda não me contou como se conheceram. O tom de voz de Andrea se ensombreceu. Aquela lembrança não era precisamente agradável. — Em abril de 2005, eu estava em Roma para cobrir a morte do papa. Por acidente, chegou às minhas mãos uma gravação em que um assassino em série afirmava ter matado dois dos cardeais que iam participar do conclave para eleger o sucessor de João Paulo II. O Vaticano tentou encobrir tudo e eu acabei no alto de um telhado, lutando pela minha vida. Digamos que Fowler evitou que eu virasse panqueca. Mas, de passagem, acabou com minha matéria exclusiva. — Você tinha razão. Isso foi realmente uma merda muito frustrante. Andrea não teve tempo de replicar, porque um estrondo surdo no lado de fora sobressaltou-as e balançou as paredes da barraca. — O que foi isso? — Por um momento, me pareceu... Não, não pode ser. — Doc se interrompeu no meio da frase, quase com medo. Um grito. Outro. E em seguida, muitos mais. — Vamos lá ver — disse Andrea, pegando sua roupa. A ESCAVAÇÃO Deserto de Al Mudawwara, Jordânia Domingo, 16 de julho de 2006. 01h41 Lá fora, o caos. — Tragam esses baldes! — Levem para lá esses recipientes! Jacob Russell e Mogens Dekker gritavam ordens contraditórias, no meio de um rio de barro que nascia na cisterna de água. Uma gigantesca brecha na parte traseira do caminhão vomitava o precioso líquido, que se transformava numa lama pastosa e avermelhada assim que tocava o solo. Vários dos arqueólogos, Brian Hanley e até o padre Fowler corriam para lá e para cá em roupas íntimas, tentando formar uma corrente com recipientes para salvaguardar a maior quantidade possível de água. Pouco a pouco, os outros membros da expedição, ainda atordoados e sonolentos, iam se unindo à corrente. Alguém — Andrea não soube com certeza quem era, porque a pessoa estava completamente lambuzada de barro até as sobrancelhas — tentava levantar um dique de areia perto da barraca de Kayn, para a qual o rio lamacento começava a deslizar perigosamente. Metia várias vezes a pá na areia, mas logo percebeu estar acumulando barro, e desistiu. Para sorte do milionário, o terreno era um pouco mais elevado em sua área, e ele não teve de abandonar sua preciosa reclusão. Enquanto isso, Andrea e Doc haviam se unido à corrente em último lugar, e eram as únicas completamente vestidas. Enquanto passava adiante baldes vazios e mandava para trás baldes cheios, a jovem jornalista estava consciente de que aquilo que elas haviam feito antes do alarme condicionava o fato de terem vestido toda a roupa antes de sair. — Uma soldadeira de acetileno! — gritava Brian Hanley no início da corrente, e a corrente repetiu a frase até lá atrás, como uma ladainha de salvação. — Não temos! — transmitiu a corrente, em cujo final se encontrava Robert Frick. Estava muito consciente de que, com uma soldadeira e uma placa grande de metal, seria possível fechar a saída de água, mas não recordava haver desempacotado nenhuma nem tinha tempo de procurá-la. Tinha de armazenar toda a água que estavam conseguindo salvar, e não havia recipientes suficientemente grandes. Frick optou pelos enormes caixotes de metal nos quais o equipamento havia viajado. Passou-se um tempo antes de ocorrer a alguém que quatro pessoas juntas podiam aproximar os caixotes da saída de água e recolher uma quantidade maior. Finalmente, os gêmeos Gottlieb, Marla Jackson e Tommy Eichberg levantaram um deles, mas os últimos metros foram impossíveis. Com o terreno enlameado cedendo sob seus pés, tropeçavam e mal podiam avançar. Mesmo assim, conseguiram encher dois dos contêineres, antes que a pressão da água começasse a perder força. — Está se esvaziando! Vamos tentar tapar o buraco agora! Com a água ao nível da brecha, foi possível colocar um tampão improvisado, feito com vários metros de lona impermeável. Foram necessárias três pessoas para apertar suficientemente a lona a fim de que ela formasse um tampão, mas o buraco era tão grande, e as bordas tão irregulares, que aquilo só serviu para retardar a saída do líquido. Meia hora depois, o balanço era desolador. — Acho que conseguimos salvar uns 1.800 litros dos 33 mil que restavam no depósito — disse Robert Frick, aflito, esgotado e com mãos trêmulas. A maior parte do grupo estava reunida na praça de barracas. Frick, Russell, Dekker e Harel se encontravam de pé junto ao destroçado caminhão-cisterna. — Temo que não restem duchas para ninguém — disse Russell. — Dispomos de água para dez dias, fixando sete litros por pessoa. Será suficiente, doutora? — O calor está cada vez mais forte. Ao meio-dia, chegaremos a 43 graus. Sete litros é um suicídio, para quem estiver trabalhando em pleno sol. E isso, contando com meio litro para higiene pessoal. — E desistindo de cozinhar — comentou Frick, desolado. Ele adorava sopa, e já se via sobrevivendo à base de embutidos durante os próximos dias. — A gente se arranja — disse Russell. — E se demorarmos mais de dez dias para cumprir o objetivo da missão, senhor Russell? Deveríamos pedir suprimentos a Aqaba. Duvido muito que isso comprometa o sucesso da missão. — Doutora Harel, sinto que tome conhecimento por mim, mas eu soube pelo rádio do barco que Israel está em guerra com o Líbano há quatro dias. — É mesmo? Eu não sabia — mentiu Harel. — Todos os grupos radicais da região estão em pé de guerra. Imagine o que aconteceria, se um comerciante local comentasse de passagem, com quem não deveria, que vendeu um carregamento de água a uns americanos que estão bancando os loucos no deserto? De repente, o fato de estarmos sem água e os intrusos que mataram Erling seriam o menor de nossos problemas. — Entendo — respondeu Harel, vendo que sua oportunidade de afastar Andrea da linha de fogo se esfumava definitivamente. — Mas, depois, não se queixe, quando começarem as lipotimias. — Caralho! — disse Russell, descarregando sua frustração com chutes nas rodas do caminhão. Harel mal reconhecia o assistente de Kayn, vendo-o coberto de barro, com o cabelo completamente despenteado e uma expressão alterada no rosto, que não correspondia à sua imagem habitual a versão masculina de Bree Van de Kamp,21 como diz Andrea asseada e fria. E era o primeiro palavrão que ela o ouvia dizer. — Só estou avisando — defendeu-se Doc. — E o senhor, o que me diz, Dekker? Tem alguma ideia do que aconteceu? — perguntou o assistente de Kayn, virando-se para o comandante sul-africano. Dekker, que não dissera uma palavra desde que concluíra a pobre tentativa de salvamento da água, estava ajoelhado junto à traseira do caminhão-cisterna. Olhava fixamente a enorme brecha no metal. — Senhor Dekker? — repetiu Russell, impaciente. O gigantesco mercenário se ergueu. — Prestem atenção: um buraco circular no centro. Isso é relativamente simples de conseguir. Mas, se tivesse sido só isso, poderíamos tê-lo tapado com alguma coisa. — Ele apontou uma linha irregular que atravessava o orifício principal. — Esta linha, porém, é muito mais complexa. — Como assim? — quis saber Harel. — O terrorista colocou uma fina tira de explosivo, que, combinada com a pressão da água, conseguiu que as bordas de metal do tanque se curvassem para fora, e não para dentro. Nem mesmo se dispuséssemos de um maçarico teríamos conseguido tapá-lo facilmente. É obra de um artista. — Ótimo. O puto do Da Vinci das bombas — disse Russell, levando as mãos à cabeça. Já se vão dois palavrões, pensou Harel. 21 Uma dona de casa maníaca por perfeição, preocupada com a opinião alheia e com as boas maneiras, protagonista da série Desperate Housewives. (N. do A.) ARQUIVO MP3 RECUPERADO DO GRAVADOR DE ANDREA OTERO PELA POLÍCIA JORDANIANA DO DESERTO, APÓS O FRACASSO DA